ZERO HORA - 23/12
Um balanço das atividades da Câmara Federal em 2013 traz alguma frustração, mas,entre perdas e ganhos, os deputados trabalharam bastante.
Os melhores resultados foram resposta às manifestações das ruas, provocação exigente e muito clara. O clamor popular sempre foi atendido pelos parlamentares. Os políticos são sensíveis. Assim, caiu metade das hipóteses de uso de voto secreto em nosso Congresso, definiu-se o transporte público como um bem social equiparado à educação e à saúde e reconheceu-se
plenitude de direitos aos empregados domésticos. Restou muito por fazer.
A torcida é para que se avance em meio à Copa do Mundo e em agitado embate eleitoral. Será difícil, mas quem sabe a memória não falhe e os legisladores completem a obra.
Reforma política seria inaplicável na próxima eleição. Ficará para bem depois. Há, no entanto, em fase final do processo legislativo, matérias fundamentais para a vida dos brasileiros. O marco civil da internet, por exemplo. Neutralidade e função social da rede, privacidade, retenção de dados e responsabilidade civil de usuários e provedores esperam votação definitiva. Há quem diga que a proposta será a primeira da pauta em 2014.
Emendas constitucionais focadas na segurança pública estão no cardápio. Tratam de remuneração dos profissionais policiais. Propõe-se a fixação de um piso salarial nacional para as polícias militares, com o propósito de retribuir com justiça o serviço relevante desses servidores, o que estimulará novas carreiras. Na mesma linha, projeta-se autorizar o pagamento de adicional noturno a agentes civis ou não.
O PNE – Plano Nacional de Educação – precisa vencer os últimos obstáculos. Aprovado no Senado, falta a Câmara dar-lhe o desenho final, garantindo ensino público, gratuito e obrigatório a todos, entre 4 e 17 anos de idade, com a destinação de 10 por cento do PIB à educação.
Os trabalhadores em véspera de aposentadoria seguem apreensivos. O fator previdenciário resiste às várias tentativas de derrubá-lo. O governo dá as cartas e os deputados de oposição não conseguem impedir. A questão indígena é outra agenda pedindo urgência. Para agilizar a Justiça, que se aprove o novo Código de Processo Civil. Para enfrentar a criminalidade, que venha o novo Código Penal. É preciso que os municípios sejam atendidos no justo pedido por uma distribuição de recursos mais adequada. Afinal, tudo se faz na cidade em que se vive, sem reflexo na hora de trazer de volta o dinheiro dos contribuintes. E que também nos socorra uma reforma tributária completa. Faz meio século que João Goulart anunciou as reformas de base, o que lhe custou a derrubada do poder. Ainda assim, ficou tudo mesmo para o ano que vem. Ou mais.
segunda-feira, dezembro 23, 2013
Legalização da maconha - CARLOS ALBERTO DI FRANCO
O Estado de S.Paulo - 23/12
O Uruguai, que já permitia o consumo de maconha, legalizou a produção e a venda da droga. A nova lei foi aprovada no Senado por 16 votos a 13 e deverá entrar em vigor no primeiro semestre de 2014. Pela nova legislação, os uruguaios e estrangeiros que residem no país e têm mais de 18 anos poderão comprar até 40 gramas da erva por mês em farmácias credenciadas pelo governo. Os defensores da liberação, armados de uma ingenuidade cortante, acreditam que a legalização reduzirá a ação dos traficantes. Mas ocultam uma premissa essencial no terrível silogismo da dependência química: a compulsividade. O usuário, por óbvio, não ficará no limite legal. O tráfico, infelizmente, não vai desaparecer.
A psiquiatra mexicana Nora Volkow é uma referência na pesquisa da dependência química no mundo. Foi quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no cérebro. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow é uma voz respeitada. No momento em que recrudesce a campanha para a descriminalização das drogas, suas palavras são uma forte estocada nos argumentos politicamente corretos.
A cientista foi entrevistada pela revista Veja, em março de 2010. A revista trouxe à baila um crime que chocou a sociedade. O cartunista Glauco Villas Boas e seu filho foram mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como Santo Daime. "Que efeito essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?" A resposta foi clara e direta: "Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam esse sintoma, além de aumentarem a profundidade e a frequência das alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz", sublinhou a pesquisadora.
Quer dizer, a descriminalização das drogas facilitaria o consumo das substâncias. Aplainado o caminho de acesso às drogas, os portadores de esquizofrenia teriam, em princípio, maior probabilidade de surtar e, consequentemente, de praticar crimes e ações antissociais. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu com o jovem assassino do cartunista. A suposição, muito razoável, é um tiro de morte no discurso da ingenuidade.
Além disso, a maconha, droga glamourizada pelos defensores da descriminalização, é frequentemente a porta de entrada para outras drogas. "Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva", diz Nora Volkow. "Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes." Pode, efetivamente, causar ansiedade, perda de memória, depressão e surtos psicóticos. Não dá para entender, portanto, o recorrente empenho de descriminalização. Também não serve o falso argumento de que é preciso evitar a punição do usuário. Nenhum juiz, hoje em dia, determina a prisão de um jovem por usar maconha. A prisão, quando ocorre, está ligada à prática de delitos que derivam da dependência química: roubo, furto, pequeno tráfico, etc. Na maioria dos casos, de acordo com a Lei n.º 9.099/95, há aplicação de penas alternativas, tais como prestação de serviços à comunidade e eventuais multas no caso de réu primário.
Caso adotássemos os princípios defendidos pelos lobistas da liberação, o Brasil estaria entrando, com o costumeiro atraso, na canoa furada da experiência europeia. Todos, menos os ingênuos, sabem que, assim como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. É raro encontrar um consumidor ocasional. Existe, sim, usuário iniciante, mas que muito cedo se transforma em dependente crônico. Afinal, a compulsão é a principal característica do adicto. Um cigarro da "inofensiva" maconha preconizada pelos arautos da liberação pode ser o passaporte para uma overdose de cocaína. Não estou falando de teorias, mas da realidade cotidiana e dramática de muitos dependentes. Transcrevo, caro leitor, o depoimento de um dependente químico. Ele fala com a experiência de quem esteve no fundo do poço.
"Sou filho único. Talvez porque meus pais não pudessem ter outros filhos, me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei nove meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha. Nessa época, já cursava medicina e convenci os meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas. Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina, que é um opiáceo. Sofri uma overdose e só não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho. Após essa fatalidade, decidi me internar numa comunidade terapêutica e, hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava nas drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque." A.S.N., médico de Ribeirão Preto (SP), é ex-interno da Comunidade Terapêutica Horto de Deus (www.hortodedeus.org.br).
As drogas estão matando a juventude. A dependência química não admite discursos ingênuos, mas ações firmes e investimentos na prevenção e na recuperação de dependentes. A todos, um feliz Natal!
O Uruguai, que já permitia o consumo de maconha, legalizou a produção e a venda da droga. A nova lei foi aprovada no Senado por 16 votos a 13 e deverá entrar em vigor no primeiro semestre de 2014. Pela nova legislação, os uruguaios e estrangeiros que residem no país e têm mais de 18 anos poderão comprar até 40 gramas da erva por mês em farmácias credenciadas pelo governo. Os defensores da liberação, armados de uma ingenuidade cortante, acreditam que a legalização reduzirá a ação dos traficantes. Mas ocultam uma premissa essencial no terrível silogismo da dependência química: a compulsividade. O usuário, por óbvio, não ficará no limite legal. O tráfico, infelizmente, não vai desaparecer.
A psiquiatra mexicana Nora Volkow é uma referência na pesquisa da dependência química no mundo. Foi quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no cérebro. Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow é uma voz respeitada. No momento em que recrudesce a campanha para a descriminalização das drogas, suas palavras são uma forte estocada nos argumentos politicamente corretos.
A cientista foi entrevistada pela revista Veja, em março de 2010. A revista trouxe à baila um crime que chocou a sociedade. O cartunista Glauco Villas Boas e seu filho foram mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como Santo Daime. "Que efeito essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?" A resposta foi clara e direta: "Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam esse sintoma, além de aumentarem a profundidade e a frequência das alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz", sublinhou a pesquisadora.
Quer dizer, a descriminalização das drogas facilitaria o consumo das substâncias. Aplainado o caminho de acesso às drogas, os portadores de esquizofrenia teriam, em princípio, maior probabilidade de surtar e, consequentemente, de praticar crimes e ações antissociais. Ao que tudo indica, foi o que aconteceu com o jovem assassino do cartunista. A suposição, muito razoável, é um tiro de morte no discurso da ingenuidade.
Além disso, a maconha, droga glamourizada pelos defensores da descriminalização, é frequentemente a porta de entrada para outras drogas. "Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva", diz Nora Volkow. "Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes." Pode, efetivamente, causar ansiedade, perda de memória, depressão e surtos psicóticos. Não dá para entender, portanto, o recorrente empenho de descriminalização. Também não serve o falso argumento de que é preciso evitar a punição do usuário. Nenhum juiz, hoje em dia, determina a prisão de um jovem por usar maconha. A prisão, quando ocorre, está ligada à prática de delitos que derivam da dependência química: roubo, furto, pequeno tráfico, etc. Na maioria dos casos, de acordo com a Lei n.º 9.099/95, há aplicação de penas alternativas, tais como prestação de serviços à comunidade e eventuais multas no caso de réu primário.
Caso adotássemos os princípios defendidos pelos lobistas da liberação, o Brasil estaria entrando, com o costumeiro atraso, na canoa furada da experiência europeia. Todos, menos os ingênuos, sabem que, assim como não existe meia gravidez, também não há meia dependência. É raro encontrar um consumidor ocasional. Existe, sim, usuário iniciante, mas que muito cedo se transforma em dependente crônico. Afinal, a compulsão é a principal característica do adicto. Um cigarro da "inofensiva" maconha preconizada pelos arautos da liberação pode ser o passaporte para uma overdose de cocaína. Não estou falando de teorias, mas da realidade cotidiana e dramática de muitos dependentes. Transcrevo, caro leitor, o depoimento de um dependente químico. Ele fala com a experiência de quem esteve no fundo do poço.
"Sou filho único. Talvez porque meus pais não pudessem ter outros filhos, me cercavam de mimos e realizavam todas as minhas vontades. Aos 12 anos comecei a fumar maconha, aos 17 comecei a cheirar cocaína. E perdi o controle. Fiz um tratamento psiquiátrico, fiquei nove meses tomando medicamentos e voltei a fumar maconha. Nessa época, já cursava medicina e convenci os meus pais de que a maconha fazia menos mal que o cigarro comum. Meus argumentos estavam alicerçados em literatura e publicações científicas. Eles mal sabiam que estavam sendo enganados, pois, além de cheirar, também passei a injetar cocaína e dolantina, que é um opiáceo. Sofri uma overdose e só não morri porque estava dentro de um hospital, que é o meu local de trabalho. Após essa fatalidade, decidi me internar numa comunidade terapêutica e, hoje, graças a Deus, estou sóbrio. O uso moderado de maconha sempre acabava nas drogas injetáveis. Somente a sobriedade total, inclusive do álcool, me devolveu a qualidade de vida que não pretendo trocar nem por uma simples cerveja ou uma dose de uísque." A.S.N., médico de Ribeirão Preto (SP), é ex-interno da Comunidade Terapêutica Horto de Deus (www.hortodedeus.org.br).
As drogas estão matando a juventude. A dependência química não admite discursos ingênuos, mas ações firmes e investimentos na prevenção e na recuperação de dependentes. A todos, um feliz Natal!
Abuso no direito de recorrer - FERNANDO CASTELO BRANCO e FERNANDA DE ALMEIDA CARNEIRO
CORREIO BRAZILIENSE - 23/12
O julgamento da Ação Penal nº 470, o famigerado mensalão, revelou inédito interesse do povo brasileiro por questões atinentes ao direito penal e processual penal. Acostumada ao arraigado axioma de que, no Brasil, a Justiça é implacável apenas com os pobres, a população - animada com a possibilidade de punição rigorosa também para os ricos, poderosos e políticos - acompanhava com interesse as sessões de julgamento transmitidas pela TV Justiça. Os principais sites de notícia as analisavam em tempo real, com advogados "traduzindo" o que era discutido pelos ministros. Em conversas de bar, cidadãos leigos na área jurídica discutiam com desenvoltura a "teoria do domínio do fato".
Com a condenação da maior parte dos réus, o Supremo tribunal Federal, órgão absolutamente distante da realidade da população, caiu em suas graças. Pouquíssimo tempo depois, porém, a sensação de descrédito voltou a reinar, quando os embargos infringentes - que concedem o direito a novo julgamento para os réus que obtiveram ao menos quatro votos por sua absolvição - foram acolhidos.
A possibilidade de "eternização" do processo, nas palavras do ministro Joaquim Barbosa, tomou o centro das discussões. Mas, afinal, quando o exercício constitucionalmente assegurado da ampla defesa (art. 5º, inciso LV) torna-se abusivo? É sabido que, diariamente, são interpostos inúmeros recursos evidentemente protelatórios, que buscam tão-somente retardar o andamento dos feitos, impedindo o trânsito em julgado das decisões e inviabilizando a efetividade da prestação jurisdicional.
Há registros, em nossos tribunais superiores, da oposição sucessiva de até seis embargos de declaração - peça processual que objetiva o esclarecimento de ambiguidade, obscuridade, contradição ou omissão na decisão -, todos desprovidos dos pressupostos legais de cabimento (STJ, AG nº 125202).
As consequências, obviamente, são nefastas. Réus confessos, condenados em todas as instâncias por crimes gravíssimos, mas livres do cumprimento de pena pela ocorrência de eventual prescrição, agravam a sensação de impunidade e desconfiança da população no Poder Judiciário.
Buscando coibir a recorribilidade vazia, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania aprovou, em 4/12/13, a Proposta de Emenda à Constituição nº 15/2011. A chamada PEC dos Recursos - que seguirá para o plenário, para discussão e votação em dois turnos - permite aos órgãos colegiados da Justiça e tribunais do júri expedir mandados de prisão assim que as decisões condenatórias forem proferidas, independentemente da interposição de qualquer outro recurso.
A medida proposta, vale dizer, colide com preceitos estabelecidos na própria Carta Magna, como a presunção de inocência (segundo a qual ninguém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de sentença penal condenatória) e o direito ao duplo grau de jurisdição (que garante aos jurisdicionados a reanálise do processo, por uma instância superior).
Entre as duas situações diametralmente opostas - o abuso irrestrito ao direito de recorrer, que desvirtua o princípio da ampla defesa; e a violação aos princípios constitucionais - nossos tribunais parecem ter encontrado caminho mais razoável: autorizam o imediato cumprimento das decisões - inclusive com expedição de mandado de prisão - apenas nos casos em que seja expressamente reconhecida a finalidade protelatória dos recursos interpostos.
Ainda que não seja a solução definitiva, nem, talvez, a ideal, até que haja uma mudança na mentalidade de alguns operadores do direito (que buscam, de forma indiscriminada, atender os interesses de seus clientes), o reconhecimento, por nossos tribunais, do abuso no direito de recorrer é passo importante na tentativa de zelar pela ética no processo.
A conta é do prefeito - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO
O Estado de S.Paulo - 23/12
Ser presidente não é fácil, mas ser prefeito é pior - pelo menos se o governante estiver preocupado com a opinião pública. A popularidade de Dilma Rousseff é 26% maior do que a média dos governadores, e 39% mais alta do que a dos prefeitos, segundo o Ibope. Não é uma mera questão de competência. Se é nas cidades que os problemas se materializam, as prefeituras são o elo mais fraco da gestão pública: têm menos recursos e menor autonomia.
Tome-se a mobilidade urbana. Na última década, o governo federal fez da venda de automóveis uma política de estado. Subsidiou, financiou e estimulou o transporte individual o quanto pode. Mais do que a casa própria, o ícone da ascensão social foi outro: meu carro, minha vida. O status sobre rodas alavancou o consumo, a popularidade presidencial e os congestionamentos.
Em apenas dez anos, a frota nacional mais do que dobrou. Pelo menos 44 milhões de novos carros, motos, caminhões e ônibus entraram nas vias brasileiras entre 2003 e 2013. Enfileirando-se só os 45 milhões de automóveis, o engarrafamento daria cinco voltas na Terra. Empilhados, criariam uma muralha de 18 carros de altura ao longo de todas as ruas de São Paulo.
Para sorte de Fernando Haddad, só uma parte dessa manada circula pelas vias que ele governa. A frota paulistana fechará 2013 com 7 milhões de veículos, dos quais cerca de 5 milhões são automóveis. Se todos os carros saíssem da garagem ao mesmo tempo, formariam uma fila de mais de 20 mil quilômetros. São Paulo tem 17 mil quilômetros de ruas asfaltadas, logo...
O problema não é só do prefeito paulistano. É de quase todos os governantes das grandes cidades brasileiras. Lá, a imobilidade urbana se acentua, por uma simples questão de adensamento. Um em cada três carros da frota nacional está registrado nas capitais. São 15 milhões de automóveis, 30 milhões de eixos, 60 milhões de pneus (fora estepes) concentrados em apenas 27 cidades. E isso sem contar a frota flutuante que vem dos arredores diariamente.
Contra essa inundação rodante, os prefeitos são os que menos podem. Eles não controlam a produção nem a venda de veículos. Não lacram nem têm poder de polícia para retirar de circulação os carros sem licenciamento ou que não pagam os devidos impostos. Isso caberia aos governadores, mas que vantagem estes levariam em guinchar os veículos de potenciais eleitores? Se o trânsito melhorasse, quem sairia ganhando seria o prefeito.
Mesmo que alguém fizesse algo a respeito, para onde levar os 40% da frota que, estima-se, circula irregularmente por São Paulo? Seria necessário um estacionamento com 4,5 quilômetros de cada lado para abrigar todos os recolhidos, uns 80 Itaquerões.
O transporte de massa também não é prerrogativa do prefeito. Metrô e trem urbano, no Brasil, são da alçada do governador - cuja popularidade depende menos do tamanho dos engarrafamentos do que da sensação de (in)segurança pública, ou da qualidade do atendimento nos hospitais e unidades de saúde.
Não é acaso que a popularidade dos poderosos é menor nas capitais e suas periferias. Os eleitores ali são mais críticos porque nessas cidades os problemas são mais complexos e difíceis de solucionar. Os prefeitos das capitais acabam pagando o preço mais alto: seu saldo de popularidade é 11 pontos negativo, em média, enquanto nas cidades do interior o saldo do prefeito é 4 pontos positivo.
A fragilidade do poder local é uma oportunidade, especialmente, para a presidente. Gastos cada vez maiores em programas de alta popularidade nas cidades menores, como Bolsa Família e Luz para Todos, permitiram a Dilma ter um saldo de aprovação três vezes maior no interior do que nas capitais. Nas metrópoles, o buraco é mais embaixo - mas aí a presidente divide a conta com prefeitos e governadores, e ainda paga menos.
Ser presidente não é fácil, mas ser prefeito é pior - pelo menos se o governante estiver preocupado com a opinião pública. A popularidade de Dilma Rousseff é 26% maior do que a média dos governadores, e 39% mais alta do que a dos prefeitos, segundo o Ibope. Não é uma mera questão de competência. Se é nas cidades que os problemas se materializam, as prefeituras são o elo mais fraco da gestão pública: têm menos recursos e menor autonomia.
Tome-se a mobilidade urbana. Na última década, o governo federal fez da venda de automóveis uma política de estado. Subsidiou, financiou e estimulou o transporte individual o quanto pode. Mais do que a casa própria, o ícone da ascensão social foi outro: meu carro, minha vida. O status sobre rodas alavancou o consumo, a popularidade presidencial e os congestionamentos.
Em apenas dez anos, a frota nacional mais do que dobrou. Pelo menos 44 milhões de novos carros, motos, caminhões e ônibus entraram nas vias brasileiras entre 2003 e 2013. Enfileirando-se só os 45 milhões de automóveis, o engarrafamento daria cinco voltas na Terra. Empilhados, criariam uma muralha de 18 carros de altura ao longo de todas as ruas de São Paulo.
