FOLHA DE SP - 12/02/12
Podem piratear bolsa, celular, laptop, mas bueiro explosivo é nosso. Copirraite! Rarará!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Faltam cinco dias pro Carnaval. A Grande Festa da Esculhambação Nacional! Adorei a Angela Bismarchi: "Para o Carnaval, vou fazer plástica pra ficar com o sorriso da Mona Lisa". Mona Lisa? Mas a escola dela tá homenageando Portinari! Rarará! Essa já fez tanta plástica que tá fazendo xixi pelo sovaco. Virou um OSNI! Objeto Sexual Não Identificado.
E a Geisy Arruda vai se fantasiar de gueixa indiana: "Vou sair de gueixa para ressaltar a beleza da mulher indiana". Pode, Arnaldo? Rarará! E as peladas são as mesmas do ano passado. Só que um ano mais velhas! E o peito dez vezes maior! Precisa de luva de beisebol pra pegar! Se um peito desse estoura, vai ter luta de gel na avenida. Rarará!
E olha o e-mail que recebi: "Que a greve da PM não chegue aqui ao Paraná pra estragar o Carnaval. A folia em Curitiba é imperdível". E a semana da piada pronta: "Vereador pede atestado falso no Facebook pra ver o futebol". Como é o nome dele? Julião Sobota. Sobota no nosso!
E esta: "Prefeitura de Belford Roxo emite boleto de IPTU para casa de boneca". Deve ser a casa da Brunete Fraccaroli, aquela barbie de "Mulheres Ricas"!
E esta outra: "Rubinho promete ser RÁPIDO na decisão da ida pra Indy". Aliás, a Fórmula Indy é o sonho de todo paulista: correr na marginal. Porque paulista usa quatro marchas: parado, paralisado, ponto morto e puto da vida. E mais essa: "Tampa de bueiro explode na cara de um homem na China". Não pode. Isso é pirataria! Tão pirateando bueiros explosivos. Podem piratear bolsa, celular, laptop, mas bueiro explosivo é nosso. Copirraite!
E a manchete do Piauí Herald: "Dilma privatiza o PMDB". E diz que ela vai privatizar o PMDB, a PM, Cuba, Irã e o Enem!
Blocos 2012! Direto de Olinda: Já que Tá Dentro, Deixa!. Isso! Deixa. É Carnaval. E no Rio uns corretores fizeram o bloco Os Imóveis!. Rarará! E este do Rio: É Mole, Mas É Meu! Isso que é autoestima! E direto de Maricá: Vai, Vomita e Volta. Isso. Esse vai ser o meu slogan pro Carnaval: Vai, Vomita e Volta.
E o meu slogan pro Carnaval da Bahia: Viva a Pipoca! Abaixo o Pipoco! Como disse o Max Castro: troca de posto na Bahia, sai o Prisco e entra o Psirico. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
domingo, fevereiro 12, 2012
“chutzpah” - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 12/02/12
Um exemplo extremo do que os judeus chamam de “chutzpah” é o cara que mata o pai e a mãe e no tribunal pede clemência para um pobre órfão. “Chutzpah” é algo que ultrapassa o cinismo e provoca até uma certa admiração pela audácia. Se houvesse um prêmio para a “Chutzpah do Ano” de 2012 o vencedor já estaria decidido, pois ninguém poderia concebivelmente igualar o primeiro ministro britânico David Cameron este ano. Quando Cameron chamou de “colonialista” a pretensão da Argentina de incorporar as ilhas Malvinas, Falklands para os ingleses, ao seu território, estabeleceu um novo parâmetro para o “chutzpah” que humilha até o do órfão que pede clemência. As ilhas Falklands são os últimos farelos do maior sistema colonial que o mundo já conheceu. Um sistema que levou a espoliação comercial, a prepotência e a morte – junto com o parlamentarismo, o críquete e o chá com bolinhos – a todos os limites da Terra, e ainda se apegava aos seus domínios, muitas vezes por puro orgulho imperial, quando outras potências coloniais já tinham desistido. Se há alguém que não pode xingar ninguém de colonialista é um inglês. Pelo menos não sem corar.
Você não precisa torcer pela Argentina para lamentar os ingleses no caso das Malvinas/Falklands. Ou vice-versa. As barbaridades de lado a lado se equivalem. A tentativa de tomada das ilhas pelo governo militar argentino de 1982 – decidida, segundo o folclore, durante uma bebedeira do general Galtieri – foi uma aventura desastrada, tornada ainda mais trágica pela desproporção de forças. As consequências da aventura também se equilibram. A derrota humilhante decretou o fim do regime militar argentino. A vitória fácil decretou a reeleição da Margaret Thatcher na Inglaterra. Entre os quase mil mortos argentinos e ingleses na rápida guerra, as razões geopolíticas e eleitorais para o seu sacrifício não fizeram nenhum sentido.
Num plebiscito, a população das ilhas certamente escolheria continuar fazendo parte do Reino Unido. Este é o principal argumento inglês para continuar lá. Tudo bem. Mas o David Cameron poderia ter ao menos corado um pouco.
Um exemplo extremo do que os judeus chamam de “chutzpah” é o cara que mata o pai e a mãe e no tribunal pede clemência para um pobre órfão. “Chutzpah” é algo que ultrapassa o cinismo e provoca até uma certa admiração pela audácia. Se houvesse um prêmio para a “Chutzpah do Ano” de 2012 o vencedor já estaria decidido, pois ninguém poderia concebivelmente igualar o primeiro ministro britânico David Cameron este ano. Quando Cameron chamou de “colonialista” a pretensão da Argentina de incorporar as ilhas Malvinas, Falklands para os ingleses, ao seu território, estabeleceu um novo parâmetro para o “chutzpah” que humilha até o do órfão que pede clemência. As ilhas Falklands são os últimos farelos do maior sistema colonial que o mundo já conheceu. Um sistema que levou a espoliação comercial, a prepotência e a morte – junto com o parlamentarismo, o críquete e o chá com bolinhos – a todos os limites da Terra, e ainda se apegava aos seus domínios, muitas vezes por puro orgulho imperial, quando outras potências coloniais já tinham desistido. Se há alguém que não pode xingar ninguém de colonialista é um inglês. Pelo menos não sem corar.
Você não precisa torcer pela Argentina para lamentar os ingleses no caso das Malvinas/Falklands. Ou vice-versa. As barbaridades de lado a lado se equivalem. A tentativa de tomada das ilhas pelo governo militar argentino de 1982 – decidida, segundo o folclore, durante uma bebedeira do general Galtieri – foi uma aventura desastrada, tornada ainda mais trágica pela desproporção de forças. As consequências da aventura também se equilibram. A derrota humilhante decretou o fim do regime militar argentino. A vitória fácil decretou a reeleição da Margaret Thatcher na Inglaterra. Entre os quase mil mortos argentinos e ingleses na rápida guerra, as razões geopolíticas e eleitorais para o seu sacrifício não fizeram nenhum sentido.
Num plebiscito, a população das ilhas certamente escolheria continuar fazendo parte do Reino Unido. Este é o principal argumento inglês para continuar lá. Tudo bem. Mas o David Cameron poderia ter ao menos corado um pouco.
¿Hay gobierno? - CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 12/02/12
RIO DE JANEIRO - É uma das pia das mais conhecidas: o náufrago espanhol chega a uma ilha, é recebido por alguns habitantes locais e faz a primeira e única pergunta que lhe competia: "¿Hay gobierno acá? Respondem que sim, há governo. O espanhol, ofegante, declara seus princípios: "¡Entonces, soy contra!"
Se o mesmo náufrago chegasse ao Brasil neste fevereiro de tanto calor, provavelmente receberia uma resposta diferente. Não, não há governo. Ninguém, nem mesmo um náufrago, precisa ser contra.
Temos uma presidente digna, capaz, honesta, com popularidade em alta. Temos uma multidão de ministros, ministros até demais, para recursos hídricos, direitos da mulher, cultivo da castanha do caju, reforma disso e daquilo, plano de sustentabilidade da leveza do ser (para contrariar o Milan Kundera) e parcelamento do espaço aéreo.
Somando os ministros demitidos com aqueles que ainda não o foram, dá para encher um Costa Concordia, todos sobreviventes e disponíveis para novos encargos de sacrifício cívico.
Em termos de formalidade, tudo está nos seus lugares e modos. O ministro da Fazenda reconhece que a Casa da Moeda é importante (há um lugar comum que se refere à moeda chamando-a de "vil"). Nomeia para gerir a citada vil moeda uma pessoa que ele não conhece nem sabe quem a indicou. Em país assim, nenhum náufrago pode ser contra, pelo contrário, todos são a favor.
Aeroportos do país ameaçam ser privatizados no expediente da manhã, voltam a ser do governo no expediente da tarde. Todos os dias, as TVs oficiais mostram as cerimônias de inauguração e de assinatura de novas medidas ou posse de novas autoridades. Para ser do contra, o náufrago terá de nadar mais um pouco, ir para a Síria ou o Haiti, que é mais perto.
RIO DE JANEIRO - É uma das pia das mais conhecidas: o náufrago espanhol chega a uma ilha, é recebido por alguns habitantes locais e faz a primeira e única pergunta que lhe competia: "¿Hay gobierno acá? Respondem que sim, há governo. O espanhol, ofegante, declara seus princípios: "¡Entonces, soy contra!"
Se o mesmo náufrago chegasse ao Brasil neste fevereiro de tanto calor, provavelmente receberia uma resposta diferente. Não, não há governo. Ninguém, nem mesmo um náufrago, precisa ser contra.
Temos uma presidente digna, capaz, honesta, com popularidade em alta. Temos uma multidão de ministros, ministros até demais, para recursos hídricos, direitos da mulher, cultivo da castanha do caju, reforma disso e daquilo, plano de sustentabilidade da leveza do ser (para contrariar o Milan Kundera) e parcelamento do espaço aéreo.
Somando os ministros demitidos com aqueles que ainda não o foram, dá para encher um Costa Concordia, todos sobreviventes e disponíveis para novos encargos de sacrifício cívico.
Em termos de formalidade, tudo está nos seus lugares e modos. O ministro da Fazenda reconhece que a Casa da Moeda é importante (há um lugar comum que se refere à moeda chamando-a de "vil"). Nomeia para gerir a citada vil moeda uma pessoa que ele não conhece nem sabe quem a indicou. Em país assim, nenhum náufrago pode ser contra, pelo contrário, todos são a favor.
Aeroportos do país ameaçam ser privatizados no expediente da manhã, voltam a ser do governo no expediente da tarde. Todos os dias, as TVs oficiais mostram as cerimônias de inauguração e de assinatura de novas medidas ou posse de novas autoridades. Para ser do contra, o náufrago terá de nadar mais um pouco, ir para a Síria ou o Haiti, que é mais perto.
Aí tem - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 12/02/12
Qual é a taxa neutra de juros?, pergunta o Banco Central, presidido por Alexandre Tombini. E, como não dá ponto sem nó, aí tem coisa...
Esse não é assunto restrito aos nerds da economia. É um movimento novo do Banco Central que terá consequências.
Primeiro, aos conceitos e, depois, ao resto. Taxa neutra de juros é o nível mais baixo de juros que garante a inflação na meta sem prejudicar o ritmo do setor produtivo. Juros são o preço do dinheiro. Quanto mais baixos, maior o volume de dinheiro numa economia. Feita de outro jeito, a pergunta do Banco Central consiste em saber qual é o volume máximo de dinheiro que comporta a economia brasileira.
Isso é como querer saber qual a velocidade máxima que um automóvel pode desenvolver numa rodovia sem colocar em risco a segurança. A resposta não é simples, está cheia de "dependes" - depende da estrada; depende das condições atmosféricas (visibilidade, chuva, etc.); depende das condições do veículo (freios, amortecedores, pneus, etc.); e depende da habilidade do piloto.
A conversa a respeito da taxa neutra de juros começou com a divulgação da Ata do Copom de janeiro. Lá ficou dito, sem preocupação com demonstrações cabais, que as condições econômicas do Brasil melhoraram nos últimos anos e comportam juros neutros mais baixos do que os de até agora. Em 2006, eles ficaram em 10,2% em termos reais (descontada a inflação) e, em 2011, em 5,3%. Se o Banco Central diz que a inflação ficará na meta em 2012 (4,5%) e que os juros básicos de hoje, de 10,5% (6,0% em termos reais), estão altos demais, então fica entendido que, na sua avaliação, os juros reais podem cair para perto dos 4,5%.
Além disso, o Banco Central avisou que começou pesquisa entre analistas de mercado para aferir a percepção que têm sobre esse número misterioso que não pode ser facilmente calculado. De lá para cá, analistas, consultores e economistas passaram a debater sobre quais, afinal, seriam os juros neutros da economia.
