sexta-feira, agosto 12, 2011
CELSO MING - Câmbio atrelado
Câmbio atrelado
CELSO MING
O ESTADÃO - 12/08/11
Uma das moedas que mais se fortaleceram em relação ao dólar e ao euro é o franco suíço. Apenas em agosto, saltou 3,1%, e ao longo deste ano, 18,5%.
Apesar das fortes reclamações do ministro da Fazenda, Guido Mantega, o real não foi tão seriamente atingido na tal guerra cambial como o franco suíço. Em agosto, desvalorizou-se 4,1%, e, só em 2011, subiu 2,8% (veja o gráfico a seguir).
Autoridades suíças se preocupam com a forte valorização do franco, que tira competitividade do produto de exportação. Já levaram o Banco Nacional da Suíça (banco central) a intervir no mercado com compra de euros, para elevar a oferta da moeda e neutralizar, em parte, a escalada das cotações. Como isso tem sido insuficiente, a proposta agora é atrelar o franco ao euro. Se for assim, o câmbio na Suíça deixará de ser flutuante, passará a ser fixo.
É o que a China faz há anos na sua política cambial. Não importa o que aconteça com o dólar, o yuan vai junto, como barquinho amarrado ao navio. É o que garante a competitividade do produto chinês de exportação. Mesmo diante da desvalorização do dólar no câmbio internacional, a produção não fica mais cara em dólares pois sua cotação não muda. Permanece em torno de 6,4 yuans por dólar.
Se essa política deu certo na China e se é o que pretende a ortodoxa Suíça, por que o Brasil não poderia fazer o mesmo?
Não basta providenciar essa amarração por decreto ou canetada. Tomada a decisão, é preciso que o banco central defina a cotação que pretende defender no mercado e, depois, comprar moeda estrangeira sempre que a cotação tender a baixar; ou vender quando tender a subir.
A China não emite moeda para fazer esse jogo por contar com uma impressionante poupança interna, cerca de 51% da renda média da população. O chinês poupa mais da metade do seu salário, deposita nos bancos e eles a recolhem ao Banco do Povo da China (banco central). Essa munição é usada para comprar os dólares que provoquem alta da cotação do yuan.
A Suíça pode, em princípio, providenciar uma cotação atrelada ao euro (euro peg), pois possui uma moeda forte. Poderá usar parte de suas sobras orçamentárias e de francos emitidos. Mas não poderá abusar das emissões porque provocariam inflação. Por isso, as autoridades afirmam que essa mudança na sua política cambial será somente temporária. O problema é que a saída ficaria muito difícil.
Com baixo nível de poupança (17% do PIB), o Banco Central do Brasil teria um estreito campo de manobra se o foco fosse garantir o atrelamento do real ao dólar. É verdade que poderia radicalizar o que já faz hoje, com sua política de ampliação de reservas (câmbio flutuante sujo): poderia emitir reais para comprar dólares excedentes e, depois, retirá-los do mercado com vendas de Títulos do Tesouro Nacional. Mas isso elevaria substancialmente a dívida bruta se o dólar se enfraquecer demais. Para evitar o problema, o governo teria de ter uma disciplina fiscal (redução de despesas públicas) muito mais firme.
O risco maior seria o jogo virar e o mercado global apostar contra o real. Isso, se houvesse uma forte saída de moeda estrangeira. Assim, para sustentar o câmbio fixo, o Banco Central teria de vender reservas. E o atual colchão de US$ 350 bilhões.
O gráfico traz o comportamento das cotações do ouro a partir de julho. Subiram 47,3% no período de 12 meses terminado nesta quinta-feira; 24,3% em 2011 (até esta quinta) e 8,7% apenas nos primeiros nove dias úteis de agosto. Mas, nesta quinta-feira, começaram a baquear: caíram 1,5%.
Tempo de férias. Cairão mais as cotações do ouro caso haja mais confiança na obtenção de uma solução para a crise dos grandes endividados da área do euro. Porém a falta de iniciativa dos dirigentes políticos, alguns deles em férias, dá pouca esperança de uma saída rápida e consistente.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
Falta farmacêutico no varejo em consolidação, diz setor
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 12/08/11
Em tramitação no Senado, um projeto de lei para reduzir a carga horária de farmacêuticos pode pôr em risco a saúde do varejo de farmácias, que está em processo de consolidação no país, segundo a Abrafarma (associação de redes de farmácias e drogarias).
Os profissionais, cuja presença nas lojas é obrigatória pela legislação, já são escassos no mercado, afirma Sérgio Barreto, presidente-executivo da entidade.
Uma diminuição de 44 horas para 30 horas por semana agravaria a situação e acarretaria elevação da folha de pagamento, de acordo com a Abrafarma.
"Inviabilizaria o custo. O reflexo seria maior para farmácias pequenas e médias."
O impacto econômico para estabelecimentos de menor porte tem relevância em um momento de consolidação deste mercado, em que grandes redes se unem ou compram menores.
Com as atuais 44 horas semanais, o mercado dispõe de 101.417 profissionais, mas precisaria de 265.574.
Se a carga horária for reduzida, a Abrafarma estima que serão necessários 307.624 farmacêuticos.
Para a Fenafar (federação de farmacêuticos), "uma profissão da área da saúde, que lida com pacientes, precisa estar em boas condições de repouso".
"Eles alegam que faltam profissionais, mas o problema é que há estabelecimentos demais", diz Célia Chaves, presidente da entidade. O número de profissionais, segundo ela, supera 160 mil hoje.
MENOR RISCO DE AVC
A Bayer investirá € 12 milhões (cerca de R$ 28 milhões) no Brasil para a formalização de acordos com centros de pesquisa e construção de instalações.
O novo prédio da companhia, em São Paulo, abrigará 200 profissionais voltados para o desenvolvimento de pesquisas clínicas.
"Queremos desenvolver um número maior de remédios no Brasil. A medicina evoluiu muito no país nos últimos anos", afirma o vice-presidente global da empresa da área cardiovascular, Frank Misselwitz.
A companhia acaba de divulgar pesquisa sobre seu anticoagulante Xarelto.
Após analisar mais de 14 mil casos, a Bayer concluiu que o remédio diminui em 21% o risco de AVC (Acidente Vascular Cerebral) em portadores de fibrilação atrial, um tipo de arritmia cardíaca. A empresa espera aprovação da Anvisa para que o medicamento, já utilizado na prevenção de tromboembolismo em cirurgias ortopédicas, também seja vendido sob a nova indicação.
TI PARA O GOVERNO
A fabricante de softwares Hildebrando Brasil, do grupo mexicano Telmex, do bilionário Carlos Slim, investirá R$ 20 milhões para se expandir no país.
A companhia, criada há um ano, já tem equipes no Rio de Janeiro e em São Paulo, onde a unidade foi aberta neste ano com investimento de R$ 6 milhões.
Para 2012, a empresa deve abrir escritórios em Brasília, Belo Horizonte e em um Estado da região Sul.
"Nossa próxima filial será em Brasília devido ao mercado governamental. Cogitamos comprar uma empresa local, então o investimento deve ser superior ao de São Paulo", diz o presidente da Hildebrando Brasil, Mário Rachid.
Até o final de novembro, a companhia espera obter uma certificação para poder participar de concorrências feitas pelo governo.
INFRA CHINESA
O HSBC recebe hoje 40 representantes de grandes companhias chinesas das áreas de telecomunicações e infraestrutura ferroviária, como a TCl Corporation e a China Railway Construction. Segundo o banco, estão interessadas em investir no país. Em 2010, o HSBC financiou US$ 27,5 bilhões ao comércio exterior e a China representou 20% das transações.
QUÍMICO NA BALANÇA
A importação de produtos químicos continua em alta, com US$ 3,7 bilhões em julho, segundo a Abiquim (associação do setor).
A exportação foi de US$ 1,6 bilhão, alta de 46% ante o mesmo mês de 2010. Nos últimos 12 meses, o deficit supera US$ 23,8 bilhões.
Os produtos mais importados foram os intermediários para fertilizantes.
Voo rasante A Gol abriu nesta semana uma loja no bairro de São Mateus, na zona leste da cidade de São Paulo. A inauguração faz parte da estratégia da companhia de ter unidades em regiões com menor poder aquisitivo.
Tonelada... A Gerdau fornece aço cortado e dobrado para três projetos de usinas eólicas no país, o parque eólico Mangue Seco, em Guamaré (RN); o Santa Clara, em Parazinho (RN); e o Cerro Chato, em Santana do Livramento (RS).
...de vento Todas as obras em andamento são tocadas pela Wobben, indústria de Sorocaba (SP) que é responsável pela construção dos aerogeradores. Juntos, os projetos representam mais de 10,5 mil toneladas de aço.
com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e VITOR SION
VINÍCIUS TORRES FREIRE - A crise oferece um presente
A crise oferece um presente
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 12/08/11
Lerdeza na economia do mundo rico permite ao Brasil baixar inflação e juros com menos custoSERIA CONVENIENTE o governo de Dilma Rousseff explicar com clareza como pretende reagir à recaída do mundo rico no tumulto econômico.
Supõe-se, assim, que a presidente e seus economistas já saibam como reagir pelo menos no caso do prognóstico ora mais provável, de quase estagnação nos EUA e na Europa. Isto é, excluídas as hipóteses de recessão ou colapso à la 2008.
O governo, porém, sabe, mesmo, como vai reagir à neocrise?
Em público, a mensagem do governo é um pouco confusa.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem repetido quase diariamente que vai controlar o gasto público e que o "fiscal terá surpresas positivas" mês a mês.
O ministro parece dizer, pois, que o governo não recorreria a aumento extra de gasto a fim de conter eventual redução do crescimento, reflexo da leseira euroamericana.
Gente do governo, próxima de Dilma, vaza para nós, jornalistas, que a presidente tem dito a seus ministros e a líderes no Congresso (existem?) que quer segurar despesas e passar imagem de austeridade.
Porém, a presidente tem repetido, de modo algo estereotipado, a campanha de Lula na crise de 2008: "Não vamos parar de consumir".
Diz ainda que não aceita que a crise produza recessão no Brasil. Na verdade, tem dito em público e nas internas que gostaria de manter o crescimento em pelo menos 4% ao ano, em 2011 e em 2012.
Talvez seja possível manter o crescimento em 4%, por aí. Mas ao custo do aumento de desequilíbrios que já perturbam a nossa economia; ao custo de perder a oportunidade de reduzir a taxa de juros e sair da crise com as contas públicas e a economia mais em ordem.
A taxa básica de juros no Brasil está alta (embora menor que logo antes do colapso de 2008, em termos reais -descontada a inflação). Ficaria alta até o final do ano que vem, provavelmente, pois a economia se desacelerava muito devagar e a inflação mal vinha se movendo.
Mas o Brasil acaba de ganhar uma recessão de crescimento, uma desaceleração da atividade econômica -ou melhor, é provável que vá ganhar esse "presente".
Por que "presente"? Porque a desaceleração do crescimento necessária para derrubar a inflação talvez não careça de taxas de juros altas por muito mais tempo.
Taxa de juro menor (Selic) implica redução da despesa adicional com juros, melhoria do balanço nominal do setor público (menos deficit) e menos transferência de renda indesejável (juros altos transferem renda para quem está mais bem de vida e tem para emprestar, óbvio).
Para "merecer o presente", porém, o governo tem de abrir mão da obsessão de manter o crescimento a 4% a qualquer custo (no curto prazo). Não pode aumentar o gasto, empurrar os bancos estatais a emprestar mais. Por falar nisso, seria adequado fazer com que o BNDES segurasse seus empréstimos.
Parece esquisito pedir que o governo tome atitudes que permitam ao país crescer menos. Não é. Trata-se apenas de pedir ao doente que repouse um pouco, enquanto está febril (com a infecção da inflação).
