sábado, maio 10, 2014

Privatizaram a petrobras - GUILHERME FIUZA

O GLOBO - 10/05

A maior empresa brasileira pertence, na maioria, a um consórcio de franco-atiradores que prosperaram no governo

Dilma Rousseff falou grosso. Declarou que considera “inadmissível” a privatização da Petrobras. Com toda a bravura do seu gesto, a presidente, infelizmente, está atrasada. A Petrobras já foi privatizada.

A maior empresa brasileira pertence hoje, majoritariamente, a um consórcio de franco-atiradores que prosperaram no seio do governo popular. Se não, vejamos: uma empresa que, numa única transação, transfere a terceiros mais de 500 milhões de dólares, a fundo perdido, de patrimônio público, é uma empresa dos brasileiros?

Poderia ser. Mas, e se essa empresa perde metade do seu valor de mercado sob um governo que asfixia seus preços para mascarar a inflação? Considerando-se que, em tal manobra, essa empresa foi utilizada por um grupo partidário para se perpetuar no poder, ela está servindo aos brasileiros? Quais brasileiros?

E se um grupo de fornecedores e intermediários investigados pela Polícia Federal, com contratos suspeitos com essa empresa, faturou mais de 30 bilhões de reais nos últimos dez anos? Você ainda acha que essa empresa é sua? Tudo bem, talvez você ache que o Land Rover do Silvinho Pereira também é seu. Aliás, agora você tem também o Land Rover do ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, presente do doleiro Alberto Youssef. Pode escolher com qual dos dois você não levará sua mãe para passear no dia dela.

Segundo a Polícia Federal, o esquema centralizado por Costa, que está preso, funciona desde 2004. Era o segundo ano do governo Lula, e a nova presidente do Conselho de Administração da Petrobras era Dilma Rousseff. Nesses dez anos, floresceram os negócios do doleiro Youssef, regendo uma formidável orquestra de contratos superfaturados, propinas e dinheiro de graça para políticos amigos do povo. Um deles era André Vargas, que o PT de Dilma tirou do anonimato e aninhou na vice-presidência da Câmara dos Deputados, nada menos. O governo popular sabe valorizar um bom engenheiro de prospecção de dólares. O petróleo é deles.

Aí vem a oposição pedir a CPI da Petrobras. Pura inveja. Choro de quem não participou desse bem-sucedido processo de privatização. Muitos não entenderam por que, em meio às revelações sobre lucrativos negócios privados com esse doce de mãe que é a Petrobras, Dilma veio falar que não admite a privatização da empresa. Alguns acharam até que a presidente estivesse esclerosada, respondendo a coisas que ninguém perguntou. Nada disso. Pensando bem, a lógica de Dilma está perfeita: é inadmissível privatizar algo que já foi privatizado.

Lula e Dilma escalaram Renan Calheiros para barrar a CPI da Petrobras, ou, pelo menos, sabotá-la. É a pessoa certa no lugar certo. O presidente do Senado entende dessa matéria de prospecção de vantagens privadas à sombra do Estado (já provou que um eficiente servidor da nação não deixa ex-namorada sem pensão). E o cenário político é o melhor possível para barrar essa tentativa de fuxicar a petrolífera dos companheiros. Os novos manifestantes e revolucionários urbanos, que, segundo se lê por aí, vieram vocalizar um poderoso anseio de mudança, não estão nem aí para a CPI da Petrobras. O governo popular está cozinhando o assunto há dois meses, tranquilo, sem nenhum ninja, mascarado ou tranca-rua para lhe causar nem um sorriso amarelo.

O Brasil está satisfeito com o padrão petista de concubinato estatal (em comunhão de bens). A privatização do Banco do Brasil pelo valerioduto, por exemplo, encheu o PT de dinheiro público e foi saudada pela nação com a reeleição de Lula. A entrega do PAC à conexão Delta-Cachoeira foi chancelada com aprovação recorde a Dilma em 2012. A CPI do Cachoeira, aliás, não levou às ruas um gato pingado com cartolina de protesto. A mulher do bicheiro virou musa, e a farra dos superfaturamentos no Ministério dos Transportes retornou no ano seguinte, nova em folha. A CPI da Copa, que trataria da privatização do BNDES na jogada dos estádios bilionários, foi engavetada pelo Congresso — sem nenhuma alma penada gritando que não vai ter Copa.

É claro que, com todas essas privatizações estatais do governo popular, está ficando difícil fechar as contas públicas (mesmo com a maquiagem contábil). Mas não tem problema. O ministro da criatividade fazendária, Guido Mantega, já anunciou que pode haver um aumento de impostos sobre bens de consumo. Perfeito. O contribuinte precisa ser chamado a completar o caixa, porque os sócios de Youssef não podem morrer de fome.

Agindo assim, o governo Dilma está em consonância com a coqueluche mundial dos progressistas, o best-seller “O capital no século XXI” — obra de mais um autor da bondosa esquerda francesa. Basicamente, ele propõe mais impostos para quem consegue juntar dinheiro. É isso aí. Preservem Youssef, Rousseff e demais companheiros do povo. Como diria Thatcher, o socialismo será eterno enquanto durar o dinheiro dos outros.

A miragem de Dilma - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 10/05

BRASÍLIA - O Datafolha acaba de fazer uma nova sondagem eleitoral e também sobre a popularidade do governo de Dilma Rousseff.

Quando se observa a curva de aprovação de Dilma, nota-se que a petista foi vítima de uma miragem depois dos protestos de rua em junho do ano passado. Sua popularidade caiu de 65% para 30%.

Dilma fez então uma série de movimentos, inclusive alguns que não melhoram em nada sua aprovação popular --como a polêmica proposta de Constituinte exclusiva para a reforma política. Em novembro passado a popularidade da presidente foi a 41%. Era uma miragem. Só que o Planalto enxergou as coisas entrando nos eixos. Nessa crença, mais popularidade viria por decantação.

A avaliação resultou completamente errada. Na realidade, os 30% de junho de 2013 estavam contaminados pelo momento. Passados os protestos, Dilma apenas voltou para onde já estivera na fase pré-marchas. Ocorre que os seus 40% eram corroídos por uma erosão silenciosa.

Feliz com a recuperação postiça de popularidade, Dilma sumiu do mapa. Quando fevereiro chegou, os magos do governo acordaram novamente. As coisas não estavam tão bem assim. No começo de abril, a presidente derrapou para 36% de aprovação. Agora, está em 35%.

Nas últimas semanas, Dilma mergulhou em ações midiáticas. Falou mais com jornalistas, numa abordagem curiosa sobre como se dá o relacionamento de um presidente com a mídia. O contato só existe como um favor ou se há uma crise --quando deveria ser um ato republicano constante de quem exerce o poder.

E qual foi o efeito da investida de marketing? Nulo (ela ficou no mesmo lugar) ou Dilma estaria pior se não tivesse feito nada? Difícil saber.

Uma coisa é certa. As reações da presidente sempre parecem pouco estudadas, tardias e com consequências aquém do que desejariam os seus aliados, dentro e fora do PT.

Dias de ira - ALBERTO DINES

GAZETA DO POVO - PR - 10/05

Espantado com o acúmulo de brutalidades? Quer entender o que está se passando na terra da cordialidade na véspera de converter-se em palco de uma festa global? Então separe, tente diferenciar os tipos de agressão e de agressores. A carga de violência continuará igual, porém a descompactação do fenômeno facilitará a compreensão das partes e do todo.

O que está sendo designado como “manifestação popular” é geralmente uma ação política oportunista, claramente orquestrada para obter ganhos imediatos de autoridades perplexas e atônitas num momento de grande tensão e nervosismo. Chantagem pura. Neste conjunto situam-se as greves inesperadas, intempestivas, fora do calendário, fruto de cisões e disputas entre lideranças sindicais e seus padrinhos políticos.

Foi o caso da greve de ônibus que paralisou o Rio de Janeiro na última quinta-feira. A incrível depredação de 467 ônibus tem a ver com a Operação Anti-UPP em curso, tática de exploração emocional de cada incidente adotada pela grande delinquência – o crime organizado – com o propósito de desmoralizar a política de pacificação das favelas e debilitar a capacidade de reação do sistema de segurança.

Os fins nunca justificam os meios: as reivindicações de trabalhadores não podem sequestrar os direitos da sociedade nem levar a extremos que impliquem destruição das ferramentas de trabalho. É suicídio. A propagação da violência só pode partir daqueles que dela necessitam para ocupar espaços e manter o poder.

Algo diferente são as combinações extremas de insanidade com crueldade, representadas por dois impressionantes assassinatos ocorridos com um dia de diferença, portanto não isolados: no Recife, no Estádio do Arruda, depois de um jogo do Paraná com o Santa Cruz um torcedor jogou dois vasos sanitários contra um arqui-inimigo do Sport que comemorava o empate no meio da torcida paranaense. Uma das latrinas (15 quilos convertidos pela altura de 24 metros em 300) acertou e matou instantaneamente o adepto do Sport.

Não é a primeira vez em que o Esporte-Rei converte-se em cenário de tragédia. Poderá ser a última quando o circo futebolístico perder a sua condição de fomentador de surtos de antropofagia e canibalismo.

Na etapa seguinte do torneio de brutalidades está o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, 33 anos, mãe de dois filhos, moradora no balneário do Guarujá, litoral de São Paulo confundida com uma sequestradora de crianças a serviço de uma seita que as imolava para rituais religiosos.

Linchadores formam-se espontaneamente, agregam-se quando o Estado parece débil, quando leis, juízes e tribunais estão desacreditados e onde campeia a impunidade. São ancestrais na Europa os registros de supostos assassinatos rituais, também os castigos através de linchamentos, fogueiras e lapidações. Ocorriam onde a religiosidade era rústica, primária, e tênue o processo civilizatório.

Aquela remediada comunidade no Guarujá é servida pela internet: os covardes linchadores e os insensíveis espectadores fotografaram e postaram cenas do crime. A ira contagiosa, viral, a afunda na Idade Média.

