segunda-feira, setembro 12, 2011

JOSÉ DE SOUZA MARTINS - Quem cedo madruga


Quem cedo madruga
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

Nossa memória está repleta de monumentos que não foram esculpidos na pedra nem fundidos no bronze. Cada um tem os seus, aquela coleção das coisas e dos fatos memoráveis, do que foi suprimido dos cenários e da vida, mas permanece gravado na mente e nas lembranças. É nesse sentido que minha memória me pede para trazer aos olhos uma bela e significativa fotografia desse grande criador de uma estética da imagem fotográfica da nossa vida cotidiana, particularmente da cidade de São Paulo, que é German Lorca. É a foto de dois homens lendo o Diário Popular. A sombra da luz oblíqua do sol matutino introduz na imagem a dimensão do tempo miúdo das horas e minutos, o tempo do cotidiano, que é por isso o tempo da modernidade, das coisas fugazes, do temporário e breve, do que é pequeno e insignificante. Lorca, que nasceu no Brás operário, em 1922, filho de imigrantes, conhecia perfeitamente o significado da fotografia que ia fazer na manhã em que a fez.

Nos anos 1950, o Diário Popular era um jornal maçudo, de ralo conteúdo, lido não pelo que noticiava, mas pelos empregos que anunciava em anúncios minúsculos. Expressava a grande mudança que estava ocorrendo no mercado de trabalho. Desde o início da industrialização, no final do século 19, os empregos do proletariado que nascia eram conseguidos por ouvir dizer, frequentemente através da intermediação de parentes e conhecidos. As empresas preferiam dar emprego a alguém já ligado a algum de seus empregados, não raro de uma mesma família. O mercado de trabalho era, assim, atravessado pelas regras da moral de família. Disfarçado meio, aliás, de controle social sobre as chamadas classes perigosas.

Com o tempo, surgiu a placa do "Precisa-se" nas portas das fábricas, com espaços para encaixe das tabuinhas com os nomes das profissões. Sempre uma pequena multidão na porta das empresas, com a carteira de trabalho na mão para ser recolhida e examinada pelo encarregado da secção de pessoal. Que, aliás, tinha curiosos critérios para decidir a quem recrutar. Prestava atenção em gestos e posturas dos candidatos ali na rua. Não recolhia a carteira de quem estivesse encostado na parede, sinal de gente "cansada", comodista, dizia a improvisada psicologia dos recrutadores.

Lorca, nessa fotografia, fez um instantâneo expressivo da vida dos paulistanos que dependiam do suor do rosto para ganhar o pão nosso de cada dia. A dos que corriam logo cedo para as portas do jornal para conseguir um dos primeiros exemplares, pois Deus ajuda quem cedo madruga. Depois, de bonde ou de trem, disparavam para a porta das empresas que haviam anunciado vagas nos minúsculos anúncios do jornal. Quem chegasse primeiro tinha mais chance de conseguir o emprego do que quem chegasse por último. Os últimos serão os primeiros? Banana, macaco!

CARLOS ALBERTO SARDENBERG - Mais inflação, menos crescimento


Mais inflação, menos crescimento
CARLOS ALBERTO SARDENBERG
 O Estado de S.Paulo - 12/09/11

O Banco Central (BC) terá agido corretamente, ao reduzir a taxa básica de juros, se houver a seguinte combinação de fatores: o mundo desabar de novo; o governo Dilma implementar uma forte e duradoura contenção do gasto público; e se o nível de juros no Brasil tiver permanecido elevado esses anos todos por burrada ou leniência do BC.

É o que se conclui das manifestações do próprio Banco Central, de membros do governo e de seus aliados. O BC se baseia mais na tese segundo a qual o mundo desenvolvido apresenta uma recaída forte na crise, desta vez menos aguda, porém mais longa. Essa desaceleração vinda de fora cai em cima de uma redução do crescimento já em curso no Brasil, de modo que, nota o BC, não há como a inflação prosperar nesse ambiente. Por isso se pode reduzir a taxa de juros para garantir algum crescimento.

Ocorre que esse argumento não parece convencer nem os mais qualificados aliados do governo. Se não houver um novo colapso como o de 2008 - coisa na qual nem o próprio BC acredita -, o efeito sobre a economia brasileira será mitigado. Como a própria presidente Dilma tem ressaltado, há um mercado interno bastante dinâmico por aqui e que continua em expansão (como, aliás, reconhece o BC). E a China, nosso principal freguês, pode desacelerar, mas naquele ritmo deles: em vez de crescer 10%, o esperado para este ano, vai crescer entre 8,5% e 9%.

Por isso, economistas alinhados com o governo põem mais força no argumento do ajuste de contas públicas. Afirmam que o governo já está segurando as despesas e que tem projetos para o equilíbrio de contas de longo prazo. De fato, há no Congresso Nacional projetos importantes que estabelecem regras que limitam o avanço dos gastos de custeio, impõem um teto baixo para o aumento dos gastos com salários do funcionalismo e criam o fundo de pensão dos funcionários públicos, equiparando seu regime ao do INSS.

Este último andou mais, passando em comissões. Mas está longe de ter apoio da base aliada, muito menos do PT, da CUT e de seus sindicatos. Já o projeto que limita o reajuste dos servidores foi rejeitado na Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados e líderes petistas dizem que a chance de avançar é zero. O mesmo vale para o projeto que limita gastos de custeio.

Mas o governo não está cortando gastos? Não. O gasto está crescendo menos do que cresceu no ano passado, quando subiu fortemente. Além disso, o projeto de Orçamento recém-apresentado pelo governo prevê aceleração das receitas e dos gastos para o ano que vem. E o Congresso debate vários projetos que aumentam os gastos.

Outro ponto importante do debate se refere ao mercado de trabalho. O desemprego está nos níveis mais baixos da história recente e os salários sobem em termos reais. Não há sinais de desaceleração aí. Ao contrário, o salário mínimo vai subir 14% em janeiro, e nas negociações coletivas (e greves) em curso os trabalhadores estão reclamando reajustes na base de 10%.

O BC alerta para esse problema, mostrando que reajustes salariais acima dos ganhos de produtividade são inflacionários. Pois é, são mesmo, e é o que está acontecendo.

Mas, dizem economistas aliados, o governo está tratando de medidas que corrijam o desequilíbrio do mercado de trabalho (demanda superior à oferta, falta de mão de obra e custos trabalhistas elevados). No entanto, a única medida concreta tomada até aqui foi a eliminação da contribuição previdenciária patronal sobre a folha de salário, beneficiando quatro setores da economia.

Só que essa desoneração foi compensada por um novo imposto, este sobre o faturamento. Ou seja, a carga tributária, o custo de produzir não cai e pode até aumentar em alguns casos.

Resumindo, toda essa argumentação do BC, do governo e de seus aliados se baseia numa hipótese extremamente pessimista, e a menos provável, sobre a crise mundial e num ajuste de contas públicas que se está por ver.

Por isso aparece outra explicação. Muitos economistas do lado desenvolvimentista têm salientado que os juros ficaram muito altos no Brasil por burrada do BC ou, pior, pela sua subserviência ao mercado financeiro. Logo, podem ser derrubados imediatamente, que não vai acontecer nada com a inflação.

O BC, claro, não pode dizer isso. Mas notou na ata divulgada na semana passada que a taxa de juros neutra - aquela que mantém a inflação na meta sem bloquear o crescimento - parece ter sofrido "redução significativa".

Reparem: o BC também repetiu várias vezes que inflação elevada distorce a economia e impede crescimento duradouro; e que a política de juros é o melhor instrumento de combate à inflação. Se as premissas são essas e se o BC está reduzindo a taxa básica de juros, afirmando que mesmo assim a inflação vai para a meta, só pode ser porque entende que o "juro neutro" é significativamente menor que o atual nível de 12%.

Por outro lado, os desenvolvimentistas também entendem que a inflação de 6,5%, no teto da margem de tolerância, não é problema em países emergentes.

Tudo isso indica que o governo Dilma mudou a política econômica. Mas não colocou outra no lugar, não pelo menos uma política com seus fundamentos definidos e assumidos. Continua dizendo que o regime de metas de inflação está de pé, quando praticamente ninguém acredita nisso. (E dentro do governo muita gente diz que é bom que tenha acabado.)

A presidente Dilma, em seu último discurso, prometeu tudo: reduzir os juros, sustentar o crescimento, conter a inflação, aumentar as exportações, bloquear importações, conter gastos públicos, acelerar investimentos e programas sociais.

Claro que o governante quer o melhor possível, mas política econômica exige escolhas e metas mais definidas. Pelo menos até aqui, o governo está colhendo o contrário do que anuncia: temos mais inflação e menos crescimento.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Pedra no sapato
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 12/09/11

Encontra-se no gabinete do ministro Cezar Peluso, pronta para ser levada a julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, ação oferecida por Marcos Valério em 2009, numa tentativa de afastar o ministro Joaquim Barbosa da relatoria do processo do mensalão. Trata-se de recurso apoiado por Roberto Jefferson questionando a isenção do relator, a quem se atribui haver afirmado que Valério seria "expert" em lavagem de dinheiro.
A iniciativa tende a não surtir efeito. Em agosto, o Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, recomendou a rejeição da ação. E o STF tem rechaçado outros expedientes para dificultar o trabalho de Barbosa.
Agora ou nunca No Planalto e entre governadores, acredita-se que a oportunidade para aprovar um novo imposto financiador da saúde se fecha em dezembro. Em 2012 haverá eleições e depois o mandato de Dilma Rousseff entra na metade final, quando é mais difícil arrancar algo significativo do Congresso.

