domingo, março 27, 2011
VINÍCIUS TORRES FREIRE
Futricas público-privadas
VINÍCIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
INTEGRANTES do governo Dilma Rousseff têm batido muito papo e até boca com gente do setor privado. Mas fala pouco com o público, e fala pouco em público.
Não se trata de saudade da logorreia destrambelhada de Lula, que, no entanto, falava também em público e para o público, ainda que disparates. Mas de observar que tem faltado clareza de programas, metas, normas de conduta e de políticas e começa a sobrar intriga demais. Parte delas, reconheça-se, "restos a pagar" do governo luliano.
Há ou havia intriga e disputa de espaço de poder entre a Casa Civil de Antonio Palocci e o Ministério da Fazenda de Guido Mantega. O atrito direto, ou mediado por frituras e notinhas na imprensa, arrefeceu depois do chamado de Dilma Rousseff, faz dez dias.
Mas reapareceu na disputa por cadeiras da direção da Caixa Econômica Federal. Mantega, pelos indícios, procura reservar a direção a nomes de carreira do banco. A Casa Civil, em parte com carta branca da presidente, procura preservar os interesses da aliança política com o PMDB, com que muita gente esquisita pode parar no comando de um dos quatro maiores bancos comerciais do país.
Por falar em CEF, há o risco de que a taxa de interferência política na nomeação de diretores do banco seja maior que a da época de Lula. Por falar em política e empresa, o governo envolveu-se em esquisitíssima intervenção no comando da Vale. A bem da verdade, a direção da Vale também gosta muito de fazer política, quando interessa, inclusive agora, recorrendo a políticos do governo à oposição -pois a Vale tem interesses políticos regionais também.
Dizer apenas que ocorre uma interferência indevida do governo na administração de uma empresa, uma das duas maiores do país, é, porém, chorumela mercadista farisaica. As grandes empresas brasileiras no final das contas adoram uma intervenção federal, em particular na forma de empréstimos subsidiados, sociedades e apoios à formação de oligopólios. O problema maior mesmo é saber o que o governo quer ao bulir com a Vale.
Roger Agnelli, presidente da empresa, virou desafeto de Lula quando a Vale deu de cortar empregos e investimentos em meio à crise de 2008. Mas a intervenção de agora não pode ser apenas vendeta. E está a cargo de um ministro de Estado, Mantega, da Fazenda.
A questão da Vale não é um único "resto a pagar" das intrusões governistas da era Lula. Mas demonstra o gosto continuado do governo pela negociação nada transparente de "parcerias público-privadas", para dizê-lo de modo sarcástico.
O governo ainda negocia, por exemplo, a arrumação de um negócio malfeito, o leilão da hidrelétrica de Belo Monte -o Grupo Bertin, sem grana, saiu do negócio. Deve entrar a Vale. Ou a Vale e alguma outra grande empresa. Estão fazendo contas para ver se vale a pena. Mas o governo está a "observar" o caso.
Coisa parecida acontece com o trem-bala fantasma de Dilma. Desde que começaram as tratativas oficiais a fim de leiloar a concessão do trem-bala, há intervenção do governo na formação dos consórcios, afora a batelada de subsídios concedidos para que ela fique de pé.
O meio de campo está embaralhado. E segredoso demais.
JOSÉ SIMÃO
Dengue! Bial pica mosquito!
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Últimas Notícias! Breaking News! "Japão reconstrói estrada destruída por terremoto em seis dias." Ou seja, o Japão vai ficar pronto antes do estádio do Corinthians! O Japão vai ficar pronto pra Copa de 2014 antes do Brasil!
E esta: "Praia de nudismo na Paraíba pode virar resort". O problema de praia de nudismo é o tamanho do bilau. Se o bilau for grande, todo mundo fica olhando. E, se o bilau for pequeno, olham mais ainda!
E esta outra: "Idosa de 92 dá um tiro no vizinho após ter beijo negado". Será que é por isso que ninguém nega um selinho pra Hebe? E a manchete do Sensacionalista: "Em vez de arara azul, animação "Rio" será estrelado por mosquito da dengue". Aedes azul. O avatar do mosquito.
Mas o Eduardo Paes tem um plano para aniquilar com a dengue: O FIM DA PICADA! E diz que enquanto o mosquito pica, o Paes picas! Rarará! E o mosquito pica até celebridades. O mosquito chegou bêbado em casa e a mosquita: "Você picou o Zeca Pagodinho de novo?". E aí o mosquito chegou desorientado, falando coisas sem nexo: "Você picou o Bial". O Bial contaminou o mosquito da dengue. Rarará!
E o Kagaddafi? Com aquele turbante cor de enxurrada e o cabelo do Cauby. Ele parece o Vanderlei Luxemburgo. Só que mais tranquilo! E sabe como se chama aquele modelito cor de camelo com diarreia do Kagaddafi? Baiana do quibe! E a Onu prepara ajuda humanitária pra Líbia. Portugal também! Vai jogar duas toneladas de tíquete-refeição. Assim eles escolhem o que comer!
E a Força de Coalizão atinge base naval de Bousseta! Ueba! Arrasaram a Bousseta do Gaddafi. Que deve ser uma esfirra aberta! E como dizia o pacifista: "Bombardear pela paz é como trepar pela virgindade".
Os Predestinados! Mais uma série de predestinados. Olha a placa: "Vendo ovo de Páscoa. Falar com Ovídio". E em São José dos Campos tem um anestesista chamado Anestaldo! Vou tomar uma anestesia com o doutor Anestaldo pra ficar abestado! E este folheto: "Cirurgia íntima. Chega de incômodo nas relações sexuais. Tire suas dúvidas com Lucia PEPINO". Rarará!
E tem um epidemiologista especializado em dengue chamado doutor Roberto MEDRONHO! O doutor Roberto que me desculpe, mas vai matar mosquito no susto. Socuerro. Corre! Lá vem o doutor Medronho. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
GAUDÊNCIO TORQUATO
A democracia supletiva
GAUDÊNCIO TORQUATO
O Estado de S.Paulo - 27/03/11
O poder das coisas suplanta o poder das ideias. A hipótese pode parecer um disparate. Inserida, porém, no bojo da sociedade contemporânea - emoldurada pela expansão econômica, despolitização, pelo esfacelamento de doutrinas, luta por interesses setoriais e grupais, administração de coisas materiais -, começa a ganhar sentido. O território da política é o que mais sofre os efeitos dessa nova ordem. E a razão é a crise que assola o modelo de representação. O declínio dos partidos corrói a imagem dos mandatários e faz nascer múltiplos aglomerados, os quais, por sua vez, procuram substituir a esmorecida instituição política. E por que esta definha? Porque a democracia deixou de cumprir seus compromissos para com a sociedade, como ensina Norberto Bobbio. A descrença no sistema representativo faz emergir polos de agregação e contestação fora do Parlamento. Nesse vácuo desponta uma nova designação na fisionomia das nações democráticas: democracia supletiva. A expressão, adotada pelo sociólogo Roger-Gérard Schwartzenberg e que indica a existência de uma subestrutura em auxílio à democracia representativa, cobre a constelação de entidades que fazem micropolítica, a política do varejo, das pequenas coisas.
