quinta-feira, setembro 12, 2013

Estado de Bem-Estar e desigualdade - ADIB JATENE

FOLHA DE SP - 12/09

Enquanto grupos vivem na opulência, parte da população se rejubila por sair da miséria para a pobreza. E o governo faz disso sua meta maior


Desenvolver o Estado de Bem-Estar Social em país que convive com ampla desigualdade tem-se demonstrado como algo irrealizável.

Conforme constatou Sonia Fleury em artigo publicado no "Le Monde Diplomatique Brasil" ("Do Welfare ao Warfare State"), apesar de a nossa Constituição ter estabelecido o objetivo da democracia social, sob o primado da justiça social, o que assistimos é a uma regressão.

De fato, passados 25 anos de promulgação da Constituição Federal, observa-se, segundo a autora, "uma transmutação regressiva do social, com a presença de valores conservadores, além do incentivo ao empreendedorismo individual e ao consumismo, em detrimento de formas solidárias de sociabilidade e da existência de mecanismos institucionais de proteção social pública".

Por que trilhamos caminhos que conflitam com o espírito da Constituição e nos conduzem a situações inaceitáveis? A indagação me leva à conclusão de que a nossa Constituição é uma formulação teórica que não consegue se realizar na prática, porque o país é muito desigual.

O Orçamento federal não permite correção das desigualdades, porquanto, resta para despesas discricionárias pouco mais de 10% do total orçado. Isso significa que quase 90% estão comprometidos com despesas obrigatórias.

Dos recursos discricionários, 43% completam os orçamentos da saúde e educação e 29% se destinam ao PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) e ao Bolsa Família.

De um Orçamento de R$ 2 trilhões, resta, portanto, apenas R$ 56 bilhões, com os quais o governo federal tem de atender a pleitos de 39 ministérios, do Poder Legislativo e do Poder Judiciário.

Enquanto isso, na área privada, crescem sinais de opulência, como se constata pela construção de prédios luxuosos que deixam áreas da cidade parecendo as de um país com US$ 60 mil de renda per capita. Por outro lado, observa-se a ampliação assustadora da frota de veículos, a ponto de faltar ruas para abrigar o tráfego crescente.

Dos proclamados 36% de carga tributária do PIB (Produto Interno Bruto), cerca de 14% são dos aposentados e pensionistas. Ao governo se destinam 22% da carga --número totalmente insuficiente para atender às demandas urbanas criadas pela transição demográfica.

Isso só pode ocorrer porque os que geram receita se apropriam dela em vez de transferir ao governo boa parte dos recursos que seriam destinados a atender as necessidades da população. Por isso convivemos com opulência e pobreza.

Não sei como se pode falar em Estado de Bem-Estar Social nessas condições. Enquanto grupos nacionais e internacionais vivem na opulência, parte significativa da população se rejubila por sair da miséria para a pobreza. E o governo federal faz disso sua meta maior.

Conta-se por bilhões o lucro de entidades financeiras, mas os verdadeiros responsáveis pela produção, especialmente a agropecuária, cuja participação tem impulsionado o balanço positivo de pagamentos, mantêm-se assustados e inseguros quanto ao futuro.

Como não se consegue ativar a economia, talvez se possa reduzir a desigualdade aplicando parte do montante destinado a perpetuá-la e agravá-la em medidas que, ao contrário, a mitiguem.

O governo já dá sinais nessa direção quando aceita as parcerias público-privadas e caminha no sentido de transferir para a iniciativa privada investimentos que até recentemente considerava exclusivos do poder público.

Resta saber se os que se apropriam de boa parte da receita gerada estão dispostos a correr o risco de se envolverem nas mudanças sinalizadas, que, ao final, irão reduzir a desigualdade e criar ambiente mais saudável, combatendo a violência que a todos incomoda.

Dois pesos, duas medidas - TÂNIA RANGEL

O GLOBO - 12/09

O Supremo caminha para permitir um segundo julgamento para todos aqueles que sofrem ou poderão sofrer uma ação penal originária no Supremo. O que significa que somente o presidente da República, o vice-presidente, deputados federais, senadores, ministros do governo e o procurador-geral da República teriam direito a esse segundo julgamento. 

Governadores de estado, prefeitos municipais, deputados estaduais, vereadores, secretários estaduais e municipais, juízes, não. Estes serão julgados ou pelo Tribunal de Justiça, ou pelo Tribunal Regional Federal ou pelo Superior Tribunal de Justiça. E não terão direito a entrar com embargos infringentes.

Não terão o seu caso, com a reavaliação de provas, novamente julgado pelo Judiciário.  Além disso, para as milhares de pessoas que têm um processo no Judiciário e esperam um dia ter o seu caso  decidido pelo Supremo, a fim de terem uma sentença definitiva e, enfim, poderem exercer o seu direito, o segundo julgamento também não existe.

E muitas vezes, sequer o primeiro.  Isso porque, desde 2007, quando foi implantada a Repercussão Geral, o Supremo somente julga o processo que demonstrar se tratar de assunto relevante, que têm outros casos parecidos sendo julgados no país. Se isso não ficar provado, o processo não é aceito e fica valendo a decisão que já consta no processo, proferida por outro tribunal. 

Pela decisão do Supremo de ontem, para um grupo "privilegiado" de pessoas, a decisão que prepondera é que há direito a um segundo julgamento. Mas, para o restante da população, inclusive para outras autoridades, não.  Muitos criticam o Judiciário por ser um poder que privilegia elites econômicas e sociais, onde a maior parte das condenações são feitas a pessoas de baixa renda. Estaria o Supremo agora criando uma elite política? 

Tempos brutos, tempos sórdidos - JOSÉ SERRA

O Estado de S.Paulo - 12/09

Ao dar entrevistas sobre o 40.º aniversário do golpe militar que derrubou o presidente Salvador Allende, no Chile, em 11 de setembro de 1973, fui indagado sobre minha experiência pessoal. Eu morava em Santiago havia mais de oito anos, exilado do Brasil. Lá estudei Economia e me tornei professor da Universidade do Chile. Trabalhei na Comissão Econômica para a América Latina da ONU e na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, a FLACSO.

Nunca deixei de acompanhar o que acontecia no Brasil e fui um dos principais organizadores de um comitê que divulgava as denúncias de torturas e assassinatos cometidos em nosso país. Fizemos um livro sobre o assunto e obtivemos a convocação do Tribunal Bertrand Russell para julgar as violências da ditadura. Com frequência eu recebia novos exilados, ajudando-os a entrosar-se na vida estudantil e profissional, por vezes hospedando-os em casa. Betinho foi um deles. Cesar Maia, outro, a quem recomendei o curso da Escola de Economia e ajudei a conseguir a matrícula. Apesar de distante do dia a dia da Ação Popular e de suas ações no Brasil, avistava-me com dirigentes que passavam por lá, vários deles posteriormente presos, torturados e assassinados.

No ano anterior ao golpe assessorei o ministro da Fazenda chileno, sem me afastar da FLACSO, onde eu era funcionário internacional. Coordenei uma espécie de reforma tributária, uma lei orçamentária e redigi um plano, que nunca saiu do papel, de estabilização da economia chilena, à época com inflação superior a 20% ao mês, desabastecimento, mercado negro generalizado, estrangulamento externo brutal, produção em queda, microeconomia desorganizada no campo e nas cidades, acirramento dos conflitos sociais e políticos. O espectro já fazia sua sombra.

Sem dispor da maioria dos chilenos nem do Congresso, a Unidad Popular havia tentado implantar o socialismo pela via democrática. Socialismo de verdade, com estatização dos grandes meios de produção, das finanças e do comércio e uma reforma agrária radical, que desapropriava fazendas acima de 40 hectares. O intento se frustrara. Era preciso, então, encontrar uma saída política que preservasse a democracia e permitisse consertar a economia. Mas, como diria São Lucas, a porta era estreita.

O golpe começou de manhã, com o bombardeio aéreo ao palácio presidencial e posterior invasão, seguidos do suicídio de Allende. No fim da tarde soubemos que o comandante do Exército, general Augusto Pinochet, até então considerado legalista, assumira a chefia. Na televisão, mostrou sua cara de buldogue enfezado, voz desafinada e espanhol rudimentar. Na mesma TV, outro general delirava, afirmando que havia no Chile um exército comunista de 10 mil estrangeiros. Estimulava a população a denunciá-los.

Passei a atuar como elo entre, de um lado, as organizações internacionais que lá operavam - a maioria ligada à ONU, as quais tiveram papel admirável naqueles dias de loucura assassina - e, do outro, estrangeiros refugiados, que eram muitos. Cheguei a negociar a abertura da pequena Embaixada do Panamá para receber asilados brasileiros. Logo eram mais de uma centena. Levava alguns no meu carro e deixava lá alimentos e remédios.

No fim de setembro, uma patrulha militar foi prender-me na FLACSO. Ante a informação de que eu não estava (embora estivesse) e da reação indignada do nosso diretor, pois o prédio era legalmente território estrangeiro, os soldados se foram. Passei, então, sem asilo formal, a dormir na casa do embaixador da Itália. Diante do protesto pela tentativa de prisão, pois eu tinha imunidade diplomática, a Chancelaria chilena acabou pedindo desculpas e renovou meu visto oficial, com a garantia de que não haveria problemas. Por isso, em 14 de outubro rumei para o aeroporto com a minha família. Estava claro que o mais prudente era sair do Chile. A prisão era questão de tempo - e não de muito tempo.

Na sala de embarque, já carimbados os passaportes, em companhia de minha mulher, carregava no colo meu filho de 3 meses e falava com minha filha de 4 anos, apontando o avião que nos esperava na pista. Subitamente fomos interrompidos por um policial civil, que anunciou minha prisão. Caíra numa armadilha.