Há boas razões para desconfiar de que o Banco Central não está especialmente interessado nos números do mercado. Pretende apenas criar clima para guinada importante em sua política de juros. Está manobrando para derrubar os juros básicos, provavelmente, para 8,5% ao ano. A aposta é a de que esse afrouxamento do volume de dinheiro não provocará escapada da inflação. Logo, não se contentará com juros de um dígito (abaixo de 10%). Para alcançar seu objetivo não usará só o acelerador, mas, no limite, também pneus bem calibrados, aerodinâmica, habilidade do piloto e tal. Ou seja, para baixar os juros até o limite do admissível, usará com mais intensidade as tais medidas prudenciais e contará ainda com uma política fiscal (austeridade orçamentária) mais dura, para que a expansão das despesas públicas deixe de ser fonte primária de inflação.
O mercado financeiro entendeu o recado e está revendo para baixo suas apostas com juros futuros. Mas, como não sabe até onde o Banco Central quer seguir, também está pronto para acionar freios se aparecer um buraco na estrada.
O álcool em crise - ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE
FOLHA DE SP - 12/02/12
A tão desejada redução do protecionismo estrangeiro, o fascínio do governo pelo pré-sal e a demanda por açúcar deixarão o álcool escasso
Com razão, crescem as apreensões de que haverá durante os próximos dois ou três anos escassez de álcool no mercado nacional. O motivo é a confluência de um conjunto de fatores diversos, o que torna praticamente inevitável a crise que se avizinha.
Pior ainda. Se medidas imediatas não forem tomadas pelos empresários e pelo governo, a crise vai durar décadas, em vez de anos.
Certamente, o primeiro fator adverso, e talvez o mais importante, é a crescente demanda de açúcar no mercado global e consequente aumento de preços dessa commodity.
Devido possivelmente ao aquecimento global, a alteração do regime de chuvas denominado monções, na Índia (segundo maior produtor de cana), compromete a produção de açúcar daquele país.
A produção indiana, em função da sua estrutura familiar, com mais de mil produtores, dificilmente poderá se reorganizar para enfrentar as mudanças climáticas. Outro problema é a China, que, devido à sua ascensão econômica, faz com que a demanda por açúcar aumente.
No início do Pró-Álcool, prevendo essa possibilidade, os investimentos foram direcionados, através de empréstimos públicos subsidiados, para as destilarias ditas autônomas -ou seja, aquelas restritas à produção de álcool.
Hoje, porém, elas foram reformadas para produzir também açúcar ou estão sucateadas. Essa versatilidade entre álcool e açúcar é fundamental. Trata-se de um grande trunfo para o empresário do setor sucroalcooleiro. Tentar restringir esse instrumento estratégico por qualquer meio, mesmo que justo, seria uma medida condenada ao fracasso.
Por outro lado, tudo indica que a demanda internacional por açúcar continuará crescendo e que ela preenche uma vantagem competitiva para o Brasil.
O segundo problema que a oferta de álcool combustível encontra é a preferência obsessiva que o governo brasileiro dirige ao pré-sal.
Ele tem natureza antieconômica (a produção de um litro de gasolina do pré-sal vai custar, na melhor das hipóteses, entre duas e três vezes mais do que um litro de álcool) e antiecológica -será que alguém ainda duvida que o aquecimento global será, muito em breve, uma catástrofe incontrolável? (Se é que ele já não é...)
O pré-sal ainda oferece inerentes riscos ambientais locais, como também incertezas financeiras relacionadas a uma tecnologia ainda em desenvolvimento. Apesar de tudo isso, o fascínio pelo pré-sal parece não ceder tão cedo.
Como consequência dessa obsessão idiossincrática, a ampliação da infraestrutura que reduziria os custos de produção e de distribuição do álcool tem sido sistematicamente negligenciada pelo governo brasileiro. O pré-sal continuará sugando, consequentemente, muito dos recursos disponíveis para investimentos públicos e privados.
O terceiro componente que, reduzindo a oferta interna, vai causar aumentos nos preços do álcool é, ironicamente, a tão almejada redução dos dispositivos protecionistas europeus e americanos.
Essa tendência já está em curso. No Brasil, a competitividade do álcool é determinada pelo preço da gasolina. No exterior, as exigências de frações mínimas de biocombustíveis a serem adicionados nos derivados fósseis e os custos locais de produção de álcool muito mais elevados do que os brasileiros deverão sugar o álcool do nosso mercado.
Pois bem, no curto prazo e no médio prazo não parece existir remédio para a escassez de álcool no mercado brasileiro.
Somente os ingênuos continuarão a depositar esperanças no carro flex, que já pareceu tão promissor. A longo prazo, para derrotar tantas ameaças, investimentos em tecnologias como a segunda geração e a cogeração serão imprescindíveis, assim como a ampliação de área plantada e novas usinas.
Mesmo assim, será necessário esperar algumas décadas. O álcool já foi derrotado várias vezes e ressurgiu de suas próprias cinzas, com mais vigor.
A tão desejada redução do protecionismo estrangeiro, o fascínio do governo pelo pré-sal e a demanda por açúcar deixarão o álcool escasso
Com razão, crescem as apreensões de que haverá durante os próximos dois ou três anos escassez de álcool no mercado nacional. O motivo é a confluência de um conjunto de fatores diversos, o que torna praticamente inevitável a crise que se avizinha.
Pior ainda. Se medidas imediatas não forem tomadas pelos empresários e pelo governo, a crise vai durar décadas, em vez de anos.
Certamente, o primeiro fator adverso, e talvez o mais importante, é a crescente demanda de açúcar no mercado global e consequente aumento de preços dessa commodity.
Devido possivelmente ao aquecimento global, a alteração do regime de chuvas denominado monções, na Índia (segundo maior produtor de cana), compromete a produção de açúcar daquele país.
A produção indiana, em função da sua estrutura familiar, com mais de mil produtores, dificilmente poderá se reorganizar para enfrentar as mudanças climáticas. Outro problema é a China, que, devido à sua ascensão econômica, faz com que a demanda por açúcar aumente.
No início do Pró-Álcool, prevendo essa possibilidade, os investimentos foram direcionados, através de empréstimos públicos subsidiados, para as destilarias ditas autônomas -ou seja, aquelas restritas à produção de álcool.
Hoje, porém, elas foram reformadas para produzir também açúcar ou estão sucateadas. Essa versatilidade entre álcool e açúcar é fundamental. Trata-se de um grande trunfo para o empresário do setor sucroalcooleiro. Tentar restringir esse instrumento estratégico por qualquer meio, mesmo que justo, seria uma medida condenada ao fracasso.
Por outro lado, tudo indica que a demanda internacional por açúcar continuará crescendo e que ela preenche uma vantagem competitiva para o Brasil.
O segundo problema que a oferta de álcool combustível encontra é a preferência obsessiva que o governo brasileiro dirige ao pré-sal.
Ele tem natureza antieconômica (a produção de um litro de gasolina do pré-sal vai custar, na melhor das hipóteses, entre duas e três vezes mais do que um litro de álcool) e antiecológica -será que alguém ainda duvida que o aquecimento global será, muito em breve, uma catástrofe incontrolável? (Se é que ele já não é...)
O pré-sal ainda oferece inerentes riscos ambientais locais, como também incertezas financeiras relacionadas a uma tecnologia ainda em desenvolvimento. Apesar de tudo isso, o fascínio pelo pré-sal parece não ceder tão cedo.
Como consequência dessa obsessão idiossincrática, a ampliação da infraestrutura que reduziria os custos de produção e de distribuição do álcool tem sido sistematicamente negligenciada pelo governo brasileiro. O pré-sal continuará sugando, consequentemente, muito dos recursos disponíveis para investimentos públicos e privados.
O terceiro componente que, reduzindo a oferta interna, vai causar aumentos nos preços do álcool é, ironicamente, a tão almejada redução dos dispositivos protecionistas europeus e americanos.
Essa tendência já está em curso. No Brasil, a competitividade do álcool é determinada pelo preço da gasolina. No exterior, as exigências de frações mínimas de biocombustíveis a serem adicionados nos derivados fósseis e os custos locais de produção de álcool muito mais elevados do que os brasileiros deverão sugar o álcool do nosso mercado.
Pois bem, no curto prazo e no médio prazo não parece existir remédio para a escassez de álcool no mercado brasileiro.
Somente os ingênuos continuarão a depositar esperanças no carro flex, que já pareceu tão promissor. A longo prazo, para derrotar tantas ameaças, investimentos em tecnologias como a segunda geração e a cogeração serão imprescindíveis, assim como a ampliação de área plantada e novas usinas.
Mesmo assim, será necessário esperar algumas décadas. O álcool já foi derrotado várias vezes e ressurgiu de suas próprias cinzas, com mais vigor.
Fiat lux - JOSUÉ GOMES DA SILVA
FOLHA DE SP - 12/02/12
Pouco destaque mereceu o fato de as Nações Unidas instituírem 2012 o Ano Internacional da energia Sustentável para Todos. Iniciativa muito importante que chama a atenção e pede soluções para um grave problema: 1,4 bilhão de pessoas, ou 20% da população mundial de 7 bilhões, vive sem eletricidade, e outro contingente, constituído por 1 bilhão de habitantes, tem acesso limitado.
Mais do que excluídos em termos socioeconômicos, tais indivíduos estão quase dois séculos atrasados em relação aos benefícios da tecnologia. Imaginem a dificuldade em um mundo desprovido de iluminação, sem TV, geladeira, computador e outros equipamentos e serviços para suprir necessidades básicas, como alimentação, segurança, ensino, informação e assistência médico-hospitalar.
Em meio ao desafio, o Brasil ocupa posição privilegiada. Nossa matriz é predominantemente hídrica, renovável e não poluente. Temos biocombustíveis e programas de produção alternativa de energia a partir da Biomassa, da energia eólica e solar. Embora caminhando rápido para a economia pós-carbono, possuímos muito petróleo, nossas reservas crescem com o pré-sal.
Temos superavit energético, mais um diferencial competitivo em relação a numerosas nações, desenvolvidas e emergentes. Nosso subsolo é rico em urânio e, com o aprimoramento da segurança em Usinas nucleares que eliminem os riscos de acidentes como da usina de Fukushima, no Japão, poderemos ser grandes supridores desse combustível ao mundo.
Não há dúvida de que o Brasil desempenha papel fundamental para tornar viáveis duas metas estabelecidas pela ONU até 2030: garantir que todos tenham acesso a serviços modernos de energia; e aumentar em 30% a utilização de fontes renováveis.
Com o Programa Luz Para Todos, que contemplou 14 milhões de brasileiros, avançamos muito desde 2003, mas é preciso ir além. Segundo o Censo 2010, 728.672 residências seguem sem eletricidade no país. Outra prioridade é a redução do preço da energia elétrica, insumo dos mais importantes para o setor produtivo.
Precisamos desonerar a energia elétrica da enorme carga de impostos, além de aproveitar o fim do prazo de inúmeras concessões de geração, transmissão e Distribuição reduzindo custos para o consumidor final. Cabem novos leilões desses ativos tendo como critério menor tarifa.
Pesquisa do Ministério da energia demonstra que 79,3% das famílias com acesso à eletricidade compram televisor, 73,3% geladeira e 45,4% aparelho de som. Assim, o atendimento a um direito imprescindível para a inclusão social também contribui para estimular a indústria e a economia. Vamos iluminar o Brasil com energia barata e não poluente.
FHC: agora é a vez dos portos - ALBERTO TAMER
O Estado de S.Paulo - 12/02/12
Depois da privatização dos aeroportos, um marco do novo governo, o caminho está aberto para liberalizar ainda mais o setor portuário, que pode atrair investimentos de até R$ 20 bilhões. Aqui, não é mais necessário falar em "privatização", porque eles foram abertos ao setor privado pelo ex-presidente Fernando Henrique, com a Lei 8.630, de 25 de fevereiro de 1993. Ela deu o que poderia ter dado e agora é avançar para atender à abertura e ao crescimento da economia brasileira.
"Quando cheguei ao governo, o sistema portuário estava um caos; a indústria naval naufragava e o Estado não tinha recursos para socorrer", lembra o ex-presidente em conversa com a coluna, revendo o drama em que vivia a infraestrutura brasileira, sem recursos e impedida de receber investimentos privados. A lei completa 19 anos no próximo dia 25, um fato não só para comemorar mas a revigorar.
"É preciso ampliar corajosamente o processo de abertura dos portos porque eles chegaram ao limite e o setor privado mostra, com a resposta agora aos aeroportos, que está disposto a investir pesadamente. O Brasil é um dos maiores exportadores de commodities do mundo e o comércio exterior não para de crescer."
