GAZETA DO POVO - PR - 09/09
Os ganhos sociais obtidos nos últimos anos poderão ser perdidos se a produtividade não aumentar, e esta não aumentará sem investimentos pesados na infraestrutura
O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) é condição necessária para que o padrão de vida médio da população aumente. Para permitir que a renda média por habitante cresça e propicie elevação do bem-estar social, o PIB tem de crescer a uma taxa superior ao aumento da população – o que, no Brasil, anda em torno de 1,2% ao ano. O crescimento do PIB se dá por vários caminhos. O mais comum é pelo aumento do número de pessoas trabalhando, pois, mantidas inalteradas as demais condições, a incorporação de mais pessoas ao processo produtivo resultará em mais produção. O outro caminho, mais difícil, é pelo aumento da produtividade, isto é, pelo aumento da produção por hora de trabalho humano.
Perseguir o crescimento do produto pela incorporação de mais pessoas ao processo produtivo não é solução para melhorar o padrão médio de bem-estar, pois, em geral, só há mais gente disponível para se empregar quando a população cresce. E uma população maior anula o aumento do PIB, ou pelo menos de parte dele, muitas vezes mantendo inalterado o PIB por habitante. Diante disso, a saída adequada é buscar o aumento da produtividade.
Cabe, então, descobrir por que meios a produtividade por hora de trabalho pode ser elevada. Uma das formas é pela melhoria da qualificação das pessoas, o que resulta em melhor habilidade profissional, logo mais produção. Conseguir isso é papel da educação e do treinamento dos trabalhadores. Todavia, essa tarefa não é obtenível em prazo curto; pelo contrário, não se faz revolução educacional e não se consegue resultado expressivo senão em, no mínimo, uma geração.
O segundo caminho, e o mais certeiro, para elevar a produtividade é através do investimento em infraestrutura física. Um exemplo simples é o caso de um motorista de caminhão. Transitando por uma estrada esburacada e congestionada e ficando dias parado na boca do porto, um motorista pode fazer umas três viagens mensais transportando grãos do centro do Brasil até o porto. Se o mesmo motorista transitasse em uma estrada boa, sem congestionamento, e conseguisse descarregar a mercadoria tão logo chegasse ao porto, poderia fazer não três, mas nove viagens em um mês.
Não é preciso ser especialista em economia para entender que a infraestrutura insuficiente – pela falta de estradas, armazéns, portos estrangulados e aeroportos em colapso – é responsável pela baixa produtividade, logo pela pobreza. Também não é difícil entender que investimentos capazes de ampliar a infraestrutura e consertar o que está sucateado teriam efeito imediato na produtividade hora do trabalho humano e permitiriam a elevação rápida da renda média por habitante. Por aí, a melhoria do padrão de vida médio seria possível em prazo relativamente curto.
Perante tal panorama, a aceitação de taxas baixíssimas de investimento público em infraestrutura é um erro que vai custar caro demais ao país. O setor público geral – municípios, estados e União – não consegue investir mais que 2,5% do PIB, quando deveria investir pelo menos 6%. Os ganhos sociais obtidos nos últimos anos poderão ser perdidos se a produtividade não aumentar, e esta não aumentará sem investimentos pesados e urgentes na infraestrutura.
Apesar desse diagnóstico relativamente consensual, parece que a classe política, em todos os níveis, não se dá conta de que aí está a encruzilhada que pode levar o Brasil à glória econômica ou a um fracasso histórico. Salvadas as exceções de praxe, a discussão sobre a escolha errada que o país está fazendo em relação ao investimento em infraestrutura é praticamente ausente do dia a dia dos políticos no Poder Legislativo em todos os níveis da Federação.
A presidente Dilma, infelizmente, a cada discurso e a cada entrevista em cadeia nacional, tem demonstrado enorme disposição para reclamar e criticar o que ela chama de “eles, os que vivem apregoando o pior”, quando ela deveria agradecer a todos quantos analisam e criticam o governo e suas políticas. Tomar as críticas e as previsões negativas como sendo algo pessoal contra a figura presidencial é um comportamento errado e prejudicial ao país, pois impede que o governo se beneficie das boas ideias, que são muitas.
segunda-feira, setembro 09, 2013
Ventos do Norte - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 09/09
Ainda fragilizada, economia europeia segue rota de lenta recuperação; dados são melhores nos EUA, que podem ganhar vigor em 2014
Não é por acaso que as taxas de juros de longo prazo sobem na Europa e nos EUA. A perspectiva mais favorável para o crescimento das economias desenvolvidas tem se consolidado nos últimos meses.
Os piores efeitos da crise financeira parecem, de fato, ter ficado para trás, sobretudo nos EUA. São muitos os desafios, contudo, e os principais bancos centrais preocupam-se em demonstrar que serão cautelosos no manejo da política monetária, a fim de não descarrilar a incipiente recuperação.
No caso europeu, o crescimento de 0,3% no segundo trimestre marcou a saída da mais longa recessão das últimas décadas. Os indicadores apontam para aceleração no restante do ano.
O retorno ao crescimento também veio nos países mais afetados, como Portugal, Itália e Espanha. Para 2014, o Banco Central Europeu (BCE) projeta crescimento de 1% na zona do euro.
O principal fator para a melhora é o sucesso do BCE em reduzir temores de ruptura do euro e reverter a fuga de capitais da periferia. Houve avanços na arquitetura da moeda única, com a criação de mecanismos comuns de financiamento e de supervisão bancária.
Por fim, o aperto fiscal recessivo deve amainar a partir de 2014, pois foi alongado o período para que os países com maiores deficit façam seus ajustes.
Mesmo assim, a sensação é de fragilidade. Permanece o alto desemprego, e o crédito bancário continua estagnado. Por isso, o crescimento ainda deve ser lento.
É melhor o cenário nos EUA. Neste ano, o crescimento deve ficar próximo de 2%, por causa da forte contração fiscal em curso. Quando esse ajuste diminuir, em 2014, a alta do PIB poderá superar 3%. A força da economia americana poderá puxar a Europa e, em alguma medida, também os emergentes.
Eis por que a grande questão, para os mercados, diz respeito ao ajuste da política monetária americana, depois de quase cinco anos de taxas de juros perto de zero.
Ainda neste mês, o Fed (banco central dos EUA) deve dar o primeiro passo, bastante esperado --começará a reduzir o montante de dinheiro que põe na praça, hoje US$ 85 bilhões ao mês.
A etapa seguinte será aumentar os juros. O Fed tem se preocupado em dizer que a primeira alta só virá com o desemprego abaixo de 6,5%, ou até menos. Isso só ocorreria em 2015. Qualquer ajuste, por isso, ainda parece distante.
Não se pode ignorar, porém, que os custos de financiamento subirão nos próximos anos, com impactos para os emergentes. Daí o comunicado do G20 pedir que os bancos centrais dos países desenvolvidos "calibrem cuidadosamente e comuniquem claramente" as mudanças na política monetária.
Embora a cooperação seja sempre positiva, não custa lembrar que cabe a cada país a responsabilidade de cuidar bem de seu quintal.
Ainda fragilizada, economia europeia segue rota de lenta recuperação; dados são melhores nos EUA, que podem ganhar vigor em 2014
Não é por acaso que as taxas de juros de longo prazo sobem na Europa e nos EUA. A perspectiva mais favorável para o crescimento das economias desenvolvidas tem se consolidado nos últimos meses.
Os piores efeitos da crise financeira parecem, de fato, ter ficado para trás, sobretudo nos EUA. São muitos os desafios, contudo, e os principais bancos centrais preocupam-se em demonstrar que serão cautelosos no manejo da política monetária, a fim de não descarrilar a incipiente recuperação.
No caso europeu, o crescimento de 0,3% no segundo trimestre marcou a saída da mais longa recessão das últimas décadas. Os indicadores apontam para aceleração no restante do ano.
O retorno ao crescimento também veio nos países mais afetados, como Portugal, Itália e Espanha. Para 2014, o Banco Central Europeu (BCE) projeta crescimento de 1% na zona do euro.
O principal fator para a melhora é o sucesso do BCE em reduzir temores de ruptura do euro e reverter a fuga de capitais da periferia. Houve avanços na arquitetura da moeda única, com a criação de mecanismos comuns de financiamento e de supervisão bancária.
Por fim, o aperto fiscal recessivo deve amainar a partir de 2014, pois foi alongado o período para que os países com maiores deficit façam seus ajustes.
Mesmo assim, a sensação é de fragilidade. Permanece o alto desemprego, e o crédito bancário continua estagnado. Por isso, o crescimento ainda deve ser lento.
É melhor o cenário nos EUA. Neste ano, o crescimento deve ficar próximo de 2%, por causa da forte contração fiscal em curso. Quando esse ajuste diminuir, em 2014, a alta do PIB poderá superar 3%. A força da economia americana poderá puxar a Europa e, em alguma medida, também os emergentes.
Eis por que a grande questão, para os mercados, diz respeito ao ajuste da política monetária americana, depois de quase cinco anos de taxas de juros perto de zero.
Ainda neste mês, o Fed (banco central dos EUA) deve dar o primeiro passo, bastante esperado --começará a reduzir o montante de dinheiro que põe na praça, hoje US$ 85 bilhões ao mês.
A etapa seguinte será aumentar os juros. O Fed tem se preocupado em dizer que a primeira alta só virá com o desemprego abaixo de 6,5%, ou até menos. Isso só ocorreria em 2015. Qualquer ajuste, por isso, ainda parece distante.
Não se pode ignorar, porém, que os custos de financiamento subirão nos próximos anos, com impactos para os emergentes. Daí o comunicado do G20 pedir que os bancos centrais dos países desenvolvidos "calibrem cuidadosamente e comuniquem claramente" as mudanças na política monetária.
Embora a cooperação seja sempre positiva, não custa lembrar que cabe a cada país a responsabilidade de cuidar bem de seu quintal.
A vez de voltar às penas alternativas - CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 09/09
"Prefiro a morte à pena em prisão brasileira", disse o ministro da Justiça em novembro de 2012. José Eduardo Cardozo respondia a perguntas sobre pena de morte, prisão perpétua e castração química em casos de estupro ou pedofilia. A declaração provocou polêmicas, mas não oposição. É dispensável acionar a imaginação para apontar a causa de tão desalentadoras palavras. As cadeias, de norte a sul do país, não são a antessala do inferno. São o inferno.
Daí por que causa preocupação a notícia da queda na aplicação de penas alternativas. Punições como prestação de serviços à comunidade e pagamento de cestas básicas caíram 30%, apesar de o número de detentos crescer em proporção quase geométrica. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça, na primeira década deste século, os recursos previstos no ordenamento jurídico para evitar a privação de liberdade saltaram mais de 500%.
Nos crimes de pequeno potencial ofensivo, o condenado é submetido ao regime semiaberto ou à prestação de serviços sociais. Em alguns casos, à indenização. São formas modernas de aplicar a reprimenda penal a infratores que não representam risco à lei e à ordem. Não se trata de impunidade, como muitos pensam. Trata-se de forma diferente de pagar a dívida com a Justiça. A pena, vale lembrar, não significa vingança, mas a oportunidade para que o infrator reflita, se reeduque e se torne apto a se comportar no meio social de acordo com as regras impostas.
Ao ignorar as opções ao regime fechado, o Judiciário contribui para a tragédia em que se transformou o sistema prisional do país. A preferência pelo regime fechado vai na contramão das expectativas. Provoca a superlotação no confinamento penitenciário, fomenta a violência e deixa de conceder ao preso ambiente capaz de recuperá-lo e devolvê-lo ao convívio da sociedade. As imagens veiculadas pela mídia impressa ou digital assustam. Em vez de homens, mostram feras.
Assustador deficit de vagas constitui prova irrefutável da necessidade urgente de corrigir rumos. Para abrigar mais de 500 mil presos, o Brasil tem ao todo 511 estabelecimentos prisionais, somando aproximadamente 60 mil leitos para presos. Mais: existem quase 300 mil mandados de prisão expedidos e não cumpridos. Construir presídios, como alardeiam as autoridades a cada crise que explode, é secar gelo. Além de não atender a demanda nem os objetivos, impõe alto custo de manutenção. Calcula-se que cada preso custa, por mês, 4,5 salários mínimos.
Daí por que causa preocupação a notícia da queda na aplicação de penas alternativas. Punições como prestação de serviços à comunidade e pagamento de cestas básicas caíram 30%, apesar de o número de detentos crescer em proporção quase geométrica. Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), ligado ao Ministério da Justiça, na primeira década deste século, os recursos previstos no ordenamento jurídico para evitar a privação de liberdade saltaram mais de 500%.
Nos crimes de pequeno potencial ofensivo, o condenado é submetido ao regime semiaberto ou à prestação de serviços sociais. Em alguns casos, à indenização. São formas modernas de aplicar a reprimenda penal a infratores que não representam risco à lei e à ordem. Não se trata de impunidade, como muitos pensam. Trata-se de forma diferente de pagar a dívida com a Justiça. A pena, vale lembrar, não significa vingança, mas a oportunidade para que o infrator reflita, se reeduque e se torne apto a se comportar no meio social de acordo com as regras impostas.
Ao ignorar as opções ao regime fechado, o Judiciário contribui para a tragédia em que se transformou o sistema prisional do país. A preferência pelo regime fechado vai na contramão das expectativas. Provoca a superlotação no confinamento penitenciário, fomenta a violência e deixa de conceder ao preso ambiente capaz de recuperá-lo e devolvê-lo ao convívio da sociedade. As imagens veiculadas pela mídia impressa ou digital assustam. Em vez de homens, mostram feras.
Assustador deficit de vagas constitui prova irrefutável da necessidade urgente de corrigir rumos. Para abrigar mais de 500 mil presos, o Brasil tem ao todo 511 estabelecimentos prisionais, somando aproximadamente 60 mil leitos para presos. Mais: existem quase 300 mil mandados de prisão expedidos e não cumpridos. Construir presídios, como alardeiam as autoridades a cada crise que explode, é secar gelo. Além de não atender a demanda nem os objetivos, impõe alto custo de manutenção. Calcula-se que cada preso custa, por mês, 4,5 salários mínimos.
O desafio da produtividade - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 09/09
Para continuar a crescer nos próximos anos, o Brasil terá de se tornar bem mais produtivo, pois se esgotaram os fatores demográficos e a farta disponibilidade de mão de obra que permitiram a contínua expansão da produção nos últimos anos, a despeito da baixa evolução da produtividade. A capacidade de produzir mais com a mesma quantidade de recursos será essencial, doravante, para fazer o País crescer e para assegurar melhores condições de vida para a população.
Esta é a principal conclusão de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre produtividade, que marca o início de uma série a respeito dessa questão. O objetivo desses trabalhos é avaliar a evolução da produtividade brasileira nos últimos anos, compará-la com o que ocorreu e está ocorrendo em outros países, identificar os fatores que afetam a eficiência produtiva nos diferentes setores e, consequentemente, oferecer elementos para a definição de políticas públicas nesse campo.
Os resultados apresentados no primeiro trabalho da série são preocupantes e já dão a dimensão das imensas tarefas que o País terá nos próximos anos para continuar a crescer num ritmo adequado para suprir gradualmente suas carências econômicas e sociais.
Na análise da evolução recente dos indicadores de produtividade no Brasil, os pesquisadores do Ipea constataram que, entre 1992 e 2001, o crescimento do PIB per capita foi assegurado quase inteiramente pelo aumento da produtividade do trabalho.
No início da década passada, porém, a evolução do PIB per capita se descolou da variação da produtividade. Enquanto o primeiro indicador continuou a crescer velozmente (aumento de cerca de 20% entre 2001 e 2009), a produtividade avançou menos de 10%. O crescimento do PIB per capita na última década deveu-se basicamente ao aumento da taxa de ocupação, isto é, ao aumento do número de empregados em relação à população total.
Mas esse fator, estreitamente vinculado ao novo padrão demográfico do País e à expansão do mercado de trabalho, sobretudo o formal, já não terá mais tanta influência na elevação da renda per capita. Por isso, daqui para a frente, a melhora dependerá essencialmente dos ganhos de produtividade.
No entanto, a evolução recente da produtividade tem sido muito fraca. Embora varie muito de um setor da economia para outro, a produtividade média nas duas últimas décadas apresentou uma trajetória estável de crescimento, mas a um ritmo lento, de cerca de 1% ao ano. Na indústria de transformação, o resultado ficou abaixo disso; em alguns segmentos, houve queda de produtividade.
O que os dados preliminares sugerem é que, depois da crise financeira mundial iniciada em 2008, a produtividade brasileira, que crescia pouco, pode ter se estagnado.