Nunca antes Em namoro institucional com Dilma Rousseff, Geraldo Alckmin convidou Lula para a assinatura do contrato do Rodoanel-Norte, amanhã, em São Paulo. O ex-presidente autorizou o repasse de recursos às fases anteriores da obra.

Rotativas 1 As duas maiores centrais disputam o Sindicato dos Gráficos de São Paulo, com base de 12 mil trabalhadores. O presidente, que era da Força Sindical, filiou-se à CUT e tem o mandato questionado naJustiça.

Rotativas 2 A categoria é estratégica para a campanha do PT pela "regulação da mídia". Para a CUT, a mudança no comando é um desejo dos filiados do sindicato, que mantinha vínculos com o Partido da Causa Operária.

Estado... Jovair Arantes (PTB-GO), Milton Monti (PR-SP) e Vilson Covatti (PP-RS) devem fazer prévia da qual sairá um nome para disputar a vaga no Tribunal de Contas da União. Jovair ainda tenta atrair Damião Feliciano (PDT-PB) e Átila Lins (PMDB-AM), outros dois postulantes.

...das coisas O governador Eduardo Campos (PSB-PE) coleciona apoios estrelados à candidatura da mãe, Ana Arraes (PSB-PE), ao TCU. E Aldo Rebelo (PC do B-SP) diz que continua no páreo.

Ciranda 1 Depois de Aécio Neves, que fechou pacto com Eduardo Campos para a reeleição de Márcio Lacerda em Belo Horizonte, Geraldo Alckmin agenda aproximação com o PSB para a disputa em algumas das principais prefeituras paulistas.

Ciranda 2 Instalado na Secretaria de Turismo, o PSB ajudaria Alckmin a engordar o tempo de TV de seus candidatos em 2012 e a fragilizar dois potenciais rivais do tucano em 2014: o PT e Gilberto Kassab (PSD) . Ambos interessados em alianças com a sigla comandada pelo governador de Pernambuco.

Dote Para viabilizar um acordo com o PSB, dirigentes tucanos admitem ceder a cabeça da chapa em Campinas e São José do Rio Preto. Na capital, a legenda poderia ficar com a vaga de vice do tucano escolhido para disputar a sucessão de Kassab.

Já vou Em resposta ao PSDB-SP, que questionou o fato de Walter Feldman ainda não ter deixado o partido, apesar do anúncio feito em maio, o ex-secretário municipal de Esportes diz que formalizará a saída em meados de outubro, quando encerrar seu período como "correspondente" da prefeitura em Londres. Acrescenta que, por ora, não pretende ingressar em outra sigla.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"É como aquela peça 'Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá'. A trajetória do ex-presidente do PT é de um guerrilheiro que virou mensaleiro. Ele é uma grande fraude."
Do ex-deputado ROBERTO JEFFERSON (PTB-RJ), sobre o fato de as alegações finais da defesa de José Genoino oferecidas ao Supremo Tribunal Federal atribuírem as acusações do mensalão a "chiliques" de "um verdadeiro bufão".

Contraponto

Trabalho de elefante


Em seminário realizado no TCU, o delegado da PF Ricardo Botelho, que será o xerife da Copa, recorreu a uma parábola para enfatizar a necessidade de coordenação entre as polícias nesse evento:
-Seis sábios cegos queriam conhecer o elefante. Como o circo ia passar, foram para a beira da estrada. Um pegou a tromba e disse que era um saxofone. Outro pegou o rabo e disse que era uma flauta. Outro pegou a orelha e disse que era um abanador. Moral da história: sem coordenação, ninguém saberá o que é um elefante...

GOSTOSA


MARCIA PELTIER - Agenda em construção


Agenda em construção
 MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 12/09/11

Dilma Rousseff, que se tornará, dia 21, a primeira mulher a abrir os debates da Assembleia Geral da ONU, deverá viajar a Nova York três dias antes dessa data, de modo a adaptar sua agenda a compromissos e solicitações de encontros bilaterais. Em um desses eventos, pelo menos, sua presença é certa: a presidente receberá o prêmio Woodrow Wilson de Serviço Público, que também foi atribuído a Lula, dia 20, em jantar no The Pierre Hotel.

Poder feminino 

Ainda está em aberto a participação de Dilma, dia 19, em reunião na ONU Mulheres, entidade criada ano passado e presidida pela ex-presidente do Chile Michelle Bachelet. Nesse encontro confirmaram presença Hillary Clinton, a baronesa Catherine Ashton, Alta Representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros, e Helen Clark, chefe do PNUD, Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Se ficar em NY até dia 22, Dilma integrará uma cúpula de chefes de Estado sobre segurança nuclear.

Tributo 

A juíza Patrícia Acioli, assassinada dia 11 de agosto, vai dar nome ao espaço de estudos – uma biblioteca e auditório - do Fórum Regional de Jacarepaguá que será inaugurado hoje. Arthur Narciso de Oliveira Neto, juiz diretor do Fórum, convidou familiares da magistrada para a cerimônia.

Influência baiana 

A Lavage de La Madeleine, que acontece no próximo fim de semana em Paris com a participação de Carlinhos Brown, ganhou um presente pelo seu décimo aniversário. Trata-se de um selo do correio francês em homenagem ao ritual inspirado na lavagem das escadarias da igreja baiana de Nosso Senhor do Bonfim.

Atração turística

Os últimos conflitos no Complexo do Alemão não modificaram a determinação da SuperVia em iniciar, hoje, um horário mais estendido do teleférico, que passará a atender a população das 7h às 19h. Nesta segunda também começará a ser cobrado o valor de R$ 1 por passagem além da ida e volta gratuita garantida, por dia, aos três mil moradores cadastrados. Os turistas, aliás, têm pago de R$ 40 a R$ 50 às agências para fazer o trajeto. E universitários vêm saciando a curiosidade dos estrangeiros nas estações, que perguntam principalmente pelos programas sociais da comunidade. Para exercer essa atividade, ganham de R$ 1,4 mil a R$ 1,8 mil por mês.

Lucro arrepiante 

As redes de depilação que participam da 5ª Rio Franchising Business, que começa nesta quinta-feira no Riocentro, têm em comum planos de expansão nacional. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, a Abihpec, o Brasil ocupa o 8º lugar no ranking mundial de depilação. As técnicas oferecidas por essas marcas são as mais variadas, dos institutos expressos que utilizam ceras especiais, como as redes Pello Menos e Pelo Zero, à fotodepilação, como a empresa Não Mais Pelo.

A domicílio

Também no ramo da depilação a laser, o Grupo Zaiom lança a minifranquia Home Depil, com investimento inicial de R$ 20 mil. O serviço é prestado na casa dos clientes com equipamentos portáteis de Luz Pulsada Intensa (IPL) e o valor único da sessão/área é de R$ 55. O público alvo da empresa são homens e mulheres, entre os 18 e 50 anos, das classes A, B e C.

Dois canais 
O Larica Total, programa culinário comandado por Paulo Tiefenthaler, volta ao Canal Brasil em fevereiro com novidades. Durante a programação da emissora serão exibidas pílulas de um minuto com drinques exclusivos elaborados por Paulo e sua equipe. As gravações da terceira temporada começaram neste fim de semana na cozinha do apartamento do apresentador, em Santa Teresa. Paulo vem se dividindo entre o Rio e São Paulo, onde participa do Rock Gol, na MTV.

Arte no frio 

Esculturas de gelo com até 1,5 m de altura serão elaboradas ao vivo para o público durante a Equipotel 2011, de hoje a quinta-feira, em São Paulo. Caberá ao chef Junior, do Carving Studio Brazil, dar forma a cisnes, golfinhos e cavalos-marinhos. As peças duram até cinco horas sem deformações. A técnica é do chef tcheco Charles Carving, precursor no Brasil de entalhes em alimentos.

Iguarias

Está no Rio, pela segunda vez, um dos maiores especialistas em queijos do mundo, o maître fromager Gérard Poulard. Na sua bagagem de cerca de 280 quilos vieram o Chaource, da região de Champagne, com massa cremosa e sabor de avelã, e o Fourme d’Ambert, com massa mofada e sabores de flores e ervas, fabricado em uma região vulcânica no centro da França. Eles estão na degustação que o restaurante Skylab, do Rio Othon Palace, promove.

Livre Acesso

Amanhã, no Marcia Peltier Entrevista, o arquiteto e urbanista Paulo Casé fala sobre os projetos urbanísticos que enalteceram o Rio de Janeiro. Ele, que vai completar 80 anos de idade e 50 de carreira, virou tema de livro. O programa começa às 23h, na rede CNT.

A Câmara Municipal do Rio homenageia, hoje, o empresário Rogério Jonas Zylbersztajn, vice-presidente da RJZ Cyrela, com a Medalha Albert Sabin.

Iara Nagle toma posse, hoje, no conselho diretor do Clube de Engenharia do Rio.

Aloysio Maria Teixeira e amigos do Tribunal de Justiça do Rio oferecem, hoje, jantar de despedida no Country Club para o desembargador Murta Ribeiro, que se aposentou.

A convite do Rotary Club de Copacabana, Miguel Padilha fala, hoje, no Sofitel, sobre Avanços em oftalmologia.