O repouso pode permitir recuperação mais rápida, talvez reduzindo a quantidade de remédio que o doente deve tomar. Enfim, podemos sair da crise com uma taxa de juros mais baixa e as contas em ordem.
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - Para além do vai e vem das bolsas
Para além do vai e vem das bolsas
LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
FOLHA DE SP - 12/08/11
Incríveis as oscilações de preços nos mercados financeiros nas últimas duas semanas. Depois de um longo movimento de quedas diárias, e que destruiu trilhões de dólares de valor nos três cantos do mundo, estamos agora vivendo um vai e vem insensato. Em um dia os preços das ações - no Brasil e no mundo - caem mais de 4%; no dia seguinte, sobem com a mesma intensidade, para em seguida voltarem a cair forte.
Essa mesma gangorra acontece com a cotação do franco suíço, do iene japonês e do ouro, ativos vistos pelo mercado como mais seguros do que o dólar americano. A moeda suíça - uma das mais estáveis do mundo - chegou a se valorizar mais de 5% em relação ao dólar em um só dia. Mesmo os títulos emitidos pelo Tesouro americano tiveram seus preços flutuando diariamente em níveis também muito acima do padrão histórico. Isso apesar de serem eles os títulos financeiros de maior liquidez em circulação no mundo e, portanto, difíceis de serem manipulados pelos especuladores.
Vou usar um derivativo que mede a variação dos preços das ações na Bolsa de Nova Iorque - o chamado índice VIX - para dar ao leitor uma ordem de grandeza da loucura deste período. O VIX, que em tempos normais vale 15 pontos, chegou a mais de 40 nesta semana.
As perguntas que chegam hoje a todos os que ocupam um espaço de reflexão sobre economia e finanças são quase sempre as mesmas: como explicar esse estado de irracionalidade coletiva, e do que depende a volta de um comportamento mais previsível aos mercados?
A causa mais importante de toda essa volatilidade é, sem dúvida nenhuma, a volta do risco de uma nova recessão nos Estados Unidos. Esta ameaça - que, por vários meses, parecia afastada - voltou com força a partir da divulgação do crescimento do PIB americano no segundo trimestre deste ano e, principalmente, as revisões dos números relativos aos trimestres anteriores.
As estatísticas mostraram a todos duas verdades explosivas: a recessão em 2009 foi mais profunda do que medida anteriormente e o crescimento no início deste ano foi muitíssimo mais fraco do que o que havia sido medido pelo governo americano e por instituições privadas há alguns meses.
O quase pânico que se instalou nos mercados após a divulgação desses dados deveu-se ao reconhecimento de que as medidas que vinham sendo tomadas pelo governo e pelo Fed não estavam sendo suficientes para colocar a maior economia do mundo de volta à rota do crescimento sustentado. Tinha havido uma recuperação ao longo de 2010, mas os números agora revelavam que isso tinha sido apenas um espasmo de crescimento.
Além disso, mesmo os mais fervorosos economistas keynesianos, como eu, sabiam que não existem novos medicamentos a serem ministrados ao paciente. E todos sentiam a frustração de reconhecer que os ensinamentos e os conselhos do velho mestre não estavam funcionando desta vez.
No meio dessa decepção, a crise criada pelo impasse na renegociação do teto da dívida pública americana funcionou como elemento adicional no imaginário já pessimista dos mercados. A recuperação da economia dos Estados Unidos, todos sabem, é um elemento fundamental para que a Europa possa administrar sua própria crise fiscal. Na medida em que a confiança nesse cenário desaparecia e se transformava em um fantasma recessivo das piores proporções, a crise europeia mudava de dimensão.
Com esse futuro negro à frente, o mercado passou a criar seus próprios monstros. O maior deles foi o mito da fuga dos investidores tanto dos títulos emitidos pelo governo americano quanto do dólar. Felizmente, essa ameaça durou apenas um fim de semana, pois na segunda-feira seguinte à decisão da agência Standard & Poor’s os investidores corriam para comprar esses papéis e a moeda americana.
Com os mercados mais calmos, e bem mais baratos, creio que teremos um período de maior racionalidade à espera de novos dados econômicos que mostrem a economia ainda crescendo e ao início de um entendimento no Congresso americano sobre a questão fiscal nos Estados Unidos.
ELIANE CANTANHÊDE - Rebelião
Rebelião
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 12/08/11
BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff está sob fogo cruzado. O tiroteio vem de fora, com a crise econômica que agora ameaça o "triplo A" da França, e de dentro, com a insubordinação e as ameaças da base aliada no Congresso.
Ela tenta manter o foco na questão econômica, que não permite otimismo, apesar do refresco de ontem: reequilíbrio das Bolsas e anúncio de reservas internacionais de US$ 351 bilhões, mais de 60% acima das da crise passada.
Mas Dilma não pode se descuidar do flanco interno. A CPI, que seria só no Senado e só sobre a roubalheira no Ministério dos Transportes, ganha duplo upgrade: a nova coleta de assinaturas é para uma CPI mista (Câmara e Senado) e sobre a corrupção nos ministérios em geral. Ou seja: sobre o governo.
A ameaça, explícita na oposição (PSDB, PSOL, DEM e PPS), é dissimulada nos partidos aliados (PMDB, PR, PTB, PP e PSC), que fazem "operação padrão" no Congresso Nacional, contra o PT e o governo. Reclamam um pouco da não liberação de emendas e muito da "faxina ética" em ministérios. Sentem-se "vítimas".
Não bastasse, começa uma nova frente de batalha: Dilma mandou, e o Ministério da Justiça resolveu bater de frente com a Polícia Federal, questionando as dezenas de prisões no Turismo e a volta ostensiva de algemas, com altos funcionários sendo fotografados algemados, apesar de serem ainda suspeitos.
O argumento do Planalto e da Justiça é que a prática contraria os limites estabelecidos pelo Supremo em 2008 (algemas, só com risco de fuga ou resistência à prisão).
Dilma disse que está "tranquila" com a queda de seis pontos de popularidade na pesquisa CNI/Ibope divulgada anteontem, mas não deveria estar tanto. Até porque a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, parece sozinha ao dar ordem unida às tropas aliadas. E ela é aquela, sim, que o ex-ministro Jobim chamou de "fraquinha".
CLÁUDIO HUMBERTO
“O sr. Dirceu pode ficar tranquilo que a presidente terá total apoio”
SENADOR PEDRO SIMON (PMDB) SOBRE O TEMOR DO EX-MINISTRO QUANTO AO FUTURO DE DILMA
REBELIÃO DA BASE ALIADA PARALISA O CONGRESSO
O Congresso ameaça não votar projetos relevantes até o final do ano. A rebelião é da base governista e a oposição, sempre inerte, assiste a confusão de camarote. O clima é tenso no Senado, mas na Câmara o problema é mais grave. Deputados ameaçam votar apenas matérias que o governo não deseja: a regulamentação da Emenda 29 (Saúde) e a PEC 300, que fixa piso salarial nacional em R$ 3 mil para policiais e bombeiros. Com aliados assim, Dilma não precisa de
oposição.
SEMPRE ELAS
A rebelião da base aliada é provocada pela retenção das “emendas parlamentares”, por ordem de Dilma, embora previstas no Orçamento.
UM GOZADOR
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), fez um cronograma de votações que nem ele levou a sério. Maia e Dilma não se bicam.
MUY AMIGO
A situação do governo está tão delicada que é o próprio PMDB, maior partido aliado, quem obstrui a pauta no plenário.
RESQUÍCIOS
Parlamentar governista acha que vai mal a relação de Dilma com o Congresso: “Ela está mais parecida com Collor do que com Lula...”
CONCURSO: APROVADOS PROCESSAM GOVERNO DO RIO
Cerca de 160 pessoas lesadas em concurso para inspetor penitenciário no Estado do Rio entraram na Justiça contra o governo. Aprovados em exame de 2006 pela Secretaria Penitenciária, pelo menos 30 pediram demissão de seus empregos para ingressar na carreira, mas não foram convocados. A decisão do Supremo Tribunal Federal, que determina nomeação de aprovados em concurso, reforça a ação do grupo.
BARRADOS
Antes que os 160 aprovados cumprissem a etapa final, na Escola de Gestão Penitenciária no Rio, a Justiça impediu a prorrogação.
(IN) JUSTIÇA
A Procuradoria do Estado foi desfavorável à terceira prorrogação. Resultado: só os primeiros 270 aprovados foram chamados.
FUNDO PERDIDO
Cada candidato pagou R$ 80 só na inscrição. Muitos são do interior e gastaram com passagem e hospedagem para a fase de treinamento.
DIÁLOGO DE SURDOS
O líder do governo no Congresso, deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS), anda apreensivo com o clima de beligerância na base aliada. Exausto, desabafou: “Não consigo conversar com ninguém”.
MANDA QUEM PODE
Se a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) não conseguir liberar as emendas parlamentares, como impõem os líderes dos partidos, a pauta será MP-Manda quem Pode ou Medidas Provisórias.
SEM TRANSPONDER
O novo diretor-geral da Anac, Marcelo Guaranys. Ele não sabe a quem obedece: Solange Vieira, ex-diretora, ou Beto Vasconcelos, subchefe da Casa Civil. Recebe ordens dos dois, às vezes conflitantes.
ATESTADO
O jornalista Carlos Henrique, que foi secretário de Imprensa da Presidência da República, revela que é eleitor do ex-deputado Colbert Martins, preso na Operação Voucher, da PF, e acredita em sua inocência porque sempre o teve na conta de um sujeito decente.
NO ESTALEIRO
O Sindicato dos Petroleiros do Rio está de olho na restauração da Plataforma P-10, no estaleiro Mac Laren. A Petrobras impede os sindicalistas de conferirem o reparo no casco. Eles ameaçam retaliar.
CEDRAZ ESCLARECE
Em nota, Cedraz & Tourinho Dantas Advogados nega que o sócio Tiago Cedraz atue no TCU, e informa que o escritório teve acesso ao processo do cliente Ibrasi, investigado na Operação Voucher, após solicitá-lo formalmente. Detalhe: o Ibrasi foi derrotado no TCU.
ORDEM QUESTIONADA
O presidente interino da Codeplan (empresa pública de planejamento do governo do DF), Julio Miragaia, convocou assembleia dos funcionários, nesta sexta, para se rebelar contra decreto do governador Agnelo Queiroz determinando a mudança de sede do órgão.
PAES REZA COM
O PRB De olho na reeleição, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), criou uma coordenadoria para tocar o programa Cimento Social, concebido pelo senador Marcelo Crivella (PRB), para construir casas populares em vinte favelas. Crivella indicou Fernando Meira para o cargo.
PERGUNTA INDISCRETA
Será que Lula se apressou a dar conselhos para Dilma antes que ela procurasse FHC?
PODER SEM PUDOR
UM JOBIM DESAFINADO
O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) estava certa vez no Conselho de Ética espiando uma tevê que transmitia o julgamento do Supremo Tribunal Federal, no qual o ex-ministro José Dirceu foi derrotado. Mas não resistiu ao ver o então presidente do STF, ministro Nelson Jobim, votar a favor do ex-chefe da Casa Civil do governo Lula:
– É o único Jobim que sai do tom...
REBELIÃO DA BASE ALIADA PARALISA O CONGRESSO
oposição.
SEMPRE ELAS
A rebelião da base aliada é provocada pela retenção das “emendas parlamentares”, por ordem de Dilma, embora previstas no Orçamento.
UM GOZADOR
O presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), fez um cronograma de votações que nem ele levou a sério. Maia e Dilma não se bicam.
A situação do governo está tão delicada que é o próprio PMDB, maior partido aliado, quem obstrui a pauta no plenário.