Onde tudo começou. Fernando Henrique lembra que tudo começou quando, como senador, apresentou o projeto da abertura de concessões nos portos. Impulsionou-a como ministro da Fazenda do governo Itamar, e, por fim, a promulgou na Presidência. "A Lei dos Portos é histórica no processo de privatização, que deve ser agora incrementado e aprimorado com maior capacidade de gerenciar os investimentos privados que não param de chegar."
Não há que discutir quem faz o quê, repolitizando um processo que demorou muito para ser retomado. É deixar a ideologia do passado e ir em frente. Mas o ministro da Fazenda diz que a diferença entre o processo atual e o de seu governo é que os R$ 24 bilhões que estão entrando não serão usados para pagar dividas ou reduzir os déficits como no passado. Fernando Henrique dá pouca importância e essa questão. Para ele, as circunstâncias são diferentes.
"Cada governo tem de fazer o que é necessário nos desafios que enfrenta em cada momento. O meu era a dívida interna e externa, que eram enormes e estavam sem controle. O desafio do governo atual é voltar a investir principalmente em infraestrutura. Cabe a ele agir nesse sentido. E me parece que, deixando de lado a ideologia, está decidido a fazer isso", diz o ex-presidente. Só com a associação do setor privado com o público será possível recuperar a infraestrutura brasileira.
Portos, o que fazer. Ninguém pode negar que os portos brasileiros estão saturados. O governo precisa atentar com urgência para isso, pois onera o custo das exportações e reduz a competitividade dos produtos brasileiros.
Com a Lei dos Portos, de concessão à iniciativa privada, o governo saiu da operação portuária propriamente dita e passou a arrendar áreas com licitações públicas e prazos de até 50 anos. Podemos citar o Porto de Santos, que responde por 25% da movimentação em valores do País. Em 1994, movimentou 34 milhões de toneladas e encerrou 2011 com 98 milhões. Mais que dobrou!
A lei também previu terminais "privativos", chamados assim porque não precisam passar por licitação e foram concebidos para movimentar a carga de uma só empresa, como o terminal da Petrobrás. Os privativos dividem-se em duas versões: de uso exclusivo e de uso misto. Neste, a empresa detentora do porto pode movimentar carga de terceiros.
Mas, como dispensa licitação, esses terminais passaram a ser alvo das empresas menores, que querem operar sem ter passar pelo rito da licitação, que leva anos para ser aprovado. Basta dizer que desde 2001 o governo licitou apenas cinco terminais.
Esse é o grande debate do setor hoje. E é sob o argumento de que o País precisa aumentar sua infraestrutura de portos que essas empresas querem a flexibilização do marco regulatório. Ou seja, poder operar porto sem passar pelo "ônus" da licitação.
Não é tudo. Não é só porto. Estudos do governo mostram que o maior desafio está nas estradas e ferrovias, estas ainda superatrasadas. Aqui o governo identificou a possibilidade de atrair investimentos privados, principalmente externos, superiores aos agora aprovados nos aeroportos.
Os investidores estão esperando apenas um sinal do governo. Há 10 anos...
Infraero faz a diferença- para pior - SUELY CALDAS
O ESTADÃO - 12/02/12
O governo do PT seguiu o modelo de privatização do governo FHC no caso dos aeroportos, mas com uma diferença: além de manter a Infraero, fez dela acionista dos grupos econômicos que vão administrar os três aeroportos.
Pelos critérios tucanos,tudo indica que a estatal estaria fora da sociedade. Agora, com 49% de participação acionária, ela terá assento no conselho, na diretoria e participará ativamente na gestão e nas decisões.
Nos oito anos de governo Lula, Dilma Rousseff pôde acompanhar de perto o que ocorreu nas obras dos chamados "puxadinhos", as fraudes corriqueiras de superfaturamento e o conluio da direção da Infraero com as empreiteiras em oito aeroportos do País, que desviaram dos cofres públicos quase R$ 1 bilhão.
Está tudo apurado e registrado nos arquivos do Tribunal de Contas da União(TCU)e nas investigações da Polícia Federal. Ninguém foi punido.
Os senadores do PT e do PSDB, que agora batem boca sobre o tema,não desconhecem as traquinagens da Infraero, que eles próprios apuraram na CPI do apagão Aéreo e cujo relatório assim descreve a conduta da estatal:" A apropriação do público pelo privado é tão endêmica na Infraero que, independente de quem esteja ocupando os cargos de direção da empresa, continua sendo o interesse dos empreiteiros o guia para a definição de prioridades nas obras e serviços.
Certamente, tal só ocorre se a relação entre os administradores da Infraero e seus contratados for promíscua. O problema é suprapartidário e permeia mais de um governo. Mudam-se administrações, ministros, presidentes da empresa e alternam-se diretores, mas o que não sofre transformação é a sistemática de os gastos da Infraero serem pautados pelos interesses de seus contratados" (Relatório Analítico da CPI do apagão Aéreo, página 231).
Conclusão: os funcionários podem até ser eficientes, mas a corrupção está enraizada na empresa.Trocar diretores ou outros paliativos não resolvem.Um governo movido pela defesa dos interesses da população há muito já teria mudado os destinos da Infraero.
Mas,além de lhe dar sobrevida, o governo faz dela parceira de empresas privadas em gestões que ainda podem gerar muita confusão e conflitos no futuro. No caso do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), de capital misto e gestão compartilha da estatal- privada, os conflitos eram resolvidos com a prevalência do governo. Resultado: gestões desastrosas,prejuízo financeiro, fraudes, corrupção. Mesmo coma resistência do PT, o governo Dilma tenta e não consegue vender o IRB.
Privatizar ou não uma estatal não é uma questão ideológica, é pragmática e (ao menos deveria ser) determinada pelo interesse público. Apesar de inúmeras interferências políticas no varejo, no atacado a Petrobrás e o Banco do Brasil são geridos como empresas públicas, que precisam do apoio financeiro dos acionistas minoritários e por isso respeitam seus direitos. A nociva interferência política nos negócios é punida com a desvalorização das ações nas bolsas.
Foi o que fez a Petrobrás perder valor patrimonial nos últimos anos. Apesar disso, são empresas lucrativas, recolhem dividendos aos cofres públicos e assim ajudam nos gastos com saúde, educação, etc.Não é ocaso da Infraero, nem foi o das distribuidoras elétricas, nem o das telefônicas. Mal administradas, essas empresas eram onerosas para o erário e, sem preparo tecnológico, prestavam serviços de má qualidade. A privatização foi solução imperativa.
De qualquer forma, os três aeroportos foram privatizados e, agora,é cuidar de desfazer pendências que podem dar problemas. A primeira delas é sobre a real capacidade financeira de os três grupos cumprirem metas de investimentos em ampliação antes da Copa do Mundo. O teste se dará na entrega das garantias financeiras.A Triunfo,que levou o Aeroporto de Viracopos, em 2008 venceu o leilão da Rodovia Ayrton Senna e acabou desqualificada porque não entregou as garantias. Batido o martelo do leilão, ela avisou que investirá menos R$ 3,5 bilhões do que o previsto pelo governo. E, a dois anos da Copa, as obras parecem estar longe do início...
O governo do PT seguiu o modelo de privatização do governo FHC no caso dos aeroportos, mas com uma diferença: além de manter a Infraero, fez dela acionista dos grupos econômicos que vão administrar os três aeroportos.
Pelos critérios tucanos,tudo indica que a estatal estaria fora da sociedade. Agora, com 49% de participação acionária, ela terá assento no conselho, na diretoria e participará ativamente na gestão e nas decisões.
Nos oito anos de governo Lula, Dilma Rousseff pôde acompanhar de perto o que ocorreu nas obras dos chamados "puxadinhos", as fraudes corriqueiras de superfaturamento e o conluio da direção da Infraero com as empreiteiras em oito aeroportos do País, que desviaram dos cofres públicos quase R$ 1 bilhão.
Está tudo apurado e registrado nos arquivos do Tribunal de Contas da União(TCU)e nas investigações da Polícia Federal. Ninguém foi punido.
Os senadores do PT e do PSDB, que agora batem boca sobre o tema,não desconhecem as traquinagens da Infraero, que eles próprios apuraram na CPI do apagão Aéreo e cujo relatório assim descreve a conduta da estatal:" A apropriação do público pelo privado é tão endêmica na Infraero que, independente de quem esteja ocupando os cargos de direção da empresa, continua sendo o interesse dos empreiteiros o guia para a definição de prioridades nas obras e serviços.
Certamente, tal só ocorre se a relação entre os administradores da Infraero e seus contratados for promíscua. O problema é suprapartidário e permeia mais de um governo. Mudam-se administrações, ministros, presidentes da empresa e alternam-se diretores, mas o que não sofre transformação é a sistemática de os gastos da Infraero serem pautados pelos interesses de seus contratados" (Relatório Analítico da CPI do apagão Aéreo, página 231).
Conclusão: os funcionários podem até ser eficientes, mas a corrupção está enraizada na empresa.Trocar diretores ou outros paliativos não resolvem.Um governo movido pela defesa dos interesses da população há muito já teria mudado os destinos da Infraero.
Mas,além de lhe dar sobrevida, o governo faz dela parceira de empresas privadas em gestões que ainda podem gerar muita confusão e conflitos no futuro. No caso do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), de capital misto e gestão compartilha da estatal- privada, os conflitos eram resolvidos com a prevalência do governo. Resultado: gestões desastrosas,prejuízo financeiro, fraudes, corrupção. Mesmo coma resistência do PT, o governo Dilma tenta e não consegue vender o IRB.
Privatizar ou não uma estatal não é uma questão ideológica, é pragmática e (ao menos deveria ser) determinada pelo interesse público. Apesar de inúmeras interferências políticas no varejo, no atacado a Petrobrás e o Banco do Brasil são geridos como empresas públicas, que precisam do apoio financeiro dos acionistas minoritários e por isso respeitam seus direitos. A nociva interferência política nos negócios é punida com a desvalorização das ações nas bolsas.
Foi o que fez a Petrobrás perder valor patrimonial nos últimos anos. Apesar disso, são empresas lucrativas, recolhem dividendos aos cofres públicos e assim ajudam nos gastos com saúde, educação, etc.Não é ocaso da Infraero, nem foi o das distribuidoras elétricas, nem o das telefônicas. Mal administradas, essas empresas eram onerosas para o erário e, sem preparo tecnológico, prestavam serviços de má qualidade. A privatização foi solução imperativa.
De qualquer forma, os três aeroportos foram privatizados e, agora,é cuidar de desfazer pendências que podem dar problemas. A primeira delas é sobre a real capacidade financeira de os três grupos cumprirem metas de investimentos em ampliação antes da Copa do Mundo. O teste se dará na entrega das garantias financeiras.A Triunfo,que levou o Aeroporto de Viracopos, em 2008 venceu o leilão da Rodovia Ayrton Senna e acabou desqualificada porque não entregou as garantias. Batido o martelo do leilão, ela avisou que investirá menos R$ 3,5 bilhões do que o previsto pelo governo. E, a dois anos da Copa, as obras parecem estar longe do início...
Por que a economia global rateia - SAMUEL BRITTAN
FOLHA DE SP - 12/02/12
Algo não está certo na economia mundial, ao menos nos países desenvolvidos há mais tempo. Os EUA parecem estar se saindo relativamente bem, por enquanto, mas mesmo em seu caso a produção continua bem inferior à tendência que prevalecia antes da recessão.
A Europa ficou mais para trás, o que diz algo de positivo sobre os pacotes de estímulo do governo americano, em contraste com o sadismo ortodoxo das políticas fiscais impostas pela Alemanha.
Keynes ofereceu uma visão da história mundial nos termos da qual existia uma tendência de que as tentativas de poupança se adiantassem à percepção de investimento.
Ele chegou a formular uma "lei psicológica" no sentido de que "mudanças no ritmo de consumo ocorrem em geral na mesma direção das mudanças no ritmo de crescimento da renda".
O resultado seria um potencial rombo na economia mundial, com desemprego desnecessariamente elevado. Diversos expedientes teriam ajudado a reparar esse rombo, entre os quais a construção de pirâmides e, posteriormente, catedrais.
Por algumas décadas depois da Segunda Guerra, o consumo pareceu subir em alinhamento com a renda, contradizendo Keynes, mas nos últimos anos isso mudou e a lei psicológica keynesiana parece ter ressurgido, o que cria brecha entre a produção potencial e a efetiva.
O que aconteceu? A resposta clichê está na ascensão da China, país no qual proporção espantosamente elevada de uma renda em rápida ascensão seria supostamente poupada -em montante superior ao que a economia seria capaz de absorver internamente. "China" é uma maneira de abreviar um grupo de países com índice alto de poupança.
