O Estado de S.Paulo - 18/02
O Brasil tem frequentado, para o bem e para o mal, algumas da muitas siglas inventadas por economistas do mundo financeiro, que procuram encontrar afinidades entre economias diversas, com o objetivo de orientar e facilitar decisões das nuvens de investidores globais. Foi assim no caso dos Brics, criação que fez a fama de Jim O'Neill, do Goldman Sachs. E está sendo assim agora com os "cinco frágeis" (FFs, na sigla em inglês), invenção de James Lord, do Morgan Stanley. Agora, o País entrou em posição indesejável em outro ranking, este ainda de maior prestígio, assinado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos.
No fundo, a construção de Brics, FFs e outras siglas do gênero expressa o esforço, com ares científicos, de bater bananas, laranjas e abacaxis em liquidificadores metodológicos, com os quais são produzidas vitaminas que possam atender à obsessão do mundo contemporâneo por listas e rankings. O fato de as mesmas economias fornecerem letras para diferentes siglas, tanto positivas quanto negativas, diz quase tudo sobre a real credibilidade dessa moda e a fragilidade das análises em que se baseiam os rankings.
O ranking do Fed, com todo o peso da instituição, publicado recentemente no relatório semestral de política monetária, não foge à regra. No documento, o Brasil ocupa, logo atrás da Turquia e à frente de Índia, Indonésia e África do Sul, o posto de economia mais vulnerável às mudanças na liquidez internacional.
A correlação estabelecida encontra uma causalidade positiva entre um índice de vulnerabilidade externa do País e o nível das desvalorizações de sua moeda. Tal índice explicaria 70% da depreciação cambial verificada desde abril de 2013, quando o Fed deu os primeiros sinais de que iniciaria a reversão dos estímulos monetários. Não chega a ser, logo de cara, uma aderência entusiasmante.
Na composição do seu índice de vulnerabilidade, o Fed considera o volume de reservas cambiais, o tamanho da dívida pública bruta e do déficit em transações correntes, todos em relação ao PIB, além da inflação média nos últimos três anos, a expansão do crédito nos últimos cinco anos, também em relação ao PIB, e a relação entre dívida externa e exportações.
Parece fazer todo o sentido, mas é uma vitamina indigesta do ponto de vista técnico. A razão entre reservas cambiais e PIB, por exemplo, não diz muito sobre a situação externa. Diria se as reservas fossem comparadas a indicadores do setor externo, como saldos comerciais, fluxo de comércio ou balança em transações correntes. A expansão do crédito, de sua parte, depende da base inicial de comparação.
Para encurtar a história, não deixa também de ser curioso que se, além dos 15 emergentes selecionados, o Fed avaliasse igualmente economias avançadas, seu índice determinaria a inclusão dos Estados Unidos, emissor da moeda de reserva internacional, entre os mais vulneráveis. Só isso é suficiente para mostrar que, sem levar em conta as características dos mercados cambiais locais, o que fica frágil são as análises das vulnerabilidades de cada um.
O mercado de câmbio no Brasil, por exemplo, é mais profundo e líquido do que o de outros emergentes, com forte atividade em futuros - o que faz as cotações do real, costumeiramente, apreciarem ou depreciarem mais do que as demais moedas ante o dólar. No fim de tudo, fica esquisito colocar a economia brasileira no pódio dos mais vulneráveis.
É verdade que a economia brasileira vive uma etapa de desequilíbrios macroeconômicos e que o quadro externo sofreu forte deterioração. Mas também não pode ser esquecido que o País é credor internacional líquido, o déficit externo, coberto em 80% por investimentos diretos, está abaixo de 4% do PIB e as reservas internacionais cobrem um ano e meio de importações.
terça-feira, fevereiro 18, 2014
Um esquerdista pode tudo - RODRIGO CONSTANTINO
O GLOBO - 18/02
Um esquerdista pode tudo
Ser de esquerda, no Brasil, significa ter um salvo-conduto para defender todo tipo de atrocidade e cair nas maiores contradições. É o monopólio das virtudes após décadas de lavagem cerebral demonizando a direita liberal ou conservadora.
Um esquerdista pode, por exemplo, mostrar-se revoltado com o regime militar, tentar reescrever a história como se os comunistas da década de 1960 lutassem por democracia e liberdade, tentar mudar o nome até de ponte, e logo depois partir para um abraço carinhoso no mais velho e cruel ditador do continente, Fidel Castro.
Um esquerdista pode, também, repudiar o “trabalho escravo” em certas fazendas brasileiras, o que significa não atender às mais de 200 exigências legais (incluindo espessura de colchão), e logo depois aplaudir o programa Mais Médicos do governo Dilma, que trata cubanos como simples mercadoria.
Um esquerdista pode tentar desqualificar uma médica cubana que pede asilo político, alegando que tinha problemas com bebida e recebia amantes em seu quarto (é proibido isso agora?), para logo depois chamar de preconceito de elite qualquer crítica ao ex-presidente chegado a uma cachaça e a “amizades íntimas”.
Um esquerdista pode culpar o embargo americano pela miséria da ilha-presídio caribenha, ignorando que toda experiência socialista acabou em total miséria, e logo depois condenar a globalização e chamar o comércio com ianques de “exploração” (decidam logo se ser “explorado” pelo capitalismo é bom ou ruim).
Um esquerdista pode execrar uma jornalista que diz compreender a revolta que leva ao ato de se fazer justiça com as próprias mãos, e logo depois aplaudir invasores de terras e outros “movimentos sociais”, que se julgam acima das leis em nome de suas “nobres” causas. Pode até receber os criminosos no Palácio do Planalto!
Um esquerdista pode aliviar a barra do criminoso, tratar o marginal como “vítima da sociedade”, e logo depois posar como defensor dos pobres honestos, ignorando que a afirmação anterior representa uma grave ofensa a todos aqueles que, apesar da origem humilde, mostram-se pessoas decentes por escolha própria.
Um esquerdista pode repudiar a ganância dos capitalistas, condenar o lucro, e logo depois aplaudir socialistas milionários, ou “homens do povo” que vivem como nababos, que cobram fortunas para fazer palestras, ou artistas que negociam enormes cachês com multinacionais para seus filmes ou comerciais.
Um esquerdista pode ser um músico famoso ou um comediante popular, e basta a fama por tais características para fazê-lo acreditar que é um grande pensador político, um intelectual de peso, alguém preparado para opinar com embasamento sobre os mais diversos assuntos sem constrangimento.
Um esquerdista pode insistir de forma patológica na cor do meliante preso ao poste, um rapaz negro, e logo depois ignorar outro bandido amarrado a um poste, pois este tinha a cor “errada”: era branco. Pode, ainda, acusar todos que condenam as cotas raciais de “racistas”, e logo depois descascar Joaquim Barbosa, inclusive por causa de sua cor.
Um esquerdista pode alegar ser a pessoa mais tolerante do mundo, isenta de qualquer preconceito e apaixonada pela diversidade, para logo depois ridicularizar crentes evangélicos, conservadores católicos ou liberais céticos.
Um esquerdista pode surtar com o uso de balas de borracha pela polícia contra “ativistas” mascarados que quebram tudo em volta, para logo depois cair em um ensurdecedor silêncio quando o governo socialista venezuelano manda tanques para as ruas para atirar a esmo em estudantes durante protestos legítimos contra um simulacro de democracia.
Um esquerdista, por fim, pode pintar as cores mais românticas e revolucionárias sobre as máscaras de vândalos e arruaceiros que atacam policiais, para logo depois chamar de “fascista” a direita liberal, ignorando que o fascismo de Mussolini tinha os camisas-negras que agiam de forma bastante similar aos black blocs.
Assim caminha a insanidade na Terra do Nunca, com “sininhos” aprontando por aí enquanto os artistas e “intelectuais” endossam a agressão contra o “sistema”. No fundo, defendem a barbárie contra a civilização. Abusam da dialética marxista, do duplo padrão moral de julgamento, da revolta seletiva, do cinismo, do monopólio da virtude.
Um esquerdista jamais precisa se importar com a coerência, com o resultado concreto de suas ideias, com pobres de carne e osso. Ele goza de um álibi prévio contra qualquer acusação. Afinal, é de esquerda, ou seja, possui as mais lindas intenções. É o suficiente. Um esquerdista pode tudo!
Noite dos mascarados - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 18/02
Vamos ver se ficou entendido: o governo federal propõe a proibição do anonimato nas manifestações de rua, exige que os cidadãos se identifiquem à autoridade policial, mas não vê empecilho no uso de máscaras e pinturas para quem desejar assim, de maneira anônima, participar dos protestos.
A justificativa é a de que cada um é livre para se expressar como bem entender e que seria - na expressão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - "complicado" a polícia intervir para enquadrar "quatro ou cinco mascarados".
Pessoas que sem a menor complicação já estão avisando, como fizeram na edição de domingo do Estado, que durante a Copa do Mundo estão dispostas a "tacar molotov" para "dar susto em gringo". A intenção não é machucar, dizem, mas se for preciso, se ninguém os "ouvir", não haverá outro jeito a não ser abrir fogo.
E como o farão? Mascarados, claro. Para dificultar a identificação. Na ideia do ministro da Justiça isso se resolve com a polícia pedindo aos rapazes e moças a carteira de identidade ali no meio da confusão. Documentos estes que serão prontamente apresentados pelos jovens que estão ali com a intenção de colaborar, pois não?
Parece brincadeira. Trata-se de um raciocínio que, no limite, reserva a um delinquente com um morteiro, uma pedra, um rojão ou um coquetel molotov nas mãos e na cabeça a ideia da destruição o mesmo tratamento dado ao folião fantasiado num bloco de carnaval.
Ambos portam alegorias, têm o mesmo direito de se manifestar livremente nas ruas e, em princípio, não podem ser acusados de sair de casa para fazer o mal. É o que parece pensar o governo federal.
Essa é uma teoria tola tão distante da crueza da realidade que deve estar mal explicada. Falta alguma coisa, não deve ser exatamente esse o pensamento do governo. Aguardemos, logo possivelmente haverá uma correção.
Essas ações violentas já produziram muitos feridos, causaram uma morte e causarão outras. Está escrito. O uso da máscara protege o potencial criminoso e é sobre isso que fala o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, quando propõe a proibição inexplicavelmente rechaçada pelo governo federal.
O ministro da Justiça defende o aumento das penas dos crimes cometidos nas manifestações, mas assume uma posição que dificulta a prevenção à ocorrência dos delitos. É contra a exigência de aviso prévio dos atos de protesto por temer a restrição a manifestações espontâneas tais como, exemplifica, "uma ação em defesa de algum professor por parte de alunos de uma escola".
Comparação tão descabida que em breve certamente será corrigida. Queira o bom senso, antes da próxima vítima fatal.
De titãs. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, poderia até ter vontade de se candidatar a presidente nesta eleição.
Mas não dará o gosto ao PT de acusá-lo de uso eleitoral do julgamento do processo do mensalão. Na nota que o ministro divulgou sobre o assunto, deixou aberta a possibilidade de entrar na disputa eleitoral no futuro.
Interpretou-se que em 2018. Eleição em que o ex-presidente Lula também admite concorrer.
Volta do cipó. Nessa toada de deserções e contestações às regras trabalhistas, área sensível ao partido do governo brasileiro, o programa Mais Médicos corre o risco de se transformar em fator de menos votos para Alexandre Padilha, o ministro da Saúde executor do projeto e candidato do PT ao governo de São Paulo.
A avaliação não é da oposição que, atarantada com o sucesso inicial, deu apoio e ainda não sabe como alterar a rota sem cair em contradição.
Vamos ver se ficou entendido: o governo federal propõe a proibição do anonimato nas manifestações de rua, exige que os cidadãos se identifiquem à autoridade policial, mas não vê empecilho no uso de máscaras e pinturas para quem desejar assim, de maneira anônima, participar dos protestos.
A justificativa é a de que cada um é livre para se expressar como bem entender e que seria - na expressão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo - "complicado" a polícia intervir para enquadrar "quatro ou cinco mascarados".
Pessoas que sem a menor complicação já estão avisando, como fizeram na edição de domingo do Estado, que durante a Copa do Mundo estão dispostas a "tacar molotov" para "dar susto em gringo". A intenção não é machucar, dizem, mas se for preciso, se ninguém os "ouvir", não haverá outro jeito a não ser abrir fogo.
E como o farão? Mascarados, claro. Para dificultar a identificação. Na ideia do ministro da Justiça isso se resolve com a polícia pedindo aos rapazes e moças a carteira de identidade ali no meio da confusão. Documentos estes que serão prontamente apresentados pelos jovens que estão ali com a intenção de colaborar, pois não?
Parece brincadeira. Trata-se de um raciocínio que, no limite, reserva a um delinquente com um morteiro, uma pedra, um rojão ou um coquetel molotov nas mãos e na cabeça a ideia da destruição o mesmo tratamento dado ao folião fantasiado num bloco de carnaval.
Ambos portam alegorias, têm o mesmo direito de se manifestar livremente nas ruas e, em princípio, não podem ser acusados de sair de casa para fazer o mal. É o que parece pensar o governo federal.
Essa é uma teoria tola tão distante da crueza da realidade que deve estar mal explicada. Falta alguma coisa, não deve ser exatamente esse o pensamento do governo. Aguardemos, logo possivelmente haverá uma correção.
Essas ações violentas já produziram muitos feridos, causaram uma morte e causarão outras. Está escrito. O uso da máscara protege o potencial criminoso e é sobre isso que fala o secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, quando propõe a proibição inexplicavelmente rechaçada pelo governo federal.
O ministro da Justiça defende o aumento das penas dos crimes cometidos nas manifestações, mas assume uma posição que dificulta a prevenção à ocorrência dos delitos. É contra a exigência de aviso prévio dos atos de protesto por temer a restrição a manifestações espontâneas tais como, exemplifica, "uma ação em defesa de algum professor por parte de alunos de uma escola".
Comparação tão descabida que em breve certamente será corrigida. Queira o bom senso, antes da próxima vítima fatal.
De titãs. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, poderia até ter vontade de se candidatar a presidente nesta eleição.
Mas não dará o gosto ao PT de acusá-lo de uso eleitoral do julgamento do processo do mensalão. Na nota que o ministro divulgou sobre o assunto, deixou aberta a possibilidade de entrar na disputa eleitoral no futuro.
Interpretou-se que em 2018. Eleição em que o ex-presidente Lula também admite concorrer.
Volta do cipó. Nessa toada de deserções e contestações às regras trabalhistas, área sensível ao partido do governo brasileiro, o programa Mais Médicos corre o risco de se transformar em fator de menos votos para Alexandre Padilha, o ministro da Saúde executor do projeto e candidato do PT ao governo de São Paulo.
A avaliação não é da oposição que, atarantada com o sucesso inicial, deu apoio e ainda não sabe como alterar a rota sem cair em contradição.
Aliança com a repressão - JOSÉ CASADO
O GLOBO - 18/02
Dilma Rousseff esquece o mea culpa sobre protestos no Brasil e criminaliza manifestações de estudantes na Venezuela
Noite de sábado (15). Quarto dia em que estudantes ocupam as ruas de mais de uma centena de cidades. O presidente da Venezuela justifica em discurso a suspensão dos serviços de transportes coletivos em Caracas e a censura: “Foi uma decisão de Estado.” Na cena, ao fundo, a bandeira brasileira se destaca em par com a venezuelana.
Pela segunda vez no dia, Nicolás Maduro diz que não vai renunciar. Enfático, diante de uma plateia de representantes do Mercosul, acrescenta: “O meu governo vai mais além da legitimidade política, eleitoral e constitucional. Tem uma legitimidade abarcante, de várias dimensões.”
O domingo (16) termina com a confirmação de três mortes a bala — dois estudantes e um chefe de milícia chavista, aparentemente confundido pela polícia. Organizações de defesa dos direitos humanos relatam dezenas de feridos e divulgam casos de tortura de presos.
Nessas 48 horas, o governo Dilma Rousseff subscreveu duas notas diplomáticas, divulgadas com alegria pelo governo Maduro. Na primeira, com o selo da Unasul, atribui-se aos manifestantes “a intenção de desestabilizar a ordem democrática”. Na segunda, com o carimbo do Mercosul, qualificam-se os protestos como “ações criminosas” destinadas a “disseminar a intolerância e o ódio como instrumento de luta política”.
Uma das novidades das manifestações na Venezuela é a inexistência de líderes visíveis. Pela primeira vez, caciques do chavismo e opositores foram atropelados. Só não vê quem não quer.
Ao subscrever a criminalização dos protestos dos estudantes venezuelanos, Dilma esqueceu seu mea culpa sobre as manifestações no Brasil, em setembro: “Devemos ter humildade e autocrítica para admitir que existe um país com problemas urgentes a vencer, e a população tem todo o direito de se indignar com o que existe de errado e cobrar mudanças.”
A Venezuela enfrenta aguda escassez de alimentos, remédios e produtos básicos como papel higiênico. Maduro há muito perdeu a bússola na economia, na política e nos movimentos sociais, inclusive nas facções chavistas, cada dia mais fragmentadas. Até agora só apresentou uma resposta à sociedade: radicalização na repressão, cujo arsenal em parte provém do Brasil.
É pouco provável que a Embaixada do Brasil em Caracas não possua as mesmas informações que levaram a ONU, a OEA e a União Europeia a reagir com apelos à “justiça para os mortos” e ao “respeito pelo direito de protesto e liberdade de expressão”.
A única saída possível na crise venezuelana é a política, porque, como diz Hans Dieterich, ex-conselheiro de Hugo Chávez, o país realmente está à beira “de uma guerra civil”.
Em situações assim, vizinhos ajudam no papel de mediadores. Dilma descredenciou o Brasil, ao preferir a aliança com um governo que persiste no sequestro da liberdade.
Há momentos que são decisivos na biografia de líderes políticos, ensina Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz (1987). Domingo, ele escreveu:
“Não vou me calar quando se vulneram os direitos humanos. Não vou me calar quando só a existência de um governo como o da Venezuela é uma afronta à democracia. Não vou me calar quando se põe em xeque a vida de seres humanos, por defender seus direitos de cidadania. Já vivi o suficiente para saber que não há nada pior do que ter medo de dizer a verdade.”
Dilma Rousseff esquece o mea culpa sobre protestos no Brasil e criminaliza manifestações de estudantes na Venezuela
Noite de sábado (15). Quarto dia em que estudantes ocupam as ruas de mais de uma centena de cidades. O presidente da Venezuela justifica em discurso a suspensão dos serviços de transportes coletivos em Caracas e a censura: “Foi uma decisão de Estado.” Na cena, ao fundo, a bandeira brasileira se destaca em par com a venezuelana.
Pela segunda vez no dia, Nicolás Maduro diz que não vai renunciar. Enfático, diante de uma plateia de representantes do Mercosul, acrescenta: “O meu governo vai mais além da legitimidade política, eleitoral e constitucional. Tem uma legitimidade abarcante, de várias dimensões.”
O domingo (16) termina com a confirmação de três mortes a bala — dois estudantes e um chefe de milícia chavista, aparentemente confundido pela polícia. Organizações de defesa dos direitos humanos relatam dezenas de feridos e divulgam casos de tortura de presos.
Nessas 48 horas, o governo Dilma Rousseff subscreveu duas notas diplomáticas, divulgadas com alegria pelo governo Maduro. Na primeira, com o selo da Unasul, atribui-se aos manifestantes “a intenção de desestabilizar a ordem democrática”. Na segunda, com o carimbo do Mercosul, qualificam-se os protestos como “ações criminosas” destinadas a “disseminar a intolerância e o ódio como instrumento de luta política”.
Uma das novidades das manifestações na Venezuela é a inexistência de líderes visíveis. Pela primeira vez, caciques do chavismo e opositores foram atropelados. Só não vê quem não quer.
Ao subscrever a criminalização dos protestos dos estudantes venezuelanos, Dilma esqueceu seu mea culpa sobre as manifestações no Brasil, em setembro: “Devemos ter humildade e autocrítica para admitir que existe um país com problemas urgentes a vencer, e a população tem todo o direito de se indignar com o que existe de errado e cobrar mudanças.”
A Venezuela enfrenta aguda escassez de alimentos, remédios e produtos básicos como papel higiênico. Maduro há muito perdeu a bússola na economia, na política e nos movimentos sociais, inclusive nas facções chavistas, cada dia mais fragmentadas. Até agora só apresentou uma resposta à sociedade: radicalização na repressão, cujo arsenal em parte provém do Brasil.
É pouco provável que a Embaixada do Brasil em Caracas não possua as mesmas informações que levaram a ONU, a OEA e a União Europeia a reagir com apelos à “justiça para os mortos” e ao “respeito pelo direito de protesto e liberdade de expressão”.