Levaram-me para a ala de desembarque, algemado. Sentado numa cadeira no corredor, trocava olhares furtivos com os passageiros que chegavam. Aprendi na hora que, quando se mexem os pulsos, as algemas apertam ainda mais, machucam. Passei a noite na sede da polícia civil, no sofá de plástico de uma sala, onde os detetives jogavam ludo e conversavam aos gritos. Gentilmente me ofereceram um cobertor. Enquanto eu falava com eles sobre futebol e o Palmeiras, a fim de disfarçar a angústia. No final consegui cochilar.

De manhã, num interrogatório algo idiota, percebi que a prisão se deveria à interferência do governo brasileiro. Cresceu minha inquietação. Fui então levado para o Estádio Nacional, transformado em presídio e lugar de torturas e assassinatos. Deveria ser interrogado pelo Exército, mas acabei saindo de lá antes disso, por autorização de um major chamado Mario Lavanderos, sob o compromisso de que voltaria no dia seguinte, o que, obviamente, não fiz. A experiência do estádio está a merecer outro artigo.

Fiquei na Embaixada da Itália quase 200 dias, sem salvo-conduto. O general Herman Brady, comandante de Santiago e brucutu emergente, dizia não se conformar com o fato de eu não ter sido "interrogado". E o relatório manuscrito de um agente brasileiro dizia que o governo chileno estava à minha procura e assegurava, com o peculiar humor dos torturadores, que eu seria "bem tratado". O major Lavanderos, que autorizou a minha saída do estádio, foi morto a tiros dois dias depois, num quartel do Exército. A perícia demonstrou que não foi suicídio.

Eram tempos brutos. Eram tempos sórdidos. A defesa da democracia me levou ao duplo exílio, ao duplo desterro, do Brasil e do Chile. Os valores que me fizeram resistir estão vivos em mim e definiram para sempre a minha vida de homem público.

As faixas do Haddad - ROGÉRIO GENTILE

FOLHA DE SP - 12/09

SÃO PAULO - Fernando Haddad está há quase nove meses à frente da Prefeitura de São Paulo, mas, sem dinheiro para grandes coisas, ainda não ultrapassou a fase do "quer". Haddad quer fazer isso; Haddad quer fazer aquilo. Na prática, até agora, sua gestão se limita a atualizar o modelo de Washington Luís. Governar, para o petista, é pintar faixas de ônibus.

O prefeito saiu desgastado dos protestos de junho, quando foi obrigado a desistir de aumentar a tarifa do transporte coletivo horas depois de dizer que isso afetaria investimentos importantes da prefeitura e que não adotaria uma medida de "caráter populista". Pressionado por Dilma e Lula, teve de engolir suas palavras.

Agora, enquanto espera ajuda federal, tenta ganhar tempo divulgando projetos e apostando no velho receituário do marketing político, segundo o qual não há nada melhor do que uma medida polêmica para resgatar sentimentos e encobrir dificuldades. Com as tais faixas de ônibus, Haddad sabe que desagrada boa parte da classe média, mas conta com o apoio da grande maioria, que depende do transporte coletivo.

O problema é que as faixas, embora, como política pública, estejam na direção certa, são soluções de efeito limitado, sem a mesma eficácia de um corredor de ônibus segregado --que não fica sujeito a interferências de veículos que precisam mudar de rua ou entrar em garagens.

E, nitidamente, foram implantadas de modo improvisado. Haddad pretendia criar 150 km de faixas até dezembro de 2016, mas, no calor dos protestos, antecipou a implantação para o final deste ano e ainda aumentou a previsão para 220 km.

Com a pressa, emergiram situações despropositadas como a que se vê na avenida 23 de Maio. Haddad implantou a faixa exclusiva, mas não reorganizou as linhas de ônibus. E o resultado, em vários momentos do dia, é um só. De um lado, trânsito pesado. De outro, faixa de ônibus completamente vazia...

Expectativas & direitos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 12/09


No PT, há quem considere a suspensão da sessão de ontem do Supremo Tribunal Federal um movimento proposital no sentido de usar a repercussão de hoje como um empurrãozinho para que os ministros restantes acompanhem o voto do relator

A alegria de petistas ilustres ontem no Congresso Nacional nada tinha a ver com as votações ou com a perspectiva de acordo para a manutenção de alguns vetos que entram em pauta na semana que vem. Os sorrisos estavam diretamente relacionados aos quatro votos a dois obtidos no Supremo Tribunal Federal (STF) em favor de uma reanálise do processo do mensalão, naqueles julgamentos em que os réus tiveram quatro votos pela absolvição. Há, no partido, esperanças renovadas, em especial, nos casos de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, que tiveram seis a quatro nos respectivos julgamentos por formação de quadrilha; e ainda no de João Paulo Cunha, que também obteve o mesmo placar quando condenado por lavagem de dinheiro.

O difícil, entretanto, é explicar ao cidadão comum que esses crimes serão julgados novamente. Conforme comentava ontem um deputado, há, no imaginário popular, aquela sensação de que esses ilustres personagens vão para a cadeia. Mas, se os embargos forem aceitos, o caso não terminará este ano.

A fisionomia alegre dos petistas com a nova chance mudou quando o presidente do STF, ministro Joaquim Barbosa, encerrou a sessão de ontem. No partido, há quem considere que, nas entrelinhas daquela decisão (de encerrar a sessão), houve o propósito de aproveitar a repercussão de hoje para ajudar os ministros restantes a acompanharem o voto do relator, pelo não acolhimento dos embargos. Assim, o julgamento acaba mais cedo e o cumprimento das penas pode sair ainda este ano. Entretanto, esse palpite dos petistas não tem muito sentido, uma vez que os ministros que faltam voltar são os mais experientes da Casa e não costumam se deixar levar apenas por barulho. O melhor que se faz é aguardar o resultado. Afinal, como diz o velho ditado popular, cabeça de juiz e barriga de mulher...

Enquanto isso, no Poder Legislativo...
O ex-deputado Vivaldo Barbosa, do PDT do Rio de Janeiro, acompanhava ontem um grupo de engenheiros da Petrobras no Congresso. O objetivo da visita era tentar obter com as excelências um decreto legislativo para suspender o leilão do poço de Libra, na camada pré-sal. “Libra é o maior poço de petróleo do mundo. Foi cedido à Petrobras para que a empresa fosse capitalizada. A nossa empresa tem condições de explorar a área. Não faz sentido o governo agora querer leiloar, uma vez que a legislação diz que reservas estratégicas podem ser negociadas sem leilão. Agora, a presidente quer abrir aos estrangeiros US$ 1 trilhão. Não se leiloa campo já descoberto”, comentou Fernando Siqueira, da Associação dos Engenheiros da companhia.

Siqueira conseguiu convencer muitos senadores da base na primeira conversa. Dilma, que defendeu tanto a riqueza nacional para os brasileiros, terá, daqui a pouco, mais esse pacote para desembrulhar.

E no Panteão da Pátria...
A homenagem a Tancredo Neves ontem, no Panteão da Pátria, em Brasília, foi mais um movimento do PSDB no sentido de reunir antigos aliados, no caso, integrantes do PMDB, hoje insatisfeitos com Dilma. Há muita gente na torcida para que as recordações de ontem sirvam para embalar alguns peemedebistas rumo ao projeto tucano de 2014.

E no Ceará...
Ali, também se comentou que o governador do Ceará, Cid Gomes (PSB) ouviu do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, o desejo de ser candidato a presidente no ano que vem, mas não retribuiu com uma declaração de apoio. Hoje, estão todos jogando. Cid acena para Dilma, enquanto o PMDB fica com a presidente, mas não deixa de fazer sua fezinha em outras praças. Mas essa é outra história.

Decisão política - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 12/09
Acusado pelos petistas e por seus seguidores de ter agido como um tribunal de exceção, que teria condenado os mensaleiros em um processo político, o Supremo Tribunal Federal (STF), com sua nova composição, caminha para tomar hoje uma decisão que tem um viés claramente político, mas a favor dos mesmos condenados, pondo assim em xeque a credibilidade da Corte.
O provável resultado final da votação sobre os embargos infringentes, placar de 6 a 5 ou 7 a 4 a favor de eles serem reconhecidos pelo STF como recursos válidos em uma sentença em que o condenado receba ao menos quatro votos a favor, mostra como a questão não é pacífica nos meios jurídicos.

Alguns dos ministros que votaram a favor do reconhecimento dos embargos infringentes sugeriram mesmo que eles poderão ser revogados mais adiante pelo STF, como fez Luís Roberto Barroso, ou que são instrumentos anacrônicos, como Rosa Weber. E até mesmo o duplo grau de jurisdição, que seria a garantia do devido processo legal para os condenados, foi tratado por Dias Toffoli como elemento secundário, quase nulo, na defesa dos infringentes.

Ministro Luiz Fux comentara que "a adoção do duplo grau de jurisdição é uma escolha política. E a Lei 8.038 não fez a opção política para tratar dos embargos infringentes" e Toffolli teve que admitir que a Constituição não trata da questão.

Três dos quatro ministros que votaram ontem a favor dos embargos infringentes o fizeram por uma interpretação estrita da letra da lei, recusando-se a olhar o conjunto da legislação para interpretar os objetivos da Lei 8.038. De fato, essa lei de 1990 não revogou explicitamente os embargos infringentes, mas, como salienta o Ministro Marco Aurélio Mello, "o sistema não fecha" se verificarmos que os réus condenados pelo Superior Tribunal de Justiça não terão direito aos embargos infringentes, e os do STF, sim.

Para Fux, é ilógico que em nenhum outro tribunal caibam os embargos infringentes para ação penal originária e questiona: "Por que no Supremo caberia? O segundo julgamento seria melhor?" Para ele, se o Supremo aceitar os embargos infringentes, o mesmo plenário se debruçará sobre as mesmas provas, o que caracterizaria uma revisão criminal disfarçada.

Nesse caso, porém, há um detalhe politicamente relevante: o plenário que reveria aspectos do julgamento do mensalão seria diferente daquele que condenou os réus, com a entrada de Barroso e Zavascki no lugar de Ayres Britto e Cezar Peluso. O que dará à opinião pública a percepção de que a presença dos dois novos ministros do STF facilitou a vida dos mensaleiros.

