sexta-feira, janeiro 16, 2009

"OPERASSÃO PRÁSTICA"


ELIANE CANTANHÊDE

Como em Gaza, mas resistindo


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

A guerrinha PT versus PSDB corre solta, mas onde ela é mais escancarada é na política externa, onde ex-chanceleres e embaixadores tucanos arrancam as penas criticando o atual ministro, Celso Amorim -que nunca teve nada de petista, diga-se de passagem, mas é acusado de transformar o Itamaraty numa espécie de bunker dos resquícios esquerdistas do PT.
Luiz Felipe Lampreia já tinha dito que as gestões de Amorim no Oriente Médio "beiravam o ridículo". Celso Lafer acrescentou que são "uma forçação de barra que não faz nenhum sentido". Estava faltando o ex-embaixador em Londres e em Washington Rubens Barbosa.
Não falta mais.
Ao saber que Amorim iria visitar Síria, Israel e cia. -de onde voltou na madrugada de ontem-, Barbosa ironizou na base do "agora vai": "Fiquei animado, porque até aqui nem o Sarkozy, nem o presidente da União Europeia, nem a ONU tinham conseguido demover Israel e os palestinos".
Para Barbosa, as ações e declarações do PT e do governo, e não só de Amorim, são o que vem chamando de "ideologização e partidarização da política externa". E provoca: "Só falta agora, para complementar os esforços da política externa, a ação do MST em manifestações pró-Hamas... (a exemplo do que dizem que vão fazer no Paraguai)".
Ao se desabalar para a região em guerra, Amorim fez apenas uma coisa, na opinião de Barbosa: "Cumpriu sua parte na política externa do PT". E lá vem mais ironia: "O Brasil do PT não consegue neutralidade e liderança nem para resolver a questão das "papeleras" entre Argentina e Uruguai...".
Coitado do Amorim, que parece a faixa de Gaza de tão cercado por todos os lados: atacado pelos inimigos e sujeito ao fogo amigo do PT e do próprio governo -um agride Israel com referências ao nazismo, o outro, numa canetada, concede asilo a condenado italiano exigido pelo governo Berlusconi. Tarso Genro cria a crise, o Itamaraty que se vire.

COLUNA PAINEL

Ideologia italiana


Folha de S. Paulo - 16/01/2009
 

Acusado pelo governo da Itália de ter apelado ao ideário de esquerda na negativa à extradição de Cesare Battisti, o Brasil ressalta em relatório de 56 páginas encaminhado ao Senado, em novembro, "que os dados evidenciam com clareza o fortalecimento da ideologia de direita junto à sociedade italiana".
O documento, assinado pelo Ministério das Relações Exteriores, traça um panorama político e econômico da Itália e diz que o discurso de direita busca hoje todo o país, o que se evidenciaria pela votação que elegeu em abril Silvio Berlusconi. O texto embasa a indicação do ex-ministro José Viegas para a embaixada brasileira em Roma, ainda pendente de votação.

Meio a meio
Na sua última reunião, em dezembro, a Executiva Nacional do PT discutiu brevemente o caso do italiano Cesare Battisti, mas evitou tirar uma posição. Os membros se dividiram entre os favoráveis ao asilo político e os que argumentaram que não tinham opinião formada. Parte do PT avalia que não é assunto no qual o partido deva se intrometer. 

A favorita
O ministro Marcio Fortes (Cidades) foi escalado para ser estrela do aniversário de 176 anos de Nova Iguaçu (RJ), inaugurando obras do PAC destinadas a urbanização de favelas, cujo investimento da União é de R$ 326 milhões. Em 2008, só a pasta das Cidades desembolsou R$ 29,6 milhões para obras no município de Lindberg Farias (PT). 

Terceiro turno
Neoaliados em Salvador, ACM Neto (DEM) e Geddel Vieira Lima (PMDB) travam uma disputa para controlar a Câmara Municipal. Os "demos" querem emplacar Paulo Magalhães Jr. na presidência da Casa em troca de apoio a Geddel para indicar a chefia da União dos Municípios da Bahia. O PMDB do ministro, entretanto, quer as duas cadeiras. 

Warm-up
A tradicional lavagem do Bonfim, ontem, foi marcada pela corrida para ver quem chegava primeiro entre as comitivas do governador Jaques Wagner (PT) e a dos "demos" ACM Neto e José Carlos Aleluia, deputados, e Paulo Souto, ex-governador.

Acelerador
A pedido do Palácio do Planalto, o Ministério da Previdência corre contra o tempo para antecipar de março para fevereiro a concessão em 30 minutos do salário-maternidade e da aposentadoria por tempo de contribuição -hoje o benefício em meia hora é possível para a aposentadoria por idade. 

Palanque
A antecipação daria a Lula a oportunidade de anunciar as medidas em em São Paulo, no dia 27, quando haverá comemoração dos 86 anos da Previdência Social. 

Boquinha
Um dos personagens centrais do escândalo do Detran gaúcho, Cezar Busatto (PPS) ganhou emprego no primeiro escalão da Prefeitura de Canoas, comandada por Jairo Jorge (PT), afilhado do ministro Tarso Genro. O PT divulgou nota atacando Busatto, que integrava a equipe da tucana Yeda Crusius. 

Infiéis
Pesquisa elaborada pelo Cepam (Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal), ligado à Secretaria de Planejamento do governo paulista, aponta que 69,3% dos prefeitos eleitos no Estado disseram já ter migrado de partido. 

Bolsa
Saiu ontem no "Diário Oficial" nova fornada de anistiados políticos do regime militar. Entre os 52 agraciados, está o ex-prefeito de Porto Alegre Raul Pont (PT), que receberá R$ 267 mil, mais pensão mensal de R$ 2.000. 

Visita à Folha
Solange Paiva Vieira, diretora-presidente da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil), visitou ontem a Folha. Estava acompanhada de Paulo Henrique de Noronha, chefe de Comunicação Social.

Tiroteio

"O senador Mario Couto não vê as obras porque prefere os ambientes chiques de Brasília à periferia de Belém"


Da governadora 
ANA JÚLIA CAREPA (PT-PA), em resposta às críticas do senador Mario Couto (PSDB), para quem, apesar do repasse de verbas da União, "não há obras de infraestrutura" executadas pelo governo paraense para abrigar o Fórum Social Mundial.

Contraponto

Replay

Momentos antes de começar anteontem uma entrevista ao locutor Luciano do Valle, da Band, o presidente Lula apontou para a funcionária da Presidência Sandra Dorman, que trabalha na área administrativa do Palácio do Planalto e ajudava nos preparativos para a gravação.
-Luciano, ela é tia do Kaká!-, disse, sobre o jogador da seleção brasileira.
O locutor espantou-se e perguntou se era verdade. O presidente respondeu que sim:
-Inclusive várias daquelas coisas incríveis que você vê o Kaká fazendo com a bola, na TV, fui eu que mostrei para a Sandra, que depois explicou para ele...

DORA KRAMER

Na presença da adversidade


O Estado de S. Paulo - 16/01/2009
 

Dora Kramer, dora.kramer@grupoestado.com.br

Enquanto o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, com seu linguajar pitoresco e raciocínio manhoso, estiver na linha de frente da “defesa do trabalhador” e do ataque aos “patrões”, a cena fica entendida como simples performance sindicaliza.

Ruim, mas sem maior consequência. Demagógica, oca, mas em conformidade com o perfil do personagem escalado, na condição de presidente do PDT, para representar o partido na coalizão de apoio ao presidente Luiz Inácio da Silva.

