segunda-feira, janeiro 07, 2013

Chavismo, Lulismo e El Cid - JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO


O Estado de S. Paulo - 07/01


Eles foram populistas popu­lares na mesma época e, de tanto poder, intitularam livros que juntaram um "ismo" ao final de seus nomes. O sufi­xo implica um líder acima dos parti­dos, conduzindo multidões anos a fio. Ambos lideraram movimentos populares, mas quão duradouros? Por vias diversas, os legados de Hu­go Chávez e Luiz Inácio Lula da Sil­va estão à prova.

Nem todo governante que des­fruta de popularidade em algum momento do mandato acaba subs­tantivo. A "Era FHC" virou título de livro sem que houvesse um "fernandohenriquismo". A herança do tucano foi estruturante para o Bra­sil, mas impessoal. Crismando Aécio Neves, o ex-presidente tenta reescrever seu testamento.

O personalismo é um divisor entre presidentes. Chávez levou a mitificação ao limite. O congênere brasileiro ficou a meio termo. Lula adotou a conti­nuidade sem continuísmo. Já o venezuelano apostou que nunca viria a faltar.

Afora o simbolismo, o tratamento em Cuba oferece mais do que qualidade mé­dica. Garante sigilo e provoca boatos contraditórios sobre a saúde de Chá- vez. A opacidade serve ao modelo cubano-chavista. Se houvesse transparên­cia, seria mais difícil sustentar a versão de que o presidente reeleito pode ter sua posse adiada por não se configurar a "ausência permanente" que - manda a Constituição da Venezuela - provoca­ria nova eleição.

No Twitter, venezuelanos compa­ram a situação do "chavismo" à dos castelhanos que criaram o mito de El Cid. Pela lenda, o corpo sem vida do cavaleiro símbolo da reconquista ibérica foi assentado em sua montaria para parecer imortal e afugentar os ini­migos. A metáfora é tentadora, embo­ra precipitada. No Brasil, a prática de congelar presidentes está, felizmen­te, superada.

Antes de Lula, só o "getulismo" du­rou além de Vargas, após se espalhar de sul a norte. Seus fiéis trataram de cumprir a profecia do líder de que, ao deixar a vida, ele entraria na história. Os demais caciques ficaram limitados no espaço - como as tribos de carlistas, malufistas e brizolistas - ou no tempo: o "janismo" não sobreviveu a seu inspirador.

Os "ismos" colam bem em espanhol. A Argentina saiu do "peronismo" para cair no "kirchnerismo". Em ambos os casos,a popularidade do marido foi her­dada pela viúva. No Brasil, a transição pela via feminina se deu em vida. Mas o sucesso inicial não responde à questão de sempre: por quanto tempo?

Chávez não deixa uma, mas dezenas de herdeiros, de concepções diferen­tes. Eles propagandeiam união, só por conveniência da possível eleição que se avizinha. Mesmo que ganhem, o que será um governo "chavista" sem Chávez? Prevalecerá o militarismo na­cionalista dos ex-oficiais do Exército tornados políticos? Ou o socialismo pró-Cuba do vice-presidente e supos­to sucessor?

As contradições são mais do que apa­rentes. Enquanto o presidente da As- sembleia Nacional, Diosdado Cabello, passa o rolo compressor na oposição parlamentar e imita os arroubos de Chá­vez ("Estamos prontos para o debate, mas não paraa negociação"), seu rival, o vice Nicolás Maduro, conversa discreta­mente com os EUA para restabelecer relações diplomáticas plenas.

O "chavismo" ainda precisa passar pelo teste das urnas sem o nome de Chávez entre os candidatos. O "lulismo" passou. Mais do que isso, incorpo­rou milhões de eleitores pobres ao petismo ao longo da última década. Numericamente, o legado de Lula su­perou o que o PT perdeu por causa do mensalão.

Segundo o Ibope, o PT saiu de 8% da preferência nacional em julho de 1989 para 33% em março de 2010. A trajetória de crescimento teve altos, associados às vitórias eleitorais de Lula (33% em março de 2003 e 2010), e baixos, durante a denúncia e julgamento do mensalão (24% em junho de 2005 e outubro de 2012). No caminho, mudou o perfil socioeconômico dos petistas. A nova clas­se média tomou espaço da elite sindical-universitária.

A mágica que popularizou o PT foi o aumento de renda e crédito que in­cluiu dezenas de milhões de neoconsumidores ao mercado nacional. O PSDB finalmente se deu conta de que não há como fazer oposição sem con­frontar o petismo na economia. Daí conduzir o debate para os baixos índi­ces de crescimento do PIB em detri­mento, por exemplo, da queda das taxas de desemprego.

No Brasil e na Venezuela, a bata­lha é pela opinião pública. A diferen­ça é que Dilma Rousseff cavalga ao lado do padrinho vivo, enquanto os herdeiros de Chávez manobram à sombra de El Cid.

A reforma do Poder Legislativo - EVERARDO MACIEL


O Estado de S.Paulo - 07/01



Impressiona muito o contraste na atitude assumida, no final de ano, pelos congressistas norte-americanos e os brasileiros.

Lá, os parlamentares se dispuseram a trabalhar, ininterruptamente, no mês de dezembro, inclusive no dia 31, e em 1.º de janeiro para encontrar uma saída para o que foi chamado de abismo fiscal (fiscal cliff), cuja consumação, a partir de janeiro, teria repercussões severas sobre o nível da atividade econômica mundial.

Ainda que não se tenha logrado uma solução definitiva para a complexa combinação de corte de gastos e de impostos, o episódio valoriza a capacidade de negociação entre o Executivo e o Legislativo daquele país, sob a égide do consagrado princípio da harmonia e independência dos poderes.

Aqui, depois do prolongado recesso oficioso decorrente das eleições municipais, os senadores e deputados optaram por desfrutar das tradicionais férias de fim de ano, que se prolongam até o início de fevereiro, sem que deliberassem, dentre inúmeras matérias relevantes, sobre o Orçamento para 2013 e os critérios de rateio do Fundo de Participação dos Estados (FPE) declarados inconstitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (STF) - malgrado todos saberem que os recursos desse fundo constituem fonte indispensável para financiamento dos gastos da esmagadora maioria dos Estados.

O que houve com o Congresso Nacional? Decidiu abdicar do exercício de suas funções constitucionais?

Mesmo em épocas difíceis, como no segundo governo de Getúlio Vargas e nos governos militares pós-64, o Congresso jamais renunciou às suas responsabilidades. Ainda que desfalcado pela cassação de ilustres membros, novas gerações de parlamentares mantiveram o legado de combatividade, exercendo honradamente a atividade política na sua expressão mais nobre.

Paradoxalmente, a abertura democrática, que sucedeu os governos militares, e a Constituição de 1988 concorreram, francamente, para o enfraquecimento da atividade parlamentar.

Em 1985, as novas bases de apoio governamental promoveram uma assustadora fúria fisiológica, privilegiando-se a filiação partidária em detrimento da habilitação técnica. Perdeu-se a compostura. A cobiça atingiu limites escandalosos, levando à criação de tantos cargos quantos fossem necessários para saciar a sede fisiológica.

A Constituição de 1988 introduziu institutos concebidos para uma pretensão de governo parlamentarista. Prevalecendo a tese presidencialista, esses mesmos institutos se converteram em armas contra o próprio Parlamento, a exemplo das medidas provisórias com força de lei.

O mais grave é que, com o passar do tempo, elas aumentaram sua toxicidade política, sendo utilizadas para tudo, desde a alteração do Orçamento e das leis de diretrizes orçamentárias até a majoração de tributos, daí passando para verdadeiras colchas de retalho, recheadas pelos "contrabandos" dos projetos de lei de conversão.

O novo regime, introduzido pela Emenda Constitucional n.º 32, de 2001, estabelecendo o travamento das pautas legislativas até a votação das medidas provisórias editadas, infelizmente serviu apenas para paralisar de vez a atividade legislativa.

Até mesmo a exigência constitucional de prévio exame dos requisitos de relevância e urgência foi afastada por uma manobra regimental, repudiada recentemente pelo STF.

Consolidou-se, dessa forma, a transferência da capacidade de legislar para o Poder Executivo, que dispõe ainda do recurso ao veto, que pode fulminar as parcas proposições do Legislativo. Não bastasse a exigência de quórum qualificado para sua derrubada, na prática, só remotamente os vetos são apreciados.

É espantoso constatar que existem mais 3 mil vetos na fila há mais de 12 anos, a despeito de a Constituição prescrever prazo de 30 dias para sua apreciação pelo Congresso.

Tudo isso estimulou, também, a preguiça. O Congresso perdeu o gosto pela produção de leis, propiciando, inclusive, um crescente ativismo do Poder Judiciário para suprir a mora legislativa.

O poder de fiscalização do Congresso foi garroteado pelo boicote à convocação de autoridades e pela farsa das CPIs, apequenadas pela maior capacidade investigatória dos órgãos especializados e pelo silêncio dos investigados, com base em direito sufragado pela Constituição.

O que sobra para o Congresso? Elevar verbas de representação, indicar apaniguados para funções públicas, cumprir os formalismos para aprovação de indicados para os cargos de ministros de tribunais, embaixadores e diretores de agências e, por fim, fazer o jogo das emendas parlamentares - fonte inesgotável da corrupção política. Eventualmente, escutam-se protestos.

