segunda-feira, setembro 08, 2014

A vida e nosso tempo - FABIO GIAMBIAGI

O GLOBO - 08/09


Vivemos em um país onde o Executivo não executa, o Legislativo não legisla e a Justiça não julga. O Brasil clama por reformas. Não podemos continuar a perder tempo


Nasci em 1962 e tenho 52 anos. Creio que o espírito do que vou expressar é representativo de uma parte da geração que vai dos 40 aos 70 anos e que acompanha de perto os problemas do país. Por que essa faixa etária? Porque antes dos 40 o tempo tende a ser visto como infinito na vida do jovem. Já depois dos 70, são poucos os que contarão ainda 20 ou 25 anos de caminhada pela frente. O grupo etário entre 40 e 70 anos representava 19% da população em 1980 e hoje é de 30%. Trata-se de um contingente expressivo.

Sendo filho dos anos 60, vivenciei alguns momentos importantes e esperançosos da vida nacional: a luta pela anistia no fim dos anos 70 e a expectativa pelo retorno dos exilados; a campanha pelas eleições diretas em 1984 e a consequente eleição de Tancredo no Colégio Eleitoral, pondo fim ao ciclo de mais de 20 anos de governos militares; as passeatas pelo impeachment de Collor em 1992; e os primeiros passos da estabilização em meados dos anos 90. Finalmente, acompanhei com interesse cívico a eleição de Lula em 2002 e o processo político-social da década passada, caracterizado como uma etapa de inclusão social e que explica a elevada popularidade com que ele concluiu sua gestão em 2010.

Cada uma dessas etapas da vida do país testemunhou avanços: com a anistia e o retorno dos exilados, encerrou-se uma etapa de segregação entre brasileiros; o fim do regime militar distendeu a vida do país e em 1989 levou à retomada das eleições diretas para presidente depois de quase 30 anos; os eventos políticos de 1992, conquanto expressassem um arrependimento amargo da maioria da população em relação ao voto que tinha dado pouco antes, foram sinal de vitalidade e de vigência plena das instituições; a estabilidade implicou deixar atrás a hiperinflação que corroía a auto-estima nacional, além de ser um transtorno na vida de todos; e o Brasil atual é um país socialmente melhor e mais justo que o do começo da década passada.

Apesar de tudo isso, para quem chega à meia-idade e acompanha as mazelas da realidade nacional desde que começou a ficar antenado para a realidade — no meu caso, nos tempos de Geisel — o sentimento de angústia pelo avanço do tempo é a cada dia mais nítido. Não falo de angústia aqui no sentido existencial, pela consciência individual de que o fim da caminhada de cada um vai se aproximando — falo da mistura de tristeza, desconforto e exasperação pela percepção de que nosso tempo vai se esgotando, sem que nos tenha sido dada a chance de conhecer o país com o qual todos sonhamos em nossa juventude. É então que o sentimento de urgência se torna mais palpável. E é aqui, justamente, que o contraste entre essa percepção individual e a ausência total e absoluta de qualquer sentimento de urgência na classe dirigente do país se torna mais dramática para quem compartilha essa idade e foi partícipe daqueles movimentos que antes citei.

Nesse contexto — e não falo isso para expor meu caso pessoal e sim porque considero representar um ânimo difuso e compartilhado, provavelmente, por muitos leitores — lembro-me de conversas, por vezes intensas, com meu falecido pai, nos anos 80, quando eu começava a perceber que mudar o mundo e o Brasil não era tão simples. Naquela ocasião, nos primórdios da minha vida cívica, eu com 20 e poucos anos e ele a caminho dos 60, quando discutíamos sobre o Brasil, eu era otimista pela possibilidade de chegar a ver um país desenvolvido, 30 anos depois. Tive que envelhecer para, retrospectivamente, entender o motivo da irritação do meu pai com aquele raciocínio: é que ele, simplesmente, não dispunha de mais 30 anos pela frente para esperar esse dia chegar. Hoje, o sentimento que me acomete é o mesmo: o tempo está passando — e o Brasil com o qual minha geração sonhou está demorando a chegar.

Costumo dizer em minhas palestras que o Brasil avançou muito nos últimos 20 anos, mas continua sendo um país que não funciona bem. Por quê? Em poucas palavras, porque vivemos em um país onde o Executivo não executa, o Legislativo não legisla e a Justiça não julga. O Brasil clama por reformas. Não podemos continuar a perder tempo e a protelar a solução dos problemas. Seria bom que os candidatos à Presidência tomassem ciência disso.

