segunda-feira, maio 25, 2009

PETROLAMA

Tiago Recchia

RUY CASTRO

Brincando de Facebook

FOLHA DE SÃO PAULO - 25/05/09

RIO DE JANEIRO - Há dias venho recebendo mensagens de pessoas convidando a que me registre em algo chamado Facebook para "me tornar amigo" delas. A maioria é de gente que não conheço, nem identifiquei pelo retratinho 3 x 4 que acompanha a mensagem. Como vivo desconfiado quanto às novidades da internet, temo que seja mais uma pegadinha para me plantar um vírus e arruinar o meu, com todo respeito, disco rígido.
Mas outras mensagens vêm de amigos próximos e ocasionais, antigos colegas de faculdade ou de jornal e até uma ex-namorada. Como não sabia que estava rompido com algum deles, não entendo por que, de repente, essa ânsia a que eu "me torne amigo" deles. E, no caso, para que me registrar no Facebook? Não basta pegar o telefone ou mandar um convencional e-mail reafirmando a amizade?
Não. Estudando melhor a proposta, descubro que, registrando-me no Facebook, posso "manter contato com amigos, partilhar fotos ou criar meu próprio perfil". Eba! Como pude viver até hoje sem essas facilidades? Até então, para "manter contato com amigos", eu tinha de descer do prédio, atravessar a rua e encontrar os ditos amigos na praia ou no botequim. O Facebook me livrará dessas práticas toscas.
Em outro parágrafo, o Facebook me convida a "criar uma conta pessoal". Mas adverte que, se eu "estiver aqui para representar uma banda, negócios ou produtos", devo primeiro "criar uma página do Facebook". Aí já não gostei. Não "estou aqui" para representar uma banda, seja o que isso signifique, e evito fazer negócios com amigos que acabei de adquirir no Facebook, mesmo que já sejam íntimos e de outros Carnavais.
Se entrar para o Facebook, prometo não representar bandas, nem fazer negócios ou oferecer produtos, e brincar todos os dias de partilhar fotos com meus amiguinhos.

FERNANDO DE BARROS E SILVA

A Petrobras é nossa

FOLHA DE SÃO PAULO - 25/05/09

SÃO PAULO - Não se deve esperar muito da CPI da Petrobras. Isso só não vale para a turma do PMDB, que já vislumbrou nela mais uma oportunidade de furar o fundo do poço da moralidade.
A investigação pouco promete, mas não por falta de assunto. O noticiário exibe uma profusão de coisas obscuras, ou claras demais, à espera de análise séria. Mas seriedade é o que falta hoje ao Congresso.
Não é só o ambiente rebaixado da Casa que contamina e desmoraliza a CPI antes mesmo de seu início. Nos últimos dez dias, desde que o Senado aprovou o requerimento, houve uma inversão de papéis: a oposição foi acuada e age como se estivesse intimidada diante do governo. Só está faltando vir a público se desculpar pelos transtornos causados a Lula e ao PT.
A pusilanimidade da tucanada deixou o Planalto à vontade para montar uma operação de guerra a fim de blindar a galinha dos ovos de ouro. Ministros se juntaram em coro ao próprio Lula para dizer que a CPI é um crime de lesa-pátria. Sindicalistas, petistas e barnabés abraçaram o prédio da empresa no Rio, gritando palavras de ordem contra sua privatização -algo que não está absolutamente em jogo.
O terrorismo retórico orquestrado pelo Planalto tem duas faces: de um lado, recorre ao jargão empresarial para sugerir que os negócios da Petrobras serão afetados; de outro, apela ao sentimento nacionalista, numa espécie de evocação do fantasma de Getúlio Vargas.
Eis, nessa mistura de rendição às razões do mercado com arremedo de getulismo, uma imagem sintética e fiel do governo Lula.
Mas o varguismo mimetizado pelo PT não se limita à reciclagem do bordão "o petróleo é nosso". Não é só uma questão de imaginário, mas também de método. A verdadeira inspiração getulista do segundo mandato está materializada na máquina de propaganda oficial, sob os cuidados de Franklin Martins. A reação à CPI é só um aviso do que ela é capaz contra os que se atrevem a atazanar a vida do comissariado.

GOSTOSAS


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GEORGE VIDOR

Contrarreforma

O GLOBO - 25/05/09

O Brasil nem mesmo encontrou solução capaz de assegurar o equilíbrio da previdência social e já se arquitetou no Congresso uma espécie de contrarreforma que porá a perder os avanços modestos, alcançados a duras penas e com considerável desgaste político dos governos Fernando Henrique Cardoso e Lula. A contra-reforma passou pelo Senado e está tramitando na Câmara.

O Senado aprovou por acordo de lideranças os projetos que acabam com o fator previdenciário, recalculam as aposentadorias de acordo com 36 últimas contribuições e vinculam os benefícios, retroativamente, ao salário mínimo. Teriam sido necessárias apenas doze assinaturas para que esses projetos fossem submetidos à votação em plenário, mas apenas três senadores, de um total de 81, se dispuseram a aderir ao requerimento.

Se no Senado, do qual sempre se espera mais reflexão e aprofundamento na discussão de questões sérias, a contra-reforma foi aprovada desse jeito, na Câmara os apelos demagógicos em período pré-eleitoral costumam encontrar ainda mais terreno fértil. Para evitar o gol contra, o governo precisará se esforçar para postergar essa votação. Depois da disputa nas urnas em 2010, os governantes eleitos terão cacife político suficiente para convencer os parlamentares a não montar uma nova bomba-relógio.

O fator previdenciário não resolveu, mas atenuou o problema das aposentadorias precoces no regime geral de previdência social. O mecanismo favorece aqueles que contribuem por mais tempo e se aposentam a partir dos 60 anos (a fórmula permite até que o benefício supere o último salário do trabalhador na ativa, se o segurado antes da aposentadoria estiver ganhando menos que o teto pago pelo INSS). Já no caso dos que têm tempo de contribuição suficiente para se aposentar — 35 anos para homens e 30 anos para mulheres — mas não chegaram aos 60 de idade, o fator reduz o valor da aposentadoria, o que é justo, pois a filosofia do sistema é o da solidariedade: os que têm capacidade para trabalhar auxiliam os que não podem mais, por motivo de saúde ou envelhecimento.