A única saída possível na crise venezuelana é a política, porque, como diz Hans Dieterich, ex-conselheiro de Hugo Chávez, o país realmente está à beira “de uma guerra civil”.
Em situações assim, vizinhos ajudam no papel de mediadores. Dilma descredenciou o Brasil, ao preferir a aliança com um governo que persiste no sequestro da liberdade.
Há momentos que são decisivos na biografia de líderes políticos, ensina Óscar Arias, ex-presidente da Costa Rica e Prêmio Nobel da Paz (1987). Domingo, ele escreveu:
“Não vou me calar quando se vulneram os direitos humanos. Não vou me calar quando só a existência de um governo como o da Venezuela é uma afronta à democracia. Não vou me calar quando se põe em xeque a vida de seres humanos, por defender seus direitos de cidadania. Já vivi o suficiente para saber que não há nada pior do que ter medo de dizer a verdade.”
Pontinha de inveja - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 18/02
CANBERRA (AUSTRÁLIA) - Brasil e Austrália são como uma gangorra. Ambos são lindos, enormes e razoavelmente novos --a Austrália é ainda mais jovem--, mas os dados ou índices dos dois países são curiosamente invertidos.
Arredondando, o Brasil é o quinto maior país do mundo, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e a Austrália vem logo atrás: é o sexto, com 7,6 milhões.
Olhando-se o tamanho da população, porém, há um fosso imenso. O Brasil continua em quinto do mundo, enquanto a Austrália come poeira: está em 52º lugar. A diferença, mais uma vez arredondando, é de 25 para 200 milhões.
A desproporção entre território e habitantes --o Brasil densamente povoado e a Austrália com baixa densidade populacional-- deságua na inversão entre o PIB e o PIB per capita dos dois países.
O Brasil está entre a sexta e a oitava economia e a Austrália fica em torno da 13ª. Mas, quando o indicador é o PIB per capita, a Austrália é muito bem situada, já o Brasil...
Ou seja: o Brasil é mais rico e muito mais populoso, e a Austrália, bem menos povoada, dependendo de migrantes, tem uma qualidade de vida muito melhor. Até porque a renda é dividida por bem menos cidadãos.
Como impressão de quem está apenas de passagem: a capital, Canberra, a jovial Sydney e a pujante Brisbane são muito limpas, organizadas, modernas. E você não vê favelas e miseráveis, nem morre de medo de botar o nariz na rua e levar um tiro. Os índices de violência são muito baixos e os "black blocs" não têm nem espaço nem motivação. Tudo na santa paz.
Foi nesse clima que Sidney hospedou a Olimpíada de 2000 e vai receber os ministros da Fazenda e os presidentes de bancos centrais do G20 (que inclui as maiores economias do planeta) a partir de sexta-feira.
Mantega e Tombini vão ter a chance de olhar ao redor e ficar com uma pontinha de inveja.
CANBERRA (AUSTRÁLIA) - Brasil e Austrália são como uma gangorra. Ambos são lindos, enormes e razoavelmente novos --a Austrália é ainda mais jovem--, mas os dados ou índices dos dois países são curiosamente invertidos.
Arredondando, o Brasil é o quinto maior país do mundo, com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, e a Austrália vem logo atrás: é o sexto, com 7,6 milhões.
Olhando-se o tamanho da população, porém, há um fosso imenso. O Brasil continua em quinto do mundo, enquanto a Austrália come poeira: está em 52º lugar. A diferença, mais uma vez arredondando, é de 25 para 200 milhões.
A desproporção entre território e habitantes --o Brasil densamente povoado e a Austrália com baixa densidade populacional-- deságua na inversão entre o PIB e o PIB per capita dos dois países.
O Brasil está entre a sexta e a oitava economia e a Austrália fica em torno da 13ª. Mas, quando o indicador é o PIB per capita, a Austrália é muito bem situada, já o Brasil...
Ou seja: o Brasil é mais rico e muito mais populoso, e a Austrália, bem menos povoada, dependendo de migrantes, tem uma qualidade de vida muito melhor. Até porque a renda é dividida por bem menos cidadãos.
Como impressão de quem está apenas de passagem: a capital, Canberra, a jovial Sydney e a pujante Brisbane são muito limpas, organizadas, modernas. E você não vê favelas e miseráveis, nem morre de medo de botar o nariz na rua e levar um tiro. Os índices de violência são muito baixos e os "black blocs" não têm nem espaço nem motivação. Tudo na santa paz.
Foi nesse clima que Sidney hospedou a Olimpíada de 2000 e vai receber os ministros da Fazenda e os presidentes de bancos centrais do G20 (que inclui as maiores economias do planeta) a partir de sexta-feira.
Mantega e Tombini vão ter a chance de olhar ao redor e ficar com uma pontinha de inveja.
Democracia de baixa qualidade - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 18/02
Os pontos-chave
1 - A preocupação de proteger as manifestações populares é legítima, mas seria desnecessária se nosso sistema democrático estivesse já mais consolidado. Ou se o sistema jurídico funcionasse com eficiência e rapidez.
2 - Em democracias maduras, a legislação antiterrorismo não impede demonstrações populares a favor ou contra qualquer coisa, com o detalhe de que elas têm dia e hora marcados com as autoridades locais, que definem a área em que poderão ser feitas.
3 - Extrema esquerda e direita achavam que a confusão generalizada serviria a seus interesses imediatos e foram lenientes na condenação dos atos de vandalismos.
A discussão sobre a lei antiterrorismo brasileira fica emperrada pelo temor de que uma definição muito ampla do que seja o crime possa permitir uma ação autoritária do governo da ocasião para enquadrar movimentos sociais legítimos nas duras penas que seriam aplicadas aos terroristas.
E todos aqueles que defendem um rigor na punição passam a ser considerados white blocs, reacionários, saudosistas da ditadura militar.
Os dois acusados da morte do cinegrafista Santiago Andrade responderão por homicídio doloso (com intenção de matar) triplamente qualificado: motivo torpe, que a vítima não teve possibilidade de defesa e que foi usado um artefato explosivo para tirar a vida da vítima, o que demonstra como é preciso recorrer a estratagemas jurídicos para punir com rigor os autores desses atos criminosos, pois a legislação atual é muito branda.
Quando não há mortes, então, aí o melhor é liberar os vândalos, que dá menos aborrecimento político. O tal do "Fox" já havia sio preso duas vezes em manifestações.
A pena existente hoje para danos ao patrimônio público, por exemplo, é de seis meses a um ano de reclusão.
Os dois ainda responderão pelo crime de explosão em área pública - com pena de até quatro anos.
O projeto antiterrorismo inclui previsão de pena maior quando há emprego de "explosivo, fogo, arma química, biológica ou radioativa, ou outro meio capaz de causar danos ou promover destruição em massa".
A preocupação de proteger as manifestações populares é legítima, mas seria desnecessária se nosso sistema democrático estivesse já mais consolidado. Ou se o sistema jurídico funcionasse com eficiência e rapidez.
Em democracias maduras, a legislação antiterrorismo não impede grandes demonstrações populares a favor ou contra qualquer coisa, com o detalhe de que essas manifestações têm dia e hora marcados com as autoridades locais, que definem a área em que poderão ser feitas. Esse detalhe é fundamental para que o dia a dia das pessoas seja protegido.
Essa discussão toda deixa claro que ainda estamos em uma democracia incipiente, de baixa qualidade, na qual quem se julga "de esquerda" sente-se protegido por suas supostas boas intenções, e quem é considerado "de direita" é automaticamente um ser inferior, culpado de todos os males sobre a terra.
Por isso os black blocs foram tratados, e ainda o são, por setores de nossa intelectualidade e por políticos como uma vanguarda do progresso, e os primeiros movimentos no sentido de enquadrá-los em legislação mais dura encontraram resistência de partidos e intelectuais "de esquerda" que consideram ainda, a despeito da morte do cinegrafista, uma estética de luta adequada à pós modernidade.
Desde os anos 1980, esse tipo de ação política vem sendo combatido com rigor na Europa e países democráticos como a Alemanha e a Holanda já proibiram os mascarados em manifestações há muito tempo, e nós aqui ficamos brincando de democracia, preocupados com a proteção de pessoas que a desprezam e estão nas ruas para tentar destruí-la.
Se já tivéssemos tido uma ação mais rigorosa, talvez não acontecesse a tragédia que agora todos lamentam.
Se partidos políticos de extrema esquerda em vez de apoiar a tática dos black blocs tivessem repelido as ações violentas, talvez a tragédia não se consumasse.
Se direitistas empenhados em tumultuar o ambiente político não tivessem utilizado o lumpesinato para promover arruaças pelas ruas do Rio ou se fossem repelidos desde o primeiro momento, talvez a ação dos black blocs não chegasse onde chegou. Mas todos, no íntimo, achavam que a confusão generalizada serviria a seus interesses imediatos, e foram lenientes na condenação dos atos de vandalismos.
Agora, mais uma vez, nos vemos envolvidos em uma discussão banal sobre a proibição de mascarados em manifestações. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo a muito custo aceitou a proibição das máscaras, mas ainda insiste na possibilidade de os mascarados serem abordados pelos policiais para que se identifiquem e só depois da recusa poderiam ser detidos. Ora, quem vai mascarado para um protesto está disposto a se esconder, a fugir de suas responsabilidades. Não há por que aceitar esse tipo de procedimento.
E todos aqueles que defendem um rigor na punição passam a ser considerados white blocs, reacionários, saudosistas da ditadura militar.
Os dois acusados da morte do cinegrafista Santiago Andrade responderão por homicídio doloso (com intenção de matar) triplamente qualificado: motivo torpe, que a vítima não teve possibilidade de defesa e que foi usado um artefato explosivo para tirar a vida da vítima, o que demonstra como é preciso recorrer a estratagemas jurídicos para punir com rigor os autores desses atos criminosos, pois a legislação atual é muito branda.
Quando não há mortes, então, aí o melhor é liberar os vândalos, que dá menos aborrecimento político. O tal do "Fox" já havia sio preso duas vezes em manifestações.
A pena existente hoje para danos ao patrimônio público, por exemplo, é de seis meses a um ano de reclusão.
Os dois ainda responderão pelo crime de explosão em área pública - com pena de até quatro anos.
O projeto antiterrorismo inclui previsão de pena maior quando há emprego de "explosivo, fogo, arma química, biológica ou radioativa, ou outro meio capaz de causar danos ou promover destruição em massa".
A preocupação de proteger as manifestações populares é legítima, mas seria desnecessária se nosso sistema democrático estivesse já mais consolidado. Ou se o sistema jurídico funcionasse com eficiência e rapidez.
Em democracias maduras, a legislação antiterrorismo não impede grandes demonstrações populares a favor ou contra qualquer coisa, com o detalhe de que essas manifestações têm dia e hora marcados com as autoridades locais, que definem a área em que poderão ser feitas. Esse detalhe é fundamental para que o dia a dia das pessoas seja protegido.
Essa discussão toda deixa claro que ainda estamos em uma democracia incipiente, de baixa qualidade, na qual quem se julga "de esquerda" sente-se protegido por suas supostas boas intenções, e quem é considerado "de direita" é automaticamente um ser inferior, culpado de todos os males sobre a terra.
Por isso os black blocs foram tratados, e ainda o são, por setores de nossa intelectualidade e por políticos como uma vanguarda do progresso, e os primeiros movimentos no sentido de enquadrá-los em legislação mais dura encontraram resistência de partidos e intelectuais "de esquerda" que consideram ainda, a despeito da morte do cinegrafista, uma estética de luta adequada à pós modernidade.
Desde os anos 1980, esse tipo de ação política vem sendo combatido com rigor na Europa e países democráticos como a Alemanha e a Holanda já proibiram os mascarados em manifestações há muito tempo, e nós aqui ficamos brincando de democracia, preocupados com a proteção de pessoas que a desprezam e estão nas ruas para tentar destruí-la.
Se já tivéssemos tido uma ação mais rigorosa, talvez não acontecesse a tragédia que agora todos lamentam.
Se partidos políticos de extrema esquerda em vez de apoiar a tática dos black blocs tivessem repelido as ações violentas, talvez a tragédia não se consumasse.
Se direitistas empenhados em tumultuar o ambiente político não tivessem utilizado o lumpesinato para promover arruaças pelas ruas do Rio ou se fossem repelidos desde o primeiro momento, talvez a ação dos black blocs não chegasse onde chegou. Mas todos, no íntimo, achavam que a confusão generalizada serviria a seus interesses imediatos, e foram lenientes na condenação dos atos de vandalismos.
Agora, mais uma vez, nos vemos envolvidos em uma discussão banal sobre a proibição de mascarados em manifestações. O ministro da Justiça José Eduardo Cardozo a muito custo aceitou a proibição das máscaras, mas ainda insiste na possibilidade de os mascarados serem abordados pelos policiais para que se identifiquem e só depois da recusa poderiam ser detidos. Ora, quem vai mascarado para um protesto está disposto a se esconder, a fugir de suas responsabilidades. Não há por que aceitar esse tipo de procedimento.
O Brasil executicentrista - ROBERTO ROMANO
CORREIO BRAZILIENSE - 18/02
O Estado, tal como o conhecemos, teve o apogeu nos séculos 16 e 17, a era do absolutismo. Desde então, sofreu mudanças rumo à vida democrática (com as revoluções da Inglaterra, ainda no século 17, e a norte-americana e a francesa no século 18). Mas logo o aparelho estatal rumou para a recusa da democracia e enrijeceu os mecanismos repressivos com a hegemonia do poder Executivo sobre os parlamentos e a Justiça. Napoleão inaugurou essa maneira de governar, cuja evolução levou, no século 20, aos totalitarismos nazista, fascista, stalinista. Com o controle do Executivo sobre a sociedade, a política pouco a pouco se reduziu ao procedimento plebiscitário: as eleições deixaram de significar aprovação ou negativa cidadã aos projetos de política pública e se reduziram à tarefa de aprovar ou indeferir os mandatos do chefe de governo ou de Estado.
Com os braços postos em todas as governanças (econômica, social, esportiva, artística etc.), o Executivo se transformou na única fonte de recursos públicos, nominalmente responsável pela segurança, saúde, educação, transporte, lazer. Bem ou mal, no Brasil herdeiro do executicentrismo absolutista se conseguiu, até os anos 50 do século passado, harmonizar, de algum modo, a prática plebiscitária e a administração dos assuntos coletivos.
A partir de JK (com a simbólica construção de Brasília, que concentrou o poder estatal ainda mais num ponto geográfico), assistimos à vertiginosa passagem da ordem rural para a urbana. Com os 50 anos em 5 do juscelinismo e as estradas sob a batuta de empreiteiras, surgem aglomerados urbanos aniquilando o sertão. O Brasil deixa de ser uma esteira ao longo do Atlântico (a longa fila de capitais que vai de Manaus a Porto Alegre) e se transforma em uma terra mais densamento povoada.
No período ditatorial, a geração de estradas aumenta, bem como a migração de interioranos rumo aos grandes centros, conduzindo para as periferias massas cujo emprego e salários são precários e cujas reivindicações de políticas públicas ainda são incipientes. Mesmo assim, as tensões e o mal-estar trazido pelas aglomerações humanas geraram muitas lutas, quase sempre enfrentadas pela força física policial, com base numa justiça cujos representantes viviam a realidade anterior ao denso povoamento urbano pós-JK.
A maior condensação humana em centros médios espalhados pelo país trouxe, ao mesmo tempo, acúmulo inédito de carências na ordem pública (saúde, segurança, educação) e informação para a nova cidadania. Não por acaso, a ditadura tratou de censurar a imprensa, pois seus estrategistas perceberam o potencial da oposição que poderia ser erguida com setores urbanizados e com maior conhecimento da realidade. As eleições de 1974 marcam uma virada decisiva na vida do país. Mesmo sob forte propaganda do regime, as oposições venceram, inviabilizando a ditadura. A livre imprensa desempenha grande papel na virada.
Depois do regime civil e militar, o país patinou na economia e nas políticas públicas. A inflação, herdada do período autoritário, mostrou a força, tornando inúteis os planos que, desde o Cruzado até o Bresser, apenas atacavam os efeitos do processo inflacionário sem mudar a lógica do combate. O executivocentrismo plebiscitário, levado adiante sob Sarney e Collor, piorava o descontrole econômico e jogava as políticas públicas para o plano da mera propaganda eleitoreira.
O Plano Real conseguiu mudar a referida lógica, idealizado que foi sob um presidente interino que dele não dependia para vencer eleições. Além de atenuar a inflação, possibilitou a entrada, lenta no início, e cada vez mais acelerada depois, de imensas massas antes presas aos grotões das periferias. Tais massas passaram a exigir serviços públicos compatíveis com as suas carências, enfrentando a quase inatividade eleitoreira dos políticos com os programas que, em grande parte, eram apenas demagogia. O "fura-fila" imaginado por Duda Mendonça para captar os votos paulistanos é paradigmático, mas inúmeros outros artifícios retóricos poderiam ser referidos.
Resultado: com a máquina mastodôntica e burocratizada do poder federal, que concentra todas as políticas públicas nos palácios de Brasília, e sem verdadeira administração continuada em períodos não eleitorais (períodos que se tornam a cada dia mais curtos), as massas só encontram a propaganda diante de si, sem nenhuma solução digna do nome quando se trata de política pública. Os políticos que controlam estados e municípios não têm recursos financeiros e técnicos nem autonomia e competência para encaminhar problemas agudizados pela entrada das novas multidões no espaço urbano.
Pescadores de água turva (e como são turvas!) das mais diversas ideologias, como é o caso dos black blocs, colocam em questão o velho aparelho do governo dominado pelo ineficiente e caduco Executivo federal. Se a forma concentracionária do poder não mudar rumo ao federalismo de fato, multidões cada vez mais raivosas e desorientadas mostrarão aos oportunistas de sempre que a ilusão de mando é, a cada instante, mais frágil.
Com os braços postos em todas as governanças (econômica, social, esportiva, artística etc.), o Executivo se transformou na única fonte de recursos públicos, nominalmente responsável pela segurança, saúde, educação, transporte, lazer. Bem ou mal, no Brasil herdeiro do executicentrismo absolutista se conseguiu, até os anos 50 do século passado, harmonizar, de algum modo, a prática plebiscitária e a administração dos assuntos coletivos.
A partir de JK (com a simbólica construção de Brasília, que concentrou o poder estatal ainda mais num ponto geográfico), assistimos à vertiginosa passagem da ordem rural para a urbana. Com os 50 anos em 5 do juscelinismo e as estradas sob a batuta de empreiteiras, surgem aglomerados urbanos aniquilando o sertão. O Brasil deixa de ser uma esteira ao longo do Atlântico (a longa fila de capitais que vai de Manaus a Porto Alegre) e se transforma em uma terra mais densamento povoada.
No período ditatorial, a geração de estradas aumenta, bem como a migração de interioranos rumo aos grandes centros, conduzindo para as periferias massas cujo emprego e salários são precários e cujas reivindicações de políticas públicas ainda são incipientes. Mesmo assim, as tensões e o mal-estar trazido pelas aglomerações humanas geraram muitas lutas, quase sempre enfrentadas pela força física policial, com base numa justiça cujos representantes viviam a realidade anterior ao denso povoamento urbano pós-JK.
A maior condensação humana em centros médios espalhados pelo país trouxe, ao mesmo tempo, acúmulo inédito de carências na ordem pública (saúde, segurança, educação) e informação para a nova cidadania. Não por acaso, a ditadura tratou de censurar a imprensa, pois seus estrategistas perceberam o potencial da oposição que poderia ser erguida com setores urbanizados e com maior conhecimento da realidade. As eleições de 1974 marcam uma virada decisiva na vida do país. Mesmo sob forte propaganda do regime, as oposições venceram, inviabilizando a ditadura. A livre imprensa desempenha grande papel na virada.
Depois do regime civil e militar, o país patinou na economia e nas políticas públicas. A inflação, herdada do período autoritário, mostrou a força, tornando inúteis os planos que, desde o Cruzado até o Bresser, apenas atacavam os efeitos do processo inflacionário sem mudar a lógica do combate. O executivocentrismo plebiscitário, levado adiante sob Sarney e Collor, piorava o descontrole econômico e jogava as políticas públicas para o plano da mera propaganda eleitoreira.
O Plano Real conseguiu mudar a referida lógica, idealizado que foi sob um presidente interino que dele não dependia para vencer eleições. Além de atenuar a inflação, possibilitou a entrada, lenta no início, e cada vez mais acelerada depois, de imensas massas antes presas aos grotões das periferias. Tais massas passaram a exigir serviços públicos compatíveis com as suas carências, enfrentando a quase inatividade eleitoreira dos políticos com os programas que, em grande parte, eram apenas demagogia. O "fura-fila" imaginado por Duda Mendonça para captar os votos paulistanos é paradigmático, mas inúmeros outros artifícios retóricos poderiam ser referidos.