Os cristãos e a política - DOM ODILO P. SCHERER

O ESTADO DE S. PAULO - 10/05

"Estado laico" não pode servir de pretexto para a imposição de um único e oficial pensamento
Em Aparecida (SP), acaba de ser realizada a 52.a assembleia-geral anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), com a participação de cerca de 350 bispos, vindos de dioceses de todo o Brasil.
Uma extensa pauta de temas foi enfrentada, sobretudo de questões da própria Igreja Católica, além de agradecerem a Deus pela recente canonização de São José de Anchieta. Mas os bispos também refletiram sobre a situação social, política e econômica do Brasil, em vista das relações da Igreja com a sociedade e dos católicos com o ambiente em que vivem e atuam.

Em especial, a CNBB preparou e vai publicar uma reflexão sobre os desafios que os cristãos precisam encarar na sua condição de cidadãos e pessoas de fé. Quem crê também é convidado a agir na vida social em conformidade com as convicções de sua consciência, iluminada pela fé.

O ano eleitoral oferece uma ocasião privilegiada para participar, de forma democrática, da definição dos rumos do Brasil. A mobilização popular já levou à aprovação da Lei da Ficha Limpa, que afasta de candidaturas a cargos eletivos quem deu provas de falta de confiabilidade para assumir cargos de responsabilidade pública. Isso representa um avanço, mas não é suficiente.

Desde junho de 2013 o Brasil assiste a uma série de manifestações de rua que clamam por uma política de melhor qualidade. O "discurso das ruas" pede a atenção prioritária de governantes e legisladores para as verdadeiras necessidades da população; aponta para a superação de certo modo de fazer política, feita de conchavos em função de interesses de parte, ou orientadas à perpetuação no poder - um poder que abandona o bem dos cidadãos e se torna fim em si mesmo.

Os cristãos não se podem eximir de participar consciente e responsavelmente da promoção do bem do País. O povo gosta de esportes, mas está sinalizando que deseja mais do que isso: quer ser tratado com respeito e viver com dignidade. Apesar dos esforços já feitos, ainda há muita precariedade em serviços públicos essenciais e desperdício - quando não o sumiço nos mecanismos da corrupção - de recursos que deveriam ser destinados a dar melhores condições de vida ao povo.

As situações de sofrimento, exclusão social, violência e injustiça em que vivem ainda muitos brasileiros não condizem com a dignidade humana nem dão glória ao nome de Deus. Os cristãos, eleitores e candidatos, precisam sentir-se profundamente interpelados a desempenhar uma cidadania ativa para a definição dos rumos que o Brasil deverá trilhar, orientados, certamente, pelos princípios da justiça, da dignidade humana e da solidariedade social.

Algumas pessoas sentem reações alérgicas ao ouvirem falar em política. Bem ou mal, aprenderam a identificar a política como "coisa ruim", em que as pessoas decentes não se metem. É grave que se tenha chegado a um descrédito popular tamanho em relação à política! E quando a palavra sobre questões políticas vem de representantes da hierarquia da Igreja, inflamam-se ânimos, sempre prontos a reivindicar que o Estado é laico e que religião e política devem permanecer separadas.

A estes últimos, vale lembrar que uma boa interpretação da laicidade do Estado resolve essa polêmica. A Igreja Católica não quer tomar o poder do Estado e também entende que o Estado seja laico, não imponha a religião a ninguém e assegure a todos a liberdade de não crer ou de crer e de expressar publicamente as próprias convicções.

Mas não se pode pretender que os cristãos, como quaisquer outras pessoas de fé, sejam alheios à política e às causas do bem comum. Como cidadãos, e na diversidade de convicções que movem a cidadania, também eles têm o direito de falar e de agir conforme suas convicções, respeitada a ordem pública válida para todos.
O "Estado laico" não pode ser invocado como pretexto para a discriminação religiosa nem para a imposição, sobre a sociedade, de um pensamento oficial e único.

O papa Francisco, na sua Exortação Apostólica Evangdn Gaudium (A Alegria do Evangelho, 2013), fala de maneira incisiva da dimensão social da ação da Igreja (capítulo 4.0). E isso não significa apenas promover obras de assistência social em favor dos desvalidos, sem dúvida necessárias: trata-se de ir às implicações comunitárias e sociais da fé cristã: "No próprio coração do Evangelho aparece a vida comunitária e o compromisso com os outros" (n.° 177).

O Evangelho de Cristo, base para a fé dos cristãos, propõe uma relação pessoal com Deus, mas também pede relações novas e coerentes com o próximo. A resposta de fé e amor a Deus, da parte do homem, "não deveria ser entendida como a mera soma de pequenos gestos pessoais em favor de alguns indivíduos necessitados, uma espécie de "caridade por receita", nem também como uma série de ações destinadas apenas a apaziguar a consciência. A proposta cristã é o Reino de Deus (cf. Lc. 443). Trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que ele reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz e dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais" (n.° 180).

Após afirmar que não se pode limitar a religião ao âmbito privado, "apenas para preparar as almas para o céu", o papa conclui: "Ninguém pode nos exigir que releguemos a religião para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre acontecimentos que interessam aos cidadãos" (n.° 182). Os cristãos têm muito com que contribuir para o convívio social e não devem se omitir nem ser impedidos de participar generosamente dessa tarefa. 

Nem tudo tá dominado - PLÁCIDO FERNANDES VIEIRA

CORREIO BRAZILIENSE - 10/05
A pouco mais de um mês da Copa, o Brasil vive um suspense: os manifestantes que saíram às ruas em junho passado - e surpreenderam o país ao cobrar uma inusitada pauta de reivindicações - voltarão a protestar durante o Mundial de futebol? Por enquanto, essa interrogação continua um mistério. Os tumultos da última quinta-feira, que ocorreram simultaneamente em oito cidades, trazem a digital de velhos conhecidos do governo petista, como os sem-terra do MST e os sem-teto do MTST.
Resta saber se, nos próximos dias, prevalecerá o conhecido chapa-branquismo, e os dois movimentos se dobrarão à vontade dos petistas no poder; ou se falará mais alto o senso de oportunismo, e eles radicalizarão nos protestos para colher facilidades nas negociações diante de um governo cada vez mais enfraquecido perante a opinião pública.

Nas manifestações iniciais do ano passado, tudo começou com o Movimento Passe Livre, aliado de Fernando Haddad nas eleições para prefeito de São Paulo, cobrando redução nas tarifas de ônibus. Como num passe de mágica, uma multidão sem precedentes decidiu engrossar os protestos. Mas sem se amarrar a pautas específicas de um ou outro partido.

Quem se atreveu a levar bandeiras de partido ou sindicato - militante de aluguel ou não - foi convidado a se retirar das passeatas. Os políticos, de forma geral, a corrupção e os péssimos serviços públicos transformaram-se no foco principal das insatisfações. Ora, se o país era capaz de erguer mega estádios ultramodernos, conforme exigia a Fifa, por que não poderia fazer o mesmo com escolas, hospitais, estradas e transporte público?

A popularidade de Dilma desabou. O Congresso tremeu. Parecia que a Primavera Árabe havia chegado ao Brasil. A violência de black blocs e policiais, porém, afastou o povo das ruas. Agora, a 33 dias da Copa, quem aproveita o momento para chantagear o governo são velhos aliados do PT. Até servidores públicos, com reajustes garantidos, ameaçam paralisar a Esplanada. Pois é: a Copa promete grandes emoções dentro e fora dos gramados.

Inflação se firma como grave problema nacional - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 10/05

O governo ajuda os pessimistas ao não conter a expansão dos gastos em custeio, combustível da elevação de preços, outra marca da administração Dilma



Na falta de boas notícias, o governo pode comemorar que a inflação (IPCA) de abril, de 0,67%, desacelerou em relação ao 0,92% de março, devido a um alívio na pressão dos preços de alimentos e tarifas de transportes. As autoridades que não param de alertar que a inflação dos alimentos é passageira, como em todos os anos, alardearão sua capacidade de análise, embora, infelizmente, a alta de preços esteja bastante disseminada pela economia.

Sempre é bem-vindo um arrefecimento no custo de vida. Mas, em bases anualizadas, o índice ficou em 6,28%. Continua, portanto, próximo do limite legal dos 6,5%, e deve, inclusive, ultrapassá-lo em breve. Isso preocupa dado o histórico de leniência do governo com a inflação. Tanto que o governo Dilma se notabilizará por jamais ter atingido a meta oficial de 4,5%, com dois pontos a mais e a menos de tolerância. Como cortina de fumaça, construiu a interpretação marota de que até 6,5% tudo é “meta”. Equivale a alterar a posição das traves para validar um gol.

Até mesmo um economista do círculo de assessores informais da presidente desenvolveu o raciocínio de que, como a média da inflação brasileira, dos últimos anos, tem sido 6%, não haveria problema em mantê-la neste nível — um dos mais elevados do mundo, ressalvadas as excrescências argentina e venezuelana.

Média, porém, lembra outro economista, é um conceito escorregadio. Pois uma pessoa com a cabeça no forno e os pés no congelador pode ter uma temperatura média na altura do umbigo bastante razoável. Mas não sobreviverá muito tempo.

Sempre vale repetir: é erro crasso deixar a inflação nesta faixa elevada, num num país com mecanismos de indexação bem azeitados. E como o BC parece ensaiar interromper o ciclo de aumento dos juros, as expectativas diante dos preços não melhorarão. Assim, a profecia de uma inflação persistentemente alta se concretizará. Neste ambiente, sem margem para a absorção de choques imprevisíveis — quebra de safras devido a fenômenos climáticos extremos —, o Brasil faz piquenique na borda de vulcão.

No jantar com jornalistas, há poucos dias, a presidente Dilma defendeu a leniência com a inflação em nome da manutenção dos empregos. É clássico este equívoco entre "desenvolvimentistas". Ora, inflação elevada corrói o salário do trabalhador e ainda cria zona de incertezas à frente dos empresários. Estes recuam nos investimentos, e, assim, criam menos empregos. A inflação perturba o sistema produtivo e, por isso, impede a economia de crescer a taxas mais elevadas, como acontece no Brasil. Do que resulta, também, menos empregos. Já se assistiu a este filme no país, mas a memória nacional é curta.

O governo também ajuda os pessimistas com a inflação ao não conter a expansão dos gastos em custeio, combustível da elevação de preços, outra marca do governo Dilma: no primeiro trimestre, a arrecadação subiu 10,6%, e as despesas, 15%.