Partido fundado por Leonel Brizola, o PDT é também a legenda de origem do senador Cristovam Buarque, que retornou a ela depois de anos no PT, de onde saiu por divergência de procedimentos e depois de uma passagem pelo Ministério da Educação.

O que faz Cristovam Buarque nessa história que começa com as bravatas de Carlos Lupi e logo concluirá pela inadequação de o presidente da República abrir espaço ao sindicalista nele mais ou menos adormecido?

Nos idos dos 90, ainda governador petista do Distrito Federal, Cristovam era das poucas vozes do PT a alertar para a necessidade de o partido abandonar a lógica da reivindicação, deixar de lado a defesa corporativista impressa em seu DNA sindicalista e abraçar causas que dissessem respeito à sociedade inteira.

Só dessa forma, argumentava Cristovam, o partido poderia se preparar para um dia realmente disputar a sério o poder e, no caso de vitória, administrar o País com todos os seus desafios.

Enquanto olhasse apenas para a “mesa de negociações” entre patrões e empregados onde Lula forjara suas habilidades políticas, seria parte sem a indispensável noção do todo.

Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, não ouviria as ponderações do filiado. A prepotência adquirida no cargo não lhe permitiria enxergar que não é ministro dos sindicatos.

É ministro do País que não precisa de ameaças vãs de punição ao setor produtivo, mas daquela visão ampla que desde há muito prega o hoje senador Cristovam Buarque, para enfrentar a crise, encarar as agruras da impossibilidade de atender a todos os interesses quando o cobertor encurta e a situação requer espírito público. No sentido coletivo do termo. 

Querer e poder

No caso das disputas dentro do Congresso, as querências dos presidentes da República não necessariamente correspondem às poderências.

Lula “tranquilizou” Michel Temer dizendo que o melhor cenário para ele é o PMDB na presidência da Câmara e o PT, com Tião Viana, na do Senado.

Nessa altura do segundo mandato de Fernando Henrique ele também tranquilizava sua base dizendo que o quadro mais confortável para o Planalto seria Jader Barbalho na presidência do Senado e Inocêncio Oliveira na da Câmara.

Jader foi eleito, renunciou em meio a denúncias. Inocêncio foi abalroado pela candidatura (vitoriosa) do tucano Aécio Neves.

A partir daí, as relações entre os três principais partidos da aliança - PSDB, PFL e PMDB - nunca mais foram as mesmas, com consequência direta sobre a eleição presidencial de 2002. 

Mal comparado

O ministro da Justiça, Tarso Genro, não enxerga por que não quer a diferença entre asilos políticos concedidos pelo Brasil a chefes de Estado apeados do poder e a recusa de extradição ao italiano Cesare Battisti.

Battisti foi condenado por homicídio pela Justiça de um País cujas instituições funcionam à normalidade. O ministro tem a prerrogativa de tomar a decisão que tomou, mas não dispõe de salvo-conduto para distorcer os fatos sem contestação.

Os atletas cubanos entregues a Havana quando tentaram refúgio no Brasil logo após os jogos panamericanos para atender ao governo de Cuba também foram, ao inverso, objeto dessa adaptação autocrática da realidade à posição ideológica de determinado grupo.

Naquele caso a conta foi paga pelos atletas, banidos do esporte, pois o Estado atendido deu-se por satisfeito e a reação no Brasil diluiu-se na geleia da benevolência geral para com a ditadura de Fidel Castro.

Nesse episódio de Battisti, ao se imiscuir em decisão do Judiciário italiano, o Brasil pode ter contratado um grave atrito diplomático sem dispor da estatura política e da sustentação legal suficientes para enfrentar. 

Tratou uma ditadura como democracia, agora atuou no modo vice-versa e terá necessariamente de se valer do nem sempre prestigiado Itamaraty para desatar o poderoso nó.

Os pedidos de recuo, feitos diretamente ao presidente Lula, tendem a ser inúteis, pois Tarso Genro submeteu a decisão a ele antes de divulgá-la certamente garantindo que não haveria obstáculos. Ou Lula teria medido as consequências.

É um bom exemplo de como nem sempre é bom o governante agir na confiança da avaliação alheia e formar juízo a partir do próprio discernimento. Obtido mediante o conhecimento dos fatos por meio, entre outros meios, da leitura dos dados em jogo.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Israel faz 110 ataques e atinge ONU, jornalistas e um hospital

Folha: Israel ataca prédio da ONU e hospital

Estadão:Israel mata líder do Hamas; prédio da ONU é atingido

JB: Montadoras do Rio dão férias coletivas

Correio: Como é caro manter os filhos na escola

Valor: Citi é pressionado a vender ativos e encolhe no Brasil

Gazeta Mercantil: Crise força empresas a reinventar função do RI

Estado de Minas: A BH que abre vagas, investe e desafia a crise

Jornal do Commercio: Estado anuncia uma cidade para a Copa

quinta-feira, janeiro 15, 2009

SURUBA


EDITORIAL FOLHA DE SÃO APULO

Assunto da Itália

Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

O ASILO político a Cesare Battisti, italiano condenado em seu país à prisão perpétua por quatro homicídios ocorridos na década de 1970, é um equívoco. De uma vez, o governo Lula contrariou decisões consumadas dos Judiciários da Itália e da França e da Corte Europeia de Direitos Humanos.
No Brasil, a vontade do Planalto refutou orientação do Comitê Nacional dos Refugiados e evitou que o pedido de extradição de Battisti, feito pela Itália, fosse julgado no Supremo Tribunal Federal. O procurador-geral da República, Antonio Fernando Souza, pede seu repatriamento.
O governo Lula alega que Cesare Battisti, ex-integrante de um grupo terrorista de esquerda, é um perseguido político que foi julgado "in absentia", sem direito à ampla defesa. O Executivo brasileiro não deveria entrar nesse mérito quando do outro lado há uma democracia estabelecida, com Judiciário autônomo.
A "doutrina Mitterrand", socialista que presidiu a França de 1981 a 1995, está superada nas cortes francesas. Durante anos, ela deu guarida a ativistas de esquerda estrangeiros que haviam cometido crime em seus países.
Battisti, que se diz inocente, era um dos beneficiados até que mudaram, na França, a orientação política e a jurisprudência, causa de desavenças diplomáticas incômodas na União Europeia. O Judiciário francês decidiu extraditá-lo, mas Battisti fugiu do país e sabiamente, vê-se agora, desembarcou no Brasil.
A suposta falta de acesso à ampla defesa, no caso, já foi rechaçada na Corte Europeia de Direitos Humanos, instância competente para julgar alegações de abusos em nações da UE.
O caso Cesare Battisti é incomparável com asilos concedidos pelo Brasil a ex-ditadores e ex-governantes sul-americanos. Aqui se tratava de remediar situações explosivas nos instáveis países de origem e/ou de preservar a integridade física do asilado, sujeito, de outro modo, à arbitrariedade de sistemas políticos e judiciais precários.
Nenhum desses critérios se aplica à Itália, nem a Battisti. Seu destino é assunto exclusivo do Judiciário italiano e do sistema de apelações europeu. A concessão do asilo decorre, apenas, de uma ação entre amigos no seio de uma certa esquerda. Temas de Estado, no entanto, requerem outra abordagem, e espera-se que Lula reconsidere a decisão.