RESQUÍCIOS
Parlamentar governista acha que vai mal a relação de Dilma com o Congresso: “Ela está mais parecida com Collor do que com Lula...”
CONCURSO: APROVADOS PROCESSAM GOVERNO DO RIO
BARRADOS
Antes que os 160 aprovados cumprissem a etapa final, na Escola de Gestão Penitenciária no Rio, a Justiça impediu a prorrogação.
(IN) JUSTIÇA
A Procuradoria do Estado foi desfavorável à terceira prorrogação. Resultado: só os primeiros 270 aprovados foram chamados.
FUNDO PERDIDO
Cada candidato pagou R$ 80 só na inscrição. Muitos são do interior e gastaram com passagem e hospedagem para a fase de treinamento.
DIÁLOGO DE SURDOS
O líder do governo no Congresso, deputado Mendes Ribeiro (PMDB-RS), anda apreensivo com o clima de beligerância na base aliada. Exausto, desabafou: “Não consigo conversar com ninguém”.
MANDA QUEM PODE
Se a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) não conseguir liberar as emendas parlamentares, como impõem os líderes dos partidos, a pauta será MP-Manda quem Pode ou Medidas Provisórias.
SEM TRANSPONDER
O novo diretor-geral da Anac, Marcelo Guaranys. Ele não sabe a quem obedece: Solange Vieira, ex-diretora, ou Beto Vasconcelos, subchefe da Casa Civil. Recebe ordens dos dois, às vezes conflitantes.
ATESTADO
O jornalista Carlos Henrique, que foi secretário de Imprensa da Presidência da República, revela que é eleitor do ex-deputado Colbert Martins, preso na Operação Voucher, da PF, e acredita em sua inocência porque sempre o teve na conta de um sujeito decente.
NO ESTALEIRO
O Sindicato dos Petroleiros do Rio está de olho na restauração da Plataforma P-10, no estaleiro Mac Laren. A Petrobras impede os sindicalistas de conferirem o reparo no casco. Eles ameaçam retaliar.
CEDRAZ ESCLARECE
Em nota, Cedraz & Tourinho Dantas Advogados nega que o sócio Tiago Cedraz atue no TCU, e informa que o escritório teve acesso ao processo do cliente Ibrasi, investigado na Operação Voucher, após solicitá-lo formalmente. Detalhe: o Ibrasi foi derrotado no TCU.
ORDEM QUESTIONADA
O presidente interino da Codeplan (empresa pública de planejamento do governo do DF), Julio Miragaia, convocou assembleia dos funcionários, nesta sexta, para se rebelar contra decreto do governador Agnelo Queiroz determinando a mudança de sede do órgão.
PAES REZA COM
O PRB De olho na reeleição, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), criou uma coordenadoria para tocar o programa Cimento Social, concebido pelo senador Marcelo Crivella (PRB), para construir casas populares em vinte favelas. Crivella indicou Fernando Meira para o cargo.
PERGUNTA INDISCRETA
Será que Lula se apressou a dar conselhos para Dilma antes que ela procurasse FHC?
PODER SEM PUDOR
UM JOBIM DESAFINADO
O deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) estava certa vez no Conselho de Ética espiando uma tevê que transmitia o julgamento do Supremo Tribunal Federal, no qual o ex-ministro José Dirceu foi derrotado. Mas não resistiu ao ver o então presidente do STF, ministro Nelson Jobim, votar a favor do ex-chefe da Casa Civil do governo Lula:
– É o único Jobim que sai do tom...
SEXTA NOS JORNAIS
- Globo: Toque de recolher virtual - Contra distúrbios, Inglaterra quer censurar redes sociais
- Folha: Dilma congelará em 2012 os gastos não obrigatórios
- Estadão: Deputada do PMDB recebeu dinheiro desviado do Turismo
- Correio: Oitenta mil concursados com vaga garantida
- Valor: Varejo olha crise com cautela e revê estratégias
- Estado de Minas: A farra continua
- Jornal do Commercio: Garantia para concursado
- Zero Hora: PMDB ameaça boicotar Dilma no Congresso
quinta-feira, agosto 11, 2011
CELSO ARNALDO ARAÚJO - Como é doce ser corrupto no Brasil
Como é doce ser corrupto no Brasil
CELSO ARNALDO ARAÚJO
REVISTA VEJA ONLINE
A corrupção no Brasil é o melhor negócio do mundo. Muito mais lucrativo do que tráfico de drogas, jogo, contrabando — e com uma pequena fração do risco inerente a esses delitos. Não precisa da sombra, do subterrâneo, da clandestinidade, como todos esses. O negócio da corrupção é idealizado e patrocinado por agentes legítimos do governo e coonestado por políticos eleitos pelo povo — ou vice-versa. E malversa um dinheiro que está devidamente contabilizado e destinado a esse fim.
Lá bem para trás, esse dinheiro foi aliviado de nosso bolso na forma de taxas e impostos — mas já nos habituamos à mão leve do estado e perdemos a noção desta cadeia alimentar: os corruptos se fartam com o dinheiro que recolhemos compulsoriamente aos cofres públicos, fruto de nosso trabalho.
Claro que um esquema de corrupção sempre pode ser desbaratado, mas não por falhas intrínsecas do sistema, que é perfeito — o único flanco é o vazamento interno, como deve ter ocorrido agora no desmantelamento da quadrilha que não perdia viagem no Ministério do Turismo.
A implosão de um modelo de roubalheira pode dar algum constrangimento inicial aos envolvidos, às vezes um par de algemas um tanto apertadas, mas cadeia de verdade não dá – podendo-se também manter o produto do desvio quando a onda passar. Basta desenvolver um modus operandi bem fechadinho – mesmo que bem tosco.
A criação de uma ONG fantasma no Amapá para treinar pessoas a dobrar guardanapos parecia mais segura do que fazer xixi, sem ser pego pela polícia ambiental islandesa, na borda do vulcão Eyjafjallajokull. Há oito anos, o PT municia com verbas vultosas um número incalculável de onguinhas camaradas ligadas ao Ministério do Turismo e às outras pastas – mais uma, menos uma, não faria diferença nem chamaria a atenção. E se chamasse, sempre haveria Sarney, que aluga o estado e é tido como bom inquilino, pagando sempre em dia – apesar dos 80 anos, ainda é dono de uma técnica insuperável de limpeza de cenários de crimes, como o personagerm de Harvey Keitel em “Pulp Fiction”.
A transferência de know-how é completa. A pequena mise-en-scène necessária à prática fluente do delito amapaense foi dirigida pelo próprio secretário executivo do Ministério, Frederico Silva Costa, que, numa daquelas piadas prontas que fazem o dia do José Simão, se encarregou de transmitir a instrução básica ao assecla fundador da ONG ladra:
“O importante é a fachada”, disparou ele, em gravação autorizada pela Justiça.
Não foi uma recomendação metafórica, alegórica – mas real. A fachada – no caso, a frente física da sede da ONG milionária incapaz de capacitar alguém a servir um copo de água –, é uma questão muito importante, como diria a presidente Dilma. Algo deu errado e a fachada caiu. Bom para nós. Mas e o dinheiro?
O governo Lula criou a mulher e, justiça seja feita, não criou a corrupção. Apenas aperfeiçoou-a, com a decisiva contribuição dos profissionais dos partidos aliados. Em governos anteriores — e aqui mesmo em São Paulo há toda uma malha viária construída dentro desse parâmetro – partia-se de um projeto já definido, uma nova avenida, por exemplo, e a ele se agregava a corrupção, na forma clássica do superfaturamento de custos. Isto é, o projeto real sempre precedia o furto – e, bem ou mal, era concretizado, na forma de um viaduto, uma ponte, um recapeamento, um lote de merendas escolares. Hoje, ainda se desviam bilhões com esse modus roubandi clássico, em todos os ministérios.
Mas o lulopetismo aperfeiçoou, no negócio da corrupção, uma modalidade extraordinariamente mais fácil, ainda mais lucrativa e muito mais cínica e perversa. Hoje, a ideia do roubo preexiste à concepcção do projeto – e este nem precisa se materializar, como no caso da ONG do Amapá que capacitou servidores públicos para o roubo de cofres públicos.
Ou seja: é a corrupção ectoplasmática. Rouba-se o que não existe – além de dinheiro. E de Pedro Novais.
AUGUSTO NUNES - Com o loteamento dos ministérios, a aliança governista criou o mensalão que substitui doações em dinheiro pela entrega do cofre
Com o loteamento dos ministérios, a aliança governista criou o mensalão que substitui doações em dinheiro pela entrega do cofre
AUGUSTO NUNES
REVISTA VEJA ONLINE
Até os mendigos e os travestis que fazem ponto nas esquinas do Flamengo imaginaram que a pauta da reunião do diretório nacional do PT, realizada neste 5 de agosto no Hotel Novo Mundo, no Rio de Janeiro, seria quase inteiramente absorvida pelo tsunami de bandalheiras que varre a Esplanada dos Ministérios. O que acharam os Altos Companheiros, por exemplo, do despejo da quadrilha do PR em ação no mundo dos transportes? O que pensam das bandidagens no Ministério da Agricultura, arrendado ao PMDB? A faxina prometida pela presidente Dilma Rousseff deve ser ampla e irrestrita ou é melhor parar enquanto é tempo? Enfim, o que o partido tem a dizer sobre a corrupção endêmica que Lula plantou e Dilma adubou?
Nada, informam as 201 linhas do documento que relata o que foi tratado e decidido no conclave dos cardeais que caíram na vida. Sob o título geral “O Brasil frente à crise atual do capitalismo: novos desafios”, o papelório debita todos os pecados na conta do “ideário neoliberal”, cujos defensores são “setores da oposição, da mídia e do grande capital, especialmente o financeiro”. Num dos capítulos mais candentes, “o PT expressa sua solidariedade aos jovens, aos trabalhadores, aos migrantes e a todos os setores que combatem o neoliberalismo e repudia o nacionalismo de extrema direita, que mostrou sua verdadeira face no atentado ocorrido recentemente na Noruega”.
Resolvidos os problemas do planeta, a seita festeja a inauguração do Brasil Maravilha pelo chefe Lula e registra os retoques que faltam para torná-lo mais que perfeito. “Vem aí o debate sobre o novo marco regulatório dos meios de comunicação”, avisa o parágrafo que louva o “controle social da mídia”, como foi rebatizada a censura na novilíngua companheira. “Para o PT e para os movimentos sociais, a democratização dos meios de comunicação no país é tema relevante”. Num editorial publicado nesta quarta-feira, o Estadão foi à réplica: “O PT precisa é de um marco regulatório para a corrupção no partido”. No documento, a roubalheira colossal foi confinada em duas linhas: “O Diretório Nacional manifesta seu apoio às medidas que o governo Dilma ─ dando continuidade ao governo Lula ─ adota contra a corrupção”. Só.
LICENÇA PARA ROUBAR
Se cinismo desse cadeia, o Hotel Novo Mundo teria sido prontamente cercado por camburões e interditado pela polícia. Como a mentira foi transformada por Lula em virtude eleitoreira, o presidente do partido, Rui Falcão, prolongou o espetáculo do farisaísmo com uma apresentação individual. “O PT sempre foi muito cioso da defesa da aplicação correta dos recursos públicos e do combate à corrupção”, recitou o dirigente que promoveu a volta ao lar de Delúbio Soares. Falcão deu azar. No mesmo dia, VEJA divulgou os espantos mais recentes nas catacumbas do Ministério da Agricultura, entre os quais apareceu até mesmo um lobista que já foi preso por tráfico de drogas e agora se dedica a agredir fisicamente jornalistas independentes.
