segunda-feira, fevereiro 18, 2013

"Nem o papa aguentou!" - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 18/02

Eis a máxima da portuguesa Agustina Bessa-Luís: hoje, todo o mundo quer agradar, até o metafísico


No dia da renúncia do papa, uma amiga minha querida, portadora de uma personalidade difícil (acha quase todo mundo bobo), mandou-me uma mensagem assim: "Nem o papa aguentou!".

Afinal, o que ele não teria aguentado? Peço licença à minha amiga nojenta para tomar sua exclamação e fazer um pouco de filosofia selvagem a partir dela.

Antes, esclareço que não sofro do comum preconceito de pessoas inteligentinhas contra a Igreja Católica. Qual é esse preconceito? Hoje em dia, num mundo em que todo o mundo diz que não tem preconceito, o único preconceito aceito pelos inteligentinhos é contra a igreja: opressora, machista, medieval...

Estudei anos num colégio jesuíta. Graças aos padres aprendi a coragem intelectual, o gosto pelas letras, o valor da liberdade religiosa, o esforço de pensar de modo claro e distinto, o respeito pelas meninas, ao mesmo tempo em que crescíamos num ambiente no qual Eros nunca foi demonizado; enfim, só tenho coisas boas para dizer sobre meus anos de escola jesuíta.

Cresci numa escola na qual, durante a semana, discutíamos como um "mundo mau" pode ter sido criado por um Deus bom. No final de semana, íamos à praia todos juntos, dormíamos lá, meninos e meninas, em paz, namorando, e enchíamos a cara. Noutro final de semana, o mesmo grupo ia a favelas ajudar doentes.

Tive, numa pequena amostra, uma prova do enorme papel civilizador da igreja e do cristianismo como um todo no mundo.

Dizer que a igreja padece de males humanos e que compartilhou de violência de todos os tipos é óbvio demais para valer a pena um minuto de reflexão.

Em jargão teológico, essa "dupla personalidade de bem x mal" não é bipolaridade moral, mas uma dupla identidade: a igreja teria um corpo mundano (pecador como o de todo o mundo) e um corpo místico (voltado a Deus, à eternidade, inserido no mundo assim como Deus encarnou num homem, Jesus).

Portanto, não sou um desses ateuzinhos que, no fundo, não passam de "teenager" bravo porque o pai não existe. Parafraseando o grande Beckett, "God does not exist -that bastard!" (Deus não existe -aquele bastardo!).

Joseph Ratzinger (Bento 16) é um homem inteligente que quis levantar o nível do debate dentro da igreja e na sociedade como um todo. Um filósofo. Resistiu bravamente à contaminação por uma teologia populista e marqueteira, mas sucumbiu à ancestral vocação humana para a mentira e para a vida burocrática.

Hoje, quase tudo no mundo é populista e marqueteiro; lembremos da máxima da grande escritora portuguesa Agustina Bessa-Luís: hoje todo mundo quer agradar, até o metafísico.

Foi isso que o papa não aguentou: ele esbarrou no diagnóstico da contemporaneidade feito pela

Agustina Bessa-Luís. Todo o mundo só quer agradar "seu eleitorado" e Bento 16 quis tratar seu eleitorado como gente grande.

Resultado: angariou inimigos em toda parte porque rompeu o jogo comum de "falar muito e dizer nada", típico da sensibilidade democrática em que vivemos e também da igreja na "sua base popular".

Num mundo de sensibilidade democrática, ninguém quer saber de nada a sério. A "afetação infantil" (Bessa-Luís, de novo) nos define. O "povo é sempre lindo e certo!".

Na democracia, a soberania do governo emana do povo; daí que achar que o "povo é sempre lindo" é um efeito colateral deste modo da soberania. Logo, todo o mundo só quer agradar, e Bento 16 não quis agradar, quis falar a sério.

Sucumbiu às intrigas palacianas, à inércia da estupidez do mundo de ruídos e baladas metafísicas.

As pessoas odeiam quem quer falar a sério. Não querem mais um papa, e sim um consultor de sucesso espiritual e Ratzinger não tem vocação para isso.

A maioria das pessoas quer apenas comprar, divertir-se, ter uma autoestima alta, gozar livremente, não sentir culpa alguma; enfim, ter uma vida moral de criança de dez anos de idade.

Nem o papa aguentou. Preferiu "fracassar como Sócrates" a vencer como um demagogo feliz. No início da quaresma (período em que devemos refletir sobre nossos demônios), denunciou com sua renúncia o mais velho demônio da igreja: a política.

Globalização vitoriosa - MARCELO DE PAIVA ABREU


ESTADÃO - 18/02



Depois de mais de 40 anos, voltei a visitar Edimburgo, a magnífi­ca capital escocesa. Juntamente com Glasgow, a cida­de ocupou lugar proeminente na vitória intelectual do livre comér­cio sobre o mercantilismo, da ideia revolucionária de que co­mércio internacional traz benefí­cios mútuos a comprador e vende­dor. Parece incrível que, passados dois séculos e meio, a ideia ainda enfrente dificuldades de prospe­rar, especialmente entre nós e al­guns de nossos vizinhos.

A pujança intelectual da Escó­cia entre 1730 e 1790 é impressio­nante. Tem origens obscuras, em­bora certamente aparentadas ao calvinismo local e ao menor anal­fabetismo infantil da Europa. David Hume (1711-1776), Adam Fer- guson (1723-1816) e Adam Smith (1723-1790) são hoje universal­mente conhecidos, mas o Iluminism. Escocês envolveu muito mais do que avanços filosóficos que convergiram para a consolidação da economia política e da so­ciologia: MacLaurin e Gregory, na matemática e na atuária; James Hutton, fundador da geologia mo­derna; Joseph Black e James Watt, pioneiros na química e na máquina a vapor. A escola médica era a mais reputada do mundo. Os irmãos Adam e Henry Raeburn são marcos na arquitetura e na pintura. James Boswell tomou-se referência literária mundial com a biografia do doutor John­son e seus diários reveladores.

Algo surpreendente - dado es­se retrospecto -, Edimburgo, no começo dos anos 70, na minha pri­meira visita, era uma cidade qua­se provinciana, com a oferta de bens e serviços dominada por dis­ponibilidades locais. Suas boas li­vrarias não compensavam a po­breza do cardápio tradicional, com o "haggis" - tripas de carnei­ro - em posição proeminente.

Passadas várias décadas, a transformação da Escócia e de Edimburgo foi radical. Na esteira do petróleo do Mar do Norte, a economia transformou-se. Os es­taleiros do Clydeside, as minas de carvão e a siderurgia quase de­sapareceram. Aumentou a impor­tância do setor serviços. Edim­burgo é um dos grandes centros financeiros europeus. Há quatro restaurantes estrelados no guia Michelin. Mesmo os indefectí­veis restaurantes de cadeia têm qualidade média muito acima do que era corrente nna década de 1970. A especulação imobiliária afetou partes tradicionais da cida­de, embora a "Milha Real" e a "Ci­dade Nova" (do século 18!) te­nham sido preservadas. As livra­rias, em compensação, pioraram bastante, tragadas pela preponde­rância das cadeias de âmbito na­cional e pela devastação causada pela internet.

O processo ilustra as tensões re­lacionadas ao processo de globali­zação, na esteira da redução dos custos de transação, incluídos fre­tes, tarifas de importação e dispo­nibilidade de informação.

A globalização gera ganhado­res e perdedores. Matéria recen­te do Financial Times, de 9/2/2013, contrasta a qualidade dos empregos criados pela Ama- zon nas antigas regiões mineiras no Reino Unido com a estabilida­de dos empregos "por toda a vi­da", típicos do passado. Hoje, a escolha da mão de obra não é en­tre a Amazon e a mina de carvão. É entre a Amazon e o desempre­go. Certamente, cabe ao Estado adotar políticas compensatórias que minimizem essas tensões. Mas não cabem grandes dúvidas quanto aos benefícios líquidos que resultam da globalização.

Nas ilhas britânicas haveria, em princípio, hoje, terreno fértil para que o nacionalismo econômi­co colocasse as mangas de fora. Na Escócia discute-se a indepen­dência, depois de mais de 300 anos de união com a poderosa vizi­nha, e haverá um plebiscito decisi­vo em 2014. Não se imagina que seja vitoriosa a alternativa de inde­pendência, mas há certa incerte­za. Para complicar as coisas, o primeiro-ministro britânico mencio­nou a possibilidade de consulta plebiscitaria em 2017 sobre a per­manência do Reino Unido na União Européia. Embora os críti­cos tenham encarado a proposta como jogo de cena, isso complica ainda mais o cenário político esco­cês. Mas, em nenhum momento, coube dúvida quanto à postura em relação à globalização. A ênfa­se é em inovação, e não em prote­ção e estatização.

A crise mundial iniciada em 2008 justificou a adoção em esca­la mundial de políticas de estímu­lo à demanda de corte keynesiano e, com muito menos justificativa, de políticas protecionistas, tendo como objetivo tentar transferir o ônus da crise para o resto do mun­do. O problema é que em muitos países em desenvolvimento, e cer­tamente no Brasil, os interesses protecionistas latentes se aprovei­taram do momento para promo­ver a ressurreição permanente de políticas que, depois de grande su­cesso até 1980, levaram o País à estagnação com inflação alta.

A estratégia de crescimento do atual governo brasileiro está ba­seada na volta à autarquia e neces­sita de persistente cunha entre os preços praticados no Brasil e os preços mundiais. Essa regressão ao mercantilismo não encontra eco nas economias que adotam políticas econômicas que façam sentido. A exceção é o mau exem­plo da França, que, a esta altura da partida, parece considerar se­riamente enfrentar a crise com mais estatização.