VINICIUS TORRES FREIRE

Mais notícias "aziáticas"


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

Cai consumo de gás e de eletricidade; dado preliminar sobre balança comercial indica déficit para breve

MAIS INDICADORES confirmam a conta do desastre de dezembro. O consumo de eletricidade no mercado livre (grandes empresas) caiu 1% ante dezembro de 2007 (estimativa baseada em amostra da empresa Comerc, comercializadora de energia) e 18% de novembro para dezembro. O consumo de gás natural na indústria recuou 24% de dezembro de 2007 para dezembro de 2008. Nos dados preliminares, o consumo de papelão ondulado caiu 4,5% em dezembro, ante o mesmo mês do ano passado.
Considerando a derrocada na produção de veículos (54%), no tráfego de caminhões pesados (0,8%) e da carga de energia elétrica (5%), outros indicadores coincidentes, estima-se que a produção industrial tenha levado um tombo de 8% em dezembro -ante dezembro de 2007.
Alguns setores, como o de veículos, dizem que a coisa parou de piorar, mês a mês. Mas anda abaixo do nível de 2008. E a siderurgia diz que continua a deterioração. O pessoal de máquinas também.

"Déficit" comercial
Economistas do Unibanco chamam a atenção para o fechamento de câmbio no comércio exterior de dezembro: ficou negativo pela primeira vez desde outubro de 2001 (US$ 119 milhões). No primeiro terço de janeiro, está negativo em US$ 510 milhões. Trata-se do dinheiro que de fato entra e sai na conta de exportações e importações. Não é, pois, o saldo comercial.
O tombo em outubro de 2001, em relação à média dos 12 meses antecedentes, foi de cerca de US$ 1,2 bilhão. Em dezembro de 2008, foi de US$ 4,3 bilhões. O dado de um mês da conta comercial não diz muita coisa. Mas assusta, dado o contexto do tropeço assusta. A balança do ano é uma incógnita. Além do preço de commodities e do tamanho da recessão no mundo rico, o desempenho da balança comercial depende muito do saldo de combustíveis. Incluindo combustíveis, a queda do saldo bate em 34% (em 12 meses). Sem combustíveis, a redução foi menor, em torno de 21%.
Notícia mais animadora foi a do nível de financiamento dos exportadores. Voltou ao que era antes da explosão da crise, em setembro de 2008: os ACCs ficaram em torno de 30% da entrada de dinheiro de exportação. Mas, no conjunto da ópera, as notícias continuam "aziáticas", de dar azia, como diz Lula. 

"Errei" e dívida externa privada
Na coluna de domingo, o colunista comentava que o BC promete desde dezembro emprestar dinheiro das reservas internacionais, sem fazê-lo, mas no meio de um parágrafo sobre crédito para exportadores (que está funcionando). Mas a nova linha do BC, financiada pelas reservas, é para rolagem de dívida externa de empresas, como se sabe.
Desculpe, por favor, a confusão.
Henrique Meirelles informa que a linha para rolagem de dívida ainda não saiu porque o BC estuda como dar base jurídica forte à medida e está checando a experiência internacional no assunto. O pacote ainda não está definido. Mas diz-se que empréstimos intercompanhias (de matriz para filial) devem ficar de fora. A linha deve ser só para empresa que lançou títulos e bancos.

ELIANE CANTANHÊDE

Espírito de ano novo


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

O governo brasileiro amanheceu mais "esquerdista" em 2009 e vem dando diferentes demonstrações disso. A última foi a canetada de Tarso Genro (Justiça), que passou por cima do Itamaraty, do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados) e do Supremo Tribunal Federal para conceder asilo político ao italiano Cesare Battisti. 
Ex-líder da organização terrorista Proletários Armados pelo Comunismo, Battisti foi condenado a prisão perpétua na Itália pela morte de pelo menos quatro pessoas. Para o governo italiano, cometeu crime comum. Para o brasileiro, foi crime político. A diferença: criminoso comum é extraditado, criminoso político tem direito a asilo. Lembre-se que o governo brasileiro é cheio de ex-presos políticos e agiu mais pelo passado e a ideologia do que pelo presente e o pragmatismo jurídico-diplomático, numa decisão pró-asilo que irritou o governo da Itália e vai ser uma dor de cabeça para Lula, que desembarca hoje na Bolívia imbuído desse "espírito esquerdista" do ano novo e pronto para enrolar ou Evo Morales ou os técnicos brasileiros. 
O governo manteve a compra de muito mais gás da Bolívia do que o Brasil precisa, só para continuar gerando receitas para o vizinho pobre. 
Será cada vez mais difícil sustentar que foi uma "decisão técnica". Até pela aritmética: chove a cântaros, as hidrelétricas estão cheias, as empresas consomem menos gás durante a crise. Mais oferta e menos demanda não é igual a grande compra de gás no exterior. Se Edison Lobão (Minas e Energia) tem de se render à pressão "esquerdista" para comprar mais gás da Bolívia, Genro (Justiça) rende a diplomacia e a Justiça à sua lógica "esquerdista". Vai ser aplaudido pelo seus já aliados, mas tende a receber uma saraivada de críticas de toda parte e pode até vir a recuar. 
E é assim que o Brasil acaba de ganhar mais um chanceler, entre tantos, enquanto Amorim circula pelo Oriente Médio: Tarso Genro.

COLUNA PAINEL

Imunidade trincada


Folha de S. Paulo - 15/01/2009
 

Protegido dos efeitos da crise, segundo as palavras do presidente Lula, o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) sofre baixas. Por decisão de Dilma Rousseff (Casa Civil), serão adiados os leilões de concessão à iniciativa privada de dois trechos das ferrovias Norte-Sul e Oeste-Leste, um dos destaques do programa. Previstas até então para este semestre, as concessões só devem sair no final do ano ou em 2010.
O presidente da Valec -órgão que tem a função de construir e explorar as ferrovias- confirma: "Devido à crise, a ministra Dilma tomou essa decisão. Estava toda a parte técnica pronta, mas havia o receio de que o leilão fracassasse. O bom senso manda aguardar mais", diz José Francisco das Neves.

Crédito.
 O principal motivo da decisão foi a avaliação de que as empresas interessadas teriam dificuldade em conseguir crédito nesse momento. O governo diz que as obras continuam sendo feitas, mas novos congelamentos de concessões de ferrovias e rodovias estão em estudo. 

Para depois
Os trechos ferroviários cujos leilões vão ser adiados são Anápolis (GO)-Estrela d"Oeste (SP), da Norte-Sul, e Ilhéus-Barreiras (BA), da Oeste-Leste. 

Churrasco
Em visita ao colega Aécio Neves (PSDB-MG), Cássio Cunha Lima (PSDB-PB) convidou ontem o governador mineiro a incluir João Pessoa na caravana programada pelo país. Cunha Lima defendeu as prévias no PSDB. "O que não pode é repetir erros do passado. Se for para decidir o candidato em um restaurante, que seja numa grande churrascaria." 

Gelada
Um grupo de dez deputados federais embarca hoje para a Antártida, a convite da Marinha. A expedição ganhou o apelido de "Entrando numa fria, parte 2". No ano passado o mau tempo reteve por quatro dias um grupo de congressistas no continente. 

Shopping
A Base Naval de Aratu, na Bahia, onde Lula costuma passar férias, vai receber um banho de loja. Ao custo de R$ 29 mil, estão sendo comprados fabricadores de gelo, lâmpadas contra insetos, cafeteiras, sanduicheiras e aparelhos para amaciar carne.

Barrados
Os congressistas brasileiros que pretendiam ir à posse de Barack Obama chegaram a recorrer ao embaixador dos EUA no Brasil, Clifford Sobel. Apesar disso, não foi concedido assento na solenidade. "Ele disse que cada país será representado pelo respectivo embaixador em Washington", afirmou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). 

Amigos
Entrou em vigor nessa semana acordo bilateral entre o Brasil e a Liga Árabe, que representa 21 países, incluindo delegação da Palestina. A partir de agora, a liga poderá operar livremente e ter sede no Brasil. 