Para sorte de Fernando Haddad, só uma parte dessa manada circula pelas vias que ele governa. A frota paulistana fechará 2013 com 7 milhões de veículos, dos quais cerca de 5 milhões são automóveis. Se todos os carros saíssem da garagem ao mesmo tempo, formariam uma fila de mais de 20 mil quilômetros. São Paulo tem 17 mil quilômetros de ruas asfaltadas, logo...
O problema não é só do prefeito paulistano. É de quase todos os governantes das grandes cidades brasileiras. Lá, a imobilidade urbana se acentua, por uma simples questão de adensamento. Um em cada três carros da frota nacional está registrado nas capitais. São 15 milhões de automóveis, 30 milhões de eixos, 60 milhões de pneus (fora estepes) concentrados em apenas 27 cidades. E isso sem contar a frota flutuante que vem dos arredores diariamente.
Contra essa inundação rodante, os prefeitos são os que menos podem. Eles não controlam a produção nem a venda de veículos. Não lacram nem têm poder de polícia para retirar de circulação os carros sem licenciamento ou que não pagam os devidos impostos. Isso caberia aos governadores, mas que vantagem estes levariam em guinchar os veículos de potenciais eleitores? Se o trânsito melhorasse, quem sairia ganhando seria o prefeito.
Mesmo que alguém fizesse algo a respeito, para onde levar os 40% da frota que, estima-se, circula irregularmente por São Paulo? Seria necessário um estacionamento com 4,5 quilômetros de cada lado para abrigar todos os recolhidos, uns 80 Itaquerões.
O transporte de massa também não é prerrogativa do prefeito. Metrô e trem urbano, no Brasil, são da alçada do governador - cuja popularidade depende menos do tamanho dos engarrafamentos do que da sensação de (in)segurança pública, ou da qualidade do atendimento nos hospitais e unidades de saúde.
Não é acaso que a popularidade dos poderosos é menor nas capitais e suas periferias. Os eleitores ali são mais críticos porque nessas cidades os problemas são mais complexos e difíceis de solucionar. Os prefeitos das capitais acabam pagando o preço mais alto: seu saldo de popularidade é 11 pontos negativo, em média, enquanto nas cidades do interior o saldo do prefeito é 4 pontos positivo.
A fragilidade do poder local é uma oportunidade, especialmente, para a presidente. Gastos cada vez maiores em programas de alta popularidade nas cidades menores, como Bolsa Família e Luz para Todos, permitiram a Dilma ter um saldo de aprovação três vezes maior no interior do que nas capitais. Nas metrópoles, o buraco é mais embaixo - mas aí a presidente divide a conta com prefeitos e governadores, e ainda paga menos.
O ano de Francisco - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 23/12
Se o Natal é sempre oportunidade para reencontros e esperanças, o de 2013 será especialmente simbólico, alimentado por novas reflexões em torno da ideia da renovação.
Será o primeiro Natal de Jorge Mario Bergoglio à frente do seu pontificado, o personagem que melhor incorporou a necessidade e a possibilidade de transformação de um mundo ainda convulsionado pela fome, violência, destruição do patrimônio natural e refém de uma gigantesca desigualdade.
Com legitimidade, demonstrou que a grande mudança começa, na verdade, dentro e em torno de cada um de nós e se concretiza nas posturas que assumimos no dia a dia.
Provou o quanto o exemplo é valioso, quando inexiste contradição entre discurso e prática. E que o novo, muitas vezes, pode ser o que há de mais antigo. No caso, a busca da verdade, da ética, da solidariedade e do bem comum.
Poucas vezes a história pôde ver a emergência de uma liderança tão intensa e definitiva e tão próxima da realidade daqueles a quem conduz.
Francisco conquistou reconhecimento genuíno, mesmo entre os não católicos, porque conseguiu falar aos corações de todas as pessoas e religiões, por meio da sinceridade e humildade de sua fé. Não é por acaso que, mundo afora, tenha conquistado o afetuoso tratamento de "Papa do Povo".
Ao escolher o seu nome papal, ele já anunciava a que viera, buscando uma forte identidade com os despossuídos.
Adotou o despojamento e a simplicidade, reduzindo o fausto das tradições que destoava dos valores da sua pregação. Outras ações tiveram impacto mais profundo, como divulgar as contas do Vaticano e buscar respostas para as acusações de corrupção e lavagem de dinheiro no banco estatal e para desvios de conduta de religiosos.
A preocupação com os jovens somou-se à busca de caminhos para maior participação de mulheres na igreja. Um generoso acolhimento substituiu a intransigência na condução de temas complexos como o da sexualidade. A justiça social ocupou um papel importante no seu discurso, mas sem concessões à demagogia.
Em Francisco, as pessoas conseguem sentir a verdade na fala e nos gestos. Do alto dos seus 77 anos, ele não precisou de qualquer pirotecnia para fazer a Igreja Católica encontrar um caminho que a aproximasse mais de seus fiéis e de seus próprios valores.
Há um resultado evidente e mensurável com um parâmetro bem terreno: 2 milhões de pessoas estiveram nas audiências abertas, desde que ele foi eleito em março, um número quatro vezes maior que as recebidas pelo seu antecessor.
Que o significado do exemplo do papa Francisco ilumine o Natal de todos os brasileiros. A você e a sua família, os meus votos de um Feliz Natal, de muita paz e harmonia.
Se o Natal é sempre oportunidade para reencontros e esperanças, o de 2013 será especialmente simbólico, alimentado por novas reflexões em torno da ideia da renovação.
Será o primeiro Natal de Jorge Mario Bergoglio à frente do seu pontificado, o personagem que melhor incorporou a necessidade e a possibilidade de transformação de um mundo ainda convulsionado pela fome, violência, destruição do patrimônio natural e refém de uma gigantesca desigualdade.
Com legitimidade, demonstrou que a grande mudança começa, na verdade, dentro e em torno de cada um de nós e se concretiza nas posturas que assumimos no dia a dia.
Provou o quanto o exemplo é valioso, quando inexiste contradição entre discurso e prática. E que o novo, muitas vezes, pode ser o que há de mais antigo. No caso, a busca da verdade, da ética, da solidariedade e do bem comum.
Poucas vezes a história pôde ver a emergência de uma liderança tão intensa e definitiva e tão próxima da realidade daqueles a quem conduz.
Francisco conquistou reconhecimento genuíno, mesmo entre os não católicos, porque conseguiu falar aos corações de todas as pessoas e religiões, por meio da sinceridade e humildade de sua fé. Não é por acaso que, mundo afora, tenha conquistado o afetuoso tratamento de "Papa do Povo".
Ao escolher o seu nome papal, ele já anunciava a que viera, buscando uma forte identidade com os despossuídos.
Adotou o despojamento e a simplicidade, reduzindo o fausto das tradições que destoava dos valores da sua pregação. Outras ações tiveram impacto mais profundo, como divulgar as contas do Vaticano e buscar respostas para as acusações de corrupção e lavagem de dinheiro no banco estatal e para desvios de conduta de religiosos.
A preocupação com os jovens somou-se à busca de caminhos para maior participação de mulheres na igreja. Um generoso acolhimento substituiu a intransigência na condução de temas complexos como o da sexualidade. A justiça social ocupou um papel importante no seu discurso, mas sem concessões à demagogia.
Em Francisco, as pessoas conseguem sentir a verdade na fala e nos gestos. Do alto dos seus 77 anos, ele não precisou de qualquer pirotecnia para fazer a Igreja Católica encontrar um caminho que a aproximasse mais de seus fiéis e de seus próprios valores.
Há um resultado evidente e mensurável com um parâmetro bem terreno: 2 milhões de pessoas estiveram nas audiências abertas, desde que ele foi eleito em março, um número quatro vezes maior que as recebidas pelo seu antecessor.
Que o significado do exemplo do papa Francisco ilumine o Natal de todos os brasileiros. A você e a sua família, os meus votos de um Feliz Natal, de muita paz e harmonia.
Os maus prognósticos do BC - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 23/12
A inflação poderá cair, mas permanecerá bem acima da meta oficial, 4,5%, nos próximos dois anos, segundo os novos cenários do Banco Central (BC). A economia continuará em marcha lenta pelo menos até o terceiro trimestre de 2014, o investimento será insuficiente para um novo arranque e as contas externas ainda exibirão um buraco indisfarçável, de acordo com o último Relatório de Inflação de 2013. Esse relatório, trimestral, contém um amplo retrato da economia brasileira, um resumo das condições internacionais e prospecções para o período relevante para a política monetária.
O documento contém, implicitamente, um bom argumento a favor de pelo menos mais uma alta dos juros básicos, aumentados para 10% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Formado por diretores do BC, esse órgão é responsável pela fixação da Selic, a taxa básica, e pelas diretrizes principais do combate à inflação - excetuada a gestão das finanças públicas, conduzida frouxamente pelo ministro da Fazenda, sob orientação da presidente da República.
Se a Selic for mantida em 10% e o câmbio ficar em torno de R$ 2,35 por dólar, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), estará em 5,6% no fim de 2014 e 5,4% quando terminar 2015. Neste ano, o acumulado em 12 meses deve ficar em 5,8%, segundo a projeção central do relatório. Isso ocorrerá, de acordo com a análise apresentada, mesmo com uma acomodação dos preços internacionais dos produtos básicos. Os últimos aumentos de juros ainda levarão algum tempo para afetar plenamente a evolução dos preços. Apesar disso, os cenários apresentados no relatório valem como argumento a favor de um aperto adicional na política.
O relatório mantém a expectativa otimista, indicada em outros documentos do BC, quanto à evolução da política fiscal. As contas públicas, segundo a insistente aposta das autoridades monetárias, deverão evoluir, no próximo ano e talvez no seguinte, sem produzir mais pressões inflacionárias.
A avaliação pode ser considerada simpática pelo ministro da Fazenda e pela presidente. Apesar disso, os autores do relatório julgaram conveniente lembrar a importância da disciplina orçamentária para a estabilidade de preços. A geração de superávits primários "compatíveis com as hipóteses contempladas (...) contribuiria para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta". Além disso, "contribuiria para criar uma percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazos".
A menção às "hipóteses contempladas" e o uso dos verbos no condicional tornam um pouco menos generosa a avaliação das tendências da política fiscal. Uma referência à eleição de 2014 tornaria mais condimentado esse toque de realismo.
Se o conjunto dos preços evoluir de acordo com o cenário central do relatório, a presidente Dilma Rousseff continuará descrevendo a inflação, quase certamente, como "dentro da meta". A meta, segundo essa concepção, inclui qualquer número até o limite superior de 6,5%, ou seja, toda a margem destinada a acomodar desvios justificáveis. Numa política séria, a meta seria inferior a 4,5%, como em outros países em desenvolvimento, e a margem de acomodação, mais estreita, para abrigar somente desvios mais razoáveis. Não há como justificar uma inflação de 5,84%, como a de 2012, nem taxas como as estimadas para este e para os próximos dois anos.
A gestão frouxa das contas públicas e a tolerância à inflação combinam com o mau estado geral da economia. Segundo o relatório, o investimento produtivo continuará abaixo de 20% do PIB, bem inferior ao de outros sul-americanos (acima de 24%). O crescimento econômico permanecerá na faixa de 2% a 2,5%, o avanço do comércio exterior será medíocre e o buraco na conta corrente do balanço de pagamentos ainda ficará em US$ 78 bilhões, quase repetindo o estimado para 2013 (US$ 79 bilhões). Economistas da indústria e do setor financeiro têm apresentado prognósticos semelhantes. A presidente pode descartá-los. Mas poderá descartar o relatório do BC?
A inflação poderá cair, mas permanecerá bem acima da meta oficial, 4,5%, nos próximos dois anos, segundo os novos cenários do Banco Central (BC). A economia continuará em marcha lenta pelo menos até o terceiro trimestre de 2014, o investimento será insuficiente para um novo arranque e as contas externas ainda exibirão um buraco indisfarçável, de acordo com o último Relatório de Inflação de 2013. Esse relatório, trimestral, contém um amplo retrato da economia brasileira, um resumo das condições internacionais e prospecções para o período relevante para a política monetária.
O documento contém, implicitamente, um bom argumento a favor de pelo menos mais uma alta dos juros básicos, aumentados para 10% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Formado por diretores do BC, esse órgão é responsável pela fixação da Selic, a taxa básica, e pelas diretrizes principais do combate à inflação - excetuada a gestão das finanças públicas, conduzida frouxamente pelo ministro da Fazenda, sob orientação da presidente da República.
Se a Selic for mantida em 10% e o câmbio ficar em torno de R$ 2,35 por dólar, a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), estará em 5,6% no fim de 2014 e 5,4% quando terminar 2015. Neste ano, o acumulado em 12 meses deve ficar em 5,8%, segundo a projeção central do relatório. Isso ocorrerá, de acordo com a análise apresentada, mesmo com uma acomodação dos preços internacionais dos produtos básicos. Os últimos aumentos de juros ainda levarão algum tempo para afetar plenamente a evolução dos preços. Apesar disso, os cenários apresentados no relatório valem como argumento a favor de um aperto adicional na política.
O relatório mantém a expectativa otimista, indicada em outros documentos do BC, quanto à evolução da política fiscal. As contas públicas, segundo a insistente aposta das autoridades monetárias, deverão evoluir, no próximo ano e talvez no seguinte, sem produzir mais pressões inflacionárias.
A avaliação pode ser considerada simpática pelo ministro da Fazenda e pela presidente. Apesar disso, os autores do relatório julgaram conveniente lembrar a importância da disciplina orçamentária para a estabilidade de preços. A geração de superávits primários "compatíveis com as hipóteses contempladas (...) contribuiria para arrefecer o descompasso entre as taxas de crescimento da demanda e da oferta". Além disso, "contribuiria para criar uma percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico no médio e no longo prazos".
A menção às "hipóteses contempladas" e o uso dos verbos no condicional tornam um pouco menos generosa a avaliação das tendências da política fiscal. Uma referência à eleição de 2014 tornaria mais condimentado esse toque de realismo.
Se o conjunto dos preços evoluir de acordo com o cenário central do relatório, a presidente Dilma Rousseff continuará descrevendo a inflação, quase certamente, como "dentro da meta". A meta, segundo essa concepção, inclui qualquer número até o limite superior de 6,5%, ou seja, toda a margem destinada a acomodar desvios justificáveis. Numa política séria, a meta seria inferior a 4,5%, como em outros países em desenvolvimento, e a margem de acomodação, mais estreita, para abrigar somente desvios mais razoáveis. Não há como justificar uma inflação de 5,84%, como a de 2012, nem taxas como as estimadas para este e para os próximos dois anos.
A gestão frouxa das contas públicas e a tolerância à inflação combinam com o mau estado geral da economia. Segundo o relatório, o investimento produtivo continuará abaixo de 20% do PIB, bem inferior ao de outros sul-americanos (acima de 24%). O crescimento econômico permanecerá na faixa de 2% a 2,5%, o avanço do comércio exterior será medíocre e o buraco na conta corrente do balanço de pagamentos ainda ficará em US$ 78 bilhões, quase repetindo o estimado para 2013 (US$ 79 bilhões). Economistas da indústria e do setor financeiro têm apresentado prognósticos semelhantes. A presidente pode descartá-los. Mas poderá descartar o relatório do BC?
Mudanças acertadas - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 23/12
A comissão de senadores que analisou o projeto do novo Código Penal rejeitou concepções que reduzem o valor da vida humana e fez outras alterações que melhoraram outros aspectos do texto
No dia 20, comentamos, neste mesmo espaço, as mudanças que uma comissão especial de senadores fez no projeto de lei do novo Código Penal no que dizia respeito ao aborto. No entanto, como ressaltamos em outras ocasiões, este não era o único assunto em que o texto, criado por um grupo de juristas a pedido do ex-presidente do Senado José Sarney, apresentava graves problemas. E, felizmente, os senadores melhoraram o novo Código Penal não apenas no que dizia respeito à interrupção da gravidez, mas também em outros temas, dos quais nos ocuparemos hoje.
Um dos aspectos mais preocupantes do Código Penal elaborado pelos juristas era o desprezo pela dignidade da vida humana, percebido não apenas na tentativa de legalizar o aborto, mas também na comparação entre os crimes contra seres humanos e contra animais. O projeto original, por exemplo, previa pena de 1 a 6 meses de prisão, ou multa, para quem deixasse de socorrer crianças, inválidos ou feridos, enquanto prescrevia prisão de 1 a 4 anos para quem deixasse de socorrer ou abandonasse animais – um absurdo que relativizava completamente o valor da vida humana. No primeiro substitutivo elaborado pelo relator do Código, senador Pedro Taques (PDT-MT), esses dois crimes contra animais foram suprimidos e a omissão de socorro a seres humanos teve a pena aumentada para 2 a 4 anos. A versão aprovada no dia 17 manteve essas mudanças. Se levarmos em conta as penas previstas para maus-tratos a animais (1 a 3 anos) e a pessoas (1 a 5 anos), por exemplo, percebe-se a intenção de restabelecer uma sadia hierarquia de valores.
Também na questão das drogas houve pequenas melhorias. O projeto original dos juristas descriminalizaria o plantio, a compra e o porte de qualquer droga que fosse para uso próprio (apesar da contradição de punir o vendedor de entorpecentes). Segundo o texto, presumia-se que a droga se destinava ao uso pessoal se a quantidade apreendida equivalesse a cinco dias de consumo individual. Em um primeiro substitutivo, já elaborado pelos senadores, esse trecho, que poderia servir de brecha para o pequeno tráfico, foi suprimido. Permaneceu a exclusão de crime para quem compra, planta ou guarda drogas em casa, sem punição alguma. Isso seria uma atitude mais permissiva que a prevista pela atual Lei de Drogas, que prescreve, nesses casos, advertência, prestação de serviços à comunidade e medidas educativas. No entanto, a versão final aprovada no dia 17 restabeleceu essas punições, na prática restaurando o que a Lei de Drogas já determina.
Outro avanço digno de menção foi a supressão, no artigo relacionado ao terrorismo, de uma excludente segundo a qual “não constitui crime de terrorismo a conduta individual ou coletiva de pessoas movidas por propósitos sociais ou reivindicatórios, desde que os objetivos e meios sejam compatíveis e adequados à sua finalidade”. Esse trecho parecia feito sob medida para livrar movimentos alinhados com ideologias comunistas e socialistas, e que usam métodos muito semelhantes aos descritos no artigo 249 da nova versão do projeto do Código Penal.
A aprovação do relatório de Pedro Taques na comissão especial é um passo importante, mas não significa que o texto permanecerá intocado ao longo do restante da tramitação. O Código Penal ainda passará pelo plenário do Senado e, depois, pela Câmara – que também elaborou um outro projeto de Código Penal, muito menos badalado que o encomendado por Sarney. Portanto, ainda há muita margem para mudanças. Se as houver, que sejam sempre no sentido de estabelecer uma sociedade mais justa e que respeite valores fundamentais como a defesa da vida e da dignidade humanas.
A comissão de senadores que analisou o projeto do novo Código Penal rejeitou concepções que reduzem o valor da vida humana e fez outras alterações que melhoraram outros aspectos do texto
No dia 20, comentamos, neste mesmo espaço, as mudanças que uma comissão especial de senadores fez no projeto de lei do novo Código Penal no que dizia respeito ao aborto. No entanto, como ressaltamos em outras ocasiões, este não era o único assunto em que o texto, criado por um grupo de juristas a pedido do ex-presidente do Senado José Sarney, apresentava graves problemas. E, felizmente, os senadores melhoraram o novo Código Penal não apenas no que dizia respeito à interrupção da gravidez, mas também em outros temas, dos quais nos ocuparemos hoje.