O governo brasileiro deveria buscar como exemplo para suas políticas a experiência das eco­nomias que tiveram mais suces­so em ajustar-se estruturalmen­te à globalização. Ou seja, olhar para Londres ou Edimburgo, e não para Paris.

A última geração - ANDRÉ CONTI

FOLHA DE SP - 18/02

Boatos sobre os novos PlayStation e Xbox indicam um possível esgotamento dos consoles


Salvo algum imprevisto, a Sony deve anunciar nesta quarta-feira o sucessor do PlayStation 3. A Microsoft não deve ficar atrás: nos últimos meses, dezenas de rumores sobre o novo Xbox surgiram na rede. Os dois podem ser lançados ainda neste ano. Se as especificações que vazaram forem verdadeiras -e há muitas razões para crer que sim-, percebe-se imediatamente a preocupação das fabricantes com o futuro dos consoles.

Em termos de hardware, não há nenhum salto inesperado. Eles são melhores que os antecessores, obviamente, mas nada que um PC caro de hoje (e de preço médio daqui a uns dois anos) não alcance.

A ideia, no entanto, parece outra: convencer o consumidor de que o console não serve só para jogos e é tão necessário para a "sala de estar" quanto a própria televisão.

Nada disso é novo. Uma das razões do sucesso estrondoso do PlayStation 2 foi a incorporação do DVD, bem no início da comercialização do formato. Assim, familiares que jamais tocariam no aparelho passaram a usá-lo regularmente.

A geração atual incorporou Net-flix e outros serviços de vídeo por demanda. E o PlayStation 3 funciona muito bem como servidor de mídia, rodando filmes e músicas armazenados nos computadores ligados à mesma rede.

Por isso, o que me chamou mais a atenção no suposto novo Xbox foi a presença de uma entrada de vídeo. Ao que tudo indica, o console poderá armazenar a programação da TV, funcionando como o serviço HD Max, da Net, ou outros gravadores de TV por assinatura.

É um passo além do Wii U, que também conta com integração à TV. Nos EUA e na Europa, o Wii U funciona como um guia, mostrando a programação do mês e permitindo que o usuário controle tudo pelo joystick-tablet da Nintendo. Não duvido que, com o tempo, ele passe a gravar também, num HD externo.

Sem os dados concretos, é impossível afirmar com certeza, mas, olhando assim, me pareceu pouco. Ou, novamente, nada que um computador não faça melhor (e de forma mais aberta).

E o nó parece residir aí. Hoje em dia um computador de mesa ligado à TV da sala é algo muito incomum. No máximo, um notebook para rodar filmes. Mas Gabe Newell, o chefão da Valve, promete virar o jogo.

Começou discretamente. O Steam, programa de distribuição de games da Valve e provável responsável pela salvação do mercado de jogos de PC, passou a contar com a opção Big Picture, que facilita o uso do programa na televisão (ícones grandes, navegação por joystick).

Tempos depois, confirmaram a intenção de bancar uma Steam Box, na verdade um PC comum, num gabinete compacto, ligado à TV e ao Steam. Os primeiros modelos "oficiais" podem sair ainda neste ano, mas qualquer um pode montar a sua Steam Box.

As vantagens são inúmeras: desenvolvimento mais barato, fim da mídia física, mesmo preço para jogos no mundo todo. E a instalação e a atualização dos jogos, que costumavam ser uma parte chata no PC, foram automatizadas no Steam.

Consoles podem oferecer sensores de movimento, joysticks com tela e alguns jogos exclusivos. Se for só isso, pode ser que tenhamos chegado à última geração.

A marca de um papa - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O ESTADO DE S. PAULO - 18/02

O mundo, atônito, recebeu a notícia da renúncia de Bento XVI. A decisão, inusual nas plataformas de poder, reflete coragem moral e humildade. O papa deixa uma marca de coerência e de extraordinário vigor intelectual. Num mundo algemado pelos grilhões do ceticismo, o pensamento do papa é uma forte estocada e uma provocação. De Santo Agostinho a Lutero, Kant, Bacon e Engels, homens da Igreja, santos e filósofos, ortodoxos e heterodoxos, desfilam nos textos do papa como protagonistas da nostalgia de Deus do ser humano.

Bento XVI desnuda a inconsistência das esperanças materialistas e faz uma crítica serena, mas profunda, à utopia marxista. Segundo o papa, Marx mostrou com exatidão como realizar a derrubada das estruturas. "Mas não nos disse como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se- ia realizado a Nova Jerusalém." Marx "esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. (...) O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior. (...) Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor".

O cerne do pensamento do papa, um vibrante e realista apelo à genuína esperança cristã, é a antítese do surrado discurso dos teólogos da libertação que, com teimosa monotonia, apostam no advento da utópica Jerusalém terrena. As injustiças, frequentemente escandalosas e brutais, devem ser enfrentadas e superadas, mas não há o paraíso neste mundo. E o papel da Igreja Católica, não obstante seu compromisso preferencial com os pobres e desvalidos, é essencialmente espiritual.

Bento XVI não contorna os temas difíceis ou politicamente corretos. Na contramão de certo ativismo eclesiástico, aponta a oração como "primeiro e essencial lugar" da esperança. "Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve." Sugestivamente, o papa evocou o falecido cardeal vietnamita Nguyen Van Thuan, que, após 13 anos na prisão comunista, 9 dos quais numa solitária, escreveu Orações na Esperança. "Numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites de solidão."

A mensagem de Bento XVI, direta e sem concessões, tem repercutido com força surpreendente. Seu desempenho, sobretudo no meio jovem, é uma charada que desafia o pretenso feeling de certos estudiosos do comportamento. Afinal, o estereótipo do papa conservador, obstinadamente apegado aos valores que estariam em rota de colisão com a modernidade, foi sendo contestado pela força dos fatos e pela eloqüência dos números.

As Jornadas Mundiais da Juventude têm sido um bom exemplo do descompasso entre as profecias de certos vaticanólogos e a verdade factual. Crescentes multidões multicoloridas, usando tênis e mochilas, transformaram esse avô da cristandade num indiscutível fenômeno de massas.

Vem-me à lembrança, enquanto escrevo este artigo premido pela renúncia do papa, a cobertura que fiz para o jornal O Estado de S. Paulo, em outubro de 2003, do 25° aniversário do pontificado de João Paulo II. Lembro-me, entre outros, de um depoimento sugestivo. Bruno Mastroianni era um jovem filósofo romano. Sobrinho de Marcello Mastroianni, o falecido ator de La Dolce Vita, do magnífico Fellini, nasceu depois da eleição de João Paulo II. Encontrei-o enturmado na Praça de São Pedro. "Nestes meus 24 anos", dizia-me então, "o papa sempre esteve presente.

Lembro-me quando era criança daquele homem vestido de branco, com aspecto de estrangeiro, mas, ao mesmo tempo, tão familiar. Mais tarde, durante os anos da adolescência, fiquei rebelde. O papa, no entanto, estava sempre lá, um pouco mais velho, mas sempre forte. Dizia-nos, então, que o amor de Deus era a única resposta, o unico caminho para um futuro melhor. Agora, formado e iniciando minha vida profissional, aquele homem vestido de branco, longe de parecer um velhinho frágil e doente, continua lá. E uma rocha firme e segura. Acredito que para todos os jovens como eu não exista um melhor mestre do amor que um papa tão enamorado de seu serviço ao mundo."

A incrível sintonia entre os papas e a juventude oculta inúmeros recados. Num mundo dominado pela cultura do ter, pelo expurgo do sofrimento e pela fuga da dor, Bento XVI caminhou aparentemente no contrafluxo.

"Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito" amor. (...) Agrandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade. Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a compaixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido é uma sociedade cruel e desumana", afirma Bento XVI.

Os jovens decodificam com mais facilidade os recados do papa. Eles o esperavam na Jornada Mundial da Juventude, encontro do pontífice com os jovens, em julho no Rio de Janeiro. O próximo papa, certamente, estará presente. E embora fisicamente ausente, Bento XVI o acompanhará com seu carinho e com a força da sua oração.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 18/02

Mercado de genéricos perde ritmo em 2012
Após mais de dez anos de crescimentos robustos, a indústria de medicamentos genéricos brasileira perdeu seu ritmo em 2012.

O segmento registrou alta de 17% no volume de unidades vendidas no ano passado ante 2011, segundo a PróGenéricos (Associação Brasileira das Indústrias de Medicamentos Genéricos).

Foi o menor crescimento em volume da história dos genéricos desde que a categoria chegou ao mercado brasileiro, em 2001. O setor havia crescido acima dos 30% em volume em 2010 e 2011, segundo a PróGenéricos.

A comercialização ficou em 679,6 milhões de unidades no ano e movimentou R$ 11,1 bilhões, aponta a entidade.

"Isso não impediu que o segmento desse um salto. A performance dos genéricos se manteve acima do conjunto da indústria farmacêutica brasileira", diz Telma Salles, presidente da entidade.

"A participação de mercado em unidades foi de 26,3% em 2012 ante 24,9% em 2011. Mas é um sinal de alerta, sim. Perdeu ritmo", afirma.

Pressões sobre os custos de produção, preço da matéria-prima, peso da folha de pagamento, tributos e pedidos de descontos do varejo são os responsáveis pela perda de velocidade, segundo Salles.

"Também registramos um número menor de patentes expiradas no ano passado. Estamos estudando como será o cenário neste ano", diz.