Os brasileiros cultivam grande apreço por reformas. Elas satisfazem o desejo de mudar e têm tamanha indeterminação que atendem a todas as vontades. A imprecisão do ânimo reformista não significa, contudo, negação dos problemas. A reforma política, por exemplo, deveria ultrapassar a dimensão eleitoral e incluir a reforma do Legislativo. Trata-se, entretanto, de tarefa difícil, pois requer o concurso de estadistas.

Ensaio geral - FABIO ZAMBELI - PAINEL


FOLHA DE SP - 07/01


Marina Silva usará a agenda das "cidades sustentáveis" para buscar, já em 2013, protagonismo no debate de temas polêmicos nas 20 capitais cujos prefeitos recém-empossados são signatários de carta-compromisso com práticas ambientalmente seguras. A ex-ministra diz a aliados que, enquanto constrói o alicerce doutrinário de sua nova sigla, pretende influenciar nas medidas que envolvam a qualidade do ar, a mobilidade urbana e a ordenação do uso do solo.

Frota... Em São Paulo, além do Plano Diretor, marineiros devem se debruçar de imediato sobre a flexibilização da inspeção veicular, anunciada por Fernando Haddad e alvo de críticas.

...verde Até auxiliares de Marina que atuaram na campanha petista questionam, em privado, as novas regras. Cobram a criação de uma câmara técnica que resguarde os ganhos já obtidos na capital quanto à emissão de poluentes por carros.

Calendário Embora não deseje assumir agora a pré-candidatura presidencial em 2014, Marina afirma a interlocutores que a coleta de adesões à nova legenda deve começar em fevereiro.

Recrutamento Apoiadores da ex-ministra recorrerão à internet, vista como decisiva na campanha de 2010, para mobilizar filiados. Não está descartada a hipótese de fusão com o PEN (Partido Ecológico Nacional), já avalizado pelo TSE.

Restos... Em franca aproximação com Haddad, Gilberto Kassab não se descolou totalmente de José Serra. O ex-prefeito angaria recursos para saldar a dívida de campanha do tucano, estimada em R$ 20 milhões.

... a pagar Depois da resistência inicial, o PSDB-SP assumiu a dívida da campanha de Serra em dezembro. Desde então, conseguiu quitar 20% das pendências.

Revanche Escanteado na composição do governo de Haddad, o PR abre, nessa semana, negociação com Geraldo Alckmin. Dirigentes estaduais da sigla de Valdemar da Costa Neto se reúnem com o núcleo político do governador para reivindicar espaço no Bandeirantes em troca de apoio em 2014.

Alta... O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) definiu que haverá subsídio para a migração completa do sinal de TV analógico para digital até 2016. Mas antes disso, o governo federal forçará a produção de televisores e celulares com o software de interatividade Ginga.

... definição Este ano, fabricantes de celulares terão de entregar 5% dos aparelhos com o kit digital.

Em 2014, serão 10%. Esse índice foi de 3%, no ano passado. Nas TVs, 100% terão conversor embutido e 75% o Ginga.

On demand O governo quer usar a Copa e a Olimpíada para estimular a venda de mais aparelhos que recebam o sinal digital. Com a estratégia, as emissoras seriam impelidas a migrar com mais celeridade para essa tecnologia.

Resgate Com a viagem de Antonio Patriota para a Turquia, no início do ano, funcionários do Itamaraty brincam nos bastidores que o ministro foi salvar Morena, personagem mantida como escrava em Istambul na trama da novela "Salve Jorge", exibida pela TV Globo.

No comando A partir do dia 14, o ministro Ricardo Lewandowski assumirá a presidência do Supremo Tribunal Federal, em revezamento com Joaquim Barbosa. O revisor do mensalão ficará no posto até o final do recesso do Judiciário.

Tiroteio
"O casamento entre Kassab e PT já era certo.

O que ocorre agora é a festa, na qual Haddad deu ao ex-prefeito a melhor fatia do bolo."
DO PRESIDENTE DO PSDB-SP, PEDRO TOBIAS,
sobre a escolha de aliados de Kassab para chefiar a empresa de turismo da prefeitura na gestão petista.


Contraponto


Erro de avaliação


Na década de 1970, o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva convidou dois médicos comunistas para o departamento de saúde do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Walter Feldman, hoje deputado do PSDB, e Gilberto Natalini, vereador do PV, recusaram o convite. Achavam que Lula não prosperaria como dirigente sindical.

Após 30 anos, Feldman encontrou o ex-presidente em evento com Dilma Rousseff, que provocou:

-Hoje, quem se arrependeria? O sindicalista que apostou nos médicos errados ou vocês que não apostaram no sindicalista?

Gol da corrupção - CARLOS ALBERTO DI FRANCO

O GLOBO - 07/01


É preciso uma defesa contundente do papel do Ministério Público



Aprovada em comissão especial da Câmara dos Deputados, a proposta de emenda constitucional que restringe os poderes de investigação do Ministério Público é um golaço para o time da corrupção. Ainda não foi aprovada em plenário, mas deve ser encarada como um grave entrave ao combate à corrupção.

É preciso refletir sobre os riscos de uma proposta que visa a cercear, tolher e manietar a instituição que, de forma mais eficaz e notória, combate a crônica impunidade reinante no País. De fato, o Ministério Público, em colaboração com a Polícia Federal, tem conseguido esclarecer diversos casos de corrupção.

Será que o Ministério Público, que é quem forma as convicções sobre a autoria do crime, não pode fazer diligências para ele mesmo se convencer? Está em andamento um movimento para algemar a instituição. Se o Congresso excluir o MP do processo investigatório, o reflexo imediato será o questionamento sobre a legalidade e até a completa anulação de importantes apurações.

O papel do Ministério Público, guardadas as devidas proporções, se aproxima, e muito, da dimensão social da imprensa. Fatos recorrentes evidenciam a importância da informação jornalística e da ação do Ministério Público como instrumento de realização da justiça. Alguém imagina, por exemplo, que o julgamento do mensalão teria sido possível sem a pressão de um autêntico jornalismo de denúncia? O Ministério Público, muitas vezes, é acionado por fundamentada apuração jornalística. É o ponto de partida. Ninguém discute que o Brasil tem avançado graças ao esforço dos meios de comunicação, mas também graças ao trabalho do Ministério Público. A informação é a base da sociedade democrática. Precisamos, sem dúvida, melhorar os controles éticos da notícia. Consegue-se tudo isso não com censura ou limitações informativas, mas com mais informação e com mais pluralismo.

O mesmo se pode dizer do trabalho do Ministério Público. Como escreveu a jornalista Rosane de Oliveira, respeitada colunista de política do jornal “Zero Hora”, “em um país em que a polícia carece de recursos para investigar homicídios, tráfico de drogas, roubo de carros e outros crimes, não se compreende a briga pela exclusividade na investigação, típica disputa de beleza entre as corporações. Em vez de as instituições unirem forças, tenta-se com essa emenda constitucional impedir o Ministério Público de investigar. Mais fácil é entender o sucesso do lobby no Congresso: boa parte da classe política não suporta os promotores com sua mania de investigar denúncias de mau uso do dinheiro público”.

Esperemos que o Congresso não decida de costas para a cidadania. É preciso que a sociedade civil, os juristas, os legisladores, você, caro leitor, e todos os que têm uma parcela de responsabilidade na formação da opinião pública façam chegar aos parlamentares, com serenidade e firmeza, um clamor contra a impunidade e uma defesa contundente do papel do Ministério Público no combate à corrupção.

Dez anos do choque de gestão - AÉCIO NEVES

FOLHA DE SP - 07/01


"Choque de gestão" foi a expressão que utilizamos para marcar o resgate da governabilidade de Minas, engolfada em 2003 pela maior crise financeira de sua história, recolocando o Estado no caminho do desenvolvimento.

Dez anos depois de implantado, o programa tornou-se referência de um novo modelo de gestão na área pública.

Mais que um conceito abstrato, trata-se de uma experiência que merece ser celebrada pelos que valorizam a eficiência e a busca por resultados nas políticas de governo.

O programa jamais se reduziu a cortes drásticos de despesas, extinção de secretarias e de cargos comissionados, passos iniciais que deram realismo à decisão de gastar menos com a administração para investir mais nos cidadãos.

Adotamos planejamento inovador, com cumprimento de metas e de indicadores de qualidade do gasto, monitorados intensivamente. Criamos auditorias preventivas e profissionalizamos a gestão com a exigência de certificação, por meio da UFMG, para ocupação de cargos de direção.

São muitas as inovações e os resultados nesses dez anos.

Minas cumpriu sete dos oito Objetivos do Milênio estabelecidos pela ONU, alguns antecipadamente, como a redução da mortalidade infantil. Tornamo-nos a primeira região subnacional do mundo a propor e assinar novas e mais desafiadoras metas para serem cumpridas até 2015.

O Estado ocupa a primeira posição no Sudeste no Idsus (Índice de Desempenho do Sistema Único de Saúde). Na educação, fomos os primeiros a universalizar o ensino fundamental de nove anos na rede pública e os nossos alunos hoje lideram os exames do Ideb.

Minas registrou o maior crescimento na participação do PIB nacional no período 2002-2010. Foram 1,6 milhão de novos empregos com carteira assinada.

Organismos internacionais chancelaram o esforço. O Banco Mundial apresentou o modelo para outros países e o pioneiro programa de Parcerias Público-Privadas do Estado recebeu o prêmio de melhor do mundo, concedido pela revista britânica "World Finance".

O choque de gestão alcançou ampla aceitação da sociedade, mas enfrentou um tipo de oposição peculiar: a do PT, com seus dois bonés. Com o boné da conveniência, atacaram o programa; com o do realismo, tentam adotá-lo.