Um dos aspectos mais preocupantes do Código Penal elaborado pelos juristas era o desprezo pela dignidade da vida humana, percebido não apenas na tentativa de legalizar o aborto, mas também na comparação entre os crimes contra seres humanos e contra animais. O projeto original, por exemplo, previa pena de 1 a 6 meses de prisão, ou multa, para quem deixasse de socorrer crianças, inválidos ou feridos, enquanto prescrevia prisão de 1 a 4 anos para quem deixasse de socorrer ou abandonasse animais – um absurdo que relativizava completamente o valor da vida humana. No primeiro substitutivo elaborado pelo relator do Código, senador Pedro Taques (PDT-MT), esses dois crimes contra animais foram suprimidos e a omissão de socorro a seres humanos teve a pena aumentada para 2 a 4 anos. A versão aprovada no dia 17 manteve essas mudanças. Se levarmos em conta as penas previstas para maus-tratos a animais (1 a 3 anos) e a pessoas (1 a 5 anos), por exemplo, percebe-se a intenção de restabelecer uma sadia hierarquia de valores.
Também na questão das drogas houve pequenas melhorias. O projeto original dos juristas descriminalizaria o plantio, a compra e o porte de qualquer droga que fosse para uso próprio (apesar da contradição de punir o vendedor de entorpecentes). Segundo o texto, presumia-se que a droga se destinava ao uso pessoal se a quantidade apreendida equivalesse a cinco dias de consumo individual. Em um primeiro substitutivo, já elaborado pelos senadores, esse trecho, que poderia servir de brecha para o pequeno tráfico, foi suprimido. Permaneceu a exclusão de crime para quem compra, planta ou guarda drogas em casa, sem punição alguma. Isso seria uma atitude mais permissiva que a prevista pela atual Lei de Drogas, que prescreve, nesses casos, advertência, prestação de serviços à comunidade e medidas educativas. No entanto, a versão final aprovada no dia 17 restabeleceu essas punições, na prática restaurando o que a Lei de Drogas já determina.
Outro avanço digno de menção foi a supressão, no artigo relacionado ao terrorismo, de uma excludente segundo a qual “não constitui crime de terrorismo a conduta individual ou coletiva de pessoas movidas por propósitos sociais ou reivindicatórios, desde que os objetivos e meios sejam compatíveis e adequados à sua finalidade”. Esse trecho parecia feito sob medida para livrar movimentos alinhados com ideologias comunistas e socialistas, e que usam métodos muito semelhantes aos descritos no artigo 249 da nova versão do projeto do Código Penal.
A aprovação do relatório de Pedro Taques na comissão especial é um passo importante, mas não significa que o texto permanecerá intocado ao longo do restante da tramitação. O Código Penal ainda passará pelo plenário do Senado e, depois, pela Câmara – que também elaborou um outro projeto de Código Penal, muito menos badalado que o encomendado por Sarney. Portanto, ainda há muita margem para mudanças. Se as houver, que sejam sempre no sentido de estabelecer uma sociedade mais justa e que respeite valores fundamentais como a defesa da vida e da dignidade humanas.
Zonas de sombra - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 23/12
É indiscutível a necessidade de apoio público à produção cultural. O Brasil não inova ao ter o mecanismo da Lei Rouanet, instituído em 1991 para canalizar parcelas do imposto devido de empresas e pessoas físicas para o setor. A discussão, instalada a partir da chegada do PT ao Planalto, em 2003, é sobre critérios na distribuição dos recursos e, ligado a isso, o sistema de processamento, no Ministério da Cultura, dos pedidos de enquadramento de projetos na lei.
Na longa gestão da dupla Gilberto Gil e Juca Ferreira no MinC, nos governos Lula, houve tentativas de dirigismo na administração de incentivos fiscais, a mais conhecida e emblemática delas o projeto da Ancinav, agência idealizada para permitir a interferência do aparato burocrático estatal - devidamente aparelhado - no conteúdo da produção audiovisual do país. A sensatez destinou a ideia para as gavetas. Mas, como costuma haver grande contaminação ideológica e política toda vez, nos últimos anos, que se discutem reformas na Lei Rouanet, o projeto, com este fim, de criação do Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura), relatado pelo deputado Pedro Eugênio (PT-PE), precisa ser acompanhado de perto.
Os vieses ideológicos e políticos sempre ajudam a que se cometam erros técnicos. Mais uma vez, volta o discurso pela necessidade de uma suposta desconcentração dos recursos, para combater a primazia do Sudeste na distribuição dos projetos incentivados. Também como sempre, medidas nesta direção visam a promover "justiça" ao beneficiar os "pequenos". Sucede que esta concentração reflete a forma como a economia da cultura - e a própria atividade produtiva como um todo - está distribuída no país. E o fato de o produtor beneficiário do incentivo fiscal ter o CNPJ numa região não significa que o projeto apoiado também esteja nela. É comum produtores de Rio e São Paulo, Minas etc. desenvolverem empreendimentos no Norte e Nordeste. É preciso cuidado na leitura das estatísticas. Ninguém é contra estímulos específicos a regiões menos atendidas. O erro está em querer atingir este objetivo por meio da vilanização dos produtores do Sul e Sudeste.
Há corporações de todo tipo no universo cultural, onde existe constante busca por recursos. Quanto mais claras as regras e mais voltadas para o profissionalismo das atividades, melhor. Isso não significa, porém, que não deva existir apoio para estimular a ascensão de novos artistas, em todos os campos da arte.
Outra questão-chave é a forma como a política cultural será processada no MinC depois das mudanças. É preciso extremo cuidado para evitar que grupos e corporações pouco representativos, mas muito influentes em Brasília, passem a ter um peso desmesurado nas decisões sobre os incentivos.
Um risco específico está na possibilidade de a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC), criada pela Lei Rouanet para representar a sociedade civil, perder autonomia diante do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC), mais alinhada a ativistas que transitam na área. Tudo isso justifica que se debata mais o projeto.
Freio na turbulência - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 23/12
A não ser que ocorra alguma oscilação inesperada nesta véspera de Natal, pode ser considerada suave a reação do mercado financeiro mundial à decisão do banco central norte-americana (Federal Reserve) de retirar estímulos à economia. Havia grande preocupação em torno da medida. Mas as principais bolsas de todos os continentes encerraram a semana em alta, numa evidência de que os investidores gostaram das decisões e da transparência em torno delas. Neste contexto, também o cenário brasileiro descortina-se mais visível e menos assustador.
Ganha credibilidade, assim, a garantia da presidente Dilma Rousseff de que o Brasil está preparado para eventuais especulações. “Nunca estivemos tão preparados. Nós não estamos mais naquela fase que o pessoal dizia: espirrou nos Estados Unidos, pneumonia no Brasil” _ assegurou a chefe da Nação na semana passada. Lembrou a presidente que o país tem bases sólidas porque a inflação está sob controle, o desemprego é baixo e nossas reservas financeiras são elevadas. Sua previsão otimista encontra respaldo no desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre, medido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que registra uma expansão puxada pelos investimentos, que cresceram 6,5% entre janeiro e setembro.
Na comparação com outras economias, o país realmente parece estar mais protegido. Segundo a presidente, a dívida líquida do Brasil, em torno de 35% do PIB, é mais baixa que a da França, que ultrapassa os 100%. Ainda assim, não se pode esquecer que o ano prestes a se encerrar foi marcado por ocorrências internas de efeito negativo para a economia, entre as quais os prejuízos bilionários da Petrobras com o congelamento dos preços da gasolina e do diesel, e a quebra das empresas do grupo de Eike Batista, outro abalo no Ibovespa, que acumula queda de 15% desde janeiro.
São indicativos claros de que o governo não pode afrouxar os controles sobre a inflação. A confiança na economia brasileira ainda é frágil demais para se acreditar que estamos imunes em relação a eventuais mudanças no cenário externo. E, internamente, o otimismo não pode ser maior do que a cautela. Na última sexta-feira, o Banco Central revisou para baixo sua estimativa de inflação para o próximo ano. Cabe-lhe, portanto, fazer uso dos instrumentos de política monetária adequados para manter o monstro bem comportado. Inflação alta não é apenas prejuízo eleitoral certo, como temem os governantes em véspera de pleito. É, isto sim, um dando irreparável para a economia do país e para o poder de compra dos trabalhadores.
A não ser que ocorra alguma oscilação inesperada nesta véspera de Natal, pode ser considerada suave a reação do mercado financeiro mundial à decisão do banco central norte-americana (Federal Reserve) de retirar estímulos à economia. Havia grande preocupação em torno da medida. Mas as principais bolsas de todos os continentes encerraram a semana em alta, numa evidência de que os investidores gostaram das decisões e da transparência em torno delas. Neste contexto, também o cenário brasileiro descortina-se mais visível e menos assustador.
Ganha credibilidade, assim, a garantia da presidente Dilma Rousseff de que o Brasil está preparado para eventuais especulações. “Nunca estivemos tão preparados. Nós não estamos mais naquela fase que o pessoal dizia: espirrou nos Estados Unidos, pneumonia no Brasil” _ assegurou a chefe da Nação na semana passada. Lembrou a presidente que o país tem bases sólidas porque a inflação está sob controle, o desemprego é baixo e nossas reservas financeiras são elevadas. Sua previsão otimista encontra respaldo no desempenho da economia brasileira no terceiro trimestre, medido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que registra uma expansão puxada pelos investimentos, que cresceram 6,5% entre janeiro e setembro.
Na comparação com outras economias, o país realmente parece estar mais protegido. Segundo a presidente, a dívida líquida do Brasil, em torno de 35% do PIB, é mais baixa que a da França, que ultrapassa os 100%. Ainda assim, não se pode esquecer que o ano prestes a se encerrar foi marcado por ocorrências internas de efeito negativo para a economia, entre as quais os prejuízos bilionários da Petrobras com o congelamento dos preços da gasolina e do diesel, e a quebra das empresas do grupo de Eike Batista, outro abalo no Ibovespa, que acumula queda de 15% desde janeiro.
São indicativos claros de que o governo não pode afrouxar os controles sobre a inflação. A confiança na economia brasileira ainda é frágil demais para se acreditar que estamos imunes em relação a eventuais mudanças no cenário externo. E, internamente, o otimismo não pode ser maior do que a cautela. Na última sexta-feira, o Banco Central revisou para baixo sua estimativa de inflação para o próximo ano. Cabe-lhe, portanto, fazer uso dos instrumentos de política monetária adequados para manter o monstro bem comportado. Inflação alta não é apenas prejuízo eleitoral certo, como temem os governantes em véspera de pleito. É, isto sim, um dando irreparável para a economia do país e para o poder de compra dos trabalhadores.
Dinastia do terror na Coreia - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 23/12
A execução sumária de Jang Song-thaek, tio do líder norte-coreano Kim Jong-un, apenas três dias depois de confirmado seu expurgo do poder, voltou a salientar o mando absoluto e o reinado de terror que a dinastia Kim exerce há três gerações. Jang, de 67 anos, foi muito próximo de Kim Jong-il - pai de Kim Jong-un - e era considerado até havia pouco tempo a segunda pessoa mais poderosa do país, além de mentor do jovem líder, desde que este subiu ao trono comunista de Pyongyang, após a morte do pai, em dezembro de 2011.
Segundo o governo norte-coreano, Jang, executado por traição 12 dias atrás, manobrava para tomar o controle do país. "Ele cometeu crimes horríveis, como tentar derrubar o Estado mediante todo tipo de intrigas e métodos desprezíveis, com a selvagem ambição de tomar o poder supremo de nosso partido e nosso Estado. Há muito tempo Jang tinha uma suja ambição política. Não se atreveu a levantar a cabeça quando Kim Il-sung (fundador da Coreia do Norte e avô de Kim Jong-un) e Kim Jong-il estavam vivos", informou a agência oficial de notícias do país, a KCNA, em comunicado.
Acerta, pois, quem afirma que a queda de Jang contribui para as evidências crescentes de que Kim Jong-un, cada vez mais maduro - fará 31 anos em 8 de janeiro -, continua o processo para livrar-se dos guardiões designados pelo pai e firmar-se como mandatário único e absoluto. Em 2012, ele já havia destituído Ri Yong-ho, chefe da Junta do Estado-Maior do Exército Popular da Coreia e um de seus principais conselheiros. Desde que assumiu o país, cinco dos sete altos dirigentes que o acompanharam a pé ao lado do carro fúnebre de Kim Jong-il foram afastados.
Segundo a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, a vizinha do norte empreende um expurgo em grande escala para reforçar o poder de Kim Jong-un. "Nossas relações poderão se tornar mais instáveis", avaliou. Certo é que a impenetrável política norte-coreana facilita o afastamento de qualquer um que se atreva a desafiar a autoridade absoluta e a direção única de Jong-un. A eliminação de Jang, que teve até a imagem apagada de vídeos, será seguida de amplo expurgo de pessoas do círculo mais próximo dele.
Kim Il-sung, o Grande Líder, fundador da Coreia do Norte; o filho dele, Kim Jong-il, o Querido Líder; e agora o neto, Kim Jong-un, o Brilhante Camarada, não titubeiam em demonstrar poder espalhando o terror. Potências ocidentais assistem a tudo com expectativa singular, pois quem manda fuzilar o tio que lhe fazia sombra tem pretensões e ambições bem maiores, como determina a ditadura totalitarista stalinista que domina metade da Península Coreana.
Segundo o governo norte-coreano, Jang, executado por traição 12 dias atrás, manobrava para tomar o controle do país. "Ele cometeu crimes horríveis, como tentar derrubar o Estado mediante todo tipo de intrigas e métodos desprezíveis, com a selvagem ambição de tomar o poder supremo de nosso partido e nosso Estado. Há muito tempo Jang tinha uma suja ambição política. Não se atreveu a levantar a cabeça quando Kim Il-sung (fundador da Coreia do Norte e avô de Kim Jong-un) e Kim Jong-il estavam vivos", informou a agência oficial de notícias do país, a KCNA, em comunicado.
Acerta, pois, quem afirma que a queda de Jang contribui para as evidências crescentes de que Kim Jong-un, cada vez mais maduro - fará 31 anos em 8 de janeiro -, continua o processo para livrar-se dos guardiões designados pelo pai e firmar-se como mandatário único e absoluto. Em 2012, ele já havia destituído Ri Yong-ho, chefe da Junta do Estado-Maior do Exército Popular da Coreia e um de seus principais conselheiros. Desde que assumiu o país, cinco dos sete altos dirigentes que o acompanharam a pé ao lado do carro fúnebre de Kim Jong-il foram afastados.
Segundo a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, a vizinha do norte empreende um expurgo em grande escala para reforçar o poder de Kim Jong-un. "Nossas relações poderão se tornar mais instáveis", avaliou. Certo é que a impenetrável política norte-coreana facilita o afastamento de qualquer um que se atreva a desafiar a autoridade absoluta e a direção única de Jong-un. A eliminação de Jang, que teve até a imagem apagada de vídeos, será seguida de amplo expurgo de pessoas do círculo mais próximo dele.
Kim Il-sung, o Grande Líder, fundador da Coreia do Norte; o filho dele, Kim Jong-il, o Querido Líder; e agora o neto, Kim Jong-un, o Brilhante Camarada, não titubeiam em demonstrar poder espalhando o terror. Potências ocidentais assistem a tudo com expectativa singular, pois quem manda fuzilar o tio que lhe fazia sombra tem pretensões e ambições bem maiores, como determina a ditadura totalitarista stalinista que domina metade da Península Coreana.
Conservadorismo legal - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 23/12
Propostas mais flexíveis na questão do aborto e do consumo de drogas são rejeitadas em comissão que analisa novo Código Penal
Podem ser frustrantes, mas não chegam a causar surpresa as recentes decisões da Comissão Especial do Senado no tocante à reforma do Código Penal.
Na terça-feira passada, o órgão aprovou relatório do senador Pedro Taques (PDT-MT), que rejeita alguns dos principais avanços liberalizantes propostos pelo grupo de juristas encarregado de elaborar nova legislação nessa matéria.
Desconsiderou-se, por exemplo, a ideia de que o consumo de entorpecentes deva deixar de ser crime no país, para ser considerado sob a ótica da saúde pública.
O máximo a que se chegou foi eliminar a pena de prisão para quem use drogas --mas o estigma da sanção penal, nocivo a qualquer ajuda real que se queira oferecer ao dependente, permanece.
A comissão do Senado também rejeitou propostas para flexibilizar a legislação sobre o aborto. Verdade que havia algo de tortuoso na formulação encontrada pelos juristas para alcançar esse objetivo.
Sugeria-se que o aborto passasse a ser permitido não só nos casos já previstos na lei (gravidez resultante de estupro ou quando há risco de vida para a mulher), mas também na hipótese de insuficientes "condições psicológicas" da gestante.
O subterfúgio deixaria ao arbítrio de um atestado médico ou psicoterapêutico a tomada de uma decisão sempre traumática, quaisquer que sejam as "condições psicológicas" de quem a adota.
Seja como for, dos 11 senadores que integram a comissão especial, apenas dois --Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Ana Rita (PT-ES)-- votaram a favor dessa modificação, que poderia na prática legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação. A maioria seguiu visão mais conservadora nesse tema.
Pode-se admitir, sem dúvida, que os senadores refletiram as convicções do eleitorado; cabe lembrar, contudo, que nem sempre se ponderam os inúmeros e dramáticos registros de morte e de sequelas graves nas mulheres que recorrem a clínicas de aborto clandestinas.
O tema, como outros em matéria penal, presta-se a uma consulta popular. Ainda que confirmada a rejeição ao aborto, haveria pelo menos condições de um debate mais aprofundado sobre o assunto, tantas vezes tratado como tabu.
O conservadorismo em matéria penal prevaleceu em outras decisões, como no aumento de penas mínimas para alguns crimes.
Na mesma linha de mais rigor punitivo, mas neste caso com boa dose de razão, passa-se a exigir que transcorra um quarto do tempo de privação de liberdade, e não somente um sexto, antes que o réu primário condenado por homicídio possa beneficiar-se de regime mais brando (semiaberto, por exemplo).
Tais propostas --além de várias outras, tipificando crimes hoje não previstos pela legislação-- devem ainda ir a plenário. Só se pode esperar que, antes disso, a discussão se amplifique e aprofunde bem mais do que tem ocorrido até aqui.
Propostas mais flexíveis na questão do aborto e do consumo de drogas são rejeitadas em comissão que analisa novo Código Penal
Podem ser frustrantes, mas não chegam a causar surpresa as recentes decisões da Comissão Especial do Senado no tocante à reforma do Código Penal.
Na terça-feira passada, o órgão aprovou relatório do senador Pedro Taques (PDT-MT), que rejeita alguns dos principais avanços liberalizantes propostos pelo grupo de juristas encarregado de elaborar nova legislação nessa matéria.
Desconsiderou-se, por exemplo, a ideia de que o consumo de entorpecentes deva deixar de ser crime no país, para ser considerado sob a ótica da saúde pública.
O máximo a que se chegou foi eliminar a pena de prisão para quem use drogas --mas o estigma da sanção penal, nocivo a qualquer ajuda real que se queira oferecer ao dependente, permanece.
A comissão do Senado também rejeitou propostas para flexibilizar a legislação sobre o aborto. Verdade que havia algo de tortuoso na formulação encontrada pelos juristas para alcançar esse objetivo.
Sugeria-se que o aborto passasse a ser permitido não só nos casos já previstos na lei (gravidez resultante de estupro ou quando há risco de vida para a mulher), mas também na hipótese de insuficientes "condições psicológicas" da gestante.
O subterfúgio deixaria ao arbítrio de um atestado médico ou psicoterapêutico a tomada de uma decisão sempre traumática, quaisquer que sejam as "condições psicológicas" de quem a adota.
Seja como for, dos 11 senadores que integram a comissão especial, apenas dois --Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Ana Rita (PT-ES)-- votaram a favor dessa modificação, que poderia na prática legalizar o aborto até a 12ª semana de gestação. A maioria seguiu visão mais conservadora nesse tema.
Pode-se admitir, sem dúvida, que os senadores refletiram as convicções do eleitorado; cabe lembrar, contudo, que nem sempre se ponderam os inúmeros e dramáticos registros de morte e de sequelas graves nas mulheres que recorrem a clínicas de aborto clandestinas.
O tema, como outros em matéria penal, presta-se a uma consulta popular. Ainda que confirmada a rejeição ao aborto, haveria pelo menos condições de um debate mais aprofundado sobre o assunto, tantas vezes tratado como tabu.
O conservadorismo em matéria penal prevaleceu em outras decisões, como no aumento de penas mínimas para alguns crimes.