Nesta terça-feira, constatou-se que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, esqueceu de comunicar a instituições subordinadas à pasta que faxina tem hora. Liberada para engaiolar delinquentes, a Polícia Federal prendeu 35 dos 38 gatunos em ação no Ministério do Turismo. A presença de petistas graúdos no bando que viajou na traseira do camburão ajuda a entender por que o documento do diretório nacional fugiu da ética como o diabo da cruz: é impossível ser, ao mesmo tempo, decente e desonesto. A “base aliada” não se ampara num programa político, mas num projeto financeiro: todos querem ficar mais ricos. É por isso que, como reafirmou a devassa no ministério controlado pelo PT e por José Sarney, o mensalão nunca deixou de existir.
O que mudou foi a metodologia. Até meados de 2005, o Planalto e o PT centralizavam a arrecadação e o repasse dos milhões de reais que garantiam o entusiasmo dos companheiros e a lealdade dos parceiros. Agora, já não é preciso forjar empréstimos bancários ou extorquir estatais, nem irrigar contas bancárias ou entregar malas de dólares. Em vez de doações em dinheiro, os partidos da aliança governista ganham ministérios ─ cofres e verbas incluídos ─, além da licença para roubar. O loteamento do primeiro escalão é o mensalão sem intermediários. Em 2002, por exemplo, o PL de Valdemar Costa Neto embolsou R$ 10 milhões para descobrir que Lula era o cara. Em 2010, para enxergar em Dilma Rousseff a sucessora dos sonhos do PL com novo nome , o PR de Valdemar Costa Neto ganhou o Ministério dos Transportes.
Além de mais lucrativa, a fórmula modernizada aumenta exponencialmente o lucro, amplia a capilaridade das quadrilhas e democratiza a ladroagem. Antes, a repartição das boladas se limitava ao alto comando dos partidos. Agora, até prefeitos e vereadores entram na divisão do produto do roubo. A soma das evidências explica a tibieza exibida por Dilma desde que a vassoura tropeçou no lixo do PMDB. A presidente descobriu que herdou o um legado que ajudou a construir. Mas também descobriu que a opinião pública existe. É bem menor que o eleitorado, mas o poder de pressão é maior. Não se contenta com uma bolsa família, não acredita em fantasias e está cansada de sustentar larápios.
A imprensa livre seguirá noticiando fatos e enxergando as coisas como as coisas são. A Polícia Federal e o Ministério Público não podem recuar. Dilma terá de decidir se a faxina para ou continua. Na primeira hipótese, a presidente topará com o monstro que ajudou a parir. Na segunda, o governo, o PT e seus comparsas estarão proibidos para sempre de falar em combate à corrupção. Mesmo que em duas míseras linhas.
TUTTY VASQUES - A diversidade do fim do mundo
A diversidade do fim do mundo
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 11/08/11
No fundo, no fundo tudo é saque! De um lado, grandes investidores dos quatro cantos do planeta correm em pânico com seus bilhões de um lado para o outro sobre os escombros das bolsas de valores.
De outro, os sem-nada do Reino Unido se aproveitam da vitrine quebrada por pedra endereçada à polícia pra ver se ganham alguma coisa nessa bagunça danada que virou a humanidade. Em Wall Street ou em Tottenham, o clima de salve-se quem puder é o mesmo!
Os dois extremos da pirâmide da pindaíba social experimentam sensações muito parecidas de medo, insegurança, desespero, histeria, risco, selvageria, angústia e palhaçada.
Outra coisa em comum nos incêndios da periferia de Londres e nos colapsos do mercado financeiro: ninguém sabe explicar direito como tudo começou ou onde isso vai parar.
Mas param por aí as coincidências entre o caos dos ricos e a zorra dos pobres. A polícia não bate na turma que saqueia bolsas de valores.
São, evidentemente, fins do mundo distintos, como tantos outros que o ser humano - ô, raça! - superou.
Vamos lá, gente, relaxa aí! Vai passar!
Sucessor natural
O sucesso de Byafra cantando "voar, voar, subir, subir..." na propaganda da Bradesco Seguros pode transformar o comercial em série. Oswaldo Montenegro interpretando Bandolins no banco de trás do carro pode ser o próximo artista contratado para levar o ladrão de automóveis ao desespero no reclame de TV.
Ex-moicano
Como assim "o time do Mano Menezes não mudou nada" na derrota de 3 a 2 para a Alemanha? Só o fato de o Daniel Alves ter raspado a cabeça já foi bom demais!
Vestida pra ser vista
A Assessoria de Imprensa de Marta Suplicy aconselhou a senadora a dar um tempo nos tailleurs vermelhos enquanto durarem as investigações sobre a roubalheira no Ministério do Turismo. Fica muito difícil, vestida daquele jeito, se esconder das perguntas dos jornalistas sobre o envolvimento no caso de um apadrinhado político de longa data.
Não tem erro
Deu no portal Comunique-se que o novo site da jornalista Ana Paula Padrão, Tempo de Mulher, tem como palavra de ordem o "empoderamento feminino". Tem tudo pra dar certo, né?
Recaída esperada
Para quem ainda não entendeu por que as bolsas de valores voltaram a cair ontem após a fantástica recuperação de terça-feira, explica-se: os investidores estavam de fato animados com a reunião do Fed que manteve a taxa básica dos juros nos EUA entre zero e 0,25%, mas aí, como diz o Chico Buarque, "lalari, lairiri, lalará, liliri..." É sempre assim!
Genérica
Já tramita na oposição a ideia da "CPI de Tudo Isso Que Aí Está"
EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - O ''momento'' não pesou
O ''momento'' não pesou
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 11/08/11
A prisão do secretário executivo do Ministério do Turismo, Frederico Silva da Costa, do seu antecessor Mário Augusto Moysés e do ex-deputado federal Colbert Martins, nomeado para uma secretaria da pasta - na leva de 35 suspeitos de fraudes capturados na terça-feira pela Polícia Federal (PF) - era tudo o que a presidente Dilma Rousseff não precisava nesta hora de crises acumuladas com os partidos da coalizão de governo, nascidas da faxina no Ministério dos Transportes e do escândalo seguinte, na Agricultura. Assim como o ministro do Turismo, Pedro Novais, o seu segundo, Frederico da Costa, e o secretário Martins pertencem ao PMDB e foram indicados a Dilma pelos sobas do partido. Já o petista Moysés é ligado de há muito à senadora Marta Suplicy, que o levou para a pasta quando a comandava, no segundo governo Lula.
Mas, para o País, a Operação Voucher da PF, resultado de uma investigação ordenada pelo Ministério Público e respaldada pelo Judiciário sobre desvio de recursos em convênios do Turismo com uma ONG do Amapá, foi uma grande notícia. Pelo fato em si e, principalmente, porque a ação policial não foi freada a pretexto de que "este não é o momento". Nem o diretor executivo da PF, Paulo de Tarso Teixeira, nem o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, a quem o órgão se subordina, muito menos a Justiça Federal do Amapá, que decretou as prisões (38 ao todo) fizeram ou deixaram de fazer algo que travasse os devidos trâmites do inquérito, em nome da conveniência política da presidente da República. Segundo se diz no Planalto, o ministro Cardozo, que decerto sabia da investigação, só avisou a chefe da execução dos mandados judiciais na undécima hora, pouco antes do início da espetaculosa operação que mobilizou cerca de 200 agentes - e, ainda assim, sem entrar em detalhes. Isso jamais aconteceria no governo Lula.
Não fosse pelo clima de acrimônia entre os políticos e a presidente que os teria deixado ao deus-dará - não só em matéria de verbas e cargos, mas sobretudo pelo seu aparente descaso com os efeitos da maré de denúncias de corrupção que lhes sobe pelos pés - o caso do Turismo teria um impacto menor. Afinal, o maranhense Novais, da cota do PMDB no governo, decerto nem sabia onde fica a pasta que lhe tocaria chefiar este ano, quando a fraude começou a germinar, em 2009. É um filme que a população já cansou de ver: um político (no caso, a deputada Fátima Pelaes, do PMDB amapaense) apresenta duas emendas ao Orçamento, destinando R$ 9 milhões ao custeio de convênios entre o Turismo e um certo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável (Ibrasi) para treinar 1,9 mil futuros trabalhadores do setor no Estado. A partir de uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), apura-se que o Ibrasi desviou cerca de R$ 3 milhões de um contrato no valor de R$ 4,4 milhões.
O então secretário executivo da pasta, Mário Moysés, assinou o primeiro convênio com o tal do Ibrasi, cujos cabeças apresentaram documentos falsos para se qualificar. (Na casa de seu diretor Luiz Gustavo Machado, a PF achou R$ 610 mil em dinheiro.) O convênio seguinte, de 2010, foi assinado pelo atual secretário, Frederico da Costa, à época responsável pela área de programas de desenvolvimento do turismo, encargo atual do ex-deputado baiano Colbert Martins. Nesses dois anos, o Ibrasi recebeu R$ 14 milhões do governo. Teixeira, o delegado da PF, sustenta serem "robustas" as evidências de envolvimento deles com o esquema fraudulento. Se está certo, a Justiça dirá. O episódio, de qualquer modo, confirma a desalentada certeza da opinião pública de que "se gritar, "pega ladrão", não fica um, meu irmão", como no samba de Bezerra da Silva. E propaga entre os políticos atordoados com a ameaça à impunidade a pergunta "Onde é que isso vai parar?". Só lhes resta culpar a presidente ou acusar o Judiciário de "abuso de autoridade", como fez o líder petista na Câmara, Cândido Vaccarezza, pois onde já se viu mandar prender figuras tão notáveis?
Nem pensar em ir à raiz do problema: os incentivos de Lula, por ação ou omissão, à montagem de uma rede de quadrilhas na administração federal como decerto nunca antes se viu na história deste país.
ARTHUR VIRGÍLIO - Fim da euforia
Fim da euforia
ARTHUR VIRGÍLIO
BOLG DO NOBLAT
Os EUA encontram-se manietados e sem maiores margens para aumentar seu endividamento. A Europa lida com déficits fiscais insustentáveis. A China, com inflação já à altura de 6.6% ao ano, terminará por desacelerar o crescimento.
Óbvio que o Brasil não deixará de padecer as consequências desse quadro turbulento. Os sinais já estão dados: o desempenho da Bovespa é o pior dentre as economias emergentes e o segundo pior, se levarmos em conta a situação dramática vivida pela Grécia; é explosiva a combinação de inflação (6.81% em números anualizados) com juros estratosféricos e real sobrevalorizado; possíveis bolhas nos mercados de imóveis e de crédito e, finalmente, produtividade industrial em queda livre.
As medidas macroprudenciais adotadas pelo Banco Central e pela Fazenda revelam-se insuficientes. A situação fiscal que Dilma herdou do governo do qual ela própria era figura chave, não é vista com realismo por uma equipe econômica tatibitati.
A mágica da artificialização do crédito chega ao fim. Passamos a depender exclusivamente da fome chinesa por commodities. Esta, infelizmente, poderá mostrar-se menos pantagruélica a partir do instante em que políticas de contenção da inflação naquele país sejam efetivamente adotadas. Menor crescimento chinês = sérios problemas para a economia brasileira.
O governo-cigarra de Lula começa a ser revisto e desmascarado. Interrompeu o ciclo de reformas estruturais. Criou as bases da crise fiscal que, agora, se soma, enquanto problema doméstico, aos reflexos das dificuldades do mundo.
Chegou o inverno e a cigarra não preparou agasalho para os brasileiros. A conta começa a chegar, nem bem nos livramos do “sapientíssimo” presidente que tudo sabia e tudo resolvia.
A crise mundial é semelhante àquela, bem recente, de 2008. Menos intensa ainda, porém grave a mais não poder. Os bancos, outra vez, serão testados, e os governos estarão descapitalizados para proteger os acionistas e o sistema.