O que fez com que o presidente do Supremo, Joaquim Barbosa, comentasse com sarcasmo: "O plenário de 2015 será melhor que o de 2014 e assim por diante." E Marco Aurélio fez outra intervenção: "Talvez por sermos pessoas menos experientes" disse ironicamente.

Entre as muitas incongruência registradas na sessão de ontem, o ministro Barroso, que já fizera um pronunciamento em sessões anteriores contra o prolongamento dos julgamento, afirmando que era preciso acabar com a ideia de que o devido processo legal é aquele em que o julgamento não acaba nunca, ontem aceitou os embargos infringentes mesmo dizendo que estava farto desse julgamento, que precisava terminar. E propôs que os ministros fizessem um compromisso de dar ao julgamento dos embargos infringentes a celeridade compatível com o devido processo legal.

Fux reclamou do prolongamento do caso, que até aqui teve, segundo ressaltou, todas as garantias constitucionais preservadas.

Sabendo-se da tendência do Ministro Ricardo Lewandowski de votar a favor dos infringentes, e da dos Ministro Marco Aurélio e Gilmar Mendes de rejeitá-los, a decisão do julgamento está nas mãos de dois ministros: Cármen Lúcia e Celso de Mello. Se Cármen Lúcia for contra os embargos infringentes, a votação chegará empatada ao último voto do decano, que já se mostrou favorável aos embargos infringentes no início do julgamento, depois declarou-se "reflexivo" diante das graves conseqüências da decisão, e nos últimos apartes parece estar mesmo decidido a aceitá-los.

Por mais que queiram definir como técnica a decisão, os ministros que estão escolhendo aceitar os embargos infringentes estão deixando claro que a decisão é política, já que eles próprios admitem que há argumentos ponderáveis para os dois lados.

Direitos dos outros - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 12/09

A Convenção Americana dos Direitos Humanos assegura aos condenados o 'duplo grau de jurisdição'


Com quatro votos dos seis já emitidos, os réus do mensalão que pretendem um reexame das suas acusações contam, hoje, com a melhor probabilidade na decisão do Supremo Tribunal Federal.

Dos cinco votos ainda em falta, dois são dados como contrários à pretensão, e até já bastante prenunciados pelos ministros Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes. A aprovação do reexame, por sua vez, depende apenas de dois dos três votos restantes, dos quais um, o do ministro Ricardo Lewandowski, é tido como já definido. E que se apresente mais um, na mesma linha, dos ministros Cármen Lúcia ou Celso de Mello, não pode surpreender a ninguém.

Mas o julgamento do mensalão deixa a visão de um tratamento prejudicial aos condenados que, por não serem congressistas, normalmente não seriam julgados pelo Supremo Tribunal Federal, mas em processos com tramitação convencional a partir da primeira instância. Como civis comuns, que são.

Decisão majoritária, não unânime, apoiou o desejo do relator Joaquim Barbosa de que os acusados do mensalão fossem todos julgados em conjunto, nas condições próprias de senadores e deputados. Isso, no chamado julgamento do PT, bem entendido, que ao do PSDB foi concedida a tramitação convencional.

O resultado para os não congressistas do mensalão é que, se não tiveram ao menos quatro votos favoráveis, lhes foi retirado o direito de recorrer das sentenças na segunda instância, por ser o STF a última instância judicial, e de pretender o reexame do próprio Supremo.

Ocorre que a Convenção Americana dos Direitos Humanos, mais do que prevê, assegura aos réus condenados, como direito fundamental, o chamado "duplo grau de jurisdição", ou seja, a possibilidade de recorrer para um exame da acusação e da sentença por instância superior à que as emitiu. Os não congressistas do processo do mensalão perderam o que, em princípio, seria garantido.

Em seu voto contra os "embargos infringentes", de cuja aprovação depende o reexame, o ministro Joaquim Barbosa pronunciou-se contra o "duplo grau de jurisdição". O ministro Luiz Fux fez referências à Convenção Americana dos Direitos Humanos em um e em outro sentido, mas sem desviar-se do já esperado acompanhamento ao voto de Joaquim Barbosa.

A Constituição não se ocupa com o "duplo grau de jurisdição". Mas ainda há pouco o Brasil se empenhou muito, com êxito, na eleição do ex-ministro Paulo Vannuchi para a Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da OEA. E o fundamento orientador da comissão é a convenção. Assim como é básico na Corte Interamericana de Justiça.

Além da mancha causada pela situação injustamente prejudicial dos réus não congressistas, o julgamento do mensalão deixa um mal-estar em âmbito internacional. Mais uma vez, em razão de direitos humanos.

A multa e o carimbo da inépcia - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 12/09

Continuando sua cruzada contra o bom senso econômico e as boas normas de política fiscal, a presidente Dilma Rousseff insiste na manutenção da cobrança de 10% de multa sobre o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), nos casos de demissão sem justa causa. Lei aprovada pelo Congresso declarou extinta essa multa. A presidente vetou essa lei e agora tenta mobilizar a base aliada para evitar a derrubada do veto. Esse foi um dos temas de reuniões, nesta semana, com líderes da base no Parlamento. Segundo o governo, a derrubada do veto causará uma perda de até R$ 3,6 bilhões por ano ao programa Minha Casa, Minha Vida. A ideia é manter esse dinheiro disponível para o programa e, para isso, o Executivo poderá enviar um projeto ao Legislativo. Essas alegações são autodestruidoras.

A multa foi instituída em 2001 para um objetivo bem definido: compensar o rombo causado pela indenização às pessoas prejudicadas pelos Planos Verão e Collor 1. Essa finalidade foi alcançada no ano passado, segundo informaram oficialmente os gestores do FGTS, e em julho se poderia extinguir aquela cobrança. Congressistas aprovaram a extinção um ano depois, mas a cúpula do Planalto decidiu rejeitar essa decisão, porque o governo se tornara dependente de uma receita fiscal com validade vencida.

Tentando manter essa receita para outro fim, a presidente cobra do Parlamento, de fato, a instituição de um novo tributo. Talvez ela nem perceba esse detalhe, mas o fato é esse: com a nova destinação, altera-se a natureza da multa. A ideia de simplesmente prorrogar a cobrança com uma justificativa diferente é mais uma aberração, um digno complemento da contabilidade criativa e de outras anomalias fiscais deste governo.

Mas essa aberração é parte de um pacote de más ideias. A presidente propõe mais uma vinculação de receita, ao defender a destinação obrigatória da multa a um programa habitacional. Os brasileiros têm longa experiência com vinculações orçamentárias e já deveriam ter aprendido algo útil sobre o assunto. Se verbas carimbadas fossem uma garantia de bons resultados, estudantes alcançariam resultados muito melhores nos testes internacionais de língua, matemática e ciências naturais. Além disso, o analfabetismo funcional - atributo de cerca de um quinto das pessoas com idade igual ou superior a 15 anos - seria um problema bem menos grave do que é.

Verbas com destinação obrigatória também teriam garantido, se realmente garantissem alguma coisa, condições de saúde muito melhores. O governo teria aplicado muito mais dinheiro, e com mais eficiência, em programas de saneamento básico e de assistência médica.

Não há, no entanto, nenhuma relação necessária entre a alocação obrigatória de recursos e os resultados obtidos. A experiência brasileira aponta uma realidade muito diferente: na prática, a verba vinculada torna dispensáveis bons planos, bons programas e competência na prestação de serviços, além de facilitar a corrupção.

Vinculação é um dos sonhos de ministros incompetentes ou preguiçosos, porque os libera de apresentar boas ideias e resultados bons para justificar a sua demanda de recursos. Quem tem verbas garantidas pode imprimir e distribuir centenas de milhares de manuais de baixa qualidade e ainda apregoar a ideologia do analfabetismo: para que complicar, quando "os menino pega os peixe" soa tão bem?

Mas a presidente propõe mais vinculações e para isso tem o apoio de muita gente no Congresso e na liderança de movimentos sociais. Algumas ideias, como a de aplicar 10% da receita corrente bruta da União em saúde, podem ser incômodas para o Executivo, mas o princípio é geralmente aceito. Daí a contraproposta de repasse, em até dois anos, de 15% da receita líquida. Os números são diferentes, mas a concepção básica é a mesma.

O equívoco domina a discussão sobre verbas. O Executivo propõe vinculações para as emendas de parlamentares, em vez de tentar racionalizar o debate. Mas como pensar em racionalidade quando se aprova, com aplauso presidencial, o duplo carimbo - educação e saúde - dos royalties do petróleo?

O tabu do suicídio - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 12/09

Ainda é forte o tabu em torno do suicídio. Trata-se de tema do qual pouco se fala. Não raro familiares tentam, e muitas vezes conseguem, obter a omissão da causa no atestado de óbito.

Uma das consequências desse pacto tácito de silêncio é a baixa difusão de uma informação relevante: o suicídio é um problema significativo de saúde pública.

Em 2011, por exemplo, de acordo com o Datasus, 9.852 brasileiros se mataram. Considerando-se o fenômeno da subnotificação, o número real tende a ser ainda maior. Mesmo subestimada, a cifra representa pouco menos do que o total de óbitos decorrentes de quedas (10.788) e bem mais do que o provocado por afogamentos (5.450) e incêndios (1.051) --casos que costumam despertar comoção.

Em termos proporcionais, ocorrem 4,9 suicídios por 100 mil habitantes, taxa que tem crescido ao longo dos anos. Pode não parecer tanto, se comparada a homicídios (27,1 por 100 mil) ou acidentes automobilísticos (20,2 por 100 mil). Nesse quesito, porém, é o Brasil que destoa das tendências globais.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, as taxas de suicídio ficam, em geral, entre 10 e 30 por 100 mil, chegando a passar de 40 em alguns casos --Rússia e Lituânia, por exemplo.

É, assim, uma das principais causas de morte do planeta. No ano 2000, 815 mil pessoas tiraram a própria vida. Isso representa mais do que o total de assassinatos (520 mil) ou de mortos em guerras (310 mil) no mesmo ano.

