terça-feira, novembro 26, 2013

A solidão digital - CARLOS ALEXANDRE

CORREIO BRAZILIENSE - 26/11
Não pretendo elaborar nenhum veredicto, tampouco julgar o comportamento de uma multidão. Mas ultimamente tenho notado uma discussão que se tornou frequente, talvez até constante, em relação ao mundo dominado pela tecnologia. Chama a atenção a quantidade de pessoas que demonstram um cansaço em relação às redes sociais e ao ambiente virtual. A dedicação máxima que se concede ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram e a outras tantas agremiações desperta fastio e preocupação. São comuns os relatos de gente que não aguenta mais tanta exposição, tanto disparate, tanta agressividade, tanta baixaria, tanta inveja, tanta superficialidade. A exacerbação generalizada ganha contornos ainda mais agressivos particularmente em momentos específicos, como o que ocorre atualmente com o mensalão.
Não se trata apenas de opiniões lançadas no espaço virtual. As redes sociais se tornaram instrumento político a serviço de interesses partidários. O ex-presidente Lula já convocou o exército de militantes para defenderem os ideais do partido. Surgiram denúncias sobre os robôs do PT, soldados virtuais treinados para desferir ataques à oposição e disparar ofensas a fim de prejudicar determinado partido ou personalidade pública. Outros, envernizados de observadores independentes, especializaram-se em atacar a "mídia golpista" ou as vozes da elite. É preciso considerar, no entanto, que o uso político das redes sociais pode ser analisado como o exercício de direito democrático. Trata-se de canal em que o cidadão pode manifestar a opção por determinada ideologia, candidato, partido ou governo. Enquanto o debate se mantiver em limites civilizados, parece-me parte do jogo.

Mas gostaria de ressaltar outros aspectos observados na predominância das redes. Há muito tempo se alerta para a formação de uma geração que se distancia cada vez mais do mundo real, do convívio pessoal, dos livros, da necessidade humana de contemplação. Caminhamos para nos tornarmos uma sociedade multifocal, hiperinformada, instantaneamente atualizada. Seguimos a passos rápidos, no entanto, para a despersonalização, o distanciamento, a emoção solitária. Há multidão na nossa timeline e temos cada vez mais dificuldade em confabular com alguém por 30 minutos. Eis o mundo da solidão digital.

Uma babá de ouro - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 26/11

Lojas, restaurantes e hotéis, até em Santa Catarina, rejeitam políticos paraguaios delinquentes. Igrejas fazem homilias contra corrupção e sindicatos organizam greve geral



A morena de 29 anos, traços indígenas, olhos castanhos e cabelos clareados, encantou o senador. Levou-a para casa, para cuidar dos filhos.

Semanas atrás, descobriu-se que Gabriela Quintana Venialgo recebia um salário mensal equivalente a R$ 8.200: metade saía da folha de pagamentos do Legislativo; outra metade vinha do caixa de Itaipu Binacional, cujo controle é partilhado entre as empresas estatais de energia do Brasil (Eletrobras) e do Paraguai (Andes).

Gabriela agora é uma mulher famosa. Se tornou a “babá de ouro” do senador paraguaio Víctor Bogado, que também inscreveu uma voluptuosa ex-miss na folha salarial do Congresso.

Parecia ser apenas outro escândalo num trecho da América do Sul onde a corrupção ergueu um país de dois andares. O primeiro é reconhecido pela cartografia internacional e identifica o Paraguai com 406 mil quilômetros quadrados de extensão — área equivalente ao Mato Grosso do Sul. O segundo andar é de papel pintado, plasmado nas escrituras de propriedade guardadas pelo governo. Tem 122 mil quilômetros quadrados. Esses dois Paraguais somam um território de 528 mil quilômetros quadrados — quase o tamanho de Minas Gerais. Na diferença entre o real e o de papel, cabem juntos os estados do Rio, Espírito Santo, Sergipe e mais uma área igual a duas Brasílias.

O Paraguai tem peculiaridades. Na economia, por exemplo, o contrabando é responsável por boa fatia do Produto Interno Bruto: para cada dólar registrado como receita de exportações realizadas ao Brasil, existem outros três dólares obtidos na venda ilegal de mercadorias ao mercado brasileiro, segundo dados oficiais.

Parecia ser apenas mais uma drenagem política do caixa de Itaipu Binacional. A construção dessa usina hidrelétrica, com represa da altura de um edifício de 65 andares, produziu fortunas e núcleos de poder tanto no Brasil quanto no Paraguai. Elas surgiram entre 1975 e 1982 na poeira de despesas públicas colossais, como a compra de um volume de concreto suficiente para se construir 210 estádios do porte do Maracanã e de quantidade de ferro bastante para montagem de 380 torres Eiffel. Por anos seguidos a rarefeita contabilidade de Itaipu registrou a compra de caminhão com 30 toneladas de cimento a cada quinze minutos, 24 horas por dia.

Há dez dias, no entanto, o Paraguai vive uma convulsão política por causa do senador Bogado e sua “babá de ouro”. O Ministério Público resolveu processá-lo, mas 22 dos 45 senadores impediram a retirada da imunidade parlamentar. Desde então, assiste-se a uma avalanche de protestos contra a corrupção. Entidades empresariais aderiram. Lojas, restaurantes e empresas médicas publicam anúncios pedindo a renúncia dos 23 que confundem imunidade com impunidade. Em Santa Catarina, hotéis onde políticos paraguaios veraneiam já expõem cartazes: “Os 23 não são bem-vindos.”

O escrache avançou no fim de semana. Restaurantes em Assunção se recusaram a atender as senadoras Blanca Fonseca e Zulma Gómez. Óscar Daher foi expulso de uma pizzaria aos gritos de “fora ladrão”. Outros foram impedidos de entrar em shoppings. Nas igrejas houve homilias e sindicatos começaram a organizar uma greve geral.

Há uma novidade nas duas margens do Rio Paraná: os donos do poder já não podem delinquir com impunidade absoluta.

Calcanhares desnudos - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 26/11

O primeiro (e maior) desejo do PT era o de que todo mundo acreditasse na inexistência do mensalão. O segundo, que se desse um desconto ao "pecadilho" do caixa dois e ficasse tudo por conta dos vícios do sistema que leva todos ao terreno da ilegalidade, por esta ótica legitimada pelo compartilhamento da prática.

Não deu certo. Prevaleceu, por mais consistente, a narrativa feita na denúncia da Procuradoria-Geral da República aceita pelo Supremo Tribunal Federal para abertura de processo, a Ação Penal 470.

O desejo seguinte, que o julgamento não acontecesse no ano eleitoral de 2012. Outra vontade frustrada, não obstante o rigor do Supremo não tenha influenciado o resultado das eleições: o PT perdeu ou ganhou por questões de ordem política.

O mensalão não foi o tema central da campanha, seja porque a oposição não o explorou a fundo, seja porque os petistas - da presidente da República aos candidatos, passando pela posição majoritária nas bancadas do Congresso - atuaram para marcar distância entre o episódio e o partido.

Com habilidade, desmontaram preparativos de reações mais radicais na defesa dos réus e no ataque ao tribunal. Os estridentes do ano passado não caracterizaram uma ação coletiva. Pois toda sutileza foi abandonada quando ficou decidida a execução das penas de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.

A presidente Dilma Rousseff calada estava, resolveu se manifestar aludindo a risco de morte quando Genoino teve uma crise de pressão alta; o ex-presidente Lula da Silva um dia recusou-se a falar - "quem sou eu para comentar decisão do Supremo?" - e no seguinte ecoou as reclamações - "parece que a lei só vale para o PT" - as bancadas no Congresso foram contundentes na ofensiva contra o presidente do STF e os dirigentes do partido assinaram manifesto de protesto.

Teria sido a isso que o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, se referia quando disse "em 2013 o bicho vai pegar"? Caso tenha sido, trata-se de um bicho daqueles que não se cria em casa. Pode morder o dono.

Com suas atitudes explícitas, o PT vem anulando o esforço que fez para se distanciar do mensalão ao desnudar em público os calcanhares que até então procurava resguardar. O que pretende conseguir de objetivo com isso não está ao alcance da vista.

Antes disso era razoavelmente fácil discorrer sobre a recorrente indagação a respeito da influência das prisões sobre a próxima eleição: a julgar pelo exemplo de 2012 e considerando que o PSDB provavelmente terá um ex-presidente do partido (Eduardo Azeredo) julgado por peculato e lavagem de dinheiro no mesmo foro, a resposta seria negativa.

Hoje não se pode dizer com a mesma certeza. Não por ação dos adversários. Tanto Eduardo Campos quanto Aécio Neves têm sido discretos. Até porque tripudiar seria, no mínimo, de extremo mau gosto.

Quem se expõe ao risco é o próprio PT, ao se abraçar ao mensalão, levar o assunto para o cerne do partido e transformar em questão de honra um assunto absolutamente desonroso. Entre outros motivos, por apontar arbitrariedade na execução das penas dos seus e deixar os outros condenados por parceria no esquema ao Deus-dará.

Disciplinar. Nem bem havia entrado no PSB, a ex-senadora Marina Silva deu um chega para lá no deputado Ronaldo Caiado, que vinha construindo aproximação forte com o presidente do partido, Eduardo Campos. O setor do agronegócio, até então permeável às investidas do governador de Pernambuco, afastou-se.

De lá para cá Campos vem investindo firme na reconstrução das pontes. E, note-se, Marina Silva não deu mais uma palavra ácida sobre o assunto nem nominou esse ou aquele personagem ligado à área, cujo apoio poderia desagradá-la.

Recordar é viver - RODRIGO CONSTANTINO

O GLOBO - 26/11

O Brasil de hoje é uma sociedade invertebrada. Amorfa, passiva, sem capacidade de reação. É uma República bufa, uma República petista. Assim conclui Marco Antonio Villa em seu novo livro, Década perdida , onde disseca os dez anos de PT no poder. É um trabalho conciso de historiador, resgatando os principais acontecimentos desta triste época.

Villa optou por um relato cronológico, expondo os fatos mais marcantes de cada ano. Basta relembrar a quantidade infindável de escândalos para derrubar todos os mitos criados pelo PT, inclusive o maior deles: o de que Lula é um operário que chegou ao poder para mudar tudo e beneficiar os mais pobres.

O lulismo, ao contrário, foi um grande passo na mesma direção do que há de pior em nossa política. O patrimonialismo foi fortalecido, as oligarquias corruptas nunca tiveram tanto poder, os sindicatos jamais foram tão vendidos, o aparelhamento da máquina estatal foi total. A tudo isso, somou-se o culto à personalidade, o messianismo típico das republiquetas populistas latino-americanas.

Dispostos a tudo pelo poder, Lula e o PT abusaram das mentiras, das práticas mais nefastas na política, das alianças indigestas com os velhos picaretas acusados pelo partido, do mensalão, o maior esquema já visto para tentar controlar o Congresso e destruir a democracia.