Além dos avanços que proporciona, o modelo oferece importante contribuição para a formação de uma nova cultura na administração pública, um antídoto ao aparelhamento e ao inchaço do Estado, infelizmente práticas ainda presentes em vários governos e, em especial, no plano federal.

Na base de tudo, está uma convicção: não há política pública mais transformadora do que a correta aplicação do dinheiro público, com transparência e eficiência.

O PT em seu labirinto - EDITORIAL O ESTADÃO


O Estado de S.Paulo - 07/01


Agita-se o Partido dos Trabalhadores (PT). Após a agressiva mobilização em defesa dos condenados no processo do mensalão, a vanguarda petista começa a propor, a seu modo, uma reflexão sobre os rumos do partido, aquele que se orgulhava de ser modelo de correção radical e que hoje é pilhado em sucessivos escândalos. Ingênuos podem ver nisso um mea culpa, um esforço para retornar às origens "puras" do partido, mas, em se tratando de PT, não cabe nenhuma ingenuidade: digladiam-se forças para a ocupação dos espaços perdidos pelas lideranças mensaleiras e, principalmente, para salvar as aparências do lulismo, emparedado por denúncias de cama e mesa.

A mais recente manifestação da cúpula petista, a carta convocatória para o 5.º Congresso Nacional do PT, a ser realizado em 2014, dá uma ideia dessa crise. O documento reafirma as linhas gerais da defesa do legado de Lula e diz que o ex-presidente, assim como o partido, é vítima de uma campanha de difamação "insidiosa", semelhante à que sofreram os presidentes Getúlio Vargas e João Goulart. O primeiro suicidou-se, em 1954, denunciando "as forças e os interesses contra o povo" que o pressionavam. "Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes", escreveu Getúlio, quando se descobriu que os porões do Palácio do Catete haviam se transformado num mar de lama em que chafurdavam Gregorio Fortunato e a sua quadrilha. Lula não parece inclinado a gesto tão dramático, mas o discurso é o mesmo, como mostra o documento petista: "A verdade é que os donos do poder não aceitam essa irrupção de pobres na vida social e política do País".

O texto afirma que, graças às "distorções do sistema político", Lula teve de aliar-se ao que há de pior na política brasileira, como Sarney, Collor e Maluf, para "dar sustentação parlamentar ao governo". A direção petista argumenta que só assim foi possível manter o poder e enfrentar as elites, que, embora tenham se beneficiado da era Lula, jamais admitiram o "êxito de um nordestino, sem educação formal, como presidente da República". A missão histórica do lulopetismo está, portanto, acima de quaisquer considerações éticas. Aliás, dissemina-se há algum tempo, entre pensadores simpáticos ao PT, a ideia de que a corrupção é intrínseca ao capitalismo e que os pobres, agraciados com a fartura creditícia patrocinada pelo governo petista, não estão nem um pouco preocupados com os malfeitos, razão pela qual mantêm seu apoio a Lula e à presidente Dilma Rousseff. O clamor pela ética na política, prossegue a tese, restringe-se às "elites". O documento petista é claro sobre isso, ao dizer que "denúncias sobre corrupção sempre foram utilizadas pelos conservadores no Brasil para desestabilizar governos populares".

Antes de chegar ao poder, porém, quem utilizava denúncias de corrupção como bandeira política era o PT, cujo líder máximo apontou a existência de "300 picaretas" no Congresso. Hoje, sabe-se, o governo petista costuma comprar o apoio desses "picaretas". O documento do PT admite que o partido já não é mais o mesmo, pois "perdeu densidade programática e capacidade de mobilização sobre setores que nos acompanharam nos primeiros anos de nossa existência". Traduzindo: rasgou suas bandeiras e abandonou os que acreditavam nelas, distanciando-se de sua militância. Admitir isso não é penitência, mas estratégia. A cúpula petista, conforme diz seu texto, acredita que seja necessário retomar as discussões programáticas para fortalecer sua "capacidade de intervenção na conjuntura", isto é, para pressionar Dilma a atuar com mais firmeza em favor dos interesses do partido. Aqui e ali, militantes têm manifestado descontentamento com a presidente por sua suposta leniência em relação à mídia e aos empresários. Portanto, para entender esse movimento interno no PT não se pode esquecer de que a sucessão de 2014 já começou, que Dilma não é a presidente dos sonhos dos petistas e que Lula precisa de palanque sólido para defender-se e continuar a construir a tal "narrativa petista".

Golpe na Venezuela - RICARDO NOBLAT

O GLOBO - 07/01


Ameaçado por um câncer na pélvis, entregue aos cuidados de médicos russos e cubanos em Havana, Hugo Chávez, presidente da Venezuela reeleito pela terceira vez no ano passado, deverá reassumir o cargo na próxima quinta-feira, dia 10. É o que manda a Constituição do seu país. Se não o fizer, sua vaga será ocupada pelo presidente do Congresso. O sucessor de Chávez será eleito então dentro de 30 dias.

Na madrugada da última sexta-feira, em...

Na madrugada da última sexta-feira, em cadeia nacional de rádio e de televisão, Nicolás Maduro, vice de Chávez, anunciou que não será bem assim. Digo eu: Chávez carece de condições para assumir o cargo em sessão da Assembleia Nacional (Congresso) ou do Supremo Tribunal de Justiça como determina a lei. São aparelhos que ainda o mantêm vivo. A hipótese de sua recuperação é remota. Acreditam nela os que acreditam em milagres.

Maduro citou os artigos 231 e 233 da Constituição em socorro da tese de que Chávez está livre para reassumir o cargo em outra data. A Assembleia Nacional autorizou-o a se ausentar do país por um prazo de 90 dias. O prazo ainda poderá ser renovado por mais 90 dias. Logo... "O formalismo da tomada de posse se resolverá no futuro", disse Maduro. Por fim, acusou a oposição de usar a saúde de Chávez para querer aplicar um golpe de Estado.

A Constituição não considera mero formalismo o ato de posse no dia 10 de janeiro. Diz o artigo 231: "O candidato eleito tomará posse do cargo de presidente da República em 10 de janeiro do primeiro ano de seu período constitucional, mediante juramento na Assembleia Nacional. Se, por qualquer motivo, não poder fazê-lo, o fará diante do Supremo Tribunal de Justiça".

Os "chavistas" enxergam no trecho final do artigo 231 a brecha para que Chávez tome posse "no futuro" diante do Supremo Tribunal de Justiça. A data de 10 de janeiro só valeria para a posse diante da Assembleia Nacional. Se assim pensou o legislador, o teria dito com clareza. Não o fez. No artigo 233, estipulou as "faltas" ao dia da posse consideradas "absolutas" e capazes de provocar uma nova eleição presidencial:

- Serão faltas absolutas do (a) presidente da República: sua morte, renúncia, destituição decretada por sentença do Supremo Tribunal de Justiça, incapacidade física ou mental permanente certificada por uma junta médica designada pelo Supremo Tribunal de Justiça e com aprovação da Assembleia Nacional, e o abandono do cargo, declarado como tal pela Assembleia Nacional, bem como a revogação popular de seu mandato.

Aqui os "chavistas" enxergam outra brecha favorável ao seu líder: a incapacidade física ou mental dele teria de ser permanente. E certificada por uma junta médica designada pelo Supremo Tribunal de Justiça. A Federação de Medicina da Venezuela constituiu uma comissão para examinar Chávez. O governo recusou a ideia. De resto, Chávez exerce o controle absoluto sobre todos os Poderes do seu país.

O golpe em marcha na Venezuela nada tem a ver com a oposição. A quem interessa ignorar a Constituição para evitar uma nova eleição presidencial? Os países do Mercosul expulsaram dali o Paraguai depois do golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. Um golpe avalizado pela Justiça e por todos os partidos. Não tem vez no Mercosul país sujeito à ruptura da ordem democrática.

Saiu o Paraguai do Mercosul e entrou a Venezuela. E agora? O Brasil e seus sócios do Mercosul fingirão que a ordem democrática na Venezuela está preservada?


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO


Cinco estados faturam 85% da verba de emendas



Levantamento feito pelos partidos de oposição revela que apenas cinco estados, das 27 unidades da federação, concentram 85% das emendas parlamentares empenhadas no ano de 2012. São eles: Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso do Sul, Sergipe e Minas Gerais. Os recursos empenhados totalizaram pouco mais de R$ 2,7 bilhões. Só o DF, comandado pelo petista Agnelo Queiroz, levou R$765 milhões.


Politicagem

Goiás recebeu R$703 milhões, sendo R$657 milhões para obras na estrada que liga Goiânia, governada pelo PT, a Jataí, do PMDB.


Crédito é da União

Os R$20 milhões restantes da verba encaminhada para Goiás, governada pelo PSDB, foram destinadas à Universidade Federal.


Coincidência?

Em Minas, com gestão do PSDB, de R$151 milhões empenhados, quase R$100 milhões também foram para as universidades federais.


População é que sofre

Para o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), além de ter caído a liberação de emendas, o governo só executa o que é interesse partidário-eleitoral.


Governo federal não monitorou região alagada

Caxias, Angra dos Reis e Mangaratiba constam do mapa do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, do Ministério da Integração, mas não entraram no sistema de monitoramento 24h que poderia prevenir a nova tragédia de janeiro e que resultou em 5 mortos e quase 2 mil e 200 desabrigados, incluindo Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, onde consta monitoramento do governo federal e promessa de envio de pick-ups, GPS e PCs.


Big Brother

O ministério da Integração garantiu que mais de 200 municípios seriam monitorados e que até “até o final do ano” seriam 286 “prioritários”.