Amanhã, durante o Fashion’s Night Out no shopping Leblon, a Zibba vai recrutar um time de vendedoras muito especial, a convite de Gisella Amaral. Parte das vendas será revertida para a Instituição Anjo Gabriel, que atende 50 crianças e está prestes a fechar as portas por falta de recursos. Na mesma noite, a estilista Alice Tapajós lança uma bolsa de lona criada exclusivamente para o evento e uma bolsa de cobra com tag da mascote do evento, que é uma corujinha.

Com Marcia Bahia, Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

Edir Macedo teria recebido verba de roubo


Edir Macedo teria recebido verba de roubo
Sérgio Roxo
O GLOBO - 12/09/11 


SÃO PAULO. Uma das testemunhas da investigação do Ministério Público Federal (MPF), que resultou na denúncia à Justiça contra Edir Macedo e outros três integrantes da direção da Igreja Universal do Reino de Deus por lavagem de dinheiro, acusa a cúpula da instituição de receber doação de um ladrão de banco com conhecimento de que o dinheiro era fruto de um crime. Ao MPF o lavador de carros Edilson Cesário Vieira reforçou o que havia denunciado ao Ministério Públicoestadual. Ele relatou que em uma noite de segunda- feira de dezembro de 2006 presenciou um homem, que se apresentava como Alexandre, entregar R$ 200 mil a Edir Macedo, líder da Universal, e a Romualdo Panceiro, apontado como número dois da instituição.

O encontro teria sido no 4o andar do templo da Av. João Dias, em São Paulo. No dia 11 de maio de 2010 em depoimento aos promotores Everton Luiz Zanella e José Mario Buck Marzagão Barbuto, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do MP Estadual, Edilson disse que a quantia doada, em 2006, pelo homem que se apresentava como Alexandre para a Universal é “proveniente de um crime de roubo ao Banco do Brasil, mas não sei agência ou endereço”. No dia 26 de agosto, Edilson prestou novo depoimento, para o procurador Sílvio Oliveira, do MPF, e declarou que o homem que havia sido mostrado na televisão ao ser preso no dia 24 era a pessoa que havia doado o dinheiro, em 2006.

A quantia teria sido entregue ainda com lacre do banco. A Secretaria de Segurança havia divulgado que o preso, Antônio Reginaldo de Araújo, participara do assalto ao Banco Central de Fortaleza em 2005, mas a informação foi negada pela Justiça Federal do Ceará. O advogado da Universal, Antonio Sérgio de Moraes Pitombo, disse ontem que a igreja só vai se manifestar depois que souber o teor da denúncia do Ministério Público Federal. Em denúncia apresentada no último dia 1o pelo procurador Sílvio Luís Martins de Oliveira, o MPF diz que Edir Macedo e três dirigentes da Universal usaram uma casa de câmbio de São Paulo para enviar recursos recebidos como dízimos de fiéis de forma ilegal para os Estados Unidos.

O quarteto é acusado de estelionato, formação de quadrilha, falsidade ideológica e evasão de divisas. No documento do MPF, Edilson é citado como uma das vítimas das “práticas ardilosas” da igreja para iludir fiéis. Edilson frequentou a igreja entre 1997 e 2008: — Fui enganado. Percebi que estava todo endividado.

MATTHEW SHIRTS - O povão vai entrar em órbita


O povão vai entrar em órbita
MATTHEW SHIRTS
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

O meu saudoso pai tinha razão. O leitor eletrônico da Amazon, o Kindle, abre um novo capítulo na história do livro. Garry, como ele se chamava, andou para cima e para baixo da pequena cidade costeira na Califórnia, onde morava, sempre a ler o Kindle. Isso nos preocupava. Se o velho já era distraído, imagine com o Kindle diante dos olhos. Sem falar do celular que era obrigado a levar - pela minha mãe -, para o caso de uma emergência. Temíamos um atropelamento. No fim, ele se foi "de repente", como se dizia no século 19, traído pelo coração.

Do ramo brasileiro da família Shirts, minha mulher Luli foi a primeira a aderir ao pequeno aparelho, como tive ocasião de contar aqui mesmo, há dois meses, comparando o Kindle à canga. Talvez não seja por acaso que sua conversão tenha ocorrido em visita à Califórnia, após a morte do meu pai. Quando cheguei lá, semanas mais tarde, Luli já estava de Kindle na mão, orgulhosa. Não se vende o aparelho em lojas. É preciso pedi-lo via internet no site da Amazon. Chega em questão de horas, dias no máximo. Haja eficiência. Artista, Luli comprou ainda uma capa de couro cor de vinho para dar um toque retrô, de pós-modernidade à geringonça. A capa custou quase o preço do leitor eletrônico, que é barato, menos de R$ 200 nos Estados Unidos. Ou seja: os computadores estão próximos a virar commodities, como milho ou soja. Isso vai aproximar os povos cada vez mais. Será um passo positivo para a humanidade, não tenho dúvidas, desde que as máquinas não se voltem contra a gente.

A Amazon é uma empresa de vigor com uma visão otimista do futuro. O dono, Jeff Bezos, de uns tempos para cá deu para lançar foguetes. Seu objetivo, segundo diz, é baratear o custo das viagens especiais para que o povão possa entrar em órbita também. Soa maluco. Mas quem teria dito, mesmo dez anos atrás, que compraríamos livros digitais em tablets portáveis, do outro lado do mundo, sem nem sair de casa?

Não faz muito tempo, o segundo foguete do Bezos perdeu o rumo após atingir uma velocidade de Mach 1.2, supersônica, a 45 mil pés, uns 14 mil metros. O empresário foi obrigado a desligar o bicho, antes que atingisse alguém. Ficou decepcionado, mas a luta continua, garante.

Maria, minha filha de 20 anos de idade, também aderiu ao Kindle. Ganhou o seu da Luli, que não conteve seu entusiasmo e lhe deu de presente ainda na Califórnia. Preocupado em não ficar para trás, fiz também o download do "aplicativo" da Amazon no meu iPad, o que me permite ler livros digitais também. Já li cinco. É gostoso, mesmo na tela iluminada do tablet da Apple.

Com medo de passar por ignorante, nenhum de nós contou ao outro a própria estranheza diante de uma curiosa faceta dos livros eletrônicos. Afinal, não fazia grande diferença. Mas todos chegavam aos nossos aparelhos com trechos importantes já sublinhados. "Usado!", pensamos todos, soubemos depois. Mas não fazia muito sentido. Afinal, se vai vender um livro digital usado como novo, nada mais fácil do que eliminar, eletronicamente, a formatação e pronto. Qualquer intervenção do leitor anterior seria apagado também. O próprio conceito de "usado" não faz muito sentido no mundo dos textos digitais, diga-se.

Mas, aí, fui destacar em amarelo uma frase já sublinhada e veio a frase, assustadora, pelo menos de início: "Outros 59 leitores destacaram esse mesmo trecho".

Como assim? Quem fala? Como é que você sabe? A Amazon é informada cada vez que algum leitor em qualquer canto do mundo sublinha um trecho dos seus livros?

- Que medo - disse a Maria. Minha mulher Luli concordou.

Tentei enxergar o lado positivo.

- Isso vai aproximar a humanidade - pronunciei em uma frase panglossiana. É como se o mundo todo participasse do mesmo clube do livro, continuei, diante dos olhos descrentes e, talvez, preocupados da minha filha e minha mulher.

Afinal, se você quiser, pode desligar esse acessório. Não pode?

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Consumo de asfalto será 15% menor em 2011
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 12/09/11

A produção de asfalto deve quebrar um longo ciclo de alta neste ano no Brasil.
O setor, que no ano passado superou 3 milhões de toneladas consumidas em obras, estima uma queda de 15% para 2011, segundo levantamento do grupo de vias da Fiesp e do Sinicesp (Sindicato da Indústria da Construção Pesada de São Paulo).
O último dado, de julho, aponta um consumo de cerca de 248 mil toneladas, redução de 15,7% na comparação com o volume registrado 12 meses atrás.
No ano passado, impulsionada, principalmente, pelas regiões Norte e Nordeste, o consumo de asfalto disparou no país. Sem ter como suprir a demanda, o país recorria a importação.
"Nós passamos, em um curto período, de 2 milhões de toneladas para 3 milhões de toneladas. Agora voltaremos a patamares abaixo de 2,7 milhões", afirma Manuel Rossitto, coordenador do grupo de vias da Fiesp.
O setor vivenciou, nos últimos meses, uma redução das contratações de obras, mas há perspectivas de recuperação no próximo ano, de acordo com Rossito.
"O governo de São Paulo liberou a duplicação da Rodovia dos Tamoios. Nesta semana os governos federal e estadual assinam convênio para as obras do Rodoanel Norte, além da retomada das contratações pelo Ministério dos Transportes", afirma.

MODELAGEM FEMININA
O Grupo Via Veneto, dono das marcas masculinas Brooksfield, Harry's e Via Veneto, além de representante da Salvatore Ferragamo no Brasil, vai acelerar a expansão da grife nacional feminina, a Brooksfield Donna.
De 2009 para cá, surgiram nove lojas, contando a recém-aberta unidade no Shopping Cidade Jardim.
Até o início do próximo ano, serão mais sete lojas, todas próprias e em shopping centers, um investimento de R$ 13 milhões.
No roteiro das inaugurações estão Curitiba, Rio, Vitória, São Caetano, São Paulo, e, para 2012, Belo Horizonte e Ribeirão Preto.
"Estávamos há muito focados no masculino e esse plano de crescer no feminino já é antigo", conta a sócia-diretora Mariana Nassralla, responsável pela Donna e pela operação da Salvatore Ferragamo.
"A mulher consome muito e nossos clientes homens também pediam para termos artigos femininos para suas esposas em nossas lojas", acrescenta Nassralla.

