FOLHA DE SP - 04/08
Procissão de autoridades ao Templo de Salomão, da Universal, expõe relações questionáveis de políticos com instituições religiosas
Uma procissão de autoridades, liderada pela presidente da República, pelo governador paulista e pelo prefeito da cidade de São Paulo, dirigiu-se, na última quinta-feira, ao bairro paulistano do Brás para prestigiar a cerimônia inaugural do Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus.
Com proporções bíblicas, a obra tem 74 mil metros quadrados de área construída e foi erguida a um custo de R$ 680 milhões, segundo a igreja. O complexo, revestido com pedras importadas de Israel, conta, entre outras facilidades, com estúdios de rádio e televisão, além de heliponto.
O megatemplo simboliza, com sua ostentação, o ponto a que chegou a carreira de Edir Macedo, pastor neopentecostal, banqueiro e empresário do ramo de comunicações, que lançou a pedra fundamental de sua igreja no ano de 1977, num modesto prédio da zona norte do Rio de Janeiro.
Macedo é hoje um dos homens mais influentes e ricos do país. Beneficiado pela isenção de impostos que a Constituição assegura a templos de qualquer culto, construiu em torno da Universal um conglomerado de empresas. Sua fortuna pessoal chegava a R$ 2 bilhões em 2012, segundo a revista "Forbes".
Os negócios e o prestígio do bispo assentam-se sobre um conhecido tripé: igreja (com cerca de 2 milhões de fiéis), telecomunicações e atuação política. Nomes ligados à Universal têm obtido algum êxito eleitoral nos diversos níveis de governo e ocupam postos relevantes no Partido Republicano Brasileiro (PRB), fundado pelo ex-vice presidente José Alencar.
As atividades de Macedo têm sido alvo de investigações e processos judiciais, aos quais responde nos foros apropriados. No caso do Templo de Salomão, sabe-se que foi construído com um inadequado alvará de reforma, concedido em 2008 pelo setor de aprovações da Secretaria Municipal de Habitação, então a cargo de Hussein Aref Saab, afastado em 2012 sob suspeita de enriquecimento ilícito.
Por suas características, a edificação deveria ter sido enquadrada como polo gerador de trânsito, o que exigiria outro tipo de autorização e contrapartidas urbanísticas. Por fim, foi inaugurada com alvará provisório emitido pela prefeitura.
Ao fazê-lo, Fernando Haddad (PT) repetiu iniciativa de seu antecessor, Gilberto Kassab (PSD), que forneceu documento análogo em favor do templo católico Mãe de Deus, do padre Marcelo Rossi --em matéria de adulação a igrejas, o poder público é ecumênico.
Oficialmente laico, o Estado brasileiro ainda mantém, na prática, relações no mínimo ambíguas e questionáveis com instituições religiosas --certamente menos por temor a Deus do que pelos seculares interesses eleitorais dos políticos.
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