Os gastos da previdência no Brasil, somando-se INSS e os sistemas específicos para servidores públicos, equivalem a pouco menos de 11% do Produto Interno Bruto (PIB). É uma proporção que só alguns países ricos atingiram. China e Índia gastam menos de 2% do PIB; o Japão, 6%. Esses 11% representam quase um terço do total de impostos arrecadados hoje no país.

Pelas projeções do Ipea, o Brasil terá 55 milhões de idosos em 2040, cerca de 27% da população. Mas hoje o número de brasileiros com mais de 60 anos é de aproximadamente 20 milhões (9,5% da população). Mesmo assim, a previdência paga um total de 26 milhões de benefícios por mês.

A contrarreforma vai literalmente na contramão do que o bom senso recomenda para se garantir um equilíbrio de longo prazo na previdência. Mantidas as regras atuais, só os benefícios do INSS saltarão do equivalente a 6,8% para 11,2% do PIB em 2050. Com as mudanças, essa percentagem chegaria a 16% do PIB.

Também a vinculação dos benefícios a um número de salários mínimos é economicamente indesejável, pois tal mudança inibirá qualquer política de valorização do mínimo. Alega-se que os aposentados estão sendo prejudicados, o que é discutível, pois, como os benefícios são corrigidos pelo INPC ano a ano, a atualização em média vem superando a correção salarial dos trabalhadores com carteira assinada desde que a primeira reforma entrou em vigor. Só como exemplo, a correção de benefícios pelo INPC de 2003 a 2006 foi de 39,75%, enquanto a média dos trabalhadores com carteira assinada obteve no período um reajuste de 36,8%. Os funcionários públicos estatutários tiveram aumento médio de 48,71%.

As pessoas podem ter como opção de vida se aposentar precocemente. Mas para isso precisam poupar para si próprios. Na previdência social, ninguém poupa para si mesmo: as contribuições dos que estão na ativa custeiam os que já estão aposentados e assim por diante. Se o sistema oficial estimula a aposentadoria precoce, sobrecarrega quem continua na ativa ou inviabiliza financeiramente a previdência a médio prazo.

* * *

A Prefeitura de Angra dos Reis deve expedir ainda este mês a licença para a Eletronuclear usar o solo onde será instalada a terceira usina termonuclear brasileira. Essa licença é a última que falta para a obra continuar (as duas outras já foram expedidas pelo Ibama e pela Comissão Nacional de Energia Nuclear). Agora em junho, haverá a audiência pública, como determina a lei 8.666, que precede o lançamento do edital de contratação da montagem eletromecânica da usina, que ocorrerá paralelamente às obras civis (no caso de Angra 2, a montagem foi feita depois). O contrato das obras civis, com a construtora Andrade Gutierrez, já foi renegociado, e está pendente apenas de uma avaliação do Tribunal de Contas da União.

Enquanto isso, a Eletronuclear, está renegociando os demais contratos e preparando as licitações complementares. Por enquanto, o cronograma de retomadas das obras de Angra 3 não sofreu alterações. Nesse ritmo, a usina ficará pronta em dezembro de 2014, pouco tempo após as grandes hidrelétricas do Rio Madeira estarem operando a plena capacidade.

FERNANDO RODRIGUES

O escândalo vai passando

FOLHA DE SÃO PAULO - 25/05/09

BRASÍLIA - A fila andou. Deputados e senadores foram encontrando novos assuntos. CPI da Petrobras, reforma política e outros. O caso do desvio de verbas indenizatórias vai ficando no oblívio. Ninguém foi punido. Regras foram alteradas de maneira epidérmica.
São mais de 50 casos de comportamento impróprio de deputados e de senadores de fevereiro para cá. Teve de tudo, desde o deputado do castelo até os jatinhos alugados, farra com bilhetes aéreos, empregadas domésticas pagas como assessoras parlamentares e funcionários fantasmas aos montes.
No Senado, a reação foi típica da inação: contratou-se uma consultoria. Na Câmara, anunciaram um corte de despesas inexistentes, mas mantiveram intactos os benefícios dos deputados -inclusive as viagens internacionais.
Aberrações como o auxílio-moradia ficaram intocadas. Deputados e senadores embolsam o privilégio não importando se vivem em imóveis próprios em Brasília.
Também não há notícia de divulgação das notas fiscais das verbas indenizatórias de 2001 até o início deste ano. Foi tudo enterrado. Quem cometeu algum crime já está anistiado -como será também perdoado o deputado do castelo.
A comparação com a crise no Parlamento britânico é inevitável. Os escândalos são semelhantes, mas há duas diferenças fundamentais. Primeiro, o presidente da Câmara dos Comuns perdeu a cadeira. Segundo, a população reagiu de maneira vigorosa, expressando seu descontentamento.
No Brasil, a reação dos eleitores se limita a e-mails vitriólicos ou resmungos acabrunhados. Não é à toa que nada acontece. Deputados e senadores olham para cima, assobiam, e a crise passa. Logo, alguns estarão passeando em Paris e Nova York. No fundo, como dizem os políticos, o Poder Legislativo é a mais completa e acabada tradução do país. É a cara do Brasil.

QUERO BENS


SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Guarda vai autuar pequenos crimes no Rio

 

Folha: Indústria já prevê queda recorde nas exportações

 

Estadão: Queda de juros tira até R$ 50 bi de investidores

 

JB: Mais segurança faz do Leme bairro modelo

Correio: Vítimas de criminosos ao volante

 

Valor: Garantias criam impasse em financiamentos do PAC

 

Gazeta Mercantil: Exportação de celulose cresce 139% em abril

 

Estado de Minas: Minas na rota do trem do Pacífico

 

Jornal do Commercio: Que virada, Tuimbu!

domingo, maio 24, 2009

PARA...HIHIHI


Rapaz no hospital

Um rapaz estava em uma cama de hospital. Não tinha braços, pernas e nem orelhas. Era cego de um olho e comia por um tubo.