Vista grossa - VALDO CRUZ

FOLHA DE SP - 08/09


BRASÍLIA - De como funcionava o esquema, pelo visto, ela não sabia. De detalhes, também não. Mas ela sabia que a pedra preciosa de seu governo estava sendo dilapidada por grupos nada republicanos.

Sua margem de manobra, contudo, era estreita no início de seu mandato. Tanto que, a princípio, deixou tudo como havia herdado de seu antecessor e criador. Aos poucos, porém, fez uma limpeza na área.

Não por outro motivo virou alvo da ira de petistas e peemedebistas, acostumados com as benesses milionárias da Petrobras, símbolo da política de Estado forte na economia da presidente Dilma Rousseff.

Daí que ninguém no Palácio do Planalto pode se dizer surpreendido com as revelações da delação premiada do ex-diretor da estatal Paulo Roberto da Costa. Talvez com sua magnitude e nomes envolvidos.

Por que, então, o governo Dilma não mandou fazer uma auditoria geral na empresa? Um amigo responde: a ela nunca chegou denúncia de um esquema concreto, mas a presidente fez o que estava a seu alcance. Mudou toda diretoria.

Um empresário diz que ela fez mais. Contratos suspeitos foram revistos e tiveram valores reduzidos. Por que não foram investigados? Aí a resposta talvez esteja nos compromissos entre criador e criatura.

Pessoalmente, o risco de envolvimento da presidente Dilma com o esquema é inexistente. Sua conduta foi no sentido contrário. Fica a dúvida se a petista não fez vista grossa diante de negócios bem suspeitos.

Tal questão será explorada na eleição. Potencial para causar estragos na candidatura petista ela tem. Dilma mandava na Petrobras --como ministra da Casa Civil e, depois, como presidente da República.

Enfim, as negociatas na Petrobras eram um escândalo à espera de um delator. Seus sócios confiavam que nenhum louco estouraria esquema tão rentável, mas surgiu um preso sem vocação para virar um novo Marcos Valério no país.

A velha cultura da nova política - MARTINIANO BORGES

CORREIO BRAZILIENSE - 08/09

O "sonhatismo marinístico", termo recém-criado para designar a vitória dos bons sobre o apocalipse, interpreta a vida como um cosmos que se despedaça e definha não apenas no campo ecológico mas, acima de tudo, no campo da metafísica, da cultura, das raízes mais profundas da existência social. Sua sacerdotisa refere-se à nossa medíocre conjuntura política como um problema de, pasmem, "crise civilizatória". Ao ressoar das trombetas, o povo desolado só encontrará razão para viver na consumação da "nova política".

Sobre o significado dessa nova política, muito já foi falado - por uma única pessoa - e muito pouco entendido. A interpretação, como de praxe, cabe ao ouvinte-eleitor que, por boa vontade ou desespero, busca se reencantar pelo brilho melódico do chavão "mudança" que tudo abarca e com nada se compromete. 

Dizer o que não se pode classificar para que signifique qualquer coisa, criticar "tudo o que está aí" como ranço de um passado torpe, apontar que algo precisa ser feito sem nunca responder ao empobrecedor "como" e, sobretudo, denunciar polarizações e propagandear-se como a única possibilidade de unir o Brasil é o método em vigor. Estratégia tão copiada por todos que, na história brasileira, reivindicaram a condição de "salvador da pátria".

Como uma arapuca, a nova política é a porta que se abre para o que há de mais atrasado na cultura política brasileira. A aparência de novo camufla o arcaico e esconde a armadilha. É o governo do predestinado, daquele que se encontra acima do bem e do mal. É o governo do messias que, favorecido pela fortuna, projeta encarnar-se numa candidatura todas as virtudes sacrificiais do amor ágape, do politicamente correto e a única ética digna de ser chamada de boa. Esse é o discurso consagrado de todo messias brasileiro. Nossa história é repleta de acontecimentos trágicos que hoje renovam o repertório em forma farsesca.

Arisca e fugidia, a candidata ganhou o benefício da ingenuidade popular. Ao abdicar o uso da lógica prática, só recebeu a condescendência embasbacada. Ao ser questionada sobre como se definiria dentro do espectro político, bradou: "Eu não sou nem de esquerda nem de direita, mas, sim, para a frente!". Seu projeto não poderia se enquadrar em qualquer definição utilizada por terráqueos no reino da realidade. Marina finge que explicou e o interlocutor finge que entendeu. 