Enquanto isso, o Brasil revive o delírio de Alice. Todos os dias um escândalo novo (o ultimo é o do Ministério do Turismo, que resultou, até o momento, na prisão de 40 pessoas; o ministro, certamente, é da política do “eu não sabia”) e Dilma Rousseff apenas administra a esquizofrênica relação de seu governo com as maltas que o povoam.
O mundo inteiro discute a crise econômica com prioridade. Somente o Brasil se dá ao luxo de olvidá-la porque seu tempo é gasto com as estripulias do ministério mais desqualificado de nossa História republicana.
Tempos duros virão!
CARLOS HEITOR CONY - O cupim da corrupção
O cupim da corrupção
CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SP - 11/08/11
RIO DE JANEIRO - Brilhante e oportuna a palestra que Celso Lafer fez, nesta semana, na Academia Brasileira de Letras sobre ética e cidadania em tempos de transição, um ciclo de conferências no qual coube ao nosso acadêmico e ex-ministro das Relações Exteriores abordar os desafios da ética na hora atual: da ética na pesquisa à ética na política.
Com sua vivência de "scholar", ao monumental volume de considerações as mais modernas, desde Maquiavel a Bobbio, ele não localizou os desafios da ética na hora atual em grandes e apocalípticos exemplos que atravessam a história. Pelo contrário, usou uma palavra que me pareceu um neologismo, mas o mestre Evanildo Bechara garantiu que não era: descupinizar.
Além dos conflitos religiosos, políticos e territoriais que marcaram a humanidade e as nações com tragédias, a realidade de hoje parece se concentrar em fatos miúdos, universais -que, em linhas gerais, podem ser resumidos na corrupção generalizada que atinge a todos os escalões da vida pública quase de modo silencioso, roendo a estrutura ética do Estado e dos indivíduos.
Celso Lafer não precisou citar exemplos específicos, aludiu ao que se vê e lê em toda parte. Um bichinho insignificante, que mal percebemos no início de seu trabalho destruidor, vai corroendo os alicerces éticos da sociedade como um todo. E as construções mais sólidas se diluem no pó.
Abandonando a metáfora e examinando a extensão e a propagação do cupim, descobre-se que ele não nasce de geração espontânea. Tampouco o seu resultado final: a corrupção.
Para dar um exemplo do dia, em termos nacionais: só de uma levada, vários funcionários do Ministério do Turismo, inclusive de alto escalão, acabam de ser afastados.
E, assim, a confiança do cidadão na estrutura do Estado é cada vez menor e mais problemática.
Entrevista - Henrique Meirelles
Entrevista - Henrique Meirelles
O Estado de S. Paulo - 11/08/2011
EX-PRESIDENTE DO BC DIZ QUE A CRISE É MENOS GRAVE QUE A DE 2008 E A RESPOSTA DO BRASIL DEVE SER DIFERENTE, COM MAIOR PREOCUPAÇÃO EM DAR SINAIS DE CONTROLE DAS CONTAS PÚBLICAS
'O Brasil poderá sofrer contágio da crise pelo comércio'
Raquel Landim, Fabio Alves e Ricardo Grinbaum
Henrique Meirelles estava no comando do Banco Central em 2008, quando a quebra do Lehman Brothers interrompeu o crédito internacional e atingiu o Brasil em cheio. Ele diz que a crise hoje é bem diferente, com mais dificuldades para recuperar o crescimento global e possibilidade de recessão nos Estados Unidos, mas o problema ainda se restringe ao endividamento dos governos.
Na sua avaliação, não há uma contaminação do sistema financeiro, embora exista uma grande preocupação com os bancos, principalmente europeus. Por isso, a principal via de contágio para o Brasil hoje é o comércio, por meio de queda dos preços das commodities e da redução de demanda por produtos brasileiros no exterior. "Não há dúvida que o canal de transmissão é comercial. Mas, como em 2008, isso pode mudar a cada 24 horas."
Presidente mais longevo do BC, ocupando o cargo entre 2003 e 2010, Meirelles, que hoje é presidente do Conselho Público Olímpico, não quis responder perguntas sobre como a autoridade monetária deve agir nesse momento. Disse apenas que "não há dúvida" que a economia mundial hoje é mais "contracionista", mas que "a grande lição de 2008" é que o BC deve reagir "a situações reais e não ao que deveria ser". A seguir trechos da entrevista ao Estado.
Quais são as diferenças entre a crise atual e a de 2008?
Em 2008, tivemos uma crise de crédito, que foi provocada por uma alavancagem excessiva das famílias, das empresas e dos bancos nos EUA. O setor privado americano e de outros países europeus diminuiu gradualmente seu endividamento, mas foi substituído pelo aumento das dívidas estatais. Esse é o ambiente desta crise. Uma preocupação dos investidores com o endividamento público e programas de austeridade com toda a sua consequência contracionista. Paralelamente, uma preocupação de que, se houver problemas maiores na economia e nos bancos, os governos não poderiam mais intervir. É uma crise que sinaliza mais dificuldades de crescimento, mas não é como em 2008 depois da quebra do Lehman Brothers. Por enquanto, é um problema dos governos. As ações dos bancos caem, porque podem ser o canal de transmissão para a economia real.
Por que o mercado está tão preocupado com os bancos?
Os bancos americanos hoje, no geral, estão melhor capitalizados do que estavam em 2008. Aprenderam bastante com a crise. Ainda existe problemas, principalmente os herdados da crise hipotecária, mas não é da mesma dimensão. Também há processos judiciais que podem ameaçar essas instituições. Algumas dessas ações são grandes e podem prejudicar a rentabilidade futura dos bancos. Isso é que causa preocupação. Já na Europa, os bancos estão expostos aos governos de países problemáticos. Evidente que o Banco Central Europeu está atento. Não há sinais de alarme, mas sem dúvida existe uma preocupação. E 2008 mostra que as coisas podem acontecer numa velocidade incrível.
O senhor acredita em um duplo mergulho, em nova recessão, da economia americana?
Existe uma preocupação dos Estados Unidos entrarem em recessão e essa é a razão da instabilidade e do nervosismo dos mercados. O desemprego americano continua alto, as empresas não estão investindo. É uma economia com uma demanda privada fraca e com possibilidades limitadas de o governo fazer um estímulo fiscal maior.
O risco de crédito da dívida da França pode efetivamente ser rebaixado?
Sim, é possível. Mas tem uma série de componentes de julgamento subjetivo das agências de rating, cuja credibilidade está em jogo depois das críticas severas em 2008. É uma possibilidade, mas o cenário base da França não é esse.
Até pouco tempo, os emergentes estavam preocupados com a inflação. Com a desaceleração global, isso mudou?
A grande lição de 2008 é que a autoridade monetária deve reagir a situações reais e não ao que deveria ser. Em 2008, foram tomadas uma série de medidas no Brasil que restauraram a atividade rapidamente. Naquela época, faltava crédito e liquidez no mercado e houve uma crise nos derivativos de câmbio. O BC atuou diretamente nisso. Hoje temos que verificar como vai se desenrolar a situação. O BC tem que identificar situações reais e atacar problemas específicos.
Mas a preocupação com a inflação mudou de patamar hoje?
Não há dúvida que a tendência da economia mundial é hoje mais contracionista. Temos um cenário diferente do que há alguns meses, quando havia questões localizadas de preços de commodities. Temos que verificar como isso vai evoluir. O BC vai avaliar a economia brasileira e tomar a decisão mais adequada.
Em 2008, o contágio da economia brasileira ocorreu via crédito. Hoje quais são as ameaças?
Hoje o primeiro movimento se dá nos preços das commodities e na demanda por produtos brasileiros no exterior, que pode arrefecer. Em segundo lugar, cai o preço dos ativos pelo aumento da aversão ao risco. As ações caíram, mas tiveram uma correção técnica ontem e hoje. É prematuro dizer como vai evoluir nos próximos dias. Não há dúvida que hoje o canal de transmissão para o Brasil é comercial. Mas, como em 2008, isso pode mudar a cada 24 horas.
Se a transmissão é via comércio, como deve agir o governo?
Temos que aguardar como os diversos setores podem ser afetados. Qualquer generalização é perigosa.
O governo brasileiro disse que vai segurar os gastos, enquanto na crise de 2008 ocorreu o contrário. A receita tem que mudar?
Os problemas são diferentes. Em 2008, globalmente, tínhamos um problema de queda de demanda, gerada pela crise no crédito e pelo desemprego. A resposta geral foi o estímulo fiscal. Hoje a preocupação é a questão fiscal. É o contrário. A reação do governo brasileiro está correta. Mas é preciso separar bem a situação do Brasil e dos EUA e da Europa. A situação fiscal brasileira é muito confortável comparada com a maioria desses países. É bom ter cuidado e ser prudente, mas o Brasil não tem um problema fiscal. Só precisa ter cuidado para não ter.
Qual é a tendência para o câmbio? A guerra cambial continua ou há risco de ataque especulativo contra o real?
Temos duas forças contraditórias. O Federal Reserve (BC dos EUA) sinalizou a permanência de taxas de juros perto de zero até 2013 e deixou a porta aberta para uma terceira rodada de injeção de recursos no mercado. Isso significa mais liquidez, maior entrada de recursos no Brasil e valorização do real. Por outro lado, o enfraquecimento da demanda mundial pode levar a queda das commodities. A tendência do preço das commodities não está clara, mas pode levar a desvalorização do real. São fenômenos com efeitos contrários e o vetor resultante não é previsível. Em 2008, o grande vetor da desvalorização do real não foi as commodities, mas o colapso das linhas de crédito internacionais, que levaram as empresas a tomar recursos no Brasil e pagar empréstimos que venciam no exterior. Também tivemos remessas de recursos de filiais para as matrizes e remessas de fundos para cobrir saques maciços lá fora. E o problema dos derivativos nas empresas exportadoras.
O endividamento em dólar das empresas aumentou e está forte a remessa de lucros para o exterior. Esse problema pode se repetir?
O que gerou aquela crise não foi uma remessa normal de dividendos. Hoje as remessas aumentam porque as empresas têm mais lucro. O endividamento no exterior também é normal e não há sinal de problemas com derivativos. Pode existir algum problema no futuro? Sim, se houver o colapso de algum grande banco internacional que leve ao congelamento do crédito. Mas esse é um cenário técnico e o fator chave é o funcionamento regular do sistema financeiro. Outro ponto importante: a desvalorização do real em 2008 durou pouco porque o BC tinha US$ 200 bilhões de reservas e atuou. Hoje, com US$ 350 bilhões, temos muito mais. A tão criticada acumulação de reservas custa caro, mas é confortadora agora.
Na sua avaliação, não há uma contaminação do sistema financeiro, embora exista uma grande preocupação com os bancos, principalmente europeus. Por isso, a principal via de contágio para o Brasil hoje é o comércio, por meio de queda dos preços das commodities e da redução de demanda por produtos brasileiros no exterior. "Não há dúvida que o canal de transmissão é comercial. Mas, como em 2008, isso pode mudar a cada 24 horas."
Presidente mais longevo do BC, ocupando o cargo entre 2003 e 2010, Meirelles, que hoje é presidente do Conselho Público Olímpico, não quis responder perguntas sobre como a autoridade monetária deve agir nesse momento. Disse apenas que "não há dúvida" que a economia mundial hoje é mais "contracionista", mas que "a grande lição de 2008" é que o BC deve reagir "a situações reais e não ao que deveria ser". A seguir trechos da entrevista ao Estado.
Quais são as diferenças entre a crise atual e a de 2008?