A questão importante é determinar como o mundo vai lidar com o potencial de poupança excessiva.
A primeira resposta, ingênua, envolve o surgimento de oportunidades de investimento suficientes para absorvê-lo. Mas elas não podem ser criadas do nada.
A segunda abordagem é permitir que juro baixo lide com a pressão, ao tanto estimular o investimento quanto desencorajar a poupança.
A terceira abordagem envolveria suplementar os baixos juros com medidas mais diretas dos BCs, como o "relaxamento quantitativo".
A quarta é reconhecer que, se o setor privado gasta de menos, há oportunidade para estímulo fiscal: gasto público maior ou corte de impostos. É desnecessário dizer que essas perigosas armas podem ter efeito bumerangue, em longo prazo.
A quinta é ação internacional contra os países que poupem demais. Todos temos a esperança de que os cidadãos chineses venham um dia a insistir em desfrutar de proporção maior da prosperidade que seu país vem conquistando. Mas a ideia de que sanções internacionais possam levá-los a isso é absurda.
Uma sexta e perversa abordagem envolve protecionismo disfarçado. O surto de Obama contra a "terceirização" e a preocupação de Cameron com a venda de aviões militares à Índia representam exemplos disso. Expedientes como esses sempre resultam em perda para todos.
Uma sétima falsa resposta, estreitamente relacionada à sexta, depende daquilo que costuma ser designado como "aglomerado de falácias trabalhistas". Governos e empregadores podem tentar distribuir equitativamente o emprego disponível por meio de reduções compulsórias de jornadas de trabalho, antecipação de aposentadorias e outras ideias do tipo. O efeito líquido do processo seria reduzir o poder aquisitivo sem nada fazer para minorar o problema da estagnação elevada.
A oitava abordagem é atacar a "desigualdade". O argumento é que as classes pobres e médias gastem mais de sua renda. Na prática, se essa abordagem for promovida com vigor excessivo, pode desencorajar o investimento e o consumo.
A nona e pessimista resposta é que condições recessivas tendem a gerar um equilíbrio. Se elas persistirem por tempo suficiente, o potencial produtivo é contido, o treinamento e o investimento são desencorajados e os programas de austeridade parecem ter surtido efeito.
O que acontecerá? Uma mistura de todas as respostas acima, com mais intervenções perversas e menos estímulos financeiros do que veríamos em um mundo racional.
CLAUDIO HUMBERTO
“A gente não quer transformar Estado laico em Estado religioso”
Deputado Gabriel Chalita (PMDB), militante católico, candidato a prefeito de São Paulo
PMDB AGORA AMEAÇA DEVOLVER CARGOS À DILMA
O senador Vital do Rego (PB) não aceita a designação, mas assumiu, de fato, uma espécie de liderança da bancada dos descontentes do PMDB e avisou à cúpula do partido, em conversa franca, que articula uma reunião para discutir a devolução ao governo dos poucos cargos disponibilizados a peemedebistas. Ele próprio se surpreendeu com a adesão: mais de cinquenta parlamentares. Culpa a ganância do PT.
PARA POUCOS
Para Vital do Rego, no PMDB do Senado só os três maiores líderes são atendidos pelo governo: José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros.
CALOTE DE 60%
Levantamento da base aliada indica que o governo ainda não cumpriu 40% dos compromissos de empenho de emendas parlamentares.
SEM NOÇÃO
Lulistas do PT ironizam a luta do presidente da Câmara, Marco Maia, por cargos: “Ele sempre se comportou como deputado de baixo clero”.
FAZ DE CONTA
A Infraero vai bancar 49% da operação e continuará comprometendo 60% do orçamento com salários, sem sobrar nada para investimentos.
GOVERNO DO DF RECUA E MANTÉM PROMOÇÃO DE PM
O governo do DF não cancelou, como havia anunciado, a promoção do PM João Dias, cuja delação derrubou o ex-ministro do Esporte Orlando Silva e cujas acusações provocaram séria crise no governo local. A promoção não foi cancelada nem mesmo diante da evidência de que foi um desafio da Polícia Militar à autoridade do governador Agnelo Queiroz (PT). João Dias até invadiu o Palácio do Buriti para insultar autoridades, esbofetear funcionárias e agredir seguranças.
PROBLEMÁTICO
João Dias é suspeito de enriquecimento ilícito, com um padrão de vida incompatível com seus vencimentos, e responde a vários processos.
INDIGNAÇÃO
O secretário de Governo, Paulo Tadeu, alvo dos insultos de João Dias, garantira, indignado, a esta coluna, que a promoção seria anulada.
QUEM DECIDIU
Agnelo Queiroz acolheu a recomendação do secretário de Segurança, Sandro Avelar, e do comandante da PM para manter a promoção.
CEIFADEIRA
O prefeito petista de São Bernardo (SP), Luiz Marinho, exonerou a subsecretária Maria Isabel Fonseca, mulher de Hamilton Lacerda, ex- assessor do ministro Aloizio Mercadante no rolo do dossiê anti-Serra. Sem grilo: Lacerda tem fazenda em Goiás. Ela poderá plantar batatas.
PECADOS DE MAIA
Do deputado Paulo Teixeira (PT) sobre o descontrole do presidente da Câmara, Marco Maia, que encerrou votação por causa de cargo: “A ira é um dos sete pecados capitais. Ele agora está com a alma tranquila”.
EFEITOS COLATERAIS
Na luta contra um câncer na laringe, o ex-presidente Lula se queixou a um petista dos efeitos do tratamento. Desde que começou a radioterapia, Lula sofre com a perda da voz e do paladar e a falta de apetite.
BOBAGENS EM SÉRIE
O deputado distrital Agaciel Maia (PTC) deve ter dificuldade para ocupar o tempo. Projeto dele inclui uma festa “Lavagem do acarajé da Yaiá” no calendário cultural de Brasília. Outro cria o “Dia do Reggae”.
MACACO DE AUDITÓRIO
Jornal sul-coreano diz que parte da reserva ecológica de Guapi Assu, Rio, se chamará Seo Tai-ji após os fãs doarem R$ 34,7 mil ao fundo britânico Worl Land Trust. Logo os cariocas vão chamá-la de “Seu Taí”.
EXEMPLO IGNORADO
O governo Dilma perdeu ótima chance de imitar a vizinha Argentina na privatização dos aeroportos. Dos 63 aeroportos privatizados lá, apenas quatro davam lucro. E o vencedor teve de levar os que davam prejuízo.
ESCUTA LÁ
O Senado vai virar call-center: comprou 200 headsets, com fones de ouvido acolchoados, entrada USB e microfone uniderecional. Pelo preço, é artigo de primeira: R$ 99 cada, revela a ONG Contas Abertas.
VIDA DURA
O americano David Goldman, que ganhou a custódia do filho Sean, 11, tenta o caminho das pedras tão usual no Brasil: criou uma ONG para ajudar outras vítimas, passando o chapéu para arrecadar fundos.
CHANCHADA
Cineminha logo mais na Granja do Torto: Carnaval no fogo.
PODER SEM PUDOR
HUMOR NA FEIRA
Maurício Fruet era uma figuraça. Sem mandato, em 1994, resolveu reformar sua loja em Curitiba. Vestia roupas velhas e metia a mão na massa. Certo dia, encontrou um velho amigo, que pareceu chocado com sua roupa surrada. Fruet resolveu pregar uma peça:
– A coisa não está boa. Perdi a eleição, estou desempregado, mas vou tocando: vendo laranjas na feira...
Compadecido, o amigo enfiou, discretamente, em seu bolso uma nota de cem reais. No dia seguinte, às gargalhadas, Fruet o convidou para jantar e pagou a conta usando a mesma nota.
Deputado Gabriel Chalita (PMDB), militante católico, candidato a prefeito de São Paulo
PMDB AGORA AMEAÇA DEVOLVER CARGOS À DILMA
O senador Vital do Rego (PB) não aceita a designação, mas assumiu, de fato, uma espécie de liderança da bancada dos descontentes do PMDB e avisou à cúpula do partido, em conversa franca, que articula uma reunião para discutir a devolução ao governo dos poucos cargos disponibilizados a peemedebistas. Ele próprio se surpreendeu com a adesão: mais de cinquenta parlamentares. Culpa a ganância do PT.
PARA POUCOS
Para Vital do Rego, no PMDB do Senado só os três maiores líderes são atendidos pelo governo: José Sarney, Romero Jucá e Renan Calheiros.
CALOTE DE 60%
Levantamento da base aliada indica que o governo ainda não cumpriu 40% dos compromissos de empenho de emendas parlamentares.
SEM NOÇÃO
Lulistas do PT ironizam a luta do presidente da Câmara, Marco Maia, por cargos: “Ele sempre se comportou como deputado de baixo clero”.
FAZ DE CONTA
A Infraero vai bancar 49% da operação e continuará comprometendo 60% do orçamento com salários, sem sobrar nada para investimentos.
GOVERNO DO DF RECUA E MANTÉM PROMOÇÃO DE PM
O governo do DF não cancelou, como havia anunciado, a promoção do PM João Dias, cuja delação derrubou o ex-ministro do Esporte Orlando Silva e cujas acusações provocaram séria crise no governo local. A promoção não foi cancelada nem mesmo diante da evidência de que foi um desafio da Polícia Militar à autoridade do governador Agnelo Queiroz (PT). João Dias até invadiu o Palácio do Buriti para insultar autoridades, esbofetear funcionárias e agredir seguranças.
PROBLEMÁTICO
João Dias é suspeito de enriquecimento ilícito, com um padrão de vida incompatível com seus vencimentos, e responde a vários processos.
INDIGNAÇÃO
O secretário de Governo, Paulo Tadeu, alvo dos insultos de João Dias, garantira, indignado, a esta coluna, que a promoção seria anulada.
QUEM DECIDIU
Agnelo Queiroz acolheu a recomendação do secretário de Segurança, Sandro Avelar, e do comandante da PM para manter a promoção.
CEIFADEIRA
O prefeito petista de São Bernardo (SP), Luiz Marinho, exonerou a subsecretária Maria Isabel Fonseca, mulher de Hamilton Lacerda, ex- assessor do ministro Aloizio Mercadante no rolo do dossiê anti-Serra. Sem grilo: Lacerda tem fazenda em Goiás. Ela poderá plantar batatas.
PECADOS DE MAIA
Do deputado Paulo Teixeira (PT) sobre o descontrole do presidente da Câmara, Marco Maia, que encerrou votação por causa de cargo: “A ira é um dos sete pecados capitais. Ele agora está com a alma tranquila”.
EFEITOS COLATERAIS
Na luta contra um câncer na laringe, o ex-presidente Lula se queixou a um petista dos efeitos do tratamento. Desde que começou a radioterapia, Lula sofre com a perda da voz e do paladar e a falta de apetite.
BOBAGENS EM SÉRIE
O deputado distrital Agaciel Maia (PTC) deve ter dificuldade para ocupar o tempo. Projeto dele inclui uma festa “Lavagem do acarajé da Yaiá” no calendário cultural de Brasília. Outro cria o “Dia do Reggae”.
MACACO DE AUDITÓRIO
Jornal sul-coreano diz que parte da reserva ecológica de Guapi Assu, Rio, se chamará Seo Tai-ji após os fãs doarem R$ 34,7 mil ao fundo britânico Worl Land Trust. Logo os cariocas vão chamá-la de “Seu Taí”.
EXEMPLO IGNORADO
O governo Dilma perdeu ótima chance de imitar a vizinha Argentina na privatização dos aeroportos. Dos 63 aeroportos privatizados lá, apenas quatro davam lucro. E o vencedor teve de levar os que davam prejuízo.
ESCUTA LÁ
O Senado vai virar call-center: comprou 200 headsets, com fones de ouvido acolchoados, entrada USB e microfone uniderecional. Pelo preço, é artigo de primeira: R$ 99 cada, revela a ONG Contas Abertas.
VIDA DURA
O americano David Goldman, que ganhou a custódia do filho Sean, 11, tenta o caminho das pedras tão usual no Brasil: criou uma ONG para ajudar outras vítimas, passando o chapéu para arrecadar fundos.
CHANCHADA
Cineminha logo mais na Granja do Torto: Carnaval no fogo.
PODER SEM PUDOR
HUMOR NA FEIRA
Maurício Fruet era uma figuraça. Sem mandato, em 1994, resolveu reformar sua loja em Curitiba. Vestia roupas velhas e metia a mão na massa. Certo dia, encontrou um velho amigo, que pareceu chocado com sua roupa surrada. Fruet resolveu pregar uma peça:
– A coisa não está boa. Perdi a eleição, estou desempregado, mas vou tocando: vendo laranjas na feira...
