quarta-feira, agosto 24, 2011

CELSO MING - Não param de chegar


Não param de chegar
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 24/08/11

No período de 12 meses terminado em 31 de julho, os Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) somaram US$ 72,2 bilhões (veja o gráfico ao lado), o equivalente a 3,17% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.

As projeções do Banco Central para todo este ano se mantêm nos US$ 55 bilhões, bem aquém do que será o IED em 2011. Ontem, o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, avisou que o recorde de julho (US$ 5,97 bilhões) não deve ser tomado como tendência do comportamento da rubrica IED, por incorporar uma grande aquisição internacional - o controle acionário da cervejaria Schincariol pelo grupo japonês Kirin.

Esse é um alerta pouco significativo. Em junho, quando não houve uma negociação assim tão relevante, a entrada de IED foi só um pouco menor: US$ 5,5 bilhões. De mais a mais, compras importantes de posições acionárias brasileiras por estrangeiros já não são tão excepcionais como sugeriu Maciel - e devem ser ainda mais frequentes daqui em diante.

De todo modo, a entrada desses investimentos estrangeiros está tão robusta neste ano a ponto de suscitar suspeitas de que disfarçam a entrada de capitais destinados, na verdade, a aplicações em renda fixa, com o objetivo de burlar a cobrança de impostos. Vale lembrar que, desde outubro de 2010, aplicações em renda fixa estão taxadas com IOF de 6%.

O Grupo de Análise e Previsões do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) defendeu no boletim Conjuntura em Foco (agosto de 2011) essa visão, baseado no forte aumento da volatilidade na entrada do IED a partir de dezembro de 2010, logo após a imposição do IOF.

Disfarçado ou não, o capital estrangeiro para investimentos (e não somente de curto prazo) tem um punhado de razões para tomar o rumo do Brasil. A primeira é a impressionante abundância de recursos parados ou com baixa aplicação nos países ricos. Uma boa fatia desse capital sempre acabará desembarcando por aqui.

O segundo motivo é a boa figura que o País faz na foto geral da crise, em que aparecem tantas economias cambaleantes. E o terceiro é a excelente perspectiva que apresentam as atividades ligadas a commodities no Brasil, especialmente na área do petróleo, independentemente do desempenho da economia global.

A entrada de moeda estrangeira pelo IED corresponde hoje a algo entre três e quatro vezes ao ocorrido pelo saldo comercial. As receitas em dólares por meio da balança comercial (exportações menos importações) não têm todo esse poder de valorizar o real, portanto, de provocar a tão falada doença holandesa. Muito mais significativas vêm sendo as entradas de capital, sobretudo pelo IED.

Por temerem a excessiva valorização do real e a perda de competitividade da indústria nacional, alguns economistas vêm insistindo em que o governo controle também a entrada de investimentos estrangeiros. É um recurso que, se necessário, pode ser acionado. No entanto, o Brasil não pode esnobar capital estrangeiro. É tão grande a necessidade de capitais destinados a dar cobertura a investimentos em infraestrutura e em capacidade de produção, que qualquer iniciativa desse tipo seria vista como falta de interesse pelo desenvolvimento nacional.

GOSTOSA


ANTONIO DELFIM NETTO - Esta é a hora


 Esta é a hora
ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 24/08/11
Há uma nuvem escura sobre a economia mundial, anunciadora de possíveis dificuldades. Talvez a manifestação mais típica dessa ameaça seja a procura dos papéis do Tesouro das duas maiores economias de mercado.
Os EUA, com uma inflação anual da ordem de 3,6% ao ano e a Alemanha, com 2,4%, têm taxas de juros reais virtualmente nulas para papéis com menos de um ano.
Diante das incertezas que envolvem a economia mundial, há uma procura de abrigo nos papéis do Tesouro das duas economias. A despeito do ridículo exibicionismo da S&P, a demanda de papéis americanos tem aumentado com taxa de juro real cadente... Sinal ainda mais evidente da desesperada busca de segurança é o preço do ouro: US$ 1.873,9 por onça, em 19/8.
Se você não está confuso, é porque está desinformado!
São, no fundo, sinais de pânico no mundo em que prevalecem: 1º) a disfuncionalidade política dos EUA; 2º) as complicações da administração da Comunidade Europeia; 3º) o esgotamento das medidas tocadas por tecnocratas (as políticas fiscal e monetária) e 4º) mais importante, a evidente falta de estadistas.
O grave é que o problema se autoalimenta. A fuga para a segurança produz mais insegurança: destrói valor nas Bolsas (particularmente dos bancos "sob suspeita") e pode levar a outra interrupção do crédito interbancário, condição suficiente para ampliar a crise da economia real. O Brasil, como parte do mundo, também sentirá os efeitos da tempestade.
Nossa situação é melhor do que a da maioria dos países, mas ainda temos a maior taxa de juros real e a moeda mais sobrevalorizada do mundo!
Talvez tenhamos a chance de iniciar a solução desses problemas, ao reduzir substancialmente a taxa de juro real.
O movimento preliminar preparatório deve aproveitar a credibilidade do governo e estabelecer uma política fiscal de longo prazo, cuidadosa e crível: de crescimento de custeio abaixo do crescimento do PIB;
regras claras para a redução da taxa do financiamento da dívida com LFT; colocação de papéis do Tesouro em reais no exterior; políticas de estímulo à poupança; aumento do superavit primário; atenção ao problema da aposentadoria do servidor público; desindexação ampla, geral e irrestrita;
ajustamento da caderneta de poupança e medidas microeconômicas que reduzam o estresse do ajustamento do mercado de trabalho. A curva de juros atual parece indicar que é hora de um programa fiscal bem conformado e amplo, acompanhado de políticas microeconômicas que retirem do Banco Central o peso das incertezas fiscais (vistas pelo mercado) e lhe deem musculatura e tranquilidade para, num prazo adequado, reduzir a taxa de juros real a qualquer coisa entre 2% e 3%.

MÍRIAM LEITÃO - Corrida do ouro


Corrida do ouro
MÍRIAM LEITÃO
O GLOBO - 24/08/11

O preço do ouro caiu ontem. O mercado está otimista, esperando que na reunião de Jackson Hole o Fed tire algum coelho da cartola. Mas ontem foi só um dia. Desde agosto de 2009, o ouro dobrou de valor.

A demanda mundial no segundo trimestre foi a segunda maior da História. No último dia de negócios antes da quebra do Lehman Brothers, em 2008, o ouro valia US$ 750 a onça; agora, vale US$ 1 830: alta de 144%.

O economista José Roberto Mendonça de Barros acha que há sim sinais de que se formou uma bolha no mercado de ouro, diante das inúmeras incertezas atuais da economia internacional.

Como sempre, o ouro é o refúgio em épocas de crise, mas ele acha que em algum momento de maior otimismo na economia a alta de agora será devolvida.

"O medo subiu bastante, mas ao mesmo tempo a volatilidade acompanhará as cotações desse e de outros ativos. Bastou uma esperança de que algo seja anunciado na sexta-feira para ele cair.

Neste sentido, é uma bolha, porque ele subiu no vazio de opções e num momento de incerteza. É exclusivamente fruto do medo. Mas alguém vai morrer com este ouro, porque a alta não se sustenta. Está havendo aumento de produção e quando houver menos incerteza, o mercado devolve 200 dólares num dia."

A espera da sexta-feira é curiosa. Em momentos como esse em que não se sabe muita coisa - se a economia americana terá ou não recessão, se o euro sobreviverá a atual crise, se algum grande banco vai quebrar na Europa, se os países conseguirão pagar suas dívidas - os ativos sobem ou descem de acordo com alguma esperança ou temor que se forme diante de uma data. Agora, espera-se a reunião de Jackson Hole.

Esse lugar ermo, no meio do nada em Wyoming, hospeda anualmente uma tradicional reunião do Fed. Nesse seminário de política monetária em que vão dirigentes dos bancos centrais regionais e a diretoria do Fed, o presidente Ben Bernanke fará um pronunciamento. A expectativa é que ele possa anunciar alguma medida salvadora.

José Roberto acha que talvez ele anuncie algum tipo de coordenação macroeconômica entre as grandes economias. Mas o que alguns bancos e analistas têm esperado é que seja anunciado duas letras e um número mágico: QE3. A terceira rodada de recompra de títulos pelo Fed, que entornará mais dólares no mercado.

Com isso, a economia americana teria mais chances de escapar da recessão. Então a coisa se passa assim: bolsas sobem e ouro cai na expectativa da tal boa notícia; e as tendências se invertem se o fato que preveem não acontecer.

José Roberto acha que uma boa comparação que se pode fazer é com a disparada do dólar paralelo no Brasil no final dos anos 1980. Ele disparou e depois despencou. Em algum momento, pareceu refúgio, depois, o preço voltou a cair.

Na primeira crise do petróleo, nos anos 1970, o ouro também subiu fortemente, para depois cair. Agora, em dois anos, o ouro dobrou. Valia US$ 913 no dia primeiro de agosto de 2009 e agora oscila em torno de US$ 1.830.

Segundo relatório do World Gold Council, os países que mais contribuíram para esse segundo recorde na compra de ouro por trimestre, de abril a junho, foram Índia e China. Isso, incluindo compras pessoais: 55% do consumo mundial de jóias de ouro vieram dos dois países.

Ao todo, no mundo, foram comprados durante o trimestre 919,8 toneladas de ouro, num valor de US$ 44,5 bilhões. Os bancos centrais também compram e os investidores procuram como reserva de valor, num mundo que está ficando cada vez mais sem porta de saída.