"O setor de genéricos registrou crescimento no ano passado, mas com ritmo menor. Existe uma apreensão e a indústria precisa se alertar. A pressão sobre os custos vem de todos os lados e tivemos um volume menor de patentes expiradas"
TELMA SALLES
presidente da PróGenéricos

QUIOSQUÊ FRANCÊS
O grupo de restaurantes Le Vin vai expandir os negócios neste ano por meio de quiosques de sua patisserie em shopping centers.

Estão previstas oito unidades -seis em São Paulo e duas no Rio de Janeiro. A primeira loja já foi inaugurada, em janeiro no Barra Shopping, na capital fluminense.

"O modelo de quiosques foi escolhido por ter um ponto privilegiado, mais visível do que as lojas no meio dos corredores", diz Francisco Barroso, dono do grupo.

"O quiosque também não precisa de muito espaço, já que apenas a finalização dos produtos é feita no local."

A empresa pretende fechar, ainda neste ano, o contrato para a instalação de mais um restaurante no Rio de Janeiro. A abertura da unidade, porém, não deve ocorrer antes de dezembro.

Novos planos
O Centro-Oeste (11,2%), o Nordeste (7,4%) e o Norte (5,1%) registraram os maiores crescimentos de novos planos de saúde no país em 2012, conforme a FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar).

"Estas três regiões tiveram uma evolução no emprego, o que propiciou um maior acesso aos planos de assistência médica", diz José Cechin, executivo da entidade.

Quase 80% dos novos planos são coletivos por adesão.

"As empresas e as classes sociais são as principais responsáveis por esse aumento. São benefícios que ajudam a reter mão de obra nos novos postos de trabalho."

O Sudeste teve alta de 2%, enquanto o Sul registrou queda de 0,4%, com 6,5 milhões de novos beneficiados.

Na assistência odontológica, o Nordeste (20,2%) e o Norte (15,4%) foram os que tiveram as maiores altas.

O alto custo de um erro - ADRIANO PIRES

O GLOBO - 18/02

Depois de quatro anos sem realizar leilões de petróleo, o governo anunciou que esse ano a ANP deverá promover três leilões. O primeiro em maio e os outros dois no final do ano. Em maio ocorrerá a 11 rodada e no final do ano o primeiro leilão de áreas do pre-sal e outro em áreas em terra visando o aumento da oferta de gás natural. Como era esperado o mercado reagiu bem ao anúncio, depois de anos de notícias ruins e todos estão torcendo para que haja continuidade dos leilões ao longo dos próximos anos.

A nova abertura do mercado de petróleo no Brasil difere bastante da realizada no fim dos anos 90. Naquele momento, a ideia foi de abrir o mercado, garantindo um tratamento igualitário a todas as empresas, através de uma agencia reguladora independente e com isso promovendo a concorrência no setor. Para isso, foi estabelecido o modelo jurídico da concessão e os preços da gasolina e do diesel seguiam a tendencia do mercado internacional.

A nova abertura vem revestida de uma maior intervenção do Estado e de uma Petrobras enfraquecida, ja que foi a empresa a principal prejudicada com o fechamento do mercado e as mudanças no marco regulatório  As regras sobre o conteúdo local são atrasadas, viraram dogma, revela um nacionalismo ultrapassado e acabam dificultando o aparecimento de empresas nacionais fortes e competitivas. O novo modelo jurídico da partilha trás de volta o monopólio da Petrobras na operação dos campos do pre-sal, além de dar um tratamento desigual entre a Petrobras e as demais empresas, pelo fato de que a estatal terá sempre uma participação minima de 30% nos campos do pre-sal a serem leiloados. Sem falar na criação de mais uma estatal, que teria a missão de gerir os contratos de partilha e poder de veto no comitê gestor dos campos de petróleo. Para completar o quadro intervencionista, os preços da gasolina e do diesel continuam sendo determinados pelo comportamento da inflação e não pela tendência do mercado internacional. ,

Finalmente, o governo entendeu que a conta estava ficando muito cara para o Brasil pelo fato de ter fechado o mercado de petróleo, em particular, no momento do anúncio das grandes reservas do pre-sal. Investimentos que poderiam ter sido realizados no Brasil foram para outros destinos como os Estados Unidos, Africa e Colombia, provocando, em particular, nos Estados Unidos uma grande revolução com a produção do chamado gás e petróleo não convencional, o que levará o país a voltar a ser um dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás natural e a voltar a atrair inúmeras empresas devido a garantia de abastecimento e preços competitivos.

A volta dos leilões é um avanço, agora só falta o governo restabelecer as boas praticas de mercado que existiam na abertura dos anos 90. Aí, sim, o país voltará a fazer parte da rota dos grandes investimentos das empresas petrolíferas e o setor de petróleo.

Investimento e produtividade - DAVID KUPFER

VALOR ECONÔMICO - 18/02

O ano de 2012 trouxe uma redução da taxa básica de juros no Brasil de cerca de cinco pontos percentuais. Hoje, a Selic está em 7,25% ao ano o que descontando a inflação a leva para menos de 2% reais anuais, nível ainda elevado em comparação com taxas internacionais, mas impensável para nossos padrões recentes. E isso sem que a economia exiba sinais de aquecimento que justifiquem um retorno da Selic a uma trajetória ascendente. Conclusão: neste momento, não há muito espaço para modificações na política monetária.

No mesmo período, a taxa de câmbio desvalorizou-se em cerca de 30%, levando o dólar americano para a casa de R$ 2. Hoje, ninguém se dispõe a apostar no retorno do câmbio aos níveis super-valorizados do passado. Se as expectativas para o piso já estavam feitas, o dissenso que havia com relação ao teto está sendo rapidamente dissolvido pela teimosia do IPCA em buscar o limite superior da meta de inflação. Conclusão: nesse momento, não há muito espaço para modificações na política cambial.

Ainda ao longo de 2012 houve uma redução no custo tributário de diversos setores da economia que, embora difícil de mensurar, foi bastante palpável. Fruto de inúmeras ações pontuais de desoneração, em conjunto já produziram uma substancial pressão sobre as metas de superávit fiscal da União. Some-se a isso as projeções de contração na arrecadação e a necessidade de perseverar no esforço anti-cíclico recente. Conclusão: neste momento, não há muito espaço para modificações na política fiscal.

Níveis de utilização de capacidade da ordem de 80%, não costumam motivar ciclos relevantes de investimento

Para um pensador panglossiano, não seria difícil afirmar que, então, está tudo bem: se as taxas de juros e de câmbio e os gastos públicos não podem nem subir nem descer, então é porque estão no lugar certo. Para um observador mais realista, porém, há muito por fazer. É que a macroeconomia não é tudo - ou pelo menos não se resume às políticas monetária, cambial e fiscal.

A comparação da evolução da produtividade da economia brasileira nos últimos anos com a de outros países leva à constatação de que o Brasil apresenta níveis típicos de país emergente (baixos) e taxas de crescimento de país desenvolvido (também baixas). Para muitos, o vilão dessa história é o quadro de virtual pleno-emprego que se instaurou no mercado de trabalho, agravado pelas usuais deficiências da educação e da qualificação do trabalho no país.

Porém, infelizmente, no Brasil a produtividade ainda está no posto de trabalho e não no trabalhador. No mercado de trabalho brasileiro ainda prepondera um segmento informal urbano de grandes proporções, um contingente volumoso de subocupados no mercado formal e rendimentos do trabalho que, embora crescentes, ainda são em média muito baixos, todas evidências pouco compatíveis com uma situação de pleno emprego. Por essa razão, há muito espaço para aumentar a produtividade deslocando trabalhadores de ocupações de baixa produtividade para outras mais produtivas. Para isso, no entanto, é necessária a realização de investimentos que abram essas novas oportunidades de trabalho. Há, portanto, boas razões para se acreditar que a explicação central para o comportamento indesejável da produtividade está na insuficiência da formação de capital na economia brasileira.

Em um plano de análise mais conjuntural, as flutuações do investimento costumam ser atribuídas a variações no custo de capital. Assim, a queda do investimento ocorrida no segundo semestre de 2012 deveu-se ao encarecimento dos bens de capital importados devido à desvalorização do real frente ao dólar. Essa restrição tende a ser superada na medida em que haja margem para a substituição da importação de máquinas e equipamentos por produção local.

No entanto, essa não é uma reação automática. Existem boas razões teóricas e excelentes razões empíricas para se acreditar que o principal fator determinante das decisões privadas de investir é o grau de utilização da capacidade instalada. As empresas decidem investir quando o grau de utilização da capacidade de longo prazo ultrapassa um valor limite planejado. Ocorre que esse grau planejado de utilização é uma variável de difícil determinação devido a diversas razões objetivas mas principalmente porque é influenciado por mudanças subjetivas nas expectativas dos empresários quanto ao desempenho da demanda e também quanto ao comportamento dos concorrentes em seus mercados de atuação.

Diante de um sinal positivo de expansão da demanda, se uma empresa acredita que os rivais estão prontos para ampliar capacidade, tende a fazê-lo com maior agilidade visando evitar a abertura de uma brecha de mercado que reforce o posicionamento estratégico de seus concorrentes. Inversamente, se prevalece uma situação de coordenação oligopolista, poderá ser mais provável que a decisão de investimento aguarde uma expansão adicional da demanda, isto é, as empresas esperarão que o valor limite de uso da capacidade seja ultrapassado para colocar novo equipamento produtor em operação.

No Brasil, basta comparar as séries de formação de capital do IBGE com os indicadores do nível de utilização da capacidade instalada da Fundação Getulio Vargas ou da Confederação Nacional da Indústria para atestar a elevada correspondência existente. Níveis de utilização de capacidade da ordem de 80%, como os que vêm vigorando no período recente, não costumam motivar ciclos relevantes de investimento. Em síntese, a produtividade sucede o investimento. E a esses sucede o crescimento. E assim, voltamos ao início. 

