sábado, agosto 20, 2011

MÔNICA BERGAMO - BOLO DE CHOCOLATE


BOLO DE CHOCOLATE
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 20/08/11

Guiomar Mendes, mulher do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, reuniu amigos e familiares, anteontem, em Brasília, para celebrar seu aniversário; parlamentares, advogados, ministros e ex-ministros e quase todos os colegas dele na Corte foram à festa.

CORAÇÃO DE ATLETA
A cardiologista Luciene Azevedo, do Incor, estudou como a modalidade esportiva altera o coração de atletas profissionais. Durante cinco anos, ela acompanhou 13 ciclistas, 13 corredores e 11 remadores de elite, entre 20 e 36 anos, saudáveis. Os ciclistas fazem mais força com o coração, que fica maior que o de corredores e remadores. Quem corre tem maior queda da frequência cardíaca durante o repouso do que quem pedala.

LEI
"Nem entre esses atletas, que fazem esforço máximo, foram observadas complicações cardíacas decorrentes das atividades", diz ela. Na Itália, esportistas são obrigados por lei a fazer avaliação cardíaca para poder competir. No Brasil, há projetos de lei nesse sentido. O estudo, orientado por Luciana de Matos, permite identificar se há crescimento excessivo do coração e sintomas de doenças, auxiliando na avaliação cardíaca.

LÁGRIMAS
Thais Gulin, 31, namorada de Chico Buarque, 67, chorou após cantar a música "Se Eu Soubesse", anteontem, no Tom Jazz, em São Paulo. Ela deu as costas para o público e enxugou as lágrimas. A canção, disse, "o Chico fez pra mim". Foi aplaudida.

DE OLHO NO VIZINHO
Uma comitiva da Secretaria de Turismo do Distrito Federal desembarcou nesta semana em São Paulo para reuniões com a SPTuris. Eles queriam informações sobre o modelo de gestão do órgão na área de convenções e eventos para adaptar ao DF. Caio Carvalho, presidente da SPTuris, disponibilizou uma equipe de técnicos para acompanhar a delegação.

VIVA A FOTOGRAFIA
Depois da "Serrote", voltada a ensaios, o Instituto Moreira Salles lançará uma revista de fotografia.

TURMA DE 31
Fernando Henrique Cardoso papeava no lançamento do livro "Cultura das Transgressões", no MAM, anteontem: "Tenho vários amigos com 80 anos". O ex-ministro Marcílio Moreira disse: "Também sou da turma de 31". Alguém emendou: "É um bom jeito de dizer a idade".

BOCA PEQUENA
FHC comentava o governo Dilma Rousseff. Questionado se a punição é maior agora do que em seu governo, respondeu: "Não estou falando de governo. Pelo menos a opinião pública, ou opinião publicada, está mais aberta a essa questão. Há uma preocupação crescente porque a corrupção está virando sistêmica. É transversal, atravessa todas as camadas da sociedade, dos partidos".

PANO DE FUNDO
E o ex-presidente avalia como "luta política" a crise econômica internacional. "No fundo, [a questão] é saber quem paga pelos prejuízos. Você vai aumentar os impostos ou vai deixar voltar a inflação? [É saber] quem vai impor os custos pro outro. Leva tempo."

MODA AFRO
O estilista Oskar Metsavaht, da Osklen, criará uma camiseta para promover o Museu Afro Brasil.

AUTÓGRAFOS NO MAM
O livro "Cultura das Transgressões no Brasil - Cenários do Amanhã" teve lançamento, anteontem, no MAM. A obra reúne artigos de intelectuais como Paul Singer e Renato Janine Ribeiro. André Franco Montoro Filho, Guilherme Affonso Ferreira e Denise Steagall garantiram seus exemplares.

CURTO-CIRCUITO

José Gregori foi eleito para a Academia Paulista de Letras. O ex-ministro ocupará a cadeira de número 19, que pertenceu a José Altino Machado.

As bandas Restart e CW7 fazem amanhã, às 20h, o "Happy Rock Sunday", no HSBC Brasil. 14 anos.

O projeto Tessituras, que reunirá duplas de cantores populares e eruditos, começa hoje, às 19h, no Centro Cultural São Paulo, com Agnaldo Rayol e Sebastião Teixeira. Classificação etária: livre.

Começa hoje e vai até sexta-feira a 1ª São Paulo Boteco Week, dedicada à culinária de botequim.

O grupo Pequeno Cidadão se apresenta hoje, às 20h30, no parque Ibirapuera, dentro do Festival Sesi Bonecos do Mundo. Livre.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

LÚCIA GUIMARÃES - Nos EUA, e-books dominam a preferência


Nos EUA, e-books dominam a preferência
LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Com os eletrônicos, as editoras norte-americanas registraram um crescimento de 3,1% nas vendas entre 2008 

As vendas de livros de papel continuam a cair nos Estados Unidos, mas, na semana passada, o mercado editorial encontrou motivo para comemorar. Graças aos livros eletrônicos, as editoras americanas registraram um crescimento de 3.1% nas vendas entre 2008 e 2010. Os números foram compilados pelo projeto BookStats, que monitorou as vendas de 1.965 editoras. O segmento que mais cresce no mercado americano é o de livros universitários e o único que registrou declínio foi o de obras educativas, que cobrem o período que vai do jardim de infância ao final do ensino médio.

As vendas de e-books de ficção para adultos dispararam 1.000% nos EUA desde 2008. Este avanço, que deu ao e-book 13.6% do mercado de ficção, explica a queda contínua das vendas de ficção em papel. Os livros de ficção em capa dura foram os que perderam mais terreno: em 2009, os americanos compraram 8.5 milhões de cópias; em 2010, o número caiu para 7 milhões e, até julho deste ano, o serviço Nielsen BookScan registrou uma queda de 10% nas vendas em relação a 2010.

O jornal Financial Times batizou esta temporada de "verão do Kindle". O tablet da Amazon continua líder do mercado. A empresa acaba de lançar o Kindle Cloud Reader, um aplicativo para a web que permite acesso ao catálogo da Amazon com ou sem o Kindle. Mais uma dor de cabeça para a Apple, cujo popular iPad não vai poder cobrar pedágio do novo aplicativo. As vendas de e-readers têm triplicado a cada ano. Os leitores já têm até seus prediletos. Pela primeira vez, em julho, a revista Consumer Reports, respeitada pela independência em relação às corporações, apontou o Nook Simple Touch, da rede de livrarias Barnes & Noble, como favorito do público leitor.

O avanço da leitura eletrônica provoca também uma reinvenção do livro como produto. Assim como os DVD"s incorporaram cenas inéditas de filmes, versões mais autorais dos diretores e entrevistas com atores e roteiristas, os livros eletrônicos vão sendo lançados com atrativos além do conteúdo original escrito pelo autor. Nem toda obra merece o tratamento, é claro. Mas clássicos ou títulos de autores-celebridades já começam a chegar ao público com "extras".

A nova edição de A Terra Desolada (The Waste Land), de T.S. Eliot, lançada pela Faber Digital inglesa, por exemplo, pode ser baixada no iPad com áudio do próprio poeta e mais versos declamados pela estimada atriz irlandesa Fiona Shaw e pelo megafamoso ator americano Viggo Mortensen, além de cópias do original, datado de 1922.

Na última terça-feira, a editora independente Melville House, baseada no Brooklyn, em Nova York, lançou sua série HybridBook, que pretende deter a canibalização da palavra impressa, oferecendo incentivos digitais. Ela começa com romances que têm em comum o título O Duelo, dos autores Giacomo Casanova, Anton Chekhov, Joseph Conrad, Heinrich Von Kleist e Alexander Kuprin. Quem comprar o livro impresso vai encontrar, na última página, um link para os extras digitais presentes na edição eletrônica para o Kindle.

A tecnologia da leitura eletrônica está em evolução e ainda predominam os dois formatos representados pelo Kindle - e-Ink, a tinta eletrônica - e a tela de cristal líquido do iPad. No prestigiado laboratório de ergonomia da Universidade de Cornell, o professor Alan Hedge parece a autoridade ideal para opinar sobre o efeito da leitura na tela. Afinal, no começo deste século, ele fazia parte da equipe que desenvolvia o multitoque para uma pequena companhia que foi engolida pela Apple e, como se diz, o resto é história. "Qual é a escolha ideal para quem quer proteger a vista?", pergunto. A resposta vem fulminante: "O papel!". As árvores que o perdoem, mas o pesquisador diz que ainda não foi inventada a tela capaz de competir com o papel em matéria de conforto para a leitura. É o suficiente para o velho livro?

BRAZIU: O PUTEIRO


CELSO MING - Solução distante


Solução distante
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

O mercado financeiro não viu razões para apostar no sucesso da proposta de criação de um "governo econômico" para a área do euro. Essa foi a principal conclusão a que chegaram os dois mais importantes chefes de Estado do euro, a chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente da França, Nicolas Sarkozy, no seu encontro de cúpula de terça-feira passada.

À primeira vista, um mínimo de unidade política é o que mais se espera como precondição do fortalecimento do euro e, por consequência, de superação das graves crises que atacam o bloco. E, afinal, foi por esse caminho que a dupla enveredou.

No entanto, o mercado não viu firmeza na proposta, por um punhado de razões. A primeira delas: não ficou claro o que seria esse governo econômico do bloco. As declarações da dupla Merkel e Sarkozy sugerem que o Conselho Europeu, constituído pelos ministros de Finanças dos 17 membros do bloco do euro, representantes dos outros dez países que também compõem a União Europeia e, ainda, o presidente do Banco Central Europeu, se reúna duas vezes por ano para coordenar a política econômica da área.

Não ficou claro o alcance da proposta: se o objetivo é subordinar todas as políticas econômicas nacionais a um governo central europeu; ou evitar que cada país-membro infrinja o pacto de equilíbrio orçamentário (estabilidade fiscal).

No primeiro caso, seria necessário um amplo e profundo projeto de Constituição Europeia. Mas essa proposta já fracassou há alguns anos, quando um projeto de Constituição Europeia, mesmo que vago e pouco abrangente, foi rejeitado em alguns plebiscitos nacionais e, por isso, abandonado. Ou seja, se é para ir mais longe, como garantir sua aprovação pelo eleitorado que não quer abrir mão das soberanias nacionais?