"Nos Estados Unidos eu acho que há menos risco de uma crise financeira, mas as autoridades parecem não ter a mais pálida ideia do que fazer; na Europa é o contrário, eles sabem que há um caminho, mas ele é longo e cheio de riscos. A Europa deve manter o euro e fazer um processo de renegociação, como o Plano Brady. Não é um caminho sem riscos. Um deles é político, porque fortalecerá ainda mais a Alemanha e a solução passará por decisões que vão reduzir drasticamente o padrão de vida das pessoas nos países pequenos da região", disse Mendonça de Barros.

Há uma corrida para o ouro, mas como explica Mendonça de Barros, a volatilidade continuará. O preço pode cair tanto quanto disparou. É apenas um dos vários termômetros de como a economia está estranha nos tempos atuais.

MARIO MESQUITA - A mensagem das montanhas


A mensagem das montanhas
MARIO MESQUITA
FOLHA DE SP - 24/08/11
Aumentar a inflação para diminuir a dívida reduzirá também o poder de compra de famílias de menor renda
No final desta semana ocorre o seminário anual do Fed em Jackson Hole, no Estado de Wyoming. Esses eventos reúnem banqueiros centrais de todo o mundo, bem como acadêmicos e, mais raros, representantes do setor financeiro, para debater temas macroeconômicos relevantes.
Ocasionalmente, o seminário é utilizado para sinalizar inflexões de política monetária. Esse foi o caso em 2010, quando o discurso de abertura de Ben Bernanke indicou a adoção da segunda rodada de relaxamento quantitativo.
Diante da piora dos mercados financeiros internacionais ocorrida nas últimas semanas, há grande expectativa de que Bernanke repita a dose, valendo-se da oportunidade para anunciar novas medidas voltadas ao socorro da economia norte-americana e, consequentemente, da claudicante recuperação global, sob o belo cenário das montanhas Teton.
Há, contudo, razões mais e menos importantes para se acreditar que o raio de ação de Bernanke é mais limitado desta vez. A primeira e mais importante é que, ao contrário de 2010, o risco de deflação nos EUA parece pequeno, visto que a inflação cheia encontra-se em 3,6%, e mesmo a medida de núcleo acha-se em 1,8%.
Sendo assim, fica difícil argumentar que o Fed precisa agir para corrigir desvios em relação aos dois lados de seu mandato dual, salvaguardar a atividade econômica e manter a estabilidade de preços, visto que esta última não parece estar sob ameaça, pelo menos não da forma em que parecia estar em meados de 2010.
Outra dificuldade deriva dos prováveis efeitos colaterais do relaxamento quantitativo. Este visa elevar preços de ativos e, com isso, impulsionar a riqueza, a confiança e o dispêndio privado. Mas uma das consequências dessa política é a elevação dos preços de matérias-primas, que acaba corroendo a renda das famílias e solapando a própria expansão do consumo.
Finalmente, a mera sinalização de que as taxas de juros devem ficar em patamares mínimos até 2013, explicitada pelo Fed em sua última reunião de política, já suscitou votos contrários de três integrantes do Fomc (o Copom norte-americano) -curiosamente, apesar da tradição democrática dos Estados Unidos, o dissenso nas decisões do Fed é tido como algo muito grave.
Diante dessas dificuldades, outras opções, ainda mais controversas, têm sido levantadas. Entre elas a de anunciar uma política deliberada de inflacionar a economia americana, comprometendo temporariamente o mandato da estabilidade de preços para estimular a atividade.
A lógica é que o aumento da inflação levaria à antecipação do consumo, e premiaria os devedores -entre os quais o maior, o governo americano- às expensas dos poupadores.
Mas os efeitos seriam incertos, visto que uma elevação da inflação que efetivamente reduzisse o tamanho real da dívida provavelmente reduziria também o poder de compra das famílias no piso da escala de renda.
Evidentemente, iniciar um surto inflacionário pode ser bem mais fácil do que terminá-lo. E, a depender da magnitude e da persistência do choque inflacionário, as políticas desinflacionárias que seriam adotadas a seguir teriam de ser agressivamente contracionistas, o que certamente não é o desejo do Fed.
Há sugestões também de que o Fed passe a comprar ativos de longo prazo, de forma a manter as taxas de juros longas, importantes tanto para o financiamento do investimento como das hipotecas, em níveis reduzidos -em linha com a iniciativa adotada no governo Kennedy no século passado, sob a denominação de Operação Twist.
Ocorre que as taxas longas já se encontram em patamares historicamente muito reduzidos, sem que isso seja suficiente para sustentar a atividade econômica. Mesmo assim, por ser relativamente menos controversa, essa política poderia ser anunciada nas próximas semanas. Com tantas dificuldades, ainda que as pressões por uma nova rodada de estímulo, vindas dos políticos e também dos mercados, sejam muito fortes, não é implausível que a mensagem das montanhas esteja aquém do que almejam e esperam os investidores.

TREPADA BIPOLAR


VINÍCIUS TORRES FREIRE - O mix da Fazenda e a salada oficial


O mix da Fazenda e a salada oficial
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 24/08/11
No Congresso, Mantega reafirma política de reduzir gastos para reduzir juros; o governo todo concorda?
OS SETORES da economia brasileira mais sensíveis ao aumento das taxas de juros e/ou ao câmbio entraram em ritmo devagar quase parando desde meados do ano.
Ontem, no Congresso, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o crescimento no segundo trimestre deve ter sido de 0,8% do PIB (foi de 1,3% no primeiro). Foi uma revisão do crescimento, para baixo.
O ritmo deste terceiro trimestre seria tão fraco ou menor. Haveria um repique no final do ano, com a economia se acelerando para 1%. Isso dá quase 4% de crescimento no ano; 4% parece ser o número mágico da presidente Dilma Rousseff. É uma "meta" de crescimento repetida por vários ministros, em público ou em conversas reservadas.
O governo deve fazer esforço para atingir a "meta", prejudicando as perspectivas de crescimento equilibrado num futuro próximo? Crescimento mais equilibrado no futuro mesmo que próximo significa, pelo menos, reduzir os gastos do governo, contendo assim um pouco mais a inflação e, desse modo, abrindo espaço para uma queda maior dos juros. Sim, essa conversa se tornou uma ladainha. No entanto, trata-se do nosso problema essencial de curto prazo.
Mais uma vez, Mantega disse em público e enfaticamente que "mudou o mix de política macroeconômica". Isto é, o objetivo do governo é recorrer mais à política fiscal (gastos), e não à monetária (juros), a fim de desaquecer a economia e controlar a inflação.
"Não se pode baixar os juros de maneira voluntarista; é preciso criar as condições para baixar a Selic, é prioritário"; "a política monetária isolada não resolve. Tem de ser combinada com a política fiscal", disse Mantega aos parlamentares. Mas essa é, enfim, a posição oficial do governo? De todo o governo?
Ainda é possível ouvir de assessores próximos de Dilma Rousseff, mas não economistas, que o governo ainda vai refletir sobre os efeitos da crise mundial no Brasil, sobre a inflação e sobre "demandas da sociedade" antes de decidir o tamanho da contenção fiscal de 2012.
A política monetária (aperto de crédito e alta de juros) vem fazendo seu papel -e seus efeitos mais fortes ainda virão, no fim do ano. Mas não atinge igualmente todos os setores da economia, ressalte-se.
A indústria claudicava desde o início do segundo trimestre. No meio do ano, estagnou. Ontem, a Confederação Nacional da Indústria informou que o setor ficou com estoques além do planejado em julho. Isso mesmo depois de oito meses de queda da utilização da capacidade produtiva das fábricas.
Baseados em pesquisa do Banco Central sobre condições de crédito na economia brasileira, os economistas da Febraban afirmavam nesta semana que, "com relação à oferta de crédito, as condições observadas não parecem muito favoráveis", em especial para pequenas e médias empresas e para o crédito para consumo da pessoa física.
Mas o consumo depende também de transferências de renda do governo, de previdência e de programas sociais, que vão crescer bem até o ano que vem. Isso pressiona principalmente a inflação de serviços. A alta de outros gastos e a tentativa de atingir a "meta de 4%" vão reaquecer a economia em momento inconveniente. E impedir a queda da taxa de juros, da Selic.