O que Villa faz é mostrar um filme do enorme estrago causado pela passagem do PT pelo poder nessa década. Com fortes ventos favoráveis vindos de fora, basicamente pelo elevado crescimento chinês e o baixo custo do capital no mundo, o Brasil teve desempenho econômico medíocre.

Crescemos bem menos do que a média dos emergentes, e com inflação bem maior. O pouco que crescemos se deu por fatores insustentáveis, como o irresponsável endividamento do governo e das famílias, estimulado pelo próprio governo. Faltou um projeto de país, e sobrou a visão míope de se pensar apenas nas próximas eleições.

O engodo que foi o lulismo, incluindo dois anos de sua criatura Dilma, fica evidente no livro, com a quantidade absurda de promessas irreais, factoides criados somente de olho nas campanhas eleitorais. Foi a era do marqueteiro, tudo voltado às aparências, sem preocupação com resultados concretos.

O desrespeito com as instituições republicanas foi total, chegando várias vezes ao escárnio. O PT aprofundou o processo de desmoralização da política , acusa Villa. Ser amigo do rei nunca foi tão importante para o sucesso. As bases da pirâmide foram compradas com esmolas, no pior estilo coronelista, e o topo, representado pelo grande capital, teve o BNDES a seu dispor, em magnitude jamais vista.

Os artistas também se venderam pelo apoio cultural . Nada mais é realizado nesta área sem que tenha a participação estatal, criando-se uma relação de completa dependência. A esquerda caviar e o PT desenvolveram uma simbiose umbilical, destruindo qualquer chance de integridade artística na maioria dos casos.

No âmbito externo e diplomático, o lulismo também deixaria sua marca podre. O Itamaraty tem sido responsável por vexames internacionais, deixou de lado sua tradicional postura de isenção, aderindo ao bolivarianismo e se alinhando aos piores ditadores. O viés ideológico e os objetivos partidários estiveram acima dos interesses nacionais. O Mercosul é um atraso de vida, e acordos bilaterais de livre comércio não foram selados por culpa do PT.

Por trás de tudo isso, como aponta Villa, há uma oposição acovardada, tímida, incapaz de combater com determinação o avanço do lulismo. Em 2005, essa postura equivocada ficou evidente, no erro estratégico de deixar o PT sangrar com o mensalão na expectativa de derrotá-lo nas urnas. Foi um marco do vale tudo adotado por Lula. Sua vitória foi a derrota da ética, a morte da jovem República ainda em construção.

Como o autor reconhece, não será nada fácil tirar o PT do poder. Primeiro, porque muitos grupos de interesse foram capturados. O PT transformou as estatais e seus poderosos fundos de pensão em instrumentos partidários. Estabeleceu uma rede de controle e privilégios nunca vista na nossa história.

Segundo, porque boa parte da população parece não se dar conta do que é o PT, um partido que sequer respeita seu próprio estatuto, preferindo defender, em vez de expulsar, criminosos condenados em última instância pelo STF, com ministros escolhidos pelo próprio PT. O povo tem memória curta. E aqueles que não se lembram do passado estão condenados a repeti-lo. O livro de Villa é um antídoto contra esse esquecimento. Leiam!

O ‘Dilmajantar’ e a realidade - ODEMIRO FONSECA

O GLOBO - 26/11

Como todos concordam que não existe jantar livre, como financiar tal programa? Participação compulsória, coparticipação, aumento de impostos



Apresidente Dilma poderia criar um programa que iria catapultá-la de mãe do PAC a mãe do povo brasileiro. Seria um programa em que cada brasileiro adulto ou adolescente compraria uma cartela com 12 vales-jantar cada ano, usando-os para jantar fora de casa.

O setor de alimentação fora de casa é o maior empregador do Brasil, oferecendo empregos flexíveis para os que mais precisam — jovens com baixa qualificação. Seriam criados três milhões de novos empregos.

Restaurantes são enormes e visíveis exemplos de desigualdade e exclusão. Com o “Dilmajantar”, é possível vislumbrar um especial de TV filmando uma família inteira entrando num lindo restaurante pela primeira vez. O programa educaria os brasileiros sobre alimentação e comportamentos saudáveis. Nada de fast food, muita comida local; nada de más gorduras, muita sustentabilidade.

Tal programa teria que ser compulsório. E regulamentado. Preços controlados. Vales com valor máximo, com multa para os excessos. Vales com valor mínimo garantiriam refeições de qualidade básica, explicaria o governo. Multas aos não compradores dos vales.

E os de menor renda? As empresas com mais de 50 empregados comprariam os vales para empregados (e familiares) que ganhassem entre dois e 15 salários, com coparticipação. Despesa tributável para empresas, renda não tributável para trabalhadores. E os com menos de dois salários ou trabalhando em empresas com menos de 50 empregados receberiam a cartela do governo.

Como todos concordam que não existe jantar livre, como financiar tal programa? Participação compulsória, coparticipação, aumento de impostos, menores despesas com saúde pública, renúncia fiscal, coerção. A conta até fecha no início, ajudada pelos subsídios escondidos. Quem só come salada financia os comedores de filé. Quem come pouco financia quem come muito. No médio prazo, chega o déficit público, talvez financiável pelos chineses. Consumidores, trabalhadores, burocratas, empresários nunca se comportam dentro das premissas de tais planos. Ninguém combina com os russos, diria Garrincha.

Será que políticos fazem tal macarronada? Fazem, acima é o Obamacare, a tentativa de universalizar o sistema híbrido de saúde dos EUA, que começou torto 80 anos atrás. Mexeu Obama com os interesses de entrincheirados médicos, advogados, hospitais, sindicatos, gerenciadores de planos de saúde, reguladores, fiscalizadores, indústria farmacêutica, seguradoras, ONGs? Nem tentou. Isso num país rico, de democracia estabelecida, o único país do mundo em que a oferta de saúde é maior que a demanda interna. E o Obamacare foi desenvolvido por gente preparada e inteligente, que acredita que problemas sociais se resolvem com vontade política e inteligência aplicada.

O que se vê em programas tipo “Dilmajantar” é apoio de usuários de antolhos morais e de oportunistas, falando de dicotomias como mercado x estado, lucro x social e outros engodos. O programa decola, escondendo quem paga a conta, a população. Aumenta muito o atrito social, ignorando que a natureza da firma é exatamente o contrário, segundo Ronald Coase.

O mais sofisticado programa de engenharia social é singelo frente à realidade. Talvez possa isolar os piratas, criar burocratas neutros, evitar incentivos adversos como o corporativismo. Mas como conter free riders, rent seekers, a captura dos reguladores? E a natureza das pessoas, cujas preferências são subjetivas e o conhecimento, muito disperso? E contra os legais furos inerentes a tais programas, desenvolveríamos uma Justiça que leria mentes e julgaria intenções?

'Prisão é para todo mundo' - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 26/11

BRASÍLIA - As manchetes, romarias à Papuda, críticas e elogios ao STF e o "ame-o ou deixe-o" em relação a Joaquim Barbosa estão concentrados nos três presos do PT, mas vale ler a entrevista do ex-deputado do PP Pedro Corrêa ao repórter Hugo Marques, da revista "Veja".

Ele diz que nunca teve problema com a polícia e a Justiça, nem mesmo um cheque sem fundo, mas hoje está em casa pronto para ser preso a qualquer momento. E é aquela história: ou a prisão de todos os mensaleiros (de esquerda e de direita) é injusta, ou a de nenhum deles é, certo?

Condenado a sete anos e dois meses, por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, Pedro Corrêa não é nenhum ícone petista como Dirceu nem foi torturado como Genoino, mas ele também é gente... E também é mensaleiro... E também foi condenado pelo Supremo... E, como eles, também vai ter de cumprir a pena...

Se Genoino e Dirceu se entregaram com os punhos cerrados, definindo-se como "presos políticos", o quase anônimo Corrêa, velho malufista e ex-integrante da tropa de choque de Collor, admite, civicamente, que não é nada disso: "Não me considero um preso político de maneira alguma. Eu fui julgado por um tribunal que não é um tribunal de exceção, é um tribunal constitucional, legítimo".

Avisa que vai passar o resto da vida jurando que o mensalão não existiu e que sua condenação é injusta: "Não sou corrupto". Até aí, sem novidade. Nenhum preso, em sã consciência, diz o contrário. Mas ele não se faz de vítima política, de mártir do sistema, de santo perseguido pelo demônio Joaquim. Nem tem uma legião de militantes para atacar a Justiça como manobra para defendê-lo.

Aponta até uma "coisa positiva" em tudo isso: "Sempre se disse que prisão é para preto, pobre e pardo. Estamos vendo há algum tempo políticos e empresários presos. Isso mostra que a prisão é para todo mundo".

Como é médico, já tem até planos para passar o tempo entre as grades: vai cuidar dos outros presos.

Contabilidade criativa - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 26/11

O Projeto de Lei aprovado pelo Congresso que desobriga o governo federal de complementar a meta não atingida por estados e municípios na formação do superávit primário - a economia feita pelo governo para pagar os juros da dívida - é mais um desses truques para justificar a redução do superávit primário.

Na verdade, não existe uma meta nacional para estados e municípios. Só na época em que o Brasil definia com o FMI as metas é que estados e municípios tinham objetivos oficiais. Hoje a meta é da União, e o governo põe uma meta para estados e municípios, que é informal. Não acontece nada se os entes federativos não cumprirem suas metas. Por isso, também não existe a obrigação de a União cobrir as metas de estados e municípios, o que existe é obrigação de a União atingir a sua meta.

Em 2013, a meta de economia prevista é de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB), o que corresponde a R$ 110,9 bilhões. Desse total, R$ 38 bilhões corresponderiam ao superávit de estados e municípios, número que não será alcançado. Como o governo central - composto por Tesouro Nacional, Previdência Social e Banco Central - também não está cumprindo a sua meta, que é de R$ 73 bilhões, o superávit primário este ano será bem abaixo do previsto.

Os estados e municípios, em vários anos, ajudaram a União na composição do superávit, mas há três anos não conseguem cumprir as metas informais estipuladas. A reclamação generalizada dos prefeitos sobre a situação financeira de seus municípios tem tudo a ver com as mudanças que o governo pretendia fazer na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Além da razão básica de que a arrecadação de tributos está caindo devido ao fraco desempenho da economia, há motivo específico para a situação dos estados e municípios estar pior: os benefícios tributários que o Planalto ofereceu a setores econômicos atingem principalmente tributos com forte influência nas economias regionais, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A cada isenção oferecida pelo governo, os fundos de participação dos estados (FPE) e dos municípios (FPM) perdem, pois são formados basicamente pelo IPI e pelo Imposto de Renda. Com o fraco desempenho da economia, está caindo a arrecadação do IR de grandes empresas, como a Petrobras e a Vale, o que afeta os fundos regionais. Porém, não há qualquer credor de estados e municípios que não tenha recebido seu pagamento. O maior credor de estados e municípios é a União, que detém 95% das dívidas. Se um estado ou prefeitura não pagar o que lhe deve ,a União entra na conta bancária do ente devedor e bloqueia o dinheiro. Não há possibilidade, portanto, de não pagamento.