E se é para somente fiscalizar o desempenho das contas públicas dos integrantes do bloco do euro, fica difícil acreditar que apenas reuniões semestrais garantiriam a observância de rígidas regras fiscais, até agora, amplamente desobedecidas. Em outras palavras, até o momento não se vê como conseguir impor os interesses comuns do bloco sobre os nacionais (enforcement, na expressão inglesa).

O problema de fundo é a necessidade de unificar enormes desigualdades entre os países-membros da área que, em vez e encolher, se aprofundam.

Neste momento, por exemplo, Grécia, Portugal e Irlanda amargam forte retração econômica. O grupo intermediário (França, Espanha e Itália) enfrenta crescimento próximo de zero. E há os em melhor situação (Alemanha, Holanda e Áustria), que devem crescer mais de 2% ao ano.

A periferia paga por sua dívida juros de 4% a 8% ao ano. Os países do núcleo pagam entre 2% e 3%. Enfim, o aprofundamento das desigualdades parece complicar ainda mais a instituição de uma governança comum.

A falta de vontade política ainda é o maior obstáculo para o resgate do euro. Isso sugere que o forte risco de naufrágio coletivo ainda não foi percebido. A maioria dos governos do bloco parece contar com que os países mais fortes, especialmente Alemanha e França, os que mais teriam a perder com o colapso do euro, paguem a conta. Mas isso pode não acontecer. Nesse caso, a crise do euro pode ter de piorar para só então começar a melhorar.

MÍRIAM LEITÃO - Maré vermelha


Maré vermelha
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 20/08/11

A crise não é nossa, mas pelo menos 20 grandes empresas brasileiras que fazem parte do índice Ibovespa estão sofrendo quedas expressivas no valor de suas ações. Algumas perderam mais que 50% em um ano e meio. Ao analisar o desempenho de cada companhia que faz parte do índice, dá para ver que há setores e empresas que vão muito bem, apesar da turbulência. Certos movimentos não fazem sentido.

Há setores que conseguem ter bom desempenho nas Bolsas, mesmo durante a turbulência, como telefonia e energia. São segmentos vistos como de proteção pelos investidores, porque têm um consumo estável mesmo em tempos de crise.

Mas a maioria dos setores está no vermelho. A América Latina Logística sofre uma queda de 74% no valor de suas ações ON desde março de 2010. A B2W, que vende produtos pela Internet, cai 56% este ano e 75% desde novembro de 2009. A Fibria, empresa resultante da fusão entre Aracruz e Votorantim Celulose, cai 47% este ano e acumula queda de 65% desde março de 2010.

A Gol, apesar do forte crescimento da demanda por voos nacionais, vê suas ações PN caírem 58% somente este ano. A queda é a mesma nos papéis negociados na bolsa de Nova York. A TAM também sente. Redução de 28% desde novembro de 2010 nas ações PN. O curioso é que no ano passado o Brasil foi o país do mundo onde o setor de transporte aéreo de passageiros mais cresceu. Superou a China.

Do setor de siderurgia, a fuga de investidores é generalizada. A demanda por aço caiu no mundo, e há mais de 500 milhões de toneladas de capacidade ociosa de produção. A CSN tem queda de 44% este ano. Desde abril de 2010, o tombo acumulado chega a 58%.

A Gerdau tem queda de 53% nas ações ON, no mesmo período, enquanto as ações PN caem 59%. No ano, as ações ON caem 34% e as ações PN caem 44%. A Usiminas tem queda de 35% nas ações PN este ano.

O setor de construção civil tem uma contradição. Há a impressão de um boom no setor de empreendimentos residenciais. Tanto que as empresas reclamam dos problemas causados por excesso de atividade: falta de terrenos e mão de obra qualificada. As ações ON da Gafisa têm queda de 41% este ano. Se o recorte for feito desde novembro, o tombo chega a 52%.

A Rossi cai 40% desde outubro. A Brookfield Incorporações cai 37% desde outubro, a mesma queda da PDG Realty desde novembro. A Duratex, que produz móveis e materiais de construção, vê as ações ON caindo 36% este ano.

Algumas empresas de fato apostaram demais no segmento de baixa renda e estão tendo problemas, porque no Minha Casa, Minha Vida há teto para o valor dos imóveis, mas não há teto para o aumento dos custos.

A desaceleração mundial só agora começou a afetar o preço das commodities, mas as cotações continuam altas. Mesmo assim, os papéis das empresas de matérias-primas e alimentos estão em queda há muito tempo. O frigorífico Marfrig cai 46% no ano. Desde janeiro de 2010, a queda chega a 65%. O JBS-Friboi cai 41% no ano e acumula 59% de redução desde novembro de 2009.

As empresas do Grupo EBX, do empresário Eike Batista, também perderam muito em valor de mercado. A OGX, que explora petróleo e gás, tem queda de 46% este ano. Desde novembro, o tombo acumulado chega a 53%. Uma das explicações é que ela é uma empresa pré-operacional, com muito investimento para fazer. A MMX, de mineração, cai 51% desde novembro, e a LLX, de logística, cai 66% desde setembro.

Mesmo com lucros recordes no ano, e sendo a empresa dominante de um grande mercado como o Brasil, a Petrobras consegue ter queda de 25% nas ações PN desde janeiro. A partir de dezembro de 2009, a redução no valor das ações ON chega a 48%.

O mercado explica que a empresa tem forte influência política. A Vale sente pelo mesmo motivo. O preço do minério de ferro disparou nos últimos dois anos e a empresa mantém resultados expressivos, trimestre após trimestre. Mesmo assim, no ano, as ações ON caem 22% e as ações PN caem 19%.

Há outras quedas expressivas: a Ecodiesel cai 52% desde outubro de 2010; a Hypermarcas tem redução de 60% no mesmo período.

Mas há também algumas boas surpresas. A Cielo, que presta serviço para o pagamento de cartões de crédito, sobe 21% no ano. A mesma coisa acontece com a Redecard: 22% de alta. A Ambev subiu no ano 5,2% e desde março de 2009 está numa trajetória de alta que triplicou o valor de seus papéis: 218%.

Empresas de energia também têm valorização este ano. A Cesp, por exemplo, sobe 15%. A Cemig tem alta de 14,8% nas ações ON. A Eletropaulo sobe 10,5% este ano e 166% desde outubro de 2008. Empresas de telecomunicações também estão em alta: a Tim sobe 30%; a Telesp, 20% nas ações PN e ON. Em comum, todas essas empresas conseguem manter o consumo estável mesmo em tempos de crise. Geralmente, as famílias deixam para cortar por último os gastos com energia, bebidas, telefones. Pelo menos é isso que pensam os investidores.

Olhando de perto, o que se vê são poucas boas notícias e um enorme mar vermelho no Ibovespa.

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - A contratação de concursados


A contratação de concursados
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) deve contribuir para a moralização dos concursos públicos no País. Em um julgamento que tem efeito vinculante vertical, ou seja, aplica-se a todos os casos do gênero em todas as instâncias, o STF entendeu que os aprovados em concursos públicos, dentro do número de vagas estabelecido no edital, têm direito à nomeação pelos órgãos da administração direta ou indireta que os promoveram. A decisão, que transforma uma expectativa de direito em direito líquido e certo, vem fazer justiça a inúmeros cidadãos que passaram em concursos, mas deixaram de ser nomeados por displicência, má-fé ou injunções políticas para os cargos aos quais se candidataram em concurso público. A decisão tem também a vantagem de aliviar a pressão sobre a Justiça, na qual tramitam milhares de ações de candidatos aprovados em concurso para vagas especificadas e que não foram aproveitados, apesar de julgamentos a seu favor até mesmo pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Mas a principal consequência da decisão é que os órgãos públicos deverão, de ora em diante, realizar concursos somente quando forem estritamente necessários para suprir vagas efetivamente existentes, em vez de trabalhar com base em estimativas muitas vezes infladas, como vinha ocorrendo.

O STF foi provocado por um recurso extraordinário interposto pelo Estado de Mato Grosso, que questionava a obrigação da administração pública de nomear candidatos aprovados para o cargo de agente auxiliar de perícia da Polícia Civil. O governo daquele Estado terá agora de dar posse aos habilitados pelas provas a que foram submetidos.

Quanto à existência ou não de verbas específicas para tanto, a presunção é que elas constem do orçamento, condição essencial para que seja determinada a realização de concurso público. Ocorre, no entanto, que frequentemente as verbas destinadas a esse fim são remanejadas pelos governos, razão pela qual eles deixam de admitir concursados em seus quadros permanentes. Há também os casos em que, as vagas realmente existem, mas foram preenchidas por funcionários interinos, que, incapazes de passar pelas provas de seleção, pressionam para continuar em seus cargos, contando com apadrinhamento político.

O STF não se pronunciou sobre o prazo de validade dos concursos públicos, geralmente de dois anos depois de divulgada a lista dos aprovados. Pode perfeitamente acontecer que um novo gestor público chegue à conclusão de que os concursos anteriormente marcados para preenchimento de vagas se tornaram desnecessários em consequência de medidas de racionalização administrativa ou de economia de recursos. Em casos como esses, advogados especializados aconselham os concursados que suspeitarem de que podem vir a ser prejudicados a entrar com uma mandado de segurança preventivo até 120 dias antes do término do prazo de validade do concurso, pleiteando uma liminar capaz de garantir a nomeação. Isso significa que a decisão do STF, apesar da amplitude de sua aplicação, não deve eliminar inteiramente as ações desse tipo na Justiça, embora deva reduzi-las consideravelmente.

De qualquer forma, a decisão do Supremo impõe ao poder público a adoção de critérios rigorosos antes de decidir pela abertura de concursos. Em primeiro lugar, as vagas de cargos burocráticos ou técnicos não deveriam ser ocupadas, em hipótese alguma, por interinos, o que, aliás, contraria disposições constitucionais. Isso se aplica também às empresas estatais, como, por exemplo, a Petrobrás.

