segunda-feira, fevereiro 03, 2014

Um ou dois gestos - LUÍS EDUARDO ASSIS

O Estado de S.Paulo - 03/02

A cena é usual no verão paulistano. Após um calor de estourar salsicha, vem a chuva torrencial no início da noite. O helicóptero a serviço do programa sensacionalista de TV flagra um ônibus parado no meio da enchente. O nível da água se aproxima das janelas. As pessoas acenam, aflitas. O apresentador explora a possível tragédia ao vivo, mas logo tranquiliza: os bombeiros devem já estar a caminho. Se não chegaram até agora, é porque estão atendendo outra ocorrência, mais grave. Logo virão e tudo vai dar certo. Não se sabe de onde ele tira essa informação. Os bombeiros gozam do benefício da dúvida. Não há crítica à morosidade no atendimento. Não há a tradicional peroração sobre o volume de impostos pagos e a má qualidade dos serviços públicos. Não se insinua que os bombeiros estão acabando uma partida de sinuca. São heróis que se atrasaram, mas ainda heróis. O nome disso é credibilidade.

A inflação de 2013 fechou em 5,91%, sete centésimos acima do ano anterior, bem abaixo do índice de 2011 (6,5%) e exatamente igual ao indicador de 2010. Foi o suficiente para que analistas mais exaltados caracterizassem essa performance como um "fiasco" ou um "fracasso", lembrando que a inflação pode subir mais e ficar fora de controle. "Não é pelos sete centésimos", poderiam dizer, sublinhando que o quadro geral da economia brasileira no ano passado se deteriorou. Ainda assim, há um evidente exagero em antecipar o fim do mundo. O nome disso é falta de credibilidade.

A presidente Dilma Rousseff recentemente atribuiu o pessimismo à guerra psicológica, misturando um conceito bélico a uma conveniente teoria conspiratória. Mas o fato é que o governo construiu o seu descrédito com esmero por meio de pensamentos, palavras e obras. A desconfiança não é obra do acaso nem foi ardilosamente forjada. Basta nos lembramos das inumeráveis previsões erradas sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Ou da tentativa patética de maquiar os resultados fiscais. Ou da estultice de tentar tabelar a taxa interna de retorno nos leilões de concessão. Ou das idas e vindas, desencontros e rodopios da política cambial. Pagamos hoje pelos erros que o governo cometeu - mas a perda de credibilidade faz com que paguemos também pelos erros que o governo parece ter cometido. Somos onerados pelo malefício da dúvida. Assim fica caro.

Reverter este quadro não é simples. De nada adianta propugnar a esta altura por reformas de fôlego. Elas não vingaram antes, quando as vacas engordavam, e não será agora que poderão prosperar. O raio de manobra da política econômica ficou muito estreito. É néscio supor que o governo empurraria o País para uma recessão, às vésperas de eleições presidenciais, para colocar a inflação no centro da meta. Também é inviável, no curto prazo, um choque de eficiência que melhore a qualidade dos serviços públicos ou medidas de fundo que alterem a estrutura dos gastos públicos (alguém se dispõe, por exemplo, a discutir por que o Tesouro Nacional gasta mais com a previdência dos militares do que com o Bolsa Família? Claro que não).

Confiança. No campo das ações práticas, pouco de novo poderá ser feito em 2014. Mas é possível ganhar pontos na batalha das expectativas, buscando a recuperação gradual da confiança dos mercados, agora mais exigentes diante da perspectiva de elevação dos juros internacionais. Um gesto talvez baste, mas o governo pode fazer dois.

Poderia, por exemplo, apoiar um dos projetos de lei que regulamentam a independência do Banco Central (BC). Para muitos efeitos práticos, o BC já conta com razoável independência, a começar pelo fato de que a Constituição federal veda, no artigo 164, que faça empréstimos direta ou indiretamente ao Tesouro Nacional. Há extensa literatura especializada com propostas de medidas de independência (uma síntese pode ser encontrada no artigo de King Banaian, Measuring Central Bank Independence: Ordering, Ranking or Scoring?).

Nosso Banco Central já tem baixa rotatividade de diretores, mesmo sem mandatos; já é o encarregado exclusivo de definir a taxa de juros; não financia gastos do governo; e conta com profissionais de grande experiência e reputação recrutados nos próprios quadros da instituição. Passa pela cabeça de alguém que Alexandre Tombini possa ser demitido porque elevou os juros às vésperas da eleição? Alguém cogita de que ele possa ser substituído por um sobrinho de um senador do PTB? Por que não formalizar tudo isso?

Outro gesto que poderia configurar um avanço institucional notável seria colocar em funcionamento o Conselho de Gestão Fiscal, previsto na Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada em maio de 2000. O objetivo deste fórum, a ser composto por representantes de todos os poderes e entidades técnicas não governamentais, é acompanhar e avaliar a política fiscal. O conselho ganharia maior substância se, ao mesmo tempo, o governo anunciasse uma meta factível e relevante como, por exemplo, eliminar o déficit nominal em três ou quatro anos. Isso não resolve nosso problema fiscal, mas poderia resgatar um mínimo de credibilidade, sem o que o anúncio de metas será apenas mais uma promessa.

Se levados a sério, esses gestos poderiam servir como antídoto ao risco de um rebaixamento das agências de rating, evitando nova desvalorização cambial, que elevaria a inflação, corroendo salários e tornando os eleitores mais dispostos a votar na oposição. Atendem, portanto, aos interesses do Brasil e, simultaneamente, ao interesse eleitoreiro do governo. Irritarão, certamente, os grupos mais à esquerda do PT, mas não a massa de eleitores, para quem estes dois temas não importam. O governo já ajoelhou no altar de Davos e beijou a cruz. Agora é só rezar.

Programado para consumir - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP - 03/02

SÃO PAULO - Algumas nações asiáticas fundaram a aceleração econômica na exploração impiedosa de mão de obra abundante e barata. Adiaram o quanto puderam as contrapartidas típicas do Estado de bem-estar, que oferece aos cidadãos sistemas abrangentes de previdência, saúde e seguro trabalhista.

Associada a um esforço de industrialização e conquista de mercado para as exportações, a estratégia de postergar gastos sociais facilitou o acúmulo de substanciosa poupança, seja nas empresas, seja no governo --duas esferas que se confundem no modelo asiático. Os superavit externos também caracterizaram países com Japão, China e Coreia do Sul.

Já o Brasil veio se programando para consumir mais e poupar menos. Mesmo a ditadura militar, que não tinha compromisso nodal com os trabalhadores, acabou por reforçar o velho caminho desenvolvimentista de fiar-se em crédito e investimentos do exterior para catalisar o crescimento doméstico. Morreu pendurada na brocha da dívida e do FMI.

Em meados dos anos 1980, quando a ditadura sucumbiu, havia sido despejado nas cidades um exército de trabalhadores mal remunerados, mal instruídos e mal empregados. Nem passava pela cabeça dos líderes da democracia nascente propugnar por uma guinada "asiática", que adiasse gastos sociais em nome da aceleração do crescimento.

Esse caminho não seria desejável para um país que buscava a estabilização democrática num penoso quadro financeiro global. Ainda quando faltasse pão, firmou-se o compromisso de distribuí-lo sob a forma de gastos assistenciais, trabalhistas, sanitários, educacionais e previdenciários. A escolha deu certo e ajudou a elevar o nível de conforto da população. Mas não foi opção sem custos.

Com a reversão da bonança nos países emergentes, de novo se esvai a ilusão de que rumávamos para o melhor dos dois mundos --crescimento asiático e cuidado social europeu.

Socialismo quente - RUBEM AZEVEDO LIMA

CORREIO BRAZILIENSE - 03/02
Na revista Política e Cultura nº 37 (2013), no artigo de Wilson Figueiredo "Conveniências ociosas", no meio do mandato da presidente Dilma Rousseff - com todos os esses e efes -, o destaque já era a dúvida sobre a margem imprevisível, assim se pode dizer, das candidaturas siamesas dela e de seu patrono do próximo ano.
Não seria bom sinal de reserva de mercado garantir em 2014 o revezamento da dupla por mais um período: senão a reeleição dela, o terceiro mandato dele. Isso não estava escrito nem precisava. Já se pressentem os temores de que, se ocorrerem imprevistos, as duas candidaturas oficiais ocuparem, por falta de alternativa ou da oposição organizada, todo o espaço político na futura sucessão presidencial.

Dilma, candidata à mão, pode reservar-se e manipular o poder. Ou não pode ser Lula? No poder ou alguém nele tocava-o e Lula usufruía os benefícios políticos à sombra de um mandato alheio. Wilson Figueiredo admite muitas hipóteses e poderia dar mais tempo a Lula se isso fosse necessário e se ele quisesse.

A imprensa diária traz matérias abundantes sobre a presidente do Brasil, e o ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto, na Folha de S.Paulo, sob o título "Mercosul", no 2º parágrafo fala sobre a globalização do sistema produtivo estimulada pela mundialização financeira gestada pela livre movimentação dos capitais e pela facilidade de informação.
No artigo, as nações politicamente independentes são, cada vez mais, peças importantes, mas dispensáveis, na produção global. A falta de uma resposta política eficiente e rápida para os problemas da mundialização seria uma das mais sérias ameaças à democracia.

Na foto divulgada por jornais, Dilma, a presidente, conversa com Fidel Castro, antes de participar de uma cúpula em Havana, para onde ela viajou partindo de Portugal, depois de ir a um restaurante chique de Lisboa, proveniente de Davos, na Suíça. Enquanto isso, em São Paulo, ocorrera um rolezinho, aquele tipo de manifestação muito diferente da resistência de São Paulo contra a ditadura de Getúlio, em 1932.

O direito de saber - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O GLOBO - 03/02

Imprensa existe para fazer contraponto


Dilma Rousseff não dá um passo sem ouvir seu marqueteiro. João Santana é, de fato, seu primeiro-ministro. Competente na arte de embalar produtos, Santana vende bem a imagem de sua cliente. Compromisso social, capacidade de gestão e firmeza são, entre outros, os supostos atributos da presidente.

Os fatos, no entanto, acabam prevalecendo. É só uma questão de tempo. E os fatos estão gritando na força dos números econômicos, na qualidade objetiva da governança e na adequação entre discurso e vida.

Dilma Rousseff faz questão de frisar seu compromisso de combate à pobreza e sua visão de mundo oposta ao ideário dos representantes das elites que sempre “dominaram este país”. Mas o que revela uma vida não é o discurso, mas a prática concreta. Espera-se da presidente austeridade de vida e distância das benesses do poder. Não é o que se deduz de sua recente escala sigilosa em Lisboa.

Dilma Rousseff e sua comitiva passaram um fim de semana em Portugal, ocupando um total de 45 quartos de dois dos hotéis mais caros de Lisboa. A viagem estava sendo mantida em sigilo e apenas foi explicada depois que a reportagem do jornal “O Estado de S. Paulo” a revelou com exclusividade. A suíte que Dilma utilizou no hotel Ritz está tabelada em 8 mil euros por dia (cerca de R$ 26 mil). Entre Davos e Cuba, Dilma e sua delegação decidiram passar o sábado em Lisboa, sem informar ao público onde a presidente estava.