Em 2008, tivemos uma crise de crédito, que foi provocada por uma alavancagem excessiva das famílias, das empresas e dos bancos nos EUA. O setor privado americano e de outros países europeus diminuiu gradualmente seu endividamento, mas foi substituído pelo aumento das dívidas estatais. Esse é o ambiente desta crise. Uma preocupação dos investidores com o endividamento público e programas de austeridade com toda a sua consequência contracionista. Paralelamente, uma preocupação de que, se houver problemas maiores na economia e nos bancos, os governos não poderiam mais intervir. É uma crise que sinaliza mais dificuldades de crescimento, mas não é como em 2008 depois da quebra do Lehman Brothers. Por enquanto, é um problema dos governos. As ações dos bancos caem, porque podem ser o canal de transmissão para a economia real.
Por que o mercado está tão preocupado com os bancos?
Os bancos americanos hoje, no geral, estão melhor capitalizados do que estavam em 2008. Aprenderam bastante com a crise. Ainda existe problemas, principalmente os herdados da crise hipotecária, mas não é da mesma dimensão. Também há processos judiciais que podem ameaçar essas instituições. Algumas dessas ações são grandes e podem prejudicar a rentabilidade futura dos bancos. Isso é que causa preocupação. Já na Europa, os bancos estão expostos aos governos de países problemáticos. Evidente que o Banco Central Europeu está atento. Não há sinais de alarme, mas sem dúvida existe uma preocupação. E 2008 mostra que as coisas podem acontecer numa velocidade incrível.
O senhor acredita em um duplo mergulho, em nova recessão, da economia americana?
Existe uma preocupação dos Estados Unidos entrarem em recessão e essa é a razão da instabilidade e do nervosismo dos mercados. O desemprego americano continua alto, as empresas não estão investindo. É uma economia com uma demanda privada fraca e com possibilidades limitadas de o governo fazer um estímulo fiscal maior.
O risco de crédito da dívida da França pode efetivamente ser rebaixado?
Sim, é possível. Mas tem uma série de componentes de julgamento subjetivo das agências de rating, cuja credibilidade está em jogo depois das críticas severas em 2008. É uma possibilidade, mas o cenário base da França não é esse.
Até pouco tempo, os emergentes estavam preocupados com a inflação. Com a desaceleração global, isso mudou?
A grande lição de 2008 é que a autoridade monetária deve reagir a situações reais e não ao que deveria ser. Em 2008, foram tomadas uma série de medidas no Brasil que restauraram a atividade rapidamente. Naquela época, faltava crédito e liquidez no mercado e houve uma crise nos derivativos de câmbio. O BC atuou diretamente nisso. Hoje temos que verificar como vai se desenrolar a situação. O BC tem que identificar situações reais e atacar problemas específicos.
Mas a preocupação com a inflação mudou de patamar hoje?
Não há dúvida que a tendência da economia mundial é hoje mais contracionista. Temos um cenário diferente do que há alguns meses, quando havia questões localizadas de preços de commodities. Temos que verificar como isso vai evoluir. O BC vai avaliar a economia brasileira e tomar a decisão mais adequada.
Em 2008, o contágio da economia brasileira ocorreu via crédito. Hoje quais são as ameaças?
Hoje o primeiro movimento se dá nos preços das commodities e na demanda por produtos brasileiros no exterior, que pode arrefecer. Em segundo lugar, cai o preço dos ativos pelo aumento da aversão ao risco. As ações caíram, mas tiveram uma correção técnica ontem e hoje. É prematuro dizer como vai evoluir nos próximos dias. Não há dúvida que hoje o canal de transmissão para o Brasil é comercial. Mas, como em 2008, isso pode mudar a cada 24 horas.
Se a transmissão é via comércio, como deve agir o governo?
Temos que aguardar como os diversos setores podem ser afetados. Qualquer generalização é perigosa.
O governo brasileiro disse que vai segurar os gastos, enquanto na crise de 2008 ocorreu o contrário. A receita tem que mudar?
Os problemas são diferentes. Em 2008, globalmente, tínhamos um problema de queda de demanda, gerada pela crise no crédito e pelo desemprego. A resposta geral foi o estímulo fiscal. Hoje a preocupação é a questão fiscal. É o contrário. A reação do governo brasileiro está correta. Mas é preciso separar bem a situação do Brasil e dos EUA e da Europa. A situação fiscal brasileira é muito confortável comparada com a maioria desses países. É bom ter cuidado e ser prudente, mas o Brasil não tem um problema fiscal. Só precisa ter cuidado para não ter.
Qual é a tendência para o câmbio? A guerra cambial continua ou há risco de ataque especulativo contra o real?
Temos duas forças contraditórias. O Federal Reserve (BC dos EUA) sinalizou a permanência de taxas de juros perto de zero até 2013 e deixou a porta aberta para uma terceira rodada de injeção de recursos no mercado. Isso significa mais liquidez, maior entrada de recursos no Brasil e valorização do real. Por outro lado, o enfraquecimento da demanda mundial pode levar a queda das commodities. A tendência do preço das commodities não está clara, mas pode levar a desvalorização do real. São fenômenos com efeitos contrários e o vetor resultante não é previsível. Em 2008, o grande vetor da desvalorização do real não foi as commodities, mas o colapso das linhas de crédito internacionais, que levaram as empresas a tomar recursos no Brasil e pagar empréstimos que venciam no exterior. Também tivemos remessas de recursos de filiais para as matrizes e remessas de fundos para cobrir saques maciços lá fora. E o problema dos derivativos nas empresas exportadoras.
O endividamento em dólar das empresas aumentou e está forte a remessa de lucros para o exterior. Esse problema pode se repetir?
O que gerou aquela crise não foi uma remessa normal de dividendos. Hoje as remessas aumentam porque as empresas têm mais lucro. O endividamento no exterior também é normal e não há sinal de problemas com derivativos. Pode existir algum problema no futuro? Sim, se houver o colapso de algum grande banco internacional que leve ao congelamento do crédito. Mas esse é um cenário técnico e o fator chave é o funcionamento regular do sistema financeiro. Outro ponto importante: a desvalorização do real em 2008 durou pouco porque o BC tinha US$ 200 bilhões de reservas e atuou. Hoje, com US$ 350 bilhões, temos muito mais. A tão criticada acumulação de reservas custa caro, mas é confortadora agora.
ILIMAR FRANCO - Mui amigos
Mui amigos
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 11/08/11
PMDB e PT dão prensa em Cardozo
Os líderes do PMDB e do PT foram para cima do ministro José Eduardo Cardozo (Justiça), na noite de terça-feira, por causa da Operação Voucher. A cobrança ocorreu no gabinete da ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais). Cardozo foi até lá por ordem
da presidente. Dilma, após relato do vice Michel Temer, ficou indignada com o uso de algemas pela PF. Naquela manhã, os ministros Paulo Bernardo (Comunicações) e Orlando Silva (Esportes) assistiram, na Sala de Autoridades do aeroporto de Congonhas (SP), Colbert Martins, secretário da pasta do Turismo, ser algemado e fotografado, embora não tenha resistido à prisão nem houvesse indício de desequilíbrio mental.
"Os excessos são imperdoáveis e serão punidos” — José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, para líderes do PMDB e do PT sobre o uso de algemas pela PF
STRESS. O presidente Marco Maia (PT-RS), na foto, bateu a mão na mesa ontem, na reunião de líderes, quando o líder do DEM, ACM Neto (BA), anunciou que seu partido iria obstruir as votações. “Vocês querem o quê? Fechar a Câmara?”, dramatizou Maia. ACM Neto retrucou: “Temos o direito de obstruir, o seu problema é a obstrução feita pela base do governo”. Maia quer votar 35 projetos, alguns deles gerando despesas, neste ano.
Geni
Na reunião do Conselho Político, a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais) disse que estava liberando parte dos restos a pagar. “Sobre as emendas do Orçamento deste ano eu ainda tenho que conversar com o Mantega”, disse ela.
No clima
Dirigente do PSB, Roberto Amaral cobrou ontem divulgação prévia da pauta das reuniões do Conselho Político. “Vim aqui na expectativa de debater a crise política”, reclamou. O debate foi sobre a crise econômica internacional.
No pé do ouvido
Depois de dizer que não vai subir em palanque onde a base estiver dividida e que não é possível passar quatro anos brigando, o ex-presidente Lula chamou o senador mLindbergh Farias (PT-RJ) para uma conversa, no final do almoço com a base anteontem, no Palácio Laranjeiras. “Ô Lindbergh, acerta com a Clara Ant para você passar lá no instituto para conversar comigo”, disse ele. Lindbergh é candidato ao governo do estado em 2014. O vice Luiz Fernando de Souza, o Pezão (PMDB), também é.
Pau para toda obra
A mais nova proposta para resolver o problema do financiamento da saúde pública é do líder do PMDB, Henrique Alves (RN). Ontem, para os líderes aliados na Câmara, defendeu tirar os recursos necessários dos royalties do petróleo.
Vem aí o PSD
Com mais de 400 mil assinaturas coletadas e organizado em 17 estados, o PSD vai dar entrada na próxima semana no seu registro no TSE. Saulo Queiroz, um dos dirigentes do partido, diz: “Não há como impedir a criação do PSD”.
RESSABIADO. O ministro Wagner Rossi (Agricultura) pediu à Advocacia-Geral da União a indicação de um nome para assumir a área jurídica da Conab.
SOLDADOS do Batalhão da Guarda Presidencial, que servem no Palácio do Planalto, estão levando “quentinhas” de casa. Consta que caiu a qualidade do almoço servido aos Dragões da Independência.
● A DIRETORA-GERAL adjunta da Cidade do Cabo (África do Sul), Laurine Platzky, e o delegado de Cultura de Barcelona (Espanha), Jordi Martí, falam hoje sobre Copa do Mundo e Olimpíadas, em seminário promovido pelo Ministério da Cultura.
SONIA RACY - DIRETO DA FONTE
Realidade cruel
SONIA RACY
O ESTADÃO - 11/08/11
A grande questão nesta nova rodada da crise internacional é: como fazer para o mundo voltar a crescer? Segundo José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, não há ainda resposta para essa pergunta. E a sensação é de perplexidade.
A única coisa clara hoje é que a retomada será lenta.
Carta aberta
Inconformado com o rompimento das conversas em torno da chapa única na eleição da OAB-SP, Antônio Cláudio Mariz de Oliveira enviou carta para a nata da advocacia do Estado. Sobre Luiz Flávio D"Urso, com quem negociava o "acordão", Mariz fala em "decepção" e "pesar".
Mas teve gente, como Carlos Miguel Aidar, comemorando o naufrágio do projeto. O ex-presidente da Ordem afirmou que "jamais apoiaria este malsinado acordo".
Corrida eleitoral
O PSDB está próximo de bater o martelo: Serra não será mesmo candidato a prefeito. Essa convicção foi expressa em alto e bom tom por Sérgio Guerra em reuniões com tucanos, segunda-feira, durante sua passagem por São Paulo. Principal argumento? Assim como Marta, Serra tem altos índices de rejeição na cidade.
A que ponto...
Luiz Marinho almoçava no Rodeio dos Jardins, sexta, quando foi "atropelado" por um desconhecido: "O senhor foi ministro do Collor?" Ao que o prefeito de São Bernardo retrucou: "Não, do Lula!".
E sem saber com quem estava falando, tentou: "Tô com problema num terreno em Itanhaém e preciso da ajuda do governo". E emendou: "A comissão é de R$ 5 milhões, terei prazer em dividir". Entregou seu cartão e foi embora.
Perplexo, o petista leu: J. C. de Oliveira, consultor de imóveis.
Balança, mas...
Sem ter a quem reclamar, a Ouvidoria de SP vive em perigo constante. As paredes da Galeria Olido, onde funciona a repartição, estão repletas de rachaduras e infiltrações, a fiação está exposta, os elevadores vivem quebrados e a garagem abriga uma "cascata".