Resultado: com a máquina mastodôntica e burocratizada do poder federal, que concentra todas as políticas públicas nos palácios de Brasília, e sem verdadeira administração continuada em períodos não eleitorais (períodos que se tornam a cada dia mais curtos), as massas só encontram a propaganda diante de si, sem nenhuma solução digna do nome quando se trata de política pública. Os políticos que controlam estados e municípios não têm recursos financeiros e técnicos nem autonomia e competência para encaminhar problemas agudizados pela entrada das novas multidões no espaço urbano.
Pescadores de água turva (e como são turvas!) das mais diversas ideologias, como é o caso dos black blocs, colocam em questão o velho aparelho do governo dominado pelo ineficiente e caduco Executivo federal. Se a forma concentracionária do poder não mudar rumo ao federalismo de fato, multidões cada vez mais raivosas e desorientadas mostrarão aos oportunistas de sempre que a ilusão de mando é, a cada instante, mais frágil.
Verdades que não podem ser definitivas - PAULO ROBERTO DE ALMEIDA
O Estado de S.Paulo - 18/02
Algumas "teses" passam por verdades. Como não estou de acordo com algumas delas, permito-me fazer correções a essas "verdades inquestionáveis".
1) Este é o pior Congresso de todos tempos. Não, não é: este é apenas um Congresso "normal", que reflete as realidades políticas brasileiras, e os "tempos" ainda não acabaram. Teremos Congressos ainda piores do que este, pela simples razão de que o Brasil se encontra em plena construção de sua "democracia de massas". Inevitável, assim, que as antigas representações elitistas sejam podadas em favor de novos representantes das classes populares e de setores organizados: sindicatos, igrejas, movimentos sociais, grupos de interesse setorial, etc. O sistema político é uma importante modalidade de ascensão social, atraindo arrivistas e oportunistas que têm no Congresso um excelente vetor de "negócios" de todo gênero.
2) A carga tributária brasileira já bateu no teto, impossível subir mais. Outro ledo engano. Não há limite teórico para a carga tributária, embora possa haver limites práticos, dada a conhecida relação entre taxação e receitas. Quem disse que a carga tributária não pode aumentar mais não conhece a sanha arrecadatória da nossa máquina fiscal, uma das mais eficientes do mundo. As despesas contratadas pelo Estado têm de ser financiadas de alguma forma e o governo vem criando novas fontes de gastos por meio dos programas sociais. Ou seja, continuaremos pagando cada vez mais para o Estado cobrir essas "obrigações", que, diga-se de passagem, são demandadas pela própria sociedade. O povo brasileiro adora o Estado, implora que o Estado venha em seu socorro com programinhas sociais ou com alguma nova prestação especial.
3) A corrupção atingiu limites nunca vistos, não é mais possível continuar assim. Difícil saber, pois não dispomos de um "corruptômetro" para medir avanços e recuos da corrupção. Quantos "por cento" do produto interno bruto (PIB) são intermediados de maneira heterodoxa? Difícil saber, não é mesmo? Não temos base de comparação, histórica ou atual. O certo é que a corrupção tende a aumentar quando fluxos de receitas e de pagamentos transitam pelos canais oficiais, uma vez que transações puramente privadas são vigiadas pelas partes, cada uma cuidando do seu rico dinheirinho. O dinheiro da "viúva" é um pouco de todo mundo: existem milhares de programas "essenciais" para o bem-estar público, objeto de planejamento, discussão congressual, alocação, empenho, licitação, leilão, concorrência, doação, etc. É evidente que num sistema assim alguns dos muitos intermediadores encontrarão alguma maneira de desviar o dinheiro "público" para seu próprio usufruto. Quanto maior proporção do PIB brasileiro passar pelos canais públicos, maiores serão as oportunidades de corrupção. A corrupção só diminuirá quando menores volumes de recursos passarem pelos canais oficiais. Elementar, não é mesmo?
4) A qualidade da educação já atingiu patamares mínimos, tem de melhorar. Os otimistas incuráveis acham que a escola pública já piorou o que tinha de piorar e que daqui para a frente o movimento será no sentido de sua melhoria. Eu acho que ainda não atingimos o fundo do poço, independentemente do volume de recursos que se jogue no sistema atual. Existe uma incultura generalizada na sociedade, detectável nos canais públicos de televisão e nas universidades de modo geral, sem mencionar as "saúvas freireanas" do Ministério da Educação (MEC). Resultado paralelo de nossa "democracia de massas" e de um descaso generalizado com a escola pública, mais e mais pessoas ignorantes ascendem a posições de mando, com o que continuam contribuindo para a deterioração ainda maior do ensino, público ou privado. Uma ignorância enciclopédica atinge os mais variados campos do saber humano; como não existe muita autocrítica, ela continua impunemente produzindo efeitos deletérios sobre o nosso sistema de ensino. Acreditem, não há nenhum risco de melhoria da educação brasileira no futuro previsível.
5) O Brasil está condenado a ser grande e importante, é o país do futuro. Essas tiradas patrioteiras nunca me comoveram, pela simples razão de que tamanho não é documento. A China sempre foi enorme, gigantesca, e decaiu continuamente durante três ou mais séculos, antes de começar a reerguer-se, penosamente, nas duas últimas décadas do século 20. Ela está longe, ainda, de ser um exemplo de prosperidade para o seu povo, mesmo que possa já ser uma potência militar e venha a ser, brevemente, uma potência tecnológica, também. A Rússia sempre foi um gigante de pés de barro, seja no antigo regime czarista, seja durante os anos de socialismo senil, até se esboroar na decadência política e no capitalismo mafioso, do qual o país ainda não se recuperou.
O Brasil sempre foi grande, e pobre, não absolutamente, mas educacionalmente paupérrimo, miserabilíssimo no plano cultural. Somos hoje um país totalmente industrializado - repito, totalmente - e uma potência no agronegócio, mas não deixamos de ser pobres, educacionalmente falando. Ainda estamos no século 18 em matéria de ensino, quando não de cultura. Bem sei que dispomos, atualmente, de um sistema de produção científica que se situa entre os 20 melhores do mundo, mas isso "atinge", se tanto, uma mínima parcela da população, uma superestrutura extremamente fina em termos sociais. O que vale, em última instância, não é poder econômico absoluto, mas o poder relativo e, sobretudo, bem-estar e prosperidade para a população, qualidade de vida, e nisso estamos muito aquém do desejável. O Brasil continuará sendo um gigante de pés de barro enquanto não resolver problemas básicos no interior de suas fronteiras. Para mim, ele continua pequeno...
Algumas "teses" passam por verdades. Como não estou de acordo com algumas delas, permito-me fazer correções a essas "verdades inquestionáveis".
1) Este é o pior Congresso de todos tempos. Não, não é: este é apenas um Congresso "normal", que reflete as realidades políticas brasileiras, e os "tempos" ainda não acabaram. Teremos Congressos ainda piores do que este, pela simples razão de que o Brasil se encontra em plena construção de sua "democracia de massas". Inevitável, assim, que as antigas representações elitistas sejam podadas em favor de novos representantes das classes populares e de setores organizados: sindicatos, igrejas, movimentos sociais, grupos de interesse setorial, etc. O sistema político é uma importante modalidade de ascensão social, atraindo arrivistas e oportunistas que têm no Congresso um excelente vetor de "negócios" de todo gênero.
2) A carga tributária brasileira já bateu no teto, impossível subir mais. Outro ledo engano. Não há limite teórico para a carga tributária, embora possa haver limites práticos, dada a conhecida relação entre taxação e receitas. Quem disse que a carga tributária não pode aumentar mais não conhece a sanha arrecadatória da nossa máquina fiscal, uma das mais eficientes do mundo. As despesas contratadas pelo Estado têm de ser financiadas de alguma forma e o governo vem criando novas fontes de gastos por meio dos programas sociais. Ou seja, continuaremos pagando cada vez mais para o Estado cobrir essas "obrigações", que, diga-se de passagem, são demandadas pela própria sociedade. O povo brasileiro adora o Estado, implora que o Estado venha em seu socorro com programinhas sociais ou com alguma nova prestação especial.
3) A corrupção atingiu limites nunca vistos, não é mais possível continuar assim. Difícil saber, pois não dispomos de um "corruptômetro" para medir avanços e recuos da corrupção. Quantos "por cento" do produto interno bruto (PIB) são intermediados de maneira heterodoxa? Difícil saber, não é mesmo? Não temos base de comparação, histórica ou atual. O certo é que a corrupção tende a aumentar quando fluxos de receitas e de pagamentos transitam pelos canais oficiais, uma vez que transações puramente privadas são vigiadas pelas partes, cada uma cuidando do seu rico dinheirinho. O dinheiro da "viúva" é um pouco de todo mundo: existem milhares de programas "essenciais" para o bem-estar público, objeto de planejamento, discussão congressual, alocação, empenho, licitação, leilão, concorrência, doação, etc. É evidente que num sistema assim alguns dos muitos intermediadores encontrarão alguma maneira de desviar o dinheiro "público" para seu próprio usufruto. Quanto maior proporção do PIB brasileiro passar pelos canais públicos, maiores serão as oportunidades de corrupção. A corrupção só diminuirá quando menores volumes de recursos passarem pelos canais oficiais. Elementar, não é mesmo?
4) A qualidade da educação já atingiu patamares mínimos, tem de melhorar. Os otimistas incuráveis acham que a escola pública já piorou o que tinha de piorar e que daqui para a frente o movimento será no sentido de sua melhoria. Eu acho que ainda não atingimos o fundo do poço, independentemente do volume de recursos que se jogue no sistema atual. Existe uma incultura generalizada na sociedade, detectável nos canais públicos de televisão e nas universidades de modo geral, sem mencionar as "saúvas freireanas" do Ministério da Educação (MEC). Resultado paralelo de nossa "democracia de massas" e de um descaso generalizado com a escola pública, mais e mais pessoas ignorantes ascendem a posições de mando, com o que continuam contribuindo para a deterioração ainda maior do ensino, público ou privado. Uma ignorância enciclopédica atinge os mais variados campos do saber humano; como não existe muita autocrítica, ela continua impunemente produzindo efeitos deletérios sobre o nosso sistema de ensino. Acreditem, não há nenhum risco de melhoria da educação brasileira no futuro previsível.
5) O Brasil está condenado a ser grande e importante, é o país do futuro. Essas tiradas patrioteiras nunca me comoveram, pela simples razão de que tamanho não é documento. A China sempre foi enorme, gigantesca, e decaiu continuamente durante três ou mais séculos, antes de começar a reerguer-se, penosamente, nas duas últimas décadas do século 20. Ela está longe, ainda, de ser um exemplo de prosperidade para o seu povo, mesmo que possa já ser uma potência militar e venha a ser, brevemente, uma potência tecnológica, também. A Rússia sempre foi um gigante de pés de barro, seja no antigo regime czarista, seja durante os anos de socialismo senil, até se esboroar na decadência política e no capitalismo mafioso, do qual o país ainda não se recuperou.
O Brasil sempre foi grande, e pobre, não absolutamente, mas educacionalmente paupérrimo, miserabilíssimo no plano cultural. Somos hoje um país totalmente industrializado - repito, totalmente - e uma potência no agronegócio, mas não deixamos de ser pobres, educacionalmente falando. Ainda estamos no século 18 em matéria de ensino, quando não de cultura. Bem sei que dispomos, atualmente, de um sistema de produção científica que se situa entre os 20 melhores do mundo, mas isso "atinge", se tanto, uma mínima parcela da população, uma superestrutura extremamente fina em termos sociais. O que vale, em última instância, não é poder econômico absoluto, mas o poder relativo e, sobretudo, bem-estar e prosperidade para a população, qualidade de vida, e nisso estamos muito aquém do desejável. O Brasil continuará sendo um gigante de pés de barro enquanto não resolver problemas básicos no interior de suas fronteiras. Para mim, ele continua pequeno...
Escolas do crime - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 18/02
SÃO PAULO - A julgar pelos e-mails que recebi, minha coluna de domingo não deixou claro por que considero problemática a ideia de setores mais à direita de que é só colocar mais polícia na rua para equacionar a questão do crime.
Comecemos pelo que eu não escrevi. Jamais afirmei que devemos renunciar a reprimir delinquentes nem insinuei que a teoria das janelas quebradas, que dá base à política de tolerância zero, está errada. Ao contrário, venho repetidamente dizendo aqui que polícia é fundamental. O grande passo civilizatório da humanidade foi dado quando o Estado reservou para si o monopólio do uso legítimo da violência. Já as janelas quebradas, há evidências, ainda que longe de conclusivas, sugerindo que a tese pode estar correta.
O problema com a tolerância zero é que ela tende a ser econômica e socialmente contraproducente. É conhecida a fórmula do marquês de Beccaria, segundo a qual é a certeza da punição, e não a dureza de castigo, que serve de freio à criminalidade. Numa abordagem minimamente realista, porém, sabemos que é impossível garantir que todos aqueles que violam a lei serão punidos. Temos de nos conformar com o fato de que apenas parte dos criminosos é apanhada, processada e condenada.
Agora a pegadinha. Como observa Pinker, a delinquência, a exemplo de tantas outras atividades humanas, segue algo próximo da regra de Pareto, pela qual 80% das consequências vêm de 20% das causas. Trocando em miúdos, um número relativamente reduzido de bandidos responde por grande parte dos crimes. Isso significa que, depois de um certo ótimo, se continuarmos a prender pessoas (que serão cada vez menos perigosas), gastaremos muito para avançar pouco na redução dos delitos.
Pior, ao colocar um sujeito de baixa periculosidade em contato com bandidos mais eficientes, criamos as famosas escolas do crime --que produzem o oposto do que desejávamos.
SÃO PAULO - A julgar pelos e-mails que recebi, minha coluna de domingo não deixou claro por que considero problemática a ideia de setores mais à direita de que é só colocar mais polícia na rua para equacionar a questão do crime.
Comecemos pelo que eu não escrevi. Jamais afirmei que devemos renunciar a reprimir delinquentes nem insinuei que a teoria das janelas quebradas, que dá base à política de tolerância zero, está errada. Ao contrário, venho repetidamente dizendo aqui que polícia é fundamental. O grande passo civilizatório da humanidade foi dado quando o Estado reservou para si o monopólio do uso legítimo da violência. Já as janelas quebradas, há evidências, ainda que longe de conclusivas, sugerindo que a tese pode estar correta.
O problema com a tolerância zero é que ela tende a ser econômica e socialmente contraproducente. É conhecida a fórmula do marquês de Beccaria, segundo a qual é a certeza da punição, e não a dureza de castigo, que serve de freio à criminalidade. Numa abordagem minimamente realista, porém, sabemos que é impossível garantir que todos aqueles que violam a lei serão punidos. Temos de nos conformar com o fato de que apenas parte dos criminosos é apanhada, processada e condenada.
Agora a pegadinha. Como observa Pinker, a delinquência, a exemplo de tantas outras atividades humanas, segue algo próximo da regra de Pareto, pela qual 80% das consequências vêm de 20% das causas. Trocando em miúdos, um número relativamente reduzido de bandidos responde por grande parte dos crimes. Isso significa que, depois de um certo ótimo, se continuarmos a prender pessoas (que serão cada vez menos perigosas), gastaremos muito para avançar pouco na redução dos delitos.
Pior, ao colocar um sujeito de baixa periculosidade em contato com bandidos mais eficientes, criamos as famosas escolas do crime --que produzem o oposto do que desejávamos.
Água seca - XICO GRAZIANO
O Estado de S.Paulo - 18/02
Prepare-se: vai faltar água na torneira. A situação é extremamente crítica. Em pleno verão, época de abundantes chuvas, os reservatórios estão minguados. Na agricultura, o forte calor associado às baixas precipitações estorrica as lavouras. Anda em busca de explicações o inusitado fenômeno climático.
Prato cheio para o catastrofismo ecológico. Estrilam sua voz os que apregoam o fim do mundo pela nefasta ação do homem sobre o meio ambiente. Na teoria das mudanças climáticas, o efeito antrópico sobrepõe-se às causas naturais. E uma de suas consequências, nessa questão hídrica, seria a maior variabilidade na lavanderia de São Pedro: épocas muito chuvosas se alternariam com outras muito secas, no mesmo local. Tempo maluco.
Em decorrência do aquecimento global, causado pelo acúmulo de CO2 na atmosfera, haveria também um deslocamento das zonas úmidas. No caso brasileiro, por exemplo, supõe-se que até o final deste século a floresta amazônica se transforme numa savana, um bioma árido semelhante ao cerrado do Centro-Oeste. Nesta região, inversamente, passaria a chover mais. Vai saber.
Há quem, observando as margens dos mananciais, jogue toda a culpa da falta d'água na supressão das matas ciliares, aquelas que protegem as beiradas dos rios, córregos e nascentes. É exagero, mas a questão existe. Houve, nos campos e nas cidades, uma ocupação desordenada dessas áreas ribeirinhas, prejudicando os recursos hídricos. Pelo interior afora se contam inúmeras minas d'água que tristemente secaram por causa do intenso desmatamento.
Hoje em dia, porém, a situação está melhorando. Aqui, no Estado de São Paulo, o desmatamento cresceu até os anos 1990, verificando-se um processo de recuperação ambiental desde então. Dados do Inventário Florestal indicam que a vegetação natural cobre atualmente uma área de 4,3 milhões de hectares, correspondente a 17,5% do território paulista. Antes eram 13,9%. Maior conscientização somada à repressão policial trocou a página da supressão vegetal, abrindo a da regeneração florestal. Com ajuda das áreas canavieiras, formam-se corredores de biodiversidade serpenteando os cursos d'água no campo. Fauna e flora agradecem.
Pode ser que as mudanças climáticas e a ocupação humana estejam afetando o regime de chuvas. Seca, porém, não é privilégio contemporâneo. Na História da humanidade verificam-se terríveis períodos com pronunciada falta d'água. Sua repetida ocorrência é arrolada por Jared Diamond entre as explicações do colapso da civilização maia. Somados à exploração exaustiva dos recursos naturais na península mexicana de Yucatán, longos períodos de severa estiagem explicam a derrocada de Tikal, por volta de 600 d.C. Era apenas o começo da desgraça. Todo o povo maia acabou terrivelmente afetado por uma grande seca iniciada em 760, cujo auge se deu 40 anos mais tarde. Uma década depois, em 810, seguidos anos com pouquíssima chuva aniquilaram essa agricultura pré-colombiana. Ferozes reis guerreavam buscando alimento e água. Até que, a partir de 910, uma seca de seis anos seguidos arrematou a tragédia.
Falar em seca aqui, no Brasil, lembra o Nordeste. Vem de longe o recorrente problema. O primeiro relato da falta de chuvas na região é de 1583, descrito pelo padre Fernão Cardim, então apiedado pelo sofrimento dos índios do sertão. Quase dois séculos depois, entre 1877 e 1879, parte importante dos moradores de Fortaleza pereceu em devastadora seca que afetou especialmente o Ceará. De tempos em tempos o nordestino padece no tórrido chão. Há dois anos, metade do gado bovino morreu no semiárido, durante a maior seca dos últimos 50 anos.
Os eventos históricos mostram, à farta, que muito antes de os cientistas se preocuparem com o meio ambiente as secas já danificavam economias e arrasavam populações. Os dramas mais recentes, desnudados pela facilidade das comunicações, ganharam viés ecológico, impressionando a opinião pública. Mas, cientificamente, ninguém garante os motivos que levaram a Austrália a ver sua competitiva agropecuária decaída por uma década de atípica de chuvas no início deste século. Na Califórnia (EUA), atormentada pelo terceiro ano seguido extremamente seco, o fenômeno continua sem explicação.
Pouco importa descobrir culpados, sejam humanos ou celestes. Em face do crescimento populacional e do consumo crescente, é imperativo investir seguidamente na proteção dos recursos hídricos, elevando a capacidade de "produção" e armazenamento de água. No curto prazo, com a ameaça de a torneira secar, resta somente uma alternativa: combater desperdícios, reduzir o gasto do precioso líquido. Nessa hora, desgraçadamente, se descobre que nossa cultura beira o esbanjamento, não o racionamento. É terrível.
Noutro dia, deparando com o zelador do prédio vizinho ao meu lavando a calçada com mangueira, tive a ousadia de interpelá-lo: "Vamos economizar água, meu amigo!" Tomei como resposta um xingo irônico: "Quem vai pagar a conta é você?". O incauto não tinha a menor ideia da gravidade da situação de nossos mananciais.