Copa beneficia 300 mil micro e pequenas empresas em SP

Cerca de 300 mil micro e pequenas empresas do Estado de São Paulo poderão crescer economicamente com a Copa de 2014, segundo pesquisa do Sebrae-SP que será divulgada hoje.
O setor de comércio concentra 51% dessas empresas, seguido pelo de serviços e pelo de indústria, com 30% e 19%, respectivamente.
"As micro e pequenas empresas do Brasil devem lucrar cerca de R$ 140 bilhões com o mundial. Entre 30% e 35% desse valor [de R$ 42 bilhões a R$ 49 bilhões] devem ficar em São Paulo", afirma o superintendente do Sebrae-SP, Bruno Caetano.
A pesquisa também aponta 456 possibilidades de negócios. "São atividades que serão impactadas pela Copa, como uma agência de turismo ou uma empresa de TI (tecnologia da informação)."
O setor de turismo e de atividades ligadas a ele (gastronomia, programação cultural e artesanato, por exemplo) lideram o número de possibilidades (139). São cerca de 89 mil empresas do segmento que se beneficiarão.
Em seguida, aparecem os setores de TI e agronegócios.

LEI DE FALÊNCIA
A unificação internacional das leis sobre compensação de crédito em situação de insolvência será discutida nesta semana em Roma.
A reunião, organizada pela segunda vez pelo Unidroit (Instituto Internacional para a Unificação do Direito Privado), terá duração de três dias e começa amanhã. O Brasil é considerado um país avançado no assunto, segundo o advogado Fernando de Almeida Prado, sócio do Pinheiro Neto Advogados, que participará do evento.
"O tema é discutido no Brasil desde o ano 2000 e solucionamos a questão com a nova lei de falência", diz Prado.

No interior A Damha Urbanizadora, que tem 39 empreendimentos em nove cidades do país, investirá R$ 20 milhões em novo condomínio residencial em Araraquara (SP). O VGV da empresa em 2011 deve ser de R$ 350 milhões.

CDB... O Banco Volkswagen lança CDB para frotistas e fornecedores da Volkswagen, Man e Audi no Brasil. Hoje, o produto já é oferecido a concessionários. A instituição pretende atingir R$ 200 milhões em aplicações em um ano.

...automotivo O banco investiu no desenvolvimento de ferramentas de segurança para o lançamento do CDB. O produto será vendido para frotistas em Belo Horizonte, Brasília, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

UM GOVERNO ESCROTO


DENIS LERRER ROSENFIELD - Estado de Direito e questão indígena


Estado de Direito e questão indígena
DENIS LERRER ROSENFIELD
O Estado de S.Paulo - 12/09/11

A questão indígena, em vez de ser equacionada na perspectiva de um problema social que atenderia os que são vítimas de um processo histórico, está sendo encaminhada em termos propriamente ideológicos, tornando inviável qualquer solução. Os conflitos só podem, assim, se multiplicar, com indígenas na pobreza, produtores rurais na mais completa insegurança jurídica, reservas ambientais e assentamentos da reforma agrária sendo também ameaçados.

Caso particularmente emblemático é o de Barra Velha, no sul da Bahia, onde um trabalho de identificação e demarcação de terras indígenas, realizado pela Funai com forte apoio do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e ONGs nacionais e internacionais, está conflagrando a região. Aqui não se trata do caso apresentado ideologicamente como usual entre "indígenas destituídos de terras e o agronegócio", estigmatizado, então, por isso. Não, não é isso!

A Funai, contrariando o acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF) relativo ao caso da Raposa-Serra do Sol, está empreendendo um trabalho de ampliação de terras indígenas, o que foi explicitamente vedado. Ademais, essa ampliação está atingindo o Parque Nacional de Monte Pascoal, o que, ainda na mesma decisão, foi proibido. Além disso, produtores rurais, com títulos de propriedade e cadeia dominial anteriores à Constituição de 1988, estão sendo severamente atingidos.

Não esqueçamos que, ainda segundo o STF, o ano de 1988 foi considerado como linha divisória no que diz respeito à ocupação efetiva de terras para poderem ser consideradas indígenas. Há também assentamentos da reforma agrária estabelecidos na região, alguns com mais de dez anos, cujos membros se recusam a abandonar as suas terras. Colocam-se aqui questões importantes no que concerne ao respeito ao Estado de Direito, que deve ser, antes de tudo, preservado.

A Advocacia-Geral da União, na Câmara de Conciliação e Arbitragem da Administração Federal, da Consultoria-Geral da União, em parecer da advogada da União Sávia Maria Leite Rodrigues Gonçalves, foi instada a se manifestar pelos conflitos daí decorrentes entre órgãos públicos - Funai, Incra, Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Sua conclusão foi bastante enfática ao estabelecer que "não há condições jurídicas de prosseguimento dos estudos para a revisão, com ampliação, da TI (terra indígena) Barra Velha, devendo ser mantido o seu contorno decorrente de prévia e pretérita composição entre o então IBDF (Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal) e a Funai".

Muito claramente o parecer conclui que a "Funai, com o suporte de sua Procuradoria Federal Especializada e da Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça, deverá inovar na adoção das medidas gerenciais já aprovadas pela Presidência da República e encaminhadas pelo Exmo. Sr. Advogado-Geral da União, com destaque para as atividades fins, bem assim como na adequação à nova realidade jurídica delineada pelo Supremo Tribunal Federal". Note-se a referência ao julgamento pelo STF e às suas condicionantes quando da decisão do caso Raposa-Serra do Sol. Eis a nova realidade jurídica, que não está sendo levada em conta pela Funai. Ao não fazê-lo, esse órgão apenas torna mais agudos os problemas que deveria resolver.

Aliás, o mais sensato, pacificando a questão, seria a compra de terras, aí incluindo terra nua e benfeitorias, para equacionar problemas fundiários indígenas onde se fizer necessário. Direitos dos proprietários, direitos indígenas, direitos dos assentados da reforma agrária e o direito ambiental seriam, todos, preservados. Ao não enveredar por essa via, criam-se conflitos e tensões infindáveis, com processos judiciais, por muitos anos, que deixam todos na insegurança jurídica e no não equacionamento de questões sociais, familiares e econômicas. O status quo do conflito não beneficia ninguém, salvo os ideólogos da discórdia, com menção especial ao Cimi e a ONGs nacionais e internacionais. Nada, de fato, que interesse à sociedade brasileira.

A questão de Barra Velha chegou a tal grau de acirramento que alianças impensáveis em outros contextos se tornaram realidade. Em evento no final de agosto no município de Itamaraju, num auditório lotado com mais de 300 pessoas, sendo em torno de 270 provenientes dos assentamentos da reforma agrária e usando bonés e camisetas do MST, foi feita uma defesa do direito de propriedade e do Estado de Direito.

Eis a bandeira comum a todos nessa ocasião, com membros da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf), ligada à CUT, do MST, da Federação da Agricultura do Estado da Bahia (Faeb) e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) unidos contra o trabalho da Funai e as ações do Cimi e das ONGs indigenistas nacionais e internacionais.

Os líderes dos assentados da reforma agrária presentes ao evento disseram em alto e bom som que lutariam até a morte e não entregariam as suas terras aos índios. Nem querem ouvir falar de remoção para outras áreas, pois a terra onde estão é sua. Reclamam, isso sim, melhores condições de trabalho, como crédito, maquinário e sementes. As oposições correntes nacionais entre "trabalhadores rurais e empreendedores rurais" não se fizeram presentes. Ao contrário, aqueles se manifestaram solidários aos produtores rurais por compartilharem, agora, os mesmos problemas e ameaças.

Declararam-se firmemente partidários do direito de propriedade. Assentados, agricultores familiares, pequenos, médios e grandes, todos se consideram igualmente produtores rurais.

Já passa do tempo de uma solução técnica, não ideológica, da questão indígena, assegurando a todos os brasileiros os direitos de que são portadores. O reconhecimento do Estado de Direito é a condição mesma de qualquer solução.

FÁBIO ULHOA COELHO - Técnica, política e democracia


Técnica, política e democracia
FÁBIO ULHOA COELHO
O Estado de S.Paulo - 12/09/11


Quando o assunto é a elaboração de leis, a relação entre técnica e política é bastante complexa - às vezes, tumultuada. A chave para acomodá-las é a democracia. Técnica e política são servas da democracia, mas servem a ela de modos diferentes.

As decisões políticas no processo de elaboração de leis refletem a vontade popular. Os deputados e senadores são detentores de mandato parlamentar e, assim, representam a Nação. Por valiosa que seja a contribuição do mais competente dos juristas, ela simplesmente não se pode sobrepor nunca à decisão política. Falta ao técnico a legitimidade que as eleições democráticas conferem aos parlamentares. Normas básicas da democracia seriam desrespeitadas se a técnica tolhesse a política.

A relação entre esses dois aspectos da elaboração de leis, porém, esconde mais uma sutil complexidade. Se a decisão política não se revestir da adequada formulação técnica, corre-se o sério risco de uma inversão antidemocrática. Explico. Quem aplica as leis são os técnicos - advogados, juízes, promotores de Justiça, etc. Depois de concluído o processo legislativo e editada a lei, se a decisão política for desprovida de amparo técnico, ela poderá ser neutralizada por argumentos técnicos, capazes de obstar a solução intentada e aprovada no âmbito do Poder Legislativo.