Não bastasse o discurso de tonalidade messiânica que a candidata sempre postulou, somado à negativa de submeter-se ao debate nos termos usados por gente de carne e osso, mais a estratégia de tratar da vida sublime para não ser obrigada a lidar com esta, as características mais nefastas de seu messianismo ganharam materialidade na trágica queda do avião de Eduardo Campos. Para uma cultura política condicionada a revelar salvadores da pátria, a mitificação da sucessora foi automática.

O eixo do programa marinista messiânico baseia-se na formação de uma massa de eleitores que se entregue a um plano que não existe e não existirá fora do campo do discurso. Em um possível governo, após ligar o piloto automático, aquilo que acontecer será tido como obra da visionária. O que der errado, caracterizará incompetência do povo, que insiste em viver na velha política. Será o governo dos "novos" contra os "velhos". Dos bons contra os maus. Qual demagogo ou populista também não utilizou as mesmas categorias?

Um governo de bons é o governo de moral inquestionável. No panteão dos bons, a ética terá endereço certo: habitará no Estado sonhático, que não apenas terá a responsabilidade de uso legitimo da força mas, principalmente, o uso exclusivo da ética. Só a salvadora da pátria terá o seu monopólio. O messianismo que propõe a nova política como projeto de superioridade moral e ética, no fundo, esconde seu real engodo: o de politizar a ética.

Perguntas impertinentes DENIS LERRER ROSENFIELD

O ESTADO DE S.PAULO - 08/09


Marina Silva já está colocada como alternativa efetiva de poder. Suas ideias, porém, têm se caracterizado por extrema generalidade, como se a prática de governar não exigisse atitudes concretas e bem orientadas. Ela oscila entre um liberalismo do ponto de vista da política econômico-financeira e posições de convicção anticapitalista, atentando contra o direito de propriedade, passando por hesitações entre posturas conservadores ou ditas progressistas em relação aos costumes.

Apesar disso, vem usufruindo extrema complacência de certos setores de jornalistas e formadores de opinião, como se fosse uma desconhecida que apenas agora deveria apresentar suas ideias. Outros ainda falam de sua inexperiência, quando há toda uma experiência dela envolvida, realizada quando de sua passagem pelo Ministério do Meio Ambiente (2003-2008) e como senadora (1994-2002). É aí precisamente que devermos buscar suas ideias, que contrastam com atitude recente, como quando disse, sem ruborizar, no Jornal Nacional que nunca foi contra os transgênicos. Basta consultar os jornais da época para expor a falsidade de tal afirmação.

Se for coerente com suas ideias, há vários setores econômicos que serão prejudicados: agricultura, pecuária, agronegócio, mineração, construção civil, shopping centers, hotelaria em zonas rurais e litorâneas, estradas e rodovias, hidrelétricas e empresas de energia em geral, empresas de transgênicos, de tabaco e sua cadeia de agricultura familiar de cultivo, armas e munições e bebidas alcoólicas em geral. O impacto econômico dessas ideias pode ser grande, em todo distinto de suas posições "liberais". Seria um liberalismo sustentado pela relativização do direito de propriedade! Vejamos alguns desses pontos.

Movimentos sociais - Marina Silva é egressa desses movimentos, que apoia, compartilhando os mesmos princípios. Sua posição, neste quesito, é anticapitalista. Sustentou no passado as invasões do MST, sendo firme partidária do que essa organização política entende como "reforma agrária". Isso significa que, caso vença a eleição, voltam à pauta a questão dos índices de produtividade, como já foi anunciado em seu programa de governo, e a desapropriação de imóveis rurais, praticamente parada nestes anos de governo Dilma. Note-se que no atual governo a ênfase foi corretamente posta na qualificação dos assentamentos da reforma agrária e em soluções negociadas de conflitos. Ainda no tocante aos movimentos sociais, considera a candidata apoiar o MTST, cuja política é voltada para o "acúmulo de forças" na luta contra o capitalismo, como reconhece seu líder, na sua cruzada contra a economia de mercado e o direito de propriedade? As invasões de propriedades urbanas seriam "justificadas"?

