quinta-feira, agosto 20, 2009

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

O deus das trincheiras

O GLOBO - 20/08/09

Dizem que na Primeira Guerra Mundial, durante as tréguas de Natal, de uma trincheira se podiam ouvir as comemorações na trincheira inimiga. Nos dois lados cantavam hinos cristãos e havia sermões e imprecações a Deus, que era o mesmo para os dois lados, mesmo que as religiões não fossem as mesmas. Os capelães militares sempre tiveram a dura tarefa de convencer as tropas e a si próprios de que o Deus a que rezavam lhes daria a vitória. Já que não podiam dizer que cada lado tinha o seu Deus e o deles era mais forte, inferiam que o Deus invocado era único mas tinha seus gostos, e os preferia. Deus torcia por eles, não importava o que dissessem os capelães do inimigo.
Não existem capelães com o mesmo problema no futebol, mas está implícita em toda mobilização de fé religiosa antes do jogo um pedido para que Deus favoreça um lado e não ouça o outro. E em todo agradecimento para alto depois de um gol ou de uma vitória, e em toda frase de exaltação a Jesus impressa numa camiseta, está implícito um reconhecimento da parcialidade de Deus. Deus deveria ser banido dos campos de batalha para não se comprometer com a pior das atividades humanas, agravada pela hipocrisia, e proibido de entrar em campo de futebol para não arriscar sua reputação de isenção e fair play. A única função de Deus num campo de futebol deve ser a de evitar a perna quebrada e o mal súbito. E, está bem, dar uma fiscalizada no juiz.
Nada contra a fé de cada um. Acreditar é bom e é bonito, e é claro que a maioria dos jogadores pede e agradece a Deus não vitórias mas sua integridade física e seu sucesso pessoal, seja jogando no Palmeiras ou no Já Vai Tarde F.C. Mas os jogos da seleção brasileira têm se transformado em verdadeiros bazares de ostentação religiosa. Que algumas das marcas de fé exibidas são de picaretagens notórias nem vem ao caso. As vitórias são publicamente creditadas a Jesus e sua bênção vitoriosa agradecida com fervor. Imagino o constrangimento de jogadores e membros da comissão técnica que não são crentes, ou pelo menos crentes a esse ponto, obrigados a participar daquele círculo de oração de graças, ajoelhados, que tem encerrado as participações triunfais do Brasil em torneios internacionais. Por coerência, o mesmo círculo deveria ser formado nos casos de insucessos brasileiros, para cobrar de Deus a mudança de trincheira.

PT DO SARNEY

ELIANE CANTANHÊDE

Pulverização governista


Folha de S. Paulo - 20/08/2009

São movimentos articulados: enquanto a bancada do PT no Senado entra por uma porta no palácio de Lula para salvar Sarney, a senadora Marina Silva sai do partido pela outra porta para defender suas bandeiras, ou seus princípios.
Enquanto a bancada se divide, Marina vai somando. Com gente como Gabeira, Cristovam e Gil, com o PV e o desenvolvimento sustentável, os setores desconfortáveis do PT, a estridência dissidente do PSOL, o legítimo direito de Ciro Gomes de concorrer.
O resultado é um cerco a Dilma Rousseff, num momento decisivo: o Datafolha acaba de mostrar que ela interrompeu o seu crescimento em 16%. Não é um índice ruim, mas é um teto baixo e prematuro.
Ao despontar, Marina bloqueia o caminho de Dilma, que precisa avançar e aproximar seu potencial dos 70% de Lula para mostrar vitalidade ao PMDB e à cúpula, às bases e à militância petista. Ontem, o senador Flávio Arns disse que estava "com vergonha" do partido e do voto antiético no Conselho de Ética. Quantos não estarão?
Dilma parece estar no seu inferno astral. Além da radioterapia, ela enfrenta a entrada em cena de Marina, o empate com Ciro nas pesquisas, o envolvimento desgastante de Lula e do PT com a defesa de Sarney e, enfim, a cristalização da imagem de mentirosa (diploma, dossiê contra FHC, embate com Lina Vieira, versões divergentes de sua ação no caso Varig).
Do outro lado, José Serra despista os holofotes, come buchada em paz no Nordeste e vai mantendo sólido favoritismo, com leves oscilações. Dilma já está apanhando, mas ele parece ainda preservado. Há dúvidas, porém. Uma delas é se Marina tira voto só de Dilma ou se divide com Serra o voto anti-Lula e anti-PT. Outra é se esse cenário de pulverização governista anima o embate ou produz a unidade no PSDB. Falta saber o que anda fazendo, e caraminholando, o governador de Minas, Aécio Neves.

ANCELMO GÓIS

COMBATE ÀS DROGAS

O GLOBO - 20/08/09

A polícia continua prendendo usuários de drogas, o que contraria a legislação vigente.
Mas, o Ministério da Justiça vai incluir no Pronasci, programa de treinamento de policiais, noções sobre a lei de drogas que distingue o consumidor do traficante.
É QUE...
Tarso Genro foi um dos quatro ministros – os outros foram Temporão, Carlos Minc e Paulo Vannuchi – que receberam ontem o inglês Mike Trace, ex-czar do combate às drogas na Inglaterra e presidente da International Drug Consortium (IDPC).
VIROU HÁBITO
Renato Gaúcho, que teve a habilitação e o carro apreendidos numa blitz da Lei Seca no Rio, é reincidente em transgressão.
Sexta, coisa feia, furou a fila para resgatar o carro. Na cara de pau, passou à frente de todo mundo no pátio do Detran, em Curicica, por volta de 12h30m.
A CAUSA GANHA
Carlos Minc estava triste ontem com a saída da amiga e companheira de 25 anos de lutas Marina Silva do PT:
– Mas tenho de reconhecer. A saída dela fortalece a luta dos ambientalistas. Vai obrigar todos os partidos a priorizarem o debate desta questão.
“SEXOGENÁRIO”
O ministro boa-praça Eros Grau, do STF, autor do romance, digamos, erótico Triângulo no Ponto, completou ontem 69 anos e fez graça com os amigos que foram cumprimentá-lo:
– É a primeira vez que eu faço 69...
VALE DESISTE
A Vale desistiu de comprar a gigante americana dos fertilizantes Mosaic, negócio estimado no setor em cerca de US$ 25 bi.
Mas a mineradora, dona de minas de potássio na Argentina e no Canadá, avisa que continua interessada em fertilizantes.
OPERAÇÃO ABAFA
José Sarney parecia ontem mais tranquilo no almoço do Itamaraty para o presidente de Serra Leoa, Ernest Bai Koroma.
Exibia satisfação com o apoio do presidente do PT, Ricardo Berzoini, e mesmo com o “discurso pacificador” do presidente do PSDB, Sérgio Guerra.
SEGUE...
Antes de os presentes caírem de boca num filé mignon, houve quem apontasse o dedo de Aécio Neves para convencer o PSDB a amenizar os ataques ao conglomerado Sarney.
GUARDA ABEL
Anderson Müller, o guarda Abel traído por Norminha (Dira Paes) em Caminho das Índias, da TV Globo, procura duas atrizes para viverem Emilinha Borba e Marlene num musical sobre as duas rainhas do rádio.
Müller adquiriu os direitos. O texto será de Tereza Falcão, e a direção de Antonio de Bonis.
MENOS, LULA, MENOS
Deu no site do Ministério do Desenvolvimento Social que o Bolsa Família chega a “573 mil municípios”. Isto é, umas 100 vezes mais que o número de cidades do País.
Em que pese o fato de a máquina de propaganda Lula adorar um exagero, a coluna sai em defesa do governo e garante que foi um erro de redação muito comum na imprensa.
Ah, bom!