De repente, passa no corredor uma mulher gostosíssima e o cara berra com as poucas forças que tem:

- Ô gostosa, que tal vir aqui e me fazer um boquete?

O pai, ao ouvir aquilo o repreende e diz:

- Meu filho, não devia dizer estas coisas. Deus castiga!

- Ele vai fazer o quê? Me despentear?

MERVAL PEREIRA


Blindagem econômica

O GLOBO - 24/05/09

Um dos dados mais interessantes da pesquisa “Os ministros da Nova República — Notas para entender a democratização do Poder Executivo”, da cientista política Maria Celina D’Araujo, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas (Cpdoc/FGV), é o que mostra que nesse período desde 1985, embora o ministério tenha sido um espaço para as negociações políticas entre as forças que se coligam para sustentar os governos, áreas como a econômica têm sido blindadas pela escolha predominante de técnicos.

A escolha para o ministério obedece a certos critérios básicos, onde se destaca a experiência política. Os dados da pesquisa mostram que se trata de um grupo com alto grau de envolvimento na vida políticopartidária: do total de 329 ministros identificados, quase 50% tiveram experiência no Parlamento (em algum dos três níveis da federação), 22% exerceram cargos eletivos no Executivo (governador e prefeito) e 76% passaram por cargos no Executivo federal, estadual e municipal.

Fica evidente, comenta Maria Celina D’Araujo, que o grupo que chega ao ministério tem ampla trajetória política com forte enraizamento em cargos executivos estaduais e municipais.

“O ministério vai se configurando, por nossos dados, como um espaço de experiência política acumulada.

Os cargos de ministros são distribuídos entre pessoas com mais experiência política e com faixas de idade superiores aos do corpo de profissionais que ocupam os cargos de DAS/NES”.

É expressiva a presença de pessoas entre 61 e 70 anos nos ministérios, e se comparados com os ocupantes de cargos de DAS/NES, o estudo mostra que o gabinete tem indicadores etários bem superiores.

Mais da metade dos ministros tem mais de 50 anos (228 de 328) enquanto mais da metade das pessoas de nossa amostra de DAS/NES estão abaixo de 50 (351 de 484).

O estudo associa a experiência a taxas significativas de educação: na média, apenas 4,5% dos ministros não têm formação universitária, a maioria se formou em direito, e 54% fizeram algum curso de pós-graduação majoritariamente em áreas como economia, administração e ciências sociais.

“Embora a literatura ressalte o espaço do ministério como um campo mais propício ao clientelismo, vemos que os padrões de instrução para o recrutamento têm sido significativos conectando o governo com o avanço da pós-graduação no país”, comenta Maria Celina D’Araujo, que destaca que a área econômica foi a que recebeu ministros mais titulados, “demonstrando que certos setores do governo são tratados com mais cuidado técnico. Ou seja, se o clientelismo é moeda política importante, há áreas que são preservadas numa espécie de insulamento”.

A pesquisa constata que estas áreas “protegidas” estão sempre relacionadas às atividades monetárias, fiscais e de arrecadação de recursos, isto é, as que propiciam a capacidade extrativa do Estado.

“Em termos da capacitação de pessoal, ela é maior quando se trata de arrecadar do que quando se trata de gastar”, nota ironicamente a cientista política.

Na comparação entre a qualificação dos ministros e a dos DAS/NES, vê-se que há “uma complementação em termos de graus de instrução”.

Quando há ministros mais fracos academicamente, os quadros de DAS/NES são mais qualificados.

A área de Justiça, por exemplo, que teve apenas 7,4% de ministros doutores, tem 34,5% de dirigentes com essa titulação.

No decorrer dos anos, a formação dos ministérios mostra que a área econômica é a que recebe mais ministros qualificados, tendo nada menos que 52% dos seus ocupantes com título de doutorado.

É nela também onde há mais profissionalização entre os assessores de nível DAS/NES, e um menor percentual de sindicalizados e de filiados a partidos.

O estudo trata o ministério como “uma estrutura estável” no geral, com uma forte representação de ministros da região Sudeste. Ao lado dos requisitos partidários, a lógica federativa preside as escolhas dos ocupantes das pastas.

O que é identificada no estudo como “super-representação da região Sudeste” fica patenteada no fato de que apenas no governo Itamar essa região ficou com menos de 50% das pastas. Em segundo lugar vem o Nordeste (20,1%) e, em terceiro, a região Sul (15,3%).

Norte e Centro-Oeste não chegam a ocupar 5% das vagas.

O estudo da FGV constata que essa distribuição “não é proporcional ao PIB, mas o é em relação à população”, o que faz sentido do ponto de vista eleitoral.

Cerca de 80% dos ministros do período analisado vêm de carreiras políticas bem sucedidas, na definição de Maria Celina D’Araujo, “pessoas experientes na vida política com for te enraizamento em atividades parlamentares e executivas em todos os níveis de governo”.

Ao contrário das críticas mais comuns, a pesquisa chega à conclusão de que o cargo de ministro, quando destinado a um político, é um “prêmio” para uma trajetória de sucessos nas urnas e nos partidos, tornando-se o ministério “um espaço importante para a experiência comprovada”.

Segundo Maria Celina D’Araujo, a análise da evolução dos ministérios nesse período de quase 25 anos permite identificar avanços formais na democracia que, no entanto, não garantem mais conteúdo e mais qualidade da democracia.

“Para isso, o país, a exemplo de outras nações, teria que aumentar seus controles internos e externos sobre as agências de governo e sobre seus governantes e teria que romper com práticas corporativas pérfidas e com a impunidade. Isso sem falar em políticas de desenvolvimento que efetivamente possam promover crescimento com equidade”.

GOSTOSA


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FERREIRA GULLAR


E dá para não resmungar?

NA FOLHA DE S. PAULO - 24/05/09

Se não há nada de grave a apurar na administração da Petrobras, por que tanto medo?