Na mesma linha de mais rigor punitivo, mas neste caso com boa dose de razão, passa-se a exigir que transcorra um quarto do tempo de privação de liberdade, e não somente um sexto, antes que o réu primário condenado por homicídio possa beneficiar-se de regime mais brando (semiaberto, por exemplo).
Tais propostas --além de várias outras, tipificando crimes hoje não previstos pela legislação-- devem ainda ir a plenário. Só se pode esperar que, antes disso, a discussão se amplifique e aprofunde bem mais do que tem ocorrido até aqui.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
VELHOS MIRAGES DO BRASIL JÁ ESTARIAM NA COREIA
Mirages da FAB já estariam na Coreia do Norte, com pilotos brasileiros instruindo os colegas norte-coreanos no porto de Nampo, segundo uma revista on-line de Paris. Os caças serão adaptados em Pyongyang com napalm e outras armas químicas, para ataques-suicidas à Coreia do Sul. A FAB não tem notícia de interessados na compra dos caças desativados, que sem peças de reposição voariam por pouco tempo.
QUEM MANDA
Dona da tecnologia, a França teria que ser consultada na suposta negociação do Brasil com o ditador maluco da Coreia do Norte.
VANGUARDA DO ATRASO
O PCdoB apoia publicamente os tiranos na sanguinária Coreia do Norte, com manifestos e cursos para jovens que constrangeram o PT.
BIRUTA DE AEROPORTO
A Agência Brasileira de Inteligência teria confirmado ao site francês o interesse do ditador de usar os Mirage para ameaçar a Coreia do Sul.
INCÓGNITA
Para o experiente deputado Miro Teixeira (PROS-RJ), ninguém sabe o que vai dar no julgamento do STF sobre financiamento de campanhas.
GENERAL CONTINUA FUGINDO DE PERGUNTA INCÔMODA
O tempo passa, o tempo voa, e até agora o comandante do Exército, general Enzo Peri esconde-se numa boa da pergunta que não quer calar: ele vai ou não vai cassar a Medalha do Pacificador, conferida ao mensaleiro José Genoino em 2003? O decreto que a regulamenta manda o comandante cassar a honraria, caso o homenageado venha a ser condenado por ladroagem, em sentença transitada em julgado.
CONSTRANGIMENTO
No Centro de Comunicação Social do Exército, militares de diferentes patentes, coitados, não sabem o que dizer sobre o papelão do general.
BAGRINHOS
Indulgente com Genoino, o Exército pune outros meliantes, como dois soldados expulsos após assaltar um taxista, em Brasília, em novembro.
CRUZ OU ESPADA
O PT sofre forte pressão do PMDB na Paraíba para apoiar Veneziano, aliado de Vital do Rêgo; e do PP, do ministro Agnaldo Ribeiro (Cidades).
BLOCS QUEM?
Segundo avaliação do Instituto Paraná Pesquisas, apenas 24,2% dos brasileiros têm conhecimento dos “black blocs”, grupo violento que entrou em choque com a polícia em protestos por todo o Brasil. Entre os que sabem da existência do grupo, só 3,3% apoiam sua atuação.
CARACAS, CARACOLES
Acredite, se quiser: a Petrobras garante entregar em 2015 a refinaria Abreu e Lima (PE), após seis anos esperando que o falecido semi-ditador e caloteiro Hugo Chávez pagasse a sua parte na sociedade.
AU REVOIR
Foi jogo de cena o “lobby” do presidente francês François Hollande para a compra dos caças Rafale no encontro com Dilma. A decisão pelos Gripen suecos estava tomada. E o “mala” sem graça já sabia.
AO PÉ DA JANELA
Madame cansou da decoração, por isso Ano Novo, vida nova: serão trocadas persianas e bandôs dos escritórios e residências oficiais da Presidência da República, numa despesa estimada em R$ 104 mil.
JÁ FUI BOM NISSO
Em busca de reaproximação com movimento sindical, o ex-presidente Lula usou boa parte do encontro com João Gonçalves, o Juruna, da Força Sindical, para lembrar tempos de lutas na região do ABC.
FAÇA O QUE EU DIGO…
O americano Barack Obama afirmou que o ex-analista da NSA Edward Snowden causou um “dano desnecessário” ao revelar ao mundo que seu governo espiona até chefes de governo de nações amigas.
CONTAS EM DIA
Terceirizados do Ministério da Saúde dizem que estão sem receber há meses. O ministério afirmou que tudo foi pago dentro do prazo, e a empresa CTIS garante não haver recebido queixa dos funcionários.
EXPECTATIVAS
Segundo o tesoureiro do PROS, Niomar Calazans, o partido tem expectativa de eleger uns 30 deputados federais em 2014, e vislumbra candidaturas ao governo do Ceará, Rio, Tocantins e Paraíba.
PENSANDO BEM…
…visite o Uruguai antes que ele vire fumaça.
PODER SEM PUDOR
COOPER FUTEBOL CLUBE
Habitué do cooper no parque Ibirapuera, o então governador Orestes Quércia correu à casa de Jânio Quadros para agradecer o alargamento da pista que pedira ao presidente:
- Dr. Jânio, fico-lhe grato pela gentileza.
Jânio fitou-o por alguns instantes e disse:
- O agasalho fica-lhe bem. Um verdadeiro dançarino!
Quércia, replica:
- Presidente, é simplesmente um agasalho, para praticar meu cooper.
Corintiano apaixonado, Jânio Quadros não deixou por menos:
- Sim, senhor. Mas, e o emblema do São Paulo FC?
Mirages da FAB já estariam na Coreia do Norte, com pilotos brasileiros instruindo os colegas norte-coreanos no porto de Nampo, segundo uma revista on-line de Paris. Os caças serão adaptados em Pyongyang com napalm e outras armas químicas, para ataques-suicidas à Coreia do Sul. A FAB não tem notícia de interessados na compra dos caças desativados, que sem peças de reposição voariam por pouco tempo.
QUEM MANDA
Dona da tecnologia, a França teria que ser consultada na suposta negociação do Brasil com o ditador maluco da Coreia do Norte.
VANGUARDA DO ATRASO
O PCdoB apoia publicamente os tiranos na sanguinária Coreia do Norte, com manifestos e cursos para jovens que constrangeram o PT.
BIRUTA DE AEROPORTO
A Agência Brasileira de Inteligência teria confirmado ao site francês o interesse do ditador de usar os Mirage para ameaçar a Coreia do Sul.
INCÓGNITA
Para o experiente deputado Miro Teixeira (PROS-RJ), ninguém sabe o que vai dar no julgamento do STF sobre financiamento de campanhas.
GENERAL CONTINUA FUGINDO DE PERGUNTA INCÔMODA
O tempo passa, o tempo voa, e até agora o comandante do Exército, general Enzo Peri esconde-se numa boa da pergunta que não quer calar: ele vai ou não vai cassar a Medalha do Pacificador, conferida ao mensaleiro José Genoino em 2003? O decreto que a regulamenta manda o comandante cassar a honraria, caso o homenageado venha a ser condenado por ladroagem, em sentença transitada em julgado.
CONSTRANGIMENTO
No Centro de Comunicação Social do Exército, militares de diferentes patentes, coitados, não sabem o que dizer sobre o papelão do general.
BAGRINHOS
Indulgente com Genoino, o Exército pune outros meliantes, como dois soldados expulsos após assaltar um taxista, em Brasília, em novembro.
CRUZ OU ESPADA
O PT sofre forte pressão do PMDB na Paraíba para apoiar Veneziano, aliado de Vital do Rêgo; e do PP, do ministro Agnaldo Ribeiro (Cidades).
BLOCS QUEM?
Segundo avaliação do Instituto Paraná Pesquisas, apenas 24,2% dos brasileiros têm conhecimento dos “black blocs”, grupo violento que entrou em choque com a polícia em protestos por todo o Brasil. Entre os que sabem da existência do grupo, só 3,3% apoiam sua atuação.
CARACAS, CARACOLES
Acredite, se quiser: a Petrobras garante entregar em 2015 a refinaria Abreu e Lima (PE), após seis anos esperando que o falecido semi-ditador e caloteiro Hugo Chávez pagasse a sua parte na sociedade.
AU REVOIR
Foi jogo de cena o “lobby” do presidente francês François Hollande para a compra dos caças Rafale no encontro com Dilma. A decisão pelos Gripen suecos estava tomada. E o “mala” sem graça já sabia.
AO PÉ DA JANELA
Madame cansou da decoração, por isso Ano Novo, vida nova: serão trocadas persianas e bandôs dos escritórios e residências oficiais da Presidência da República, numa despesa estimada em R$ 104 mil.
JÁ FUI BOM NISSO
Em busca de reaproximação com movimento sindical, o ex-presidente Lula usou boa parte do encontro com João Gonçalves, o Juruna, da Força Sindical, para lembrar tempos de lutas na região do ABC.
FAÇA O QUE EU DIGO…
O americano Barack Obama afirmou que o ex-analista da NSA Edward Snowden causou um “dano desnecessário” ao revelar ao mundo que seu governo espiona até chefes de governo de nações amigas.
CONTAS EM DIA
Terceirizados do Ministério da Saúde dizem que estão sem receber há meses. O ministério afirmou que tudo foi pago dentro do prazo, e a empresa CTIS garante não haver recebido queixa dos funcionários.
EXPECTATIVAS
Segundo o tesoureiro do PROS, Niomar Calazans, o partido tem expectativa de eleger uns 30 deputados federais em 2014, e vislumbra candidaturas ao governo do Ceará, Rio, Tocantins e Paraíba.
PENSANDO BEM…
…visite o Uruguai antes que ele vire fumaça.
PODER SEM PUDOR
COOPER FUTEBOL CLUBE
Habitué do cooper no parque Ibirapuera, o então governador Orestes Quércia correu à casa de Jânio Quadros para agradecer o alargamento da pista que pedira ao presidente:
- Dr. Jânio, fico-lhe grato pela gentileza.
Jânio fitou-o por alguns instantes e disse:
- O agasalho fica-lhe bem. Um verdadeiro dançarino!
Quércia, replica:
- Presidente, é simplesmente um agasalho, para praticar meu cooper.
Corintiano apaixonado, Jânio Quadros não deixou por menos:
- Sim, senhor. Mas, e o emblema do São Paulo FC?
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Plano de saneamento de metas inatingíveis
- Folha: Base de Alckmin na Assembleia trava apuração de cartel
- Estadão: CGU apura desvio de uso de máquinas doadas a prefeituras
- Correio: Vergonha na política
- Jornal do Commercio: Um domingo de ouro
- Zero Hora: As primeiras horas
- Brasil Econômico: O TCU não é dono absoluto da verdade
domingo, dezembro 22, 2013
O anel que tu me deste - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 22/12
Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. É seu. Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas alianças: desde então nossa amizade só cresceu.
Certa vez Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes, mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Diante de tanto acúmulo e posse, gestos de desprendimento são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo de que gosta e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas fazem isso por inúmeras razões. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Pelo senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando deste assunto não porque também seja assim desprendida. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. De supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia.
Devo estar me transformando numa sentimentaloide, mas acredito que estes pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos próprios bens é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não estaria aí a fórmula do tal “mundo melhor” que tanto perseguimos?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo para testar se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas.
É com esse espírito de compartilhamento que encerro esta crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes – mas no sentido de presença. Que, junto aos seus afetos, você comemore o que lhe for mais tocante: seja o nascimento de Jesus, seja a reunião familiar, seja apenas mais uma noite festiva de dezembro, seja um momento de paz entre tanto barulho, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
Aconteceu em 2005. Eu estava almoçando com uma amiga na cidade onde ela mora, fora do Brasil. De repente, olhei para sua mão e fiz um elogio ao anel lindíssimo que ela usava. Ato contínuo, ela retirou o anel e me deu. É seu. Fiquei superconstrangida, não era essa minha intenção, queria apenas elogiar, mas ela me convenceu a ficar com ele, dizendo que ela mesma fazia aqueles anéis e que poderia fazer outro igualzinho. De fato, fez. Acabaram virando nossas alianças: desde então nossa amizade só cresceu.
Certa vez Marilia Gabriela entrevistou Ivete Sangalo em seu programa no GNT quando aconteceu uma cena idêntica. Ela elogiou o anel da cantora e esta, na mesma hora, tirou-o do dedo e deu de presente a Gabi, que ficou envergonhada, não estava ali para ganhar presentes, mas tanto Ivete insistiu, e com tanto carinho, que recusar seria deselegância, e lá se foi o anel da morena para a mão da loira.
Diante de tanto acúmulo e posse, gestos de desprendimento são raros e transformam um dia banal em um dia especial. Não é comum alguém retirar do próprio corpo algo de que gosta e dar de presente, numa reação espontânea de afeto. Pessoas fazem isso por inúmeras razões. Por gostarem realmente da pessoa com quem estão. Pelo senso de oportunidade. Pelo prazer de surpreender. Por saberem que certas atitudes falam mais do que palavras. E por terem a exata noção de que um anel, ou qualquer outro bem material, pode ser substituído, mas um momento de extasiar um amigo é coisa que não vale perder.
Estou falando deste assunto não porque também seja assim desprendida. Já me desfiz de muita coisa, mas me desfaço com planejamento, pensando antes. De supetão, por impulso, raramente. Meu único mérito é reconhecer a grandeza alheia.
Devo estar me transformando numa sentimentaloide, mas acredito que estes pequenos instantes de delicadeza merecem um holofote, já que andamos muito rudes e autofocados. Desfazer-se dos próprios bens é uma coisa meio franciscana, mas não se pode negar que um pouco de desapego torna qualquer relação mais fácil. E não falo só de bens materiais. Desapego das mágoas, desapego da inveja, desapego das próprias verdades para ouvir atentamente a dos outros. Não estaria aí a fórmula do tal “mundo melhor” que tanto perseguimos?
Bom, o anel que minha amiga me deu seguirá no meu dedo, nem adianta vir elogiá-lo para testar se o truque funciona. Faz parte da minha história pessoal. Mas posso me desprender de outras coisas das quais gosto, basta que eu saiba que serão mais bem aproveitadas por outras pessoas.
É com esse espírito de compartilhamento que encerro esta crônica desejando a todos os leitores um Natal com muitos presentes – mas no sentido de presença. Que, junto aos seus afetos, você comemore o que lhe for mais tocante: seja o nascimento de Jesus, seja a reunião familiar, seja apenas mais uma noite festiva de dezembro, seja um momento de paz entre tanto barulho, ou simplesmente a sensação de que uma inesperada gentileza pode ser o melhor pacotinho embaixo da nossa árvore.
Má educação é a nossa Cartago - TONY BELLOTTO
O GLOBO - 22/12
Torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos
Colosso
O coliseu de Roma tem seu nome originado na expressão latina colosseum, que se referia à estátua gigantesca do imperador Nero que adornava seus entornos. O anfiteatro foi usado por quatro séculos como centro de entretenimento, e suas ruínas permanecem como símbolo fotografável do Império Romano e ponto turístico concorrido. Lá se exibiam combates de gladiadores, lutas e caçadas de animais selvagens, execuções sangrentas e até batalhas navais, quando a arena era inundada por dutos subterrâneos alimentados por aquedutos, prodígio da arquitetura etrusca assimilado pelos romanos.
Panis et circensis
A política do pão e circo foi utilizada por antigos administradores romanos com o intuito de dirimir o descontentamento do povo com seus governantes. A estratégia consistia em oferecer grandes espetáculos públicos enquanto se distribuía pão ao povaréu animado. A prática teve como consequências elevação de impostos e a subsequente derrocada da economia do Império. Vale dizer que tudo isso ocorreu dois mil anos antes da criação do Bolsa Família, do Ultimate Fighting e do Campeonato Brasileiro de Futebol.
De volta para o futuro
Há duas semanas um grupo de bárbaros brasileiros protagonizou na Arena Joinville — na aprazível cidade catarinense de altos índices de desenvolvimento humano — cenas lamentáveis de violência, embora desafortunadamente corriqueiras. Durante o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos, socando-se e chutando-se como se vivêssemos na Roma antiga. Injustiça: na Roma antiga o pessoal era mais civilizado. Lá os espetáculos aconteciam na arena, conduzidos por lutadores profissionais, enquanto o povo se divertia nas arquibancadas. Em Joinville, ao mesmo tempo em que jogadores profissionais se horrorizavam em campo com a barbárie, nas arquibancadas alguns representantes do cordial, alegre e pacífico povo brasileiro se incumbiam de tentar matar uns aos outros.
Breve pausa para orientação espacial
Onde está o Brasil verdadeiro? Na imagem dos boçais se agredindo em Joinville ou na da bela figura de Fernanda Lima anunciando na Bahia o sorteio das seleções da Copa do Mundo? Ambas as alternativas estão corretas? Respostas para a Redação.
Rebeldes sem causa, sem calça e sem graça
Com torcedores como esses, por que se preocupar com manifestantes?
As autoridades, a FIFA, a polícia e os brasileiros pacíficos não devem temer black blocs e outros possíveis — e prováveis — manifestantes que se insurjam violentamente contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Torcedores como os que se digladiaram em Joinville são manifestantes muito mais contundentes e radicais da grande desgraça brasileira e representam uma ameaça bem mais aterradora e eficiente. Ainda que se possa reduzi-los todos a farelo do mesmo sacolé, ao contrário dos black blocs os bárbaros de Joinville não usam máscaras, despreocupados com a revelação de suas identidades. Se forem presos, outros milhares surgirão, como zumbis, com a mesma determinação obstinada de destruição. Também ao contrário dos black blocs, os vândalos dos estádios — desculpe, das “arenas” — não agem motivados por nenhuma ideologia além da devoção canina a agremiações esportivas e preferem o aniquilamento sangrento de semelhantes à ingênua depredação de vidraças e placas de trânsito.
“Eis a beleza da coisa”, diria o doutor Strangelove com um sorriso, momentos antes de o mundo acabar numa grande hecatombe.
Catão
Os acontecimentos de Joinville só atestam mais uma vez que chegamos ao fundo do poço. E que o fundo do poço — surpresa! — não tem fundo. Desculpem-me os burocratas, os otimistas e os empreendedores de plantão, mas parece só haver uma solução para a barbárie brasileira: a Educação. Claro que situações como essa demandam medidas urgentes de segurança pública, infraestrutura, organização dos estádios e vergonha na cara, mas é bastante coerente que enquanto angariarmos resultados pífios em pesquisas sobre índices de educação, continuaremos a manifestar nossa violência irracional com requintes de campeões do mundo. No primeiro governo Lula uma das poucas coisas realmente animadoras foi a nomeação de Cristovam Buarque como ministro da Educação. Cristovam, assim como seu xará genovês, sabe que só se descobre um novo mundo com coragem, conhecimento de causa e determinação inabaláveis. Buarque preconizava uma revolução radical no ensino, mas caiu fora do governo tão logo os escândalos de corrupção começaram a pipocar. “Delenda est Carthago”, dizia Catão, político romano que sempre finalizava seus discursos alertando que Cartago, por ameaçar o Império Romano, devia ser aniquilada.
Torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos
Colosso
O coliseu de Roma tem seu nome originado na expressão latina colosseum, que se referia à estátua gigantesca do imperador Nero que adornava seus entornos. O anfiteatro foi usado por quatro séculos como centro de entretenimento, e suas ruínas permanecem como símbolo fotografável do Império Romano e ponto turístico concorrido. Lá se exibiam combates de gladiadores, lutas e caçadas de animais selvagens, execuções sangrentas e até batalhas navais, quando a arena era inundada por dutos subterrâneos alimentados por aquedutos, prodígio da arquitetura etrusca assimilado pelos romanos.
Panis et circensis
A política do pão e circo foi utilizada por antigos administradores romanos com o intuito de dirimir o descontentamento do povo com seus governantes. A estratégia consistia em oferecer grandes espetáculos públicos enquanto se distribuía pão ao povaréu animado. A prática teve como consequências elevação de impostos e a subsequente derrocada da economia do Império. Vale dizer que tudo isso ocorreu dois mil anos antes da criação do Bolsa Família, do Ultimate Fighting e do Campeonato Brasileiro de Futebol.