O tema do entrosamento entre técnica e política veio à tona recentemente, em razão de diversos projetos de elevada tecnicalidade em discussão na Câmara dos Deputados. Na definição do presidente e do relator da Comissão Especial do Código de Processo Civil, por exemplo, houve quem entendesse que essas funções deveriam ser reservadas necessariamente a deputados com formação jurídica. Discordo desse entendimento. Ainda que possa, evidentemente, ser mais proveitosa ao célere andamento do processo legislativo a atribuição da relatoria a deputado familiarizado com o tema em discussão, não haveria nenhum desrespeito às regras da democracia se o presidente e o relator do Código de Processo Civil não fossem processualistas. Ao contrário.

Na verdade, é hora de se entrosarem técnica e política na elaboração das leis, de modo compatível com a complexidade que a relação, hoje, encerra. Tradicionalmente, nas leis de maior tecnicalidade (nas quais se inserem os códigos), tem-se nomeado uma comissão de juristas encarregada da redação do anteprojeto. Em seguida o trabalho da comissão é convertido em projeto pela Presidência da República ou por parlamentar. Tem início, então, o processo legislativo. Foi esse o modelo, por exemplo, adotado nos casos do Código de Defesa do Consumidor (1990) e do Código Civil (2002).

Mas essa fórmula tradicional talvez não seja a mais apropriada hoje em dia, por pressupor a rígida separação entre o "momento técnico" e o "momento político" da elaboração da lei. São momentos, a rigor, que não devem ser separados. A técnica deve acompanhar a discussão política, subsidiando-a e dando-lhe a devida forma, até a conclusão do processo legislativo.

A fórmula tradicional de entrosamento entre técnica e política pode e deve ser aperfeiçoada, para atender à dinâmica própria das decisões parlamentares dos nossos tempos. E isso está sendo objeto da devida atenção no âmbito da Câmara dos Deputados, em que se discute a formação de comissões de juristas para assessorarem os trabalhos das comissões de deputados quando estiverem em pauta projetos caracterizados pela elevada tecnicalidade.

Não haverá, nesta nova fórmula de entrosamento técnica/política, aquela separação entre o momento de uma e o de outra. Caminhando juntas, em paralelo, manterão diálogo essencial à democracia, assegurando que as decisões políticas se expressem pela adequada formulação técnica e, afinal, se tornem viáveis.

As comissões de juristas não substituem o trabalho da Consultoria da Câmara dos Deputados. Nesse órgão trabalham profissionais do Direito especializados no processo legislativo e nos diversos ramos do universo jurídico, competentes funcionários públicos concursados que assessoram os deputados na elaboração de projetos e emendas. As funções da comissão e da Consultoria são diferentes.

A comissão de juristas tem funcionamento temporário, deixando de existir tão logo concluído o processo legislativo. Já a Consultoria é órgão da estrutura permanente da Câmara. Enquanto o principal instrumento da comissão de juristas para cumprir a sua finalidade, neste novo modelo, é a apresentação de sugestões de emendas ao relator, a Consultoria atende todos os deputados federais, redigindo a própria emenda que os parlamentares subscreverão. Exercem, como se vê, tarefas complementares.

Há, ademais, uma função que apenas a comissão de juristas pode desempenhar. Falo da construção de consensos entre destacados e respeitados especialistas da correspondente área jurídica acerca da formulação técnica mais apropriada aos objetivos da norma em discussão. Esse consenso é fundamental para garantir que, depois de aprovada a lei, ela seja aplicada de modo a reproduzir com fidelidade a decisão política. É ingrediente, assim, de suma importância, na complexa sociedade dos nossos tempos, para a efetividade da democracia.

Em especial nos processos de elaboração legislativa cujas particularidades não proporcionam, antes da apresentação do projeto de lei, plenas condições para a efetiva construção de consenso entre os especialistas, a comissão de juristas, acompanhando a de deputados, é indispensável. Cabe a ela fazer a revisão crítica da propositura, contribuindo para o seu aperfeiçoamento. Nos projetos nascidos de contribuição individual e naqueles em que, por qualquer razão, se disseminaram dúvidas, procedentes ou não, entre os profissionais do Direito, acerca da real oportunidade de efetiva contribuição de todos os especialistas da área, a nova fórmula de entrosar técnica e política revela-se a solução adequada.

JURISTA, É PROFESSOR DA PUC-SP

HÉLIO SCHWARTSMAN - Diferença de pontos entre melhores colégios é diminuta

Diferença de pontos entre melhores colégios é diminuta
HÉLIO SCHWARTSMAN
 FOLHA DE SP - 12/09/11

No que provavelmente é um efeito colateral de nossas mentes essencialistas, seres humanos adoram rankings. Basta aparecer uma notícia que traga a lista dos dez melhores ou piores não importa o quê e ela logo entrará no rol das matérias mais lidas.

Escolas não são uma exceção. Ao contrário até. Na educação, os sistemas de avaliação proliferam. Não que seja errado ou inútil elencar melhores e piores, mas é preciso tomar cuidado.

O modo como o público e a mídia recebem esse emaranhado de exames nem sempre é o mais sábio. É tolice, por exem­plo, imaginar que haverá mudanças importantes nas notas ou nos rankings todos os anos.

Se elas vierem, o mais provável é que tenha havido um proble­ma com a prova ou com o universo de alunos que as fazem. Como tudo no campo da educação, os ganhos ou perdas, quando ocorrem, tendem a ser incrementais.

A própria ideia de ranking deve ser vista com cautela. Um caso emblemático é o das escolas particulares de elite, que travam disputas milimétri­cas pelas primeiras posições no Enem. Em São Paulo, por exemplo, a 30ª colocada teve uma nota apenas 10% menor do que a da mais bem posicionada.

E é relativamente fácil ganhar alguns pontinhos selecionando apenas os melhores alunos para fazer a prova. Assim, um colégio que mante­nha programa generoso de bolsas para pobres ou que não expulse repetentes acaba perdendo pontos.

Analogamente, uma escola que não convença seus melhores alunos a fazer a prova pode sair prejudicada. E, se o estudante não está interessado no ProUni ou em entrar numa universidade federal, não tem nenhuma razão objetiva para inscrever-se no Enem. USP, Unicamp e a maioria das instituições privadas não exige esse exame.

Não é coincidência que, em São Paulo, a adesão dos alunos dos colégios mais caros seja relativamente baixa. Rankings e listas são uma boa ferramenta de orientação a alunos e pais, desde que interpretados criticamente.

NAERCIO MENEZES FILHO - Desempenho no exame tem relevância, mas exige cautela

 Desempenho no exame tem relevância, mas exige cautela
NAERCIO MENEZES FILHO
FOLHA DE SP - 12/09/11

A herança mais importante que podemos deixar para nossos filhos é uma educação de qualidade que lhes permitirá ter sucesso na profissão escolhida e, com uma pitada de sorte, serem felizes.

A boa formação tem início nos primeiros anos de vida, com muita conversa, leitura e palavras de estímulo. As boas escolas complementam essa formação inicial, adicionando conhecimentos e colocando desafios para seus alunos, permitindo que eles desenvolvam seu potencial ao máximo. Mas como encontrar a escola ideal?

O Enem pode ajudar os pais, se utilizado com cautela. Ele mede a capacidade do aluno de resolver problemas, com graus variáveis de dificuldade, durante um longo período de tempo. Assim, mede inteligência, conhecimento e perseverança. A escola com a maior nota é a que concentra maior proporção de alunos com esses atributos.

Mas ela não é necessariamente a melhor para todas as crianças, pois reflete a formação média dos que já estão nela. Algumas são altamente competitivas, exigindo muito das crianças desde cedo, o que pode desestimulá-las.

Além disso, a nota do Enem reflete apenas o desempenho médio da parcela dos alunos que fez a prova. Em muitos casos essa parcela é reduzida, dependendo da importância que o Enem tem para ingresso nas faculdades locais. Nesses casos, a família tem que usar a informação com mais cuidado ainda.

Mas, como os recursos familiares são escassos e a decisão sobre a escola é importante, a informação transmitida pelo Enem é relevante.

Quando escolas cobram mensalidades parecidas, têm a mesma proporção de alunos fazendo a prova e apresentam resultados díspares, vale a pena saber o que está acontecendo e, se for o caso, mudar a criança de escola.

NAERCIO MENEZES FILHO é doutor em economia pela Universidade de Londres, professor titular do Insper e professor associado da FEA-USP.

MELCHIADES FILHO - Corte marcial

Corte marcial
MELCHIADES FILHO
FOLHA DE SP - 12/09/11

BRASÍLIA - Estão nas mãos do ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, duas decisões cruciais para a política -com impactos que superam temas mais usuais no noticiário, como as eleições municipais e a criação do PSD.

A primeira delas diz respeito ao mensalão. Barbosa recebeu as alegações dos advogados de defesa e hoje começa a definir o texto que pautará o julgamento dos 38 réus.

Os acusados do esquema de desvio de verba pública para a compra de apoio parlamentar não estão sós na agonia. Uma condenação em série acarretará prejuízos de imagem também ao PT e ao próprio Lula.