Como se avalia a força desse fenômeno entre nós? Pela composição da organicidade social. Tanto sob a dimensão vertical (classes sociais, grupos e categorias profissionais) quanto sob o prisma horizontal/espacial (regiões centrais e periféricas), espraia-se vigorosa onda formada por entidades focadas na intermediação de interesses: associações, sindicatos, federações, clubes, núcleos, movimentos, etc. Na esfera das nações, o Brasil desponta com um vasto território coberto pela democracia supletiva. Dispomos de uma rica moldura de entidades. Algumas instâncias são bem aparelhadas, a mostrar grupos atuantes, seja nas retaguardas corporativas - defesa de interesses de setores negociais -, seja na vanguarda da cidadania, que abriga o debate sobre temáticas coletivas, como sustentabilidade, igualdade de gêneros, luta contra as drogas, proteção da criança e do adolescente, segurança pública, entre outras. O que chama a atenção na teia organizativa é o poder de mobilização de certos núcleos, particularmente os que atuam na base da pirâmide social, hoje mais parecida com um losango. Temos, já, 101 milhões de brasileiros na classe média.
Sob esse olhar, surge a primeira observação: a massa laboral detém, hoje, maior poder de barganha e pressão do que o eixo empresarial. É patente o esmorecimento das tradicionais entidades empresariais, como Confederação Nacional da Indústria (CNI), federações de indústrias, associações comerciais e outras. No passado, definiam rumos da economia. Hoje, mais parecem leões desdentados. Cedem espaço às associações das cadeias produtivas, que, estas, sim, assumem funções políticas nas frentes institucionais. Já as bases laborais urbanas atingem o clímax de sua força, a partir do ciclo Lula e da legalização das centrais sindicais. Endinheiradas e prestigiadas, essas entidades dão o tom em múltiplos espaços da administração pública. Dirigem a orquestra das relações do trabalho. O capital praticamente não apita em matéria de política trabalhista. Os trabalhadores rurais, por sua vez, não dispõem de um sistema de interlocução tão contundente quanto o dos conglomerados urbanos. Sua imagem, ademais, é embaciada pela cor vermelha das bandeiras do Movimento dos Sem-Terra, que, mesmo desprestigiado, encampa a agenda rural. Já a representação empresarial do campo expressa discurso mais harmônico que a urbana. Sua imagem, porém, resvala pelo extremo conservadorismo.
Ainda na parte inferior da pirâmide/losango, formam-se as associações de bairros, que atuam de maneira pragmática na arena institucional, funcionando como extensões da representação política. As questões locais entram no menu servido aos políticos. Nesse vasto território, e até mais em cima, assumem destaque as vertentes religiosas, que, ao lado da defesa de crenças e dogmas, também começam a vestir cores políticas. Passam a entoar o canto geral dos anseios coletivos, como a defesa do meio ambiente, que, por sinal, é o tema deste ano da Campanha da Fraternidade, patrocinada pela Igreja Católica. Igrejas e credos desenvolvem, à sua maneira, a democracia supletiva. E saindo da base para o meio, expande-se a vasta cadeia organizativa sob a qual se abrigam profissionais liberais, habitantes do centro e do topo da pirâmide. Trata-se de uma rede corporativa com poder de persuasão e forte articulação junto às instituições políticas, posição que lhe garante escudo normativo. Mas a influência midiática dos polos centrais acaba se diluindo nos variados compartimentos que conduzem as demandas de cada grupamento.
O contingente jovem, que se retraiu após a mobilização dos caras-pintadas da era Collor, recomeça agora a se fazer presente nas ruas, sendo esta a boa novidade na paisagem de nossa democracia supletiva. O mais recente movimento dos jovens, em São Paulo, fazendo pressão contra o aumento da passagem de ônibus, aponta para o despertar de segmento considerado transcendental para a vivificação de nossa democracia. Eventuais mobilizações que ocorrem no território são motivadas, porém, menos em defesa de ideários e mais por proteção ao bolso. Os jovens continuam apartados da esfera de participação política.
Por último, ressaltam as correntes que se formam em defesa da igualdade de gêneros e raças, algumas responsáveis pelas maiores concentrações de massa no País, como a Parada Gay de São Paulo.
Nossa democracia supletiva tende a se expandir, no bojo da conscientização social, da expansão econômica, da melhoria de padrões de vida e do declínio dos mecanismos clássicos da política, como doutrinas, partidos, Parlamentos e oposições. A perspectiva é alvissareira. Afinal, esse é o oxigênio que vivifica todos os poros do corpo social.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO.
ILIMAR FRANCO
No divã
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 27/03/11
Os tucanos estão pessimistas com o futuro imediato da oposição no Brasil. A avaliação deles: o DEM está se desintegrando, o PSDB não existe no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, não há risco de desordem econômica pela frente e a presidente Dilma Rousseff está apertando os parafusos fiscais que eles achavam que estavam frouxos. Seus dirigentes dizem que precisam construir um projeto para o Brasil e que o inverno será longo.
Um empurrãozinho nos partidos
Depois da vitoriosa mobilização social que resultou na aprovação da Lei da Ficha Limpa, o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE) vai deflagrar uma nova campanha, desta vez pela realização de uma reforma política. Seus integrantes vão entrar em campo defendendo três teses: financiamento público das campanhas eleitorais, voto em lista de candidatos apresentadas pelos partidos e adoção de regras que democratizem a vida partidária. O movimento também pretende promover consultas em todo o país para incorporar outras propostas que tenham o apoio de um contingente expressivo de eleitores.
"Ele já está lá há dez anos, é muito tempo” — Guido Mantega, ministro da Fazenda, sobre a ação do governo para substituir Roger Agnelli no comando da Vale
O DESAFIO DO OMELETE. Apresentadora de um programa de culinária na TV em Goiás, a deputada federal Íris de Araújo (PMDB) quer reiterar convite feito à presidente Dilma Rousseff. Na pré-campanha, Dilma tinha se proposto a fazer uma sopa de beterraba, prato típico do leste europeu. Mas depois que a presidente fez omelete duas vezes na TV, Íris quer propor um desafio: um omelete só de claras, que seria mais difícil.
Em casa
O TSE adotou informalmente a filosofia do Ficha Limpa na escolha dos advogados para compor o colegiado dos TREs. Como cabe ao tribunal aprovar as indicações, seus integrantes rejeitaram os que respondiam a muitos processos.