Na noite do sábado, ao contrário do que o Palácio do Planalto havia informado, Dilma saiu para jantar no elegante restaurante Eleven. O Planalto chegou a dizer ao “Estado” que ela estava “dormindo”. Mas uma foto publicada no jornal português “Expresso” deixou a comitiva sem explicações. Na foto, Dilma está entrando no luxuoso restaurante, acompanhada pelo embaixador do Brasil em Portugal, Mario Vilalva. O restaurante é um dos melhores de Portugal e um dos poucos no País classificados com a estrela Michelin.

Oficialmente, a explicação para a parada em Portugal é a de que o avião presidencial não teria autonomia para viajar entre Zurique e Havana. Mas o Planalto não explica nem por que a visita foi mantida em sigilo e nem por que o abastecimento do jato não poderia ter ocorrido com a comitiva dentro do avião, algo que levaria cerca de uma hora, comenta o jornalista Jamil Chade.

O episódio, revelador, provocou muita irritação. Ótimo. É assim que deve ser. A imprensa existe para fazer o contraponto, para revelar as incoerências, para exercer um papel fiscalizador. E não se invoquem razões de segurança ou respeito à privacidade para justificar o absurdo sigilo. Dilma pode falar o que quiser, mas, depois do episódio, terá dificuldade para criticar os desvios da elite.

Não pode existir uma separação esquizofrênica entre vida privada e vida pública. Há atitudes na vida privada que prenunciam comportamentos na vida pública. E há atitudes na vida concreta que revelam inequívoca mistura entre o público e privado.

A agenda da presidente da República deve ser de conhecimento público. E a imprensa, corretamente, precisa contornar injustificadas tentativas de sigilo. O segredo não é bom para a sociedade.

D'aquém e d'além-mar - PAULO BROSSARD

ZERO HORA - 03/01
Ninguém pode negar que a eleição do líder do PT para chefia da nação teve repercussão até internacional. Em pouco tempo, um partido nascia, conquistava o Planalto e desfrutava a Presidência da República. Anunciava-se uma mudança no estilo de governar, embora nenhuma medida chegasse a ser enunciada. Não estranha que a expectativa entrasse a mermar, pois o partido que se laureara com a posse das chaves do Planalto, do Alvorada e da Granja do Torto, exagerava no estéril personalismo. Enfim, o novo partido não era um partido novo.
Com efeito, o atual governo transcendeu a tudo o que se vira. O autoelogio diário, insistentemente repetido nos meios de comunicação, em particular pela televisão, pouco falta para atribuir a majestade à pessoa da presidente da República. Chega a ser deprimente.

O caso do mensalão, que ainda não foi digerido, começou com um pedido de desculpas, após com a negativa do fato, depois com a defesa dos envolvidos e por fim a maioria deles condenados, pela mais alta Corte de Justiça da nação, ao cabo de processo regular e minucioso. Com pompa e circunstância, foi anunciado que o próprio presidente Luiz Inácio iniciaria uma campanha impugnando a condenação, ao mesmo tempo igual cruzada de cunho nacional seria patrocinada pelo ex-ministro José Dirceu. O anúncio, porém, ficou no anúncio. Ninguém levantou a bandeira projetada e o mensalão ficou insepulto. Era natural, para não dizer inevitável, o desconforto público em que o partido do "Novo Estilo" mergulhou.

Eis senão quando nada menos que o presidente nacional do PT fez declarações segundo as quais, "a sigla está cada vez mais afastada das organizações populares, que serviram de base para a fundação do PT há três décadas". E, na primeira reunião do ano, os novos integrantes da executiva nacional pediram "um programa de modo a corresponder às aspirações, reivindicações, sonhos e expectativas de mudança da população". Como se vê, o comando nacional não diz ao que veio, antes pede a alguém "programa capaz de satisfazer as aspirações da nação". Quem? "Alguém."

Enquanto isso, a senhora presidente emprega todas as suas horas para, remanejando o ministério, e com amplos recursos da Presidência, somar mais um minuto ou um fragmento de minuto para que tenha o domínio da televisão na fase eleitoral. De outro lado, em sua oração de fim de ano, assoalhou ter dominado a inflação e logo no começo de janeiro uma sucessão de fatos revelou o que, aliás, era notório, a inflação não fora sequer mantida no nível anterior; o presidente do Banco Central, não podendo repetir a presidente, recorreu a um circunlóquio ao dizer que a inflação mostrou "resistência ligeiramente acima daquela que se antecipava!". Outrossim, os fatos que estão a ocorrer no dia a dia, com as greves em curso e as anunciadas, retratam o suposto bom sucesso do combate à inflação, também festejado pela senhora presidente em sua oração de fim de ano.

Por derradeiro, o que vem de ocorrer em Portugal é penoso e deixa visíveis os critérios vigentes. Publicamente contestada a versão oficial, o governo se apressa em dizer que dá o assunto como encerrado. Virou segredo de Estado; segundo o governo lusitano, a parada em Lisboa estava confirmada desde o dia 23, enquanto a assessoria local menciona 25, permanecendo em Portugal sábado e domingo em razão de uma "parada técnica". Hospedagem nos hotéis Ritz e Tívoli. Dois aviões, mais de 30 apartamentos. De outra feita, a presidente interrompeu voo para almoçar no Porto. Desta vez, o jantar foi no Eleven, o restaurante mais refinado de Lisboa. Tudo bem, em ordem "republicana", como se diz agora.

'Jeitinho' - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 03/02

O governo federal fez uma grave opção política ao abandonar a referência da legitimidade para atuar nas brechas da legalidade, onde vale tu- do o que não é expressamente proibido.

Com isso, veste com nova roupagem aquele velho "jeitinho" do brasileiro que gosta de levar vantagem em tudo, imagem injustamente alardeada sobre a nossa gente que traduz um comportamento baseado na esperteza e nas artimanhas, quase sempre relacionado à burla das regras e das leis.

O "jeitinho" oficial, estimulado pelo governo, ganha contornos mais nítidos nas transgressões éticas cometidas reiteradamente, no dia a dia. Quando, e com base em que, o governo decidiu que não precisa prestar contas do que faz aos brasileiros? A semana passada foi pródiga em exemplos.

A ida a Lisboa não precisaria ter tomado a dimensão que tomou se o governo tivesse se posicionado com transparência e clareza. A afirmação da presidente, "eu pago a minha conta", ao tentar tirar o foco do debate e reduzir uma questão ética ao valor de uma despesa de restaurante, só fez piorar a situação.

Por que, afinal, os brasileiros não podem saber onde está a maior autoridade do país e quanto custam suas viagens?

O episódio fez o país passar pelo constrangimento de ver o seu chanceler ser publicamente desmentido e a sua presidente deixar um hotel pela porta dos fundos, remetendo a imagem do Brasil à de uma republiqueta.

Esse, aliás, seria um momento oportuno para que a presidente explicasse por que, em maio passado, decidiu impor sigilo sobre as informações das suas viagens ao exterior que, agora, só poderão ficar públicas após o término do seu mandato.

E por que todas as restrições impostas para a divulgação das condições do financiamento do BNDES a Cuba? O que há nessa transação que incomoda tanto o PT? Na prática, a falta de transparência gera efeito contrário --alimenta teorias e suposições e acaba fazendo mais mal ao governo do que a verdade faria.

Na mesma linha, a propaganda virou a alma do governo. O exemplo da presidente, ao convocar redes oficiais de rádio e TV, de acordo com a sua conveniência eleitoral, parece ter estimulado o ministro da Saúde a também buscar a sua exposição como candidato às custas da máquina pública. Nos anos anteriores, ele ocupou esse espaço sempre na véspera das campanhas de vacinação para mobilizar a população para o dia seguinte.

Dessa vez, sob o mesmo pretexto, aproveitou seus últimos dias no cargo para anunciar, em janeiro, uma campanha de vacinação que só vai começar em março. O conjunto da obra é acintoso.

Pode ser que um dia chegue a conta por toda essa arrogância. E ela não poderá ser paga com cartão corporativo.

Atenção aos crimes eleitorais - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 03/02

Com o reinício dos trabalhos do TSE nesta segunda-feira, espera-se a revogação da resolução que tira a autonomia do MP para pedir investigações sobre crimes eleitorais


De modo geral, políticos e governantes detestam ser fiscalizados. Quanto mais livres da vigilância alheia, mais podem fazer o que não devem ou não podem – justo o que mais tentam quando eleitos. Ou legislam em causa própria ou buscam abrir portas para a prática de atos que, para dizer o mínimo e de forma elegante, não seriam republicanos. Republicanos no próprio sentido etimológico da palavra, derivada da expressão latina res publica, a coisa pública, isto é, de interesse social, coletivo.

Pois o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aprovou, no fim do ano passado, de forma aparentemente descuidada, uma resolução que tira do Ministério Público o poder de pedir a instauração de investigações policiais para investigar crimes de natureza eleitoral nos pleitos deste ano. Na prática, salvo se o MP cumprir previamente o demorado ritual de obter autorização judicial para poder iniciar a apuração de supostos delitos cometidos por partidos ou candidatos, estes podem se considerar praticamente livres para cometer as infrações à legislação eleitoral que bem entenderem: fazer “caixa dois” ou propaganda extemporânea ou ofensiva; burlar exigências da Lei da Ficha Limpa; falsear requisitos legais para o registro de candidaturas ou coligações – ou seja, podem quase tudo se o Ministério Público Eleitoral for cerceado de cumprir seu papel constitucional de, em nome da sociedade, vigiar o cumprimento da lei e exigir respeito aos direitos difusos.

Não é a primeira vez que se tenta restringir a ação do Ministério Público. Ainda no ano passado, tivemos a polêmica questão da PEC 37, proposta de emenda constitucional que, se aprovada, tiraria do MP o poder de investigar – prerrogativa que passaria a ser exclusiva dos organismos policiais. A sociedade se levantou contra esta medida e transformou-a numa das causas que levaram multidões às ruas em junho do ano passado, no mesmo nível de ruído com que os manifestantes gritavam pela redução de 20 centavos na tarifa do transporte coletivo.

Significa que o povo – que na maior parte do tempo parece desinteressado por temas institucionais –, quando chamado à compreensão, sabe distinguir entre o certo e o errado. E, assim como era errado eliminar o poder de investigação do MP a respeito de crimes como os do colarinho-branco, também é errado tirá-lo da difícil missão (talvez impossível) de expurgar da disputa eleitoral os que buscam percorrer nela os caminhos tortuosos dos interesses escusos.

A PEC 37 foi derrubada. O Congresso, acuado pelas manifestações juninas, não lhe deu aprovação. E agora se espera que o TSE revogue a infeliz resolução que baixou no ano passado e devolva ao MP a plenitude de suas competências. Há sinais positivos nesta direção, pois alguns de seus ministros, como o presidente da corte, Marco Aurélio Mello, já reconheceram o retrocesso em que o tribunal tinha incorrido. Ele mesmo afirmou, no meio de janeiro, que, com o retorno das atividades do TSE, nesta segunda-feira, o assunto voltaria à pauta. Que desta vez prevaleça o bom senso e que a população volte a contar com o MP no combate aos malfeitos eleitorais.

Hipocrisia eleitoral - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 03/02

Não faz sentido fixar uma data arbitrária para o início das campanhas políticas, desde que o bolso do contribuinte seja preservado


A multa não foi das maiores --R$ 10 mil--, e a infração existiu. É ainda assim bastante contestável a condenação imposta pelo Tribunal Regional Eleitoral da Bahia ao vice-governador do Estado, Otto Alencar, e a seu partido, o PSD.