DO MESMO modo que muitos outros brasileiros, vivo me perguntando o que fazer para salvar o Congresso Nacional e a qualidade de nossa democracia. Sim, porque é difícil sustentar uma democracia quando seus deputados e senadores parecem estar "se lixando" para a opinião pública e entendem que o Congresso é propriedade sua, seu feudo, de que cada um deles pode tirar as vantagens que quiser.

Os últimos escândalos, envolvendo até parlamentares respeitados por seu espírito público, mostram que a causa dessa decadência é mais complexa e profunda do que a fraqueza moral deste ou daquele parlamentar. Por isso a reforma política se torna imprescindível. Se não for a salvação do Congresso, poderá certamente dar início a uma mudança que se tornou urgente.

Os três pontos fundamentais da reforma são, como se sabe, o financiamento público da campanha eleitoral, o voto em lista e o voto distrital. Mas logo surgiram os argumentos contrários à reforma, sendo um deles o de que o voto em lista retira do eleitor o direito de escolher seus candidatos. Um sofisma, já que, pelas normas atuais, você vota em João e elege Pedro, desde que seu candidato não alcance determinado número de votos.

A vantagem do voto em lista está em que o partido assume a responsabilidade pelos nomes indicados e, por isso, se o deputado afirma que está se lixando para a opinião pública ou se envolve em falcatruas, nunca mais será indicado
candidato. Esse é um dado fundamental, uma vez que a situação lamentável do Congresso, hoje, decorre do baixo nível dos candidatos e consequentemente dos que são eleitos.
*
Ao saber que a oposição pretendia criar uma CPI no Senado para apurar denúncias de irregularidades ocorridas na Petrobras, Lula saiu-se com esta: "Isso é, no mínimo, antipatriótico". E seu ministro das Comunicações, logo logo: "A oposição subestima o orgulho que a população tem da Petrobras". Mas quem constatou aquelas irregularidades foram o Tribunal de Contas da União, a Receita Federal e a Polícia Federal. Serão, os três, inimigos da pátria e do povo? Apurar irregularidades numa empresa da importância da Petrobras é zelar por ela e pelos direitos de seus acionistas.
*
Mas algo, nesta CPI, assusta o governo. Se não há nada de grave a apurar na administração da empresa, por que tanto medo? As tentativas de desmoralizar a CPI, antes que comece a funcionar, chegam a ponto do ministro Paulo Bernardo afirmar, sem nenhum respeito à inteligência alheia, que o objetivo do PSDB é desmoralizar a Petrobras, para em 2010, chegando ao poder, privatizá-la. O mesmo argumento fajuto com que derrotaram o Alckmin, em 2006. Debaixo desse pirão, tem carne.
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Por unanimidade, o TSE inocentou Lula e Dilma da acusação de estarem fazendo campanha eleitoral, durante o encontro com mais de 3.000 prefeitos, em Brasília. O pior cego é o que não quer ver. Alguém ignora que Lula nunca desceu do palanque, desde 2002? Não está evidente que, depois da pesquisa que rejeitou a hipótese de um terceiro mandato, passou a arrastar Dilma para todos os palanques em todos os pontos do país? E ele diz abertamente que ela é sua candidata à sucessão, não diz? O que falta mais? É possível, agora, se a doença dela se agravar, que ele mude de ideia e passe a ser ele o seu próprio candidato. É esperar para ver.
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Num dos últimos jogos da seleção brasileira, ano passado, saiu num jornal a foto da nossa equipe de craques; dos 11 jogadores, nove eram negros ou mulatos e dois, brancos: Júlio César e Diego. Houve discriminação contra brancos? Claro que não: os que ali chegaram, chegaram pela qualidade do futebol, por sua competência, como, aliás, deve ser em todos os campos de atividade.
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O PSDB do Rio, que é oposição, encomendou uma pesquisa de opinião, nos seguintes termos: "É errado construir muros para limitar o crescimento das favelas porque trata o pobre de maneira injusta?". A maioria opinou contra os muros, claro. Se a pergunta fosse "É errado construir muros nas favelas para preservar a mata atlântica?", o resultado da pesquisa certamente seria outro. Pesquisas, que induzem à resposta que nos convém, não merecem crédito.
*
E o ministro Carlos Minc na passeata pela liberação da maconha?! Não dá para crer. Qual é mesmo o benefício que o consumo da maconha traz à sociedade? Fumar, fuma quem quer. A proibição visa a impedir, dentro do possível, que os jovens adiram em massa a um vício que só lhes trará prejuízos. Além de "curtir um barato", o que mais ganham os maconheiros? Diz aí, Minc...

CLÓVIS ROSSI


A bolsa ou a vida

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/09

SÃO PAULO- A Bolsa de Valores zerou este ano, até agora, as perdas sofridas a partir de outubro, auge da crise. O emprego nem remotamente. O rendimento dos salários tampouco: além de continuar medíocre como é há séculos, ainda retrocedeu algo mais.
Não obstante, há festa no arraial. Sinal de que estamos de volta ao espírito pré-crise: o que importa é a felicidade do capital. A vida, bom, a vida a gente toca como Deus manda, como diria o caboclo no seu conformismo também secular, afogado nas águas ou torrando ao sol das secas impenitentes.
Não é só no Brasil. Na Espanha, por exemplo, a Bolsa, este ano, está em território positivo. Mas, no ano até abril, o número de postos de trabalho decepados bateu em 1,1 milhão, à base portanto de 100 mil por mês, arredondando.
Não obstante, a ministra da Economia, Elena Salgado, vê uma luz no fim do túnel e é capaz de jurar que não se trata de trem vindo em sentido contrário, frase que já deveria ter caído em desuso.
Com isso, a gritaria a respeito da falência do capitalismo selvagem, a pregação quase missionária em favor de uma nova arquitetura financeira global capaz de mitigar os efeitos perversos da jogatina -está indo tudo para o saco.
Tanto que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chama de "trambique" as apostas em derivativos, que afundaram a Sadia. Mas o BNDES, banco público, põe dinheiro para ajudar na compra da empresa supostamente "trambiqueira" pela Perdigão, compra tratada com o codinome de fusão.
Se é trambique, como diz Lula, deveria ser regulado pelo governo, e não incentivado via BNDES, não?
Menos mal que pelo menos Barack Obama já soltou seu plano para regular justamente os tramb... ops, derivativos. Sei não, mas desse jeito os EUA correm o risco de saírem mais sólidos que outros da crise que criaram.