A resposta da Prefeitura para as reclamações dos servidores é sempre a mesma: não há dinheiro para as obras.
Com a palavra o Contru.
Sala de aula
Verônica Serra, Jorge Paulo Lemann e Paulo Skaf anotaram a lição do indiano Nitin Nohria. O reitor da Harvard Business School deu aula magna terça-feira na Fiesp.
Para uma plateia composta de ex-alunos da HBS.
Cúmplices
Thays Martinez, advogada com deficiência visual barrada no Metrô de SP com seu cão-guia, transformou a revolta em livro.
Minha Vida com Bóris sai pela Globo Livros.[17 E 18/12][17 E 18/12][17 E 18/12]
Bruxaria
Na primeira tentativa de tuitar link para matéria sobre a suposta negociação entre Carrefour e Walmart, Abilio Diniz se confundiu.
Acabou postando reportagem sobre... Harry Potter. Avisado por alguns de seus seguidores, desculpou-se e trocou o link.
Na frente
Novidade no Vladimir Herzog. Elifas Andreato é o homenageado do prêmio e os vencedores concorrerão a viagens para NY e Washington.
Eduardo Climachauska abre a individual HO-BA-LÁ-LÁ. Hoje, na Galeria Eduardo Fernandes.
Pela primeira vez, uma empresa têxtil participa do Salão de Artes da Hebraica. Trata-se da Safira Sedas. Com tecidos "instalação" batizados de Art by Yard.
E Doda Miranda subiu para a 13ª posição no ranking mundial do hipismo.
Chiara Gadaleta foi escolhida para ser a diretora de moda da Harper"s Bazaar.
Betty Milan lança o livro Quem Ama Escuta. Na FNAC Pinheiros. Hoje.
Mario Santiago abre a mostra Sujurbano, com curadoria de Fernando Brandão. Na Galeria IMPAR. Hoje.
Miúcha vai homenagear o irmão, Chico Buarque, acompanhada pela Orquestra Sinfônica Municipal. O show acontece sábado, no Clube Hebraica.
Inclusão
Tendo vivido o problema na própria pele, Carlos Edde, presidente do partido libanês National Bloc, montou proposta enviada ao Itamaraty.
Pede novas regras no que tange ao reconhecimento de cursos e diplomas obtidos por brasileiros no exterior. "Existem hoje mais de três milhões de brasileiros residindo lá fora. E muitos de seus filhos gostariam de se reintegrar ao terminar o segundo grau e atingir a maioridade", aponta o político, responsável pela reunificação da oposição no Líbano.
De mãe brasileira, Edde (em São Paulo para visitar a família) acredita que se faz necessária uma política para facilitar a reintegração desses jovens que moraram fora do Brasil. Como? Desenvolvendo mecanismos para mantê-los.
Caso contrário, o País sofrerá "evasão de cérebros" que poderiam contribuir, de forma produtiva, para o desenvolvimento nacional.
ANCELMO GÓIS - Falta o João
Falta o João
ANCELMO GOIS
O Globo - 11/08/2011
Ontem, a OCP Comunicação e a Maurício Pessoa Produções confirmaram a série de shows de João Gilberto, este ano, em Salvador, Rio, Brasília, Porto Alegre e São Paulo. Mas, acredite, João ainda não está 100% convencido. Haja emoção. Mas... A ideia de João se apresentar no Rio ao lado de Eric Clapton faz todo o sentido. O inglês assistiu ao último show do brasileiro em Londres. A música-título de seu CD “Reptile” é um sambinha em homenagem, disse na época, “ao brasileiro João Gilberto”. Viúvas de Lula A piadinha no Senado por causa do rolo na base do governo é que havia político mandando regravar aquela marchinha de Haroldo Lima, que saudava o retorno de Getúlio, em 1950, cuja letra dizia: “Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar”... Preço da moralidade Pelas contas de um ex-ministro da Justiça, não sai por menos de R$ 600 mil uma operação como esta última da Polícia Federal, que reuniu 200 agentes em três estados e levou mais de 30 presos até o Amapá. No mais Das três desculpas usuais dos petistas para se esquivar de denúncias de corrupção, só foram usadas, desta vez, duas: armação da mídia e provas falsas. Faltou dizer que, por trás de tudo, há o dedo de José Serra. Terra do faraó O próximo amistoso da seleção de Mano Menezes será dia 6 de setembro, no Cairo, contra o Egito. Em outubro, serão mais dois jogos no exterior - dia 7, contra a Costa Rica, e dia 11, contra o México. Já... Em novembro, também serão dois jogos fora. O primeiro, dia 11, contra o Gabão. Da África, o time de Mano seguirá para a Suíça, onde vai enfrentar a seleção da casa ou a Inglaterra. Volta, Ronaldinho Aliás, a coluna, tempos atrás, disse que a lua de mel com Dilma e Mano Menezes tinha acabado e era hora de mostrar serviço. De lá para cá, a situação dos dois piorou muito. Com todo o respeito. Beethoven total O maestro Lorin Maazel, 81 anos, abre a temporada da OSB com as nove sinfonias de Beethoven - três esta semana, três na outra, três mais adiante. Maazel fez o mesmo no Japão num dia só: começou às 10 da manhã e terminou às 22h. Procura-se Rogério A juíza Elizabeth Louro, do 4o- Tribunal do Júri do Rio, decretou, dia 28 de abril, a prisão do contraventor Rogério Andrade, mas, até ontem, o sobrinho do finado bicheiro Castor de Andrade não havia sido encontrado. Rogério é esperado hoje, às 14h, para audiência que apura sua participação na execução do bombeiro Antônio Carlos Macedo, chefe de sua segurança. Deve ser terrível... Ontem, com Londres mergulhada em tensão, turistas brasileiros ficaram desapontados. Não houve a tradicional troca de guarda no palácio real. Ai, meu ouvido Tem funcionário da Câmara de Vereadores do Rio querendo adicional de insalubridade. É gente que não aguenta mais trabalhar ouvindo um grupo de bolivianos tocar nas escadarias do Palácio Pedro Ernesto. Cena carioca O coleguinha gaiato Maurício Menezes é testemunha. Segunda, na Estação Carioca do metrô, um rapazola todo penteado, barba feita, terno justinho, entrou enganado no vagão das mulheres. Quando o segurança o mandou sair, elas protestaram: - Deixa ele, tão bonitinho, não vai fazer nada demais... Mas o bonitão saiu. |
VINÍCIUS TORRES FREIRE - O grande massacre de bancos
O grande massacre de bancos
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 11/08/11
Ações de bancos europeus entram na grande xepa que há tempo também derruba seus colegas nos EUA
O QUE SE PASSA? Além do medo vago de uma recessão enorme, ninguém parece saber nada. Um sujeito que sabe das coisas, vive no topo do mundo e em geral é franco, Mohamed El-Erian diz que ninguém sabe nada, por isso o medo, por isso a liquidação geral nos mercados.
El-Erian é o presidente (CEO) e coexecutivo-chefe de investimentos (CIO) da Pimco, a maior investidora em renda fixa do mundo. Em entrevista à TV Bloomberg, na tarde de ontem, ele dizia o seguinte: "O mercado passa por [um momento de] volatilidade maciça. Não surpreende, pois estamos em mares nunca dantes navegados ["uncharted waters"] no que diz respeito à economia, às políticas [econômicas] e, portanto, aos mercados".
Então agora a França pode perder a nota máxima de investimento. Então, "as Bolsas mergulham com a volta das preocupações com a Europa", como dizia a manchete da noite de ontem da edição on-line do diário econômico britânico "Financial Times". Essas seriam as novidades. Novidades?
"Volta" da preocupação com a Europa? Por que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, encurtou as férias para uma reunião de emergência de seu governo? Francamente. Que o Titanic europeu tem passado raspando por um monte de icebergs não é novidade nenhuma.
Desde segunda-feira, o Banco Central Europeu mantém as imunodeprimidas Itália e Espanha numa bolha de plástico, isoladas dos vírus dos mercados, por meio da compra de dívida dos dois países.
O BCE espera que, até setembro, entre em funcionamento o fundo ampliado para salvar governos europeus da quebra. Mas há dúvida geral sobre se haverá botes para salvar tanta gente do naufrágio (dinheiro para cobrir tanto governo quase falido) -ou se a Alemanha vai concordar em fornecer os botes. Isso é sabido faz semanas. O resto é especulação insana além da conta, como a de agora, com a França.
Decerto calotes de governos feririam de morte bancos europeus, que viram suas ações despencar ontem.
Na França, o Société Générale caiu 14,7%. O BNP, 9,5%. O Crédit Agricole, 11,8%. Na Itália, o Monte dei Paschi caiu 9,8%. O Unicredit, 9,4%. O Intesa, 13,7%. Na Espanha, queda de 8,3% para o Santander.
Ruim? É. Mas nos EUA prosseguia também ontem a grande e nova liquidação das ações dos grandes bancos. O Bank of America caiu 10,9%.
O Citi, 10,5%. O Wells Fargo, 7,7%. Até o Goldman Sachs, que continua muito longe de ser um banco comercial, caiu 10,1%.
Mesmo que ninguém saiba nada nesta carnificina insana de valores e de análises racionais, parece que se suspeita de algo podre nos bancos -ao menos, o rumor pegou.
Os bancos americanos agora têm muito menos negócios exóticos e alavancados. Têm, pois, de viver mais de empréstimos. Mas os juros estão baixíssimos e o apetite por crédito não vai melhor -vai diminuir mais, numa recessão. Seria apenas isso? Talvez. Ainda há especialista no assunto para quem os bancões americanos têm pouco capital e ainda muito negócio podre na caixinha.
Verdade? Por ora, não há registro de dificuldade de financiamento dos bancos americanos (na Europa, isso já ocorre). Apenas rumores, porém, podem arrebentar a saúde de bancos. Rumores, rumores e "psicologia de manada". É isso.
CLÓVIS ROSSI - Rebeldes com causa e sem agenda
Rebeldes com causa e sem agenda
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 11/08/11
Não se trata de rebelião de cidadãos frustrados pela crise mas, sim, de revolta de consumidores/saqueadores
Seria tentador ver nos distúrbios dos últimos dias no Reino Unido uma revolta dos "famélicos do mundo", para citar a Internacional. Tentador, mas errado.
Visto pelos olhos da esquerda britânica que se expressa pelo jornal "The Independent", o que está acontecendo "não é um protesto político. Os amotinados não têm uma agenda. Não têm um comando central. A meta é o saqueio aquisitivo ou a destruição descerebrada". Reforça Walter Oppenheimer, o excelente correspondente do espanhol "El País" em Londres: "As turbas não assaltam supermercados para levar comida; o principal objetivo têm sido as lojas de celulares, as de eletrodomésticos, as de roupas e de calçados esportivos". O "Independent" informa que houve um caso em que o saqueador, antes de levar a mercadoria, experimentou um sapato, para ver se a ponteira era, digamos, "fashion".
Tudo somado, dá para dizer que se trata não de uma rebelião de cidadãos frustrados pela crise e pelos cortes promovidos pelo governo, e, sim, de uma revolta de consumidores/saqueadores que não conseguem satisfazer a ânsia de consumo, a bandeira do capitalismo. A esse respeito, diz ao "Guardian" Alex Hiller, especialista em marketing e consumo da Nottingham Business School: "A sociedade de consumo depende de sua habilidade para participar dela. O que hoje reconhecemos como um consumidor nasceu de horas mais curtas [de trabalho], salários mais altos e disponibilidade de crédito. Se você está lidando com uma porção de gente que não têm os dois últimos elementos, o contrato [social] não funciona".