O que torna os suicídios tema de especial interesse para a saúde pública é o fato de serem em princípio evitáveis. Com efeito, a maioria dos casos --cerca de 90% deles, segundo vários estudos-- está associada a transtornos mentais tratáveis, sobretudo estados depressivos e dependências químicas.

Mais interessante ainda, o melhor fator preditivo de um suicídio é a tentativa prévia. De cada quatro pessoas que procuram tirar a própria vida, uma repetirá a dose no ano seguinte. De cada dez que tentam, uma terá sucesso.

Um sistema de saúde bem preparado, que identifique rapidamente os pacientes com potencial suicida e os encaminhe para tratamento psiquiátrico, conseguiria evitar muitas dessas mortes.

No papel, existe desde 2006 um programa desse tipo, consubstanciado nas Diretrizes Nacionais para a Prevenção do Suicídio. Na prática, entretanto, os resultados são pífios. Apesar de repetidas promessas governamentais, o atendimento psiquiátrico continua sendo um dos grandes gargalos do SUS.

BC não pode abrir a guarda a injunções políticas - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/09

A hipótese, contida na última ata do Copom, de que a política fiscal (receitas x gastos) está deixando de ser expansionista para ser neutra não confere com os fatos



O Brasil tem taxas de juros mais elevadas que as de economias mais desenvolvidas ou mesmo as emergentes. Além de questões estruturais ainda não resolvidas, uma das principais razões para os juros altos no país está no grau de responsabilidade da política monetária na dura tarefa de conter a inflação. Os demais instrumentos de política econômica que poderiam colaborar no esforço de combate à inflação acabam contribuindo menos do que deveriam, e, por isso, as atenções dos mercados sempre estão voltadas para o Banco Central.

Com a inflação flutuando perigosamente no topo (6,5%) da meta estabelecida pelo governo, a falta de uma reação mais vigorosa por parte do BC chegou a ser interpretada, meses atrás, como decorrência de alguma injunção política sobre as autoridades monetárias. Juros mais compatíveis com os vigentes no mundo são uma antiga aspiração do setor produtivo no Brasil, e, de fato, durante um período, foi possível reduzir as taxas e testar patamares até então inéditos no país. No entanto, o governo acabou tomando isso como bandeira política, sem dar o devido respaldo, por meio de outros instrumentos, à política monetária. Assim, infelizmente, esses patamares mais baixos de juros não se sustentaram, e o Banco Central teve de de voltar a elevá-los, para desarmar as expectativas muito negativas que vinham se formando em torno dos índices de inflação. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Banco Central optou por mais uma alta de 0,5 ponto percentual, e os juros básicos chegaram a 9%, afastando-se dos 7,25% ao ano em que permaneceram por alguns meses.

A inflação arrefeceu, mas ainda se mantém acima do ponto central (4,5%) da meta. Não chegou o momento de afrouxamento da política monetária. Daí, os mercados projetarem alta dos juros básicas em próximas reuniões do Copom. No entanto, a mais recente ata do Comitê revelou uma avaliação das autoridades que, se não for bem esclarecida, pode ser preocupante. Segundo a ata, os dirigentes do BC consideram que a política fiscal (resultando das trajetórias de receitas e despesas do setor público) está deixando de ser expansionista e caminha para “a neutralidade”. É uma avaliação que não tem a concordância dos demais observadores da economia, a não ser que o BC disponha de dados que não foram divulgados.

O que se percebe é a dificuldade do setor público, com papel preponderante do governo federal, para alcançar as metas de superávit primário, mesmo reduzidas. Não há evidências que o rumo da política fiscal tenha se alterado substancialmente. Se o BC toma como parâmetro o discurso governamental e não os fatos, retornará à situação perigosa de ficar sujeito a injunções de ordem políticas, e não técnicas. A proximidade do ano eleitoral torna a questão mais preocupante, por haver a suspeita de que não interessaria à campanha de reeleição que os juros voltassem aos dois dígitos. Será dramático se o BC não puder combater a inflação como deve.

Depois da ameaça, a negociação - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/09

Se Bashar Assad puder ser levado a uma mesa de negociação, vale a pena esperar em vez de ordenar um ataque à Síria

Depois de uma semana em que a intervenção militar norte-americana na Síria era praticamente certa, as potências internacionais mergulharam em uma série de reuniões de negociação que parece não terminar tão cedo. Ontem, a Rússia entregou aos norte-americanos um plano de controle de armas químicas na Síria. Hoje, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, deve se encontrar com seu colega russo, Sergei Lavrov, na Suíça, e dessa reunião dependem os passos que serão tomados pelo Conselho de Segurança da ONU.

A Rússia, aliada incondicional do ditador Bashar Assad, barrou várias vezes no Conselho de Segurança sanções que poderiam enfraquecer o líder sírio, que enfrenta há dois anos uma revolta que se transformou em guerra civil e matou mais de 100 mil pessoas, segundo a ONU. No entanto, em uma reviravolta incomum na diplomacia mundial, são justamente os russos que podem emergir como “pacificadores” ao levar a sério o que parecia ser quase uma ironia de Kerry. Na segunda-feira, quando os ânimos ainda estavam exaltados (embora menos que na semana passada), o secretário de Estado norte-americano disse em uma entrevista que, se Assad entregasse logo seu arsenal químico para ser destruído, quem sabe o presidente Barack Obama não ordenaria o “ataque punitivo” – para acrescentar, logo depois, que considerava tal concessão por parte de Assad inverossímil.

Talvez a observação de Kerry (que, depois, afirmou que só disse o que disse porque ele e Obama já tinham discutido a possibilidade) indicasse que ele havia percebido o alcance do que acabara de dizer. Os russos certamente perceberam, e aproveitaram a deixa: Lavrov levou a sugestão aos sírios, que por sua vez concordaram, e é nessas bases que todos parecem estar discutindo agora. O chanceler sírio, Walid Muallen, afirmou que a Síria estaria até mesmo disposta a assinar a Convenção Internacional para a Proibição de Armas Químicas.

Que houve um ataque com armas químicas em Damasco no dia 21 de agosto já parece incontestável. No entanto, a controvérsia sobre sua autoria segue muito forte. Assad negou e continua negando qualquer ligação com as mortes de centenas de pessoas provocadas por gás sarin. Ontem, uma comissão da ONU sobre a situação na Síria divulgou um relatório no qual afirma que o governo sírio cometeu “crimes contra a humanidade” e os rebeldes, “crimes de guerra”. O texto menciona as acusações de uso de armas químicas, mas acrescenta que, “com base nas provas atualmente disponíveis, não foi possível chegar a uma conclusão sobre os agentes químicos utilizados, seu sistema vetor ou os autores desses atos. As investigações continuam” – no entanto, o relatório se refere a um período anterior ao ataque de agosto.

O governo norte-americano iniciou os preparativos para um ataque alegando que havia provas suficientes do envolvimento de Assad no uso de armas químicas. Ainda anteontem, Obama disse, em pronunciamento, “não haver dúvidas” de que o ataque químico era obra do governo. Mas o recuo atual parece conveniente, dada a oposição considerável da opinião pública à intervenção americana, a falta de consenso nas organizações internacionais e a ausência de aliados importantes, como o Reino Unido, onde o Parlamento vetou o envolvimento do país na ação.

Deixar de lado o ataque envolve um risco importante: a desmoralização da política da “linha vermelha” que não podia ser cruzada sob pena de uma retaliação militar. Se Assad realmente foi o responsável pelo uso de armas químicas, e se a solução russa funcionar, evitando o ataque, o ditador terá cruzado a tal linha sem pagar o preço. No entanto, nas circunstâncias atuais, os riscos de uma ação norte-americana são muito maiores que os da solução negociada. Se Assad puder ser levado a uma mesa de negociação, vale a pena esperar. Mas não deixa de ser curioso que Vladimir Putin, um ex-agente da KGB que governa seu país de modo muito pouco democrático, possa virar o responsável por evitar que Obama se torne o primeiro Nobel da Paz a ordenar uma ação militar contra um outro país.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Uma revisão criminal simulada”
Ministro Luiz Fux(STF) definindo a admissão de embargos infringentes


AMIGOS PEDEM QUE JOAQUIM ABANDONE O STF

A expressão “está tudo dominado” tem sido muito utilizada por amigos e interlocutores do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, para recomendar, inclusive em mensagens para seu celular, que abandone a Corte em protesto contra os rumos do julgamento do mensalão, com tendência para rever sentenças e livrar da cadeia 11 réus na ação, entre os quais o ex-ministro José Dirceu.

QUE QUADRILHA?

Condenado por “chefiar a quadrilha do mensalão”, José Dirceu pode se livrar da pena por formação de quadrilha, e escapar do regime fechado.

REVIRAVOLTA

Observadores experientes do comportamento dos ministros do STF acham que o mais provável é que o placar pró-mensaleiros será 6x5.

ATIRANDO NA TV

Amigos querem que Joaquim faça mais do que Adauto Lúcio Cardoso em 1971, e explique, em rede de TV, por que não ficaria no STF.

PRECEDENTE

Após ver julgada constitucional a lei de censura do ditador Médici, Adauto Lúcio Cardoso despiu-se da capa de ministro e saiu do STF.

“CUSTO-BENEFÍCIO FOI RUIM”

Alvo da espionagem americana, a presidente Dilma Rousseff confidenciou a ministros detalhes da “desaforada” conversa que teve com o presidente Barack Obama em São Petersburgo, na Rússia. No encontro reservado, Obama reconheceu a bisbilhotice contra brasileiros e que a prática é (e sempre foi) “comum” entre países. Mas admitiu: “O custo-benefício para nós foi péssimo, dada a proporção que tomou”.

CARA DE PAU

Dilma, que esperava ouvir um pedido de desculpas de Obama, contou a ministros que ficou embasbacada com a “cara de pau” do americano.