Um e outro
A comissão do Congresso composta por oito deputados e um senador que acompanha a crise em Gaza enviou carta à embaixada israelense criticando a invasão no território. Já a carta destinada à representação Palestina presta solidariedade e não diz uma palavra sobre o terrorismo do Hamas.

Telefone mudo
Após oito dias da divulgação de que o celular da secretária do líder do PSDB na Câmara, José Aníbal (SP), foi alvo de escuta ilegal, a Anatel ainda não se manifestou sobre o caso. Na próxima segunda, o tucano e o presidente da CPI dos Grampos, Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), devem ir à agência. 

Isca
Uma das ideias mais mirabolantes em discussão na campanha de Aldo Rebelo (PC do B) à presidência da Câmara é implantar mutirão de votação de quinta a domingo, a cada bimestre. Seriam sessões reservadas a projetos de deputados que estivessem presentes na ocasião, já que a pauta normal é dominada por propostas do governo. 

Tiroteio


"O governo preferiu colocar-se ao lado de um fugitivo em vez de apoiar o pleito de um país com o qual tem relação. E isso sem consultar a Justiça brasileira, o que é muito preocupante." 

Do senador 
NEUTO DE CONTO (PMDB-SC), que tem cidadania italiana, sobre a recusa do Brasil em extraditar o italiano Cesare Battisti.

Contraponto

Na moda

Em conversa anteontem com uma jornalista, o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), cujo nome figura na lista de especulações para 2010, explicava que voltará ao trabalho somente na semana que vem.
-Não é porque estou de férias. É que estou me recuperando de uma cirurgia no rosto!
A repórter, então, provocou:
-Não me diga que o senhor fez plástica como a Dilma, para virar vice-presidente na chapa dela...
De pronto, o ministro tratou de desmentir:
-Pelo amor de Deus! Não tem nada disso, não!
Geddel se recupera de uma cirurgia nos dentes.

ROLF KUNTZ

Otimistas versus informados


O Estado de S. Paulo - 15/01/2009
 

A boa notícia é que os brasileiros estão entre os mais otimistas em relação ao País e às possibilidades de aumento da renda familiar nos próximos 12 meses. No Brasil, 79% dos entrevistados disseram acreditar nesse aumento, enquanto nos Estados Unidos apenas 34% manifestaram essa expectativa e somente 11% no Japão, segundo pesquisa realizada em 17 países. A má notícia aparece quando se combina essa informação com os últimos dados sobre o emprego e sobre o desempenho de importantes setores industriais: se o quadro piora tão rapidamente enquanto os brasileiros estão confiantes, como ficará a situação quando mais pessoas se apavorarem com a crise?

O otimismo da maioria dos brasileiros dá ao governo um bom ponto de partida para definir e aplicar medidas contra a recessão. Boa parte da confiança captada na pesquisa deve estar vinculada à popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas essa confiança tende a se esgotar com a multiplicação das demissões, a contenção do consumo e o rebaixamento do padrão de vida de milhares ou até milhões de famílias.

Outro detalhe relevante é a associação entre classe econômica e otimismo/pessimismo. No grupo D/E, o mais pobre, 47% expressaram a esperança de melhora da situação do País nos próximos três meses. A porcentagem cai para 31% na classe C e para 25% no grupo A/B. Essas camadas não se diferenciam apenas pela renda e pelas posses, mas também pela educação e pela informação.

O otimismo registrado pela pesquisa varia inversamente ao grau de informação do entrevistado. Os mais informados não estão necessariamente em situação pior que a dos outros. Mas sabem mais a respeito do mundo, não só porque absorvem e processam mais notícias, mas também porque são mais atentos ao noticiário econômico mais complexo. Muitos, ao contrário do presidente da República e de boa parte de seus mais entusiasmados admiradores, leem jornais e revistas e assistem aos melhores programas informativos da TV.

Tudo isso explica seu menor otimismo, embora disponham, quase certamente, de melhores condições para enfrentar períodos de vacas magras.

Quanto mais informado o cidadão, menor a sua propensão a engolir a retórica presidencial sobre medidas anticrise, especialmente sobre a sustentação de investimentos. Boa parte dos investimentos financiados pelo Tesouro está emperrada, como já foi noticiado muitas vezes, e isso inclui numerosos projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Se o presidente coordenasse e administrasse tanto quanto fala, o ritmo de execução dos projetos constantes do 
Orçamento da União seria com certeza muito mais satisfatório. Nenhuma outra pessoa pode exercer essa função no governo federal, porque há uma evidente escassez de liderança e de competência gerencial no primeiro escalão do Executivo. As poucas demonstrações de bom senso ficam a cargo do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, mas sua influência é restrita.

No gabinete palaciano, há quem tenha poder para neutralizar boas iniciativas e para dar péssimas ideias ao presidente, mas não há sinal de liderança administrativa. A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, pode ser apontada pelo presidente Lula como gerente e até mãe do PAC, mas sua atuação não tem a mínima correspondência com esses títulos. Basta ver alguns números: em 2008, dotação orçamentária de R$ 18,84 bilhões e desembolsos de apenas R$ 11,32 bilhões, incluídos neste valor R$ 7,56 bilhões de restos a pagar de 2007.

Investimentos federais seriam importantes para manter a economia em movimento. Mas não basta o presidente fazer um discurso por dia, em tom furioso, para ocorrer a execução das obras. Parte dos brasileiros pode até se impressionar, mas essa retórica não garante empregos no setor privado. Quanto aos estímulos fiscais, até agora tiveram pouco efeito. Em dezembro, a redução de impostos pode ter facilitado a venda de automóveis, mas o efeito dessa medida é limitado. O governo ainda não acertou a mão na política de incentivos e não deu atenção suficiente ao perigo cada vez maior de problemas no balanço de pagamentos. As melhores iniciativas partiram do Banco Central: oferta de dólares para o financiamento da exportação e para a liquidação de dívidas não renovadas. Pelo menos uma área da administração federal mostra alguma noção de foco e alguma percepção do que pode fazer diferença. Mas só os menos otimistas são bastante informados para perceber detalhes como esse.

ANCELMO GÓIS

O gás político


O Globo - 15/01/2009
 

Evo Morales, no encontro com Lula hoje em Puerto Suárez, vai espernear contra a redução de fornecimento do gás boliviano para o Brasil. 

Semana passada, o governo decidiu diminuir o suprimento diário de 30 milhões de metros cúbicos para 19 milhões. No mesmo dia, recuou um pouco, pressionado por ministros bolivianos, e aumentou o teto de compra para 24 milhões. 

Segue... 

O governo alegou que o recuo se deve à necessidade de manter três usinas termelétricas ainda em funcionamento. 

Só que o pessoal do setor acha que ficará cada vez mais claro que o funcionamento é excesso de zelo, ou... de política. 

Não veio a turismo 

Quem esteve no Brasil estes dias foi o americano Rex W. Tillerson, nº 1 da Exxon, a maior petrolífera do mundo. 

Apesar da crise ele aposta fichas no pré-sal brasileiro. A Exxon lidera um consórcio no bloco BM-S-22 na Bacia de Santos. 

As voltas... 

O ministro Edison Lobão estava no aeroporto de Brasília quando foi abordado por uma senhora: 

- Sou sua eleitora lá do Maranhão. 

Lobão encheu-a de afagos e ela, toda feliz, esticou o papo: 

- Eu sei que o senhor já foi deputado. Mas agora o senhor faz mesmo o quê? 

- Sou ministro. 

...que o mundo dá 

A senhorinha caprichou no sotaque nortista, deu-lhe um tapinha nas costas, e sentenciou: 

- Ô, subiu muito, hein!