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - Limites às despesas

Limites às despesas
EDITORIAL
FOLHA DE SP - 24/08/11
Embora ministro da Fazenda reafirme compromisso com austeridade no ano que vem, uma série de gastos novos vai desafiar a meta do governo

Em mais um episódio que atesta a falta de sintonia na política econômica, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, desmentiu rumores de que o governo relaxará os seus gastos no ano que vem.
Na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, o ministro afirmou que os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento não serão abatidos da meta de poupança do governo, o chamado superavit fiscal, em 2012. O titular da Fazenda defendeu ainda mudança de ênfase na política econômica: limitar o gasto público para que o Banco Central possa cortar mais os juros.
Essa diretriz, correta, vem sendo repetida à exaustão neste espaço. Cabe perguntar, contudo, se a intenção de manter um mínimo de austeridade terá condições de se efetivar no ano que vem. Há muitas dúvidas a esse respeito.
Sem contar o crescimento inercial do custeio do governo e despesas novas de menor monta, o Planalto terá de suprir uma demanda extra de gastos em 2012 de R$ 47 bilhões -a título de comparação, a média mensal da despesa federal neste ano tem se aproximado de R$ 60 bilhões. O reajuste de 14% no salário mínimo vai exigir dispêndio novo na Previdência de R$ 23 bilhões. O pacote de redução de impostos de alguns setores industriais, chamado de "Brasil Maior", vai abater R$ 24 bilhões da arrecadação de tributos.
Além disso, há armadilhas fiscais que poderiam ser ativadas como vingança de uma parcela insatisfeita da base governista. Um dos alvos seria o mecanismo constitucional que faculta ao governo reter um pedaço das chamadas despesas carimbadas. Projetos de aumento salarial do funcionalismo, com destaque para o do Judiciário, também frequentam as listas de possíveis retaliações.
O governo provavelmente cumprirá a meta de superavit fiscal de 3% do PIB neste ano. A contenção de despesas na boca do caixa tem ajudado, mas o fator decisivo para esse resultado será, mais uma vez, o crescimento dos impostos.
As despesas federais passaram de 15% para 18% do PIB de 2003 a 2010, alta concentrada na área social (educação, saúde, seguro-desemprego e Previdência). Passa da hora de projetar, ao longo desta nova década, uma trajetória mais compatível com os limites da arrecadação, cuja carga excessiva sufoca a capacidade do Brasil de competir para melhorar a produtividade e os salários. É preciso também dar fôlego para outras prioridades, como a ampliação do investimento em infraestrutura.
É louvável que o ministro Guido Mantega queira mudar a ênfase da política econômica. Para tanto, medidas paliativas, como cortes pontuais e emergenciais do Orçamento, têm escassa serventia.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Fogo amigo
SONIA RACY
O ESTADÃO - 24/08/11

Enquanto Dilma e as lideranças da base aliada tentam evitar no Congresso uma CPI da Corrupção, secretários do MinC ameaçam o próprio governo. Uma figura do primeiro escalão do Ministério chegou a levantar, em evento público na Bahia, a ideia de criar uma CPI do MinC da era Lula.

O que gerou revolta na plateia, formada por representantes da rede de Pontos de Cultura.

Fogo amigo 2

Também repercutiu mal a declaração de Vitor Ortiz, secretário-executivo do MinC, ao Estado, sobre convênios iniciados ainda no tempo de Lula: "Se fosse governo de descontinuidade, teríamos cancelado a metade ou todos".

A frase causou estranheza também entre artistas e produtores culturais. Eles questionaram, recentemente, as contratações realizadas pela Funarte, de Antonio Grassi, para a reinauguração do Teatro Dulcina, no Rio.

Titãs

Grande suspense na vinda de Jean Charles Naouri, do Casino, a Sampa semana que vem.

Estará presente, terça-feira, na reunião de conselho do Pão de Açúcar.

Mistérios da fé

Pedro Novais recebeu a notícia de que a Operação Voucher estava em andamento no Ministério do Turismo minutos antes de pegar um avião.

Quem viu garante: o ministro estava tão sereno, tão calmo, que enquanto seus colegas de pasta amargavam a cela na PF, ele dormia sono solto em sua poltrona.

Não, não roncou...

Glória nas alturas

Alckmin está montando, com a secretaria de Educação, projeto para levar mais cultura às escolas públicas. "A Glória Menezes contou aqui no Palácio, esta semana, sua experiência em levar a peça Ensine-me a Viver para as salas de aula da periferia. Vamos fazer isso pelos auditórios das escolas, além de trazer os alunos para as salas de teatro, distribuindo ingressos grátis", contou o governador à coluna.

A peça de Glória reinaugura o Teatro Sérgio Cardoso no dia 9.

Integração?

Alckmin e Kassab não estão tão longe assim um do outro.

O prefeito foi convidado para presidir o Conselho de Desenvolvimento da Região Metropolitana, órgão vinculado à pasta de Edson Aparecido. A posse dos conselheiros será dia 15, na Sala São Paulo.

Olha nóis lá

O disputado átrio do MoMa, em NY, expõe, a partir de hoje, A Soma dos Dias. A obra de Carlito Carvalhosa, com 2,2 mil m² de tecido e 19 metros de altura, teve "empurrãozinho" para chegar lá.

Mais precisamente, de Alfredo Setubal, do Itaú.

Valor de mercado

Enquanto o Livro Verde, de Muamar Kadafi, é queimado pelas ruas de Trípoli, no Mercado Livre ele é vendido por R$ 100.

Edição portuguesa, tem 124 páginas e, segundo a descrição, está "sem anotações, rasgos ou páginas faltando".

Na frente

Gabriel Chalita lança O Pequeno Filósofo dia 3. Na Bienal do Rio, com tiragem inicial de 70 mil.

Gilberto Gil, Preta Gil e Mart"nália cantam no Bar Número, dia 31. Para convidados da Nextel.

Carmen Machline tirou mais de mil peças de seu closet - de Alberta Ferretti a Versace. O bazar terá renda revertida para a Casa Hope. De 25 a 28, no Morumbi.

Família Brás: Dois Tempos tem sessão ao ar livre no edifício Martinelli. Evento do fanzine Amarello. Amanhã.

O conselho da Associação Pró-Dança faz festa fechada hoje pela nova estreia da São Paulo Companhia de Dança.

Roberto Duailibi lança hoje o aplicativo Duailibi das Citações. Na Fnac Pinheiros.

A Galeria Thomas Cohn recebe mostras de Lia Menna Barreto e Diego Piriz. A partir do dia 2.

Michel Temer, que tem se reunido com os rebeldes do PMDB insatisfeitos com a liderança do partido na Câmara, recebe a Medalha do Pacificador. Amanhã, no Comando Geral do Exército, em Brasília.

After hours


Adriane Galisteu imaginou e Marco Raduan Filho transformou em realidade. A dupla (mais o sócio Daniel Goldberg, ex-Morgan Stanley) lança hoje o TalkFast, portal de ensino on-line de inglês. Um braço do ilang, produto voltado às escolas, desenvolvido por Raduan e Goldberg. Investimento? "É coisa grande, mas não posso dizer o tamanho", explica o empresário. O projeto, aliás, surgiu de uma necessidade da própria Adriane.

O Marco é do ramo, mas você, Adriane... ninguém conhecia essa faceta tecnológica.

Adriane. É que eu não tenho! Demorei muito para me render à tecnologia. Mas desde que entrei no Twitter me apaixonei. Estou viciada. E comecei a pensar mais em tecnologia.

Marco. A Adriane teve a ideia. Um dia ela me perguntou se era possível fazer um site de ensino de inglês com as mesmas características de uma rede social, como o Facebook. O resultado está saindo do forno.

Ele foi feito pra você?

Adriane. Com certeza. Nunca tenho tempo. Agora, com o Vittorio (filho dela com Alexandre Iódice), menos ainda. E meu inglês não é tão bom quanto eu gostaria que fosse.

O que difere o TalkFast de outros sites de ensino on-line?

Adriane. O formato e os horários. E se a pessoa quer aprender, mas só tem tempo livre à 1h da manhã? No TalkFast ela escolhe esse horário. E entra num grupo específico.

Marco. Esse grupo estará sempre junto, acompanhando as aulas. O ensino é virtual, mas também pessoal. Você faz amigos. Funciona como uma minirrede social.

Parecido com o que você já oferece às escolas pelo ilang?

Marco. Sim, mas agora diretamente ao consumidor. E temos cursos a partir de R$ 39,90 por mês.

Adriane. Sem taxas, sem material, sem inscrição. É bastante democrático.

E em quanto tempo o aluno está falando?

Marco. Depende da disponibilidade. Quem estudar todo dia terminará em um ano e meio. Mas a maioria estará com o diploma em pouco mais de dois anos de curso.

GOSTOSA


MERVAL PEREIRA - Base em transe


Base em transe
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 24/08/11
A situação na base aliada governista está tão confusa que até mesmo a disputa por uma vaga no Tribunal de Contas da União (TCU) pode provocar rachas incontornáveis. Com a aposentadoria de Ubiratan Aguiar, caberá à Câmara indicar seu substituto, e interessa ao governo trocar um ministro "tucano" por um da base aliada.

Especialmente quando diversas obras nos próximos anos, de preparação para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas, estarão sob o escrutínio daquele órgão, que auxilia o Congresso na fiscalização da União e de organismos da administração direta e indireta.

O ex-presidente Lula volta e meia atacava as decisões do TCU, culpando-as pelos atrasos de obras de seu governo.

Por isso, ter ministros ligados à sua base é interesse prioritário do governo, e nada menos que dez candidatos já se apresentaram, mas, na verdade, há três candidatos fortes na disputa: Ana Arraes (PSB), mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos; Aldo Rebelo (PCdoB); e Jovair Arantes, líder do PTB na Câmara.

Ao mesmo tempo em que as disputas de bastidores pela vaga no TCU deixam pendências pelo caminho, uma semana depois de o PR anunciar independência em relação ao governo, mas receber o apelo da ministra Ideli Salvatti para que retornasse à base, o líder do partido na Câmara, Lincoln Portela, assinou o requerimento para a criação da CPMI da Corrupção, para investigar irregularidades na administração federal.

Entre elas as denúncias que atingiram o Ministério dos Transportes, que historicamente era dominado pelo PR nos governos petistas, dando início à "faxina ética" que tanto alvoroço provoca na base aliada do governo.

A CPI mista tem 119 assinaturas de deputados, das 171 necessárias, e 21 adesões de senadores, das 27 necessárias, e a oposição conta com os potenciais dissidentes governistas, descontentes com as investigações do governo, para alcançar o quórum mais uma vez.

As cicatrizes que o processo de demissões em massa nos ministérios controlados por políticos da base aliada vem provocando podem surgir, também, dessa disputa para a vaga do TCU.