Como sempre acontece, pretende-se punir a propaganda antecipada de possíveis candidatos.

No município de Ruy Barbosa, terra natal do vice-governador, adesivos e pinturas de parede com os dizeres "Ruy Barbosa 100% Otto Alencar" e "Governador 2014 55 PSD" deixam bastante clara a intenção de angariar votos para uma postulação que ainda não tem existência oficial. Seriam, segundo o político, fruto do entusiasmo de correligionários sem conhecimento das normas eleitorais.

Inocente ou não, Alencar é a mais recente vítima de uma legislação cujo rigor carece de razoabilidade. Não há sentido em fixar por decreto a data de nascença de uma candidatura. O processo democrático envolve, em tese, debate permanente entre diferentes pretensões, propostas e visões de mundo.

Personagens como a presidente Dilma Rousseff (PT) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), estão, desde o início, pensando na própria reeleição.

Não há outro motivo, aliás, para muitas das atividades a que se dedicam, dedicaram-se e dedicar-se-ão quaisquer governantes em qualquer tempo e lugar do mundo: fazer discursos, participar de eventos, comparecer a inaugurações das obras que construíram ou não.

Uma entrevista, o artigo assinado por um adepto, o discurso em elogio próprio --tudo pode ser entendido como "propaganda antecipada", caso as autoridades eleitorais resolvam seguir à risca seu arbitrário cronograma político.

Na verdade, o princípio da liberdade de expressão e, num sentido mais amplo, o do livre exercício dos direitos políticos e o do acesso à informação se veem ameaçados quando se coíbe, por razões burocráticas, a propaganda de quem já é ou pretende ser candidato.

Isso não se confunde com usar o dinheiro público para promover candidaturas. Em maior ou menor grau, este é um vício em que incorrem os mais variados políticos.

Das ternas fotos de Eduardo Campos (PSB) com o filho recém-nascido (divulgadas, "por equívoco", no site do governo pernambucano) às aparições de Paulo Skaf (PMDB) nos anúncios de entidades que contam com repasses da contribuição sindical (recolhida de forma compulsória), passando pela superagenda de Alexandre Padilha (PT) ao se despedir do Ministério da Saúde, são inúmeros os casos em que sai do bolso do eleitor a verba da promoção pessoal.

O formalismo exagerado da lei não faz mais que estimular a hipocrisia na política. Melhor seria que o debate tivesse menos amarras, desde que, como é óbvio, não fosse o contribuinte a pagar pela pressa dos candidatos.

Imagine depois do Mundial - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 03/02
"Quero ver na Copa", bordão repetido diante do atraso das obras de mobilidade exigidas pela Fifa, inspira preocupação relativa ao day after. Governo e empresários deveriam estar com outro refrão na ponta da língua: Quero ver depois da Copa. Mantida a situação atual, o Brasil sairá do Mundial de Futebol com carimbo indesejável - o de país caro.Os investimentos feitos para atender a demanda do público que se espera que venha assistir aos jogos nas 12 cidades sedes precisarão continuar a servir à nação. A ninguém interessa ver aeroportos, hotéis e restaurantes entregues às moscas. O cenário futuro é tão preocupante quanto o presente, em que se conjuga o verbo faltar.

Justifica-se a apreensão. Os preços explodiram. Diárias de hotel tiveram o custo multiplicado - por baixo - mais de três vezes. Passagens aéreas viraram objeto de alto luxo. Comidas e bebidas, mesmo as consumidas em barracas de praia, alcançam valores que rivalizam com os de restaurantes elegantes de Tóquio, Paris ou Londres. O abuso não passa despercebido. Reportagens em veículos respeitados, como o The New York Times e a The Economist, têm dado generoso espaço à "pizza de queijo de US$ 30".
Não se deve ao acaso o fato de os brasileiros serem conhecidos como os turistas que mais deixam dólares no exterior. Eletrônicos, roupas, sapatos, vestidos de noiva, enxoval de bebê compõem rotineiramente a bagagem dos viajantes que desembarcam nos aeroportos nacionais. Sair com as malas vazias e voltar com elas cheias das mais diferentes mercadorias compensa - mesmo se houver necessidade de pagar imposto de importação.

Conhecidas distorções da economia explicam, em parte, o alto custo de bens e serviços. É o caso da complexidade e do peso da carga tributária, da labiríntica e emperrada burocracia, da rigidez da legislação trabalhista, da baixa produtividade da mão de obra, da insuficiente infraestrutura.

Embora crônicas e significativas, tais deformações não respondem sozinhas pela carestia que assusta o consumidor. Elas vêm aliadas ao abuso de empresários míopes, incapazes de ver além da Copa. Esquecem-se de que desperdiçam excelente oportunidade de divulgar o país para o mundo e, com isso, conquistar turistas por duas vias. Uma: dos que voltarão. A outra: dos que virão incentivados pela experiência dos antecessores.

 Agem como o proprietário da galinha dos ovos de ouro. Inapto de esperar pelo lucro que vem ao longo dos dias, ele matou a penosa para apoderar-se da riqueza de uma só vez. O resultado todos conhecem: dentro da barriga que parecia mina inesgotável encontrou vísceras sangrentas. As associações de hotéis, bares, restaurantes e similares devem tomar providências para, em vez de matar a galinha, tratá-la com ração de luxo. Em bom português: imaginar o depois da Copa.

Comunicação mais agressiva - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S.Paulo - 03/02

A troca de Helena Chagas por Thomas Traumann na Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom) foi uma importante vitória da caciquia do PT na luta para ampliar sua influência em uma área do governo considerada estratégica e que, até agora, estava mais ou menos blindada pela presidente Dilma Rousseff. Pode-se esperar que daqui em diante, neste ano eleitoral, a Secom deixe definitivamente de ser um órgão de Estado - cuja função, conforme seus estatutos, é a "disseminação de informações de interesse público, como direitos e serviços, e também projetos e políticas de governo" - e adote um perfil mais agressivo na defesa dos interesses específicos do lulopetismo.

A Secom foi um dos poucos órgãos do governo para os quais Dilma, ao assumir a Presidência, pôde nomear ela mesma o titular, contornando as vontades de Lula, seu criador. A escolha recaiu sobre a jornalista Helena Chagas, cujo perfil permitia supor que a Secom seria "desideologizada", isto é, perderia o caráter de aparelho partidário imposto pelo seu antecessor, o jornalista Franklin Martins.

No cargo, Franklin passou o segundo mandato de Lula fortalecendo o sistema de comunicação do governo e empenhando-se em levar adiante um projeto de regulamentação da mídia que incluísse uma óbvia tentativa de controlar conteúdos jornalísticos. Dilma sempre teve o cuidado de evitar esse assunto e chegou a dizer que "o único controle de conteúdo admissível é o controle remoto da TV".

Além disso, Franklin promoveu a pulverização de verbas de publicidade do governo - outra atribuição crucial da Secom -, premiando veículos simpáticos ao governo. Com a entrada de Helena Chagas, o critério de investimento publicitário voltou a ser técnico: recebem mais verbas os veículos de maior audiência, pois o objetivo da comunicação oficial é atingir o maior número possível de pessoas.

Esse comportamento contrariou a militância petista, que construiu uma rede de blogs dedicados a fazer a defesa incondicional do governo e esperava ser muito bem remunerada por esse serviço. As verbas até foram liberadas, mas não no volume exigido pelos militantes, que não compreendem por que o governo prefere anunciar em veículos independentes, que lhe são críticos, e dá menos dinheiro aos que lhe servem como apaixonados advogados.

A pressão petista contra esse estado de coisas foi violenta. Em recente reunião do partido que tratou do assunto, segundo relato de O Globo, um dos presentes chegou a qualificar a comunicação do governo de "porcaria", criticou o corte de recursos destinados aos blogs governistas e cobrou uma melhor estratégia de comunicação do governo nas redes sociais.

A queda de Helena Chagas deve ser lida nesse contexto, assim como sua substituição por Thomas Traumann. Ex-porta-voz de Dilma, ele é tido como um profissional mais agressivo que sua antecessora e afinado com Franklin Martins, que deve ser um dos principais chefes da campanha de Dilma. A intenção, portanto, é facilitar a sinergia entre a comunicação do governo, do PT e da campanha da presidente à reeleição, com óbvio prejuízo para a informação institucional - apartidária por definição.

Um dos campos preferenciais da nova estratégia de comunicação é o das redes sociais, das quais Traumann já cuidava no governo. É nelas que os militantes governistas empreendem sua guerra suja, com a disseminação de informações falsas ou distorcidas para louvar conquistas inexistentes do lulopetismo e para destruir a reputação de opositores.

Assim, que não se tome pelo valor de face um vídeo recém-divulgado em que Lula pede que haja comedimento nas redes sociais. O que Lula quer não é reduzir as agressões contra os adversários do PT, pois são justamente elas que mobilizam a militância - como bem sabe o ex-presidente, useiro em proferir diatribes quando está no palanque -, mas sim profissionalizá-las. Ao dizer que a internet precisa ser explorada com parcimônia e respeito, Lula espera, na verdade, que a militância seja menos voluntarista e se atenha a uma estratégia de comunicação muito bem definida, urdida por quem realmente entende do assunto.

Segredos de viagens de Dilma - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 03/02
No sábado 31 de março de 2012, depois de uma visita à Índia, Dilma Rousseff embarcou de volta sem a imprensa saber que o avião presidencial faria uma escala para reabastecimento no Sul da Itália. Não tem autonomia para voar direto de tão longe.
Durante cinco horas, por decisão de Dilma, somente as cúpulas do governo, das Forças Armadas e dos órgãos de segurança sabiam onde ela estava e o que fazia.

UM MÊS ANTES  o chefe do cerimonial da Presidência da República telefonara para José Viegas, embaixador do Brasil em Roma, pedindo uma sugestão: de volta da Índia, onde o avião deveria pousar? Viegas respondeu na hora: em Palermo, capital da ilha da Sicília, parte da Itália. Ali conhecera um dos bens mais preciosos da humanidade - a Capela Palatina, recoberta de mosaicos do século XII.

VIEGAS FOI  avisado uma semana antes da chegada de Dilma à Índia de que deveria recepcioná-la em Palermo. Os que cuidam da segurança da presidente haviam inspecionado os locais por onde ela passaria - o centro da cidade, a capela e o restaurante reservado para o jantar da comitiva de 18 pessoas, o quatro estrelas Tratoria Piccolo Napoli (telefone: +39 091 320431). Somente o governo da ilha sabia da visita.

"NÃO QUERO  seguranças ao meu lado", ordenara Dilma. Que desembarcou em Palermo reclamando da companhia do fotógrafo da Presidência. A seu lado, Helena Chagas, então ministra da Comunicação Social, nada disse. Ninguém ousaria. Viegas consultou Dilma sobre o jantar. A Tratoria fica em um bairro popular de Palermo. De varais com roupas estendidos entre as casas. O bairro lembra o do Brás, no Centro de São Paulo.

HAVIA OUTRA  opção - um cinco estrelas à beiramar, posto de prontidão pelos agentes de segurança brasileiros. "Vamos para o Brás", respondeu Dilma.

O jantar custou cerca de mil dólares. Dilma gosta de pizza. Em um domingo, há mais de ano, faltou pizza no Palácio da Alvorada. E ela queria uma. Seus assessores entraram em pânico. Foi aberta uma pizzaria para servi-la.