Se se confirmar essa estagnação, o Brasil ficará em situação ainda pior na comparação com outros países. Um dos estudos do Ipea compara a evolução da produtividade no Brasil com a observada na Coreia do Sul, na China e nos Estados Unidos a partir de 1960, quando a produtividade americana já era alta.
Depois de evoluir numa velocidade superior à dos demais países nos primeiros 20 anos, a produtividade brasileira. perdeu vigor e passou a crescer menos. A da China, ao contrário, passou de uma evolução lenta nos primeiros 20 anos para um vigoroso crescimento a partir de meados da década de 1980 e mantém esse ritmo até agora. A da Coreia do Sul igualmente adquiriu vigor na década de 1980 e continuou a crescer desde então, embora a um ritmo inferior ao da China. É surpreendente o caso da produtividade americana. De longe a mais alta do mundo, ela continua a evoluir de maneira constante e, nos últimos 20 anos, mais do que a brasileira.
Em resumo, a produtividade brasileira - que cresce menos do que a de outros países - já não conta mais com os impulsos que asseguraram sua expansão nos últimos anos. Isso impõe um duplo desafio para o País: definir novas fontes de aumento da produtividade e conseguir fazê-la crescer mais depressa do que crescia.
Esta é a principal conclusão de um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre produtividade, que marca o início de uma série a respeito dessa questão. O objetivo desses trabalhos é avaliar a evolução da produtividade brasileira nos últimos anos, compará-la com o que ocorreu e está ocorrendo em outros países, identificar os fatores que afetam a eficiência produtiva nos diferentes setores e, consequentemente, oferecer elementos para a definição de políticas públicas nesse campo.
Os resultados apresentados no primeiro trabalho da série são preocupantes e já dão a dimensão das imensas tarefas que o País terá nos próximos anos para continuar a crescer num ritmo adequado para suprir gradualmente suas carências econômicas e sociais.
Na análise da evolução recente dos indicadores de produtividade no Brasil, os pesquisadores do Ipea constataram que, entre 1992 e 2001, o crescimento do PIB per capita foi assegurado quase inteiramente pelo aumento da produtividade do trabalho.
No início da década passada, porém, a evolução do PIB per capita se descolou da variação da produtividade. Enquanto o primeiro indicador continuou a crescer velozmente (aumento de cerca de 20% entre 2001 e 2009), a produtividade avançou menos de 10%. O crescimento do PIB per capita na última década deveu-se basicamente ao aumento da taxa de ocupação, isto é, ao aumento do número de empregados em relação à população total.
Mas esse fator, estreitamente vinculado ao novo padrão demográfico do País e à expansão do mercado de trabalho, sobretudo o formal, já não terá mais tanta influência na elevação da renda per capita. Por isso, daqui para a frente, a melhora dependerá essencialmente dos ganhos de produtividade.
No entanto, a evolução recente da produtividade tem sido muito fraca. Embora varie muito de um setor da economia para outro, a produtividade média nas duas últimas décadas apresentou uma trajetória estável de crescimento, mas a um ritmo lento, de cerca de 1% ao ano. Na indústria de transformação, o resultado ficou abaixo disso; em alguns segmentos, houve queda de produtividade.
O que os dados preliminares sugerem é que, depois da crise financeira mundial iniciada em 2008, a produtividade brasileira, que crescia pouco, pode ter se estagnado.
Se se confirmar essa estagnação, o Brasil ficará em situação ainda pior na comparação com outros países. Um dos estudos do Ipea compara a evolução da produtividade no Brasil com a observada na Coreia do Sul, na China e nos Estados Unidos a partir de 1960, quando a produtividade americana já era alta.
Depois de evoluir numa velocidade superior à dos demais países nos primeiros 20 anos, a produtividade brasileira. perdeu vigor e passou a crescer menos. A da China, ao contrário, passou de uma evolução lenta nos primeiros 20 anos para um vigoroso crescimento a partir de meados da década de 1980 e mantém esse ritmo até agora. A da Coreia do Sul igualmente adquiriu vigor na década de 1980 e continuou a crescer desde então, embora a um ritmo inferior ao da China. É surpreendente o caso da produtividade americana. De longe a mais alta do mundo, ela continua a evoluir de maneira constante e, nos últimos 20 anos, mais do que a brasileira.
Em resumo, a produtividade brasileira - que cresce menos do que a de outros países - já não conta mais com os impulsos que asseguraram sua expansão nos últimos anos. Isso impõe um duplo desafio para o País: definir novas fontes de aumento da produtividade e conseguir fazê-la crescer mais depressa do que crescia.
Filtro eficiente - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 09/09
Apesar das melhoras dos últimos anos, a qualidade do ensino nas universidades brasileiras ainda é medida, em grande parte dos cursos, por avanços pontuais. De um modo geral, o desempenho acadêmico tem atendido mais a malabarismos estatísticos do que a demandas do mundo real.
A timidez dos progressos acadêmicos do país, em comparação com outras nações, está expresso em números. Num ranking divulgado em fevereiro pelo Conselho Superior de Investigações Científicas, da Espanha — o Webometrics Ranking of World Universities, uma listagem dos mais importantes centros de ensino superior do planeta — a instituição brasileira mais bem colocada, a USP, aparece em 19º lugar. Segunda colocada, a UFRGS, fica em 129º lugar num quadro em que o Brasil tem apenas 12 universidades entre as 500 mais bem credenciadas do mundo. A pesquisa, avalizada pela União Europeia, cobre mais de 21 mil universidades e institutos de ensino superior.
Resultados como estes ajudam a expor a ainda tíbia reação do país ao desafio de melhorar o seu perfil acadêmico, mas, meramente estatísticos, pouco apontam quais os caminhos para incrementar mais qualidade no ensino nas universidades. É preciso buscar as razões em fatores como as crônicas deficiências do ensino fundamental, currículos nem sempre à altura dos desafios, tibieza nos critérios de aferição dos alunos etc.
Iniciativa importante nesse sentido ocorre na área do Direito, com a obrigatoriedade da prestação das provas de aferição de saber organizadas pela Ordem dos Advogados do Brasil. A aprovação nesses exames é pressuposto para o bacharel exercer a prática advocatícia. As enormes taxas de reprovação nessas medições são um eficiente termômetro: elas indicam que o ensino jurídico na maioria das faculdades brasileiras destoa das demandas do mercado.
De novo, os números ajudam a compor um quadro de crise. Há no país 1.200 cursos de Direito, com 800 mil alunos matriculados — seis vezes mais do que há vinte anos. Há, ainda, problemas como a exploração do ensino jurídico como mero negócio lucrativo, prática nociva acobertada por interesses corporativistas ou mesmo eleitoreiros. De tal forma é a situação que o MEC anunciou recentemente que pretende adotar medidas para combater a ineficiência de cursos de Direito em funcionamento. Não é de estranhar que, em algumas edições dos exames, o percentual de reprovação tenha alcançado mais de 90% dos candidatos.
Se os exames são ou não rígidos demais, é uma questão a ser debatida no âmbito de uma eventual discrepância entre o que se ensina nas faculdades e o conteúdo que a Ordem julga fundamental para manter a qualidade da atividade advocatícia. Mas não se discute a importância desse termômetro, um filtro que contribui para preservar a profissão e o mercado das deficiências acadêmicas do setor.
Apesar das melhoras dos últimos anos, a qualidade do ensino nas universidades brasileiras ainda é medida, em grande parte dos cursos, por avanços pontuais. De um modo geral, o desempenho acadêmico tem atendido mais a malabarismos estatísticos do que a demandas do mundo real.
A timidez dos progressos acadêmicos do país, em comparação com outras nações, está expresso em números. Num ranking divulgado em fevereiro pelo Conselho Superior de Investigações Científicas, da Espanha — o Webometrics Ranking of World Universities, uma listagem dos mais importantes centros de ensino superior do planeta — a instituição brasileira mais bem colocada, a USP, aparece em 19º lugar. Segunda colocada, a UFRGS, fica em 129º lugar num quadro em que o Brasil tem apenas 12 universidades entre as 500 mais bem credenciadas do mundo. A pesquisa, avalizada pela União Europeia, cobre mais de 21 mil universidades e institutos de ensino superior.
Resultados como estes ajudam a expor a ainda tíbia reação do país ao desafio de melhorar o seu perfil acadêmico, mas, meramente estatísticos, pouco apontam quais os caminhos para incrementar mais qualidade no ensino nas universidades. É preciso buscar as razões em fatores como as crônicas deficiências do ensino fundamental, currículos nem sempre à altura dos desafios, tibieza nos critérios de aferição dos alunos etc.
Iniciativa importante nesse sentido ocorre na área do Direito, com a obrigatoriedade da prestação das provas de aferição de saber organizadas pela Ordem dos Advogados do Brasil. A aprovação nesses exames é pressuposto para o bacharel exercer a prática advocatícia. As enormes taxas de reprovação nessas medições são um eficiente termômetro: elas indicam que o ensino jurídico na maioria das faculdades brasileiras destoa das demandas do mercado.
De novo, os números ajudam a compor um quadro de crise. Há no país 1.200 cursos de Direito, com 800 mil alunos matriculados — seis vezes mais do que há vinte anos. Há, ainda, problemas como a exploração do ensino jurídico como mero negócio lucrativo, prática nociva acobertada por interesses corporativistas ou mesmo eleitoreiros. De tal forma é a situação que o MEC anunciou recentemente que pretende adotar medidas para combater a ineficiência de cursos de Direito em funcionamento. Não é de estranhar que, em algumas edições dos exames, o percentual de reprovação tenha alcançado mais de 90% dos candidatos.
Se os exames são ou não rígidos demais, é uma questão a ser debatida no âmbito de uma eventual discrepância entre o que se ensina nas faculdades e o conteúdo que a Ordem julga fundamental para manter a qualidade da atividade advocatícia. Mas não se discute a importância desse termômetro, um filtro que contribui para preservar a profissão e o mercado das deficiências acadêmicas do setor.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
INQUÉRITO NO MP-RJ INVESTIGA PRESIDENTE DA CNC
O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar gestão do presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Antonio Oliveira Santos. Ele e Luiz Gil Siuffo Pereira, diretor do Sesc, são responsabilizados pelos gastos suspeitos de R$ 200 milhões em obra na Barra da Tijuca que nem tem condições de uso. Também o Tribunal de Contas da União apontou graves anomalias na operação.
CONTAS REJEITADAS
Antonio de Oliveira Santos deveria ter sido afastado da CNC desde 2004, quando teve as contas rejeitadas. É o que manda o regimento.
OMISSÃO CÚMPLICE
A rejeição das contas de Antonio de Oliveira Santos, pelo Tribunal de Contas da União, jamais foi publicada. É a condição seu afastamento.
RIO É ESTRATÉGICO
Lideranças do PSB defendem o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para vice do governador Eduardo Campos (PSB) nas eleições de 2014.
PENSANDO BEM…
…restará a guerra na Síria, se falharem todas as desculpas mágicas do ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre a escalada da inflação.
BRECHA JURÍDICA PODE LIVRAR IVO CASSOL DA CADEIA
Primeiro senador condenado no Supremo Tribunal Federal, Ivo Cassol (PP-RO) poderá se livrar dos quatro anos e oito meses de cadeia legando que o crime está prescrito. Sua condenação ocorreu dias antes de 17 de agosto, 8 anos depois da denúncia, mas a “sentença ou acórdão condenatórios recorríveis” até agora não foi publicado, como prevê o inciso IV art.117 do Código Penal para interromper prescrição. Ele foi condenado, em decisão unânime, por fraudar licitação pública.
ANTES DA PUBLICAÇÃO
A relatora Cármen Lúcia (STF) disse, na sessão que o condenou, em 8 de agosto último, que o prazo prescricional acabava naquele momento.
IMPASSE
A decisão da ministra colidiria com uma lei de autoria de Magno Malta (PR-ES), que incluiu o dispositivo no Código Penal em 2007.
SÓ ESPERANDO
Após a publicação do acórdão, a defesa do senador Ivo Cassol terá cinco dias para apresentar recurso alegando a prescrição do crime.
FRENTE BOLIVARIANA
O Brasil pode ficar tranquilo se declarar “guerra” aos EUA: a Bolívia mandará sementes de quinoa, o Equador dará bananas, mas a Venezuela não poderá mandar nada porque falta até papel higiênico.
VIDA QUE SEGUE
Quem conhece José Dirceu desconfia dos planos públicos do ex-ministro mensaleiro de “cozinhar na prisão”: ele confia que conseguirá reduzir a pena e ganhar o semiaberto. Ou indulto, a cargo de Dilma.
DILEMA
José Serra recuou desistiu do PPS para disputar a Presidência. Aliados como o senador Aloysio Nunes (SP) e Jutahy Junior (BA) têm advertido que ele acabará inviabilizando até mesmo a candidatura ao Senado, seu verdadeiro projeto político para 2014.
DE SAÍDA
Em Brasília, a deputada distrital Eliana Pedrosa, que já foi do DEM e agora se encontra filiada ao PSB, está de malas prontas para o PPS. O partido deve anunciar sua filiação ainda nesta semana.
DESPEDINDO PATRÃO
Assessor do líder do PR, Anthony Garotinho (RJ), o jornalista André Couto acertou com o deputado Antônio Reguffe filiação ao PDT-DF, partido pelo qual planeja sair candidato a deputado distrital em 2014.
CASA CIVIL PREGA AVISO
Eduardo D’Oliveira tem se apresentado como coordenador-geral de projetos especiais da Casa Civil e membro da Subchefia de articulação e monitoramento, para tentar audiências com parlamentares e até banqueiros. A Casa Civil nega qualquer vínculo dele com o Planalto.
COMO PILATOS
Até correligionários falam mal do presidente da Câmara, Henrique Alves, pela repulsa à sessão não cassou Natan Donadon. Criticam-no por “lavar mãos” e jogar a decisão apenas na conta do plenário.
VAI CONTANDO
Os governos do Pará, Sergipe, São Paulo e Bahia espetaram quase US$ 700 milhões de dólares em “papagaios” no BIRD em menos de um mês para projetos diversos. Com o dólar subindo, o problema é pagar.
OS ‘ALIADOS’ DE DILMA
O silêncio de Maduro na Venezuela e de Morales, na Bolívia, fala mais que cem espiões no rolo da espionagem americana no Brasil.
O Ministério Público do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar gestão do presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Antonio Oliveira Santos. Ele e Luiz Gil Siuffo Pereira, diretor do Sesc, são responsabilizados pelos gastos suspeitos de R$ 200 milhões em obra na Barra da Tijuca que nem tem condições de uso. Também o Tribunal de Contas da União apontou graves anomalias na operação.
CONTAS REJEITADAS
Antonio de Oliveira Santos deveria ter sido afastado da CNC desde 2004, quando teve as contas rejeitadas. É o que manda o regimento.
OMISSÃO CÚMPLICE
A rejeição das contas de Antonio de Oliveira Santos, pelo Tribunal de Contas da União, jamais foi publicada. É a condição seu afastamento.
RIO É ESTRATÉGICO
Lideranças do PSB defendem o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) para vice do governador Eduardo Campos (PSB) nas eleições de 2014.
PENSANDO BEM…
…restará a guerra na Síria, se falharem todas as desculpas mágicas do ministro Guido Mantega (Fazenda) sobre a escalada da inflação.
BRECHA JURÍDICA PODE LIVRAR IVO CASSOL DA CADEIA
Primeiro senador condenado no Supremo Tribunal Federal, Ivo Cassol (PP-RO) poderá se livrar dos quatro anos e oito meses de cadeia legando que o crime está prescrito. Sua condenação ocorreu dias antes de 17 de agosto, 8 anos depois da denúncia, mas a “sentença ou acórdão condenatórios recorríveis” até agora não foi publicado, como prevê o inciso IV art.117 do Código Penal para interromper prescrição. Ele foi condenado, em decisão unânime, por fraudar licitação pública.
ANTES DA PUBLICAÇÃO
A relatora Cármen Lúcia (STF) disse, na sessão que o condenou, em 8 de agosto último, que o prazo prescricional acabava naquele momento.
IMPASSE
A decisão da ministra colidiria com uma lei de autoria de Magno Malta (PR-ES), que incluiu o dispositivo no Código Penal em 2007.
SÓ ESPERANDO
Após a publicação do acórdão, a defesa do senador Ivo Cassol terá cinco dias para apresentar recurso alegando a prescrição do crime.
FRENTE BOLIVARIANA
O Brasil pode ficar tranquilo se declarar “guerra” aos EUA: a Bolívia mandará sementes de quinoa, o Equador dará bananas, mas a Venezuela não poderá mandar nada porque falta até papel higiênico.
VIDA QUE SEGUE
Quem conhece José Dirceu desconfia dos planos públicos do ex-ministro mensaleiro de “cozinhar na prisão”: ele confia que conseguirá reduzir a pena e ganhar o semiaberto. Ou indulto, a cargo de Dilma.