Moeda única e viva - GEORGE VIDOR

O GLOBO - 18/02
Os países da zona do euro estão acumulando saldos comerciais há vários meses. Claro que a Alemanha, tradicionalmente superavitária no comércio exterior, contribui muito para isso. Mas sem dúvida a existência do euro foi que facilitou primeiro o incremento no comércio regional, incluindo os países que estão na União Europeia e não adotaram a moeda única, além de nações vizinhas, como a Turquia, e depois as transações com o resto do mundo. A União Europeia eliminou as barreiras para o trânsito de mercadorias dentro de suas fronteiras (quem passa pelas estradas ligando uma nação a outra não vê mais aduanas abarrotadas de caminhões, esperando pela liberação da carga) em 1993, e a moeda única, desde 2002, proporcionou um ganho considerável para os exportadores europeus em relação àqueles que a toda hora precisam converter moedas (o que é o caso dos brasileiros).

Mesmo com toda a crise financeira dos últimos anos, a economia da União Europeia, apoiada no euro, está pronta para um acordo de livre comércio com os Estados Unidos. Será ótimo para os dois lados, embora as empresas europeias faturem relativamente mais no mercado americano do que as companhias dos Estados Unidos na Europa.

É pouco provável que agora a Grã-Bretanha resolva pular fora da União Europeia (o plebiscito será em 2015). Os britânicos não abriram mão de sua própria moeda e sempre tiveram fortes laços comerciais, financeiros e políticos com os Estados Unidos. Mas se saírem da União Europeia perderão esse privilégio e enfraquecerão a libra esterlina.

Às 7h da manhã no escuro

O horário de verão é ótimo, mas nesta época do ano, com os dias já encurtando, na direção do equinócio, em grande parte do Centro-Oeste ou na Bahia, às 7h da manhã estava escuro. Por isso, não daria mesmo para esticar o horário e economizar energia.

O Comendador Simplício

Como escrevi várias notas a propósito dos impasses em torno da hidrelétrica de Simplício, na divisa dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, ganhei de presente do meu amigo Sérgio Jacques de Moraes, renomado advogado na área de mineração, um livro em que a irmã dele (Elisa de Moraes Sobrino Porto) relata a trajetória da família, especialmente do bisavô, o Comendador Simplício José Ferreira da Fonseca. O Comendador começou a vida como tropeiro e depois se tornou grande fazendeiro de café no Vale do Paraíba. A sede da sua fazenda (Barra do Peixe), localizada em Além Paraíba, até hoje é uma das mais bem conservadas dessa fase áurea do café no Vale. Anos atrás foi comprada por Guilherme da Silveira, que era um dos herdeiros da antiga Fábrica Bangu. No alto do portão principal da sede ainda está lá o seu brasão, datado de 1859, com as iniciais SJFF, que o povo na época traduzia como "sempre juntando, fez fortuna", pois o Comendador tinha fama de pessoa muito comedida em seus gastos. Apesar dessa fama, Simplício foi quem doou áreas para vários prédios públicos de Além Paraíba. Construiu uma igreja, hoje em ruínas, e a estação de trem que leva seu nome, razão do nome da hidrelétrica. Ajudou seu primo Mariano Procópio a construir a rodovia União e Indústria, de Petrópolis a Juiz de Fora. Os dormentes da linha de trem no trecho até Além Paraíba também saíram de árvores cortadas em sua fazenda. Simplício foi um dos poucos fazendeiros de café da região que não faliu. Após a abolição, contratou os antigos escravos como empregados. Fez várias tentativas para receber o título de barão, porém só conseguiu ser agraciado com uma comenda, da qual tinha muito orgulho. Imediatamente incorporou o título de Comendador ao nome. Com grande número de descendentes, sua herança se diluiu com o passar do tempo.

Tanto a estação de trem como a igreja que construiu serão restauradas, como uma das compensações pela construção da hidrelétrica de Simplício.

Pouco impacto ambiental

Um esclarecimento, a pedido dos técnicos: a cota de 90 metros no Rio Madeira, a montante da hidrelétrica de Jirau, será no período da cheia. Na seca, a cota é de 82 metros, mantida assim se não houver acordo com a Bolívia. Tal acordo é que possibilitará também a construção de mais uma hidrelétrica gigante, a de Guajará-Mirim (ou Ribeirão), com 3.000 megawatts de potência instalada, na fronteira com o país vizinho. O impacto ambiental se resumiria ao período da seca, portanto, mas em compensação surgiria uma hidrovia capaz de reduzir consideravelmente os custos de transporte na região.

Insípido, inodoro, incolor - RENATO JANINE RIBEIRO


VALOR ECONÔMICO - 18/02

Uma amiga do Facebook levanta a questão: se nossos dois principais partidos são PT e PSDB, como o PMDB conseguiu obter a presidência das duas Casas do Congresso, além de já ter a Vice-Presidência da República? Dos quatro substitutos constitucionais da presidenta da República - um deles é o presidente do Supremo Tribunal Federal -, três agora pertencem a esse partido. Não é pouca coisa! Ainda mais porque o PMDB, se é um grande partido, não é o maior em bancada ou votos e, mais grave de tudo: suas ideias ou ideais são amplamente ignorados. Aliás, se ele não disputa há anos a Presidência do país, é justamente porque não tem proposta para o Brasil.

Quais partidos nossos representam, hoje, ideias? Certamente, PT e PSDB. Por isso são os finalistas nas campanhas eleitorais, os polos entre os quais gravita nossa política, que podem ter o apoio de qualquer outra agremiação, menos um do outro. Já o PMDB é apenas um gigantesco micropartido. Quando alguém se queixa das siglas de aluguel, dos partidos sem ideologia, das agremiações que existem só para se aliarem aos vitoriosos - tudo isso vale, de algum modo, para o PMDB. Daí que falte generosidade a quem pretende fechar uns micropartidos, alegando contra eles um princípio que também afetaria nosso partido hoje mais antigo, herdeiro das lutas contra a ditadura, mas que, ao desistir de propor algo inovador ao Brasil, se reduziu a uma confederação de lideranças regionais.

Com boa vontade, podemos acrescentar a esses dois partidos um movimento difuso, herdeiro da onda verde de 2010, que deu um quinto dos votos a Marina Silva mas mal tem representação parlamentar, governadores ou prefeitos e, até o momento, não dispõe de partido ou de um grupo de líderes. É uma sensibilidade em busca de atores, personagens, dirigentes. Teria eleitores, só lhe falta o resto. Tem minha simpatia, mas não irrestrita.

Mesmo partidos que em sua história tiveram momentos altos estão, hoje, amorfos. Além do PMDB, grande campeão da luta contra a ditadura, lembremos o PDT, de Leonel Brizola, o PPS, herdeiro do partido comunista que em 1989 viveu a memorável campanha presidencial de Roberto Freire, o PFL (hoje DEM), que nasceu para cravar o prego final no caixão da ditadura, o PV, que lançou Gabeira à Presidência, o PSB, que tem nomes para quem socialismo é mais que um retrato na parede... Pouco disso continua presente no dia a dia deles. Nosso sistema político é um jogo no qual cada partido pode se aliar com qualquer outro, exceto o PT e o PSDB um com o outro, e ainda assim olhe lá. Até o impedimento canônico de alianças entre PT e PFL/DEM caiu: para derrubá-lo, foi criado o PSD.

Isso é de todo mau? Não. Já se observou que esse território sem dono nem perfil, esse "Marais", se quisermos usar o nome cunhado na Revolução Francesa para o centrão da época, é o que permite ao Brasil uma governabilidade política talvez superior à dos atuais Estados Unidos. Lá, o conflito de dois partidos ata as mãos dos governantes. Aqui, o PMDB desata qualquer nó. Garante a governabilidade. Isso não é pouca coisa. Nos países que olhamos com certa inveja porque em tese funcionariam melhor do que nós, a arte da governabilidade consiste em fazer a minoria da população eleger a maioria do Parlamento - formando assim um governo que toma decisões e as executa, mesmo sem ter a maior parte da população de seu lado. Toma-se a maior das maiorias simples, que é convertida em metade mais um, em maioria absoluta. Há muitos truques para conseguir isso; o mais conhecido é o voto distrital. E, no fundo, é melhor sermos governados pela maioria simples do que não termos governo nenhum, ou governos que caem em semanas ou meses, como sucedeu na França e Itália ao longo de décadas, ou hoje na Bélgica, onde um sem-número de partidos não chega a acordo para formar um gabinete.

Mas há algo bastante decepcionante quando vemos que, com exceção de dois partidos e um sentimento, o verde, que ainda não é movimento, quanto mais partido, e feitas as exceções individuais de praxe (Cristovam Buarque, Luiza Erundina...), as demais bancadas do Congresso mal se dão ao trabalho de formular um projeto para o Brasil.

Poderia ser diferente? Poderia. Na verdade, há uma grande preguiça de pensar. Aqueles que não pertencem a nenhum dos lados poderiam promover uma reflexão, seja sobre pontos específicos, propondo leis ou pelo menos estudando temas como o sistema econômico, financeiro ou político, ou ainda o trânsito. Poderiam, assim, construir alternativas, a longo prazo. Na hipótese mais tímida, tal ação poderia obrigar as grandes famílias que disputam o poder, para valer, a levá-los em conta. É mais honroso ser procurado pelo PT, o PSDB ou os verdes em decorrência de estudos, projetos, ideias, do que apenas para somar votos no Parlamento.