O governador Eduardo Campos, chefe do PSB, um dos principais aliados do governo, levou sua mãe, a deputada Ana Arraes, para uma conversa com a presidente Dilma em busca de seu apoio para a vaga.

Mas o que parecia acertado agora ameaça não se concretizar, a se confirmar o apoio da presidente ao ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo, que apresentou sua candidatura só recentemente, quando vários candidatos já trabalhavam em busca de votos.

O que leva muitos a crer que ele só se lançou com a garantia de que o Palácio do Planalto o apoiaria. Mas, na articulação de bastidores, o candidato que parece mais forte é o líder do PTB Jovair Arantes, uma espécie de candidato do baixo clero da Câmara, mas que tem bom trânsito nas altas rodas políticas.

Sua força no baixo clero é correspondente ao empenho para o pagamento de emendas parlamentares, e atualmente ele articula para que as verbas para pequenos municípios sejam liberadas com prioridade pelos órgãos federais, o que vai ao encontro do empenho da maioria dos deputados.

A candidatura da mãe do governador Eduardo Campos, sem o apoio de dentro do governo que ele esperava, está buscando apoios na oposição, e aí é que começa a potencial crise política com um dos mais importantes sustentáculos governistas.

Por meio do senador Aécio Neves, conseguiu obter a promessa de apoio do PSB e do DEM, e com isso o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, que estava apoiando Jovair Arantes, deve ficar pelo menos neutro.

Há também dentro do TCU apoios importantes para Ana Arraes, como os ministros pernambucanos José Múcio, do PTB, mas com raízes no PFL, e José Jorge, do DEM. E até mesmo o terceiro-secretário da Câmara, Inocêncio Oliveira, do PR, mas, sobretudo de Pernambuco, está apoiando sua candidatura.

Mais uma vez o ex-presidente Lula entra nos bastidores dessa história para apagar um possível incêndio. Está deixando saber que apoia a candidatura de Ana Arraes, mesmo que não tenha força na Câmara para decidir esse tipo de eleição.

É um gesto político para satisfazer Eduardo Campos, mas não garante nada.

Lula tentou eleger o deputado Paulo Delgado, do PT mineiro, mas perdeu para o candidato do PFL Aroldo Cedraz. Na outra eleição em que apoiou um petista, José Pimentel - esse mesmo que teve a coragem de ir ao plenário da Câmara para dizer que a faxina ética do governo pode nos levar de volta aos "anos de chumbo" -, foi derrotado por um deputado da própria base governista, Augusto Nardes, do PP.

A disputa, portanto, depende muito menos do apoio do ocupante eventual do Palácio do Planalto do que do prestígio que o candidato tenha no plenário da Câmara.

Desse ponto de vista, Jovair Arantes é o favorito, mas Aldo Rebelo tem bastante chance pela rede de relacionamentos que montou quando presidiu a Câmara.

Mas a deputada Ana Arraes pode surpreender pela ação determinada que seu filho desenvolve nos bastidores. Mesmo que não se eleja, no entanto, terá provocado uma cisão na base governista que pode ser importante na montagem de acordos políticos mais adiante, especialmente na sucessão presidencial.

Se o Planalto não for muito cuidadoso, e não está sendo ao deixar transparecer que seu candidato "in pectoris" é Aldo Rebelo, o governador Eduardo Campos pode ficar tentado a dar o troco.

Como se comenta nos corredores da Câmara, ninguém esquece o que se faz com uma mãe, seja de bom ou de ruim.

O título da coluna é uma singela homenagem aos 30 anos da morte de Glauber Rocha, que tão bem retratou em seus filmes os vícios deste incrível país em que vivemos.

ELIO GASPARI - Na reforma política, a Viúva paga


Na reforma política, a Viúva paga
ELIO GASPARI
FOLHA DE SP - 24/08/11
Você paga a conta da campanha eleitoral e, em troca, perde o direito de escolher metade da Câmara
A COMISSÃO DA CÂMARA que prepara o projeto de reforma política discutirá hoje a proposta do seu relator, o petista Henrique Fontana (RS), que confisca o direito da choldra de escolher nominalmente metade de seus candidatos a deputado federal, estadual e vereador. Mutilado o direito de escolha, o comissariado quer criar uma nova modalidade de avanço sobre o cofre da Viúva.
O nome da coisa é "financiamento público exclusivo". Pelo anteprojeto, acabam-se as doações legais de pessoas físicas e jurídicas. Fica tudo por conta da Viúva. Como ensinou o banqueiro Armínio Fraga, "do meu, do seu, do nosso dinheiro". Os candidatos receberiam recursos dos partidos, e só deles. Quem acredita que nesse sistema acabarão as mordidas ilegais ganha uma passagem de ida a Trípoli.
A proposta instala uma ditadura financeira dos partidos. No atual sistema, os diretores das empresas privadas tiram dinheiro do cofre dos acionistas e jogam-no nas campanhas de seus candidatos. Esse tipo de financiamento poderia ser limitado, ou mesmo proibido, como sucede nos Estados Unidos. Lá, nas últimas décadas, ao longo de 16 eleições, apenas 18 bilionários tiraram de seus bolsos quantias que, somadas, superaram a marca de US$ 1 milhão. Todas as doações desses magnatas totalizaram US$ 41,6 milhões. Na última eleição brasileira, sozinha, a Camargo Correa doou o equivalente a US$ 51 milhões do patrimônio seus acionistas.
O estímulo às doações de pessoas físicas que querem ajudar seus candidatos poderia ser um fator de moralização, mas os companheiros preferem tomar dinheiro de todos os contribuintes para entregá-lo às cúpulas partidárias. Troca-se a selvageria capitalista pela onipotência da nomenklatura. Na Alemanha, onde o grosso do financiamento vem da Viúva, as doações privadas são permitidas, porém fiscalizadas. Helmut Kohl, seu maior estadista da segunda metade do século passado, arruinou-se por conta de doações ilegais que aceitou.
Neste ano, a Viúva gastará R$ 265 milhões sustentando o Fundo Partidário das 27 siglas reconhecidas pela Justiça Eleitoral. (O PT e o PMDB ficam com R$ 45 milhões). Essa verba foi expandida há poucos meses por trás das cortinas da Comissão de Orçamento a partir de um acordo com a oposição. Se o reajuste fosse calculado só pela inflação, como os salários da patuleia, o Fundo estaria teria R$ 150 milhões.
É impossível prever quanto os doutores tirarão da Bolsa da Viúva. A última eleição teve 22.520 candidatos e custou R$ 3,23 bilhões pelo Caixa Um. Admita-se que o novo sistema custe um terço disso. Os partidos avançarão sobre R$ 1 bilhão. Nessa conta, o PT e o PMDB faturariam uns R$ 200 milhões.
Os defensores disso que estão chamando de reforma política argumentam que ela moraliza as campanhas, impondo limites e controles aos gastos. Além disso, a entrega de metade das bancadas da Câmara e das Assembleias às listas organizadas pelos partidos fortalecerá a democracia.
Quem duvida disso deve se precaver. O projeto é o sonho de poder dos comissários e faz sentido que o defendam, pois o PT é o único partido brasileiro organizado. Muitos oposicionistas, cansados de pedir votos, flertam com a ideia. O monstro de muitas bocas atende a tantos interesses estabelecidos em Brasília que tem muita chance de ser aprovado.

RAINHA DA SUCATA


FERNANDO DE BARROS E SILVA - "Só não será se não quiser"


"Só não será se não quiser"
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 24/08/11
SÃO PAULO - Semana sim, semana não -quando não é semana sim, outra também-, Lula aparece em público para afirmar que a candidata à sucessão de Dilma Rousseff se chama Dilma Rousseff. "Ela só não será se não quiser", disse, ainda outro dia, a uma plateia petista.
Ninguém acredita no ex-presidente. A começar por ele próprio. Notícia seria se ele dissesse que Dilma não será candidata. Mas a insistência com que se dedica a repetir o que seria natural (mas não é) reforça a desconfiança de que Lula jamais deixou de se comportar como o senhor da sucessão de 2014. "Ela só não será se (eu) não quiser", ou se "eu quiser ser" -essa é a mensagem política subliminar que Lula dissemina entre petistas e aliados.
É por isso que no PT muita gente graúda já admite, reservadamente (ma non troppo), que a campanha pelo retorno de Lula já está em campo, capitaneada por ele mesmo.
Mais até do que a insatisfação da politicada com o estilo pouco oferecido da presidente, é a deterioração das expectativas econômicas que torna plausível esse tipo de especulação. A média anual de crescimento dos anos FHC foi de 2,3%. No segundo mandato de Lula, a média foi de 4,5%, apesar da crise.
Confirmando-se, para os próximos anos, um desempenho intermediário entre essas duas marcas, teríamos, com Dilma, uma gestão medíocre -nem desastrosa, nem exuberante. Seria o melhor cenário para que engrossasse o caldo de cultura a favor do retorno de Lula.
Muita água ainda vai rolar, é certo. Mas, oito meses depois de deixar o cargo, Lula só fez o contrário do que havia prometido. Quem ia "dar uma lição de como se comporta um ex-presidente" se permite cobrar resultados do ministro da Educação como se ainda fosse seu chefe. Quem ia se ocupar da fome no mundo e ter preocupações internacionais está enfiado até o pescoço nos arranjos da política municipal. Se agora já é assim, depois das eleições de 2012 a tendência é piorar. O cara não deixa a mulher trabalhar.