PT: ENTRA SARNEY, MARINA SAI

CLÓVIS ROSSI

Marina e a fadiga do material


Folha de S. Paulo - 20/08/2009

A carta em que a senadora Marina Silva explica sua decisão de deixar o PT, após 30 anos de militância, acaba sendo o último prego no caixão da credibilidade do partido como porta-voz do desenvolvimento sustentável.
Diz Marina que a sua decisão combina com "o pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida".
Como presumível candidata, acrescenta que "faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas".
Mas a crítica ao partido de toda a sua vida estende-se muito além dele -no que também acerta. Diz a senadora que "é evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas públicas para mantê-las".
Desnecessário dizer que, se confirmada, a candidatura Marina Silva será a grande novidade em uma campanha que parecia condenada a repetir a já monótona e indigente disputa PT/PSDB, velha de 15 anos, no plano nacional, tempo suficiente para causar pelo menos alguma fadiga do material.
Talvez essa fadiga explique a única real novidade na pesquisa Datafolha publicada no domingo, que é a intenção de voto em Ciro Gomes, alta para quem não gozou da exposição de seus principais adversários (Dilma Rousseff e José Serra) -e do "recall" decorrente.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Triste dia, este, para o PT”
SENADOR PEDRO SIMON (PMDB-RS) SOBRE O APOIO DO PT À ABSOLVIÇÃO DE JOSÉ SARNEY

PMDB CONSIDEROU ANTECIPAR SAÍDA DE SARNEY
No auge da pancadaria contra o presidente do Senado, José Sarney, o PMDB, seu partido, considerou a hipótese de propor um acordo à oposição para que ele antecipasse em um ano o término do seu mandato, que expira apenas no fim de 2010. Vários senadores do PMDB defendiam essa possibilidade, como o ex-líder Valdir Raupp (RR), mas esbarram na resistência do atual líder, Renan Calheiros.
NEM PENSAR
Lula também reagiu à antecipação da saída de Sarney. Apavora-o a ideia de entregar o Senado ao PSDB, que ocupa a 1ª vice-presidência.
LÍDER DELE MESMO
A decisão do Conselho de Ética, livrando José Sarney e Arthur Virgílio, mostrou que Aloizio Mercadante (SP) não lidera coisa alguma, no PT.
QUEBRA DE DECORO
O conchavo ficou evidente, no Conselho de Ética, quando Renan Calheiros recomendou a absolvição de Arthur Virgílio, que ele acusara.
PIZZA DA MAMMA
A reunião do Conselho de Ética do Senado parecia reunião de família: defendeu-se o nome da mãe, pai, filho. Sem espírito santo.
FORTES: PROPAGANDA PESSOAL EM SITE DO GOVERNO
Se o Ministério Público Federal continuasse tão implacável quanto em outros carnavais, o ministro Marcio Fortes (Cidades) correria o risco de responder a processo por desrespeitar o princípio da impessoalidade, determinado pela Constituição. O site da repartição, pago com dinheiro público, tem sido usado para propaganda pessoal, bem ao contrário do que ocorre em outros ministérios. Só ontem havia 17 referências a ele.
MENINA-VENENO
Virando “pai” na defesa da ministra Dilma, o presidente Lula demoliu de vez a imagem de “dama de ferro”. Imagem já um tanto enferrujada.
RACISMO
O PMDB de Belo Horizonte colabora com o culto ao ódio racial, criando o núcleo “afro”. Um núcleo branquelo escaparia da Lei Afonso Arinos?
MUITO ALÉM DO TORTO
Lula disse à rádio Tupi do Rio que lê pouco, “porque dá sono”, e que “vê muita bobagem na TV”. Inclusive o que ele diz, faltou acrescentar.
CUIDADO, É ELE
Aviso a quem topar com um senhor de cabelos brancos e expressão raivosa, dirigindo agressivamente nas ruas de Brasília um Citroen Picasso prata: trata-se do ex-presidente da Câmara Arlindo Chinaglia (PT-SP). Pelo visto, ainda muito inconformado com o retorno à planície.
SOB TRATAMENTO
Sob licença médica, o ministro Joaquim Barbosa, do Supremo Tribunal Federal, foi visto ontem saindo da padaria Bel’Itália, em Fortaleza, onde adquiriu uma garrafa de ótimo vinho. Depois embarcou num Toyota Camry e seguiu, certamente, para seu tratamento de saúde.
CONVERSA ESTRANHA
Quem conhece a sagacidade de Lina Vieira mal pôde acreditar quando ela tergiversou sobre data e hora da reunião com Dilma Rousseff. Deixou a impressão de acordo para a ministra abandonar a saia justa.
DEBOCHE
Após o anticlímax de terça-feira, na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, os governistas do Senado estão insuportáveis: fazem piada, chamando a ex-secretária da Receita de “VaseLina”.
MAIS UMA
A empresa aérea Azul surgiu como esperança para mudar a atitude do setor, sempre arrogante. Mas logo virou uma delas e acumula queixas de vítimas do curioso capitalismo à brasileira, que maltrata a clientela.
APELANDO AOS CÉUS
O governador cassado do Tocantins, Marcelo Miranda (PMDB), questiona no Supremo Tribunal Federal a competência do Tribunal Superior Eleitoral para julgar seu caso. Suas chances são mínimas.
CORPO MOLE
Magistrados do Conselho Nacional de Justiça estão indignados com a atitude do Ministério Público de Pernambuco que não indica promotores para acompanhar o mutirão de Justiça no Estado. Só em Jaboatão dos Guararapes há mais de mil processos encalhados.
HORA DA ZONA MORTA
Recomenda-se aos prefeitos que cobrem até o meio-dia as promessas de Lula para o Fundo de Participação dos Municípios. Depois desse horário, ele não se responsabiliza pela “marvadeza”.
PENSANDO BEM...
...entre culpados e culpados, escaparam todos ontem no Senado.