De volta para o futuro
Há duas semanas um grupo de bárbaros brasileiros protagonizou na Arena Joinville — na aprazível cidade catarinense de altos índices de desenvolvimento humano — cenas lamentáveis de violência, embora desafortunadamente corriqueiras. Durante o jogo entre Atlético Paranaense e Vasco, torcedores rivais se enfrentaram numa batalha de fazer inveja ao mais descerebrado dos hunos, socando-se e chutando-se como se vivêssemos na Roma antiga. Injustiça: na Roma antiga o pessoal era mais civilizado. Lá os espetáculos aconteciam na arena, conduzidos por lutadores profissionais, enquanto o povo se divertia nas arquibancadas. Em Joinville, ao mesmo tempo em que jogadores profissionais se horrorizavam em campo com a barbárie, nas arquibancadas alguns representantes do cordial, alegre e pacífico povo brasileiro se incumbiam de tentar matar uns aos outros.
Breve pausa para orientação espacial
Onde está o Brasil verdadeiro? Na imagem dos boçais se agredindo em Joinville ou na da bela figura de Fernanda Lima anunciando na Bahia o sorteio das seleções da Copa do Mundo? Ambas as alternativas estão corretas? Respostas para a Redação.
Rebeldes sem causa, sem calça e sem graça
Com torcedores como esses, por que se preocupar com manifestantes?
As autoridades, a FIFA, a polícia e os brasileiros pacíficos não devem temer black blocs e outros possíveis — e prováveis — manifestantes que se insurjam violentamente contra a realização da Copa do Mundo no Brasil. Torcedores como os que se digladiaram em Joinville são manifestantes muito mais contundentes e radicais da grande desgraça brasileira e representam uma ameaça bem mais aterradora e eficiente. Ainda que se possa reduzi-los todos a farelo do mesmo sacolé, ao contrário dos black blocs os bárbaros de Joinville não usam máscaras, despreocupados com a revelação de suas identidades. Se forem presos, outros milhares surgirão, como zumbis, com a mesma determinação obstinada de destruição. Também ao contrário dos black blocs, os vândalos dos estádios — desculpe, das “arenas” — não agem motivados por nenhuma ideologia além da devoção canina a agremiações esportivas e preferem o aniquilamento sangrento de semelhantes à ingênua depredação de vidraças e placas de trânsito.
“Eis a beleza da coisa”, diria o doutor Strangelove com um sorriso, momentos antes de o mundo acabar numa grande hecatombe.
Catão
Os acontecimentos de Joinville só atestam mais uma vez que chegamos ao fundo do poço. E que o fundo do poço — surpresa! — não tem fundo. Desculpem-me os burocratas, os otimistas e os empreendedores de plantão, mas parece só haver uma solução para a barbárie brasileira: a Educação. Claro que situações como essa demandam medidas urgentes de segurança pública, infraestrutura, organização dos estádios e vergonha na cara, mas é bastante coerente que enquanto angariarmos resultados pífios em pesquisas sobre índices de educação, continuaremos a manifestar nossa violência irracional com requintes de campeões do mundo. No primeiro governo Lula uma das poucas coisas realmente animadoras foi a nomeação de Cristovam Buarque como ministro da Educação. Cristovam, assim como seu xará genovês, sabe que só se descobre um novo mundo com coragem, conhecimento de causa e determinação inabaláveis. Buarque preconizava uma revolução radical no ensino, mas caiu fora do governo tão logo os escândalos de corrupção começaram a pipocar. “Delenda est Carthago”, dizia Catão, político romano que sempre finalizava seus discursos alertando que Cartago, por ameaçar o Império Romano, devia ser aniquilada.
Confusão no domingo - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 22/12
Cada qual tem seus hábitos e manias; se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto
Eles são namorados, mas moram em casas separadas. Ele no Leme, ela em Botafogo. É que, como já não são jovens, cada qual tem seus hábitos e manias, como querer de repente ficar só, gostar de programas de televisão diferentes, enfim, se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto.
Disso resulta que, em vez de marido e mulher, continuam namorados. Telefonam-se todos os dias, mas nem sempre se encontram. Quando se encontram é para passear, jantar ou ir ao cinema, em geral aos domingos e feriados.
Ele lê para ela ao telefone o nome dos filmes que estão passando, a que hora e em qual cinema, e se encontram lá. Depois vão tomar um lanche, ou vai um para a casa do outro que ninguém é de ferro. Tudo certinho, como convém aos casais que não gostam de dramas nem de arranca-rabos.
E assim foi que marcaram para ir ao cinema naquela tarde de domingo. A escolha do filme foi feita, como de hábito, e já que o cinema era mais perto da casa dela que da dele, encarregou-se ela de comprar os ingressos.
Ele almoçou na hora de sempre e ligou a televisão para a última corrida do ano da Fórmula 1, particularmente interessante porque era a despedida de Felipe Massa da equipe da Ferrari. Depois lembrou-se que não ia dar tempo de ver o fim da corrida, pois prometera chegar ao cinema uns 20 minutos antes de começar o filme.
Fez os cálculos e concluiu que, se saísse de casa às 15h15, chegaria a tempo. Por isso, às 15h, começou a trocar de roupa, e na hora prevista estava já na rua tomando um táxi que o levaria ao cinema.
Chegou um pouco antes do que previra, pois o trânsito estava fluente, mais do que de costume. Ela ainda não havia chegado, conforme deduziu depois de atravessar a sala de espera e entrar na livraria que há ali. Estranhou, mas ficou vendo os livros para fazer hora. Abriu um deles, leu alguma coisa e, depois de um tempo, foi sentar-se na única cadeira que ainda estava livre, na entrada da lanchonete. Havia gente demais, formara-se uma fila enorme para ver não sabia qual filme. Mas ela não chegava!
Consultou o relógio, já estava na hora de entrar na sala de projeção, ela nada. Isso nunca havia acontecido, ela sempre chegava antes. Foi então que se lembrou de que, ao sair do apartamento, ao entrar no elevador, ouviu um telefone tocar, poderia ser o seu? Entrou no elevador e seguiu adiante. Seria ela? Teria acontecido alguma coisa e ela tentara avisar? E pior é que ele não usa celular, só o telefone fixo de casa. Não é nada disso, pensou, ela deve estar chegando.
Mas a aflição não cedia. Viu um rapaz com um celular e pediu a ele para fazer uma ligação. Ligou para a casa dela e ninguém atendeu. Ela tem celular, mas ele não sabia o número. Aflito, foi até a porta de entrada para esperá-la. Ficou ali uns dez minutos e nada. Decidiu tomar um táxi, ir até em casa e de lá telefonar para o celular dela. Foi, ligou, ela atendeu. "Estou aqui no cinema, acabei de chegar". E ele: "Mas já passam das 16 horas, o filme já começou. Você chegou depois de ter começado? Não acredito!".
E ela: "Já vou para aí", disse e desligou. Ele ficou perplexo, mas logo tomou uma decisão: desceu, pegou um táxi e voltou para o cinema. Encontrou-a na lanchonete: "Você está maluco. Por que veio tão cedo para o cinema? O filme só começa às cinco, são quatro e meia".
"É, você tem razão. Estou ficando matusquela. Meti na cabeça que o filme começava às quatro. Como você não chegou, fui para casa e de lá te liguei". E ela: "Você estava em casa?! Pensei que estivesse na porta do cinema me esperando! Que confusão!".
Riram e decidiram entrar na sala de cinema. Sentaram-se rindo da encrenca em que se haviam metido, até que as luzes se apagaram e na tela surgiram os anúncios. Depois a projeção de um trailer que não terminava nunca e, de repente, a luz acendeu de novo, cessou a projeção. Passaram-se os minutos e nada. Até que surgiu um funcionário do cinema e anunciou que o projetor dera um defeito, a sessão estava cancelada.
Sem dúvida alguma, aquele não era um dia de sorte do casal.
Cada qual tem seus hábitos e manias; se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto
Eles são namorados, mas moram em casas separadas. Ele no Leme, ela em Botafogo. É que, como já não são jovens, cada qual tem seus hábitos e manias, como querer de repente ficar só, gostar de programas de televisão diferentes, enfim, se quer que o namoro dure, o melhor é viver cada um no seu canto.
Disso resulta que, em vez de marido e mulher, continuam namorados. Telefonam-se todos os dias, mas nem sempre se encontram. Quando se encontram é para passear, jantar ou ir ao cinema, em geral aos domingos e feriados.
Ele lê para ela ao telefone o nome dos filmes que estão passando, a que hora e em qual cinema, e se encontram lá. Depois vão tomar um lanche, ou vai um para a casa do outro que ninguém é de ferro. Tudo certinho, como convém aos casais que não gostam de dramas nem de arranca-rabos.
E assim foi que marcaram para ir ao cinema naquela tarde de domingo. A escolha do filme foi feita, como de hábito, e já que o cinema era mais perto da casa dela que da dele, encarregou-se ela de comprar os ingressos.
Ele almoçou na hora de sempre e ligou a televisão para a última corrida do ano da Fórmula 1, particularmente interessante porque era a despedida de Felipe Massa da equipe da Ferrari. Depois lembrou-se que não ia dar tempo de ver o fim da corrida, pois prometera chegar ao cinema uns 20 minutos antes de começar o filme.
Fez os cálculos e concluiu que, se saísse de casa às 15h15, chegaria a tempo. Por isso, às 15h, começou a trocar de roupa, e na hora prevista estava já na rua tomando um táxi que o levaria ao cinema.
Chegou um pouco antes do que previra, pois o trânsito estava fluente, mais do que de costume. Ela ainda não havia chegado, conforme deduziu depois de atravessar a sala de espera e entrar na livraria que há ali. Estranhou, mas ficou vendo os livros para fazer hora. Abriu um deles, leu alguma coisa e, depois de um tempo, foi sentar-se na única cadeira que ainda estava livre, na entrada da lanchonete. Havia gente demais, formara-se uma fila enorme para ver não sabia qual filme. Mas ela não chegava!
Consultou o relógio, já estava na hora de entrar na sala de projeção, ela nada. Isso nunca havia acontecido, ela sempre chegava antes. Foi então que se lembrou de que, ao sair do apartamento, ao entrar no elevador, ouviu um telefone tocar, poderia ser o seu? Entrou no elevador e seguiu adiante. Seria ela? Teria acontecido alguma coisa e ela tentara avisar? E pior é que ele não usa celular, só o telefone fixo de casa. Não é nada disso, pensou, ela deve estar chegando.
Mas a aflição não cedia. Viu um rapaz com um celular e pediu a ele para fazer uma ligação. Ligou para a casa dela e ninguém atendeu. Ela tem celular, mas ele não sabia o número. Aflito, foi até a porta de entrada para esperá-la. Ficou ali uns dez minutos e nada. Decidiu tomar um táxi, ir até em casa e de lá telefonar para o celular dela. Foi, ligou, ela atendeu. "Estou aqui no cinema, acabei de chegar". E ele: "Mas já passam das 16 horas, o filme já começou. Você chegou depois de ter começado? Não acredito!".
E ela: "Já vou para aí", disse e desligou. Ele ficou perplexo, mas logo tomou uma decisão: desceu, pegou um táxi e voltou para o cinema. Encontrou-a na lanchonete: "Você está maluco. Por que veio tão cedo para o cinema? O filme só começa às cinco, são quatro e meia".
"É, você tem razão. Estou ficando matusquela. Meti na cabeça que o filme começava às quatro. Como você não chegou, fui para casa e de lá te liguei". E ela: "Você estava em casa?! Pensei que estivesse na porta do cinema me esperando! Que confusão!".
Riram e decidiram entrar na sala de cinema. Sentaram-se rindo da encrenca em que se haviam metido, até que as luzes se apagaram e na tela surgiram os anúncios. Depois a projeção de um trailer que não terminava nunca e, de repente, a luz acendeu de novo, cessou a projeção. Passaram-se os minutos e nada. Até que surgiu um funcionário do cinema e anunciou que o projetor dera um defeito, a sessão estava cancelada.
Sem dúvida alguma, aquele não era um dia de sorte do casal.
Imagina na... ah, você sabe - FÁBIO PORCHAT
O Estado de S.Paulo - 22/12
Acabei de voltar do Japão, na sexta-feira. Foi uma viagem sensacional, minha segunda vez por lá. Uma cultura completamente diferente e um país maravilhoso. Tóquio será a sede das Olimpíadas de 2020. Agora, adivinha qual é o papo que rola por lá entre os locais? O país não tem dinheiro para isso. A Olimpíada não é uma prioridade. Foi o tipo de decisão que só agradou aos governantes. Pra que fazer mais estádios? Pouca gente vai ganhar dinheiro com isso e aqueles que já tem dinheiro...
Ou seja, a população lá, tal qual a daqui, também não tá muito fã do evento. 95% da população japonesa não fala inglês e não compreende qualquer tipo de gesto explicativo. Comer num restaurante exige, no mínimo, medalha de prata no quesito mímica e onomatopeias. O povo japonês não morre de amores por estrangeiros e não se mistura de jeito nenhum. Fui expulso de dois restaurantes em Kyoto simplesmente porque eu não era japonês. A garçonete me empurrou pra fora assim que eu cruzei a porta de entrada. Mas me empurrou de verdade. Dizia: "no Japan". No Japan. Na maioria dos pontos turísticos não havia nenhum tipo de explicação em inglês ou até qualquer palavra utilizando letras reconhecíveis. E olha que eles receberam uma Copa do Mundo recentemente.
O que quero dizer com isso tudo? Que eu acho que vai dar tudo certo por aqui. Vamos superfaturar as obras (o que é um absurdo, óbvio), não falamos uma palavra de língua nenhuma, não temos o menor preparo para receber turista nenhum de outro país, mas mesmo assim, vai ser tudo um sucesso. Temos que cobrar sim, temos que protestar sim, temos que fazer barulho e ficar em cima, mas pelo que eu tô entendendo, nenhuma população de nenhum lugar do mundo acha muita graça em receber um evento dessa magnitude.
É mais caótico do que divertido. E o brasileiro adora menosprezar o Brasil. O aeroporto de Guarulhos é um lixo? É. Mas ficar uma hora esperando a bagagem chegar eu também fiquei em Paris e em Nova York. A escada rolante do aeroporto parada e em manutenção eu também encontrei em Lisboa. Pessoas esparramadas no chão dormindo pelo saguão da sala de embarque? Foi o que eu vi em Dubai. Claro que um erro não justifica o outro, mas é assim em toda cidade grande no mundo. As coisas dão errado.
Mas, em Paris, eu não vi nenhum brasileiro mandando um "imagina na Copa". É porque lá fora é primeiro mundo, né? Outro dia passando pelo detector de metais no Galeão, uma mulher, que teve que tirar o sapato porque tinha mais metal nele do que numa armadura medieval, falava em alto e bom som que só no Brasil mesmo para ela ter que passar por essa vergonha. Paisinho de merda. Eu não desejo a ela uma singela viagem pra Miami. Ela praticamente vai ter que tirar o DIU no aeroporto de lá.
A gente cisma que a gente é péssimo. Cisma que a gente é terceiro mundo. Cisma que nada aqui dá certo. E a gente até tem razão. Mas não vem pra cima de mim cismar que lá fora é que é legal que eu já te adianto que legal mesmo é onde a gente mora! Ponto.
Acabei de voltar do Japão, na sexta-feira. Foi uma viagem sensacional, minha segunda vez por lá. Uma cultura completamente diferente e um país maravilhoso. Tóquio será a sede das Olimpíadas de 2020. Agora, adivinha qual é o papo que rola por lá entre os locais? O país não tem dinheiro para isso. A Olimpíada não é uma prioridade. Foi o tipo de decisão que só agradou aos governantes. Pra que fazer mais estádios? Pouca gente vai ganhar dinheiro com isso e aqueles que já tem dinheiro...
Ou seja, a população lá, tal qual a daqui, também não tá muito fã do evento. 95% da população japonesa não fala inglês e não compreende qualquer tipo de gesto explicativo. Comer num restaurante exige, no mínimo, medalha de prata no quesito mímica e onomatopeias. O povo japonês não morre de amores por estrangeiros e não se mistura de jeito nenhum. Fui expulso de dois restaurantes em Kyoto simplesmente porque eu não era japonês. A garçonete me empurrou pra fora assim que eu cruzei a porta de entrada. Mas me empurrou de verdade. Dizia: "no Japan". No Japan. Na maioria dos pontos turísticos não havia nenhum tipo de explicação em inglês ou até qualquer palavra utilizando letras reconhecíveis. E olha que eles receberam uma Copa do Mundo recentemente.
O que quero dizer com isso tudo? Que eu acho que vai dar tudo certo por aqui. Vamos superfaturar as obras (o que é um absurdo, óbvio), não falamos uma palavra de língua nenhuma, não temos o menor preparo para receber turista nenhum de outro país, mas mesmo assim, vai ser tudo um sucesso. Temos que cobrar sim, temos que protestar sim, temos que fazer barulho e ficar em cima, mas pelo que eu tô entendendo, nenhuma população de nenhum lugar do mundo acha muita graça em receber um evento dessa magnitude.
É mais caótico do que divertido. E o brasileiro adora menosprezar o Brasil. O aeroporto de Guarulhos é um lixo? É. Mas ficar uma hora esperando a bagagem chegar eu também fiquei em Paris e em Nova York. A escada rolante do aeroporto parada e em manutenção eu também encontrei em Lisboa. Pessoas esparramadas no chão dormindo pelo saguão da sala de embarque? Foi o que eu vi em Dubai. Claro que um erro não justifica o outro, mas é assim em toda cidade grande no mundo. As coisas dão errado.
Mas, em Paris, eu não vi nenhum brasileiro mandando um "imagina na Copa". É porque lá fora é primeiro mundo, né? Outro dia passando pelo detector de metais no Galeão, uma mulher, que teve que tirar o sapato porque tinha mais metal nele do que numa armadura medieval, falava em alto e bom som que só no Brasil mesmo para ela ter que passar por essa vergonha. Paisinho de merda. Eu não desejo a ela uma singela viagem pra Miami. Ela praticamente vai ter que tirar o DIU no aeroporto de lá.
A gente cisma que a gente é péssimo. Cisma que a gente é terceiro mundo. Cisma que nada aqui dá certo. E a gente até tem razão. Mas não vem pra cima de mim cismar que lá fora é que é legal que eu já te adianto que legal mesmo é onde a gente mora! Ponto.
Remorso - CAETANO VELOSO
O GLOBO - 22/12
Uma vez, em Hamburgo, gritei desprezo pela Europa, mencionei Hitler e senti-me tomado por uma fúria brasileirista e autocentrada
Uma vez, em Hamburgo, durante uma excursão europeia, perdi o controle dos meus nervos. Pode ter sido o show do “Circuladô” ou o do “Livro”, o certo é que Jaquinho Morelenbaum estava comigo. O show tinha muitas mudanças de clima e sutis dinâmicas. Todas as apresentações por cidades da Europa vinham sendo muito bonitas, com as plateias reagindo muito bem (sobretudo na Itália, onde nos apresentamos em várias cidades, a concentração e o calor do público nos contagiando). Em Hamburgo éramos parte de um festival e nos apresentávamos numa tenda grande e bem construída. Na plateia havia muitos jovens alemães e um número considerável de brasileiros — e de alemães não tão jovens que tinham relações com o Brasil. No fundo e nas laterais do auditório bebidas eram vendidas. O grupo que se colocou no centro e mais próximo ao palco acompanhava o que fazíamos, mas era (assim como nós) permanentemente incomodado pelo barulho da falação descuidada dos cervejeiros, muitos esperando uma atração de r&b americana que entraria depois. O barulho ficava mais agressivo quando canções suaves eram executadas. Numa determinada altura, falei, entre uma música e outra, pedindo silêncio. Nem por curiosidade a respeito do que estava sendo dito as pessoas silenciavam. Talvez umas muito poucas. As vozes altas se destacavam — predominantemente em alemão — sobre a relativa quietude. Eu disse, em inglês (a língua internacional, a dos cinco olhos), que os alemães eram famosos por serem ordeiros: nós, brasileiros, não tínhamos essa reputação, mas gostávamos de música. Eu pensava no show da Praça do Canhão, em Realengo, onde, meses antes, uma multidão de perder de vista fazia um silêncio religioso para ouvir “Circuladô” ou “Itapuã”.