Bancada

Com a posse de Iara Bernardi (PT), Sorocaba (SP), volta a ter dois deputados federais. O outro representante é Jefferson Campos (PSD).


Mapa de doido

Criada para o desenvolvimento do Vale do São Francisco, a Codevasf incluiu não só o Piauí, mas também o Maranhão na gambiarra. Hum...


Aliança tucano-petista

O PSDB reclama do PT de barriga cheia: o ex-chefe de publicidade de FHC, Bob Vieira Costa, ganhou para sua agência, desde 2003, a conta da Caixa, estimada em R$ 600 milhões anuais. Com ajuda de Marcos Flora, petista tão discreto que nem figura na lista de sócios da agência.


Vida de gado

A tragédia da seca no Nordeste é notícia em vários jornais americanos, comovidos com o drama, que não perturba férias de presidenta Dilma, ministros e afins. O problema afeta a economia, mas ninguém nota.


Aloprou

Indicado para a liderança do governo na Câmara, o deputado e ex-ministro Berzoini contribuiu no Twitter para a importância do cargo, defendendo Genoino e acusando os críticos de aliarem-se ao “golpe”.


Nojo de políticos

Queima a orelha dos governantes nas redes sociais, com o desabafo de Zeca Pagodinho, diante do temporal no Rio: “A situação está ruim. É lixo puro. Dá de nojo de político, dá nojo desta gente bandida”.


Escapando

O chefe do escritório da CBF em Brasília, Vandembergue Machado, ainda não foi alcançado pela vassourada do José Maria Marin, atual presidente da entidade, na turma do antecessor Ricardo Teixeira.


Bateu, levou

O presidente da OAB-DF, Ibaneis Rocha promete ser um "ferrinho de dentista" nos eventuais abusos de juízes contra advogados. Diz que rebaterá, “sem dó nem piedade”, ataques a prerrogativas de advogado.


Estatuto Penitenciário

O deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) promete dor de cabeça a Domingos Dutra (PT-MA), autor do projeto que cria “prisões 5 estrelas”: “Prefiro as cadeias cheias de vagabundos que os cemitérios cheios de inocentes”.


Prata é paraguaia

Desprezando profissionais da Infraero, o presidente Gustavo do Vale contratará por R$ 4 milhões consultoria de imprensa, que inclui sete jornalistas. O assessor Sidrônio Henrique descobriu que a estatal tem, entre os gerentes de comunicação, assistentes sociais, economistas...


Idade da Pedra

Duas invenções seculares se tornaram obsoletas sem ter auge no Brasil: sirene para anunciar a tempestade quando a meteorologia falha.

Poder sem pudor

Baixa tolerância à bajulação

Adhemar de Barros estava em plena campanha para presidente, em 1955, quando foi homenageado com uma festa-surpresa por assessores, no dia de seu aniversário. Iniciados os discursos, travou-se uma curiosa disputa para ver quem adulava mais o chefe. Cansado e impaciente, Adhemar acabou com a festa com o seu jeitão de lorde inglês:
- Agradeço, mas não suporto tanta bajulação. Peço que dêem o fora. Deu as costas e foi embora.

SEGUNDA NOS JORNAIS


Globo: Ameaça iminente: Estado tem 36 mil pessoas em áreas de alto risco
Folha: Escassez de luz faz Dilma convocar o setor elétrico
Estadão: ‘Orçamento paralelo’ do governo federal chega a R$ 200 bilhões
Correio: O fim do jeitinho para entrar na universidade
Valor: Desafio da Petrobrás em 2013 é conter a queda na produção
Estado de Minas: A Pampulha sem o brilho da Copa
Jornal do Commercio: Calçada sem trato vai pesar no bolso
Zero Hora: Usuário sofre para acessar internet 3G no Litoral Norte

domingo, janeiro 06, 2013

Joseph K. - J. R. GUZZO


REVISTA VEJA

Os leitores de O Processo, criação da mente tumultuada, enigmática e genial de Franz Kafka, conhecem bem a história de Joseph K. - ótimo rapaz, diretor de banco e cidadão que jamais tinha violado lei alguma em toda a sua vida. No dia em que completa 30 anos, Joseph K. recebe a visita de dois agentes que ele supõe serem da polícia, mas que não se identificam nem lhe mostram nenhum documento oficial. Estão a serviço de um departamento do governo, mas não revelam qual. Anunciam que ele deve responder a um processo, mas não informam qual é a acusação. Joseph K. fica intimado, apenas, a comparecer a um determinado endereço alguns dias depois, mas não sabe a que horas nem qual autoridade terá de procurar no local. Quando chega lá, encontra um pardieiro e, no sótão do prédio, o que parece ser o tribunal - mas ao ir embora continua sem saber qual o delito a que deve responder, quem vai julgá-lo e que lei autoriza o procedimento imposto a ele. Tudo o que consegue descobrir é que deve aguardar as instruções de um "Comitê de Questões", de cuja existência jamais tivera conhecimento. As coisas não melhoram quando Joseph K. vai se aconselhar com um tio, que lhe recomenda não "subestimar" a gravidade da situação e o encaminha a um advogado. Não adianta nada. O advogado diz que aceita fazer a sua defesa, mas não poderá apresentá-la ao magistrado, pois não sabe, nem nunca saberá, qual é a acusação - e, de qualquer forma, tudo seria inútil, pois em casos assim o fato de ser suspeito significa, automaticamente, ser culpado. Na verdade, informam a ele, nunca houve em toda a história do tribunal secreto que vai julgá-lo um único caso de absolvição. Um ano depois, na véspera de seu 31º aniversário, Joseph K. é preso, em seu apartamento, por dois agentes do "Comitê", levado a uma pedreira remota e executado - sem nunca ter tido a menor idéia do que fizera de errado.

Quase 100 anos depois de escrita, a narrativa de Kafka continua sendo um dos textos mais possantes que a literatura mundial jamais produziu sobre a negação absoluta da justiça - e a impotência do ser humano diante de forças que não entende, que podem tudo e contra as quais ele não pode nada. A desgraça de Joseph K. é algo que não faz nexo num mundo racional. Mas a moral da fábula de Kafka, como sempre acontece nas fábulas, não tem nada de absurdo. Ao contrário, é um aviso muito claro do que pode acontecer em conflitos em que um dos lados dispensa a si próprio de qualquer obrigação lógica - como pretende ter toda a razão, julga-se com direito a tudo. Não precisa explicar nada, nunca. Não tem de provar nenhuma das alegações que faz. Basta denunciar suspeitos e declarar que são culpados.

Há no Brasil de hoje um clima por trás do qual, quando se olha um pouco melhor, é possível perceber algo muito parecido com a história de Joseph K. Trata-se do esforço permanente, por parte das forças que comandam o governo, para indiciar todos os que discordam delas num processo em que os julgadores não aceitam nenhum argumento de defesa, ignoram quaisquer fatos que os acusados possam apresentar em seu favor e só assinam sentenças de condenação. O ex-presidente Lula, os marechais de campo do PT e sua máquina de propaganda funcionam como o "Comitê de Questões" imaginado por Kafka. Os que têm opiniões diferentes, sobretudo quando podem expressá-las em público, ou divulgam fatos incômodos para seus interesses, ficam no papel de Joseph K.

O tribunal secreto de Lula encerrou 2012 com as turbinas a toda. Enrolado, cada vez mais, em histórias tão feias quanto marcadas pela pequenez, o líder supremo do PT não disse até agora uma única palavra para explicar o que quer que fosse, nem citou nenhum fato capaz de atenuar as suspeitas. Como sempre, pegou o microfone e passou a gritar insultos contra inimigos que ninguém vê. Jamais menciona seus nomes. Não diz que crimes cometeram. Não informa quais as acusações concretas a que devem responder. Limitou-se, desta vez, a falar em "vagabundos" que estão em salas "com ar condicionado". Quem seriam? Há um vasto número de brasileiros nessa situação, quase sempre fazendo trabalho duro, indispensável e remunerado modestamente - nas UTIs hospitalares, torres de controle de aeroportos, usinas de energia elétrica, processadoras de alimentos e por aí afora. Vagabundos? Talvez. Se não há nomes, todos são suspeitos da acusação - especialmente infeliz quando feita por alguém que não trabalha desde os 29 anos de idade. E daí? Joseph K. não tem direito a nenhuma explicação.

Os leitores de O Processo, criação da mente tumultuada, enigmática e genial de Franz Kafka, conhecem bem a história de Joseph K. - ótimo rapaz, diretor de banco e cidadão que jamais tinha violado lei alguma em toda a sua vida. No dia em que completa 30 anos, Joseph K. recebe a visita de dois agentes que ele supõe serem da polícia, mas que não se identificam nem lhe mostram nenhum documento oficial. Estão a serviço de um departamento do governo, mas não revelam qual. Anunciam que ele deve responder a um processo, mas não informam qual é a acusação. Joseph K. fica intimado, apenas, a comparecer a um determinado endereço alguns dias depois, mas não sabe a que horas nem qual autoridade terá de procurar no local. Quando chega lá, encontra um pardieiro e, no sótão do prédio, o que parece ser o tribunal - mas ao ir embora continua sem saber qual o delito a que deve responder, quem vai julgá-lo e que lei autoriza o procedimento imposto a ele. Tudo o que consegue descobrir é que deve aguardar as instruções de um "Comitê de Questões", de cuja existência jamais tivera conhecimento. As coisas não melhoram quando Joseph K. vai se aconselhar com um tio, que lhe recomenda não "subestimar" a gravidade da situação e o encaminha a um advogado. Não adianta nada. O advogado diz que aceita fazer a sua defesa, mas não poderá apresentá-la ao magistrado, pois não sabe, nem nunca saberá, qual é a acusação - e, de qualquer forma, tudo seria inútil, pois em casos assim o fato de ser suspeito significa, automaticamente, ser culpado. Na verdade, informam a ele, nunca houve em toda a história do tribunal secreto que vai julgá-lo um único caso de absolvição. Um ano depois, na véspera de seu 31º aniversário, Joseph K. é preso, em seu apartamento, por dois agentes do "Comitê", levado a uma pedreira remota e executado - sem nunca ter tido a menor idéia do que fizera de errado.