GOSTOSA



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PAINEL

Cada um na sua

RENATA LO PRETE

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/09

Enquanto exige apoio do PT nos Estados como pré-requisito para se comprometer com a candidatura presidencial de Dilma Rousseff, a parcela do PMDB hoje mais próxima do governo não dá o menor sinal de que pretenda incomodar os correligionários inclinados a caminhar com o PSDB em 2010.
Num encontro dias atrás em Brasília, um cardeal do PMDB pró-Dilma tranquilizou um expoente do PMDB serrista: não haverá, assegurou o primeiro, nenhuma tentativa de amarrar o partido inteiro no barco da candidata de Lula. Cada Estado terá liberdade para fechar o acordo que lhe parecer mais conveniente. É o caminho para tornar tudo mais simples para o PMDB no dia seguinte, seja quem for o eleito.

Quinhão. Em recente reunião de peemedebistas, o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional) disse que estará ao lado de Dilma em 2010, desde que o PT baiano respeite seu espaço na eleição. Leia-se: o partido deve abortar as pretensões do deputado Walter Pinheiro e especialmente do presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, de disputar o Senado. 

Até agora. Do líder da bancada peemedebista na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), negando que seu partido esteja dando corda à imorredoura conversa do terceiro mandato: "O PMDB só dará um passo nesse sentido com o aval do presidente Lula. E ele até agora tem dito muito claramente que não quer". 

Aí não. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, deve se manifestar em breve contra qualquer tese que leve à prorrogação dos atuais mandatos. O ministro tem lembrado que, quando foi advogado-geral da União, no governo FHC, se opôs à simples mudança de dia da posse presidencial, pois isso representaria quebra de princípio constitucional.

Poeira 1. A mais recente pesquisa tirada do forno por aliados de Geraldo Alckmin mostra o ex-governador e atual secretário de Desenvolvimento com 43% de intenção de voto para o Palácio dos Bandeirantes. O nome do PT mais bem colocado no levantamento é o da ex-prefeita Marta Suplicy, com 13%. 

Poeira 2. Tão ou mais do que os 43%, os alckmistas se alegram em mostrar o 1% obtido na mesma pesquisa pelo chefe da Casa Civil do governo Serra, Aloysio Nunes Ferreira, outro pré-candidato tucano à sucessão estadual.

Cavalo de Tróia. Estão na Câmara, e não no Senado, os peemedebistas que cobiçam a diretoria de Exploração da Petrobras. São os mesmos que já lançaram ofensiva sobre o fundo de pensão de Furnas. A CPI é o pretexto da vez. 

Arrasta pé. Historicamente ligado ao setor energético, José Carlos Aleluia (DEM-BA) recomenda que a CPI não se perca nos patrocínios culturais da Petrobras. "Se for por aí", diz o deputado, "vai virar a CPI do Forró". 

Duto 1. O leque de contratos da Petrobras que poderá entrar na mira da CPI inclui patrocínio a modalidades esportivas, pagamentos a clubes e contratação de escritórios de advocacia e consultoria. Quase tudo sem licitação. 

Duto 2. Outro canal visado pela CPI são os repasses da Petrobras para fundações ligadas a universidades, que frequentaram o noticiário quando escândalos atingiram reitores em Brasília e São Paulo. Nos últimos quatro anos, a estatal injetou cerca de R$ 210 milhões em universidades e suas fundações. 

PACderme. A inauguração do Trem do Pantanal teve festa e convidados ilustres, como o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, mas isso não impediu Lula de desabafar com aliados ao final da viagem: "Que trem lerdo e quente!"

Tiroteio

"São eles quem privatizam a Petrobras na surdina, um pouco todos os dias, contrato por contrato." 


De EDUARDO GRAEFF, secretário-geral da Presidência no governo FHC, sobre o discurso petista de que por trás do empenho do PSDB para ver instalada a CPI da Petrobras estaria o desejo de, no futuro, privatizá-la.

Contraponto

C'est moi Ministro do Planejamento de Castello Branco, Roberto Campos seguiu orientação do presidente e foi conversar com o marechal Costa e Silva, então ministro da Guerra, sobre os capítulos econômicos da Constituição de 1967.
Campos, conforme narrado na recém-lançada biografia do advogado José Luiz Bulhões Pedreira, aproveitou o encontro para sugerir que Costa e Silva colocasse fim às especulações sobre a substituição do presidente do Banco Central. Defendeu mandato fixo para o cargo, sob o argumento de que isso daria estabilidade à política monetária.
-O Banco Central é o guardião da moeda!- pregou.
Costa e Silva ouviu, mas já tinha a resposta engatilhada:
-O guardião da moeda sou eu.

DANUSA LEÃO


Adeus, nicotina

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/09


Só eu sei do prazer que sinto quando consigo aumentar as distâncias debaixo d" água, e vejo o quanto fumar é absurdo