Tribunais de contas mais eficazes - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 10/05

Aparelhamento político é um dos empecilhos para que os TCs do país possam fiscalizar de forma mais eficiente o uso do dinheiro público


Será que os tribunais de contas estão conseguindo desempenhar o seu papel de fiscalizar o uso do dinheiro público? Para a Transparência Brasil, ONG dedicada prioritariamente ao combate à corrupção, a resposta é negativa. Conforme mostrou reportagem da Gazeta do Povo do último domingo, segundo pesquisa realizada pela ONG, 62% dos conselheiros e ministros responsáveis pelo julgamento das contas públicas são ex-políticos, 17% respondem na Justiça pela prática de irregularidades e pelo menos 15% deles têm algum grau de parentesco com políticos dos seus respectivos estados. No caso específico do Paraná, o índice de ex-políticos ocupando cargos de conselheiros é ainda maior, chegando a 85% das vagas.

O custo de manutenção dos tribunais de contas também assusta. No conjunto dos 27 estados e do Distrito Federal, incluindo-se também o Tribunal de Contas da União, são gastos anualmente nada menos de R$ 7,2 bilhões. Só o TC paranaense usa quase R$ 340 milhões por ano, o que corresponde a 60% do orçamento destinado à Assembleia Legislativa, da qual ele é apêndice auxiliar.

Nos estados, aos conselheiros, eleitos pelas assembleias legislativas e nomeados pelos governadores, cabe fiscalizar a correta aplicação dos recursos públicos nas esferas estadual e municipal. Em caso de constatação de irregularidades, sejam meramente contábeis, desobediência a disposições legais ou de desvio criminoso de verbas orçamentárias, os tribunais de contas têm o poder de desaprovar as contas e aplicar as sanções previstas na legislação. Em tese, portanto, são importantes instituições de proteção da sociedade contra os maus administradores. Sua ação efetiva pode, senão acabar, ao menos diminuir sensivelmente os casos de mau uso do dinheiro público.

Entretanto, conforme o mesmo estudo da Transparência Brasil, os tribunais parecem feitos exatamente para não cumprir suas elevadas funções, tal a teia de compromissos políticos e parenterais que enreda os conselheiros com os governantes de plantão. É justamente o aparelhamento políticos dos tribunais que seria o principal empecilho para a sua atuação eficaz. Nas palavras da coordenadora-geral da ONG e uma das autoras do trabalho, Natália Paiva, “se você nomeia parentes, ex-subalternos e aliados políticos, é evidente que você tem menos chances de ter suas contas desaprovadas. Isso é um aparelhamento feito com o objetivo de neutralizar o poder fiscalizatório desses órgãos”.

Uma das evidências do baixo desempenho dos tribunais estaduais é o índice de cobrança das multas aplicadas. Desse fenômeno não escapa nem mesmo o Tribunal de Contas da União, que entre 2008 e 2010 contabilizou em tão-somente 8,3% o número de penalidades aplicadas, embora ninguém duvide de que a taxa de corrupção e de má aplicação de recursos públicos se situe em patamar incomensuravelmente maior.

Se a raiz desse problema, como defende o estudo, está no generalizado aparelhamento dos tribunais, o que, infelizmente, os torna menos eficazes no cumprimento de suas prerrogativas, talvez seja a hora de se pensar na mudança dos critérios de preenchimentos das vagas de conselheiros, de modo a torná-los verdadeiramente infensos à influência dos fiscalizados. Uma das propostas – aliás, já em trâmite no Congresso – é a que defende que o acesso às cobiçadas cadeiras só se dê mediante concurso público. Seria uma maneira mais razoável de escolher aqueles que têm papel fundamental para garantir o bom uso do dinheiro público.

Inflação ainda requer cautela - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 10/05
Ninguém, muito menos o governo, deve se entusiasmar com a inflação de abril. Os preços dos alimentos subiram menos do que em março, mas ainda pesam muito no orçamento da maioria das famílias, especialmente nas de média e baixa renda. Subiram 1,19% em média, com forte contribuição de produtos que ainda passam por temporada de baixa oferta, como as batatas.
De qualquer modo, foi a desaceleração da corrida dos preços da comida e dos transportes que influenciou o aumento menos explosivo do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que é a medida oficial de inflação, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele tinha assustado até mesmo os mais pessimistas, com uma alta de 0,92% em março. Em abril ficou em 0,67%.

É bem menor, mas ajuda pouco para diminuir a preocupação que ainda se deve ter com o índice acumulado, o que realmente conta. No ano, incluindo os números de abril, o IPCA teve variação de 2,86%; em 12 meses, de 6,28%. Está perigosamente perto do teto de 6,5% e longe demais do centro (4,5%) da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional para 2014.

Quanto mais altos forem os índices nos primeiros meses, mais difícil fica o cumprimento da meta no fim do ano. Em 2014, para que a alta dos preços não ultrapasse o teto - o que seria uma sinalização muito negativa para os agentes econômicos nacionais e para o mercado internacional de crédito - será preciso que, ao longo dos próximos sete ou oito meses, o IPCA tenha evolução bem mais contida do que a do primeiro quadrimestre.

Essa não parece ser a tendência, pois nada garante que a desaceleração dos aumentos em abril será mantida. Pelo contrário. Há uma coleção de indicadores que recomendam manter o otimismo na gaveta. O principal deles é o efeito em cascata do aumento das tarifas de energia elétrica. Como o governo não conseguiu tirar do papel em tempo hábil o aumento da oferta de geração hidrelétrica (para o que colaboraram a tumultuada mudança na vigência das concessões e a precipitada redução das tarifas em 2012), a escassez de chuva tem causado estragos.

Em vez de adotar medidas de contenção do consumo de energia, o governo estimulou a compra de eletrodomésticos e manteve um discurso de que tudo corria bem no setor elétrico. Para bancar essa fantasia até depois das eleições, foi preciso manter ligadas por mais tempo que o de costume as usinas térmicas. A energia gerada por elas é muito mais cara, e o custo disso alimenta a inflação.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já autorizou aumentos de tarifa que vão do dobro ao triplo da inflação do ano passado (5,91%). Como os aumentos não foram concedidos todos de uma vez, só uma pequena parte do impacto foi registrada em abril. A partir de maio, todas as cadeias produtivas afetadas pela conta de luz vão influir na formação do IPCA.

Só há razão, portanto, para que o governo não se deixe envolver pelas pressões do calendário eleitoral e segure o gasto público. Se não fizer isso, vai deixar o Banco Central sozinho na luta contra a inflação e, portanto, sem mais alternativa que a indesejável elevação dos juros.

Delícias do poder - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 10/05
O poder tem suas vantagens. Em 2013 o PT bateu novo recorde de arrecadação de doações de empresas privadas, chegando a quase R$ 80 milhões. É uma marca particularmente notável pelo fato de não ter sido um ano eleitoral, em que as doações se destinam, basicamente, ao custeio das atividades partidárias. Segundo revelou o jornal Valor, com base na prestação anual de contas apresentada pela legenda de Lula & Cia. ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em 2013 essas doações foram 57,3% maiores do que no primeiro ano do governo Dilma Rousseff (2011).
Os principais doadores do PT- geralmente os mesmos que dão dinheiro para todas as outras legendas partidárias - são empreiteiras de obras públicas e grandes empresas que dependem fortemente da boa vontade do poder público para o desenvolvimento de seus negócios. Isso evidencia, desde logo, a distorção representada pela indevida influência que a força do dinheiro empresarial passa a ter na política e, consequentemente, na administração pública, a partir do instante em que as corporações fazem "doações" aos partidos.

Justiça seja feita, essa distorção - que o STF está na iminência de erradicar - não é uma invenção do PT. Há mais de uma década no poder, a companheirada que não quer largar o osso só fez "aperfeiçoar" a distorção, enquanto jura devoção à exclusividade do financiamento público.

Mas não deixa de ser muito revelador de seu verdadeiro propósito -a permanência no poder a qualquer custo - os petistas se deixarem tranquilamente financiar pela elite que tão ferozmente combatem. Afinal, quem são os donos das maiores empresas do País? E bota elite nisso, porque 74,3% das doações de empresas recebidas pelo Diretório Nacional do PT no ano passado (RS 59,27 milhões) saíram do bolso de um grupo de apenas 10 delas. À frente desse grupo está uma empreiteira que contribuiu com generosos RS 12,3 milhões, despesa contabilizada que representa apenas 2% dos mais de RS 590 milhões que faturou em contratos com o governo federal em 2013.

A lógica desse processo de financiamento partidário - que transforma governantes e aspirantes a essa condição em reféns do poder econômico - por si só demonstra que o modelo é incompatível com os fundamentos de uma sociedade democrática, na qual o voto de cada cidadão é o único instrumento legítimo para a eleição de mandatários. Empresas não votam. E seu objetivo é, primeiro, o lucro e, depois, a maximização do lucro - o que não é nenhum pecado ou demérito no capitalismo.

A receita total do diretório nacional do PT em 2013, ainda segundo a prestação de contas apresentada ao TSE, foi de RS 170 milhões. Depois dos RS 79,7 milhões em doações de empresas (57,3% do total), a segunda maior parcela é constituída pelos recursos públicos provenientes do Fundo Partidário: R$ 58 milhões (34%). E ainda R$ 32 milhões (18,8%) em contribuições de filiados que ocupam cargos na administração pública. As doações de pessoas físicas foram de apenas RS 2,9 mil, equivalentes a menos de 0,05% da receita total.

A aparente má notícia é que, daqueles RS 170 milhões, o saldo remanescente para o ano eleitoral de 2014 foi de modesto R$ 1,6 milhão. Isso deveria preocupar a cúpula do partido, que terá de enfrentar milionários compromissos financeiros na campanha eleitoral deste ano. Financiar candidaturas ao Planalto, ao Congresso, às governanças e assembleias estaduais, com os requintes tecnológicos determinados pelos marqueteiros, demanda recursos astronômicos. Mas a elite política não está preocupada com isso. A máquina arrecadadora petista - e a dos demais partidos também - tem um longo, ameno e proveitoso convívio com a elite que é dona do dinheiro.

Fique também tranquilo o cidadão-contribuinte. No final, será ele o verdadeiro financiador das campanhas políticas milionárias, pois as obras públicas que forem feitas e os serviços que forem prestados certamente virão generosamente majorados para proporcionar o reembolso daquilo que, para uns, é financiamento de uma atividade cívica, mas, para outros, é um investimento altamente lucrativo.