DILEMA
José Serra recuou desistiu do PPS para disputar a Presidência. Aliados como o senador Aloysio Nunes (SP) e Jutahy Junior (BA) têm advertido que ele acabará inviabilizando até mesmo a candidatura ao Senado, seu verdadeiro projeto político para 2014.
DE SAÍDA
Em Brasília, a deputada distrital Eliana Pedrosa, que já foi do DEM e agora se encontra filiada ao PSB, está de malas prontas para o PPS. O partido deve anunciar sua filiação ainda nesta semana.
DESPEDINDO PATRÃO
Assessor do líder do PR, Anthony Garotinho (RJ), o jornalista André Couto acertou com o deputado Antônio Reguffe filiação ao PDT-DF, partido pelo qual planeja sair candidato a deputado distrital em 2014.
CASA CIVIL PREGA AVISO
Eduardo D’Oliveira tem se apresentado como coordenador-geral de projetos especiais da Casa Civil e membro da Subchefia de articulação e monitoramento, para tentar audiências com parlamentares e até banqueiros. A Casa Civil nega qualquer vínculo dele com o Planalto.
COMO PILATOS
Até correligionários falam mal do presidente da Câmara, Henrique Alves, pela repulsa à sessão não cassou Natan Donadon. Criticam-no por “lavar mãos” e jogar a decisão apenas na conta do plenário.
VAI CONTANDO
Os governos do Pará, Sergipe, São Paulo e Bahia espetaram quase US$ 700 milhões de dólares em “papagaios” no BIRD em menos de um mês para projetos diversos. Com o dólar subindo, o problema é pagar.
OS ‘ALIADOS’ DE DILMA
O silêncio de Maduro na Venezuela e de Morales, na Bolívia, fala mais que cem espiões no rolo da espionagem americana no Brasil.
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Brasil monitorado- Petrobras foi alvo de espionagem americana
- Folha: Sul e Sudeste têm 19 das 25 melhores universidades
- Estadão: PF já investiga mais desvio de verba pública do que tráfico
- Correio: Entidades repudiam abuso da PM no Sete de Setembro
- Valor: Atrasos encarecem Jirau e hidrelétrica espera perdão
- Jornal do Commercio: EUA espionam Petrobras
- Zero Hora: Divulgar deputados custa o mesmo que 1,9 mil moradias
- Brasil Econômico: ‘Planejamento perdeu status no governo’
domingo, setembro 08, 2013
ÍNDICE DAS POSTAGENS DE HOJE NO BLOG
- Trocas íntimas entre estranhos - MARTHA MEDEIROS
- Osso pensa? - FERREIRA GULLAR
- Papo de anjo - ADRIANA CALCANHOTTO
- Os fantasmas - LUIS FERNANDO VERISSIMO
- Times com mais de uma cara - TOSTÃO
- Artes do photoshop - HUMBERTO WERNECK
- Ueba! Dilma tá no Ponto G 20! - JOSÉ SIMÃO
- Outro fracasso - LUIS FERNANDO VERISSIMO
- O lugar da alma - HÉLIO SCHWARTSMAN
- Reformas garantidas - JOÃO UBALDO RIBEIRO
- Um dia aventuroso - CAETANO VELOSO
- Dna político - MÔNICA BERGAMO
- GOSTOSA
- Uma nova CPMF? - ILIMAR FRANCO
- Voto aberto - VERA MAGALHÃES - PAINEL
- Disputa nada pacífica - LUIZ CARLOS AZEDO
- MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
- Nova Conta Petróleo? - CELSO MING
- Deixa a vida levar - SUELY CALDAS
- Herança Dilma - MIRIAM LEITÃO
- A futilidade do controle de preços - SAMUEL PESSÔA...
- Como estimular a demanda? - GUY RYDER
- Razões da depreciação - AFFONSO CELSO PASTORE
- A defesa dos fundamentos - HENRIQUE MEIRELLES
- Uma questão: quem é, afinal, o soberano? - OLIVEIR...
- O inimigo é a corrupção - ANA DUBEUX
- Picadinho com farofa de partidos - VINICIUS TORRES...
- Secos e molhados - DORA KRAMER
- A hora da verdade - MERVAL PEREIRA
- Ficou barato - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
- Gigante de sono agitado - IGOR GIELOW
- Inimigos médicos - PERCIVAL PUGGINA
- Corporativismo e tráfico de influência - GAUDÊNCIO...
- Espelhos de setembro - DENISE ROTHENBURG
- Corrupção e reforma política - BRÁULIO CESCO FLEU...
- O cisco sob o tapete - FLÁVIO TAVARES
- Um dia único - JANIO DE FREITAS
- A falta que fazem as minirreformas - EDITORIAL O G...
- Notícias da geração - EDITORIAL GAZETA DO POVO - P...
- Leilão de concessões - EDITORIAL FOLHA DE SP
- Perdendo competitividade - EDITORIAL O ESTADÃO
- É hora de regulamentar a terceirização - EDITORIAL...
- COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
- DOMINGO NOS JORNAIS
Trocas íntimas entre estranhos - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 08/09
Alguns poucos leitores às vezes me confundem com conselheira sentimental e me revelam seus conflitos internos, acreditando que eu possa apontar um caminho para que eles vivam melhor. Logo eu! Escrevo sobre assuntos que me interessam e, se servirem para alguém, é uma honra, mas não me sinto à vontade e nem tenho preparo para entrar na intimidade de cada leitor em particular já me atrapalho o suficiente comigo mesma.
Mas já que todos gostam de conselhos, eu inclusive, uma dica posso dar: leia o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed.
Já falei dessa autora antes. Foi ela que percorreu sozinha uma trilha nos Estados Unidos e narrou a experiência no aclamado Livre, que frequentou a lista dos best-sellers. Eu nem imaginava que ela escrevia uma coluna de aconselhamentos. Pois me tornei fã declarada dessa mulher.
Pequenas Delicadezas é uma seleção de perguntas e respostas publicadas no site The Rumpus, mas de forma alguma é literatura de bisbilhotice, aquela coisa de olhar pelo buraco da fechadura dos dramas alheios, o que tantas vezes revela-se piegas.
Cada carta gera um ensaio em que Cheryl conta experiências próprias para ilustrar seu pensamento sobre as questões levantadas. Esbanjando sensatez (coisa que não anda sobrando por aí), ela equaliza causas e efeitos com docilidade, mas sem abusar do bom mocismo e sem encontrar solução para tudo.
Ao contrário, ela reconhece que a vida é bem sacana às vezes. Nossos pais nem sempre foram uns anjos, nossa infância “feliz” pode ter sido uma farsa e a maneira como estamos narrando nossa história para nós mesmos pode estar cheia de ficções que já não conseguimos sustentar. Dá para mudar o passado? Não dá. A única coisa que dá para mudar é a maneira como enxergamos tudo o que nos aconteceu (e ainda acontece) e ver o que é possível perdoar, esquecer ou redimensionar.
É comum considerar o escritor como uma espécie de guru – parece que ele é imune a problemas. Cheryl se atreve no papel e se dá como exemplo justamente porque sua vida não foi um passeio de carrossel.
Porém, ela encontrou suas ferramentas de superação – a própria coluna deve ser uma delas. Sem constrangimento e com absoluta empatia, envolve-se com a dor de quem lhe escreve, mesmo suspeitando que todos sabem direitinho o que devem fazer de suas vidas, só estão aguardando que alguém, mesmo um desconhecido, lhes dê uma espécie de licença. “Se é por falta de licença, sinta-se autorizado”, é o que ela parece dizer.
Pequenas Delicadezas não explora as churumelas do amor nem pretende ser um oráculo. Apenas confirma que viver não é fácil, mas é o que temos pra hoje.
Alguns poucos leitores às vezes me confundem com conselheira sentimental e me revelam seus conflitos internos, acreditando que eu possa apontar um caminho para que eles vivam melhor. Logo eu! Escrevo sobre assuntos que me interessam e, se servirem para alguém, é uma honra, mas não me sinto à vontade e nem tenho preparo para entrar na intimidade de cada leitor em particular já me atrapalho o suficiente comigo mesma.
Mas já que todos gostam de conselhos, eu inclusive, uma dica posso dar: leia o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed.
Já falei dessa autora antes. Foi ela que percorreu sozinha uma trilha nos Estados Unidos e narrou a experiência no aclamado Livre, que frequentou a lista dos best-sellers. Eu nem imaginava que ela escrevia uma coluna de aconselhamentos. Pois me tornei fã declarada dessa mulher.
Pequenas Delicadezas é uma seleção de perguntas e respostas publicadas no site The Rumpus, mas de forma alguma é literatura de bisbilhotice, aquela coisa de olhar pelo buraco da fechadura dos dramas alheios, o que tantas vezes revela-se piegas.
Cada carta gera um ensaio em que Cheryl conta experiências próprias para ilustrar seu pensamento sobre as questões levantadas. Esbanjando sensatez (coisa que não anda sobrando por aí), ela equaliza causas e efeitos com docilidade, mas sem abusar do bom mocismo e sem encontrar solução para tudo.
Ao contrário, ela reconhece que a vida é bem sacana às vezes. Nossos pais nem sempre foram uns anjos, nossa infância “feliz” pode ter sido uma farsa e a maneira como estamos narrando nossa história para nós mesmos pode estar cheia de ficções que já não conseguimos sustentar. Dá para mudar o passado? Não dá. A única coisa que dá para mudar é a maneira como enxergamos tudo o que nos aconteceu (e ainda acontece) e ver o que é possível perdoar, esquecer ou redimensionar.
É comum considerar o escritor como uma espécie de guru – parece que ele é imune a problemas. Cheryl se atreve no papel e se dá como exemplo justamente porque sua vida não foi um passeio de carrossel.
Porém, ela encontrou suas ferramentas de superação – a própria coluna deve ser uma delas. Sem constrangimento e com absoluta empatia, envolve-se com a dor de quem lhe escreve, mesmo suspeitando que todos sabem direitinho o que devem fazer de suas vidas, só estão aguardando que alguém, mesmo um desconhecido, lhes dê uma espécie de licença. “Se é por falta de licença, sinta-se autorizado”, é o que ela parece dizer.
Pequenas Delicadezas não explora as churumelas do amor nem pretende ser um oráculo. Apenas confirma que viver não é fácil, mas é o que temos pra hoje.
Osso pensa? - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 08/09
O filósfo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, enquanto o poeta, não: ele só quer registrar o inexplicável
Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.
Recentemente, tentei encontrar o texto em que o filósofo fazia tal afirmação e descobri que era no "Teeteto", quando atribui essa afirmação a Sócrates. Descobri também que a palavra grega que usa para espanto é "thaumázein", que significa também assombro, perplexidade, admiração.
Sim, é a mesma coisa que sinto quando me encontro na condição de escrever o poema. Espanto é realmente a palavra que define esse estado mental em que, de repente, a realidade se mostra inexplicada.
Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?".
Possivelmente, nem mesmo Platão seria capaz de responder a essas indagações, ou as responderia, mas depois de surpreender-se com essa espantosa descoberta: eu não sou apenas consciência, ideias, a pessoa que fala e pensa; sou também um enorme osso que bate no outro do mesmo modo que uma pedra se choca com outra pedra. E isso sou eu? Até onde o meu fêmur participa dessa minha indagação? Osso pergunta? Não, não pergunta.
Então devo concluir que sou uma consciência que pergunta e um osso que nada tem a ver com isso, é só matéria burra, como um mineral qualquer? Sou um ser consciente apoiado em osso que não tem nada a ver comigo? Mas como, se o sinto, se ele dói quando algo o atinge, e posso até morrer se quebra e infecciona? Ao que tudo indica, eu sou esse osso. Eu sou minha imaginação, meus desejos, minha reflexões, meus afetos e lembranças --e esse osso também.
Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.
Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.
Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?
A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.
É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.
Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".
E um beijo agradecido ao Caetano Veloso.
O filósfo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, enquanto o poeta, não: ele só quer registrar o inexplicável
Quando pela primeira vez me dei conta de que meus poemas nasciam de um estado mental imprevisível, e o defini como um espanto, estava usando uma expressão de Platão. Ele afirmara que o conhecimento nasce do espanto.
Recentemente, tentei encontrar o texto em que o filósofo fazia tal afirmação e descobri que era no "Teeteto", quando atribui essa afirmação a Sócrates. Descobri também que a palavra grega que usa para espanto é "thaumázein", que significa também assombro, perplexidade, admiração.
Sim, é a mesma coisa que sinto quando me encontro na condição de escrever o poema. Espanto é realmente a palavra que define esse estado mental em que, de repente, a realidade se mostra inexplicada.
Isso pode ser provocado por qualquer fato, do mais raro ao mais banal, corriqueiro. E é o que mais me espanta: o meu fêmur que se choca com minha bacia, o ilíaco, e me faz, perplexo: "tenho dentro de mim um enorme osso, de que não me havia dado conta até este momento, em que senti chocarem-se, dentro de mim, um contra o outro. E a pergunta que surge é: eu sou esse osso? Esse osso sou eu? Formula essa pergunta, mas e osso, ele pergunta?".
Possivelmente, nem mesmo Platão seria capaz de responder a essas indagações, ou as responderia, mas depois de surpreender-se com essa espantosa descoberta: eu não sou apenas consciência, ideias, a pessoa que fala e pensa; sou também um enorme osso que bate no outro do mesmo modo que uma pedra se choca com outra pedra. E isso sou eu? Até onde o meu fêmur participa dessa minha indagação? Osso pergunta? Não, não pergunta.
Então devo concluir que sou uma consciência que pergunta e um osso que nada tem a ver com isso, é só matéria burra, como um mineral qualquer? Sou um ser consciente apoiado em osso que não tem nada a ver comigo? Mas como, se o sinto, se ele dói quando algo o atinge, e posso até morrer se quebra e infecciona? Ao que tudo indica, eu sou esse osso. Eu sou minha imaginação, meus desejos, minha reflexões, meus afetos e lembranças --e esse osso também.
Mas vamos retomar a questão principal que me fez escrever esta crônica: se o espanto é a origem tanto do conhecimento quanto do poema, significa que a filosofia e a poesia são a mesma coisa? Essa é uma pergunta difícil de responder, mas me atrevo a dizer, antes de qualquer especulação, que não, que filosofia não é a mesma coisa que poesia. Sim, não é; não obstante, não apenas ambas nascem do espanto, como ambas implicam em reflexão.
Certamente, nem toda poesia implica reflexão em nível equivalente ao da filosofia. Há poemas que nascem quase que magicamente das próprias palavras, fazendo-nos pensar que alguém, que não o poeta, é que os inventou. E há também poemas de encantamento, que se alimentam mais da fantasia e da paixão do que desse espanto que gera reflexão.
Voltando à relação dos dois espantos --o do filósofo e o do poeta-- vamos tentar deslindar o que os distingue e o que os aproxima. Até onde posso vislumbrar uma explicação para tal problema, diria que, no espanto, não há diferença entre o filósofo e o poeta, já que ambos são tomados, inesperadamente, da constatação de que não há explicação para o que acabam de perceber: osso pensa? Osso pergunta?
A diferença, então, estaria depois dessa constatação, que é diferente no filósofo e no poeta. Salvo, melhor juízo, acho que o filósofo tem necessidade de explicar o fato que o espantou, e o poeta não; o poeta quer apenas dizer que se espantou, que aquilo não tem mesmo explicação; o que ele deseja, em suma, é registrar o inexplicável, afirmar o insondável mistério da existência.
É nisso, creio eu, que os dois diferem, uma vez que seja próprio da filosofia explicar a existência. O filósofo não se conforma com inexplicabilidade do fenômeno que o espantou e, por essa razão, tem que explicá-lo, inseri-lo no sistema de pensamento que ele, filósofo, elabora na tentativa de tornar o mundo inteligível.
Admitir que não há explicação para a existência seria o fracasso da filosofia que, neste particular, situa-se no polo oposto ao da poesia. Sim, porque, para o poeta "só o que não se sabe é poesia".
E um beijo agradecido ao Caetano Veloso.
Papo de anjo - ADRIANA CALCANHOTTO
O GLOBO - 08/09
As pedras das ruas de Paraty, é sabido, exterminam qualquer possível traço de elegância no andar de seus transeuntes, mas Dona Cleonice chegou a esse jantar carregada numa liteira literária.
No último dia 28 comemorou seu aniversário de 97 anos a professora Cleonice Berardinelli. Pensando nela nesse dia, elucubrei sobre o que seria sua receita para tamanha vitalidade, sabedoria e conhecimento, e me lembrei do que ela disse à moça que lhe sussurrara o menu de um jantar em sua homenagem. “De tudo um pouquinho.”