Quase 100 anos depois de escrita, a narrativa de Kafka continua sendo um dos textos mais possantes que a literatura mundial jamais produziu sobre a negação absoluta da justiça - e a impotência do ser humano diante de forças que não entende, que podem tudo e contra as quais ele não pode nada. A desgraça de Joseph K. é algo que não faz nexo num mundo racional. Mas a moral da fábula de Kafka, como sempre acontece nas fábulas, não tem nada de absurdo. Ao contrário, é um aviso muito claro do que pode acontecer em conflitos em que um dos lados dispensa a si próprio de qualquer obrigação lógica - como pretende ter toda a razão, julga-se com direito a tudo. Não precisa explicar nada, nunca. Não tem de provar nenhuma das alegações que faz. Basta denunciar suspeitos e declarar que são culpados.

Há no Brasil de hoje um clima por trás do qual, quando se olha um pouco melhor, é possível perceber algo muito parecido com a história de Joseph K. Trata-se do esforço permanente, por parte das forças que comandam o governo, para indiciar todos os que discordam delas num processo em que os julgadores não aceitam nenhum argumento de defesa, ignoram quaisquer fatos que os acusados possam apresentar em seu favor e só assinam sentenças de condenação. O ex-presidente Lula, os marechais de campo do PT e sua máquina de propaganda funcionam como o "Comitê de Questões" imaginado por Kafka. Os que têm opiniões diferentes, sobretudo quando podem expressá-las em público, ou divulgam fatos incômodos para seus interesses, ficam no papel de Joseph K.

O tribunal secreto de Lula encerrou 2012 com as turbinas a toda. Enrolado, cada vez mais, em histórias tão feias quanto marcadas pela pequenez, o líder supremo do PT não disse até agora uma única palavra para explicar o que quer que fosse, nem citou nenhum fato capaz de atenuar as suspeitas. Como sempre, pegou o microfone e passou a gritar insultos contra inimigos que ninguém vê. Jamais menciona seus nomes. Não diz que crimes cometeram. Não informa quais as acusações concretas a que devem responder. Limitou-se, desta vez, a falar em "vagabundos" que estão em salas "com ar condicionado". Quem seriam? Há um vasto número de brasileiros nessa situação, quase sempre fazendo trabalho duro, indispensável e remunerado modestamente - nas UTIs hospitalares, torres de controle de aeroportos, usinas de energia elétrica, processadoras de alimentos e por aí afora. Vagabundos? Talvez. Se não há nomes, todos são suspeitos da acusação - especialmente infeliz quando feita por alguém que não trabalha desde os 29 anos de idade. E daí? Joseph K. não tem direito a nenhuma explicação.

Cadê Dilma, a administratora competente? - MARY ZAIDAN

BLOG DO NOBLAT


Administradora competente, gerente imbatível. Essa era a combinação projetada no tubo de ensaio dos marqueteiros para a presidente Dilma Rousseff. Mas algo saiu do esquadro e, ainda que goze de índices de popularidade recordes, a mítica figura de gestora de primeira de nada valerá para destravar a economia.

Investimento e PIB baixos, gastos públicos muito acima do razoável e inflação em elevação, especialmente para os mais pobres, vão exigir muito mais do que berros, autoritarismo e murros sobre a mesa, esses sim, ativos que a presidente tem de sobra.

A figura de gerente eficiente foi forjada ainda em 2008, quando o ex Lula, em campanha eleitoral antecipada, lhe conferiu o título de mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Ao aceitar o agrado, Dilma disse que se tratava de um “título simbólico” para evidenciar sua capacidade de coordenação. O PAC, como se sabe, tanto o primeiro quanto o segundo, continua empacado, mesmo com Dilma na cadeira máxima do Planalto.

Melhor, então, era esquecer essa história de mãe do PAC. Daí não sairiam mais frutos.

No primeiro ano como presidente, com a avalanche de denúncias de corrupção sobre gente do governo que herdara do padrinho Lula, Dilma agregou a figura da faxineira, aquela que não tolera malfeitos.

Até demitiu meia dúzia de auxiliares diretos. Mas sem muita firmeza e convicção, já que protegeu o amigo Fernando Pimentel.

O ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio continua intocável mesmo depois de receber R$ 2 milhões por palestras fantasmas e de ser denunciado pela Procuradoria Geral da República por crimes de fraude em licitação e desvio de recursos quando era prefeito de Belo Horizonte.

Para encobrir o benquisto, Dilma interveio até na Comissão de Ética Pública, substituindo aqueles que queriam investigar o ministro.

Tal como a de gestora nota 10, apesar do PAC, a fama de faxineira pegou. Mas se a segunda é mais popular – faxina é algo que todo mundo entende - é a primeira que tem feito falta.

O ocaso na infraestrutura, as frequentes intervenções do Governo em empresas públicas, como na Caixa, BB, Petrobrás e Eletrobrás, que o digam.

A traquinagem contábil para cumprir a meta fiscal e a edição de Medida Provisória inconstitucional com créditos de mais de R$ 42 bilhões são elementos a mais para desmontar a lenda da competência de gestão.

Mantido o grau de eficácia do governo, Dilma terá de apelar para Saturno, regente de 2013, que, dizem os astrólogos, ensina tudo sobre “estrutura, responsabilidade e concentração”.

Ou para a serpente, símbolo de sorte, pelo menos para os chineses.

Bens de casais gays - ANCELMO GOIS


O GLOBO - 06/01


O STJ vai, este ano, analisar a questão da divisão de bens relacionados a casos de união homoafetiva.
Um deles, procedente de Minas Gerais, refere-se à disputa pelo título de propriedade de um imóvel deixado por uma mulher. A briga é entre sua companheira e os irmãos da falecida.

Menino do Rio
O francês Vincent Cassel e a italiana Monica Bellucci, o casal de atores, estão mesmo morando no Rio.
Mais exatamente no Arpoador.

Engenheiro é macho
As novas tabulações no Censo do IBGE, de 2010, revelam que entre as 20 carreiras universitárias com maior número de recém-formados as mulheres só não são maioria em cinco delas... por enquanto.

Segue...
No curso de ciência da computação, apenas 22% são moças. No de engenharia civil e de construção, 28%, e no de engenharia e profissões de engenharia (cursos gerais), 30%. Nos de saúde (cursos gerais) e de economia, as mulheres já são quase a metade: 48% e 47%, respectivamente.

Já...
Nas demais, incluindo as carreiras de alta remuneração como medicina (54%) e odontologia (69%), as mulheres já superam os homens.

Câmbio da feira
O câmbio oficial de Cristina Kirchner, na Argentina, está tão doido que a maçã argentina custa mais caro em Buenos Aires que aqui, no Brasil.
Lá, com valores convertidos, o quilo da fruta equivale a R$ 7, valor bem mais alto do que o cobrado em muita quitanda do Rio.
Por detrás do palco O sucesso da MPB nos anos de chumbo foi feito por artistas
talentosos como Chico Buarque, Tom Jobim, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Mas também com o trabalho, nos bastidores, de gente que não costuma subir ao palco.
Este é o tema de “A crista é a parte mais superficial da onda”, tese de doutorado em história pela UFF de Luisa Quarti Lamarão, que estudou o período entre 1968 e 1982. “O êxito simbólico e comercial da MPB deve-se também a outros elementos que permitiram a aproximação da música com o público”, diz Luisa.

Fascículos da Abril...
Luisa considera que os fascículos História da Música Popular Brasileira, que a Abril lançou a preços populares e vendia nas bancas entre 1970 e 1982, tiveram grande importância na divulgação da nossa música.
A equipe de assessores, nas primeiras edições da coleção, era formada por José Lino Grunewald, José Ramos Tinhorão, Júlio Medaglia e Tárik de Souza.

Nova onda...
Tárik também é citado, ao lado de Nelson Motta e Ana Maria Bahiana, como o crítico da chamada “nova onda”, que “auxiliou na construção, em alguns casos, de uma memória ufanista sobre a música brasileira e seus artistas”.

Circuito universitário...

E, finalmente, Luisa faz, em sua obra, uma louvação merecida ao chamado “circuito universitário”, que, no início da década de 1970, ajudou a formar plateia, ao levar shows a preços populares para escolas e
universidades em todo o país.

Cinebiografia
O filme sobre a vida do escritor Paulo Coelho, escrito por Carolina Kotscho, será dirigido por Daniel Augusto.

Aliás...
O uso do nome do ex-camisa 10 da Gávea e da seleção nestas embalagens americanas está sendo analisado por um advogado de Zico nos EUA.

Hotel francês
A gigante francesa Accor, cuja marca Sofitel deve deixar Copacabana, planeja assumir o Caesar Park, em Ipanema, outro tradicional hotel da orla carioca.

Coleguinhas
A BBC está procurando um escritório no Rio.
Fará uma sucursal para cobrir os próximos grandes eventos na cidade.