O QUE ELA JANTOU  em Palermo é "segredo de Estado".

Fora os presidentes-generais da ditadura militar de 1964, presidente algum foi tão autoritário quanto Dilma. Nenhum deles - nem mesmo Fernando Collor de Mello, o primeiro a ser eleito pelo voto direto, em 1989. Ministros deixaram o governo Dilma por não suportá-la (atenção: sem desmentidos, prefeito Fernando Haddad). Outros recusaram convites.

O COZINHEIRO  de Palermo foi aplaudido de pé. O encarregado dos bichos que vivem no Palácio da Alvorada, certa vez, foi procurado por Dilma. Jamais esquecerá o que ela lhe disse porque um avestruz bicara um cão. Palermo da Capela Palatina foi a primeira viagem de Dilma mantida em segredo. Salvo em ocasiões especiais, presidentes de países democráticos como o nosso nunca procederam assim.

NA SEMANA PASSADA,  de volta da Suíça, sabia-se que Dilma iria a Cuba. O jornal "O Estado de S. Paulo" descobriu o que fora omitido do público por ordem dela: o avião presidencial faria uma escala em Lisboa. A informação parece irrelevante? De novo: em democracias, não é. O distinto público tem o direito de saber onde seu presidente está. Omissão equivale a uma mentira.

O QUE VOCÊ pensa a respeito? Mensagens para a seção de cartas do jornal. Ou para o site do GLOBO.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

Governo executou zero em mobilidade urbana


A presidenta Dilma promete “a Copa das Copas”, o ministro Aldo Rebelo (Esporte) vende otimismo, mas a verdade é que o governo não parece preocupado com uma das principais exigências da Fifa: investimentos em mobilidade urbana. A 128 dias da Copa do Mundo, nem um centavo foi liberado para mobilidade urbana nas seis cidades-sede: São Paulo, Salvador, Porto Alegre, Natal, Manaus e Brasília.

 Recurso zero 

Em Brasília, foram contratados R$ 43 milhões para ampliação da via DF-047, que dá acesso ao aeroporto. Nenhum recurso foi repassado.

 Vai dar calote? 
A DF-047 (Estrada Parque Aeroporto) começou a ser reformada em 2012, com entrega prevista para março de 2014. Até agora, nada.

 Dívida cara 
 Nas demais cidades-sedes, o governo precisa honrar compromissos: no Rio, por exemplo, foram repassados só metade dos R$1,5 bilhão.

 Transparência 
 O PSB/Rede inclui a transparência na gestão pública entre diretrizes do programa de governo, que será lançado nesta terça (4), em Brasília.

Mercadande vira ‘super-ministro’ nesta segunda
Aloizio Mercadante assume nesta, segunda-feira (3), a chefia da Casa Civil, talvez a pasta mais influente do governo, e com ela a condição de “super-ministro” do governo Dilma Rousseff. Além da nova Casa, que herdará da paranaense Gleisi Hoffmann, onde coordenará as ações de governo, ele acumulará mais dois ministérios: Ciência e Tecnologia, do qual nunca saiu, e Educação (onde continuará dando as cartas).

 Que rei sou eu? 
 Com fama de soberba e pedantismo, Mercadante deverá exercer seu poder na plenitude, na Casa Civil. Vai se intrometer nos 39 ministérios.

 Negociação 
 Aécio Neves (PSDB) tenta ampliar as alianças com DEM e PP em Santa Catarina, onde o tucano Paulo Bauer aspira disputar o governo.

 Asas do humor 
 A piada da semana, em Brasília, dava como certa a nomeação de Ideli Salvatti para cargo na Aviação Civil, por sua paixão por helicópteros.

 Pau de galinheiro 
 Acusado de aceitar suborno para abrir sindicato, o ex-ministro Carlos Lupi convocou a executiva do PDT para quarta (5). Tenta dar alguma demonstração de força, temendo que Dilma finalmente se livre dele.

 Traição à solta 
O PMDB negocia a vice do ministro Fernando Pimentel ao governo de Minas, mas dirigentes admitem, nos bastidores, que o partido não terá outra opção a não ser trair Dilma em favor do tucano Aécio Neves.

 Dinheiro pelo ralo 
A União desembolsou meio bilhão de reais (R$ 496 milhões) no pagamento de tarifas de água em órgãos dos três poderes. O Executivo deixa aberta a torneira do desperdício: R$ 472 milhões.

 Insustentável 
 Fiel escudeiro do governador Sérgio Cabral, o presidente municipal do PMDB do Rio, Leonardo Picciani, avisa: “se o PT mantiver tom crítico ao governo, inviabiliza espaço para Dilma no palanque de Pezão”.

 Semântica 
 Em geral pontual, a aérea Avianca riscou a palavra “atraso” do seu dicionário. Quando atrasa, seus comissários chamam isso de “voo tardio”, quando usam o sistema de som do avião para pedir desculpas.

 Bancada do gelo 
 A deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF) e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) têm algo em comum: ambos destinaram generosas fatias de suas emendas ao programa brasileiro na Antártida. Já para Brasília...

 População intimidada 
 A população do DF sofre intimidação nas ruas, invadidas pelo crime, e nas redes sociais: quem ousa criticar a “operação tartaruga” de PMs é perseguido e insultado, quase sempre sob a covardia do anonimato.

 Providências 
 A presidente da Comissão de Direitos Humanos do Senado, Ana Rita (PT-ES), convocou reunião para quarta (5) a fim de debater o presídio de Pedrinhas, no Maranhão, e a chacina de presos em dezembro.

 Acelera lá
Na internet, já tem gente encontrando sentido para a sigla do PAC, inventada pelos petistas: Programa de Aceleração em Cuba.

PODER SEM PUDOR

Rolando o lero e a malícia

Citado como galanteador pela ex-ministra Zélia Cardoso de Melo, o então chanceler Francisco Rezek apontou maliciosamente para o Ministério da Justiça, onde havia trabalhado o namorado dela, Bernardo Cabral, e onde dias antes o então ministro Jarbas Passarinho brincara dizendo-se apaixonado:
- Os ventos de Eros só sopram do lado de lá...
Dias depois, Rezek, cuja prolixidade lhe rendeu o apelido de “Rolando Lero”, foi a uma reunião e ouviu o troco de Passarinho, provocando gargalhadas:
- Espelhemo-nos no chanceler e sejamos sintéticos...

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Brasil paga taxa maior para atrair investidor
- Folha: Lei federal exige 60% de presença na pré-escola
- O Estadão: Governo só consegue oferecer curso a 4% dos desempregados
- Correio: Violência no DF tem 12 mortes em 48 horas
- Estado de Minas: A Copa No Brasil – Hotéis pedem prorrogação
- Zero Hora: Porto Alegre sem ônibus – O jogo de espera na greve
- Brasil Econômico: “Dilma, cuidado com a inflação”

domingo, fevereiro 02, 2014

A melhor vida possível - MARTHA MEDEIROS

ZERO HORA - 02/02

Quanto mais converso por aí, mais percebo que é inútil acreditar em verdades absolutas e fórmulas ideais de convivência. Cada pessoa tem familiares que influenciaram suas escolhas, medos herdados e medos adquiridos, sonhos altos demais ou mesmo nenhum, e um número incalculável de perguntas sem respostas, de desejos embaraçosos, de mágoas vitalícias. Quem vai decretar para mim o que é melhor para mim? E quem vai dizer o que é melhor para você? Com que topete?

A melhor vida não é aquela que atende os mandamentos universais, as ordens celestes e os clichês eternizados, mas a que se tornou possível, a que você vem construindo a despeito de todas as suas dúvidas.

A melhor vida seria a da Gisele Bündchen, pensa a menina feia. A melhor vida seria a da Dilma, pensa a vereadora de uma cidadezinha do interior. Enquanto isso, vivem a vida possível, sem perceber o quanto deveriam ser gratas por não precisarem arcar com consequências que desconhecem.

A melhor vida para mim é bem diferente da melhor vida para você. Reúna o planeta inteiro e não se encontrará duas pessoas que planejem possuir a mesma vida, porque uns não querem ter horário para nada, outros se envaidecem de ter suas atitudes comentadas por estranhos, há os que se paralisam à primeira frustração, os que estão sempre inventando novos desafios, e a vida possível de cada um torna-se impossível para os demais, o que não deixa de ser uma piada termos que conviver intimamente uns com os outros apesar desse tabuleiro inesgotável de escolhas e destinos.

Se eu almejar uma vida ideal, terei que me basear na vida dos outros, pois o ideal é fruto de uma racionalização coletiva e consagrada, enquanto que se eu me contentar com uma vida possível, volto a assumir algum controle sobre os royalties das minhas decisões.

O que não impede que ela seja ótima, a mais adequada para o fôlego que tenho, a mais realizável dentro de minhas ambições, a menos sofrida, já que regulada pelo autoconhecimento que adquiri até aqui. Tenho como manejar uma vida possível de um jeito que jamais teria de manejar uma vida perfeita, até porque vida perfeita não é deste mundo, e o sobrenatural é matéria que não domino.

A melhor vida não é a focada em suposições, fantasias, esperas, surpresas e demais previsões que raramente se confirmam. A melhor vida não é aquela que é cumprida feito um pagamento de dívida, como um acerto de contas com nossos antigos anseios juvenis.

A melhor vida não é a que desenhamos quando criança na folha do caderno, a casinha de venezianas abertas, a fumaça saindo pela chaminé e os girassóis protegidos por uma cerquinha branca, e tudo o que isso sugere de proteção e vizinhança com os desejos comuns a todos. A melhor vida possível é aquela que você ainda vem desenhando, mesmo já com algumas pontas de lápis quebradas.

O prazer de matar - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 02/02

É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso


Não passa uma semana sem que novos atentados matem dezenas de pessoas. Isso ocorre com mais frequência no Iraque, no Egito, no Afeganistão, na Síria, em países da África Central. Matar inocentes indiscriminadamente é difícil de entender. Toda vez que leio uma notícia dessas, surpreendo-me como se a lesse pela primeira vez.

Não há dúvida de que homicídio puro e simples não deixa de me espantar. De fato, tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa que não compreendo nem aceito. Mas sei, como todo mundo, que, dependendo de seu temperamento, pode uma pessoa perder a cabeça e matar um suposto inimigo.

Há, porém, pessoas que têm o prazer de matar e, por isso mesmo, fazem isso com certa frequência. Lembro-me de um jovem que foi preso logo depois de liquidar um desafeto. Quando o policial lhe disse que no próximo ano seria maior de idade e, se voltasse a matar alguém, iria para a cadeia, ele respondeu: "Pois é, não posso perder tempo".

No que se refere aos atentados, há os motivados por razões políticas e religiosas e há os que, ao que tudo indica, têm causas psíquicas, ou seja, o cara é pirado. Esses são os atentados tipicamente norte-americanos. Com impressionante frequência, surge um sujeito empunhando um revólver ou um fuzil-metralhadora que começa a disparar a esmo dentro de um shopping ou de uma universidade. Ele sabe que vai morrer e, quase sempre, é abatido por policiais.

A loucura é certamente um componente desse desatino homicida. Não obstante, a gente se pergunta por que só acontece nos Estados Unidos. Será porque todo mundo lá tem armas em casa e aprende a atirar desde criancinha, no quintal de casa ou no porão? Os fabricantes de armas garantem que não, que não é por isso, mas tenho dificuldade de acreditar neles.