As pedras das ruas de Paraty, é sabido, exterminam qualquer possível traço de elegância no andar de seus transeuntes, mas Dona Cleonice chegou a esse jantar carregada numa liteira literária. Dona Cleo contou-nos da sua atuação no “Auto da Alma”, de Gil Vicente, ainda bem jovem. No primeiro ensaio fez o papel de Alma; e sua colega, o do Anjo Custódio. Assim que finalizaram, o diretor decretou “troquem de papéis!”, e Dona Cleo tornou-se então “o Anjo”. Em performance tão arrebatadora que Manuel Bandeira publicou a respeito, no “Jornal da Manhã”, “o anjo era lindo (Cleonice Seroa da Mota), falava com a dupla autoridade da fé e da poesia” e no “momento de comoção”, que lhe umedecera os olhos de poeta. Ela tentou continuar a contar algo sobre ele, mas alguém perguntou se ela gostaria de vinho. Ela aceitou. Ele serviu.
Eu perguntei:
— E então, Dona Cleo, e o Manuel Bandeira?
— Ah, sim, o Manuel...
Aí alguém fez uma pergunta sobre algo relativo às profundezas do âmago de Ricardo Reis. Ela respondeu, até o fundo. Contou ainda que Bandeira, a respeito dos heterônimos, disse que via claramente, em cada um deles, “Fernando Pessoa querendo sair de seu drama”.
Me atravessei logo depois da última palavra:
— A senhora ia contando outra coisa sobre Bandeira...
— Ah, sim, o Manuel, ele...
Alguém ergueu uma taça, e brindamos ruidosos, com alegria infinda, à saúde de Dona Cleo!
Na leitura que fizera mais cedo, alguém do público perguntou se ela já não se sentia um, ou se não gostaria de vir a ser um, heterônimo de Fernando Pessoa, tal a intimidade com a obra do poeta, ao que respondeu: “Não gostaria, é incômodo ser Fernando Pessoa, ele não foi feliz”.
Logo antes, quando surgiu no palco da tenda da Flip, e a plateia levantou-se aos aplausos, ejetada das cadeiras, ansiosa para começar a fazer o que adora, que é ler Fernando Pessoa, foi direto às folhas com os poemas.
<SW,-16>Daí mergulhou nas palavras, nos recônditos, nos labirintos pessoanos. A plateia embasbacou. Não contente, chamou ao palco Maria Bethânia, que entrou, plena de felicidade, engraçada, sacana, fazendo meu queixo cair até os joelhos e por ali permanecer pela hora e meia seguinte.<SW>
Dona Cleo e Bethânia leram “à beira-mar” os principais heterônimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis), os poetas do poeta Fernando Pessoa. Por dentro. Pelas vísceras e vírgulas de cada um.
Uma dada hora ouvi “...mar sem fundo...”, e aquilo me atingiu como um caldo feio de uma onda brava. E foi assim, ainda zonza, que cheguei, não me perguntem como, no jantar para Dona Cleonice.
Soterrada pelos convivas, redigindo dedicatórias exclusivas para cada livro, me cochichou “virei popstar” com olhar de coleguice e prosseguiu assinando e sendo fotografada e assinando e sendo fotografada. Saí da mesa para dar espaço aos ávidos paparazzi que se revelaram os comensais, mas tive a impressão de ouvi-la dizer “...deira” e voltei à minha cadeira às cotoveladas:
— O que, Dona Cleo?
— O Bandeira, estava aqui contando...
— O que, Dona Cleo?
— Que Manuel era perdido por doce! Todo aniversário dele, fazia eu mesma os papos de anjo que ele tanto amava. Embrulhava com celofane, laços de fita e ia lá entregar.
Surpreendida, me ouvi perguntar:
— Dona Cleonice, o que é, hein, afinal, essa ligação dos poetas com os papos de anjo? Vinicius de Moraes disse que não havia nada como comer um pote de papos de anjo ao lado da mulher amada (ao que Rubem Braga retrucou: “ele está gagá, qualquer um sabe que não há nada como comer a mulher amada ao lado de um pote de papos de anjo”).
Proibido pelo médico de comer açúcar, Vinicius assaltava a geladeira sem ninguém saber, até a primeira criatura a abrir a porta de manhã dar de cara com os gelados óculos do poeta, lá dentro, ao lado de uma compoteira de papos de anjo, vazia.
Dona Cleo:
— Olha, acontece que...
E alguém:
— Dona Cleonice! Duas horas da manhã! Agora vamos!
Acabou-se o que era doce, fim do meu papo com “o Anjo”, ele se foi na sua liteira.
As pedras das ruas de Paraty, é sabido, exterminam qualquer possível traço de elegância no andar de seus transeuntes, mas Dona Cleonice chegou a esse jantar carregada numa liteira literária.
No último dia 28 comemorou seu aniversário de 97 anos a professora Cleonice Berardinelli. Pensando nela nesse dia, elucubrei sobre o que seria sua receita para tamanha vitalidade, sabedoria e conhecimento, e me lembrei do que ela disse à moça que lhe sussurrara o menu de um jantar em sua homenagem. “De tudo um pouquinho.”
As pedras das ruas de Paraty, é sabido, exterminam qualquer possível traço de elegância no andar de seus transeuntes, mas Dona Cleonice chegou a esse jantar carregada numa liteira literária. Dona Cleo contou-nos da sua atuação no “Auto da Alma”, de Gil Vicente, ainda bem jovem. No primeiro ensaio fez o papel de Alma; e sua colega, o do Anjo Custódio. Assim que finalizaram, o diretor decretou “troquem de papéis!”, e Dona Cleo tornou-se então “o Anjo”. Em performance tão arrebatadora que Manuel Bandeira publicou a respeito, no “Jornal da Manhã”, “o anjo era lindo (Cleonice Seroa da Mota), falava com a dupla autoridade da fé e da poesia” e no “momento de comoção”, que lhe umedecera os olhos de poeta. Ela tentou continuar a contar algo sobre ele, mas alguém perguntou se ela gostaria de vinho. Ela aceitou. Ele serviu.
Eu perguntei:
— E então, Dona Cleo, e o Manuel Bandeira?
— Ah, sim, o Manuel...
Aí alguém fez uma pergunta sobre algo relativo às profundezas do âmago de Ricardo Reis. Ela respondeu, até o fundo. Contou ainda que Bandeira, a respeito dos heterônimos, disse que via claramente, em cada um deles, “Fernando Pessoa querendo sair de seu drama”.
Me atravessei logo depois da última palavra:
— A senhora ia contando outra coisa sobre Bandeira...
— Ah, sim, o Manuel, ele...
Alguém ergueu uma taça, e brindamos ruidosos, com alegria infinda, à saúde de Dona Cleo!
Na leitura que fizera mais cedo, alguém do público perguntou se ela já não se sentia um, ou se não gostaria de vir a ser um, heterônimo de Fernando Pessoa, tal a intimidade com a obra do poeta, ao que respondeu: “Não gostaria, é incômodo ser Fernando Pessoa, ele não foi feliz”.
Logo antes, quando surgiu no palco da tenda da Flip, e a plateia levantou-se aos aplausos, ejetada das cadeiras, ansiosa para começar a fazer o que adora, que é ler Fernando Pessoa, foi direto às folhas com os poemas.
<SW,-16>Daí mergulhou nas palavras, nos recônditos, nos labirintos pessoanos. A plateia embasbacou. Não contente, chamou ao palco Maria Bethânia, que entrou, plena de felicidade, engraçada, sacana, fazendo meu queixo cair até os joelhos e por ali permanecer pela hora e meia seguinte.<SW>
Dona Cleo e Bethânia leram “à beira-mar” os principais heterônimos (Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis), os poetas do poeta Fernando Pessoa. Por dentro. Pelas vísceras e vírgulas de cada um.
Uma dada hora ouvi “...mar sem fundo...”, e aquilo me atingiu como um caldo feio de uma onda brava. E foi assim, ainda zonza, que cheguei, não me perguntem como, no jantar para Dona Cleonice.
Soterrada pelos convivas, redigindo dedicatórias exclusivas para cada livro, me cochichou “virei popstar” com olhar de coleguice e prosseguiu assinando e sendo fotografada e assinando e sendo fotografada. Saí da mesa para dar espaço aos ávidos paparazzi que se revelaram os comensais, mas tive a impressão de ouvi-la dizer “...deira” e voltei à minha cadeira às cotoveladas:
— O que, Dona Cleo?
— O Bandeira, estava aqui contando...
— O que, Dona Cleo?
— Que Manuel era perdido por doce! Todo aniversário dele, fazia eu mesma os papos de anjo que ele tanto amava. Embrulhava com celofane, laços de fita e ia lá entregar.
Surpreendida, me ouvi perguntar:
— Dona Cleonice, o que é, hein, afinal, essa ligação dos poetas com os papos de anjo? Vinicius de Moraes disse que não havia nada como comer um pote de papos de anjo ao lado da mulher amada (ao que Rubem Braga retrucou: “ele está gagá, qualquer um sabe que não há nada como comer a mulher amada ao lado de um pote de papos de anjo”).
Proibido pelo médico de comer açúcar, Vinicius assaltava a geladeira sem ninguém saber, até a primeira criatura a abrir a porta de manhã dar de cara com os gelados óculos do poeta, lá dentro, ao lado de uma compoteira de papos de anjo, vazia.
Dona Cleo:
— Olha, acontece que...
E alguém:
— Dona Cleonice! Duas horas da manhã! Agora vamos!
Acabou-se o que era doce, fim do meu papo com “o Anjo”, ele se foi na sua liteira.
Os fantasmas - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O ESTADÃO - 08/09
Armas químicas são produtos do engenho humano, como qualquer outra arma. São mais repugnantes porque associamos química à vida e não à morte, apesar de todos os venenos que ela produz. Mas o universo moralmente neutro e sem remorsos em que elas são desenvolvidas e usadas é o mesmo.
Mikhail Kalashnikov criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Não sei se já morreu, mas vivia uma aposentadoria tranquila nos Urais, cercado pelas filhas. Fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com nenhuma sequela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso. Orgulhava-se do que tinha feito pela pátria.
A simplicidade e a eficiência do AK-14 foram responsáveis pela sua adoção universal depois do aparecimento do primeiro protótipo, e ele chegou a ser o produto mais exportado da União Soviética. Se foi usado em guerras sujas, massacres e assassinatos em todo o mundo, inclusive na Rússia, isso não era da conta de Mikhail, que só fez o seu trabalho. Nenhum fantasma shakesperiano perturbou o seu sono nos Urais, como os fantasmas que visitaram Ricardo III antes da sua batalha final para lhe dizer “Desespere e morra”.
J.Robert Oppenheimer foi visitado por milhares de fantasmas. Depois do triunfo do programa do qual ele era o diretor científico, com as explosões atômicas bem sucedidas em Hiroshima e Nagasaki, ele festejou alegremente com sua equipe. Depois teve uma crise de consciência e uma transformação.
Ele e a equipe não tinham apenas feito seu trabalho e criado uma arma eficientíssima, com brilhantismo. Tinham dado à luz um monstro inédito no mundo e provocado a mais radical intervenção da ciência na vida humana desde que esta existia. Isto e os mortos assombraram o resto da vida de Oppenheimer. Ele se opôs à construção da bomba de hidrogênio e foi considerado um pouco penitente e filosófico demais para continuar à frente do programa nuclear americano, sendo substituído pelo mais pragmático Edward Teller. “Let me sit heavy in thy soul”, que eu pese na sua alma, diziam os fantasmas vingativos de Ricardo. O maior feito da ciência na História pesou na alma de Oppenheimer até o fim.
Sarah Winchester conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, “o rifle que conquistou o Oeste”. Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester – uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov – chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.
Sarah e William tiveram uma filha, Annie, que morreu ainda bebê, começando o que Sarah identificou como uma danação sobre a sua família. Pouco depois, William também morreu, de tuberculose, confirmando para Sarah que o nome Winchester vinha carregado de pragas e maus presságios. Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espíritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente.
Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas – sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria. Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San Jose, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte e a casa – que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San Jose – chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espíritos enraivecidos.
Sarah era sua própria arquiteta. Construiu corredores que levam a lugar nenhum, escadas para o nada, portas que dão no espaço e dezenas de quartos. Dormia num quarto diferente à cada noite, para enganar os espíritos. Pode-se imaginar uma horda variada de fantasmas abatidos pelo Winchester – soldados, bandidos, índios, mexicanos, tantos quanto os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki – perdida no casarão atrás de Sarah, que conseguiu ludibriá-los até os 85 anos, quando morreu.
Armas químicas são produtos do engenho humano, como qualquer outra arma. São mais repugnantes porque associamos química à vida e não à morte, apesar de todos os venenos que ela produz. Mas o universo moralmente neutro e sem remorsos em que elas são desenvolvidas e usadas é o mesmo.
Mikhail Kalashnikov criou o mais usado fuzil automático do mundo, o AK-14. Não sei se já morreu, mas vivia uma aposentadoria tranquila nos Urais, cercado pelas filhas. Fora a surdez, resultado dos anos testando armas, não ficou com nenhuma sequela do seu trabalho. Certamente nenhum remorso. Orgulhava-se do que tinha feito pela pátria.
A simplicidade e a eficiência do AK-14 foram responsáveis pela sua adoção universal depois do aparecimento do primeiro protótipo, e ele chegou a ser o produto mais exportado da União Soviética. Se foi usado em guerras sujas, massacres e assassinatos em todo o mundo, inclusive na Rússia, isso não era da conta de Mikhail, que só fez o seu trabalho. Nenhum fantasma shakesperiano perturbou o seu sono nos Urais, como os fantasmas que visitaram Ricardo III antes da sua batalha final para lhe dizer “Desespere e morra”.
J.Robert Oppenheimer foi visitado por milhares de fantasmas. Depois do triunfo do programa do qual ele era o diretor científico, com as explosões atômicas bem sucedidas em Hiroshima e Nagasaki, ele festejou alegremente com sua equipe. Depois teve uma crise de consciência e uma transformação.
Ele e a equipe não tinham apenas feito seu trabalho e criado uma arma eficientíssima, com brilhantismo. Tinham dado à luz um monstro inédito no mundo e provocado a mais radical intervenção da ciência na vida humana desde que esta existia. Isto e os mortos assombraram o resto da vida de Oppenheimer. Ele se opôs à construção da bomba de hidrogênio e foi considerado um pouco penitente e filosófico demais para continuar à frente do programa nuclear americano, sendo substituído pelo mais pragmático Edward Teller. “Let me sit heavy in thy soul”, que eu pese na sua alma, diziam os fantasmas vingativos de Ricardo. O maior feito da ciência na História pesou na alma de Oppenheimer até o fim.
Sarah Winchester conseguiu driblar os fantasmas. Ela era a viúva de William Winchester, filho do fabricante do fuzil Winchester, “o rifle que conquistou o Oeste”. Além de usado para eliminar coiotes, índios e outros entraves à ocupação do Oeste bravio, o Winchester – uma arma tão revolucionária, na sua época, quanto a máquina de matar de Kalashnikov – chegou ao mercado pouco antes de começar a Guerra da Secessão americana, que fez a fortuna da família.
Sarah e William tiveram uma filha, Annie, que morreu ainda bebê, começando o que Sarah identificou como uma danação sobre a sua família. Pouco depois, William também morreu, de tuberculose, confirmando para Sarah que o nome Winchester vinha carregado de pragas e maus presságios. Aconselhada por uma amiga, procurou uma médium que lhe disse que os espíritos de todos os mortos pelos rifles Winchester eram os culpados pela maldição. Eles tinham levado sua filhinha e seu marido como retribuição, e a única maneira de Sarah fugir dos espíritos seria comprar uma casa e aumentá-la continuamente.
Construir novas peças, puxados, andares, anexos, terraços, alas – sem parar. No dia em que parasse a construção, segundo a médium, Sarah também morreria. Os espíritos chegariam a ela e também a levariam. Sarah comprou uma casa em San Jose, na Califórnia, e pôs-se a aumentá-la. As obras duraram, sem interrupção, até o dia da sua morte e a casa – que ainda existe, e hoje é uma atração turística em San Jose – chegou a ter sete andares, antes de ser parcialmente demolida por um terremoto, que Sarah atribuiu aos espíritos enraivecidos.
Sarah era sua própria arquiteta. Construiu corredores que levam a lugar nenhum, escadas para o nada, portas que dão no espaço e dezenas de quartos. Dormia num quarto diferente à cada noite, para enganar os espíritos. Pode-se imaginar uma horda variada de fantasmas abatidos pelo Winchester – soldados, bandidos, índios, mexicanos, tantos quanto os fantasmas de Hiroshima e Nagasaki – perdida no casarão atrás de Sarah, que conseguiu ludibriá-los até os 85 anos, quando morreu.