PERGUNTA SECRETA

Quando será criada a NSN, Agência Não Sei de Nada, para combater a espionagem americana da NSA?

BATEU, LEVOU

Do presidente do PMDB-PR, Orlando Pessuti, sobre Roberto Requião: “Tirou minha candidatura. Quem com
ferro fere, com ferro será ferido”. 

LOBBY DO OLIMPO

Advogados que militam em tribunais superiores afirmam que Lula “operou” fortemente no STF, junto a ministros nomeados por ele e por Dilma, pela admissão dos embargos infringentes, para rever o caso.

FAZENDA DOS BICHOS

Na defesa de seu voto a favor dos embargos infringentes que permitem novo julgamento dos mensaleiros, o ministro Teori Zavascki falou até em “quadrúpedes”. Ele não se referia ao respeitável público.

VOZ DA EXPERIÊNCIA

Em evento patrocinado pelo Instituto Lula, o ex-presidente questionou a falta de “decisão judicial” para Barack Obama espionar Dilma. O ex-caseiro Francenildo, da conta invadida na Caixa, sabe como funciona.

ELE É TÃO BONZINHO...

O presidente cocaleiro da Bolívia, Evo Morales, que legalizou carros roubados do Brasil, vai indultar e expulsar brasileiros presos por tráfico de drogas que cumpriram parte da pena, mandando-os de volta.

FERRAÇO 2014

Em reunião na terça, o vice Michel Temer e os presidentes da Câmara, Henrique

Alves, e do Senado, Renan Calheiros, além de Valdir Raupp (PMDB) acertaram de lançar Ricardo Ferraço ao governo capixaba e Paulo Hartung ao Senado, em 2014. Ao PT, sobraria a vaga de vice.

NOVO ASSÉDIO

O Sinditamaraty considera “assédio processual” a ação judicial em que é acusado pelo embaixador Américo Fotenelle, que é investigado por assédio moral e sexual no consulado-geral em Sydney (Austrália).

ADMIRAÇÃO

A ministra Laurita Vaz, do TSE, não agrada muito a um grupo do Rede, partido em formação de Marina Silva, mas há quem a admire, como o deputado Walter Feldman (SP), que elogia seu equilíbrio e sua firmeza na condução do caso. Feldman é o provável futuro presidente do Rede.

LIÇÃO DE CASA

Na mira da extradição por fraudar € 80 milhões de investidores, o advogado irlandês Michael Lynn criou com brasileiros uma tal de Quantum Assessoria, perto de Recife, para investir no Porto de Suape.

PENSANDO BEM...

Ficou para a Suprema Corte do Além o juízo final dos condenados do mensalão.


PODER SEM PUDOR

EM LISBOA, SÓ DOIDO

Em visita a Lisboa no fim de 2003, Fernando Henrique jantou com o ex-presidente Mário Soares e o ex-primeiro-ministro António Guterres, contando casos para ridicularizar seu ex-embaixador Itamar Franco:

- E vocês não sabem da maior: o doido não queria vir para cá, mas, para Buenos Aires, o que seria uma loucura à qual eu jamais chegaria...

Os portugueses trocaram olhares constrangidos, FHC tentou consertar:

- Um ex-presidente tinha de vir para um posto da importância de Lisboa...

Mas o estrago estava feito. Os portugueses se ofenderam com a gafe que confirmou o desprezo do francófilo FHC pelas relações luso-brasileiras.

QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Dia decisivo – Petistas já temem julgamento do mensalão em ano eleitoral
Folha: Novo julgamento de réus do mensalão está por dois votos
Estadão: STF tem 4 votos a favor e 2 contra novo julgamento
Correio: Mensalão perto de reviravolta no STF
Valor: Bancos financiam rodovias, mas garantia preocupa
Estado de Minas: Polícia Rodoviária Federal – Tem alguém aí? Não!
Zero Hora: Soja leva PIB a salto histórico no Estado
Brasil Econômico: Destino de aço usado na Perimetral no Rio vira polêmica

quarta-feira, setembro 11, 2013

ÍNDICE DAS POSTAGENS DE HOJE NO BLOG

Frances Ha: uma homenagem aos errantes - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 11/09


Anda difícil ser jovem. O leque de opções é farto e isso deixa qualquer um indeciso. E, até quando se decide com alguma convicção, pouco adianta: onde foram parar os empregos, onde estão os amores, o que fazer quando as coisas não saem como o esperado?

De uma coisa a protagonista de 27 anos do filme Frances Ha sabe: “dar certo” é algo muito relativo – e restrito. Existem poucas vias para o sucesso e inúmeras para o fracasso. A única maneira de conseguir vaguear pela vida sem lamentar as tentativas frustradas é reconhecer que a normalidade também pode ser manca, vesga e fanha. Mesmo quando tem chance de acertar, Frances prefere apostar no azarão: “Gosto das coisas que parecem erros”.

E já que ela revela isso com um sorriso no rosto, e não resmungando, subverte a questão e mostra que o “erro” pode ser um estilo de vida aceitável, é só cuidar para que ele não provoque isolamento nem nos conduza ao “ai de mim”. Arriscar com graça e autenticidade pode ser um acerto do avesso.

Nem todos querem ser campeões em tudo. Os errantes não aparecem nas colunas sociais nem são exemplos de virtude, mas têm um jeito próprio de se expressar e de existir, lutando para manter sua identidade mesmo na contramão do que se estabeleceu como “certo”. Conheço, por exemplo, quem prefira dias nublados e chuvosos, o que soa como errado, ainda que um erro poético.

Só que a poesia não tem nada a ver com essa preferência. Um dia, essa pessoa me confessou que gostava de dias nublados porque era quando não se sentia cobrada a “aproveitar a vida lá fora”. Ela aproveitava a vida por dentro, e o clima fechado era seu cúmplice diante de uma sociedade que decretou como certo que todas as pessoas devem frequentar parques e praticar exercícios ao ar livre. Quando chovia, ela tinha a rara oportunidade de se sentir enquadrada.

Há caminhos bem sinalizados para se ter uma vida plena, saudável e com garantia de receber uma estrelinha dourada ao final da jornada, mas há quem se sinta tentado pelos desvios. Qual o problema de não querer ter filhos ou de não desejar fazer parte da diretoria? Lembro de uma passagem divertida de um livro de Martin Page. O personagem recebe uma promoção e a recusa, questionando. “Por que sou obrigado a evoluir?”. O patrão insiste: “Mas você faz um trabalho excelente!”. E ele: “Não faço isso de propósito”.

Há quem não queira mais responsabilidades do que já tem, mesmo que isso implique ganhar menos dinheiro. Quem decretará que isso é falta de rumo?

Errantes somos todos, em algum aspecto. Fazer besteira para chamar a atenção é contraproducente, mas optar por alternativas não abençoadas pelo senso comum pode ser apenas uma maneira de levar a vida como se gosta.

Intelectuais pela liberdade - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 11/09

RIO DE JANEIRO - Se o Brasil conhece hoje a sua história no século 19, devemos isso aos biógrafos que se debruçaram sobre a vida dos homens que nos governaram por mais de 80 anos naquele período. Alguns desses estudiosos foram Oliveira Lima, autor de "D. João 6º no Brasil" (1908); Octavio Tarquínio de Sousa, de "A Vida de d. Pedro 1º" (1952); e Heitor Lyra, de "História de d. Pedro 2º" (1938-40).

Sem entender a vida de nossos monarcas, não entenderemos o país --porque este refletia o que se passava sob as coroas dos dois primeiros e a cartola do último. Aliás, graças aos biógrafos, sabemos que foi Pedro 2º quem trocou a coroa pela cartola --mais civil, moderna e democrática. Suponha agora que alguém da família Orleans e Bragança (ainda com representantes de peso no Rio e em São Paulo, Petrópolis, Paraty e Paris) considere tal informação desprimorosa para com o seu ilustre. Sob o artigo 20 do Código Civil, ele pode tirar essa biografia de circulação ou até impedir que seja publicada.

O mesmo está ao alcance dos herdeiros de Joaquim Nabuco, Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Carlos Lacerda, Celso Furtado ou de qualquer homem público. Mas esses nunca fariam isso, porque são pessoas esclarecidas e sabem da importância de seu parente para a história --inclusive no que, possivelmente, ele cometeu de errado.

Não se pode também escrever a história moderna do Brasil sem falar na música popular, no futebol, na televisão e em seus homens e mulheres. Hoje existem restrições legais a isso. Mas é fatal: um dia, todas as histórias serão contadas. O futuro está cheio de biógrafos.

Sábado último, na Bienal, li com orgulho um manifesto assinado por 49 importantes intelectuais, pedindo liberdade para as biografias no Brasil. Não deveríamos esperar pelo futuro.

Esconjuro! - ZUENIR VENTURA

O GLOBO - 11/09

Ilusão achar que os Black Blocs possam se sensibilizar com algum apelo civilizatório. O projeto ideológico deles não é o anarquismo, mas o simples vandalismo


Encontro-me nos EUA, mas ao contrário do que o querido Moreno anda espalhando não vim para preparar a viagem da Dilma, até porque nem ela sabe ao certo se vai haver. Também não é para promover as pazes dela com Obama, interrompidas desde que ele foi apanhado bisbilhotando a vida de nossa presidenta por meio de seus serviços de espionagem, uma prática muito feia do governo do companheiro Barack. Entende-se a irritação de que ela foi tomada, segundo assessores, ao saber que não só segredos de estado foram devassados, mas sua própria intimidade, pela invasão de e-mails e telefonemas. Lula tem razão, o seu ex-colega americano deveria ter tido a “humildade de pedir desculpas”, confessando o erro. Antes de ser uma obrigação diplomática era um dever de elegância que ele precisava ter cumprido senão como presidente, pelo menos como cavalheiro, por se tratar de uma dama. No recente encontro do G20, na Rússia, os dois discutiram a relação. Uma foto deles conversando cara a cara, lembram-se? parecia não deixar dúvidas. Mas se nem assim chegaram a um acordo, quem sou eu para tentar o reatamento desse casal político? De qualquer maneira, ainda resta uma esperança, pois expira hoje o prazo que ela lhe deu para tentar explicar a suposta traição. Será que ele vai conseguir? É difícil, porque quando se quebra a mútua confiança num relacionamento, é quase impossível restabelecê-la. Que desculpas ele dará? _ que não sabia de nada? que isso foi obra de uns aloprados? que vai tomar “enérgicas providências”? Nada será como antes.