Disputa de incertezas - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 10/05

Forte desejo por mudanças, registrado em pesquisa do Datafolha, ainda não se incorpora nas candidaturas à Presidência da República


Feitas as ressalvas de praxe --tudo pode mudar depois da Copa e do horário eleitoral--, os resultados da última pesquisa Datafolha acrescentam alguma nitidez aos prognósticos quanto à disputa pela Presidência da República.

Restam poucas dúvidas, mesmo entre os adeptos de Dilma Rousseff, de que a eleição terá um segundo turno. No quadro mais provável, a petista tem 37% das intenções de voto; os demais candidatos, somados, chegam a 38%.

A notícia já vinha sendo assimilada pelos estrategistas de campanha pelo menos desde a queda de popularidade da presidente após as manifestações de junho passado. Chega a ser paradoxalmente auspicioso, do ponto de vista do Planalto, que não se tenha aprofundado o descrédito de Dilma.

Numa conjuntura escassa em boas notícias, a popularidade da petista se manteve praticamente estável entre os primeiros dias de abril, quando se fez o levantamento anterior, e esta semana: passou dos 36% de "ótimo" e "bom" naquela ocasião para os 35% de agora --dentro da margem de erro.

O impacto das revelações sobre a Petrobras --a depender do que venha a ser descoberto por uma ainda frágil CPI-- parece provisoriamente absorvido. Tem a contrabalançá-lo, ademais, a adoção, pelos petistas, de conduta mais incisiva nas relações públicas.

Aumentou, com efeito, a disposição presidencial para apresentar-se em ocasiões amenas. Ao mesmo tempo, o encontro nacional de seu partido teve efeito decisivo para suspender especulações em torno de uma possível substituição de Dilma por Lula, seu sempre popular mentor.

Se os dados do Datafolha não se mostram ruins para Dilma, dada a atual conjuntura, revelam-se bastante bons para Aécio Neves. O candidato do PSDB se destaca de Eduardo Campos (PSB) por uma diferença de nove pontos percentuais, alcançando 20% das preferências do eleitorado (eram 16% na pesquisa de abril).

O fenômeno coincide com sua maior exposição na propaganda e no noticiário; no Senado, Aécio soube aproveitar os ruinosos contratos da Petrobras para fortalecer-se como alternativa à situação.

Ainda assim, o desejo de mudança presente em 74% dos entrevistados não se reflete numa adesão às propostas, de resto vagas ou desconhecidas, da oposição. Basta notar que, para 38% do eleitorado, ninguém menos do que Lula seria o nome mais indicado para alterar os rumos do governo.

Um oposicionismo à procura de oposicionistas, um situacionismo pouco satisfeito com a situação, estes parecem ser os sentimentos prevalecentes no eleitorado.

Não espanta que, como nunca, a inclinação para votar nulo ou em branco se verifique na população. O sufrágio obrigatório, combinado com a propaganda eleitoral, sustenta em boa medida a esperança de candidatos que, por si próprios, não chegam a empolgar ninguém.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“É o sujo falando do mal lavado”
Eduardo Campos, sobre trocas de acusações de PT e PSDB na crise do setor elétrico


FRETES SÃO COBIÇADOS POR POLÍTICOS NA PETROBRAS

A Polícia Federal investiga o que seria uma das principais fontes de propina para políticos na Petrobras e sua subsidiária Transpetro: intermediadores (“shipbrokers”) de fretamento de navios, tanqueiros etc. A intermediação do “aluguel” de embarcações pela estatal rende entre 1% e 5% (até US$ 15 mil) por dia de contratos que podem durar 20 anos, se o fretamento é por toda vida útil do navio, o que é habitual.

É HABITUAL

Uma comissão de praxe, a “address comission”, é estipulada pelo fretador (a Petrobras) e é paga em fatura oficial ao shipbroker.

VALORES

A Petrobras opta pelo frete, já que um navio-tanque de grande porte (Very Large Crude Carrier) custa no mínimo US$ 100 milhões.

RENTABILIDADE

O frete de apenas um navio-tanque (tanqueiro), por 20 anos, pode render US$ 70 milhões aos intermediadores (shipbrokers) do negócio.

DUPLO

Por levar o negócio ao estaleiro, o shipbroker recebe comissão da empresa, estipulada em adendo, além da comissão da Petrobras.

RENAN ARTICULA PARA MANTER O COMANDO DO SENADO

Conhecido por sua célebre esperteza política, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), antecipou-se aos fatos e já encomendou pesquisa do Ibope em todos os estados para saber os candidatos mais fortes ao Senado. A pesquisa permitirá ao cacique mapear os possíveis eleitores, em seu projeto de manter-se à frente do comando do Senado em 2015, agora que lançou Renan Filho ao governo de Alagoas.

ASSUNTO ENCERRADO

Aécio Neves (MG) e Eduardo Campos (PE) liberaram PSDB e PSB a apoiar a candidatura de Henrique Alves (PMDB) ao governo potiguar.

DESEMBARCANDO

O PSD de Gilberto Kassab enfrenta dificuldades para manter o acordo com o PT pela reeleição de Dilma.

São dez diretórios contra a aliança.

BAHIA NO TST

O deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA) coleta assinaturas apoiando a desembargadora Luiza Lombar ao Tribunal Superior do Trabalho.

SEM ANALFABETOS

Foi um dia histórico para os brasilienses, ontem. O Distrito Federal é a primeira unidade da Federação a receber o selo Território Livre de Analfabetismo. No DF, mais de 98% da população são alfabetizados.

SUB COM SUB

Após o escândalo da espionagem americana a autoridades e empresas brasileiras, a presidente Dilma esperneou, cancelou visita de Estado e exigiu desculpas. Agora o clima esfriou e ela se reunirá com o vice dos EUA, Joe Biden, na Copa. Alguns falam em “encontro de iguais”.

ENGANA QUE GOSTAM

Lula prometeu ajudar a infraestrutura de Gana, durante o Fórum Econômico Mundial da África, na Nigéria, mas não usou seu “prestígio” para apelar à libertação de 200 meninas sequestradas por uma seita.

VIAGEM ARRISCADA

Ignora-se o que Jorge Viana (PT-AC) fará com outros senadores no final do mês em Taiwan, inimiga da China, e sem relação oficial com o governo brasileiro. Além de esquisito, isso não dá sorte. Ex-presidente do PL, Valdemar Costa Neto foi lá em 2005. E acabou na Papuda.

CONSTRANGEDOR

O presidente Carlos Lupi (PDT) e o ministro Manoel Dias (Trabalho) saíram com cara de tacho da homenagem a Getúlio Vargas na terça, onde o ator Tony Ramos, a estrela do evento, não deu as caras.

VIŠE DOKTORI

O Ministério da Saúde acaba de aceitar no “Mais Médicos” um bósnio, o dr. Ahmed Shehada. Ele ao menos já aprendeu que o programa do governo brasileiro, em sua língua, é chamado de “Više Doktori”.

MANCADA

O programa do PCdoB no rádio e na TV errou o nome de sua principal estrela. Produzido pelo publicitário Marcelo Brandão e dirigido pelo secretário nacional do partido, José Reinaldo Carvalho, o programa chamou de Aldo “Rabelo” (e não Rebelo) o ministro do Esporte.

FEBRE BRASILEIRA

O secretário-geral Jerôme Valcke, que encheu as burras da Fifa, agora critica o despreparo do Brasil na Copa, tirando o corpo fora. O francês deve ter sido contaminado pela conhecida síndrome lulista “não sabia”.

MORE NURSES

A Inglaterra admitiu um deficit de 20 mil enfermeiros em seu Serviço de Saúde (NHS). Poderiam criar por lá um programa “Mais Enfermeiros”.


PODER SEM PUDOR

PONTARIA BRASILEIRA

Era praxe a realização anual de exercícios da Armada, com seus encouraçados e cruzadores Bahia e Rio Grande do Sul, a que assistiam o presidente da República e a imprensa. No governo Epitácio Pessoa, ocorreu aquele azar de não acertarem nos alvos móveis, mas assim mesmo o ministro perguntou ao presidente o que achara daquela demonstração. Epitácio Pessoa foi sincero:

- Amanhã mesmo contrato uma missão estrangeira para ensinar os senhores a fazer pontaria.

sexta-feira, maio 09, 2014

Pessoas dentro da farda - RUY CASTRO

O GLOBO - 09/05

Quando um policial comete um excesso ou mata alguém, pode enfrentar processo, ser expulso da polícia ou ir preso. Mas ainda não se viu nenhum cartaz dizendo ‘Fora traficantes’


A 13 de março último, o aspirante a oficial da PM Leidson Alves, 27 anos, foi morto por traficantes com um tiro na cabeça durante um patrulhamento no Morro do Alemão. Foi o 19º PM morto neste ano no Rio, sendo 13 em emboscadas parecidas — alguns quando estavam de folga. A 7 de abril, ao voltar para casa, outro PM, Lucas Barreto, 23, foi capturado em São Gonçalo e levado para uma favela. Deram-lhe oito tiros, a maioria nas pernas, e o jogaram num matagal.

Desde então, não sei a quantas anda a estatística de PMs cariocas mortos ou feridos — não em combate, como de praxe no ofício, mas pelas costas, à traição. Nem sempre os jornais registram que o policial assassinado era jovem, recém-casado, filho exemplar ou pai de filhos. Artistas da Globo não vão a seus enterros. Não se sabe de missas por suas almas e, na verdade, ninguém está interessado. É como se não houvesse uma pessoa dentro da farda.

Nas últimas “manifestações” no Rio, elementos brandiram cartazes dizendo “Fora UPP” e “UPP assassina”. É fácil protestar contra as Unidades de Polícia Pacificadora. Quando um policial comete um excesso ou mata alguém, pode enfrentar processo, ser expulso da polícia ou ir preso. Mas ainda não se viu nenhum cartaz dizendo “Fora traficantes”. E, no entanto, contra a violência destes, não há recurso — a comunidade tem de aceitar calada os tapas na cara, o estupro de suas filhas e as execuções sumárias de quem eles considerem suspeitos.

É difícil acreditar que essa hostilidade à polícia parta de gente de bem nas comunidades. Os números mostram que, com as UPPs, as mortes diminuíram, os serviços aumentaram e sua economia cresceu.

Tais dados são lesivos, isto sim, aos traficantes, às milícias, aos que vivem das migalhas do crime e a políticos que, para sobreviver, precisam que as UPPs fracassem.