Esse tipo de atentado difere daqueles outros, cuja motivação é político-religiosa, e difere também, por seu resultado, não de um surto psicótico e, sim, pelo contrário, fruto de uma decisão tomada objetiva e friamente por um líder.

A afinidade que há entre eles é o propósito de assassinar pessoas inocentes. E é precisamente este ponto que tenho maior dificuldade de aceitar. Por exemplo, um terrorista, com o corpo coberto de bombas, entra num ônibus escolar do país inimigo, explode as bombas e a si mesmo, matando dezenas de crianças. Não vejo nenhum sentido nisso, a não ser mostrar seu ódio ao adversário; e, nesse caso, por se tratar de crianças, mostrar que sua fúria homicida desconhece limites. É outra modalidade de loucura.

Mas há ainda os casos em que a fúria homicida mata indiscriminadamente pessoas de outros países, que nada têm a ver com os propósitos do atentado. Exemplo disso foi o caso das Torres Gêmeas, em Nova York, onde morreram quase 3.000 pessoas. O atentado visava os norte-americanos, mas matou franceses, holandeses e até muçulmanos. Nem mesmo se pode excluir, dentre as vítimas daquele atentado, pessoas que possivelmente apoiavam a causa defendida pelos terroristas. É a insensatez levada ao último grau, que só se explica pela cegueira a que leva o fanatismo religioso.

O que torna mais absurdo tudo isso é o fato de que o atentado terrorista não traz nenhum benefício a quem o projeta e o faz acontecer, a não ser satisfazer seus desejos homicidas. De fato, o terrorismo é a expressão da derrota política de quem o promove, a reação desesperada de quem sabe que não tem qualquer possibilidade de vencer o adversário e chegar ao poder.

Mas, ao fim de tudo, não consigo na verdade entender tal desvario, mesmo porque, além do assassinato em massa de crianças e cidadãos quaisquer, que o terrorista nem sequer conhece ou sabe que matou, há fatos quase inacreditáveis.

Como o que ouvi da boca do chefe supremo do Hezbollah, na televisão. Ele afirmou que o menino-bomba, que praticou o atentado no ônibus escolar, em Israel, era seu filho e tinha 16 anos. E acrescentou: "O mais novo, que tem 12 anos, já está sendo preparado para se sacrificar por Alá". O curioso é que ele manda os filhos morrerem, mas ele, o pai, continua vivo.

Porto alegre a pé - FABRÍCIO CARPINEJAR

ZERO HORA - 02/02


Eu voltava das festas a pé com os amigos.

Não tinha nem dinheiro para bebida, muito menos para o táxi.

Não interessava a distância. A ausência de opção resolvia a vida.

Enfrentávamos o perigo com o destemor da cumplicidade.

Ia caminhando com os amigos. Recapitulando as frustrações ou os namoros das reuniões dançantes.

Porto Alegre não é e nunca será uma cidade grande para o adolescente.

A distância se abreviava na conversa à toa, nas descobertas, na expectativa da opinião de meus confidentes.

Já caminhei de Ipanema a Petrópolis, de Cavalhada a Petrópolis. Se eu fosse um carro na juventude, ultrapassava os quinhentos mil quilômetros rodados.

Meus tênis cediam primeiro pelas solas, furavam nas pontas, marcas da herança dos paralelepípedos.

Era impressionante que não me cansava e não reclamava da lonjura. A amizade oferecia, além do fôlego extra, uma distração dos problemas.

Tomava carona nas vozes de meus amigos.

Avançava por ruelas escuras, por bairros apagados. A algazarra superava o medo do assalto. Quem estava perdido por ali é que ficava com medo da gente.

Não há sensação mais agradável do que percorrer a própria cidade ao clarão da lua, acompanhado da turma de sua confiança.

Ouvia os nossos passos nas calçadas, e os pássaros madrugando com seus piares.

A claridade chegava aos poucos, a fome pedia passagem, a felicidade era esperançosa e aguardava o futuro com cheiro de almoço pronto.

Falávamos sem parar, até entrar em nosso bairro.

Naquele momento, estranhamente nos calávamos.

Quatro quarteirões antes do portão de casa, fechávamos a matraca.

Bastava dobrar na rua Carazinho, que não trocávamos mais nenhuma mensagem.

A avenida representava o marco de nosso laconismo.

Sumiam as palavras. Como um código. Como um princípio ético.

Não é que faltava assunto, ou que acabara o filão dos segredos e dos espantos amorosos para serem repartidos.

O silêncio nos preparava para a despedida.

O silêncio, desde aquela época, diminui a angústia da separação.

O silêncio é quando a cumplicidade vira pensamento. É um respeito pela importância do que foi escutado.

É quando começamos a dormir devagar e atravessar a pé os nossos sonhos.

Já os sonhos precisam de solidão. É um trajeto isolado, por mais que tenhamos bons amigos.

Parafuso - CAETANO VELOSO

O GLOBO - 02/02

No dia 5 de fevereiro, na sede da Anistia Internacional, no Rio, haverá uma reunião para abrir o debate sobre a possibilidade de o Brasil finalmente dar asilo a Edward Snowden. Nosso país é sua escolha preferencial

Edward Snowden é uma figura forte. Sua presença pública tem o sabor das entradas individuais que desencadeiam coisas grandes na cena do mundo. Jovem, ele parece um pouco o garoto que, em “E la nave va”, deflagra, com um único gesto, a Primeira Guerra Mundial. Falo do personagem do filme e não do homem real que matou o arquiduque da Áustria porque é a captação poética do tipo de agente histórico que me interessa evocar. Snowden é a mostra de que vivemos um tempo cheio de presságios, esperanças, ameaças. O presidente do seu país de origem, Barack Obama, um mulato que é o primeiro negro eleito para o posto e que representa, não apenas por isso, todo um mundo de ideias opostas às forças conservadoras, diz sobre ele o mesmo que diria um representante dessas forças: tendo optado por fazer do que descobriu uma denúncia pública, em vez de uma queixa interna, Snowden pôs a segurança dos Estado Unidos em xeque. Mas não há no mundo quem não pense que só a denúncia externa seria eficiente contra o que Snowden achou moralmente inaceitável. Por uma volta caprichosa do parafuso da História, ele foi encontrar guarida num país em que o respeito às individualidades é oficialmente (e desde sempre) muito menos respeitado do que nos EUA: a Rússia. Não deixa de ser significativo — e, em grande medida, honroso — para nós que, vendo o tempo de refúgio temporário se esvair e querendo encontrar-se em ambiente mais confortável, ele tenha pensado no Brasil, começando a namorar-nos num texto vago, aparentemente escrito para sondar a reação das nossas autoridades, que poderá se traduzir em pedido oficial de asilo político caso exibamos simpatia. (Antes de conseguir o asilo temporário que a Rússia lhe concedeu, Snowden expediu pedido para 21 países, o Brasil entre eles, tendo sido atendido apenas por Bolívia, Venezuela e Nicarágua.)

No dia 5 de fevereiro, na sede da Anistia Internacional, no Rio, haverá uma reunião para abrir o debate sobre a possibilidade de o Brasil finalmente dar asilo ao americano. Glenn Greenwald, o jornalista a quem primeiro Snowden falou sobre os supergrampos da NSA, já disse que nosso país é sua escolha preferencial. E David Miranda, o namorado de Greenwald, é o autor da petição na Avaaz para que o governo brasileiro conceda o asilo a Snowden. Emocionalmente, é-me quase irresistível aderir à campanha de Miranda (que ficou horas preso no antipático aeroporto londrino de Heathrow sob suspeita de “terrorismo”). Não estou no Rio e não estarei lá no dia 5. Se estivesse, iria à Anistia para ouvir o debate e me sentir mais seguro para assinar a petição na Avaaz.

Falta-me sobretudo pesar racionalmente a questão. No coração, desejo que Snowden venha morar no Rio e fique muito mais apaixonado pelo Brasil do que Ronald Biggs. Vivo num mundo de sonhos cor-de-rosa e ficaria feliz se um cara como o jovem americano se ligasse mais ao Jardim Botânico do que Brigitte Bardot se ligou a Búzios. Seja como for, sinto, sem piada, que seria um gesto bonito acolher Snowden. Claro que quero que as relações entre o Brasil e os Estados Unidos possam melhorar e não sou tão desinteressado assim do assento brasileiro no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Preferiria nada arriscar a perder oportunidades para o Brasil. Sou amalucadamente patriota. Mas é porque quero que se invente algo bom tendo o Brasil como pretexto. Claro que, num mundo ideal, eu teria meu Brasil acumulando poderes para redimensionar os valores por trás do Poder. Dessa perspectiva irrealista é que o asilo a Snowden me parece totalmente desejável. Mas não só. Há mil situações realistas entrelaçadas em diferentes instâncias dessa minha visão irreal. Faz uma semana, escrevi aqui uma série de maluquices sob a palavra “superstição”. Sou esse tipo de cara. Eu mesmo não estou certo de onde começa e onde acaba a ironia em minha ideias e em minhas frases. Deve ser o hábito da letra de música, coisa tão próxima à poesia. Basta-me que algumas palavras confusas cheguem a ser sugestivas. Aliás, nem é muito preciso dizer que isso me basta: não é que me baste, é que suponho que assim vou mais longe do que iria se me ativesse à prosa explicativa. Sonho que, se nós chegássemos a persuadir a presidente Dilma a conceder o asilo a Snowden, uma luz nova se insinuaria na Terra. Isso é vivido agora de modo um tanto supersticioso: se chegarmos a convencer o nosso governo, é porque as forças inexplicáveis estarão sinalizando que algo quase maravilhoso vai dar pé. Vejam aonde um convite para ir à sede da Anistia Internacional me trouxe. E um convite a que nem posso atender.

Sexo sem informação - JAIRO BOUER

O Estado de S.Paulo - 02/02

Uma nova pesquisa sobre sexualidade, feita pela Universidade Yale, com mil mulheres entre 18 e 40 anos nos Estados Unidos, e divulgada na semana passada pela agência de notícias AFP, mostra que muitas delas desconhecem informações básicas sobre sua saúde reprodutiva.

O estudo, publicado na revista Fertility and Sterility, do mês passado, aponta que, embora 40% das mulheres tenham preocupações sobre sua capacidade de conceber, 30% delas desconhecem os efeitos que doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), obesidade, ciclos irregulares e idade têm sobre sua possibilidade de engravidar. Metade das mulheres não conversa com seu médico sobre o assunto e 30% delas não fazem prevenção anual (Papanicolau). As mais jovens, de 18 a 24 anos, são as que têm menos informação sobre fertilidade e ovulação.

Outro estudo de grandes proporções (a terceira pesquisa nacional de atitudes sexuais e estilos de vida), realizado no Reino Unido a cada 10 anos e divulgado no fim do ano passado, entrevistou 15 mil adultos de 16 a 74 anos e trouxe conclusões importantes sobre a saúde sexual da população.

Os britânicos começam a fazer sexo mais cedo e mantêm vida sexual mais longa. A média de parceiras sexuais na vida aumentou para os homens de 8,6 (em 1990-1991) para 11,7 em (2010-2012). No mesmo período, as mulheres saltaram de 3,7 para 7,7 parceiros. Elas (e não eles) foram as que sofreram mudanças mais importantes em seu comportamento sexual.