ÀS VEZES, a gente entra em uma fase de tomar grandes resoluções, e consegue cumprir muitas delas, o que nos faz muito bem. Eu estou tentando melhorar: me tornar uma pessoa mais doce, mais suave, digamos assim.
Parar de ficar dando palpites sobre tudo e de dizer verdades para os amigos -aquelas que ninguém quer ouvir-, mesmo me arriscando a virar outra pessoa e ninguém mais me reconhecer.
Minha intenção é, claro, ser mais querida, mais aceita. Não sei bem para que, pois não tenho necessidade nem vontade de ter mais amigos. Os poucos que tenho já preenchem minha vida; talvez para que eles não deixem de gostar de mim.
E melhorei. Melhorei, e o principal vou contar agora: anuncio orgulhosamente que consegui, enfim, parar de fumar - dessa vez pra valer. E entrei na natação, para expandir meus pulmões. Essa foi uma grande vitória.
Só eu sei do prazer que sinto quando consigo aumentar as distâncias nadando debaixo d" água, e vejo o quanto fumar é absurdo.
Acender um tubinho de papel, engolir fumaça e depois não conseguir subir uma escada como o Obama faz, por falta de ar? Chega a ser ridículo, e palmas para mim, que eu mereço. Mas nada é perfeito: meus pulmões estão maravilhosos, com a natação diariamente, já os meus cabelos... melhor não falar. Mas outro dia acordei péssima, péssima mesmo. O corpo doendo, os olhos ardendo, e a vontade de ir para a cama, fechar as cortinas e botar a TV bem baixinho, num canal alemão, até me sentir bem de novo; será que isso aconteceria algum dia?
Mas tive que me levantar e ir fazer coisas inadiáveis. Fui. Às quedas, mas fui.
O dia foi horrível, e eu sabia exatamente do que se passava: com a mudança de tempo e a chegada de uma frente fria, tinha pegado uma gripe que se anunciava braba. Não devia ser a suína, mas a gente se conhece.
Cheguei em casa, tomei um banho quente de banheira e me enfiei debaixo das cobertas. Na mesa de cabeceira, a menos glamourosa das cenas: uma caixa de lenços de papel, um vidro de vitamina C, outro de mel, um pires com uma colher e uma latinha de lixo ao lado da cama.
Esse é um dos momentos da vida em que se deve agradecer a Deus por não ter um homem ao lado, nem para trazer um chá. No dia seguinte, acordei ainda pior, e o termômetro acusou 38C, razão mais do que suficiente para não sair da cama, e dane-se a vida.
Mas não podia me dar a esse luxo: tinha que entregar um trabalho naquele dia sem falta. Levei o laptop para o quarto e tentei raciocinar, coisa praticamente impossível, quando se tem uma gripe. E o trabalho tinha que ter 4.000 toques, ninguém merece.
Pensei em minha mãe, que se fosse viva não ia entender; mães sempre acham que uma filha tem, em primeiro lugar, que cuidar da saúde, e não conseguem compreender que a realidade não é bem assim. Só se pode ficar doente nos fins de semana e nas férias.
Mas onde foi parar aquela mulher cheia de força de vontade, que há uma semana se sentia uma Maria Lenk, praticamente? Pois aquela mulher descobriu que uma simples gripe é capaz de acabar com ela - física e psiquicamente.
E me dei conta do quanto posso ser antipática e arrogante quando estou com saúde, e que todas as pessoas deveriam ficar doentes uns três dias por mês, para serem um pouquinho mais humildes. Eu, inclusive. Tudo, qualquer coisa, mas sem nicotina, que felicidade.

GOSTOSA


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JANIO DE FREITAS

Doenças no jornalismo

FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/09


Os excessos ao tratar de doentes talvez se devam ao desordenamento em que a imprensa lida com os avanços



A BOA FORMULAÇÃO dirigida a jornalistas pela ministra Dilma Rousseff -"Misturar doença e política é de mau gosto"- reflete as alterações radicais nos hábitos da imprensa e dos políticos, em relação às doenças que repõem o poder na dimensão humana.
Recentes no já longo histórico da imprensa brasileira, os excessos talvez se devam ao desordenamento em que o jornalismo vai aqui lidando com seus avanços e novidades. Mas não é menos provável que resultem do rebaixamento dos níveis de educação e civilidade nos costumes do brasileiro em geral. É possível até que as duas coisas sejam uma só, vista por ângulos diferentes.
A relação entre imprensa e doentes com imagem pública não tem, mundo afora, o que se pudesse chamar de regra básica. Em muitos países, a imprensa considera o problema jornalístico resolvido apenas porque deixa de discuti-lo.
Na França, por exemplo, a discrição da imprensa é total quando se trata de figuras do poder, assim como em suas relações sentimentais e sexuais, a menos que o próprio tome a iniciativa da divulgação ou a autorize. Ficou famoso na imprensa francesa o caso do (ex-)presidente François Mitterrand, com sua vida conjugal fora do casamento, da qual tinha uma filha já moça, e um duradouro câncer que afinal o venceu, sem que os eleitores ao longo de sua extensa carreira política tivessem notícia desses fatos.
Nos Estados Unidos, as doenças de figuras do poder são caladas quase como tabu. Do poder nos Estados Unidos, bem entendido, porque os demais estão sujeitos à conveniência ideológica. As normas estaduais variam, e às vezes são tão rígidas que proíbem, como na Califórnia, fotografar a vítima de um mal súbito na rua ou dar notícia do fato. Na Inglaterra, a solução da hipocrisia diplomática prevaleceu também aí: a imprensa "séria" faz a discrição e os tabloides do sensacionalismo, que são a verdadeira grande imprensa inglesa, têm como prato do dia mais frequente algum aspecto pessoal e explorável de alguém célebre, não importa quem. Salvo, e salve, a rainha.
As restrições têm contrapartida: implicam a sonegação de informações. E os casos em que isso se justifica não autorizam a generalização diante de determinado tema, seja qual for. Muito menos se há interesse público.
Na maior parte da sua história, a imprensa brasileira praticou, por consenso tácito, um comedimento eficiente: dava a notícia e acompanhava o desenrolar do caso, porém restrita ao essencial. Na atual fase da imprensa, a liberalização do jornalismo um tanto desregrada e os avanços tecnológicos na produção de jornais aliam-se em estímulo a certos usos discutíveis. Um deles incidiu sobre doenças de figuras do poder, tanto pela obsessão persecutória do personagem e seu tema, quase como redução do jornalismo ao status dos paparazzi, quanto na abundância de pormenores, fotos e gráficos que trazem, com frequência, uma exploração sensacionalista inegável. É o que Dilma Rousseff chama de mau gosto, cujo momento culminante, a meu ver, foi com a doença de Mario Covas. Tancredo Neves foi caso à parte, com sensacionalismo por si mesmo e menos pela doença do que pelas circunstâncias.
Tive duas experiências muito especiais nesse capítulo jornalismo versus doença. O primeiro foi a revelação de que o estado cardíaco do general Figueiredo exigia seu afastamento temporário da Presidência, para submeter-se a uma cirurgia que ele, mais do que recusar, queria bem escondida. Caiu uma avalanche sobre mim, dado nos jornais, rádios e TVs como autor de uma falsidade e, pelo general Rubem Ludwig no "Jornal Nacional" da TV Globo, sob esta acusação: "O jornalista Janio de Freitas é um terrorista".
Não me arrependi de ter escrito a notícia, por convicção e pelo motivo que me levara a escrevê-la. Como sete dias depois, o próprio general Figueiredo confirmou, pedindo licença para ausentar-se do país e, chegado ao hospital de Cleveland, vendo negado até um dia de descanso antes da cirurgia, tal foi a premente gravidade que as primeiras auscultações demonstraram. Foi logo "aberto como um frango", nas suas palavras de recém-salvado.
Mais tarde, dei a notícia de que o câncer linfático do ministro Dilson Funaro, da Fazenda no governo Sarney, voltara a manifestar-se. Funaro confirmou a informação no mesmo dia. Fui muito acusado de querer me vingar da reação do ministro e seus assessores Luiz Belluzo e João Manuel Cardoso de Mello quando noticiei que preparavam uma superdesvalorização do cruzeiro, medida de desesperados atônitos com seu fracasso na luta contra a inflação altíssima. Não me arrependi de haver escrito a notícia da recidiva (nem a da sustada desvalorização), porque Funaro escondia a doença e não se tratava por temor de ser afastado do ministério. Dada a notícia, resolveu tratar-se, ainda que de modo incompleto.
Nos dois casos, creio que o jornalismo, não eu, cumpriu um de seus propósitos de sentido mais humano. Minha preocupação, nas duas ocasiões, foi escrever com toda a sobriedade possível, temeroso do mau gosto ameaçador. O restante era convicção.
PS: Dos dois personagens das notícias tive, mais adiante, referências respeitosas ao trabalho a seu respeito.