PODER SEM PUDOR
O ‘NEGRÃO’ DO RIO GRANDE
O gaúcho Alceu Collares chegou assim à audiência com o ministro de Minas e Energia de Itamar, Delcídio Amaral, hoje senador do PT-MS:
– O negrão do Rio Grande chegou! – exclamou, bem humorado.
Ao despedir-se, ele tinha pressa: precisava ir a uma festa na colônia alemã.
– O que o sr. tem em comum com a colônia alemã? – brincou Delcídio.
Collares deu uma risada:
– Nada, mas se o negrão não for, vão dizer que é discriminação!

O PT DO SARNEY

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Absolvição de Sarney e saída de Marina estremecem o PT


Estadão: PT ajuda a engavetar caso Sarney e entra em crise


- JB: Economia global já está de volta à estabilização


- Correio: A estrela estilhaçada


- Valor: Crise nas usinas favorece empresas de combustível


- Estado de Minas: 2.545 novas vagas no serviço público


- Jornal do Commercio: Sarney é absolvido com a bênção do PT

quarta-feira, agosto 19, 2009

MERVAL PEREIRA

Ideli salva oposição

O GLOBO - 19/08/09

A oposição deve à ânsia da senadora Ideli Salvatti em mostrar serviço ao governo o salvamento do depoimento da ex-secretária da Receita Federal Lina Vieira, que, até o momento da intervenção da líder do governo no Senado, caminhava para ser um tremendo fiasco do ponto de vista da estratégia oposicionista. A ex-secretária, embora tivesse desde o primeiro momento confirmado que tivera um encontro reservado e a sós com a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, e dado detalhes de seu trajeto pelos corredores do 4º andar do Palácio do Planalto até chegar à antessala da ministra, onde mais duas pessoas aguardavam para serem recebidas, não conseguiu se lembrar da data do encontro, nem tinha qualquer outra evidência de que ele realmente acontecera.

Mais que isso, minimizara a intenção da ministra Dilma Rousseff ao pedir para “agilizar” o processo sobre o filho do senador Sarney, recusandose a ir mais adiante nas especulações.

Disse até que não se sentira “pressionada”, embora tenha considerado o pedido “incabível”.

Tudo parecia resolvido para o governo, tanto que o líder Romero Jucá se deu por satisfeito e ameaçou retirar-se do plenário da Comissão de Constituição e Justiça, quando entrou em cena a vibrante líder governista.
Com uma agressividade que o momento já não pedia, Ideli Salvatti — talvez para compensar sua indecisão em apoiar o senador José Sarney no Conselho de Ética, assim como o senador Aloizio Mercadante, que também foi estranhamente agressivo — partiu para um ataque feroz, relendo a entrevista que Lina Vieira dera à “Folha de S. Paulo”, na qual ela se deixou levar por especulações, afirmando que entendera a interferência da ministra Dilma como um pedido para que encerrasse o processo contra o filho de Sarney, acrescentando que o motivo deveria ser que o governo não queria confusão com o Sarney (que àquela altura era candidato à presidência do Senado).

Conclusão da sábia Ideli Salvatti: “Ou a senhora mentiu hoje, ou mentiu para o jornal”.

Pressentindo o desastre, o senador Renan Calheiros tentou interferir para acalmar a petista, que estava reacendendo uma fogueira que quase se apagara por falta de informações adicionais e a extrema cautela com que Lina Vieira tentava andar sobre aquela areia movediça.

Chegou a ser engraçado ver Calheiros enviando sinais de paz para a senadora Ideli Salvatti, que absolutamente não entendia que estava colocando tudo a perder para a base governista.

Ao ser chamada de mentirosa, a ex-secretária da Receita se encheu de brios e, pela primeira vez em seu depoimento, foi além do que a cautela inicial lhe permitia, reafirmando tudo o que dissera à “Folha”: “Não estou mentindo não, reafirmo que a ministra quis parar com a investigação, foi o que eu disse aqui desde o início”.

Não exatamente com essas palavras, que só teve coragem de pronunciar quando provocada pela intrépida líder petista, que jogou novamente a bola para os oposicionistas.
O presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, conseguiu ser o mais explícito dos arguidores da oposição, deixando claro que a única razão para a ministra da Casa Civil pedir à chefe da Receita Federal para “agilizar” o processo do filho de Sarney seria para favorecê-lo, pois não tinha cabimento uma ministra, que nada tinha com a área, subordinada à Fazenda, se imiscuir num assunto desses.

Nesse caso, ficou claro que o pedido da Justiça para que o processo fosse “agilizado e aprofundado” tinha o objetivo oposto do da ministra, que queria mesmo é que o processo fosse encerrado.

A ex-secretária da Receita Federal pecou quando disse que se espantava com o desmentido da ministra Dilma Rousseff, pois não via nada de mais no pedido.

Ora, não é possível que uma servidora pública com mais de 30 anos de serviço não reconheça quando está diante de uma pressão ilegítima.

Toda a situação criada, com encontro sigiloso fora da agenda com a ministra mais poderosa do governo e potencial candidata à Presidência da República, não poderia ter acontecido por nada. E a ministra Dilma Rousseff desmente porque não pode admitir nenhuma conversa com a chefe da Receita sobre esse assunto.