Desperdiçar água simboliza o passado. O Amazonas e os demais grandes rios brasileiros sempre transmitiram uma noção equivocada de fartura do precioso líquido, criando entre nós a impressão de ser a água um bem infinito. Essa incompreensão só se conserta com educação ambiental. É nos bancos da escola que se descobre que apenas 2,7% de toda a água existente na Terra é doce e que os rios e lagos respondem por ínfimos 0,3% dessa quantidade.
As crianças, educadas com novas atitudes, sabem que economizar água significa civilidade. Por isso não lavam calçadas.
Prepare-se: vai faltar água na torneira. A situação é extremamente crítica. Em pleno verão, época de abundantes chuvas, os reservatórios estão minguados. Na agricultura, o forte calor associado às baixas precipitações estorrica as lavouras. Anda em busca de explicações o inusitado fenômeno climático.
Prato cheio para o catastrofismo ecológico. Estrilam sua voz os que apregoam o fim do mundo pela nefasta ação do homem sobre o meio ambiente. Na teoria das mudanças climáticas, o efeito antrópico sobrepõe-se às causas naturais. E uma de suas consequências, nessa questão hídrica, seria a maior variabilidade na lavanderia de São Pedro: épocas muito chuvosas se alternariam com outras muito secas, no mesmo local. Tempo maluco.
Em decorrência do aquecimento global, causado pelo acúmulo de CO2 na atmosfera, haveria também um deslocamento das zonas úmidas. No caso brasileiro, por exemplo, supõe-se que até o final deste século a floresta amazônica se transforme numa savana, um bioma árido semelhante ao cerrado do Centro-Oeste. Nesta região, inversamente, passaria a chover mais. Vai saber.
Há quem, observando as margens dos mananciais, jogue toda a culpa da falta d'água na supressão das matas ciliares, aquelas que protegem as beiradas dos rios, córregos e nascentes. É exagero, mas a questão existe. Houve, nos campos e nas cidades, uma ocupação desordenada dessas áreas ribeirinhas, prejudicando os recursos hídricos. Pelo interior afora se contam inúmeras minas d'água que tristemente secaram por causa do intenso desmatamento.
Hoje em dia, porém, a situação está melhorando. Aqui, no Estado de São Paulo, o desmatamento cresceu até os anos 1990, verificando-se um processo de recuperação ambiental desde então. Dados do Inventário Florestal indicam que a vegetação natural cobre atualmente uma área de 4,3 milhões de hectares, correspondente a 17,5% do território paulista. Antes eram 13,9%. Maior conscientização somada à repressão policial trocou a página da supressão vegetal, abrindo a da regeneração florestal. Com ajuda das áreas canavieiras, formam-se corredores de biodiversidade serpenteando os cursos d'água no campo. Fauna e flora agradecem.
Pode ser que as mudanças climáticas e a ocupação humana estejam afetando o regime de chuvas. Seca, porém, não é privilégio contemporâneo. Na História da humanidade verificam-se terríveis períodos com pronunciada falta d'água. Sua repetida ocorrência é arrolada por Jared Diamond entre as explicações do colapso da civilização maia. Somados à exploração exaustiva dos recursos naturais na península mexicana de Yucatán, longos períodos de severa estiagem explicam a derrocada de Tikal, por volta de 600 d.C. Era apenas o começo da desgraça. Todo o povo maia acabou terrivelmente afetado por uma grande seca iniciada em 760, cujo auge se deu 40 anos mais tarde. Uma década depois, em 810, seguidos anos com pouquíssima chuva aniquilaram essa agricultura pré-colombiana. Ferozes reis guerreavam buscando alimento e água. Até que, a partir de 910, uma seca de seis anos seguidos arrematou a tragédia.
Falar em seca aqui, no Brasil, lembra o Nordeste. Vem de longe o recorrente problema. O primeiro relato da falta de chuvas na região é de 1583, descrito pelo padre Fernão Cardim, então apiedado pelo sofrimento dos índios do sertão. Quase dois séculos depois, entre 1877 e 1879, parte importante dos moradores de Fortaleza pereceu em devastadora seca que afetou especialmente o Ceará. De tempos em tempos o nordestino padece no tórrido chão. Há dois anos, metade do gado bovino morreu no semiárido, durante a maior seca dos últimos 50 anos.
Os eventos históricos mostram, à farta, que muito antes de os cientistas se preocuparem com o meio ambiente as secas já danificavam economias e arrasavam populações. Os dramas mais recentes, desnudados pela facilidade das comunicações, ganharam viés ecológico, impressionando a opinião pública. Mas, cientificamente, ninguém garante os motivos que levaram a Austrália a ver sua competitiva agropecuária decaída por uma década de atípica de chuvas no início deste século. Na Califórnia (EUA), atormentada pelo terceiro ano seguido extremamente seco, o fenômeno continua sem explicação.
Pouco importa descobrir culpados, sejam humanos ou celestes. Em face do crescimento populacional e do consumo crescente, é imperativo investir seguidamente na proteção dos recursos hídricos, elevando a capacidade de "produção" e armazenamento de água. No curto prazo, com a ameaça de a torneira secar, resta somente uma alternativa: combater desperdícios, reduzir o gasto do precioso líquido. Nessa hora, desgraçadamente, se descobre que nossa cultura beira o esbanjamento, não o racionamento. É terrível.
Noutro dia, deparando com o zelador do prédio vizinho ao meu lavando a calçada com mangueira, tive a ousadia de interpelá-lo: "Vamos economizar água, meu amigo!" Tomei como resposta um xingo irônico: "Quem vai pagar a conta é você?". O incauto não tinha a menor ideia da gravidade da situação de nossos mananciais.
Desperdiçar água simboliza o passado. O Amazonas e os demais grandes rios brasileiros sempre transmitiram uma noção equivocada de fartura do precioso líquido, criando entre nós a impressão de ser a água um bem infinito. Essa incompreensão só se conserta com educação ambiental. É nos bancos da escola que se descobre que apenas 2,7% de toda a água existente na Terra é doce e que os rios e lagos respondem por ínfimos 0,3% dessa quantidade.
As crianças, educadas com novas atitudes, sabem que economizar água significa civilidade. Por isso não lavam calçadas.
Economia precisa voltar a crescer sem pirotecnias - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 18/02
Além de problemas estruturais, o país enfrenta desequilíbrios conjunturais transitórios, e a reação a esse quadro não deveria ser contaminada pela política
As previsões para o crescimento da economia brasileira em 2014 foram afetadas pelo desempenho aquém do esperado da indústria e do comércio, nos últimos meses do ano passado. Se já havia um certo grau de pessimismo nessas projeções, a falta de chuvas conjugada à constância de elevadas temperaturas em grande parte do país introduziu mais um fator negativo nas expectativas, que é o do aumento dos custo da energia elétrica, com possibilidade de o Tesouro Nacional vir a arcar com parcela expressiva de um subsídio para os consumidores. Estimativas de crescimento, feitas no mercado financeiro, que já apontavam para menos de 2% em 2014, agora estão mais próximas de 1%, patamar de expansão semelhante ao de 2012.
Fatores estruturais, como infraestrutura deficiente e insuficiência de poupança doméstica, de fato reduzem o chamado Produto Interno Bruto potencial do país. Ainda que seja difícil definir esse limite, na prática observa-se que, ao ultrapassá-lo, a economia acentua os seus desequilíbrios. Os problemas estruturais precisam ser resolvidos para se ampliar o PIB potencial. Mas há também fatores conjunturais que momentaneamente pressionam a inflação em um ambiente de acomodação do consumo. O fenômeno estaria relacionado com o endividamento de médio e longo prazos assumido por muitas famílias brasileiras, seja para investimento (casa própria) ou compra de bens de valor elevado (veículos, por exemplo). O perfil do consumo também passa por um processo de transição, com os consumidores mudando suas preferências, enquanto colocam contas em dia.
Diante desse quadro, o arrefecimento do ritmo de atividade econômica deve ser visto com cautela, sem desespero, pois pode até ser transitório. O risco é o governo buscar um crescimento artificial em 2014, por se tratar de ano eleitoral. Não há dúvida que a economia brasileira precisa de ajustes, e isso inclui uma rearrumação nas finanças públicas. Para recuperar fôlego, o país depende agora que o setor público privilegie investimentos e faça um considerável esforço para conter suas despesas de custeio. Essa é a única forma de não recorrer a endividamento e contribua, assim, para reduzir pressões sobre a inflação e o balanço de pagamentos.
O Brasil não enfrenta uma situação econômica semelhante ao que ocorreu na Europa ou nos Estados Unidos, onde a recessão se tornou inevitável para se restabelecer novo equilíbrio. O país convive hoje com desemprego baixo, mas pode dar saltos de produtividade se investir na formação profissional e na infraestrutura. As saídas são mais viáveis e menos complexas do que as foram necessárias no mundo desenvolvido. Desde que os governantes mantenham a cabeça no lugar e não façam pirotecnias na política econômica.
Além de problemas estruturais, o país enfrenta desequilíbrios conjunturais transitórios, e a reação a esse quadro não deveria ser contaminada pela política
As previsões para o crescimento da economia brasileira em 2014 foram afetadas pelo desempenho aquém do esperado da indústria e do comércio, nos últimos meses do ano passado. Se já havia um certo grau de pessimismo nessas projeções, a falta de chuvas conjugada à constância de elevadas temperaturas em grande parte do país introduziu mais um fator negativo nas expectativas, que é o do aumento dos custo da energia elétrica, com possibilidade de o Tesouro Nacional vir a arcar com parcela expressiva de um subsídio para os consumidores. Estimativas de crescimento, feitas no mercado financeiro, que já apontavam para menos de 2% em 2014, agora estão mais próximas de 1%, patamar de expansão semelhante ao de 2012.
Fatores estruturais, como infraestrutura deficiente e insuficiência de poupança doméstica, de fato reduzem o chamado Produto Interno Bruto potencial do país. Ainda que seja difícil definir esse limite, na prática observa-se que, ao ultrapassá-lo, a economia acentua os seus desequilíbrios. Os problemas estruturais precisam ser resolvidos para se ampliar o PIB potencial. Mas há também fatores conjunturais que momentaneamente pressionam a inflação em um ambiente de acomodação do consumo. O fenômeno estaria relacionado com o endividamento de médio e longo prazos assumido por muitas famílias brasileiras, seja para investimento (casa própria) ou compra de bens de valor elevado (veículos, por exemplo). O perfil do consumo também passa por um processo de transição, com os consumidores mudando suas preferências, enquanto colocam contas em dia.
Diante desse quadro, o arrefecimento do ritmo de atividade econômica deve ser visto com cautela, sem desespero, pois pode até ser transitório. O risco é o governo buscar um crescimento artificial em 2014, por se tratar de ano eleitoral. Não há dúvida que a economia brasileira precisa de ajustes, e isso inclui uma rearrumação nas finanças públicas. Para recuperar fôlego, o país depende agora que o setor público privilegie investimentos e faça um considerável esforço para conter suas despesas de custeio. Essa é a única forma de não recorrer a endividamento e contribua, assim, para reduzir pressões sobre a inflação e o balanço de pagamentos.
O Brasil não enfrenta uma situação econômica semelhante ao que ocorreu na Europa ou nos Estados Unidos, onde a recessão se tornou inevitável para se restabelecer novo equilíbrio. O país convive hoje com desemprego baixo, mas pode dar saltos de produtividade se investir na formação profissional e na infraestrutura. As saídas são mais viáveis e menos complexas do que as foram necessárias no mundo desenvolvido. Desde que os governantes mantenham a cabeça no lugar e não façam pirotecnias na política econômica.
A vaquinha questionada - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 18/02
Gilmar Mendes expressa o desconforto de outros integrantes da Suprema Corte por ver a condenação dos mensaleiros ser tratada como perseguição política.
Ao questionar a origem dos recursos doados aos petistas condenados no mensalão, o ministro Gilmar Mendes acabou provocando uma reação forte da direção do Partido dos Trabalhadores, que o está interpelando judicialmente para que esclareça suas manifestações. Na troca de correspondência com o senador Eduardo Suplicy, Mendes alega que a campanha de doações sabota e ridiculariza o cumprimento da pena, que a Constituição considera pessoal e intransferível. O ministro também levanta suspeitas sobre a legitimidade do dinheiro, argumentando que falta clareza ao sistema de arrecadação porque alguns sites utilizados para esta finalidade são hospedados no Exterior, o que dificulta a fiscalização.
Não parece adequado que um ministro do Supremo trave debate público com políticos, especialmente sobre uma causa que ainda está sendo apreciada pela sua corte. Mas não há dúvida de que Gilmar Mendes cumpre o papel de expressar o desconforto de outros integrantes da Suprema Corte por ver a condenação dos chamados mensaleiros ser tratada como perseguição política por lideranças do partido que ocupa o poder.
Descontada a inconveniência, porém, não há como ignorar a procedência da suspeita. Causa perplexidade geral a facilidade e a rapidez com que os simpatizantes dos condenados levantam quantias elevadas, como se tivessem uma máquina de fabricar dinheiro. O mínimo que se espera, diante de tal fenômeno, é que as doações sejam registradas adequadamente, para não se transformarem nos tais “recursos não contabilizados” que acabaram dando origem ao processo do mensalão.
Também se espera que o constrangedor debate entre o magistrado e políticos petistas resulte numa investigação responsável por parte dos órgãos fiscalizadores, para que não reste dúvida sobre a legalidade e a legitimidade das doações. Tudo o que se deseja, no caso, é transparência e legalidade, para que a Justiça não seja desmoralizada depois de ter recebido o reconhecimento majoritário da população por ter condenado à prisão réus poderosos envolvidos com a corrupção.
A resposta epidérmica da direção do PT ao ministro também causa desconforto no governo, principalmente por manter nas manchetes o processo petista exatamente no momento em que o mensalão tucano começa a ser julgado. Socializar a multa dos condenados entre filiados e militantes já não está parecendo uma ideia tão boa assim, especialmente para os candidatos que querem passar ao largo desse debate e ficar bem com a opinião pública.
Gilmar Mendes expressa o desconforto de outros integrantes da Suprema Corte por ver a condenação dos mensaleiros ser tratada como perseguição política.
Ao questionar a origem dos recursos doados aos petistas condenados no mensalão, o ministro Gilmar Mendes acabou provocando uma reação forte da direção do Partido dos Trabalhadores, que o está interpelando judicialmente para que esclareça suas manifestações. Na troca de correspondência com o senador Eduardo Suplicy, Mendes alega que a campanha de doações sabota e ridiculariza o cumprimento da pena, que a Constituição considera pessoal e intransferível. O ministro também levanta suspeitas sobre a legitimidade do dinheiro, argumentando que falta clareza ao sistema de arrecadação porque alguns sites utilizados para esta finalidade são hospedados no Exterior, o que dificulta a fiscalização.
Não parece adequado que um ministro do Supremo trave debate público com políticos, especialmente sobre uma causa que ainda está sendo apreciada pela sua corte. Mas não há dúvida de que Gilmar Mendes cumpre o papel de expressar o desconforto de outros integrantes da Suprema Corte por ver a condenação dos chamados mensaleiros ser tratada como perseguição política por lideranças do partido que ocupa o poder.
Descontada a inconveniência, porém, não há como ignorar a procedência da suspeita. Causa perplexidade geral a facilidade e a rapidez com que os simpatizantes dos condenados levantam quantias elevadas, como se tivessem uma máquina de fabricar dinheiro. O mínimo que se espera, diante de tal fenômeno, é que as doações sejam registradas adequadamente, para não se transformarem nos tais “recursos não contabilizados” que acabaram dando origem ao processo do mensalão.
Também se espera que o constrangedor debate entre o magistrado e políticos petistas resulte numa investigação responsável por parte dos órgãos fiscalizadores, para que não reste dúvida sobre a legalidade e a legitimidade das doações. Tudo o que se deseja, no caso, é transparência e legalidade, para que a Justiça não seja desmoralizada depois de ter recebido o reconhecimento majoritário da população por ter condenado à prisão réus poderosos envolvidos com a corrupção.
A resposta epidérmica da direção do PT ao ministro também causa desconforto no governo, principalmente por manter nas manchetes o processo petista exatamente no momento em que o mensalão tucano começa a ser julgado. Socializar a multa dos condenados entre filiados e militantes já não está parecendo uma ideia tão boa assim, especialmente para os candidatos que querem passar ao largo desse debate e ficar bem com a opinião pública.
Mercosul, cúmplice de Maduro - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 18/02
Após guardar silêncio obsequioso por vários dias, o Mercosul resolveu pronunciar-se a respeito das manifestações na Venezuela, cuja repressão gerou confrontos e resultou na morte de ao menos três pessoas. Em lugar de condenar a violência e de conclamar o governo de Nicolás Maduro a respeitar o direito democrático de protestar, o bloco sul-americano, do qual o Brasil faz parte, preferiu alinhar-se aos chavistas. Ao escolher um lado, o Mercosul mostra definitivamente que sua diplomacia é refém da ideologia bolivariana, apoiando um governo que violenta a democracia à luz do dia.
Em nota oficial, tão chavista que parece ter sido da lavra do próprio Maduro, os integrantes do Mercosul criticam as "tentativas de desestabilizar a ordem democrática" - uma clara alusão aos manifestantes. A referência é ainda mais explícita quando o bloco diz rejeitar "as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política".
Por fim, os parceiros de Maduro "expressam seu mais forte rechaço às ameaças de ruptura da ordem democrática legitimamente constituída pelo voto popular" - uma acusação explícita de golpismo. A solução, segundo a nota, seria "aprofundar o diálogo sobre as questões nacionais, dentro do quadro das instituições democráticas e do Estado de Direito, como tem sido promovido pelo presidente Nicolás Maduro nas últimas semanas". O Mercosul pretende fazer crer, portanto, que Maduro - aquele que chama os manifestantes de "fascistas" e "golpistas" - quer mesmo dialogar.
Para completar a pantomima, a nota expressa a "posição firme na defesa e preservação das instituições democráticas" e invoca o "compromisso democrático do Mercosul", sem que haja uma única referência às violações cometidas pelo governo.
Compare-se esse comunicado com o emitido pela União Europeia (UE) sobre o mesmo assunto. Além de ter sido divulgada dois dias antes, a nota da UE pede calma a representantes de toda a sociedade, "tanto em seus atos quanto em suas declarações", e reafirma o princípio de que "a liberdade de expressão e o direito de participar de manifestações pacíficas são essenciais" - ponderação ausente na nota do Mercosul, que praticamente criminaliza os manifestantes. Por fim, a UE "faz um apelo às autoridades da Venezuela para que estendam a mão a todos os setores da sociedade" - isto é, considera que a iniciativa do diálogo deve partir de quem detém o poder.
Esperar que o governo venezuelano resolva dialogar com a oposição, no entanto, é ingênuo. Há 15 anos no poder, os chavistas não apenas construíram uma ampla estrutura de controle do Estado, como também montaram um sistema de defesa paraestatal, armando milícias nas regiões mais populosas da Venezuela. Movidos pela retórica patriótica e socialista, os chavistas não estão interessados no diálogo - ao contrário, é o confronto que eles desejam, para legitimar o regime de exceção que se está consolidando no país.
Não surpreende, assim, que se multipliquem as denúncias de arbitrariedades cometidas por agentes do governo contra os manifestantes - a maioria dos quais estudantes que protestavam contra a insuportável situação do país, com inflação galopante, escassez de produtos básicos e criminalidade fora de controle. Há relatos de prisões arbitrárias, de ataques das milícias chavistas e de tortura de presos.
Diante disso, as redes sociais, um dos poucos espaços ainda livres no país, vinham ecoando críticas ao silêncio do Mercosul, incitando o Brasil a fazer uso de sua importância regional para pressionar Maduro a interromper a violência. É possível imaginar agora a decepção desses oposicionistas.
O Mercosul considera a Venezuela uma democracia plena - como se a mera realização de eleições fosse suficiente para comprovar a saúde institucional do país. No entanto, se ainda resta algo do espírito democrático na Venezuela, ele não está nas envenenadas instituições, e sim nas ruas, com os estudantes que, corajosamente, desafiam a máquina repressiva chavista para expressar seu descontentamento.
Após guardar silêncio obsequioso por vários dias, o Mercosul resolveu pronunciar-se a respeito das manifestações na Venezuela, cuja repressão gerou confrontos e resultou na morte de ao menos três pessoas. Em lugar de condenar a violência e de conclamar o governo de Nicolás Maduro a respeitar o direito democrático de protestar, o bloco sul-americano, do qual o Brasil faz parte, preferiu alinhar-se aos chavistas. Ao escolher um lado, o Mercosul mostra definitivamente que sua diplomacia é refém da ideologia bolivariana, apoiando um governo que violenta a democracia à luz do dia.