Daí, finalmente, que eu não leve muito em conta os candidatos de outros partidos, que não o PT, PSDB ou o movimento verde, à Presidência. Michel Temer, Eduardo Campos e outros podem bem vir a ocupar o Planalto, mas somente por acaso - se a fortuna assim o decidir, por exemplo, caso uma desgraça aconteça à presidenta Dilma. Ou se tudo o mais entrar em crise. Temos três exemplos civis de eleitos pela "fortuna" no último meio século: Jango, Sarney, Itamar - para não falar em Collor, eleito pelo povo mas em circunstâncias de exceção. Contudo, em condições normais, a Presidência vai para quem tenha ideias sobre o que fazer com ela. Isto não é falha, aliás, dos nomes mencionados: eles apenas pertencem a partidos sem proposta. Seria melhor se a tivessem.

Falei, tá falado - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 18/02

"Fotos, fotos, fotos. [Somos] muito famosos", diz o ator Thiago Martins, ao chegar para o desfile das campeãs no Sambódromo do Rio, anteontem, com a namorada, Paloma Bernardi, ao lado.

Martins segue para o cercadinho onde Zeca Pagodinho emenda um copo de chope no outro, no camarote da Brahma. A pedido da mãe, o ator dá parabéns ao cantor por ter ajudado as vítimas da chuva em Xerém (RJ) em janeiro. "Você faria o mesmo, Thiago", responde Zeca.

"Falei, tá falado", diz o sambista à coluna, questionado sobre críticas de quem discordou de suas declarações à Folha de que "não tem mais" Carnaval no Rio.

"Quis dizer que não tem mais blocos de embalo, como antigamente, que saíam três dias antes das escolas. Os de hoje são só multidão", afirma o cantor, de chinelo branco e bermuda preta.
Zico, Dudu Nobre e David Brazil também circulam pelo "espaço VIP" de Zeca.

No andar de baixo, Luana Piovani não comenta a alfinetada dada em Sabrina Sato no Twitter, três dias antes. "Não quero falar de fofoca."

Sobre Sabrina, rainha de bateria da escola campeã, a Vila Isabel, a atriz escreveu: "Tem a bunda da vida, mas não é a minha favorita, não. [] Para mim não adianta samba no pé e corpão. Tem que ter postura admirável". Depois, pediu desculpas.

Sabrina chega logo depois. Não cruza com Luana. "Ela é 100% da paz", diz Karina Sato, sua irmã e empresária.

Enquanto isso, o Salgueiro, quinto colocado no Carnaval carioca, canta na avenida do samba: "Se vacilar, cair na rede, vão criticar... O que é que tem?/ Vida de celebridade é um vai e vem".
Já na Copa do Mundo de 2014, a estrela, na opinião de Arnaldo Cezar Coelho, será o craque Neymar.

Mas o comentarista de arbitragem da Globo, que foi ao sambódromo depois de uma semana em Salvador, diz que outros nomes podem disputar o posto. "Quem sabe o Ronaldinho [Gaúcho] estará dando um show até lá?"

Um grupo de moças grita, em coro: "Gato, gato, gato!". E passa o ator José de Abreu, o Nilo de "Avenida Brasil".

Abreu, que vai se filiar ao PT em março, critica a Rede Sustentabilidade, legenda fundada por Marina Silva horas antes, em Brasília.

"A Marina está numa viagem de ego, quis fazer um partido só para ela. Eu, por exemplo, vou entrar no PT e propor ideias. Não vou fundar o Partido Zé de Abreu." (JOELMIR TAVARES, DO RIO)

LADEIRA ACIMA
O valor do condomínio pago por paulistanos que vivem em prédios aumentou 55% nos últimos quatro anos. A variação se deve a reforço na segurança, dissídio de funcionários, reajuste nas tarifas de água, energia elétrica e gás e as subidas nos valores dos contratos de manutenção e conservação de elevadores, portões e piscinas.

LADEIRA 2
A pesquisa foi realizada pela Lello, empresa de administração de condomínios, com base em prédios de 64 apartamentos, dois elevadores e média de sete funcionários cada um.

LADEIRA 2
Nos condomínios da zona norte, o valor da cota, que era de R$ 252 em 2008, passou para R$ 419 em 2012. Na zona oeste, subiu de R$ 309 para R$ 514. A zona leste teve a menor variação no período -de R$ 447 para R$ 639.

ÁLBUM
O encontro do PT que vai comemorar na quarta, 20, em SP, os dez anos de governo do partido, terá foto rara. Pela primeira vez, Lula, Dilma e José Dirceu vão aparecer lado a lado depois da condenação do ex-ministro no julgamento do mensalão.

ÁLBUM 2
É grande a expectativa entre dirigentes do partido de como Dilma aparecerá nas imagens com Dirceu -se sorrindo ou com a cara fechada que às vezes a presidente faz em cerimônia públicas.

PREGÃO DO ARMANI
Bens de lojas da Armani Exchange que foram fechadas estão à venda na internet. Uma televisão com o logo Giorgio Armani chegou na sexta a R$ 1.200 no leilão virtual. Uma vitrine portátil com neve artificial custa R$ 350. Um cofre sem chave não ultrapassou o lance de R$ 30.

GORDURA SATURADA
Lina Botero, filha do pintor colombiano Fernando Botero, afirma que o pai terá uma exposição individual no Brasil em 2013. "Deve ser no Masp", conta. O museu diz não ter negociado tal mostra até agora.

TATIT BARNABÉ
Treze músicas inéditas compostas por Luiz Tatit e Arrigo Barnabé vão dar origem ao show "De Nada Mais a Algo Além", no fim de março, no Sesc Vila Mariana. A apresentação será gravada em CD ou DVD. Lívia Nestrovski interpretará as canções.

CUBA É AQUI
Equipes de televisão dos EUA, do México e da Itália chegam hoje a Feira de Santana (BA) para acompanhar a visita da blogueira cubana Yoani Sánchez. Ela, que migrou para a Suíça em 2002 e retornou à ilha em 2004, sai do país após 20 tentativas nos últimos cinco anos.

Na quarta, Yoani irá a Salvador. Quer comer acarajé e conhecer pontos turísticos, como o Pelourinho.

VAI PASSAR NA AVENIDA
O publicitário Marcelo Sebá, a socialite Bethy Lagardère e a empresária Carin Mofarrej foram ao Sambódromo do Rio na semana passada para os desfiles das escolas de samba cariocas.

CURTO-CIRCUITO
A ministra da Cultura, Marta Suplicy, lança hoje, às 16h, o Vale-Cultura na Fecomercio-SP.

A nova diretoria do IASP (Instituto dos Advogados de São Paulo), com José Horácio Ribeiro à frente, toma posse às 19h, na Faculdade de Direito da USP.

A exposição "Oratórios Brasileiros - Objetos de Arte e de Fé" começa hoje no aeroporto internacional de Quito, no Equador.

Kate Moss confirmou presença no Baile da amfAR, dia 5 de abril, em São Paulo. Sharon Stone e Dita Von Teese também irão.

O 24º Congresso Brasileiro de Psicanálise será entre 25 e 28 de setembro, em Campo Grande (MS), com o tema "Ser Contemporâneo: Medo e Paixão".

Candidatura própria já - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 18/02

Em sua primeira reunião do ano, anteontem, a direção do PT-SP se insurgiu contra a tese de ceder ao PMDB a cabeça de chapa na eleição para o governo. Aliados de Lula e o presidente nacional do partido, Rui Falcão, defendem a ideia. Dirigentes lembram da transferência do domicílio eleitoral de Ciro Gomes para São Paulo, em 2009, para evitar que a sigla pague novamente o preço pela estratégia nacional. "Só a candidatura própria unifica o PT", diz um grão-petista.

Memória seletiva O mesmo grupo lembra que Falcão criticou o PT de São Paulo no passado pela "paralisia", enquanto aguardava a decisão de Ciro de entrar ou não na disputa pelo governo em 2010.

Bloco na rua Para mobilizar seus pré-candidatos ao Bandeirantes e neutralizar a articulação com os peemedebistas, o PT-SP aprovou maratona de dez caravanas pelo interior e na Grande São Paulo, sempre aos sábados. A primeira está marcada para 6 de abril, em Campinas.

Preliminar Também foram programados três grandes encontros estaduais, em maio, agosto e setembro, nos quais participarão prefeitos e vices petistas.

Falou demais Ao reconhecer que uma ala do PT defende a troca de Michel Temer por Eduardo Campos em 2014, como ventilou o ex-presidente Lula, Gilberto Carvalho irritou o vice-presidente da República. Temer se queixou das declarações do ministro da Secretaria-Geral da Presidência à própria Dilma.

Quaresma Para evitar novos desgastes com o PMDB, principal sócio da aliança petista, emissários do Planalto confirmam que Carvalho foi aconselhado a se abster de comentar a política partidária.

Na costura Garibaldi Alves (PMDB), ministro da Previdência, deverá disputar o governo do Rio Grande do Norte. Na campanha, ele apoiará a candidatura da atual deputada federal Fátima Bezerra (PT-RN), que disputará o Senado.

Ultimato A chapa encabeçada pelo ministro selará o rompimento com o DEM em seu Estado, uma cobrança da presidente Dilma.

Amizade... A carta em que Eduardo Campos (PSB) aplaude a nova sigla de Marina Silva foi entregue por Sérgio Xavier, secretário de Meio Ambiente de Pernambuco, que liderou comitiva de 25 representantes do Estado no evento dos sonháticos.

... ou namoro? O governador diz a interlocutores que gostaria de ter a ex-senadora como vice em eventual chapa ao Planalto em 2014, caso a Rede não se viabilize legalmente até outubro.

Ampulheta Aliados de Marina têm alertado que quem tem voto só migrará para a Rede com garantia de alguma estrutura em 2014.