VINÍCIOS TORRES FREIRE

Um guarda-chuva nas cataratas

 FOLHA DE SÃO PAULO - 24/05/09


Maré de baixa do dólar é muita água para o nosso barquinho; é a inversão da onda que causou a desvalorização do pós-crise

TENTAR CONTER a desvalorização do dólar no Brasil seria equivalente a abrir um guarda-chuva para se proteger das cataratas do Iguaçu: acaba-se molhado, com um guarda-chuva em pandarecos. A fim de limitar a alta do real seria preciso comprar dólares e empilhá-los nas reservas com apetite chinês (o que é caríssimo), além de baixar juros em ritmo de recessão americana. Mas tal discussão é ociosa, pois em hipótese alguma o Banco Central do Brasil faria tais coisas.
O dólar agora perde valor em parte devido ao refluxo da onda de pânico que se levantou em setembro de 2008. Indicadores importantes de risco caíram ao nível mais baixo em quase um ano (volatilidade de Bolsas, "spreads" sobre juros básicos, taxas interbancárias etc.). Baixou o medo de novas catástrofes financeiras. O dinheiro grosso do mundo, que em 2008 fugiu para o colchão seguro dos títulos americanos, agora quer rentabilidade, pois os "Treasuries" ainda rendem quase nada.
O dólar cai também porque os EUA têm de financiar um déficit público de 13% do PIB e vão inundar o mercado de títulos do seu Tesouro. Entre outros motivos, fazem dívida a fim de tapar rombos diretos e indiretos criados pela banca. O mercado se antecipa, vende títulos, o que tende a elevar a taxa de juros. Quer juros maiores para financiar a dívida monstro (mas, dizem medalhões não conservadores da economia americana, tão cedo isso não vai dar em elevação relevante de juros).
Enfim, o mercado vende ativos em dólares. No final da semana, saíram até de Bolsas, títulos e de dólares americanos ao mesmo tempo, o que é um tanto raro. Procuram rentabilidade e proteção contra a baixa adicional do dólar comprando commodities, ativos de países vendedores de commodities, com juros altos e que devem crescer algo mais que os EUA. O preço da soja é o maior em oito meses, o milho sobe, o petróleo sobe, o ouro sobe. Tem aparecido até crédito para empresas dos EUA.
Muitas moedas, em especial as de países que vendem commodities, sobem, o real inclusive. O dólar chegou ao nível mais baixo em relação ao euro em quatro meses. Cai até diante da esmolambada libra.
Houve um rumor na sexta-feira a respeito do rebaixamento do crédito dos EUA, que perderia a nota dez de devedor mais seguro do mundo. Porém a ameaça de degradação do crédito americano parece ter sido apenas o chantilly do bolo de motivos que força a queda do dólar.
Mas isso vai durar? O "mercado" vai achar, daqui a pouco, que exagerou no otimismo, dados o consumo e lucros baixos, e vai voltar à retranca, criando mais confusão nas Bolsas e nas moedas, após meados do ano?
As marés que fazem o dólar subir e descer são água demais para o nosso barquinho. Não há o que fazer, no curto prazo, parece. Não obstante, o problema do real forte é real, a não ser para os ainda restantes maníacos para quem o câmbio acaba por chegar a um nível que equilibra as contas externas (entre outros "reequilíbrios"). Mas tais coisas ocorrem sem pororocas econômicas graves apenas em livros de graduação de economia e finanças. Para piorar, se houver uma recuperação chinesa forte, mesmo com baixo crescimento nos EUA e Europa, não é improvável uma alta ainda maior do real.

GOSTOSA PEITUDA


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ÉLIO GASPARI

Manual para se vigiar a CPI da Petrobras

O GLOBO - 24/05/09

Quem quiser acompanhar a CPI da Petrobras precisa se acautelar. O melhor negócio do mundo para o comissariado da empresa será a exibição de meia dúzia de escândalos pirotécnicos. Aqui vai um manual de sobrevivência para os curiosos:

1) Discutir a política de patrocínios culturais servirá apenas para desfazer a cena do crime. O senador Alvaro Dias diz que quer investigar os contratos de duas ONGs dirigidas por petistas que receberam R$ 2,96 milhões para organizar festas em 44 cidades baianas.