Secretário dos idosos
Cabral nomeia segunda o deputado estadual Marcus Vinicius, do PTB, secretário de Envelhecimento Saudável e Qualidade de Vida.

Coroa Imperial
A Portela vai levar para a Marquês de Sapucaí um pouco do... Império Serrano, sua escola rival no bairro de Madureira.
É que a azul e branca terá um carro que vai homenagear figuras ilustres de cada uma das agremiações. Nele, estará Arlindo Cruz, representando a Coroa Imperial.


MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 06/01



Nova farmacêutica de biotecnologia do Brasil fechará primeiros contratos

A Bionovis, joint venture formada no ano passado pelas farmacêuticas Aché, EMS, Hypermarcas e União Química para o desenvolvimento de biotecnologia no Brasil, deve fechar seus dois primeiros contratos de transferência de tecnologia nos próximos três meses.

Os acordos, que estão em negociação, se referem aos primeiros produtos a serem lançados pela empresa.

A definição do local onde será construída a fábrica, por sua vez, deve ocorrer apenas no segundo trimestre, de acordo com Odnir Finotti, presidente da companhia.

Os Estados mais cotados pelo mercado para receberem a planta do laboratório são Santa Catarina, Rio de Janeiro e São Paulo.

O investimento de R$ 500 milhões, que foi anunciado no primeiro semestre de 2012, começará a ser aplicado a partir de julho, segundo Finotti. A maior parte será injetada na construção da unidade fabril.

O executivo espera um cenário de reação da economia brasileira para este ano, quando os projetos da Bionovis estiverem avançados.

A estimativa de Finotti é de crescimento do PIB entre 3% e 4%. "A economia brasileira deve apresentar em 2013 um dos melhores períodos dos últimos cinco anos."

Para o setor farmacêutico, espera alta de dois dígitos.

O otimismo depende, segundo o executivo, de que o governo e a Anvisa acelerem os processos para o desenvolvimento de pesquisas clínicas no Brasil, considerado essencial para o mercado de biotecnologia.

Carro por hora

A Hertz entrará em novos segmentos do mercado de locação de veículos em 2013. Neste mês, começará a alugar minivans para o transporte de cargas.

Os carros poderão ser locados por hora ou por dia. Por enquanto, a empresa testará o projeto com cinco veículos em São Paulo. A loja da companhia no aeroporto de Congonhas deverá ser uma das primeiras a disponibilizar esses automóveis.

A expectativa é que a frota de veículos de carga chegue a cem até o final deste ano. Rio de Janeiro e Salvador devem ser as próximas cidades a receber o serviço.

O produto já existe em outros países onde a empresa atua. O foco costuma ser o transporte de produtos como compras, de jardinagem e de festas.

O aluguel de transporte de carga faz parte de um projeto maior da companhia para o país. Nele, também está incluída a locação de carros comuns por hora, que começará a funcionar até setembro.

Nesse sistema, o cliente pega o veículo em uma universidade, por exemplo, e o destrava por meio do celular. A chave fica no interior do carro.

A empresa ainda não divulga quantos carros serão disponibilizados para o aluguel por hora. "O serviço depende de tecnologia específica para destravar o carro", diz o presidente da Hertz para o Brasil, Roy Ritentour.

US$ 2,2 bilhões foi a receita global no primeiro semestre de 2012; a empresa não divulga o dado brasileiro

134 é o número de lojas no país

20 mil são os veículos da companhia no Brasil

O QUE ESTOU LENDO

Gil Zanchi, diretor da Marriott no Brasil

O principal executivo no Brasil da rede de hotéis Marriott, o suíço Gil Zanchi, tem à sua cabeceira "Execução: A Disciplina para Atingir Resultados" (ed. Campus), de Larry Bossidy e Ram Charan.

Entre os comportamentos essenciais para o líder listados pelo livro, Zanchi destaca "conheça a si mesmo, o seu pessoal e o seu negócio".

Estabelecer metas claras, concluir planos e ampliar habilidades das pessoas também foram iniciativas lembradas. "E recompense os que fazem acontecer", acrescenta.

ESTRANGEIRAS COM CABEÇA DE BRASILEIRA

Marcas internacionais têm desenvolvido diferentes estratégias para se adaptar às demandas do mercado brasileiro.

A norte-americana Tory Burch criou a "Brazilian Swimwear", uma linha de biquínis com modelos menores do que os vendidos no exterior.

Antes, a italiana Gucci já havia desenhado a Coleção Pantanal, com bolsas e lenço estampados, apenas para o Brasil.

A britânica Burberry entrou na onda brasileira de usar branco no Réveillon para oferecer por aqui a "White Collection".

Também do Reino Unido, a marca Topshop foi ainda mais longe.

A companhia percebeu que havia mercado para lançar uma coleção paralela à europeia com peças leves que seguem as tendências, mas que podem ser usadas em países no hemisfério sul.

Além do Brasil, as peças da linha "End of the Road" estão à venda no Chile, na África do Sul e na Austrália.

"A grife coloca nesses países, com velocidade e a preços acessíveis, o que está na moda internacional", afirma Daniela Valadão, da Topshop.

"Os tecidos, a modelagem e as cores usadas, porém, são mais adequados ao nosso clima."

Em busca de caminhos - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 06/01


Ganha força entre os analistas a tese que o modelo de crescimento baseado no mercado interno de esgotou. Vai continuar dando o que já deu, e é muito, mas o recuo de outros setores de atividade econômica, revelado pelo PIB de 1%, este ano, mostra suas limitações. Há sempre espaço para aumentar o consumo, há o novo salario mínimo que injetará R$ 32 bilhões na economia, mas os outros setores não só não reagem, alguns recuam. A exceção é o automobilístico, aumento de 4,65% em 2013, mas por causa de incentivos provisório, com prazos para terminar. A produção geral da indústria diminuiu nos últimos meses apesar dos estímulos fiscais do governo.

Dos quatro grandes componentes da demanda interna, consumo privado e gasto geral do governo continuaram crescendo, mas os outros dois, investimento privado e exportação recuaram.

Em vários artigos publicados no Estado de economistas de expressão, entre os quais Luciano Coutinho e José Roberto Mendonça de Barros, a coluna dá especial atenção, ao diagnóstico unânime: a economia só volta a crescer se houver investimento. Poderíamos até dizer que ela recuou quando os investimentos caíram cinco meses consecutivos. Ninguém mais duvida, ninguém mais contesta, mas fica a pergunta: por que nem o setor privado nem o governo reagiram e investiram este ano?

Governo sem rumo. A impressão que vem de Brasília é que a equipe econômica está ainda em busca do caminho. Não sabe por onde seguir. Tentou muito, não deu certo. Os empresários relutam diante das incertezas mais internas do que externas. Falta confiança e há preocupação com as sucessivas intervenções no governo, tornando as regras menos claras e menos seguras. Há insegurança.

O ultimo relatório de inflação do Banco Central foi incisivo e diz textualmente: "A lenta recuperação da confiança (dos empresários) contribuiu para que os investimentos ainda não mostrassem reação após estímulos introduzidos na economia". Há sem dúvida outros fatores, câmbio, juros ainda mais altos do que os praticados pelos nossos competidores, subsídios, crédito generoso que eles oferecem à produção interna e exportação - mas certamente a falta de confiança do empresário tem sido o fator decisivo. Enquanto isso, ele prefere continuar utilizando a seu favor aqueles mesmos benefícios que os nossos competidores, principalmente a China, oferecem aos seus produtores e passam a importar a preços menores para atender à demanda interna. Ela cresce, sim, mas, ironicamente, acaba beneficiando nossos exportadores. Não é um fato novo, que deixou de levantar no correr do ano fortes protestos contra a desindustrialização de importantes setores. Agora pouco se fala disso. E produtores e consumidores continuam comprando produtos importados a preços menores, o que até ajuda a conter a inflação.

O que se espera. Até agora, pouco se sabe sobre o que a equipe econômica está preparando em Brasília. A presidente Dilma Rousseff afirmou que vamos iniciar o ano investindo, destravou o que poderia impedir a liberalização de recursos oficiais, fez mais dois apelos para que o setor privado confie e invista. O governo vai convocar reunião com os bancos e instituições financeiras para que ofereçam mais crédito - mas permanece a questão se haverá demanda para esses empréstimos nas condições atuais suficiente para reanimar a atividade econômica.

Há a ideia do que se poderia chamar novo modelo econômico baseada em juro menor e ideia de cambio, à qual o Banco Central reage porque real muito acima de R$ 2 - a indústria pede R$ 2,4 - acaba pressionando a inflação e anulando os benefícios do câmbio. O Banco Central manteve o dólar em torno de R$ 2 nos últimos dias do ano.

É este o cenário no início de um ano que vai ser difícil, com o Brasil tendo armado todas as condições para se defender da crise e da recessão externa, mas não dá ainda sinais de estar preparado para crescer. Como afirma o colega Rolf Kuntz, competente colunista econômico da imprensa brasileira, em artigo no do último dia 2, é preciso "mais voluntarismo" do governo, mais decisões.

Mas, para a coluna, parece que a equipe econômica está ainda em busca de caminhos.