Artesanal No lançamento do partido, a ex-senadora propôs que pendurassem fitas de Möbius pelo salão como um símbolo da sigla. Usada pela artista Ligia Clark, a fita "quebra nossos hábitos espaciais, direita e esquerda, anteverso e reverso".

Companheiros Além de Domingos Dutra (MA) e Eduardo Suplicy (SP), a também petista Serys Slhessarenko (MS) compareceu ao evento.

Quórum Preocupou a ausência de puxadores de voto como Reguffe (PDT-DF), Alessandro Molon (PT-RJ) e Ricardo Tripoli (PSDB-SP).

Veja bem Contrariando relatos, Mario Covas Neto nega que disputará a presidência do PSDB paulistano.

tiroteio
SP sofre com as enchentes, e o prefeito não aparece nem para prestar solidariedade às vítimas. Haddad submergiu com a cidade.
DO VEREADOR GILBERTO NATALINI (PV), sobre a conduta do prefeito ante as consequências dos temporais que atingem a capital desde quarta-feira.

Contraponto


Ai, que gostoso!


No último dia do feriado de Carnaval, em São Miguel do Gostoso (RN), a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) participou de um jantar em que estavam políticos do PT e a prefeita da cidade, Fátima Dantas (PMDB).
Depois do café, a ministra posou ao lado da prefeita e fez um pedido:
-Agora, mandem a foto para o Henrique [Henrique Alves (PMDB)], com meu apreço.
A prefeita respondeu com outra brincadeira. Presenteou Ideli com dois gostosos, a moeda local criada para fazer com que o dinheiro circule só na cidade.


Santa desigualdade - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO

O Estado de S.Paulo - 18/02

Como faz há séculos e séculos, um colégio humano escolherá o representante divino. À parte o paradoxo, o grupo de 117 cardeais tem mais problemas de representatividade do que o Senado brasileiro. O catolicismo não é nem pretende ser uma democracia, mas se o futuro ex-papa quisesse de fato reformar a Igreja deveria ouvir os números. Eles têm muito a confessar.

A Itália, sozinha, tem 28 votos no conclave que elegerá o novo papa, cinco a mais do que toda a América Latina e Caribe juntos. São menos de 58 milhões de italianos católicos contra quase 500 milhões de fiéis latino-americanos e caribenhos. Para quem tem problemas para segurar seu rebanho, a estratégia de alocação de pastores da Igreja parece mais brasiliense do que celeste.

A abdicação e os sermões subsequentes fazem parecer que o papa está descontente com o rumo da Igreja. Mas, a despeito de sua infalibilidade, ele orientou-a nesse caminho. A desigualdade na distribuição de poder eclesiástico aumentou sob Bento XVI.

Nada como estar perto do trono. Enquanto os italianos envolvem o Vaticano por todos os lados, os países que estão a um oceano de distância da Santa Sé têm que purgar os pecados para um seu nativo poder vestir o vermelho. No conclave que elegerá o sucessor de Ratzinger, a Itália terá oito eleitores a mais do que teve na escolha de Bento XVI - e a América Latina, um a menos.

Dos 67 cardeais nomeados pelo papa que abdica, 37 eram europeus (dos quais, 20 italianos) e 9, norte-americanos e canadenses. Só um terço das nomeações foi para o resto do mundo, onde vivem dois de cada três católicos. Pode-se argumentar que Bento XVI só preencheu as vagas que já existiam, mas isso significa que ele perdeu a chance de realocá-las para regiões emergentes, onde uma ação mais agressiva poderia repovoar os bancos das igrejas.

A política papal foi eurocêntrica e de manutenção do status quo. Nada fez para mudar o desequilíbrio entre número de fiéis e sua representação na mais alta instância de poder da Igreja.

Cada cardeal brasileiro, por exemplo, representa 14 vezes mais católicos do que um italiano, na média. É a tradição, dirão os tradicionalistas. É questão de fé acreditar que, como reza o Direito Canônico, os cardeais sejam nomeados apenas por serem "notáveis pela doutrina, piedade e prudência". A inquisição das estatísticas sugere que geografia e dinheiro falam mais alto.

Países cujas paróquias arrecadam dólares e euros têm proporcionalmente mais cardeais. Talvez porque sejam capazes de sustentá-los. Cada um dos 11 cardeais dos EUA representa menos de 6 milhões de católicos, enquanto cada um dos três cardeais mexicanos está à frente de mais de 40 milhões de almas.

As iniquidades encheriam uma catedral. O único cardeal filipino pastoreia quase 70 milhões de fiéis. Angola tem mais católicos que Portugal, mas nenhum cardeal, contra dois portugueses.

Os dois últimos papas eleitos foram os primeiros não italianos em 500 anos, mas tanto o polonês quanto o alemão vieram de países com super-representação de cardeais. Os seis da Alemanha representam pouco mais de 4 milhões de católicos cada um, e os quatro da Polônia, menos de 9 milhões por barrete. Na média mundial, há um cardeal para cada 10 milhões de católicos.

As confissões estatísticas sugerem que a reforma do poder católico - pregada por Bento XVI após ter pedido para sair - passa por uma política de cotas cardinalícias. Sem mudar sua geopolítica, a Igreja dificilmente sairá de onde está. A maioria das pessoas vai a Roma e não vê o papa, nem o segue no Twitter.

Saias e batinas. Mulheres nas Eleições de 2010 é uma pesquisa de mais de 500 páginas sobre a participação feminina nos pleitos para presidente, governador, senador e deputado. Apesar de terem crescido as candidaturas de mulheres para cargos proporcionais, elas continuam com dificuldade para se lançar ao Senado e ao governo. Uma das razões é o Clube do Bolinha nas direções partidárias. Mas empecilho maior é o dinheiro: candidatas mulheres arrecadaram até 45% menos do que os rivais homens.

Arrecadação não é um problema apenas dos cardeais do Terceiro Mundo.

Cotas universitárias. Segundo o Ibope, 62% dos brasileiros são a favor de cotas para facilitar a entrada de negros, pobres e alunos de escolas públicas nas universidades. Especialistas contrários às cotas argumentam que o apoio grande é reflexo do desejo genérico de diminuir a desigualdade social, não uma defesa ponderada das cotas. Pode ser. Ou talvez seja porque a maioria ainda é de excluídos. O apoio cresce na razão inversa da renda.

O Wei Qi da política - DENISE ROTHENBURG


CORREIO BRAZILIENSE - 18/02

Vem da cultura chinesa a estratégia de Renan Calheiros, Henrique Eduardo Alves e da própria presidente Dilma Rousseff para evitar que adversários se criem nos próximos meses a ponto de lhes impor derrotas. Para isso, vão trabalhar o terreno político a partir de hoje como quem se dedica a uma longa partida de Wei Qi. Trata-se de um jogo de tabuleiro chinês, em que o objetivo é cercar o adversário para capturar suas pedras e impedir que ele se movimente. É nesse sentido que o PT agirá nos próximos meses no sentido de evitar o crescimento dos potenciais adversários. O mesmo farão os peemedebistas para assegurar suas posições. Imperadores chineses e até seus governantes do século passado usaram muitas estratégias do jogo para assegurar a integridade do território e afastar visitantes indesejados.

Os primeiros movimentos virão do tabuleiro de Renan e Henrique. Os lances de cada um serão dados hoje, na largada da escolha das comissões técnicas e outros cargos. Uma das peças é João Alberto Souza (PMDB-MA), movido para o Conselho de Ética do Senado. Outra é Vital do Rêgo (PMDB-PB), futuro presidente da Comissão de Constituição e Justiça. No caso da Câmara, Henrique comandará hoje a distribuição das comissões técnicas seguindo a proporcionalidade, para não criar dissabores que possam lhe causar constrangimentos futuros em plenário.

Quanto à briga a respeito do procurador-geral, Roberto Gurgel — aquela em que o senador Fernando Collor solicita que ele seja investigado e o senador Pedro Taques (PDT-MT) defende Gurgel —, a intenção de Renan é jogar para tirar essa pedra do tabuleiro adversário, ou seja, não levar o assunto adiante agora. O presidente do Senado tem plena consciência de que a inclusão do nome de Gurgel como um “tema da Casa”, conforme definiu um senador aliado a Renan, pode terminar lhe causando ainda mais desgaste. Portanto, passada uma semana, a sensação geral é a de que essa história não terá desdobramentos.

Paralelamente às comissões, ambos jogarão com tudo para tentar votar logo o Orçamento e garantir que tudo funcione no parlamento sob o comando total do PMDB. Afinal, com o texto aprovado, passa-se à apreciação dos vetos, um tema do qual o Congresso não tem mais como escapar, quer o governo goste ou não. E será nessas votações que a presidente Dilma Rousseff mais terá dores de cabeça. A oposição trabalha dia e noite para colocar em pauta apenas os temas mais difíceis para o governo — leia-se a distribuição dos royalties do petróleo e a Emenda 29. E, assim, o baú no qual o governo espera retirar os recursos para as vistosas obras de infraestrutura vai ficando cada vez mais vazio.

Enquanto isso, no PT…

Da parte dos petistas, dois tabuleiros de Wei Qi estão em movimento. O congressual consiste em cercar todas as comissões que possam influenciar na economia. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, por exemplo, já está praticamente reservada para o senador Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, aliado de primeira hora da presidente Dilma. Na Câmara, além das comissões econômicas, a ordem do PT é tentar conquistar ainda a de Relações Exteriores, de forma a evitar que a oposição use esse colegiado como uma caixa de ressonância para propagandear os defeitos do governo pelo mundo afora. A área de relações exteriores é considerada de fundamental importância para que se possa atrair investimentos externos.