Depois do espetáculo — que, afinal, pôde ser apreciado com moderação pelos que estavam atentos a ele — veio conversar comigo um amigo (um ex-amigo, temo) alemão que fala português. Ele estava acompanhado de uma namorada (ou esposa) brasileira. Enquanto ele tentava me convencer, em tom carinhoso, de que não teria sido necessário reclamar do barulho (explicando de que tipo de plateia se tratava), a brasileira me olhava com cara séria e afirmava que quem estava fazendo barulho eram os brasileiros. Bem, era claramente perceptível para mim que esse não era o caso. Talvez houvesse brasileiros entre os barulhentos, mas a maioria deles compunha o centro atento que, inclusive, às vezes pedia silêncio também. O fato é que o comentário da moça me irritou desproporcionalmente — e comecei a falar alto e zangado contra sua hipótese, contra aquele evento, contra os alemães em geral. Havia cansaço dos muitos dias de viagens, desconforto de estar longe de casa, e a intolerância com o sintoma de vira-latismo da interlocutora. Fiquei exasperado. Gritei desprezo pela Europa, mencionei Hitler (coisa que entra mal em quase toda discussão), senti-me tomado por uma fúria brasileirista e autocentrada que desfez o sorriso do rapaz.
De noite, na cama do hotel, senti remorso e vergonha de minha reação. E ainda hoje, passados tantos anos, é um dos momentos de minha vida que mais me causam inquietação íntima quando estou sozinho e conversando comigo mesmo. Isso só tem feito crescer com a tendência ao barulho das plateias brasileiras. Parece que, para me ensinar amarga lição, um deus fermentou a má educação dos meus compatriotas e, do Tim Festival aos shows nos falsos canecões que se construíram pelo Brasil, passando por praças e ruas, fui vendo crescer, ano a ano, o barulho nos nossos locais de espetáculos. Curiosamente, atribuo esse triste fato a outro aspecto do mesmo vira-latismo que julguei notar na companheira do simpático alemão. Ao mesmo tempo em que sinto quão profundamente errado eu estava ali, observo que a confusão que se fez entre potência de som para estádios e “primeiro mundo” elevou o volume das caixas de som em qualquer ambiente (com espectadores brasucas reclamando de “baixo volume” em shows como o de Devendra), o que contribuiu para a gritaria desleixada. Depois de anos tendo de me submeter a isso, cantei em uma praça de Buenos Aires, só de violão, e o silêncio me emocionou. Dedico esta campanha pelo volume adequado e pela fruição atenta ao alemão de quem acho que perdi a amizade. Sempre sinto que ele e sua mulher estão presentes em cada show com brasileiros ruidosos em que canto ou a que assisto. Não esqueço a contribuição da axé music, o carnaval rock-festival de Salvador, para esse estado de coisas. O barulho na Bahia tomou conta de tudo. O Brasil ecoa. Temos de achar o caminho do autorrespeito.
Uma vez, em Hamburgo, gritei desprezo pela Europa, mencionei Hitler e senti-me tomado por uma fúria brasileirista e autocentrada
Uma vez, em Hamburgo, durante uma excursão europeia, perdi o controle dos meus nervos. Pode ter sido o show do “Circuladô” ou o do “Livro”, o certo é que Jaquinho Morelenbaum estava comigo. O show tinha muitas mudanças de clima e sutis dinâmicas. Todas as apresentações por cidades da Europa vinham sendo muito bonitas, com as plateias reagindo muito bem (sobretudo na Itália, onde nos apresentamos em várias cidades, a concentração e o calor do público nos contagiando). Em Hamburgo éramos parte de um festival e nos apresentávamos numa tenda grande e bem construída. Na plateia havia muitos jovens alemães e um número considerável de brasileiros — e de alemães não tão jovens que tinham relações com o Brasil. No fundo e nas laterais do auditório bebidas eram vendidas. O grupo que se colocou no centro e mais próximo ao palco acompanhava o que fazíamos, mas era (assim como nós) permanentemente incomodado pelo barulho da falação descuidada dos cervejeiros, muitos esperando uma atração de r&b americana que entraria depois. O barulho ficava mais agressivo quando canções suaves eram executadas. Numa determinada altura, falei, entre uma música e outra, pedindo silêncio. Nem por curiosidade a respeito do que estava sendo dito as pessoas silenciavam. Talvez umas muito poucas. As vozes altas se destacavam — predominantemente em alemão — sobre a relativa quietude. Eu disse, em inglês (a língua internacional, a dos cinco olhos), que os alemães eram famosos por serem ordeiros: nós, brasileiros, não tínhamos essa reputação, mas gostávamos de música. Eu pensava no show da Praça do Canhão, em Realengo, onde, meses antes, uma multidão de perder de vista fazia um silêncio religioso para ouvir “Circuladô” ou “Itapuã”.
Depois do espetáculo — que, afinal, pôde ser apreciado com moderação pelos que estavam atentos a ele — veio conversar comigo um amigo (um ex-amigo, temo) alemão que fala português. Ele estava acompanhado de uma namorada (ou esposa) brasileira. Enquanto ele tentava me convencer, em tom carinhoso, de que não teria sido necessário reclamar do barulho (explicando de que tipo de plateia se tratava), a brasileira me olhava com cara séria e afirmava que quem estava fazendo barulho eram os brasileiros. Bem, era claramente perceptível para mim que esse não era o caso. Talvez houvesse brasileiros entre os barulhentos, mas a maioria deles compunha o centro atento que, inclusive, às vezes pedia silêncio também. O fato é que o comentário da moça me irritou desproporcionalmente — e comecei a falar alto e zangado contra sua hipótese, contra aquele evento, contra os alemães em geral. Havia cansaço dos muitos dias de viagens, desconforto de estar longe de casa, e a intolerância com o sintoma de vira-latismo da interlocutora. Fiquei exasperado. Gritei desprezo pela Europa, mencionei Hitler (coisa que entra mal em quase toda discussão), senti-me tomado por uma fúria brasileirista e autocentrada que desfez o sorriso do rapaz.
De noite, na cama do hotel, senti remorso e vergonha de minha reação. E ainda hoje, passados tantos anos, é um dos momentos de minha vida que mais me causam inquietação íntima quando estou sozinho e conversando comigo mesmo. Isso só tem feito crescer com a tendência ao barulho das plateias brasileiras. Parece que, para me ensinar amarga lição, um deus fermentou a má educação dos meus compatriotas e, do Tim Festival aos shows nos falsos canecões que se construíram pelo Brasil, passando por praças e ruas, fui vendo crescer, ano a ano, o barulho nos nossos locais de espetáculos. Curiosamente, atribuo esse triste fato a outro aspecto do mesmo vira-latismo que julguei notar na companheira do simpático alemão. Ao mesmo tempo em que sinto quão profundamente errado eu estava ali, observo que a confusão que se fez entre potência de som para estádios e “primeiro mundo” elevou o volume das caixas de som em qualquer ambiente (com espectadores brasucas reclamando de “baixo volume” em shows como o de Devendra), o que contribuiu para a gritaria desleixada. Depois de anos tendo de me submeter a isso, cantei em uma praça de Buenos Aires, só de violão, e o silêncio me emocionou. Dedico esta campanha pelo volume adequado e pela fruição atenta ao alemão de quem acho que perdi a amizade. Sempre sinto que ele e sua mulher estão presentes em cada show com brasileiros ruidosos em que canto ou a que assisto. Não esqueço a contribuição da axé music, o carnaval rock-festival de Salvador, para esse estado de coisas. O barulho na Bahia tomou conta de tudo. O Brasil ecoa. Temos de achar o caminho do autorrespeito.
Utopias e distopias - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 22/12
O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse tendência à tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam advogados
Todas as utopias imaginadas até hoje acabaram em distopias, ou tinham na sua origem um defeito que as condenava. A primeira, que deu nome às várias fantasias de um mundo perfeito que viriam depois, foi inventada por sir Thomas Morus em 1516. Dizem que ele se inspirou nas descobertas recentes do Novo Mundo, e mais especificamente do Brasil, para descrever sua sociedade ideal, que significaria um renascimento para a humanidade, livre dos vícios do mundo antigo. Na Utopia de Morus o direito à educação e à saúde seria universal, a diversidade religiosa seria tolerada e a propriedade privada, proibida. O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse alguma tendência para a tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam a existência de advogados. Mas para que tudo isto funcionasse Morus prescrevia dois escravos para cada família, recrutados entre criminosos e prisioneiros de guerra. Além disso, o príncipe deveria sempre ser homem e as mulheres teriam menos direitos do que os homens. Morus tirou o nome da sua sociedade perfeita da palavra grega para “lugar nenhum”, o que de saída já significava que ela só poderia existir mesmo na sua imaginação.
Platão imaginou uma república idílica em que os governantes seriam filósofos, ou os filósofos governantes. Nem ele nem os outros filósofos gregos da sua época se importavam muito com o fato de viverem numa sociedade escravocrata. Em “Candide”, Voltaire colocou sua sociedade ideal, onde haveria muitas escolas mas nenhuma prisão, em El Dorado, mas “Candide” é menos uma visão de um mundo perfeito do que uma sátira da ingenuidade humana. Marx e Engels e outros pensadores previram um futuro redentor em que a emancipação da classe trabalhadora traria igualdade e justiça para todos. O sonho acabou no totalitarismo soviético e na sua demolição. Até John Lennon, na canção “Imagine”, propôs sua utopia, na qual não haveria, entre outros atrasos, violência e religião. Ele mesmo foi vítima da violência, enquanto no mundo todo e cada vez mais as pessoas se entregam a religiões e se matam por elas.
Quando surgiu e se popularizou o automóvel anunciou-se uma utopia possível. No futuro previsto os carros ofereceriam transporte rápido e lazer inédito em estradas magnetizadas para guiá-los mesmo sem motorista. Isso se os carros não voassem, ou se não houvesse um helicóptero em cada garagem. Nada disso aconteceu. Foi outra utopia que pifou. Hoje vivemos em meio à sua negação, em engarrafamentos intermináveis, em chacinas nas estradas e num caos que só aumenta, sem solução à vista. Mais uma vez, deu distopia.
O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse tendência à tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam advogados
Todas as utopias imaginadas até hoje acabaram em distopias, ou tinham na sua origem um defeito que as condenava. A primeira, que deu nome às várias fantasias de um mundo perfeito que viriam depois, foi inventada por sir Thomas Morus em 1516. Dizem que ele se inspirou nas descobertas recentes do Novo Mundo, e mais especificamente do Brasil, para descrever sua sociedade ideal, que significaria um renascimento para a humanidade, livre dos vícios do mundo antigo. Na Utopia de Morus o direito à educação e à saúde seria universal, a diversidade religiosa seria tolerada e a propriedade privada, proibida. O governo seria exercido por um príncipe eleito, que poderia ser substituído se mostrasse alguma tendência para a tirania, e as leis seriam tão simples que dispensariam a existência de advogados. Mas para que tudo isto funcionasse Morus prescrevia dois escravos para cada família, recrutados entre criminosos e prisioneiros de guerra. Além disso, o príncipe deveria sempre ser homem e as mulheres teriam menos direitos do que os homens. Morus tirou o nome da sua sociedade perfeita da palavra grega para “lugar nenhum”, o que de saída já significava que ela só poderia existir mesmo na sua imaginação.
Platão imaginou uma república idílica em que os governantes seriam filósofos, ou os filósofos governantes. Nem ele nem os outros filósofos gregos da sua época se importavam muito com o fato de viverem numa sociedade escravocrata. Em “Candide”, Voltaire colocou sua sociedade ideal, onde haveria muitas escolas mas nenhuma prisão, em El Dorado, mas “Candide” é menos uma visão de um mundo perfeito do que uma sátira da ingenuidade humana. Marx e Engels e outros pensadores previram um futuro redentor em que a emancipação da classe trabalhadora traria igualdade e justiça para todos. O sonho acabou no totalitarismo soviético e na sua demolição. Até John Lennon, na canção “Imagine”, propôs sua utopia, na qual não haveria, entre outros atrasos, violência e religião. Ele mesmo foi vítima da violência, enquanto no mundo todo e cada vez mais as pessoas se entregam a religiões e se matam por elas.
Quando surgiu e se popularizou o automóvel anunciou-se uma utopia possível. No futuro previsto os carros ofereceriam transporte rápido e lazer inédito em estradas magnetizadas para guiá-los mesmo sem motorista. Isso se os carros não voassem, ou se não houvesse um helicóptero em cada garagem. Nada disso aconteceu. Foi outra utopia que pifou. Hoje vivemos em meio à sua negação, em engarrafamentos intermináveis, em chacinas nas estradas e num caos que só aumenta, sem solução à vista. Mais uma vez, deu distopia.
Retrospectiva 2013! ESQUECI! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 22/12
E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Bomba da semana: "Vanusa cantará o hino da Copa com tradução do intérprete sul-africano". Vai ser o VÍRUS DO IPIRANGA! Rarará! E o pensamento do dia: "é melhor um peru na mão do que dois na gôndola do Pão de Açúcar".
E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos! BUM! E um tuiteiro: "Gostaria que na cela dos mensaleiros tivesse um alto-falante tocando dia e noite a música da Simone, Então é Natal'". Isso fere a Convenção de Genebra. Não tem pena de morte no Brasil! Rarará!
E sabe o que o Papai Noel de shopping pediu pro Papai Noel? Um emprego fixo! Aliás, eu tenho uma fotomontagem com o Sarney de Papai Noel de shopping com as crianças gritando e chorando. Tadinhas das crianças, vão odiar o Natal pra sempre!
E uma amiga foi transar com um Papai Noel de shopping e voltou revoltada: não encolheu a barriga e nem tirou as botas! E sabe como o Papai Noel dá risada em Brasília? HÔ HÔ HÔubamos muitos!
E o meu presente de Natal pro Fluminense: o "Vire a Mesa", da Estrela. E o meu presente de Natal pro Zé Dirceu: um par de sandálias Havaianas listradas de preto e branco. Verão na Papuda.
E o Serra e o Alckmin lançaram um novo panetone: Propinetone! Panetone fabricado com farinha de propina. Distribuído nos metrôs de São Paulo! E finalmente a Polícia Federal descobriu o dono do pó do helipóptero dos Perrella: o Pópó Noel! Rarará!
E já saiu o corno Papai Noel: aquele que vai embora, mas volta por causa das crianças! E o Papai Noel é gay: vive rodeado de viadinhos, usa as botinhas da Carla Perez, dá presente pros meninos e nos Estados Unidos é chamado de SANTA! Rarará.
E as retrospectivas? "Retrospectiva 2013! Só engordei!". "Retrospectiva 2013! ESQUECI!". É melhor esquecer mesmo. 2013 foi o ano do P: Protesto, Paulista, Propina, Papuda e Putaria!
O Brasil é Lúdico! Correu na internet um vírus: "O seu cartão foi cronado". O hacker não fez o Enem! "Cronado em Frorianóporis na estreia do Crô'!". Rarará. E na tela do "Cidade Alerta": "Presos queimam os colhões em motim". Rarará. Corta pra mim! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Bomba da semana: "Vanusa cantará o hino da Copa com tradução do intérprete sul-africano". Vai ser o VÍRUS DO IPIRANGA! Rarará! E o pensamento do dia: "é melhor um peru na mão do que dois na gôndola do Pão de Açúcar".
E o melhor kit de Natal: um CD do Luan Santana mais um litro de álcool, mais uma caixa de fósforos! BUM! E um tuiteiro: "Gostaria que na cela dos mensaleiros tivesse um alto-falante tocando dia e noite a música da Simone, Então é Natal'". Isso fere a Convenção de Genebra. Não tem pena de morte no Brasil! Rarará!
E sabe o que o Papai Noel de shopping pediu pro Papai Noel? Um emprego fixo! Aliás, eu tenho uma fotomontagem com o Sarney de Papai Noel de shopping com as crianças gritando e chorando. Tadinhas das crianças, vão odiar o Natal pra sempre!
E uma amiga foi transar com um Papai Noel de shopping e voltou revoltada: não encolheu a barriga e nem tirou as botas! E sabe como o Papai Noel dá risada em Brasília? HÔ HÔ HÔubamos muitos!
E o meu presente de Natal pro Fluminense: o "Vire a Mesa", da Estrela. E o meu presente de Natal pro Zé Dirceu: um par de sandálias Havaianas listradas de preto e branco. Verão na Papuda.
E o Serra e o Alckmin lançaram um novo panetone: Propinetone! Panetone fabricado com farinha de propina. Distribuído nos metrôs de São Paulo! E finalmente a Polícia Federal descobriu o dono do pó do helipóptero dos Perrella: o Pópó Noel! Rarará!
E já saiu o corno Papai Noel: aquele que vai embora, mas volta por causa das crianças! E o Papai Noel é gay: vive rodeado de viadinhos, usa as botinhas da Carla Perez, dá presente pros meninos e nos Estados Unidos é chamado de SANTA! Rarará.
E as retrospectivas? "Retrospectiva 2013! Só engordei!". "Retrospectiva 2013! ESQUECI!". É melhor esquecer mesmo. 2013 foi o ano do P: Protesto, Paulista, Propina, Papuda e Putaria!
O Brasil é Lúdico! Correu na internet um vírus: "O seu cartão foi cronado". O hacker não fez o Enem! "Cronado em Frorianóporis na estreia do Crô'!". Rarará. E na tela do "Cidade Alerta": "Presos queimam os colhões em motim". Rarará. Corta pra mim! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Leitor e amigo - JOÃO UBALDO RIBEIRO
O GLOBO - 22/12
—Eu vejo você aqui no boteco todo fim de semana, há não sei quantos anos, de forma que acho que posso dizer que hoje somos amigos. Mais do que leitor, eu me sinto seu amigo, sinto que conheço você. Apenas nunca tivemos a chance de conversar.
— Foi por acaso, porque todo mundo aqui conversa comigo.
— E eu gostaria de conversar também, mas fico meio acanhado de abordar certos assuntos e não me fazer entender bem.
— Que nada, pode falar sobre o que você quiser. Prefiro que não seja sobre o Vasco, mas, de resto, tudo bem.
— É que talvez você possa colaborar num projeto de interesse geral. Você botaria o meu nome no jornal? Já não digo como personagem, mas numa citação. Você às vezes faz isso. “Meu amigo Fulano disse isso ou aquilo”, você escreve isso de vez em quando. O que eu queria é simples: é você citar meu nome no jornal, não precisa elogiar, basta citar, você sabe fazer essas coisas muito bem. Volta e meia, assim como quem não quer nada, você me cita.
— Mas o que é que eu vou dizer?
— Esta é a segunda parte, é a parte do aposto. A parte do aposto é a seguinte: você bota um aposto depois de meu nome. Pode ser “o Feliz”, mas, se você preferir outro adjetivo, tudo bem.
— Você quer ser conhecido como o Feliz?
— É, qualquer coisa assim. Eu quero projetar uma imagem de felicidade e realização, quero ser um símbolo para os homens de minha geração.
— E você acha que vai conseguir tudo isto, se eu botar seu nome no jornal?
— Não, somente com isso, não, isso é a parte inicial, a parte da construção de minha imagem. Eu venho pensando nisso a mil por hora, as coisas acontecem vertiginosamente. Todos os problemas humanos são sexuais e eu estou resolvendo cada um deles. Eu criei um aplicativo sem precedentes, revolucionário. Só falta acabar uns detalhezinhos, mas vai ser um grande passo na história sexual da humanidade, ou seja, na história da humanidade em geral, pois o problema sempre foi conseguir comer as mulheres e, depois de conseguir, comer corretamente. Este objetivo raramente é alcançado, daí a alarmante taxa de insatisfação, reclamação e rebeldia entre as mulheres, que agora ameaçam banir os homens de seus leitos amorosos e até mesmo dispensar a colaboração masculina para se reproduzir! Zangões! É isso o que seremos, zangões! Os machos que nascerem serão sacrificados em rituais onde seus pintinhos e ovinhos serão salteados e servidos a elas como tira-gostos, com exceção de alguns poucos, que vão ser castrados para compor corais de vozes juvenis, e mais dois ou três no zoológico e nas aulas de arqueologia!