Transcrição da “Folha de S.Paulo”

Deixem a ortografia em paz - JAIME PINSKY

CORREIO BRAZILIENSE - 09/05
Do Senado, duas notícias, uma boa e outra má. A boa: parece que temos senadores preocupados com o ensino de português. A má: querem alterar outra vez nossa ortografia, agora radicalmente, com a esperança de que, com isso, alunos possam obter melhores resultados na aprendizagem da língua. Criaram até uma comissão, com o objetivo de aplicar o acordo ortográfico (o mesmo que, na prática, já está em vigor), e para fazer com que "se escreva como se fala".
Além de não ser boa, a ideia é impraticável. Fico curioso a respeito de como vai se escrever, por exemplo, aquilo que na ortografia atual é denominada Estação das Barcas (lá na Praça Mauá, no Rio de Janeiro). Para "fazer justiça" à pronúncia, deveríamos grafar "Ijtação daj Barcaj" ou Ixtação dax Barcax"? Fora do Rio, talvez "Istação", ou ainda "Stação", como muita gente fala, já que poucos dizem "estação", além dos curitibanos...

E como redigir o quarto mês do ano? "Abriu", como dizem muitos brasileiros, "abril", como diriam alguns gaúchos, ou "abrir", como parte dos paulistas, mineiros, paranaenses e outros pronunciam? Cabe ao leitor pensar em outros exemplos.

Pesquisas excelentes, feitas por linguistas sérios (Thais Cristófaro, Ataliba Castilho, Stella Maris Bortoni, entre muitos outros) têm mostrado enorme variação linguística até no chamado português culto. Qual seria, pois, o ponto de partida oral, para sua suposta reprodução em texto escrito? Obrigar todos a pronunciar as palavras de uma só maneira, ou ter uma infinidade de representações gráficas para diferentes expressões fonéticas?

Mas isso não é tudo. Como costuma lembrar Carlos Alberto Faraco, a língua escrita não é mero reflexo da língua falada: ambas constituem meios autônomos de manifestação do saber linguístico. A ortografia é uma representação abstrata e convencional da língua. E é fundamental que o sistema ortográfico seja estável e que, independentemente da variação na fala, haja uma única representação gráfica por palavra. Do contrário, não teríamos como reconhecer palavras que fossem escritas em outro tempo (ou até em outro espaço). Seria o caos.

As línguas, patrimônios culturais da humanidade, possuem história. Elas resultam de práticas sociais que as moldaram para que aqui chegassem do jeito que são. São fatores fonológicos, morfológicos, etimológicos e de tradição cultural que fizeram com que nossa língua seja grafada do jeito que é. Línguas também têm parentesco, e nossa origem latina comum permite que possamos ler com relativa facilidade (mesmo que não falemos) outras línguas como o espanhol, o francês e o italiano. Mesmo o inglês, graças ao enorme contingente de palavras de origem latina, fica mais acessível a partir de grafias semelhantes. Arrancar as raízes de nossa ortografia seria romper com importantes aspectos de nossa identidade histórica.

Temos ainda o aspecto prático, talvez o mais relevante de todos. Quando foi imposto o último acordo ortográfico (que, absurdamente, teve sua implantação oficial postergada), toda a indústria editorial movimentou-se para preparar novas edições de todo o seu acervo. Dezenas de milhares de títulos sofreram as mudanças exigidas pelo MEC e outros órgãos governamentais e privados. Gramáticas e dicionários foram refeitos; tratados foram revisados; livros infantis, alterados; manuais, reeditados. Uma nova reforma seria desastrosa, não só para as editoras, mas também para os governos, que teriam que substituir todas as bibliotecas novamente. Trata-se de muito dinheiro jogado fora, possivelmente levando à falência muitas casas editoriais importantes, promovendo gasto desnecessário de verbas públicas, tornando obsoletos bilhões de livros escolares e universitários.

E há, ainda, o aspecto da exclusão social. Quando uma reforma ortográfica é implantada, grande parte dos adultos se torna analfabeta, já que eles nem sempre conseguem reter e utilizar as novas regras inventadas por capricho de meia dúzia de "sábios", ou de desavisados.

A preocupação é com a qualidade do ensino? Busquem-se soluções adequadas, fazendo com que excelentes pesquisas realizadas por importantes grupos de especialistas possam chegar até as escolas brasileiras, por meio de amplo programa nacional de qualificação de professores do ensino fundamental. Se houver, de fato, intenção de melhorar o ensino no Brasil, está cheio de gente boa pronta para ajudar.

A oposição viável - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 09/05

Quem é capaz de impedir a reeleição da presidente Dilma? E a continuidade do PT no poder? A resposta a essas perguntas, pelos eleitores, vai selar a sorte de Aécio Neves (PSDB) e de Eduardo Campos (PSB). Ontem, a vice do socialista, Marina Silva, deu um tiro no peito do tucano. Ela declarou que Aécio tem cheiro de derrota. Ficou a dúvida: Marina votaria no tucano no segundo turno?

De volta ao passado?
Os gastos nas campanhas eleitorais crescem a cada pleito. No Brasil e no mundo. Não há qualquer projeção de redução desses custos. Na contramão, o STF pode tornar ilegal o financiamento pelas empresas. Em 2010, o gasto global com as campanhas no país foi de R$ 3,23 bilhões, e nada indica que haverá redução no futuro. A democracia custa caro. Os especialistas apostam no incremento do "caixa dois", caso o Supremo proíba o financiamento empresarial. No passado, já vigorou a proibição. Ela constava da Lei dos Partidos (1971) dos militares. Deu no que deu. Na democracia, a regra levou o país às CPIs do PC (1992) e dos Anões do Orçamento (1993).


“Não vamos ser tropa de choque do governo nem ponta de lança da oposição”
Eduardo Cunha
Líder do PMDB na Câmara (RJ), sobre a atuação dos deputados do partido na CPI Mista da Petrobras

Se correr o bicho pega, se ficar...
O candidato do PMDB ao governo do Ceará, senador Eunício Oliveira, pode desistir de uma aliança com o ex-governador Tasso Jereissati (PSDB). Ele teria contra si o ex-presidente Lula, o governador Cid Gomes e a presidente Dilma.

A herança
A cúpula do PMDB saiu confiante da reunião de ontem para avaliar recente pesquisa do Instituto GPP. A aprovação do governo Sérgio Cabral/Luiz Fernando Pezão subiu. Os pontos fortes da gestão são a retomada do desenvolvimento e o protagonismo político do Rio. Além das três marcas do governo: UPPs, UPAs e bilhete único.

Caiu na Rede
A vice do PSB, Marina Silva, esteve anteontem com o senador Pedro Simon (PMDB-RS). Ele disse que não vai concorrer à reeleição, mas que "por essa dupla (Eduardo Campos/Marina) eu tenho vontade e discurso para fazer campanha".

Intenção de voto e corrupção
Cientista político, especialista em pesquisas, relata que apenas 10% dos eleitores definem o voto por um julgamento moral. Mas que uma CPI, como a da Petrobras, ajuda a fazer barulho e serve de complemento ao humor dos eleitores com a situação da economia, que é percebida por eles como resultado da atuação do governo.

Aposta no social
O Pronatec 2, cujo lançamento foi anunciado ontem pela presidente Dilma, vai criar milhares de vagas em cursos profissionalizantes específicos voltados para atender as necessidades dos assentados pelo programa da reforma agrária.

Volta ao ninho
Depois de mais de três meses distante, na última quarta-feira, o candidato do PMDB ao Senado pela Bahia, Geddel Vieira Lima, foi ao gabinete do vice Michel Temer. Eles integram o mesmo grupo no partido, mas Geddel é oposição no pleito.

O GOVERNADOR CID GOMES (CE) não deu sinal verde. Seu partido, o PROS, pode não levar a cabeça do ministro Francisco Teixeira (Integração).

Mudar com quem? - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 09/05

A pesquisa Datafolha mostra que falhou a estratégia, evidenciada no pronunciamento de TV de Dilma Rousseff no Primeiro de Maio, de mostrar que ela é a mais preparada para fazer mudanças, desejo de 74% dos eleitores. A vitória de Aécio Neves (PSDB) sobre a presidente como o candidato mais apto a fazer mudanças se ancora na classe média: ele saltou de 20% para 30% nesse item entre quem tem renda de 5 a 10 salários mínimos, e de 14% para 20% na faixa de 2 a 5 mínimos.

Não colou Dilma foi a única que oscilou para baixo como mais apta a fazer mudanças: Lula cresceu de 32% para 38% e Eduardo Campos (PSB), de 7% para 10%.

Se não tem tu... O Datafolha mostrou que 64% dos eleitores que declaram voto em Dilma no primeiro turno acham que o candidato do PT a presidente deveria ser Lula.

... vai tu mesmo Só 34% dos eleitores da presidente acham que ela deveria ser a postulante do partido.

Juntos Em cenário de segundo turno, Campos continua absorvendo votos do eleitorado de Aécio: tem 55%, enquanto só 25% dos pró-tucano votariam na presidente.

Separados Já Aécio perdeu espaço entre os eleitores do pessebista. Entre quem vota em Campos no primeiro turno, o tucano consegue atrair 49%, ante 54% de abril.

Fluxo livre Entre os entrevistados que dizem que votariam em Lula se ele fosse candidato, apenas dois terços declaram voto em Dilma. Ela tem 66% entre os lulistas, Aécio obtém 8% e Campos vai a 6% nesse segmento.

Mão única Já os eleitores de Dilma que dizem votar em Lula caso ele seja o candidato chegam a 87%. Outros 4% dos dilmistas preferem Aécio e 2% escolhem Campos caso a presidente se candidate.

Urbana 1 Dilma perdeu parte de seu eleitorado em municípios pequenos, com até 50 mil habitantes, mas ganhou espaço em relação a abril nos grandes centros.

Urbana 2 Nas cidades menores, a presidente tinha 48% em abril e agora aparece com 44%. Em municípios com mais de 500 mil habitantes, subiu de 31% para 34%.

Nova direção Horas depois de se eleger vice-presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT) exonerou os servidores que trabalhavam no gabinete, antes comandado pelo ex-petista André Vargas. Alguns haviam sido indicados por outros deputados, que foram pegos de surpresa.