Código Florestal - Marina foi e continua sendo fervorosa adversária do novo código. Tudo fez, com apoio de ONGs nacionais e internacionais, para que não fosse aprovado. Consumada a aprovação, considera-o um retrocesso que deveria ser corrigido. Logo, se eleita presidente, passaria a rever a nova legislação, apregoando uma volta ao passado, com todas as suas restrições e limitações? As ONGs, então, voltariam com toda a força, resgatando o poder que tiveram quando ela esteve à frente do Ministério do Meio Ambiente? Convém lembrar que seus auxiliares mais diretos e influentes foram recrutados em ONGs, nacionais e internacionais. A situação, caso eleita, se repetirá?

Questão indígena - Marina Silva é firme partidária da atual política indigenista conduzida pela Funai, com forte viés anticapitalista e profundo desrespeito ao direito de propriedade. Esse órgão não hesita em ir contra o Estado Democrático de Direito, tampouco segue a jurisprudência estabelecida pelo Supremo Tribunal Federal quando do julgamento do caso da Raposa-Serra do Sol. Marina presidente só faria, então, intensificar essa orientação, com a multiplicação de invasões no País e a expropriação de terras? (Desapropriações indígenas não pagam pela terra nua, só pelas benfeitorias.) É favorável a que a Funai permaneça como está, uma espécie de Estado dentro do Estado?

Energia - A candidata já se manifestou inúmeras vezes contra a construção de usinas hidrelétricas na Amazônia, vitais para o desenvolvimento do País. Belo Monte tornou-se um símbolo desses confrontos. Qual a sua posição agora? Deve esse empreendimento parar, obedecendo às injunções de movimentos sociais e ONGs ambientalistas e indigenistas? Outras usinas seriam construídas na região?

Ciência e transgenia - Quando ministra do Meio Ambiente, a candidata foi inimiga dos transgênicos, advogando por sua não produção e comercialização, até se opondo à pesquisa, na CTNBio. Frise-se: contra a pesquisa, independentemente de sua comercialização. Sua posição era claramente contra a ciência. E tudo o que se refere à transgenia foi demonizado. Defendia-se dizendo ser favorável ao princípio da precaução, quando se tratava de nada mais que uma justificativa baseada no princípio da inação. Se foi favorável a algo, consistiu na multiplicação de trâmites burocráticos que terminariam tornando inviável qualquer investimento.

Campanha - Na campanha política de Marina, assim como no estatuto de sua Rede, há uma interdição ao apoio financeiro de empresas de tabaco, armas e munições e bebidas alcoólicas. Logo, se eleita, tudo faria para restringir legal e comercialmente (via impostos) a atividade de empresas desses setores? Convém lembrar que são setores com ampla cadeia produtiva, de forma que o impacto sobre eles se disseminaria para vasta gama de outros setores, da produção à comercialização. Ademais, são atividades econômicas legais, constitucionalmente reconhecidas. O que, então, têm de "sujo", como se as doações pudessem manchar sua candidatura?

Crise de confiança - PAULO GUEDES

O GLOBO - 08/09

O escândalo da Petrobras revela o desvirtuamento das empresas estatais e aumenta a indignação com a velha política
A confissão da roubalheira na Petrobras é mais uma contundente evidência da vergonhosa degeneração de nossas práticas políticas. A delação de importantes lideranças políticas, grandes empreiteiros e partidos da base de sustentação do governo que estariam envolvidos em bilionário esquema de corrupção é uma bomba eleitoral a atingir a candidatura de Dilma Rousseff. "É um novo Mensalão. Estamos disputando estas eleições contra um grupo que usa o dinheiro sujo da corrupção e assalta nossas empresas públicas para se manter no poder", acusa o candidato Aécio Neves.
Há uma enorme crise de confiança no establishment. Essa crise se desdobra em duas dimensões. A primeira é a dimensão política, a perda de confiança e a indignação com as práticas de governabilidade que alimentam uma interminável sucessão de escândalos. O Supremo tribunal Federal, sob a presidência de Lewandovski, afirmará nesta crise da Petrobras a independência do Judiciário exercida por Joaquim Barbosa no episódio do Mensalão? A indignação dos eleitores com a velha política derrubará um establishment que perdeu a decência no trato da coisa pública, buscando a regeneração pelas urnas? 
A segunda dimensão desta enorme crise de confiança já se instalou há tempos na economia. A ponto de o candidato tucano ter indicado antecipadamente Armínio Fraga como seu futuro superministro da área econômica. O que levou Dilma a garantir a não permanência de Guido Mantega. Marina Silva, ainda surfando na onda de desconfiança na velha política, não precisou se comprometer com nomes específicos, mas teve de assegurar a estabilidade monetária, a responsabilidade fiscal e a flutuação cambial.