De olho
Os movimentos sociais estão iniciando mobilização para enfrentar o impacto da Copa de 14 e das Olimpíadas de 16. A maior preocupação é com a remoção de famílias das áreas onde residem, em função desses megaeventos esportivos.
Em busca de um candidato a governador
Com o fracasso da articulação para atrair o prefeito Gilberto Kassab para o PMDB, o comando do partido decidiu apostar em outros quadros políticos para reerguer a sigla em São Paulo. Os peemedebistas estão agora conversando e apostando suas fichas no presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que concorreu ao governo pelo PSB, e no prefeito de Campinas, Doutor Hélio (PDT), que ficará sem mandato no ano que vem.
Encantado
A atriz Patricia Pillar foi uma das convidadas para ir ao Palácio da Alvorada na noite de sexta-feira. Lá pelas tantas, perguntaram pelo marido, o ex-governador Ciro Gomes , e ela : "Deixa o Ciro quietinho, no Rio, comigo".
Em forma
No encontro com cineastas mulheres, na noite de sexta-feira, a presidente Dilma Rousseff comentou que estava muito preocupada com o peso. Admitiu que tinha ganho uns quilinhos a mais e concluiu: "Preciso voltar a caminhar".
A PRESIDENTE Dilma Rousseff pediu ao ministro Alexandre Padilha (Saúde) a criação de um mecanismo de controle sobre a aplicação dos recursos transferidos pela pasta para estados e municípios investirem em saúde pública.
GURU. Um grupo de parlamentares do PT se reúne com o ex-presidente Lula nesta semana para discutir reforma política.
A BIBLIOTECA. do Alvorada é o local preferido da presidente para passar seu tempo livre. No jantar com cineastas ela levou três grupos até lá para conhecer.
CELSO MING
Alargamento do horizonte
CELSO MING
O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/03/11
O Banco Central já avisou que não contará com a inflação na meta até final de setembro. A partir daí, a inflação começará a convergir para lá - avisa a última ata do Copom.
Essa ideia poderá vir a ser mais bem explicada no Relatório de Inflação, a ser editado nesta quinta-feira. Em todo o caso, fica claro que o horizonte com que o Banco Central trabalhará não será, ao menos desta vez, o ano calendário, mas um ponto qualquer lá no meio de 2012. É o que o Banco Central chama, algo empoladamente, de "alongamento do horizonte relevante da meta de inflação".
Primeiramente, é preciso entender o que está por trás dessa decisão. E, em segundo lugar, avaliar algumas de suas consequências.
No seu depoimento à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, na última terça-feira, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, citou as novas incertezas geradas por acontecimentos que ninguém previra. Entre eles, a esticada dos preços das commodities agrícolas, especialmente dos alimentos, que no período de 12 meses terminado em fevereiro subiram nada menos que 55%. Mas apontou também o avanço, este previsível, do crédito, de 20,3%, no período de 12 meses terminado em janeiro. Não falou que a virulência da inflação foi provocada mais pela escalada das despesas públicas do que por esses dois fatores juntos. Mas isso agora é leite derramado.
Tombini provavelmente dirá que, se fosse para enfiar a inflação para dentro da meta ainda em 2011, seria necessário aplicar uma quimioterapia de juros. E que, apesar de toda a sua autonomia à frente do Banco Central e tal, um novo choque de juros agora seria inadmissível. Daí porque a saída foi estender, ao menos provisoriamente, o prazo de convergência.
Convém perguntar se esse aumento do prazo será suficiente para controlar o atual empuxo da inflação. E há um punhado de dúvidas sobre isso. A primeira delas está no próprio efeito desse alongamento. Será mais inércia inflacionária produzindo efeitos sobre a inflação futura. Não está claro se os modelos do Banco Central estão devidamente carregados com essa pressão e o que virá com ela.
A segunda dúvida é uma enorme omissão. Em nenhum dos seus documentos, o Banco Central avalia o impacto inflacionário que será produzido pelo reajuste do salário mínimo em 2012, que será ao menos de 13,9%, um preço já contratado pela Lei 12.382, de 25 de fevereiro de 2011.
O Banco Central fala do câmbio estimado para 2011, do que espera de resultado das contas públicas e do comportamento futuro dos preços da energia elétrica, dos combustíveis e do gás de cozinha. Mas, misteriosamente, ignora a paulada do mínimo e o efeito que exerce antecipadamente sobre os preços da economia.
O terceiro fator de inflação é o crédito. O Banco Central tomou as tais medidas macroprudenciais destinadas a desacelerar o crédito. E lá mesmo no Senado mostrou gráficos indicando o seu encarecimento e a redução do número de prestações nas operações de financiamento. O problema é que o comércio segue vendendo como antes e, o crédito, crescendo, até porque o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal (bancos oficiais) ignoram a determinação de limitar o crescimento do crédito em apenas 15%.
As enormes dificuldades que o Banco Central vem encontrando para afinar as expectativas do mercado têm tudo a ver com as dúvidas aqui apontadas.
Resíduos tóxicos
Ao contrário do que afirmam dirigentes da CTNBio (organismo que regula o setor), o Idec adverte que já foi verificada a existência de mais resíduos de agrotóxicos nas plantações transgênicas do que nas de cultura convencional.
Riscos à saúde
O Idec também não aceita o que dizem autoridades brasileiras da área: há, afirma, risco à saúde. O transgênico pode causar resistência a antibióticos e aumento de alergias.
Ignorância sobre o assunto
Também discorda das conclusões de pesquisa do Instituto Ipos, que aponta que 74% dos brasileiros não sabem o que é transgenia e não poderiam rejeitar o produto a partir de aviso em rótulo. Pesquisa do Ibope, diz o Idec, mostrou que mais de 90% das pessoas querem saber se o alimento é transgênico ou não.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
Processos de cliente contra construtoras sobem em SP
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
O aquecimento no setor imobiliário em São Paulo veio acompanhado de uma expansão de quase 400% no número de ações judiciais contra construtoras e incorporadoras desde 2008.
Quase 700 processos foram distribuídos em 2010 contra cinco grandes empresas do ramo na capital, segundo estudo do Tapai Advogados, com base em dados do Tribunal de Justiça. Abrangem diferentes instâncias. Ainda cabe recurso.
"A concorrência entre as empresas faz com que lancem empreedimentos sem saber se conseguirão cumprir prazos", diz Marcelo Tapai, sócio do escritório.
Entre as mais citadas no estudo estão Tenda, Gafisa, MRV, Cyrela e Ecoesfera, nesta ordem.
Gafisa e Tenda, que afirmam não reconhecer o resultado da pesquisa, informam que "a dinâmica é constante. Há um número de processos encerrados mês a mês".
Para a Cyrela, o tamanho da empresa deve ser ponderado. "O número de ações é inexpressivo face ao número de clientes e obras."