Espera-se que o julgamento do STF surta efeito na contenção das despesas de pessoal no setor público, de acordo com uma política firme de austeridade fiscal. Significativamente, o Ministério do Planejamento congelou a realização de concursos em órgãos sob o seu controle. O número de nomeações autorizadas por aquela pasta, por sinal, foi 90% menor no primeiro semestre deste ano, em relação ao mesmo período de 2010.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Luzes, por favor
SONIA RACY
O ESTADÃO - 20/08/11

Ponto para a Frente Nacional dos Prefeitos. A ANEEL aceitou reabrir discussão sobre a quem cabe a responsabilidade (leia-se custos) na operação dos fios de transmissão de energia elétrica e seus postes de sustentação.

A agência determinou, em dezembro do ano passado, que as prefeituras deveriam assumir todos esses ativos até 2012.

Luzes 2

Segundo João Coser, da FNP, os municípios não têm condição financeira para cumprir a regra. "As empresas se dispõem a nos ajudar desde que paguemos pelos serviços", lamenta.

Olha eu!

Paulo Maluf não teve chance no Palácio dos Bandeirantes. Gastou seu latim, quinta-feira, tentando entrar na área reservada para Dilma e convidados. Sem sucesso.

Ex com ex

Wagner Rossi nem sequer se despediu dos colegas. Fez as malas e voou para Ribeirão Preto. Antes, porém, recebeu vários telefonemas de solidariedade: inclusive de Lula.

Sem fronteiras

Paulo Chap Chap viajou para a Cisjordânia. Tenta intercâmbio de conhecimentos sobre transplante de fígado entre pessoas vivas. O projeto, que estava sendo desenvolvido na Síria, foi congelado ante a situação política local.

Mi casa, su casa

Jorge Perez chega a Sampa. Dono do Related Group, gigante imobiliário americano, pretende fincar o pé por aqui.

Back to the future

Cláudio Afif e filhos são os novos sócios da Segurar.com.

Suado

O MAC resiste a se mudar para o prédio do Detran. E o motivo não é financeiro.

Tipo exportação

Terminou mais uma edição do Festival de Cinema de Lima, no Peru. Com júri composto por nomes como Bruno Barreto e Geraldine Chaplin. Petrobrás e Ambev patrocinaram 50% do evento.

Fados

Manoel da Lupa, da Portuguesa, quer trocar o nome do time para arregimentar legiões de torcedores País afora. A Leões da Fabulosa, maior organizada do clube, não quer nem ouvir falar do assunto.

Vale tudo

O PSDB de SP convidou Caco Ricci para ser candidato a vereador.

O modelo e ex-A Fazenda tem até dia 30 de setembro para decidir.

Dona do jogo

Thais Gulin tem ritual pré-show todo particular. Antes de subir ao palco do Tom Jazz, anteontem, comeu macarrão sem molho, fez nebulização - por causa do ar seco - e escutou música indiana. "Para me deixar ligada", contou a cantora.

Já a banda da moça, no camarim, estava ligada... no penúltimo capítulo de Insensato Coração.

Dona do jogo 2

E a eleita de Chico Buarque não segurou as lágrimas na hora de cantar Se Eu Soubesse.

Tímida, enxugou o choro antes de identificar a música: "Chico fez pra mim", declarou.

De cadeira

No tributo a Oswaldo Bratke, que acontece quarta-feira na Etel Interiores, será lançada uma cadeira desenhada pelo arquiteto em 1948. Pela primeira vez, com edição limitada. Serão 104 peças, alusão à idade que Oswaldo faria neste ano.

Durante o evento, Marcelo Bratke, neto de Oswaldo, dará concerto para convidados. E substituirá o banquinho do piano pela cadeira criada por seu avô.

Forno quente

Mauro Salles cumpre, com antiga alegria, uma velha promessa: lançar novo livro de poesias. O nome, Torvelinho, foi sugerido por Augusto Frederico Schmidt poucos anos antes de o poeta falecer. "Na época, só 20% do trabalho estavam feitos", explica Salles.

Lembrete: seu primeiro livro de poesias, com 77 poemas, se chama Coisas de Crianças.

LUIZ FELIPE LAMPREIA - A crise de 2011 é a mais grave de todas


A crise de 2011 é a mais grave de todas
LUIZ FELIPE LAMPREIA
O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Após o desmoronamento da URSS, o capitalismo emergiu, vitorioso, de 50 anos de guerra fria e parecia destinado a reinar absoluto dali por diante. Era a mensagem do fim da História, do grande pensador Francis Fukuyama.

Passados 20 anos, a aposta revelou-se parcialmente falsa. O capitalismo prevaleceu e não existe, nem sequer como utopia, uma alternativa que tenha a mínima credibilidade.

Com a crise de 2008, que representou um golpe duro no setor financeiro, principalmente, começou uma fragilização do sistema político/econômico, o que, por sua vez, conduziu à crise atual. Hoje a relativa incapacidade dos líderes políticos ficou patente. Eles são obrigados a manter os olhos postos nas pesquisas e governar por elas. Sua habilidade é meramente tática, os gigantes de visão estratégica, como Franklin Delano Roosevelt, Konrad Adenauer, Charles de Gaulle ou Felipe González, pertencem ao passado.

O sistema de governança global foi confrontado com uma situação que pôs a nu a sua precariedade, seja pelo incrível espetáculo que foi o recente cabo de guerra do orçamento e da dívida no Congresso americano, seja na cabra-cega de Bruxelas para resolver os problemas das dívidas dos Estados-membros. Tudo o que parecia sólido - a ascensão triunfal dos Brics incluída - se tornou questionável.

A única aposta certa entre os países ricos, hoje, é a Alemanha, com seu alto nível de renda, sua produtividade incomparável, sua homogeneidade social e seus talentos inatos, que permitiram que após a derrota violenta e total de 1945 o país apresentasse nos dez anos seguintes o maior exemplo de recuperação e criação de valor da História das nações.

Mas não é indiscutível que a Alemanha continuará a ser a coluna mestra da Europa e o banqueiro de todos os países que não possuem suas virtudes ou sua disciplina. Hoje ela é primus inter pares na Europa e cada vez mais exerce o poder que daí decorre sem as cautelas e os temores do passado. É óbvio que a Alemanha tem enorme interesse no construção europeia, da qual é a maior beneficiária. Mas as opiniões dos eleitores alemães não obedecem a análises apenas racionais e isso poderá obrigar os políticos seguirem os veredictos das urnas ou das sondagens, indicando que a Alemanha não está mais disposta a cobrir todos os excessos e a resgatar os naufrágios de seus sócios irresponsáveis, que se embriagaram de dívidas e de más políticas públicas, como se a União Europeia fosse uma festa interminável para todos.

Os Estados Unidos vivem um de seus piores momentos. Barack Obama mostrou-se muito mais fraco como presidente do que a imensa expectativa que gerou como candidato. O Congresso transformou-se numa arena de enfrentamentos em que inexiste clima para atitudes construtivas e compromissos sobre medidas que interessam a toda a nação. É como se para destruir Obama e os democratas os republicanos radicais do Tea Party fossem até capazes de atear fogo à Casa Branca.

Na recente discussão, o sistema político americano revelou-se disfuncional. John Micklethwaite, editor da grande revista inglesa The Economist, descreveu os partidos americanos como "duas placas tectônicas ideológicas que se movem em direções opostas, aumentam a distância entre si e causam abalos sísmicos". As guerras malsucedidas do Iraque e do Afeganistão representam a terceira ocasião, com o Vietnã, em que todo o imenso poder militar americano não consegue emergir vitorioso, malgrado os enormes custos e todos os meios empregados.

Está hoje patente que os Estados Unidos estão deslizando na ladeira do poder, onde já foram absolutos, embora nada indique que deixarão de ser uma superpotência ou que vão desmoronar como o sistema comunista. Ainda assim, as credenciais americanas persistem. A maior economia mundial, três vezes superior à segunda colocada, Forças Armadas como nunca houve na História, os Estados Unidos são e serão, por longo tempo, uma superpotência. Mas não possuem mais a faculdade de ser, na famosa frase de Madeleine Albright, a "nação indispensável" que dava sempre o tom nas relações internacionais.

Na China, o país hoje mais bem posicionado para desafiar a supremacia de Washington, já existe um questionamento - ainda incipiente, mas claro - quanto à supremacia do Partido Comunista. Em que ponto as atuais contestações - em sua maioria, protestos locais de todo tipo - tomarão volume? Ninguém pode prever, só se sabe que tem havido aumentos de efetivos militares em diversas províncias chinesas, em claro sinal de nervosismo de Pequim. Por outro lado, com a desaceleração econômica, haverá dificuldades para seguir absorvendo rapidamente os grandes contingentes de excluídos que ainda estão no interior do território chinês. Crescer a 10% ao ano não pode ser um moto perpétuo. A médio prazo, é difícil que se mantenha a combinação virtuosa de fatores que permitiu a espetacular emergência da China nos últimos 30 anos.

Não sou daqueles que veem os quatro cavaleiros da Apocalipse nos cantos do céu assim que se instala uma crise. Todos os povos acima mencionados passaram por situações muito mais graves - anos de depressão econômica, guerras, sofrimentos e perdas indizíveis - e terminaram por se recuperar.

A crise de 2011 é a mais grave de todas as que ocorreram nas últimas décadas. Mas o mundo sairá dela. É da essência do capitalismo que essas convulsões ocorram - trata-se do processo de destruição criativa de que falava o grande economista austríaco Joseph Schumpeter. Os fatores produtivos combinados das principais economias do mundo, entre as quais, obviamente, está o Brasil, representam uma força imbatível e acabarão por prevalecer. Até que sobrevenha nova crise mais adiante...

GOSTOSA


FÁBIO TOFIC SIMANTOB - O Planalto, a PF e as prisões escandalosas



O Planalto, a PF e as prisões escandalosas
FÁBIO TOFIC SIMANTOB 
 O Estado de S.Paulo - 20/08/11

Quando nos deparamos com as notícias das últimas operações da Polícia Federal (PF) envolvendo o alto escalão do governo, convém indagar se o mais preocupante é o interesse do governo em saber da operação com antecedência ou a alegação da PF de que não precisa prestar contas de nada a ninguém.