FERNANDO RODRIGUES - O ACM do PT


O ACM do PT
FERNANDO RODRIGUES
FOLHA DE SP - 24/08/11
BRASÍLIA - Tomada pelo valor de face, faz todo sentido a tática eleitoral do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a cidade de São Paulo. O PT enfrenta resistências históricas entre paulistas em geral. Para superar o obstáculo, precisa renovar seus quadros. Apresentar um discurso diferente. Portanto, pela lógica lulista, o atual ministro da Educação, o jovial Fernando Haddad, deve ser o nome do PT na disputa paulistana em 2012.
Como Lula já se convenceu desse raciocínio -de fato arguto-, toda a cúpula petista fica obrigada a se submeter e a bater continência. Os outros pré-candidatos do PT estão sendo convidados a sair de cena. Principal opositora da ideia, a ex-prefeita Marta Suplicy tem chance mínima de forçar a realização de uma eleição prévia interna.
Esse processo não está errado. Só revela o estágio de degradação do sistema partidário nacional. Bem ou mal, o PT era a única sigla de grande porte propensa a ter alguma democracia na hora de escolher seus candidatos. Lula teve de se submeter a uma eleição prévia contra Eduardo Suplicy, em 2002, antes de entrar na corrida presidencial daquele ano.
Ao impor o seu dedaço (já houve Dilma Rousseff), Lula se consolida como o sinhozinho do partido. É o ACM do PT. A partir da sua cadeira no Instituto Lula, nhonhô recebe ministros de Dilma. Cobra execução de projetos. Fala com candidatos a prefeito de São Paulo. Determina qual é o caminho a seguir.
O Brasil tem 27 partidos. Seria injusto cobrar democracia interna apenas do PT. Mas as outras siglas relevantes da política nacional já são há muito tempo um caso perdido nesse quesito. E os petistas sempre se jactaram de seu sistema aberto à militância. Não mais.
É evidente que a bruxaria lulista pensada para São Paulo pode ser o atalho mais curto para a legenda retornar ao poder na capital paulista. Mas ao preço de o partido mimetizar "con gusto" os demais.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Queria que o presidente [do Senado] fosse andar em jumento?”
DEPUTADO ESTADUAL MAGNO BACELAR (PV-MA) SOBRE USO DE HELICÓPTERO POR JOSÉ SARNEY

GOVERNO PAGOU R$ 10 MILHÕES A INVESTIGADOS 
Investigadas na Operação Alquimia, da Polícia Federal, por bilionária sonegação de impostos através de “laranjas”, a Sasil Comercial e Industrial de Petroquímicos e a Acqua Service Produtos Químicos receberam, em 6 anos, quase R$ 10 milhões do governo federal para fornecimento de combustível nuclear, revela o Portal da Transparência, que tirou do ar o pagamento de outros R$ 4 milhões a Sasil. 

ÀS CEGAS 
Os contratos com ministério da Ciência e Tecnologia começaram em 2004, dois anos após a PF abrir inquérito sobre o suposto esquema. 

TORNEIRA FECHADA 
Em 2010, a Sasil levou mais R$ 1,2 milhão, porém “micou” em 2011: o Portal da Transparência registra pagamento de apenas R$12,8 mil.

ECOS DA REVOLUÇÃO 
A Líbia instalou ontem o governo rebelde. Lula instalou o governo do B, recebendo ministros no palácio, ops, no Instituto da Cidadania. 

LÍBIA FASHION WEEK 
O grande dilema de Gaddafi ontem era escolher o figurino em que aparecerá na TV, na prisão ou no chamado “paletó de madeira”. 

DF: CENTRO VAI CUSTAR R$ 12,6 MILHÕES MENSAIS 
O futuro centro administrativo do governo do DF deve custar bem mais que os R$ 5,5 milhões mensais previstos. A Parceria Público Privada com as empreiteiras obriga o governo a pagar R$ 12 milhões e 690 mil mensais por vinte anos, sendo R$ 5,6 milhões pelos serviços (água, energia, etc) e R$ 7 milhões de aluguel, segundo Luiz Fernando Costa e Silva, ex-chefe de gabinete do ex-governador biônico Rogério Rosso.

ALÔ, MINISTÉRIO PÚBLICO 
O centro foi inventado quando Durval Barbosa distribuía na Codeplan dinheiro sujo para políticos. Rosso o substituiu e “abraçou” a ideia.

RISCO ZERO 
Para a obra do centro administrativo de 178 mil metros, as empresas querem banco público financiando e o governo do DF como avalista.

SEM CONFIRMAÇÃO 
Costa e Silva alega que, em serviços, o governo do DF gastaria R$ 15 milhões hoje. Não há levantamento confiável atestando esses valores.

NO CALDEIRÃO AFRICANO 
O tour de Lula pela África em janeiro, anunciado na coluna há dias, poderá ser alterado, caso o novo governo líbio retalie economicamente o Brasil pelo indisfarçável apreço do ex-presidente ao ditador Gaddafi.

CARTA AO PAPA 
O distanciamento da presidente Dilma com a Igreja Católica ficou na campanha. Ela escreveu carta ao Papa Bento 16 dando garantias para a realização da Jornada Mundial da Juventude, em 2013, no Rio de Janeiro. O “carteiro” foi o governador Sérgio Cabral.

PROFESSOR BATISTA 
O bilionário Eike Batista, que empresta jatinhos, explicou no Twitter a ajuda que ele e outros megaempresários recebem: “O BNDES ajuda a baixar para todos os brasileiros o custo Brasil!! Entendeu?”.

JURISTAS NA SALA 
A faculdade Projeção, de Taguatinga (DF), realiza até sexta o 1º Fórum Internacional de Grandes Juristas, batizando 23 salas de aulas com seus nomes. São esperados advogados e ministros do STF, além de alguns já aposentados, como Sepúlveda Pertence e Moreira Alves.

FICHA LIMPA 
O procurador-geral Roberto Gurgel deve enviar ao Supremo Tribunal Federal seu parecer pela legalidade da Lei Ficha Limpa. E senadores farão visitas ao ministro relator, Luiz Fux, a pedido de magistrados.

CAMINHO DO BURACO 
A CNT concluiu a pesquisa rodoviária deste ano, cuja equipe percorreu 91 mil km de estradas, entre junho e agosto. O relatório, que será divulgado em outubro, mostra que nada mudou, a exemplo das 17 superintendências do Dnit nas mãos do PR.

DEBOCHE 
Apesar de ser cunhado do deputado Marcelo Castro (PMDB-PI), cujos irmãos são donos da construtora Jurema, que tem contratos com o DNIT, o chefe do órgão no Piauí, Sebastião Braga, o “Tião Sorriso”, se deleita com a definição para a sigla: ‘Dilma Não Investiga o Tião”.

LIVRO DE RIGOTTO 
O ex-governador gaúcho Germano Rigotto lançará seu livro “Para além do Berço Esplêndido”, nesta quarta-feira, na Livraria Cultura do shopping Casa Park, em Brasília.

PENSANDO BEM... 
... Além do ministro Fernando Haddad (Educação), o cirurgião plástico de Marta Suplicy deve ter adorado Lula dizer que São Paulo precisa de “cara nova”. 

PODER SEM PUDOR
AMIZADE ÍNTIMA 
O ditador Fidel Castro recebeu os parlamentares que participaram de um voo inaugural para Cuba, nos anos 80. Um deles, o deputado estadual paulista Waldemar Chubaci, que conhecera o líder cubano em outra ocasião, resolveu chamá-lo por um apelido pouco conhecido dos brasileiros:
– Comandante Fifo...
Mais tarde, os demais parlamentares resolveram chamar sua atenção:
– Como é que você chama o homem de “Fifo”?
– Ué – reagiu o deputado – ele só me chama de “Chuba”...

QUARTA NOS JORNAIS


Globo: Rebeldes líbios tomam QG, mas não encontram Kadafi

Folha: Rebeldes tomam QG de Gadaffi

Estadão: Rebeldes tomam QG de Kadafi, que fala em lutar até a morte

Correio: Corrupção no Turismo já avança sobre a Copa

Valor: Cade admite rever decisão sobre o caso Nestlé-Garoto

Zero Hora: Sem QG, Kadafi repete ameaças

terça-feira, agosto 23, 2011

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Negócio da China
SONIA RACY
O ESTADÃO - 23/08/11

De passagem pelo Brasil, onde permanecerá por três semanas, Yue-Sai Kan - dona dos direitos do Miss Universo na China - impressiona. A empresária da indústria de cosméticos, apresentadora de televisão, proprietária de sua própria produtora e autora de 7 best-sellers, além de embaixadora da Unicef, conseguiu o que muitos chineses homens jamais sonhariam. Muito menos uma mulher.

Saiu da China com a família, por causa da revolução, e cresceu, estudando, nos EUA. Ante o imenso sucesso nas televisões americanas a cabo, o governo chinês pediu a ela que montasse um programa seu para a TV do país. "Quando comecei, em 1986, a China tinha uma televisão normal, um canal de Pequim e uma TV por satélite. Hoje são 33 televisões por satélite e 3 mil canais", contabilizou Yue-Sai durante jantar reservado na casa de Beatriz Pimenta Camargo, no domingo.

Ontem, a sino-americana almoçou com Mario Garnero, na Brasilinvest, e depois foi homenageada com outro jantar, na casa de João Pedro Flecha de Lima, da Huawei.
Qual a audiência da apresentadora na China? Mais de 300 milhões de espectadores, o que lhe valeu, da revista People, o título de mulher mais famosa do país. E observações como a do The New York Times: "Poucas pessoas conseguem uma ponte entre Oriente e Ocidente com tanta beleza e inteligência".

Não bastasse a notoriedade, ela teve autorização do governo chinês, em 1990, para montar a primeira fábrica de cosméticos do país, batizada com seu nome. Sem participação do estado ou obrigação de exportar.