Times com mais de uma cara - TOSTÃO
FOLHA DE SP - 08/09
O Cruzeiro, além de não ter um único artilheiro, faz gols pelo centro, pelos lados, pelo chão e pelo alto
O futebol pode ser visto e analisado de várias maneiras, como um jogo de habilidade, inventividade, técnica, estratégia, acasos, capacidade física, emocional, e de variados comportamentos humanos.
Sentimentos de medo, ambição, orgulho, alegria, tristeza, generosidade e tantos outros estão presentes. As equipes costumam ser contraditórias, intuitivas e científicas, surpreendentes e planejadas, reprimidas e audaciosas.
Tento ver um jogo com vários olhares. Muitas vezes, não consigo. Eles não se entendem. Um olhar se acha mais importante que o outro. São todos relevantes.
Um profissional do futebol e de qualquer área não pode ser tão arrogante, utópico e incrédulo, para desprezar a enorme importância da ciência esportiva e da estatística, nem tão pragmático e operatório, para ignorar a grande importância das experiências individuais, das particularidades, do subjetivo e do que não pode ser medido.
No futebol, há milhares de verdades, dogmas, frases feitas e chavões que não correspondem à realidade.
Ouço muito que um time tem a cara do treinador. Precisa ter a cara também dos jogadores. O Bayern, dirigido por Guardiola, amante das curtas trocas de passes e da infiltração de alguém para receber a bola livre e dentro da área, tem jogado como no ano passado, quando era dirigido pelo alemão Jupp Heynckes. O Bayern trocava também muitos passes, como hoje, porém, com mais velocidade, além de fazer muitos gols em jogadas aéreas.
Isso não significa que o Bayern despreze os conhecimentos e as orientações de Guardiola. O time usa várias armas ofensivas. Se quisesse jogar como o Barcelona, o Bayern teria de contratar um Messi, um Xavi. Os grandes times têm a cara dos técnicos e, principalmente, de seus principais jogadores.
O Cruzeiro, como o Bayern, respeitando as grandes diferenças técnicas, também faz muitos gols pelo chão, trocando passes, e pelo alto, em bolas cruzadas.
O Barcelona, com Neymar, terá também mais de uma cara. Já deu sinais de que vai usar mais os dribles e as jogadas em velocidade, nos contra-ataques.
Na final da Copa das Confederações, o Brasil parecia o Bayern do ano passado, que goleou e eliminou o Barcelona, base da seleção espanhola. Será que o Brasil vai repetir essa grande atuação no Mundial, já que devem estar presentes os mesmos favoráveis fatores extracampo?
Contra a fraquíssima Austrália, foi mais uma ótima atuação do Brasil. Os gols e a maioria das chances nasceram na recuperação da bola, com frequência, no campo do adversário. É a marcação por pressão, a grande arma estratégica do time. As excelentes atuações de Jô, Bernard, Ramires e Maicon reforçam minha opinião de que o Brasil só tem três titulares que fazem muita falta, Neymar, Thiago Silva e Marcelo.
O Cruzeiro, além de não ter um único artilheiro, faz gols pelo centro, pelos lados, pelo chão e pelo alto
O futebol pode ser visto e analisado de várias maneiras, como um jogo de habilidade, inventividade, técnica, estratégia, acasos, capacidade física, emocional, e de variados comportamentos humanos.
Sentimentos de medo, ambição, orgulho, alegria, tristeza, generosidade e tantos outros estão presentes. As equipes costumam ser contraditórias, intuitivas e científicas, surpreendentes e planejadas, reprimidas e audaciosas.
Tento ver um jogo com vários olhares. Muitas vezes, não consigo. Eles não se entendem. Um olhar se acha mais importante que o outro. São todos relevantes.
Um profissional do futebol e de qualquer área não pode ser tão arrogante, utópico e incrédulo, para desprezar a enorme importância da ciência esportiva e da estatística, nem tão pragmático e operatório, para ignorar a grande importância das experiências individuais, das particularidades, do subjetivo e do que não pode ser medido.
No futebol, há milhares de verdades, dogmas, frases feitas e chavões que não correspondem à realidade.
Ouço muito que um time tem a cara do treinador. Precisa ter a cara também dos jogadores. O Bayern, dirigido por Guardiola, amante das curtas trocas de passes e da infiltração de alguém para receber a bola livre e dentro da área, tem jogado como no ano passado, quando era dirigido pelo alemão Jupp Heynckes. O Bayern trocava também muitos passes, como hoje, porém, com mais velocidade, além de fazer muitos gols em jogadas aéreas.
Isso não significa que o Bayern despreze os conhecimentos e as orientações de Guardiola. O time usa várias armas ofensivas. Se quisesse jogar como o Barcelona, o Bayern teria de contratar um Messi, um Xavi. Os grandes times têm a cara dos técnicos e, principalmente, de seus principais jogadores.
O Cruzeiro, como o Bayern, respeitando as grandes diferenças técnicas, também faz muitos gols pelo chão, trocando passes, e pelo alto, em bolas cruzadas.
O Barcelona, com Neymar, terá também mais de uma cara. Já deu sinais de que vai usar mais os dribles e as jogadas em velocidade, nos contra-ataques.
Na final da Copa das Confederações, o Brasil parecia o Bayern do ano passado, que goleou e eliminou o Barcelona, base da seleção espanhola. Será que o Brasil vai repetir essa grande atuação no Mundial, já que devem estar presentes os mesmos favoráveis fatores extracampo?
Contra a fraquíssima Austrália, foi mais uma ótima atuação do Brasil. Os gols e a maioria das chances nasceram na recuperação da bola, com frequência, no campo do adversário. É a marcação por pressão, a grande arma estratégica do time. As excelentes atuações de Jô, Bernard, Ramires e Maicon reforçam minha opinião de que o Brasil só tem três titulares que fazem muita falta, Neymar, Thiago Silva e Marcelo.
Artes do photoshop - HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 08/09
Esgotada a pauta, o almoço de trabalho virou aquilo que meu amigo Fernando Paiva chama de "almoço de negócio": um diz um negócio... outro diz outro negócio... Meus companheiros de mesa eram executivos bem formais, desses cujas mães a gente pode imaginar, gestantes, a tricotar terninhos e gravatinhas de lã. Na falta de assunto que se instalou, passaram a falar do meu currículo - no qual nada lhes interessou mais do que o fato de ter eu trabalhado na redação da Playboy.
Excelentes entrevistas! - comentou um dos comensais. Ótimos artigos! - exclamou outro. Como quem não quer nada, foram se acercando, cada vez mais desinibidos, do tema inescapável da mulher pelada. Só não abriu a boca, pouco à vontade que parecia estar, o presidente da empresa, homem maduro com perfil de exemplar chefe de família.
Verdade que usávamos recursos técnicos para aplainar verrugas, estrias e celulites? - quis saber um deles. Na certeza de que iria agradar, enveredei pelo relato de bastidores da redação, onde, exagerei, não cessávamos de contabilizar façanhas na luta contra imperfeições da natureza. A história da musa de capa, por exemplo, cujos dedos, na foto, resultaram deformados, o que nos obrigou a trocar aquela mão por outra - dela mesma, garimpada entre dezenas de poses alternativas. Um caso único, talvez, de centauro montado com pedaços de um mesmo ser. E ninguém percebeu? Ninguém! - disse eu, com o orgulho de quem tivesse posto em circulação, sem levantar suspeitas, uma nota de 100 dólares feita em casa.
Para deixar claro que não nos faltava também humildade, contei do dia em que um desastrado operador do photoshop, ao retocar enorme close de nádegas, apagou o pequeno porém relevante acidente geográfico entre elas aninhado.
Ia falar do bafafá que o desastre provocou entre os leitores, ou melhor, vedores - mas para pasmo geral nesse momento o presidente da empresa, estilhaçando a circunspecção, berrou na ponta da mesa, tonitruante como um jogador de truco: "Sheila Lopes!" - para em seguida baixar o rosto e murmurar, varado de vergonha corporativa, "Os srs. me perdoem...", voltando a ser o irrepreensível chefe de família que sempre foi.
***
E agora?, me perguntei, mal pus os pés no saguão do hotel. Qual daqueles sujeitos de terno - todos, inequivocamente, pessoas jurídicas - seria o meu amigo de adolescência?
Fazia décadas que não nos víamos - desde o tempo em que (isso já contei, mas você talvez não tenha lido, ou não prestou atenção), ali pelos nossos 13 anos de idade, ele bolou e construiu, com um motorzinho de 1/4 de cavalo e tirinhas de couro, uma estrovenga cujo nome, masturbarola, já diz tudo e que na estreia por pouco não lhe custou o sacrifício de crucial apêndice de sua anatomia. Agora, ao telefone, sua voz emerge do passado: está na cidade para fechar negócios e faz questão de me ver. Poderia apanhá-lo no hotel às 8 da noite?
E lá estava eu, incapaz de distinguir na massa de executivos algum que pudesse ter inventado a masturbarola. Podia ser qualquer um - até mesmo aquele, hipopotâmico, que, preenchendo toda uma poltrona, a custo se pôs de pé e veio na minha direção, balangando mãozinhas de gordo e arrastando um corpanzil que meu abraço não daria conta de abarcar. Por pouco não conseguiu se encaixar no banco do carona de meu Corsa, que sensivelmente adernou ao acolher tamanha tonelagem.
No restaurante, eu ainda custava a crer que tinha à minha frente, empenhado em devastar a cesta de pãezinhos do couvert, o outrora frugal companheiro de colégio. Foi então que me lembrei de um velho comercial de produto para emagrecimento, desses que só encontram quem os veja no meio da madrugada e em canais nanicos. Grotesco, e só por isso inesquecível: empalada num espeto giratório, uma colossal pelota de banha se ia aos poucos derretendo, até que, despencada toda a gordura, revelava-se a esbelta Vênus de Milo. Como se exposto ao bafo quente de uma churrasqueira - ou de um photoshop? -, a figura à minha frente pareceu aos poucos liberar-se da enxúndia acumulada em anos, voltando a ser o meu comparsa de adolescência, só lhe faltando sacar do bolso o projeto de uma engenhoca que havia bolado para economizar repetitivos e gratificantes esforços manuais.
Esgotada a pauta, o almoço de trabalho virou aquilo que meu amigo Fernando Paiva chama de "almoço de negócio": um diz um negócio... outro diz outro negócio... Meus companheiros de mesa eram executivos bem formais, desses cujas mães a gente pode imaginar, gestantes, a tricotar terninhos e gravatinhas de lã. Na falta de assunto que se instalou, passaram a falar do meu currículo - no qual nada lhes interessou mais do que o fato de ter eu trabalhado na redação da Playboy.
Excelentes entrevistas! - comentou um dos comensais. Ótimos artigos! - exclamou outro. Como quem não quer nada, foram se acercando, cada vez mais desinibidos, do tema inescapável da mulher pelada. Só não abriu a boca, pouco à vontade que parecia estar, o presidente da empresa, homem maduro com perfil de exemplar chefe de família.
Verdade que usávamos recursos técnicos para aplainar verrugas, estrias e celulites? - quis saber um deles. Na certeza de que iria agradar, enveredei pelo relato de bastidores da redação, onde, exagerei, não cessávamos de contabilizar façanhas na luta contra imperfeições da natureza. A história da musa de capa, por exemplo, cujos dedos, na foto, resultaram deformados, o que nos obrigou a trocar aquela mão por outra - dela mesma, garimpada entre dezenas de poses alternativas. Um caso único, talvez, de centauro montado com pedaços de um mesmo ser. E ninguém percebeu? Ninguém! - disse eu, com o orgulho de quem tivesse posto em circulação, sem levantar suspeitas, uma nota de 100 dólares feita em casa.
Para deixar claro que não nos faltava também humildade, contei do dia em que um desastrado operador do photoshop, ao retocar enorme close de nádegas, apagou o pequeno porém relevante acidente geográfico entre elas aninhado.
Ia falar do bafafá que o desastre provocou entre os leitores, ou melhor, vedores - mas para pasmo geral nesse momento o presidente da empresa, estilhaçando a circunspecção, berrou na ponta da mesa, tonitruante como um jogador de truco: "Sheila Lopes!" - para em seguida baixar o rosto e murmurar, varado de vergonha corporativa, "Os srs. me perdoem...", voltando a ser o irrepreensível chefe de família que sempre foi.
***
E agora?, me perguntei, mal pus os pés no saguão do hotel. Qual daqueles sujeitos de terno - todos, inequivocamente, pessoas jurídicas - seria o meu amigo de adolescência?
Fazia décadas que não nos víamos - desde o tempo em que (isso já contei, mas você talvez não tenha lido, ou não prestou atenção), ali pelos nossos 13 anos de idade, ele bolou e construiu, com um motorzinho de 1/4 de cavalo e tirinhas de couro, uma estrovenga cujo nome, masturbarola, já diz tudo e que na estreia por pouco não lhe custou o sacrifício de crucial apêndice de sua anatomia. Agora, ao telefone, sua voz emerge do passado: está na cidade para fechar negócios e faz questão de me ver. Poderia apanhá-lo no hotel às 8 da noite?
E lá estava eu, incapaz de distinguir na massa de executivos algum que pudesse ter inventado a masturbarola. Podia ser qualquer um - até mesmo aquele, hipopotâmico, que, preenchendo toda uma poltrona, a custo se pôs de pé e veio na minha direção, balangando mãozinhas de gordo e arrastando um corpanzil que meu abraço não daria conta de abarcar. Por pouco não conseguiu se encaixar no banco do carona de meu Corsa, que sensivelmente adernou ao acolher tamanha tonelagem.
No restaurante, eu ainda custava a crer que tinha à minha frente, empenhado em devastar a cesta de pãezinhos do couvert, o outrora frugal companheiro de colégio. Foi então que me lembrei de um velho comercial de produto para emagrecimento, desses que só encontram quem os veja no meio da madrugada e em canais nanicos. Grotesco, e só por isso inesquecível: empalada num espeto giratório, uma colossal pelota de banha se ia aos poucos derretendo, até que, despencada toda a gordura, revelava-se a esbelta Vênus de Milo. Como se exposto ao bafo quente de uma churrasqueira - ou de um photoshop? -, a figura à minha frente pareceu aos poucos liberar-se da enxúndia acumulada em anos, voltando a ser o meu comparsa de adolescência, só lhe faltando sacar do bolso o projeto de uma engenhoca que havia bolado para economizar repetitivos e gratificantes esforços manuais.
Ueba! Dilma tá no Ponto G 20! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 08/09
Obama vira Obomba! Avisa pro Obama que bombardear pela paz é como trepar pela virgindade
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a manchete do Piaui Herald: "Câmara dos Deputados será transferida para o presídio da Papuda".
E vai mudar de nome. Sugestões: Associação Recreativa Delúbio Soares, Mosteiro José Sarney, Casa da Mãe Joana e Recanto do Beira Mar!
E sugiro um nome mais atual: Hospedaria do Zé Dirceu! Rarará! Presídio da Papuda muda de nome para Hospedaria do Zé Dirceu!
E o deputado Danadão tá organizando a Bancada da Papuda! E a espionagem do Obama? Obama descobre que Dilma prefere o Habib's que o McDonalds.
E ataca a Síria! Obama descobre e-mail explosivo da Dilma: "Maaantega, me manda mais uma vida do Candy Crush".
E o chargista Zedassilva revela que Obama descobre que a Dilma dorme de pijaminha de Che Guevara. Aqueles de flanela com estampa do Che Guevara.
E adorei a charge do Aroeira com o Mantega tomando banho e a Dilma batendo na porta: "Lava bem atrás da orelha. O Obama está nos espionando".
E o Obama descobre que o Lula não sabia de nada! Rarará! E a Síria? Obama vira Obomba! Avisa pro Obama que bombardear pela paz é como trepar pela virgindade. E avisa pro Obama que Nassiria não fica na Síria, fica no Iraque.
E avisa pro Obama que arma química é o arroto de quibe do Habib's. Derruba o Assad e até a Muralha da China. E avisa pro Obama que arma química é a minha sogra quando esquece de tomar Gardenal! E o Obama é Nobel da Paz. Tudo bem, o Nobel foi inventor da dinamite!
E o G-20? O Geme 20: todo mundo gemendo. Ai, não tenho dinheiro. Ai, o euro acabou! Ai, a situação tá grega! Reunião dos ex-ricos e falidos. Tipo Iate Clube em que os sócios ficaram pobres!
E o Putin tem cara de vilão de 007. Vilão de filme de James Bond. From Russia with Love! Putin é aquele presidente que já vem com raiva.
E a Angela Merkel tem cara de ressaca de Oktoberfest. E a Dilma tá parecendo o Kung Fu Panda! E a Dilma como primeira presidenta mulher do Brasil, lançou o PONTO G 20!