Não à toa, pipocam tentativas de desqualificar o ministro, considerado o mais imprevisível -e, portanto, independente- do tribunal.

Questionam seu comparecimento irregular ao plenário. Sugerem sua aposentadoria para tratar a saúde. Põem em dúvida sua isenção, porque deu declarações indignadas sobre a rede de corrupção.

Isso sem falar nas manobras para empastelar de vez o julgamento.

Após tentar a desconstrução técnica da denúncia -sem sucesso, pois a PF foi precisa e inclemente-, o ex-ministro lulista Márcio Thomaz Bastos atua para desmembrar o inquérito: a ideia é atrasar/pulverizar sentenças e evitar manchete bombástica sobre o mensalão.

(MTB, aliás, tem se reunido frequentemente com Dilma Rousseff, que está prestes a fazer sua primeira indicação para o STF.)

A segunda decisão crítica de Barbosa trata da Castelo de Areia. Por sorteio, caberá a ele avaliar a legalidade da maior operação policial sobre fraudes em obras públicas e o uso eleitoral do dinheiro desviado.

A investigação está parada, graças a um subterfúgio jurídico. Concebido por quem? MTB, contratado de uma das empreiteiras suspeitas.

Um parecer favorável de Barbosa poderá coibir novas chicanas e dar fôlego à PF. A Castelo de Areia é garantia de uma faxina de verdade e atalho para a reforma política.

CLAUDIO HUMBERTO

Lupi deve cair sob suspeição ou por inutilidade


No governo, a queda do ministro Carlos Lupi (Trabalho) é considerada iminente. Se resistir às denúncias sobre negócios com a Fundação Pró-Cerrado, até porque a “faxina ética” está suspensa, Lupi cairá por inutilidade: “cada dia menor”, como definiu um dirigente do PDT a esta coluna, Lupi na prática já foi substituído pelo ministro Gilberto Carvalho nos assuntos do setor, envolvendo centrais sindicais ou o Congresso.

Faz-de-conta
A única atividade de Carlos Lupi como ministro é divulgar os índices mensais de emprego. Ele acha que a geração de empregos é obra sua.

Paralisação
O Ministério do Trabalho está paralisado desde que o próprio governo começou a averiguar graves suspeitas de irregularidades.

Nem te conheço
Indagada pelo Planalto, a Força Sindical do deputado Paulinho (PDT-SP) lavou as mãos: nem sequer tem cargos no Ministério do Trabalho.

Fundação do PSD tem mesmo assinaturas falsas
Ao menos duas assinaturas de fundadores do PSD são falsas, segundo atestou o perito Ricardo Molina, confirmando suspeitas sobre a lisura do registro. Ele encontrou claras diferenças entre as assinaturas de Marcos Cintra e Cláudio Lembo nas atas de adesão e fundação do partido, atesta relatório em poder da coluna. “É certo que não foi o mesmo punho que produziu as duas assinaturas”, diz o documento.

Indícios no papel
Na ata de adesão, patrocinada por Gilberto Kassab, “o traçado é irregular” e há “indícios consistentes de não autenticidade”, diz Molina.

Defesa
Não há perícia conclusiva, diz o advogado do PSD, Admar Gonzaga: “Se o caso for à Justiça, um perito judicial dará a palavra final”.

Investigação já
De posse do laudo do perito Ricardo Molina, o DEM vai pedir que o PSD seja investigado pelo Ministério Público e a corregedoria-geral do TSE, onde estranhamente pedidos de apuração têm sido arquivados.

Bicadas fracas
Enquanto José Serra hesita, Bruno Covas, neto do ex-governador, quer ser o nome do PSDB à prefeitura de São Paulo. José Aníbal e Andrea Mattarazzo também querem o posto. Todos fraquinhos, fraquinhos.

Sobram mãos
Renomado perito, Ricardo Molina diz terem sido encontradas nas duas assinaturas “divergências significativas no confronto”.

Poder sem pudor
Papel que mudou a História
Os boatos já tomavam Brasília, naquele 25 de agosto de 1961, quando o então ministro da Justiça de Jânio Quadros, Pedroso Horta, reunia-se a portas fechadas com o presidente do Congresso, senador Moura Andrade. Repórter atento e muito competente, Murilo Melo Filho estava no outro lado da porta, quando Pedroso Horta saiu do gabinete de Moura Andrade.
- Murilo, veja se isto lhe interessa – disse Horta, estendendo-lhe um papel.
Era nada mais nada menos que a carta-renúncia de Jânio Quadros.

SEGUNDA NOS JORNAIS


- Globo: PM afasta comando de UPP em Santa Teresa

- Folha: Rede pública perde espaço entre melhores do Enem

- Estadão: Nota do Enem cai em 68% das escolas de elite de São Paulo

- Correio: Brasília ferve

- Valor: Crise será prolongada, diz Tombini

- Estado de Minas: Má qualidade da escola faz aluno evitar o Enem

- Jornal do Commercio: Começa recuperação da rodovia PE-60

- Zero Hora: RS cai de primeiro para quarto no Enem

domingo, setembro 11, 2011

CAETANO VELOSO - Lurdinha

Lurdinha
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 11/09/11 

Eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”

Paulinha Lavigne, que foi minha mulher e é minha empresária (portanto tem de me conhecer um bocado), riu muito ao me ler aqui contando que quase colaborei com a luta armada. Mesmo Dedé, que era minha mulher no tempo em que essas coisas se deram (e que é minha amiga queridíssima), poderá ter se surpreendido: não me lembro de ter dito a ela sobre o esboço de combinação que fiz com Lurdinha de dar apoio logístico à guerrilha. Ambas devem estranhar que um banana de pijama como eu, que, como disse o brilhante Lobão numa pocket-palestra, toca violão como quem está tomando um cafezinho (embora eu não tome cafezinho), pudesse estar ligado, ainda que remotamente, a atos de violenta bravura.

Lurdinha era minha colega de sala na faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia. A turma era muito pequena. Os professores não despertavam entusiasmo. O interesse em ir à faculdade se centrava nos encontros com Wladimir Carvalho e Fernando Kraichete e nas conversas com Rose Foly no Diretório Acadêmico. Lurdinha, no entanto, com sua genuína vocação para a disciplina, assistia às aulas e executava as tarefas curriculares com pontualidade. Várias vezes ela foi me buscar em casa, fazendo arrancarem-me da cama às pressas, para que eu não perdesse uma prova. Ela era comunista e olhava com benevolência meu jeito boêmio.

Wladimir também era comunista. Todos os meus amigos na faculdade — e fora dela — eram de esquerda. Nenhum iria ao Cine Roma assistir a um show de rock de Raulzito e os Panteras. Íamos ao clube de cinema, ao MAM, ao Teatro dos Novos, aos concertos da Reitoria, ouvíamos João Gilberto e Thelonious Monk. Rock era lixo e anátema. Carlos Nelson Coutinho era nosso contemporâneo na faculdade e já escrevia artigos sérios: era o lado teórico do movimento que crescia no período pós-Jânio e pré-ditadura . Quando surgia uma discussão sobre se Luís Carlos Maciel escrever um livro sobre Kafka e Beckett representava alienação, eu sempre me posicionava do lado dos malucos: embora só tivesse lido “A metamorfose” e os contos “Na colônia penal” e “O faquir” (estes, na revista “Senhor”) — e nada de Beckett — eu tendia a gostar dos artistas insubmissos a programas que deveriam servir a alguma “ditadura do proletariado”. Apesar da minha teimosia em não entrar em grupo nenhum, eu era tratado com simpatia. O Centro Popular de Cultura da UNE local me pediu que escrevesse um samba para um bloco de carnaval engajado. Fiz “Samba em paz” — que veio a ser gravado, anos depois, por Elis.

O que mais impressionava em Lurdinha era sua sobriedade. Ela não exibia retoricamente a força de suas convicções: seu despojamento pessoal, sua lealdade inabalável, sua decisão de não perder tempo com discussões decorativas é que mostravam a firmeza de sua orientação política.

Quando nos jogamos no tropicalismo, Lurdinha tinha se casado com o pintor Humberto Vellame e se mudado para São Paulo. Entre móveis de plástico transparente e manequins de fibra de vidro, tínhamos, Dedé e eu, em nossa sala, um quadro de Vellame. O casal nos visitava de vez em quando. O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica, contraste gritante com a bossa nova. Isso correspondia a uma impaciência com a inatividade dos comunistas sob ordens de Moscou e a uma identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Faz pouco Juca Ferreira me alertou para o fato de que não toda a esquerda era hostil ao tropicalismo: dentre a turma da Lubelu (Liberdade e Luta) havia quem gostasse do nosso estilo. Lurdinha — que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho por parte da esquerda — sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia nem retórica: seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato.

Em "Verdade Tropical" digo que se a nossa revolução de esquerda tivesse vencido talvez daí saísse apenas mais um gigante com câimbras. Mas Marighella foi morto numa rua de São Paulo antes que isso se tornasse ao menos provável. E pela mão de Sérgio Fleury, o truculento policial que, em entrevista à revista“Realidade”
nos anos 70, disse da “Baixinha” que estivera sob tortura: “Maria de Lourdes do Rego Mello: Está aí uma das moças mais corajosas que vi na minha vida. De uma lealdade e segurança impressionantes. Nunca se deixou trair nos interrogatórios, nunca arrancamos dela uma palavra que levasse ao ‘Velho’ (Joaquim Câmara Ferreira, o ‘Toledo’). Foi seguida durante 60 dias, filmada, fotografada, até que foi presa. Essa moça recusou ir para o Chile, na troca com um embaixador. Quando soube disso, eu a chamei até minha sala. Disse: ‘Olha aqui, Baixinha, você mentiu para mim o tempo todo. De tudo quanto disse, 99% era mentira. Mas gostei de sua atitude. Aceito as suas mentiras. Agora deixo você em paz.’”