Compadecido, o amigo enfiou, discretamente, em seu bolso uma nota de cem reais. No dia seguinte, às gargalhadas, Fruet o convidou para jantar e pagou a conta usando a mesma nota.
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: A nova economia nas favelas
- Folha: Tiro na cabeça predomina em mortes em Salvador
- Estadão: CNJ agora quer apressar pagamento de precatórios
- Correio: Ricos caloteiros já devem R$ 276 bilhões
- Zero Hora: Custo de estádios da Copa já subiu 21%
- Estado de Minas: Terra improdutiva
- Jornal do Commercio: Um imenso salão de baile
sábado, fevereiro 11, 2012
Capturando o Banco Central Europeu - JOSEPH E. STIGLITZ
O GLOBO - 11/02/12
Nos velhos tempos - pense na crise da dívida da América Latina nos anos 80 - conseguia-se reunir credores, em sua maioria grandes bancos, numa pequena sala e sair de lá com um acordo, ajudado por alguns agrados, ou mesmo queda de braço, por parte de governos e autoridades reguladoras ansiosos para que tudo corresse sem problemas. Mas, com o advento da securitização da dívida, os credores se tornaram muito mais numerosos e passaram a incluir fundos hedge e outros investidores sobre os quais reguladores e governos têm pouca influência.
Além disso, uma "inovação" nos mercados financeiros tornou possível que os detentores de títulos comprem um seguro. Isto permite que tenham um lugar na mesa, mas não arrisquem sua pele. Eles de fato têm interesses: querem receber o seguro, mas para isso o reescalonamento deve ser um "evento de crédito" - equivalente ao default. A insistência do BCE em reestruturação "voluntária" - que contorna o evento de crédito pos os dois lados em desacordo.
A ironia é que os reguladores permitiram a criação desse sistema disfuncional.
A posição do BCE é singular. O ideal era que os bancos tivessem feito seguro para se garantir em relação ao risco de default dos títulos em seus portfólios. Se fosse assim, o regulador preocupado com a estabilidade sistêmica ia querer que o segurador pagasse no caso de perda. Mas o BCE deseja que o banco tenha uma perda de 50% sobre os títulos em seu poder, sem que os benefícios do seguro tenham de ser pagos.
Há três explicações para a posição do BCE, nenhuma das quais fala a favor da instituição e de sua conduta regulatória e supervisora. A primeira é que os bancos de fato não compraram seguros e alguns adotaram posições especulativas. A segunda é que o BCE sabe que o sistema financeiro não tem transparência - e sabe que os investidores sabem que não podem medir o impacto de um default involuntário, o que poderia congelar os mercados de crédito, reprisando o que se seguiu ao colapso do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Finalmente, o BCE pode estar tentando proteger os poucos bancos que fizeram seguro.
Nenhuma dessas explicações é uma desculpa adequada para a oposição do BCE a uma profunda reestruturação involuntária da dívida da Grécia. O BCE deveria ter insistido em maior transparência - de fato, esta deveria ter sido uma das principais lições de 2008. Os reguladores não deveriam ter permitido que os bancos especulassem como fizeram; a fazer alguma coisa, deveriam ter exigido que eles contratassem seguros - e então insistido no reescalonamento de uma forma que assegurasse o pagamento do seguro.
Há, além disso, pouca evidência que uma reestruturação profunda e involuntária seria mais traumática do que uma profunda e voluntária.
Ao insistir no caráter voluntário, o BCE pode estar tentando assegurar que o reescalonamento não seja profundo; mas, neste caso, ele está pondo os interesses dos bancos adiante dos da Grécia, para a qual uma profunda reestruturação é essencial se ela quiser emergir da crise. De fato, o BCE pode estar colocando os interesses de alguns poucos bancos que contrataram seguros (credit-defaultswap, CDS) na frente dos da Grécia, dos contribuintes europeus e dos credores que agiram com prudência e compraram seguros.
A última esquisitice da posição do BCE diz respeito à governança democrática.
A decisão sobre a ocorrência ou não de um evento de crédito é atribuída a um comitê secreto da International Swaps and Derivatives Association, um grupo setorial que tem interesse no resultado. Se algumas reportagens estiverem corretas, alguns membros do comitê têm usado sua posição para promover posições negociadoras mais acomodadas.
Mas parece injusto que o BCE delegue a um comitê secreto de participantes do mercado com interesse na questão o direito de determinar o que é uma reestruturação aceitável da dívida.
O único argumento que parece - pelo menos superficialmente - pôr o interesse público em primeiro lugar é que um reescalonamento involuntário poderia levar ao contágio financeiro, com grandes economias como as de Itália, Espanha e mesmo França enfrentando um drástico, e talvez proibitivo, aumento nos custos do crédito. Mas isto pede a pergunta: por que deveria um reescalonamento involuntário levar a um contágio mais forte do que um reescalonamento voluntário de profundidade comparável? Se o sistema bancário fosse bem regulado, com os bancos credores de dívidas soberanas tendo comprado seguro, uma reestruturação involuntária deveria perturbar menos os mercados financeiros.
É claro, poder-se-ia argumentar que, se a Grécia obtiver uma reestruturação involuntária, outros ficariam tentados a consegui-la também. Os mercados financeiros, preocupados com isso, imediatamente elevariam as taxas de juros para outros países da zona do euro, grandes e pequenos.
Mas os países que apresentam maior risco já foram excluídos dos mercados financeiros, então a possibilidade de uma reação de pânico é limitada.
É claro que outros ficariam tentados a imitar a Grécia se o país de fato estivesse em melhores condições fazendo a reestruturação do que não a fazendo. É verdade, mas todo mundo já sabe disso.
O comportamento do BCE não deveria causar surpresa: como vimos em outros lugares, instituições que não são democraticamente responsáveis tendem a ser capturadas por interesses especiais. Isto era verdade antes de 2008; infelizmente para a Europa - e para a economia global - o problema não foi adequadamente abordado desde então.
A disputa pela classe C - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 11/02/12
O controle político da chamada "nova classe média", que pode se transformar na célebre situação de a criatura se voltar contra o criador, tem provocado polêmicas a partir da explicitação da preocupação do ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e olhos e ouvidos de Lula na administração Dilma, no Fórum Social Mundial.
Ele chamou a atenção para a necessidade de não deixar a nova classe média "à mercê" dos meios de comunicação no país, sugerindo que são disseminadores de uma ideologia conservadora.
Ao mesmo tempo, chamou para o centro da luta política os evangélicos, com quem disse que as esquerdas devem disputar ideologicamente a massa dos emergentes.
Gilberto Carvalho chegou a falar na criação de um sistema de comunicação de massas para transmitir a esses novos consumidores as ideias do governo.
Anteriormente, ele já havia deixado claro que essa é uma preocupação prioritária do governo, pois a nova classe emergente seria, no seu modo de ver, "um pouco polêmica, porque não tem uma posição ainda consolidada".
Os evangélicos reagiram com vigor, e o ministro foi chamado até mesmo de "safado" pelo deputado Magno Malta, líder de um partido aliado do governo.
E a nova ministra da Secretaria das Mulheres, Eleonora Menicucci, mal assumiu e já se tornou alvo dos evangélicos por sua defesa do aborto.
O cientista político Amaury de Souza diz que não apenas a classe C, mas grande parte da população brasileira é conservadora "se por tal se entende o apego à lei e ordem e a um conjunto de valores relativos ao comportamento individual, à família e à vida em sociedade, muitos dos quais compõem o que se conhece por "moral cristã"".
Ele chama a atenção para a impossibilidade de uma classe que engloba a metade do eleitorado votar de forma homogênea.
"No entanto, os segmentos política e institucionalmente mais organizados da classe C, como os evangélicos, constituem uma formidável força política.
Basta lembrar o papel decisivo que desempenharam na eleição de 2010, capitaneando uma onda conservadora que levou a disputa presidencial ao segundo turno.
Se os evangélicos se tornarem antipetistas, o mérito, ironiza Amaury de Souza, será em boa medida do secretário-geral da Presidência Gilberto Carvalho, que convocou o seu partido a travar "uma disputa ideológica com líderes evangélicos pelos setores emergentes".
O ex-ministro Mangabeira Unger achava "decisivo" para qualquer orientação transformadora do Brasil o surgimento de uma nova classe média, e uma nova cultura de emergentes, "esse pessoal que estuda à noite, luta para abrir um negócio, ser profissional independente, que está construindo uma nova cultura de autoajuda e de iniciativa, e está no comando do imaginário nacional".
Dentro desse contexto, ele considerava que o movimento evangélico precisava ser visto "como um elemento entre muitos dessa nova base social.
São dezenas de milhões de brasileiros organizados".
Mangabeira desenvolveu a tese de que evangélicos brasileiros têm semelhança com pioneiros que fundaram os EUA e tinham o espírito empreendedor que faria a diferença para o desenvolvimento do Brasil.
O cientista político Alberto Carlos de Almeida, do Instituto Análise, acha que não são os políticos e os partidos que fazem a cabeça do eleitorado e doutrinam os grupos sociais, neste caso a classe C, "mas é o oposto que acontece".
Para ele, os políticos têm que adaptar seu discurso para uma nova maneira de pensar. "Assim, se a classe C for mais numerosa e mais conservadora, o PT precisará de um discurso mais conservador para se manter no poder".
O PT já fez isso e continua fazendo, ressalta, lembrando que na eleição de 2010 "o discurso de Dilma enfatizou a importância da classe média, de progredir na vida". Isso não foi feito pelo PT, por exemplo, na eleição de 2002 e 2006.
Alberto Carlos está convencido de que a nova classe C, seu aumento numérico, o aumento de sua renda e escolaridade "empurrarão todos para a direita".
Ainda nesta mesma direção, uma das coisas que acontecerá em breve, na sua previsão, é a demanda por um discurso político permanentemente a favor de redução de impostos.
"Os políticos irão atender a esta demanda, é só uma questão de tempo", diz ele.
O economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, criador do termo e um estudioso da "nova classe média", explica que a designação reflete "o sentido positivo e prospectivo daquele que realizou — e continua a realizar — o sonho de subir na vida. Mais importante do que de onde você veio ou está é aonde vai chegar".
Ele diz que "o que caracteriza a nova classe média é o lado do produtor. A carteira de trabalho é seu principal símbolo. É o que chamamos de lado brilhante dos pobres".
Marcelo Neri explica que quando as pessoas sobem na vida, começam a ter o que perder e ficam mais conservadoras.
Seu grupo na Fundação Getulio Vargas, em acordo com o Senai, produziu pesquisa sobre a educação profissional relacionada às ideias da nova classe media.
A educação profissional é "a cara da classe C", define Neri: "Mais que a cultura bacharelesca da classe média tradicional", como reflexo de novos valores, "um misto de buscar semelhança com a tradicional classe média e ter origens diferenciadas". (Continua amanhã)
O controle político da chamada "nova classe média", que pode se transformar na célebre situação de a criatura se voltar contra o criador, tem provocado polêmicas a partir da explicitação da preocupação do ministro Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência e olhos e ouvidos de Lula na administração Dilma, no Fórum Social Mundial.
Ele chamou a atenção para a necessidade de não deixar a nova classe média "à mercê" dos meios de comunicação no país, sugerindo que são disseminadores de uma ideologia conservadora.
Ao mesmo tempo, chamou para o centro da luta política os evangélicos, com quem disse que as esquerdas devem disputar ideologicamente a massa dos emergentes.
Gilberto Carvalho chegou a falar na criação de um sistema de comunicação de massas para transmitir a esses novos consumidores as ideias do governo.
Anteriormente, ele já havia deixado claro que essa é uma preocupação prioritária do governo, pois a nova classe emergente seria, no seu modo de ver, "um pouco polêmica, porque não tem uma posição ainda consolidada".
Os evangélicos reagiram com vigor, e o ministro foi chamado até mesmo de "safado" pelo deputado Magno Malta, líder de um partido aliado do governo.
E a nova ministra da Secretaria das Mulheres, Eleonora Menicucci, mal assumiu e já se tornou alvo dos evangélicos por sua defesa do aborto.
O cientista político Amaury de Souza diz que não apenas a classe C, mas grande parte da população brasileira é conservadora "se por tal se entende o apego à lei e ordem e a um conjunto de valores relativos ao comportamento individual, à família e à vida em sociedade, muitos dos quais compõem o que se conhece por "moral cristã"".
Ele chama a atenção para a impossibilidade de uma classe que engloba a metade do eleitorado votar de forma homogênea.
"No entanto, os segmentos política e institucionalmente mais organizados da classe C, como os evangélicos, constituem uma formidável força política.