Bala... Em conversa preparatória para encontro da frente de prefeitos que terá como bandeira a renegociação da dívida de municípios com a União, Eduardo Paes (PMDB) disse que o governo Dilma age como um "agiota".

... na agulha "Se o poder central continuar agindo como uma espécie de agiota, cobrando juros absurdos, dificilmente as cidades conseguirão enfrentar seus problemas", afirmou o prefeito.

Antenada Na saída do Itaquerão, Dilma foi abordada por moradores e operários que queriam tirar fotos com ela. Depois de posar para várias "selfies", a presidente comentou: "Já estou sendo chamada de Dilma Rousselfie".

Visitas à Folha Alex Ellis, embaixador britânico no Brasil, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Patrícia Torres de Mello, diretora de comunicação do UK Trade & Investment.

Vinicius Lages, ministro do Turismo, visitou ontem a Folha. Estava acompanhado de Ítalo Oliveira Mendes, diretor de Gestão Estratégica, e de Robrigo Bauer do Carmo, assessor de comunicação.

TIROTEIO
"Marina exala arrogância. Não bastando patrulhar Eduardo, quer patrulhar Aécio e o eleitorado. Ele vai ao segundo turno e ganha."

DO DEPUTADO MARCUS PESTANA (PSDB-MG), sobre entrevista em que Marina Silva diz que o PSDB tem cheiro de derrota se disputar o 2º turno contra Dilma.

CONTRAPONTO


Carta remendada

Em palestra no Congresso Brasileiro de Comunicação Corporativa, proferida no início da semana, o ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Marco Aurélio Mello, comentou a respeito do grande número de emendas à Constituição brasileira, que já chegam a 83. Para ilustrar a crítica, contou uma anedota.

Disse que certa vez, em uma livraria, um vendedor foi questionado se a loja vendia exemplares da Constituição.

Virou-se então para o cliente e respondeu:

--Não, não trabalhamos com periódicos.

Vai sobrar para Dilma... - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 09/05

Fechou o tempo entre o presidente do Pros, Eurípedes Júnior, e o governador do Ceará, Cid Gomes. O motivo foi o Ministério da Integração Nacional, comandado por Francisco Teixeira, aliado de Cid, ainda com o título de interino. A direção do partido indicou outros nomes, e o governo quis saber se Cid concordava com a substituição. O governador disse que não, e se instalou a confusão.

No meio da briga interna, coube ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, ponderar e tentar cobrar bom senso, já que faltam sete meses para terminar o ano, e trocar ministro agora seria inócuo, uma vez que, até um novo se inteirar do serviço, o ano haverá terminado. O Pros, entretanto, não quer saber. Daqui a pouco, vai procurar Dilma e dar um ultimato: ou fica com Cid/Ciro Gomes ou com o partido. Decisão nos próximos capítulos.

Em tempo: no meio dessa briga, ainda tem o PMDB. Está chegando a hora de Dilma escolher entre Cid Gomes, o governador que deseja fazer o sucessor sozinho, ou o líder do PMDB, Eunício Oliveira, pré-candidato ao governo estadual que controla hoje a maior bancada do Senado.

Skaf leva o Pros
Eurípedes Júnior, presidente do Pros, selou ontem uma aliança com Paulo Skaf (PMDB), pré-candidato a governador de São Paulo. Isso significa mais tempo na tevê para o peemedebista.

Momento empresariado
O encontro da presidente Dilma Rousseff com líderes do comércio varejista em São Paulo está diretamente relacionado à vontade do governo em recuperar fôlego com o empresariado como um todo. Os petistas têm sentido que essa turma hoje está mais para a oposição do que para a reeleição da presidente.

Jogo de empurra
O governo agora usa o mesmo discurso da oposição em relação à CPI da Petrobras. “Eles é que querem atrasar. Se tivessem aceitado uma única CPI, com relatores diferentes para cada caso, já estaríamos com tudo funcionando”, diz a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR).

CURTIDAS 
Falta só jogar “bafo”/ Nas horas que passa dentro do avião, a presidente Dilma Rousseff tem aproveitado para trocar figurinhas com o brigadeiro Francisco Joseli, secretário de acompanhamento de assuntos militares. Tudo para ver se completa o álbum da Copa do neto, Gabriel, 3 anos, antes do início dos jogos. Dia desses, perguntou para o brigadeiro: “Por que o seu álbum tem capa dura e o meu não?”

Enquanto isso, em Porto Alegre.../ Dilma telefona para a filha Paula e conta a novidade: “Estou fazendo um álbum para o menino pequeno”. Eis que Paula responde: “Eu também”. Dilma não resiste: ”Ah! Que sem graça...”. Agora, o “menino pequeno” terá um álbum em Brasília e outro em Porto Alegre.

Jogo triplo/ Conforme anunciado aqui há alguns meses, o PMDB confirma a divisão em três grupos. A cúpula segue com Dilma, a Bahia está com Aécio Neves e o Rio Grande do Sul vai de Eduardo Campos, com direito a jantar na próxima quarta-feira com o pré-candidato na casa do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). É a maior prova de que a classe política está no escuro quanto à eleição de outubro.

Quase férias coletivas/ Mesmo depois das semanas de feriadão, os políticos não se mostram muito interessados em se agarrarem no serviço em Brasília. Ontem, no fim da tarde, o senador Paulo Paim, do PT-RS, discursava e presidia a sessão ao mesmo tempo. Sinal de que a pré-campanha está bombando nos estados.

O Bolsa Família e a expropriação inflacionária - ALKIMAR R. MOURA

O Estado de S.Paulo - 09/05

Não há como não reconhecer o mérito das administrações petistas em promover mudanças na política econômica a fim de conferir maior ênfase às questões distributivas, para atenuar um quadro secular de má distribuição de renda, que nos coloca entre os países mais desiguais do mundo. Cumprida uma parte importante, ainda incompleta, da agenda de estabilização monetária, fazia todo sentido que o governo Lula criasse programas governamentais de transferências interpessoais de renda, para reforçar os efeitos benéficos do programa de maior impacto redistributivo, o próprio Plano Real.

O Bolsa Família é um bem-sucedido programa de redistribuição de renda, pois é focado em grupos socioeconômicos mais vulneráveis e previamente identificados, é financiado via dotações orçamentárias e é acompanhado por algumas exigências, relacionadas a cuidados com a educação e saúde das famílias beneficiárias, que aumentam a efetividade do programa. De acordo com relatos oficiais, o Bolsa Família atinge hoje 36 milhões de beneficiários, sendo extremamente importante para manter um determinado nível de demanda, de renda e de emprego em algumas regiões do País.

Paralelamente a essa melhoria nos indicadores de distribuição de renda, estamos sendo submetidos a um processo inflacionário persistente que, em certa medida, pode contribuir para desfazer parte dos benefícios dos programas oficiais de transferência de renda, como parte das inúmeras distorções econômicas provocadas pela inflação.

No Brasil, anos de convivência com taxas elevadas de inflação, antes da introdução da correção monetária, e a experiência de outros países que enfrentaram surtos de alta inflação já mostraram os efeitos nocivos daquele processo sobre as finanças empresariais, ao dilapidar o capital de giro, os fundos para compensar a depreciação dos ativos fixos e para evitar a obsolescência tecnológica e aqueles recursos destinados ao financiamento de projetos de investimento de longo prazo. Todos esses impactos sobre as finanças empresariais continuam presentes hoje, mesmo com uma taxa de inflação mais civilizada e na ausência de mecanismos formais de indexação.

No entanto, além dos efeitos sobre as finanças das empresas, sabe-se que a persistência de uma taxa de inflação nos níveis atuais por prazos longos provoca distorções na distribuição de renda, ao corroer salários e ordenados fixados em termos monetários ou cuja variação não acompanha a elevação do custo de vida. Essa queda nos salários reais é uma forma de tributação arbitrária sobre o fluxo de renda dos assalariados, cuja incidência é aleatória, penalizando mais os que percebem remunerações fixas em termos nominais, vale dizer, empregados nos setores público e privado, aposentados e pensionistas e trabalhadores sobrevivendo no setor informal da economia. Além do mais, a inflação não apenas reduz a capacidade de adquirir bens e serviços correntes, ao contrair os salários reais, mas também penaliza o estoque de ativos monetários das famílias e dos indivíduos, com a diminuição do valor real da riqueza mantida sob a forma de saldos monetários. A inflação reduz a capacidade de consumo atual e também o padrão de vida futuro dos detentores de riqueza fixada em termos nominais. Dessa forma, ela pode funcionar como um mecanismo de transferência intertemporal de desigualdade de renda.

Em resumo, observa-se, nas duas últimas administrações, um processo consentido de redistribuição de renda, cujo melhor exemplo é o Bolsa Família, que é focado, com tamanho e custos conhecidos e cujo resultado pode ser avaliado. Em contrapartida, ocorre também um processo de concentração de renda, que não passa pelos canais formais de aprovação política, cujo tamanho e incidência são arbitrários e difusos, mas que penaliza com maior rigor os que recebem fluxos de renda fixos e cujos ajustes anuais não acompanham a taxa de inflação. Não se trata evidentemente de apurar o efeito líquido dos dois processos divergentes e contraditórios. Trata-se, isso sim, de dar fim a uma atitude de complacência com a inflação, que nos faz mirar o teto da meta como sendo a versão tupiniquim do regime de metas de inflação. E, ao fazê-lo, permite o funcionamento de um mecanismo perverso de concentração de renda que contradiz a retórica oficial das duas últimas administrações, comandadas por um partido político supostamente destinado a defender os interesses dos trabalhadores.

Rondando o teto - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 09/05

Será conhecida hoje a inflação de abril e mesmo sem saber o número exato há concordância sobre a tendência. Os economistas acham que o índice ficará abaixo de março, mas o acumulado em 12 meses continuará subindo. Assim será também em maio. De novo, uma queda na taxa mensal, mas o IPCA permanecerá em alta. Nos próximos meses, ficará sempre no teto.

Com a inflação de abril, não será ultrapassado o topo da meta, mas em maio é bem provável que isso aconteça. O professor da PUC-Rio Luiz Roberto Cunha calcula que o dado de abril deve ficar em 0,75%; abaixo dos 0,92% de março. Mas o IPCA subiria para 6,33% em 12 meses. Em maio, a taxa pode cair de novo, segundo Cunha, para 0,55%, mas como será maior do que maio do ano passado, o acumulado ultrapassaria o limite de 6,5%.