O mais espantoso é como os senadores da oposição não se prepararam para a sessão, possivelmente porque consideravam que o depoimento de Lina Vieira seria devastador para o governo por si só.

Não apareceu um senador para perguntar a Lina Vieira se ela achava normal uma interferência desse tipo, ou para estranhar que ela não tenha se sentido pressionada pelo pedido da ministra.

O que é estranhável no depoimento de Lina Vieira — que considero verdadeiro — é que uma funcionária pública com a experiência dela, diante de uma conversa dessas, nem faz o que a ministra toda-poderosa sugeriu, nem comunica o fato inusitado a seu superior. Continua impávida, como se nada tivesse acontecido.

A única explicação razoável, mas a oposição não conseguiu extrair isso dela, é que considerava inútil se queixar ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, pois sabe perfeitamente quem manda no governo.

O fato de não se recordar do dia exato da reunião é perfeitamente natural, mas seria mais lógico que tivesse anotado em sua agenda particular, que anda perdida na mudança.

Talvez um dia apareça.

Mas o governo teria todas as condições de desmascarála, bastando que analisasse os filmes com as entradas e saídas da garagem do Palácio do Planalto nos meses do fim do ano ou, mais simples ainda, que verificasse nas fichas que Lina Vieira disse que estavam em uma mesinha na entrada da garagem, onde um funcionário checava se a pessoa podia entrar.

Ficar na posição de que quem tem que provar é a acusadora é não querer, ou não ter condições, de se livrar dessa suspeita.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO


JAMIR DE SOUSA LIMA

O PT não é mais aquele


Rapaz, o PT se igualou aos demais. Não pode mais falar do PSDB, PR e DEMO (nome infeliz do antigo PFL ). Quem viu o Mercadante, ontem, aos gritos, bufando tal qual Collor, mal-educado, truculento, querendo desqualificar a depoente Lina, foi demais! Para não ficar diferente, o senador paulista contou com o precioso reforço do intragável Almeida Lima. O PT até que não precisa de reforço, dada a performance de Ideli Salvatti, outra que faz questão de estar à altura dos demais componentes da horripilenta "tropa de choque" doSarney. A ex-secretária só não foi humilhada ao extremo, porque apresentou excelente jogo de cintura e, provavelmente, foi alertada quanto ao comportamento vexaminoso do Senado. Para este Senado chegar ao fundo do poço, como dizem por aí, vai ter que melhorar muito. Já ultrapassou o nível do razoável há muito tempo. O pior de tudo é que o único trabalho daquela casa legislativa é debater o sai-não sai do maior de todos eles, o Sarney, que se tinha biografia respeitável, as denúncias que se acumulam e surgem todo dia, já a arremessaram para o lixo.
O que faz o Senado agir desse jeito é o foro privilegiado, o poder sem conta de manipular verbas,direcioná-las ao seu bel prazer, promover tráfico de influência sem conta, legislar em causa própria, formar capitanias hereditárias nos Estados. É por aí. E não há qualquer disposição dos congressitas de alterar este estado de coisas, que, hoje, lhes assegura um montão de mordomias, cargos e privilégios.
O que deixa a gente um pouco desolado e desesperançado é o fato de que, no ano que vem, a maioria deles vai ser reeleita e zombando, se lixando para a opinião pública e a quem os reelegeu, e rindo gostosamente na nossa cara, e todos nós, sem, que me perdoem o palavrão, vamos ficar com cara de bundão. É o nosso destino e a nossa sina ficar dependente dos eleitores do bolsa-família, bolsa-ditadura, bolsa-escola, bolsa-cultura, bolsa-aliada. Enquanto houver estes tipos de bolsa nada vai mudar, ao contrário, a tendência é piorar cada vez mais.

MÍRIAM LEITÃO

Lina & Lula


O Globo - 19/08/2009

Sem agenda e sem data na memória, a ex-secretária Lina Vieira foi inabalável no Senado. Não provou o que disse, não retirou o que disse, não piscou. A base aliada usou métodos de interrogatório; a oposição quis tirar dela mais munição contra a ministra Dilma.

E ela, impassível. Deu uma lição quando explicou o que é carreira de Estado: “Os governos passam e nós ficamos e servimos ao país.”

Assim deveria ser sempre; nem sempre é assim. Mas por um minuto, enquanto a exsecretária explicava, com voz calma e segura, por que achara incabível o pedido da ministra Dilma — ou suposto pedido —, deu uma lição valiosa e já esquecida: — Incabível porque a Receita usa critérios objetivos e impessoais.

Era um caso pequeno e virou um grande caso pelas paixões eleitorais que floresceram precocemente. O México, quando o PRI era o único partido com chances de ganhar a Presidência, tinha o grotesco hábito do “dedaço”.

Com seu dedo poderoso, o presidente em exercício apontava quem seria o candidato do partido à Presidência.

Ninguém discutia. A escolha da ministra Dilma como candidata foi assim: um dedo apontado e bastou.

Talvez por esta aposta pessoal, o presidente Lula tenha dito o que disse na segundafeira.

Presidentes não desafiam ex-chefes de órgão de terceiro escalão. Porque quem está investido do cargo de presidente encarna o poder da Presidência. E esse poder não pode ser usado para constranger ou desafiar quem quer que seja. Fica um duelo desequilibrado, intimida.

O presidente Lula, no caso Lina Vieira & Dilma Rousseff, teve um comportamento institucional inadequado.

A ministra Dilma Rousseff disse que nada disso aconteceu.

A ex-secretária Lina Vieira disse que tudo isso aconteceu. Lina disse que a secretária-executiva da ministra, Erenice Guerra, foi ao seu gabinete e agendou um encontro no palácio com Dilma. Ela foi, encontrou a ministra enrolada num xale, falaram alguns minutos de amenidades, e Dilma teria dito para Lina “agilizar a investigação do filho do Sarney”. Pontos fracos de Lina: na sua agenda não consta esse encontro, nem ela se lembra o dia.

Fortalece a sua versão o fato de não ter nada a ganhar se chateando com uma sessão repetitiva, como a de ontem no Senado, em que foi alvo de um agressivo interrogatório e ficou no meio de um terreno minado por uma campanha eleitoral extemporânea.