Na verdade, vim de férias, e essa é a boa notícia: vocês vão estar livres de mim nessas próximas duas semanas. Só espero que não aconteça com Mary e comigo o que costuma acontecer com Lucia e Luis Fernando Verissimo, que andam por aqui também. Sempre que passam pelo país em setembro, alguma tragédia acontece. Em 1989, no dia 22 desse mês, foi o furacão Hugo, que causou bilhões de prejuízo e muitas mortes. Em 2001 foi _ e esse trágico episódio dispensa apresentação _ o atentado às torres gêmeas do World Trade Center. Foi cometido há exatos doze anos, contados dia a dia. Só falta agora uma guerra.

Esconjuro!

***

Ilusão achar que os Black Blocs possam se sensibilizar com algum apelo civilizatório. O projeto ideológico deles não é o anarquismo, mas o simples vandalismo. Suas máscaras não devem ser comparadas às do carnaval; têm mais a ver com as toucas ninjas usadas por grupos de extermínio.

Adoção - ROBERTO DaMATTA

O ESTADÃO - 11/09

"Eu quero mesmo é ser adotado". Essa foi a frase de despedida de um amigo muito amado. Eu sabia do seu drama. Envolvera-se com uma mulher que depois de amá-lo, maltratava-o; tudo agravado por um filho adotivo mentalmente perturbado com o qual não se preocupou. A culpa era dele, era dela, era do mundo em que vivemos. Todos estamos envolvidos e alienados — ou você leitor, tem alguma dúvida? — em tudo. Enxergamos com microscópio o que ocorre com o irmão e, no entanto, somos impotentes para mudar o seu malogrado destino.

Desta tragédia anunciada — aliás, o que não é anunciado neste nosso mundo onde o fim é a única certeza, como elaborou Garcia Marques num livro extraordinário? — ficou na minha mente a adoção como projeto.

Ser adotado é um gigantesco anseio que todos temos, mas poucos manifestam. Num nível profundo, a adoção como o internamento, a filiação a um partido, a crença absoluta ou a prisão domiciliar — esse privilégio nacional — trás o benefício de não se preocupar mais com a dureza de tomar decisões. Sobretudo da decisão paradoxal de não-decidir a qual só pode ser assumida de modo legitimo quando se decide.

Regimes escravocratas têm como base a adoção involuntária definitiva de uma pessoa (o escravo) por outra (o senhor) a qual incorporava o adotado na sua pessoa jurídica, tirando-lhe a representatividade e fazendo cair sobre ela todos os deveres, sobretudo o de trabalhar — esse ato que, no Brasil, até hoje promove alergias e designa inferiores.

Uma adoção completa, arrasa a liberdade e a responsabilidade como é o caso dos menores. Uma criança, embora tendo direitos inalienáveis, não decide por si mesma e nem deve fazê-lo sob pena de irresponsabilidade dos pais.

Lembro-me de um caso assombroso. Numa família de seis filhos (duas meninas e quatro meninos) ocorreu uma manifestação. Os filhos queriam alterar a rotina da casa por meio do voto direto e secreto. Do lado dos filhos, autodenominados de "povo" e "manifestantes" estavam os amigos de colégio e um jovem tio; do lado dos pais, lidos como "opressores" e "autoridades", haviam avós dilacerados e pelo menos um juiz de direito aposentado, amigo da casa. A proposta dos rebentos era de tomar sorvete todo dia; dormir depois da meia-noite da noite e, eis o ponto chave, terem o direito de beber e fumar tanto quanto o pai. Surgiu também a proposta de jamais tomar banho frio e um dos meninos anonimamente propôs a prerrogativa de comer a atraente empregada o que deixou o pai furioso.

A eleição, deu ganho de causa aos filhos por seis a dois! Um embargo e uma "questão de ordem" impediu empregada de votar. Uma das filhas, cuja bandeira era chegar em casa mais tarde do que os irmãos, argumentou que o direito ao voto só caberia aos membros da família. O filho caçula, surfista e louco pela doméstica e pelo direito de fumar baseados a seu bel-prezar, invocou um outro embargo preliminar; o qual foi seguindo de um outro embargo e, no final, a mãe queria anular o processo reclamando da forma da urna.

A discussão evoluiu para o berro e o pai num surto de impaciência e — reza o caso — de bom-senso, pegou um cinturão e acabou com que chamou de "palhaçada parlamentar familística" porque voto não era para a casa. "Quando vocês puderem se sustentar, seus putinhos — disse ele furibundo — vocês vão poder fumar e beber à vontade!"

O caso joga luz no valor das rotinas. Se temos polaridades (homens e mulheres, velhos e jovens, crianças e adultos, animais e humanos, etc...) temos também um conjunto de intermediários. A dificuldade de decidir surge precisamente porque as diferenças promovem múltiplas perspectivas. Ademais, há dentro de cada um de nós, um infante querendo votar e um adulto cansado de fazê-lo.

O problema não é bem querer ser adotado, é impedir a adoção. Pois todos nós somos inescapavelmente adotados por alguma entidade — uma língua, uma ideologia, um momento histórico e uma coletividade, por exemplo. É impossível escapar da adoção porque ninguém entra neste teatro de horrores escolhendo livremente todos os seus papéis. Do mesmo modo, é impossível gozar da liberdade absoluta a qual, como advertia a antropóloga Margaret Mead, torna inviável um mundo sem rotinas. De fato, um sistema no qual todas as decisões seriam tomadas em assembleias e manifestações, seria imobilizado por suas próprias regras. Uma consciência absoluta leva a paralisia. Como disse muito bem o antropólogo Roberto Kant de Lima, quando um pequeno grupo impede uma multidão de ir e vir, o direito de manifestação tem que se entender com o direito de ir e vir o qual, por sua vez, também tem que se haver com outros direitos... O que não é fácil num país no qual o poderosos sempre tomam as decisões.

Na minha opinião (que não resolve nada) seria preciso retomar aquele bom senso primordial do dar, receber e retribuir que Marcel Mauss ensinou e que nós, ignorantes mas estufados na nossa santa arrogância individualista, esquecemos.

Porta dos fundos - MARCELO COELHO

FOLHA DE SP - 11/09

Um dos feitos do grupo humorístico está em ter descoberto uma saída no país da piada pronta


"Valdo, você sabe quem eu quero ajudar?", pergunta um político ao seu colega. "Quem?", pergunta Valdo. "O povo brasileiro...", responde o primeiro. O outro se indigna. "Não fode, Laércio! Não fode!"

Um pouco mais adiante no vídeo, Valdo estende-se na indignação. "O teu caseiro entrando no Facebook... é isso o que você quer?" "Não", responde o outro. Eis aí. Valdo reforça o ponto. "Porque parece que é isso que você quer!"

Transcrevo um dos diálogos de "Porta dos Fundos" (editora Sextante), livro que reproduz, com fotos e comentários, mais de 30 esquetes humorísticos de Gregório Duvivier, Fábio Porchat, Antonio Tabet e seu grupo, sucesso incendiário na internet.

Um dos muitos feitos de "Porta dos Fundos" está, a meu ver, em ter descoberto uma saída --passou o trocadilho-- para fazer humor num país em que, como diz José Simão, já se vive a piada pronta.

Depois de ver no noticiário normal importantes personagens políticos enfiando dinheiro na cueca, o grau de explicitude necessário para produzir surpresa e riso tinha de ser elevado a níveis para lá de escandalosos.

E isso não se resume aos costumes de Brasília. Para lembrar outros tempos, Juca Chaves fazia muita graça, nos anos 1970, com uma publicidade de seus próprios shows em que dizia apenas: "Ajude o Juquinha a juntar mais um milhãozinho", ou coisa parecida.

O mero fato de agir com o propósito de ficar rico surgia como algo desabusado e audacioso naquela época. Hoje, palestras sérias defendem o que a pensadora americana Ayn Rand sistematizou como "a virtude do egoísmo", e o humor de Juca Chaves, nesse ponto, esvaiu-se no real.

O cinismo clássico não abala mais ninguém. É como se, diante dos gritos do menino do conto de fadas, o rei respondesse: "Sim, eu estou nu mesmo, e quem não está?". Enquanto os humoristas de "Pânico" reagem pelo desespero, como que tentando arrancar em público as roupas dos alvos de sua sátira, os de "Porta dos Fundos" encontram alternativas mais sutis.

Já que o rei está nu, trata-se de explorar a sua intimidade. Que seja retirado da praça pública e da rua, e levado de volta à esfera do cotidiano, do particular. Assim o encontraremos, diante do computador, em nossa casa, reproduzindo os nossos próprios preconceitos de classe.

Sem os embaraços da televisão, os atores de "Porta dos Fundos" podem desprezar uma série de marcas populares. O guaraná Kuat, as bolachas Mabel, tudo o que for coisa "de pobre" será identificado como tal. Para nada falar do Orkut, que até como piada já ficou velho.

A graça com os pobres não se faz sem violência. É o caso do famoso esquete em que a mocinha procura uma lata de Coca-Cola com o seu nome no rótulo. A estratégia de marketing apelava a consumidores que se chamassem Rodrigo ou Tatiana. Mas ela se chama Kelly.

"Isso é nome merda!", diz Fábio Porchat, na pele de um atendente de supermercado. Para atenuar a coisa, ele mesmo confessa se chamar Uélerson. Mas a graça já foi feita.

Como apontou com razão Vinicius Mota, na coluna "São Paulo" desta segunda-feira, o universo de "Porta dos Fundos" é o da "velha classe média". Estamos rindo "de um estilo em transformação, à medida que novos atores batem na porta da frente".