ILIMAR FRANCO

Alckmin vai à luta


O Globo - 15/01/2009
 

O ex-governador Geraldo Alckmin não aceita ficar à margem da sucessão estadual. Ele vai disputar a indicação para concorrer pelo PSDB ao governo paulista. E já está percorrendo o interior do estado em busca de apoio. Alckmin vai enfrentar o candidato serrista, Aloysio Nunes Ferreira. Quer prévias. A disputa de José Serra com Aécio Neves não será a única no ninho dos tucanos. 

Carla Bruni e Fred Vargas comemoram 

A primeira-dama francesa, Carla Bruni, e a escritora Fred Vargas comemoraram juntas a decisão do ministro Tarso Genro de conceder refúgio político a Cesare Battisti, cuja extradição era pedida pela Itália. Quando esteve no Brasil, no fim do ano, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, teria dito ao presidente Lula que o premiê italiano, Silvio Berlusconi, não queria mais Battisti na Itália, porque causaria muita turbulência política. A extradição do ex-militante de esquerda foi uma bandeira de campanha de Berlusconi. No ano passado, Sarkozy negou a extradição da italiana Marina Petrella, ex-integrante das Brigadas Vermelhas. 

Na eleição para a presidência do Senado trabalho para o presidente Lula. Sou Tião Viana em on e em off" - José Múcio, ministro das Relações Institucionais 

JUVENTUDE. O bispo dom Mauro Morelli esteve com o ministro Nelson Jobim (Defesa). Foi pedir apoio do Exército para um programa de criação de peixes, que terá verbas públicas e privadas, para ocupar jovens de 15 a 24 anos. O general Elito Siqueira, que comandou as forças de paz no Haiti, recebeu a missão de articular a participação dos militares, que desempenharão tarefas nas áreas de organização e disciplina. 

Barulho 

Está programado para o Fórum Social Mundial um debate sobre a atuação da Vale no Pará. O objetivo anunciado é exigir indenização pelos supostos danos socioambientais e reformular a partilha dos lucros da empresa privada.

Mais adidos 

O governo decidiu criar dois cargos de adido militar no exterior. Um deles será nomeado para a Índia e o outro para atuar junto ao Estado Maior Conjunto das Forças Armadas americanas. O Brasil já tem três adidos militares nos EUA. 

Nova rodada Brasil-Paraguai 

O impasse sobre a energia da Usina de Itaipu está longe de uma solução. Representantes do Paraguai vem ao Brasil dia 26 para apresentar uma nova proposta. No encontro anterior, os paraguaios disseram que o financiamento da construção de um linhão para levar energia para o interior do Paraguai não é prioridade. "Se não é prioridade dos senhores, muito menos é nossa", respondeu o ministro Edison Lobão (Minas e Energia). 

Quando a sagacidade vira lenda 

Queixa do senador José Sarney (PMDB-AP), ontem à noite, depois de ter adiado mais uma vez encontro com o presidente Lula para tratar da sucessão na presidência do Senado: "Até a minha gripe o pessoal coloca em dúvida". Sarney não é o único que está evitando falar com Lula. A cúpula do PMDB também adiou uma reunião para a semana que vem. O partido quer evitar um "apelo" do presidente, prefere que o caso continue na base do "seria bom" um partido em cada Casa. 

O DESTINO do líder do PMDB no Senado, Valdir Raupp (RO), está nas mãos do presidente Lula. Roseana Sarney (PMDB-MA) está entregando a função de líder do governo no Congresso. 

PLACAR. Pelas contas do PMDB, se a eleição fosse hoje, o senador José Sarney (PMDB-AP) teria 58 votos para a presidência do Senado, em um total de 81. 

O GRUPO do ex-prefeito de Niterói, Godofredo Pinto, e do deputado Chico D"Angelo anuncia hoje seu ingresso na tendência centrista Movimento PT. Eles romperam com a Mensagem, do ministro Tarso Genro.

AUGUSTO NUNES

A fantasia repousa no fundo do mar


Jornal do Brasil - 14/01/2009
 

"FUI TÃO FUNDO QUE QUASE BATI LÁ NO PRÉ-SAL", ainda exultava na segunda-feira o presidente fotografado dias antes dois metros abaixo da superfície do mar. Aleluia!, berraram milhões de brasileiros até então aflitos com o súbito sumiço da palavra resgatada pela frase de Lula, mas ainda ressabiados com o enigma: o que provocou a suspensão repentina, sem comunicados oficiais nem pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV, do carnaval temporão decretado em agosto do ano da graça de 2008, sexto da era Lula, pela descoberta do despotismo de petróleo estocado nas profundezas do Atlântico?

Por que se dispersaram sem mais nem menos as procissões em louvor da descoberta do pré-sal, mais importante que o Descobrimento? Porque a turma das caravelas encontrou índios, araras e praias, e a Petrobras achou jazidas colossais guardadas pela Divina Providência durante milhões de anos para que coubesse ao maior governante de todos os tempos anunciar à nação e ao resto do mundo a entrada do Brasil na Opep, e posar para a posteridade no meio de sheiks árabes.

Do fim do inverno ao crepúsculo da primavera, acampado no andor principal, Lula improvisou orações em agradecimento ao Companheiro que lhe permitiria surprender a Sapucaí, em companhia de Hugo Chávez, com a primeira aparição de uma dupla fantasiada de califa cucaracha. "Tenho tanta sorte que acho que que Deus passou por aqui e resolveu ficar", desconfiou em setembro, extasiado com a demasia de dinheiro que garantiria aos pobres três refeições por dia, duas viagens por ano à classe média e a inclusão de um banqueiro da terra na lista dos 10 mais ricos do mundo.

Generoso, prometeu aos diretores da UNE um sistema de ensino de desconcertar o rei da Suécia. Aos acidentados, um atendimento de emergência superior ao da Inglaterra. Aos enfermos em geral, a cura de todas as doenças por médicos incorporados ao sistema de saúde. Sobram verbas para todos, souberam ministros, governadores lulistas, criptolulistas ou simpatizantes, prefeitos e vereadores de cidades a menos de 100 quilômetros do mar. Sobra verba para todos e para tudo, gabou-se em novembro, mostrando as mãos enegrecidas de petróleo supostamente pescado no pré-sal do Espírito Santo.

"Tenho tanta sorte que lá no poço de Jubarte a Petrobras encontrou mais uma reserva de 2 bilhões de barris", reiterou. Sorte e paciência: a festa já começou, mas o festejado só jorrará para valer em 2014. Paciência e otimismo, confirmou a certeza de que a demora vai beneficiar a indústria nacional, porque enquanto os gringos produzem os equipamentos que nunca houve as fábricas daqui terão tempo para providenciar o muito que falta para encher milhões, bilhões de barris com petróleo sugado 7 mil metros abaixo do nível do mar. Sete quilômetros. Ou mais.

 Como conseguir, por exemplo, sondas de perfuração avaliadas em US$ 700 bilhões cada uma no mercado internacional? Com um presidente que reduz crise a marolinha ninguém pode, complicou no no improviso: "Ou nós tomamos a decisão de fazê-las aqui, gerando tecnologia, emprego, renda e desenvolvimento, ou a Petrobras vai economizar US$ 100 milhões e comprar todas em Cingapura".