Sim, porque ninguém duvida de que num Estado republicano é promíscua a interferência indevida do poder no desenvolvimento de atividades de polícia judiciária, mas todo mundo concorda que a PF está subordinada ao Executivo e não está, digamos, desobrigada de prestar contas de sua atuação aos escalões superiores, que, em última instância, são o ministro de Estado da Justiça e a presidente da República.

Causa certo espanto a afirmação do presidente do Sindicato dos Delegados da Polícia Federal no Estado de São Paulo, Amaury Portugal, de que os delegados não precisam dar satisfações de nada a ninguém, senão ao juiz do caso. É verdade que uma das funções institucionais da PF é dar cumprimento às decisões judiciais proferidas durante as investigações, tal como mandados de busca e apreensão e de prisão temporária ou preventiva. O fato de estar obrigado a cumprir a decisão judicial, sob pena de incorrer em crime de desobediência, porém, não exime de modo algum o delegado de se submeter às regras de hierarquia do Poder ao qual está subordinada, o Executivo.

A questão que se coloca, então, é se é lícito o Planalto saber da operação com antecedência, ou seja, antes de ela ser deflagrada. Sobre isso não existe regra clara no nosso ordenamento, mas também não existe nenhuma norma que proíba a prévia comunicação.

À primeira vista parece estranho o interesse da presidente Dilma em conhecer os detalhes da operação antes da sua realização. Por outro lado, é preciso reconhecer que comunicar a existência da investigação e os detalhes da operação que se avizinha não é obrigatoriamente ilegal.

O motivo para a questão ter atraído os olhos atentos da opinião pública não é, obviamente, o fato de a presidente Dilma querer saber da operação, mas o receio de que, ao tomar ciência prévia dela, o Planalto possa desvirtuar o objeto da investigação e influenciar a normal obtenção da prova.

Aqui parece situar-se o ponto fulcral da questão. Nosso ordenamento jurídico dispõe de mecanismos de proteção da legalidade, como a cominação de pena criminal para os agentes públicos que pratiquem ou deixem de praticar ato de ofício para satisfazer interesse pessoal, dando ordem, por exemplo, para que a operação seja abortada sem nenhum fundamento jurídico válido. Ou, pior até, prevê penas para quem fraude provas ou outros elementos da investigação com a operação já deflagrada, comunicando previamente os sujeitos alvos da operação, a fim de que previnam a descoberta de provas comprometedoras.

Veja-se, pois, que a questão toda gira em torno de uma presunção, qual seja, a de que a presidente poderia usar o poder que tem para frear a atuação policial; logo, quando a PF busca evitar que a presidente saiba da operação, não está fazendo outra coisa senão questionar a credibilidade e as boas intenções da chefe do Executivo. Novamente não se sabe o que é mais grave, se o elo político estreito que liga o Planalto aos investigados ou a suspeita da PF de que o sucesso da operação correria risco se ela fosse antecipadamente comunicada à presidente da República.

O interesse prévio da presidente pelas investigações pode, no máximo, ser objeto de crítica política. E, nesse aspecto, não faltam bons argumentos para questionar sua atuação. O fato, porém, é que, do ponto de vista jurídico, causa mais espanto a aparente insubordinação do órgão policial do que a curiosidade demonstrada pelo Planalto tocante aos atos investigativos.

É sabido que o poder torna as pessoas mais suscetíveis à prática de atos ilegais. Essa, a propósito, é a força motriz dos casos de corrupção que assolam o País e desencadearam as recentes operações da PF. É certo também que, quanto maior o poder que a pessoa detém, maior a capacidade de ser subvertida a legalidade para a satisfação de interesses pessoais e políticos. É preciso, todavia, enfrentar os desafios do Estado de Direito dentro da legalidade, por mais difícil que isso possa ser. Não é porque a presidente tem, em tese, o poder - ou a mera possibilidade, na acepção vulgar da palavra - de atrapalhar as investigações que deveremos concordar, então, que seja anulada a subordinação da PF ao chefe do Poder Executivo.

Com todo o respeito às opiniões contrárias, deveríamos propor-nos a fazer o exercício pedagógico de boa convivência republicana e eleger a lógica inversa à que está colocada. Deveríamos partir do pressuposto de que a presidente da República, tendo em vista a importância do cargo que ocupa e a legitimidade com que governa, eleita pela maioria da população para comandar o destino do País, não se arriscaria a sujar suas mãos com a lama que assola alguns setores do governo, sabedora de que sua permanência no cargo não resistiria um dia sequer caso viesse à tona alguma tentativa do Planalto, mínima que fosse, de acovardar os agentes policiais ou boicotar as investigações da PF.

Por mais difícil que seja confiar tamanho poder à presidente da República, isso ainda parece mais condizente com o espírito republicano do que permitir o afrouxamento dos laços que ligam a PF ao Poder Executivo, dando margem a que, em vez de prestar contas na linha hierárquica legalmente constituída - e prestar contas não implica perder a autonomia técnica -, o órgão de repressão estatal atue nos subterrâneos do poder anônimo, muito mais pernicioso à saúde do Estado de Direito, já tão combalida pelas mazelas estampadas todos os dias nas páginas dos jornais.

ADVOGADO CRIMINALISTA, É CONSELHEIRO DA COMISSÃO DE PRERROGATIVAS DA
SECCIONAL PAULISTA DA OAB

WALTER CENEVIVA - Ora, a lei?


Ora, a lei?
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SP - 20/08/11

A constatação clara é que não há meio de afastar da sociedade os delinquentes, trancando-os em prisões


GETÚLIO VARGAS, que foi ditador e presidente constitucional do Brasil, era -além de líder popular e populista- um bom orador. Na campanha eleitoral em que foi referendado pelo voto livre e eleito presidente da República, proferiu célebre discurso. Nele Vargas usou a mesma frase do título, com outro sentido, sem o ponto de interrogação. Criticava o desrespeito das leis pelos seus opositores. Atribuía a eles maus comportamentos, para depois dizer que a lei apontaria para outro rumo, se fosse para ser respeitada. Aditava em tom zombeteiro: "Mas a lei? ... Ora, a lei!". Esse é o caso no desrespeito das leis que a presidente Dilma Rousseff tem enfrentado, gerando reações graves e agitando o Congresso Nacional.
O leitor está informado de que, neste agosto, entrou em vigor a lei nº. 12.403, de maio último, que alterou 40 artigos do Código de Processo Penal. Editado sob as ordens do mesmo Getúlio Vargas, o Código passou a vigorar em 1º de janeiro de 1942, ou seja, há 69 anos. O ministro da Justiça na época era Francisco Campos, cujo apelido de Chico Ciência homenageava seus conhecimentos jurídicos.
Uma mudança tão extensa se explica pela transformação radical na realidade social brasileira e mundial nesse período. Conforme se tem dito e repetido, a história terminou em meados do século 20. Uma outra história começou desde o crescimento do índice de natalidade e com as grandes emigrações estrangeiras (não só europeias, mas também asiáticas). O fenômeno foi planetário, mas -no caso do Brasil- basta lembrar a conquista de todo o interior do território central, sobretudo no oeste. Paralelamente, verificou-se uma concentração urbana do sudeste do Rio de Janeiro até Porto Alegre, dominante nos quase 40 milhões de habitantes do Estado de São Paulo.
Na área penal, para explicar a lei nº. 12.403, a constatação clara é que não há meio de afastar da sociedade todos os delinquentes, trancando-os em prisões. A razão é óbvia: a adição de celas disponíveis em nosso sistema penitenciário não acompanhou o crescimento da criminalidade. Com isso, a roda da vida estimula o aumento de delitos e da violência empregada. O círculo vicioso caminhou para um desastre social ainda mais grave do que aquele que se tem visto. Numa simplificação extrema, cabe dizer que a lei nº. 12.403 tem em vista reduzir o número de presos de nossas cadeias. Há lógica inspiração jurídica nesse caminho: a prisão em condições subumanas só estimula o aumento de criminalidade.
Esse aumento tem sido geométrico na experiência dos últimos 60 anos. A solução que inspirou os autores da lei nº. 12.403 consiste, "grosso modo", na simplificação dos processos penais, evitando levar os condenados a prisões que não têm condições de acolhê-los. A solução pode ser acompanhada pelos métodos de controle eletrônico das deslocações do condenado, permitindo o rigoroso monitoramento de suas andanças, minuto a minuto, todos os dias.
Mesmo qualificada, a tentativa de pormenorizar o que pode acontecer a partir de agora talvez seja inútil. Temos de esperar para ver. Orar pela lei, orar por seus bons efeitos, alterando o sentido da frase célebre no discurso de Vargas, enquanto súmula de nossa esperança. Certeza absoluta de sua eficácia não dá para afirmar, mas é um começo.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Como está fica?
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 20/08/11

Quando dizem ser importante que o recém-indicado Mendes Ribeiro possa "escolher sua equipe" na Agricultura, os peemedebistas estão de olho, antes de tudo, na secretaria-executiva do ministério, ocupada, desde a remoção do encrencado Milton Ortolan, pelo engenheiro agrônomo José Gerardo Fontelles.

Incomoda ao PMDB não apenas a proximidade de Fontelles com Guido Mantega (Fazenda), mas também com o ex-ministro Reinhold Stephanes, filiado ao partido, porém mal visto pela cúpula atual.
Outro recado: no que depender do PMDB, a parentada abrigada na Conab continua toda onde está.

Por que não? O pleito peemedebista de reocupação da Agricultura encontra respaldo em gabinetes do Planalto. Um assessor de Dilma pondera que "secretário-executivo e chefe de gabinete são cargos da confiança do ministro", considerando natural a eventual troca de Fontelles. Sobre o cabide da Conab, contemporiza: "Não dá para demitir só por ser parente. Tem de ver o trabalho que eles estão fazendo".

Constatação Com a adesão do deputado Tiririca (PR-SP) ao requerimento da CPI da Corrupção, a piada começou a correr a Congresso: "Ele deve ter percebido que pior do que está fica!".

Maracatu 
Aécio Neves não é o único tucano empenhado em instalar a deputada Ana Arraes (PSB-PE) no TCU. Também o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), pede votos na Câmara para a mãe do governador Eduardo Campos (PSB-PE).