Em nota oficial, tão chavista que parece ter sido da lavra do próprio Maduro, os integrantes do Mercosul criticam as "tentativas de desestabilizar a ordem democrática" - uma clara alusão aos manifestantes. A referência é ainda mais explícita quando o bloco diz rejeitar "as ações criminosas de grupos violentos que querem espalhar a intolerância e o ódio na República Bolivariana da Venezuela como uma ferramenta política".
Por fim, os parceiros de Maduro "expressam seu mais forte rechaço às ameaças de ruptura da ordem democrática legitimamente constituída pelo voto popular" - uma acusação explícita de golpismo. A solução, segundo a nota, seria "aprofundar o diálogo sobre as questões nacionais, dentro do quadro das instituições democráticas e do Estado de Direito, como tem sido promovido pelo presidente Nicolás Maduro nas últimas semanas". O Mercosul pretende fazer crer, portanto, que Maduro - aquele que chama os manifestantes de "fascistas" e "golpistas" - quer mesmo dialogar.
Para completar a pantomima, a nota expressa a "posição firme na defesa e preservação das instituições democráticas" e invoca o "compromisso democrático do Mercosul", sem que haja uma única referência às violações cometidas pelo governo.
Compare-se esse comunicado com o emitido pela União Europeia (UE) sobre o mesmo assunto. Além de ter sido divulgada dois dias antes, a nota da UE pede calma a representantes de toda a sociedade, "tanto em seus atos quanto em suas declarações", e reafirma o princípio de que "a liberdade de expressão e o direito de participar de manifestações pacíficas são essenciais" - ponderação ausente na nota do Mercosul, que praticamente criminaliza os manifestantes. Por fim, a UE "faz um apelo às autoridades da Venezuela para que estendam a mão a todos os setores da sociedade" - isto é, considera que a iniciativa do diálogo deve partir de quem detém o poder.
Esperar que o governo venezuelano resolva dialogar com a oposição, no entanto, é ingênuo. Há 15 anos no poder, os chavistas não apenas construíram uma ampla estrutura de controle do Estado, como também montaram um sistema de defesa paraestatal, armando milícias nas regiões mais populosas da Venezuela. Movidos pela retórica patriótica e socialista, os chavistas não estão interessados no diálogo - ao contrário, é o confronto que eles desejam, para legitimar o regime de exceção que se está consolidando no país.
Não surpreende, assim, que se multipliquem as denúncias de arbitrariedades cometidas por agentes do governo contra os manifestantes - a maioria dos quais estudantes que protestavam contra a insuportável situação do país, com inflação galopante, escassez de produtos básicos e criminalidade fora de controle. Há relatos de prisões arbitrárias, de ataques das milícias chavistas e de tortura de presos.
Diante disso, as redes sociais, um dos poucos espaços ainda livres no país, vinham ecoando críticas ao silêncio do Mercosul, incitando o Brasil a fazer uso de sua importância regional para pressionar Maduro a interromper a violência. É possível imaginar agora a decepção desses oposicionistas.
O Mercosul considera a Venezuela uma democracia plena - como se a mera realização de eleições fosse suficiente para comprovar a saúde institucional do país. No entanto, se ainda resta algo do espírito democrático na Venezuela, ele não está nas envenenadas instituições, e sim nas ruas, com os estudantes que, corajosamente, desafiam a máquina repressiva chavista para expressar seu descontentamento.
A era do apagão - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 18/02
A culpa não é de São Pedro; o problema do setor elétrico brasileiro é falta de investimentos e excesso de populismo tarifário e intervenção estatal
O início de 2014 deixou escancaradas, mais uma vez, as deficiências do sistema elétrico brasileiro. Reportagem da Gazeta do Povo publicada neste domingo mostrou que, desde o início do ano até 11 de fevereiro, o Sistema Interligado Nacional registrou 20 interrupções, o maior número desde 2007, quando houve 23 apagões. A presidente Dilma Rousseff não gosta do termo, já que, para o PT, “apagão” só vale para descrever os eventos da época de Fernando Henrique Cardoso. No entanto, não é a vontade da presidente que muda a natureza das coisas, como puderam perceber 6 milhões de brasileiros das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste no último dia 4. Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), tratou-se de um problema em uma linha de transmissão, causado por um raio (nessas horas, é sempre bom recordar que Dilma, em dezembro de 2012, disse a jornalistas, a respeito de apagões, que “no dia em que falarem para vocês que caiu um raio, vocês gargalhem”), mas também a geração de energia está na berlinda.
Apesar dos enormes recursos hídricos do Brasil, que deveriam garantir ao país energia abundante e barata, cada vez mais se recorre a usinas termelétricas – hoje elas respondem por 15% da geração de energia, contra 7% em agosto de 2012. Isso ocorre principalmente porque as usinas hidrelétricas mais recentes costumam ser “a fio d’água”, ou seja, sem grandes reservatórios, especialmente graças a pressões de ambientalistas. Assim, em épocas de poucas chuvas e muita demanda, como no início deste ano, em que o calor incomum fez crescer o uso de aparelhos como ventiladores e ar-condicionados, os reservatórios não são mais suficientes para garantir o fornecimento de energia.
A consultoria PSR, no entanto, avalia que os problemas do sistema elétrico nacional não são provocados por fatores climáticos, como alegou na semana passada o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, mas por “deficiências estruturais na capacidade do suprimento do sistema”. A PSR estima que há 17,5% de chance de o país precisar racionar energia em algum momento de 2014 – hipótese que o governo se recusava a considerar até poucos dias atrás, mas teve de admitir, embora afirmando que o risco é “baixíssimo”. Ricardo Savoia, da consultoria Thymos, disse ao jornal O Globo que o problema só não é mais grave porque a indústria não está consumindo mais energia.
O populismo tarifário de Dilma também ajudou a deteriorar a situação do setor elétrico. Ao impor unilateralmente uma redução nas tarifas de energia, anunciada em setembro de 2012, ela estrangulou a capacidade de investimento das empresas responsáveis pela geração e transmissão e indicou que o clima para negócios na área está sujeito mais à vontade do governo que ao movimento natural do mercado, o que desestimula qualquer investidor. Como a conta já não fecha (até porque a energia das termelétricas é mais cara que a das hidrelétricas), o Tesouro Nacional – leia-se o contribuinte brasileiro, independentemente de quanta energia consome – é que vem bancando a diferença.
Para completar o cenário, o governo prolongou desnecessariamente a novela da renovação das concessões das empresas do setor. Entre 2015 e 2017 vencem os contratos de usinas que representam um quinto do parque gerador brasileiro e de mais de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão. Ainda antes de 2010 o governo poderia ter resolvido a questão, oferecendo às empresas a possibilidade de planejar investimentos no longo prazo em caso de renovação, ou num horizonte de pelo menos cinco anos, no caso de nova licitação. As regras foram definidas apenas em 2012, por medida provisória transformada em lei no início de 2013, condicionando a renovação das concessões à aceitação das determinações do governo em relação à tarifa. Nesse meio tempo, as empresas frearam seus investimentos, pois não faria sentido incrementar um patrimônio que poderia ser perdido num futuro próximo.
Na sexta-feira, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, jogou no colo do consumidor a responsabilidade de bancar um sistema elétrico mais confiável. No entanto, em ano eleitoral, é altamente improvável que Dilma aceite um aumento na tarifa que efetivamente permita algum investimento sólido no setor – basta ver o que o governo faz com a Petrobras, que agoniza sem poder reajustar o preço dos combustíveis. Assim, goste ou não a presidente (que, aliás, foi ministra de Minas e Energia por dois anos e meio, no primeiro mandato de Lula), é grande a possibilidade de que continuemos a falar de apagões ainda por muito tempo. A era do apagão
A culpa não é de São Pedro; o problema do setor elétrico brasileiro é falta de investimentos e excesso de populismo tarifário e intervenção estatal
O início de 2014 deixou escancaradas, mais uma vez, as deficiências do sistema elétrico brasileiro. Reportagem da Gazeta do Povo publicada neste domingo mostrou que, desde o início do ano até 11 de fevereiro, o Sistema Interligado Nacional registrou 20 interrupções, o maior número desde 2007, quando houve 23 apagões. A presidente Dilma Rousseff não gosta do termo, já que, para o PT, “apagão” só vale para descrever os eventos da época de Fernando Henrique Cardoso. No entanto, não é a vontade da presidente que muda a natureza das coisas, como puderam perceber 6 milhões de brasileiros das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste no último dia 4. Segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS), tratou-se de um problema em uma linha de transmissão, causado por um raio (nessas horas, é sempre bom recordar que Dilma, em dezembro de 2012, disse a jornalistas, a respeito de apagões, que “no dia em que falarem para vocês que caiu um raio, vocês gargalhem”), mas também a geração de energia está na berlinda.
Apesar dos enormes recursos hídricos do Brasil, que deveriam garantir ao país energia abundante e barata, cada vez mais se recorre a usinas termelétricas – hoje elas respondem por 15% da geração de energia, contra 7% em agosto de 2012. Isso ocorre principalmente porque as usinas hidrelétricas mais recentes costumam ser “a fio d’água”, ou seja, sem grandes reservatórios, especialmente graças a pressões de ambientalistas. Assim, em épocas de poucas chuvas e muita demanda, como no início deste ano, em que o calor incomum fez crescer o uso de aparelhos como ventiladores e ar-condicionados, os reservatórios não são mais suficientes para garantir o fornecimento de energia.
A consultoria PSR, no entanto, avalia que os problemas do sistema elétrico nacional não são provocados por fatores climáticos, como alegou na semana passada o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico, mas por “deficiências estruturais na capacidade do suprimento do sistema”. A PSR estima que há 17,5% de chance de o país precisar racionar energia em algum momento de 2014 – hipótese que o governo se recusava a considerar até poucos dias atrás, mas teve de admitir, embora afirmando que o risco é “baixíssimo”. Ricardo Savoia, da consultoria Thymos, disse ao jornal O Globo que o problema só não é mais grave porque a indústria não está consumindo mais energia.
O populismo tarifário de Dilma também ajudou a deteriorar a situação do setor elétrico. Ao impor unilateralmente uma redução nas tarifas de energia, anunciada em setembro de 2012, ela estrangulou a capacidade de investimento das empresas responsáveis pela geração e transmissão e indicou que o clima para negócios na área está sujeito mais à vontade do governo que ao movimento natural do mercado, o que desestimula qualquer investidor. Como a conta já não fecha (até porque a energia das termelétricas é mais cara que a das hidrelétricas), o Tesouro Nacional – leia-se o contribuinte brasileiro, independentemente de quanta energia consome – é que vem bancando a diferença.
Para completar o cenário, o governo prolongou desnecessariamente a novela da renovação das concessões das empresas do setor. Entre 2015 e 2017 vencem os contratos de usinas que representam um quinto do parque gerador brasileiro e de mais de 70 mil quilômetros de linhas de transmissão. Ainda antes de 2010 o governo poderia ter resolvido a questão, oferecendo às empresas a possibilidade de planejar investimentos no longo prazo em caso de renovação, ou num horizonte de pelo menos cinco anos, no caso de nova licitação. As regras foram definidas apenas em 2012, por medida provisória transformada em lei no início de 2013, condicionando a renovação das concessões à aceitação das determinações do governo em relação à tarifa. Nesse meio tempo, as empresas frearam seus investimentos, pois não faria sentido incrementar um patrimônio que poderia ser perdido num futuro próximo.
Na sexta-feira, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, jogou no colo do consumidor a responsabilidade de bancar um sistema elétrico mais confiável. No entanto, em ano eleitoral, é altamente improvável que Dilma aceite um aumento na tarifa que efetivamente permita algum investimento sólido no setor – basta ver o que o governo faz com a Petrobras, que agoniza sem poder reajustar o preço dos combustíveis. Assim, goste ou não a presidente (que, aliás, foi ministra de Minas e Energia por dois anos e meio, no primeiro mandato de Lula), é grande a possibilidade de que continuemos a falar de apagões ainda por muito tempo. A era do apagão
Vícios parlamentares - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 18/02
Em prática recorrente e inaceitável, legisladores gastam recursos públicos de forma abusiva sem que descalabro seja investigado
Parece distante o dia em que os parlamentares brasileiros usarão de forma adequada, sem desperdício de dinheiro público, as verbas a eles disponibilizadas para gastos relativos ao exercício do mandato.
No início do mês, esta Folha revelou que, em 2013, o Senado destinou R$ 23 milhões para ressarcir legisladores de despesas em tese ligadas à atividade parlamentar, mas na prática justificadas por notas fiscais no mínimo suspeitas --e não raro com valores muito superiores aos de mercado.
Agora, novas reportagens mostram que o padrão se replica na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Apesar da transparência recentemente tornada obrigatória na prestação de contas, o descalabro e a impunidade persistem.
No âmbito federal, a Câmara despendeu R$ 160 milhões no ano passado com o reembolso de faturas dos 513 deputados. Cada legislador tem direito a uma cota para arcar com gastos relativos a passagens aéreas, aluguel de escritório, alimentação, combustível e produção de material para divulgação do mandato. O montante varia de R$ 21 mil a R$ 44 mil, a depender do Estado de origem do congressista.
Em São Paulo, R$ 20,4 milhões fluíram para o ressarcimento de 94 deputados. Pelas regras estaduais, cada um deles tem direito a até R$ 25.175 mensais para esse fim.
Sendo tantas as benesses ao alcance dos legisladores, já seria o caso de questionar a existência desse tipo de fundo. A situação tona-se ainda mais grave após simples exame dessas despesas.
O deputado federal Chico das Verduras (PRP-RR), por exemplo, embora tenha à disposição os assessores da Câmara, gastou R$ 325 mil com consultoria legislativa externa --cifra injustificável, sobretudo para quem, como ele, apresentou apenas dois projetos de lei.
Jair Bolsonaro (PP-RJ), por sua vez, em plena era da comunicação gratuita e instantânea pela internet, captou R$ 149 mil para serviços postais relativos ao envio de "três ou quatro" boletins informativos para sua base de eleitores.
Na Assembleia Legislativa paulista, Enio Tatto (PT) considerou oportuno aplicar R$ 144 mil para quitar serviços de gráficas e papelarias, incluindo cartões de fim de ano em dez modelos diferentes.
É de perguntar o que falta para que as respectivas corregedorias, assim como o Ministério Público, apurem com rigor, punindo quando cabível, os possíveis abusos.
Talvez a resposta esteja no "vício insanável da amizade" confessado, em 2009, por Edmar Moreira, então deputado federal pelo DEM-MG, corregedor da Casa e celebrizado pelo castelo que construiu. Para ele, era impossível inquirir e punir colegas corruptos.
Será lamentável se os atuais responsáveis pelas investigações decidirem se espelhar nesse padrão.
Em prática recorrente e inaceitável, legisladores gastam recursos públicos de forma abusiva sem que descalabro seja investigado
Parece distante o dia em que os parlamentares brasileiros usarão de forma adequada, sem desperdício de dinheiro público, as verbas a eles disponibilizadas para gastos relativos ao exercício do mandato.
No início do mês, esta Folha revelou que, em 2013, o Senado destinou R$ 23 milhões para ressarcir legisladores de despesas em tese ligadas à atividade parlamentar, mas na prática justificadas por notas fiscais no mínimo suspeitas --e não raro com valores muito superiores aos de mercado.
Agora, novas reportagens mostram que o padrão se replica na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Apesar da transparência recentemente tornada obrigatória na prestação de contas, o descalabro e a impunidade persistem.
No âmbito federal, a Câmara despendeu R$ 160 milhões no ano passado com o reembolso de faturas dos 513 deputados. Cada legislador tem direito a uma cota para arcar com gastos relativos a passagens aéreas, aluguel de escritório, alimentação, combustível e produção de material para divulgação do mandato. O montante varia de R$ 21 mil a R$ 44 mil, a depender do Estado de origem do congressista.
Em São Paulo, R$ 20,4 milhões fluíram para o ressarcimento de 94 deputados. Pelas regras estaduais, cada um deles tem direito a até R$ 25.175 mensais para esse fim.
Sendo tantas as benesses ao alcance dos legisladores, já seria o caso de questionar a existência desse tipo de fundo. A situação tona-se ainda mais grave após simples exame dessas despesas.
O deputado federal Chico das Verduras (PRP-RR), por exemplo, embora tenha à disposição os assessores da Câmara, gastou R$ 325 mil com consultoria legislativa externa --cifra injustificável, sobretudo para quem, como ele, apresentou apenas dois projetos de lei.
Jair Bolsonaro (PP-RJ), por sua vez, em plena era da comunicação gratuita e instantânea pela internet, captou R$ 149 mil para serviços postais relativos ao envio de "três ou quatro" boletins informativos para sua base de eleitores.
Na Assembleia Legislativa paulista, Enio Tatto (PT) considerou oportuno aplicar R$ 144 mil para quitar serviços de gráficas e papelarias, incluindo cartões de fim de ano em dez modelos diferentes.
É de perguntar o que falta para que as respectivas corregedorias, assim como o Ministério Público, apurem com rigor, punindo quando cabível, os possíveis abusos.
Talvez a resposta esteja no "vício insanável da amizade" confessado, em 2009, por Edmar Moreira, então deputado federal pelo DEM-MG, corregedor da Casa e celebrizado pelo castelo que construiu. Para ele, era impossível inquirir e punir colegas corruptos.
Será lamentável se os atuais responsáveis pelas investigações decidirem se espelhar nesse padrão.
Racismo inaceitável - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 18/02
O conceito de brasileiro cordial cai por terra ante a violência que se alastra de norte a sul do país. Não se fala aqui apenas de atos imoderados como os praticados pelos black blocs. Ou de ação de justiceiros que algemam pessoas a poste. Ou de bandidos que ateiam fogo em ônibus e em seres humanos. Ou de sequestros relâmpagos que assustam cidadãos e lhes limitam o direito de ir e vir. Ou de homicídios que ultrapassam cifras registradas em países em guerra.
Fala-se do crime de racismo. Discriminar adultos e crianças com base na cor da pele é, além de caduco, inaceitável. Baseia-se no prejulgamento de que há seres superiores e inferiores não em decorrência de obras por eles realizadas, mas de característica física biologicamente herdada. Os preconceituosos se esquecem de que a escravidão acabou em 1888 e teimam em manter comportamento de casa grande e senzala.
Brasília, cidade que abriga brasileiros das 27 unidades da Federação, exibe números que envergonham a maior parte da população. O Disque-Denúncia, serviço do Governo do Distrito Federal, recebeu, em menos de um ano de criação, quase 8 mil ligações. Delas, 126 mereceram o carimbo de racismo - média de 11 casos mensais. Em 2012, a Secretaria de Segurança Pública somou 407 ocorrências do gênero.
É constrangedor tomar conhecimento de dois fatos ocorridos na semana passada. Um deles: cliente de salão de beleza recusou o atendimento de manicure negra, classificada de "raça ruim". A cena, filmada por clientes e pelo circuito interno de tevê do estabelecimento, levou à prisão da mulher. Apesar de o crime de racismo ser inafiançável, ela ganhou a liberdade depois de menos de 24 horas de detenção.
O outro: cobradora da Viação Planeta enfrentou agressão covarde e constrangedora. Durante o trajeto, pane no ônibus impediu que a porta se abrisse. Contrariada, passageira investiu contra a trabalhadora chamando-a de "negra ordinária e preta safada". Depois, desceu calmamente e caminhou sem pressa, certa da impunidade.
São dois exemplos do vasto prontuário do GDF. Em nível nacional, o quadro não é melhor. Aliadas à agressão verbal, ocorrem outras. Fiscalização do Ministério do Trabalho tem identificado casos de trabalhadores rurais em situação de escravidão. No Entorno, é elevado o número de assassínio de jovens negros entre 15 e 19 anos. Todos têm a marca do racismo, da intolerância e da desatualização. Nada mais extemporâneo do que agir no século 21 como se estivesse no Brasil escravocrata.
Além da punição prevista em lei, impõem-se ações aptas a evitar que cenas como as da semana passada se repitam. Entre elas, campanhas governamentais destinadas à mudança de mentalidade da população. Escolas, igrejas, clubes sociais, meios de comunicação de massa devem colaborar para deixar a vergonha para trás. O brasileiro pode tornar-se cordial de fato. Ser movido pelo coração pressupõe valores cristãos e democráticos. Conviver com as diferenças é fruto da civilização.