Na alusão ao pré-sal pode estar a explicação para o mistério aparente: o carnaval petroleiro vai recomeçar em 2010, com a companheira Dilma Rousseff como rainha da bateria e Lula puxando o samba-enredo costurado para celebrar a gestação do futuro nas plataformas espalhadas por 800 quilômetros de litoral. Quem melhor que a mãe do PAC, já com o filho aprendendo a andar, para vigiar os trabalhos de parto que serão concluídos em 2014, junto com a candidatura de Lula a outro mandato presidencial, a Copa do Mundo, a Olimpíada do Rio e o submarino nuclear encomendado pelo almirante Nelson Jobim e seu grumete de estimação Mangabeira Unger? Em 2006, o presidente reelegeu-se jurando que o país se tornara auto-suficiente em petróleo. O Brasil paga R$ 5,5 bilhões por ano para fechar a conta de óleo e combustíveis. Dilma vai jurar que o pré-sal logo transformará o país em exportador de petróleo. O Brasil continuará importando barris e engarrafando a miragem no fundo do mar.

Lula e Dilma parecem convencidos de que, no País do Carnaval, milhões de eleitores aceitam qualquer fantasia. Faz sentido.

O IDIOTA


QUINTA NOS JORNAIS

Globo: Demissões provocam atrito entre ministro e empresários

Folha: Fiesp quer cortar jornada e salário sem garantir vagas

Estadão: Grandes empresas apóiam corte de salários e jornada

JB: Já passam de 1.000 mortos

Correio: Férias no lixão - Crianças da Estrutural brincam de catar boneca

Valor: Economia da AL desaquece e Brasil perde exportações

Gazeta Mercantil: BC garante liquidez às linhas de exportação

Estado de Minas: Acordo garante emprego em Minas

quarta-feira, janeiro 14, 2009

ENQUANTO ISSO NA REPÚBLICA DA BOSTALÍVIA...


Bolívia rompe relações com Israel por ação em Gaza

Da BBC Brasil:

A Bolívia rompeu relações diplomáticas com Israel em protesto aos ataques na Faixa de Gaza lançados contra o grupo islâmico Hamas, anunciou na quarta-feira o presidente boliviano, Evo Morales.

"Quero informar que a Bolívia mantinha relações diplomáticas com Israel. (Mas) diante desses graves fatos de atentados contra a vida e a humanidade, a Bolívia rompe as relações diplomáticas com Israel", afirmou o presidente de esquerda.

Morales anunciou a medida em um discurso feito na presença do corpo diplomático no Palácio do Governo.

Essa posição dos cocaleiros vai mudar a geopolítica mundial. Segundo fontes do BLOG, o govêrno e a população de Israel não conseguiram dormir depois dessa posição da Bostalívia.

COLUNA PAINEL

Efeito cascata


Folha de S. Paulo - 14/01/2009
 

Um dos motivos que levam o governo a pressionar a indústria automotiva contra demissões é a avaliação de que os cortes devem se alastrar na cadeia de produção do setor -autopeças, siderúrgico e máquinas. O Palácio do Planalto se mostrou surpreso pela intensidade da deterioração do mercado de trabalho.
Anteontem, o presidente Lula telefonou para o ministro Carlos Lupi (Trabalho) assustado com a notícia de que 600 mil postos foram eliminados em dezembro. O número final do Caged (Cadastro Geral de Empregados) deve, na verdade, ultrapassar essa marca.
Também houve no último mês de 2008 forte aumento nos pedidos de seguro-desemprego em relação a igual período de 2007, diz o Ministério do Trabalho.

Curativo
Influente na CUT e no governo, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC levará ao governo proposta de mudar a legislação para permitir que contratos por tempo determinado possam ser renovados três vezes, e não duas. "Isso pode evitar muitas demissões na indústria automobilística", diz o presidente, Sergio Nobre, que ocupa lugar que já foi de Lula.

2010?
Recém-empossado prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho (PT) almoça hoje com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB). A ideia do petista é implantar o modelo das UPAs (Unidade de Pronto-Atendimento) no município do ABC. 

Luz, câmera...
Já o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), aproveitou ontem a inauguração do programa "Recreio nas Férias", no CEU Sapopemba, para gravar imagens suas brincando com crianças, que vão ao ar no programa de TV do DEM, dia 29. 

Em casa
O ex-prefeito Rogério Farias (PTB), irmão de PC Farias, teve a candidatura à reeleição cassada, mas continua dando as cartas em Porto de Pedras (AL). O vereador Amaro Júnior (PTB), que assumiu a cadeira até nova eleição, nomeou a mulher e a filha de Farias como secretários. O irmão de PC também apareceu anteontem em solenidade de assinatura de convênios. 

Caravana
O roteiro da provável viagem de Lula para promover a ideia de transposição das águas do rio São Francisco começa por Belo Horizonte, ainda no primeiro semestre. O presidente visitaria obras de saneamento que evitam o despejo de esgoto no rio. Em dez dias, ele iria a mais quatro Estados, de navio e helicóptero: Bahia, Pernambuco, Paraíba e Ceará.

Currículo
A Presidência da República contratou por R$ 45 mil, sem licitação, o consultor Caio Marini para fazer um diagnóstico das ouvidorias de agências reguladoras e sugerir mudanças. Especialista em administração pública, é um dos pais do "choque de gestão" do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), frequentemente criticado como exemplo de prática neoliberal por petistas. 

No, you can"t
Um grupo de deputados e senadores organizava uma comitiva para ir à posse de Barack Obama, no dia 20, mas teve seus planos frustrados pela Embaixada dos EUA. A diplomacia norte-americana negou aos congressistas brasileiros assento privilegiado na solenidade. 

Via satélite
"Iríamos em missão oficial, representando a Câmara, mas arcando com os custos. Daí eles disseram que não, que não tinha lugar... Assistir pela televisão, a gente assiste por aqui mesmo", lamenta o deputado Manato (PDT-ES), um dos integrantes da quase-comitiva. 

Indireta
Com a senha dada pelo ex-ministro José Dirceu, petistas começam a falar mais grosso com o PMDB. "Não vamos assistir impassíveis à tentativa do PMDB de presidir as duas Casas do Congresso. Achar que a eleição nas duas Casas não tem relação é irreal", diz a líder petista no Senado, Ideli Salvatti (SC).

Tiroteio

"Mesmo com tanto dinheiro, não se vê uma obra de infraestrutura. Espero que haja explicação para essa incompetência da governadora."

Do senador MÁRIO COUTO (PSDB-PA), sobre a declaração da governadora Ana Júlia Carepa (PT-PA), para quem a "identidade ideológica" do seu governo facilitou a liberação recorde de investimento público em obras para abrigar o Fórum Social Mundial.

Contraponto

Pronto-atendimento

Antes mesmo de começar, a assembleia dos servidores da Câmara que tratou ontem do plano de saúde da categoria já estava tumultuada. Centenas de funcionários gritavam "fora!" e "renúncia!" para a atual diretoria do sindicato, que havia sugerido mudanças no sistema.
Após quase meia hora de gritos e ameaça de agressões físicas, o vice-presidente do sindicato, Eduardo Lopes, pediu a palavra, num raro momento de silêncio.
-Boa tarde. Vamos então começar a assembleia- disse ele, um tanto trêmulo. Ao pedir calma, se atrapalhou.
-Gostaria de pedir que os ânimos se acirrassem...
Os berros recomeçaram com força total.

NAS ENTRELINHAS

Ideias não fazem plástica


Correio Braziliense - 14/01/2009
 


Seria Dilma, seja a austera senhora de antes ou da vaidosa dama de agora, a idealizadora de um plano que fracassou? Será ela a capitã do navio petista rumo a um projeto fadado ao naufrágio?