Foi difícil? "Você não é nada lá sem relacionamentos", explica. Na China, as pessoas são medidas pelo "guanxi". Isto é, seu network de forma abrangente, incluindo trabalho, família e amigos. Não pelo cargo ou pelo dinheiro. E o da menina nascida em Guilin parece ser grande.

A empresária reage com certo desprezo diante de termos como "Tibete" ou "direitos humanos". "Você não vai me perguntar sobre essas mesmas coisas que todo mundo pergunta", avisa. Afirma não ter nada a dizer, mas lembra: "Quando saí da China, o Tibete fazia parte dela. Porque querem ir embora agora?".

Dizendo-se ateia, acredita também estar em uma das últimas encarnações. E classifica o sistema político da China como "ditadura benevolente". "Não há outra maneira de comandar 1,3 bilhão de pessoas".

Yue-Sai Kan veio a São Paulo monitorar a Miss China, preparando-a para a disputa do Miss Universo, que acontece em 12 de setembro. "Tenho certeza de que vai ganhar", atira a autoconfiante empreendedora. Se ela vencer, se tornará o rosto de sua marca pelo mundo? "Claro que sim". Hoje, a empresa de cosméticos de Yue-Sai Kan, fundada em 1992 e vendida pela Coty à L"Oréal em 2004, só produz para o mercado interno. Mas, pelo visto, o país não é limite para esta chinesa de olhos abertos.

Quanto recebeu para vender sua companhia e continuar à frente dos negócios? Ela não revela. Mas o mercado aposta em algo como... US$ 1 bilhão.

Classes do Fasano

Jacqueline Mikhail, da Be Happy Viagens, tirou o sábado para trabalhar. Levou seus cartões de visita para a inauguração do novo hotel Fasano, na Fazenda Boa Vista, a 100 km de São Paulo. E circulou à vontade entre os cerca de 500 convidados que desfilavam no lobby de pé direito alto projetado por Isay Weinfeld.

Enquanto explicava quem era seu público alvo, Jacqueline teorizou sobre a evolução das classes sociais. "A classe D quer ser C; a C, B; a B, A, e a A, AA." A classse AA, resumiu Jackie, "é o que a gente chama de milionários".

Antes da constatação, a reportagem resolve desbravar o salão atrás de diferenças dos A, B, C. Algo além das existentes entre uma bolsa Chanel e uma Hermès. Parou de contar o número de "chanéis" quando chegou em 50. As outras eram, na maioria, Hermès.

O hotel tem 13 suítes e 26 quartos. A diária é igual à dos outros da grife: entre R$ 1.300 e R$ 2.000. A diferença é que o hóspede tem de ficar no mínimo duas noites no fim de semana. "É para fazê-lo permanecer pelo menos dois dias", diz o assessor, Dudi Machado.

De fato, em menos de 48 horas fica difícil aproveitar as 213 cachoeiras, duas mesas de sinuca vintage ("perfeitas para acompanhar um coquetel no final da tarde"), o campo de golfe projetado por Randell Thompson e o vagão dos anos 30 "nostalgicamente decorado".

Como se trata de um hotel de campo, o bufê de comida típica de fazenda AA oferece uma inversão de classes. Os pratos seriam supostamente C: feijãozinho preto, frango com quiabo, ensopadinho de carne e folhas da horta. No corredor entre o lobby e as suítes, onde o trânsito para visitar o hotel é grande, os AA cumprimentam os AB, enquanto várias C e D correm uniformizadas atrás de crianças AA, impecavelmente vestidas.

Helena Mottin conta que, desde que comprou o Mercedes blindado de Hebe Camargo, nunca mais foi assaltada. Acredita que os assaltantes já sabem se o carro é blindado só de tocar a arma no vidro. "Tem um que fica sempre num sinal da Tabapuã. Toda vez ele faz toc-toc no meu vidro..."

À saída da festa, os convidados ganharam uma lembrancinha na linha "campo & mato AA". Rosquinhas amanteigadas recheadas com goiabada. Tipo clássico quatrocentão ABCD. /PAULO SAMPAIO

Na frente

Fabio Barbosa, do Santander, anuncia novos desafios. Vai surpreender.

Dr. Hélio cassado, Alckmin escolheu Jurandir Fernandes, seu secretário, para disputar Campinas em 2012.

A Filarmônica de Câmara de Bremen toca na Sala São Paulo. Hoje a amanhã.

José Resende abre individual na Raquel Arnaud. E Fernando Morais lança livro na Saraiva do
Shopping Higienópolis. Ambos hoje.

Kaká e Ganso tiveram os rostos esculpidos na areia de Copacabana no fim de semana. Ação da Gillette.

ANCELMO GÓIS - 55 disputado


55 disputado 
ANCELMO GÓIS 
O Globo - 23/08/2011

Esse PSD de Kassab, partido que não é contra nem a favor, muito pelo contrário, tenta reservar o número 55.

Só que o número é disputado também pelo PPL (Partido Pátria Livre), criado pelo antigo grupo de esquerda MR-8, cuja ideologia hoje é... não sei.

No mais

Dilma se livrou de mais uma herança maldita de Lula.

A nova diretoria de Furnas, anunciada ontem, não tem, pelo que se diz no setor, ladrão.

Aliás...

Pensava-se que José Serra fosse o único político que reclamava até de notícia a favor. Mas, como diria Millôr Fernandes, Dilma, não obstante, superou-o.

Sua nota atacando os elogios que recebeu da "The Economist" vai entrar para os anais da centenária revista.

"Bye, bye, Brazil"

Thomas Shannon, o embaixador de Obama em Brasília, viajou domingo para Washington, onde acerta com Hillary Clinton o novo posto que ocupará na Casa Branca.

Só deve voltar para se despedir. Para seu lugar, por enquanto, será designado um encarregado de negócios.

ILIMAR FRANCO - Guerra do cabide


Guerra do cabide
ILIMAR FRANCO  
O Globo - 23/08/2011

O novo líder do PP na Câmara, Aguinaldo Ribeiro (PB), atendendo aos apelos da nova maioria, vai exorcizar os fantasmas de sua bancada. A liderança do PP tem direito a cerca de 75 cargos de livre nomeação. Os novos querem nomear os seus para esses espaços, que estão ocupados por afilhados de ex-deputados, como Pedro Corrêa, ou de parlamentares que estão no Executivo, como é o caso do ministro Mário Negromonte (Cidades).

Mensalão do PP: Planalto acha grave

O governo Dilma não recebeu bem a tentativa do ministro Mário Negromonte (Cidades) de tentar retomar o controle da bancada do partido na Câmara. A denúncia de mensalão é considerada "grave", de acordo com um integrante da coordenação, e pode comprometer sua permanência no governo, "se for comprovada". Por isso, o que se diz é que "Negromonte vai ficando, por enquanto". A tentativa do ministro de derrubar o líder Aguinaldo Ribeiro (PB) foi comunicada à ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) na quarta-feira (17), quando o deputado Esperidião Amin (PP-SC) lhe relatou o que estava acontecendo.

"CPI tem momento. Qual esse momento? Ele virá se a presidenta (Dilma) não levar adiante o que ela própria chamou de faxina. Se ela titubear lá, eu não titubearei" - Cristovam Buarque, senador (PDT-DF)

A HISTÓRIA SE REPETE. Os rebeldes do PP derrubaram com um abaixo-assinado o líder Nelson Meurer (PR). Colocaram em seu lugar Aguinaldo Ribeiro (PB). O ministro Mário Negromonte (Cidades), na foto, tentou mudar o líder, articulando uma lista de apoios a José Otávio Germano (RS). O PP faz agora o que o PMDB fez no primeiro mandato do ex-presidente Lula, quando travou uma guerra de assinaturas nas listas do ex-deputado José Borba (PR) e do atual senador Wilson Santiago (PB).

Fronteira segura

Primeiro foi a Colômbia. Agora o Brasil negocia um acordo militar com o Peru. As negociações integram o Plano de Ocupação da Fronteira. A meta é povoar os 150km, no território brasileiro, a partir do marco fronteiriço.

Verniz no macacão

Os tucanos mineiros criaram, no sábado, o PSDB sindical. Filiaram ao partido 150 sindicalistas. O presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), explica: "O nosso objetivo é que trabalhadores participem das decisões do PSDB".

Nas mãos da União

Os estados não produtores acham boa a nova proposta apresentada pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ) para a distribuição dos royalties do petróleo. A bola agora está com a União. "O mais importante é que o Rio está se abrindo para um entendimento", disse o senador Wellington Dias (PT-PI). Pela proposta, cerca de R$5,8 bi que a União arrecadaria a mais com o sistema de partilha seriam distribuídos para os não produtores.

Atalho

Os TREs estão demorando para homologar os pedidos de registros estaduais do PSD. Essa etapa consta de resolução da Justiça Eleitoral. Por isso, o partido vai entrar com as assinaturas pedindo seu registro no TSE, como prevê a lei.

Bombeiro

O vice Michel Temer voltou a se reunir com os rebeldes do PMDB, ontem à noite. Mas dessa vez chamou também o líder da bancada, Henrique Alves (RN). Temer quer que os dois grupos façam um acordo e parem de brigar entre si.

ADESÃO. O PV espera ser chamado pela presidente Dilma Rousseff nesta semana para conversar. Com a saída de Marina Silva, o partido resolveu voltar para a base do governo.

A PRESIDENTE Dilma foi convidada pelo presidente do PMDB, senador Valdir Raupp (RO), para abrir o fórum nacional "O PMDB e os municípios", dia 15 de setembro. Ela gostou da ideia.