Fala-se do crime de racismo. Discriminar adultos e crianças com base na cor da pele é, além de caduco, inaceitável. Baseia-se no prejulgamento de que há seres superiores e inferiores não em decorrência de obras por eles realizadas, mas de característica física biologicamente herdada. Os preconceituosos se esquecem de que a escravidão acabou em 1888 e teimam em manter comportamento de casa grande e senzala.
Brasília, cidade que abriga brasileiros das 27 unidades da Federação, exibe números que envergonham a maior parte da população. O Disque-Denúncia, serviço do Governo do Distrito Federal, recebeu, em menos de um ano de criação, quase 8 mil ligações. Delas, 126 mereceram o carimbo de racismo - média de 11 casos mensais. Em 2012, a Secretaria de Segurança Pública somou 407 ocorrências do gênero.
É constrangedor tomar conhecimento de dois fatos ocorridos na semana passada. Um deles: cliente de salão de beleza recusou o atendimento de manicure negra, classificada de "raça ruim". A cena, filmada por clientes e pelo circuito interno de tevê do estabelecimento, levou à prisão da mulher. Apesar de o crime de racismo ser inafiançável, ela ganhou a liberdade depois de menos de 24 horas de detenção.
O outro: cobradora da Viação Planeta enfrentou agressão covarde e constrangedora. Durante o trajeto, pane no ônibus impediu que a porta se abrisse. Contrariada, passageira investiu contra a trabalhadora chamando-a de "negra ordinária e preta safada". Depois, desceu calmamente e caminhou sem pressa, certa da impunidade.
São dois exemplos do vasto prontuário do GDF. Em nível nacional, o quadro não é melhor. Aliadas à agressão verbal, ocorrem outras. Fiscalização do Ministério do Trabalho tem identificado casos de trabalhadores rurais em situação de escravidão. No Entorno, é elevado o número de assassínio de jovens negros entre 15 e 19 anos. Todos têm a marca do racismo, da intolerância e da desatualização. Nada mais extemporâneo do que agir no século 21 como se estivesse no Brasil escravocrata.
Além da punição prevista em lei, impõem-se ações aptas a evitar que cenas como as da semana passada se repitam. Entre elas, campanhas governamentais destinadas à mudança de mentalidade da população. Escolas, igrejas, clubes sociais, meios de comunicação de massa devem colaborar para deixar a vergonha para trás. O brasileiro pode tornar-se cordial de fato. Ser movido pelo coração pressupõe valores cristãos e democráticos. Conviver com as diferenças é fruto da civilização.
Não ajuda o país o PMDB retaliar no Congresso - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 18/02
Contrariado com o PT e a reforma ministerial de Dilma, partido ameaça dar o troco em plenário. É um erro, pois, nesta tática de guerra de extermínio, todos perdem
Capitão do time já na formação do governo Lula, em 2002, o então virtual ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu não conseguiu convencer Lula a selar uma aliança com o PMDB. O presidente preferiu costurar uma colcha de retalhos de pequenos partidos para sustentá-lo no Congresso e, em decorrência disso ou não, Dirceu, como entendeu a Justiça, chefiou a montagem do esquema do mensalão para literalmente comprar apoio no Legislativo, com dinheiro público desviado.
Mas, no segundo mandato, Lula trouxe o PMDB para perto de si, sem abrir mão de legendas nanicas e pequenas, ávidas por viver nas sombras do Planalto, habitada por um presidente popular. A base parlamentar ganhou em solidez, mas, como se vê agora, na campanha para as eleições deste ano, PMDB e PT carregam características de difícil complementaridade: se os petistas têm o viés da busca constante pela hegemonia, os peemedebistas não abrem mão de suas características regionais. Ciosos dos espaços que controlam pelo país, defendem seu espaço independentemente do projeto nacional de poder do PT.
E como o projeto de reeleição de Dilma, mesmo favorito nas urnas de outubro, não é considerado uma viagem tão segura quanto foi a dos dois mandatos de Lula, a aliança PMDB-PT enfrenta tensões.
Na reforma ministerial feita por Dilma para adequar sua equipe às eleições, o PMDB se considera preterido. Para piorar o cenário, ameaça retaliar o governo no Congresso, no encaminhamento de temas cruciais para o país. Considerando que sempre há projetos de lei capazes de causar problemas para o Palácio, os peemedebistas, a julgar pela movimentação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), líder da bancada na Câmara, ensaiam dar o troco em Dilma no plenário.
Seria aceitável se o partido, ao procurar fragilizar o Planalto, não vulnerabilizasse o próprio país, hoje sob atenção especial de investidores e agências internacionais de risco, preocupados com a possibilidade de aumentos indevidos de gastos.
Na mira do partido está o acertado veto presidencial à lei complementar que flexibiliza as regras para criação de municípios. Estudos do Ipea demonstram que seriam instaladas muito mais prefeituras do que as estimadas durante o encaminhamento do projeto.
Outro risco está na aprovação da mudança do indexador da dívida de estados e municípios renegociadas pela União, na prática um atentado à Lei de Responsabilidade Fiscal, para ajudar a prefeitura petista de São Paulo. Diante das críticas à ideia, o próprio governo, autor da proposta, pediu a retirada do tema da pauta. Há no PMDB quem ameace desengavetar a mudança. Até mesmo o Marco Civil da Internet, projeto-chave para regular o setor, da forma como está redigido, pode ser rejeitado. O argumento é que ele, por tramitar em regime de urgência, tranca a pauta. Então, que seja aprovado. O PMDB precisa recuar nesta tática de guerra de extermínio, em que todos perdem.
Contrariado com o PT e a reforma ministerial de Dilma, partido ameaça dar o troco em plenário. É um erro, pois, nesta tática de guerra de extermínio, todos perdem
Capitão do time já na formação do governo Lula, em 2002, o então virtual ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu não conseguiu convencer Lula a selar uma aliança com o PMDB. O presidente preferiu costurar uma colcha de retalhos de pequenos partidos para sustentá-lo no Congresso e, em decorrência disso ou não, Dirceu, como entendeu a Justiça, chefiou a montagem do esquema do mensalão para literalmente comprar apoio no Legislativo, com dinheiro público desviado.
Mas, no segundo mandato, Lula trouxe o PMDB para perto de si, sem abrir mão de legendas nanicas e pequenas, ávidas por viver nas sombras do Planalto, habitada por um presidente popular. A base parlamentar ganhou em solidez, mas, como se vê agora, na campanha para as eleições deste ano, PMDB e PT carregam características de difícil complementaridade: se os petistas têm o viés da busca constante pela hegemonia, os peemedebistas não abrem mão de suas características regionais. Ciosos dos espaços que controlam pelo país, defendem seu espaço independentemente do projeto nacional de poder do PT.
E como o projeto de reeleição de Dilma, mesmo favorito nas urnas de outubro, não é considerado uma viagem tão segura quanto foi a dos dois mandatos de Lula, a aliança PMDB-PT enfrenta tensões.
Na reforma ministerial feita por Dilma para adequar sua equipe às eleições, o PMDB se considera preterido. Para piorar o cenário, ameaça retaliar o governo no Congresso, no encaminhamento de temas cruciais para o país. Considerando que sempre há projetos de lei capazes de causar problemas para o Palácio, os peemedebistas, a julgar pela movimentação do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), líder da bancada na Câmara, ensaiam dar o troco em Dilma no plenário.
Seria aceitável se o partido, ao procurar fragilizar o Planalto, não vulnerabilizasse o próprio país, hoje sob atenção especial de investidores e agências internacionais de risco, preocupados com a possibilidade de aumentos indevidos de gastos.
Na mira do partido está o acertado veto presidencial à lei complementar que flexibiliza as regras para criação de municípios. Estudos do Ipea demonstram que seriam instaladas muito mais prefeituras do que as estimadas durante o encaminhamento do projeto.
Outro risco está na aprovação da mudança do indexador da dívida de estados e municípios renegociadas pela União, na prática um atentado à Lei de Responsabilidade Fiscal, para ajudar a prefeitura petista de São Paulo. Diante das críticas à ideia, o próprio governo, autor da proposta, pediu a retirada do tema da pauta. Há no PMDB quem ameace desengavetar a mudança. Até mesmo o Marco Civil da Internet, projeto-chave para regular o setor, da forma como está redigido, pode ser rejeitado. O argumento é que ele, por tramitar em regime de urgência, tranca a pauta. Então, que seja aprovado. O PMDB precisa recuar nesta tática de guerra de extermínio, em que todos perdem.
O comércio e os alvos errados - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 18/02
O governo brasileiro continua atirando na direção errada ao cuidar do comércio externo e do crescimento industrial. O setor privado poderia ajudar a corrigir a mira, mas contribui com frequência para a escolha de alvos pouco importantes ou equivocados. A ênfase na proteção ilustra a preferência, na administração federal, pelas ações menos eficientes. O Brasil liderou a criação de barreiras comerciais no ano passado, com a abertura de 39 processos antidumping, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse número correspondeu a 9,58% das novas barreiras implantadas em todo o globo, 100 a mais que no ano anterior. Com ou sem base legal, o governo brasileiro tem sido um dos mais ativos nos entraves a importações e nas medidas especiais de apoio à produção nacional. Também essas medidas têm efeito protecionista, pela diferenciação a favor da empresa doméstica, mas seu efeito em termos de expansão e modernização da economia tem sido, na melhor hipótese, muito limitado.
Apesar desse esforço e do custo fiscal da política de benefícios especiais, a indústria marcou passo nos últimos três anos. O superávit comercial foi reduzido de US$ 29,79 bilhões em 2011 a apenas US$ 2,56 bilhões em 2013, mesmo com a contribuição de vendas fictícias de plataformas de petróleo. Sem essa contribuição, o resultado teria sido um rombo comercial de US$ 5,18 bilhões. O saldo teria sido muito melhor sem as medidas diretas e indiretas de proteção comercial? Mesmo com muita fantasia é difícil admitir essa hipótese.
Além de conquistar novas fatias do mercado interno, os competidores continuaram tomando espaços antes ocupados pelos produtores brasileiros no exterior. Isso ocorre há alguns anos até na vizinhança sul-americana. Nem o Mercosul está protegido, apesar das elevadas tarifas impostas a exportadores de fora do bloco.
As principais desvantagens da indústria brasileira, dentro e fora das fábricas, são conhecidas há bom tempo e têm sido expostas e discutidas por associações do setor. O governo tem reagido lentamente às demandas mais importantes da indústria e a maior parte dos grandes problemas continua intocada, ou quase. Essas desvantagens são repetidamente citadas em estudos de competitividade produzidos no País e no exterior. Autoridades ocasionalmente contestam avaliações publicadas pelo Banco Mundial, mas pouco podem fazer diante da multiplicação de trabalhos desse tipo, elaborados por empresas de consultoria e também por entidades como o Fórum Econômico Mundial.
As pressões políticas a favor de uma estratégia econômica mais séria praticamente inexistem. A oposição é inoperante e a maior parte dos congressistas pouco se dedica a questões sérias da economia. O governo segue suas prioridades eleitorais. Só em 2013 a presidente Dilma Rousseff começou a tratar com algum empenho, e ainda com muita ineficiência, os grandes problemas da infraestrutura. As concessões ao setor privado mal começaram.
Do lado empresarial, pouco se vê além da cobrança periódica de reformas, sempre com pouco ou nenhum esforço de mobilização. A Confederação Nacional da Indústria tem até uma agenda legislativa, mas nenhuma campanha eficaz a favor das mudanças necessárias.
Acabam sobrando iniciativas a favor de objetivos muito menos importantes que as reformas. Os industriais estão agora empenhados em obter a renovação do Sistema Geral de Preferências dos Estados Unidos, suspenso no ano passado e emperrado no Congresso. Também declaram apoio à retomada da proposta, apresentada em 2013 pelo Brasil, de inclusão do câmbio entre os temas sujeitos à jurisdição da OMC. As preferências americanas têm ajudado, mas a economia brasileira, uma das maiores, já deveria ser bastante competitiva para dispensar esse tipo de apoio. Quanto à briga pelo câmbio na OMC, consumirá muito tempo e muita energia e, mesmo em caso de sucesso, produzirá efeitos duvidosos. Além disso, o câmbio seria muito menos importante numa economia razoavelmente produtiva. Esquecer esse ponto é insistir em alvos errados.
O governo brasileiro continua atirando na direção errada ao cuidar do comércio externo e do crescimento industrial. O setor privado poderia ajudar a corrigir a mira, mas contribui com frequência para a escolha de alvos pouco importantes ou equivocados. A ênfase na proteção ilustra a preferência, na administração federal, pelas ações menos eficientes. O Brasil liderou a criação de barreiras comerciais no ano passado, com a abertura de 39 processos antidumping, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Esse número correspondeu a 9,58% das novas barreiras implantadas em todo o globo, 100 a mais que no ano anterior. Com ou sem base legal, o governo brasileiro tem sido um dos mais ativos nos entraves a importações e nas medidas especiais de apoio à produção nacional. Também essas medidas têm efeito protecionista, pela diferenciação a favor da empresa doméstica, mas seu efeito em termos de expansão e modernização da economia tem sido, na melhor hipótese, muito limitado.
Apesar desse esforço e do custo fiscal da política de benefícios especiais, a indústria marcou passo nos últimos três anos. O superávit comercial foi reduzido de US$ 29,79 bilhões em 2011 a apenas US$ 2,56 bilhões em 2013, mesmo com a contribuição de vendas fictícias de plataformas de petróleo. Sem essa contribuição, o resultado teria sido um rombo comercial de US$ 5,18 bilhões. O saldo teria sido muito melhor sem as medidas diretas e indiretas de proteção comercial? Mesmo com muita fantasia é difícil admitir essa hipótese.
Além de conquistar novas fatias do mercado interno, os competidores continuaram tomando espaços antes ocupados pelos produtores brasileiros no exterior. Isso ocorre há alguns anos até na vizinhança sul-americana. Nem o Mercosul está protegido, apesar das elevadas tarifas impostas a exportadores de fora do bloco.
As principais desvantagens da indústria brasileira, dentro e fora das fábricas, são conhecidas há bom tempo e têm sido expostas e discutidas por associações do setor. O governo tem reagido lentamente às demandas mais importantes da indústria e a maior parte dos grandes problemas continua intocada, ou quase. Essas desvantagens são repetidamente citadas em estudos de competitividade produzidos no País e no exterior. Autoridades ocasionalmente contestam avaliações publicadas pelo Banco Mundial, mas pouco podem fazer diante da multiplicação de trabalhos desse tipo, elaborados por empresas de consultoria e também por entidades como o Fórum Econômico Mundial.
As pressões políticas a favor de uma estratégia econômica mais séria praticamente inexistem. A oposição é inoperante e a maior parte dos congressistas pouco se dedica a questões sérias da economia. O governo segue suas prioridades eleitorais. Só em 2013 a presidente Dilma Rousseff começou a tratar com algum empenho, e ainda com muita ineficiência, os grandes problemas da infraestrutura. As concessões ao setor privado mal começaram.
Do lado empresarial, pouco se vê além da cobrança periódica de reformas, sempre com pouco ou nenhum esforço de mobilização. A Confederação Nacional da Indústria tem até uma agenda legislativa, mas nenhuma campanha eficaz a favor das mudanças necessárias.
Acabam sobrando iniciativas a favor de objetivos muito menos importantes que as reformas. Os industriais estão agora empenhados em obter a renovação do Sistema Geral de Preferências dos Estados Unidos, suspenso no ano passado e emperrado no Congresso. Também declaram apoio à retomada da proposta, apresentada em 2013 pelo Brasil, de inclusão do câmbio entre os temas sujeitos à jurisdição da OMC. As preferências americanas têm ajudado, mas a economia brasileira, uma das maiores, já deveria ser bastante competitiva para dispensar esse tipo de apoio. Quanto à briga pelo câmbio na OMC, consumirá muito tempo e muita energia e, mesmo em caso de sucesso, produzirá efeitos duvidosos. Além disso, o câmbio seria muito menos importante numa economia razoavelmente produtiva. Esquecer esse ponto é insistir em alvos errados.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Se o STF achar que tem culpa, é porque tem culpa”
Ex-presidente FHC, dizendo acreditar na isenção do STF no caso do mensalão mineiro
COMO O PSB, O PDT OFERECEU FILIAÇÃO A BARBOSA
Sob holofotes e surfando na popularidade, após condenar mensaleiros à prisão, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, foi sondado para disputar a Presidência da República ou vaga ao Senado pelo PDT do Rio de Janeiro. O PSB também lhe ofereceu filiação. O dono do PDT, Carlos Lupi, envolvido em acusações de corrupção, considera Cristovam Buarque (DF) “plano B” na disputa pelo Planalto.
OLHO NA URNA
Em nota, Joaquim Barbosa reiterou que não é candidato a presidente este ano, e confirmou que deixará o STF bem antes da data-limite.
DATA MARCADA
Barbosa disse a amigos, como esta coluna revelou, que não ficaria “um só dia no STF” após a posse de Ricardo Lewandowski na presidência.
TODOS CONTRA UMA
Cristovam Buarque voltou a se encantar com eventual candidatura a presidente, com apoio de pedetistas que não aguentam mais Dilma.
PROJETO POLÍTICO
No almoço em homenagem ao presidente francês, que visitava Brasília, Barbosa segredou o desejo de fazer carreira política no Rio de Janeiro.
SIMULADOR REDUZ 4 VEZES OS ACIDENTES COM JOVENS
O uso do simulador por jovens motoristas reduz em até quatro vezes os acidentes graves nos primeiros 12 meses, após obter a habilitação, segundo estudo do Injury Prevention & Control, do CDC, departamento norte-americano de prevenção. Implantado no Brasil pelo Conselho Nacional de Trânsito, o simulador poderá ser vencido pelo lobby, nesta quarta, e enterrado por um projeto na Câmara dos Deputados.
SALVANDO VIDAS
Em países como Alemanha, Espanha, França e Suíça, a adoção dos simuladores fez cair à metade as infrações e acidentes.
É MAIS BARATO
Autoescolas preferem continuar como estão: ensinando truques para obtenção de habilitação de motorista, em vez de ensinar a dirigir.
ORA, A SEGURANÇA
Diz-se que a habilitação fica 30% mais cara, com o simulador, como se reclamava do cinto de segurança pelo “repasse” do seu custo ao carro.
ÓLEO DE PEROBA
Se o Eduardo Campos (PSB) ainda aguarda eventual acordo para ser vice de Lula em outubro, é bom ele contar isso ao aliado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). O senador desancou ontem a presidente Dilma, recomendando a ela o uso continuado de óleo de peroba.
ENCHENDO O TANQUE
A Petrobras anda contando os tostões, mas nada que a impeça de patrocinar a equipe Williams de Fórmula 1, agora com Felipe Massa como primeiro piloto. O patrocínio será anunciado nesta terça, no Rio.
BOMBA-RELÓGIO
Para o senador José Agripino (DEM-RN), Dilma vai agravar o deficit no setor elétrico (R$ 8,7 bilhões só na Eletrobras), para segurar a tarifa de energia elétrica em ano eleitoral, e a bomba-relógio vai explodir no colo de quem for presidente da República em 2015. A coisa está feia.
ESTRATÉGIA
Apesar das investidas de Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB), o PV está decidido a lançar Eduardo Jorge à Presidência, a fim de facilitar alianças nos estados e a eleição de deputados federais.
APOSTAS DO PV
O PV lançará, nesta quarta (19), o deputado estadual Marcelo Lelis ao governo de Tocantins. A sigla conta hoje com nove pré-candidatos, entre eles Rosane Pereira (PR), a quem Marina Silva prometeu apoio.
BIOMETRIA
Exposto pelo mensaleiro Henrique Pizzolato, que votou em 2008 com o título do irmão já falecido, o sistema eleitoral se tornará mais seguro com a biometria, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Até 2018, ninguém poderá fazer como Pizzolato, votando duas vezes.
COSPE NO PRATO
Eleita ao Senado com ajuda do governador Jacques Wagner (PT-BA), a pré-candidata ao governo Lídice da Mata (PSB) virou alvo de críticas pelos ataques à gestão do PT, da qual ela fez parte até pouco tempo.
ARTICULAÇÃO
Candidato ao governo de Mato Grosso, o senador Pedro Taques (PDT) costura para conseguir apoio do senador Blairo Maggi (PR): “Estamos namorando a possibilidade e conversando institucionalmente”, afirmou.
PENSANDO BEM...
...é estranha a insistência de Genoino por prisão domiciliar: como a companheirada do mensalão, na Papuda ele se sentiria em casa.
PODER SEM PUDOR
MEU CAMINHÃO
Nascido em Soledade (RS), o ex-ministro Alceni Guerra sempre contava nos comícios como chegou num caminhão ao Paraná, onde fez a vida:
- Eu e minha família chegamos aqui em cima de um Dodge amarelo...