Temos aí o caso da ministra Dilma Rousseff. Cortou e pintou os cabelos, renovou a pele do rosto, esticou as rugas, tirou os óculos. Diz-se que é o semblante da candidatura presidencial. Os especialistas em propaganda política, chamados a depor, divergiram quanto ao resultado. Mas o debate necessário é bem outro. Que terá o Brasil para exigir de uma mulher postulante ao mais alto cargo público disponível a mudança fundamental, transcendente e irresistível do primeiro olhar? 

Respondo: nada tem o Brasil de errado. Como toda nação civilizada, o país dá sinais de estar pronto para se deixar governar por uma mulher. Pelo menos a candidatura da ministra é cozida sem dissabores, sabotagens ou pilhérias. Está no jogo e sua presença é reconhecida como legítima. Tenha ela a imagem da austera senhora de antes ou da vaidosa dama de agora. 

O que há de errado, nobre senhor, bela senhora, são as muitas contradições que o PT e a própria Dilma carregam. Essas sim, são rugas cavadas pelo tempo como todas as outras, mas para as quais não existe plástica possível. 

O partido já não esconde o espanto por ter se apequenado em relação a Luiz Inácio Lula da Silva. Uso o termo no sentido estrito, de que um tornou-se politicamente maior, mais relevante do que o outro. O presidente governa — de forma bem-sucedida, registre-se — com atos que retoricamente condenava quando militante partidário. Deve ser duro para ele. Mas pior ainda para o PT, ainda hoje defensor de ideias estapafúrdias, sobretudo quanto à política econômica. 

Nessa seara, Dilma é uma espécie de prisioneira. É dela a tese de um grande plano de obras para impulsionar o crescimento econômico tanto no curto quanto no longo prazos, pedra-de-toque do segundo mandato petista. O pilar sobre o qual se ergue a ideia ruiu em outubro do ano passado — era, posto, a abundância de capitais pelo mundo, capaz de financiá-la com sobras até o estouro da represa financeira internacional. 

A alicerçar-lhe, tanto a personagem quanto seu argumento, persiste a crença num Estado forte, interventor, potente. E lá se vão outros senões. A ação estatal prescinde de dinheiro. Quão maiores elas forem, mais lhe é custoso. Ora, o Estado se financia da população, cobrando-lhe impostos. Se ele deve ter a configuração imaginada pela candidata, tenha ela expressão jovial ou bigode japonês, maior precisa ser a carga de tributos apeada no lombo da nação. Que nem uma lágrima verteria se marchasse sobre o bálsamo do crescimento econômico. Só que também isso sumiu com a crise. 

Além disso, é bom lembrar, foi da mão dela que partiu a primeira pedra atirada no então ministro da Fazenda, Antônio Palocci. E o alvo não era a moral do adversário, suas mentiras, farras nem o sigilo do caseiro. Mas a política de infalível rigidez fiscal que ministrava — a mesma que curiosamente produzia as bases do crescimento responsável pelas gordas taxas de aprovação do presidente da República. 

A dama-de-ferro, mal comparando, talhou com o bisturi a de suas velhas ideias a bela face que se exibia orgulhosa na grande economia. 

E na política… 
Seria Dilma, portanto, a idealizadora de um plano que fracassou? Será ela a capitã do navio petista rumo a um projeto fadado ao naufrágio, já que todo o cenário em que ele foi construído mudou radicalmente? 

Não se pode dizer com certeza que sim. Afinal, se as perspectivas viraram tão rapidamente para um lado, é possível que o façam com a mesma velocidade no sentido contrário, o que traria tudo ao curso normal, digamos assim. 

Mas uma coisa é certa: a mera existência da dúvida inflama a política, tanto dentro, quanto fora do PT. 

Dilma é filiada ao partido, mas não se pode dizer que seja uma liderança partidária. Era, na verdade, do PDT. A transição é bem mais recente do que gostariam muitos dos petistas mais antigos. Daí nutrem-se os opositores de sua candidatura presidencial no âmbito interno. 

Por outro lado, se a economia não estiver se locomovendo a plenos pulmões, como fez até setembro passado, a probabilidade de sucesso do candidato oficial será sensivelmente menor em 2010. Os partidos aliados sabem disso. E todo brasileiro, vivo ou morto, também sabe que é a expectativa de poder o agente aglutinador de 90% das alianças política no país. Portanto, a ministra estará sozinha se o PAC não puser o Brasil onde ela prometeu que estaria. 

E no PAC, a exemplo das ideias da ministra, ainda não dá para fazer cirurgia plástica.

FERNANDO RODRIGUES

O mérito do recuo


Folha de S. Paulo - 14/01/2009
 

Quando um político recua e desmancha um erro, há motivos para festejar. Ontem foi um desses dias raros, pois Brasília conseguiu produzir algo positivo. 
A Mesa Diretora da Câmara dos Deputados anulou uma bobagem praticada na semana anterior. Cancelou a gratificação de até R$ 1.800 para os funcionários com cargos de chefia. Também ficou, por ora, abandonada a possibilidade exótica de tentar criar um plano de saúde para 12 mil famílias de servidores sem gastar nada. 
Se houver má vontade, enxerga-se timidez excessiva na nota emitida pelos deputados sob o comando do presidente da Casa, Arlindo Chinaglia. Em vez de simplesmente dizer "erramos", o texto lista várias desculpas esfarrapadas. Nessas horas, quanto mais se fala, pior é. No caso do plano de saúde "gratuito", por exemplo, os deputados dizem estar agora interessados em voltar ao tema quando houver uma "proposta fundada em números". Por analogia, conclui-se que na semana passada as excelências tomaram a decisão sem ter uma proposta em mãos. 
Mas, mesmo envergonhado, o recuo dos deputados é positivo. Apesar da verborragia, ficou para as calendas o tal plano de saúde com ou sem a "proposta fundada em números". Esse é o resultado mais relevante: anulou-se um erro. 
O caso também é exemplar para mostrar o pior e o melhor do Congresso. Os deputados são capazes de adotar medidas estapafúrdias numa semana. Na outra, depois de pressionados, voltam atrás. A Câmara é o poder mais devassado do país. Não há na República órgão mais investigado. O Senado fica muito atrás, por sua tradição hermética. O Executivo e o Judiciário estão a léguas de distância quando o assunto é transparência. 
Admitir um erro é doloroso. A Câmara, sempre criticada neste espaço, desta vez acertou ao recuar. 

KÁTIA ABREU

Lembrai-vos de 1943!


O Estado de S. Paulo - 14/01/2009
 
Há seis meses - quando todos supunham estar no céu, salvos e gloriosos, com a bolsa em alta, e todos os indicadores que empolgam o orgulho nacional, como a indústria automobilística, batendo seus próprios recordes, etc., etc. e tal - não havia crise. Mas um setor pouco estimado lastreava de realidade esses bons tempos: a agropecuária.

Como era impossível desconhecê-la - posto que gerava 36% das exportações, o ponto mais relevante e visível do bom desempenho da economia -, apelou-se para o neologismo "agronegócio" como álibi para não revisar os preconceitos, caricaturas, grosserias e, principalmente, infâmias gerados por campanhas ideológicas que estigmatizam os produtores rurais ou ruralistas, setor agrícola ou mesmo agronegócio, como queiram. O importante é identificar o setor da economia que gera 24% do produto interno bruto (PIB) e oferece, por meio de seu l milhão de estabelecimentos, grandes, médios e pequenos, 37% das vagas de trabalho no Brasil.

Foi ainda nesse tempo bonança que começamos a refletir sobre um programa de institucionalização do setor a partir do binômio Afirmação & Ruptura, em que agora nos empenhamos como um programa de profunda revisão das relações do setor rural com a sociedade brasileira. O objetivo é ao mesmo tempo definir o que somos (de onde viemos e para onde vamos, realisticamente) e repelir, refutar, desmentir, desmoralizar, desfazer a enorme e insuportável carga de conceitos e ideias que não correspondem à nossa verdade.