UM GRUPO de deputados está estimulando a vice-presidente da Câmara, Rose de Freitas (PMDB-ES), a se lançar candidata à presidência da Casa.

MURILLO ARAGÃO - Lavagem das escadarias do poder


 Lavagem das escadarias do poder
MURILLO ARAGÃO
BRASIL ECONÔMICO - 23/08/11

Certa vez, em entrevista à revista da PwC, eu disse que a política brasileira era uma turbina em reverso impactando a potência da turbina econômica.
Os primeiros oito meses de governo da presidente Dilma Rousseff são um retrato perfeito dessa situação, com a política atrasando o bom ritmo que a economia poderia ter.
Um debate político mais qualificado colocaria em pauta, desde já, questões fundamentais, como reforma tributária, reforma política, reforma previdenciária, desoneração do custo de contratação de mão de obra, desburocratização, entre outros temas.
As agendas políticas são essenciais para a construção de um país melhor. No entanto, essa não é a prioridade do Congresso, que, no silêncio do Executivo sobre alguns desses temas, deveria adiantá-los.
A economia, em que pesem as incertezas do exterior e os desafios do câmbio e da inflação no âmbito interno, vai bem e com boas perspectivas. Vamos continuar a crescer.
Na cena política, o governo decolou com turbulência e segue atravessando céus "procelosos", em meio a raios e ventanias. Desnecessário relembrar a coleção de eventos que afetam seu desempenho. Em especial, a saída de Antonio Palocci da Casa Civil.
Mesmo assim, Dilma mantém sua popularidade em bom estado e, melhor de tudo, conserva poder de iniciativa. A presidente tem, por exemplo, mais popularidade do que Lula no início do seu primeiro mandato. Isso tudo mostra que o brasileiro quer que o país continue avançando na redução da desigualdade, na distribuição de renda e no fim da miséria.
Desde que começou sua gestão, Dilma anunciou vários projetos que já estão em curso: a fase 2 de Minha Casa, Minha Vida; o programa de combate à miséria - que agora terá a parceria de São Paulo; o programa de bolsas universitárias no exterior; e a nova política industrial do governo.
Nesta semana, deve anunciar um programa destinado a expandir a oferta de microcréditos à população de baixa renda. O Planalto tenta, com suas naturais limitações ideológicas e intelectuais, aproveitar o bom momento que vivemos.
Na política, a situação oscila entre a disputa rasteira do fisiologismo e a corrupção escancarada de uns e outros que estão no governo para fazer esquemas. Destaca-se a cara de pau de algumas das "vítimas" do processo de "faxina".
A presidente Dilma não poderia compactuar com tal situação e pode pagar um preço por sua ousadia. Cabe aos brasileiros proteger as boas intenções do governo, dando apoio às medidas de saneamento da administração pública.
O preço disso, como sabemos, poderá ser a sabotagem de alguns membros na base. Votações complicadas e obstrução ao encaminhamento de matérias relevantes são esperadas.
Nessa altura dos acontecimentos e no melhor interesse da democracia, devemos tentar trazer a turbina da política para uma posição de empuxe ou de neutralidade, pelo menos. Muito melhor do que desligá-la.
Não podemos, de forma alguma, abandonar a política nem deixar de saudar as medidas saneadoras da administração. No final das contas, a lavagem das escadarias e dos escaninhos do poder vai valer a pena para todos os brasileiros.

EDITORIAL - O GLOBO - A diversificada tecnologia da corrupção


A diversificada tecnologia da corrupção
EDITORIAL
O GLOBO - 23/08/11

Assim como o Brasil não foi fundado em 2003, como queria fazer crer a propaganda lulopetista, a corrupção não surgiu nos últimos oito anos na vida pública do país. Mas, reconheça-se, tomou grande impulso a partir de um modelo de montagem de governo em que a principal preocupação não é a busca por melhorias na qualidade da administração, mas a quantidade de votos assegurados no Congresso, para garantir a "governabilidade". Em nome dela, amplas e estratégicas áreas da máquina pública foram cedidas a partidos aliados, com carta-branca para administrarem os respectivos orçamentos, em todo ou em parte, como bem entendessem.
Durante este tempo diversificaram-se os métodos de desvio de recursos do Tesouro de forma ilícita. Há desde a simulação de gastos com marketing e publicidade para retirar dinheiro de estatal (BB/Visanet), como foi feito para ajudar a lubrificar o esquema do mensalão, até métodos clássicos de superfaturamento de obras por meio de aditivos. O golpe está registrado no currículo do PR na administração que fez no Ministério dos Transportes e seu Departamento Nacional de Infraestrutura (Dnit).
Do Ministério da Agricultura, sabe-se da relação promíscua do ex-ministro Wagner Rossi (PMDB) e filho, Baleia, deputado estadual paulista pelo partido do pai, com uma empresa fornecedora de vacinas antiaftosa, e da acusação contra a cúpula da Pasta feita por Jucazinho, por sua vez destituído por desviar dinheiro da Conab. Por ser um ministério entregue ao PMDB com "porteira fechada" - assim como, em alguma medida, foi feito nos Transportes com o PR -, é provável que uma auditoria atenta revele usos e costumes obscuros bastante consolidados. Pode-se imaginar o tipo de rastros que deixou o lobista Júlio Fróes, de livre trânsito na comissão de licitações da Pasta.
Já no Turismo, de Pedro Novais, capturado pelo PMDB maranhense e sua sublegenda do Amapá, onde o senador José Sarney tem base eleitoral, permitiu-se o uso da gazua da emenda parlamentar para o sequestro de dinheiro do contribuinte. O golpe de usar gastos com "formação de mão de obra" por ONGs para justificar a subtração de dinheiro do Erário foi usado no Amapá e, soube-se depois, em Sergipe, por meio de um convênio de tramitação relâmpago pelo ministério.
As alegadas despesas com treinamento serviram para a aprovação a jato de convênio milionário com uma ONG sergipana sem qualquer experiência no que prometia executar: formar 18 mil cozinheiros, garçons, motoristas de táxi, entre outros profissionais, para estimular o turismo no estado. A organização já recebeu R$3 milhões dos R$8 milhões prometidos, embora não houvesse matriculado um único aluno, revelou O GLOBO. O Turismo se candidata a ser outro generoso vazadouro de recursos públicos.
Ao contrário do que alguns pensam, não há "udenismo" nas denúncias, até porque o Brasil de hoje pouco tem a ver com o da década de 50. O Estado tem mecanismos de combate à corrupção, e não há a necessidade de movimentos políticos que tendem a gerar crises institucionais em nome da moralização. Eles não podem é ser impedidos de funcionar.

ALON FEUERWERKE - De pipoca e refrigerante


De pipoca e refrigerante
ALON FEUERWERKE
CORREIO BRAZILIENSE - 23/08/11

E o Brasil? Para o país que ofereceu mediação no impasse árabe/israelense e tentou costurar o acordo entre Teerã e as potências em torno do programa nuclear iraniano, o atual silêncio é ensurdecedor.


A resistência a apoiar os levantes democráticos no mundo árabe e islâmico tem dupla origem. Uns torcem o nariz, pois preferem a continuidade dos déspotas amigos. Outros não, mas temem a emergência de forças político-religiosas fundamentalistas e autoritárias.
O exemplo é sempre o Irã. Onde a Revolução Islâmica libertou ventos democratizantes, para suprimi-los em seguida e lançar o país numa poliarquia teocrática. A esquerda iraniana, aliás, participou ativamente do movimento de 1979, antes de ser suprimida pelos aiatolás.
É o temor mais frequente no desdobramento da situação egípcia. Mas, quem busca enfraquecer a influência ocidental na região, não teme o cenário. Desse ângulo, o ideal seria ver emergir uma república islâmica sunita no Cairo.
Que em seguida poderia unir-se aos xiitas de Teerã e criar uma situação de forças na qual Washington só teria a retirada como alternativa.
Infelizmente para quem pensa assim, a conflagração iraquiana serve de termômetro da (im)possibilidade de coesão estratégica entre xiitas e sunitas. A união de todas as facções contra o elemento externo pode frequentar o discurso, mas daí à prática vai uma distância daquelas. O pan-arabismo foi e é apenas palavrório vazio.
Na Líbia, por exemplo, a república ditatorial, algo laica e bastante nepótico-cleptocrática do coronel Muammar Kadafi vai sendo empurrada para a lata de lixo da História, na expressão clássica de Leon Trotsky sobre os socialistas-revolucionários que recusaram apoiar a Revolução Bolchevique de outubro e novembro de 1917.
E quem empurra é uma composição heterodoxa.
A faxina de Trípoli é feita a quatro mãos pela aliança militar do Ocidente, a Otan, e rebeldes que também bebem da fonte fundamentalista. Inclusive com ligações marginais à Al Qaeda. Parece-lhe bizarro? Pois é a política. A arte de estar sempre pronto a romper com o aliado e a aliar-se ao adversário/inimigo.
O universo árabe e islâmico é um emaranhado de facções religiosas, políticas e militares. De nações desenhadas artificialmente pelo colonialismo. Não há linhas demarcatórias definitivas.
Isso complica ainda mais a vida de quem precisa tomar posição sobre o assunto. A esquerda brasileira é um exemplo. Comemorou a queda dos ditadores tunisiano e egípcio, aliados dos Estados Unidos, mas cerra fileiras em torno de Kadafi e do açougueiro de Damasco, Bashar Al Assad.
Em meio à confusão, a melhor abordagem, por enquanto, é a de Barack Obama. Que descartou sem muita hesitação aliados importantes, para estar em posição de lutar pela influência na nova ordem.
Pois árabes e muçulmanos têm o mesmo direito à democracia que os demais.
E o Brasil? Para o país que ofereceu recentemente mediação no impasse árabe/israelense e tentou costurar o acordo entre Teerã e as potências em torno do programa nuclear iraniano, o silêncio é ensurdecedor.
Podem querer que pareça sabedoria, mas a explicação provável é outra: o Itamaraty e o Palácio do Planalto não têm a mínima ideia do que fazer.
Pois só haveria duas opções: 1) apoiar decididamente a onda democrática ou 2) agir caso a caso conforme o interesse, conforme quem está no poder ou na oposição.
O governo brasileiro não anda convicto do primeiro caminho, nem está disposto a pagar o preço político embutido no segundo.
E aí fica de saquinho de pipoca e refrigerante na mão, vendo passar o filme da História. Quando não sobra com o mico, como vai acontecendo na Líbia. E tem boa chance de acontecer na Síria.