Os presidentes têm que adivinhar onde fica o ponto G da mulherada. Eu sei, no shopping. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Obama vira Obomba! Avisa pro Obama que bombardear pela paz é como trepar pela virgindade
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a manchete do Piaui Herald: "Câmara dos Deputados será transferida para o presídio da Papuda".
E vai mudar de nome. Sugestões: Associação Recreativa Delúbio Soares, Mosteiro José Sarney, Casa da Mãe Joana e Recanto do Beira Mar!
E sugiro um nome mais atual: Hospedaria do Zé Dirceu! Rarará! Presídio da Papuda muda de nome para Hospedaria do Zé Dirceu!
E o deputado Danadão tá organizando a Bancada da Papuda! E a espionagem do Obama? Obama descobre que Dilma prefere o Habib's que o McDonalds.
E ataca a Síria! Obama descobre e-mail explosivo da Dilma: "Maaantega, me manda mais uma vida do Candy Crush".
E o chargista Zedassilva revela que Obama descobre que a Dilma dorme de pijaminha de Che Guevara. Aqueles de flanela com estampa do Che Guevara.
E adorei a charge do Aroeira com o Mantega tomando banho e a Dilma batendo na porta: "Lava bem atrás da orelha. O Obama está nos espionando".
E o Obama descobre que o Lula não sabia de nada! Rarará! E a Síria? Obama vira Obomba! Avisa pro Obama que bombardear pela paz é como trepar pela virgindade. E avisa pro Obama que Nassiria não fica na Síria, fica no Iraque.
E avisa pro Obama que arma química é o arroto de quibe do Habib's. Derruba o Assad e até a Muralha da China. E avisa pro Obama que arma química é a minha sogra quando esquece de tomar Gardenal! E o Obama é Nobel da Paz. Tudo bem, o Nobel foi inventor da dinamite!
E o G-20? O Geme 20: todo mundo gemendo. Ai, não tenho dinheiro. Ai, o euro acabou! Ai, a situação tá grega! Reunião dos ex-ricos e falidos. Tipo Iate Clube em que os sócios ficaram pobres!
E o Putin tem cara de vilão de 007. Vilão de filme de James Bond. From Russia with Love! Putin é aquele presidente que já vem com raiva.
E a Angela Merkel tem cara de ressaca de Oktoberfest. E a Dilma tá parecendo o Kung Fu Panda! E a Dilma como primeira presidenta mulher do Brasil, lançou o PONTO G 20!
Os presidentes têm que adivinhar onde fica o ponto G da mulherada. Eu sei, no shopping. Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Outro fracasso - LUIS FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 08/09
Estou escrevendo sem saber se já atacaram a Síria. O que dá para saber sem esperar os fatos é que, mais uma vez, as Nações Unidas não tiveram nada a ver com o assunto. A ONU é um monumento aos melhores sentimentos humanos e ao mesmo tempo uma prova de como os bons sentimentos pouco podem, portanto um monumento à inconsequência.
O fracasso da ONU na sua missão mais importante, que é evitar as guerras, torna as suas outras mil e uma utilidades supérfluas. Pouca gente sabe tudo o que a ONU faz nos campos da saúde, da agricultura, dos direitos humanos etc. como pouca gente sabia que a Liga das Nações, sua precursora, também promovia cooperação técnica entre nações e programas sociais, além de tentar inutilmente manter a paz. O principal ideal que a ONU herdou da Liga foi o do debate substituindo a guerra e a racionalidade superando as desavenças tribais. Nisso, suas únicas diferenças da Liga das Nações são que uma sobrevive à frustração que liquidou a outra e tem a adesão dos Estados Unidos, que a outra não tinha.
Apesar de o presidente americano durante a Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson, ser um entusiasta da Liga que acabaria com todas as guerras, o Congresso americano rejeitou a participação dos Estados Unidos na organização, o que matou Wilson de desgosto. O Congresso aprovou a entrada do país na ONU depois da Segunda Guerra, mas a antipatia continuou. O desdém pela ONU ou por qualquer entidade supranacional é uma constante do conservadorismo americano. E no entanto, a ONU já dura mais do que o dobro do que durou a Liga das Nações. Ela também é um monumento à perseverança sem nada que a justifique.
Talvez se deva adotar a ONU como símbolo justamente dessa insensata insistência, dessa inconsequência heróica. Com todas as suas contradições e frustrações, ela representa a teimosia da razão em existir num mundo que teima em desmoralizá-la. Pode persistir como uma cidadela do Bem, na falta de palavra menos vaporosa, nem que seja só pra gente fingir que acredita neles, na ONU e no Bem, porque a alternativa é a desistência. É aceitar que, incapaz de vencer o desprezo e a prepotência dos que a desacreditam, a idéia de uma comunidade mundial esteja começando a sua segunda agonia.
A Liga das Nações durou até 1946 mas agonizou durante 20 sangrentos anos até morrer de irrelevância. A ONU depois de mais este fracasso, só terá levado mais tempo para se convencer da sua própria irrelevância.
Estou escrevendo sem saber se já atacaram a Síria. O que dá para saber sem esperar os fatos é que, mais uma vez, as Nações Unidas não tiveram nada a ver com o assunto. A ONU é um monumento aos melhores sentimentos humanos e ao mesmo tempo uma prova de como os bons sentimentos pouco podem, portanto um monumento à inconsequência.
O fracasso da ONU na sua missão mais importante, que é evitar as guerras, torna as suas outras mil e uma utilidades supérfluas. Pouca gente sabe tudo o que a ONU faz nos campos da saúde, da agricultura, dos direitos humanos etc. como pouca gente sabia que a Liga das Nações, sua precursora, também promovia cooperação técnica entre nações e programas sociais, além de tentar inutilmente manter a paz. O principal ideal que a ONU herdou da Liga foi o do debate substituindo a guerra e a racionalidade superando as desavenças tribais. Nisso, suas únicas diferenças da Liga das Nações são que uma sobrevive à frustração que liquidou a outra e tem a adesão dos Estados Unidos, que a outra não tinha.
Apesar de o presidente americano durante a Primeira Guerra Mundial, Woodrow Wilson, ser um entusiasta da Liga que acabaria com todas as guerras, o Congresso americano rejeitou a participação dos Estados Unidos na organização, o que matou Wilson de desgosto. O Congresso aprovou a entrada do país na ONU depois da Segunda Guerra, mas a antipatia continuou. O desdém pela ONU ou por qualquer entidade supranacional é uma constante do conservadorismo americano. E no entanto, a ONU já dura mais do que o dobro do que durou a Liga das Nações. Ela também é um monumento à perseverança sem nada que a justifique.
Talvez se deva adotar a ONU como símbolo justamente dessa insensata insistência, dessa inconsequência heróica. Com todas as suas contradições e frustrações, ela representa a teimosia da razão em existir num mundo que teima em desmoralizá-la. Pode persistir como uma cidadela do Bem, na falta de palavra menos vaporosa, nem que seja só pra gente fingir que acredita neles, na ONU e no Bem, porque a alternativa é a desistência. É aceitar que, incapaz de vencer o desprezo e a prepotência dos que a desacreditam, a idéia de uma comunidade mundial esteja começando a sua segunda agonia.
A Liga das Nações durou até 1946 mas agonizou durante 20 sangrentos anos até morrer de irrelevância. A ONU depois de mais este fracasso, só terá levado mais tempo para se convencer da sua própria irrelevância.
O lugar da alma - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 08/09
SÃO PAULO - Deu na "Ilustrada" que uma novela da Globo vai discutir a reencarnação. Não entendo nada de novelas, mas a ideia de reencarnação já fez algumas aparições na história da filosofia, com o mais elegante nome de metempsicose (termo grego que designa a "transmigração da alma"), o que dá ensejo a um par de reflexões.
A ideia de que existe uma alma que sobrevive ao corpo e sai por aí animando outros seres só ganhou algum destaque na filosofia porque foi encampada por Platão. Não dá para discutir aqui os motivos que o levaram a aceitar essa tese (há até quem debata se aceitou mesmo), mas vale registrar que ela resolve um problema e cria uma infinidade de outros.
A grande vantagem é que ela permite postular um mundo mais estável, no qual o número de almas teria sido estabelecido no início dos tempos. Assim fica mais fácil extrair um propósito para as coisas. Uma das dificuldades para as doutrinas religiosas que não aceitam a reencarnação é encontrar um sentido para a morte de bebês e embriões, por exemplo. Por que diabos Deus criaria uma alma e a destruiria logo em seguida?
As complicações da metempsicose não são, entretanto, menores. A mais óbvia é empírica. Se todas as almas já existem desde sempre, como chegamos a 7 bilhões de seres humanos? Onde estavam todos antes?
Talvez mais grave seja o fato de que, para funcionar, a doutrina da reencarnação depende do esquecimento das vidas passadas. Ora, hoje podemos afirmar com alguma segurança que é a memória que constitui a identidade de um indivíduo. Sem ela não sobra muita coisa, como o atestam as demências severas.
E tudo fica mais complicado se trouxermos outros achados recentes para a discussão, como as evidências de que a própria consciência é resultado de múltiplas sensações corporais ligadas em paralelo. Será que ainda resta um lugar para a alma? Suspeito que não.
SÃO PAULO - Deu na "Ilustrada" que uma novela da Globo vai discutir a reencarnação. Não entendo nada de novelas, mas a ideia de reencarnação já fez algumas aparições na história da filosofia, com o mais elegante nome de metempsicose (termo grego que designa a "transmigração da alma"), o que dá ensejo a um par de reflexões.
A ideia de que existe uma alma que sobrevive ao corpo e sai por aí animando outros seres só ganhou algum destaque na filosofia porque foi encampada por Platão. Não dá para discutir aqui os motivos que o levaram a aceitar essa tese (há até quem debata se aceitou mesmo), mas vale registrar que ela resolve um problema e cria uma infinidade de outros.
A grande vantagem é que ela permite postular um mundo mais estável, no qual o número de almas teria sido estabelecido no início dos tempos. Assim fica mais fácil extrair um propósito para as coisas. Uma das dificuldades para as doutrinas religiosas que não aceitam a reencarnação é encontrar um sentido para a morte de bebês e embriões, por exemplo. Por que diabos Deus criaria uma alma e a destruiria logo em seguida?
As complicações da metempsicose não são, entretanto, menores. A mais óbvia é empírica. Se todas as almas já existem desde sempre, como chegamos a 7 bilhões de seres humanos? Onde estavam todos antes?
Talvez mais grave seja o fato de que, para funcionar, a doutrina da reencarnação depende do esquecimento das vidas passadas. Ora, hoje podemos afirmar com alguma segurança que é a memória que constitui a identidade de um indivíduo. Sem ela não sobra muita coisa, como o atestam as demências severas.
E tudo fica mais complicado se trouxermos outros achados recentes para a discussão, como as evidências de que a própria consciência é resultado de múltiplas sensações corporais ligadas em paralelo. Será que ainda resta um lugar para a alma? Suspeito que não.
Reformas garantidas - JOÃO UBALDO RIBEIRO
O ESTADÃO - 08/09
Enquanto somente os governados pobres iam para as penitenciárias, tudo bem que fossem pocilgas infectas. Mas, agora que eles podem ser presos, convém prevenir e melhorar logo as penitenciárias
Nossa memória é fraca e nossa atenção é convocada o tempo todo por um volume de informações e solicitações incalculável e cada vez maior. Cumpre-se a conhecida previsão de Andy Warhol, segundo a qual, no futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos. O futuro a que ele se referiu já chegou e a profecia pode ser complementada pela constatação de que novos famosos instantâneos pipocam a cada dia e outros tantos submergem no esquecimento, o prazo de validade vence rápido. Portanto, não é impossível que já exista quem já não recorde direito o episódio do deputado presidiário, apesar de sua divulgação maciça. Mas, ainda que atrasado, pretendo falar no assunto.
Alguns outros acontecimentos deixam os dedos coçando para escrever um comentário. Teve o apagão e o curioso resultado que ele costuma gerar no Brasil, ou seja, uma alta figura do governo, em conversa com a imprensa depois de qualquer apagão, elogia copiosamente nosso sistema de energia elétrica e o equipara aos de Nova York, Copenhague ou Tóquio. Novos apagões, novos elogios, é uma rotina que daqui a pouco se tornará tradição venerável e chegaremos ao dia em que, acendendo velas no meio da noite, não reclamaremos, por sabermos que, escuridão ou não, temos um dos melhores sistemas do mundo, o homem disse.
Ocorreu-me também o caso do senador boliviano. É claro e inequívoco que o diplomata Eduardo Saboia agiu da forma imposta por princípios e valores universais e humanistas, com os quais o governo alega da boca para fora comungar e usa os pesos e medidas que lhe convêm em cada caso. Não sei se a comparação é inteiramente válida, mas, do ponto de vista de um observador neutro, o tratamento dispensado àquele presidente deposto da Nicarágua é grotescamente oposto ao recebido pelo senador, em nossa embaixada na Bolívia. Lembro o nicaraguense, de chapéu de caubói e riso ancho, despachando e quase numa festa, em nossa embaixada em Manágua. Os princípios e valores por trás do gesto do diplomata sempre foram superiores até mesmo à lei escrita. Para os juízes dos criminosos nazistas, não colou — e não devia mesmo colar — a desculpa de que estes obedeciam a ordens, ou cumpriam o que as leis determinavam. É claro que Eduardo Saboia agiu como um homem de coragem, brio e retidão moral, arriscando sua carreira, mas não, em última análise, sua honra. Isso, porém, junto a nosso governo, tem efeito contrário ao que devia ter, assim como, sem querer fazer inteira comparação, acontecia durante o Terceiro Reich. E dá lenha para a fogueira para quem acha que, no Brasil, quem obedece a princípios é otário e vai dar-se mal, pois aqui não medram princípios, a não ser os que interessam ao poder.
E mais coisas se oferecem, como a descoberta — da pólvora, mas todo mundo finge que não — de que os serviços de inteligência americanos espionaram e com certeza continuam a espionar governo e gente importante de todas as áreas de atividade no Brasil, até mesmo a presidente. Imagino que, na visita dela à Casa Branca, na hora da conversinha preliminar informal, ainda diante dos fotógrafos, o presidente Obama, cortesmente, iniciará o papo.
— É uma viagem muito longa — dirá ele. — Espero que a senhora tenha se recuperado bem do cansaço da viagem.
— Sem dúvida — dirá ela. — Eu dormi cedo.
— Eu sei — dirá ele e logo, notando o fora, levará a mão à boca. — Oops!
Bem, acaba não sobrando muito espaço para o deputado. Ele diz que é inocente, mas quem já conversou com presidiários sabe que quase todos são inocentes. E ele foi condenado em última instância, oficialmente é criminoso. Mas ele e os encapuzados morais da Câmara de Deputados, que votam escondido porque têm o que esconder, vão acabar nos legando pelo menos uma reforma, das inúmeras de que precisamos e ninguém faz. Duas reformas, aliás, pelo menos. Uma delas eu saquei logo pela fala dele. Ele se queixou da qualidade da comida, de tomar banho de água fria e assim por diante. Essa, com certeza, é a sementinha que vai levar à urgente reforma penitenciária de que precisamos. O conforto nos chamados estabelecimentos prisionais assume prioridade, porque vários deputados, num contexto mais decente, estariam há muito em cana e — quem sabe do incerto futuro? — poderão um dia ir, já há precedente. Como eles são invariavelmente muito sensíveis a seus próprios interesses, agora essa reforma penitenciária sai. Enquanto somente os governados pobres iam para as penitenciárias, tudo bem que fossem pocilgas infectas. Mas, agora que eles podem ser presos, convém prevenir e melhorar logo as penitenciárias, esse negócio de água fria é um absurdo. Uma das queixas do deputado presidiário foi a de que estava sendo tratado como um preso comum. Que é que ele é, senão um preso comum? Por aí se vê como eles acham que são uma categoria à parte e devem ser privilegiados.
A segunda reforma não tem tanta urgência, mas vai logo prosperar. Será elaborado e aprovado o Código Penal do Parlamentar. Já é hora de os parlamentares contarem com sua própria justiça. O mais importante é a definição das penas específicas para eles. Inspirados no que acontece com ministros e outros figurões que são pilhados em conduta imprópria ou ilegal, as penas estabelecidas poderão começar com o já popular puxão de orelhas metafórico. Várias outras opções certamente serão consideradas, tais como ficar até dois meses sem sobremesa, gravar um vídeo para a televisão em que fala “foi mal”, e escrever cem vezes, com boa letra e sem borrões, “Estou envergonhado e não roubo mais”. Ninguém poderá queixar-se de que eles não fazem reformas.