Na selva 
Dilma planeja lançar a versão Norte do Brasil sem Miséria em 5 de setembro, Dia da Amazônia. Ali, o Ministério do Desenvolvimento Social iniciará o pagamento do Bolsa Verde, programa pelo qual serão destinados R$ 300, trimestralmente, a famílias de baixa renda que fizerem ações de conservação em florestas e áreas de extrativismo.

Next 
Convicto de que obterá registro, o PSD já mobiliza seu corpo jurídico rumo à segunda batalha, desta vez para amealhar o tempo de TV dos partidos de origem de seus recém-filiados. Ancorados na tese segundo a qual a adesão à legenda ocorre na brecha legal da "justa causa", advogados provocarão o TSE para rever a partilha da propaganda eleitoral.

Brecha legal
Os advogados de Gilberto Kassab entendem que, uma vez reconhecida a legitimidade da mudança, a agremiação anterior perde, além do mandato, todas as suas prerrogativas legais. Hoje, o cálculo do palanque eletrônico é baseado na bancada empossada.

Calendário 
Mesmo que a manobra não prospere para 2012, o PSD quer se fortalecer para a eleição de 2014, principal objetivo eleitoral do prefeito paulistano.

Falta combinar 
O DEM, principal prejudicado caso a tentativa vingue, não admite a hipótese de revisão da regra. "Seria um atentado à lei" diz o presidente da sigla, Agripino Maia (RN).

Será possível? 
Também acionando o PSD na Justiça, Campos Machado (PTB) desdenha das chances de o partido obter registro formal para 2012: "Tudo o que vem sendo feito para que isso ocorra não passa de uma jogada de marketing político".

Visita à Folha 
Abina M. Dann, cônsul-geral do Canadá em São Paulo, visitou ontem a Folha. Estava com Jaqueline Aguilar, agente regional para Educação na América Latina, e Angelo Raposo, assessor de imprensa.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

tiroteio

"A "faxina" de Dilma é lenda, mera reação às denúncias da imprensa. É desrespeitoso comparar o que a presidente faz com o trabalho das faxineiras, este sim duríssimo."
DO SENADOR FLEXA RIBEIRO (PSDB-PA), rejeitando a ideia de que exista uma deliberação do Planalto para atacar focos de corrupção na máquina federal.

contraponto

Nada de estranho


Ao fim das quatro horas em que Pedro Novais depôs na Câmara sobre os problemas no Turismo -"se é que existiram", minimizou-, Chico Alencar (PSOL-RJ) resolveu contar uma parábola ao distraído ministro:
-O senhor me faz lembrar a história daqueles pescadores que estavam na barranca do rio, à tardinha, e viram dois elefantes passarem voando. Depois de uns cinco minutos de silêncio, um comentou com o outro: "É, compadre, esses bichos estão voltando pra casa. Mas, me diga, pra que morar tão longe do serviço?".

FERNANDO RODRIGUES - De besta a bestial


De besta a bestial 
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 20/08/11
BRASÍLIA - Foi uma semana de intensos contatos políticos para Dilma Rousseff. Recebeu dirigentes partidários. Deputados e senadores tiveram encontros avulsos. Na quinta-feira, rodeada de tucanos, ouviu do governador paulista, Geraldo Alckmin, que a integração dos programas antimiséria se dava sob o "protagonismo" dela, Dilma. Os jornais estamparam a imagem da presidente ao lado de FHC.
A blitz levou os "spin doctors" do governo a produzir uma robusta rodada de inseminação de ideias. Dilma seria agora um gênio da política. A presidente teria dado uma aula de coordenação para seus aliados. Os problemas graves de relacionamento estariam, por essa lógica, todos se liquefazendo por causa da destreza mostrada pela petista nos últimos dias.
Menos, menos.
Não há na natureza uma besta que em uma semana se torne bestial -no sentido da gíria em Portugal. Dilma tem experiência política sólida. Ela está longe de ser a néscia das fofocas propagadas pelos próprios governistas. Mas tampouco há laivos de genialidade em seus movimentos recentes.
A única certeza, por enquanto, é que os problemas de gerenciamento político continuam a vicejar em Brasília. O comando da micropolítica do dia a dia segue capenga.
As ações empreendidas por Dilma nesta semana ajudam a mitigar suas dificuldades. Não são, porém, garantia de céu de brigadeiro mais adiante. Os estragos causados por meses de inapetência gerencial na política já estão contratados.
Dilma passou meses sem arbitrar sobre desavenças e picuinhas oriundas da Esplanada. Ânimos crispados deixaram escapar pistas sobre os malfeitos ali produzidos durante anos. Informações vazaram. Não há como "desvazá-las".
A presidente disse "basta". Está operando mais na política. Muito bem. Mas a ordem dilmista vale para a frente. Não há como retroagir e eliminar danos já causados.

A CASA DO CU SEM DONO


FERNANDO RODRIGUES - César de ponta-cabeça


César de ponta-cabeça
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 20/08/11
SÃO PAULO - O governo de Sérgio Cabral acaba de firmar oito contratos emergenciais, com dispensa de licitação, com a empreiteira Delta, do empresário Fernando Cavendish, seu grande amigo.
São contratos que totalizam R$ 37,6 milhões e vêm se somar aos R$ 58,7 milhões que a Delta já recebeu sem licitação do governo fluminense somente neste ano.
Foi um acidente aéreo no litoral baiano, há dois meses, que jogou luz sobre as relações quentes do governador. Ele e o empresário viajaram juntos no jatinho emprestado por Eike Batista. Iam comemorar o aniversário de Cavendish e aguardavam o helicóptero que caiu, matando a namorada do filho de Cabral e familiares do empreiteiro.
Cabral e Cavendish já haviam usado o jatinho do mesmo Eike para ir às Bahamas, a passeio. Ambos têm casa de férias no mesmo condomínio de endinheirados em Mangaratiba, litoral sul do Rio.
Essa bonita relação de amizade não foi suficiente para constranger negócios com o Estado, que devem se pautar pela impessoalidade. Pelo contrário, tudo parece pertencer a uma mesma festa. A Delta abocanhou mais de R$ 1,3 bi em contratos na gestão Cabral, dos quais R$ 214 milhões são "emergenciais".
O dinheiro aprovado nesta semana, por exemplo, se destina a reparar danos provocados pelas chuvas de janeiro de... 2010 -um caso de "emergência retroativa". A Delta vai receber 40% dos R$ 96,3 milhões reservados às obras.
O que chama a atenção nessa história toda é a sem-cerimônia com que a promiscuidade se apresenta. Tudo é muito didático e ostensivamente escancarado. Como se o governador estivesse empenhado não mais em agredir a inteligência do contribuinte -já passamos desse ponto-, mas em testar os limites da sua impunidade e o grau de omissão das instituições do Estado.
No Brasil, as coisas funcionam de ponta-cabeça. Não é que invertemos a máxima da mulher de César?

CLÁUDIO HUMBERTO

“Confio em ti, toca a fita”
PRESIDENTA DILMA AO NOVO MINISTRO DA AGRICULTURA, MENDES RIBEIRO FILHO

PF ATÉ CANCELOU OPERAÇÃO POR FALTA DE RECURSOS 
O corte no orçamento da Polícia Federal para este ano já causou a primeira baixa na corporação. O Departamento de Inteligência Policial, que coordena todas as ações, teve de cancelar uma operação em andamento no estado do Tocantins. Além do susto dos delegados com a decisão, o tiro mortal ficou por conta da justificativa: faltou dinheiro para passagens e hospedagem, o custo mais baixo no rol de despesas. 

QUEM? O QUÊ? 
Não há regra que obrigue o diretor-geral da PF a contar ao ministro da Justiça sobre as operações em andamento. Só relata se quiser.

CAMPO MINADO 
O diretor-geral da PF, Leandro Coimbra, quer ganhar a confiança da classe. Por isso não passa nada para o padrinho, o ministro Cardozo.

O QUINTO 
Em pesquisa interna em janeiro, Coimbra surgiu em 5º. O preferido da PF para diretor era Sandro Avelar, hoje secretário de Segurança do DF.

Ô SAUDADE! 
Do líder do PR, Lincoln Portela, com saudade do poder: “Esse negócio de deixar de ser estatutário para ser celetista é complicado”.

ROUBO DE CARROS: MT REJEITA CONSULADO DA BOLÍVIA 
Os roubos de carros em Mato Grosso, vendidos por atravessadores bolivianos por R$ 5 mil, fizeram o deputado estadual Emanuel Pinheiro (PR) pedir o fechamento do consulado da Bolívia em Cuiabá. Cerca de 60 veículos são roubados por mês, no Estado, e levados para a Bolívia, muitos deles picapes importadas, onde, pela lei nº 133, do cocaleiro Evo Morales, podem ser emplacados. O fato revoltou nas vítimas.

APELO OFICIAL 
O deputado Emanuel Pinheiro observa que “o Brasil dispensa as relações diplomáticas e não há reciprocidade”.

BANALIDADE 
Há meses, um travesti sequestrou e matou um empresário para vender o carro dele na Bolívia. Queria o dinheiro para um implante de silicone.

CERCA E ALGEMA O PAÍS 
O estado-bandido da Bolívia “regulariza” carros roubados no Brasil e os receptadores protestam contra taxas fixadas para a tal “regularização”.

DESQUALIFICADO, NÃO
O conselho curador da EBC, que controla a TV Brasil, indicou Murilo Ramos, especialista da UnB, para a presidência da estatal. É uma tentativa de barrar a indicação de Nelson Breve, considerado sem qualificação, que tem apoio do ex-ministro Franklin Martins.

TREMAM OS CÉUS 
O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) disse nesta sexta que “ainda” não assinou a CPI da Corrupção, mas que poderá fazê-lo. Se o fizer, ajudará o ministro Carlos Lupi (Trabalho) a ser o próximo defenestrado.

SINAL DE ALERTA 
Pesquisa do instituto O&P Brasil com mil eleitores do DF, entre os dias 13 e 17, mostrou que a avaliação positiva (ótimo e bom) do governo de Agnelo Queiroz (PT) soma 26% e que 56% já não acreditam que ele cumpra os compromissos assumidos durante a campanha.