A Ecosesfera afirma que seus "casos de atrasos não diferem do que tem ocorrido no setor" e cita a falta de mão de obra e o excesso de chuvas nos últimos meses. "Os contratos foram renegociados com sucesso e os clientes informados do novo cronograma de entrega."
A MRV informa que passou a realizar ação "preventiva" para detectar e corrigir reclamações antes de os casos serem levados à Justiça.
CÉU DE BRIGADEIRO NO INTERIOR
A Azul Linhas Aéreas atingiu 70% de participação dos embarques no aeroporto de Viracopos, em Campinas, SP, em fevereiro, segundo a Infraero.
Com pouco mais de dois anos de existência, a companhia aérea tem aumentado a sua presença nos voos a partir do aeroporto.
Em 2009, a empresa detinha 36% de participação no mercado e, no ano passado, a marca foi de 52%.
A companhia terá novos destinos, com saídas diárias de Viracopos.
Palmas, no Tocantins, e Juazeiro do Norte, no Ceará, são as últimas cidades definidas pela Azul. Jatos da Embraer vão decolar para esses municípios em junho. Voos para Uberaba, Araçatuba e Presidente Prudente já estavam previstos para ter início no dia 15 de abril.
Outro aeroporto que possa oferecer crescimento como o de Viracopos?
"Nenhum se comparará ao de Campinas", diz Pedro Janot, presidente da Azul. "Teremos um grande centro de distribuição de voos em Viracopos e outros "mínis", como BH, Rio e Porto Alegre."
O QUE ESTOU LENDO
Samuel Pessoa, sócio da Tendências Consultoria
"Reflexões sobre um Século Esquecido: 1901-2000" (ed. Objetiva, 2010), de Tony Judt, está entre as leituras de Samuel Pessoa, pesquisador associado do Ibre-FGV.
"O tema recorrente, ao menos dos primeiros oito ensaios, é como os intelectuais digeriram ao longo do século 20 a experiência do socialismo real", diz o economista.
Sócio da Tendências Consultoria, Pessoa também se dedica a ler "Padre Guilherme Pompeu de Almeida" (ed. Mameluco), de Jorge Caldeira, sobre um empresário paulista do século 17, cuja riqueza não se originava da agricultura.
"Trabalho monumental que, em conjunto com o primeiro volume, "Mulheres no Caminho da Prata", serve como um grande estudo de caso para a síntese da história econômica", afirma.
INDEPENDÊNCIA TUPINIQUIM
O Brasil é o quinto melhor país da América Latina para a realização de investimentos, segundo levantamento da Universidade de Miami.
A nota recebida pelo país, que poderia variar entre zero e quatro, foi 2,97.
O estudo classifica o Judiciário brasileiro como "bastante independente" e critica a atitude de legisladores que "votam a favor do governo federal em troca da aprovação de suas emendas individuais".
Chile, República Dominicana, Uruguai e Costa Rica são os mais atraentes para investidores estrangeiros, de acordo com a pesquisa.
Argentina e Venezuela receberam as duas piores notas entre os 18 países avaliados na região.
O levantamento levou em conta seis itens, como autonomia das instituições financeiras, equilíbrio entre os três poderes e comprometimento dos países latino-americanos com acordos internacionais.
Respostas de 150 especialistas a um questionário do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) sobre como os governos da região elegem suas prioridades também foram incluídas.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION
DAVID BROOKS
Longevidade de um ditador está na loucura
DAVID BROOKS
The New York Times
O Estado de S.Paulo - 27/03/11
Há uma pergunta que sempre fiz a mim mesmo em relação a Muamar Kadafi: como um sujeito que mal parece manter contato com a realidade consegue se manter no poder por 42 anos? Ele faz discursos delirantes e incoerentes em palcos como as Nações Unidas. Sua cabeça esta cheia de esdrúxulas teorias da conspiração e estranhas obsessões, como pedir a eliminação da Suíça ou culpar o serviço de espionagem israelense pela morte de John F. Kennedy. Ele visita países estrangeiros usando roupas estranhas, revelando seus extravagantes gostos pela maquiagem e pelo gel de cabelo, e em certa ocasião afixou uma fotografia ao próprio peito. Ele tem um contingente de guarda-costas exclusivamente femininas.
Em 2008, ele anunciou uma reforma no governo que incluiria, entre outras providências, a abolição de todos os ministérios do governo, com exceção da Defesa, da Segurança Interna e alguns outros.
Estas não são as medidas de uma personalidade fria, calculista e maquiavélica. Mas Kadafi não pode ser simplesmente desconsiderado como um mero lunático. Ele manteve domínio sobre uma região implacável, e é possível que sobreviva às atrapalhadas tentativas de depô-lo.
Parece que há certa vantagem na megalomania que constitui o traço mais marcante da vida de Kadafi. Ele foi expulso da escola por tentar organizar uma greve dos estudantes. Começou a planejar um golpe para tomar o poder no país quando ainda estava na faculdade. Comparou-se muitas vezes a Jesus Cristo e ao Profeta Maomé. Ele chama o Livro Verde que contém seus ensinamentos de "novo evangelho".
Kadafi aparentemente escreveu o livro com a convicção de ter descoberto as respostas para todos os problemas da raça humana, o que ele chama de Terceira Teoria Universal. Num trecho particularmente absolutista, ele escreve, "A Verdadeira Democracia tem apenas um método e uma teoria".
Pelo caminho, ele nos oferece observações banais como se ninguém jamais tivesse pensado nelas antes. Revela que as mulheres menstruam, mas os homens, não. Apresenta doutrinas que nada têm a ver com seu comportamento real: "O ensino obrigatório é uma educação coercitiva que suprime a liberdade. Impor conteúdos específicos a ser ensinados é o gesto de um ditador".
Ele parece ser uma daquelas pessoas que acreditam ser portadoras da verdade universal, que desejam impor sua maneira de pensar a todos os demais e exercer seu domínio sobre os outros como um tipo de super-homem da história mundial.
Foi assim que ele administrou seu país. De acordo com o Índice de Liberdade da Imprensa, a Líbia é o país do Oriente Médio e do Norte da África em que os censores são mais atuantes, um feito notável.
Especialistas estimam que até 10% ou 20% da população pode ser de informantes do serviço estatal de segurança. Para eliminar a influência do exterior, Kadafi chegou certa vez a tirar os idiomas estrangeiros das escolas e a remover as placas de ruas escritas no alfabeto latino.
No início de seu governo, ele expulsou a comunidade italiana, obrigando seus membros a exumar os cadáveres de italianos para tirá-los dos cemitérios líbios e levá-los de volta para casa. A exumação foi transmitida ao vivo pela TV estatal. Cartazes colados pelas ruas trazem mensagens como "Obedeça às Autoridades".