Em meados do ano passado, em meio à inflação elevada e ao baixo crescimento, examinei um corolário da insatisfação dos eleitores de uma sociedade aberta com a perspectiva de anos de estagflação: "Ou a equipe econômica muda sua política, ou a presidente muda a equipe, ou o país vai mudar de presidente." O escândalo da Petrobras agudiza a crise de confiança na velha política. Agrava também a crise de confiança na economia ao revelar o desvirtuamento da atuação das empresas estatais. Malfeitos nas dimensões da ética e da economia podem derrubar as intenções de voto em Dilma nesta reta final.

Dispendiosa caixa-preta - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 08/09


Já virou tediosa — não por desimportante, mas pelo renitente descaso do lulopetismo com a coerência de ideias defendidas antes da chegada ao poder — a discussão sobre o abandono de princípios defendidos pelo PT quando o partido, e suas bases aliadas, eram contra “tudo isso que aí está”. Nesse bolo entravam, por exemplo, o bombardeio contra a CPMF, críticas à voracidade do sistema tributário e à preservação, na estrutura trabalhista do país, de um emaranhado de dispositivos herdados do getulismo. Neste caso, a legislação que sobreviveu a seu criador e às conjunturas que a engendraram — inclusive à ditadura militar de 64, deflagrada, entre outras justificativas, para livrar o país do “perigo da implantação de uma república sindicalista”.

Nessa revisão programática, a CPMF, de combatida, virou tábua de salvação no primeiro mandato de Lula, a ponto de as gestões para sua extinção terem sido tachadas, por PT e aliados, de golpe contra as finanças do país. Também assim se deu com a oposição a dispositivos anacrônicos, criados pelo Estado Novo ou nele inspirados — caso do chamado Sistema S, uma hipertrofiada rede de siglas, 11 no total, abastecida por dinheiro público e por deduções legais nas folhas de pagamento do comércio, da indústria e de atividades rurais. Entre as mais conhecidas entidades nele reunidas estão o Sesi, o Sesc e o Senai.

Estima-se que, por ano, abasteçam o caixa desse sistema algo em torno de R$ 15 bilhões — quantia que, por si só, a exemplo do imposto sindical, outrora combatido, e hoje “cláusula pétrea” na legislação abençoada pelo lulopetismo, explica a ferrenha defesa que dele fazem os aliados do Planalto. Afinal, de combativo adversário dessa eficaz máquina arrecadadora, o PT no governo passou a guardião da chave do cofre. E tem sido generoso ao girá-la em favor dos companheiros.

Tanto é assim que o Sistema S tem sido alvo de denúncias de malversação de recursos, corrupção, apadrinhamento, contratação de parentes de amigos do poder e pagamento de altos salários a companheiros petistas. Recente reportagem da revista “Época”, por exemplo, afirma que a Controladoria Geral da UNião (CGU) detectou alguns desses “malfeitos” na gestão do Serviço Social da Indústria (Sesi). Entre as irregularidades, fruto do aparelhamento da sigla, estão a contratação de funcionários que recebem sem trabalhar, aí incluídas uma nora do ex-presidente Lula e a mulher do ex-deputado e mensaleiro João Paulo Cunha.

Também engordam o prontuário do sistema denúncias de superfaturamento na compra de imóveis — um deles, a aquisição de uma propriedade em Mato Grosso, pela qual o Sesc pagou dez vezes o valor de mercado. Isso sem contar a presença, desde o primeiro mandato de Lula, do ex-deputado e ex-líder sindicalista Jair Meneguelli na cadeira de presidente do Sesi, e de uma sindicalista amiga do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares na folha de pagamento do órgão. São fatos que, a par da discussão sobre seu papel, põem em xeque o Sistema S, uma caixa-preta que precisa ser aberta e um penduricalho no custo das empresas, com bons propósitos, mas impenetrável para a sociedade.