Basta lembrar o papel decisivo que desempenharam na eleição de 2010, capitaneando uma onda conservadora que levou a disputa presidencial ao segundo turno.
Se os evangélicos se tornarem antipetistas, o mérito, ironiza Amaury de Souza, será em boa medida do secretário-geral da Presidência Gilberto Carvalho, que convocou o seu partido a travar "uma disputa ideológica com líderes evangélicos pelos setores emergentes".
O ex-ministro Mangabeira Unger achava "decisivo" para qualquer orientação transformadora do Brasil o surgimento de uma nova classe média, e uma nova cultura de emergentes, "esse pessoal que estuda à noite, luta para abrir um negócio, ser profissional independente, que está construindo uma nova cultura de autoajuda e de iniciativa, e está no comando do imaginário nacional".
Dentro desse contexto, ele considerava que o movimento evangélico precisava ser visto "como um elemento entre muitos dessa nova base social.
São dezenas de milhões de brasileiros organizados".
Mangabeira desenvolveu a tese de que evangélicos brasileiros têm semelhança com pioneiros que fundaram os EUA e tinham o espírito empreendedor que faria a diferença para o desenvolvimento do Brasil.
O cientista político Alberto Carlos de Almeida, do Instituto Análise, acha que não são os políticos e os partidos que fazem a cabeça do eleitorado e doutrinam os grupos sociais, neste caso a classe C, "mas é o oposto que acontece".
Para ele, os políticos têm que adaptar seu discurso para uma nova maneira de pensar. "Assim, se a classe C for mais numerosa e mais conservadora, o PT precisará de um discurso mais conservador para se manter no poder".
O PT já fez isso e continua fazendo, ressalta, lembrando que na eleição de 2010 "o discurso de Dilma enfatizou a importância da classe média, de progredir na vida". Isso não foi feito pelo PT, por exemplo, na eleição de 2002 e 2006.
Alberto Carlos está convencido de que a nova classe C, seu aumento numérico, o aumento de sua renda e escolaridade "empurrarão todos para a direita".
Ainda nesta mesma direção, uma das coisas que acontecerá em breve, na sua previsão, é a demanda por um discurso político permanentemente a favor de redução de impostos.
"Os políticos irão atender a esta demanda, é só uma questão de tempo", diz ele.
O economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas, criador do termo e um estudioso da "nova classe média", explica que a designação reflete "o sentido positivo e prospectivo daquele que realizou — e continua a realizar — o sonho de subir na vida. Mais importante do que de onde você veio ou está é aonde vai chegar".
Ele diz que "o que caracteriza a nova classe média é o lado do produtor. A carteira de trabalho é seu principal símbolo. É o que chamamos de lado brilhante dos pobres".
Marcelo Neri explica que quando as pessoas sobem na vida, começam a ter o que perder e ficam mais conservadoras.
Seu grupo na Fundação Getulio Vargas, em acordo com o Senai, produziu pesquisa sobre a educação profissional relacionada às ideias da nova classe media.
A educação profissional é "a cara da classe C", define Neri: "Mais que a cultura bacharelesca da classe média tradicional", como reflexo de novos valores, "um misto de buscar semelhança com a tradicional classe média e ter origens diferenciadas". (Continua amanhã)
Contas em atraso - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 11/02/12
O sistema financeiro brasileiro carrega R$ 154 bilhões em crédito inadimplente. No ano passado, o estoque de dívidas com atraso acima de 60 dias cresceu 23%. Os números estão atraindo investidores estrangeiros especializados no segmento de crédito podre. A inadimplência no financiamento de veículos cresceu 133% em 2011, ritmo cinco vezes mais rápido que o crédito concedido ao setor.
Não estamos à beira de uma crise como a que outros países viveram, mas temos que olhar com mais respeito os números. Se o mercado de crédito no Brasil está crescendo muito rápido, também é veloz o ritmo do volume de inadimplência. Preocupados com o efeito desse crédito ruim sobre seus balanços, os bancos revendem os ativos a preços baixos para investidores especializados em cobranças de longo prazo.
- É muito caro para um banco tentar recuperar um crédito vencido há mais de 180 dias, por exemplo. Esse tipo de cobrança foge da sua estrutura. Muitos preferem vender essas carteiras a outros investidores, especializados nisso. Apesar do prejuízo, os bancos melhoram o perfil de suas carteiras e recuperam parte do dinheiro emprestado - explicou o economista Paulo Bittencourt, da Apogeo Investimentos.
A KPMG registrou em relatório que só o Santander vendeu R$ 16 bilhões em créditos podres. Aceitou levar um prejuízo de pelo menos 85%. Ou seja, se tinha, por exemplo, uma carteira que valia R$ 100, o banco revendeu a outros investidores por R$ 15. Pela lógica dos bancos, é melhor recuperar R$ 15 e tentar alguma rentabilidade sobre esse valor do que correr o risco de perder os R$ 100 e ainda ter que dizer ao mercado que carrega esse mico. Já para o investidor que compra, as chances de lucros grandes são altas, caso ele consiga fazer com que o devedor pague.
A provisão que os bancos têm que fazer para carteiras de crédito com a mais baixa qualidade subiu 22% no ano passado, de R$ 51 bilhões para R$ 64 bi. Esse é o volume total de atrasos maiores que 180 dias, que são classificados com a letra H pelo Banco Central. Quando o crédito entra nessa classificação, o banco é obrigado a fazer uma reserva de 100% do valor concedido. A provisão feita pelos bancos estrangeiros aumentou 35%.
A KPMG, que presta consultoria para bancos e investidores que querem atuar nesse mercado, estima que, além dos R$ 154 bilhões de crédito em atraso no país, há outros R$ 150 bi contabilizados como perdas pelos bancos, porque ultrapassaram o período de 365 dias inadimplentes. Segundo Salvatore Milanese, líder da área de reestruturação da KPMG, o crescimento do crédito no ritmo de 20% ao ano está chamando atenção de investidores estrangeiros especializados em inadimplência.
- Os investidores sabem que tudo o que cresce a uma taxa de 20% ao ano uma hora terá que sofrer correção, porque nada pode subir indefinidamente até o céu. A taxa é insustentável, e quem olha para os exemplos históricos percebe isso. Quando comecei nesse mercado, em 2001, o percentual de crédito H era 1%. Hoje, subiu para 3%. Existe uma enorme correlação entre o crescimento forte do crédito e a alta do crédito inadimplente - afirmou.
O que preocupa nesses números é que 42% do crédito em atraso no Brasil são de consumidores. Ou seja, muitos brasileiros que estão sendo estimulados a fazer financiamentos não estão conseguindo pagar as contas.
O economista Felipe Queiroz, da Austin Rating, aposta que os atrasos não devem crescer tanto este ano porque a perspectiva é de crescimento da economia. Mas alerta que uma mudança brusca na Europa, que afete os níveis de emprego no país, tornariam o quadro pior:
- A expectativa é que a inadimplência não aumente. Temos a economia com projeção de crescimento, aumento do salário mínimo, redução da Selic. Tudo vai facilitar os pagamentos. O que pode dar errado é um agravamento da crise na Europa. Uma recessão profunda por lá que tenha reflexo nas nossas exportações e na oferta de crédito.
Os economistas costumam olhar só o crédito/PIB e dizer que, na comparação com outros países, os nossos 49% são baixos. Mas aqui o dinheiro é caro demais. Um vento contra pode complicar. Por isso, é hora de olhar esses números com lupa.
O sistema financeiro brasileiro carrega R$ 154 bilhões em crédito inadimplente. No ano passado, o estoque de dívidas com atraso acima de 60 dias cresceu 23%. Os números estão atraindo investidores estrangeiros especializados no segmento de crédito podre. A inadimplência no financiamento de veículos cresceu 133% em 2011, ritmo cinco vezes mais rápido que o crédito concedido ao setor.
Não estamos à beira de uma crise como a que outros países viveram, mas temos que olhar com mais respeito os números. Se o mercado de crédito no Brasil está crescendo muito rápido, também é veloz o ritmo do volume de inadimplência. Preocupados com o efeito desse crédito ruim sobre seus balanços, os bancos revendem os ativos a preços baixos para investidores especializados em cobranças de longo prazo.
- É muito caro para um banco tentar recuperar um crédito vencido há mais de 180 dias, por exemplo. Esse tipo de cobrança foge da sua estrutura. Muitos preferem vender essas carteiras a outros investidores, especializados nisso. Apesar do prejuízo, os bancos melhoram o perfil de suas carteiras e recuperam parte do dinheiro emprestado - explicou o economista Paulo Bittencourt, da Apogeo Investimentos.
A KPMG registrou em relatório que só o Santander vendeu R$ 16 bilhões em créditos podres. Aceitou levar um prejuízo de pelo menos 85%. Ou seja, se tinha, por exemplo, uma carteira que valia R$ 100, o banco revendeu a outros investidores por R$ 15. Pela lógica dos bancos, é melhor recuperar R$ 15 e tentar alguma rentabilidade sobre esse valor do que correr o risco de perder os R$ 100 e ainda ter que dizer ao mercado que carrega esse mico. Já para o investidor que compra, as chances de lucros grandes são altas, caso ele consiga fazer com que o devedor pague.
A provisão que os bancos têm que fazer para carteiras de crédito com a mais baixa qualidade subiu 22% no ano passado, de R$ 51 bilhões para R$ 64 bi. Esse é o volume total de atrasos maiores que 180 dias, que são classificados com a letra H pelo Banco Central. Quando o crédito entra nessa classificação, o banco é obrigado a fazer uma reserva de 100% do valor concedido. A provisão feita pelos bancos estrangeiros aumentou 35%.
A KPMG, que presta consultoria para bancos e investidores que querem atuar nesse mercado, estima que, além dos R$ 154 bilhões de crédito em atraso no país, há outros R$ 150 bi contabilizados como perdas pelos bancos, porque ultrapassaram o período de 365 dias inadimplentes. Segundo Salvatore Milanese, líder da área de reestruturação da KPMG, o crescimento do crédito no ritmo de 20% ao ano está chamando atenção de investidores estrangeiros especializados em inadimplência.
- Os investidores sabem que tudo o que cresce a uma taxa de 20% ao ano uma hora terá que sofrer correção, porque nada pode subir indefinidamente até o céu. A taxa é insustentável, e quem olha para os exemplos históricos percebe isso. Quando comecei nesse mercado, em 2001, o percentual de crédito H era 1%. Hoje, subiu para 3%. Existe uma enorme correlação entre o crescimento forte do crédito e a alta do crédito inadimplente - afirmou.
O que preocupa nesses números é que 42% do crédito em atraso no Brasil são de consumidores. Ou seja, muitos brasileiros que estão sendo estimulados a fazer financiamentos não estão conseguindo pagar as contas.
O economista Felipe Queiroz, da Austin Rating, aposta que os atrasos não devem crescer tanto este ano porque a perspectiva é de crescimento da economia. Mas alerta que uma mudança brusca na Europa, que afete os níveis de emprego no país, tornariam o quadro pior:
- A expectativa é que a inadimplência não aumente. Temos a economia com projeção de crescimento, aumento do salário mínimo, redução da Selic. Tudo vai facilitar os pagamentos. O que pode dar errado é um agravamento da crise na Europa. Uma recessão profunda por lá que tenha reflexo nas nossas exportações e na oferta de crédito.
Os economistas costumam olhar só o crédito/PIB e dizer que, na comparação com outros países, os nossos 49% são baixos. Mas aqui o dinheiro é caro demais. Um vento contra pode complicar. Por isso, é hora de olhar esses números com lupa.
Dilema atroz - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 11/02/12
No final de outubro, o então primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, avisava, em tom de advertência, que seu país nunca esteve, como naquela ocasião, tão perto de abandonar o euro. Como, de lá para cá, pouco mudou, conclui-se que a Grécia do atual primeiro-ministro Lucas Papademos (foto) continua próxima de abandonar a moeda única.
O governo grego parece sempre estar dizendo que o prejuízo maior de eventual saída do euro ficaria para os demais sócios, não para seu povo. O pressuposto seria o de que a troca de moedas provocaria brutal contaminação e o derretimento do próprio euro.
Depois que o Banco Central Europeu começou a despejar volumes ilimitados de recursos nos bancos do euro, o naufrágio à Titanic do bloco parece bem mais improvável - embora os problemas estejam longe de ser sanados.
Se a situação é limite, convém examinar os limites. Em novembro, Kenneth Rogoff , ex-economista-chefe do FMI, observava que, cedo ou tarde, a Grécia teria de pular do euro e voltar à dracma. A opção - ou o dilema - continua de pé.