Enquanto somente os governados pobres iam para as penitenciárias, tudo bem que fossem pocilgas infectas. Mas, agora que eles podem ser presos, convém prevenir e melhorar logo as penitenciárias
Nossa memória é fraca e nossa atenção é convocada o tempo todo por um volume de informações e solicitações incalculável e cada vez maior. Cumpre-se a conhecida previsão de Andy Warhol, segundo a qual, no futuro, todo mundo será famoso por quinze minutos. O futuro a que ele se referiu já chegou e a profecia pode ser complementada pela constatação de que novos famosos instantâneos pipocam a cada dia e outros tantos submergem no esquecimento, o prazo de validade vence rápido. Portanto, não é impossível que já exista quem já não recorde direito o episódio do deputado presidiário, apesar de sua divulgação maciça. Mas, ainda que atrasado, pretendo falar no assunto.
Alguns outros acontecimentos deixam os dedos coçando para escrever um comentário. Teve o apagão e o curioso resultado que ele costuma gerar no Brasil, ou seja, uma alta figura do governo, em conversa com a imprensa depois de qualquer apagão, elogia copiosamente nosso sistema de energia elétrica e o equipara aos de Nova York, Copenhague ou Tóquio. Novos apagões, novos elogios, é uma rotina que daqui a pouco se tornará tradição venerável e chegaremos ao dia em que, acendendo velas no meio da noite, não reclamaremos, por sabermos que, escuridão ou não, temos um dos melhores sistemas do mundo, o homem disse.
Ocorreu-me também o caso do senador boliviano. É claro e inequívoco que o diplomata Eduardo Saboia agiu da forma imposta por princípios e valores universais e humanistas, com os quais o governo alega da boca para fora comungar e usa os pesos e medidas que lhe convêm em cada caso. Não sei se a comparação é inteiramente válida, mas, do ponto de vista de um observador neutro, o tratamento dispensado àquele presidente deposto da Nicarágua é grotescamente oposto ao recebido pelo senador, em nossa embaixada na Bolívia. Lembro o nicaraguense, de chapéu de caubói e riso ancho, despachando e quase numa festa, em nossa embaixada em Manágua. Os princípios e valores por trás do gesto do diplomata sempre foram superiores até mesmo à lei escrita. Para os juízes dos criminosos nazistas, não colou — e não devia mesmo colar — a desculpa de que estes obedeciam a ordens, ou cumpriam o que as leis determinavam. É claro que Eduardo Saboia agiu como um homem de coragem, brio e retidão moral, arriscando sua carreira, mas não, em última análise, sua honra. Isso, porém, junto a nosso governo, tem efeito contrário ao que devia ter, assim como, sem querer fazer inteira comparação, acontecia durante o Terceiro Reich. E dá lenha para a fogueira para quem acha que, no Brasil, quem obedece a princípios é otário e vai dar-se mal, pois aqui não medram princípios, a não ser os que interessam ao poder.
E mais coisas se oferecem, como a descoberta — da pólvora, mas todo mundo finge que não — de que os serviços de inteligência americanos espionaram e com certeza continuam a espionar governo e gente importante de todas as áreas de atividade no Brasil, até mesmo a presidente. Imagino que, na visita dela à Casa Branca, na hora da conversinha preliminar informal, ainda diante dos fotógrafos, o presidente Obama, cortesmente, iniciará o papo.
— É uma viagem muito longa — dirá ele. — Espero que a senhora tenha se recuperado bem do cansaço da viagem.
— Sem dúvida — dirá ela. — Eu dormi cedo.
— Eu sei — dirá ele e logo, notando o fora, levará a mão à boca. — Oops!
Bem, acaba não sobrando muito espaço para o deputado. Ele diz que é inocente, mas quem já conversou com presidiários sabe que quase todos são inocentes. E ele foi condenado em última instância, oficialmente é criminoso. Mas ele e os encapuzados morais da Câmara de Deputados, que votam escondido porque têm o que esconder, vão acabar nos legando pelo menos uma reforma, das inúmeras de que precisamos e ninguém faz. Duas reformas, aliás, pelo menos. Uma delas eu saquei logo pela fala dele. Ele se queixou da qualidade da comida, de tomar banho de água fria e assim por diante. Essa, com certeza, é a sementinha que vai levar à urgente reforma penitenciária de que precisamos. O conforto nos chamados estabelecimentos prisionais assume prioridade, porque vários deputados, num contexto mais decente, estariam há muito em cana e — quem sabe do incerto futuro? — poderão um dia ir, já há precedente. Como eles são invariavelmente muito sensíveis a seus próprios interesses, agora essa reforma penitenciária sai. Enquanto somente os governados pobres iam para as penitenciárias, tudo bem que fossem pocilgas infectas. Mas, agora que eles podem ser presos, convém prevenir e melhorar logo as penitenciárias, esse negócio de água fria é um absurdo. Uma das queixas do deputado presidiário foi a de que estava sendo tratado como um preso comum. Que é que ele é, senão um preso comum? Por aí se vê como eles acham que são uma categoria à parte e devem ser privilegiados.
A segunda reforma não tem tanta urgência, mas vai logo prosperar. Será elaborado e aprovado o Código Penal do Parlamentar. Já é hora de os parlamentares contarem com sua própria justiça. O mais importante é a definição das penas específicas para eles. Inspirados no que acontece com ministros e outros figurões que são pilhados em conduta imprópria ou ilegal, as penas estabelecidas poderão começar com o já popular puxão de orelhas metafórico. Várias outras opções certamente serão consideradas, tais como ficar até dois meses sem sobremesa, gravar um vídeo para a televisão em que fala “foi mal”, e escrever cem vezes, com boa letra e sem borrões, “Estou envergonhado e não roubo mais”. Ninguém poderá queixar-se de que eles não fazem reformas.
Um dia aventuroso - CAETANO VELOSO
O GLOBO - 08/09
Agora vejo aqui que eles puseram a foto na rede e logo alguém tuitou que sou oportunista e incito a violência. Não. Entendo que Black Bloc faz parte. Mas nem anticapitalista convicto eu sou. E quero paz.
Nossa carta pedia a atenção do secretário para a necessidade de um protocolo de ação da polícia durante as manifestações. Na conversa com ele, reiteramos a necessidade do esclarecimento do que ocorreu com Amarildo; quisemos entender por que a polícia, que atirara gás e balas de borracha na multidão que se aproximava da casa de Cabral na Praia do Leblon, sumiu quando poucas dezenas depredavam bancos e lojas na Ataulfo de Paiva; sugerimos o abandono do uso de balas de borracha; exigimos que pessoas imobilizadas não mais fossem vistas apanhando. O secretário é mais inteligente se tem tempo para desenvolver suas ideias do que parece ser nos poucos segundos em que o vemos na TV. E ele parece sincero. Mais do que tudo, expõe as enormes dificuldades que enfrentará quem tente fazer a polícia passar para um patamar diferente daquele em que está há séculos. As UPPs, grande trunfo do governo estadual, são obra sua. Todos os que foram falar-lhe reconhecem quão importante é o que elas esboçam. Dói em todos que elas estejam com o prestígio ameaçado. Uma profunda necessidade de Waismann nos havia levado ali. Ele precisa que as manifestações sejam pacíficas: descobriu que a violência não é arma eficaz. O 7 de Setembro vinha sendo anunciado como um dia de grandes demonstrações. Muito poderá ter se definido nesse dia.
Estou escrevendo ao chegar em casa, de volta, não da secretaria, mas do apê da turma da Mídia Ninja. É que Sidney queria falar com alguém que estivesse mais perto dos manifestantes. Saímos da Central, ele, Olga Bronstein, Yvonne Maggie e eu, de metrô, rumo à Zona Sul. Paramos no Largo do Machado, elas seguiram de táxi, e nós dois fomos comer sashimi. Sidney estava certo de que havia uma reunião da Mídia Ninja na UFRJ e me arrastou com ele. Chegamos ao enorme prédio da universidade e ninguém sabia nos dizer onde se dava a tal reunião. Numa portaria indicada, o porteiro fez umas ligações para descobrir. Daí apareceu uma moça, bonita e elegante em sua simplicidade, e nos disse que Carioca estava num apartamento ali em frente. Sidney ainda perguntou se a reunião era lá. Não era “a” reunião, mas eles estavam lá e queriam falar conosco. Andamos com ela. Carioca nos encontrou na faixa de travessia de pedestre. Muito doce, ele foi conversando até entrarmos no apê. Tudo muito limpo e alegre. Contava que um membro do Black Bloc tinha ido à reunião da véspera e que os aconselhara a não sair no dia 7. Eles, blocs, iam, mas os outros não deviam ir. Perguntei se isso seria uma ameaça. Não parecia, ele disse. Contava mais para mostrar como os discursos dos manifestantes têm sido variados. Repetia sempre a palavra querida dos Fora do Eixo: “narrativa”. Mas a conversa dele era boa. Ele explicava o sentido de certos atos violentos, mas entendia os argumentos de Sidney. Um outro rapaz e uma outra moça estavam na sala quando chegamos. Já no meio do papo chegou uma terceira. Só a menina que nos levou até eles não é moradora. Nem mesmo ninja. Ela é da Maré e vive em Parada de Lucas. Diz que prefere ação a palavras. Mas fala muito bem. Desiludiu-se com as UPPs, nas quais tinha posto fé no início. Mas conta que o pai, morador da Maré, é defensor da inovação de Beltrame. Essa conversa foi muito reveladora da alma do Rio neste momento. Antes disso, os ninjas me pediram para gravar uma fala sobre a proibição do uso de máscaras. Eu sou apenas um velho baiano mas moro aqui há muitos anos e acho que proibir máscaras numa cidade como o Rio é violência simbólica. E sugeri que no dia 7 todos saíssem com máscaras, respondendo com beleza e sem violência. Daí eles me pediram para posar com uma camiseta preta atada ao rosto para eles mostrarem a Emma, que, segundo eles, gostou do meu texto sobre ela. Agora vejo aqui que eles puseram a foto na rede e logo alguém tuitou que sou oportunista e incito a violência. Não. Entendo que Black Bloc faz parte. Mas nem anticapitalista convicto eu sou. E quero paz.
Agora vejo aqui que eles puseram a foto na rede e logo alguém tuitou que sou oportunista e incito a violência. Não. Entendo que Black Bloc faz parte. Mas nem anticapitalista convicto eu sou. E quero paz.
Nossa carta pedia a atenção do secretário para a necessidade de um protocolo de ação da polícia durante as manifestações. Na conversa com ele, reiteramos a necessidade do esclarecimento do que ocorreu com Amarildo; quisemos entender por que a polícia, que atirara gás e balas de borracha na multidão que se aproximava da casa de Cabral na Praia do Leblon, sumiu quando poucas dezenas depredavam bancos e lojas na Ataulfo de Paiva; sugerimos o abandono do uso de balas de borracha; exigimos que pessoas imobilizadas não mais fossem vistas apanhando. O secretário é mais inteligente se tem tempo para desenvolver suas ideias do que parece ser nos poucos segundos em que o vemos na TV. E ele parece sincero. Mais do que tudo, expõe as enormes dificuldades que enfrentará quem tente fazer a polícia passar para um patamar diferente daquele em que está há séculos. As UPPs, grande trunfo do governo estadual, são obra sua. Todos os que foram falar-lhe reconhecem quão importante é o que elas esboçam. Dói em todos que elas estejam com o prestígio ameaçado. Uma profunda necessidade de Waismann nos havia levado ali. Ele precisa que as manifestações sejam pacíficas: descobriu que a violência não é arma eficaz. O 7 de Setembro vinha sendo anunciado como um dia de grandes demonstrações. Muito poderá ter se definido nesse dia.
Estou escrevendo ao chegar em casa, de volta, não da secretaria, mas do apê da turma da Mídia Ninja. É que Sidney queria falar com alguém que estivesse mais perto dos manifestantes. Saímos da Central, ele, Olga Bronstein, Yvonne Maggie e eu, de metrô, rumo à Zona Sul. Paramos no Largo do Machado, elas seguiram de táxi, e nós dois fomos comer sashimi. Sidney estava certo de que havia uma reunião da Mídia Ninja na UFRJ e me arrastou com ele. Chegamos ao enorme prédio da universidade e ninguém sabia nos dizer onde se dava a tal reunião. Numa portaria indicada, o porteiro fez umas ligações para descobrir. Daí apareceu uma moça, bonita e elegante em sua simplicidade, e nos disse que Carioca estava num apartamento ali em frente. Sidney ainda perguntou se a reunião era lá. Não era “a” reunião, mas eles estavam lá e queriam falar conosco. Andamos com ela. Carioca nos encontrou na faixa de travessia de pedestre. Muito doce, ele foi conversando até entrarmos no apê. Tudo muito limpo e alegre. Contava que um membro do Black Bloc tinha ido à reunião da véspera e que os aconselhara a não sair no dia 7. Eles, blocs, iam, mas os outros não deviam ir. Perguntei se isso seria uma ameaça. Não parecia, ele disse. Contava mais para mostrar como os discursos dos manifestantes têm sido variados. Repetia sempre a palavra querida dos Fora do Eixo: “narrativa”. Mas a conversa dele era boa. Ele explicava o sentido de certos atos violentos, mas entendia os argumentos de Sidney. Um outro rapaz e uma outra moça estavam na sala quando chegamos. Já no meio do papo chegou uma terceira. Só a menina que nos levou até eles não é moradora. Nem mesmo ninja. Ela é da Maré e vive em Parada de Lucas. Diz que prefere ação a palavras. Mas fala muito bem. Desiludiu-se com as UPPs, nas quais tinha posto fé no início. Mas conta que o pai, morador da Maré, é defensor da inovação de Beltrame. Essa conversa foi muito reveladora da alma do Rio neste momento. Antes disso, os ninjas me pediram para gravar uma fala sobre a proibição do uso de máscaras. Eu sou apenas um velho baiano mas moro aqui há muitos anos e acho que proibir máscaras numa cidade como o Rio é violência simbólica. E sugeri que no dia 7 todos saíssem com máscaras, respondendo com beleza e sem violência. Daí eles me pediram para posar com uma camiseta preta atada ao rosto para eles mostrarem a Emma, que, segundo eles, gostou do meu texto sobre ela. Agora vejo aqui que eles puseram a foto na rede e logo alguém tuitou que sou oportunista e incito a violência. Não. Entendo que Black Bloc faz parte. Mas nem anticapitalista convicto eu sou. E quero paz.
Dna político - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 09/08
Eleitor de Lula e Dilma, Ratinho dá espaço a adversários da dupla e diz que não sabe ainda em quem votará em 2014; após colocar autoridades no espaço antes destinado a bizarrices, elogia a Globo por ficar "brega" para ter mais audiência
Ratinho leva Eduardo Campos (PSB-PE) até a saída do estúdio do seu programa no SBT, após entrevistar o governador de Pernambuco, e volta ao camarim. Prepara-se para retornar ao palco e mediar a briga dos participantes de mais um Teste de DNA.
"Ele [Campos] é uma novidade boa. É um cara de decisão, já provou ser bom administrador. Está pronto para ser presidente. O Aécio [Neves] também", diz. Sua atração noturna, antes território exclusivo de anônimos e artistas populares, passou a abrir espaço para personalidades públicas e figuras polêmicas, no quadro semanal Dois Dedos de Prosa --ou "Dois Dedos de Próstata", como brinca com a equipe.
"Trago alguém que tem alguma coisa para falar. É para dar audiência e atrair um público que não está habituado ao programa", diz Ratinho ao repórter Joelmir Tavares.
Em meio a debates sobre homofobia, recebeu os deputados Marco Feliciano (PSC-SP) e Jean Wyllys (PCdoB-RJ) e o pastor Silas Malafaia. E não escolhe partido: convida do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) aos ministros Alexandre Padilha (PT-SP) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
Os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB-MG) e Marina Silva (sem partido) também ficaram de frente com Carlos Massa. "Meu programa tem a obrigação de politiquizar... poli... Não consigo falar essa palavra [a assessora o ajuda]. Politizar melhor a população. Não tem só a Dilma [Rousseff] de candidata."
Ratinho, que foi vereador no Paraná e deputado federal antes de estrear na TV, em 1996, tem ligação umbilical com a política. Seu filho mais velho, Ratinho Júnior (PSC-PR), segundo colocado na disputa pela Prefeitura de Curitiba em 2012 e secretário de Beto Richa (PSDB-PR), aparece bem nas pesquisas para o governo estadual em 2014.
"Ele não é candidato", sentencia o pai. "Sou eu que pago as contas. E não vou dar dinheiro nem vou me envolver em campanha para governador. Tenho meus negócios para cuidar." Mas confirma que o herdeiro tentará ser deputado estadual ou federal. Se a popularidade paterna ajuda? "Sou polêmico. Metade gosta, metade odeia."