E um dos primeiros temas - o primeiro, de fato - foi a questão dos trabalhadores da agropecuária.

Partindo do princípio de que o trabalhador rural é protegido pela lei de forma irrenunciável - ou seja, é a sociedade que lhe assegura direitos, independentemente da sua própria vontade -, ele não é escravo, empregado de segunda categoria ou diferenciado, mas reconhecido pela Constituição como qualquer outro trabalhador brasileiro.

Apresentou-se, então, a questão das denúncias sobre trabalho escravo. Mergulhamos seriamente no tema para compreender os episódios descritos.

A evolução desigual da atividade agrícola no Brasil resultou em lamentável e inquestionável defasagem entre os produtores, seja regionalmente, marginalizando e isolando as regiões remotas, seja em função das culturas cujo processo produtivo evoluiu extraordinariamente em algumas áreas e em outras estacionou. Não se inserindo, por exemplo, na dinâmica produtiva do agronegócio. Sem que se possa justificar ou tolerar, verificaram-se concretamente casos de negligência e desrespeito às regras trabalhistas, pronta e legalmente registradas, denunciadas. Não importa que tenham sido casos isolados, resultado de ignorância e descuido, embora não seja possível, por esses motivos, apelar para qualquer contemporização que estimule o desrespeito à lei. Esta é a nossa afirmação: os produtores rurais defendem intransigentemente a realidade e o respeito à lei. O princípio da legalidade democrática, primeiro e principal compromisso do empresário rural brasileiro.

Passemos, então, à ruptura. Temos de nos livrar não apenas da carapuça do trabalho escravo - que nos jogam na expectativa de que assumamos a ilegalidade e nos comprometamos, pela solidariedade. Mas não podemos deixar de resgatar os que incidiram no erro por atraso ou despreparo. Sindicatos rurais do País inteiro - sob a liderança da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) - estão organizando equipes multidisciplinares que irão de propriedade em propriedade treinando e atualizando os produtores para que não apenas se adaptem exemplarmente à legislação - no que não fazem nenhum favor, pois são obrigados a cumpri-la -, mas atinjam a excelência nas relações com seus empregados. Para nos tornarmos um eficaz observatório das desproteções sociais que afligem os trabalhadores rurais, vítimas dos vazios institucionais que os privam dos serviços de educação, saúde, cultura, lazer disponíveis, não importa como, mas pelo menos existentes, nas cidades.

Na verdade, trata-se de boa oportunidade para discutir um episódio importante da história da agropecuária brasileira. Aconteceu em 1943, quando a demagogia e o populismo excluíram os trabalhadores rurais da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). A exclusão criminosa foi oferecida como consolação aos produtores rurais pelo tabelamento irreal dos produtos agrícolas. Por mais dramático e difícil que fosse a adaptação, o princípio da equiparação universal dos direitos do trabalhador não poderia ter sido desdenhado. Muito menos a atividade econômica da agricultura poderia prosperar, engessada, para garantir a estabilidade dos preços dos alimentos. Correram juntos o processo institucional de desvalorização perversa do trabalhador do campo e a marginalização econômica do produtor rural.

Passaram-se 45 anos até que a Constituição de 88 eliminasse irreversivelmente a diferença. O troca-troca imoral ostensivamente consagrado pela CLT desafiava a condição humana - por que o tratamento diferenciado entre trabalhadores urbanos e rurais? - e a teoria econômica, como se fosse possível uma atividade produtiva (francamente inserida no mercado) levitar sem poder reajustar preços conforme seus custos. Ou seja, negaram-se aos produtores rurais os suportes concedidos à indústria. Até hoje prevalecem sequelas dessa diferença de tratamento. 

Querem um bom exemplo?

Com a queda dos preços das commodities - que envolve os principais itens da produção agropecuária do País e deve chegar a até 23%, em dólar -, é estarrecedor que a sorte dos empregos no campo não esteja recebendo a mesma atenção que é dada, por exemplo, aos trabalhadores da indústria automobilística e outras.

ÉLIO GASPARI

Obama não é Roosevelt, nem Lincoln


O Globo - 14/01/2009
 

Daqui a uma semana o companheiro Barack Obama estará na Presidência dos Estados Unidos. Sua chegada será uma festa. No mínimo ela significa a partida de George Bush. Noves fora isso, pela primeira vez na vida, ele precisará mostrar a que veio. Terá que abrir a quitanda todas as manhãs com mercadoria para vender e troco para dar à freguesia. 

A posse do companheiro será a primeira grande celebração do século. Ele prestará o juramento constitucional com a mão sobre a Bíblia de Abraham Lincoln e fará um discurso memorável, mas a quitanda continuará lá: Casa Branca, Pennsylvania Avenue, 1.600. 

Por maiores que sejam as expectativas (digamos torcida), Obama surfou os últimos meses sem colocar uma só ideia no pano verde. 

Compreensivelmente, especula-se o início de seu governo olhando-se para o retrovisor. A crise econômica chama o exemplo de Franklin Roosevelt e algumas atitudes de Obama, como a nomeação da rival Hillary Clinton para a Secretaria de Estado, alimentam paralelos com Abraham Lincoln. A primeira semelhança embute o desejo de que a liderança de Obama tire os Estados Unidos da crise. Infelizmente, ela se baseia num entendimento rudimentar das virtudes de Roosevelt. A associação com Lincoln, estimulada por seus marqueteiros, é um benevolente disparate. 

Roosevelt assumiu a Presidência em 1932 com a economia americana em estado de dissolução. A recessão estava no terceiro ano, a taxa de desemprego encostara nos 20% (10 milhões de trabalhadores), cinco mil bancos haviam quebrado e os demais tinham fechado as portas ou limitado os saques. Quando ele morreu, em 1945, a Depressão era coisa do passado e os Estados Unidos detinham metade da riqueza do mundo. 

Quem reativou a economia americana não foi o new deal (grafado em letras minúsculas antes de se tornar um plano de governo), mas a Segunda Guerra Mundial, que levou o país ao pleno emprego. O legado do New Deal não foi a reorganização da economia, mas algo muito maior: a reorganização da sociedade, com a criação de um capitalismo capaz de trazer a patuléia para dentro do sistema. 

As propostas de incentivo econômico oferecidas por Barack Obama podem levar a uma recuperação, mas para que o paralelo com Roosevelt feche o círculo fica faltando a guerra. Em benefício do companheiro, ele se assemelhou a Roosevelt quando rebarbou a reunião do G-20 de Bush dizendo que "os Estados Unidos têm um presidente de cada vez". 

O paralelo com Lincoln é uma extravagância. Obama, como ele, fez política no Illinois e chegou à Casa Branca com a simples experiência de senador. E só. A crise de Obama é econômica. A de Lincoln era política. Ele assumiu com sete estados rebelados, achando que acomodava a encrenca. Foi o maior presidente da História americana porque decidiu preservar a União. Tentou conter a secessão do Sul com generais de parada e só achou o caminho de casa quando chamou dois matadores: Ulysses Grant, a quem Mary Lincoln, sua mulher, chamava de "açougueiro", e William Sherman, que explicava: "A guerra é o inferno." 

A partir de quarta-feira, Obama terá de abrir a quitanda e, antes de ser Roosevelt, terá de batalhar para não ser Herbert Hoover. Em 1928, quando ele assumiu, era o homem mais respeitado dos Estados Unidos. 

Na crise, denunciou a "orgia de louca especulação", mas foi destruído por ela.