Não cabem mais piadas contra negros, índios ou nordestinos. Sintomático disso é o quadro em que Fábio Porchat é o líder de uma seção da Ku Klux Klan. Os convocados para a reunião tiram as máscaras: são todos negros, a começar do que se chama Denzel.

Os humoristas, na verdade, é que tiram a própria máscara. Não é cinismo; o tom é de denúncia. Por vezes, o obsceno social ganha tradução para a esfera do sexo. A mulher, na hora da sobremesa, explica para o marido que não quer "fazer amor".

"O que eu quero é foder, Mário Alberto... Fo-der". A mesma lógica faz o chapeiro de uma lanchonete dizer à cliente que não servem este ou aquele sanduíche. "Temos rola. Rô-la". O efeito é de vandalismo verbal.

No segredo do iPad ou do computador, a verdade surge explosiva. O formato, sem controle nem as imposições do ritmo de produção da TV, evita aquela repetição de personagens e situações que levava Chico Anysio e Jô Soares ao esgotamento.

Os segredos da copa, da cozinha, da suíte e do lavabo, assim como tudo o que nos cega nos supermercados e salas de reunião, não acabam nunca de sair por essa porta dos fundos.

GOSTOSA


Dinossauro e Radical Chic - ARTUR XEXÉO

O GLOBO - 11/09

Três meses depois de o Brasil ir às ruas reivindicando ações contra a corrupção e melhores condições de saúde e educação, já dá para avaliar o que o Black Bloc provocou no movimento popular: ele exterminou as manifestações espontâneas que pareciam sinalizar para um novo país. Durante um pequeno período tempo, ainda era possível dizer que parte das manifestações eram pacíficas. Hoje, não. A classe média se afastou das ruas e só sobrou a violência. Ou os Black Blocs.
Como tudo que cerca este movimento... bem, eles não se consideram um movimento, embora ajam da mesma maneira em todo o mundo e com os mesmo objetivos. Como se fossem técnicos de futebol, eles se dizem uma tática, seja lá o que isso possa significar. Tanto na boca de Black Blocs quanto na de técnicos de futebol. Então, corrigindo, como tudo que cerca esta tática e seus coirmãos — a ONG Fora do Eixo (será mesmo uma ONG?) e o grupo de videomakers Midia Ninja — não há nada de novo nesta atitude. Um adendo: há quem diga que os Mídia Ninjas são a primeira demonstração de democratização da notícia. Isso dá até preguiça. Alguém acredita mesmo que, com a internet no ar há mais de 20 anos, a transmissão de um evento ao vivo pode ser considerada uma novidade? Há sempre o contra-argumento da imparcialidade, da transmissão sem interesses, diferentemente da mídia tradicional. Mas, vem cá, alguém acredita mesmo que a Midia Ninja é imparcial nas suas coberturas? Que ao
transmitir o confronto entre manifestantes e policiais ela não o faz demonstrando para que lado está torcendo?
Mas o assunto aqui é Black Bloc e, mesmo que o movimento, ou melhor, a tática se confunda com a da Midia Ninja — pelo que entendi, pela coluna de Caetano Veloso do domingo passado, os dois grupos frequentam o mesmo apartamento na Zona Sul —, fiquemos nos pseudorrevolucionários de preto. Nos Estados Unidos, os Black Blocs também acabaram com o movimento Occupy Wall Street. Não há dúvidas das semelhanças entre o Occupy e a ida às ruas de três meses atrás. Um e outro gabavam-se de não ter líderes. Um e outro diziam-se espontâneos. Um e outro não aceitavam comandos partidários. Um e outro não tinham um objetivo claro. Um e outro receberam a simpatia da população. Um e outro foram inchados pelos mascarados vestidos de preto. Um e outro acabaram.
No começo do ano passado, quando o Occupy Wall Street já dava mostras de fraqueza, os ativistas que participaram dele definiam a participação do do Black Bloc no agito. "Os anarquistas do Black Bloc são o câncer do movimento Occupy", escreveu o jornalista Chris Edge em sua coluna no website "TruthDig". Hedges ganhou o Pulitzer em 2002 como um dos integrantes da equipe do "New York Times" que produziu uma série de reportagens sobre o terrorismo global. Por suas declarações públicas contra a invasão do Iraque, recebeu uma reprimenda do jornal e acabou pedindo demissão. No fim de 2011, ele estava entre os participantes do Occupy que foram detidos pela polícia nova-iorquina. "Eles (os black blocs)
confundem atos de vandalismo com revolução", acrescentou. Ativista do meio ambiente que estava entre os manifestantes do Occupy Oakland em novembro de 2011, Derrick Jenssen afirma que "o Black Bloc pode dizer que está atacando policiais, mas, na verdade, ele está destruindo o movimento Occupy".
Integrantes do Black Bloc dizem que estão nas passeatas para defender os manifestantes contra a polícia. Como a polícia é agressiva e armada, e os manifestantes são ingênuos e desarmados, estão lá para protegê-los. Nas manifestações do 7 de Setembro, eles "protegiam" exatamente quem, já que nas ruas só havia Black Blocs ou derivados?
Até essa definição de força de segurança de manifestações dá preguiça. Nos anos 60 do
século passado, esta também era a justificava, nos Estados Unidos, dos Black Panthers, os Panteras Negras. Na verdade, o nome original do grupo era Partido Pantera Negra para Autodefesa. A ideia era "patrulhar guetos negros para proteger os residentes dos atos de brutalidade da polícia". Como acontece aqui agora, os Black Panthers também tiveram o apoio de celebridades da época, o que rendeu uma obra-prima do new journalism assinada por Tom
Wolfe, "Radical Chic".
Ninguém duvida de que há exageros da polícia. E nem precisa acompanhar o Mídia Ninja para constatar isso. Basta ver o "Jornal Nacional" mesmo. Como há mais brasileiros com acesso à TV (93,7% dos lares do país têm um aparelho) do que com acesso à internet (30,7%), o "Jornal Nacional" é muito mais democrático do que a Mídia Ninja. Mas há algo intrigante na ação policial. Por que, nos recentes encontros dos professores, dos quais o Black Bloc não tomou
parte, não houve violência policial? Por que na última passeata contra a homofobia, na qual o Black Bloc não compareceu, não houve reação da polícia?
De qualquer forma, é tudo muito velho. No Brasil, com mais de 30 anos de atraso, ganhamos nossas Panteras Negras e nossos Radicais Chics. Historicamente, eles estão condenados à extinção. Mas até lá vão provocar muitos estragos. Como os dinossauros.

Ueba! Vou sair no Black Brócolis! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 11/09

Burricy, a volta do Jurassic Park! O Emburreci Ramalho! Na primeira derrota do São Paulo, vira Esmoreci!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E ontem fui ao supermercado e dei de cara com "brócolis ninja". Ninja? É o Black Brócolis! Vou sair no Black Brócolis. #vemprosacolão! Rarará! Vou botar o brócolis na rua!

E olha essa do supermercado Continente, em Portugal: "Desconto de 25% em todas as aves frescas. EXCETO O COELHO". Em Portugal, coelho voa! Rarará.

E sabe como é e-mail em Portugal? Carta voadora! Obama está espionando as cartas voadoras da Dilma!

E como diz uma amiga minha: "Se o Obama quiser me espionar, me avisa, que eu ligo a webcam". Rarará!

E atenção, novo técnico do São Paulo: Burricy, a volta do Jurassic Park! O Emburreci Ramalho! Na primeira derrota do São Paulo, vira Esmoreci!

E o site Futirinhas revela por que o Muricy realmente aceitou ser técnico do São Paulo: "É que eu nunca ganhei uma série B. Tô tentando completar o meu currículo".

O Burricy vai pra série B! B de Bambi! Rarará! Vai ser assessor do Ceni!

E como dizia o Nelson Rodrigues: todo técnico é burro. O cara pode ser um gênio, virou técnico, virou burro!

E o melhor técnico da história do futebol brasileiro foi o Feola. Porque dormia no banco!

E diz que, na realidade, o Obama tá espionando o pré-sal. O pré-sal e a sem sal. Rarará! O pré-sal e a pré-rereca! Tem pré-rereca no pré-sal.

E a Dilma vai dar um pré no salco do Obama! Rarará!

E essa: "Espionagem do pré-sal causa tensão". Errado. Pré-sal causa hipertensão!

E a verdadeira definição do pré-sal: primeiro vem o oceano, depois a camada de sal, depois o pré-sal. E aí vem o São Paulo! E mais embaixo o Palmeiras! Rarará! Entenderam ou querem que eu desenhe?

E já tem tanto protesto que tem até protesto de vacas: "Cala a boca, Tony Ramos". Rarará.

É mole? É mole, mas sobe!

Os Predestinados! Essa é a predestinada da semana! A escritora americana de livros eróticos Sylvia Day! Day, Dou e Darei! Rarará.

E uma vez perguntaram pro Caymmi: "Se você fosse mulher, o que você seria?". "DADÊRA!", ele respondeu na hora!

Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Avaliações cardiológicas são realmente necessárias? - LUIZ FERNANDO KUBRUSLY

GAZETA DO POVO - PR - 11/09

Ainda está na minha memória a panaceia criada por um de nossos governos passados, exigindo que todo veículo automotivo tivesse um estojo de pronto-atendimento, que na verdade era mais um estojo de curativos domésticos. Dava a impressão de que, ao encontrar um acidentado na estrada com um traumatismo craniano ou afundamento de tórax, qualquer um de nós desceria do nosso veículo munido de uma gaze, um rolo de esparadrapo e um frasco de antisséptico local para heroicamente salvar a vida daquela pobre criatura. Mas o fim cumpriu-se: milhares de pequenos e inúteis estojos de “curativos domiciliares” foram vendidos. Estamos nos acostumando a solicitações das autoridades sem que sejam ouvidos os profissionais de competência.