Mesmo assim, só uma em cada quatro mulheres (24%) que disseram que problemas de saúde afetam sua vida sexual buscaram ajuda médica no ano anterior à pesquisa. Entre os homens, esse índice foi ainda menor (18%). Embora 40% de homens e mulheres tenham enfrentado algum problema recente em sua vida sexual, apenas 10% se preocupam com sua saúde sexual. Falta de desejo apareceu como a dificuldade sexual mais frequente na população britânica, afetando 15% dos homens e 30% das mulheres.

Entre as DSTs, a clamídia e o HPV são os agentes mais frequentes na população geral. A introdução da vacina contra HPV já parece diminuir a frequência do vírus na população feminina jovem - bom lembrar que, por aqui, a vacinação no SUS começa para as meninas de 11 a 13 anos em março.

Outra nova pesquisa de comportamento sexual, realizada por um fabricante de preservativos, divulgada há duas semanas, consultou 29 mil adultos, de 18 a 65 anos, em 37 países. No Brasil, foram mil entrevistados. Por aqui, 51% das pessoas disseram estar insatisfeitas com sua vida sexual. Para eles, problemas de ereção são a grande preocupação. Para elas, alcançar o orgasmo. Há uma grande barreira em se admitir uma dificuldade sexual, tanto para os homens quanto para as mulheres.

Na percepção dos brasileiros, a relação entre qualidade do sexo, bem-estar e redução do estresse parece estar clara. Apesar disso, o estudo, realizado anualmente, reforça a tendência da dificuldade de comunicação do casal quando o assunto é sexo.

Os resultados dos recentes trabalhos apontam para algumas tendências comuns, que refletem a realidade da vida sexual na maior parte do mundo ocidental. Embora haja diferenças regionais, a vida sexual hoje é mais precoce, mais variada (com maior número de parceiros) e mais duradoura. Também há uma percepção clara do sexo como um dos elementos fundamentais para uma melhor qualidade de vida.

Mas esse novo "status" da sexualidade ainda não parece ter se seguido de uma melhor comunicação entre os casais ou de uma busca mais frequente e menos envergonhada dos serviços de saúde. Para muita gente, tratar sobre sexo, fazer controles, checar e se informar sobre saúde sexual seguem como grandes tabus. Mas é justamente nessa "desinibição" em falar com médicos e parceiros sobre o corpo e o sexo que pode estar a grande chance para uma vida sexual mais tranquila, mais plena e com menos dificuldades. Escolas e famílias também prestariam um grande serviço se pudessem facilitar o acesso às informações e encurtar a distância entre os jovens e os serviços de saúde.

Kafkalifórnia - TONY BELLOTTO

O GLOBO - 02/02
Cenas de uma viagem em família a São Francisco


1. Ao chegar em Los Angeles constatamos que nossas quatro malas sumiram. A empresa aérea americana, com o mau humor típico de seus funcionários, não nos fornece maiores explicações. Abrimos um protocolo. Seguimos no voo de conexão para São Francisco cientes de que só contamos com as roupas do corpo para a primeira fase de nossa viagem de férias. Pela janela do jato avistamos uma nuvem em forma de interrogação. Na minha mochila, atestando uma irônica sincronicidade, um livro de Franz Kafka*.

2. Kafka, o escritor tcheco de língua alemã, é célebre por sua prosa enigmática e perturbadora, sobre a qual o crítico alemão Günther Anders disserta: “A fisionomia do mundo kafkiano parece desloucada (trocadilho entre verrückt, particípio passado de verrücken, ‘deslocar’, e o adjetivo verrückten, que significa ‘louco’). Mas Kafka deslouca a aparência aparentemente normal do nosso mundo louco, para tornar visível sua loucura. Manipula, contudo, essa aparência louca como algo muito normal e, com isso, descreve até mesmo o fato louco de que o mundo louco seja considerado normal.”

3. A falta das malas em nada — ou quase nada — atrapalha os passeios da família pela mais bela e liberal das cidades americanas no primeiro dia da viagem. Lembramos que o santo que nomeia a cidade é o mais desapegado dos santos e que devemos tomar o extravio das malas como uma sugestão de aprimoramento espiritual. O fato de ainda vestirmos as mesmas roupas com que saímos do Rio nos ajuda a vivenciar com mais intensidade as horas passadas na livraria City Lights, onde nasceu o movimento beat e, de certa forma, o movimento hippie. Na imensa loja de discos Amoeba — um supermercado em que só se vende música —, talvez a última grande loja exclusiva de discos do mundo, podemos, com nossas roupas surradas, nos deliciar como monges freaks por corredores lotados de discos. Como uma recompensa à nossa resignação, duas das malas — as malas do casal — aportam no hotel durante a madrugada com a aparência de aves cansadas.

4. Ao acordar de sonhos intranquilos, volto a Kafka, que me espreita da mesa de cabeceira do quarto do hotel: no texto de introdução de “A metamorfose”, o escritor Modesto Carone, também tradutor do livro, cita uma tirada de Roberto Schwarcz sobre a novela perfeita, considerada a obra-prima do tcheco de afiada língua alemã: “É uma história que começa mal e termina pior ainda”.

5. No dia em que partimos de carro pela Highway One em direção a Los Angeles, a terceira mala já retornou à órbita familiar, apesar de inapelavelmente danificada, pois alguém se incumbiu de arrebentar-lhe a trava de segurança. Seu conteúdo, porém, permanece intacto. A quarta mala, entretanto, continua desaparecida em algum ponto do quadrilátero formado, em suas linhas horizontais, por México e Canadá, e pelos oceanos Atlântico e Pacífico nas verticais. As paisagens deslumbrantes da costa californiana são suficientes para afugentar momentaneamente a comparação de nossa família com a família Griswold, de “Férias frustradas”, a comédia de 1983 que mostra a odisseia dos Griswold em busca do Walley Park.

6. O rádio no carro desfila clássicos do rock de todos os tempos. Leões marinhos nos acenam das pedras à beira-mar. Em Big Sur, uma placa no acostamento da estrada nos lembra de que o escritor Henry Miller viveu ali por muitos anos. Esqueço Kafka por algumas horas e me deixo levar pela surf music de Dick Dale. O sol da Califórnia se parece com o sol dos incas.

7. Só em Los Angeles, uma semana após nossa chegada aos Estados Unidos, a quarta mala é devolvida. Estávamos a ponto de começar a preencher o relatório final, aquele que dava a mala como irremediavelmente perdida, quando a última mala adentrou o quarto do hotel com passo claudicante e aspecto de alienígena de Roswell. Comemoramos abraçados, dando pulos. Seria o extravio das malas apenas uma estratégia da companhia aérea para, ao devolvê-las, proporcionar um júbilo não programado aos seus clientes?

8. A viagem, ao contrário de “A metamorfose”, termina com um final feliz no Havaí. Outros membros da família juntam-se a nós num grande luau afetivo. Para alguém que na adolescência descia de skate as ladeiras da Avenida Ruy Barbosa em Assis, interior de São Paulo, fantasiando que dropava uma onda de Pipeline, conhecer as praias míticas do north shore de Oahu tem o sabor de uma revelação. Nas areias de Waimea, como num cinema transcendental de Caetano Veloso, volto a Kafka interrompendo a leitura de vez em quando para observar as manobras agudas dos surfistas poetas: “Na luta entre você e o mundo, apoie o mundo”, ensina o mestre tcheco. Aloha.

* Essencial Franz Kafka, Companhia das Letras/Penguin Classics. Seleção, introdução e tradução de Modesto Carone.

Logicamente impecável - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 02/02

SÃO PAULO - Por ocasião do Dia do Holocausto, o rabino Michel Schlesinger e o cardeal dom Odilo Scherer publicaram na edição de segunda desta Folha um interessante artigo em que levantam uma questão que há séculos atormenta religiosos: como conciliar a ideia de um deus bom com o sofrimento de inocentes. "Como se pode ainda acreditar em Deus depois de Auschwitz?", escreveram.

Schlesinger e Scherer concluem que o Holocausto não foi obra de Deus, mas de homens e suas ideologias. Como não acredito em Deus, concordo, mas, para os que creem, receio que não seja tão fácil assim limpar a barra do Criador. O problema do mal, conhecido como teodiceia, constitui uma dificuldade filosófica real, e as respostas até hoje oferecidas deixam muito a desejar.

O argumento antiteísta é simples. Se há um deus onisciente, onipotente e benevolente, então não existe mal. Ora, há mal no mundo. Portanto, um deus onisciente, onipotente e benevolente não existe. A forma lógica do raciocínio, "modus tollens", é impecável. Se as premissas são verdadeiras, a conclusão necessariamente também o é. Daí que, para esboçar uma resposta, é preciso negar a onipotência/onisciência de Deus, sua benevolência ou a existência do mal.

Todas foram tentadas. Especialmente os cristãos gostam de afirmar que Deus renunciou a interferir em ações humanas para nos dar o livre-arbítrio. Outra saída popular é dizer que, ao contrário de Deus, nós não temos todas as informações e é possível que o que nos pareça um mal ou uma injustiça sejam, na verdade, um meio para produzir um bem maior.

Tais respostas permitem um rico debate filosófico, mas não me convencem. Por que então Deus não criou homens incapazes de fazer o mal, para início de conversa? A hipótese mais simples, de que não há um deus com os três atributos, me parece infinitamente mais plausível. E também torna mais fácil responsabilizar os homens por suas ações.

Um artista do convívio - HUMBERTO WERNECK

O Estado de S.Paulo - 02/02

Tudo, daqui por diante, me fará lembrar de Donizete Galvão, bruscamente desaparecido na madrugada de quinta-feira passada, aos 58 anos de idade. A poesia, é claro, a um tempo delicada e forte, que ele destilou em livros ao longo de um quarto de século, sete magros porém substanciosos volumes a que volto sempre, e aos quais, a partir de agora, voltarei também pela falta que já me faz o autor.

Mas não é só a poesia que me fará lembrar de Donizete. Foi nisso que pensei quando, no velório, ao topar com dois, com seis, com dez ou mais amigos comuns, repassei a genealogia de minhas relações para constatar que a ele devo aquelas e outras tantas amizades, e seus desdobramentos. Pois o Doni, mineiro de Borda da Mata transplantado para São Paulo em meados dos anos 70, foi um tremendo agregador de afetos. Como esquecer os "sabadônis", forrobodós que ele, ao lado da mulher, Ana Tereza, e dos filhos, Bruno e Anna Lívia, promovia em sábados tornados ainda mais especiais por prosa e mesa genuinamente mineiras?

Foi ali, na rua Anatalícia Ferreira da Silva (quem terá sido essa criatura, brincava eu numa reiterada sem-gracice, cujo prenome sugere desaniversários?), foi ali que, mesmo não sendo dos mais assíduos, conheci os romancistas Luiz Ruffato e Ricardo Lísias, e todo um time de poetas: Carlos Machado, Esio Macedo Ribeiro, Fabio Weintraub, Ruy Proença, Sérgio Alcides, Sônia Barros, Tarso de Melo. Foi também à sombra de Donizete Galvão que vi pela primeira vez a Eltânia André, o Ivan Marques, a Leusa Araujo, o Mario Rui Feliciani e o Ronaldo Cagiano. Faltou alguém? São tantos. Tinha, o Doni, ótimo faro para gente boa, e habilidade para combinar achados.