CAIXA REGISTRADORA 
O ministro Celso Amorim (Defesa), que recebe como diplomata aposentado, foi ontem à reunião do conselho de administração da Itaipu Binacional, em Foz do Iguaçu (PR), faturar o jeton de R$ 12 mil.

BARRICADAS 
Os inevitáveis cacique Raoni e a ex-primeira-dama da França, Danielle Mitterrand, vão dividir os holofotes neste sábado nas ruas de Paris, no Dia Mundial Contra a Construção de Belo Monte, informa o Le Monde. 

FOI PARA O BREJO 
O Superior Tribunal de Justiça negou mandado de segurança da Bancoop contra a quebra de sigilo bancário do tesoureiro do PT e ex-dirigente da cooperativa, João Vaccari Neto, por suposto desvio de recursos a campanhas petistas. É a terceira derrota na Justiça. 

ZONA DO AGRIÃO 
Da série melhor não dizer: “O novo ministro pode ser, de fato, não conhecido no Brasil, mas logo será” (Dilma sobre Mendes Ribeiro, substituto do “firme como uma rocha”na Agricultura).

NOTÍCIAS DO FRONT 
A marcha da missão do ex-delegado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) no Twitter: “A caminho da cidade Ben Gardane, Tunísia, fronteira com Líbia, observar (sic) refugiados líbios e socorrer crianças feridas.”

CELEBRIDADE 
Se o papel de “faxineira” não der certo, Dilma vai tentar ser “A Herdeira”. 

PODER SEM PUDOR
OS FEITOS DE MEM DE SÁ 
Parlamentar que faz falta ao Congresso, Gustavo Fruet (PSDB-PR) era candidato a vereador em 1996, em Curitiba, e visitou escolas acompanhado do pai, o saudoso deputado Maurício Fruet. Numa delas, um estudante resolveu testar o candidato, fazendo-lhe perguntas sobre vultos históricos como Juscelino, Getúlio, Jango etc. E atacou:
– E Mem de Sá, o que ele fez pelo Brasil?
Maurício resolveu intervir, encerrando o papo e a insistência do pirralho:
– Ele fez o que pôde, meu filho. Fez o possível.

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Denunciados no STF irão revisar processos judiciais

Folha: Quadrilhas já atacaram 500 caixas eletrônicos

Estadão: Ditador sírio desafia Ocidente e volta a reprimir opositores


- Correio Braziliense
: Proposta de reajuste a servidor vai de 2% a 31%



- Estado de Minas: Minas tem 20 juízes ameaçados de morte


- Jornal do Commercio: Ladrões atiram em idosa na Zona sul

Zero Hora: Piratini vai endurecer punição a quem vender álcool a adolescentes

sexta-feira, agosto 19, 2011

JOSÉ SERRA - O tripé do equilíbrio instável


O tripé do equilíbrio instável
JOSÉ SERRA
BLOG DO SERRA

No transcurso desde ano, até 16 de agosto, entraram no Brasil US$ 63,2 bilhões. Assim, apesar do saldo em conta corrente do Balanço de Pagamentos ser crescentemente negativo, o país continua a acumular reservas. Entra dinheiro de sobra, ampliando nosso passivo externo.

É ingênua a ideia de que o caudaloso movimento de dólares é causado por uma solidez da economia brasileira. A razão é outra: a taxa de juros do Brasil é a mais alta do planeta. Nenhum país tem uma taxa nem sequer próxima à nossa; em termos reais, é cinco ou seis vezes maior do que a taxa média dos países emergentes. Assim, as aplicações financeiras vêm para cá faturar a diferença entre os juros brasileiros e os que prevalecem na economia internacional.

Trata-se de um negócio do outro mundo, que dá prejuízo ao Brasil. As reservas brasileiras, aplicadas no exterior, rendem juros baixíssimos: entre 1% e 2% ao ano, ou até menos, nas atuais circunstâncias. Mas, para comprá-las, o governo capta dinheiro em reais a 12,5% ao ano. Além disso, com a apreciação da moeda nacional, as reservas perdem valor em reais.

Assim, no primeiro trimestre de 2011, o custo fiscal de carregamento das reservas foi de R$ 19 bilhões. Para que se tenha uma idéia, os gastos federais em Saúde nesse período ficaram próximos a R$ 13 bilhões. Em Educação, R$ 8,2 bilhões. No ano passado, aquele custo chegou perto dos R$ 50 bilhões.

Outro prejuízo provém da sobrevalorização do real em relação às moedas de outros países, começando pelo dólar. Repete-se à saciedade que esse é um fenômeno mundial, não apenas brasileiro, pois o dólar está se enfraquecendo. Mas o fenômeno brasileiro é maior, pois somos os primeiros do mundo em matéria de apreciação cambial, precisamente por causa dos juros.

A sobrevalorização cambial encarece as nossas exportações de produtos manufaturados, que perdem competitividade. E barateia as importações desses produtos, que destroem capacidade produtiva doméstica. Em ambos os casos, a desindustrialização provoca a perda de bons empregos. Do ponto de vista da balança comercial, a tragédia só não é maior devido ao forte aumento dos preços das exportações brasileiras de matérias-primas e alimentos.

Não apenas por causa da perda de competitividade em relação ao exterior, mas também por causa dela, a economia brasileira vem perdendo dinamismo. O indicador de atividade econômica calculado pelo Banco Central mostrou retração em junho. O consumo industrial de energia elétrica em São Paulo cresceu somente 3% no primeiro semestre em relação a igual período do ano passado.

O governo não foi além de algumas medidas pontuais para tentar arrefecer a enxurrada de dólares. Como se previa, independentemente do seu mérito, não funcionaram. O erro vem de longe.

Em 2002, as taxas de juros brasileiras eram muito altas devido, principalmente, à restrição cambial e à maior inflação — em razão da instabilidade provocada pela campanha eleitoral. Mas, acompanhando o novo governo (Lula), a instabilidade passou, e a restrição cambial foi sendo eliminada, até virar bonança pelo simples fato de que os preços das exportações brasileiras de commodities — alimentos e matérias primas -— aumentaram espetacularmente. Um presente dos céus que, no entanto, foi desperdiçado, pois acabou não tendo uma contrapartida proporcional no aumento do investimento público ou industrial; o que cresceu mesmo foi o consumo, especialmente importado.

Montou-se, assim, a armadilha do tripé: “juros elevados com câmbio supervalorizado, alta carga fiscal e baixos investimentos públicos federais”. É a armadilha que prende os passos do atual governo, que ainda está longe de encarar o assunto, pois nem sequer o diagnóstico foi por ele assimilado. Em economia, como na saúde, a eficácia depende da prevenção. Mas se a crise internacional vem ao Brasil pela enxurrada de dólares (é o começo), em vez de diques preventivos para atenuar seus impactos, foram feitos declives acentuados para facilitar seus efeitos.

LUIZ GARCIA - Para valer?


Para valer?
LUIZ GARCIA
O GLOBO - 19/08/11

A presidente Dilma anunciou o início de uma faxina ética nos altos escalões do poder público -- e também, deve-se deduzir, nos baixos e médios, já que a estrutura administrativa tem a triste característica de ser vulnerável dos pés à cabeça. No Brasil e no resto do mundo.

No Congresso, a iniciativa provocou reações curiosas. A primeira consequência da decisão de Dilma foi o lançamento de uma frente multipartidária contra a corrupção e a impunidade. É curioso: para observadores inocentes, a novidade pode parecer uma confissão de que, até agora, deputados e senadores eram indiferentes à possibilidade de homens públicos cederem à tentação de, numa expressão cunhada há muito tempo, mamarem nas tetas do Estado.

O dado mais curioso do episódio foi o fato de que aliados e adversários da presidente não gostaram da tal frente. Os primeiros, dizendo que ela era desnecessária: "Todos no Senado são contra a corrupção", disse o líder do governo, Romero Jucá, numa generalização, pode-se dizer, extremamente audaciosa.

Já o líder do PSDB, Álvaro Dias, definiu a decisão da presidente como um retórico jogo de cena: para ele, se Dilma fosse sincera, a faxina teria começado com o recente escândalo do Dnit.

A reação mais curiosa foi a do senador petista José Pimentel. Ao sustentar, numa generalização audaciosa, que "a História se repete como farsa", ele afirmou que na década de 50, diante de uma enxurrada de denúncias, "Getúlio Vargas teve que dar um tiro no peito". É, certamente, uma curiosa - e, até certo ponto, desrespeitosa - definição do gesto final do presidente.

Com todo o respeito pelo fim trágico daquele episódio histórico, ele com certeza não é argumento contra a investigação de casos de corrupção - que não eram poucos nem desimportantes no último governo de Vargas. O qual, é sempre bom lembrar, não se suicidou devido a denúncias de escândalos no Palácio do Catete, e sim porque elas eram esmagadoramente verdadeiras.

Dilma, em face de sérias denúncias, preferiu anunciar uma faxina. É certamente uma reação inteligente: evita que a iniciativa parta da oposição. Se será uma limpeza para valer, em pouco tempo se saberá.

GOSTOSA


ANCELMO GÓIS - Ministro Danoninho


Ministro Danoninho
ANCELMO GOIS  
O Globo - 19/08/2011

O deputado Mendes Ribeiro, novo ministro da Agricultura, é amigo antigo de Dilma. A relação se estreitou nos anos 1980, quando ele e Carlos Araújo, então marido de Dilma, trabalharam na elaboração da atual Constituição gaúcha.

Segue... 
Mendes, não raro, ia para a casa de Carlos, e os dois ficavam trabalhando até tarde. Certa vez, pela manhã, quando Dilma foi pegar na geladeira o Danoninho da filha, Paula, descobriu que o produto tinha sido consumido pelo atual ministro.

Amor, cotas... 
Martinho da Vila vai lançar seu próximo livro, “Fantasias, crenças e crendices”, na Bienal do Rio, no próximo dia 6. É o seu 11o-, e fala de filosofia de sambista, opiniões sobre a vida etc. — religião, amor, cotas...

Comédia em pé
Danilo Gentili, que surgiu no "CQC", da Band, foi contratado pela Universal Music. Vai fazer um DVD de humor, o primeiro da gravadora. Os espetáculos do gaiato, no estilo comédia em pé, já foram assistidos por mais de 300 mil pessoas.