Nem aíTodas as pesquisas mostram que o eleitor não aceita abrir mão de eleger diretamente os deputados e vereadores. O último levantamento a mostrar isso foi feito com os usuários do serviço 0800 da Câmara dos Deputados.
73% disseram acompanhar a discussão da reforma política no Congresso, 57% discordam do financiamento público de campanhas eleitorais, 67% discordam da lista fechada (voto indireto) para o Legislativo e 75% concordam com o fim das coligações nas eleições para deputado e vereador.
Deveria ser suficiente para os alquimistas da reforma. Mas eles não estão interessados no que o povo acha ou deixa de achar.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - O voo do oligarca

O voo do oligarca
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SP - 23/08/11 

SÃO PAULO - Vestido de branco, com boina, em traje de safari tropical e cercado por serviçais, ele caminha no meio da mata. Poderia ser Muammar Gaddafi em fuga. Mas era José Sarney a passeio.
Reportagem desta Folha revelou que o presidente do Senado usou o helicóptero da PM do Maranhão para fazer o trajeto entre São Luís e sua ilha particular. Numa de suas viagens a Curupu, Sarney estava acompanhado do empresário Henry Duailibe Filho, primo do marido da governadora Roseana Sarney, Jorge Murad, e beneficiário de contratos com o Estado que somam pelo menos R$ 80 milhões.
Flagrado em seu turismo privado com a aeronave paga pelo contribuinte para atender a população em casos de emergência, o patriarca teve a desfaçatez de dizer que viajou "a convite da governadora do Maranhão". E, mais, que tem "direito a transporte de representação em todo o território nacional".
Enquanto funcionários da base da PM carregavam bagagens e caixas de isopor do helicóptero para o carro dos Sarney, um pedreiro acidentado aguardava numa maca, dentro de outro helicóptero, para ser transportado até a ambulância.
Não é por acaso que a capitania hereditária governada há mais de quatro décadas pelo clã Sarney seja um dos maiores cartões-postais da tragédia social brasileira. Não importa qual seja o ranking -mortalidade infantil, IDH, nível educacional, renda per capita em domicílios urbanos, expectativa de vida média-, em todos eles o Maranhão figura entre os Estados mais miseráveis e desumanos do país.
É irônico que esse mandonismo em estado bruto (a verdade histórica do literato cordial) tenha encontrado em Lula seu grande aliado. Sem ele, Sinhazinha não teria sido eleita como foi e Sinhô não teria se mantido à frente do Senado.
"O Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum", disse o petista em 2009, ao defender seu oligarca com jaquetão de escritor.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - Sexta-feira, duas vezes 13

Sexta-feira, duas vezes 13
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 23/08/11 

Economias ricas navegam por um mar de icebergs; finança espera discurso do presidente do Fed, na sexta


NA TARDE DE sexta-feira que vem, dia 26, duas vezes 13, o presidente do banco central dos EUA, Ben Bernanke, fará um discurso muito esperado pela finança mundial.
Mas os próprios porta-vozes e outras figuras falantes da finança palpitam que Bernanke não diria muita coisa, nem teria como, em sua apresentação em Jackson Hole, cidadezinha do Wyoming que sedia um seminário econômico muito importante, patrocinado pelo Fed. De fato, a baderna da economia do mundo rico é tamanha que um discurso, um homem, ainda que presidente do Fed, ou mesmo o próprio Fed não teriam a capacidade de anunciar providência redentora.
Porém, a economia mundial não estava muito melhor em agosto de 2010. Foi quando Bernanke na prática anunciou que o Fed daria início à fase dois do "quantitative easing", relaxamento monetário, o QE2. Apenas a política de taxa de juros zero não reanimara a economia dos EUA. Além do mais, tumultos de meio de ano, como a crise grega, derrubaram os ânimos econômicos. O crescimento dos EUA parecia embicar para baixo de novo.
O QE2 começaria em novembro, quando o Fed passaria a comprar títulos de longo prazo da dívida pública americana. Isso, na prática, tende a derrubar as taxas de juros longas (e de financiamentos imobiliários, por exemplo) e faz com que aumente a quantidade de recursos emprestáveis nos bancos.
No QE1, na explosão da crise de 2008-2009, o Fed comprara qualquer título, até de empresas, um desvio escalafobético das funções de qualquer BC. No dizer sarcástico de Maria da Conceição Tavares, o Fed então descontava até duplicatas.
Apenas a dica de que haveria QE2 levou os investidores grandes às compras. A partir de setembro as Bolsas subiram, a especulação com commodities vicejou, subiram as moedas-commodities (de países dependentes de commodities e mais arrumadinhos, como o Brasil). Haveria dinheiro barato e abundante para fazer aposta em ativo de risco.
A economia real dos EUA reagiu com um suspiro fraco de ânimo ao QE2. O consumo subiu pouco, mas juros menores permitem refinanciamento de dívidas. Famílias endividadas não têm como comprar muito mais. O aumento do preço dos ativos financeiros anima também o consumidor, que sente estar menos pobre (ou, até 2008, mais rico).
Parecia então que a recuperação econômica viria. Pelo menos era isso que alardeavam os povos dos mercados (e o Fed também). A conversa fiada colou, mesmo com o horrível desemprego, com as dívidas públicas saindo pelo ladrão etc. Agora, estamos em meio a outra reação exagerada dos povos das finanças. Sim, soube-se agora que a recessão nos EUA foi pior do que se imaginara; que o crescimento de 2011 estava sumindo. Houve o previsível retorno da crise da dívida europeia. Houve a maluquice da crise do teto da dívida americana. Mas não sabemos ainda se virá nova recessão nos EUA e na Europa.
No entanto, o governo de Barack Obama não sabe o que fazer para tentar tirar o país da pasmaceira. Os indecisos e divididos governos europeus estão cozinhando nova erupção da crise da dívida, já agora em setembro. Os Titanics econômicos de EUA e Europa navegam na direção de um mar de icebergs. O Fed, sozinho, não vai virar o leme.

LIBERATO VIEIRA DA CUNHA - Jamais esquecerei

Jamais esquecerei 
LIBERATO VIEIRA DA CUNHA
ZERO HORA - 23/08/11

Como não amar o passado? – me pergunta uma leitora a propósito de uma de minhas crônicas. Por uma coincidência, estive esvaziando gavetas e encontrei o instantâneo em que outra amiga e eu passeamos de mãos dadas pela Praça da Matriz.

Ana Laura tinha cabelos loiros e traços perfeitos. Ana Laura e eu passeávamos de mãos dadas pela Praça da Matriz de sua cidade. Corriam então os Anos Dourados, o dia era de verão e glorioso.

Não sei do que foi feito de Ana Laura, se casou, se ainda mora em sua cidade, se tem filhos, se é odontóloga, advogada, médica ou simplesmente do lar. Mas recordo como se fosse hoje nós dois tão jovens passeando de mãos dadas num começo de namoro.

Não sei o que foi feito de Ana Laura, mas guardo a memória precisa de seu vestido leve, de seus tornozelos finos, de seu sorriso perfeito. Lembro que falávamos de um baile que ia haver aquela noite, de um cachorrinho que tinha desaparecido, do Brasil, que era então um país inaugural.

Um sorridente mineiro semeava estradas, hidrelétricas, desbravava fronteiras e instalava fábricas de automóveis onde então eles eram importados. Fuscas, Dauphines, DKWs, Aero-Willys, Simca-Chambords enchiam ruas e avenidas, uma rodovia rasgava a selva, Brasília erguia-se do nada em pleno Sertão.

Vivíamos então um tempo mágico, pois os ventos da esperança sopravam por aqui. Ana Laura era parte daquele cenário, em que soavam os acordes da bossa nova, nascia o cinema novo, o Brasil era campeão mundial de futebol na Suécia, Maria Esther Bueno vencia em Wimbledon, Éder Jofre arrasava nos ringues, ganhávamos ainda certames de basquete a pesca submarina.

Onde andará Ana Laura? Será diplomata, psicanalista, pianista? Não sei. São tudo coisas de problemática resposta. Só sei que os tempos são outros, bem diversos daqueles em que a adolescência era azul e o país uma festa móvel.

E o que foi feito de mim? Hoje sou todo um senhor que não caminha pela Praça da Matriz com uma garota loira. Não há mais Anos Dourados, somos um mar de corrupção.

Me resta a imagem da garota de 15 anos – os mesmos 15 anos que eu tinha – e que de repente e sem aviso, no passeio pela Praça da Matriz de sua cidade me disse aquelas palavras que jamais esquecerei.