Melhor pôr sob reserva o "gente boa", pois também eu fui, faz quase 20 anos, fagocitado pelo carinho nunca estridente desse garimpeiro de camaradagens. Já não poderei dizer a ele o quanto lhe fiquei devendo pela suave insistência com que bateu à minha porta, num instante em que o sofrimento ameaçava fazer de mim um ser inóspito.

Até aí nos conhecíamos de raspão, e o Donizete, com livro novo, Do Silêncio da Pedra, veio para perto. Não, não era um autor a mais em busca de mãozinha na divulgação. Dentro do exemplar que me enviou, este bilhete: "A rapaziada mineira (alguns não tão rapazes assim) continuada desatinada. Um dos desatinos é insistir em publicar poesia. Não é uma coisa de louco? No caso dos mineiros, loucos mansos".

Quando vi, lá estava eu, tão prosa, infiltrado por ele num debate em torno de poesia. Na saída, um disco de Nina Simone e um toque em versos despretensiosos: "A música é um ímã da poesia / Ora faz com que a gente se desespere / quando com nota pontiaguda nos fere / Ora da imperfeição humana nos isola / quando feito um bálsamo nos consola". Daí em diante, ainda que sem grandes efusões (numa "não muito estouvada confraternização", diria melhor Carlos Drummond), seguimos encontrados.

Ao menor pretexto, ou a pretexto algum, Donizete se fazia presente também com agrados sempre certeiros. A gravura de tiragem baixa de Amilcar de Castro (era ligadíssimo nas artes visuais) aqui nesta parede. Este exemplar de Lições de Abismo, de Gustavo Corção, na edição da Agir ilustrada por Oswaldo Goeldi. Um volume de 1914 sobre Mantegna. Poemas de Paul Celan. O soneto que ele, Donizete Galvão, me dedicou nas páginas de seu terceiro livro, A Carne e o Tempo, para o qual teve a temerária generosidade adicional de me pedir um texto de apresentação.

Nos últimos tempos, era mais por e-mail que a gente se falava, ou pelo Facebook, onde eu não perdia os agridoces comentários com que Doni, cético mas apaixonado, pontuava o nem sempre edificante andamento das coisas neste mundo. Houve um dia, não faz muito, em que o assunto sendo os rarefeitos encantos físicos da capital paulista, ele cravou: "A feiura de São Paulo tem suas vantagens. Quando nos visitam, não temos muita coisa bonita pra mostrar. Então temos de conversar".

Lamento informar aos visitantes que sem este tenaz artista do convívio o papo por aqui ficou mais pobre.

Demagogia inclusiva - ASTOR WARTCHOW

ZERO HORA - 02/02

Essa onda do politicamente correto criou algumas preciosidades patéticas



“Boa noite a todos e todas. Quero saudar a presença de todos e todas”. Com certeza, você já ouviu, ultimamente, essas expressões em solenidades político-partidário-governamentais ou acadêmico-universitárias. Se não ouviu, com certeza, ouvirá!
Trata-se de um modismo denominado “linguagem inclusiva”. Sua utilização massiva teria se originado de reivindicação de movimento feminino. No entender das militantes, a gramática nacional torna as mulheres “invisíveis”. Entendem que a denominação genérica “todos” consolida e mantém uma supremacia masculina do cotidiano político, social e familiar.
Essa expressão é apenas mais uma apropriação linguística entre centenas que surfam na onda do politicamente correto, uma praga que multiplicou seus fiéis. E que acreditam que a linguagem pode mudar a realidade.
Ora, ora, no máximo, conseguem influenciar a linguagem, mas não mudam a realidade. Consulte qualquer professor de português. São expressões redundantes. O português é uma língua que não tem o gênero neutro. De modo que o gênero masculino (todos!) ocupa esse papel.
E isso não tem nada a ver com machismo e exclusão social. Se pretendem de fato valorizar as mulheres devem encontrar outras soluções. Na vida real, não no campo da retórica. Aliás, é até um desrespeito tratar as pessoas assim, subestimando sua inteligência e sua percepção da realidade. E, sem dúvida, um desrespeito à gramática.
Essa onda do politicamente correto criou algumas preciosidades patéticas. Um exemplo é o tratamento verbal dispensado aos idosos. Velhice passou a ser chamada de “terceira idade”. Ou como dizem alguns mais exagerados e abusados: “melhor idade”.
Até parece que nunca conversaram com idosos sobre os inúmeros problemas e transtornos que decorrem da chegada ou do avanço da idade. São eufemismos ofensivos à realidade que as pessoas enfrentam na vida cotidiana.
Não vai demorar muito e veremos campanhas para
“abolir” expressões e/ou “domar” palavras tidas como perniciosas (sic) ao convívio social. Como se a língua fosse um “animal domesticável”.
Uma coisa são campanhas de esclarecimento e conscientização educacional e política, ou políticas públicas antidiscriminatórias e de transformação social. Outra coisa é manipular palavras.
“Todos e todas” é apenas mais uma das dezenas (ou serão centenas?) de bobagens com que o populismo e a demagogia nos brindam de tempos em tempos. E continuarão brindando.
Ou já esqueceram aquela ação de um procurador do Ministério Público Federal que tentou tirar de circulação o dicionário Houaiss, ou, a edição de lei que manda nominar bacharel mulher de bacharela e, ou, a recente perseguição judicial às obras de Monteiro Lobato?


A atleta que disse ‘não’ ao sistema - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 02/02

A tenista chinesa Li Na sempre foi espirituosa, ao contrário de seus camaradas-atletas menos afeitos a entrevistas coletivas. Mas, depois de vencer o Grand Slam da Austrália no último dia 25 em Melbourne, ela se superou.

“Agradeço a meu agente Max, que me tornou rica”, disse a esportista-ícone do país de regime comunista. Li acabara de embolsar US$ 2,3 milhões pela vitória. E o prêmio vai engordar o cofrinho de US$ 40 milhões que a terceira atleta mais bem paga do mundo vem alimentando com contratos desde 2010.

Agradeceu em seguida ao marido também tenista, que namora desde a adolescência. “Meu saco de pancada, meu faz-tudo. Muito obrigada. Você é um cara muito bacana. Teve muita sorte de me encontrar.”

Agradeceu por fim à legião de fãs, que a idolatram como Grande Irmã Na. Só no Weibo, o Twitter local, Li tem 21 milhões de seguidores. Três anos atrás, quando ela disputou a primeira conquista de Grand Slam, 116 milhões de compatriotas acompanharam o jogo pela televisão — audiência maior do que a do Super Bowl do ano passado.

Mais uma vez, a ausência de qualquer referência à pátria e ao sistema chinês de incentivo ao esporte foi gritante. Já em 2011, ao se tornar a primeira e até hoje única tenista da Ásia a vencer um torneio Grand Slam, Li fizera questão de não se declarar devedora da máquina estatal de produzir atletas.

Para o regime de Beijing o caso Li Na representa um teste delicado numa seara pouco testada da evolução política do país. Há vezes em que a mídia estatal aproveita as frequentes oscilações de desempenho da tenista na quadra para intensificar seus ataques contra o que chama de individualismo nocivo da atleta. Não tem dado certo.

Após o colapso da tenista no Aberto da França no ano passado, por exemplo, um repórter da agência Xinhua instou-a a explicar “aos fãs na pátria mãe” o motivo de resultado tão decepcionante. A resposta veio cortante: “Perdi uma partida, foi isso. Devo ficar de joelhos e me prostrar?”

Em 64 anos de autoridade comunista, a China jamais ouvira um atleta responder de forma tão insolente a um meio de comunicação oficial.

Desta vez, a Xinhua preferiu se fazer de surda e bateu tambor sozinha. Em editorial comemorativo à vitória da coqueluche nacional na Austrália a agência publicou um editorial intitulado “Por que Li teve êxito?”. A resposta: “O país cuidou de Li e a cultivou. O Estado é seu patrocinador.”

Na verdade, a interessante tenista de 31 anos é uma espécie de autoalforriada do sistema que vigora no país.

Fora empurrada a se especializar em badminton aos 5 anos de idade, para compensar a carreira de atleta do pai, abortada pela Revolução Cultural. Mas a precisão dos exames biométricos da escola de esportes local detectou a inadequação dos punhos e ombros da menina para o badminton. Ficou decidido que ela deveria se especializar em tênis, modalidade que poucos chineses praticavam ou sequer conheciam à época.

A partir daí sua rotina seguiu a engrenagem que há gerações testa, treina, forma e submete levas de jovens a duros limites físicos e mentais. Dia sim, outro também. Entra ano, sai ano. Li tinha 11 anos quando se rebelou pela primeira vez. Surtada de exaustão, recusara-se a prosseguir com um treino. Como castigo permaneceu de pé, imóvel, durante três dias de treinamento, ao cabo dos quais pediu desculpas. Só então foi autorizada a se mover.

Prevaleceu o talento. Após conquistar seu primeiro título nacional juvenil, Li passou dez meses imersa num centro de treinamento do Texas a convite da Nike. Ao voltar para casa, parecia destinada a ser a atleta-modelo da máquina chinesa de produzir campeões: aos 20 anos de idade, ela se tornara a nº 1 do país e seu nome já se aproximava da lista das 100 melhores tenistas do mundo.

Segundo um exaustivo perfil da tenista publicado no “New York Times”em agosto passado, foi então que Li Na simplesmente desapareceu.

“Sem avisar nenhum dos técnicos, Li escapuliu do centro de treinamento”, apurou o jornalista Brook Larmer. Para não levantar suspeitas, ela levou consigo apenas um pequeno nécessaire. E deixou na mesa do dormitório uma carta endereçada à diretoria anunciando sua aposentadoria precoce... Poucas horas depois, estava em Wuhan, sua cidade natal, com Jiang (o tenista Jiang Shan, seu namorado desde a adolescência e hoje marido, com quem era obrigada a se encontrar às escondidas). “Recomeçaram a vida como estudantes universitários.”

Um belo dia de 2006, passado mais de um ano desde a estrepitosa fuga, Li recebeu a visita-surpresa da nova responsável pelo programa nacional de tênis. Com a China mobilizada até o pescoço para brilhar nos Jogos Olímpicos de Beijing, a ex-tenista foi convidada a voltar com promessas de um futuro menos sufocante.

Li aceitou, só que o regime mudou menos do que o prometido.

Assim, logo que o país parou de festejar a supremacia de seu sistema esportivo (conquistou 51 medalhas de ouro em 2008 contra 36 dos Estados Unidos), Li Na anunciou que queria a alforria. Já conseguira chegar ao seleto grupo das 20 melhores tenistas do mundo e precisava de maior liberdade.

Para não perder a maior e mais celebrada atleta do país, o regime criou um programa biônico chamado danfei, ou “voo solo”, do qual já fazem parte também duas outras tenistas. Por esse sistema, Li treina como e com quem quer; faz a própria agenda de competições e repassa ao Estado apenas 15% do que ganha, em invés dos 65% que o regime garfa dos demais atletas. Tem por dever cumprir apenas um calendário básico de torneios nacionais e regionais.

Locomotiva de um esporte praticamente inexistente na China uma geração atrás, o fenômeno Li Na já tornou comercialmente viável a programação de oito torneios internacionais em 2014 só na cidade de Wuhan.

Contudo, como polo de um debate mais espinhoso sobre o papel da liberdade e do patriotismo no esporte, a tenista não quer abrir mão do que acredita ser sua maior conquista: “Só consigo representar a mim mesma.”