Projeções do mercado mostraram poucas alterações no encerramento do ano passado, com o consenso para 2013 apontando para taxa de juros estável, câmbio praticamente constante, Produto Interno Bruto (PIB) crescendo 3,3%, e acelerando em relação ao ano passado, e IPCA subindo 5,47%, de acordo com o Relatório Focus - divulgado na última segunda-feira pelo Banco Central, com estimativas coletadas até o dia 28 de dezembro. A mediana das expectativas para o IPCA mostrou leve ajuste de alta para 2012, passando de 5,69% para 5,71%, ficando estável em 5,47% para 2013. Ao mesmo tempo, a estimativa de crescimento do PIB novamente recuou de 1% para 0,98% para 2012 e seguiu em 3,3% em 2013. A mediana da projeção para a taxa Selic ficou inalterada em 7,25% para este ano. Por fim, as projeções para a taxa de câmbio em 2013 apontaram para discreta desvalorização, passando de R$ 2,08 o dólar para R$ 2,09, considerando a expectativa para final de período.

Relações intrincadas - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/01


As manobras contábeis feitas pelo governo brasileiro no fim do ano para tentar tapar o buraco que havia na formação do superávit primário, que serve para amortizar a dívida pública, envolvem os mesmos princípios de manipulação fiscal que vêm sendo adotados pelo Ministério da Fazenda desde a crise econômica internacional que teve início em 2007/2008. Mais uma vez o governo utilizou-se de bancos oficiais – Caixa Econômica Federal e BNDES – para, com a antecipação de dividendos ao Tesouro, cobrir parte do superávit que deveria ter sido poupado.
Apesar de só no mês de dezembro os dois bancos terem antecipado R$ 7 bilhões aos cofres do governo, o buraco continuava aberto e foi preciso utilizar pela primeira vez o Fundo Soberano, que transferiu para o tesouro mais R$ 12,4 bilhões. Na verdade, o governo não poupou esse dinheiro, apenas fez parecer contabilmente que o fizera, demonstrando que não está em condições de reduzir os gastos públicos.
O economista José Roberto R. Afonso, em artigo recente publicado na revista da Universidade Federal Fluminense (UFF) com base na sua tese de doutorado na UNICAMP, intitulado convenientemente “As intrincadas relações entre a política fiscal e creditícia no Brasil pós-2008”, demonstra como o BNDES e outros bancos públicos já vêm sendo utilizados em manobras fiscais para estimular a economia brasileira sem deixar registrado o aumento da dívida pública.
“A política fiscal brasileira em resposta à crise mundial foi tímida nos estímulos tradicionais, comparada à do resto do mundo, mas inovou ao conceder volumosos e crescentes empréstimos aos bancos públicos à custa da emissão de títulos governamentais”, explica Afonso, analisando “a forma peculiar” como passaram a interagir as políticas fiscal e creditícia no País, gerando “governo com um patamar alto de dívida (bruta) e uma carteira de crédito superior a dos maiores bancos do país, empresas cada vez mais líquidas e menos endividadas, e a taxa de investimento nacional que segue reduzida”.
Segundo o economista, ao contrário da grande maioria dos outros países, o Brasil não criou um novo programa de investimentos fixos governamentais a partir da crise de 2008, “apesar de ostentar das mais baixas taxas no mundo”. Nem mesmo reformas estruturais foram realizadas, mais uma vez destoando da tendência mundial recente de reestruturação dos sistemas tributários até os sociais, cujo caso mais emblemático é o da reforma da saúde pública nos Estados Unidos.
Esta atitude, ressalta o economista, contraria uma tradição nacional, pois o País enfrentou muitas crises no passado recente sempre promovendo mudanças estruturais, como foi o caso da desestatização no governo Fernando Henrique até um novo regime monetário e fiscal na segunda metade dos anos 90 do século passado. Em lugar de instrumentos fiscais tradicionais, pouco acionados na resposta do governo à crise mundial no Brasil, “outros menos conhecidos e analisados foram cruciais para a expansão do crédito que puxou a saída da recessão e moldou o crescimento posterior na economia brasileira”.
O mais importante foi a concessão de empréstimos pelo Tesouro a bancos públicos, custeados pela emissão de títulos governamentais. Segundo José Roberto Afonso, o crédito foi tão importante para a economia brasileira para sair da crise que se pode dizer que “o famoso tripé de política econômica (câmbio flutuante, metas de inflação e austeridade fiscal) virou um quatrilho (acrescido da expansão creditícia). Como no filme homônimo, tais pilares se misturam e interagem de forma intensa e permanente: um influencia o outro, mas, ao mesmo tempo, é pelos outros influenciado”.
Muito da retomada do crédito no país depois da crise foi liderada pelos bancos públicos, mas, para tanto, eles precisaram captar recursos excepcionalmente junto ao Tesouro Nacional, que, por sua vez, o fez à custa de expandir a dívida pública. Para o economista, o nível da dívida pública brasileira “é alto, muito acima da média dos países emergentes nos padrões internacionais, que contam a dívida bruta”.
Se esse quatrilho da política macroeconômica rendeu inegáveis resultados no curto prazo, por meio da sustentação e depois da forte expansão do consumo, e logrou sucesso em transformar recessão em crescimento acelerado, José Roberto Afonso destaca que ele “deixou, no entanto, novas armadilhas sem resolver antigos desafios como a baixa taxa de investimento, da economia e particularmente dos governos, e o elevado nível de endividamento público, no conceito internacional”.

A doutrina do "Local-Contentismo" - MARCOS TROYJO

FOLHA DE SP - 06/01


No momento em que a economia global tenta se recuperar, uma forte tendência ao "Conteúdo Local" mostra sua face


O mundo está menos plano. Neste instante em que a economia global tenta recuperar-se das crises financeiras de 2008 e 2011, uma forte tendência mostra sua face. Podemos chamá-la de "Local-Contentismo". Cada vez mais países vêm adotando práticas de política industrial amparadas na noção de "Conteúdo Local".

Na América Latina, o socialismo bolivariano ou o ultraliberalismo apresentaram nos últimos 20 anos ao menos uma característica semelhante. Não conceberam qualquer forma de política industrial. A tradução econômica do socialismo bolivariano tem sido a mera "estado-nacionalização" de ativos industriais. Combina um xenofobismo "além-América Latina" com o equivocado pressuposto de que a riqueza está nas instalações físicas, e não no know-how de pessoas e processos.

Ainda na América Latina, interpretou-se o Consenso de Washington como se o fluxo desimpedido de capitais levasse sempre a alocações "ótimas" também no setor manufatureiro. Formular políticas industriais seria algo "fora de moda". Aqueles países que adotaram mais organicamente essas diretrizes nos anos 90 experimentaram crises cambiais desestabilizantes e encolhimento de parques industriais.

No Brasil, o apagão de política industrial que se instalara desde os anos 80 foi interrompido apenas a partir de 2003. Seu principal componente: o Local-Contentismo. São marcantes as exigências de conteúdo local para a retomada de setores como indústria naval, software, semicondutores, eletroeletrônicos e outros. Já em âmbito mundial, a figura do mercado como instância "inteligente" para decisões industriais encontra-se em xeque. O Estado-Nação e os governos retomaram o status perdido em momentos de maior globalização.

Os EUA, o Japão e a Europa estão reformulando suas políticas de "Local-Contentismo". Nessa dinâmica, noções como a de "empresa-rede" -que espraia sua produção pelo mundo numa intricada combinação de logística, custos relativos e talentos- estão perdendo espaço para operações que se concentram num único mercado em que gozam dos benefícios de compras governamentais e outros incentivos "local-contentistas".

Mesmo a China, que nutriu seu crescimento à base da estratégia de "nação-comerciante", hoje seduz o mundo industrial com grandes contratos (em que o governo chinês, empresas e consumidores chineses são os compradores) desde que a atividade seja desenvolvida localmente, assim contratando mão de obra e gerando impostos na China.

Há claras diferenças entre "Local-Contentismo" e protecionismo tradicional. Ao passo que o segundo é marcado por escudos tarifários e quotas, o primeiro idolatra investimentos estrangeiros diretos e faz amplo uso do instrumento de compras governamentais.

O "Local-Contentismo" é também uma das formas com que os países buscam combater a hipercompetitividade chinesa. Eventuais perdas nos custos comparativos com congêneres chineses são compensadas pelos benefícios fiscais e de geração de empregos tornados possíveis por políticas "local-contentistas".

Para a economia global em seu conjunto, o "Local-Contentismo" representa perda de eficiência. Só se sustenta ao longo do tempo com margens de lucro artificialmente alimentadas em nome do investimento no aumento da competitividade. Assim, impactará negativamente a expansão do comércio internacional e as rodadas da OMC.

Para o Brasil, o "Local-Contentismo" só terá valido a pena a longo prazo se tiver gerado velozes ganhos de produtividade de modo que a indústria local harmonize sua capacidade internacional de competir.

O ano novo de Duda - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 06/01


Absolvido no julgamento do mensalão, o publicitário Duda Mendonça faz festa de Réveillon em sua mansão no litoral baiano, diz que 'tudo indica' que voltará a fazer campanhas e quer 'curtir o momento' em 2013


No jardim de sua propriedade de cerca de um milhão de metros quadrados em Taipus de Fora, na península de Maraú, no sul da Bahia, o publicitário Duda Mendonça comemorou a passagem do ano ao lado de seis de seus sete filhos, das três mulheres (as duas ex com seus maridos e a atual) e mais de 300 convidados. Entre eles, os advogados Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, e Luciano Feldens, que o defenderam no julgamento do mensalão, em que foi absolvido.

O baiano recebe o repórter Morris Kachani inicialmente no gazebo que fica no lado esquerdo da casa, na linha de 300 metros que dá de frente para as piscinas naturais que fazem a fama da região. A conversa só é interrompida pelo ir e vir de um dos dois helicópteros de Duda no heliponto.