— Depois, em junho, julho e agosto, a inflação em 12 meses deverá ficar em torno do teto, com a maior tendência de ser acima do limite porque no ano passado os três meses foram de preços bem baixos — disse Luiz Roberto Cunha.

O item que mais está pesando, e isso será mostrado hoje, é ainda a alimentação. Há preços subindo menos, mas, no conjunto, os alimentos ainda pressionam.

— Alimentação no domicílio ficou, em março, em 2,44% e, em abril, deve ficar em 2,21%. A alta de tubérculos vai cair, mas assim: de 22% para 8%. Por outro lado, carne e leite estão subindo mais. Há ainda impactos da energia no grupo habitação. No mês que vem, a energia terá ainda mais peso na alta de preços. Está também entrando uma nova estação e por isso o item vestuário deve também mostrar alta — diz Cunha.

Cada mês a sua agonia; os preços que pesam mais vão neutralizando as eventuais quedas. E, quando o índice fica menor, o acumulado sobe. O fato é que inflação voltou a ser tema diário nas conversas e nas preocupações das famílias e empresas. O índice não está descontrolado, mas permanece resistente, alto demais, criando incerteza e desconforto. Dá para sentir nas conversas, em qualquer lugar, com as pessoas responsáveis por fazerem as compras de feira e supermercado. Todos ficam pontuando os preços que dispararam.

O economista Samuel Pessoa, do Ibre/FGV, em artigo na “Folha de S. Paulo”, mostrou que a situação atual é mais complexa até mesmo que a de 2002, que terminou com o IPCA em 12,5%. Ele percebeu que a inflação de serviços roda a casa de 8,5% há três anos, contra 5,5% daquela época. Os preços administrados, que subiram 14,7% em 2002, têm alta de 3,4% em 2014. Isso quer dizer que eles estão congelados e vão ter que subir à frente, principalmente gasolina, energia elétrica e transporte público. O país hoje tem déficit em corrente de 3,7% do PIB, contra 1,6% em 2002. Isso coloca pressão sobre a nossa moeda. O que mais chamou atenção foi a comparação das expectativas de inflação 12 meses à frente. Agora, elas são maiores do que naquela época: 6,4% contra 5,6%.

— Não tinha me dado conta disso até escrever o artigo. O problema desta vez é estrutural, quando naquele ano foi concentrado na alta do dólar. Levar a inflação para a meta este ano será mais difícil — disse Pessoa.

Não é culpa do tempo, da falta de chuvas, do imponderável. Claro que esses problemas aguçam a elevação dos preços. Mas o que trouxe a situação a esse ponto foi a sucessão de erros na administração da política anti-inflacionária. Quando a taxa já está estacionada em nível alto, qualquer inesperado faz o índice superar o limite.

— Num cenário de IPCA em 0,75% em abril, 0,55% em maio, e 0,2% em média mensal em junho, julho, agosto, o acumulado de 12 meses ficará sempre acima do teto. Se for 0,3%, em média, nesses três meses chegaremos a agosto com 7% — explicou Luiz Roberto Cunha.

As projeções servem para mostrar a tendência, mas a percepção das pessoas é de que os preços estão passando por um período de alta disseminada e de instabilidade. Isso encomenda outros reajustes. Quando sobe o preço do material de limpeza, o condomínio é reajustado. Quando os alimentos aumentam, certamente haverá alta de restaurante. Essa percepção precisa ser quebrada. O governo prefere acreditar que tudo vai se acertar quando passar a sazonalidade do alimento. Mas temos tido anos de inflação beirando ou superando a meta. E esta será de novo a trajetória neste ano.

A degradação moral de um país e o legado do PT - ROBERTO FREIRE

Brasil Econômico - 09/05

A conexão criminosa entre o Ministério da Saúde e o laborató -rio de fachada do doleiro Alberto Youssef, preso pela PF, é apenas um dos tentáculos que ligam o governo petista à complexa rede de ilegalidades que se instalou no poder. São tantas denúncias a estamparem as manchetes, e tão graves, que os brasileiros têm dificuldade em acompanhá-las sem perder o fio da meada. A banalização do ilícito e da corrupção e a sensação de que o desvio de dinheiro público é algo natural fazem parte do legado danoso que o PT deixará ao país.

Controlado por Youssef e registrado em nome de um "laranja", o labo-ratório-fantasma Labogen - que firmou parceria com o Ministério da Saúde então comandado pelo petista Alexandre Padilha - foi usado pelo doleiro para realizar fraudes a partir de importações fictícias de insumos farmacêuticos. A desconhecida empresa não importava remédios, mas caixas de vinhos, coleções de joias italianas, instrumentos musicais de origem holandesa e até rolos de seda chinesa.

Diante de um mundo de oportunidades facilitado por suas relações próximas com o poder, o doleiro diversificou as atividades e atendeu aos mais diversos interesses, atuando sempre à margem da lei. Além de providenciar um jatinho para a viagem de férias do ex-petista André Vargas, Youssef também pagou caminhões lotados de gado para outro deputado cujo nome aparece nas interceptações telefônicas feitas pela polícia.

De contratos suspeitos com empresas de fachada à mais rasteira troca de favores, a sucessão de escândalos faz o cidadão se acostumar com a ilicitude. Como escreveu Arnaldo Jabor em artigo publicado em alguns dos principais jornais do país, "o imaginário nacional está se deformando". O texto aponta que "o desgoverno, os crimes sem solução, a corrupção escancarada deixam de ser desvios da norma e vão criando uma nova cultura: a cultura da marginalidade, a normalização do crime".

Mensalões, dinheiro na cueca, roubalheira na Petrobras e dinheiro lavado no Brasil e no exterior fazem com que o malfeito seja encarado com naturalidade, quase como um dado inevitável darealidade. Torturas, assassinatos brutais, linchamentos eum perigoso sentimento de que é preciso fazer justiça com as próprias mãos diante da absoluta falência do Estado são conseqüência da degradação que começa no governo federal. Os exemplos vêm de cima e, nos últimos 12 anos, têm sido os piores possíveis.

Para agravar o quadro, a população sofre com a incompetência da presidente da República, que não foi capaz de melhorar a qualidade dos serviços públicos, fez a economia andar para trás e deixou as empresas estatais em frangalhos. Além disso, o PT incentiva o desprezo pelo trabalho em seu maior programa social, cujo resultado é um contingente de 62 milhões de brasileiros que simplesmente não procuram emprego - até porque, se encontrarem, perdem o benefício do Bolsa Família. Só entre os jovens de 15 a 29 anos, 9,6 milhões não estudam nem trabalham, segundo o IBGE.

A falta de perspectivas da nação diz muito a respeito do desastre da experiência petista. Lula e Dilma fizeram tão mal ao Brasil que há uma sensação de que o país passou a odiar a si mesmo, comaperda de princípios democráticos e o esgarçamento da solidariedade e do humanismo. Nas próximas eleições, além do comando do governo, também estará em disputa a retomada desses valores.

De contratos suspeitos com empresas de fachada à mais rasteira troca de favores, a sucessão de escândalos faz o cidadão se acostumar com a ilicitude.

A Copa da rua já começou - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 09/05

Manifestantes entram no jogo; resta saber se baque político e econômico será como o de 2013


COMO ERA previsto, há greves e manifestações mais ou menos tumultuadas nessa janela de oportunidade política aberta pela confluência de início do período de Copa e de campanha eleitoral.

Vai piorar? Se piorar, que efeito haverá sobre a economia? Note-se que o Junho de 2013 foi um baque adicional na confiança de consumidores e empresários, que vinha despencando desde os meses finais de 2012.

O encadeamento de microprotestos terá efeito daninho no prestígio de Dilma Rousseff, como foi o caso dos protestos de 2013? As manifestações vão transbordar e se aglutinar? Vitórias do Brasil no futebol vão amainar o ânimo manifestante?

O leitor desculpe tanta especulação aberta. Mas tais perguntas são apenas parte do rol de dúvidas a respeito dos desdobramentos políticos e econômicos deste ano, com o que se pode concluir que está muito cedo para fazer prognósticos sobre eleição.

É um despropósito dizer que o país está um tumulto, mas a exposição midiática diária de protestos convulsionados, ainda que localizados, e os transtornos no trânsito e na vida de cidades como São Paulo e Rio não devem melhorar um clima que já não andava bom. Mais difícil de estimar é o objeto e o tamanho da irritação. Pode até ser que a maioria da população fique fula com os grupos ora minoritários que protestam. Ou até se revoltar com tudo e todos, governo federal, estadual, prefeituras.

De mais notório e visível, nesta semana, houve passeatas relevantes de professores paulistanos em greve, o protesto de ontem em São Paulo dos sem-terra (MST) e dos sem-teto (MTST) contra empreiteiras da Copa, e essa confusa greve parcial de dissidentes do rodoviários no Rio.

Há mais greves e ameaças programadas pelo Brasil, várias delas no funcionalismo. Não se trata de uma onda de paralisações com jeito de confluir num movimento maior qualquer. São movimentos isolados e oportunistas, no sentido mais neutro da palavra: trata-se de um bom momento para negociar de modo mais duro.

A "imagem do Brasil" na Copa, a ameaça de cortar serviços essenciais neste momento e a eleição próxima obviamente aumentam o poder de barganha de sindicatos e outros movimentos sociais. O pessoal que liderou o protesto de ontem, por exemplo, conseguiu ser recebido pela presidente Dilma Rousseff.

Os candidatos da oposição, porém, continuam sem conversar com essa rua barulhenta.

OUTRO MUNDO

Empresas, bancos e governos pegaram uma dinheirama lá fora neste início de ano. Tomaram emprestado, "captaram", US$ 22,5 bilhões até abril, mais que o dobro "captado" no mesmo quadrimestre do ano passado (US$ 10,7 bilhões).

Empresas, na maioria grandes, ficaram com quase 78% disso. O dinheiro no mundo ainda está barato. Pode ser que não esteja em 2015. Mas é inegável que empresa brasileira boa está com certo prestígio lá fora (o que significa que, numa perspectiva de médio prazo, o Brasil ainda não está desprestigiado).

Tal dinheirama e as intervenções do Banco Central, porém, estão barateando o dólar, barateando demais para um país que gasta além da conta, aqui e lá fora. Isso vai dar problema.