Ao longo das décadas, ele tentou reformar o mundo À sua imagem grandiosa. Tentou criar um império maior por meio da fusão entre Líbia e Sudão. Tentou criar uma Federação de Repúblicas Árabes com o Egito e a Síria. Tentou criar uma Legião Árabe. Chamou a si mesmo de Rei dos Reis, Imã de Todos os Muçulmanos e, em 2009, tentou criar os Estados Unidos da África.
Criou academias de censura e treinou alguns dos autocratas mais brutais do mundo e, é claro, apoiou movimentos terroristas na Austrália, na Irlanda, na Alemanha e além.
Mas é a própria megalomania que parece ser ao mesmo tempo o segredo de sua longevidade e também de sua natureza desequilibrada. O fato paradoxal é que, para se manter no poder como ditador, é mais fácil agir como um totalitário narcisista do que como um autocrata medíocre.
Megalômanos como Kadafi buscam controlar cada neurônio do seu povo, bem como cada aspecto da vida dele. Eles destroem todas as autoridades externas e a sociedade civil. Personalizam cada instituição para que corpos como o Exército existam apenas para servir à sua divina pessoa, e não ao país como um todo.
Não são perturbados pelas dúvidas nem pela preocupação com a opinião favorável dos outros, pois são portadores da verdade absoluta. Sua motivação é o cumprimento de sua Missão Histórica Mundial, sem nenhum interesse numa aposentadoria pacífica em alguma mansão.
Anos atrás, Jeane Kirkpatrick estava certa ao fazer uma distinção entre as ditaduras autoritárias e as ditaduras totalitárias. As totalitárias são mais distorcidas e mais difíceis de depor. A desequilibrada e narcisista maluquice de Kadafi parece ser a chave da longevidade. Portanto, lembre-se: se quiser ser um tirano, seja um amalucado. É mais seguro assim. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL
ANDREA MURTA
Obama, Líbia e Brasil
ANDREA MURTA
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
Preocupado com a Líbia, Barack Obama antecipou a volta de sua viagem à América Latina na última quarta-feira e encontrou a Casa Branca trancada. Literalmente. A imprensa local adorou a imagem do presidente tentando abrir a porta e se ver sem as chaves.
Nesse caso, o desconforto passou rápido. Mas não vai acontecer o mesmo com a intervenção militar que Obama ajudou a lançar no país norte-africano.
É uma das ofensivas mais indefinidas de que se tem notícia. Mesmo com os acordos recentes na Otan (aliança militar ocidental), não está claro quem está no comando, qual o objetivo, por quanto tempo a missão vai durar ou -o mais importante- qual é a definição de sucesso.
A aliança, a seu lado, vem alargando a confusão. Em crise de identidade desde sua criação, há mais de 60 anos, mal havia resolvido a liderança da zona de exclusão aérea ("no-fly zone") e já discutia ampliar a operação.
Falam em uma intervenção de semanas. Talvez seja verdade, se considerada com otimismo apenas a parte militar. Mas fica cada vez mais difícil vislumbrar a permanência do ditador Muammar Gaddafi no país, e derrubá-lo significa transformar toda a estrutura de poder local.
Daí, semanas viram anos. Ainda não há alternativa viável a Gaddafi. E terminar a ação com o que um dia foi a Líbia transformada em territórios autônomos governados por alianças tribais não seria lá muito palatável para o resto do mundo: além da preocupação com a abertura de uma porta a extremistas, o país servia até pouco tempo de barreira à imigração ilegal para a Europa. Perguntem à Itália se ela quer ver a região sem controle.
E a história não está do lado da Otan ou dos Estados Unidos quando o assunto é mudança de regime (sim, é disso que estão falando).
Se Bósnia e Kosovo não são exemplos palpitantes de progresso, que dirão Iraque e Afeganistão. São experiências diferentes da atual em quase tudo, mas lembram o quanto é difícil reconstruir um governo.
Enquanto isso, Obama não escapa da pecha esquisita de um Nobel da Paz antiguerra do Iraque que enfiou seu país em outra ação militar.
Um "post" no Facebook citado pela revista "The Economist" faz uma brincadeira mordaz com o que diria a Casa Branca hoje: "Pedimos desculpas pelo hiato não planejado nos bombardeios ao Oriente Médio. O serviço normal já foi restabelecido".
Por tudo isso, estrategicamente, foi um erro deixar a Líbia ofuscar a viagem do democrata à América Latina, me disse um analista local. "Daqui a dez anos, o Brasil será mais importante que o Reino Unido. E a Líbia... bem, a Líbia vai ser um monte de areia."
CLÓVIS ROSSI
Irã é ponto fora da curva
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
SÃO PAULO - São prematuras as notícias da morte da política externa Lula/Amorim. É verdade que, na quinta-feira, o Brasil votou contra o Irã, pela primeira vez em pelo menos oito anos, no caso da designação de um relator especial para investigar violações aos direitos humanos no país persa.
Mas é um acontecimento pontual demais para que se possa enxergar nele uma mudança abrangente e/ ou permanente.
Primeiro, porque não estavam em jogo sanções ao Irã. É até possível que o foguetório em torno de uma mudança profunda se deva ao fato de que causa certa confusão, em um país pouco atento à política externa, jogar na mesma sentença Brasil, Irã e Nações Unidas.
O voto do Brasil a favor do Irã foi no Conselho de Segurança, quando se debatia a imposição de sanções por causa do programa nuclear iraniano -sanções afinal aprovadas. O voto contra o Irã foi no Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, no qual se debatia um passo prévio a eventuais sanções, qual seja, a investigação de violações aos direitos humanos.
É claro que a reação do governo iraniano foi furibunda, como só podia ser. Regimes que se creem a encarnação da palavra de Deus não podem tolerar que se duvide do que quer que digam, sobre a bomba ou sobre direitos humanos.
Mas a explicação da embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo, a representante do Brasil perante o escritório da ONU em Genebra, é simples e coerente: "Há suspeitas de violações? Há. O país colabora com o Conselho? Não. Então, cabe uma investigação".
Além desses aspectos factuais, há uma lógica para dizer que é no mínimo improvável qualquer mudança de fundo na política externa: Dilma Rousseff é herdeira dela. E recebeu um país com mais relevância internacional do que antes. Faz sentido mudar só para agradar a oposição, que, convém não esquecer, perdeu a eleição?
ELIO GASPARI
A peãozada deu uma lição aos comissários
ELIO GASPARI
O GLOBO - 27/03/11
Nutridos pela Viúva, os comissários acharam que conversa de peão era coisa de pobre, e acabaram atropelados
REAPARECEU NO MEIO da mata amazônica, dentro do canteiro de obras da Camargo Corrêa, o eterno conflito dos trabalhadores da fronteira econômica com as arbitrariedades e tungas a que são submetidos por grandes empreiteiros, pequenos empresários, gatos e vigaristas.