— Rapaz, talvez você tenha ido um pouco fundo demais no chope, não foi, não?
— Fundo ao chope eu fui, mas não vou dirigir e, sobretudo, estou suficientemente sóbrio para perceber que você não parece nem um pouco interessado em colaborar com uma iniciativa de relevância pública, como esta. E eu só estou lhe pedindo para botar meu nome no jornal, com o aposto. Do resto cuido eu, de todo o resto.
— Sim, eu imaginava que devia haver alguma coisa, além de botar seu nome no jornal.
— Claro. Eu já lhe falei que criei um aplicativo. Ainda não botei nome, mas não vai ser nenhuma dessas frescuras em inglês, acho que vai ser “Aperparado” mesmo, é uma homenagem a minhas origens nordestinas. É completo. Por exemplo, você sabe que, hoje em dia, o homem não precisa mais ficar sobressaltado com o fantasma da brochada fora de hora, por ter calculado mal o tempo da tomada do antibrochante. Nada disso, ele toma sua dosezinha todo santo dia, está sempre preparado, é o novíssimo tratamento. E o aplicativo lembra a ele a hora de tomar a pílula, com uma cornetadazinha de hastear bandeira muito discreta. O aplicativo lembra a ele todos os cuidados que tem que ter e tudo o que tem que fazer, em relação a cada contato, aparência pessoal, remédios, piadas, comentários sobre os últimos filmes, tudo, tudo. Com esse aplicativo, o usuário pode mudar de comportamento sexual de acordo com o perfil de cada parceira: se é no claro ou no escuro, se é com trilha sonora de gemido ou palavrão, se é com todas as armas e assim por diante, nunca mais uma mancada ou passo em falso. Vai ser criado o homem perfeito, vai estar ao alcance de cada um ser o homem perfeito, o verdadeiro homo erectus.
— Não acredito nisso, há muita coisa que o aplicativo não pode fazer.
— Mas é claro! É para isso que eu bolei o sexpa, o spa do sexo. Meu objetivo é fundar uma franquia e ter sexpas em todas as grandes cidades, logo nos primeiros anos. O sexpa é destinado a promover a felicidade sexual, oferecendo cursos e estágios de acordo com as diferentes necessidades e características dos clientes, tudo no maior profissionalismo e eu acho até que pode ser abatido no imposto de renda, como despesa com educação e saúde. Entendeu por que eu preciso que você bote meu nome no jornal? É meu pontapé inicial.
— Eu não posso fazer isso, é um empreendimento comercial.
— Ih, senti a fera, é isso mesmo, hoje em dia somente otário é que não aproveita, tem que cobrar mesmo, business is business. Tudo bem, você continua a promoção e leva um percentual da receita, depois a gente acerta os detalhes. E ainda arrumo para você um mês de sexpa grátis por ano. Quando é que você acha que vai poder botar meu nome no jornal?
—Eu vejo você aqui no boteco todo fim de semana, há não sei quantos anos, de forma que acho que posso dizer que hoje somos amigos. Mais do que leitor, eu me sinto seu amigo, sinto que conheço você. Apenas nunca tivemos a chance de conversar.
— Foi por acaso, porque todo mundo aqui conversa comigo.
— E eu gostaria de conversar também, mas fico meio acanhado de abordar certos assuntos e não me fazer entender bem.
— Que nada, pode falar sobre o que você quiser. Prefiro que não seja sobre o Vasco, mas, de resto, tudo bem.
— É que talvez você possa colaborar num projeto de interesse geral. Você botaria o meu nome no jornal? Já não digo como personagem, mas numa citação. Você às vezes faz isso. “Meu amigo Fulano disse isso ou aquilo”, você escreve isso de vez em quando. O que eu queria é simples: é você citar meu nome no jornal, não precisa elogiar, basta citar, você sabe fazer essas coisas muito bem. Volta e meia, assim como quem não quer nada, você me cita.
— Mas o que é que eu vou dizer?
— Esta é a segunda parte, é a parte do aposto. A parte do aposto é a seguinte: você bota um aposto depois de meu nome. Pode ser “o Feliz”, mas, se você preferir outro adjetivo, tudo bem.
— Você quer ser conhecido como o Feliz?
— É, qualquer coisa assim. Eu quero projetar uma imagem de felicidade e realização, quero ser um símbolo para os homens de minha geração.
— E você acha que vai conseguir tudo isto, se eu botar seu nome no jornal?
— Não, somente com isso, não, isso é a parte inicial, a parte da construção de minha imagem. Eu venho pensando nisso a mil por hora, as coisas acontecem vertiginosamente. Todos os problemas humanos são sexuais e eu estou resolvendo cada um deles. Eu criei um aplicativo sem precedentes, revolucionário. Só falta acabar uns detalhezinhos, mas vai ser um grande passo na história sexual da humanidade, ou seja, na história da humanidade em geral, pois o problema sempre foi conseguir comer as mulheres e, depois de conseguir, comer corretamente. Este objetivo raramente é alcançado, daí a alarmante taxa de insatisfação, reclamação e rebeldia entre as mulheres, que agora ameaçam banir os homens de seus leitos amorosos e até mesmo dispensar a colaboração masculina para se reproduzir! Zangões! É isso o que seremos, zangões! Os machos que nascerem serão sacrificados em rituais onde seus pintinhos e ovinhos serão salteados e servidos a elas como tira-gostos, com exceção de alguns poucos, que vão ser castrados para compor corais de vozes juvenis, e mais dois ou três no zoológico e nas aulas de arqueologia!
— Rapaz, talvez você tenha ido um pouco fundo demais no chope, não foi, não?
— Fundo ao chope eu fui, mas não vou dirigir e, sobretudo, estou suficientemente sóbrio para perceber que você não parece nem um pouco interessado em colaborar com uma iniciativa de relevância pública, como esta. E eu só estou lhe pedindo para botar meu nome no jornal, com o aposto. Do resto cuido eu, de todo o resto.
— Sim, eu imaginava que devia haver alguma coisa, além de botar seu nome no jornal.
— Claro. Eu já lhe falei que criei um aplicativo. Ainda não botei nome, mas não vai ser nenhuma dessas frescuras em inglês, acho que vai ser “Aperparado” mesmo, é uma homenagem a minhas origens nordestinas. É completo. Por exemplo, você sabe que, hoje em dia, o homem não precisa mais ficar sobressaltado com o fantasma da brochada fora de hora, por ter calculado mal o tempo da tomada do antibrochante. Nada disso, ele toma sua dosezinha todo santo dia, está sempre preparado, é o novíssimo tratamento. E o aplicativo lembra a ele a hora de tomar a pílula, com uma cornetadazinha de hastear bandeira muito discreta. O aplicativo lembra a ele todos os cuidados que tem que ter e tudo o que tem que fazer, em relação a cada contato, aparência pessoal, remédios, piadas, comentários sobre os últimos filmes, tudo, tudo. Com esse aplicativo, o usuário pode mudar de comportamento sexual de acordo com o perfil de cada parceira: se é no claro ou no escuro, se é com trilha sonora de gemido ou palavrão, se é com todas as armas e assim por diante, nunca mais uma mancada ou passo em falso. Vai ser criado o homem perfeito, vai estar ao alcance de cada um ser o homem perfeito, o verdadeiro homo erectus.
— Não acredito nisso, há muita coisa que o aplicativo não pode fazer.
— Mas é claro! É para isso que eu bolei o sexpa, o spa do sexo. Meu objetivo é fundar uma franquia e ter sexpas em todas as grandes cidades, logo nos primeiros anos. O sexpa é destinado a promover a felicidade sexual, oferecendo cursos e estágios de acordo com as diferentes necessidades e características dos clientes, tudo no maior profissionalismo e eu acho até que pode ser abatido no imposto de renda, como despesa com educação e saúde. Entendeu por que eu preciso que você bote meu nome no jornal? É meu pontapé inicial.
— Eu não posso fazer isso, é um empreendimento comercial.
— Ih, senti a fera, é isso mesmo, hoje em dia somente otário é que não aproveita, tem que cobrar mesmo, business is business. Tudo bem, você continua a promoção e leva um percentual da receita, depois a gente acerta os detalhes. E ainda arrumo para você um mês de sexpa grátis por ano. Quando é que você acha que vai poder botar meu nome no jornal?
ELA BATE UM BOLÃO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 22/12
A apresentadora Fernanda Lima diz que já sofreu preconceito "por ser loira" e que a sexualidade do brasileiro, na prática, é mixa
Eram 11h30 da manhã da última terça-feira. No apartamento de Fernanda Lima, 36, e Rodrigo Hilbert, 33, no Rio de Janeiro, predominava o cheiro do almoço dos gêmeos João e Francisco, 5.
É que a cozinha é integrada à sala. São 110 m², sem suíte. A grande vantagem é a localização: avenida Delfim Moreira, de frente para o mar, no Leblon, bairro com fama de ter o metro quadrado mais caro do Brasil (R$ 21.900).
Com uma camiseta em que se lia a inscrição "animais são amigos", Hilbert, que apresenta um programa gastronômico no GNT, preparava a "boia". Por opção, o casal decidiu não contar com os serviços de babá. Há uma diarista "faz-tudo", e só.
O espírito da decoração da sala, onde recebem amigos como Gloria Maria e Leo Jaime, segue a linha do luxo despojado. Há um jogo das célebres poltronas moles do designer brasileiro Sergio Rodrigues. Um quadro de Dudi Maia Rosa, outro de Felipe Cama. Não há tapetes. Na bancada abaixo do janelão, um órgão, um skate e meia dúzia de esteiras de ioga. Na mesa ao lado do sofá, estatuetas de Buda e de Ganesha (divindade hindu) e vela aromática.
Então a porta da rua se abre e entra Fernanda Lima com os dois meninos. Veste tênis, jeans justo e camisa. Já havia ido ao supermercado. Depois das compras, levou as crianças para cortar cabelo --os três na mesma bicicleta.
Ela sorri e pede ao repórter Morris Kachani um tempo para se maquiar. E avisa: "Não suporto ser fofinha. Tenho um humor superácido". Será? Minutos depois, é chegada a hora de comer. "Me-ri-to-cra-cia", diz ela a João e Francisco, enquanto os acomoda na bancada da cozinha. "Meritocracia", repetem. "Para comer chiclete...", pergunta a mãe. "Vai ter que almoçar!", completam os filhos.
É o último dia de aula dos meninos. Na quarta-feira, partiriam todos para uma temporada de férias no Havaí. Tempo para meditar sobre as grandes transformações ocorridas em 2013, ano em que Fernanda "bombou" como nunca. Mas que também registrou a morte de Gisela Matta, 36, que coproduzia "Amor & Sexo", apresentado por Fernanda, e foi atropelada por um ônibus quando saía de bicicleta do apartamento do casal, depois do almoço de Páscoa.
A atração está em sua sétima temporada na Globo. Registrou média de audiência de 16 pontos neste ano, com 46% de participação nos domicílios. Há duas semanas, contudo, a ex-modelo se projetou internacionalmente. Foi chamada de "deusa", "musa" e "anjo" por conta da apresentação no sorteio das chaves da Copa, na Costa do Sauipe, na Bahia. Usava sapatos Louboutin e tubinho Hervé Leger com decote generoso. Brilhava ao lado do marido.
Fernanda se diz surpresa com a repercussão. "O Rodrigo foi tão bem quanto eu, não entendo", afirma, referindo-se ao fato de só ela ter recebido elogios. "Um dia depois do sorteio, passei três horas chorando na cama. Uma tristeza por estar longe dos meninos. Enquanto o mundo me exaltava, eu tinha que estar bem para gravar o programa [Amor & Sexo'] na TV."
Quanto à polêmica sobre racismo desencadeada pela informação de que a Fifa teria trocado Camila Pitanga e Lázaro Ramos por ela e Hilbert como apresentadores, Fernanda diz: "Eu tinha sido chamada há seis meses. O que sei é que a Globo apresentou um casting para a Fifa, que nos escolheu. Já havíamos feito a escolha do emblema do Brasil na África do Sul, em 2010".
"Quem me conhece sabe como sou. Prefiro deixar passar, o tempo fala por si. Tenho um monte de amigos e afilhados negros", afirma.
"Mas é óbvio que há preconceito de cor no Brasil", segue. "Aliás, eu também já fui vítima de preconceito. Por ser modelo, por ser loira." Segundo ela, o teste do sofá (em que diretores poderosos seduzem meninas jovens que aspiram a um trabalho) não é mito --acontece mesmo. "Sempre vi tudo isso. E sempre preferi o caminho mais longo."
A conversa se move para "Amor & Sexo", que fala sobre os dois temas em horário nobre na TV. "É difícil escrever esse programa, porque nele as pessoas não podem se ofender, é uma atração para a família."
Para ela, a sexualidade do brasileiro, na prática, é "mixa". "A liberdade do corpo, a dança, o funk, afloram nossa sensualidade. Mas isso é aparência. Na cama, em si, é diferente. O sentir profundo está muito precário."
"A descoberta do prazer da mulher é muito recente. Ela está à vontade e até avaliando os homens, mas pode descobrir muito mais coisas." Quanto ao homem, "ele diz que pega, que puxa o cabelo, que come todas --tudo no blá-blá-blá, a gente sabe da performance do vizinho".
E como seria o amor e o sexo na vida de Fernanda? "Graças a Deus consegui conciliar as duas coisas", ela diz. "Mas claro que já fiz muitas loucuras." De que tipo? "Dentro de um parâmetro normal. Vamos dizer, mais quantitativo e menos qualitativo. Do tipo experimentar sexo na primeira noite", responde. "Não sou tão moderna quanto pareço. Sou bastante conservadora em alguns sentidos." Diz que jamais assistiu a filmes pornográficos. "Nunca me serviram de combustível."
Na adolescência, ela se achava feia. Hoje se considera bonita "pelo conjunto da obra". Paqueras acontecem "com certa frequência". "Mais do convencional, aquela cantada de obra'. Quando é com educação e inteligência, a gente fica envaidecida."
Ela afirma que nunca usou drogas e não bebe. "Não gosto de sair do controle."
Com idas e vindas, Fernanda e Rodrigo começaram a namorar em 2002. "Temos uma história bonita." Em um período de crise, ela se envolveu com Ricardo Waddington, que hoje dirige seu programa. "Transformamos esse amor em uma relação de amizade e parceria", diz. Waddington se derrete: "Ela será certamente uma das principais comunicadoras da Globo nos próximos anos".
Profissionalmente, o ano de 2014 começa para Fernanda no dia 13 de janeiro, quando apresentará o Bola de Ouro da Fifa, evento que elegerá o melhor jogador de 2013, na Suíça. Planeja também abrir uma filial, no shopping Iguatemi, do restaurante Maní, do qual é sócia em SP.
Os planos da Globo ainda são incertos. Uma nova temporada de "Amor & Sexo", um outro programa vespertino e a participação na programação da Copa estão no horizonte. Nada mal para a ex-modelo gaúcha que, há sete anos, foi achincalhada como protagonista de "Bang Bang", novela das sete que patinou na emissora carioca, também dirigida por Waddington.
"[O homem] Diz que pega, que puxa o cabelo, que come todas --tudo no blá-blá-blá"
"Claro que já fiz muitas loucuras. Do tipo experimentar sexo na primeira noite"
"[Filmes pornô] Nunca me serviram de combustível"
A apresentadora Fernanda Lima diz que já sofreu preconceito "por ser loira" e que a sexualidade do brasileiro, na prática, é mixa
Eram 11h30 da manhã da última terça-feira. No apartamento de Fernanda Lima, 36, e Rodrigo Hilbert, 33, no Rio de Janeiro, predominava o cheiro do almoço dos gêmeos João e Francisco, 5.
É que a cozinha é integrada à sala. São 110 m², sem suíte. A grande vantagem é a localização: avenida Delfim Moreira, de frente para o mar, no Leblon, bairro com fama de ter o metro quadrado mais caro do Brasil (R$ 21.900).
Com uma camiseta em que se lia a inscrição "animais são amigos", Hilbert, que apresenta um programa gastronômico no GNT, preparava a "boia". Por opção, o casal decidiu não contar com os serviços de babá. Há uma diarista "faz-tudo", e só.
O espírito da decoração da sala, onde recebem amigos como Gloria Maria e Leo Jaime, segue a linha do luxo despojado. Há um jogo das célebres poltronas moles do designer brasileiro Sergio Rodrigues. Um quadro de Dudi Maia Rosa, outro de Felipe Cama. Não há tapetes. Na bancada abaixo do janelão, um órgão, um skate e meia dúzia de esteiras de ioga. Na mesa ao lado do sofá, estatuetas de Buda e de Ganesha (divindade hindu) e vela aromática.
Então a porta da rua se abre e entra Fernanda Lima com os dois meninos. Veste tênis, jeans justo e camisa. Já havia ido ao supermercado. Depois das compras, levou as crianças para cortar cabelo --os três na mesma bicicleta.
Ela sorri e pede ao repórter Morris Kachani um tempo para se maquiar. E avisa: "Não suporto ser fofinha. Tenho um humor superácido". Será? Minutos depois, é chegada a hora de comer. "Me-ri-to-cra-cia", diz ela a João e Francisco, enquanto os acomoda na bancada da cozinha. "Meritocracia", repetem. "Para comer chiclete...", pergunta a mãe. "Vai ter que almoçar!", completam os filhos.
É o último dia de aula dos meninos. Na quarta-feira, partiriam todos para uma temporada de férias no Havaí. Tempo para meditar sobre as grandes transformações ocorridas em 2013, ano em que Fernanda "bombou" como nunca. Mas que também registrou a morte de Gisela Matta, 36, que coproduzia "Amor & Sexo", apresentado por Fernanda, e foi atropelada por um ônibus quando saía de bicicleta do apartamento do casal, depois do almoço de Páscoa.
A atração está em sua sétima temporada na Globo. Registrou média de audiência de 16 pontos neste ano, com 46% de participação nos domicílios. Há duas semanas, contudo, a ex-modelo se projetou internacionalmente. Foi chamada de "deusa", "musa" e "anjo" por conta da apresentação no sorteio das chaves da Copa, na Costa do Sauipe, na Bahia. Usava sapatos Louboutin e tubinho Hervé Leger com decote generoso. Brilhava ao lado do marido.
Fernanda se diz surpresa com a repercussão. "O Rodrigo foi tão bem quanto eu, não entendo", afirma, referindo-se ao fato de só ela ter recebido elogios. "Um dia depois do sorteio, passei três horas chorando na cama. Uma tristeza por estar longe dos meninos. Enquanto o mundo me exaltava, eu tinha que estar bem para gravar o programa [Amor & Sexo'] na TV."
Quanto à polêmica sobre racismo desencadeada pela informação de que a Fifa teria trocado Camila Pitanga e Lázaro Ramos por ela e Hilbert como apresentadores, Fernanda diz: "Eu tinha sido chamada há seis meses. O que sei é que a Globo apresentou um casting para a Fifa, que nos escolheu. Já havíamos feito a escolha do emblema do Brasil na África do Sul, em 2010".
"Quem me conhece sabe como sou. Prefiro deixar passar, o tempo fala por si. Tenho um monte de amigos e afilhados negros", afirma.
"Mas é óbvio que há preconceito de cor no Brasil", segue. "Aliás, eu também já fui vítima de preconceito. Por ser modelo, por ser loira." Segundo ela, o teste do sofá (em que diretores poderosos seduzem meninas jovens que aspiram a um trabalho) não é mito --acontece mesmo. "Sempre vi tudo isso. E sempre preferi o caminho mais longo."
A conversa se move para "Amor & Sexo", que fala sobre os dois temas em horário nobre na TV. "É difícil escrever esse programa, porque nele as pessoas não podem se ofender, é uma atração para a família."
Para ela, a sexualidade do brasileiro, na prática, é "mixa". "A liberdade do corpo, a dança, o funk, afloram nossa sensualidade. Mas isso é aparência. Na cama, em si, é diferente. O sentir profundo está muito precário."