Já a ministra Dilma tem muito a perder. Ela é candidata ao cargo mais importante da República. Ela garante que nunca pediu à chefe da Receita coisa alguma, nunca houve a tal reunião.

Mas se houve, a situação se complica. Dilma nunca tratou de questões específicas com Lina, nunca pediu por nenhum outro contribuinte, teria pedido apenas pelo processo do “filho do Sarney”.

Se isso aconteceu, a ministra estaria dando tratamento diferenciado a um específico contribuinte. Ponto forte de Dilma, a ser verdade a versão de Lina: ela pediu para “agilizar”, nada mais. Aliás, a Justiça tinha determinado a mesma coisa. Depois da conversa, segundo a própria Lina, Dilma nunca cobrou, nunca ligou para a secretária para saber o cumprimento do pedido.

É um caso simples e complexo.

Do lado da Dilma, porque se houve a reunião, é “uma tentativa de uso do poder para quebrar o principio da impessoalidade”, como disse o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Do lado de Lina, porque se ela achou que o pedido era uma tentativa de resolver o problema antes da eleição do Senado, como foi sua ilação à “Folha de S.Paulo”, ela deveria ter “representado contra a ministra Dilma e comunicado aos superiores, do contrário seria prevaricação”, como disse o senador Mercadante (PT-SP).

Na guerra entre o rochedo e o mar, na luta eleitoral antecipada, a ex-secretária da Receita poderia ter escapado por uma das várias portas que se abriram. O senador Romero Jucá (PMDB-RR) concluiu que era tudo então um grande mal entendido.

Ela poderia dizer que sim, e recolher-se. Mas ela pediu a palavra para responder: — Não foi um mal entendido.

O encontro houve e o pedido aconteceu.

A oposição quis usá-la, mas ela não caminhou um passo além. Os governistas atacaram furiosos, como Ideli Salvatti (PT-SC), que a acusou de mentir, e Aloizio Mercadante, de prevaricar. Mercadante perguntou quantas vezes ela tinha se encontrado com a ministra Dilma.

Duas ou três, ela disse. Ele então apresentou várias datas em que ela teria ido ao Planalto. Era uma forma de dizer que sua memória não era confiável. Ela, firme, separou o joio do trigo: naquelas datas ela fora para eventos públicos, com o presidente, junto com seu chefe.

O senador implicou com o fato de que ela se lembrava apenas do xale. “Achei o xale diferente.” Quis insinuar que ela sai dos governos criticando e disse que ela saiu do governo Garibaldi Alves criticando os incentivos fiscais.

“Eu sempre critiquei os incentivos fiscais.” Enfim, o que restou mesmo depois de tantas cascas de banana é a dúvida inicial: como ela não se lembra do dia, nem registrou na agenda um encontro que havia sido pedido dessa forma tão especial? A favor, fica o fato de ela repetir tão serenamente a sua história, mesmo diante do nervosismo do governo e do desafio do presidente da República.

GOSTOSA


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ROBERTO DAMATTA

Obragem de coluna


O Globo - 19/08/2009

Graças a Fernando Collor, os jornais foram forçados a retornar ao português castiço no intuito explicar às pessoas sem biografia — o cidadão comum que não tem dinheiro, sofisticação ou cargo elevado — o sentido do insulto (citado acima) que o fero aliado do governo Lula (não tanto do PT, eu ainda presumo), dirigiu ao jornalista da revista “Veja” Roberto Pompeu de Toledo.


Obrar, na língua com a qual nos comunicamos e, sem saber, construímos o mundo, é o resultado de uma ação ou trabalho. Os dicionários registram vários sentidos para o ato de agir sobre nós mesmos, as pessoas e os objetos que nos cercam enquanto seres vivos; pois os mortos estão mortos precisamente porque deixam de obrar e, se continuam realizando alguma coisa, é por meio simbólico: através da obra e da memória que deixaram.

A “obra” é o resultado de nossas vidas: de tudo o que fazemos (inclusive do não fazer que é um importantíssimo fazer) enquanto sujeitos dotados de vontade, autonomia e discernimento — todos relativos. Mas, além destes significados abrangentes e contemporâneos, obrar significa também defecar, sujar, borrar e cagar. Ou seja, na língua portuguesa, há uma relação intestina entre obrar como produzir, trabalhar, operar, agir, surtir efeito, causar e realizar; e o aparentemente humilde (mas imperativo e velho) ato de cagar.

O primeiro, dependendo da obragem, distingue; o segundo, compassivamente, por meio de um corpo que não deixa mentir, iguala o trivial imbecil ao sábio mais sofisticado.

Graças ao senador e ex-presidente Collor, temos na magnífica paisagem de nossa vida politica contemporânea essa edificante redescoberta do “obrar” como “cagar”.

Quer dizer, ao lado deste belo panorama que vai do apoio fraterno a caudilhos, passa pela falsificação grosseira de biografias, chega aos decretos secretos de um parlamento parlapatão que legisla secretamente em causa própria; passa por agressões verbais que desonram prostíbulos; reafirmam um narcisismo digno dos maiores neuróticos de Freud; e atingem seu ponto culminante no eterno retorno à tranquilidade do Senado como um velho clube campestre ou como um incrível jogo de futebol onde o gol contra é aplaudido porque nossos representantes odeiam as regra que valem para todos, há também a equação entre bosta e obra.

Ouvi de velhos nordestinos, nortistas e de sertanejos do esse obrar como sinônimo de defecar. No atual momento, penso que não há maior contribuição para a democracia liberal e para a autoestima cidadã dos obreiros comuns, gente de obra regular e normal, pagadores compulsórios e honestos dos impostos sem biografia ou dona das 400 gravatas e dos 200 ternos comprados com o nosso dinheiro, ou que têm financiamento da Petrobras e quejandos, do que ser forçado a redescobrir que — grosso modo — obrar é mesmo a maior característica da elite politica nacional.

Nada mais gratificante do que desvendar a relação culta, intestina e profunda entre o ato de defecar e o de produzir, esse verbo inscrito nos anais da modernidade. Estilo de vida baseado justamente no obrar, agir, fabricar, executar e urdir, sobretudo quando isso nos chega por meio de um ataque a um jornalista probo e é dito pela boca de um dos membros de uma ilustre galeria de “supremos magistrados da nação”, de ex-mandatários da administração federal; de supostos orientadores da moralidade do país como ex-presidentes da República. Super-pessoas que, pelo cargo exclusivo e singular que ocuparam, merecem respeito e admiração.