Desde que fui preso e exilado, eu não tinha notícias de Lurdinha. Temia que ela não estivesse viva. Foi o blog “Obra em progresso”, da feitura do Zii e Zie, quem a trouxe de volta. Um dos comentaristas, Julio, tinha o sobrenome Vellame. Perguntei se ele era parente de Humberto. Ele respondeu: “Sou filho de Lurdinha, Caetano.” Assim, a internet de Hermano Vianna me reaproximou da Maria Quitéria da guerrilha urbana.

EDITORIAL - O GLOBO - 'Estado obeso' e os servidores públicos



'Estado obeso' e os servidores públicos
EDITORIAL 
O Globo - 11/09/2011

Trabalho do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre o funcionalismo público, divulgado quinta-feira, traz números sugestivos em torno de algo já conhecido: o governo Lula contratou bem mais servidores do que a gestão FH. De forma precisa, três vezes mais. Enquanto, nos oitos anos do tucanato no poder, o contingente do funcionalismo federal cresceu em 51.613 novos servidores, nos dois mandatos do lulopetismo, 155.534.

A comparação confirma os estilos diferentes de visão sobre o funcionalismo: com Fernando Henrique, menos contratações e ênfase numa reforma administrativa em busca de eficiência profissional, por meio de avaliações, metas e premiação; com Lula, a máquina entulhada de gente em nome de um projeto de "Estado forte", mas cujo resultado é um estado obeso, pois a preocupação com a eficiência do servidor foi engavetada por pressão das corporações sindicais petistas (CUT). Sem considerar o aumento dos tais cargos de confiança de aproximadamente 18 mil para mais de 20 mil, pessoas contratadas sem concurso, quase sempre por critérios políticos e pessoais, porta escancarada pela qual a máquina pública é aparelhada.

O fato de o número de servidores civis em 2010 (630.542) ser inferior ao de 1992 (686.618) induz à percepção de que o estado lulopetista pesa menos para a sociedade do que há 19 anos. Engano. A simples comparação entre os dois números reforça a definição jocosa de que estatística é igual a biquíni: mostra muito, mas esconde o essencial.

Este tipo de análise precisa considerar a conta financeira que recai sobre a população para pagar servidores ativos e inativos. Os aposentados (900 mil), por exemplo, representam um peso maior para o Tesouro do que todos os beneficiários do INSS (28 milhões). O déficit anual da despesa com as aposentadorias dos servidores chega a R$50 bilhões, superior ao do INSS, mais de R$40 bilhões.

Também pouco significa que o gasto com pessoal está nos 5% do PIB do fim do governo FH. Pois falta lembrar que ficou mais pesada a carga tributária, e o próprio PIB também cresceu. Vale dizer, o custo dos servidores e da manutenção do Estado como um todo subiu para a sociedade.

Além disso, a política adotada a partir de 2003 de privilegiar os salários dos servidores - algumas categorias têm melhor remuneração que a existente no mercado privado de trabalho para as mesmas funções - elevou a despesa com a folha do funcionalismo para bem mais de R$180 bilhões, se considerarmos os três Poderes, cifra que rivaliza com a conta de juros e a da própria Previdência. A situação é tal que o governo Dilma deveria desengavetar no Congresso o projeto que limita o crescimento anual da folha de pagamento do funcionalismo (em 2,5% reais), além de retomar linhas da reforma de FH, para não apenas melhorar a qualificação dos servidores, como também cobrar-lhes eficiência, pelo usual sistema de premiação ao mérito. Tudo feito sem dogmas ideológicos, contra ou a favor dos servidores.

O principal é a busca por eficiência no atendimento à população --- que não existe ----, e a um custo menor que o atual, muito alto.

DANIEL PIZA - Certezas em ruínas


Certezas em ruínas
DANIEL PIZA
O Estado de S. Paulo - 11/09/2011

Hoje faz dez anos que as torres do World Trade Center em Nova York caíram depois de atingidas por aviões sequestrados por terroristas suicidas sob comando de Osama Bin Laden. Há muitos dias a mídia do mundo inteiro vem falando do assunto, tentando um balanço do decênio como se o ataque tivesse determinado todos os eventos que se seguiram. O fato de Osama ter sido preso e morto no Paquistão há cinco meses impediu que neste aniversário alguns rabugentos apontassem o dedo para o governo americano e dissessem "Como o mundo está mais seguro, se Osama continua por aí?" - o mesmo Osama que George W. Bush disse que seria caçado não importa em que caverna e, à maneira dos cartazes de um faroeste texano, "vivo ou morto". Ao mesmo tempo, diversos atentados marcaram o período - Madri, Londres, Bali e o que levou à morte do brasileiro Sergio Vieira de Mello na sede da ONU em Bagdá - e outros foram descobertos pouco antes de causarem novos traumas em solo americano, até mesmo na Times Square. Isso sem falar nos bilhões de dólares e nos milhares de vidas desperdiçados em guerras.

Os falcões que dominavam a política externa durante o governo Bush II dizem que a ausência de outra agressão do mesmo porte a uma cidade americana mostra o acerto de suas reações ao terror. Mas a insegurança persiste, até porque seu discurso nunca foi nesse tom, e sim baseado em expressões como "Eixo do Mal". Eles também alegam que hoje o mundo árabe vive uma primavera libertadora, como se fosse efeito de sua política de invasões e sanções. Outros fatores, porém, parecem ter sido mais determinantes para o esgotamento das autocracias, como os mais de 40 anos de Kadafi no poder, o aumento da troca internacional de informações e - como não? - a retórica mais multilateral e pacifista de Barack Obama. Supor que apenas o combate ao terror serviu de "lição" para que o mundo islâmico se afastasse do fanatismo e do apoio a tiranias é, no mínimo, por conveniência, como notou o jornalista David Remnick. De qualquer modo, movimentos como o dos rebeldes da Líbia não foram previstos em 2001.

O que esses dez anos mais demonstram é justamente o erro das profecias, principalmente as mais apocalípticas, de ambos os lados. A própria eleição de Obama em 2004 - um presidente negro, jovem e democrata, livre de discursos polarizadores - não foi imaginada por ninguém na sequência dos atentados de 11/9, quando a ampla maioria da população deu apoio à vingança de Bush II. Lembrar o que foi dito e escrito naquele momento, por sinal, não é muito confortador. Se gente como Susan Sontag disse que os EUA colheram o que semearam e Stockhausen afirmou que aquele filme-catástrofe real era "a mais bela obra de arte jamais feita", outros falaram em "choque de civilizações" e em "cruzada" (Berlusconi) e houve discriminações contra imigrantes em vários locais. Pouquíssimos, como Obama, mantiveram o equilíbrio e viram diferença entre retaliar o Talebã e ocupar o Iraque. Uma espécie de retrocesso civilizatório era o mais aguardado para os anos seguintes; os atentados teriam dado início ao século 21 e este não parecia o mais promissor, com fundamentalistas do Ocidente e do Oriente entrando em rota de colisão crescente.

Quando se compara a primeira década do século com a anterior, no entanto, há outras mudanças que chamam atenção e raramente são notadas. Os protestos contra a tal globalização, por exemplo, perderam muita força, eles que eram tão comuns nos fóruns de Porto Alegre, Davos e outros endereços. O conceito de "globalização" como algo unilateral começou a cair por terra. Afinal, antes ela era atacada por trabalhadores do Primeiro Mundo indignados com a perda de empregos para o Terceiro Mundo, onde a mão de obra é bem mais barata, quando não semiescrava; e também pelos trabalhadores do Terceiro Mundo indignados com a expansão das corporações, que tirariam a soberania das nações e seriam nova modalidade de colonialismo. Tais certezas ruíram, e esta é uma boa notícia. Os países desenvolvidos estão em marcha lenta, vergados sob o peso das dívidas públicas, e o crescimento mundial depende de China, Índia e outros emergentes. Não foi o "neoliberalismo" que salvou o planeta com sua receita comum, mas a própria dinâmica de economias que deram mais espaço ao mercado de consumo sem necessariamente seguir a receita.

Na cultura, o 11 de setembro teve inúmeros subprodutos, desde referências em filmes de super-heróis (que voltaram com tudo, eles que quase sempre atuam em Nova York) até trabalhos de reportagem de alto nível, como os de Lawrence Wright, Jon Lee Anderson e Seymour Hersh, e diversos documentários em TV e cinema, passando por livros criativos como À Sombra das Torres Ausentes, de Art Spiegelman, e romances de autores como Don DeLillo, Ian McEwan e Joseph O"Neill. Num campo mais rasteiro, um dos temas mais comuns tem sido o da dita "decadência da América", já que o país mais rico do mundo tem enfrentado a desaceleração econômica, com aumento do desemprego, e movimentos reacionários como o Tea Party têm trazido outras pautas para o debate político. Mas, como escrevi recentemente, a cultura americana continua a ser consumida intensamente, graças também ao aumento dos meios de comunicação, e a internet ainda não fala chinês. Se existe algo que mudou o mundo nos últimos dez anos, é certamente essa tecnologia.