Perda de tempo. A Polícia Federal e o Ministério Público estão cuidando do assunto, e essas duas instituições são mais confiáveis que as CPIs do Congresso. Admitindo-se que toda a política de patrocínios da Petrobras estivesse corrompida, os custos da empresa caberiam na rebarba de uma plataforma de R$ 6 bilhões e ainda sobraria muito dinheiro. (O comissariado não diz quanto gasta em cultura, mas pode-se chutar que a cifra está nuns R$ 300 milhões.)

2) Discutir sobrepreços inferiores a 10% do valor orçado é denúncia vazia. Diferenças desse tamanho podem ocorrer nas melhores empresas.

Sobrepreço bonito é o da refinaria planejada para o Rio de Janeiro. Em 2006, quando Nosso Guia lançou sua pedra fundamental, ela estava orçada em R$ 7 bilhões. Atualmente está estimada em R$ 26 bilhões. O mesmo acontece com a Abreu e Lima, em Pernambuco. Ela nasceu custando R$ 5 bilhões, pulou para R$ 8 bilhões e, em março, empreiteiras e fornecedores pediam R$ 22 bilhões. No meio do caminho sumiu o sócio venezuelano. Se o comissário Sergio Gabrielli trabalhasse com variações desse tipo na iniciativa privada, já teria sido mandado para a direção de uma ONG de capoeira. Para evitar dispersão de esforços, pode-se também estabelecer um piso de R$ 100 milhões para qualquer investigação mais aprofundada. Assunto não haverá de faltar.

No mundo das astúcias conceituais pode-se até deixar de lado o drible que Gabrielli e o doutor Almir Barbaça quiseram dar na Receita Federal. Mais intrigante será a investigação junto a fornecedores e empresários atraídos para sociedades com a Petrobras. Em tese, esse é um bom negócio. Na prática, diversos parceiros surpreenderam-se ao ver que as revisões orçamentárias da estatal geralmente dobravam as despesas. (Em alguns casos os sócios preferiram cair fora.)

A Petrobras não é uma empresa corrupta, mas uma estatal onde há espertalhões. O melhor acervo para a sua defesa está no corpo técnico da companhia.

* * * * *

PSDEM

Um malicioso observador da vida partidária brasileira começou a desconfiar que esteja em andamento algum tipo de conversa para fundir o PSDB com o DEM. Pelo menos um cardeal do DEM admitiu essa hipótese, ressalvando que isso aconteceria depois da eleição de 2010. É apenas desconfiança, mas será divertido ver Fernando Henrique Cardoso no ex-PFL, ex-PDS e ex-Arena.

Avô em Guantánamo

O companheiro Obama evita falar no assunto, mas ele é o primeiro presidente da história dos Estados Unidos com um ascendente direto preso e torturado sob a acusação de terrorismo. Sua família já teve o Momento Guantánamo.

Hussein Onyango Obama, avô paterno do presidente, foi encarcerado em 1949 pelo regime colonial inglês e passou dois anos nos calabouços da medonha prisão queniana de Kamiti. Sofreu de tudo.

Vô Obama foi acusado de passar informações ao movimento nativista que desembocaria na revolta dos Mau Maus. Essa organização juntou milhares de quenianos unidos por um juramento feito em rituais em que se bebia sangue de bode.

Os ingleses confinaram e prenderam 1,5 milhão de quenianos. Mataram pelo menos 12 mil. Não adiantou. Em 1963, 11 anos depois do início da revolta Mau Mau, o Quênia obteve sua independência. (Em suas memórias, Obama Neto contou essa história com a rapidez de um gato que corre sobre brasas.)

3x3?

Conta de um petista atrevido: “Eu não falo em terceiro mandato. Para mim, se Lula disputasse a Presidência em 2010, essa seria sua sexta candidatura. Até agora ele perdeu três e ganhou duas.”

Vestibular

A esta altura, as chances de o MEC organizar duas provas do Enem neste ano são inferiores a 10%. Haverá só uma, em dois dias de outubro, com um total de 180 questões. O que o ministério assegura é que até outubro fará três simulações, todas na internet. A primeira será parcial e as duas outras, completas. Os estudantes poderão conferir on-line a qualidade de suas respostas.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e pretende ganhar dinheiro com sua última invenção. É o “Deflator Mantega” e serve para prever o índice de crescimento do PIB num ano. O idiota lembrou-se de que, no final de 2003, Mantega contestou uma previsão da ekipekonômica, que estimava um crescimento de 0,4% para a economia naquele ano. O doutor explicou que “eu não derrubo, só levanto o PIB” e cravou um crescimento de 0,8%.

A conta fechou em 0,5%. Diante disso, o idiota criou a Primeira Lei de Mantega: Seja qual for o PIB, ele ficará 37% abaixo do que diz o ministro da Fazenda. Eremildo aplicou o “Deflator Mantega” à divergência recente do ministro com o seu colega Paulo Bernardo, que previu uma taxa de 0,7% para este ano. O levantador de PIB elevou-a para 1%. O idiota informa: a economia crescerá 0,63%.

Confisco eleitoral

Os doutores que defendem a instituição do voto de lista, que retira do contribuinte o direito de escolher seus candidatos a deputado, sustentam que com isso os partidos serão fortalecidos e o Brasil será feliz para sempre. Tudo bem. Puseram no pacote do confisco eleitoral uma proposta que abre uma “janela de infidelidade” para permitir que parlamentares fujam dos partidos pelos quais se elegeram.

Acreditar na Infraero é coisa de bobo

Em outubro passado leu-se aqui uma “boa notícia”. A Infraero anunciava que a partir de dezembro os 12 maiores aeroportos do país ofereceriam conexões gratuitas com a internet pelo sistema wi-fi. Tudo mentira. Chegou-se a maio e não se instalou coisa alguma. Pior: os aerocratas anunciam que oferecerão outra modalidade de serviço. A patuleia precisará se cadastrar, terá o acesso limitado e pagará aos provedores para usar serviços de e-mail.