Paralelamente ao Congresso, os petistas abrem o tabuleiro da sucessão no início da noite de quarta-feira, quando reunirão Dilma e o ex-presidente Lula para comemorar os 10 anos de governo do partido. Nos meandros da base aliada, há uma insatisfação com o evento, porque muitos consideram que, na hora de falar das realizações, o governo é só do PT. No momento de chorar mazelas, a culpa é dividida com os demais aliados. É o partido de Lula lutando para ver se assim consegue “cercar” os parceiros, a fim de evitar que eles ganhem asas e adotem projetos alternativos. Nesse Wei Qi, os petistas não veem apenas o PSDB do senador Aécio Neves, de Minas Gerais, como adversário.

No lado oposto, eles enxergam ainda o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Como diz o deputado Devanir Ribeiro, do PT paulista, “Eduardo tem o direito de ser candidato. Mas deve saber que o mesmo risco que corre o pau, corre o machado”. Essa partida, como aquelas que reúnem os grandes mestres chineses e coreanos, certamente não acabará nem tão cedo.

Por falar em Eduardo…

O governador de Pernambuco não irá ao evento do PT em São Paulo, porque a missa de sétimo dia da morte do ex-ministro da Justiça Fernando Lyra será às 19h30 desta quarta-feira, no Colégio Salesiano do Recife. Amigo da família e companheiro de tantas lutas de Lyra, o governador não pode deixar de comparecer à missa. Na festa petista, Eduardo será representado pelo vice-presidente do PSB, Roberto Amaral, e enviará uma mensagem parabenizando Lula e Dilma.

Fernando Lyra - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 18/02

Fernando Lyra foi um dos melhores homens públicos do Brasil contemporâneo.

Conheci-o nos primeiros dias do governo de Tancredo, em Minas, quando ficamos amigos. Testemunhei sua dedicação à causa nacional naquele trecho de história, que nos devolveu a soberania sobre o Estado brasileiro.

Tancredo tinha amigos e correligionários. Mas também alguns poucos correligionários a quem ele dedicava afetuosa amizade. Lyra era um deles. Lembro-me de como gostava da sonora gargalhada de Fernando e como se divertia com as interjeições próprias do sertanejo que ele era, quando uma notícia o espantava. Qualquer que fosse a dificuldade do momento, o seu otimismo intransigente amenizava a conjuntura negativa.

Ele teve papel fundamental no processo político que garantiu a reconquista da democracia no país. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, foi preciso mudar o campo de batalha, para que nos mantivéssemos fiéis à causa da reconstrução democrática.

Lyra dedicou horas a fio em conversas com membros do Colégio Eleitoral, procurando convencê-los de que o Brasil vivia uma nova hora. Enquanto as ruas gritavam o nome de Tancredo, Fernando o sussurrava, nos corredores do Congresso e nos encontros que varavam noites. Assim, foi construindo uma sólida base para que se cumprisse o que ele antevia -o fim da longa noite do regime de exceção e o amanhecer de um novo tempo.

Alguns dias antes da posse incumbiu-me o presidente eleito de convocar os que seriam convidados para compor o ministério para um encontro reservado na Granja do Riacho Fundo, em Brasília. Nunca me esquecerei da grande emoção com que Fernando Lyra recebeu o convite para a pasta da Justiça. Tancredo lhe disse: "Olha, Fernando, o tamanho de sua responsabilidade. Você vai assumir o meu ministério!"

O presidente se referia à circunstância histórica que o levara a assumir, praticamente com a mesma idade de Fernando, o Ministério da Justiça no governo Vargas. Tancredo sabia que não faltavam juristas consagrados para o cargo, mas carregava consigo a plena consciência de que, nas circunstâncias difíceis da transição, precisava ter ao seu lado homens leais ao país, providos de coragem e conscientes da sua responsabilidade histórica.

Com profundo compromisso com o Brasil, Lyra acabou com a censura e emprestou seu talento para aplacar ensaios de crises que poderiam colocar em risco os rumos da novíssima República fundada. Ponderava e defendia os avanços que estavam sendo gestados sem jamais transigir no principal -nos valores que uniram os brasileiros e líderes de diferentes tendências em torno da causa da liberdade.

O Brasil perdeu um dos artífices de sua história.

Como afastar investimentos - CLÁUDIO J. D. SALES

O ESTADO DE S. PAULO - 18/02

Os episódios ao redor do processo de reno­vação de concessões do setor elétrico im­plementado pela Medida Provi­sória (MP) 579/2012 - converti­da na Lei n.° 12.783/2013 - mar­cam o descompasso entre o dis­curso de atrair investimentos no setor e a prática. Foram documentados vários episódios que deram péssimos sinais a quem planeja investir e, principalmen­te, a quem já provou que acredita no Brasil e já investiu bilhões de reais.

Improviso, desrespeito a ri­tuais regulatórios, cálculos e re­gras sem referências técnicas só­lidas e, mais recentemente, con­flitos e contradições dentro do próprio governo federal colo­cam sob suspeita a clareza e a de­terminação do governo em ga­rantir o ambiente para que os in­vestimentos no setor elétrico aconteçam.

E que não paire nenhuma duvi­da: tais investimentos terão de contar com intensa participação privada porque o populismo tari­fário imposto pelo governo às es­tatais sob seu controle asfixiou a capacidade de geração de caixa da Eletrobrás. Para um pais que precisa garantir energia para seu crescimento econômico, é difí­cil entender até quando o setor será vencido por interferências políticas que vêm destruindo a capacidade de investimento das empresas.

Durante anos, o governo disse que a renovação de concessões do setor elétrico não requeria pressa, mas, paradoxalmente, emitiu uma medida provisória elaborada a portas fechadas e sem audiência pública, ritual consagrado no setor elétrico e que tem sido adotado mesmo pa­ra decisões muito menos relevan­tes. Além do diálogo tratorado, prazos irrealistas para a análise dos parlamentares e das empre­sas, 431 emendas a MP 579 no Congresso Nacional (também tratoradas pelos aliados do go­verno) e tarifas definidas com ba­se em notas técnicas que nem se­quer foram aprovadas pela dire­toria da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).

Além do processo impositivo, o conteúdo foi uma demonstra­ção perfeita de como afastar in­vestimentos: tarifas artificial­mente baixas e indenizações que desconsideravam, sem ne­nhuma justificativa técnica, in­vestimentos em melhorias reali­zados após a entrada em opera­ção comercial das usinas hidre­létricas e que não reconheciam investimentos em instalações de transmissão realizados antes de 2000.

O improviso continuou até o final, e apenas em 29 de novem­bro - um dia útil antes do fim do prazo para a assinatura dos aditi­vos contratuais - o governo re­verteu (via nova medida provisó­ria) tais exciusões arbitrárias, e sem sustentação técnica ou eco­nômica. Também admitiu erros em cálculos iniciais e corrigiu (via Portaria Interministerial MME/MF 602) o valor da indeni­zação de diversas hidrelétricas.

Até o último dia o governo pressionou as empresas a aceita­rem os termos propostos, inclu­sive com ameaças do diretor-geral da Aneel - que vestiu sem pu­dores a camisa do governo, es­quecendo-se de que sua função de Estado o obriga a se distanciar de pressões de governo para se blindar de interferências políti­cas - na linha de que empresas que não aceitassem a prorroga­ção antecipada nas condições propostas poderiam vir a ser bar­radas do processo licitatório a ser realizado posteriormente.

Como se os episódios acima não bastassem para revelar o ti­po de vaivém que não pode exis­tir num setor de infraestrutura, agora, e após a assinatura dos adi­tivos dos contratos de conces­são, a insegurança retorna: a Receita Federal tem indicado que pretende tributar as indeniza­ções com a incidência de Impos­to de Renda/Contribuição So­cial sobre o Lucro Líquido (CSLL) e PlS-Cofins, em contra­dição com a prática regulatória e com o que foi acordado com o Ministério de Minas e Energia, pasta que precisa garantir inves­timentos para a expansão da oferta de energia.

Após os desgastantes meses de tramitação da MP 579, as em­presas já se preparavam para um novo ciclo de planejamento cheio de desafios em razão dos abalos na geração de caixa. A ameaça tributária acima - que não foi incorporada as simula­ções feitas para subsidiar a aceita­ção dos termos de renovação - desconfigura o perfil econômico dos contratos, porque as indeni­zações calculadas não considera­ram a incidência de tais tributos.

Se o governo federal insistir nessa tributação, a única forma de restabelecer o equilíbrio econômico-financeiro original é in­crementar as receitas indeniza- tórias para compensar a tributa­ção não prevista inicialmente.

As indenizações representam o pagamento por investimentos passados ainda não integralmen­te remunerados. Se tais indeniza­ções forem tributadas, reduz-se o valor delas, configurando expropriação de investimentos - um sinal nada animador para quem pensa em investir no País. Além disso, a agenda arrecadatória não fazia parte dos objetivos tão propagados pelo governo e pela própria presidente da Repú­blica com a MP 579: baixar tarifas e garantir investimentos, afas­tando o fantasma do raciona­mento de energia.

O governo precisa decidir qual é a sua prioridade: um aumento momentâneo da arrecadação ou a construção de um ambiente ins­titucional capaz de atrair investi­mentos de longo prazo.

Cínico - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 18/02
"Não seremos nem oposição nem situação a Dilma."
MARINA SILVA, sobre o partido pelo qual será candidata a presidente


Há limite para tudo - até mesmo para os direitos fundamentais das pessoas. Por exemplo: você é livre para dizer o que quiser. Mas você não pode dizer tudo o que queira. Â lei considera crime determinadas coisas. Ela também deveria punir quem abusa do cinismo - e por abusar; ofende a sociedade. Foi o caso recente de Renan Calheiros (PMDB-AL), há pouco eleito presidente do Senado. Abusou de ser cínico.