Outra razão para o superávit dos estados e dos municípios estar caindo é que o governo federal liberou empréstimos aos estados. Com a mudança dos critérios para pagamento das dívidas estaduais, medida que acabou sendo adiada pelo governo, os empréstimos que vêm sendo liberados ficariam dentro dos novos limites de endividamento.

Hoje estados e municípios não estão inadimplentes, mas, em três ou quatro anos, podem ficar, pois os empréstimos vêm sendo liberados com carência por BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal. Voltamos àquele quadro anterior à Lei de Responsabilidade Fiscal em que o dirigente tomava empréstimo para ser pago pelo sucessor.

Todo mundo sabe que o governo liberou empréstimos de modo irresponsável para os estados, com carências elevadas. A maioria dos senadores já percebeu isso, porque é de candidatos a governos estaduais: Lindbergh Farias (PT-RJ), Pedro Taques (PDT-RO), Ana Amélia (PP-RS), Delcídio Amaral (PT-MS).

Na verdade o governo federal está dando empréstimo para cobrir gastos correntes. Em 2013, fizeram a contabilidade criativa para fechar as contas da União e alegaram que estados e municípios não cumpriram a meta. Para justificar a contabilidade criativa, resolveram culpar estados e municípios, e formalizaram a dispensa na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO).

2013: o ano que não vai acabar - MURILO ARAGÃO

CORREIO BRAZILIENSE - 26/11
Pois bem, estamos caminhando para os momentos finais do ano. Algumas retrospectivas começam a ser desenhadas. O primeiro a fazer uma foi Dodô Azevedo, colunista do G1. Seu ponto de partida foi certo cansaço que ele identificou como a sensação que todos sentem quando um ano acaba.
Na retrospectiva, Dodô diz que o campeonato brasileiro acabou antes do tempo: a quatro rodadas da final já sabíamos que o Cruzeiro seria campeão. Meu Botafogo, como sempre, não cansa de perder oportunidade de ser campeão.

Porém, ainda no campo futebolístico, Dodô não deu pelota para a conquista da Copa das Confederações, que, no mínimo, resgatou a confiança do brasileiro na Seleção. Nesse sentido, essa vitória pode se projetar em 2014, criando a primeira vertente do que chamo de presente continuado. Um presente que se projeta anos à frente.

Outros eventos de 2013 se projetarão anos à frente. As manifestações de rua de junho não foram o despertar da cidadania que alguns tentaram fazer crer. Porém não deixarão de afetar as tendências daqui para a frente. De cara, fizeram o establishment político tentar dar um tapa no sistema político. Nada de mais. Ficou na tentativa. Não serviu nem para justificar a expressão "para inglês ver".

As manifestações não foram o despertar da cidadania apesar de parecer que o país ficaria em chamas. O movimento que se iniciou com uma reivindicação - passe livre para estudantes - transformou-se em salada mista de demandas que não levaram a lugar nenhum. No final das contas, apesar de demolirem popularidades e reputações, os protestos foram capitalizados por desordeiros, vândalos, criminosos e poucos anarquistas românticos.

Mesmo sem o caráter reformador que muitos desejavam, as manifestações vão ficar na história, tanto pelos aspectos políticos quanto pelas consequências nas eleições de 2014. A primeira delas é a certeza de que teremos manifestações durante a Copa do Mundo. A dúvida é saber qual o alcance e qual o impacto. Será mais do mesmo ou algo meio caído?

As manifestações tiveram o efeito de reforçar a mobilização a favor da reforma política, tema que nos assombra sem que se chegue a lugar algum há anos. No entanto, o que se desenha pela frente é grave crise política que um dia vai aparecer e carbonizar o sistema vigente. Será mais um efeito de 2013 no nosso presente continuado.

Também em 2013 tivemos a prisão dos implicados no mensalão. O julgamento, pelos gloriosos acertos e preocupantes erros, é superlativo e causará impacto residual relevante nos próximos anos. Já em abril do ano que vem, o mensalão mineiro chegará ao Supremo tribunal Federal. O julgamento será influenciado pelas circunstâncias que cercaram o do mensalão do PT.

No campo fiscal, 2013 é o ano em que abalamos nossa credibilidade fiscal duramente conseguida nas eras FHC e Lula. Gastamos mais do que devíamos; usamos truques para atingir as metas fiscais; irritamos os investidores; e, por causa de trapalhadas, seremos rebaixados pelas agências de rating no primeiro semestre de 2014.

A combinação dos erros de política fiscal em 2013 com o provável rebaixamento de nosso rating em 2014 provavelmente ficará sendo digerida por alguns anos. Também em 2013, para controlar a inflação, a pilotagem confusa da equipe econômica demoliu a credibilidade da Petrobras, detonando as manifestações de junho. Por tudo o que aconteceu e por tudo o que ainda está acontecendo, 2013 vai demorar muito a acabar.

Jango e a reforma agrária - XICO GRAZIANO

O Estado de S.Paulo - 26/11

A exumação do corpo do ex-presidente João Goulart atiça o passado político. Naquela época, quando se buscava um caminho alternativo para o desenvolvimento, estava na moda xingar o latifúndio. Sem reforma agrária o Brasil não progrediria. A História, porém, desmentiu a pregação nacionalista.

Era 13 de março de 1964. Enorme multidão, estimada em 150 mil pessoas, aglomerou-se na Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Convocado por movimentos populares, sindicais e estudantis, o grande comício a favor das "reformas de base" prometia mudar o rumo do País. Horas antes o presidente havia assinado o Decreto 53.700/63, dando à Superintendência de Política Agrária (Supra) poderes para iniciar as desapropriações de terras. Com voz entoada, discursou Jango: "Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da Supra com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos. Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido. Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado. Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro".

Sempre prometida, porém jamais concretizada, começaria finalmente a famigerada reforma agrária. O arrojo de Jango ultrapassou as expectativas: "Espero que dentro de menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios ao lado das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reivindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar". Aplausos fizeram tremer o palanque.

Jango argumentava com consistência. Ele prometia distribuir as terras valorizadas, economicamente viáveis, próximas dos centros de consumo, com transporte fácil para o escoamento da produção. Citando os casos do Japão de pós-guerra, da Itália, do México e da Índia, países que promoveram bem-sucedidas reformas fundiárias, o presidente reforçava sua convicção sobre o sucesso da empreitada.

Buscou, ademais, um argumento econômico: "Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não têm dinheiro para comprar. Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às indústrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano". Uma aliança operário-camponesa.

Nos anos de 1960 a maioria da população brasileira ainda morava na roça. À cidade, entretanto, também deveria interessar a redistribuição agrária. Assim estabelecia o receituário do marxismo tupiniquim: acabar com o latifúndio estimulava, via elevação de renda das famílias, o mercado interno. Em consequência, a ruptura com a oligarquia agrária deveria seduzir os empresários nacionais. Fazia sentido.

O comício da Central repercutiu imensamente. Dois dias depois, Jango encaminhava ao Congresso Nacional mensagem pleiteando mudanças constitucionais para permitir ao Estado pagar pelas desapropriações de terras com títulos de longo prazo, e não mais em dinheiro. A confusão política aumentou. Uns, da esquerda, enxergavam a aurora do socialismo. Outros, da direita, conspiravam dentro das Forças Armadas. Em 31 de março, apenas 18 dias após o discurso da reforma agrária na praça, Jango estava destituído por um golpe militar.

Muitos analistas imputam ao radical gesto de Jango um fenomenal erro de avaliação política. Ao acirrar a briga contra os partidos conservadores, que participavam da coalizão governamental, provocou a ruptura que o derrubaria. Em outras palavras, cutucou a onça com vara curta. Se tivesse sido mais conciliador, ou preparasse melhor sua tacada, talvez os fatos se passassem de forma diferente. Vai saber.

Surpreendentemente, uma das maiores ironias da História estava por vir. Os militares, ao invés de esquecerem a reforma agrária, logo a impulsionaram. Sob a coordenação do poderoso Roberto Campos, então ministro do Planejamento, um grupo de trabalho, recrutado entre os melhores quadros, avançou na formulação da proposta reformista. Em 10 de novembro de 1964 a Emenda Constitucional n.º 10 passava a permitir a desapropriação de terras com pagamento em títulos especiais da dívida pública. Passados 20 dias, em 30 de novembro, o Congresso aprovava o Estatuto da Terra, a mais avançada lei agrária do mundo. A esquerda quedou boquiaberta: os milicos haviam roubado sua maior bandeira.

Não a utilizaram, todavia. A rápida industrialização e urbanização, abrindo a posterior globalização da economia, junto com a consequente expansão do capitalismo, desmentiram a tese agrarista: o Brasil passou por uma incrível modificação produtiva no agro sem alterar sua concentrada estrutura fundiária. Mais importante que o tamanho da fazenda, a tecnologia começou a mandar no campo. A revolução verde elevou a produtividade rural, abastecendo as cidades.

Amortecida por duas décadas, a reforma agrária ressurgiu em 1985. Incluída na agenda social da redemocratização, perdeu sentido econômico. Comandada pelos invasores de terras, realizada tardia e açodadamente, os assentamentos revelaram-se um fracasso produtivo. João Goulart faleceu em 1976. Jamais imaginaria ver a reforma agrária favelizando o campo.

O partido das brechas - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 26/11

Documento do PT para seu congresso faz afirmações que indicam uma falta de realismo incompreensível


O PT parece estar vendo com mais nitidez a si mesmo do que às circunstâncias a que estamos todos sujeitos no Brasil. Se o documento básico para as discussões do congresso partidário, em dezembro, reconhece a estagnação do PT, também faz afirmações que indicam uma falta de realismo incompreensível.

Na opinião talvez mais forte em suas apreciações do Judiciário, por exemplo, a análise acusa-o de ser, ou de estar, "permeado por interesses privados". Qual dos poderes no Brasil não está "permeado por interesses privados"? Ou qual dos governos brasileiros recusou-se a tal condição?

Sem perder maior tempo com citação a evidências, basta citar, a propósito, as telecomunicações privatizadas no governo Fernando Henrique e elevadas no governo Lula à posição, no mundo, de mais exploradoras dos consumidores. Assim mantidas, aliás, no governo Dilma, com a continuação também do péssimo serviço. Sem problemas por isso. O mesmo para a internet. E como as telecomunicações a permearem o governo e o Congresso, também o sistema bancário, a indústria automobilística, a indústria farmacêutica, os planos de saúde, as empreiteiras de obras públicas, e por aí ao infinito.

O PT não sabe mais que o Brasil adota o regime capitalista ou esqueceu que, assim sendo, os poderes institucionais estão a serviço da natureza do regime. Mas tal perda da percepção ou da memória favorece, no caso, o entendimento do que se passa com esse partido. O PT não sabe mais que se fez por se propor a aproveitar umas e abrir outras brechas, com ideias e conquistas batalhadas, no regime destinado a "permear-se por interesses privados".

O atual PT se autoexplica na sua desmemória.

ALIADOS

A pauta de julgamentos do Supremo para amanhã prevê a retomada de um caso simbólico. É o da reposição, ou não, das perdas sofridas pelos milhões que acreditaram nas garantias oficiais das cadernetas de poupança, e de repente se viram surripiados por dois planos econômicos no governo Sarney e mais dois no governo Collor. Neste último, um deles foi o sequestro de poupanças e depósitos em conta corrente, que deixou um rastro de desgraças pessoais e empresariais. Mas, por ser Brasil, não levou nenhum dos seus autores para a cadeia.

O Banco Central e o Ministério da Fazenda são aliados dos bancos, contra as ações de ressarcimento movidas por 400 mil dos poupadores usurpados. O governo se alia aos planos que o PT e Lula chamaram de assalto à poupança do trabalhador e dos donos de pequenos negócios.

BOA COISA

Vale a pena apoiar o Bom Senso F.C. É muito bonito esse movimento que os jogadores de futebol fazem com criatividade, por melhorias na direção do seu esporte profissional e, logo será assim, na ética bastante escassa em sua prática. Sentarem-se todos em campo por alguns segundos, iniciarem o jogo como em câmera lenta: atitudes tão passivas e tão expressivas.

É mais um movimento que nasce e se desenvolve à margem de partidos políticos e de pretensas representações oficiais. E, tudo indica, inatingível pela ação desarticuladora do "black bloc".

Retratos do Brasil na prisão de mensaleiros - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 26/11
O escândalo do mensalão gera desdobramentos extraordinários desde a entrevista do então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) à Folha de S.Paulo , em 2005, na qual ele denunciou o esquema de compra literal de apoio político e parlamentar ao governo Lula.
Beneficiário daquela obra de engenharia financeira da baixa política projetada em altos escalões do primeiro governo petista, Jefferson viria a ser um dos condenados no processo que inicialmente arrolou 40 mensaleiros, um fato inédito na mais que centenária história da República brasileira.

E o ineditismo não parou por aí. Como nunca houve um banco de réus VIPs tão amplo, a história da Justiça nacional não aconselhava qualquer otimismo quanto a condenações. Pois aconteceu o oposto.

Apesar de todas as possibilidades de recursos protelatórios permitidos pela legislação - à disposição de alguns dos melhores e mais bem remunerados advogados do país -, ilustres terminaram condenados à prisão, outro fato pouco visto na vida pública. E neste sentido importa menos se o regime da pena é ou não de cárcere fechado do que o veredicto que pune poderosos, importante por si.

Expedidos, durante o feriadão da semana passada, os primeiros 12 mandados de prisão de mensaleiros condenados por corrupção, o processo do mensalão passou a gerar excentricidades. Como o primeiro escalão petista apanhado neste primeiro arrastão judicial se autodeclarar prisioneiro político . Não passa de reação risível, sob encomenda para militantes sectários, o ex-ministro José Dirceu, o deputado e ex-presidente do PT José Genoino e o tesoureiro petista Delúbio Soares se considerarem presos políticos devido à sentença de um Supremo tribunal Federal composto, em sua maioria, por ministros indicados pelos governos companheiros de Lula e Dilma Rousseff, e num processo que transcorre há seis anos, com o exercício de amplos direitos de defesa. Neste caso, Marcos Valério também seria um perseguido do regime? Bizarro. A reação dos petistas, coreografada por gestos de punhos cerrados como revolucionários de gibi, da primeira metade do século XX, denuncia uma faceta de uma certa esquerda brasileira - a de viver do passado. Já inaceitáveis privilégios com que os prisioneiros petistas têm sido tratados na Papuda, em Brasília, denunciam outra faceta: a do Brasil arcaico, aristocrático até a medula, do você sabe com quem está falando? . Deste Brasil, Dirceu, Genoino e Delúbio também fazem parte. Eles são mais iguais que os prisioneiros comuns - entre eles, cardíacos, com certeza - cujo sistema de visita é espartano, em contraste com o regime de portas constantemente abertas que tem valido para as personalidades petistas condenadas.

O velho Brasil das elites - ironicamente tão enxovalhadas por facções do PT - está expresso em cores fortes nos acontecimentos em torno das primeiras prisões de mensaleiros.

O perigo do rebaixamento - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 26/11

O governo não deveria desdenhar das análises internacionais e da possibilidade de rebaixamento na nota das agências de classificação de risco


Foi com sacrifício e reformas que o Brasil conseguiu das agências internacionais de classificação de risco a elevação de sua avaliação, atingindo a boa pontuação chamada “grau de investimento”. O que essas agências fazem é examinar o país e analisar a estabilidade política, o ambiente jurídico em relação aos negócios, os fundamentos macroeconômicos – para detectar a saúde econômica e financeira nacional – e a situação das contas externas, tudo com o objetivo de estabelecer, segundo critérios delas próprias, qual é o risco de emprestar a esse país.

Todo o trabalho das agências de classificação de risco destina-se a responder a uma pergunta essencial no mundo bancário: qual a probabilidade de um banco deixar de receber os financiamentos em moeda estrangeira feitos ao país? Em relação à economia, há um conjunto de variáveis sobre a situação da nação, julgadas importantes para definir se a saúde financeira nacional é boa ou ruim. As principais são: crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), inflação, desemprego, taxa de juros, equilíbrio das contas públicas, distribuição de renda, legislação reguladora dos negócios e resultados das contas externas.

O Brasil somente pôde sonhar com a melhoria da visão externa sobre sua economia e com o aumento da credibilidade perante os bancos internacionais a partir de 1994, quando o país conseguiu debelar um fantasma que insistia em não ir embora: a inflação. Com o sucesso do Plano Real em dominar a inflação, o país fez reformas e abriu espaço para o PIB crescer. No governo Lula, a situação das contas externas melhorou significativamente (em grande parte pelo aumento dos preços das commodities exportadas, especialmente por causa da demanda da China) e as reservas internacionais cresceram a ponto de ficar acima do total da dívida externa.

Após uma sequência de muitos anos de bons fundamentos macroeconômicos, as agências internacionais cederam e elevaram a classificação do Brasil para “grau de investimento”, indicando que agora o país não tinha o alto risco de antes. As vantagens de uma boa nota são várias. Entre as mais importantes, o país passa a receber mais dólares de investidores internacionais e a taxa de juros cobrada nos empréstimos tomados de bancos estrangeiros sofre redução. A menor taxa de juros se dá em razão do menor porcentual embutido no cálculo a título de taxa de risco.

Pois é essa boa classificação que o Brasil pode perder já no ano que vem, conforme está sendo aventado por analistas e executivos de bancos estrangeiros. Caso aconteça redução na nota do Brasil, os efeitos invertidos ocorrerão. Por um lado, o fluxo de dólares de investidores e de empréstimos obtidos no exterior se reduzirá. Por outro, a taxa de juros cobrada nos contratos de empréstimos externos aumentará. Nesse caso, as consequências negativas sobre o crescimento econômico e sobre o bem-estar social seriam visíveis e rápidas.

Esse rebaixamento, se ocorrer, será resultado da piora nos indicadores econômicos do Brasil. O PIB vem crescendo pouco, as contas externas pioraram (em parte por culpa da situação mundial), o déficit do governo vem crescendo e a dívida pública está subindo. Além disso, o governo Dilma tem sido alvo de desconfiança internacional em razão das manipulações contábeis nas contas fiscais, do represamento dos preços dos combustíveis, da intervenção na economia privada, da piora financeira de empresas estatais importantes (o caso principal é a Petrobras) e na demora em atrair capitais privados para os projetos de infraestrutura.

Nesse conjunto de notícias ruins, o sucesso nos leilões de privatização dos aeroportos do Galeão e de Confins, que comentamos ontem, é um bom sinal. O problema é o atraso excessivo nessas soluções e na recuperação da péssima infraestrutura física. O governo não deveria desdenhar das análises internacionais e da possibilidade de rebaixamento na classificação feita pelas agências. Pelo contrário: as autoridades deveriam se perguntar por que as agências podem rebaixar a nota do Brasil, examinar as críticas, estudar os indicadores ruins e assumir o compromisso de reverter a situação. Mas, para isso, seria preciso um mínimo de humildade política, algo difícil entre as autoridades que habitam Brasília.

Espaço para a gastança - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 26/11
Gastar continua sendo a palavra de ordem no governo federal, apesar das promessas de austeridade e do pacto de responsabilidade fiscal acertado com dirigentes e líderes de partidos da base aliada. Três dias depois da reunião da presidente Dilma Rousseff com os aliados, o Ministério do Planejamento anunciou mais uma reestimativa de receitas e despesas federais. A quinta revisão bimestral do Orçamento indicou uma arrecadação adicional de US$ 16,3 bilhões neste ano, descontadas as transferências constitucionais, destinadas principalmente a Estados e municípios. A ideia de economizar esse dinheiro extra nem deve ter sido considerada. O gasto do exercício foi também recalculado e ampliado, com acréscimo igual ao da receita. A revisão bimestral permitiu ao governo acomodar um excesso de despesa de R$ 14,1 bilhões e ainda aplicar mais R$ | 2,2 bilhões em itens de sua escolha.
A revisão das condições do Orçamento a cada dois meses é uma exigência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Vale como prestação de contas e como oportunidade para um ajuste fino das contas públicas. Mas pode servir também para legitimar, pelo menos na aparência, a gastança federal.

Foi uma impressionante coincidência a revelação, no mesmo relatório, de uma arrecadação imprevista de R$ 16,3 bilhões e de uma despesa excedente, e também ignorada em revisões anteriores, de R$ 14,1 bilhões. Sem aquela arrecadação a mais, o governo teria de podar pelo menos uma parte da despesa reestimada ou de reconhecer, claramente, o descumprimento da meta fiscal em vigor para 2013. Não se considera, é claro, a feia hipótese de uma falsificação dos dados.

A revisão apontou uma receita adicional de R$ 17,96 bilhões. Descontadas as transferências, sobraram R$ 16,3 bilhões. Com esse dinheiro o governo poderia reforçar o superávit primário, isto é, para pagar juros devidos pelo Tesouro e controlar a expansão da dívida pública. Como segunda hipótese, poderia gastar toda essa verba. Poderia também destinar uma parte aos juros e outra ao gasto. Prevaleceu a segunda possibilidade.

Faltaria saber se o governo poderia usar todo esse dinheiro para despesa sem descumprir a meta de superávit primário. Resposta: poderia, porque a administração central só se responsabiliza, agora, pelo cumprimento de sua parte no resultado geral das contas públicas. Está dispensado, com base em projeto recém-aprovado no Congresso, de compensar qualquer deficiência no resultado fiscal de Estados e municípios.

Sua obrigação, portanto, está limitada à geração de um superávit primário de R$ 73 bilhões, embora a meta geral do setor público seja um excedente primário de R$ 111 bilhões, equivalente a 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado. Este alvo já é bem mais baixo que aquele fixado inicialmente na regra orçamentária, de 3,1% do PIB.

Nesta altura, qualquer saldo apresentado pelos governos estaduais e municipais será considerado um ganho para a política fiscal, porque o assunto saiu da pauta do governo central. Esse regime deve ser mantido em 2014.

Mas também é importante saber de onde vem a receita adicional recém-estimada. Virá quase exclusivamente de parcelas do refinanciamento de dívidas fiscais (Refis), calculadas em R$ 16,4 bilhões. A Cide, cobrada sobre combustíveis, proporcionará R$ 101,2 bilhões. Outros R$ 547,6 bilhões virão de fontes diversas. Como a maior parte das receitas tributárias foi reestimada para baixo, o saldo, descontadas as transferências, corresponderá aos R$ 16,3 bilhões.

Quase todo o dinheiro adicional deverá resultar, portanto, de uma nova renegociação com devedores do Fisco. Dando certo, essa renegociação produzirá uma receita dessa magnitude neste ano, sem garantia de repetição. Será prudente gastá-la? Será um ganho excepcional em todos os sentidos, além de ser suficiente, de forma quase milagrosa, para acomodar a despesa reestimada e ainda permitir o superávit primário de R$ 73 bilhões.

Quem se espantará, se os agentes do mercado e o pessoal das agências de classificação de risco manifestarem algum ceticismo em relação à seriedade fiscal do governo brasileiro?

À espera do bom senso - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 26/11
Passa longe do bom senso esperar que o Supremo tribunal Federal (STF) considere inconstitucionais os planos econômicos conhecidos como Bresser (1987), Verão (1989), Collor 1 (1990) e Collor 2 (1991) - todos lançados na tentativa de controlar a inflação, que desmoralizava a moeda nacional e corroía o salário do trabalhador. Fracassaram, mas nem por isso podem ser carimbados de espúrios. Tampouco transitaram fora da lei, ou foram impostos por quem não tinha autoridade constitucional para assiná-los.
Esses planos, como qualquer outro que pretendesse livrar o país dos perigos da hiperinflação, teriam que trocar a moeda do país para apagar a memória inflacionária e reduzir ao mínimo a prática da indexação generalizada da economia. Nessas passagens, a mais visível e popular das indexações, a correção monetária das cadernetas de poupança, sofria alterações temporárias que, segundo especialistas, não duravam mais que um mês e logo retomavam a marcha.

Os planos cumpriram os rituais de leis e decretos, além de obedecer às resoluções da autoridade monetária. No Brasil, o Banco Central foi criado há quase 50 anos e, desde então, o sistema bancário não faz o que bem entende. É obrigado a seguir as regras definidas e fiscalizadas por essa instituição que, felizmente, goza de bom nível de independência.

O que está em discussão no momento é a arguição de inconstitucionalidade daqueles planos, o que tornaria inválidos os índices de correção das cadernetas aplicados pelas instituições financeiras, inclusive pela Caixa Econômica Federal - tradicionalmente, a líder na captação de poupanças -, nos períodos imediatamente após a vigência de cada um dos planos.

Se vitoriosa a tese, os bancos seriam punidos por terem obedecido a regras decorrentes da implantação de cada um dos quatro planos em questão. Teriam que devolver, 26 e 23 anos depois do primeiro deles (Bresser), suposta diferença na correção aplicada às cadernetas.

Além da questionável procedência da tese, as consequências, ao contrário do que parece à primeira vista, vão muito além de afetar apenas o sistema bancário. Na verdade, toda a sociedade será prejudicada, primeiro pela redução da oferta de crédito na praça e, depois, por serem todos os contribuintes de impostos obrigados a cobrir um rombo nas contas nacionais, inclusive os que tiverem a eventual e temerária felicidade de participar da repartição do descabido bolão judicial.

Cálculos preliminares do governo concluíram que a conta pode chegar a R$ 149,9 bilhões, dos quais a Caixa Econômica - ou seja, o próprio governo - terá de responder por R$ 49,8 bilhões. A quantia é suficiente para abalar a arrecadação federal, já que os bancos terão de fazer provisões reduzindo os lucros e, portanto, os impostos. Não só. A brusca retirada dessa quantia do sistema vai provocar retração de cerca de R$ 1,3 trilhão na oferta de crédito para o consumo e a produção (equivalente a nove vezes os R$ 149 bilhões, conforme as regras bancárias internacionais de segurança).

Se torcer pelo "quanto pior, melhor" nunca foi decisão inteligente e proveitosa para o país, esse caso tem razões de sobra para que o bom senso prevaleça sobre a visão míope de que negar a inconstitucionalidade dos planos é dar a mão a banqueiros. É muito mais o que está em jogo.

Futebol mais sensato - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 26/11

Ainda não se descarta que a previsão pessimista de Pelé sobre o Bom Senso F. C. mostre-se acertada. É possível que, no fim das contas, nada mude na organização do futebol nacional. A cada nova rodada do Campeonato Brasileiro, no entanto, os jogadores têm colhido motivos para perseverar.

Com dois meses de atuação, o Bom Senso já conquistou feito inédito ao unir uma categoria tradicionalmente desunida. O movimento, que nasceu com 75 jogadores, hoje agrupa mais de mil atletas profissionais. Dias antes dos jogos, cerca de 150 deles trocam constantes mensagens pelo telefone celular.

O resultado é óbvio em campo. Logo após o início das partidas, todos os atletas em todos os jogos manifestam-se uniformemente de maneira simbólica. Na última rodada, sentaram-se no gramado.

O gesto resume uma de suas bandeiras. Querem aprimorar o irracional calendário do futebol brasileiro, diminuindo o número de jogos na elite e aumentando o dos times menores; ampliando as férias e a pré-temporada.

Ademais, o Bom Senso propõe o "fair play financeiro": defende que os clubes gastem menos do que arrecadam e honrem seus pagamentos --incluindo salários-- em dia.

Diante de demandas tão sensatas e confrontada com uma força inédita, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) se viu compelida a agir. Anteontem, divulgou proposta com mecanismos para zerar a dívida dos clubes e monitorar sua saúde financeira.

É um começo, sem dúvida, mas a luta dos jogadores merece apoio para chegar mais longe. Em entrevista à revista "Veja", Paulo André, zagueiro do Corinthians e líder do movimento, acerta ao descrever a estrutura do futebol brasileiro como "emperrada, enferrujada".

Os atletas que voltam ao país depois de atuar na Europa, diz o ex-jogador do Le Mans (França), são os que percebem com mais clareza a precariedade do futebol nacional. Merece atenção sua sugestão de que o Brasil adote o modelo inglês, no qual a CBF cuidaria apenas da seleção, deixando os campeonatos para uma liga de clubes.

Mudar não será fácil, mas o Bom Senso tem demonstrado que o ceticismo --que nunca foi só de Pelé-- é cada vez menos justificável.

O país adiado - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 26/11

A pouco mais de um mês do encerramento do ano legislativo, constata-se que projetos importantes para o desenvolvimento do país e para o bem-estar da população deverão ser votados só em 2014, um ano eleitoral, o que aponta para a contaminação por interesses políticos. Esse balanço inicialmente negativo de postergações, obviamente, só fica completo se forem levados em conta também avanços obtidos neste ano, tanto na própria área parlamentar quanto na Suprema Corte e no Executivo. Mesmo num ritmo indesejado, o fato é que o país avança no rumo de uma democracia qualificada e de maior justiça social. Seja qual for o ângulo de análise, porém, a avaliação das atividades do Congresso penderá sempre mais para o lado da frustração, o que contribui para prejudicar ainda mais a descrença da sociedade nos políticos.
O recrudescimento das denúncias de espionagem virtual, por exemplo, reforçou a urgência da aprovação do marco civil da internet, uma espécie de constituição da web. Já em janeiro, a consternação provocada pelas vítimas do incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, motivara os legisladores a rever as leis de prevenção e combate a sinistros em locais de grande concentração de público. Mesmo esses planos considerados prioritários, porém, não foram além das intenções. O projeto do marco civil, por exemplo, tranca a pauta há quase um mês. Em consequência, a Lei Kiss deverá ser votada só no próximo ano, juntamente com outras matérias essenciais para os brasileiros. Entre elas, estão a regulamentação de pontos pendentes da chamada PEC das domésticas e a Lei Antidrogas. E falta a apreciação do fim do voto secreto no plenário do Legislativo, abrindo caminho para maior transparência sobre decisões dos parlamentares.
No caso do Congresso, a baixa produtividade deve-se a um conjunto de práticas que deveriam provocar maior reflexão. Entre elas, está o fato de os parlamentares perceberem hoje no mínimo 13 salários anuais _ depois de extintos o 14º e o 15º _ para trabalhar basicamente de terça a quinta-feira, dia em que costumam deixar Brasília para seus Estados de origem o mais cedo possível. E há, é claro, tanto disputas políticas saudáveis, como a travada entre parlamentares da situação e da oposição, quanto interesses fortes capazes de postergar indefinidamente uma votação temida pela maioria, como a do voto secreto.
A agenda nacional precisa andar mais rápido, permitindo maior desenvolvimento econômico e social. E, para isso, é importante que cada poder, guardada a interdependência constitucional entre eles, cumpra com eficiência o seu papel, zelando pelo interesse dos brasileiros.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não vai falar nada?”
José Dirceu, do presídio da Papuda, cobrando uma atitude solidária de Lula


Nº DE CARGOS: PLANALTO DÁ DE 10X0 NA CASA BRANCA

O Palácio do Planalto emprega, atualmente, 4,6 mil funcionários, exatamente 10 vezes mais que os 460 servidores da Casa Branca, sede do governo dos Estados Unidos, que administra o maior orçamento do mundo (US$ 11 trilhões). Se contar os funcionários da Vice-Presidência e das secretarias, todos na conta da Presidência da República, o número de servidores do Planalto sobe para 8.861.

POR NOSSA CONTA

Milhares de cargos foram criados no Planalto para serem distribuídos sem concurso a dirigentes e militantes do PT, e a seus apadrinhados.

FARRA BIZARRA

É tanta gente sem ter o que fazer, nem mesa para ocupar, no Planalto, que eles se revezam em sofás e cadeiras destinados a visitantes.

SUPERLOTAÇÃO

Outro sinal de superlotação no Palácio do Planalto pode ser percebido nos restaurantes dos funcionários. As filas são impressionantes.

GOVERNO MÍNIMO

Nos EUA, o presidente mora e trabalha no mesmo local. Aqui, tem os palácios Planalto e Alvorada, além da Granja do Torto para feriados.

‘ULTRAJADOS’, EMIRADOS VÃO À FORRA CONTRA TEMER

Os Emirados Árabes ficaram enfurecidos com o governo do Brasil, que não se desculpou nem desautorizou o que chama de “ultraje” ao qual foi submetido seu ministro de Economia, Sultan Al Mansoori. Ele teve as malas revistadas pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos (SP), em desrespeito a tratados de imunidade diplomática dos quais o Brasil é signatário. Irritados, deram o troco: submeteram à revista a comitiva do vice-presidente Michel Temer na visita oficial a Abu Dabi.

E NA COPA?

O chefe de protocolo dos Emirados Árabes questionou o embaixador brasileiro João de Mendonça Neto sobre como o Brasil sediará a Copa.

NADA FEITO

O chanceler Luiz Figueiredo passou batido: não acionou ministro da Justiça, nem pediu à superintendência da PF-SP para apurar o caso.

JOÃO SEM BRAÇO

O diplomata João de Mendonça Neto é acusado pelos Emirados Árabes de ignorar as queixas e até a nota de protesto contra o Brasil.

LULA NA PAPUDA

Com a “cumpanherada” em cana, após o afano geral do mensalão, a assessoria do ex-presidente, aboletada no Instituto Lula, está à beira de um ataque de nervos. Quem liga querendo saber se Lula visitará os amigos na Papuda, ouve palavrões e tem o telefone desligado na cara.

‘NÃO VAI FALAR NADA?’

Os lulistas andam nervosos também com a cobrança do detento José Dirceu, que assumiu, resignadamente, a pecha de “chefe da quadrilha”, e continua à espera da solidariedade e da visita de Lula à Papuda.

DEBAIXO DA CAMA

O comandante do Exército, general Enzo Peri, age como quem se esconde debaixo da cama. Não diz se vai confiscar a Medalha do Pacificador, a mais importante do Exército, concedida a José Genoino. O decreto 4.207/02 manda cassar a medalha de corruptos condenados.

DE OLHO

A bancada estadual de oposição vai entrar com pedido de informações ao TJ da Bahia sobre processo contra a mulher do governador Jaques Wagner, Maria de Mendonça, no Conselho Nacional de Justiça.

CASQUINHA

O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) aproveita prisão de mensaleiros para lançar nesta quarta (27) o livro A Máfia da Estrela 2 – o julgamento – sobre os bastidores da CPMI dos Correios e o processo no STF.

A COPA VEM AÍ

O vencedor do leilão terá que correr muito para evitar o vexame colossal de estrangeiros chegando no desolador terminal 2 do Galeão, com filas quilométricas para o único elevador do estacionamento. Parece aeroporto de Uganda.

GRAMA FEDERAL

Impressiona a quantidade de funcionários em relação ao mau estado do Jardim Botânico, no Rio, fundado por dom João VI: desocupados, guardas advertem para não pisar a grama inexistente junto a córregos secos e caramanchões sem flores.

MOMENTO LINDO

O “rei” Roberto Carlos tentou se aliar ao movimento Procure Saber para censurar biografias não autorizadas.

Com um belo Lamborghini de R$ 1,5 milhão na garagem, não precisa se preocupar com dinheiro.

PERGUNTA NO PARLATÓRIO

Quando o ex-presidente Lula vai visitar na Papuda a “cumpanherada” que está em cana por falar, agir e embolsar grana em seu nome?


PODER SEM PUDOR

BEABÁ NO 'REBOLATION'

A ex-deputada Ângela Guadagnin (PT-SP), aquela que dançou "rebolation" pela impunidade do mensalão, certa vez interrompeu uma exposição do então ministro Antonio Palocci (Fazenda), em uma audiência pública, quando ele afirmou que as agências reguladoras devem prestar contas ao povo, através dos seus representantes.

- V. Exa. está se referindo ao Executivo, não?

- Não, deputada; nesse caso - ensinou Palocci -, os representantes do povo são deputados e senadores.

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Privatização de aeroportos: Melhoria no Galeão só será sentida 6 meses após Copa
- Folha: Dilma resiste a fórmula para reajustar gasolina
- Estadão: Após ajustes, licitação da BR-163 atrai sete grupos
- Correio: Ministra vê retrocesso no lobby contra pensão
- Estado de Minas: A morte no caminho da cura
- Jornal do Commercio: Pedofilia condena a igreja católica (Págs. 1 e 7)
- Zero Hora: Mensalão sacode o judiciário: Barbosa vira alvo de juízes
- Brasil Econômico: Total negocia compra da distribuidora Ale

segunda-feira, novembro 25, 2013

O crítico de bolso bacana - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 25/11

Em jantares inteligentes, a sobremesa é sempre leve, porque essa gente é muito crítica


Um dos traços essenciais de nossa psicologia é que queremos ser aceitos. Muitos filósofos, entre eles Adam Smith (1723-1790), diziam que nossa imaginação é constantemente presa à inquietação de como somos vistos pelos outros, fato este que é parte saudável da vida moral social, mas que também facilmente degenera numa angústia de dependência afetiva destruidora da autonomia.

Uma das formas mais seguras de se sentir aceito pelo grupo é desenvolver opiniões de rebanho. No fundo, temos horror a sermos recusados pelo bando, mas, hoje em dia, esse desejo de agradar é avassalador.

As redes sociais e sua mesmice brega, espaço de repetição do irrelevante, são prova de nossa condição de rebanho como pilar da (in)segurança psicológica.

As redes sociais criaram um novo perfil, o do crítico de bolso em versão pós-moderninha. O sonho dessa moçada, que se afoga na irrelevância e no desespero do anonimato cotidiano (que assola todos nós), é ter opiniões sobre as coisas, mas acaba mesmo falando da pizza que comeu ontem ou xingando os inimigos de plantão. O sonho de muitas dessas pessoas é frequentar jantares inteligentes nos quais gente bacana emite opiniões bacanas.

A forma mais fácil de frequentar jantares inteligentes é atacar a igreja, os EUA e a polícia. Mais sofisticado, mas que também garante acesso aos jantares inteligentes das zonas oeste e sul de São Paulo, é dizer que "o modelo social está ultrapassado". Esta frase leva algumas pessoas ao orgasmo (risadas?).

"O modelo social está ultrapassado" é a típica frase de quem quer se passar por crítico (mas, na realidade, é crítico de bolso), porque é a sociedade de mercado (ou como dizia Adam Smith, "commercial society"), a mesma que os comunistas chamam de "capitalismo", que nos retirou da miséria que é o estado natural da vida (e à qual voltamos rapidinho se o Brasil virar a Venezuela de Chávez e Maduro).

Toda riqueza que sustenta esse povo de jantares inteligentes, a começar pelo "bom vinho em conta", é fruto do mesmo modelo que consideram ultrapassado.

Aqui e ali, faça uma caricatura de quem você não consegue enfrentar porque lhe falta repertório conceitual. Diga que são racistas, "sequicistas" e homófobos. Conte, fingindo segredo, que seu filho é do círculo íntimo dos "maravilhosos" meninos do MPL e que sua filha é (incrível!!) black bloc, mas nunca bateu em ninguém.

Assim você chegará à sobremesa (leve, pois em jantares inteligentes ninguém quer engordar, porque sabe que os parceiros de jantares inteligentes são pessoas muito críticas) com segurança, sem dizer nada que ponha em risco sua cidadania de gente bacana.

Mas o que marca essa gente bacana é que na verdade nunca fala, nem tem contato real, com as pessoas fora das escolas de R$ 3.000 que paga para os seus filhos críticos desde os cinco anos de idade frequentarem, ou do seu círculo profissional chique e/ou da praia chique onde tem sua casa de praia típica de praias chiques.

O problema, quando você é um cidadão de jantares inteligentes, é que você acaba mesmo alienado e acreditando nas suas próprias críticas de bolso. Mas vamos ao que interessa. Vamos falar de um dos tópicos que autorizam você a se achar bacana e a frequentar jantares inteligentes: a polícia.

Outro dia, por acaso, conversei por cerca de três horas com um policial militar aposentado do Estado de São Paulo. Muito instrutivo, uma vez que sou egresso do mundo de gente bacana, que, portanto, nada sabe acerca do mundo real.

Ele definia sua classe como aquela que vive com a "mão no lixo" que essa gente bacana nunca vê de fato --a não ser quando resolve fazer ensaios fotográficos sobre "injustiça social". Reclama de como eles são invisíveis e de como a sociedade, na sua maioria, os considera parte do lixo. Um sofrimento profundo, devido a essa invisibilidade, marcava seu rosto de solitário. A polícia é um dos setores mais maltratados da sociedade, apesar de essencial.

Essa gente bacana sai correndo do jantar inteligente para o carro, com medo, sonhando com um baseado e uma bike em Amsterdã nas férias.

Covarde e ousado - LÚCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 25/11

A descrição é do próprio Jeff Bezos. Ao contratar um veterano do exército para trabalhar na Amazon, ele disse: "Fisicamente sou um covarde ('chicken'), mentalmente sou ousado."

Imagine se Jeff Bezos tivesse levado adiante sua ideia de batizar a companhia que fundou há 20 anos de Relentless (implacável). "Vamos agora ouvir o CEO da Implacável.com", convocaria o líder da comissão do Senado em Washington, que um dia há de plantar o fundador da Amazon numa cadeira e ouvir sua risada nervosa numa investigação anti-truste.

Mas não é preciso ter título explícito para confirmar a intenção do nome que não emplacou, como fica claro no livro fascinante de Brad Stone, The Everything Store (A Loja de Tudo). A narrativa sobre a emergência do gigante do comércio on-line, que chega a 200 milhões de consumidores, acaba de ser escolhida Livro de Negócios do Ano pelo Financial Times. O que torna a resenha negativa escrita por Mackenzie Bezos no site da Amazon (uma estrela, de um total de cinco) ainda mais embaraçosa. Sim, Mackenzie é a senhora Bezos. E publica seus romances numa editora tradicional, não na fundada pelo marido.

O gênio analítico de Bezos o coloca entre seus pares, como Bill Gates e Steve Jobs. E, como no caso de Gates e Jobs, é o elefante que, se um dia sair da sala, traz uma interrogação para o futuro da Amazon. No momento, a companhia com vendas de US $180 bilhões, 90 mil funcionários (mais 70 mil são contratados temporariamente para o fim do ano) vai continuar a crescer.

O livro de Brad Stone foi alterado no final quando, em agosto, Bezos comprou o Washington Post da família Graham por US$ 250 milhões. Mas, ao digerir a decisão, Stone começou a ver mais coerência num Bezos dono de jornal. Lembra que ele é um leitor voraz e defensor da palavra escrita, ainda que inimigo de editoras de livros e livrarias físicas. As reuniões na Amazon começam com a leitura silenciosa de um memorando de seis páginas. Lembra que Bezos é consumido pelo fascínio com a ruptura dos modelos tradicionais de negócios e, se há uma indústria tradicional que sofre com a economia digital, é a que leva a você, leitor, esta coluna.

E, não sejamos ingênuos, o empresário de ideias descritas como vagamente libertárias, um ferrenho inimigo de limites, como a cobrança de impostos, acaba de adquirir uma influência política poderosa. De sua mansão de 2.700 m² no Lago Washington, em Seattle, Bezos pode orquestrar um exército de lobistas que lutaram, Estado por Estado, para impedir a cobrança de impostos sobre vendas on-line. Pode destruir pequenos comerciantes, ao bloquear suas lojas do site da Amazon, em Estados que não dão refresco fiscal como a Califórnia e Nova York, para mostrar a vizinhos mais pobres o poder de sua fúria competitiva. Mas, ser dono do Washington Post na capital de uma indústria só, a política, é um novo estágio de influência.

A surpresa da compra do Post não impede Stone de fazer suas previsões, na conclusão de The Everything Store. Ele deixa clara a sua admiração pela companhia "mais sedutora que já existiu", embora, ao longo da narrativa, possamos notar a diferença entre respeitar um empresário e gostar dele. O objetivo de Jeff Bezos é vender tudo em toda parte. Stone prevê que Bezos vai ser dono de uma frota de caminhões para eliminar o último obstáculo independente ao sistema de entregas. Vai estender a venda de alimentos além de algumas cidades da Costa Oeste, enfrentando o Golias Walmart, de quem tomou tantos executivos que acabou sendo processado pelo concorrente. Vai se envolver em telefonia celular, já se envolve em produção e transmissão de TV.

Um dos serviços prestados por Brad Stone é desmistificar a lenda criada por Bezos sobre sua paciência (e a de seus acionistas) para aceitar prejuízos e lucros baixos por ter o foco apenas no consumidor. A Amazon mantém uma vigilância implacável sobre qualquer 'start-up' que demonstre o menor talento de cruzar seu caminho no futuro. Um caso famoso é o da bem sucedida Diapers.com, que vendia fraldas descartáveis on-line e foi colocada de joelhos até capitular e ser comprada por Bezos. Quando a Zappos.com, especializada em venda de sapatos e roupas, começou a dar atenção especial aos consumidores, recebeu o mesmo tratamento, que pode ser ilustrado com um desses filmes de natureza na África, em que a hiena mastiga partes da zebra ainda viva. A lealdade do consumidor, muito mais do que sua satisfação, move a Amazon. Uma lealdade conquistada com voracidade napoleônica.

É mais fácil se opor às condições das fábricas chinesas de iPads da Apple do que às condições desumanas nos depósitos da Amazon e corrigidas graças à reportagem de um pequeno jornal de papel na Pensilvânia. A longo prazo, as sociedades hão de examinar a ideia de que uma transação comercial existe de forma abstrata. E de que para comprar tudo por preços que não remuneram a produção, compensa destruir industrias inteiras até sobrar um só balcão planetário de vendas. Por enquanto, a refeição de Jeff Bezos está apenas começando.

Uma vez rato - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 25/11

RIO DE JANEIRO - Mickey, o rato, está fazendo 85 anos. Os EUA comemoram isso com estardalhaço e, como sempre, intimam o mundo a soprar velinhas para um personagem que só a eles diz respeito. Mickey representa os americanos como eles se veem: adultos, justos, responsáveis, gentis, inatacáveis. Mas não é assim que o mundo enxerga os americanos.

Para mim, muito mais representativo no cânone de Walt Disney é o inimigo de Mickey, João Bafodeonça, criado em 1925 --três anos antes do próprio Mickey, cinco antes de Pluto, sete antes do Pateta e nove antes de Donald. Mas era típico de Walt que um maravilhoso vilão como João Bafodeonça, em ação até hoje, nunca passasse de coadjuvante, destinado a perder todas para o rato.

Rato este que não tinha nada de santo ao nascer. Logo em seu primeiro desenho, "Steamboat Willie" (1928), Mickey tortura um gato, roda-o pela cauda e o atira dentro do rio. E cometeu outras ignomínias com animais nos desenhos seguintes, até que Disney ordenou a sua desratização e conversão em algo parecido com um ser humano.

Mas, uma vez rato, sempre rato, e não é por acaso o ódio de Walt aos gatos, evidente em toda a sua produção. Em "Pinóquio" (1940), o gato Gedeão é um malandro odioso e repulsivo. Em "Cinderela" (1950), o gato Lúcifer, gordo e perverso, é uma constante ameaça para dois ratos esqueléticos, Gus e Jaq. Em "Alice no País das Maravilhas" (1951), o Gato é lógico, frio e insensível. Em "A Dama e o Vagabundo" (1955), os siameses Si e Õ destroem as cortinas, atacam o canário e afogam o peixinho dourado. E mesmo em "As Aristogatas" (1970), um filme que se imagina pró-gatos, há um bando de gatos vadios e desprezíveis, e o herói é um rato chamado Roquefort.

Daí ser inevitável que Walt um dia fizesse a Disney World --a ma-ior ratoeira humana já construída por um rato.

Bem-vindo ao Círculo - DANIEL GALERA

O GLOBO - 25/11

As pessoas são obrigadas a compartilhar os detalhes mais íntimos de suas vidas


Na coluna da semana passada, falei um pouco sobre o desafio de escrever ficção contemporânea na era digital e usei como exemplos Steven Hall e Thomas Pynchon. Naquela ocasião, deixei de fora outra leitura recente que também se relaciona ao tema e rendia um comentário à parte: o romance “The Circle”, de Dave Eggers. Embora seja um livro comportado em termos de forma e linguagem, ele se destaca por abordar de maneira bastante direta não apenas as novas tecnologias e serviços que transformam nossas vidas, mas também as ideologias que movem muitas empresas do setor e vêm embutidas em seus produtos.

“The Circle”, o Círculo, é o nome da empresa que, dentro do futuro próximo inventado por Eggers, desbancou o Google e o Facebook e se tornou a marca dominante no ecossistema de redes sociais, gadgets e serviços on-line. A protagonista do livro, Mae Holland, é uma garota de 24 anos que consegue um cobiçado emprego no enorme e extravagantecampus (termo pelo qual as gigantes do Vale do Silício costumam se referir a suas sedes) do Círculo.

Mae começa por baixo, trabalhando no setor de atendimento aos anunciantes. Logo nos primeiros dias, precisa abrir contas em todos os serviços do Círculo, enviar todas as suas fotos e vídeos para a nuvem, comparecer ao máximo de eventos e grupos de discussão organizados por seus milhares de contatos e galgar posições em vários rankings de participação e eficiência. Eggers tira uma onda com o estilo de vida do tech people, que o livro retrata como uma massa homogênea de escravos da originalidade, carente de aprovação nas redes sociais, para quem a experiência direta foi substituída por estatísticas, interfaces virtuais, enquetes sobre o menu vegan da cantina e abaixo-assinados contra a opressão em países distantes.

Até aí, não é um retrato muito distante do imaginário comum. Mas logo o incentivo à conectividade se transforma em coação. Mae é pressionada a compartilhar seus dados médicos e os hábitos mais íntimos. Deve monitorar e exibir seus passos, sinais vitais, sentimentos e opiniões sobre tudo em nome de um valor supremo: a transparência. Ser transparente, ou seja, abrir mão da privacidade, é sinônimo de ser generoso. A ideologia do compartilhamento total vai ganhando proporções perturbadoras. As únicas vozes dissidentes, entre elas os pais e o ex-namorado de Mae, vão sendo esmagadas em nome do direito comunitário de ter acesso a toda informação concebível. Um dos projetos do Círculo é contar os grãos de areia do Saara. Na crença de seus fundadores, o compartilhamento online do pensamento humano em tempo real só dependerá da tecnologia necessária.

O livro é em parte uma distopia totalitarista no molde de “1984”, em parte uma paródia da ideologia da geração Google. Os três lemas do Círculo — Segredos são Mentiras; Compartilhar é se Importar; Privacidade é Roubo — são alicerces da visão dominante segundo a qual um estado de vigilância total traria benefícios à Humanidade reduzindo crimes, aproximando os seres humanos e aprimorando a democracia. Eggers leva essa lógica às últimas consequências, rumo ao “fechamento do Círculo”, quando as esferas privada e pública se fundem e todo o conhecimento possível fica disponível a todos.

Pode-se argumentar que há um certo desequilíbrio entre o realismo e a fantasia no mundo apresentado por Eggers, bem como personagens-espantalho facilmente incendiáveis, e leitores versados nos detalhes tecnológicos podem torcer o nariz diante de imprecisões técnicas, mas esse mundo é coerente o bastante com certas tendências atuais para que a leitura traga momentos de desconforto. Como protagonista, Mae pode parecer ingênua e submissa demais, mas ela faz parte de uma sociedade imaginada em que o conceito de privacidade já se tornou obsoleto. No mundo real, a privacidade ainda conta com legiões de defensores e é tema de debates encarniçados como o que tivemos recentemente em torno das biografias no Brasil. A força simbólica da distopia do romance depende muito da crença do leitor a respeito do valor que a privacidade continuará tendo nas próximas gerações.

De todo modo, há trechos em que o texto de Eggers consegue emular a sensação de ser tragado pelo fluxo das redes sociais com uma precisão exasperante. A vida de Mae vai sendo substituída pela administração da informação acerca da vida. É confortante ver a ficção literária dando conta disso, ou pelo menos tentando.

Dia desses o Google Plus abocanhou meus álbuns de fotos privados do Picasa e o conteúdo brotou num passe de mágica no meu smartphone. Foi tão fascinante quanto desconfortável. Em momentos assim, e ao ouvir expressões como “fulano se suicidou no Facebook”, é preciso lembrar que o Círculo não deve se fechar nunca, e que a abertura deve ser larga o bastante para que possamos sair.

Pela liberdade da rede - FRANK LARUE

FOLHA DE SP - 25/11

Aceitar que o acesso à internet de baixa qualidade seja o único oferecido para quem possa pagar menos trará um impacto profundo na conectividade


No ano passado, países adotaram por unanimidade na ONU a primeira resolução sobre direitos humanos e internet. O texto é direto: "Os mesmos direitos que as pessoas têm fora da internet devem ser protegidos dentro dela, em particular a liberdade de expressão". Se a formulação é clara, sua implementação na prática é um desafio permanente.

Se liberdade de expressão e privacidade são reconhecidos faz tempo como direitos humanos fundamentais, qualquer proposta de regulação para a internet deve sempre levar em conta a necessidade primordial de promovê-los. No entanto, por todo o mundo, leis inconsistentes abrem espaço para iniciativas que terminam por violá-los.

O Brasil tem tido um papel de liderança nesse tema. Na abertura da Assembleia Geral da ONU em setembro, a presidenta brasileira, reagindo às revelações sobre a espionagem norte-americana, listou com precisão pontos fundamentais que deveriam nortear qualquer debate sobre como regular a internet. Em primeiro lugar, ela mencionou a importância de garantir a liberdade de expressão e a privacidade.

Neste momento, o Congresso Nacional brasileiro debate a adoção do projeto de Marco Civil da Internet. O projeto de lei, já pela sua elaboração participativa, vinha sendo usado no mundo como um exemplo interessante de regulação da internet. Se algumas qualidades fundamentais do texto original forem mantidas pelos congressistas, o Brasil poderá oferecer ao mundo uma referência. Mas se tais qualidades forem perdidas, a regulação poderá ser ineficaz ou até danosa.

Garantir a neutralidade da rede significa que toda medida que regule o tráfego e o acesso de informações on-line seja ancorada pelos princípios fundamentais da igualdade e não discriminação.

Assegurar à população, sem discriminação, acesso seguro e de qualidade às novas tecnologias de comunicação é elementar para a consolidação da democracia. Num país marcado por desigualdades econômicas como o Brasil, aceitar que o acesso de baixa qualidade seja o único oferecido para quem possa pagar menos trará um impacto profundo na conectividade de uma vasta parcela da população.

Garantias como os dispositivos que determinam que provedores de serviços na internet só poderão ser responsabilizados por não cumprir uma ordem judicial que os obrigue a remover ou bloquear o acesso a conteúdo de terceiros são também importantes para evitar que se crie um ambiente jurídico hostil à livre circulação de ideias. Nesse sentido, preocupam sugestões recentes para incluir exceções nos casos de violação aos direitos autorais.

O projeto de lei original reafirma a proteção da privacidade, sendo a identificação de dados de comunicação somente aceitável com autorização judicial para casos específicos. No entanto, a proposição obrigando a armazenagem de dados da comunicação em território nacional parece ser tecnicamente inócua.

Sem exageros, promover o livre e seguro acesso à internet é hoje uma das chaves para a consolidação da vida democrática. Assim que é preciso olhar com atenção para qualquer regulação que desconheça o papel crucial da proteção da liberdade. Os debates no Brasil interessam ao mundo, e muito.

PUNIÇÃO SOLIDÁRIA - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 25/11

A Igreja Católica foi condenada a pagar indenização em um caso de pedofilia no Paraná. A ministra Nancy Andrighi, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), negou recurso da Diocese de Umuarama e determinou a responsabilidade solidária da entidade eclesiástica em ação movida contra o padre José Cipriano da Silva.

PUNIÇÃO 2
A igreja e o sacerdote vão pagar R$ 100 mil (metade cada um), de forma solidária, pelos danos morais decorrentes do delito. A vítima tinha 14 anos em 2002. "A igreja não pode ser indiferente --em especial no plano da responsabilidade civil, frise-se-- aos atos praticados por quem age em seu nome ou em proveito da função religiosa, sob pena de trair a confiança que nela própria depositam os fiéis", declarou a ministra em seu voto.

PUNIÇÃO 3
A Mitra Diocesana de Umuarama vai recorrer da decisão. "O ato da pessoa física, em suas atividades privadas, nada tem a ver com o ofício do sacerdócio e não pode ser creditado à instituição", entende Hugo Cysneiros, advogado da diocese.

PUNIÇÃO 4
Em seu voto, a ministra rebate os argumentos da defesa: "Mais do que simples relação de subordinação, o ministro ordenado é para os fiéis a própria personificação da Igreja Católica, no qual depositam justas expectativas de retidão moral". E diz que a instituição não pode ser indiferente ao crime praticado pelo sacerdote que "convencia as vítimas a pernoitarem na casa paroquial para praticar atos libidinosos".

NA PRORROGAÇÃO
O presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Marco Aurélio Mello, prevê que a minirreforma eleitoral criará a mesma celeuma da Lei da Ficha Limpa. Segundo o ministro, as regras recém-aprovadas pelo Senado não podem vigorar no pleito de 2014. Pelo princípio da anuidade previsto na Constituição, a lei passa a vigorar de imediato, mas não vale para a eleição do ano seguinte. As regras só vão incidir sobre as eleições municipais em 2016.

PARA A PLATEIA
"Os parlamentares têm o tempo todo para promulgar leis, mas deixam para fazer em cima da hora para dar uma satisfação vã à sociedade", critica o novo presidente do TSE.

HELLO
Cat Stevens ligou para Eduardo Suplicy (PT-SP) na quinta-feira passada. Pediu desculpas por não poder ter recebido o senador e os filhos, no dia 17, após show em SP. O cantor, que mudou o nome para Yusuf, confirmou ter recebido o exemplar de "Renda de Cidadania - A Saída É pela Porta", enviado pelo político com dedicatória em inglês. Na conversa, Suplicy revelou ao britânico a vontade dos filhos Supla e João, os Brothers of Brazil, de tocar com ele "em algum lugar da Terra".

GAROTA-PROPAGANDA
Livro de estreia da atriz Fernanda Torres, "Fim" terá divulgação digna de grande lançamento. Andrucha Waddington, marido da colunista da Folha, dirige os vídeos da campanha, criada pela agência WMcCann.

ÁLBUM
O Museu do Futebol abre exposição no sábado com objetos que fazem parte da memória impressa do esporte. Além de figurinhas e postais, "Futebol de Papel" exibe itens como os ingressos de todas as Copas do Mundo.

SEM CHORO
Gustavo Rosa, que morreu no dia 12, será homenageado nos espetáculos "Mover-se" e "Entrelaços", da companhia Cinque Sensi. Obras do artista plástico farão parte do cenário e um vídeo sobre ele será exibido, nesta sexta, no teatro Anhembi Morumbi.

AU AU AU
A atriz Larissa Manoela, 12, vai festejar os dois anos de sua cachorrinha, Guilhermina, no bufê Mega Magic, em SP, nesta quarta. A yorkshire da estrela de "Carrossel" tem dez fã-clubes.


MAR À VISTA A estilista Fernanda de Goeye exibiu a boa forma para divulgar a coleção de alto verão de Adriana Degreas em um ensaio caseiro entre amigas


BRILHA MUITO

O joalheiro Jack Vartanian e o artista plástico Kleber Matheus receberam convidados na inauguração da exposição "Variação sobre Pedras", nos Jardins. A empresária Karina Motta, a estilista Juliana Jabour e a mulher de Jack, Cassia Avila, foram à abertura da mostra.

HISTÓRIA CONSTRUÍDA

Os arquitetos e sócios Fernando Vidal, Luiz Fernando Rocco e Douglas Tolaine lançaram o livro "Rocco Vidal", sobre o escritório que comandam. Felipe Aflalo e Kiko Salomão, também arquitetos, estiveram no evento, no Museu da Casa Brasileira.


CURTO-CIRCUITO

Luiz Felipe d'Avila lança o livro "Caráter & Liderança: Nove Estadistas que Construíram a Democracia Brasileira". Amanhã, às 18h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

A blogueira Lala Rudge vai assinar coleção para a marca de sapatos Schutz.

Nizan Guanaes oferece jantar hoje, nos Jardins, em homenagem ao publicitário PJ Pereira, que lança "O Livro do Silêncio".

Rubens Barrichello comanda leilão de artigos esportivos hoje, no Noite do Bem, evento beneficente no Grand Hyatt.

A terra treme - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 25/11

Esta semana um representante do governo Dilma deve se encontrar com, pelo menos, três ministros do STF. Vai alertar sobre os danos à economia no julgamento das ações que tratam das perdas na caderneta nos planos econômicos.
A conta é estimada em R$ 150 bilhões.

Marina e o bispo
A ex-senadora Marina Silva, que é evangélica, vem ao Rio hoje. Terá um encontro com o arcebispo D. Orani Tempesta, às 14 horas.
A aproximação foi feita pelo deputado Miro Teixeira.

Querido Papai Noel
Veja só como as crianças mudaram. As cartinhas para Papai Noel, que meninas e meninos carentes mandam para os Correios, dentro da campanha para que um carioca realize o sonho dos pequenos, não têm mais pedidos de bonecas ou bolas.

O que eles querem...
Nas cartas que chegaram à agência da Siqueira Campos, em Copacabana, a criançada pediu tablets ou videogames modernos, além de TV compatível.
Faz sentido.

Implosão virou arte
Sob a direção do cineasta Andrucha Waddington e do artista plástico Vik Muniz, 80 tomadas de câmera registraram ontem a implosão do Elevado da Perimetral. A Conspiração filmou em diferentes velocidades. Foram até mil quadros por segundo, enquanto um filme normal tem 24 quadros.
Essas imagens se transformarão numa mega instalação de videoarte. IPTU é baixo no Brasil
O economista José Roberto Afonso, especialista em contas públicas, apresentou, sexta, no Ministério das Cidades, em Brasília, um estudo que mostra, veja só, que o brasileiro paga um IPTU camarada. “O Brasil é o campeão mundial de carga tributária entre os emergentes, mas na hora de tributar os imóveis, cobra menos impostos que a China, Rússia, Bulgária, Cazaquistão e Letônia.” Israel, por exemplo, cobra cinco vezes mais do que o Brasil.

Custo político
Para ele, tem prefeito que prefere pedir verbas em Brasília ou aos governadores ou então cobrar impostos embutidos nos preços de mercadorias, porque passam despercebidos pelos contribuintes.

Aliás
Um estudo dos professores Lucio Rennó (UnB) e Carlos Pereira (Ebape-FGV), premiado semana passada pelo Tesouro Nacional, concluiu, após avaliação detalhada, que “municípios que receberam recursos de emendas parlamentares por mais tempo, reduzem a mortalidade infantil, bem como aumentam a geração de emprego formal e incrementam o salário na esfera municipal.”
Imagina se cobrasse mais IPTU.

Hermès em leilão
Começa no próximo dia 2 o leilão de peças da coleção pessoal de Betty Lagardère, ex-modelo e empresária, organizado por Soraia Cals e Evandro Carneiro, no Rio.
Entre os itens mais cobiçados, está a bolsa Birkin, da Hermès, aquela que tem fila de espera e custa uns 30 mil euros. O lance inicial será de R$ 5 mil.

Passagem de bastão
Eduardo Paes viaja hoje à noite para Nova York.
É que o prefeito Michael Bloomberg passará a ele o cargo de presidente do C40, grupo de 40 cidades grandes que estão atuando em conjunto na questão dos riscos climáticos.

450 anos do Rio
Aliás, a agenda do prefeito está cheia. No dia 5, ele pretende reunir gente da sociedade carioca, no Palácio da Cidade, para a cerimônia de abertura das festas do 4509 aniversário do Rio de Janeiro, em 2015.
O Rio foi fundado em 19 de março de 1565.

Os coleguinhas
A violência contra jornalistas será o tema de uma audiência pública amanhã, na Câmara Municipal, às 10h. Depois, ocorre um ato na Cinelândia
Segundo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município, o Rio, palco das maiores manifestações de rua do país, concentra mais de 20% dos casos de agressão ou hostilidade contra trabalhadores da imprensa.

Vermelho e preto
O Flamengo fecha 2013 como o ano em que o clube mais pagou impostos em sua história: R$ 80 milhões.