Repetia a mesma história em todos os comícios. Os assessores não aguentavam mais, e pediram que mudasse o discurso. Alceni os atendeu:
- Eu e minha família chegamos aqui em cima de um Dodge verde...
Ex-presidente FHC, dizendo acreditar na isenção do STF no caso do mensalão mineiro
COMO O PSB, O PDT OFERECEU FILIAÇÃO A BARBOSA
Sob holofotes e surfando na popularidade, após condenar mensaleiros à prisão, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, foi sondado para disputar a Presidência da República ou vaga ao Senado pelo PDT do Rio de Janeiro. O PSB também lhe ofereceu filiação. O dono do PDT, Carlos Lupi, envolvido em acusações de corrupção, considera Cristovam Buarque (DF) “plano B” na disputa pelo Planalto.
OLHO NA URNA
Em nota, Joaquim Barbosa reiterou que não é candidato a presidente este ano, e confirmou que deixará o STF bem antes da data-limite.
DATA MARCADA
Barbosa disse a amigos, como esta coluna revelou, que não ficaria “um só dia no STF” após a posse de Ricardo Lewandowski na presidência.
TODOS CONTRA UMA
Cristovam Buarque voltou a se encantar com eventual candidatura a presidente, com apoio de pedetistas que não aguentam mais Dilma.
PROJETO POLÍTICO
No almoço em homenagem ao presidente francês, que visitava Brasília, Barbosa segredou o desejo de fazer carreira política no Rio de Janeiro.
SIMULADOR REDUZ 4 VEZES OS ACIDENTES COM JOVENS
O uso do simulador por jovens motoristas reduz em até quatro vezes os acidentes graves nos primeiros 12 meses, após obter a habilitação, segundo estudo do Injury Prevention & Control, do CDC, departamento norte-americano de prevenção. Implantado no Brasil pelo Conselho Nacional de Trânsito, o simulador poderá ser vencido pelo lobby, nesta quarta, e enterrado por um projeto na Câmara dos Deputados.
SALVANDO VIDAS
Em países como Alemanha, Espanha, França e Suíça, a adoção dos simuladores fez cair à metade as infrações e acidentes.
É MAIS BARATO
Autoescolas preferem continuar como estão: ensinando truques para obtenção de habilitação de motorista, em vez de ensinar a dirigir.
ORA, A SEGURANÇA
Diz-se que a habilitação fica 30% mais cara, com o simulador, como se reclamava do cinto de segurança pelo “repasse” do seu custo ao carro.
ÓLEO DE PEROBA
Se o Eduardo Campos (PSB) ainda aguarda eventual acordo para ser vice de Lula em outubro, é bom ele contar isso ao aliado Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE). O senador desancou ontem a presidente Dilma, recomendando a ela o uso continuado de óleo de peroba.
ENCHENDO O TANQUE
A Petrobras anda contando os tostões, mas nada que a impeça de patrocinar a equipe Williams de Fórmula 1, agora com Felipe Massa como primeiro piloto. O patrocínio será anunciado nesta terça, no Rio.
BOMBA-RELÓGIO
Para o senador José Agripino (DEM-RN), Dilma vai agravar o deficit no setor elétrico (R$ 8,7 bilhões só na Eletrobras), para segurar a tarifa de energia elétrica em ano eleitoral, e a bomba-relógio vai explodir no colo de quem for presidente da República em 2015. A coisa está feia.
ESTRATÉGIA
Apesar das investidas de Eduardo Campos (PSB) e Aécio Neves (PSDB), o PV está decidido a lançar Eduardo Jorge à Presidência, a fim de facilitar alianças nos estados e a eleição de deputados federais.
APOSTAS DO PV
O PV lançará, nesta quarta (19), o deputado estadual Marcelo Lelis ao governo de Tocantins. A sigla conta hoje com nove pré-candidatos, entre eles Rosane Pereira (PR), a quem Marina Silva prometeu apoio.
BIOMETRIA
Exposto pelo mensaleiro Henrique Pizzolato, que votou em 2008 com o título do irmão já falecido, o sistema eleitoral se tornará mais seguro com a biometria, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. Até 2018, ninguém poderá fazer como Pizzolato, votando duas vezes.
COSPE NO PRATO
Eleita ao Senado com ajuda do governador Jacques Wagner (PT-BA), a pré-candidata ao governo Lídice da Mata (PSB) virou alvo de críticas pelos ataques à gestão do PT, da qual ela fez parte até pouco tempo.
ARTICULAÇÃO
Candidato ao governo de Mato Grosso, o senador Pedro Taques (PDT) costura para conseguir apoio do senador Blairo Maggi (PR): “Estamos namorando a possibilidade e conversando institucionalmente”, afirmou.
PENSANDO BEM...
...é estranha a insistência de Genoino por prisão domiciliar: como a companheirada do mensalão, na Papuda ele se sentiria em casa.
PODER SEM PUDOR
MEU CAMINHÃO
Nascido em Soledade (RS), o ex-ministro Alceni Guerra sempre contava nos comícios como chegou num caminhão ao Paraná, onde fez a vida:
- Eu e minha família chegamos aqui em cima de um Dodge amarelo...
Repetia a mesma história em todos os comícios. Os assessores não aguentavam mais, e pediram que mudasse o discurso. Alceni os atendeu:
- Eu e minha família chegamos aqui em cima de um Dodge verde...
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Prefeitura ainda busca saída para o centro
- Folha: Políticos ficam de fora de 1ª denúncia da máfia do ISS
- Estadão: PF apura como Pizzolato financiou fuga para Itália
- Correio: Barbárie e preconceito
- Estado de Minas: Reação à violência
- Jornal do Commercio: Mais uma família é destruída pelo ciúme
- Zero Hora: Reajuste de 7,5% a rodoviários afasta risco de nova greve
- Brasil Econômico: Só chuva em dobro evita racionamento
segunda-feira, fevereiro 17, 2014
Hobbes nas ruas - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 17/02
Gente comum quer uma vida pautada por rotinas de trabalho, escola, lazer e consumo
Dias atrás, o Brasil se chocou com cenas de violência nas ruas. Pessoas comuns batendo em supostos (ou comprovados) bandidos. Policiais tendo que protegê-los da fúria da gente comum.
De um lado, uma jornalista faz comentários arriscados na TV, do outro, setores da intelligentsia pedem providências do Ministério Público contra a jornalista, botando ainda mais lenha na fogueira da atmosfera de ódio e ressentimento que toma conta, lentamente, da alta, média e baixa culturas nacionais.
Não se pode defender o espancamento na rua, mesmo sendo bandido. Só o Estado detém o monopólio legítimo da violência. Mas é esta mesma intelligentsia (tribunais, universidades, mídia, escolas, ONGs) que vem sistematicamente erodindo esse monopólio legítimo da violência que pertence à polícia. Claro que os erros desta precisam ser sanados, mas a sociedade não faz nada para melhorar o tratamento institucional dado à polícia, e sem ela, sim, a gente comum vai espancar supostos (ou comprovados) bandidos na rua. E vai piorar.
O espancamento de supostos (ou comprovados) bandidos na rua é parte do fenômeno de massa que os inteligentinhos chamam de "jornadas de junho", num esforço de reviver a ejaculação precoce que foi o Maio de 68 na França, aquela revolução de mimados.
Lembremos que quando as manifestações do ano passado atingiram o nível de massa, os inteligentinhos começaram a gritar dizendo que o movimento (deles!) tinha sido sequestrado por setores "conservadores" da sociedade. Para eles, "conservador" é todo mundo que não os obedece e não os teme, mesmo que seja apenas para parar a Paulista.
Se no ano passado vimos uma inesperada crise na representação política, agora assistimos a um crescente rompimento do contrato social. E quem está na rua é o homem descrito pelo intelectual honesto que foi Hobbes, e não o pseudo-homem dos "delírios do caminhante solitário" e vaidoso Rousseau.
Já falei algumas vezes nesta coluna do que podemos chamar de psicologia da gente comum. Esta gente que a intelligentsia, na verdade, despreza, apesar de posar de defensora da gente comum. Digamos a verdade. Nossa contradição aparece quando, por exemplo, algumas pessoas começam a gritar contra gente mal-educada e sem compostura frequentando aeroportos, e os "defensores dos menos privilegiados" saem ao ataque da burguesia chocadinha reclamona.
Infelizmente, a intelligentsia não percebe que tanto a burguesia chocadinha quanto os mais pobres fazem parte da mesma categoria de gente comum. Perdemos, nós da intelligentsia, a capacidade de enxergar essa gente comum, porque vivemos em nossa "casinha" correndo atrás da produtividade inócua da Sua Excelência Capes ou delirando com seres humanos que não existem.
E qual é a psicologia de gente comum? Gente comum é duramente meritocrática: quem não trabalha é vagabundo. Não quer ser assaltada quando vai para o trabalho ou para casa (e se for, quer ver o ladrão se ferrar feio!), quer também casa própria, metrô e ônibus que andem, comprar um carro logo que for possível, hospital sem muita fila, comer pizza no domingo, transar por cinco minutos quando não estiver muito estressada, ir para praia, ganhar cada vez mais, ir ao cinema mais perto de casa, ir ao salão de beleza, ver os filhos crescerem, tomar cerveja, e se der, ler alguma coisa além de ver TV.
E, digamos: pagam impostos e tem todo o direito de viver assim (menos de bater em gente na rua). Mas vão bater em supostos (ou comprovados) ladrões cada vez mais porque estão sentindo que a sociedade não está nem aí para eles.
Quando a chamada classe D alcançar os níveis do consumo da classe C, vão querer a mesma coisa. Uma vida pautada por rotinas de trabalho, escola, lazer, consumo e férias. E quem ficar no caminho vai apanhar. Esta é única "consciência social" que existe.
Quando essa massa de gente que está de saco cheio de ser pisada no trem, de pagar imposto e não poder andar com seu carro nas ruas, de ver sua filha com medo, agir, o homem de Hobbes fará sua "revolução". A vida será doída, violenta e breve.
Gente comum quer uma vida pautada por rotinas de trabalho, escola, lazer e consumo
Dias atrás, o Brasil se chocou com cenas de violência nas ruas. Pessoas comuns batendo em supostos (ou comprovados) bandidos. Policiais tendo que protegê-los da fúria da gente comum.
De um lado, uma jornalista faz comentários arriscados na TV, do outro, setores da intelligentsia pedem providências do Ministério Público contra a jornalista, botando ainda mais lenha na fogueira da atmosfera de ódio e ressentimento que toma conta, lentamente, da alta, média e baixa culturas nacionais.
Não se pode defender o espancamento na rua, mesmo sendo bandido. Só o Estado detém o monopólio legítimo da violência. Mas é esta mesma intelligentsia (tribunais, universidades, mídia, escolas, ONGs) que vem sistematicamente erodindo esse monopólio legítimo da violência que pertence à polícia. Claro que os erros desta precisam ser sanados, mas a sociedade não faz nada para melhorar o tratamento institucional dado à polícia, e sem ela, sim, a gente comum vai espancar supostos (ou comprovados) bandidos na rua. E vai piorar.
O espancamento de supostos (ou comprovados) bandidos na rua é parte do fenômeno de massa que os inteligentinhos chamam de "jornadas de junho", num esforço de reviver a ejaculação precoce que foi o Maio de 68 na França, aquela revolução de mimados.
Lembremos que quando as manifestações do ano passado atingiram o nível de massa, os inteligentinhos começaram a gritar dizendo que o movimento (deles!) tinha sido sequestrado por setores "conservadores" da sociedade. Para eles, "conservador" é todo mundo que não os obedece e não os teme, mesmo que seja apenas para parar a Paulista.
Se no ano passado vimos uma inesperada crise na representação política, agora assistimos a um crescente rompimento do contrato social. E quem está na rua é o homem descrito pelo intelectual honesto que foi Hobbes, e não o pseudo-homem dos "delírios do caminhante solitário" e vaidoso Rousseau.
Já falei algumas vezes nesta coluna do que podemos chamar de psicologia da gente comum. Esta gente que a intelligentsia, na verdade, despreza, apesar de posar de defensora da gente comum. Digamos a verdade. Nossa contradição aparece quando, por exemplo, algumas pessoas começam a gritar contra gente mal-educada e sem compostura frequentando aeroportos, e os "defensores dos menos privilegiados" saem ao ataque da burguesia chocadinha reclamona.
Infelizmente, a intelligentsia não percebe que tanto a burguesia chocadinha quanto os mais pobres fazem parte da mesma categoria de gente comum. Perdemos, nós da intelligentsia, a capacidade de enxergar essa gente comum, porque vivemos em nossa "casinha" correndo atrás da produtividade inócua da Sua Excelência Capes ou delirando com seres humanos que não existem.
E qual é a psicologia de gente comum? Gente comum é duramente meritocrática: quem não trabalha é vagabundo. Não quer ser assaltada quando vai para o trabalho ou para casa (e se for, quer ver o ladrão se ferrar feio!), quer também casa própria, metrô e ônibus que andem, comprar um carro logo que for possível, hospital sem muita fila, comer pizza no domingo, transar por cinco minutos quando não estiver muito estressada, ir para praia, ganhar cada vez mais, ir ao cinema mais perto de casa, ir ao salão de beleza, ver os filhos crescerem, tomar cerveja, e se der, ler alguma coisa além de ver TV.
E, digamos: pagam impostos e tem todo o direito de viver assim (menos de bater em gente na rua). Mas vão bater em supostos (ou comprovados) ladrões cada vez mais porque estão sentindo que a sociedade não está nem aí para eles.
Quando a chamada classe D alcançar os níveis do consumo da classe C, vão querer a mesma coisa. Uma vida pautada por rotinas de trabalho, escola, lazer, consumo e férias. E quem ficar no caminho vai apanhar. Esta é única "consciência social" que existe.
Quando essa massa de gente que está de saco cheio de ser pisada no trem, de pagar imposto e não poder andar com seu carro nas ruas, de ver sua filha com medo, agir, o homem de Hobbes fará sua "revolução". A vida será doída, violenta e breve.
Ocupa quiosque - JOAQUIM FERREIRA DOS SANTOS
O GLOBO - 17/02
A maldição dos quiosques ameaça se espalhar, murar a praia e dar mais um golpe nesta moribunda civilização à beira-mar plantada
E Deus, sem receber qualquer comissão, sem se deixar corromper por qualquer empreiteira, fez de livre arbítrio, na camaradagem, no 0800, o fabuloso desenho em curva da praia de Copacabana. Embaixo do projeto, escreveu “divirtam-se”, e foi descansar satisfeito, coitado, crente que estava agradando. Dois mil anos depois, o homem inventou o quiosque e apagou tudo.
De uma ponta a outra daquele arco delicado entre o Leme e o Posto 6, o tal homem feito a imagem e semelhança do Criador, mas que precisa urgente de um recall, construiu uma barreira de casebres de plástico colorido. Não se veem mais o mar, nem as garotas estendidas na areia, os golfinhos saltitando ou a linha infinita da poesia no horizonte, essa necessidade que todos têm em localizar um ponto de sonho lá longe e, através da sua contemplação, fugir deste rojão cotidiano.
A curva de Copacabana era para ser um mirante plano, diziam os urbanistas da primeira Bíblia. Para um lado, contemplar-se-iam o Atlântico e o lento afastar do continente africano. Para o outro, encheríamos os olhos com as curvas das montanhas, feitas à semelhança das mulheres que chegariam aqui. Não deu certo. Primeiro os homens fizeram os prédios, e não vemos mais a cordilheira carioca. Agora, chegou a vez de quioscarem, digo, fecharem ao cidadão a visão do mar.
Eu sei que o Rio de Janeiro tem pragas mais urgentes a serem exterminadas, mas eu sou um cronista. Vejo o deputado Natan Donadon sair da prisão, ser cassado na primeira votação com voto aberto da Câmara, e o que me chama a atenção é o fato de o uniforme de presidiário agora ser branco, como se fosse um exercício de cromoterapia para purificar a índole criminosa do sujeito.
O cronista é o Jack Estripador da literatura. Reparte a cena. Valoriza as minúcias porque sabe que se esquecer uma do lado de fora da mala ou do congelador vão saber que foi ele. O cronista procura os detalhes — embora os quiosques construídos ao redor das praias do Rio já formem uma extensão tão monstruosa que se aproxima do tamanho da muralha da China. Pior. Da muralha ainda se contempla alguma coisa. O tapume dos quiosques é um muro, o verdadeiro black bloc. Ele foi construído para nada se ver.
Esta é uma cidade com um cardápio reduzido de trunfos. A política, a indústria, o mercado financeiro, os serviços, a civilidade, a segurança – tudo é tacanho. Existe, no entanto, um cenário de real valor já cantado neste tom maior por todas as escolas de samba. Isso pode dar dinheiro, progresso para a cidade e felicidade para outros. Guardem o troco. Do progresso eu quero só a sandália Havaiana. Eu quero mesmo é a dona felicidade — e uma delas é andar de um lado para o outro no calçadão da praia, como ainda fazem os personagens das fotos de Augusto Malta nos anos 1920. Copacabana, acreditem, era deslumbrante, e seria bom vê-la de volta.
Há quem prefira passeios em iates, escalar o Everest. Eu prefiro bater perna logo ali na esquina, na calçada da praia, mas sem tropeçar nos barracos construídos para um péssimo serviço de venda de coco e cerveja.
A propósito, eu e Nelson Cavaquinho fizemos um samba: “tire esse quiosque do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Já bastam as inacreditáveis barracas plantadas na areia, como se fossem uma segunda linha de zagueiros, impedindo o alumbramento previsto no versículo da Bíblia, aquele de que a natureza é ao homem intrínseca e ninguém lha tocará.
Estou falando isso, blasfemando contra os vendilhões do grande templo carioca que é a praia, porque é verão. Porque ainda dá tempo. Passei pela praia de Ipanema e os quiosques gigantes ao estilo dos de Copacabana, apesar das obras anunciadas há anos, ainda não chegaram ali. Sobrevivem uns casebres menores — fora com todos! — igualmente pútridos, mal ajambrados, cercados de cadeiras, cachos de coco e lixeiras abóbora.
O que se ganha com eles?
Qual a necessidade de eles serem colocados maiores ainda no espaço reduzido de Ipanema?
Quem são essas pessoas autorizadas a construir dentro do mais importante metro quadrado da cidade?
Ainda há tempo de evitar que as Cagarras e todo o deslumbrante cenário da praia de Ipanema fiquem escondidos atrás do mesmo bloco de tapumes gigantescos que em Copacabana tirou a linha do mar da visão do carioca. É um vício da cidade. O Aterro do Flamengo, por mais bonito, acabou com praias e trocou o mar pelas pistas de alta velocidade. O alargamento da Avenida Atlântica também mandou o oceano para longe. Não deve ser à toa que na esquina de República do Peru alguém grafitou: “o horror, o horror”.
Agora a maldição dos quiosques ameaça se espalhar, murar a praia e dar mais um golpe nesta moribunda civilização à beira-mar plantada. O calor, está no Apocalipse, completará o serviço. Ou alguém duvida que este verão seria diferente com a brisa marinha ventando mais próxima e diretamente nos poros dos nossos cangotes?
A maldição dos quiosques ameaça se espalhar, murar a praia e dar mais um golpe nesta moribunda civilização à beira-mar plantada
E Deus, sem receber qualquer comissão, sem se deixar corromper por qualquer empreiteira, fez de livre arbítrio, na camaradagem, no 0800, o fabuloso desenho em curva da praia de Copacabana. Embaixo do projeto, escreveu “divirtam-se”, e foi descansar satisfeito, coitado, crente que estava agradando. Dois mil anos depois, o homem inventou o quiosque e apagou tudo.
De uma ponta a outra daquele arco delicado entre o Leme e o Posto 6, o tal homem feito a imagem e semelhança do Criador, mas que precisa urgente de um recall, construiu uma barreira de casebres de plástico colorido. Não se veem mais o mar, nem as garotas estendidas na areia, os golfinhos saltitando ou a linha infinita da poesia no horizonte, essa necessidade que todos têm em localizar um ponto de sonho lá longe e, através da sua contemplação, fugir deste rojão cotidiano.
A curva de Copacabana era para ser um mirante plano, diziam os urbanistas da primeira Bíblia. Para um lado, contemplar-se-iam o Atlântico e o lento afastar do continente africano. Para o outro, encheríamos os olhos com as curvas das montanhas, feitas à semelhança das mulheres que chegariam aqui. Não deu certo. Primeiro os homens fizeram os prédios, e não vemos mais a cordilheira carioca. Agora, chegou a vez de quioscarem, digo, fecharem ao cidadão a visão do mar.