É um mundo pior ou melhor? A pergunta tem um aspecto infantil, uma necessidade de consolo sentimental. Osama atacou torres nas quais trabalhavam pessoas de mais de 90 países diferentes, e seu plano já existia quando Bill Clinton era presidente. Sua agenda tinha outra escala de tempo, ou seja, dizia respeito a séculos em que a maioria dos países islâmicos estagnou enquanto o Ocidente fez o Renascimento, o Iluminismo e a democracia moderna; mas também tinha objetivos mais imediatos, como incendiar as nações árabes contra Israel e o apoio dos EUA. Que ele não tenha conseguido e que muitos países do Norte da África e do Oriente Médio queiram mais liberdade política e um democrata sensato como Obama tenha chegado à Casa Branca, eis uma série de alívios. Mas a maioria das questões levantadas pelos escombros permanece não resolvida, como as fronteiras de Israel e a autonomia palestina, a rendição das classes políticas às gigantes multinacionais, a dependência de petróleo e outros combustíveis fósseis, o estilo de vida cada vez mais consumista, etc. Só que não precisávamos de Osama e seu terror para ver isso tudo. Dez anos depois, pelo menos a cegueira ideológica não saiu vitoriosa.

Cultura desbotada. Comentei em muitas ocasiões que nossos tempos vivem de reciclar obras do passado. Basta ver a onda de "remakes" no cinema e na TV, o uso que os DJs e rappers fazem de melodias antigas, os livros e prédios construídos em torno de citações e alusões, a volta dos anos 80 e 90 em shows e jogos, a quantidade de efemérides nos jornais. A moda da primeira década do século 21 foi uma sucessão de nostalgias: cada temporada trazia uma década do século anterior como referência, a tal ponto que será difícil que um dia alguém faça um retorno à "moda dos anos 00", porque nada a marcou a não ser essa onda retrô, que pôs em ampla circulação a palavra "vintage" (maneira mais chique de se referir a uma coisa antiga)... Há até um livro na praça sobre isso, Retromania, de Simon Reynolds, sobre como a cultura pop está "viciada em seu próprio passado". Em parte, sim, trata-se de uma geração descobrindo coisas com as quais não conviveu, como relógios de ponteiro, telefones de disco e outros itens analógicos, inspirada pelos bancos audiovisuais hoje disponíveis na internet. Mas não há como negar que tanta dependência de signos reciclados mostra falta de originalidade, uma grave anemia criativa.

Rodapé. Fiquei feliz com a notícia de que a editora Novo Século publicou de novo a tradução que fiz em 1993 (para a editora Imaginário, hoje extinta) de A Arte da Ficção, de Henry James, para a qual fiz novo prefácio. O ensaio do título é um marco na crítica literária de todos os tempos, provando que muitos dos maiores criadores modernos foram também grandes críticos (como Proust, Eliot e muitos outros). James também escreve sobre Maupassant e Zola, comenta "o futuro do romance" (tão contestado como gênero naquele momento quanto agora) e defende o valor da crítica, algo que no Brasil nunca é demais. "O senso crítico está tão longe de ser frequente que é absolutamente raro, e a posse do arsenal de qualidades que ele exige é uma das mais altas distinções."

Por que não me ufano. O crescimento do PIB brasileiro neste ano, segundo a maioria dos cálculos, mal vai passar de 3%. A inflação dos últimos 12 meses ficou acima de 7%. Como o Banco Central reduziu a taxa de juros, parece mais preocupado com o primeiro índice do que com o segundo. A presidente Dilma Rousseff deixou tudo às claras, então, ao fazer pronunciamento em TV nesta semana, alertando para a crise internacional que bruxuleia no horizonte, "complexa" e "pior que a crise de 2008". É melhor já botar a culpa nos brancos de olhos azuis, certo? Afinal, o Brasil tem reservas financeiras muito altas e um mercado interno crescente; só não vai melhor por causa da conjuntura mundial. A ineficiência dos gastos públicos, mesmo com recordes de arrecadação, e uma taxa de investimentos que não chega nem a 20% do PIB, tais os entraves à produtividade, não passam de intrigas da mídia...

Aforismo sem juízo

Poucas coisas são tão machistas quanto a atração feminina pelos poderosos

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MERVAL PEREIRA - Voto consciente


Voto consciente
MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 11/09/11

Não é a primeira vez que um fato isolado expõe com crueza a separação entre o que quer a sociedade e o que fazem os políticos. A absolvição da deputada federal Jacqueline Roriz, flagrada em filme recebendo uma propina do esquema do então governador Arruda em Brasília, foi um tapa na face da opinião pública e explicitou a necessidade de uma mudança na representação congressual para aproximá-la do sentimento da sociedade.

A proposta de reforma política apresentada pelo relator da comissão especial, o petista Henrique Fontana, dá, com a lista fechada, uma força às direções partidárias que elas não estão a merecer.

A proposta de voto distrital, em contrapartida, dá ao eleitor a chance de fiscalizar de perto a atuação de seu escolhido e, por isso, a adesão ao manifesto se amplia.

A legitimidade do Congresso Nacional como instituição estaria ameaçada por práticas fisiológicas que já são nossas velhas conhecidas: clientelismo, malversação, promiscuidade.

Os defensores do voto distrital alardeiam pesquisas que mostram que um mês após a eleição, 30% dos eleitores já não se lembram em quem votaram, pois votam sem conhecer bem os candidatos.

Este número aumenta para 70% em relação às eleições anteriores. O mesmo processo aconteceria em relação ao candidato, que, tendo uma votação fragmentada, não se sentiria ligado ao eleitor e, por outro lado, os eleitos por votos corporativos só se sentiriam responsáveis por aqueles nichos em que atuam.

O voto distrital é um sistema de voto majoritário no qual um estado (ou cidade) é dividido em pequenos distritos com aproximadamente o mesmo número de habitantes. Cada partido indica um único candidato por distrito e cada distrito elege um único representante pela maioria dos votos.

O movimento #euvotodistrital defende o sistema majoritário de dois turnos, ou seja, o voto distrital puro. Essa modalidade, alegam seus coordenadores, além de trazer todos os benefícios do distrital como conhecemos, preserva os interesses das minorias ao exigir segundo turno, caso o candidato não tenha 50%+1 dos votos.

Já está em tramitação um projeto de lei que determina que as eleições para as câmaras em municípios com mais de 200 mil habitantes sejam feitas pelo sistema majoritário, proporcionando aos eleitores a experiência de viverem um sistema eleitoral diverso, para que, no futuro, possa ser adotado em outras eleições legislativas.

Uma das características do voto distrital seria possibilitar ao eleitor trabalhar contra um candidato, o que, no atual sistema brasileiro, simplesmente não existe.

Um parlamentar corrupto em busca da reeleição dispõe, no sistema atual, de caminhos para contornar resistências e continuar fraudando o mandato popular. Como é o caso do deputado Valdemar da Costa Neto, que se elegeu às custas das sobras de votos de Tiririca.

As vantagens do sistema distrital majoritário são muitas, segundo os formuladores do projeto: é um sistema simples e de fácil implantação; incentiva a participação do eleitor, que exerceria maior vigilância e fiscalização sobre o representante eleito do seu distrito, e permitiria diminuir o custo das campanhas eleitorais para o país como um todo.

Cada partido só poderá apresentar um candidato por distrito, reduzindo drasticamente o número de candidatos nos estados e no país.

Além disso, o candidato concentrará sua campanha no distrito no qual concorre, tendo fim as campanhas eleitorais milionárias em que os candidatos, no sistema atual, se veem obrigados a fazer campanha em todo o estado.

Uma campanha milionária num distrito, por sua vez, será escancarada perante o eleitor, podendo criar constrangimentos.

Na definição do cientista político Amaury de Souza, que também está envolvido na campanha, o voto distrital, ao adensar a relação do eleitor com o deputado, fortalece o Poder Legislativo face ao Executivo.

A acusação de que o voto distrital é paroquial é rejeitada pelos coordenadores da campanha, que afirmam que, ao contrário, o voto distrital majoritário é muito menos provinciano e paroquial do que o sistema atual.

Um deputado que disputa uma eleição majoritária num distrito que pode ter 250 mil eleitores é obrigado a compor com todos os interesses daquela comunidade, não pode ser paroquial.

Ao contrário do paroquialismo, o voto distrital majoritário modernizaria, tornaria cosmopolita a representação na Câmara.

Para Amaury de Souza, o distrital majoritário torna a eleição mais inteligível, o eleitor vê melhor a relação entre seu voto, seu candidato e o vencedor.

Uma projeção das bancadas partidárias, respeitando-se o número de cadeiras existentes para cada estado na Câmara dos Deputados, e criados tantos distritos quantas cadeiras estarão sendo disputadas, mostra um quadro de perdas e ganhos para os partidos.

O PT, por exemplo, perderia oito cadeiras na Câmara, enquanto o PMDB ganharia nada menos que 14. O PSDB ganharia cinco deputados federais, enquanto o DEM perderia dois. PP, PR, PDT e PCdoB seriam os partidos mais prejudicados: cada um perderia cinco deputados federais. Entre os nanicos, o PSC perderia seis deputados federais.

- Evidentemente, esse cálculo foi feito com base em resultados de uma campanha proporcional. Com o voto distrital, os critérios de escolha do candidato têm que ser outros, daí a vantagem do sistema, que aproxima o eleito do eleitor - defende Amaury de Souza.