Num só dia, incendiaram-se 45 ônibus e um acampamento na obra da hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Em poucos dias, a peãozada zangou-se também nos canteiros de Santo Antônio (RO), nas obras da Petrobras de Suape (PE) e em Pecém (CE). Ocorreram problemas até em Campinas (SP). Estima-se que entraram em greve 80 mil trabalhadores da construção civil. Esse setor da economia emprega 2,4 milhões de brasileiros.
Do nada (ou do tudo que fica escondido nas relações de trabalho nos acampamentos), estourou um dos maiores movimentos de trabalhadores das últimas décadas. Sem articulação, redes sociais ou ativismo político, apanhou o governo de surpresa. Assustado, ele mandou a tropa da Força Nacional de Segurança. Demorou uma semana para que o Planalto acordasse.
Numa época em que os sindicalistas andam de carro oficial, o representante da CUT foi a Rondônia com um discurso de patrão, dizendo que os trabalhadores não podiam parar uma obra do PAC. (Essa mesma central emitiu uma nota condenando o bombardeio da Líbia.)
Paulo Pereira da Silva, marquês da Força Sindical, disse que nenhuma das duas grandes centrais está habituada a lidar com multidões. De fato, nas obras de Jirau e Santo Antônio juntam-se 38 mil trabalhadores. Há sindicatos na área, mas eles mal lidam com as multidões dos associados. Disputam sobretudo o ervanário de R$ 1 milhão anual que rende a coleta do imposto sindical da patuleia.
As lideranças políticas e sindicais nascidas no rastro dos movimento de operários do final dos anos 70, quando pararam 200 mil trabalhadores no ABC por conta de um barbudo chamado Lula, mudaram de andar. Preocupados com a distribuição de cargos e de Bolsas Ditadura, esqueceram-se dos sujeitos que precisam da cesta básica.
Não perceberam que as mudanças sociais ocorridas no país haveriam de chegar aos alojamentos dos peões das grandes obras.
Ou as grandes empreiteiras se dão conta de que devem zelar pela qualidade e pelo cumprimento de seus contratos trabalhistas, ou marcas como a da Camargo Corrêa, da Odebrecht e da OAS ficarão marcadas pelas patas dos gatos que entram no recrutamento de seus trabalhadores.
Entre as reivindicações de Santo Antônio estava a instalação de banheiros exclusivos para mulheres. Alô, doutora Dilma.
Nenhuma dessas empresas foi fundada por um empreendedor genial nem tentou um empreendimento de ambição comparável à Fordlândia. Foi na matas da Amazônia que, no século passado, Henry Ford atolou seu projeto de extração e industrialização da borracha.
Maus modos, incompreensão e complexo de superioridade resultaram numa revolta que destruiu boa parte das instalações do empreendimento. Isso em dezembro de 1930. (As grandes empreiteiras deveriam obrigar seu diretores a ler "Fordlândia", do professor americano Greg Grandin.)
Felizmente os tempos mudaram, e a Força Nacional de Segurança disparou balas de borracha. Em 1996, diante dos sem-terra de Eldorado do Carajás, a PM paraense disparou tiros de verdade e matou 19 pessoas.
FAVELA, ASHWAIYYAT, GECEKONDULAR
Acaba de sair nos Estados Unidos um grande livro. É "Arrival City" ("Cidade de Chegada - Como a Maior Migração da História Está Mudando Nossa História"), do jornalista anglocanadense Douglas Saunders. Ele estudou e acompanhou a vida de um tipo de comunidade das grandes cidades.
No Brasil, chamam-se favelas; no Egito, ashwaiyyat; na Turquia, gecekondular, e na China, cun. Nelas aglomeram-se algo como 800 milhões de pessoas que deixaram o campo em busca do futuro nas grandes cidades, ou descendem de pessoas que fizeram essa rota.
O trabalho de Saunders vem sendo festejado pela audácia de sua conclusão: "A periferia é o novo centro do mundo". Seu livro já foi comparado ao "Morte e Vida de Grandes Cidades", de Jane Jacobs, que mudou a maneira de pensar as políticas urbanas a partir dos anos 60.
Descrevendo essas comunidades, Saunders mostra que nelas não vivem apenas miseráveis marginalizados, mas empreendedores emergentes de um mundo novo, uma nova classe média global.
O mundo pagou caro por não entender a essência das migrações dos séculos 19 e 20. Não entendê-las agora seria um desastre. É emocionante sua narrativa da transformação de Jardim Ângela, um pedaço do inferno paulistano nos anos 80, na comunidade que é hoje.
Quando a periferia tem acesso ao crédito, a escolas, empregos e polícia livre de demofobia, ela decola. E quando seus moradores são pura e simplesmente transferidos para conjuntos residenciais, geralmente as iniciativas fracassam.
Como o livro de Jane Jacobs levou 48 anos para ser editado no Brasil, não custa avisar que a edição do e-book (em inglês) custa US$ 13,99.
De graça, há um artigo de Saunders no sítio da revista "Foreign Policy".
VALE X BUFFETT
O comissariado resolveu derrubar Roger Agnelli da presidência da Vale. Se ele cometeu algum erro, foi o de se aproximar demais do Planalto.
Quem comprou R$ 1.000 em ações da Vale em 2001, quando Agnelli assumiu a presidência da empresa, tem hoje R$ 16.830. Se tivesse entregue a mesma quantia ao mago Warren Buffett, teria uns R$ 2.000. O trabalhador que aplicou os mesmos R$ 1.000 de seu FGTS na Vale em março de 2002 tem agora R$ 13.230.
BOBA, NUNCA
Pode-se fazer tudo por Marina Silva, menos acreditar que ela não soubesse o que havia na clorofila do Partido Verde quando entrou nele para disputar a Presidência da República.
MARCO MAIA MICOU
Ao vetar o artigo da medida provisória que prorrogava concessões de estabelecimentos comerciais estabelecidos nos aeroportos, a doutora Dilma Rousseff mostrou que sua caneta está cheia de tinta.
Para dizer o mínimo, a coligação de amigos que defendia o mimo ia do DEM ao PT. O patrono do regalo, deputado Marco Maia (atual presidente da Câmara), estava tão seguro da força dessa coalizão que, ao conseguir a aprovação do contrabando, disse o seguinte: "Garanto que ela não veta". Ao seu lado estava o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza, que esclareceu: "Não garanto que ela sancione".
DUAS FRENTES
O ministro Guido Mantega resolveu desafiar a lei da gravidade. Tem contas a acertar com Antonio Palocci, seu antecessor e atual chefe da Casa Civil, e resolveu acertar contas com Luciano Coutinho, presidente do BNDES. É areia demais para seu caminhão.
FABIO BARBOSA
Educação, o "negócio da China"
FABIO BARBOSA
FOLHA DE SÃO PAULO - 27/03/11
A CHINA já é uma superpotência e o mundo já mudou em razão disso. A novidade é que vem mais por aí e as implicações políticas e culturais disso marcarão o século 21.