Para o governo da Grécia, a primeira vantagem da volta à dracma seria poder emiti-la cada vez que tivesse de cobrir um rombo. Outra vantagem seria a de derrubar as despesas públicas. A operação de saída do euro viria acompanhada de alentado calote da dívida. Sem ter de pagar nem os juros nem o principal, o déficit ficaria mais administrável. Em terceiro lugar, uma dracma megadesvalorizada baratearia em moeda forte seus produtos de exportação e seus serviços de turismo. E, assim, com mais receitas em moeda estrangeira, a Grécia poderia recuperar o ritmo de sua atividade econômica.
Mas essa seria só a parte boa da maçã. O calote fecharia o crédito externo por anos. A Grécia teria de viver da mão para a boca, com o que arrecadasse. O precedente da Argentina, sempre lembrado, teria pouca aplicação. A Grécia não é grande produtora de commodities, não tem significativas receitas em moeda estrangeira, tampouco uma indústria competitiva.
Uma forte desvalorização da dracma em relação ao euro, por si só, teria forte potencial inflacionário. C0mo os gregos são dependentes de suprimento de alimentos e de energia (combustíveis) do resto do mundo, especialmente da Europa, o preço dos importados dispararia.
O calote e a troca de barco seriam operações de graves consequências. Os maiores credores da Grécia são os bancos gregos. É provável que muitos deles viessem a quebrar. Além disso, a população grega tem depósitos e aplicações financeiras em euros nos bancos locais. A troca de moeda exigiria a conversão desses ativos para dracmas. Não seria de um dia para o outro que o governo da Grécia teria suficiente numerário em dracmas para fornecer aos correntistas dos bancos. Logo, seria inevitável o racionamento do acesso a essas contas correntes e às aplicações financeiras. As autoridades teriam de organizar um corralito como o da Argentina (2001), que paralisou a economia.
Enquanto o dilema for morrer de morte morrida ou de morte matada, fica compreensível que o grego prefira fingir: fingir que aceita a dureza do plano; fingir que vai cumprir o acordo; fingir que não aguenta mais; e fingir que dará o abraço do afogado e que não será a única vítima.
CLAUDIO HUMBERTO
“Minha vida não foi só na cadeia”
Ministra Eleonora Menucucci (Políticas para Mulheres), durante seu discurso de posse
PT SUPERA O PMDB EM FISIOLOGISMO E RACHA BASE
A ganância do PT por cargos no governo federal, aproveitando-se dos índices de aprovação da presidente Dilma, está rachando a base aliada no Congresso. Onze dos principais ministérios foram entregues ao PT-SP. O PMDB se queixa de que foram transferidas para o PT algumas das suas posições mais importantes, como o Ministério da Saúde, por exemplo. Indóceis, os peemedebistas estão ameaçando uma rebelião.
PALANQUE POBRE
A preocupação do PMDB tem a ver com a eleição municipal deste ano: sem espaço no governo, os candidatos do partido terão dificuldades.
DERROTA PREMIADA
O PT de São Paulo, o mais fisiológico, perde todas as disputas majoritárias, mas controla a maioria dos cargos no governo.
DOIS PESOS...
Expressão máxima do fisiologismo do PT-SP, Aloizio Mercadante perdeu eleição no primeiro turno e já ocupa seu segundo ministério.
...DUAS MEDIDAS
O ex-ministro Helio Costa (PMDB) levou a disputa ao segundo turno, em Minas, mas permanece no limbo, desprezado pelo governo
Dilma.
BNDES PODERÁ FINANCIAR ASFALTO NOVO EM BRASÍLIA
O governo do DF recebeu carta branca do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, para revitalizar o asfalto no Plano Piloto, área central de Brasília, com dinheiro financiado pelo banco. Em reunião com Coutinho, no Rio de Janeiro, o vice-governador Tadeu Filippelli acertou de apresentar uma carta-consulta ao BNDES solicitando o financiamento. O valor do projeto é estimado em R$ 250 milhões.
PÉSSIMO ESTADO
Aos 52 anos, Brasília nunca teve sua malha viária revitalizada. Basta uma chuvinha para os buracos tomarem conta das pistas.
NÃO DEU TRELA
Lado a lado na posse da nova ministra de Políticas para as Mulheres, a presidente Dilma mal olhou para o presidente da Câmara, Marco Maia.
ESQUENTOU
Só não saiu fogo na reunião de Dilma e empreiteiras da transposição do Rio São Francisco porque, lá fora, a temperatura já era um fogaréu.
FUZILEIROS ESTÃO PRONTOS
Um batalhão da Polícia Militar em Barra do Piraí (RJ) se amotinou ontem, enquanto a Marinha colocava os Fuzileiros Navais de prontidão para atuar no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo, se for necessário.
ORDEM UNIDA
Dilma convocou reunião do colégio de líderes governistas. Ela só quer falar, não quer ouvir, avisou Ideli Salvatti (Relações Institucionais), até para não ouvir o coro dos descontentes. A reunião será na próxima terça-feira, às 10 horas.
BOEING: TUDO PELOS CAÇAS
A americana Boeing topou vender seus caças F-18 ao Brasil pelo mesmo preço de 2009, com prejuízo de 12%, informa a Reuters, após os Rafales da francesa Dassault retomarem a mira no Brasil. O preço final não foi revelado, nem se falou em transferência de tecnologia.
FALASTRÃO DESOCUPADO
O coronel golpista que preside a Venezuela, Hugo Chávez, quer vir ao Brasil visitar Dilma e Lula para criar uma “conferência de vitoriosos contra o câncer”. Poderia aproveitar e pagar o que deve à Petrobras.
MOBILIZAÇÃO NA AGU
Os Advogados da União de todo o País realizam mobilização no dia 21 de março, em Brasília. Não falam em greve ainda, mas querem ser recebidos pelo Ministério do Planejamento para abrir negociação.
SUBCONSCIENTE
Na posse da ministra de Mulheres, Dilma errou outra vez o nome do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT). Chamou-o de “Agnelo Rossi”. Quando esteve presa em São Paulo, o cardeal era Agnelo Rossi.
MARIMBONDOS DE FOGO
Réu no processo do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) confia que o colega Protógenes Queiroz (PcdoB-SP) obterá do combalido presidente da Câmara, Marco Maia, a votação da CPI da Privataria em março, revolvendo também a falida CPI do Banestado.
SEM CLIMA
Após mal-estar causado pelo presidente da Câmara, Marco Maia, que desafiou o Planalto, a votação do Fundo de Previdência Complementar do Servidor (Funpresp) ficará para depois do carnaval.
PT, 98
O Partido dos Trabalhadores completou, ontem, 32 anos de idade, mas com corpinho de 98.
PODER SEM PUDOR
BRINCADEIRA ENTRE AMIGOS
Lula, deputado, e Jair Meneghelli, presidente da CUT, seguiam para Brasília no mesmo avião, no tempo de serviço de bordo decente, com talheres inox. Jair almoçou e dormiu. Lula resolveu brincar: meteu os talheres no bolso do amigo. Chamou a comissária e entregou. Ela o cutucou, pediu os talheres e Meneghelli voltou a dormir. No desembarque, a aeromoça-cúmplice cobrou:
– O senhor poderia devolver a taça, por favor?
– Que taça?
– Esta que está no bolso de seu paletó...
Lula havia colocado a taça do vinho no bolso de Meneghelli, que só percebeu a pegadinha ao vê-lo gargalhando na pista do aeroporto.
Ministra Eleonora Menucucci (Políticas para Mulheres), durante seu discurso de posse
PT SUPERA O PMDB EM FISIOLOGISMO E RACHA BASE
A ganância do PT por cargos no governo federal, aproveitando-se dos índices de aprovação da presidente Dilma, está rachando a base aliada no Congresso. Onze dos principais ministérios foram entregues ao PT-SP. O PMDB se queixa de que foram transferidas para o PT algumas das suas posições mais importantes, como o Ministério da Saúde, por exemplo. Indóceis, os peemedebistas estão ameaçando uma rebelião.
PALANQUE POBRE
A preocupação do PMDB tem a ver com a eleição municipal deste ano: sem espaço no governo, os candidatos do partido terão dificuldades.
DERROTA PREMIADA
O PT de São Paulo, o mais fisiológico, perde todas as disputas majoritárias, mas controla a maioria dos cargos no governo.
DOIS PESOS...
Expressão máxima do fisiologismo do PT-SP, Aloizio Mercadante perdeu eleição no primeiro turno e já ocupa seu segundo ministério.
...DUAS MEDIDAS
O ex-ministro Helio Costa (PMDB) levou a disputa ao segundo turno, em Minas, mas permanece no limbo, desprezado pelo governo
Dilma.
BNDES PODERÁ FINANCIAR ASFALTO NOVO EM BRASÍLIA
O governo do DF recebeu carta branca do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, para revitalizar o asfalto no Plano Piloto, área central de Brasília, com dinheiro financiado pelo banco. Em reunião com Coutinho, no Rio de Janeiro, o vice-governador Tadeu Filippelli acertou de apresentar uma carta-consulta ao BNDES solicitando o financiamento. O valor do projeto é estimado em R$ 250 milhões.
PÉSSIMO ESTADO
Aos 52 anos, Brasília nunca teve sua malha viária revitalizada. Basta uma chuvinha para os buracos tomarem conta das pistas.
NÃO DEU TRELA
Lado a lado na posse da nova ministra de Políticas para as Mulheres, a presidente Dilma mal olhou para o presidente da Câmara, Marco Maia.
ESQUENTOU
Só não saiu fogo na reunião de Dilma e empreiteiras da transposição do Rio São Francisco porque, lá fora, a temperatura já era um fogaréu.
FUZILEIROS ESTÃO PRONTOS
Um batalhão da Polícia Militar em Barra do Piraí (RJ) se amotinou ontem, enquanto a Marinha colocava os Fuzileiros Navais de prontidão para atuar no Rio de Janeiro ou no Espírito Santo, se for necessário.
ORDEM UNIDA
Dilma convocou reunião do colégio de líderes governistas. Ela só quer falar, não quer ouvir, avisou Ideli Salvatti (Relações Institucionais), até para não ouvir o coro dos descontentes. A reunião será na próxima terça-feira, às 10 horas.
BOEING: TUDO PELOS CAÇAS
A americana Boeing topou vender seus caças F-18 ao Brasil pelo mesmo preço de 2009, com prejuízo de 12%, informa a Reuters, após os Rafales da francesa Dassault retomarem a mira no Brasil. O preço final não foi revelado, nem se falou em transferência de tecnologia.
FALASTRÃO DESOCUPADO
O coronel golpista que preside a Venezuela, Hugo Chávez, quer vir ao Brasil visitar Dilma e Lula para criar uma “conferência de vitoriosos contra o câncer”. Poderia aproveitar e pagar o que deve à Petrobras.
MOBILIZAÇÃO NA AGU
Os Advogados da União de todo o País realizam mobilização no dia 21 de março, em Brasília. Não falam em greve ainda, mas querem ser recebidos pelo Ministério do Planejamento para abrir negociação.
SUBCONSCIENTE
Na posse da ministra de Mulheres, Dilma errou outra vez o nome do governador do DF, Agnelo Queiroz (PT). Chamou-o de “Agnelo Rossi”. Quando esteve presa em São Paulo, o cardeal era Agnelo Rossi.
MARIMBONDOS DE FOGO
Réu no processo do mensalão, o deputado João Paulo Cunha (PT-SP) confia que o colega Protógenes Queiroz (PcdoB-SP) obterá do combalido presidente da Câmara, Marco Maia, a votação da CPI da Privataria em março, revolvendo também a falida CPI do Banestado.
SEM CLIMA
Após mal-estar causado pelo presidente da Câmara, Marco Maia, que desafiou o Planalto, a votação do Fundo de Previdência Complementar do Servidor (Funpresp) ficará para depois do carnaval.
PT, 98
O Partido dos Trabalhadores completou, ontem, 32 anos de idade, mas com corpinho de 98.
PODER SEM PUDOR
BRINCADEIRA ENTRE AMIGOS
Lula, deputado, e Jair Meneghelli, presidente da CUT, seguiam para Brasília no mesmo avião, no tempo de serviço de bordo decente, com talheres inox. Jair almoçou e dormiu. Lula resolveu brincar: meteu os talheres no bolso do amigo. Chamou a comissária e entregou. Ela o cutucou, pediu os talheres e Meneghelli voltou a dormir. No desembarque, a aeromoça-cúmplice cobrou:
– O senhor poderia devolver a taça, por favor?
– Que taça?
– Esta que está no bolso de seu paletó...
Lula havia colocado a taça do vinho no bolso de Meneghelli, que só percebeu a pegadinha ao vê-lo gargalhando na pista do aeroporto.