Decisões e crises políticas que nos afetam - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O Estado de S.Paulo - 02/02

Todas as projeções disponíveis revelam que o crescimento global deste ano será maior que o de 2013. Mostram também que o mundo desenvolvido, liderado pelos EUA, é que vai puxar a expansão. Em vista disso, a política monetária americana está em pleno processo de ajuste, detonando um reposicionamento de fluxos de capitais que provocam impacto em diferentes países, especialmente aqueles onde problemas políticos se somam às fragilidades econômicas.

Gostaria de chamar a atenção, inicialmente, para duas questões importantes. Foi pouco observada uma decisão tomada após a reeleição da chanceler alemã, Angela Merkel, e da formação do novo governo: o país não vai mais alocar novos recursos para financiar Tesouros ou bancos de outros países da zona do euro, além do que já se comprometeu. Como consequência, a sonhada união bancária não acontecerá na dimensão imaginada e não haverá nenhuma mutualização da dívida pública (o bônus europeu) que alivie em parte as finanças dos grandes devedores.

A recuperação modesta do crescimento europeu obscureceu a decisão alemã. Entretanto, não tenho dúvida de que, se o cenário é melhor para 2014, as condições fundamentais para a manutenção do euro como moeda global ainda estão longe de ser atendidas.

A segunda decisão importante é a que parece ter feito o Partido Republicano dos EUA. Tudo indica que, após o extraordinário desgaste sofrido com o público, por sua responsabilidade no fechamento do governo americano por quase três semanas, os republicanos teriam decidido não obstruir, a qualquer custo, a resolução que permite a elevação do limite da dívida pública federal, que tem de ser votada neste mês de fevereiro. Caso isso ocorra, as otimistas projeções de crescimento para este ano podem se materializar. Bom para o mundo e para o Brasil.

Por outro lado, chamo a atenção para o grande número de países emergentes, de certa relevância, que estão enfrentando sérios problemas políticos e econômicos. Nessa lista teríamos de incluir pelo menos Turquia, Índia, África do Sul, Ucrânia, Tailândia (um país que pode se partir em dois) e, na América do Sul, Argentina e Venezuela. Os três primeiros da lista terão eleições neste ano. Os países são, naturalmente, bastante diversos e não estritamente comparáveis. Alguns deles estão em estágios medianos de crise política ou econômica, outros em estados muito avançados, quase terminais, como Tailândia e Venezuela nas áreas política e econômica, respectivamente. Entretanto, apenas a menção do conjunto já é suficiente para contaminar o ambiente econômico internacional, levando a um movimento de depreciação de ativos no mundo emergente, saída de capital e a movimentos defensivos de elevação de juros por parte das autoridades monetárias, como fizeram Índia, Turquia e África do Sul nesta semana.

Embora a situação atual seja muito menos grave que a de 2008/09, é claro que estamos vendo um movimento bastante sério, quando se considera que a reversão da política monetária americana ainda está nos estágios iniciais e o tamanho dos desequilíbrios acumulados em várias nações.

Nesse sentido, dois países são de particular importância em termos de seus impactos sobre o Brasil: a Turquia, pelo tamanho de seu desequilíbrio externo, e a Argentina, por seus laços com nosso país.

A Turquia teve nos anos recentes uma trajetória de crescimento muito positiva, atraindo a atenção dos investidores no mundo como um todo. Seu papel estratégico e a possibilidade de entrar para a Comunidade Europeia também contaram pontos nesse caminho. Entretanto, desde 2012 começou a tomar forma uma forte crise política. O primeiro-ministro Erdogan, líder do partido muçulmano (AK) que está há mais de dez anos no poder, iniciou um processo de islamização da sociedade turca, encontrando forte resistência de parte dela, especialmente de suas classes médias e profissionais, que cresceram na tradição laica que vem desde a fundação da república por Attaturk nos anos 20. Além disso, o primeiro-ministro se desentendeu com o grupo liderado pelo religioso Gullen, muito influente na polícia e no Poder Judiciário. Com isso, desde o ano passado, intensas reações aos projetos do primeiro-ministro tomaram conta das ruas. Finalmente, o ponto de ebulição foi atingido com denúncias de corrupção contra os filhos de três ministros importantes no governo. O premiê reagiu com extrema violência, radicalizando a crise e pondo dúvidas quanto aos resultados das eleições que deverão ocorrer neste ano.

Ao mesmo tempo, a posição do balanço de pagamentos turco é bastante frágil: em 2013 o déficit de conta corrente atingiu 7,4% do PIB, em boa parte financiado por movimentos de capital de curto prazo. O início da mudança da política monetária americana pegou, portanto, o país numa situação de extrema fragilidade, resultando numa forte desvalorização da lira turca até recentemente. O Banco Central do país reagiu com um enorme choque de juros, o que travou temporariamente o processo de desvalorização, mas não reduziu nem reduzirá a fragilidade do país, até que algo mais consistente se mostre no plano político e econômico.

Com relação à Argentina, a situação é mais simples, porém muito mais grave. O país vem enfrentando uma restrição cambial crescente, que se transformou numa crise aberta nestes últimos dias. Além da falta aguda de moeda estrangeira, há que se lembrar que a inflação está na faixa de 30% ao ano. A situação fiscal é ruinosa, especialmente pelo gigantesco volume de subsídios dados à área energética e pela expansão desordenada de custeio e transferências.

A gota d'água, a meu juízo, veio da parte política: por razões ainda não totalmente claras, a presidente Cristina está afastada da primeira linha da gestão governamental há mais de 45 dias. O governo está sendo tocado por um novo chefe da Casa Civil e pelo novo ministro da Economia, Kicillof, tão arrogante, quanto fraco e inconsequente. O ministro patrocinou uma desvalorização do câmbio superior a 25%, num país com uma inflação na casa de 30%, sem nenhum programa organizado na área macroeconômica, além de muita ameaça e um débil congelamento de preços.

A esta altura, não tenho dúvida, que o país tão admirado por alguns de nossos eminentes economistas (como aquele que aprendeu a lidar com a doença holandesa) mais uma vez vai bater no muro, em algum momento não muito distante de hoje.

Não é bom para o Brasil.

Aquela bola - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O Estado de S.Paulo - 02/02

Na volta do jogo, o pai dirigindo o carro, a mãe ao seu lado, o garoto no banco de trás, ninguém dizia nada. Finalmente o pai não se aguentou e falou:

- Você não podia ter perdido aquela bola, Rogério.

- Luiz Otávio... - começou a dizer a mãe, mas o pai continuou:

- Foi a bola do jogo. Você não dividiu, perdeu a bola e eles fizeram o gol.

- Deixa o menino, Luiz Otávio.

- Não. Deixa o menino não. Ele tem que aprender que, numa bola dividida como aquela, se entra pra rachar. O outro, o loirinho, que é do mesmo tamanho dele, dividiu, ficou com a bola, fez o passe para o gol e eles ganharam o jogo.

- O loirinho se chama Rubem. É o melhor amigo dele.

- Não interessa, Margarete. Nessas horas não tem amigo. Em bola dividida, não existe amigo.

- E se ele machucasse o Rubem?

- E se machucasse? O Rubem teve medo de machucar ele? Não teve. Entrou mais decidido do que ele na bola, ficou com ela e eles ganharam o jogo.

- Você está dizendo para o seu filho que é mais importante ficar com a bola do que não machucar um amigo?

- Estou dizendo que em bola dividida ganha quem entra com mais decisão. Amigo ou não.

- Vale rachar a canela de um amigo pra ficar com a bola?

- Vale entrar com firmeza, só isso. Pé de ferro. Doa a quem doer.

- É apenas futebol, Luiz Otávio.

- Aí é que você se engana. Não é apenas futebol. É a vida. Ele tem que aprender que na vida dele haverão várias ocasiões em que ele terá que dividir a bola pra rachar e....

- Haverá - disse Rogério, no banco de trás.

- O quê?

- Acho que não é "haverão". É "haverá". O verbo haver não...

- Ah, agora estão corrigindo meu português. Muito bem! Eu não sou apenas o pai insensível, que quer ver o filho quebrando pernas pra vencer na vida. Também não sei gramática.

- Luiz Otávio...

- Pois fiquem sabendo que o que se aprende na vida é muito mais importante do que o que se aprende na escola. Está me ouvindo, Rogério? Um dia você ainda vai agradecer ao seu pai por ter lhe ensinado que na vida vence quem entra nas divididas pra valer.

- Como você, Luiz Otávio?

- O quê?

- Você dividiu muitas bolas pra subir na vida, Luiz Otávio? Não parece, porque não subiu.

- Ora, Margarete...

- Conta pro Rogério em quantas divididas você entrou na sua vida. Conta por que o Simão acabou chefe da sua seção enquanto você continuou onde estava. Conta!

- Margarete...

- Conta!

- Eu estava falando em tese...

Listas - FÁBIO PORCHAT

O Estado de S.Paulo - 02/02

Nunca tinha feito uma lista. Dessas que a gente vê em revista das mais mais coisas e tal. Parece que é fácil. Quer queira quer não, quando a gente tá no barzinho batendo papo e começa a falar de filmes, por exemplo, a gente sempre se empolga e lembra de vários que gosta. Mas experimenta botar no papel. Vem uns três, quatro nomes e acabou.

Eu pensei em fazer, como solução, uma lista dos top 3. Mas aí ia virar uma lista muito da safada.

Passei três dias pra conseguir fazer as listas. Mas não adianta, a gente sempre esquece alguma coisa. Lista de casamento, sempre falta um primo, lista de compras sempre falta um detergente, lista pro papai-noel sempre falta uma bicicleta. E fazer uma lista com as coisas preferidas é praticamente suicídio. Talvez seja difícil por poder escolher entre todas as opções do mundo. Aí com tanta opção, escolher 50 já virou uma luta.

Tentei fazer as minhas listinhas. Estão por ordem de lembrança e não de preferência. Tenho certeza que quando relê-las já publicadas, vou me lembrar de outros tantos que esqueci. Mas aí vai a minha lista de melhores coisas que eu me lembrei enquanto escrevia.


Melhores livros que já li:

1 - A Revolução dos Bichos

2 - O Amor nos Tempos do Cólera

3 - O Evangelho Segundo Jesus Cristo

4 - Ensaio Sobre a Cegueira

5 - O Processo

6 - Esperando Godot

7 - Um Bonde Chamado Desejo

8 - O Senhor dos Anéis

9 - Hamlet

10 - Crime e Castigo


Melhores filmes que já vi:

1 - O Iluminado

2 - Laranja Mecânica

3 - Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

4 - Cidade de Deus

5 - A Primeira Noite de Um Homem

6 - Chicago

7 - Fale com Ela

8 - Chega de Saudade

9 - O Que Terá Acontecido

a Baby Jane?

10 - Um Bonde Chamado Desejo


Cidades mais incríveis que já visitei:

1 - Marrakesh

2 - Rio de Janeiro

3 - Angkor Wat

4 - Masai Mara

5 - Nova York

6 - Paris

7 - Dubrovnik

8 - São Paulo (sim, São Paulo)

9 - Kyoto

10 - Ho Chi Minh


Lugares que ainda vou visitar na minha vida nem que eu tenha que vender o meu corpo:

1 - Rússia

2 - Polinésia Francesa

3 - Turquia

4 - Praga

5 - Amsterdã

6 - Fernando de Noronha

7 - Alasca

8 - Machu Picchu

9 - China

10 - Índia

Quero saber de você, quais são as suas listas?