Agora, porém, não temos mais nenhuma desculpa. Sabemos bem como a nossa língua realiza o elo entre a merda e a obra.

Caberia aos weberianos (se é que ainda exista quem leia Weber no Brasil), aprofundar esse elo entre obrar e defecar contido nesse verbo que vem (como afirma o Aurélio) do operare latino; e (como indica o Houaiss) foi dicionarizado no século XIII. Haveria um laço profundo entre bostar e fabricar; e o velho e conhecido par trabalho e castigo? Poder-se-ia arguir que o fazer latrinal significa que ainda não realizamos a transição para a tal modernidade que tanto buscamos, como nos ensina com agressiva propriedade e arguta sabedoria o expresidente Collor? Se o moderno é construído pelo obrar como um incessante fabricar; bem como pelo trabalho como chamado e vocação e não como castigo (que seria coisa para gente comum e escravos); como ficamos quando somos forçados a descobrir que na nossa construção de mundo a merda tem tudo a ver com o fabricar e o trabalho está ligado ao tripalium (um instrumento de tortura) e assim ao castigo condizente com a escravidão que mal acabamos de acabar? Eis aí, em péssima sociologia, algo que faz parte de nossa visão de mundo que o senador Collor contribuiu para esclarecer, do mesmo modo que dois dos seus colegas, nesses tempos ricos de vocabulário e teórica politica de lavatório, lembraram.

Refiro-me ao coronel (de merda) e ao cangaceiro (de terceira) que — quem ainda não tinha certeza mais absoluta — permeiam, muito mais do que povoam, o sistema político nacional.

PANORAMA POLÍTICO

O candidato

Ilimar Franco
O Globo - 19/08/2009

Vários partidos estão procurando o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, mas sua preferência é pela filiação ao PMDB. Seus planos não incluem concorrer a um cargo parlamentar. Ele quer o Executivo e tem pesquisa na qual 48% dos entrevistados responderam que poderiam votar nele para governador de São Paulo. Skaf acredita que pode constituir uma terceira via na eleição paulista e pretende anunciar sua filiação até o fim deste mês.

Crise do Senado: a ressaca

A oposição esperava mais do depoimento da ex-secretária da Receita Lina Vieira. Ela reafirmou o que dissera, mas não apresentou provas nem maiores detalhes. Os governistas não gostaram da agressividade do líder do PT, Aloizio Mercadante (SP), e da senadora Ideli Salvatti (PT-SC).

Como Lina havia recuado de sua afirmação inicial, sobre o suposto pedido para encerrar uma investigação contra o empresário Fernando Sarney, não era necessário tentar tripudiar.

Mas a sessão da Comissão de Constituição e Justiça serviu para a oposição colocar um tijolinho na imagem que está tentando moldar para a ministra: a de mentirosa.

Nós estamos destruindo a imagem do presidente José Sarney, e nós estamos nos destruindo também.

Estamos nos afundando progressivamente” — Sérgio Guerra, senador e presidente do PSDB (PE)

ECONOMIA CARIMBADA. O ministro Fernando Haddad (Educação) vai receber um presente hoje da Câmara dos Deputados. Num ato no gabinete do presidente da Casa, Michel Temer (PMDB-SP), receberá uma doação de R$ 80 milhões para serem investidos em educação básica. Esse foi o montante economizado até agora com as medidas de racionalização de gastos adotadas no início do ano pela gestão de Temer.

Saturação

Desencantado com o Conselho de Ética, o líder do DEM, José Agripino (RN), defende: “Denúncias ou acusações contra parlamentares não podem continuar sendo apreciadas por parlamentares; têm que ser apreciadas pela Justiça”.

Abreu e Lima

A próxima etapa da CPI da Petrobras é investigar os indícios de superfaturamento das obras da refinaria Abreu e Lima (PE). O relator, senador Romero Jucá (PMDB-RR), vai ouvir na semana que vem técnicos da refinaria e do TCU.

O PV conversa com o PSC

Na investida para aumentar seu tempo de TV, o PV está conversando com o PSC. O primeiro tem dois minutos e o segundo, um minuto e meio. Quem está conduzindo as negociações é o deputado Edson Duarte (PV-BA). O vicepresidente do partido, vereador Alfredo Sirkis (RJ), reage ao deputado Chico Alencar (PSOL-RJ): “Ao difamar o PV, Chico se rebaixa, pois o PSOL coligou-se conosco em Porto Alegre. Então tudo não passou de uma mera locação?”

As tropas do Congresso

Ontem no Senado, Flecha Lima (PSDB-PA) criou as Fard (Forças Armadas da Dilma).

Aloizio Mercadante (PT-SP) inventou o GAS (Grupo de Assalto do Serra). Almeida Lima (PMDB-SE), dizendo-se da tropa de choque do governo, acusou a oposição de ser “trombadinha do poder”. À tarde, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) marchou para a CPI da Petrobras, onde estava depondo o presidente da Agência Nacional do Petróleo, Haroldo Lima.

Mas negou ser da tropa de choque do partido. Aldo respondeu: “Sou tropa de elite”.

O LÍDER do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN) , conversa com o presidente Lula sobre 2010 na quintafeira.

Eles viajam juntos para o Rio Grande do Norte.

ENQUANTO Marina Silva (PT-AC) está de mudança para o PV, o presidente Lula passará pelo Acre a caminho da Bolívia, na sexta-feira. Quer agradar ao governador Binho Marques e ao senador Tião Viana (PT-AC).

SOBRE O DEPOIMENTO da ex-secretária da Receita Lina Vieira no Senado, fala o presidente do PTB, Roberto Jefferson: “Sem nenhuma prova (...) A exleoa até agora não rugiu, e não acredito que o faça”.