Eu sei que o Rio de Janeiro tem pragas mais urgentes a serem exterminadas, mas eu sou um cronista. Vejo o deputado Natan Donadon sair da prisão, ser cassado na primeira votação com voto aberto da Câmara, e o que me chama a atenção é o fato de o uniforme de presidiário agora ser branco, como se fosse um exercício de cromoterapia para purificar a índole criminosa do sujeito.
O cronista é o Jack Estripador da literatura. Reparte a cena. Valoriza as minúcias porque sabe que se esquecer uma do lado de fora da mala ou do congelador vão saber que foi ele. O cronista procura os detalhes — embora os quiosques construídos ao redor das praias do Rio já formem uma extensão tão monstruosa que se aproxima do tamanho da muralha da China. Pior. Da muralha ainda se contempla alguma coisa. O tapume dos quiosques é um muro, o verdadeiro black bloc. Ele foi construído para nada se ver.
Esta é uma cidade com um cardápio reduzido de trunfos. A política, a indústria, o mercado financeiro, os serviços, a civilidade, a segurança – tudo é tacanho. Existe, no entanto, um cenário de real valor já cantado neste tom maior por todas as escolas de samba. Isso pode dar dinheiro, progresso para a cidade e felicidade para outros. Guardem o troco. Do progresso eu quero só a sandália Havaiana. Eu quero mesmo é a dona felicidade — e uma delas é andar de um lado para o outro no calçadão da praia, como ainda fazem os personagens das fotos de Augusto Malta nos anos 1920. Copacabana, acreditem, era deslumbrante, e seria bom vê-la de volta.
Há quem prefira passeios em iates, escalar o Everest. Eu prefiro bater perna logo ali na esquina, na calçada da praia, mas sem tropeçar nos barracos construídos para um péssimo serviço de venda de coco e cerveja.
A propósito, eu e Nelson Cavaquinho fizemos um samba: “tire esse quiosque do caminho, que eu quero passar com a minha dor”. Já bastam as inacreditáveis barracas plantadas na areia, como se fossem uma segunda linha de zagueiros, impedindo o alumbramento previsto no versículo da Bíblia, aquele de que a natureza é ao homem intrínseca e ninguém lha tocará.
Estou falando isso, blasfemando contra os vendilhões do grande templo carioca que é a praia, porque é verão. Porque ainda dá tempo. Passei pela praia de Ipanema e os quiosques gigantes ao estilo dos de Copacabana, apesar das obras anunciadas há anos, ainda não chegaram ali. Sobrevivem uns casebres menores — fora com todos! — igualmente pútridos, mal ajambrados, cercados de cadeiras, cachos de coco e lixeiras abóbora.
O que se ganha com eles?
Qual a necessidade de eles serem colocados maiores ainda no espaço reduzido de Ipanema?
Quem são essas pessoas autorizadas a construir dentro do mais importante metro quadrado da cidade?
Ainda há tempo de evitar que as Cagarras e todo o deslumbrante cenário da praia de Ipanema fiquem escondidos atrás do mesmo bloco de tapumes gigantescos que em Copacabana tirou a linha do mar da visão do carioca. É um vício da cidade. O Aterro do Flamengo, por mais bonito, acabou com praias e trocou o mar pelas pistas de alta velocidade. O alargamento da Avenida Atlântica também mandou o oceano para longe. Não deve ser à toa que na esquina de República do Peru alguém grafitou: “o horror, o horror”.
Agora a maldição dos quiosques ameaça se espalhar, murar a praia e dar mais um golpe nesta moribunda civilização à beira-mar plantada. O calor, está no Apocalipse, completará o serviço. Ou alguém duvida que este verão seria diferente com a brisa marinha ventando mais próxima e diretamente nos poros dos nossos cangotes?
Desculpas imperdoáveis - LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 17/02
"Não foi esta a minha intenção", desculpou-se uma professora da PUC do Rio, depois de publicar no Facebook a foto de um homem de bermudas e camiseta no aeroporto Santos Dumont, com a pergunta: "Aeroporto ou rodoviária?" Com apoio de seus seguidores, inclusive o reitor da UniRio, a professora continuou: "O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo! Ao menos, não do meu lado! Ufa!". Diante do furor viral, a passageira insultada com a violação visual, exposta ao escárnio público, fez o que faz Justin Bieber toda semana. Pediu desculpas com a sinceridade do astro pop canadense. O homem fotografado sem sua autorização revelou-se um advogado e procurador da cidade mineira de Nova Serrana. Alguém acredita que uma acadêmica se daria ao trabalho de fotografar um gajo e escrever o que escreveu se não estivesse dizendo exatamente o que pensa?
Um consultor de empresas, falando a empresários no Fórum Econômico Mundial em Davos, pediu um cessar-fogo de pedidos de desculpas. Dov Seidman acompanha o aviltamento progressivo do pedido de desculpas público há anos. E se diz insultado com o fato de que tantos autores dos pedidos subestimam sua inteligência. A palestra de Seidman em Davos inspirou um editor de negócios do New York Times a criar uma seção, Apology Watch, para monitorar a rotina da hipocrisia e não deu outra: em poucos dias, foi brindado com a gafe épica do CEO da AOL, Tim Armstrong. Durante um telefonema para funcionários, Armstrong disse que a empresa ia reduzir seus benefícios de aposentadoria em parte porque tinha gasto US$ 2 milhões com dois bebês doentes, filhos de empregados. A mãe de um dos bebês se apresentou, contou sua história trágica e o castigado Armstrong, conhecido por sua crueldade em outro episódio público, se desculpou. De novo, ninguém o acusou de sinceridade.
O ciclo de agressão e desculpas está tão rápido que, enquanto um âncora da CNN relatava a entrevista homofóbica de um jogador de futebol americano no ar, alguém soprou no seu ponto eletrônico que o jogador já estava voltando atrás em outro canal. Como sempre, o jogador espera que a gente acredite: foi possuído por um misterioso ente do mal e disse exatamente o oposto do que pensa.
Desde que escrevi a primeira linha acima, já caiu no meu colo outra pérola da prostituição do pedido de desculpas. Isabel Allende acaba de lançar Ripper, um romance de mistério, e disse, numa entrevista à rádio pública americana, que não gosta do gênero. Antes de se lançar ao trabalho, a escritora mais conhecida pelo realismo mágico de A Casa dos Espíritos, começou a ler os autores de mistério mais bem sucedidos. Foi quando chegou à conclusão: "Não consigo escrever este tipo de livro. É macabro demais, violento demais, sombrio demais. Não há redenção ali". Confesso que tenho opinião sobre que tipo de livro Allende consegue escrever e suas chances de redenção para mim como leitora, mas isto não vem ao caso. A sandice do comentário provocou uma reação irada de fãs de livros de mistério. Allende, casada com um autor de tal literatura, Michael C. Gordon, pediu desculpas porque não foi clara. Na verdade, disse, o comentário era uma piada. Sim, uma best-seller artesã da palavra certamente encontra dificuldades em expressar opinião sobre um gênero literário.
Mas foi outro autor de best-sellers, Stephen King, que ilustrou recentemente, a meu ver, a inflação do arrependimento público. Quando Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la molestado quando ela tinha 7 anos, King escreveu no Twitter: "Estou perplexo com esta, mas há um elemento de 'bitchery' palpável". Caca no ventilador. Bitch, além de cadela, é o termo chulo para prostituta. Chamar mulher de bitch é mais pesado do que chamar de jararaca. Açodado pela turba digital, King logo tuitou: "Não tenho opinião sobre as acusações; espero que não sejam verdade. Provavelmente usei a palavra errada". E, em seguida, King, calouro no meio, concluiu: "Ainda estou aprendendo a me mexer nesta coisa. Tenham misericórdia".
King expôs o fato de que, quando todo mundo publica qualquer pensamento, neste ambiente de diarreia opinativa, vivemos em estado de conflagração constante entre quem insulta e é insultado. A professora da PUC gostou de saber que seus pares concordam com ela sobre a aparência do homem que, não suspeitava, tem um canudo como o seu. Mas ela se aterrorizou quando a chusma que viaja como quer se juntou em bando para atacá-la.
As desculpas públicas perderam a legitimidade porque não são fruto de arrependimento ou da dor de ferir alguém, mas do desejo de escapar de um desconforto e administrar a própria imagem. Sua motivação é imperdoável.
"Não foi esta a minha intenção", desculpou-se uma professora da PUC do Rio, depois de publicar no Facebook a foto de um homem de bermudas e camiseta no aeroporto Santos Dumont, com a pergunta: "Aeroporto ou rodoviária?" Com apoio de seus seguidores, inclusive o reitor da UniRio, a professora continuou: "O pior é que o Mr. Rodoviária está no meu voo! Ao menos, não do meu lado! Ufa!". Diante do furor viral, a passageira insultada com a violação visual, exposta ao escárnio público, fez o que faz Justin Bieber toda semana. Pediu desculpas com a sinceridade do astro pop canadense. O homem fotografado sem sua autorização revelou-se um advogado e procurador da cidade mineira de Nova Serrana. Alguém acredita que uma acadêmica se daria ao trabalho de fotografar um gajo e escrever o que escreveu se não estivesse dizendo exatamente o que pensa?
Um consultor de empresas, falando a empresários no Fórum Econômico Mundial em Davos, pediu um cessar-fogo de pedidos de desculpas. Dov Seidman acompanha o aviltamento progressivo do pedido de desculpas público há anos. E se diz insultado com o fato de que tantos autores dos pedidos subestimam sua inteligência. A palestra de Seidman em Davos inspirou um editor de negócios do New York Times a criar uma seção, Apology Watch, para monitorar a rotina da hipocrisia e não deu outra: em poucos dias, foi brindado com a gafe épica do CEO da AOL, Tim Armstrong. Durante um telefonema para funcionários, Armstrong disse que a empresa ia reduzir seus benefícios de aposentadoria em parte porque tinha gasto US$ 2 milhões com dois bebês doentes, filhos de empregados. A mãe de um dos bebês se apresentou, contou sua história trágica e o castigado Armstrong, conhecido por sua crueldade em outro episódio público, se desculpou. De novo, ninguém o acusou de sinceridade.
O ciclo de agressão e desculpas está tão rápido que, enquanto um âncora da CNN relatava a entrevista homofóbica de um jogador de futebol americano no ar, alguém soprou no seu ponto eletrônico que o jogador já estava voltando atrás em outro canal. Como sempre, o jogador espera que a gente acredite: foi possuído por um misterioso ente do mal e disse exatamente o oposto do que pensa.
Desde que escrevi a primeira linha acima, já caiu no meu colo outra pérola da prostituição do pedido de desculpas. Isabel Allende acaba de lançar Ripper, um romance de mistério, e disse, numa entrevista à rádio pública americana, que não gosta do gênero. Antes de se lançar ao trabalho, a escritora mais conhecida pelo realismo mágico de A Casa dos Espíritos, começou a ler os autores de mistério mais bem sucedidos. Foi quando chegou à conclusão: "Não consigo escrever este tipo de livro. É macabro demais, violento demais, sombrio demais. Não há redenção ali". Confesso que tenho opinião sobre que tipo de livro Allende consegue escrever e suas chances de redenção para mim como leitora, mas isto não vem ao caso. A sandice do comentário provocou uma reação irada de fãs de livros de mistério. Allende, casada com um autor de tal literatura, Michael C. Gordon, pediu desculpas porque não foi clara. Na verdade, disse, o comentário era uma piada. Sim, uma best-seller artesã da palavra certamente encontra dificuldades em expressar opinião sobre um gênero literário.
Mas foi outro autor de best-sellers, Stephen King, que ilustrou recentemente, a meu ver, a inflação do arrependimento público. Quando Dylan Farrow acusou Woody Allen de tê-la molestado quando ela tinha 7 anos, King escreveu no Twitter: "Estou perplexo com esta, mas há um elemento de 'bitchery' palpável". Caca no ventilador. Bitch, além de cadela, é o termo chulo para prostituta. Chamar mulher de bitch é mais pesado do que chamar de jararaca. Açodado pela turba digital, King logo tuitou: "Não tenho opinião sobre as acusações; espero que não sejam verdade. Provavelmente usei a palavra errada". E, em seguida, King, calouro no meio, concluiu: "Ainda estou aprendendo a me mexer nesta coisa. Tenham misericórdia".
King expôs o fato de que, quando todo mundo publica qualquer pensamento, neste ambiente de diarreia opinativa, vivemos em estado de conflagração constante entre quem insulta e é insultado. A professora da PUC gostou de saber que seus pares concordam com ela sobre a aparência do homem que, não suspeitava, tem um canudo como o seu. Mas ela se aterrorizou quando a chusma que viaja como quer se juntou em bando para atacá-la.
As desculpas públicas perderam a legitimidade porque não são fruto de arrependimento ou da dor de ferir alguém, mas do desejo de escapar de um desconforto e administrar a própria imagem. Sua motivação é imperdoável.
Desgaste das térmicas começa a preocupar - CLAUDIA FACCHINI
VALOR ECONÔMICO - 17/02
Além de custar bilhões de reais ao Tesouro Nacional, o funcionamento prolongado das usinas térmicas também traz outro tipo de preocupação: não se sabe por quanto tempo mais essas unidades vão conseguir operar no limite de sua capacidade, sem apresentar falhas. As usinas térmicas deveriam servir como um apoio, uma segurança ao sistema elétrico nacional. Algumas foram projetadas para passar a maior parte do tempo paradas, por isso possuem um custo operacional elevado.
O Operador Nacional do Sistema (ONS) acionou neste mês todas as usinas térmicas do país devido ao baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. Empresários disseram ao Valor que o governo solicitou ainda que fossem adiadas eventuais manutenções das termelétricas. O objetivo é evitar o risco de novos apagões, sobretudo na região Sudeste, onde já existe um déficit na oferta. O ONS precisa transferir atualmente energia das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste para poder atender o consumo.
No entanto, o governo havia pedido para que as empresas fizessem a manutenção das usinas antes do início da Copa do Mundo, diz o executivo de uma comercializadora de energia. Agora, há dúvidas se haverá tempo hábil para isso, segundo ele.
Em e-mail enviado ao Valor, o Ministério de Minas e Energia (MME) respondeu que "as unidades geradoras terão suas manutenções alocadas em período anterior a Copa de 2014, observando-se a segurança eletroenergética do SIN (Sistema Interligado Nacional)".
Ao ser questionado se havia uma preocupação com possíveis falhas nas usinas, o MME afirmou que "todo equipamento possui uma taxa de indisponibilidade programada e intempestiva, porém essa informação é considerada no planejamento da operação, razão pela qual não causa nenhuma preocupação."
Mas, na avaliação de fontes do setor, o uso intenso dos equipamentos transformou-se em um fator de risco. Mas ainda é cedo para levar em consideração esse cenário, já que é possível que ocorram chuvas em níveis significativos no fim de fevereiro e início de março.
"É preciso aguardar", diz Alexei Vivan, do escritório de advocacia L.O. Baptista-SVMFA. Ele não vê, contudo, maiores problemas. "Daria para fazer a manutenção das usinas", afirma o executivo. Segundo ele, o sistema está de fato mais vulnerável, mas por outro motivo. Como ONS precisa transportar energia da região Norte para o Sudeste, incidentes nas linhas de transmissão podem causar blecautes, como o que ocorreu no dia 4 de fevereiro, quando treze Estados ficaram sem energia.
O ONS prevê a transferência de 2,8 mil MW médios do Norte para o Sudeste em fevereiro. Outros 600 MW médios virão do Nordeste.
Segundo Claudio Sales, do Instituto Acende, originalmente, as térmicas não foram concebidas para funcionar de forma contínua. "Mas não dá para dizer que elas vão pifar por causa disso", diz o executivo, ao ponderar que seria necessário fazer uma análise "cuidadosa". Mas é fato, segundo ele, que as usinas térmicas assumiram um papel para o qual elas não foram projetadas.
De acordo com Sales, as térmicas chegaram a responder por 17,6% do abastecimento de energia do país neste mês- com base nos dados do ONS. Esse percentual já é maior que o da usina de Itaipu, de onde veio 14% da energia consumida. Com a falta de linhas de transmissão na região Nordeste, as eólicas estão contribuindo com menos de 1% para o sistema.
Devido à grande dependência nas usinas térmicas, a rede elétrica opera hoje com uma sobra de energia pequena, em torno de 300 MW, diz um executivo. "É muito pouco. Isso representa um terço só do que a Vale consome. Essa reserva no sistema teria de ser 10 vezes maior", afirma.
Para esta semana, o ONS informou que prevê o despacho de 16 mil MW de energia térmica. O operador optou por ligar usinas que custam até R$ 1.777 por MWh na região Sudeste, valor superior ao que havia sido estabelecido para a semana anterior, de R$ 1.691 por MWh. Por esse preço, já seria melhor que o país cortasse o consumo de energia, afirma uma fonte.
Além de custar bilhões de reais ao Tesouro Nacional, o funcionamento prolongado das usinas térmicas também traz outro tipo de preocupação: não se sabe por quanto tempo mais essas unidades vão conseguir operar no limite de sua capacidade, sem apresentar falhas. As usinas térmicas deveriam servir como um apoio, uma segurança ao sistema elétrico nacional. Algumas foram projetadas para passar a maior parte do tempo paradas, por isso possuem um custo operacional elevado.
O Operador Nacional do Sistema (ONS) acionou neste mês todas as usinas térmicas do país devido ao baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas. Empresários disseram ao Valor que o governo solicitou ainda que fossem adiadas eventuais manutenções das termelétricas. O objetivo é evitar o risco de novos apagões, sobretudo na região Sudeste, onde já existe um déficit na oferta. O ONS precisa transferir atualmente energia das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste para poder atender o consumo.
No entanto, o governo havia pedido para que as empresas fizessem a manutenção das usinas antes do início da Copa do Mundo, diz o executivo de uma comercializadora de energia. Agora, há dúvidas se haverá tempo hábil para isso, segundo ele.
Em e-mail enviado ao Valor, o Ministério de Minas e Energia (MME) respondeu que "as unidades geradoras terão suas manutenções alocadas em período anterior a Copa de 2014, observando-se a segurança eletroenergética do SIN (Sistema Interligado Nacional)".
Ao ser questionado se havia uma preocupação com possíveis falhas nas usinas, o MME afirmou que "todo equipamento possui uma taxa de indisponibilidade programada e intempestiva, porém essa informação é considerada no planejamento da operação, razão pela qual não causa nenhuma preocupação."
Mas, na avaliação de fontes do setor, o uso intenso dos equipamentos transformou-se em um fator de risco. Mas ainda é cedo para levar em consideração esse cenário, já que é possível que ocorram chuvas em níveis significativos no fim de fevereiro e início de março.
"É preciso aguardar", diz Alexei Vivan, do escritório de advocacia L.O. Baptista-SVMFA. Ele não vê, contudo, maiores problemas. "Daria para fazer a manutenção das usinas", afirma o executivo. Segundo ele, o sistema está de fato mais vulnerável, mas por outro motivo. Como ONS precisa transportar energia da região Norte para o Sudeste, incidentes nas linhas de transmissão podem causar blecautes, como o que ocorreu no dia 4 de fevereiro, quando treze Estados ficaram sem energia.
O ONS prevê a transferência de 2,8 mil MW médios do Norte para o Sudeste em fevereiro. Outros 600 MW médios virão do Nordeste.
Segundo Claudio Sales, do Instituto Acende, originalmente, as térmicas não foram concebidas para funcionar de forma contínua. "Mas não dá para dizer que elas vão pifar por causa disso", diz o executivo, ao ponderar que seria necessário fazer uma análise "cuidadosa". Mas é fato, segundo ele, que as usinas térmicas assumiram um papel para o qual elas não foram projetadas.
De acordo com Sales, as térmicas chegaram a responder por 17,6% do abastecimento de energia do país neste mês- com base nos dados do ONS. Esse percentual já é maior que o da usina de Itaipu, de onde veio 14% da energia consumida. Com a falta de linhas de transmissão na região Nordeste, as eólicas estão contribuindo com menos de 1% para o sistema.
Devido à grande dependência nas usinas térmicas, a rede elétrica opera hoje com uma sobra de energia pequena, em torno de 300 MW, diz um executivo. "É muito pouco. Isso representa um terço só do que a Vale consome. Essa reserva no sistema teria de ser 10 vezes maior", afirma.
Para esta semana, o ONS informou que prevê o despacho de 16 mil MW de energia térmica. O operador optou por ligar usinas que custam até R$ 1.777 por MWh na região Sudeste, valor superior ao que havia sido estabelecido para a semana anterior, de R$ 1.691 por MWh. Por esse preço, já seria melhor que o país cortasse o consumo de energia, afirma uma fonte.
Assinar:
Comentários (Atom)