O crescente apetite da China por matérias-primas, petróleo e alimentos elevou substancialmente o preço desses bens e, em muitos casos, isso beneficiou, e bastante, a economia brasileira.
Em outros setores, o impacto causado pelos chineses é negativo para o Brasil, por conta da competitividade de seus produtos manufaturados. Temos que nos preparar para lidar com essa realidade, trabalhar as questões ligadas ao "custo Brasil" e acelerar as negociações, pois o fenômeno China veio para ficar.
Muitas vezes ouço previsões de que o modelo chinês não se sustentará e várias razões que aparentemente fazem sentido são apresentadas para suportar esse argumento.
Possível bolha imobiliária, qualidade dos ativos dos bancos, migração rural, demanda por maior abertura democrática etc. estão frequentemente na lista dos alertas feitos repetidamente nos últimos muitos anos. O fato, porém, é que a economia chinesa cresceu a uma média de 9% anuais nos últimos 34 anos -e há 33 anos os economistas ocidentais dizem que esse crescimento não vai perdurar!
Esse erro de avaliação sugere que temos um frágil conhecimento do que acontece na China. Não pretendo aqui ter respostas definitivas sobre o processo de desenvolvimento chinês, mas sim chamar a atenção para alguns aspectos e mitos.
O primeiro destaque que faço é sobre a percepção que se tem de que a China só cresce na faixa litorânea ou nas zonas ligadas à exportação.
Há poucos anos, viajei pelo interior da China para regiões pouco visitadas por turistas estrangeiros e pude ver quão abrangente é a mudança que ocorre em todo o país. Claro que de forma desigual, mas ainda assim é comum encontrar aeroportos, estradas, banda larga e hotéis modernos e de bom nível. O mercado interno chinês é gigantesco, e um exemplo é que neste ano a China deverá produzir perto de 16 milhões de veículos (o Brasil produziu 3,6 milhões em 2010), tornando-se o maior produtor mundial, e quase tudo para consumo interno.
O segundo ponto tem a ver com os produtos chineses, muitas vezes associados a menor qualidade. Isso está mudando. Empresários comprovam a evolução por conta dos equipamentos industriais de alta tecnologia que compram da China.
Assim como seus vizinhos Japão e Coreia do Sul, que entraram no mercado global com produtos de baixo valor agregado e rapidamente migraram para produtos de alta qualidade, a China avança rapidamente.
Mas o que realmente parece dar sustentação a essa arrancada da economia chinesa é o salto na educação. Os chineses estão estrategicamente investindo nos seus jovens.
Alguns dados: há cerca de 130 mil chineses em cursos de pós-graduação nos EUA; há mais de 300 milhões de crianças aprendendo inglês na China; quatro universidades chinesas apareceram no recente ranking das cem melhores do mundo (nenhuma brasileira, a propósito).
Xangai apareceu em 1º lugar num relatório divulgado pela OCDE em que o Brasil ficou em 53º lugar. Um caminhar pelas ruas de Boston ou de Oxford comprovará o tanto que há de estudantes nesses locais, assim como se pode passear por Pequim, ou uma cidade do interior, e testemunhar que a garotada já sabe arranhar bem o seu inglês.
Portanto, o que acontece na China não me parece algo passageiro ou fruto de uma estratégia apenas focada em subsídios ou distorção cambial. A crescente eficiência da China está sendo alicerçada com vultosos investimentos na qualidade da educação em todos os níveis.
Podemos continuar a protestar e a tomar medidas protecionistas de curto prazo contra os produtos chineses. Até concordo que, em alguns casos, isso é necessário, mas estou convencido de que seria mais útil devotarmos nossa energia para aumentar a eficiência de nossa economia e, sobretudo, transformar nossos níveis de educação.
Ou seja, hoje, o tal "negócio da China" parece ser mesmo o investimento na educação. Vamos seguir essa onda!
RENATO JANINE RIBEIRO
Dilma em busca de seu estilo
RENATO JANINE RIBEIRO
O Estado de S.Paulo - 27/03/11
O Brasil já elegeu, democraticamente, sete presidentes civis: Getúlio Vargas (em 1950), Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Não incluo na lista os escolhidos em pleitos fraudados na República Velha, os ditadores e os substitutos que se tornaram presidentes. Ora, todos esses eleitos foram ou são bons comunicadores - com exceção da nossa atual presidente.
Este é um problema. Dilma tem sido elogiada pelo perfil discreto, pelo empenho contra a corrupção, pela dedicação ao funcionamento da máquina de governo e pela elegância com que convidou os antecessores a encontrar o presidente dos EUA, Barack Obama. Admiro tudo isso. Mas, numa República presidencialista, o supremo mandatário tem de se comunicar bem. Precisa persuadir. Cada um dos nomes citados fez isso a seu modo. Curiosamente, um dos mais prestigiados, Getúlio, não seria aceitável nos padrões atuais. Lembra Fernando Henrique Cardoso, em entrevista que me deu para a revista Sociologia, Ciência e Vida (2010), que o ex-ditador não falava com a massa, do modo de Lula e do próprio FHC: "Getúlio Vargas lia discursos absolutamente cultos e chatos. Ele se dirigia à massa de chapéu, charuto, jogava golfe". Com a censura e a Hora do Brasil, isso bastava; hoje, não.
Jânio e Collor foram os mais demagogos dos presidentes eleitos; em compensação, os dois últimos presidentes souberam construir maiorias de opinião bem produtivas. Fernando Henrique Cardoso foi mais racional, Lula captou melhor a emoção. Mas FHC é modesto quando fala de sua racionalidade. "Nunca tive problema para me comunicar", afirma. "Diziam que eu não teria voto porque não sabia falar com o povo, mas nunca tive o problema de fazer com que as pessoas entendam o que digo. Eu era um sociólogo de campo, trabalhava com a favela, com negros, com pobres, com gente não culta; sempre fiz muita pesquisa de campo, então tive de falar de jeito acessível. Sou mais racional (que Lula), mas uso uma razão no nível do senso comum, para que as pessoas entendam."
Lula comunica-se de outro modo. Alguns zombaram de suas metáforas, mas acho-as preciosas. FHC justificava-se, quando não podia implementar uma política que prometera, recorrendo à ética weberiana da responsabilidade. Mas, quando Lula usava imagens, com elas respondia à mesma questão que seu antecessor. Uma jabuticabeira demora anos antes de dar fruto. Não se conseguem os resultados com a rapidez desejada. É preciso paciência. Esse é um dos papéis do governante. Precisa convencer, dia após dia, seus eleitores de que não os traiu, e de que ou tem boas razões para não executar o prometido (crises mundiais, dizia FHC) ou acabará por executá-lo, ainda que a longo prazo e com certos custos não muito bonitos (as alianças de ambos com políticos fisiológicos). Um discurso que compara a demora na política ao tempo que leva uma árvore para frutificar, ou uma criança para andar, é acessível a todos, mesmo aos cidadãos menos cultos.