"A descoberta do prazer da mulher é muito recente. Ela está à vontade e até avaliando os homens, mas pode descobrir muito mais coisas." Quanto ao homem, "ele diz que pega, que puxa o cabelo, que come todas --tudo no blá-blá-blá, a gente sabe da performance do vizinho".
E como seria o amor e o sexo na vida de Fernanda? "Graças a Deus consegui conciliar as duas coisas", ela diz. "Mas claro que já fiz muitas loucuras." De que tipo? "Dentro de um parâmetro normal. Vamos dizer, mais quantitativo e menos qualitativo. Do tipo experimentar sexo na primeira noite", responde. "Não sou tão moderna quanto pareço. Sou bastante conservadora em alguns sentidos." Diz que jamais assistiu a filmes pornográficos. "Nunca me serviram de combustível."
Na adolescência, ela se achava feia. Hoje se considera bonita "pelo conjunto da obra". Paqueras acontecem "com certa frequência". "Mais do convencional, aquela cantada de obra'. Quando é com educação e inteligência, a gente fica envaidecida."
Ela afirma que nunca usou drogas e não bebe. "Não gosto de sair do controle."
Com idas e vindas, Fernanda e Rodrigo começaram a namorar em 2002. "Temos uma história bonita." Em um período de crise, ela se envolveu com Ricardo Waddington, que hoje dirige seu programa. "Transformamos esse amor em uma relação de amizade e parceria", diz. Waddington se derrete: "Ela será certamente uma das principais comunicadoras da Globo nos próximos anos".
Profissionalmente, o ano de 2014 começa para Fernanda no dia 13 de janeiro, quando apresentará o Bola de Ouro da Fifa, evento que elegerá o melhor jogador de 2013, na Suíça. Planeja também abrir uma filial, no shopping Iguatemi, do restaurante Maní, do qual é sócia em SP.
Os planos da Globo ainda são incertos. Uma nova temporada de "Amor & Sexo", um outro programa vespertino e a participação na programação da Copa estão no horizonte. Nada mal para a ex-modelo gaúcha que, há sete anos, foi achincalhada como protagonista de "Bang Bang", novela das sete que patinou na emissora carioca, também dirigida por Waddington.
"[O homem] Diz que pega, que puxa o cabelo, que come todas --tudo no blá-blá-blá"
"Claro que já fiz muitas loucuras. Do tipo experimentar sexo na primeira noite"
"[Filmes pornô] Nunca me serviram de combustível"
Passadas as festas - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O ESTADÃO - 22/12
No Brasil, os anos se dividem em dias, semanas, meses, trimestres e semestres, mas também em dois períodos distintos chamados Passadas as festas e Depois do Carnaval. Como o ano brasileiro tradicionalmente só começa depois do Carnaval, isso significa que o período Passadas as festas, quando tudo que ficou em suspenso durante o Natal e o Ano Novo deveria ser retomado, na verdade fica esperando o Carnaval ou o Depois do Carnaval para recomeçar.
Há quem diga que o Passadas as festas é um período tão abrangente que engloba o Carnaval, a Páscoa, etc. e se estende por todo o ano, o que explicaria o fato do Brasil estar sempre adiando o que precisa ser feito. O Passadas as festas de um ano engata no Passadas as festas do ano seguinte e acaba sendo o nome do ano inteiro.
– Será que a reforma política sai este ano?
– Sai. Passadas as festas nos dedicaremos a... Espera um pouquinho. Passadas as festas não vem o Carnaval?
– Vem. E depois vem a Copa do Mundo.
– Ai, ai, ai. Acho que ainda não vai ser este ano.
Outra fragmentação do tempo muito popular no Brasil é o minutinho. Estranhamente, o minutinho não é um minuto que passa mais ligeiro do que os outros. Ao contrário: como o seu sinônimo “dois segundinhos”, passa mais lentamente. Em geral “um minutinho” não quer dizer um minuto pequeno. Dependendo da entonação, quer dizer “tenha paciência” ou “não me irrite”. Como em:
– Senhorita, eu estou esperando há meia hora...
– Um minutinho.
– Não posso esperar mais.
– Um minutinho, por favor.
– Quando é que vão me atender?
– Em dois segundinhos.
– Não! Dois segundinhos, não!
Passadas as festas teremos mais tempo, mais disposição, talvez até melhor caráter. As próprias festas vão nos regenerar, seremos outros depois das festas. O Natal trará à tona os nossos melhores sentimentos. Danem-se as evidências, a humanidade tem jeito sim. O homem é bom. A mulher é melhor ainda. O sarrabulho do peru nem se fala. O Papai Noel pode ser falso, mas a emoção é verdadeira. E no Ano Novo? Nos abraçaremos como se só estar vivo já fosse motivo para a comemoração. Ainda não morremos, oba!
E estaremos cheios de planos. Este ano vou largar o cigarro, a bebida, o hábito de limpar os ouvidos com uma tampa de Bic e todos os meu preconceitos. Lerei mais, irei mais ao cinema, carregarei velhinhas para o outro lado da rua mesmo que elas não queiram – tudo isso passadas as festas. O próprio país melhorará, passadas as festas. Faremos todas as reformas necessárias. Acabaremos com a miséria e a corrução. Seremos...
Espera um pouquinho. Acho que isso foi o que eu escrevi no ano passado.
No Brasil, os anos se dividem em dias, semanas, meses, trimestres e semestres, mas também em dois períodos distintos chamados Passadas as festas e Depois do Carnaval. Como o ano brasileiro tradicionalmente só começa depois do Carnaval, isso significa que o período Passadas as festas, quando tudo que ficou em suspenso durante o Natal e o Ano Novo deveria ser retomado, na verdade fica esperando o Carnaval ou o Depois do Carnaval para recomeçar.
Há quem diga que o Passadas as festas é um período tão abrangente que engloba o Carnaval, a Páscoa, etc. e se estende por todo o ano, o que explicaria o fato do Brasil estar sempre adiando o que precisa ser feito. O Passadas as festas de um ano engata no Passadas as festas do ano seguinte e acaba sendo o nome do ano inteiro.
– Será que a reforma política sai este ano?
– Sai. Passadas as festas nos dedicaremos a... Espera um pouquinho. Passadas as festas não vem o Carnaval?
– Vem. E depois vem a Copa do Mundo.
– Ai, ai, ai. Acho que ainda não vai ser este ano.
Outra fragmentação do tempo muito popular no Brasil é o minutinho. Estranhamente, o minutinho não é um minuto que passa mais ligeiro do que os outros. Ao contrário: como o seu sinônimo “dois segundinhos”, passa mais lentamente. Em geral “um minutinho” não quer dizer um minuto pequeno. Dependendo da entonação, quer dizer “tenha paciência” ou “não me irrite”. Como em:
– Senhorita, eu estou esperando há meia hora...
– Um minutinho.
– Não posso esperar mais.
– Um minutinho, por favor.
– Quando é que vão me atender?
– Em dois segundinhos.
– Não! Dois segundinhos, não!
Passadas as festas teremos mais tempo, mais disposição, talvez até melhor caráter. As próprias festas vão nos regenerar, seremos outros depois das festas. O Natal trará à tona os nossos melhores sentimentos. Danem-se as evidências, a humanidade tem jeito sim. O homem é bom. A mulher é melhor ainda. O sarrabulho do peru nem se fala. O Papai Noel pode ser falso, mas a emoção é verdadeira. E no Ano Novo? Nos abraçaremos como se só estar vivo já fosse motivo para a comemoração. Ainda não morremos, oba!
E estaremos cheios de planos. Este ano vou largar o cigarro, a bebida, o hábito de limpar os ouvidos com uma tampa de Bic e todos os meu preconceitos. Lerei mais, irei mais ao cinema, carregarei velhinhas para o outro lado da rua mesmo que elas não queiram – tudo isso passadas as festas. O próprio país melhorará, passadas as festas. Faremos todas as reformas necessárias. Acabaremos com a miséria e a corrução. Seremos...
Espera um pouquinho. Acho que isso foi o que eu escrevi no ano passado.
Retrato na parede - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 22/12
Progressivamente, as grandes equipes do mundo estão abandonando o clássico meia de ligação
Lugano, zagueiro do Uruguai, disse que Cavani e Suárez formam a melhor dupla de ataque do mundo, entre as seleções. A da Argentina é superior a todas, com Messi e Agüero, além de formar um trio, com o ótimo Higuaín. Se Fred jogar no Mundial como fez na Copa das Confederações, ele e Neymar serão melhores que Cavani e Suárez, por causa de Neymar.
Alemanha e Espanha não possuem uma ótima dupla na frente, nem mesmo um grande atacante. A Espanha está mais animada com as boas atuações de Negredo, no Manchester City, e de Diego Costa, no Atlético de Madrid.
É preciso diferenciar o sistema tático com dois volantes e três meias que se aproximam do centroavante, sem uma dupla na frente, do com dois volantes, um meia de cada lado e dois atacantes. Na seleção brasileira, Neymar se movimenta tanto e é tão espetacular, que, em uma mesma partida, faz, naturalmente, as funções de um ponta pela esquerda e de um atacante pelo centro, formando dupla com Fred. E na movimentação independe das ordens de Felipão.
No Barcelona, a divisão de funções é mais evidente, com Neymar pela esquerda e Messi pelo centro. Quando o argentino não joga, Neymar ocupa seu lugar. Ainda falta a Neymar, quando joga ao lado de Messi, saber o momento exato de ser um ponta e o de se deslocar para o meio, como faz na seleção.
Nas equipes que atuam com uma dupla de atacantes e com um meia de cada lado, falta o armador pelo centro. Por isso, é frequente que um dos atacantes, ou os dois, alternadamente, recue para armar as jogadas. Outras vezes, é um dos volantes que avança como um meia. Repito, os jogadores se movimentam tanto que não faz mais sentido analisar a maneira de jogar de uma equipe pelo sistema tático. Há vários em um mesmo jogo.
Bayern e Barcelona atuam com um volante e dois meias, que marcam e atacam. Em vez de quatro, são cinco que chegam à frente (dois meias, dois pontas e um centroavante). Um dos conceitos de Guardiola é o de escalar, na posição de um único volante, o armador que tem o melhor passe, e não o que marca mais. Juventus e Itália fazem o mesmo com Pirlo. É o retorno dos antigos centromédios dos anos 1950.
Progressivamente, as grandes equipes do mundo estão abandonando o clássico meia de ligação, como Ronaldinho, Ganso e outros, que jogam em um pequeno espaço, não participam da marcação e esperam a bola no pé, para dar um passe magistral e decisivo. Brevemente, este tipo de meia se tornará um retrato na parede. Oscar, que ocupa essa posição, na seleção e no Chelsea, está em todos os lugares, marca e faz gols.
Mas se o Brasil não for campeão do mundo, por inúmeros fatores, com certeza, dirão que faltou o clássico meia, o camisa 10. As explicações, os lugares comuns, costumam estar prontos antes dos fatos.
Progressivamente, as grandes equipes do mundo estão abandonando o clássico meia de ligação
Lugano, zagueiro do Uruguai, disse que Cavani e Suárez formam a melhor dupla de ataque do mundo, entre as seleções. A da Argentina é superior a todas, com Messi e Agüero, além de formar um trio, com o ótimo Higuaín. Se Fred jogar no Mundial como fez na Copa das Confederações, ele e Neymar serão melhores que Cavani e Suárez, por causa de Neymar.
Alemanha e Espanha não possuem uma ótima dupla na frente, nem mesmo um grande atacante. A Espanha está mais animada com as boas atuações de Negredo, no Manchester City, e de Diego Costa, no Atlético de Madrid.
É preciso diferenciar o sistema tático com dois volantes e três meias que se aproximam do centroavante, sem uma dupla na frente, do com dois volantes, um meia de cada lado e dois atacantes. Na seleção brasileira, Neymar se movimenta tanto e é tão espetacular, que, em uma mesma partida, faz, naturalmente, as funções de um ponta pela esquerda e de um atacante pelo centro, formando dupla com Fred. E na movimentação independe das ordens de Felipão.
No Barcelona, a divisão de funções é mais evidente, com Neymar pela esquerda e Messi pelo centro. Quando o argentino não joga, Neymar ocupa seu lugar. Ainda falta a Neymar, quando joga ao lado de Messi, saber o momento exato de ser um ponta e o de se deslocar para o meio, como faz na seleção.
Nas equipes que atuam com uma dupla de atacantes e com um meia de cada lado, falta o armador pelo centro. Por isso, é frequente que um dos atacantes, ou os dois, alternadamente, recue para armar as jogadas. Outras vezes, é um dos volantes que avança como um meia. Repito, os jogadores se movimentam tanto que não faz mais sentido analisar a maneira de jogar de uma equipe pelo sistema tático. Há vários em um mesmo jogo.
Bayern e Barcelona atuam com um volante e dois meias, que marcam e atacam. Em vez de quatro, são cinco que chegam à frente (dois meias, dois pontas e um centroavante). Um dos conceitos de Guardiola é o de escalar, na posição de um único volante, o armador que tem o melhor passe, e não o que marca mais. Juventus e Itália fazem o mesmo com Pirlo. É o retorno dos antigos centromédios dos anos 1950.
Progressivamente, as grandes equipes do mundo estão abandonando o clássico meia de ligação, como Ronaldinho, Ganso e outros, que jogam em um pequeno espaço, não participam da marcação e esperam a bola no pé, para dar um passe magistral e decisivo. Brevemente, este tipo de meia se tornará um retrato na parede. Oscar, que ocupa essa posição, na seleção e no Chelsea, está em todos os lugares, marca e faz gols.
Mas se o Brasil não for campeão do mundo, por inúmeros fatores, com certeza, dirão que faltou o clássico meia, o camisa 10. As explicações, os lugares comuns, costumam estar prontos antes dos fatos.
A chapa Eduardo/Marina - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 22/12
O candidato do PSB, Eduardo Campos, espera convencer Marina Silva a ser sua vice. Ele quer fechar a chapa em janeiro. As suas intenções de voto dobram com a presença dela na chapa. A Federação das Indústrias de Brasília tem pesquisa, na qual, diante dessa informação, Eduardo empata com Aécio Neves. Os tucanos estão apreensivos e os petistas, com os olhos bem abertos.
A sorte está lançada
A oposição aposta na volta dos protestos na Copa e no desgaste da presidente Dilma, como em junho. O custo de sua realização e o preço dos ingressos seriam o combustível. O governo acredita que o fenômeno não se repetirá. A população estaria com medo de voltar às ruas depois que o movimento foi apropriado pela violência dos radicais. E mais interessada no futebol e no desempenho do Brasil. Ninguém sabe o que vai acontecer. Mas a população está dividida sobre a validade de novos protestos na Copa. A “Gazeta do Povo” (PR) publicou pesquisa nacional do Instituto Paraná Pesquisas na qual 47,6% apoiariam essas manifestações e 47,2%, não.
“Não há como virar a página, porque é um fato relevante (o mensalão) que nossos adversários vão explorar. O PT vai ter que conviver com isso”
Ricardo Berzoini
Deputado federal (PT-SP) e ex-presidente do partido
O plano de voo de Lula
A manutenção da aliança PT/PMDB no Rio é o objetivo do ex-presidente Lula. Para segurar o PT no governo Sérgio Cabral (RJ), ele defendeu junto aos petistas que, até março, o próprio aliado vai se convencer que a candidatura Pezão é inviável.
O especialista
O vice Michel Temer convidou semana passada o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, deputado Eliseu Padilha (RS), para integrar a coordenação da campanha à reeleição da presidente Dilma. Em 1998, Padilha foi um dos coordenadores, ao lado de Eduardo Jorge, da campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Bola fora
Desfeito o mistério. Na Esplanada dos Ministérios o comentário é que o gelo entre o ministro do STF José Dias Toffoli e a presidente Dilma é porque ela estaria preterindo suas indicações e sugestões para vagas no STJ e tribunais federais.
Aposentados querem mais
O presidente do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP), está marcando conversas do tucano Aécio Neves com sindicalistas. A primeira delas será com os aposentados, dia 18 de janeiro. “Ele vai se comprometer com garantia de aumento real de salário", garante Paulinho. Na
fila, reunião com José Rainha, do MST da Base.
Na lista de espera
Apesar de ministro, Moreira Franco (Aviação Civil) não tem a mesma relação com a presidente Dilma que Gustavo do Vale (Infraero). É com este que Dilma trata do setor. Vale era um dos poucos assessores do 2º escalão na recepção no Alvorada
Espelho, espelho meu
No café da manhã com jornalistas, a presidente Dilma pediu para a repórter Luciana Lima: “Me imita agora!”. Dilma gostou, riu muito e partiu para o abraço. Dizem que o humorista Gustavo Mendes, imitador oficial, ficou no chinelo.
A BANCADA DO PMDB no Senado vai aumentar. Depois de longo processo, é uma questão de dias o ex-governador Marcelo Miranda (TO) assumir.
O candidato do PSB, Eduardo Campos, espera convencer Marina Silva a ser sua vice. Ele quer fechar a chapa em janeiro. As suas intenções de voto dobram com a presença dela na chapa. A Federação das Indústrias de Brasília tem pesquisa, na qual, diante dessa informação, Eduardo empata com Aécio Neves. Os tucanos estão apreensivos e os petistas, com os olhos bem abertos.
A sorte está lançada
A oposição aposta na volta dos protestos na Copa e no desgaste da presidente Dilma, como em junho. O custo de sua realização e o preço dos ingressos seriam o combustível. O governo acredita que o fenômeno não se repetirá. A população estaria com medo de voltar às ruas depois que o movimento foi apropriado pela violência dos radicais. E mais interessada no futebol e no desempenho do Brasil. Ninguém sabe o que vai acontecer. Mas a população está dividida sobre a validade de novos protestos na Copa. A “Gazeta do Povo” (PR) publicou pesquisa nacional do Instituto Paraná Pesquisas na qual 47,6% apoiariam essas manifestações e 47,2%, não.
“Não há como virar a página, porque é um fato relevante (o mensalão) que nossos adversários vão explorar. O PT vai ter que conviver com isso”
Ricardo Berzoini
Deputado federal (PT-SP) e ex-presidente do partido
O plano de voo de Lula
A manutenção da aliança PT/PMDB no Rio é o objetivo do ex-presidente Lula. Para segurar o PT no governo Sérgio Cabral (RJ), ele defendeu junto aos petistas que, até março, o próprio aliado vai se convencer que a candidatura Pezão é inviável.
O especialista
O vice Michel Temer convidou semana passada o presidente da Fundação Ulysses Guimarães, deputado Eliseu Padilha (RS), para integrar a coordenação da campanha à reeleição da presidente Dilma. Em 1998, Padilha foi um dos coordenadores, ao lado de Eduardo Jorge, da campanha à reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
Bola fora
Desfeito o mistério. Na Esplanada dos Ministérios o comentário é que o gelo entre o ministro do STF José Dias Toffoli e a presidente Dilma é porque ela estaria preterindo suas indicações e sugestões para vagas no STJ e tribunais federais.
Aposentados querem mais
O presidente do Solidariedade, deputado Paulo Pereira da Silva (SP), está marcando conversas do tucano Aécio Neves com sindicalistas. A primeira delas será com os aposentados, dia 18 de janeiro. “Ele vai se comprometer com garantia de aumento real de salário", garante Paulinho. Na
fila, reunião com José Rainha, do MST da Base.
Na lista de espera
Apesar de ministro, Moreira Franco (Aviação Civil) não tem a mesma relação com a presidente Dilma que Gustavo do Vale (Infraero). É com este que Dilma trata do setor. Vale era um dos poucos assessores do 2º escalão na recepção no Alvorada
Espelho, espelho meu
No café da manhã com jornalistas, a presidente Dilma pediu para a repórter Luciana Lima: “Me imita agora!”. Dilma gostou, riu muito e partiu para o abraço. Dizem que o humorista Gustavo Mendes, imitador oficial, ficou no chinelo.
A BANCADA DO PMDB no Senado vai aumentar. Depois de longo processo, é uma questão de dias o ex-governador Marcelo Miranda (TO) assumir.
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