UM MANIFESTO que pede o impeachment de Renan é o sucesso do momento nas redes sociais. Atraiu até agora mais de um milhão e meio de assinaturas. No dia em que for encaminhado ao Senado, seu destino será a lata do lixo. Milhares de assinaturas obrigam o Congresso a examinar propostas de leis ordinárias, mas o afastamento de um dos seus dirigentes... Esqueça. Não me pergunte por que é assim. Simplesmente é.

O CONGRESSO, que em 2007 absolveu Renan contra todas as evidências de que prevaricara, jamais o condenará. A cara do Congresso e igual ao focinho de Renan. Expressiva fatia dos votos que elegeu Renan presidente do Senado pela segunda vez tem a ver com a tranqüilidade que ele inspira aos seus pares. Quem esteve com a cabeça a prêmio tudo fará para que seus camaradas sejam poupados de experiência tão angustiante.

RENAN GOVERNARÁ o Senado por dois anos. E talvez por mais dois. Enquanto ali estiver, respirem em paz os senadores que temem ser alvo de uma ação mo-ralizadora de origem interna ou externa. O controle que Renan exerce sobre o Senado é acachapante. O corregedor do Senado, encarregado de zelar pelo bom comportamento dos senadores, será uma figura da inteira confiança de Renan.

A PRESIDÊNCIA DO Conselho de Ética caberá a outro homem de confiança de Renan. Ou do PT, o que não fará diferença. Só terá assento ali quem representar a sólida garantia de que defenderá Renan acima de qualquer coisa, bem como todos òs que desfrutem da condição de aliados fiéis dele. No passado, acusado de quebra de decoro, Renan foi condenado pelo Conselho de Ética e absolvido pelo plenário. A história não se repetirá.

PORTANTO, TUDO bem até aqui e a perder de vista - para Renan, os seus e aqueles que não se importam com essa coisa comezinha chamada ética. Tudo bem, nada! Mas o que fazer se o Congresso (Câmara dos Deputados e Senado) está todo dominado? Nem mesmo isso, contudo, assegura a Renan o direito de ser cínico. Excessivamente cínico. Abusivamente cínico. Descaradamente cínico. Insolentemente cínico.

PREFIRO "INSOLENTEMENTE" cínico. Lembra-me um professor do curso ginasial que bradava com os alunos: "Não sejam insolentes" Pois Renan foi ao comentar o pedido de impeachment dele. Primeiro chamou de "lícita e saudável" a mobilização na internet para recolher mais assinaturas contra ele. Depois subverteu seu significado. Disse que a mobilização tem por objetivo tomar o Congresso mais ágil e preocupado com os cidadãos.

POR FIM, desdenhou do movimento. "O número de assinaturas não é tão importante quanto a mensagem" E lembrou que fora líder estudantil. E que também se valerp de todos os meios para obter o que desejava. O número de assinaturas é tão ou mais importante, sim, do que a mensagem. Se não fosse grande jamais Renan comentaria o assunto. Nada há de estudantil na iniciativa.

O COMENTÁRIO atende à recomendação de assessores para que Renan não pareça presunçoso. Presunçoso? Taí uma coisa que ele definitivamente não parece. Em compensação... Deixa pra lá.

Cadastro positivo - MELCHIADES FILHO

FOLHA DE SP - 18/02

BRASÍLIA - Interessado em adiantar o calendário eleitoral e fixar um slogan de apelo popular, o governo federal põe em risco a credibilidade da principal ferramenta de inclusão social que ele ajudou a implantar.

Criado sem alarde em 2001, o Cadastro Único hoje traz os dados de 70 milhões de pobres e miseráveis.

Permite não apenas localizar essas pessoas para o repasse de dinheiro -como o Bolsa Família. Mas também monitorar a frequência escolar das crianças, mapear carências e demandas de saúde e prospectar empregos ou outras oportunidades de inserção em cadeias produtivas.

A montagem do cadastro foi um sinal de vitalidade da gestão pública. Quebrou a lógica perversa das repartições. O Estado foi em busca do cidadão, e não o contrário.

Contribuindo para vigiar e depurar as informações, prefeituras e governos de Estado têm o direito de consultar a base digitalizada, assim como pesquisadores do assunto.

Mas, como todo arquivo vivo, que dirá num país de dimensão continental e tantas vulnerabilidades, o Cadastro Único não é perfeito. Exemplo disso é a recente "descoberta", pelo Ministério do Desenvolvimento Social, de 2,5 milhões de miseráveis até então ignorados pela lista.

O critério de pobreza extrema também é questionável. O teto da renda mensal per capita foi cravado em R$ 70 -se ganhar R$ 71, o sujeito não é mais miserável. Mais: tal valor permanece congelado desde 2009. Se ajustado pela inflação, estaria agora na casa de R$ 90.

Por isso, será licença estatística, senão mentira deslavada, anunciar que "acabou a miséria no país", como Dilma Rousseff ensaia fazer ainda neste ano. O governo conhece de perto as limitações do Cadastro Único. Sabe que a linha de indigência, além de tênue, está defasada.

Por isso, também, o Planalto deveria corrigir a métrica dos programas sociais antes de decretar o fim do ciclo de estímulos ao consumo.

As 'quase favelas rurais' - EDITORIAL O ESTADÃO


O ESTADO DE S. PAULO - 18/02


A constatação, pelo ministro da Secretaria-Geral da Pre­sidência da Repú­blica, Gilberto Carvalho, de que assentamentos de trabalhado­res sem-terra feitos pelo Institu­to de Colonização e Reforma Agrária (Incra) transformaram-se em "quase favelas rurais" é contundente, mas também de uma exatidão acima de qual­quer dúvida. Como não podia deixar de ser, ela provocou du­ras críticas dos principais interessados no aumento do ritmo desses assentamentos. Alexan­dre Conceição, da coordenação nacional do Movimento dos Sem-Terra (MST), retrucou que a expressão é o mero reconhecimento de que o governo Dilma Rousseff não os apoia. "O termo favela rural é extre­mamente pejorativo e irrespon­sável", disse Willian Clementino, secretário de Política Agrá­ria da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultu­ra (Contag). Este acrescentou que a vida dos assentados não é fácil, mas eles não podem ser comparados com favelados, pois, ao se tornarem donos das terras, deixam de depender de programas sociais desde que te­nham acesso à assistência técni­ca e crédito de produção.

A redução do ritmo da desa­propriação de terras para servi­rem de assentamento a sem-ter­ra é óbvia: de acordo com o In­cra, nos dois primeiros anos de governo, o ex-presidente tuca­no Fernando Henrique assen­tou 105 mil famílias. Tendo re­cebido o apoio dos movimen­tos sociais à sua eleição, seu su­cessor, Luiz Inácio Lula da Sil­va, do PT, ultrapassou essa mar­ca, tendo assentado em igual pe­ríodo de gestão 117,5 mil. Até agora, o governo Dilma está mantendo uma média de 22.552 famílias assentadas por ano, mais ou menos um terço da mé­dia dos dois governos anterio­res: 67.588 no primeiro e 76.761 no segundo. Esta queda acom­panhou a diminuição do núme­ro de invasões: em 2012, a Ouvi­doria Agrária Nacional regis­trou 176 invasões de terra no País. Durante os dez anos sob Lula e Dilma, 2.344 proprieda­des rurais foram invadidas, um total inferior às 2.462 nos oito anos da gestão tucana.

Encarregado pela chefe de tratar com os movimentos so­ciais, o ministro Carvalho reco­nheceu o aumento de tensão no setor por causa da redução do índice de assentados na se­gunda metade do segundo go­verno Lula e na primeira do go­verno Dilma. "Há, de fato, uma questão muito séria: nós não po­demos fazer mais assentamen­tos em terras que não têm con­dições de permitir o desenvolvi­mento de uma agricultura que tenha viabilidade naquela re­gião", disse ele. A constatação é confirmada pelo especialista Jo­sé Maria Silveira, da Unicamp. Segundo ele, o governo enfren­ta o problema da valorização da terra, motivada pela rentabilida­de crescente da agricultura. A maioria dos assentamentos fica nas Regiões Norte e Nordeste, onde a má qualidade do solo e do clima dificultam o cultivo. "No Ceará, no lugar de explorar babaçu, assentados cortaram as árvores para vender para cons­trução civil, porque não conse­guiam explorar de forma sus­tentável. Muitos assentados desmatam e criam gado, por­que é mais fácil vender um ani­mal", explicou o professor.

"Só terra não resolve o pro­blema. A desapropriação é um grande passo, mas precisa ser acompanhada de um conjunto de medidas, de infraestrutura e assistência técnica e compra da produção", reclamou Concei­ção, do MST. Ainda que ele te­nha razão, a tarefa de segurar o homem na terra, principalmen­te o jovem, é hercúlea, se não impossível, para o governo en­frentar. No Rio Grande do Sul, onde a terra é mais fértil que no Norte e no Nordeste, o Incra calcula que 70% dos descenden­tes de assentados não ficam no campo. O MST e a Contag exi­gem medidas urgentes para evi­tar o esvaziamento da força de trabalho. Seria remar contra uma maré poderosa: de 2000 a 2010, segundo o IBGE, a popu­lação rural brasileira diminuiu 6% e a urbana cresceu 17%.

O freio determinado por Dil­ma para criar assentamentos, reconhecido pelo ministro Car­valho, obedece à lógica mais ra­cional. Em vez de criar novos assentamentos, é preferível adotar programas de desenvol­vimento agrícola para os exis­tentes e incentivar o agronegócio, que está longe de ser uma "ilusão", como Conceição, do MST, diz que é.