No mais 
No artigo em que defendeu mais impostos para os ricos nos EUA, o megainvestidor Warren Buffett disse que pagou de IR 17,4% de seus vencimentos. Já para 20 funcionários seus, o valor oscilou de 33% a 41%. Aqui, quem aplica em ações e ganha fortunas com isso paga só 15% sobre seus ganhos. Enquanto isso, assalariados pagam até 27,5% de Imposto de Renda.

País do futebol 
Veja como não dominar o idioma do país dos outros é perigoso. A TV alemã Deustche Welle exibiu um programa sobre o Brasil e a Copa de 14. A imagem final, com áudio aberto, é, acredite, da torcida do Inter cantando num Grenal: “Atirei o pau no Grêmio/E mandei tomar no...” (você sabe). Confira só em http://bit.ly/npHaoO.

Gol no Oriente 
A Gol está de olho nas rotas do Oriente Médio. Fechou acordo com a Qatar Airways para facilitar a conexão de passageiros lá. Pela parceria, a voadora estrangeira passará a vender assentos nos voos da Gol em 46 cidades do Brasil.

Ele não para 
Veja como o nosso Gilberto Gil tem prestígio. Foi convidado para participar de um seminário sobre sustentabilidade em Berlim, em janeiro, ao lado de FH e Vargas Llosa.

Ladrões no hospital 
Na madrugada de quinta, um paciente de 80 anos, militar reformado, teve os pertences roubados enquanto dormia em pleno quarto dos oficiais no Hospital Marcílio Dias, no Rio. De manhã, teve a conta bancária raspada e várias compras feitas em seu cartão de crédito. O caso foi registrado na 26a- DP, no Méier.

Balé grátis 
O Ballet Kirov, um dos maiores da dança no mundo, vai se apresentar dia 7 de setembro na Quinta da Boavista, no Rio. O acordo foi fechado ontem pelo secretário municipal de turismo, Antonio Pedro.

Ela voltou 
Luciana Gimenez, há anos afastada da Sapucaí, voltará em 2012 pela Grande Rio.

É muito míope 
Foi uma dura derrota para o projeto de revitalização do Porto a transferência da Rio+20 — conferência de meio ambiente da ONU planejada para receber 190 chefes de Estado — para o Riocentro. Acredite. Pesou uma razão financeira. O consórcio do Porto cobrou cinco vezes mais do que o centro de convenções de Jacarepaguá.

Retratos da vida 
Sábado passado, num enterro no cemitério de Inhaúma, região que ainda não foi pacificada, uma parceira da coluna ouviu de um passante: — Acabei de fazer essa “bicicleta” (roubar uma moto). Vou esconder no cemitério e à noite busco...

ILIMAR FRANCO - PT x PMDB


PT x PMDB
ILIMAR FRANCO  
O Globo - 19/08/2011

A vaga de líder do governo no Congresso está sendo disputada pelos dois partidos. Anteontem, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN), levou ao vice Michel Temer o nome do deputado Marcelo de Castro (PI). Ontem, foi a vez de o líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), ligar para a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) reivindicando o cargo para o senador José Pimentel (PT-CE). A presidente Dilma recebeu as demandas, mas não pretende decidir agora.

Foi assim que aconteceu
O ex-ministro da Agricultura Wagner Rossi chegou, com a demissão, na sala do vice Michel Temer, às 17h de anteontem. Temer tentou demovê-lo e depois pediu para falar com a presidente. Dilma estava na Marcha das Margaridas. Eram 18h50m quando Rossi entregou a carta para a presidente, explicou sua decisão e saiu. Temer ficou. Dilma pediu-lhe um deputado para ocupar o ministério. Temer sugeriu Mendes Ribeiro (RS). Tudo combinado, Temer saiu para informar o partido. O PMDB fez uma reunião teatral. Eram 23h40m quando Temer, depois de ir a dois eventos, chega ao Palácio da Alvorada e diz à presidente: "Está feito!".

"Não me arrependo de, por cinco vezes, ter votado no PT à Presidência. Agora, devo cobrar, duvidar, criticar, desconfiar e, com frequência, votar contra" - Roberto Requião, senador (PMDB-PR)

Flagrante
Enquanto o ministro Paulo Sérgio Passos (Transportes) prestava esclarecimentos na Câmara, anteontem, sobre as denúncias de irregularidades na pasta, os deputados Washington Reis (PMDB-RJ) e Francisco Escórcio (PMDB-MA), na foto, sentados na primeira fila da audiência pública, assistiam, no computador, a um jogo de futebol. A brincadeira durou cerca de 40 minutos.

Mobilizado
O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, na festa do prêmio Engenho de Comunicação, em Brasília, fez discurso em que defendeu: "Devemos todos apoiar a presidente da República em sua cruzada contra a corrupção".

Reunindo a tropa
A ministra Izabella Teixeira (Meio Ambiente) busca apoio para a votação do Código Florestal no Senado. Ontem, ela reuniu os ex-ministros Marina Silva, Paulo Nogueira Neto, José Goldemberg, José Cavalcante e Henrique Brandão.

O inacreditável aconteceu na Câmara
O PSDB, o DEM e o PPS da Câmara votaram contra, na noite de anteontem, a proposta que reestrutura os Correios, cujo autor original foi o ex-ministro Sérgio Motta (Comunicações na gestão FH). O relator, Arnaldo Jardim (PPS-SP), está pasmo: "O texto é coerente com a visão de Estado praticada na época do FH". Uma das mudanças aprovadas: todos os cargos gerenciais dos Correios serão ocupados por funcionários de carreira.

Boquiaberto
Na votação, o deputado (e ex-ministro da gestão Lula) Miro Teixeira (PDT-RJ) ficou surpreso: "Votaram contra um texto que é igual à proposta que o FH tinha mandado para cá e o Lula retirou da pauta, quando assumiu em 2003".

Vale tudo
Causou surpresa nos petistas e descontentamento nos tucanos o discurso do líder do DEM, deputado ACM Neto (BA), contra as privatizações, na votação da Medida Provisória que reestrutura os Correios, na noite de anteontem.

ESTREIA. O PR estreou sua "independência" na votação da MP 532. Dos 32 deputados, 30 votaram contra o governo. Já o PV, que está aderindo, votou majoritariamente com o Palácio do Planalto.

OS TUCANOS Marcus Pestana (MG) e Eduardo Azeredo (MG) se retiraram do plenário, na votação da reestruturação dos Correios, por discordarem da decisão do partido de votar contra.

O EX-PRESIDENTE Lula ligou ontem para o vice Michel Temer e para o ex-ministro Wagner Rossi. Ele lamentou a saída do ex-ministro da Agricultura.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Fornecedores para saneamento registram venda menor
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 19/08/11

A participação do saneamento no faturamento de empresas de material para obras do setor deve cair neste ano.
O faturamento dos fabricantes de materiais e equipamentos para água e esgotos teve queda superior a 20% em junho deste ano, ante o mesmo mês do ano passado, segundo a Asfamas (associação de fabricantes).
A queda se deve à grande dependência das empresas desse segmento em relação ao setor público, segundo Carlos Rosito, vice-presidente da entidade.
"O recuo de vendas tem contexto. Há um pico de demanda em anos de eleições e um vale nos anos seguintes. As trocas de guardas, mesmo que não haja troca de partido, atrasam o andamento."
O aquecimento deve voltar a ocorrer naturalmente, segundo Rosito. Junho já apresentou leve alta ante maio. Os investimentos, porém, continuam abaixo do estimado.
"Em 2011, o setor deve ter investimento 10% inferior ao ano passado. Eu acreditava que este ano a queda poderia ser menor, pois houve melhoria dos marcos regulatórios. Mas permanecem os problemas de gestão pública."
Na Mexichem Brasil, dona da marca de tubos e conexões Amanco, a demanda para infraestrutura representou 18% do faturamento da empresa no ano passado. Neste ano, a participação do segmento no faturamento total deve ficar em 10%, segundo a empresa.
A queda deve ser substituída por vendas no mercado de construção predial, que mantém alta em 2011.

MÃO NA RODA
A Atlas Transportes e Logística vai investir R$ 18,5 milhões até o final deste ano em renovação da frota, ampliação de centros de distribuição e em tecnologia para rastreamento via satélite.
Cerca de 80% dos recursos serão destinados à aquisição de 30 veículos, o que elevará a frota própria para 340 carros até dezembro.
Com sede em São Paulo e 54 filiais no país, a transportadora vai abrir centros de distribuição em Pouso Alegre (MG) e Ji-Paraná (RO).
Estão previstas ampliações dos centros de Recife, João Pessoa, Fortaleza, Teresina e Rio de Janeiro.
"A demanda no Nordeste tem crescido muito, em um ritmo maior que o da média nacional", diz o presidente da companhia, Lauro Megale Neto, da terceira geração dos fundadores.
Produtos eletroeletrônicos, farmacêuticos e autopeças estão entre os que tiveram os maiores crescimentos da demanda na região, de acordo com Neto.
A companhia prevê aumento de 20% no faturamento deste ano, que deve atingir R$ 575 milhões.

IMÓVEL DIGITAL
Na tentativa de agilizar a concessão de crédito para fins imobiliários, empresas investem na digitalização dos documentos de seus clientes.
A Credipronto, joint venture do Itaú com a Lopes, diminuiu em cerca de duas semanas o tempo para concessão de crédito. "Há casos em que a aprovação saiu em três dias", diz o gerente da companhia, Jonas Jeremias.
O Bradesco, por sua vez, começou o processo em janeiro passado e já realiza 50% das operações de pessoas físicas de forma digitalizada.