Não pense que esse raciocínio se aplica exclusivamente aos bairros deprimidos de Londres (que, aliás, seriam de classe média no Brasil, sem parentesco com as favelas).
Como diz Darryl Seibel, responsável pela Comunicação dos Jogos Olímpicos de Londres, o que está acontecendo "não é um reflexo de Londres, mas do mundo que vivemos hoje em dia".
Claro que Seibel está se antecipando a possíveis questionamentos sobre a segurança em Londres com vistas à Olimpíada, mas nem por isso deixa de ter razão. Tanto que muito brasileiro também questiona o Rio como sede olímpica cada vez que há casos mais espetaculares de violência urbana.
Se Seibel está certo -e acho que está-, então a rebelião consumista ocorre também em São Paulo, de que dão prova, para citar apenas casos recentíssimos, as "meninas do arrastão" da Vila Mariana e os marmanjos dos arrastões em restaurantes, respeitadas as colossais diferenças de escala e de violência empregada.
Vale também para o Brasil a avaliação para o "Monde" de Fabien Jobard, sociólogo do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Social): "A única certeza é a de que, em uma sociedade na qual os bairros são tradicionalmente sustentados por chefes de comunidade respeitáveis, um laço se rompeu. Seja entre tais responsáveis e a polícia, seja entre esses líderes e parte da população que se emancipou de sua autoridade moral e escapou a seu controle".
Não lembra o que se diz sobre o controle do crime organizado em certos bairros de tantas cidades brasileiras?
CONTARDO CALLIGARIS - Vampiros comportados
Vampiros comportados
CONTARDO CALLIGARIS
FOLHA DE SP - 11/08/11
Os adolescentes de hoje "desejam pequeno" ou será que eles perseguem um ideal de autocontrole?
Nos últimos anos, repetidamente, manifestei certa preocupação com o fato de que os adolescentes de hoje me parecem "desejar pequeno", ou seja, sonhar com projetos muito "razoáveis", se não desanimadores e quase resignados. A adolescência de minha geração, nos anos 1960, era o contrário: sonhávamos com uma grandiosidade ridícula, sem preocuparmo-nos com as condições efetivas de realização de nossos sonhos.
Deu no que deu: alguns efeitos bons, outros péssimos. Por exemplo, não conseguimos fazer "a" revolução, mas transformamos os costumes (para melhor, pelo menos até agora). Por outro lado, nossa paixão revolucionária defendeu e sustentou caricaturas sinistras de nossos ideais sociais -ou seja, nossas aspirações, por serem desmedidas, produziram alguns monstros.
Talvez isso não aconteça (ou aconteça menos) com os adolescentes de hoje; não seria necessariamente uma perda. Um pai, preocupado, como eu, com o "desejar pequeno" do filho, foi direto ao assunto e perguntou ao menino: "Mas quais são seus sonhos para a vida?". A resposta que ele recebeu o levou a me escrever: "É como se ele (o menino) desconfiasse de seus desejos, como se achasse que eles não são bem dele".
De fato, os adolescentes sempre têm certa desconfiança em relação à proveniência de seu querer. Afinal, logo quando eles começam a sonhar com o que poderia ser sua vida adulta, sofrem também uma irrupção de desejos que, no começo, mal entendem.
Claro, a sexualidade já existe na infância, mas, na puberdade, ela chacoalha o corpo de maneira inédita. É compreensível que um adolescente se pergunte o que é aquilo, para que serve e sobretudo de onde vem. Em geral, antes mesmo de ter se acostumado com a transformação de seu corpo, o adolescente constata que os adultos olham para ele de maneira diferente, como se ele fosse um objeto erótico possível. Disso deriva, provavelmente, a suspeita do adolescente de que o desejo que o transforma vem dos outros -dos adultos, que devem ser todos tarados.
Das primeiras reflexões de Freud até George A. Romero ("A Noite dos Mortos-Vivos", de 1968), esta explicação se popularizou: o desejo vem dos adultos, que avançam babando atrás da gente, querem nos pegar e, se possível, morder e contaminar. Mortos-vivos ou simplesmente artríticos, eles têm mobilidade restrita e pouca fantasia, pois só parecem querer uma coisa: que a gente fique que nem eles.
Pois bem, com a saga "Crepúsculo", de Stephenie Meyer (e sua adaptação cinematográfica), apareceu um novo paradigma da origem do desejo (alimentado, aliás, por séries televisivas, como "True Blood" e "Vampire Diaries"). Eis qual.
O desejo continua vindo dos outros, mas a mordida que contamina é desejada ardentemente pelas "vítimas", enquanto vampiros (e lobisomens) se controlam: embora sejam tão fissurados quanto um morto-vivo à procura de carne, eles resistem e se recusam a morder, enquanto os humanos imploram para serem mordidos.
O novo paradigma, em suma, diz que: 1) o desejo vem dos outros, mas, uma vez que tenhamos sido mordidos (como queremos ser), ele será o nosso, estará na gente, 2) ser vampiro à nossa vez será ótimo e 3) não por isso esqueceremos que desejar é um exercício de autocontrole.
É como se os adolescentes estivessem adotando um ideal em que o desejo seria deles mesmos, fortíssimo e indomável (uma verdadeira fissura), mas heroicamente contido. O vampiro será vegetariano, só se permitirá beber sangue de animais e saberá amar uma humana sem ceder à vontade louca de mordê-la. Da mesma forma, nós, sem recalque, teremos fantasias, sonhos e desejos, sexuais ou outros, poderosíssimos, mas saberemos discipliná-los.
Será que os adolescentes "desejam pequeno" (como eu pensava) ou será que, à diferença de nós quando éramos adolescentes, eles não idealizam o descontrole, mas a disciplina de si?
Se esse for o caso, talvez os adolescentes de hoje devam sua sabedoria à constatação de que, ao sair de cena, nossa geração, que pretendia desejar muito e descontroladamente, não está deixando uma lembrança muito boa.
Só um exemplo: o descontrole do desejo, ultimamente (e não só no Brasil) aparece sobretudo na falta de autocontrole de classes políticas desavergonhadas e vorazes (de votos ou de privilégios).
JOSÉ SERRA - O Brasil e a crise: estresse, não catástrofe
O Brasil e a crise: estresse, não catástrofe
JOSÉ SERRA
O Estado de S.Paulo - 11/08/11
Não é possível prever a extensão e a profundidade do mergulho das economias da Europa e dos EUA, mas se pode esperar, no mínimo, uma estressante instabilidade financeira, ao lado da inflexão para baixo no crescimento da economia mundial.
No caso dos EUA, o impasse político sobre os limites do endividamento público ocorreu quando a economia apresentava sinais de fraqueza. A política monetária frouxa e a desvalorização do dólar nos últimos anos mostraram-se incapazes de reativar a demanda e o crescimento de maneira sustentada.
Paralelamente, o governo Obama não conseguiu promover uma expansão do gasto público que tivesse efeitos multiplicadores poderosos sobre os investimentos e o emprego, como num modelo keynesiano básico. O aumento do déficit e da dívida desde 2008 resultou em grande medida da absorção da dívida do setor privado. Agora, a simples perspectiva de cortes (suaves) naquele gasto piorou as expectativas em todo o mundo. Note-se que a guerra política no Congresso vai piorar até o fim do ano eleitoral de 2012.
Na Europa a crise é pior que nos EUA e diretamente proporcional às vicissitudes causadas pela implantação da moeda comum. A política monetária tornou-se única, nas mãos do Banco Central Europeu (BCE). No entanto, a mobilidade de capital e trabalho na área é baixa, o que exigiria um grande orçamento (ou fundo de estabilidade) para amortecer os possíveis choques assimétricos nos países-membros. Mas a política fiscal (impostos, gastos e dívida pública) não foi unificada e continuou sendo um assunto de cada país. O orçamento da União Europeia é relativamente irrisório - pouco mais de 1% do PIB. No Brasil, que é uma federação, a União detém mais de 20%. Na federação americana, a Califórnia representa um sexo do PIB, mas a falência financeira do Estado não trouxe grandes abalos ao país. A Grécia tem cerca de 2% do PIB europeu, mas seu colapso financeiro teve um quase efeito dominó no Velho Mundo.
A política monetária única, em si, também produziu distorções. Um exemplo? Até a crise financeira mundial de 2008 a Espanha vinha crescendo depressa, com inflação mais alta do que a média europeia e taxa real de juros próxima a zero. Era preciso elevar essa taxa, mas o BCE a manteve abaixo do necessário para estabilizar a economia espanhola e superior à de que necessitavam as economias alemã, francesa e italiana (dois terços do PIB da região), que cresciam mais lentamente. O dinheiro barato favoreceu a formação da bolha de crédito na Espanha, fator que levou o país à linha de frente da desconfiança dos credores.
Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come: largar o euro provocaria hiperinflação na Grécia e violenta deflação na Alemanha. Criar os Estados Unidos da Europa é impossível a médio prazo. Assim, entre os dois extremos - abandonar a moeda comum ou virar uma verdadeira federação -, os países dominantes vão preferir o meio do caminho, fórmula pouco segura para acabar com a instabilidade, mas que poderá servir à prioridade, a curto prazo, de evitar que a "crise" da dívida dos países-membros contagie diretamente o sistema financeiro europeu.
E o Brasil? Sua economia, nos últimos anos, exibiu um crescimento dentro da média da América Latina, abaixo da Ásia e acima dos centros desenvolvidos. Isso foi conseguido graças ao excepcional desempenho das exportações de matérias-primas e alimentos, na quantidade e, principalmente, nos preços. Nunca antes na História deste país os preços das exportações brasileiras cresceram tanto durante um período tão prolongado.
O estilo de desenvolvimento brasileiro tem combinado aspectos curiosos. O sistema financeiro privado é relativamente sólido. A taxa de juros é a mais alta do mundo, não obstante os riscos de crédito e câmbio terem declinado. A enorme diferença entre os juros domésticos e os internacionais apreciou a taxa de câmbio como em nenhum outro país, prejudicando as exportações de manufaturados e favorecendo suas importações. A carga tributária é a maior dos países emergentes, mas a poupança governamental é baixa. A taxa de investimentos é pequena em razão dessa reduzida poupança e da falta de oportunidades (rentáveis) de investimentos do setor privado, principalmente na indústria. O consumo expandiu-se a um ritmo bem superior ao do PIB. Há uma marcha forçada de desindustrialização em razão do câmbio e da carga tributária. O saldo da balança comercial tem caído, apesar do boom de preços, e o déficit em conta corrente cresceu rapidamente, juntamente com o passivo externo do País. Por causa dos juros muito altos e do real supervalorizado, vão se multiplicando os subsídios fiscais ao setor privado, sem planejamento nem controle da eficácia. Em suma, trata-se de um "modelo" de crescimento que não é sustentável por muito tempo, embora a curto prazo exiba indicadores razoáveis de emprego, renda e consumo, além de bons negócios nas áreas financeira e de commodities.
Os atuais transtornos das economias no norte vão estressar esse modelo, mas não necessariamente se afigurarão catastróficos para a economia brasileira. Tanto quanto é possível prever, pode haver retração, mas não colapso, numa variável-chave, que são os preços das commodities, indexados ao dólar. O compromisso do Federal Reserve de manter a taxa de juros no chão por mais dois anos manterá o dólar fraco. O imenso diferencial de juros continuará atraindo dólares e pressionando o valor do real para cima, talvez com mais força, em razão do encolhimento adicional de oportunidades nas economias centrais. A agressividade dos países exportadores de manufaturados deve tornar-se mais feroz ainda, competindo com as exportações brasileiras e assediando nosso mercado interno. Em suma, haverá manutenção ou reforço de algumas das condições do estilo de desenvolvimento acima esboçado - para mim, frágil - num contexto de menor dinamismo do crescimento.
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