Ratinho é daqueles que amam o ex-presidente Lula, de quem se diz amigo. "Meu assunto com ele é falar de bobagem, de pescaria, de futebol. Não toco em política."
Acredita ter isenção para entrevistar qualquer pessoa. "Não misturo as coisas." Defende rotatividade no poder. "Não sou esquerda nem direita. O PT já ficou dez anos. Pode até ganhar de novo. Mas sou contra essa ideia de que está todo mundo do mesmo lado, sabe? Senão temos o risco de virar uma Venezuela."
A participação de Lula e Fernando Haddad (PT-SP) no programa, a quatro meses do primeiro turno em 2012, rendeu multa de R$ 10 mil da Justiça Eleitoral, por propaganda antecipada. "Paguei. O Lula era meu convidado e me avisou dois dias antes: Posso levar o Haddad?'. Como é que eu digo: Não, não pode'? Na minha cabeça, não teria problema. Agora sei que não pode falar que é candidato."
Declara-se eleitor de Lula e Dilma, mas ainda não sabe em quem votar em 2014. Considera o julgamento do mensalão "correto" e diz que o Bolsa Família "já dá ao candidato do PT 40 milhões de votos, do povo pobre". Descarta retornar à política. "Sou um bom apresentador. Mas fui um deputado medíocre. Se voltasse, seria um ditador. Ia brigar com metade do Brasil."
Aos 57 anos ("parece 40, né?"), Ratinho oscila entre o segundo e o terceiro lugar em audiência, com média de 7 pontos e picos de 10.
No SBT, é sócio da atração. Gastos com produção e lucros com merchandising são divididos com Silvio Santos ("a melhor pessoa que tem no mundo"). Não revelam valores do contrato, que vai até 2015. Amanhã o canal fará programa especial para festejar 15 anos de Ratinho na casa. Ele, que ficou "chateado" por passar oito meses fora do ar, em 2006, hoje está feliz.
O mesmo Carlos Massa que mexe os braços, fala alto e pontua frases com palavrões no camarim é o Ratinho que entra no palco e faz as 130 pessoas da plateia bater palmas e cantar. "O programa é um circo." Divide a cena com pelo menos dez humoristas --um deles, Marquito, virou vereador em São Paulo, pelo PTB, com 22 mil votos.
O programa, famoso por explorar barracos e bizarrices, agora tem quadros de comédia, concursos de talentos e jogos. "Meu público hoje é bem inteligente." Aposentou o cassetete, mas não se arrepende do sensacionalismo. "Quem tem que dar cultura não é a TV, porra. É a escola!"
Ele mantém o Teste de DNA --que é gravado para corte de palavrões e pancadaria entre participantes interessados em esclarecer casos de paternidade-- porque ainda não encontrou "outra coisa que dê tanta audiência". Ratinho intervém em momentos tensos. Um segurança já saiu da gravação com a orelha vermelha, após separar uma briga.
Em sua defesa, o apresentador diz que os advogados do quadro ajudam as famílias. "Quando o camarada chega aqui, já brigou com todo mundo." As noites de quarta são de encontros musicais. "Coloca aí: a Regina Casé me copiou", ri, citando o dominical "Esquenta!", da Globo. Diz que o canal concorrente acertou ao "bregar" em busca de audiência das classes C e D.
No camarim com imagens de Nossa Senhora, o animador diz que é cedo para fazer cirurgia plástica. "Não sou vaidoso. Só passo uma tintinha no cabelo e no bigode. Já fiz um negócio de laser lá para tirar a papada."
É dono de cinco afiliadas do SBT no Paraná, rádios, fazenda e hotel. "Poderia fazer como o Faustão: pegar o dinheiro, pôr no banco e tocar a vida. Mas faço como o Silvio. Dou empregos, tento crescer. Não é só usufruir no Brasil, mas aplicar nele também."
Tem um avião para ir a Curitiba, onde a família mora, embora afirme levar uma vida simples. "Saí da pobreza, mas ela não saiu de mim." Ao mesmo tempo que diz não ter nascido para o luxo, ele sabe como quer morrer. "Na TV. Fazendo palhaçada."
Eleitor de Lula e Dilma, Ratinho dá espaço a adversários da dupla e diz que não sabe ainda em quem votará em 2014; após colocar autoridades no espaço antes destinado a bizarrices, elogia a Globo por ficar "brega" para ter mais audiência
Ratinho leva Eduardo Campos (PSB-PE) até a saída do estúdio do seu programa no SBT, após entrevistar o governador de Pernambuco, e volta ao camarim. Prepara-se para retornar ao palco e mediar a briga dos participantes de mais um Teste de DNA.
"Ele [Campos] é uma novidade boa. É um cara de decisão, já provou ser bom administrador. Está pronto para ser presidente. O Aécio [Neves] também", diz. Sua atração noturna, antes território exclusivo de anônimos e artistas populares, passou a abrir espaço para personalidades públicas e figuras polêmicas, no quadro semanal Dois Dedos de Prosa --ou "Dois Dedos de Próstata", como brinca com a equipe.
"Trago alguém que tem alguma coisa para falar. É para dar audiência e atrair um público que não está habituado ao programa", diz Ratinho ao repórter Joelmir Tavares.
Em meio a debates sobre homofobia, recebeu os deputados Marco Feliciano (PSC-SP) e Jean Wyllys (PCdoB-RJ) e o pastor Silas Malafaia. E não escolhe partido: convida do governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) aos ministros Alexandre Padilha (PT-SP) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP).
Os presidenciáveis Aécio Neves (PSDB-MG) e Marina Silva (sem partido) também ficaram de frente com Carlos Massa. "Meu programa tem a obrigação de politiquizar... poli... Não consigo falar essa palavra [a assessora o ajuda]. Politizar melhor a população. Não tem só a Dilma [Rousseff] de candidata."
Ratinho, que foi vereador no Paraná e deputado federal antes de estrear na TV, em 1996, tem ligação umbilical com a política. Seu filho mais velho, Ratinho Júnior (PSC-PR), segundo colocado na disputa pela Prefeitura de Curitiba em 2012 e secretário de Beto Richa (PSDB-PR), aparece bem nas pesquisas para o governo estadual em 2014.
"Ele não é candidato", sentencia o pai. "Sou eu que pago as contas. E não vou dar dinheiro nem vou me envolver em campanha para governador. Tenho meus negócios para cuidar." Mas confirma que o herdeiro tentará ser deputado estadual ou federal. Se a popularidade paterna ajuda? "Sou polêmico. Metade gosta, metade odeia."
Ratinho é daqueles que amam o ex-presidente Lula, de quem se diz amigo. "Meu assunto com ele é falar de bobagem, de pescaria, de futebol. Não toco em política."
Acredita ter isenção para entrevistar qualquer pessoa. "Não misturo as coisas." Defende rotatividade no poder. "Não sou esquerda nem direita. O PT já ficou dez anos. Pode até ganhar de novo. Mas sou contra essa ideia de que está todo mundo do mesmo lado, sabe? Senão temos o risco de virar uma Venezuela."
A participação de Lula e Fernando Haddad (PT-SP) no programa, a quatro meses do primeiro turno em 2012, rendeu multa de R$ 10 mil da Justiça Eleitoral, por propaganda antecipada. "Paguei. O Lula era meu convidado e me avisou dois dias antes: Posso levar o Haddad?'. Como é que eu digo: Não, não pode'? Na minha cabeça, não teria problema. Agora sei que não pode falar que é candidato."
Declara-se eleitor de Lula e Dilma, mas ainda não sabe em quem votar em 2014. Considera o julgamento do mensalão "correto" e diz que o Bolsa Família "já dá ao candidato do PT 40 milhões de votos, do povo pobre". Descarta retornar à política. "Sou um bom apresentador. Mas fui um deputado medíocre. Se voltasse, seria um ditador. Ia brigar com metade do Brasil."
Aos 57 anos ("parece 40, né?"), Ratinho oscila entre o segundo e o terceiro lugar em audiência, com média de 7 pontos e picos de 10.
No SBT, é sócio da atração. Gastos com produção e lucros com merchandising são divididos com Silvio Santos ("a melhor pessoa que tem no mundo"). Não revelam valores do contrato, que vai até 2015. Amanhã o canal fará programa especial para festejar 15 anos de Ratinho na casa. Ele, que ficou "chateado" por passar oito meses fora do ar, em 2006, hoje está feliz.
O mesmo Carlos Massa que mexe os braços, fala alto e pontua frases com palavrões no camarim é o Ratinho que entra no palco e faz as 130 pessoas da plateia bater palmas e cantar. "O programa é um circo." Divide a cena com pelo menos dez humoristas --um deles, Marquito, virou vereador em São Paulo, pelo PTB, com 22 mil votos.
O programa, famoso por explorar barracos e bizarrices, agora tem quadros de comédia, concursos de talentos e jogos. "Meu público hoje é bem inteligente." Aposentou o cassetete, mas não se arrepende do sensacionalismo. "Quem tem que dar cultura não é a TV, porra. É a escola!"
Ele mantém o Teste de DNA --que é gravado para corte de palavrões e pancadaria entre participantes interessados em esclarecer casos de paternidade-- porque ainda não encontrou "outra coisa que dê tanta audiência". Ratinho intervém em momentos tensos. Um segurança já saiu da gravação com a orelha vermelha, após separar uma briga.
Em sua defesa, o apresentador diz que os advogados do quadro ajudam as famílias. "Quando o camarada chega aqui, já brigou com todo mundo." As noites de quarta são de encontros musicais. "Coloca aí: a Regina Casé me copiou", ri, citando o dominical "Esquenta!", da Globo. Diz que o canal concorrente acertou ao "bregar" em busca de audiência das classes C e D.
No camarim com imagens de Nossa Senhora, o animador diz que é cedo para fazer cirurgia plástica. "Não sou vaidoso. Só passo uma tintinha no cabelo e no bigode. Já fiz um negócio de laser lá para tirar a papada."
É dono de cinco afiliadas do SBT no Paraná, rádios, fazenda e hotel. "Poderia fazer como o Faustão: pegar o dinheiro, pôr no banco e tocar a vida. Mas faço como o Silvio. Dou empregos, tento crescer. Não é só usufruir no Brasil, mas aplicar nele também."
Tem um avião para ir a Curitiba, onde a família mora, embora afirme levar uma vida simples. "Saí da pobreza, mas ela não saiu de mim." Ao mesmo tempo que diz não ter nascido para o luxo, ele sabe como quer morrer. "Na TV. Fazendo palhaçada."
Uma nova CPMF? - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 08/09
A presidente Dilma e seus líderes debatem amanhã, no Planalto, o financiamento da Saúde. O governo é contra carimbar 10% da receita bruta do Orçamento para o setor, em análise no Senado. Mas quer mais dinheiro para a Saúde, mesmo alegando que não tem de onde tirar. O Executivo quer dividir o drama, esperando que os aliados tomem a iniciativa de sugerir uma nova CPMF.
O TCU verde
O Tribunal de Contas se prepara para ampliar seus poderes. O atual presidente, João Augusto Nardes, vai lançar um programa de fiscalização dos 107 parques nacionais e 140 estaduais nos estados da Amazônia Legal. O tribunaijá fez um mapa com 15 indicadores de qualidade e classifica os parques nas cores verde, amarelo e vermelho, nos casos de maior degradação. A ideia é pressionar governos estaduais, o Ibama e a pasta do Meio Ambiente para que ampliem suas ações na defesa da floresta. O tribunal pretende ainda avaliar a qualidade dos gastos e o resultado das ações de conservação e recuperação. “O nosso caminho é a especialização diz Nardes.
“Se chegarmos ao ano que vem divididos, como fizemos em 2002 e 2006, vamos perder de novo as eleições presidenciais”
José Anibal
Deputado federal (SP) e Secretário de Energia do governo Alckmin
O acordo
O vice Michel Temer fez a costura. O Senado aprova o texto do fim do voto secreto da Câmara, mas mantém só o item do voto aberto para cassações. A Câmara esquece o fim de todos os votos secretos e confirma a redação do Senado.
A senha
Dois fatos convenceram o presidente do PPS, deputado Roberto Freire ( SP), que o ex-governador José Serra não deve sair do PSDB. Serra disse não a convite para participar de reunião da direção do partido na última quinta-feira, em Vitória ( ES). Serra também se negou a ocupar inserções do PPS nos dias 14, 17, 19 e 24 deste mês.
Descompasso
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cobra agilidade da Câmara e reclama “de falta de reciprocidade nas votações’ O Senado aprovou 34 dos 36 projetos da “agenda positiva” pós manifestações de junho. Dessas, 20 estão paradas na Câmara. Renan afirmou que esta situação “desequilibra o bicameralismo” e “deteriora a relação entre as duas Casas’
Por que parou?
Entre os projetos parados na Câmara estão o que torna corrupção crime hediondo; o que proíbe cônjuge ou parente de ser suplente de senador; e o que reduz o número de assinaturas para apresentação de projetos de iniciativa popular.
Administrando as divergências
A direção do PSB não quer expulsar o governador Cid Gomes e o ex-ministro Ciro Gomes por causa do apoio à presidente Duma Rousseff. O partido pretende contemporizar pelo crescimento da sigla e buscará “conviver com o fogo amigo’
O desembarque
A candidatura do governador Eduardo Campos (PE) à Presidência é considerada líquida e certa no PSB. Mas o partido não vai desembarcar agora do governo Dilma. Os seus ministros estão orientados para sair em março do ano que vem.
BATENDO BUMBO. A presidente Dilma fará evento no Planalto, segunda-feira, para sancionar os 50% dos royalties do pré-sal para Educação e Saúde.
A presidente Dilma e seus líderes debatem amanhã, no Planalto, o financiamento da Saúde. O governo é contra carimbar 10% da receita bruta do Orçamento para o setor, em análise no Senado. Mas quer mais dinheiro para a Saúde, mesmo alegando que não tem de onde tirar. O Executivo quer dividir o drama, esperando que os aliados tomem a iniciativa de sugerir uma nova CPMF.
O TCU verde
O Tribunal de Contas se prepara para ampliar seus poderes. O atual presidente, João Augusto Nardes, vai lançar um programa de fiscalização dos 107 parques nacionais e 140 estaduais nos estados da Amazônia Legal. O tribunaijá fez um mapa com 15 indicadores de qualidade e classifica os parques nas cores verde, amarelo e vermelho, nos casos de maior degradação. A ideia é pressionar governos estaduais, o Ibama e a pasta do Meio Ambiente para que ampliem suas ações na defesa da floresta. O tribunal pretende ainda avaliar a qualidade dos gastos e o resultado das ações de conservação e recuperação. “O nosso caminho é a especialização diz Nardes.
“Se chegarmos ao ano que vem divididos, como fizemos em 2002 e 2006, vamos perder de novo as eleições presidenciais”
José Anibal
Deputado federal (SP) e Secretário de Energia do governo Alckmin
O acordo
O vice Michel Temer fez a costura. O Senado aprova o texto do fim do voto secreto da Câmara, mas mantém só o item do voto aberto para cassações. A Câmara esquece o fim de todos os votos secretos e confirma a redação do Senado.
A senha
Dois fatos convenceram o presidente do PPS, deputado Roberto Freire ( SP), que o ex-governador José Serra não deve sair do PSDB. Serra disse não a convite para participar de reunião da direção do partido na última quinta-feira, em Vitória ( ES). Serra também se negou a ocupar inserções do PPS nos dias 14, 17, 19 e 24 deste mês.
Descompasso
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), cobra agilidade da Câmara e reclama “de falta de reciprocidade nas votações’ O Senado aprovou 34 dos 36 projetos da “agenda positiva” pós manifestações de junho. Dessas, 20 estão paradas na Câmara. Renan afirmou que esta situação “desequilibra o bicameralismo” e “deteriora a relação entre as duas Casas’
Por que parou?
Entre os projetos parados na Câmara estão o que torna corrupção crime hediondo; o que proíbe cônjuge ou parente de ser suplente de senador; e o que reduz o número de assinaturas para apresentação de projetos de iniciativa popular.
Administrando as divergências
A direção do PSB não quer expulsar o governador Cid Gomes e o ex-ministro Ciro Gomes por causa do apoio à presidente Duma Rousseff. O partido pretende contemporizar pelo crescimento da sigla e buscará “conviver com o fogo amigo’
O desembarque
A candidatura do governador Eduardo Campos (PE) à Presidência é considerada líquida e certa no PSB. Mas o partido não vai desembarcar agora do governo Dilma. Os seus ministros estão orientados para sair em março do ano que vem.
BATENDO BUMBO. A presidente Dilma fará evento no Planalto, segunda-feira, para sancionar os 50% dos royalties do pré-sal para Educação e Saúde.
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