Diariamente pessoas procuram seus médicos para uma avaliação cardiológica e liberação para prática de exercícios, exigências de academias que seguem a orientação dos órgãos públicos. As avaliações acabam em um exame clínico, em geral associado a um eletrocardiograma em repouso. De porte da tal avaliação, o indivíduo de 18 ou 60 anos inicia a prática das atividades, nem sempre tão moderadas como deveriam ser. Poucos meses depois, pode acabar em uma corrida de rua de 5 ou 10 quilômetros – afinal, o exame clínico afirmou aptidão. Só que não tão raro ficamos sabendo de casos de morte súbita em pessoas relativamente jovens durante a prática de atividade física. Recentemente aconteceu em Curitiba, mas isso é frequente em todo o mundo.

A história clínica e o eletrocardiograma são muito úteis, mas, infelizmente, são incapazes de descobrir toda doença cardiológica. Quando alterados, são precisos no diagnóstico. Mas, quando normais, não permitem excluir a doença, deixando o indivíduo sem a certeza de que não haja risco na prática das atividades, em especial as mais intensas. O coração, diferentemente de outros órgãos, pode alcançar cinco ou sete vezes seu consumo de oxigênio nos picos de exercício. Isso é suficiente para que pequenos problemas em estado de repouso transformem-se em risco imediato de vida nos momentos de exercício muito intenso.

A avaliação cardiológica deve ser adaptada principalmente ao programa de exercício que se pretende para cada pessoa. Se olharmos um jovem de 25 anos que quer exercícios de desenvolvimento muscular e moderada atividade aeróbica, sua avaliação será totalmente diferente daquela do indivíduo acima de 45 anos pretendente a fazer um programa de corrida de rua. Neste último, até um teste de esforço simples pode ser insuficiente, dependendo de sua história genética. A decisão compete a um cardiologista – se possível, dedicado à área esportiva.

No início deste ano, a Câmara Municipal de São Paulo alterou a lei que obrigava os alunos a apresentar atestados médicos para se matricular em academias. A medida dividiu a opinião de médicos e foi, obviamente, apoiada pela entidade que representa os donos dos estabelecimentos. O novo texto prevê que apenas pessoas fora da faixa etária entre 15 e 69 anos apresentem o atestado médico no ato da matrícula. Os demais deverão responder a um questionário, que tem como finalidade identificar a necessidade de realizar exames antes do início da prática.

Ficam aqui meus conselhos: Primeiro, os exercícios têm por finalidade trazer o bem-estar físico e mental, além de prevenir a maioria das doenças cardiovasculares. Não os transformemos em perigosas armas contra nós mesmos. Segundo, atestados para prática de exercícios não são vacinas que por si só conseguirão evitar doenças. E, por fim, estojos de curativo são absolutamente inúteis em automóveis.

Substituição correta - TOSTÃO

FOLHA DE SP - 11/09

Achei correta a substituição de Autuori por Muricy. Autuori estava perdido, e Muricy volta para casa


Melhorou o futebol coletivo no Brasileirão. Algumas equipes, como Cruzeiro e Botafogo, trocam muitos passes, fazem muitas triangulações e marcam muitos gols, pelo chão e pelo alto. Não confundir essas jogadas aéreas, de bolas passadas ou cruzadas das laterais e da linha de fundo, com os chutões e os chuveirinhos, que continuam frequentíssimos. É raro um zagueiro, no Brasileirão, ter um bom passe.

O Cruzeiro tem quase dois times do mesmo nível. Éverton Ribeiro evoluiu nos últimos jogos. Está mais agressivo, objetivo, finaliza mais e melhor. Antes, driblava e saía pouco do lugar. Há pedidos para convocá-lo. É cedo. Jornalistas esportivos adoram fazer lista dos melhores, indicar nomes para a seleção, fazer previsões e comentar o futuro.

Apesar de tantos motivos para dar errado, continua dando tudo certo no Botafogo.

Os meninos entram e jogam como gente grande. Até o mediano Elias fez gol de placa. Só falta seu reserva Alex fazer outro.

O Atlético-PR vai continuar entre os primeiros até o fim da competição? Não sei. A equipe ganha e agrada. É a chance de Vágner Mancini recuperar o prestígio. Muitos torcedores do Cruzeiro disseram que ele foi um dos piores técnicos que já dirigiram a equipe. Vários torcedores do Atlético-MG falaram o mesmo de Tite, quando o Galo foi rebaixado. Luxemburgo foi chamado de mago, grande estrategista. Felipão, de ultrapassado no Palmeiras, é agora referência, padrão Felipão. O mundo e o futebol dão muitas voltas.

Corinthians, Grêmio e Inter, com bons elencos, podem crescer no segundo turno. Os dois times, com sistemas táticos diferentes, jogam como na época em que seus treinadores eram atletas. Não evoluíram.

Achei correta a saída de Paulo Autuori. Ele estava perdido, e Muricy volta para casa. Mas os problemas no São Paulo não são apenas de técnico, de falta de confiança e de mau-olhado. É também de pouca qualidade individual.

São Paulo e Fluminense acabaram com seus bons times. É ilusão achar que bastam dois ou três excelentes jogadores para formar uma boa equipe. Isso só ocorre se houver conjunto e bons coadjuvantes.

A contratação de Ganso para a mesma posição de Jadson derrubou todos os técnicos. Todos tentaram escalar os dois juntos e não conseguiram. E todos ficaram insatisfeitos de ver um no banco. Esse é o grande desafio de Muricy.

O Flamengo, em campo, parece um time pequeno, arrumadinho, certinho, disciplinado. Ameaça ganhar e perde.

Um repórter de TV perguntou a um torcedor do Atlético-MG se ele gostava de Luan de volante. Pela expressão e entonação da voz, esperava uma resposta bem afirmativa. O torcedor olhou para ele e respondeu com outra pergunta: "Um jogador que só corre de cabeça baixa pode atuar no meio-campo"?

APAIXONA POR EU... - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 11/09

Carolina Dieckmann, carioca, 34 anos, posa toda-linda para a revista “Quem” que chega hoje às bancas. Com 20 anos de carreira, a atriz fará sua primeira novela de época em “Joia rara”, nova trama dasseis da TV Globo. Dieckmann, na entrevista, fala sobre maturidade e amor: “Sou uma mulher apaixonada pelo marido num grau indescritível”.

Austregésilo e a ‘milicagem’
O escritor Austregésilo de Athayde (1898/1993), que presidiu a ABL por 37 anos, não sai, digamos, muito bem neste “Diário de um ano de trevas”, segundo volume das cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Maria Teresa. O livro será lançado amanhã Numa carta de 10 de janeiro de 1969, Alceu conta à filha sobre o discurso que havia feito uma semana antes na Academia contra a censura na ditadura militar. E como tinha sido aplaudido pelos imortais.

Só que...
“Na ata de ontem, na Academia, o meu protesto da outra sessão ficou reduzido assim: ‘Alceu Amoroso Lima manifestou sua tristeza (sic) pela falta de liberdade de pensamento, sem a qual não há verdadeira cultura ( ... ).’”
Alceu prossegue. “Nada mais. O A. de A. (Austregésilo de Athayde) não quer histórias com a milicagem.”

Enfermeiras portuguesas
Deu no “Financial Times”,jornalão de economia inglês. 
No atual grande êxodo de mão de obra qualificada portuguesa, o British National Health Service, o SUS britânico, tem recrutado enfermeiras experientes em Lisboa.
Ninguém pensou nisso em Brasília para o programa Mais Médicos.

Sabe o Eike?
André Esteves anda falando mal do seu antigo parceiro Eike Batista pelas costas.

É do Brasil
A imigração americana implicou com a documentação do querido coleguinha Galvão Bueno, segunda, no aeroporto de Boston, aonde foi narrar o jogo entre Brasil e Portugal.
Teve que gastar saliva com os gringos para ser liberado.

A morte de Victor Jara
O documentário “Setenta”, dirigido por Emília Silveira, com roteiro de Sandra Moreyra, traz o depoimento de Jaime Cardoso, um dos 70 presos políticos brasileiros trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, em 1970.
Jaime estava no grupo que ficou no Chile.

Diz ele que...
Quando Salvador Allende foi derrubado pelos militares, há 40 anos, Jaime acabou preso no Estádio do Chile.
Ele conta do silêncio que tomou conta dos prisioneiros quando correu a notícia de que o músico Victor Jara tinha sido assassinado pelos militares a poucos metros deles.

A professora
Nelson Rubens Kunze, editor da revista “Concerto”, esclarece que a informação de que o pianista Eduardo Frias foi aluno de Cristina Ortiz foi divulgada pela assessoria de Frias.
Como saiu aqui, Ortiz garante que nunca foi professora do pianista.

Sexo e rock
Nos dias de Rock in Rio, a Secretaria de Saúde vai distribuir na Cidade do Rock 250 mil preservativos. Para os homens, virão em dois tamanhos: 4,9 e 5,5 centímetros.
De diâmetro, claro.

A questão Dulce
Continua dando a maior polêmica a demissão de Dulce Pandolfi do Cpdoc, da FGV. Até ontem, 1.330 pessoas já tinham assinado o documento na internet contra a saída da historiadora.
Ontem à noite havia uma articulação para que o diretor Celso Castro revogasse a decisão. Melhor assim.

Di em leilão
O quadro “Sacada brasileira”, de Di Cavalcanti, será leiloado no dia 18, no Atlântica Business Center, no Rio, em evento organizado por Soraia Cals.
O lance mínimo é de R$ 1,2 milhão.

Paulinho e Beatriz
Paulinho da Viola gravou uma faixa do primeiro CD da filha Beatriz Rabello, no estúdio Toca da Raposa, em Santa Teresa, ontem.
Em “Só o tempo”, Beatriz fez duo com o pai. No meio da gravação, ela chorou. E Paulinho não entendeu:
— Beatriz, você já participou de várias gravações.

Segue...
Beatriz explicou: “Mas é a primeira vez que você canta pra mim.”
Não são fofos?