GOSTOSA


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BRASÍLIA - DF

Acordo fechado


Correio Braziliense - 19/08/2009


O presidente Luiz Lula da Silva bateu o martelo em relação à polêmica compra de 41 helicópteros de transporte para o Exército e quatro submarinos Scorpène, de tecnologia francesa. Os veículos serão fabricados no Brasil, respectivamente, pela Helibras e um estaleiro a ser construído pela Odebrecht, com uma nova base naval na baía de Mangaratiba (RJ). O pacote prevê a construção de um submarino nuclear pela Marinha, com tecnologia de propulsão nacional e os demais equipamentos franceses. O acordo militar do Brasil com a França será assinado no próximo 7 de setembro, por Lula e pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy.

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, confirmou a compra ontem, durante gravação de entrevista para a TV Brasil, que vai ao ar hoje, às 22h. A compra de 36 caças Rafale, que o governo francês queria incluir no pacote, está fora do acordo. Segundo Jobim, o governo ainda analisa a oferta francesa, ao lado das propostas dos caças norte-americanos F/A18 e dos suecos Gripen. “A melhor opção será em função da transferência de tecnologia. Queremos construir os aviões no Brasil”, garante Jobim.

Escorregões// Petistas começam a questionar a falta de um estado-maior para a candidatura da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que começa a escorregar em cascas de bananas. Como o presidente Lula centraliza todas as decisões, a ministra comete erros típicos de quem nunca disputou eleições.

Mudança

Na sexta-feira, em reunião com os comandantes militares, Lula baterá o martelo em relação à proposta de reestruturação das Forças Armadas. Segundo Jobim, haverá alteração na estrutura militar de guerra que, segundo ele, está intocada desde 1980; na organização, no preparo e no emprego das Forças; na estrutura do Ministério da Defesa; e na articulação e equipamento das Forças Armadas. Há divergências entre Jobim e os comandantes das Forças quanto ao status de seu chefe de estado-maior, que hoje tem papel secundário, e o papel da Comissão de Compras do Ministério da Defesa a ser criada.

Carangos

A venda de carros caiu 11,82% na primeira quinzena de agosto, o que mostra as dificuldades de recuperação da indústria, mesmo com a isenção de IPI. Foram emplacados 116.262 automóveis.

Precursora

O governador Sérgio Cabral (PMDB) foi mesmo vaiado ontem, em Nova Iguaçu (RJ), como temia, durante a cerimônia de inauguração das obras do PAC, para constrangimento do presidente Lula. O prefeito Lindberg Farias (PT), responsabilizado pelo incidente, também levou uma vaia dos correligionários de Cabral. Quem se divertiu foi Anthony Garotinho (PR), que não estava no palanque, mas armou a arapuca. A aliança entre o PMDB e o PT no Rio de Janeiro está em frangalhos.

Fita/ O DEM ameaçou jogar o regimento sobre o primeiro vice-presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), caso ele encaminhasse o pedido de acesso às fitas do circuito de segurança do Palácio do Planalto, tarefa cumprida ontem. O líder Ronaldo Caiado (DEM-GO) quer obter provas do suposto encontro entre a ex-secretária da Receita Federal Lina Maria Vieira e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff.


Cabresto/ Na contramão da garantia dada pelo presidente licenciado do PMDB, deputado Michel Temer (SP), diretórios estaduais do partido têm ameaçado quadros infiéis com a perda do mandato caso deixem a legenda. O recado foi dado ao senador Mão Santa (PMDB-PI) e a outros quatro deputados que tentam negociar a saída pacífica da atual legenda.

Barraco/ Durante o lançamento da carteira de identidade digital, no Instituto de Identificação da DPE, o deputado federal Laerte Bessa (PMDB-DF), muito nervoso, quebrou o protocolo e criticou o Correio por publicar reportagem que o deixou contrariado. Levou um puxão de orelhas do cerimonial do governador José Roberto Arruda (DEM), que ficou constrangido e lamentou a atitude do ex-chefe da Polícia Civil do GDF.

Retorno/ Petistas da Construindo uma Nova Brasília, ala vinculada à corrente nacional Construindo um Novo Brasil (CNB), lançaram o ex-presidente da legenda Wilmar Lacerda para disputar o controle do diretório regional do PT, em novembro. O deputado distrital Cabo Patrício é o fiador da candidatura, que tem outros três pretendentes inscritos.

Pessoal!



Com forte sotaque nordestino, começavam assim os discursos de Vladimir Palmeira (foto), que liderou as manifestações estudantis de 1968 no Rio de Janeiro — como a famosa Passeata dos 100 Mil —, ao lado do ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, e do vice-prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Muniz. Vladimir é protagonista de documentário dirigido por Roberto Stefanelli, que a TV Câmara lança hoje, às 20h, no seu auditório. Será exibido nos dias 22 (sábado), às 21h, e 23 (domingo), às 8h, 13h30 e 20h.





Palanque



A cúpula dos partidos de oposição — PSDB, DEM e PPS — aumenta a pressão para que o senador Jarbas Vasconcelos (foto), do PMDB, se candidate ao governo de Pernambuco. Se o ex-governador ficar fora da disputa, teme um desastre eleitoral sem precedentes, que pode inviabilizar a reeleição dos senadores Sérgio Guerra (PSDB) e Marco Maciel (DEM) e ainda reduzir pela metade a bancada de oposição na Câmara. Candidato à reeleição, o governador Eduardo Campos (PSB) costura uma coligação com o ex-prefeito de Recife João Paulo (PT) e o deputado Armando Monteiro (PTB), presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

FERNANDO RODRIGUES

A mentira como imagem


Folha de S. Paulo - 19/08/2009

Continua sendo corrosiva para a imagem da ministra Dilma Rousseff a acusação feita por Lina Vieira. Ontem, o depoimento da ex-secretária da Receita Federal serviu mais aos propósitos da oposição do que aos do governo.
Lina não apresentou provas definitivas sobre o suposto encontro reservado mantido com Dilma no final do ano passado -no qual a ministra teria sugerido "agilizar" o processo de investigação tributária contra Fernando Sarney, filho do atual presidente do Senado.
Mas a ex-secretária foi cruel. Descreveu o episódio em minúcias. Carregou sua história de verossimilhança. Agora, sabe-se o nome do motorista que a levou ao Planalto.
Na garagem, Lina diz ter se identificado aos seguranças. Na antessala da ministra, prossegue o relato, duas pessoas também esperavam para ser atendidas. Depois do encontro, um funcionário do alto escalão do fisco foi chamado por ela para detalhar o andamento do processo sobre a família Sarney.
Por que Lina Vieira daria um depoimento quase bizantino nos detalhes se estivesse mentindo? Com todos esses elementos, o governo poderia facilmente dinamitar uma eventual mentira. Um exemplo: a administração Lula pode checar como o funcionário chamado a dar detalhes do processo obteve os dados. A regra geral é haver registro digital dos acessos a informações fiscais no sistema da Receita.
Os lulistas argumentam com alguma razão sobre o ônus da prova caber ao acusador, não ao acusado.
É verdade. Mas quem acusa é Lina Vieira, integrante dos quadros do próprio governo. Não se trata de alguém da oposição, um de fora. Há formas de o Planalto debelar essa crise Dilma-Lina. Basta desmontar pelo menos um dos detalhes oferecidos pela ex-secretária.
Negar o encontro, para Dilma, não basta. A não ser que prefira conviver com o espectro da mentira rondando sua imagem.