Ambiguidades e a campanha eleitoral - CLAUDIA SAFATLE

Valor Econômico - 09/05

Dilma não colheu "benefícios" das bondades que fez


Dilma Rousseff, pré-candidata do PT à reeleição, não pretende cometer "sincericídio" durante a campanha, mas já estaria ciente de que 2015 será um ano de ajuste. "A presidente não rasga dinheiro", argumentam colaboradores qualificados e próximos a ela. Traduzindo: ela não é de trato fácil, precisa ser exaustivamente convencida, mas quando colocada diante da dura realidade reage com a razão.

Durante a campanha, portanto, Dilma não tratará de temas espinhosos. Longe do palanque o discurso é mais pé no chão, asseguram fontes oficiais. Ela saberia, por exemplo, que a atual política de valorização do salário mínimo já cumpriu a função e sua continuidade é insustentável. A lei deve ser revista. O mesmo ocorreria com o abono salarial, o seguro desemprego, as pensões por morte e, provavelmente, com a amplitude e o custo das desonerações da folha.

A experiência de três anos de governo mostrou que quando a presidente descentraliza a gestão e deixa os profissionais das respectivas áreas trabalharem, as coisas funcionam bem melhor. Exemplo: a readequação geral que teve que ser feita nas regras das concessões para atrair o setor privado. Teria compreendido, também, que taxa de juros baixa não gera crescimento econômico, mas ainda continuaria descrente da eficácia da política monetária no combate à inflação.

É preciso, primeiro, ganhar a eleição. Só após assegurado o segundo mandato é que o governo deve começar a dizer a que veio. É com esse argumento que economistas oficiais justificam algumas das ambiguidades no discurso da presidente.

Quando anunciou reajuste de 10% no Bolsa Família e a correção de 4,5% da tabela do Imposto de Renda para 2015, em um gesto de agrado às vésperas do dia 1° de maio, Dilma estava mirando os eleitores do PT que as pesquisas indicam que ela está perdendo. Ao contrário do que pareceu, não foi um ato de desmedida generosidade eleitoral. O Bolsa Família estava sem aumento há dois anos e a tabela do IR é corrigida, desde 2007, pela meta de inflação raramente cumprida, subtraindo salário nominal dos trabalhadores.

Quando diz que não vai combater a inflação com desemprego, porém, Dilma não está cometendo um despiste eleitoral. É desejo legítimo da esquerda desde o início dos tempos encontrar uma arma de combate à inflação que não produza recessão. Mais importante do que ter resposta a essa pergunta seria substituí-la por outra, que se refira à maneira mais eficiente de se controlar a inflação com o menor custo possível para as parcelas mais vulneráveis da população, ponderou uma fonte.

Esse dilema deixou de ser tema das nações desenvolvidas desde os anos 70, quando Paul Volcker, como presidente do Fed, elevou os juros às alturas para derrubar uma inflação renitente que vinha sendo tratada à base de política de rendas. E deu início a um dos mais longos ciclos de prosperidade americana.

Quando assumiu, em janeiro de 2011, a presidente Dilma fez uma reunião ministerial onde o titular da Fazenda, Guido Mantega, apresentou os objetivos do novo governo para os quatro anos de mandato.

Nos gráficos e tabelas da apresentação, o ministro indicou que a taxa média de crescimento até 2014 seria de 5,9% ao ano, deixando para trás um crescimento médio de 2,6% da era FHC e de 4% no período Lula. O investimento passaria de 19% do PIB em 2010 para 24% do PIB em 2014. A meta de 4,5% para a inflação em 2011 e 2012 já estava aprovada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e, nos prognósticos do ministro, o IPCA teria variação de 5% no primeiro ano do governo Dilma e cairia para 4,5% já no ano seguinte. A esses objetivos agregava-se, ainda, a redução da taxa de juros real para a casa dos 2% ao ano que Dilma defendia.

Confrontando a realidade com aquele leque de intenções, vê-se que a execução da política econômica ficou muito distante dos objetivos traçados. É fato que uma crise pesada abalou as economias da Zona do Euro em 2011, com consequências danosas para todo o mundo.

No caso do Brasil, aos efeitos da crise mundial e aos desdobramentos da mudança da política monetária americana, com suas idas e vindas, somou-se um mal humor crescente dos investidores internacionais e domésticos, gerado por uma forte desconfiança nos rumos do governo a partir das estripulias contábeis do Tesouro Nacional, das intervenções no setor elétrico e nos preços da Petrobras, da suspeita de que o Banco Central estava proibido de elevar os juros e da impressão de que o governo queria determinar a taxa de câmbio, dentre outras.

Dilma tentou reagir à crescente desconfiança. Chamou empresários e banqueiros para conversar, compareceu perante a elite econômica mundial em Davos, comprometeu-se com a redução da expansão do crédito dos bancos públicos, se conformou com a flutuação da taxa de câmbio e com o aumento dos juros para dois dígitos (de 7,25% para 11% ao ano).

Depois de uma série de gestos de aproximação com o mercado, no entanto, a percepção que ficou para a presidente foi de que ela não colheu qualquer "benefício", nem mesmo dos empresários que tiveram montanhas de dinheiro barato do BNDES. Estão praticamente todos contra sua reeleição.

A área econômica se prepara, agora, para um cenário em que pode haver um ataque especulativo nos juros e no câmbio durante a campanha eleitoral. Não se espera, porém, um movimento parecido com 2002 quando a taxa de câmbio foi a R$ 4,00, os juros subiram para 25% e a inflação disparou. O objetivo, agora, é levar o barco de forma segura até o fim do ano, garantiu uma fonte qualificada.

Em agosto do ano passado, quando os recursos externos começaram a minguar e o câmbio se desvalorizava, o Banco Central deu início a um vigoroso programa de leilões de swaps cambiais que lhe rendeu, até ontem, um lucro de R$ 17 bilhões. Essa é a expressão do que o mercado está perdendo ao apostar contra, aponta a fonte.

Um outro grande drama se apresenta: o risco de racionamento de energia para depois das eleições. É crescente o temor de um tombo na economia em 2015 pela falta de energia.

Na visão do governo, contudo, a realidade continua sendo melhor do que a percepção que os agentes econômicos têm dela.

Fabiane e a maçã envenenada - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 09/05


O Estado é tentacular, mas está onde não deve e não está, não de modo eficiente ao menos, onde deve


Fabiane Maria de Jesus, a mulher que foi espancada até a morte no bairro de Morrinhos, no Guarujá, começou a ser agredida porque, ao oferecer uma banana a uma criança, foi confundida com um fantasma criado pela irresponsabilidade de uma página na internet. Tomaram-na por uma sequestradora de crianças, que usaria os infantes em rituais de magia negra.

Trata-se de uma história infantil de desfecho trágico. Lá estava a bruxa da hora oferecendo uma maçã envenenada -no caso, a banana- a um inocente. O mal se apresentava nas vestes do bem, a fazer uma doação para conspurcar a pureza. À diferença da narrativa original, esta não teve um desfecho feliz. A bruxa era só uma dona de casa que tinha ido buscar a Bíblia, que esquecera na igreja. A fruta que ela oferecia era mesmo uma doação. Dava pão a quem tinha fome, a primeira virtude. Seus algozes mancharam as mãos de sangue e, no entanto, até onde se sabe, não tinham um histórico de crimes.

Li muito a respeito. Há tentações para todos os gostos. Como é que gente trabalhadora, que luta para ganhar a vida, pratica esses desatinos? "Sou homem, e nada do que é humano é estranho a mim", escreveu Terêncio. Ainda que a frase possa servir à especulação teórica e que carreguemos em nós todo horror e toda maravilha, não creio que se possa avançar muito por aí. A questão é outra: quem vai conter a besta? Pensadores os mais diversos deram a sua resposta ao longo da história. Houve quem recomendasse um Estado tirano como o único capaz de disciplinar os apetites humanos. Não me parece um bom caminho. Só açula a... besta!

Percebo, de um lado, a tentativa de buscar na nossa formação algo que explique a tragédia; no outro extremo, procuram-se eventos recentes que teriam gerado algum desequilíbrio, de sorte que aquele povo pacífico, mas potencialmente violento, teria voltado à sua natureza. Acho tudo exagerado e despropositado. Não há nenhuma ocorrência que explique a barbárie. Número a número, o Brasil melhora sempre um pouco, em vez de piorar. Também não se trata de uma índole. Não temos de temer a nossa natureza, só as nossas escolhas.

Entrem na internet. Há linchamentos diários de norte a sul do país. Não são uma novidade. Nova é apenas a tecnologia que permite que fiquemos sabendo desses atos criminosos. É bem possível que, no mais das vezes, as vítimas não sejam inocentes, como era Fabiane. E daí? O assassino mais facinoroso tem, e deve ter, o direito a um julgamento justo. Se essa noção não está interiorizada e não se transforma num dado de civilização, então se caminha para o pior dos mundos. Mas esperem um pouco!

Que país o nosso, não é!? Notaram como temos Estado demais em petróleo e de menos em segurança pública? Notaram como temos Estado demais em energia elétrica e de menos em educação? Notaram como temos Estado demais no setor bancário e de menos em saneamento e urbanismo? Esse Estado é gigantesco e tentacular, mas está onde não deve e não está, não de modo eficiente ao menos, onde deve. Para os que lincharam Fabiane, ela era uma criminosa, e se cultiva a certeza por lá e em toda parte de que os criminosos, neste país (como diria aquele), permanecem impunes -o que é verdade com uma frequência assombrosa. Há mais de 50 mil homicídios por ano no Brasil.

Os assassinos improvisados de Fabiane carregam nas costas um Estado que não conhecem e conhecem um Estado que não existe para eles. Organizam, então, tribunais populares, nos quais, como prova a história, a inocência é sempre a primeira vítima. Têm, sim, de pagar caro por seu ato bárbaro. Mas também vão expiar a culpa de um modelo de que são vítimas.

E arremato observando que, nos últimos tempos, há um indiscreto incentivo no país ao "faça você mesmo a sua justiça social", sem dar bola para as leis. Não se iludam: quem flerta com depredadores do bem público, com invasores da propriedade alheia e com incendiários da ordem democrática -leu bem, presidente Dilma?- está dando uma piscadela a linchadores. É a maçã envenenada da desordem.