SÁBADO NOS JORNAIS
- Globo: Rio indicia 270, prende 140 e tem sexta-feira tranquila
- Folha: Rio indicia e prende PMs para tentar sufocar greve
- Estadão: Rio prende 16 policiais e agiliza processos para punir grevistas
- Correio: Senado pune servidora e investiga concurso
- Zero Hora: Planalto tem 20 mil homens de prontidão para atuar em greves
sexta-feira, fevereiro 10, 2012
Escondidinho verde - DENISE ROTHENBURG
Correio Braziliense - 10/02/12
Ou o documento da Rio%2b20 trata de forma mais incisiva e clara temas como economia verde e combate à pobreza, ou o que vai sair da conferência será uma iguaria sem recheio e sem consequências
O "escondidinho", seja de charque, de camarão, de bacalhau, ou de filé mignon, é uma iguaria que você só deve comer em restaurantes confiáveis. A receita é simples: coloca-se o recheio sob um purê de mandioca, gratinado com queijo coalho. Mas, se o lugar não for bastante honesto, a comida deixará a desejar. Vem pouco camarão, a carne não é filé, o charque fica tão desfiado que mal se percebe que ele está ali. Pois bem, o que isso tem a ver com o assunto que trataremos aqui? Tudo.
A Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, começa a causar suspeitas de que, se algo não for feito logo, a reunião não produzirá uma iguaria à altura da reputação que pretendia ter. Basta ver o documento produzido pela ONU para a largada das discussões. O "draft zero", ou "rascunho zero", fala em economia verde de forma genérica, sem metas, sem cobrar responsabilidades dos países. Enfim, deixa que cada um trate desse tema ou interprete essa economia a seu bel-prazer. Ou seja, cada país faça o seu escondidinho, sem compromisso com a qualidade do que está sob o guarda-chuva "economia verde".
"Reiteramos que economia verde não tem a intenção de ser um conjunto de regras rígidas, mas uma estrutura de tomadas de decisões para fomentar a consideração integrada dos três pilares de desenvolvimento sustentável em todos os domínios relevantes da tomada de decisões públicas e privadas", diz o texto da ONU. "Reconhecemos que cada país, respeitando as realidades específicas de desenvolvimento econômico, social e ambiental, assim como condições e prioridades particulares, fará as escolhas apropriadas", emenda o documento logo em seguida.
Quem tiver o cuidado de ler as 21 páginas do texto, como fizeram 22 ministros do governo Dilma Rousseff, parlamentares e representantes da sociedade civil, sairá com a impressão de que o documento é uma carta de boas intenções, e ponto final. Para situar o leitor que ontem estava mais ligado na greve da PM na Bahia ou na visita da presidente às obras de transposição do Rio São Francisco, houve uma reunião no Itamaraty, na tarde de quarta-feira, em que praticamente a metade do primeiro escalão do governo analisou a proposta da ONU, ao lado de deputados, senadores e representantes da sociedade civil.
O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, senador Fernando Collor (PTB-AL), anfitrião da Rio 92 (ou Eco 92) há 20 anos, foi um dos que mais criticou a proposta. Afinal, não dá para esquecer a ousadia de Collor, que, naquele ano, ameaçou acampar na frente da Casa Branca para convidar pessoalmente o presidente dos Estados Unidos, George Bush, o Bush pai, para o evento. Muitos podem reclamar de Collor, mas é fato que, se não fosse o empenho do presidente à época, aquela conferência não teria reunido tantos chefes de Estado e nem teria a presença de Bush.
Por falar em empenho...
Parece que o governo brasileiro acordou esta semana. Só a presença de ministros na reunião já é um sinal da importância que o Planalto dá à conferência. Há, a partir de agora, um empenho maior não só de se trabalhar um texto mais detalhado, como também de ser mais insistente nos convites aos chefes de Estado, para que compareçam à conferência no Rio de Janeiro, em junho. Na reunião da quarta-feira, por exemplo, houve consenso entre todos os presentes: ou o documento da Rio+20 trata de forma mais incisiva e clara temas como economia verde e combate à pobreza, ou o que vai sair da conferência será uma iguaria sem recheio, o tal escondidinho mequetrefe de que falamos lá em cima.
Tem razão o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, quando diz que o Brasil pode ter uma liderança natural nesse processo. Não só no sentido de cobrar dos outros uma posição mais firme, como instituir metas para si mesmo. No encontro desta semana, houve quem dissesse que o Brasil não tinha a menor preocupação com o desenvolvimento sustentável na época da Rio 92. Ali, o então presidente Collor conseguiu tirar uma agenda da qual o Brasil não saiu mais, apesar das idas e vindas.
A ideia agora é aproveitar o embalo da Rio+20 para acelerar esse projeto de desenvolvimento sustentável em território nacional e tentar, sem falsa modéstia, dar exemplo para o mundo. A próxima reunião da turma que esteve esta semana no Itamaraty será em 8 de março, para tentar aprimorar o documento da ONU. Afinal, se soubemos fazer do escondidinho de origem africana um prato charmoso, com o queijo coalho gratinado por cima, podemos fazer o mesmo em relação à economia verde. Basta trabalhar.
Zelo autoritário - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 10/02/12
Na ação protocolada na Justiça Federal de Goiás, a AGU pede liminarmente a suspensão imediata de todas as contas suspeitas. É fácil constatar o absurdo da demanda. Batidas policiais são fatos, e só regimes muito totalitários tentam impedir cidadãos de reportar eventos reais.
A AGU talvez tivesse um bom caso em mãos se se limitasse a processar servidores públicos que divulgam a localização das blitze. Essa é uma situação em que o agente poderia estar violando seu dever de sigilo, especialmente se a informação circular antes de os policiais saírem às ruas.
Nesta semana mesmo, o secretário de Juventude do Distrito Federal, Fernando Neto, provocou polêmica ao passar adiante duas mensagens que davam as coordenadas de blitze em duas vias movimentadas de Brasília. Demonstrou mais solidariedade aos jovens do que ao poder público, que representa, mas, mesmo nesse caso, parece difícil afirmar peremptoriamente que houve má conduta.
De todo modo, na ação judicial, que potencialmente enquadra qualquer cidadão, os procuradores se excederam, a ponto de ameaçar a liberdade de expressão.
Ninguém ignora que as batidas, em especial as voltadas para implementar a lei seca, são necessárias. O Brasil é um dos recordistas em violência no trânsito, com mais de 55 mil mortes anuais. Parte significativa delas está associada ao consumo de álcool, para não mencionar o exército ainda maior de pessoas que carregam as sequelas de acidentes automobilísticos.
Evitar que pessoas embriagadas tomem o volante é ao mesmo tempo medida de saúde pública e imperativo moral. A fiscalização da lei seca constitui peça desse combate.
A intensificação das blitze está associada à diminuição do número de acidentes de trânsito na área afetada. É preciso, contudo, ampliar a conscientização sem arranhar direitos e garantias fundamentais assegurados na Constituição. Talvez seja um pouco mais difícil, mas não impossível.
Novas capitais da violência - NELSON MOTTA
O Estado de S. Paulo - 10/02/12
Os números não mentem: Maceió, Recife, João Pessoa, Vitória e Salvador são as capitais mais violentas do Brasil, com os maiores índices de homicídios por 100 mil habitantes. Enquanto isso, Rio de Janeiro e São Paulo, que há dez anos ocupavam os primeiros lugares do ranking da violência urbana, foram para as últimas posições da lista macabra.
A velha demagogia simplista que atribui à pobreza e à desigualdade a origem da criminalidade e da violência, ofendendo a maioria absoluta de pobres honestos e pacíficos, sucumbe aos números e aos fatos. Como o Nordeste foi a região do Brasil que teve maior crescimento econômico nos últimos anos, melhorando muito as condições da população, então o crime deveria ter diminuído. Mas dobrou.
Como explicar o aumento da criminalidade paralelo ao crescimento econômico e à ampliação das políticas sociais? Ou é a prosperidade que atrai mais crime e violência? Pode até ser, mas São Paulo, a maior e a mais rica, foi a que mais reduziu o crime nos últimos anos. Porque sua polícia começou a ser saneada, foi mais bem equipada e melhor paga, e fez o que tinha que ser feito: prendeu mais bandidos do que nunca, e a Justiça os manteve presos. Resultado óbvio: a criminalidade caiu mais de 70% nas ruas.
No Rio de Janeiro, com a Secretaria de Segurança do coronel José Mariano Beltrame positiva e operante, o Estado retomou territórios dominados pelo tráfico, começou a resgatar a credibilidade da polícia, prendeu inúmeros bandidos - e alguns policiais corruptos. O efeito foi a queda dramática da violência na cidade, hoje muito mais segura do que qualquer capital do Nordeste.
Seria incompetência, corrupção ou falta de dinheiro? Ou tudo junto? Mas é suprapartidário: nas capitais campeãs da violência, os governos estaduais são do PSDB, do PSB, do PT, do PMDB e do PDT, quase todos aliados do governo federal e de suas verbas. E se alguém disser que no Nordeste sobrevive uma velha cultura da violência, do machismo, do patrimonialismo e da impunidade, como em quase todo o Brasil, vai ser acusado de preconceito e racismo - pelos políticos nordestinos.
Pesos e medidas - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 10/02/12
"Se anistiar, aí vira um País sem regras",disse ontem a presidente Dilma Rousseff com propriedade, mas sem perfeita coerência no cotejo com realidades passadas e presentes.
A prática, na concepção do grupo ora no poder, tem sido a da não punição a grevistas armados - haja vista uma anistia concedida pelo então presidente Lula em 2010-e ada tolerância a movimentos violentos como, por exemplo,o MST que até a Câmara dos Deputados já invadiu.
De onde a posição atual pode até ser vista como uma mudança positiva, mas soa dúbia. Aparenta rigor, mas na prática deixa aberta apossibilidade de a negociação envolver, sim,anistia para a maioria.
Tudo depende do entendimento do que seja "crime".
Excetuados os 12 policiais com mandados de prisão expedidos e alguns já cumpridos, a situação da maioria nesse aspecto é por ora hipotética.
Na hipótese de o governo entender como crime a quebra de hierarquia e a decretação judicial de ilegalidade pelo descumprimento do veto da Constituição à greve e associação sindical para militares, estarão todos os grevistas enquadrados no critério da anistia inegociável.
Mas,na hipótese de serem considerados criminosos apenas aqueles que infringiram o código penal, aí a coisa fica mais complicada.
Não é possível incluir na negociação pelo fim da greve uma anistia que depende do critério a ser adotado. Se a regra é geral tendo como parâmetro a Constituição, não haverá como diferenciar grevistas pacíficos de agressivos.
Pelo menos não antes de se identificar quem foram os responsáveis por depredações, incitações à violência e, possivelmente, até por assassinatos conforme suspeitas cuja autoria é atribuída aos governos estadual e federal.
Diferentemente de outras ocasiões, desta vez o poder público radicalizou.
Pode-se discutir se fez isso no tempo correto, se pesou e mediu adequadamente as consequências disso nas relações futuras entre a polícia e o governo da Bahia, mas fato é que avançou a um ponto de que fica difícil recuar.
E recuo, no caso, seria a concessão de anistia,digamos,administrativa à maioria sob o argumento de que há diferença entre reivindicar salários e pôr em risco a segurança do público.
À luz da Constituição, todos cometeram ilegalidade. Assim como afrontaram a lei policiais grevistas em outros Estados e grupos cuja prática é a violência contra propriedades públicas e privadas.
No calor dos acontecimentos e da premência em se encontrar uma solução, pode até parecer uma questão secundária, mas tanto o governo estadual quanto o federal estão numa sinuca: ou bem mantêm a potência do rugido leonino com que entraram na história ou sairão dela aos miados de gatinhos.
Custo benefício. A senadora Marta Suplicy cobra caro a perda da legenda para disputar a Prefeitura de São Paulo.
A primeira parada ela ganhou,continuando por mais um ano na vice presidência do Senado.
Agora,quando qualifica como "pesadelo" a possibilidade de uma aliança do PT como prefeito Gilberto Kassab, põe um preço - alto do ponto de vista da conveniência do PT nacional -na sua incorporação à campanha de Fernando Haddad.
Erro de pessoa. A presidente Dilma Rousseff saiu-se com um anúncio de "cobrança de resultados" diante da constatação de paralisação de obras como da ferrovia Transnordestina e do projeto de Transposição das Águas do Rio São Francisco.
Há uma inversão de lógica nessa posição. Oito anos depois de atuação como principal figura na gerência do governo Lula e agora completando um ano na Presidência da República, é Dilma quem deve ser cobrada no quesito resultados.
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