GOSTOSÃO COM OS OVOS!

BAIACU NA PRAIA

CLÓVIS ROSSI

Previsões, o balão e a Apolo 11


Folha de S. Paulo - 19/08/2009

Por fim aparece um economista com coragem e sinceridade suficiente para dizer que previsões sobre desempenho econômico são tão científicas quanto jogar búzios ou ler a mão.
O economista em questão, Aquiles Mosca, estrategista de investimentos pessoais do Santander Asset Management, prefere escrever que "há uma nítida assimetria entre nossa habilidade de explicar o passado e nossa capacidade de prever o futuro" (artigo para o "Valor Econômico", ontem publicado).
Mosca vai muito além dessa frase comedida: conta que as projeções de mercado, reproduzidas no boletim "Focus" do Banco Central, erram feio sistematicamente.
Escreve Mosca: "Uma rápida olhada na diferença entre as previsões feitas 12 meses atrás e os valores efetivamente observados para essas variáveis [PIB, inflação, juros reais e nominais e câmbio] revelam erros significativos, entre 40% e 12%. Além disso, para juros nominais e reais, a média das expectativas dos especialistas foi incapaz sequer de prever a direção em que elas iriam se deslocar" (os juros caíram, em vez de subir).
Atenção, não se trata de erro por incompetência ou impossibilidade real de adivinhar o futuro, adverte o economista do Santander. Diz: "A oportunidade de ganhos está em antecipar o que os demais ainda não veem (...) e em traduzir isso em posicionamentos nos ativos certos, na "ponta" certa (comprado ou vendido) antes que os demais o façam".
Traduzindo: apostam numa direção e fazem previsões para ajudar a aposta a dar certo.
Sempre segundo Mosca: "Se a Nasa precisasse contar com a precisão das previsões do boletim "Focus", o voo da Apolo 11 provavelmente não teria alcançado a altura de um balão de festa junina".
Pois é. E nós, jornalistas, vamos continuar a dizer, acriticamente, que o balão de festa junina é uma Apolo 11?

VINÍCIUS TORRES FREIRE

Uma boa notícia e uma dúvida


Folha de S. Paulo - 19/08/2009

Crise do emprego resiste na indústria, mas passa de modo rápido e inesperado; maioria dos setores entra no azul



A CRISE DO EMPREGO passou muito mais rápido e de modo mais inesperado do que estudiosos e outros interessados no assunto esperavam, este colunista inclusive. É o que parece, a julgar pelo balanço do emprego formal de julho. As piores expectativas eram baseadas principalmente em duas hipóteses:
1) A queda do emprego ocorre com mais força depois de alguns meses do início do tombo na produção;
2) As demissões, que a princípio explodem na indústria de transformação ("fábricas"), tendem a se espalhar feito uma mancha de óleo no mar da economia. Não foi assim.
Houve um pânico quase generalizado pelos setores da economia entre dezembro e janeiro. A indústria teve um primeiro trimestre desastroso e um segundo "apenas" horrível. Ainda vai mal. O comércio foi mais contaminado pelas fábricas, mas nos demais setores a reação começou cedo, após o "grande medo" da virada do ano. Fábricas e certos grandes exportadores foram, como se sabe, tragados pelo colapso do comércio mundial. A "ampliação do mercado interno", para recorrer ao velho blablablá desenvolvimentista, sustentou a atividade.
Entre 87 setores de atividade econômica, os que apresentavam a maior redução do estoque de empregos em relação a julho de 2008 estavam o de produção florestal, metalurgia, informática e eletrônicos, montadoras, máquinas e equipamentos, madeira, couro e calçados, produtos de metal, borracha e plástico, máquinas e aparelhos elétricos, todos com quedas de 5% a 21%. Mas, agora, 52 setores empregam mais gente do que há um ano, embora os salários tenham caído.
Em suma, o grosso do emprego sumiu devido à crise das montadoras e do investimento (máquinas, metalurgia e metal), de exportadores de alimentos e de alguns recursos naturais e das cronicamente complicadas manufaturas de têxteis, calçados e madeira.
Construção civil, infraestrutura, serviços públicos, educação, varejo doméstico e as miríades de serviços, tudo isso ajudou a evitar que a peteca do emprego caísse no fundo do poço.
A ação dos bancos estatais evitou o colapso do crédito. O crescimento forte e contínuo do gasto público, bom ou ruim, no curto prazo sustentou o mercado doméstico. Solvência nas contas externas e uma política macroeconômica mais ou menos conservadora vacinaram o país contra uma contaminação virulenta na área financeira e permitiram, coisa inédita, que o país baixasse os juros durante uma crise feia.
A ação estatal mostrou-se um instrumento muito útil para evitar o alastramento do pânico. Os gastos ditos "sociais" expandiram os "estabilizadores automáticos" (seguro- -desemprego, benefícios sociais vários). Mesmo a parte pior (a maior) do gasto do governo no curto prazo ajudou a evitar recessão feia.
Mas é também parte de nossos problemas crônicos: dívida pública ainda alta, gasto excessivo com juros, impostos demais e, ao mesmo tempo, investimento público limitado. O sucesso profilático da ação estatal ajuda a desmoralizar alguns mitos mercadistas. Pode, porém, criar mais ilusões e hábitos inerciais: excesso de gasto ruim, em ritmo de alta inviável, e economia regulada e estatizada demais onde não é necessário.