NOVELA DE MEDICAMENTO
O Superior Tribunal de Justiça suspendeu ontem liminar concedida ao laboratório farmacêutico Lundbeck, dona do antidepressivo Lexapro, que impedia a Anvisa de liberar registros para fabricantes de genéricos, segundo a Anvisa. Cabe recurso.
Caiu a determinação de que a Anvisa não conceda registro a outras empresas com base em resultados de testes e dados do dossiê elaborado pela Lundbeck.
"É um sinal para que essa tese, que ameaça o futuro dos genéricos, não vá adiante", diz Odnir Finotti, presidente da Pró Genéricos.
Para João Rocha, presidente da Lundbeck Brasil, "é alarde dizer que os genéricos vão terminar por causa disso. Temos estudos que provam. Uma empresa leva até 15 anos para desenvolver um medicamento, investe, em média, US$ 800 milhões, e 60% vão para ensaios clínicos, com testes em pacientes".
A Anvisa informa que não usa dados do dossiê de registro do medicamento de referência na análise sobre registro de medicamentos genéricos e que a lei estabelece requisitos de eficácia dos genéricos, "incluindo o desempenho comparativo com os medicamentos de referência, disponíveis no comércio, de equivalência farmacêutica e de biodisponibilidade. Não há necessidade de conhecimento do conteúdo do dossiê de registro do medicamento."

TEMPLO JAPONÊS
A fabricante japonesa de produtos esportivos Asics abrirá sua primeira loja no Brasil no final deste mês.
A empresa pretende investir R$ 50 milhões no país e inaugurar outras 19 lojas nos próximos seis anos.
"Queremos ser a terceira marca do segmento no país", diz o vice-presidente da subsidiária da Asics no Brasil, Giovani Decker.
Hoje, a empresa atua no país apenas com fabricação e distribuição de produtos.
A abertura das unidades faz parte de um movimento internacional da marca. "Lojas também serão abertas em outros países", afirma o presidente da subsidiária, Osamu Sasada.
A primeira loja brasileira, será na Oscar Freire, em SP. Os atendentes serão formados em educação física.

com JOANA CUNHA, VITOR SION, LUCIANA DYNIEWICZ e ALESSANDRA KIANEK 

BARBARA GANCIA - Desigualdade, tendência do verão

Desigualdade, tendência do verão
BARBARA GANCIA
FOLHA DE SP - 19/08/11 

Há quantas décadas São Paulo brilha em vários dos quesitos que ora fazem Londres arder?


"VOCÊ TEM CASACO de couro da Forum?" A pergunta teria sido encarada de forma natural tivesse ela sido feita nas dependências de um shopping center. Mas soou para mim algo inusitada ao ser formulada no curso de um sequestro-relâmpago sofrido há 11 anos, no bairro do Sumaré.
Eu sempre havia me perguntado como responderia em uma situação dessas (temia reagir à italiana, com passionalidade extremada, e acabar com uma azeitona cravada na testa). Acho que me saí melhor do que a encomenda. Selei o episódio escrevendo junto com a jornalista que estava comigo um artigo para a revista "Marie Claire" intitulado: "Fomos assaltadas e fizemos amizade com os bandidos".
Não me sentia à vontade para falar sobre o caso na época -tanto é que apenas a sombra do nosso perfil aparece na foto que ilustra a reportagem-, nem para colocar o pé para fora de casa por um bom tempo depois do ocorrido. Mas uma década já se passou e o assunto volta à tona por motivos outros que não a violência paulistana.
Fomos interceptadas no semáforo da rua Heitor Penteado por um garoto a quem os institutos de pesquisa bem poderiam classificar de "classe média". Ele tinha aparelho nos dentes, alguma escolaridade e vocabulário de bandido, ou seja, uma figura comum nos dias de hoje. Nos abordou de arma em punho e veio acompanhado de duas amigas, uma loira com considerável e visível investimento monetário na juba e a outra, negra, gorducha, simpática, que lembraria a Jennifer Hudson.
Ninguém no grupo tinha mais de 21 anos. Desandei a falar assim que entraram no carro e lá fomos nós de caixa eletrônico em caixa eletrônico. Quatro horas mais tarde, vários quilômetros rodados e uma parada no posto para reabastecer, nossos novos amigos, sempre de arma apontada para nós, se convenceram de que não tínhamos dinheiro e resolveram ir saquear minha casa. Enquanto vasculhava a gaveta atrás de roupas de grife, Miss Simpatia contou-me do filho e eu lhe dei um bicho de pelúcia. "Toma, este é seu, não faz parte do assalto", disse-lhe. Acho que eu tinha tomado umas a mais naquela noite.
De volta ao carro, e sempre sob ameaça, resolvi despejar um balde de perguntas sobre o rapaz: "Por que um cara como você se dedica a este tipo de atividade?", queria saber. "Na verdade", disse-me, "Isso é um bico".
Contou-me que acabara de deixar a noiva em casa. Sua mãe desconfiava de que os tênis, os eletrônicos e as noitadas não vinham do trampo de carteira assinada, mas preferia não entrar em detalhes.
"Não é um tanto arriscado levar a vida assim?", insisti. Ele fez que sim com a cabeça. "De alguma coisa a gente tem que morrer, né?"
Nisso, a fofucha que estava comigo no banco de trás, a loira, grudou o cano da arma na minha têmpora e disse: "Se você não calar a boca, eu te mato". Não me impressionou. "Sabe quantas vezes ao dia eu ouço essa frase?", devolvi. O carro inteiro caiu na gargalhada.
Podia ter sido fatal, mas bicho ruim não morre, especialmente em se tratando de jornalista. Vivi para constatar que, por uma vez, os londrinos não estão ditando moda. Que a desigualdade, a ilusão do multiculturalismo e a sedução do consumismo que faz a roda girar e que ora incendeiam o verão londrino já chegaram por estas bandas faz muitas estações. É São Paulo dando uma de "trendsetter" mundial, olha só que luxo.

MÔNICA BERGAMO - PRESSA DE CHEGAR

PRESSA DE CHEGAR
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 19/08/11

Marcelo Malvio Alvez de Lima, motorista do Porsche que atropelou a advogada Carolina Cintra Santos, possui 24 pontos por cinco infrações registradas em sua carteira - quatro delas por excesso de velocidade. Com o veículo do acidente, ele teve duas multas em maio, no Guarujá e em São Bernardo. Na época em que o empresário prestou depoimento à polícia, apenas a primeira anotação veio a público.

CENTENA
Em 2010, com outro carro, Alvez foi flagrado duas vezes em menos de dois minutos, infringindo a velocidade na avenida Nove de Julho. Em uma delas, levou sete pontos por estar mais de 50% acima do limite, na época de 70 km/h. Estava, portanto, a mais de 100 km/h. Em agosto, já depois do acidente, recebeu cinco pontos, atribuídos a uma terceira placa, por "não registrar veículo no prazo de 30 dias".

SEM REGISTRO
Celso Vilardi, advogado de Marcelo, disse não ter conhecimento das multas.

LIMITE DE VELOCIDADE
Já no processo em que teve bens bloqueados, Alvez tentava derrubar a medida no Tribunal de Justiça. A Corte determinou que o recurso só seja apreciado após manifestação da família de Carolina.

NA REDE
O Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) entregará petição com 16 mil assinaturas na Câmara, contra a aprovação "prematura e equivocada" do projeto de Lei nº 84/99. Ele define condutas que devem ser consideradas criminosas na internet. Prevê monitoramento na rede e prisão, por exemplo, para acesso não autorizado de dados e informações.

NA REDE 2
O Idec teme que o projeto ameace "a privacidade do consumidor, criminalizando, além da invasão de sistemas e disseminação de vírus, também ações cotidianas dos consumidores na internet, como compartilhamento de conteúdos e transferência de músicas".

SEM FRONTEIRAS
Geraldo Alckmin e Dilma Rousseff oficializam mais uma parceria nos próximos dias. O governador de SP assinará o projeto do Rodoanel Norte, que terá um terço bancado pelo governo federal e dois terços, pelo estadual. A obra, que liga Cumbica a Santos, é de R$ 6,1 bilhões.

POLIGLOTA
E Alckmin anuncia hoje investimento de R$ 13 milhões para o CEL (Centro de Estudos de Línguas), que vai passar de 106 para 248 unidades no Estado de SP.

SURDINA
A executiva do PSDB paulista aprovou recomendação para que os diretórios municipais realizem prévias na escolha de candidatos às prefeituras.

ESCULTURAS À MOSTRA
A escultora Mary Carmen Matias inaugurou anteontem sua exposição "A Poética dos Volumes", no Espaço Cultural Citi, na avenida Paulista. Passaram pelo vernissage o marido de Mary, Antonio Jacinto Matias, Marlene e Roberto Setubal, do Itaú, o banqueiro Cândido Bracher e Gustavo Marin, presidente do Citibank no Brasil.

O MUNDO DE LINO
O estilista Lino Villaventura apresentou sua nova coleção de verão, nos Jardins, anteontem. Assistiram ao desfile a atriz Gabriela Alves e o fotógrafo Luiz Tripolli. O DJ Márcio Vermelho fez a trilha.

A NOVA VILA
O Santos pretende assinar até o final do ano o contrato para a construção do novo estádio do clube. A arena, feita com investimentos privados, ficará dentro de um empreendimento imobiliário que será erguido no terreno de uma rede de supermercados na Baixada Santista. A nova casa, de 40 mil lugares, receberá os jogos mais importantes do Peixe. A Vila Belmiro será usada para partidas de menor público.

ÓCIO PRODUTIVO
Um sócio do Paulistano anda distribuindo cartões "Tempo Livre - serviços personalizados" pelo clube. Marcello Nogueira Neto cobra R$ 70 a hora para fazer qualquer coisa. Ele se dispõe a acompanhar grupos de adolescentes em shows como o do U2, jogar boliche com a criançada e levar o carro para revisão.

CURTO-CIRCUITO

O desembargador Fausto Martin De Sanctis coordena, do próximo dia 26 até 23 de setembro, o seminário "Poder Judiciário e Imprensa - Um Diálogo Aberto", no auditório do Tribunal Regional Federal da Terceira Região.

A festa pernambucana Sem Loção comemora um ano em São Paulo com uma edição especial amanhã, a partir de 23h, na rua 13 de maio, 409. 18 anos.

Blubell faz show no domingo, às 21h, na Casa de Francisca. Livre.

Lia Jordão e Ana Cristina Ferreira inauguram nesta semana ateliê de doces no bairro de Pinheiros.

Acontece hoje a festa Ponte Aérea no clube Tonk, a partir das 23h30. Classificação: 18 anos.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY