terça-feira, agosto 20, 2013

Uma questão de sobrevivência - RAYMUNDO COSTA

VALOR ECONÔMICO - 20/08

Estimativa recorrente no Congresso é que a renovação da Câmara dos Deputados, nas eleições de 2014, pode ser maior que aquela ocorrida em 1990, na esteira da eleição de Fernando Collor de Mello, um ano antes. A previsão dos congressistas é que a dança das cadeiras pode ultrapassar os 61,82% registrados então, o que ajuda a explicar em parte o atual surto de independência do Congresso, especialmente dos deputados federais.
O motivo do pessimismo congressual são os protestos de junho, ainda sem uma interpretação clara capaz de definir os projetos de reeleição. É uma questão de sobrevivência. Não é à toa que o Congresso se apressou a votar projetos como o passe livre para estudantes, o fim do voto secreto nas propostas de cassação de mandato parlamentares e a transformação da corrupção em crime hediondo.
Isso sem falar da PEC 37. Como se recorda, a proposta tirava o poder de investigação do Ministério Público, algo que sempre incomodou as autoridades, em qualquer governo, do PSDB ou do PT. Antes de junho, tinha-se como líquido e certo que a Câmara aprovaria a Proposta de Emenda Constitucional. Mas a PEC 37 tornou-se estrela imprevisível dos protestos, talvez o maior símbolo da insatisfação dos manifestantes com a corrupção e a impunidade. Assustados, os deputados trataram de remeter o projeto ao arquivo: não há nada que assuste mais quem dispõe de um mandato do que o barulho da rua.
Os resultados das últimas eleições mostram que os deputados têm razão ao se preocupar com a "voz rouca das ruas", para usar a expressão consagrada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. A eleição de 1990 para a Câmara, aparentemente, se deu no mesmo clima de renovação que um ano antes apressara a aposentadoria de parte da geração que fizera a transição do regime militar para a democracia.
Na eleição seguinte, em 1994, o presidente era Itamar Franco. Ocupava o lugar de Fernando Collor, destituído do cargo depois de os "carapintadas" tomarem conta das ruas. Mas além do impeachment de Collor, no período entre as duas eleições, o Congresso também foi atingido pela denúncia de que um gigantesco esquema de fraude presidia a Comissão do Orçamento: dos 18 parlamentares acusados, seis perderam o mandato e quatro renunciaram para evitar a cassação.
A combinação do impeachment com o escândalo dos anões do Orçamento, assim chamado porque os principais envolvidos eram de baixa estatura, acabou numa renovação de 54,28% da composição da Câmara. A segunda mais elevada, de acordo com levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap).
Este foi o segundo maior índice de renovação, no período. Na eleição seguinte, em 1998, a primeira com reeleição permitida para o presidente e governadores, a renovação da Câmara caiu para 43,85%. Vivia-se, então, o período de estabilização da economia e FHC foi reeleito no primeiro turno, em disputa com Luiz Inácio Lula da Silva.
Em 2002, com inflação, dólar e taxas de juros elevados, o índice de renovação voltou a crescer, mas nem tanto: foi dos 43,85% da eleição anterior para 44,83%. Mas o PSDB perdeu o governo para o PT. Em 2006, depois do escândalo do mensalão, esse porcentual voltou a subir e foi para a casa dos 47,95%, talvez influenciada pelo esquema de compra de votos em troca de apoio político, o chamado mensalão, um dos maiores escândalos políticos envolvendo congressistas já ocorridos.
A taxa de renovação, ainda alta, caiu para 44,25% na eleição de 2010, a mesma em que Lula passou a faixa presidencial para Dilma Rousseff, a primeira mulher a vencer a disputa para presidente da República.
Existe uma máxima, no Congresso, que o governante pode pedir tudo ao detentor de um mandato parlamentar, menos algo que ameace sua sobrevivência política. Nesse momento, a 14 meses das eleições de 2015, os deputados não pensam em outra coisa a não ser na própria reeleição. E eles estão cismados de que o eco das ruas de junho vá reverberar em 2014 com uma renovação recorde de mandatos. E os protestos podem voltar entre junho e julho do próximo ano, por ocasião da Copa do Mundo, como ocorreu no período da Copa das Confederações.
O temor dos deputados é mais um fator nas dificuldades que a presidente Dilma Rousseff atualmente enfrenta para negociar projetos de interesse do governo com o Congresso, especialmente com a Câmara dos Deputados (o Senado renova apenas um terço das bancadas, nas eleições de 2014). Os deputados serão mais ou menos receptivos ao governo, sobretudo na votação dos vetos presidenciais - o que realmente interessa no momento -, quanto mais facilitador for o Executivo para suas reeleições.
O PT já decidiu reeditar, nas eleições de 2014, a estratégia que executou em 2010 e que levou o governo a equilibrar a relação de forças no Senado: dar prioridade à eleição de senadores. Onde não tem o governador como candidato à reeleição, a decisão do PT é apoiar candidatos dos partidos aliados em troca do apoio para o Senado. À exceção, é claro, são grandes colégios eleitorais como São Paulo, onde o PT avalia que há chance real de o partido vencer a eleição.
Em colégio menores, como Pará, Amazonas, Alagoas, Sergipe e Paraíba, "topamos tudo", segundo afirma um dirigente do PT. Ou seja, o candidato ao governo do Estado pode ser do PMDB ou qualquer outro partido aliado, desde que o PT tenha condições de preencher, com a ajuda dos aliados, a vaga de senador. Em 2010, depois que a candidatura Dilma Rousseff estava bem encaminhada, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu prioridade para a eleição do maior número de senadores. O Senado foi a maior fonte de dificuldades para Lula com o Congresso. O ex-presidente elegeu especificamente um conjunto de senadores para derrotar, dentre eles Heráclito Fortes (PI), Tasso Jereissati (CE) e Artur Virgílio (AM) e José Agripino (DEM-RN). Só este se reelegeu.

Aécio aceita prévias - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 20/08

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves, vai anunciar nos próximos dias, provavelmente amanhã, em reunião com dirigentes tucanos, que aceita disputar prévias para a indicação formal do candidato à Presidência da República do partido em 2014.

Aécio ressaltará em seu pronunciamento que sempre foi a favor de prévias, proposta que apresentou formalmente em 2009 ao PSDB, tendo sido rejeitada por José Serra, que acabou sendo o candidato à Presidência.

Virtual escolhido pelo consenso partidário desta vez, Aécio vem sendo desafiado pelo ex-governador José Serra, que insinua a disposição de se candidatar mais uma vez à Presidência em 2014, ao mesmo tempo em que deixa uma porta aberta para sair do PSDB até o início de outubro, para ter condições de se candidatar por outro partido, provavelmente o PPS.

A declaração de Aécio terá a capacidade de criar fato político importante no PSDB, retirando de Serra argumento forte para a saída do partido, ao mesmo tempo em que torna o ambiente partidário mais distendido.

Essa é justamente a intenção de Aécio, que não quer dar razões a Serra de deixar a legenda que agora preside, e continua achando que sua presença é importante para a unidade partidária durante a campanha.

O anúncio seria também uma maneira de homenagear a história política de Serra dentro do PSDB, reconhecendo seu direito de pleitear a indicação, mesmo depois de já ter sido candidato duas vezes.

O ex-governador não tem ainda uma decisão tomada, e trabalha com vários cenários, entre eles o de que nas próximas pesquisas pode aparecer mais firmemente na frente de Aécio, melhorando sua posição relativa dentro dessa corrida interna.

Serra acha que sua presença na corrida presidencial ajudará a oposição e levará a disputa para o segundo turno, mas os tucanos acreditam que uma divisão tão explícita em São Paulo só prejudicará o PSDB, podendo favorecer outros candidatos oposicionistas, como a ex-senadora Marina Silva ou o governador de Pernambuco, Eduardo Campos.

A realização de prévias teria a vantagem de colocar aos contendores um compromisso de apoio ao vencedor, o que consolidaria a unidade partidária em São Paulo, imprescindível para uma campanha com chances de vitória.

Aécio tem o controle do partido, costurado em muitas negociações internas, mas precisa ganhar SP. Ele tem uma série de viagens já marcadas pelo estado, e teria reunião com deputados estaduais nos próximos dias, dentro desse espírito de solidificar a unidade partidária.

Mesmo que não tenha o controle de diretórios, a resistência de Serra à candidatura de Aécio cria embaraços que dificultam um desenvolvimento natural das negociações internas com vistas à campanha.

Tanto Aécio quanto Serra desconfiam das intenções um do outro. Aécio acha que esse discurso sobre as prévias, muito mais que um anseio legítimo de disputar a indicação do PSDB, é a busca de um discurso para sair do partido.

Já Serra avalia que Aécio quer apenas obter o controle do PSDB e marcar posição na eleição de 2014, para melhorar a exposição nacional e disputar a eleição de 2018 com chances.

Mesmo que apareça na frente de Aécio nas pesquisas de opinião, com índices por volta de 15%, Serra teve uma queda considerável quando comparado à posição que tinha na mesma época em 2009, quando aparecia como favorito com índices entre 35% e 40%.

Já Aécio mantém-se mais ou menos no mesmo patamar, por volta de 13%, mas com um índice de rejeição bem menor do que o de Serra, o que indicaria que tem mais espaço para crescer. Espera que isso aconteça depois da próxima campanha de propaganda pela televisão, em outubro.

A soma dos dois candidatos indicaria também que o PSDB continua tendo um índice de votação potencial por volta de 30% no primeiro turno, o que torna seu candidato competitivo em qualquer circunstância.

O que pode fazer a diferença desta vez é o fato de os pré-candidatos oposicionistas - Aécio, Marina e Eduardo Campos - estarem mais próximos entre si do que em outras campanhas, quando os derrotados no primeiro turno recusaram-se a aderir ao candidato do PSDB, retornando para o bloco de apoio a Lula ou optando pela neutralidade, como fez Marina em 2010, o que beneficiou a candidatura oficial de Dilma.

Nos acordos partidários, a candidatura de Aécio Neves abre ao PSDB melhores perspectivas em 2014. E tanto para Marina quanto para Campos o apoio do PSDB, caso um dos dois chegue ao segundo turno, seria fundamental para derrotar Dilma.


A farra e depois - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 20/08

Esse tipo de manifestação sabe-se onde pode dar: se deixado a si mesmo, esgota-se na alegria de existir


A pergunta não silenciou, nem mesmo por cansaço de repetição. Quando não se insinua, está latente nas inevitáveis referências a tais ou quais ações chamadas, apesar de suas diferenças, de manifestações. E não é possível, mesmo, resposta abrangente para o que pode resultar da atual onda de atos com modos e feitos tão diferentes.

Muitas dessas manifestações parecem satisfazer-se no simples fato de acontecer. Outras pretendem justificar-se como reivindicações que independem de sua viabilidade, já a partir da insignificância do número de reivindicantes. Muitas por falta de sentido, reivindicando de um prefeito medidas que são do Estado, e vice-versa. Mas já dispomos de algumas indicações.

É o caso, por exemplo, de saudar-se a volta da prática de camping, em modalidade adaptada às circunstâncias e ainda que seus praticantes pensem fazer outra coisa. A tolerância que as polícias afinal adotaram nos pequenos aglomerados diante das casas de Sérgio Cabral, Renan Calheiros e vários outros deixou claro o sentido mais forte a motivar essas manifestações. A moçada está se divertindo, é uma ótima brincadeira, uma farra diferente.

Para tomar por todos, o grupinho em frente à casa de Cabral não espera que sua presença ali provoque renúncia, é claro. Mas diverte-se no próprio grupo, satisfaz-se em obturar o trânsito dia e noite, orgulha-se com as levas de curiosidade alheia à sua volta. O estrelato.

O velho camping extinto pelos assaltantes retorna em nova modalidade e, melhor, protegido pela polícia que faltou ao original. Esse tipo de manifestação sabe-se onde pode dar: se deixado a si mesmo pela tolerância policial, esgota-se na alegria de existir.

Do gênero oposto --o predador-- começa-se a dizer o necessário. Os direitos de terceiros e o patrimônio público têm que ser defendidos. Mas nem se está mais nesse nível de necessidade, apenas. A escalada da violência se expõe toda em fato que vim a saber depois de artigo sobre o ataque de baderneiros ao Hospital Sírio-Libanês: na ocasião, os atacantes quiseram até arrancar um doente de dentro de uma ambulância.

Deste outro tipo de alegadas manifestações convém prevenção dupla. Desde logo, para o alto risco da tragédia que não costuma faltar em situações semelhantes, com a morte estúpida. Policiais irascíveis ou atemorizados aumentam o risco, mas, além disso, também muitos outros são agredidos em violências iniciadas pelos arruaceiros. Como ação ou reação, o pior não está evitável.

Na imprensa, se ocorre algo errado e envolve polícia, estamos antecipadamente prontos para acusá-la, com acertos e com erros. Se a vocação da tragédia se confirmar em um dos confrontos desatinados, e seu risco é grande, um erro de acusações precipitadas tenderá a consequências complicadas. A sensibilidade da situação presente é grande.

Por isso mesmo, e ainda por mais, justifica-se a inquietação com o que anunciam, soturnamente, para o 7 de Setembro. Se for mera provocação, ao que muitos imaginam, ótimo. Mas os indícios dizem não ser essa a hipótese que deve ser trabalhada.

A hora dos ultimatos - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 20/08

Na seara política, assessores, ministros e fiéis escudeiros da presidente Dilma Rousseff não escondem mais o desconforto em relação ao governador de Pernambuco, Eduardo Campos. No Planalto, há inclusive quem diga que está cada vez mais constrangedor o governador tratar abertamente de palanques nos estados e, ao mesmo tempo, ocupar o Ministério da Integração Nacional. A ideia de alguns é que, em setembro, ou seja, daqui a duas semanas, haja um ultimato ao governador: se for para apoiar a presidente, ótimo, que continue tudo como está. Se for para seguir em carreira solo, a porta de saída está aberta.

Alguns ministros têm dito que a Integração é área nobre, de ampla visibilidade política. Portanto, deixá-la amarrada ao PSB, que tem pré-candidato ao Planalto, não ajuda em nada a presidente Dilma. A não ser que o PSB abandonasse o projeto de carreira solo ou o ministro Fernando Bezerra Coelho mudasse de partido. Hoje, as duas hipóteses são descartadas pelos assessores de Dilma. Logo, chegou a hora de entregar a Integração a alguém “integrado” ao projeto de 2014.

Nessa perspectiva, há duas hipóteses para a Integração. A primeira delas é oferecer ao PSD, do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab. Seria a forma de colocar os pessedistas ainda mais próximos da presidente. Se não houver um acordo com o PSD, o cargo pode ser aproveitado para amarrar ainda mais o PMDB ao governo. A convenção que decidirá sobre a aliança entre PT e PMDB vira cada vez mais uma conta de chegada. Sem resolver estados importantes, Temer não terá como garantir uma convenção tranquila. E foi exatamente isso o que foi dito aos petistas na reunião de ontem à noite.

Da mesma forma que o governo dá um ultimato ao PSB, o PMDB ensaia algo parecido para apresentar aos petistas. Embora estejam cheios de dedos para dizer as coisas nas reuniões, os peemedebistas listam sete estados como prioritários para dar tranquilidade na convenção que escolherá Temer como candidato a vice-presidente na chapa de Dilma: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Paraíba, Pará, Rio Grande do Sul e Paraná. O Rio Grande do Sul não tem acordo, é cada um por si. Em Minas Gerais, a bancada estadual é Aécio e a federal está disposta a seguir o mesmo caminho.
Nos demais estados, a situação também não é nada tranquila. Rio de Janeiro, por exemplo, além do senador Lindbergh Farias, do PT, aparecer cada vez mais como pré-candidato de forma a tornar mais difícil um recuo, há ainda o fator Anthony Garotinho. No Congresso, Garotinho tem sido uma espécie de porta-voz da ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti. Para completar, ele acaba de atrair Romário, que deixou o PSB para se filiar ao PR e concorrer ao Senado. Juntos, Romário e Garotinho podem dar dor de cabeça tanto ao PT quanto ao PMDB, e ainda pedir à presidente-candidata, Dilma Rousseff, que fique neutra na disputa estadual. Por essa, nem Lula esperava. E olha que a temporada mais intensa do troca-troca de partido está apenas começando — os candidatos às eleições de 2014 têm até 4 de outubro, um ano antes do pleito, para definir a filiação partidária.

Por falar em Lula…
Da mesma forma que atraiu o PMDB e o PT para uma conversa no sentido de organizar os palanques de Dilma nos estados, o ex-presidente é convocado agora para rodada de conversas com empresários. Ele foi procurado por representantes de alguns setores com reclamações a respeito do estilo de Dilma e da interferência direta do governo em negócios em que o setor público não deveria dar palpites. Com uma conversa bem franca, coisa rara entre os políticos, os empresários têm dito que ou Dilma muda ou não vão se comprometer com a reeleição.

Essas ações transformaram Lula em uma espécie de embaixador, encarregado de dar um ar mais diplomático aos ultimatos que surgem por toda parte nesse período pré-eleitoral. Afinal, já está claro no PT que a candidata é Dilma e, ao ex-presidente, cabe ajudar a limpar o terreno com punhos de renda. É isso o que ele tem feito e é o que fará até 2014. Ninguém hoje tem dúvidas de que ele é o verdadeiro coordenador da campanha de Dilma, embora oficialmente, o cargo termine ficando nas mãos de alguém que possa ser responsabilizado caso algo dê errado. Afinal, da mesma forma que os partidos brigam sempre com Ideli Salvatti ou Guido Mantega (nunca diretamente com Dilma), ninguém vai encarar uma disputa política com Lula. A não ser, óbvio, a oposição.

Enquanto isso, no Congresso…
Faltam 11 dias para o orçamento de 2014 chegar ao Congresso e até agora os deputados e senadores não apreciaram a Lei de Diretrizes Orçamentárias, que deveria ter sido aprovada até 30 de junho. Antes de querer tornar o orçamento impositivo, seria de bom tom os congressistas votarem a LDO, base para elaborar o orçamento anual.

A desordem como profissão - MIRO TEIXEIRA

O GLOBO - 20/08

As gangues que se infiltram nas saudáveis manifestações populares, para desqualificá- las, quase sempre trazem os rostos encobertos e espalham o medo ao incendiar, saquear e depredar o patrimônio das pessoas, equipamentos públicos pagos pelos impostos de todos nós e empreendimentos privados, além de semear a dúvida em novos investidores que trazem empregos e buscam lucro e paz.

Não sei o que pretendem, mas dá para ver o que conseguiram. O apoio de oitenta por cento da população aos protestos já tem espaço para o debate entre o exercício do direito de expressão nas ruas e o direito de ir e vir de outras pessoas que descrevem transtornos provocados pelos acontecimentos.

As reações se confundem ao misturar os protestos contra a falta de compostura de políticos, com o vandalismo que surfou no asfalto ao lado do cinismo de posicionamentos demagógicos assumidos como resposta à "voz das ruas".

Para separar as coisas, os protestos que reclamam em favor dos valores da República devem continuar, o direito de ir e vir deve ser assegurado e os vândalos devem ser reprimidos, presos e processados.

No ataque a pessoas indefesas, não temos vândalos. Temos simplesmente bandidos, a serviço de algo que não está desvendado e que precisa sê-lo. Parecem constituir uma espécie de milícia política, para neutralizar a simpatia popular pelas manifestações do Brasil 2013.

O vulto dos protestos tornou-se incômodo para autoridades e a ação dos delinquentes veio a calhar, paralisando-os pelo medo que estabelece alianças do povo com o poder, em nome da ordem, coisa do tipo "ruim comigo, pior sem mim". Mas isso passa.

Quando o sentimento pela democratização do Brasil ganhou a população, os radicais da ditadura planejaram um atentado que mataria centenas de pessoas no show de 1º de maio de 1981, no Riocentro, Rio de Janeiro. Aos comunistas seria atribuída a sabotagem, fracassada pela explosão de uma bomba no colo dos agentes encarregados de executá-la.

Dois anos depois, milhões de pessoas foram às ruas, na campanha pela eleição direta dos presidentes da República e militantes partidários, munidos de rádios, procuravam identificar provocadores infiltrados e isolá-los, com a colaboração maciça dos verdadeiros manifestantes. A ditadura caiu.

Com as tecnologias atuais, aos manifestantes torna-se mais fácil isolar os delinquentes, sem prejuízo do livre debate sobre o direito de ir e vir dos não manifestantes. Riocentro nunca mais.

Domar o Leviatã - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 20/08

SÃO PAULO - É evidente que nações como os EUA e o Reino Unido têm não apenas o direito como também o dever de combater o terrorismo. É igualmente certo que a inteligência é o melhor caminho para fazê-lo. Entre a CIA e a NSA agindo nas sombras e os marines marchando conspicuamente sobre Bagdá, fico com a primeira opção sem pestanejar.

Isto esclarecido, manifesto meu irrestrito apoio a Edward Snowden e, por extensão, a Glenn Greenwald e ao brasileiro David Miranda. A contradição entre o primeiro e o segundo parágrafos é apenas aparente.

O advento do Estado, com sua polícia, Poder Judiciário e agências de segurança, ao prevenir e disciplinar os zilhões de conflitos interpessoais que ocorrem todos os dias em qualquer área um pouco mais povoada, foi a invenção que mais contribuiu para domesticar a barbárie entre os homens. Mas a segunda invenção que mais ajudou a reduzir a violência foram os mecanismos de controle que visam a impedir que o Estado se volte contra os cidadãos.

Assim, mesmo sem aceder à crença ingênua de que leis internacionais, tratados de amizade e ações individuais como a de Snowden poderão um dia pôr fim à espionagem, devemos apoiar tudo aquilo que concorra para manter o Leviatã estatal sob rédeas tão curtas quanto possível. Divulgar seus excessos, como o fez o ex-agente da CIA é um bom começo. Idem para tentar provocar uma reação concertada da comunidade internacional, ainda que haja algo de irremediavelmente hipócrita em ver Rússia e Equador posando de paladinos da liberdade de imprensa.

A detenção de David Miranda por autoridades britânicas, num exercício explícito de "bullying" --e contra alguém que, em princípio, não tem nada a ver com a história--, prova quão necessário é impor freios e contrapesos à mão pesada do Estado.

Espera-se que o governo Dilma Rousseff reaja com um pouco mais de firmeza do que mostrou até aqui.

Chico Bento e a imagem do campo - XICO GAZIANO

O Estado de S.Paulo - 20/08

Terminou com farol baixo o Congresso Brasileiro do Agronegócio, realizado recentemente na capital paulista. Seus participantes ficaram com a impressão de estar discutindo os mesmos problemas há anos, sem avanço na agenda. Percebem o enfraquecimento do Ministério da Agricultura. Parece até que a agricultura não tem importância na vida nacional.

Essa frustração pega longe. Nas fronteiras do Centro-Oeste, onde mais brilha a produção agropecuária, os produtores rurais não conseguem entender por que razão as ferrovias, hidrovias e rodovias nunca saem do papel. Estatísticas são conhecidas e consequências, avalizadas: sem boa logística os ganhos de produtividade dentro da porteira se esvaem pelos tortuosos e esburacados caminhos pós-colheita. Fora os discursos, nada acontece.

Assim como não anda, ao contrário, regride, a agricultura energética. Avançam as energias renováveis em todo o mundo, com decidido apoio público; por aqui, no país campeão mundial da fotossíntese, se estimulam os combustíveis fósseis. Mata-se o etanol, nossa "galinha dos ovos de ouro". Nos grãos, anuncia-se com estardalhaço crédito farto para o plantio, mas o seguro rural continua fora do jogo. Resultado: mais endividamento, menos garantia na renda agrícola.

A pesquisa com biotecnologia, que deveria deslanchar, encontra-se freada no acesso aos recursos genéticos da biodiversidade. Problemas variados. Fiscais do trabalho enxergam escravos onde bem entendem. Indígenas aculturados, apoiados pelo governo, tornam-se invasores de terras lavoradas, enquanto verdadeiros índios, abandonados pelo mesmo governo, desfalecem nas aldeias. Aumenta a insegurança jurídica da propriedade rural.

Se não fosse a pujança do campo, a economia brasileira estaria bem pior. No primeiro trimestre de 2013 o setor rural cresceu 9,7%; os serviços, 0,5%; e a indústria mostrou queda de 0,3%. A balança comercial do agronegócio no ano passado apresentou um superávit de US$ 79,4 bilhões, no mesmo período a indústria registrou déficit de US$ 94,9 bilhões. Quer dizer, os agronegócios pagam as contas externas do País. Em retribuição, migalhas.

Na geração de empregos, cerca de 15 milhões de pessoas trabalham nas atividades agrícolas, quase 20% da população economicamente ativa (PEA). Para comparação, nos EUA apenas 2,7% da PEA milita no agro. Embora o avanço da tecnologia, principalmente a mecanização, poupe emprego, a demanda por gente qualificada segue firme, principalmente nas recentes zonas de expansão agropecuária, onde faltam tratoristas, mecânicos, serviçais variados. Existe um verdadeiro "apagão de mão de obra".

Por que a agricultura brasileira, sendo tão importante, recebe pouca atenção da sociedade? Por que a política pública desmerece o campo? As respostas devem ser buscadas em sua representação simbólica: a imagem. Aqui reside o xis da questão. Na Europa e nos EUA a sociedade olha o campo de forma positiva, sabendo que sua permanência na terra propicia a segurança alimentar. Ademais, manter a população no campo significa menos disputa pelo emprego na cidade.

No Brasil, infelizmente, ao invés de valorizar, a urbe desdenha o campo. Em que pese a modernidade ter avançado, a opinião pública nacional ainda mantém uma imagem atrasada, quase sempre negativa, do mundo rural. Que razões levam a sociedade brasileira a menosprezar, a quase esquecer sua agricultura? Por que, ao contrário dos países desenvolvidos, nosso setor rural se encontra tão estigmatizado?

Difíceis são as respostas. Primeiro, a ocupação histórica. O Brasil iniciou sua agricultura com base no latifúndio e na escravidão. Os coronéis do sertão e, depois, a oligarquia agrária formaram um contraste marcante da opulência com a miséria rural. Mais tarde, já nos anos 1950, ao latifúndio, juntamente com o imperialismo, se imputou todo o mal que freava o progresso da Nação. Essa carga histórica, e ideológica, pejorativa permanece até hoje na consciência coletiva, sendo cultivada nos rançosos livros escolares. A imagem repudiada de outrora ofusca o brilho do presente.

Envolve, também, razões culturais. O Brasil rapidamente transitou de sociedade agrária para industrializada. O violento êxodo rural inchou as cidades. Novos valores, urbanos, passaram a predominar fortemente, sem tempo para acomodações. Resultado: a agricultura virou sinônimo de passado. Os famosos filmes de Mazzaropi, a começar do impiedoso Jeca Tatu (1959), ajudaram a substituir a imagem bucólica pelo preconceito.

No ambientalismo também se encontram justificativas. O Brasil ainda incorpora fronteiras agrícolas - e, portanto, derruba florestas e cerrados - numa época em que a consciência ecológica domina a elite da civilização pós-industrial. Antes, desmatar era sinônimo de progresso; agora, de destruição. Para não falar do uso descuidado de agrotóxicos, que macula a estampa da agricultura.

Como mudar essa situação? Como mostrar à sociedade que a agricultura não é problema, e sim solução para o Brasil?

O desafio passa pela melhoria da comunicação. Mas, com ela, deve-se implementar a lição de casa, e esta atende pelo nome de "agricultura sustentável". Mais, ainda: o ruralismo precisa renovar suas lideranças para se conectar com a juventude, trocar o discurso tradicional, chorão, pela atitude proativa. Investir no marketing para fortalecer sua posição na sociedade.

Maurício de Souza anunciou recentemente que Chico Bento vai estudar Agronomia. Que legal! Tomara que a inspiração dos quadrinhos traga uma mensagem positiva sobre nossa agricultura. Pode manter o sotaque puxado. Não pode discriminar.

Vergonha nacional - LUIZ GARCIA

O GLOBO - 20/08

Em geral, define-se uma democracia pela mais simples e óbvia de suas características: a possibilidade de acesso ao poder de todos os cidadãos e cidadãs, seja qual for a cor de sua pele — e desde que não tenham dívidas a pagar com os tribunais do país.

O mesmo critério se aplica ao acesso ao mercado de trabalho, com mais uma condição lógica: a eficiência no exercício da profissão que os cidadãos escolherem. No Brasil de hoje, no entanto, números oficiais mostram que o mercado obedece a exigências que ferem essas normas. O Dieese, que estuda essa área, informa que o mercado tem exigências — obviamente informais e não confessadas — que favorecem homens e brancos, e discriminam mulheres e negros.

Segundo o IBGE, o mercado de trabalho do país viveu até agora bom momento: as taxas de desemprego têm sido as menores da história: algo em torno de 6%. Mas outros ventos têm soprado e a economia começa a viver uma fase difícil. Aumenta o número de desempregados — e, entre eles, a maioria é de negros e mulheres.

Entende-se que, quando a economia não anda muito saudável, diminua a quantidade de empregos disponíveis. E obviamente os candidatos mais qualificados consigam ser contratados antes daqueles que passaram menos tempos nas salas de aula, em todos os níveis. Mas preocupa e envergonha o fato de que candidatos com melhor formação escolar sejam homens e brancos.

Não é uma questão de preconceito contra mulheres e negros — e sim consequência natural, embora cruel, de dois problemas históricos: a escravidão e o machismo. A nação começou a existir com mulheres cuidando da cozinha e das crianças — e sempre longe na biblioteca — e negros na senzala.

Não há mais senzalas, nem sobrevive (pelo menos em tese) a ideia de que o lugar da mulher é na cozinha ou cuidando das crianças.

E é com desagradável surpresa, portanto, que descobrimos a realidade: mulheres e negros são maioria entre os cidadãos desempregados. Pior: são também maioria entre os brasileiros que buscam emprego há mais de um ano. Mesmo agora, quando está caindo a taxa geral de desemprego no país.

Diversos fatores podem ter produzido esse fenômeno. Mas não dá para negar: este paraíso da cordialidade e da boa vontade ainda não conseguiu se livrar do demônio do preconceito. É uma vergonha nacional.

Depressão e autenticidade - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 20/08

Um estudo publicado no "Journal of Clinical Psychology" afirma que em torno de 20% das mães terão um episódio depressivo nos primeiros três meses após o parto, sendo que 7,1% terão um episódio grave. Ou seja, uma em cada cinco mulheres passará por depressão ao tornar-se mãe.

Esse número extremamente alto deveria nos levar a perguntar sobre o tipo de fenômeno que tal sofrimento psíquico expressa. Talvez exista algo nesses episódios depressivos que diga muito a respeito não apenas de situações patológicas específicas, mas da experiência social da maternidade enquanto tal, principalmente em nossa época.

Ao menos desde sociólogos como Max Weber e Émile Durkheim, tendemos a nos ver como sujeitos de sociedades nas quais a autoridade tradicional, com seus modelos tipificados de comportamento e julgamento, sofre processo contínuo de erosão.

A radicalização desse movimento teria levado sujeitos a se sentirem em situações extremamente angustiantes quando precisam assumir papéis nos quais novos afetos aparecem. Como a transmissão tipificada de modelos é questionada, uma mulher não sabe se deve repetir o padrão de maternidade que encontrou em sua própria mãe, nem sabe até que ponto deve acreditar no discurso impessoal de especialistas.

Talvez, no entanto, tal questionamento sobre as normas a seguir seja vivenciado de maneira depressiva porque nosso imaginário social de maternidade não prepara as mulheres para situações nas quais ela descobrirá afetos contraditórios que a acompanharão para sempre. Situações em que ela precisará cuidar de uma criança cujo desejo ela nunca compreende- rá completamente.

Em um contexto social submetido à tradição, você sabe o que deve fazer e age independentemente do seu sentimento do momento. Há um preço a pagar por isso, pois é permitido agir sem autenticidade. Mas, em um contexto de erosão das autoridades tradicionais, o discurso social dirá o seguinte (e isso pode ser tão violento quanto submeter-se à tradição): "Principalmente, siga seus sentimentos com autenticidade e você será uma mãe suficientemente boa".

Como somos cada vez menos preparados a lidar com sentimentos ambíguos e ambivalentes, a sensação depressiva de que nunca uma mulher será uma mãe suficientemente boa sobe à cena.

Nesse sentido, talvez não levaríamos tantas mães à depressão se entendêssemos como a exigência social de autenticidade pode se transformar em uma forma de submissão a uma imagem inatingível, que só terá por função desqualificar a maneira concreta como lidamos com o que não sabemos como lidar.

O atraso não é destino - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 20/08


Longas décadas de maus governos, inchaço da máquina pública, desperdício de dinheiro em privilégios do funcionalismo e corrupção crônica cobram seu preço


Até o início dos anos 90, o Brasil era visto pelo mundo como um país rico em recursos naturais, mas condenado ao atraso econômico e social. A pobreza sempre foi grande, os níveis educacionais considerados sofríveis, a violência urbana parecia não ter fim, a inflação parecia incurável, com leis complexas e instáveis, a Justiça funcionava mal e os governos locais eram conhecidos pela corrupção e ineficiência. Em certa medida, essa é a imagem que até hoje o noticiário internacional mostra sobre o Brasil.

Em 1989, após 28 anos sem eleições diretas, o país elegeu um presidente civil, e o que parecia ser o começo de um tempo de redemocratização e prosperidade econômica revelou-se um período traumático na história nacional. A hiperinflação seguiu renitente, a corrupção explodiu e o presidente foi deposto em 1992 após tumultuado processo de impeachment. O Brasil parecia destinado a não ter solução e seguir vivendo na pobreza e na instabilidade.

Em 1994, a realidade começou a mudar para melhor quando foi implantado o Plano Real e o país conseguiu debelar a inflação crônica. A redemocratização começou a se consolidar e foi dada a largada para um período de recuperação. O governo Fernando Henrique conseguiu a primeira grande vitória ao dar fim à inflação, fez importantes reformas e entregou o país ao sucessor em condições favoráveis para crescer.

Lula assumiu em 2003, desfez o medo de que seu governo pudesse dar uma guinada radical à esquerda, manteve as bases da política econômica, abandonou as teses socialistas do PT e conseguiu manter a estabilidade monetária. Com isso, o país aproveitou a boa situação internacional e a sequência de oito anos de elevação dos preços dos produtos exportados, melhorou significativamente as contas externas e promoveu políticas sociais de redistribuição de renda. O governo Lula teve sucesso na política de reduzir a desigualdade entre os mais pobres e as camadas superiores, cujo símbolo maior é o programa Bolsa Família.

A conjunção desses fatores levou o Brasil a obter melhorias internas tanto na economia quanto no desenvolvimento social, além de conseguir melhorar sua imagem internacional, a ponto de ser louvado como um dos promissores países dos Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Batizado como emergente, o país passou a atrair investidores internacionais e a receber demonstrações de confiança do mundo em suas regras e suas instituições. Parecia ter chegado a hora de um crescimento contínuo e sustentável, capaz de alçar o país ao clube dos desenvolvidos.

Todavia, em apenas três anos, aquilo que parecia um destino glorioso começou a apresentar sérios furos, sobretudo na estrutura econômica, culminando com as violentas manifestações deste ano. O mundo começou a perguntar o que, afinal, estava acontecendo com o país e a desconfiar de que toda aquela evolução era pura cortina de fumaça a esconder a histórica sina de atraso e subdesenvolvimento. Analistas estrangeiros voltaram a dizer que o Brasil é o país das eternas promessas, incapaz de usar suas imensas riquezas naturais para sair do atraso e se transformar em nação desenvolvida.

Embora possa haver exagero no pessimismo atual, tanto interno quanto externo – como também havia exagero na euforia e no ufanismo tão cultivados por Lula para glorificar a si e a seu governo –, o noticiário internacional sobre o Brasil é dominado por péssimas notícias sobre a política, a economia, a corrupção e a violência urbana. Tantas décadas de construção de imagem altamente negativa do país no exterior só poderiam resultar em fuga de turistas e de investidores, como se vê pelas estatísticas oficiais publicadas.

O atraso não é destino; é obra de longas décadas de maus governos, inchaço da máquina pública, desperdício de dinheiro em privilégios do funcionalismo, corrupção crônica no governo, incapacidade de fazer reformas, leis ruins e instáveis, baixo investimento em infraestrutura física (que é basicamente estatal) e lento crescimento da produtividade econômica. Essas são doenças que a sociedade brasileira tem de enfrentar. O país tem chance de frear a deterioração da economia e das instituições. Mas é preciso começar a agir agora, se não quiser, de novo, perder o bonde da história.

Via dupla no combate à corrupção - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 20/08

Ministro Luís Roberto Barroso acha que reforma política é mais eficaz do que punição, mas, na verdade, as duas coisas podem, e devem, ser feitas ao mesmo tempo



O julgamento do mensalão não para de gerar tensões. Quando se esperava que a avaliação dos embargos de declaração, em que parece haver grande maioria pela sua rejeição, transcorreria com rapidez e objetividade, mais um choque entre os ministros Joaquim Barbosa, presidente da Corte e relator do processo, e Ricardo Lewandowski, revisor do caso, restabeleceu a atmosfera pesada que pairou sobre algumas das 49 sessões do julgamento propriamente dito. E voltou-se a correr o risco de novas protelações.

Pela importância para as próprias instituições da democracia representativa, o julgamento potencializa atitudes e declarações. No caso das pendências entre Barbosa e Lewandowski, espera-se que a rusga não retarde ainda mais os trabalhos. Nesta fase de julgamento de recursos, em que o grande destaque será a decisão sobre a possibilidade de impetração de embargos infringentes, capazes de permitir novo julgamento a quem teve pelo menos quatro votos a favor, acompanha-se com atenção o comportamento dos dois novos ministros da Corte, Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso.

Ao estrear na Corte, Barroso, conhecido pelo saber jurídico, fez uma avaliação do caso na qual procurou levar para o plano institucional o escândalo do mensalão, marcado para sempre na história do PT. Entende o novo ministro do STF que “não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção”.

De fato, embora haja custos específicos para cada corrente política pilhada em “malfeitos”. Pela visão mais institucional do ministro, a solução eficaz contra a corrupção na vida pública será uma reforma política, em vez de cadeia e outras punições legais. A tese não é nova e, reconheça-se, aborda aspecto relevante do problema. Há distorções — mas nem tantas assim — na legislação à qual se subordinam partidos e políticos que, eliminadas, facilitarão o combate a desvios éticos contumazes na política nacional.

Havia, por exemplo, grave brecha no aparato legal de que dispõe a Justiça Eleitoral para defender os preceitos de lisura, honestidade, estabelecidos pela Constituição para o ingresso na vida pública. A Lei da Ficha Limpa, de origem popular, veio impedir que condenados sem o veredicto confirmado em instância final continuassem, em nome da “presunção da inocência”, a registrar suas candidaturas e se proteger da polícia com o escudo das imunidades concedidas a donos de cargos eletivos.

Mas, independentemente de reformas políticas, a Justiça tem importante função no combate aos crimes de colarinho branco cometidos na esfera da política: a de punir. Assim, as diversas Cortes do Judiciário contribuem para a moralização na esfera pública ao reduzir o sentimento de impunidade existente na sociedade e dentro do Estado.

Uma coisa não elimina a outra: reformar leis enquanto se despacha para a cadeia quem merece, com a base na legislação em vigor.

Cenário perigoso - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 20/08


Disparada do dólar agrava risco de inflação e ameaça bandeira dos juros baixos; condução da economia torna-se ainda mais difícil


Por dever de ofício, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou na semana passada que não têm fundamento as análises pessimistas a respeito do crescimento da economia brasileira.

Não se exclui, é claro, que o ministro de fato acredite no que diz. Ele tem razão, por exemplo, ao lembrar que a inflação está em queda --ao menos por ora-- e ao depositar alguma esperança nas licitações de obras de infraestrutura, neste segundo semestre.

A realidade, porém, se mostra mais complexa --a começar pelo câmbio. Apesar das intervenções do Banco Central, o dólar disparou nas últimas semanas e, ontem, fechou o dia acima de R$ 2,40.

Verdade que a valorização da moeda americana é um fenômeno global. Mas sua intensidade no Brasil tem sido maior que a média.

Uma das consequências para o país é o agravamento do risco inflacionário. Com o dólar mais caro, aumentam os custos das empresas que utilizam insumos importados, e repasses ao consumidor tendem a ser inevitáveis. Estima-se que, com a atual cotação, a inflação possa subir de 6,27% (acumulada em 12 meses) para até 7%.

A desvalorização do real também impõe prejuízos bilionários à Petrobras --a estatal importa combustíveis e os revende a um preço inferior, sob controle do governo. A empresa clama por um reajuste para não inviabilizar planos de investimento, mas cada 10% de aumento na gasolina eleva o IPCA em meio ponto percentual.

Há também o represamento das tarifas de transporte e energia. A falta de planejamento do governo desorganizou a área elétrica. Esgotaram-se os recursos de fundos setoriais e será inevitável um repasse ao consumidor.

Fica claro que o trabalho de combate à inflação do BC não é facilitado pelo governo. Não por acaso, os juros no mercado só fazem subir, a despeito do crescimento pífio da economia e da grande probabilidade de alta no desemprego.

O mercado financeiro já projeta juros de 10% ao final deste ano e acima de 12% a longo prazo. Começa a desbotar outra das sonhadas bandeiras do governo --a dos juros baixos. Questiona-se, assim, se o crescimento de 2014 será mesmo maior que o deste ano.

O acúmulo de decisões voluntaristas e inconsistentes cobra sua fatura. O ambiente externo mais adverso é apenas o estopim.

Ainda não chega a ser o caso de falar em crise, pois há margem de manobra --do lado fiscal, por exemplo, há o que fazer para restaurar um semblante de seriedade.

Não se pode ignorar, contudo, que certas crises demoram a chegar, mas atingem com mais força aqueles que não se preparam para seus efeitos. E o governo Dilma Rousseff não parece ter-se dado conta de que as dificuldades se avolumam.

O trabalho e o novo Brasil - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 20/08
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) representou enorme avanço ao ser criada por decreto do presidente Getúlio Vargas em 1943. O Brasil, que se esforçava para trilhar o caminho da industrialização, possuía na época grande emaranhado de normas para disciplinar as relações entre patrões e empregados. O novo arcabouço legal trouxe simplicidade, reduzindo em 90% o número de artigos sobre o tema ao mesmo tempo em que ampliou as garantias dos assalariados.
Houve muitos avanços no país nas sete décadas seguintes, como resultado da lei original e de vários aprimoramentos. A população passou, progressivamente, a ver como direito o que antes era privilégio: carteira assinada, intervalo para almoço, descanso semanal remunerado, férias, 13º salário, fundo de garantia, aviso prévio e multa por demissão sem justa causa.

As transformações do país, de modo mais amplo, também foram significativas. A agricultura foi superada pela indústria como a grande empregadora. Com a crescente urbanização, as vagas passaram a vir do setor de serviços. À medida que a economia se tornou mais complexa, as relações profissionais evoluíram para um conjunto mais diverso. Trabalhar hoje não vai além dos registros de ponto na entrada e na saída. Com celulares, computadores pessoais e internet, o escritório está no bolso, no carro e em casa.

Por mais que a CLT tenha sido alterada, empregadores argumentam que a lei permanece defasada para o ambiente profissional moderno. O defeito fundamental está no fato de considerar todos os trabalhadores pessoas que dependem da tutela do Estado para se defender. Eles propõem que se possam negociar acertos mais flexíveis, ao menos para as categorias que contam com sindicatos fortes.

Acordos poderiam levar, por exemplo, à negociação do intervalo de almoço e à autorização de trabalhadores com mais de 50 anos a dividir as férias. Para executivos, com cargos de alta responsabilidade, ausentar-se 30 dias da empresa causa mais ansiedade do que descanso. Com mais liberdade, os funcionários ficariam mais satisfeitos, e as empresas, mais competitivas.

Para os defensores da legislação trabalhista atual, o Brasil continua país de fortes contrastes. Setores muito avançados convivem com outros nos quais a simples adoção da CLT constitui avanço significativo. Outro argumento é que as novas tecnologias da informação, em muitos casos, exigem preocupação maior para resguardar o trabalhador. Do contrário, corre-se risco de retrocesso em direitos fundamentais de lazer e descanso.

A intensidade do debate demonstra, sobretudo, os avanços do país. Não somos mais nação essencialmente agrária, tampouco ditadura em que se possam resolver divergências por decreto. Nossa estrutura produtiva se tornou mais sofisticada, ao mesmo tempo em que os brasileiros conquistaram patamar de participação do qual não aceitam abrir mão. É quadro que torna as transformações mais difíceis de serem discutidas e aprovadas. Mas também reforça a tendência de que as mudanças levem em conta o desenvolvimento de forma plena - nas dimensões econômica, política e social.

Sob desconfiança - EDITORIAL ZERO HORA

ZERO HORA - 20/08

Os sinais sustentados de recuperação da economia dos Estados Unidos e a possibilidade de que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) comece a reduzir ainda este ano as políticas de estímulo à atividade produtiva provoca efeitos avassaladores nos mercados do mundo inteiro. Desde 2008, no início da chamada Grande Recessão, o Fed fez sucessivos programas de estímulo monetário que hoje significam a recompra mensal de cerca de US$ 85 bilhões (hoje, o equivalente a R$ 190 bilhões) em títulos do Tesouro. Essa é uma maneira de injetar dólares no mercado, forçando a queda da taxa de juro, que ficou próxima de zero, aquecendo a atividade econômica. O efeito colateral dessa política é a migração de capitais para os mercados emergentes, entre eles o do Brasil, que oferece uma das mais altas taxas de juros do mundo.
Com a expansão do PIB no segundo trimestre acima do previsto (1,7%) e o menor índice de desemprego nos últimos quatro anos, os EUA ensaiam frear a compra de títulos. Com menos dólares no mercado e uma perspectiva de alta, a taxa de juro volta a subir e o mercado americano torna-se mais atraente que os emergentes. Na Índia, o governo adotou uma política de controle de capitais para frear a desvalorização de sua moeda frente ao dólar e deter a fuga de investimentos. No Brasil, o dólar já acumula valorização superior a 18% frente ao real e encosta no patamar de R$ 2,40.
Diante desse cenário, somado ao baixo crescimento da economia e à falta de confiança dos investidores na política econômica do governo, o Brasil enfrenta um momento desafiador, que exige decisões rápidas. Nos últimos meses, o governo adotou medidas pontuais para conter a valorização da moeda americana, entre as quais a venda de dólares no mercado futuro e a retirada do deposito compulsório no Banco Central para operações de financiamento de antecipações de pagamentos de exportações. Mesmo assim, o país está perdendo posições no ranking econômico global e pode ser ultrapassado pela Rússia já no próximo ano.
Em momentos como o atual, não se pode prescindir de uma condução firme e segura da economia por parte da presidente Dilma Rousseff e do ministro da Fazenda, Guido Mantega. De nada adiantam as declarações tantas vezes reiteradas de que a desconfiança do mercado é exagerada. Está mais do que claro que medidas pontuais de ampliação do crédito e estímulo ao consumo não têm o condão de reverter tendências que, além de tudo, originam-se no cenário global. Não haverá melhoria de performance apenas porque o Palácio do Planalto assim o deseja. Pelo contrário: o clima de pessimismo contagia consumidores e investidores e freia a economia. Por isso, é mais do que urgente, por parte das autoridades, a adoção de uma nova inflexão, responsável e equilibrada, na política econômica, a fim de que se evite um ponto no qual qualquer ação pode se revelar excessivamente tardia.

Política e transporte - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 20/08
Tudo indica que o estardalhaço que a Prefeitura vem fazendo em torno da implantação de faixas exclusivas para ônibus na capital paulista pode render dividendos políticos, ao menos num primeiro momento, mas muito dificilmente as faixas conseguirão ter algum efeito positivo e duradouro no sistema de transporte público. A continuar as coisas como estão - isto é, as tai cas como medida isolada - têm tudo para ser tão somente uma hábil jogada de marketing eleitoral, seguida de frustração.
Uma análise serena da questão, que considere apenas os seus aspectos técnicos, deixa claro o pouco alcance da medida. Foi o que fez um reconhecido especialista na matéria, Sérgio Ejzenberg, em artigo publicado no Estado (14/8). Ele resumiu tudo, e tão bem, em poucas palavras, que seus argumentos merecem alguns comentários e, principalmente, a atenção de todos os que se interessam pelo assunto, por uma razão ou outra - das autoridades aos usuários dos vários meios de transporte público de São Paulo, passando pelos que utilizam carros para seus deslocamentos.

Ele adverte, antes de mais nada, que dar prioridade ao transporte público - uma coisa da qual ninguém discorda - não significa que se deve "desestruturar o transporte por automóvel, responsável em São Paulo por nada menos do que milhões de deslocamentos por dia. Mais do que isso - pode-se acrescentar é preciso, tendo em vista sua importância expressa naquele número, dar-lhe muita atenção, expandindo o sistema viário. É o que sempre se fez naquelas grandes cidades dos países desenvolvidos que têm excelentes sistemas de transporte coletivo. Nao se pode desestimular o transporte individual antes de aumentar a capacidade do coletivo, afirma Ejzenberg.

Embora isso seja algo de elementar bom senso, o atual governo municipal vem .contrariando essa evidência. Tanto o prefeito Fernando Haddad como seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto, não perdem uma ocasião de encher o peito e dizer que seu governo privilegia o transporte público, como se todos os seus antecessores tivessem feito o contrário, o que não é verdade. Além disso, o governo do Estado, como é notório, tem feito nos últimos anos importantes investimentos na expansão e melhoria do sistema metroferroviário.

E o que fez até agora a Prefeitura para colocar em primeiro lugar o transporte público? Propôs a implantação de 150 km de corredores de ônibus até 2016 e de 220 km de faixas exclusivas para eles. Como estas são mais baratas e de execução rápida, viraram o xodó da Prefeitura. Já foram implantadas nas marginais e em avenidas importantes como a Paulista e a 23 de Maio. "Ao colocar faixas exclusivas, só e mais nada, a cidade conseguiu aumentar a velocidade da viagem de ônibus. Mas não aumentou a capacidade do sistema, Porque não aumentou o número de viagens, observa com razão Ejzenberg.

Esse é um ponto fundamental O resultado, diz ele, é que, se as pessoas que usam carro migrarem para o ônibus ou o metrô, "não haverá espaço para todas elas. No caso do ônibus, acrescentamos nós, pelas limitações apontadas das faixas e, no do metrô, porque ele já opera no limite de sua capacidade e não há mais o que fazer para aumentá-la a curto prazo; Mesmo se houvesse recursos em abundância - o que não é o caso - para investir em sua expansão, pelas suas próprias características a construção de novas linhas de metrô exige tempo.

"O que se vê agora em São Paulo é uma resposta extrema aos protestos de junho. Tudo porque se quer dar resposta política a um problema real e técnico. Essa é a conclusão irretocável de Ejzenberg.

Não fosse a sua intenção de tirar proveito político da questão, o governo municipal poderia aumentar o rendimento das faixas, mesmo considerando seu alcance limitado. Bastaria para isso aumentar a frota e promover a reordenação das linhas de ônibus, de modo a melhor atender ao interesse dos usuários e a tirar o máximo proveito de faixas como a da 23 de Maio, pela qual circulam poucos coletivos.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Tudo com nome francês, inglês e russo vai sair do cardápio”
Cid Gomes (PSB), governador do Ceará desistindo de quitutes com dinheiro público


CARTÕES CORPORATIVOS JÁ DEVORARAM R$ 26 MILHÕES

As despesas do governo Dilma Rousseff com cartões corporativos, em 2013, já chegaram a R$ 26 milhões até o fim de julho. A Presidência da República é a campeã de gastos, com R$ 7,7 milhões, mais que o dobro do segundo lugar, o Ministério da Justiça. Tudo “protegido por sigilo”, sob alegação de “garantir segurança da sociedade e do Estado”, segundo regra criada pelo ex-presidente Lula para não explicar gastos.

DESPESA MENSAL

Só no mês de julho, o governo torrou quase R$ 5 milhões com os cartões. Em junho, o total da conta já somava R$ 21 milhões.

BEM LONGE

Somados, os ministérios da Previdência Social, Cidades, Cultura, Comunicações e Pesca gastaram R$ 325 mil com cartões em 2013.

PRIORIDADES

A Agência Brasileira de Inteligência usou cartões públicos para detonar R$ 4,2 milhões. A Secretaria de Aviação Civil gastou apenas 444 reais.

MANDOU BEM

A decisão da presidente Dilma de nomear Rodrigo Janot procurador-geral da República tem sido muito elogiada nos tribunais superiores.

DEPUTADOS TROCAM MARINA PELO PARTIDO DA FORÇA

Com o projeto de criação do partido Rede naufragando, aliados da ex-senadora Marina Silva têm procurado o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira (PDT-SP), para negociar adesão ao “Partido Solidariedade”, neste momento mais viável. Para os presidenciáveis Eduardo Campos (PSB-PE) e Aécio Neves (PSDB-MG), loucos por fatos novos na política, o novo partido vai atrair infiéis do governo Dilma.

SÓ O OURO

Na avaliação do PSB, se conseguir até trinta deputados, o Partido Solidariedade ganhará mais de dois minutos de tempo de TV em 2014.

SEM MARINA

Apesar de acolher “marineiros”, Paulinho da Força tem dito que jamais entregaria o novo partido a Marina: “Ela é grande demais pra nós...”.

SONHO MEU

O ex-governador tucano José Serra (SP) bem que tentou articular a criação do MD, fusão do PPS com o PMN. Foi por água abaixo.

VOU DE MOTO

Como o general João Figueiredo, que se divertia fugindo de moto para deixar atônita sua segurança, dias atrás Dilma tomou o capacete de um amigo motociclista, que a visitava, e por uma hora, incógnita, matou as saudades de moto passeando na Vila Planalto, perto do Alvorada.

AFINIDADE

A paixão por motos aproximou Dilma do governador de Alagoas, Teotonio Vilela (PSDB), que a convidou a fazer o que ele mais gosta: trilha. Vilela já percorreu dois terços do litoral brasileiro pela praia.

PATRIOTA, QUE VEXAME

Foi medrosa e pífia a nota do chanceler Antonio Patriota sobre a prisão abusiva do brasileiro David Miranda. Uma vingança covarde dos EUA, com a vassalagem da polícia britânica, contra seu companheiro Glenn Greenwald, o valente jornalista que revelou a espionagem americana.

IMPRESSÃO A OURO

No fundo do poço de sua credibilidade, a Câmara Legislativa do DF vai gastar R$ 334,7 mil em tinta para impressoras. Algo como 8.300 cartuchos em valores de mercado. Haja processos por falta de decoro.

MADEEEEIRA!

A Justiça do Rio decide nesta terça o destino de 2,3 milhões de metros quadrados de Mata Atlântica do ex-campo de tiro do Exército, que pode virar autódromo, sob protestos de ambientalistas e pesquisadores.

FUJA DA LOCAWEB

A Locaweb firma reputação de pior empresa de hospedagem de sites do país. As queixas vão de interrupção dos serviços a “instabilidade”, propaganda enganosa, suporte desleixado, suspeita de sabotagem etc. No fim de semana, a vítima da vez foi o site diariodopoder.com.br.

CRUZ, CREDO

Marco Feliciano (PSC-SP) pediu aos fiéis campanha para boicotar na net o vídeo Oh, meu Deus!, onde a atriz Clarice Falcão (“Porta dos Fundos”) conta “experiências místicas” em um consultório ginecológico.

INSANIDADE TEMPORÁRIA

Adorador de mordomias, o governador cearense Cid Gomes (PSB) reagiu mal ao ser pilhado no contrato de um bufê à base de lagostas, caviar etc. por conta do contribuinte: chamou de “demagogia” a crítica ao desperdício. Mas pelo menos recuou da loucura.

PENSANDO BEM...

...se Woody Allen aceitar o convite do prefeito para filmar no Rio de Janeiro, fará uma nova versão de Os trapaceiros.


PODER SEM PUDOR

JUAREZ DERRUBOU TÁVORA

Na campanha presidencial de 1955, Juarez Távora disputava com Juscelino Kubitscheck e ficou sem dinheiro. Pediu ajuda a Jânio Quadros, que promoveu uma reunião do candidato da UDN com empresários paulistas. Na reunião, Távora atacou, acusando os empresários de viverem à sombra do Estado e explorar os empregados. Saíram, um a um. Jânio desabafou:

- A partir de hoje, Juscelino vai engordar os cofres da campanha. E como!

Não deu outra. E JK venceu.

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Deu a louca no câmbio
- Folha: Haddad quer zerar tributo de empresa que for à zona leste
- Estadão: TCE quer declarar inidôneas empresas do cartel de trens
- Correio: Dólar atropela Tesouro, BC e eleva preço de voos
- Valor: Empresas criticam intervenção e falta de regras claras
- Estado de Minas: O lixo do luxo
- Jornal do Commercio: Retirada na área do desabamento
- Zero Hora: Santa Maria, 27/01/2013: MP pede revisão de alvarás simplificados
- Brasil Econômico: Empresas preferem aplicar a investir na produção

segunda-feira, agosto 19, 2013

"Em um Mundo Melhor" - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 19/08

A verdade da coragem não é querer vencer, mas perder o medo de perder tudo que se tem


É possível um mundo melhor? Sim e não. Sim, é possível um mundo melhor a começar por melhores remédios, casas, escolas, hospitais, aviões, democracia (ainda acredito nela, apesar de ficar de bode às vezes).

Não, não é possível um mundo melhor porque algumas coisas não mudam, como o caráter humano, suas mentiras e vaidades, sua violência, mesmo que travestida de civilidade, nossas inseguranças, nossa miséria física e mental, nossa hipocrisia. Nossas ambivalências sem cura. Os valores são incomensuráveis. Você até pode achar que na vida vale mais a pena "ser" do que "ter", mas isso pode ser apenas um modo infantil de ver as coisas: não há "ser" sem o "ter" que sustenta tudo.

A famosa frase "que vão os anéis e fiquem os dedos" às vezes mais parece ser bem o contrário, "que vão dedos e fiquem os anéis", porque os diamantes são eternos, e os dedos, não.

Resumindo: mesmo a tecnologia e a ciência, grandes fatores positivos, podem ser elas mesmas terríveis. Não é outro o sentido de se perguntar "como educar depois de Auschwitz?", como se pergunta o filósofo Theodor Adorno. Mesmo a democracia pode virar coisa de "black blocs" ou demagogos que juram confiar na "sabedoria popular". E isso dá bode.

Recentemente revi o filme "Em um Mundo Melhor", de Susanne Bier, de 2010. Trata-se de um filme bastante didático, bom para escolas. Um médico sueco trabalha em algum lugar infeliz da África, enquanto sua família derrete na Dinamarca onde mora.

Seu filho é objeto de bullying (chamam-no de "rato" pelo dentes feios que tem e esvaziam o pneu da sua bicicleta o tempo todo). Ele nunca reage. É tímido e tem medo dos mais fortes. Sabe que se reagisse apanharia mais. Muitas vezes, a essência da coragem é perder o medo de sofrer além do que já se sofre. A verdade da coragem não é querer vencer, mas perder o medo de perder tudo que se tem.

Escolas de crianças são um escândalo. Um depósito de violência de todo tipo. Um lugar especialmente indicado se quisermos duvidar da existência de Deus usando o famoso argumento a partir do mal ("argument from evil", como dizem os filósofos da religião americanos): se Deus existe e é bom e todo-poderoso, como o mundo pode ser mau como obviamente é?

Há todo tipo de resposta para isso, e elas compõem o que em teologia se chama "teodiceia". Qual é o sentido de ser bom na vida? Há garantias de que o bem compensa? Não, não há, nenhuma.

Eu concordo com o filósofo Isaiah Berlin: não há teodiceia possível. Os valores são incomensuráveis entre culturas, pessoas, épocas históricas. Qualquer utopia não passa de um surto infantil projetado sobre o mundo. Não vai mais longe do que uma história de Branca de Neve.

Voltando ao filme. O médico é contra violência física. E vive isso de modo corajoso, não se pode negar. A vida que leva na África é prova de seu caráter. Enfrenta um sujeito que bate na sua cara na Dinamarca, quando está visitando sua mulher e filhos, de modo digno, revelando a estupidez que está por trás do brutamontes idiota.

Ela quer o divórcio porque se sente sozinha, é óbvio, e, aparentemente, além de deixá-la sozinha, ele andou comendo alguém por aí... Santo, mas nem tanto... Você pode salvar o mundo enterrando sua família. Olha aí a incomensurabilidade de que fala Berlin.

Ao final, seu princípio de não violência é testado na África e ele perceberá que para tudo existe um basta, e às vezes a violência é tudo que resta. Os pacifistas são também gente infantil.

Mas onde está esse mundo melhor no filme? A vida em casa degringola. O filho humilhado encontra um amigo que o protege na escola. Um menino corajoso, decidido e violento, que se move no mundo de modo oposto aos princípios do médico.

Na verdade, o menino é um desesperado, solitário, que acaba de perder a mãe de câncer, num processo doloroso que sutilmente o filme parece indicar ter chegado à eutanásia.

O mundo melhor parece ser aquele no qual as pessoas podem errar, pedir perdão e ser perdoadas. Um mundo melhor não é um mundo sem violência ou ambivalência, mas um mundo onde existe o perdão.

Fator Joaquim - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 19/08

O ministro Joaquim Barbosa, temperamento à parte, faz sucesso. Em menos de uma hora, mais de 300 pessoas se inscreveram para assistir, dia 30 agora, na Associação Comercial do Rio, à solenidade de entrega, ao presidente do STF, do Prêmio José Alencar de Ética em Gestão Pública.

Trabalho dobrado
O pessoal da Abin, a agência de inteligência estatal, anda trabalhando em dobro.
Tudo para tentar acompanhar a preparação de eventuais manifestações no 7 de Setembro, em Brasília.

Pai nosso, que estás...
Foi tenso o voo da Avianca que veio de Salvador e pousou no Rio às 20h do sábado. Perto da aterrissagem, houve uma turbulência, e a comissária deu um susto em todo mundo ao avisar no microfone:
— Senhores passageiros, os assentos das cadeiras servem ao pouso na água.

Beijo musical
“O Beijo no Asfalto”, clássico de Nelson Rodrigues, vai ganhar, acredite, uma versão em formato de musical por Claudio Lins.

No mais...
Do sociólogo baiano (nascido em Santo Amaro, terra de Caetano) Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982) no livro “O problema nacional do Brasil”, de 1959:
“Nossa situação política é definida pela crise de representatividade dos quadros partidários e governamentais. Esses quadros estão desligados da atividade prático-concreta do povo”.

Ou seja...
Mais atual, impossível. Tem que ser Friboi 

Apesar da polêmica, o Conar, que regula a ética na propaganda, ainda não foi acionado contra esta propaganda “Tem que ser Friboi”, estrelada por Tony Ramos.

Na quinta, a senadora Kátia Abreu, que é presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, discursou contra a empresa que “faz agressiva campanha de marketing, depreciando concorrentes que comercializam carne com qualidade idêntica à dela”.

Jogo da direita
O PSTU, um dos mais ativos grupos esquerdistas destas manifestações, fez, em seu jornal, críticas aos chamados “Black Blocks”, como são conhecidos estes novos anarquistas.

Diz lá que este tipo de ação do grupo, com depredação de bancos e lojas, “termina por fazer o jogo da direita, justificando a repressão”.

Ao agir como “provocadores da polícia”, os “Black Blocks”, segundo o PSTU, melaram algumas manifestações de rua contra Cabral.

É. Pode ser.

Aliás...
Black Blocks” é o cacete! 

A volta de Beth
Recém recuperada de uma doença que a deixou quase um ano no hospital, Beth Carvalho já tem data marcada para voltar aos palcos.

Será dia 7 de se tembro, no Vivo Rio, apresentando o show “Nosso samba tá na rua”.

Bem-vinda!

Intelectual católico
Hoje, o Centro Dom Vital fará uma homenagem póstuma a seu ex-presidente Luiz Paulo Horta.
O Centro, que reúne a intelectualidade católica, foi fundado em 1922 pelo sergipano Jackson de Figueiredo e chegou a ser presidido por Alceu Amoroso Lima.

Casa no meio
Tem gente achando que as obras da Transolímpica, nova avenida que ligará a Barra da Tijuca a Deodoro, correm o risco de não ficar prontas para as Olimpíadas de 2016.

O que se diz é que dos 1.400 imóveis que deveriam ser desapropriados, apenas dois já estão realmente desembaraçados.

The city
A CNN Internacional estreia hoje a série especial “The City”, que, segundo o canal, “descreve o futuro urbano sustentável de cinco cidades ao longo de cinco dias”. Sexta será a vez do Rio.

Eduardo Paes gravou no Morro da Babilônia e no Parque Madureira.

Cena carioca
Semana passada, o gerente de um hotel do Centro passava pelo Largo da Carioca de manhã cedinho, rumo ao trabalho, quando foi convocado por um pastor para dar um testemunho, na pregação que acontecia ali.
— Irmão, qual o primeiro sentimento que vem à sua cabeça diante do casamento gay?
O convidado segurou o microfone e mandou, convicto:
— Inveja!

Crianças brincando - RUY CASTRO

FOLHA DE SP - 19/08

RIO DE JANEIRO - Uma psicóloga da PM-SP defende que crianças de oito anos podem manusear armas de fogo, "desde que acompanhadas pelos pais". É normal, diz ela, que o filho de um policial tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho de seu pai, "assim como o filho do médico tem sobre o estetoscópio". A recente tragédia em São Paulo, envolvendo o menino Marcelo Pesseghini, 13, suspeito de matar seus pais (ambos, policiais militares), a avó e a tia-avó, e que se matou em seguida, tudo a tiros, não abalou sua convicção.

Vejamos. É normal que o filho de oito anos de um piloto de aviação tenha curiosidade sobre o instrumento de trabalho do pai --o avião. Isso autoriza o piloto a pôr o filho na cadeira do copiloto e "acompanhá-lo" enquanto ele pousa o aparelho levando 300 passageiros? O filho de um madeireiro, apenas por ser quem é, estará autorizado a brincar com uma motosserra? E o filho de um proctologista estará apto a manipular o instrumento de trabalho de seu pai?

O que dizer do filho de um funcionário de laboratório de análises encarregado de certos exames? E o filho de um carteiro, vai brincar com minha correspondência? E o de um bombeiro, vai brincar com fogo? E o de um motorista de ambulância? E os de quem trabalha com material tóxico, explosivo ou radiativo --como satisfazer sua curiosidade por aquelas coisas de que os pais falam com tanta naturalidade ao jantar?

A professora Maria de Lourdes Trassi, da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, rebate o argumento da psicóloga da PM, dizendo: "O cirurgião pode até dar o estetoscópio ou a luva [para o filho brincar]. Mas não vai lhe apresentar o bisturi".

Também acho. E há muitas coisas com que o filho de um PM pode brincar --gás de mostarda, bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha--, sem ter de apelar para armas de fogo.

O que as urnas farão com as ruas? - RUTH DE AQUINO

REVISTA ÉPOCA

A pergunta, feita por um jovem durante debate na Casa do Saber, no Rio de Janeiro, provocou um silêncio pesado e ensurdecedor, na plateia e na mesa. Ninguém ousaria responder. O medo da radicalização se instalou nas casas, nas famílias, nos locais de trabalho. As ofensas de baixo calão na internet mostram que uma simples divergência de opinião leva pedradas e balas de borracha. O gás lacrimogêneo nubla a lucidez, o spray de pimenta favorece o extremismo. Não se prevê sequer o que acontecerá no próximo dia 7 de setembro. As redes sociais convocam todos os brasileiros para "o grito do gigante" contra a corrupção política.
Um tema válido e nacional, que causa a repulsa de todo cidadão de bem e transcende partidos. "Não existe corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB. Existe corrupção. Não há corrupção melhor ou pior. Dos "nossos" ou dos "deles". Não há corrupção do bem. A corrupção é um mal em si e não deve ser politizada", disse o mais novo ministro do Supremo Tribunal Federal, Roberto Barroso. Concordo. Espero que a declaração de Barroso signifique que todos serão punidos. E não que todos serão inocentados, sob o argumento de que "sempre se roubou" no Brasil. Caso contrário, o julgamento dos mensaleiros virará uma chicana.
Barroso poderia acrescentar que os abusos e desvios não se restringem ao Legislativo. Contaminam o Executivo e também o Judiciário, Poder que ele representa. Há mordomias imorais para todo gosto entre os excelentíssimos representantes do povo. Ou Barroso acha válido que a gente pague R$ 101 milhões de auxílio-alimentação retroativo a juízes? Por isso, as ruas se levantaram com tanta indignação. Não porque as pessoas estão felizes e querem mais.
A corrupção mina a democracia e contribui para o padrão quinto-mundista de nossos serviços públicos: saúde, educação e transporte. O que mais tira o meu apetite são as condições dos hospitais públicos. Não tenho estômago para ver uma grávida de 16 anos parindo em frente às grades de um hospital, depois de não ter sido aceita no hospital anterior. Ou para ver idosos sentados em cadeiras ou amontoados em macas por dias, na emergência de hospitais à espera de um leito, tendo sofrido fraturas ou derrames. Ou saber que pacientes esperam um ano para fazer uma endoscopia. Ou olhar as filas imensas de doentes diante dos hospitais. São violações de direitos humanos. Diárias. Esse escândalo me dói mais que as fotos do Congresso Nacional de novo às moscas, com seus plenários vazios e votações em apenas dois dias da semana. O que fazer para forçar esse pessoal a trabalhar? Na quinta-feira, quase 400 congressistas marcaram o "ponto" e se mandaram. Nenhum projeto foi votado. "Se o povo sai das ruas, o Congresso sai dos trilhos", disse o senador Álvaro Dias. Onde estava o presidente do Senado, Renan Calheiros? Liderando uma comitiva para visitar em São Paulo o senador José Sarney, internado no Hospital Sírio-Libanês.
Nenhuma promessa em relação a transporte e corte de despesas foi cumprida. Ah, houve uma providência no Ceará: o governador Cid Gomes contratou um bufê de R$ 3,4 milhões para abastecer a cozinha da residência oficial e seu gabinete de bombinhas de escargot, salmão com caviar, camarões ao sol nascente, crepe de lagosta e sushi tropical, entre outras iguarias. Está no Diário Oficial e em reportagem no jornal O Globo.
Foi por tudo isso que a população apoiou a explosão de protestos em junho. Eram mais pacíficos, mais apartidários, mais familiares, tinham a "cara limpa" de quem nada deve, a emoção da solidariedade, a esperança de um Brasil mais justo. Seria uma pena que o ódio, de lado a lado, ganhasse as ruas, criasse mártires e prejudicasse quem mais precisa. Admiro os "coletivos" de jovens ansiosos para fazer diferença num país que não protestava. Critiquei quando um repórter da Mídia Ninja foi preso. Os vídeos feitos pelos ninjas foram essenciais para recolocar a cobertura e denunciar armações e "vandalismos" dos fardados. Mas, quando mascarados atacam hospitais - como ocorreu em São Paulo, na emergência do Sírio-Libanês - e agridem jornalistas profissionais... isso é coisa de fascista.
Vi uma menina de comunidade carente, na Casa do Saber, dizer, contrariada, que "os 100 mil que estavam nas ruas do Rio não eram os 100 mil que a gente queria, eram pessoas estranhas". Talvez porque fossem de classe média. Cuidado com a intolerância. Os manifestantes de hoje podem ser os ditadores de amanhã. A História está cheia de exemplos de irmandades que começam a lutar a boa luta e depois renegam a livre expressão. Torturam e matam seus próprios irmãos ninjas quando a dissensão se instala.

A altivez não tem dono - SERGIO FAUSTO

FOLHA DE SP - 19/08

É preciso muita viseira ideológica para qualificar a política externa do governo Fernando Henrique Cardoso como "submissa e passiva"


Em sua resposta ao artigo "Palpite infeliz", que publiquei neste espaço há duas semanas, Matias Spektor alertou-me para a disponibilidade de vídeos e textos referentes à conferência 2003-2013: Uma Nova Política Externa, organizada pela Prefeitura de São Bernardo e pela Universidade Federal do ABC, entre outras entidades. Fui ao site do evento para conferir o material.

A visita confirmou a minha expectativa de que o tom e o espírito da conferência haviam sido fundamentalmente de celebração da assim chamada política externa "altiva e ativa", em que pesem a boa qualidade de algumas das contribuições e o objetivo, meritório, de pensar o futuro e propor novas formas de participação da sociedade na formulação da política externa.

Aberto pelo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, e encerrado pelo ex-presidente Lula, o evento contou com intervenções de ministros, dirigentes partidários e líderes sindicais ligados ao PT. Os especialistas que participaram são todos simpáticos à política externa dos últimos dez anos.

Respeito a biografia e o trabalho de todos os ali presentes. E não teria objeção alguma ao fato de se reunirem para promover e aguçar uma certa visão sobre a política externa brasileira, não fosse a utilização de recursos públicos para esse fim. Isso não é novo nem é bom.

Do que li, vi e ouvi, a sinfonia executada em São Bernardo reiterou, com poucas exceções e sem nenhuma nota realmente dissonante, o slogan autocongratulatório da política externa "altiva e ativa".

O slogan supõe que a política externa que a antecedeu foi "submissa e passiva". É preciso muita viseira ideológica para assim qualificar a política externa do governo Fernando Henrique Cardoso.

Esta buscou inserir o Brasil no sistema internacional e na economia global preservando o mais possível, nas circunstâncias internas e externas de então, o espaço de escolha autônoma do país. Vínhamos de um processo crescente de isolamento e desprestígio internacional nas duas décadas anteriores. Com o Plano Real, criaram-se as condições necessárias, embora insuficientes, para mudar esse quadro.

A assinatura do acordo da dívida externa, em 1994, ainda no governo Itamar Franco, pôs fim a um capítulo aberto em 1982 e agravado em 1987, com a moratória.

Com a aprovação da Lei de Propriedade Intelectual, em 1996, e a assinatura do Tratado de Não Proliferação Nuclear, em 1998, o Brasil aderiu a normas internacionais regulando essas duas cruciais matérias à paz e ao desenvolvimento.

No primeiro caso, ao fazê-lo, não abdicou da prerrogativa de lutar pela quebra de patentes de medicamentos, quando em risco a saúde pública, como ficou demonstrado com êxito na abertura da Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio, em 2001.

No segundo, não abriu mão de seu direito a desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos. Ao contrário, protegeu-o de suspeitas e pressões externas indevidas.

Ao engajar-se no processo negociador da Alca, o Brasil impediu, já em 1997, que o eventual acordo pudesse ser implementado em fatias, como queriam os EUA, e estabeleceu com clareza, na Cúpula de Quebec, em 2001, quando nos aproximávamos da fase mais substantiva da negociação, as pré-condições para a adesão a um eventual acordo.

Gelson Fonseca, diplomata e um dos nossos melhores pensadores na área de relações internacionais, cunhou as expressões "autonomia pela inserção" e "autonomia pela diversificação" para caracterizar, nas suas diferenças e continuidades, as políticas externas dos governos FHC e Lula, respectivamente.

Uma eventual "nova política externa" poderá resultar do confronto intelectualmente honesto entre essas duas estratégias, devidamente considerados os novos ventos do mundo. Isso, infelizmente, não aconteceu em São Bernardo.

Planos do Brasil para a África - SÉRGIO LEO

VALOR ECONÔMICO - 19/08

Para o governo, é uma prioridade. Entre os empresários, segundo as metas estratégicas definidas pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), é a região que mais teve votos na escolha entre os alvos possíveis do Brasil em acordos de livre comércio. Mas as relações comerciais do Brasil com a África não têm refletido esse interesse.
O continente, que, há quatro anos, caminhava para representar quase 6% de todas as vendas brasileiras ao exterior (excetuando o Oriente Médio), ficou, entre janeiro e julho, com uma fatia inferior a 4,5%, que vem encolhendo.
A queda não se dá por falta de dinamismo no continente africano. Segundo previsão do Fundo Monetário Internacional (FMI), entre as dez economias com maior crescimento entre 2011 e 2015, sete serão africanas. Os EUA preveem crescimento próximo a 6% para as economias da África subsaariana neste e no próximo ano. Esses dados levam o setor privado brasileiro a olhar com interesse cada vez maior para aquelas economias, bastante heterogêneas, com um ambiente de negócios longe de ser dos mais confortáveis.
No governo, à ideologia Sul-Sul, de aproximação com países em desenvolvimento e de estreitamento das relações com a África, juntou-se a preocupação com o avanço chinês no continente vizinho. Pelo menos nos altos escalões em Brasília, é clara a ordem da presidente Dilma Rousseff para ampliar as ações voltadas aos negócios com os países africanos. Nos próximos meses, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) deve abrir escritório em Joanesburgo, África do Sul, para iniciar operações em toda a África, de apoio a empresas brasileiras por lá.
Os passos brasileiros são lentos, porém. Os técnicos do BNDES já concluíram que a logística é um dos maiores problemas na África, onde falta conexão de transportes e comunicações entre muitos países vizinhos. Para brasileiros, um obstáculo exige maior urgência: a falta de informação sobre os mercados locais e a situação de potenciais concorrentes. O Banco deve usar boa parte de seus primeiros meses de operação levantando as condições para operação brasileira nesses países. Não são poucas as dificuldades, inclusive no próprio governo brasileiro.
Em setembro, a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) fará um seminário no Rio de Janeiro sobre a África, em uma demonstração do ânimo também entre especialistas do setor. As exportações do Brasil aos africanos ainda são pouco diversificadas, em matéria de destinos e de produtos, como lembra o economista Pedro da Motta Veiga, em artigo para a "Revista Brasileira de Comércio Exterior" (RBCE), da fundação, que começa nesta semana a circular com análises da expansão das empresas brasileiras, da cooperação do Brasil e das perspectivas do país na África.
Entre 2008 e 2010, três países, apenas, concentravam 48% das vendas brasileiras ao continente - de janeiro a julho de 2013, Egito, África do Sul e Angola concentraram 46% -, e as exportações também se concentram, em grande parte (mais de 60%), em açúcar, carnes, cereais, gorduras e óleos animais e vegetais.
É essa forte concentração em poucos produtos, afetados por fatores sazonais, ou pela forte competição asiática, a explicação para a queda de quase 7% nas exportações aos africanos. A África, em contrapartida, foi a região que mais aumentou as vendas ao Brasil neste ano, em quase 18%, principalmente em petróleo, gás, fertilizantes e polímeros plásticos, na comparação com janeiro a julho de 2012 - cerca de 85% das importações brasileiras da África são de petróleo ou derivados.
Motta Veiga aponta o instável e pouco transparente ambiente institucional como um dos principais problemas lembrados pelas empresas brasileiras que atuam naquele continente. O principal instrumento estatal para estimular a aproximação com a África tem sido o financiamento do BNDES.
O governo brasileiro deveria buscar em seus acordos de cooperação mecanismos para mitigar riscos de financiamento e investimento, e aperfeiçoar as práticas e instituições africanas, sugere Motta Veiga, que também lembra, como dificuldade para investimentos brasileiros na África, a falta de mão de obra qualificada.
Essa carência, segundo Deborah Vieitas e Isabel Aboim, do Banco Caixa Geral, autoras de outro artigo publicado na revista da Funcex, poderia até ter um aspecto positivo, se orientasse projetos de cooperação brasileira para formação de mão de obra por meio de empresas brasileiras com atuação naqueles países, com apoio do Sesi e Senai.
Na revista, um artigo da consultora Melissa Cook faz um alerta: os grandes atores globais têm aproveitado a melhoria do ambiente de negócios em alguns países da região para firmar contratos de longo prazo. Quem não agir rápido ficará de fora, o que será um erro para empresas brasileiras necessitadas de ampliar mercado, diz ela.
Países como o Sudão do Sul e a República Democrática do Congo despertam otimismo no setor privado interessado em projetos de infraestrutura, garante a consultora. No BNDES, os defensores da expansão para os países africanos lembram que o continente pode representar uma alternativa para compensar os ciclos econômicos nos mercados desenvolvidos.
Os especialistas em África chamam atenção para os desafios na montagem de instrumentos de financiamento e garantias, mas reconhecem a necessidade de renegociar e sanar antigas dívidas, algumas nascidas na década de 70, se o país quiser ter, de fato, presença no que parece ser um dos mais promissores mercados do mundo.
É uma pena que esse debate se dê de maneira pouco aprofundada no Congresso, capturado pela disputa partidária por questões internas, que pouco têm a ver com a estratégia do país em sua atuação internacional.