Por que o presidente tem de se comunicar bem, numa democracia de massas? A primeira razão é essa necessidade de constantemente se relegitimar, sobretudo quando as ações ficam aquém das palavras - o que, aliás, é inevitável. Mas também porque ele deve construir uma maioria significativa que apoie as inovações de seu governo. Para FHC, talvez tenha sido fácil vender a nova moeda, o real, acabando com a inflação, mas as privatizações exigiram mais persuasão. Para Lula, até parece fácil ter vendido o Bolsa-Família, mas as ações de seu governo tiveram alto custo, passando até pelo risco de impeachment.
Talvez por isso, os melhores momentos deles foram quando tiveram um chief minister, um primeiro-ministro incumbido da gestão - alguém de visão política, mas cujo papel é articular os ministros para que a máquina administrativa gere os resultados almejados. FHC teve Sérgio Motta, não conseguindo substituí-lo à altura depois de sua precoce morte, o que pode ter prejudicado o seu governo. Lula teve Dilma Rousseff, que ajudou muito seu segundo mandato. Não por acaso, Motta e Dilma passaram a imagem de durões. Mas a divisão de papéis parece boa. O presidente é simpático, fala ao povo, conquista apoio e, indiretamente, pressiona um Congresso que, pelo número de partidos, sempre dá trabalho. O ministro que chefia a gestão faz a articulação interna e, eventualmente, até repreende e pune, mesmo correndo o risco de ser antipático. O presidente é o grande comunicador, mas lidera a máquina. Já o ministro-chefe é quem azeita esta última.
O que faltaria à presidente Dilma Rousseff? Talvez devesse assumir o papel que os outros seis presidentes civis democraticamente eleitos tiveram, tão bem cumprido pelos dois últimos. Até agora, sua comunicação titubeia. Registrou o Estado que, num comício na Bahia, ela só entusiasmou a massa quando citou Lula. Precisaria melhorar, mas isso não depende de técnicas oratórias. Porque FHC e Lula conquistaram, cada um, o País para uma nova agenda, mais econômica a primeira, mais social a segunda. Poderia a presidente Dilma simplesmente seguir a agenda construída por Lula - mas nos acostumamos a presidentes de impacto, e isso pode decepcionar. Mesmo dando continuidade às políticas de Lula, como deve dar, terá de encontrar seu estilo, ser capaz de galvanizar o povo e de delegar a gestão. Isso não é simples, porém é importante - pelo menos, se seguirmos o modelo bastante eficaz da Presidência que tivemos nos últimos 16 anos.
Mas também há a hipótese de que um modelo mais discreto se esteja definindo com Dilma, curiosamente um modelo que lembra o que seria de José Serra: mais gestão do que liderança. Porque os padrões políticos mudam com o tempo e talvez hoje não necessitemos de líderes como precisávamos quando o Brasil vivia a inflação, a discussão sobre o papel do Estado e ainda não estava consolidada a prioridade de políticas sociais.
PROFESSOR TITULAR DE ÉTICA E FILOSOFIA POLÍTICA DA USP
SONIA RACY - DIRETO DA FONTE
À flor da pele
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 27/03/11
Apesar de estar no olho do furacão da briga interna do PV, Marina Silva não deixou de acompanhar o passo a passo do mais recente acidente nuclear. Ela classifica de absurda a afirmação da Eletronuclear, que opera Angra 1 e 2. A de que as usinas brasileiras são mais seguras que as do Japão.
A ex-senadora também estuda a possibilidade de propor plebiscito para saber se a população quer ou não que o País continue com seu programa nuclear.
Na paralela, segue para os EUA, onde fará palestras em duas universidades americanas sobre... sustentabilidade.
No Forno
O Dissenso de Washington, livro do embaixador Rubens Barbosa sobre seus cinco anos em Washington, já está nas mãos da editora Ediouro. Lançamento previsto para maio.
Pronto
Patricia Mendes lança amanhã livro sobre gerenciamento de risco em habitações precárias, produto de sua tese de doutorado. Onde? Na Livraria da Vila da Vila Madalena.
Do bem
Eric Fréchon, três estrelas do Michelin, e Didier Le Calvez, presidente do hotel Le Bristol, onde atua o chef, vêm ao País. Fréchon assinará jantar beneficente em prol do Instituto Ayrton Senna no dia 18 de maio. Convite de Erick Jacquin.
Preço do menu: R$ 600.
VIPA carreira de Dentinho nas telas promete durar. Depois de uma ponta em Bruna Surfistinha, o atacante do Corinthians irá interpretar um... jogador de futebol. Em uma série a ser produzida pela HBO.
Responsabilidade social
A ONG Earthwatch, com filial em Curitiba, é uma das 26 instituições selecionadas pelo Príncipe William e a noiva, Kate Middleton, para receber doações do Fundo de Caridade. A ideia do casal real é arrecadar durante o casamento, dia 29 de abril.
Regina Vidigal Guarita lança o livro Arte Despertar: Primeira Década na Fundação Ema Gordon Klabin. Terça.
Sob regência do maestro Edilson Ventureli, a Sinfônica Heliópolis sobe ao palco do SESC Itaquera. Hoje.
A convite de Rita Passos, Regina Moraes conhece amanhã o modelo de um Centro-Dia para idosos em Itu. E se colocará à disposição para implementar casas similares na região através do Projeto Velho Amigo.
O Grupo Telefônica fez as contas: cerca de cem funcionários participaram da última campanha de doação de sangue da empresa.
O Playcenter disse sim e participará do Dia Nacional da Alegria, dia 13. O parque abrirá as portas gratuitamente para instituições filantrópicas que atendem crianças e adolescentes.
Jean e Joana Garfunkel e Natan Marques apresentam o projeto Canto-Livro, sábado, no setor de acessibilidade do MAM-SP. Com direito à narração de histórias e canções traduzidas para a língua brasileira de sinais. De graça.
A Associação Odonto- Criança, que beneficiará a saúde bucal de 1,5 mil crianças este ano, promove dia 9 a festa de Páscoa no Instituto de Infectologia Emílio Ribas. Parceria com a Viva e Deixe Viver.
Detalhes nem tão pequenos...
1. Para conferir musical de Evita, o modelito teve de estar à altura.
2. A expressão da dor de uma família em noite de arte.
3. "Olha que a rapaziada está sentindo a falta de um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim".
4. Tchibum!
5. O céu de balões negros recepcionou a célebre filha de um ex-Beatle.
6.A ousadia resultou em obra de rara beleza..
7.As palavras de um pergaminho são mesmo para a vida inteira.
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