O encontro começa com um café, evolui para um chope (Duda lembra que havia encomendado seis barris, mas já haviam acabado; vieram mais 12) e termina com champanhe Moët & Chandon, que ele abre à moda dos generais franceses -com um facão que faz voar o bico da garrafa, junto com a rolha.

Em um tour pela propriedade, Duda mostra os pirarucus importados da Amazônia que cria em um lago artificial, o horto com árvores nativas como o dendê, e a cachaça exclusiva envelhecida em carvalho, produzida e presenteada por Emílio Odebrecht. Conta que também tem cinco cavalos e duas vacas: "Para as crianças tirarem leite. Quem mora em São Paulo não faz ideia de o que é isso".

Algumas horas mais tarde aconteceria a festa de Réveillon, que teve como ponto alto o banho de champanhe dado pelos filhos em Duda, em Kakay e em Luciano, ao som da canção das vitórias de Ayrton Senna na Rede Globo. A banda do novo gênero musical arrocha universitário Kart Love animou a noite.

Os funcionários da casa, segundo Duda, participaram da festa como convidados. Ele conta que presenteia os que têm mais de dez anos de trabalho para a família com uma casa. "Já paguei umas dez", afirma.

Duda faz questão de exibir a tatuagem da letra "Ç" estilizado, no tórax. "É nossa marca registrada e está tatuada em todos meus filhos homens", diz. A cauda de seu helicóptero e canecos de chope também levam a espécie de monograma da família.

Quando a conversa envereda pelas campanhas políticas, o publicitário que criou o slogan do "Lula paz e amor" em 2002 levanta o que parece ser sua bandeira atual -a de que os custos precisam ser barateados, coibindo o caixa dois ou qualquer tipo de doação ilícita. "Fazer TV é muito caro. É preciso acabar com esse horrível formato do horário eleitoral. Deveria haver um debate semanal no horário nobre. A interferência do marketing diminuiria."

"O marqueteiro aumenta o potencial do candidato, mas não faz nenhum milagre. Você pode passar detalhes técnicos a ele, mas não ensina o cara a debater. Isso depende do repertório de cada pessoa. E o marqueteiro só conhece as coisas de forma superficial -a gente vende leite, cerveja, sabão em pó."

Em 2014, Duda acha que se Dilma Rousseff for candidata, será reeleita, em condições normais. "O governador Eduardo Campos [PSB-PE] é um candidato forte, mas Dilma demonstrou personalidade. E o povo, que é quem elege, quer é comida na mesa. Não tá nem aí para uma revista como a 'The Economist' [que criticou a política econômica brasileira]. Isso é conversa para intelectual."

Aos 68 anos se define politicamente como "mais de esquerda". "Hoje o eleitor é pragmático. Só quer saber qual voto pode melhorar sua vida. Não quer saber quem é mais ou menos correto, se é de direita ou esquerda."

Esse pensamento, segundo ele, faz com que hoje "você não encontre diferença entre os partidos. As alianças são feitas por interesses políticos". E quanto ao PT? "Quando chegou ao governo foi obrigado a cair na real. Aí, o discurso muda. Mas ninguém pode deixar de dizer que depois de Lula o Brasil melhorou", diz.

A certa altura o advogado Kakay, de óculos escuros e sunga vermelha, interrompe a conversa para lembrar que seu cliente está orientado a não falar sobre o julgamento do mensalão.

Duda e sua sócia Zilmar Fernandes foram acusados de evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Parte dos

R$ 11 milhões que os dois receberam pela campanha de Lula em 2002 foi paga em um paraíso fiscal.

Kakay assume as rédeas da conversa quando o tema é mensalão. E critica a transmissão do julgamento feita pela TV Justiça, ao vivo. "Nenhuma TV no mundo transmite um julgamento penal feito pela corte suprema. Essa superexposição precisa ser revista", diz.

Sobre a teoria do domínio do fato, citada no julgamento, o advogado brinca: "Com a ampliação de seu alcance, de fato faltou o domínio da teoria".

Para ele, o caso mostrou uma sobreposição de prioridades. "Na medida em que o STF ficou paralisado por cinco meses, por conta de um processo penal, outros julgamentos importantes acabaram sendo adiados, inclusive com réus presos."

Kakay dá o último gole em seu chope. Avisa que precisa ir ao encontro da mulher e de seu filho de sete anos que estão na praia. "A pior coisa do mensalão foi a Globo não ter ganho [o direito de transmitir] as Olimpíadas. Isso deu mais espaço para o julgamento", conclui, antes de sair.

Duda busca a garrafa de champanhe. Aliviado com a absolvição do STF, afirma que em 2013 "quer curtir o momento" e levar adiante a agência Blackninja em parceria com o sócio, o sociólogo Antônio Lavareda.

"Tudo indica", diz, que voltará a fazer campanha política em 2014. Afirma que "pode até ser" junto com João Santana (marqueteiro das campanhas de Dilma e Fernando Haddad), com quem já trabalhou em parceria. "Somos complementares."

Quem quiser tê-lo no comando de uma campanha terá que desembolsar muito dinheiro. "Sou um cara caro. Mas ninguém pode se enganar: quando aparece que o custo de uma campanha foi de 20 ou 30 milhões, é preciso lembrar que só 10% ou 15% vão para o marqueteiro."

Com as contas bloqueadas há seis anos no Brasil, Duda abriu fronteiras e hoje atende a maior rede varejista portuguesa, o Pingo Doce. Recentemente, inaugurou uma agência na Polônia, por conta da expansão das atividades do grupo português. "Criar campanha em polonês é loucura. Na música, a métrica é completamente diferente, imagine rimar três cês com acento", ri.

"No final você percebe que o mundo é igual e o ser humano quer as mesmas coisas em todos os cantos."

Pipoquices - HUMBERTO WERNECK


O Estado de S.Paulo - 06/01


Certeiro no uso das palavras ao compor seus versos, meu amigo Pipoca (preservemos sua identidade por detrás do apelido de infância, pois é homem recatado) se atrapalha todo quando vai manejá-las na conversação. Quer dizer uma coisa e sai outra. Para você ter uma ideia: ao me abraçar, emocionado, no dia do meu casamento, limitou-se a um monossílabo carregado de involuntário mau agouro:

- Tchau!

***

Em Paris, numa roda de jovens casais, o Pipoca, revoltado, chegou contando a desfeita de que fora vítima minutos antes, da parte de um nativo de maus bofes, sem que tivesse podido responder, já que além de tímido lhe falta domínio da língua francesa. Não, sejamos justos: fala francês fluentemente (ele vai adorar a acidental aliteração), só que ninguém entende. Naquele episódio, nem isso, pois a grosseria congelou seu rarefeito vocabulário. Pipoca só foi estourar ali entre os amigos. Suprassumo da delicadeza, pediu: "Fechem os olhos, meninas!" - e, no português mais cru, entornou o caminhão de palavrões que em vernáculo não pudera endereçar ao agressor.

***

Em outra roda, majoritariamente francesa, o poeta aventurou-se a contar o que acabara de presenciar no metrô parisiense: um velho, surtado, baixou as calças e se pôs a chacoalhar os balangandãs. Como ao narrador sobrasse decoro e faltasse munição verbal, ninguém entendeu o que se passara. Tentou esclarecer, sem perder a finura jamais: o camarada tinha mostrado tous ses documents, sim, seus documentos, ses papiers - e aí a coisa se complicou de vez: seria como dizer, no Brasil, que o peladão mostrou o RG, o CPF, a carteira de motorista... Só a presença de um compatriota bilíngue pôde conferir sentido à narrativa pipocal.

***

Na cidade onde morava, no sul da França, meteu-se ele um dia a preparar para os amigos, de variadas nacionalidades, o que anunciou, aliás num verso alexandrino, como sendo "a joia negra da cozinha brasileira". Seus dotes culinários, a bem da verdade, iam pouco além dos ovos mexidos, o que de forma alguma lhe pareceu constituir problema. Problema, esse sim, foi achar os pertences da feijoada, a começar pelo feijão preto. Vá lá, deu de ombros, e, renunciando à negritude da joia, mandou embrulhar os grãos graúdos e branquelos docassoulet. Paio também não havia, nem lombo defumado, muito menos carne seca (causou espécie ao pedir "viande sèche"). Couve e pimenta malagueta, então...

Você pode imaginar o desastre que foi a pálida feijoada do Pipoca, a partir do instante em que ele irrompeu no recinto com um formidando e fumarento caldeirão, evocador das tragicômicas bodas de Dom Ratão. Servidos os pratos - a que não faltou, como sucedâneo da malagueta, uma pimenta vietnamita só comparável, em poder de fogo, ao napalm que os americanos despejavam sobre os vietcongues -, baixou entre os comensais um silêncio ainda mais espesso que o conteúdo do caldeirão. Na tentativa de deixá-lo à vontade, a dona da casa teve a infelicidade de louvar a feïjoadá brésilienne do Pipoca, o que, por cima do orgulho de chef, lhe feriu brios nacionalistas:

- Não, madame, isso aqui não tem nada a ver, lá é totalmente diferente - tartamudeou ele, acrescentando ao desastre o ingrediente que faltava.

***

Em outra ocasião, morando ainda na casa dos pais, foi despertado com a notícia, ao telefone, da morte de um amigo da família, e por pouco não ficou sem palavras. Antes tivesse ficado, pois a única que lhe veio aos lábios foi:

- Oba!

***

E houve também o dia em que, num encontro casual, ele soube da morte do pai de um amigo.

- Não me diga! Eu nem sabia que ele estava doente!

- Não estava - contou o outro -, mas veio uma pneumonia e...

- Ah - respirou o Pipoca -, ainda bem que não foi nada grave!