O SAQUE DA PETROBRAS - EDITORIAL ZERO HORA

ZER0 HORA - 08/09


Alvo de duas ações penais por corrupção e uma outra por destruição de documentos, o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa denunciou à Polícia Federal e ao Ministério Público a participação de três governadores, um ministro, seis senadores e pelo menos 25 deputados federais num esquema de recebimento de propinas subtraídas dos cofres da estatal. As revelações fazem parte de um acordo de delação premiada proposto por Costa para reduzir sua pena, o que ainda depende de aprovação do Supremo Tribunal Federal. Mas as informações já conhecidas, embora ainda carentes de comprovação, têm potencial para se transformar num escândalo sem precedentes, com impacto direto na campanha eleitoral em andamento.

Conforme a denúncia, grandes empreiteiras do país formaram um cartel dentro da Petrobras, pelo qual compartilhavam contratos milionários e repassavam o equivalente a 3% de comissão aos políticos e a seus partidos _ todos integrantes da base aliada do governo. Costa ocupou a diretoria de Abastecimento da estatal de 2004 a 2012 e foi preso por facilitar negócios para o doleiro Alberto Youssef, que também está na cadeia desde março último, sob a acusação de comandar um esquema de lavagem de dinheiro que movimentou cerca de R$ 10 bilhões em quatro anos, com ramificações na Petrobras, no Ministério da Saúde e nos partidos políticos.

A roubalheira existe, não é invenção do marketing político destinado a causar prejuízos eleitorais aos denunciados. Foi descoberta pela Polícia Federal, a partir de uma investigação de lavagem de dinheiro e evasão de divisas no Paraná, que acabou se estendendo a outros Estados na chamada operação Lava Jato. Lamentavelmente, confirma o saque à maior empresa estatal do país, que já vinha sofrendo desgaste por causa da má gestão e, principalmente, por causa do prejuízo de US$ 792 milhões decorrentes da equivocada compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos _ operação que, segundo o delator, também envolveu pagamento de propinas.

Diante do novo escândalo, justifica-se plenamente o pedido da oposição para que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga a Petrobras convoque o ex-diretor denunciante, a fim de que detalhe o nome dos beneficiados pelo esquema de corrupção, o que se recusou a fazer em depoimento anterior. Mais do que isso, é impositivo que o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Superior Eleitoral também se pronunciem sobre a delação premiada e sobre os políticos suspeitos, pois a população brasileira precisa de respostas rápidas no momento em que se prepara para eleger novos governantes e parlamentares.

A corrupção na eleição da Ficha Limpa - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 08/09
Em menos de um mês, o Brasil realizará as primeiras eleições gerais sob a vigência da Lei da Ficha Limpa. Mas a questão é: até que ponto o eleitor está tranquilo de que esse será um pleito limpo, à parte a lisura do processo em si, com a votação e a apuração dos votos há anos conduzidas sob extremo controle pela Justiça Eleitoral do país? 
As dúvidas já começam pela articulação das alianças, com os tantos interesses em jogo, incluindo a distribuição do tempo de propaganda no rádio e na tevê. Seguem com a arrecadação de verbas e a prestação de contas das campanhas, portas de entrada da corrupção, de controle praticamente fictício. Basta ver a quantidade de casos de desvios apurados em operações anticorrupção executadas pela Polícia Federal. 

Conhecido o resultado das urnas, a montagem dos governos, com a livre nomeação de cargos comissionados, é outro problema histórico. E por aí vai, numa escalada sem fim, enquanto o Brasil galga vergonhosos degraus no ranking da ONG Transparência Internacional, que mede a percepção da corrupção em 177 países. Ali figuramos no 72º lugar entre as nações menos corruptas.

Essa triste história tem outros capítulos igualmente vexaminosos. Um exemplo é o fato de a Câmara dos Deputados dar as costas à questão. Segundo o coordenador da Frente Parlamentar de Combate à Corrupção, deputado Francisco Praciano (PT-AM), há seis anos o plenário da Casa não vota um só projeto ligado ao tema. E nada menos do que 141 proposições estão em tramitação, 20 delas há mais de uma década -  uma desde 1990. 

Ressalve-se que lei anticorrupção sancionada um ano atrás pela presidente Dilma Rousseff, prevendo pena para pessoas jurídicas envolvidas em ilícitos com a administração pública, foi iniciativa não do Legislativo, mas do próprio Executivo, proposta pela Controladoria-Geral da União. Mais: continua pendente de regulamentação. E também a Lei da Ficha Limpa nasceu fora do Congresso Nacional, como proposição da sociedade civil, elaborada por um grupo de juristas e apresentada com a assinatura de 1,6 milhão de eleitores.

Não se tem a ingenuidade de imaginar que eficiente arcabouço legal bastará para acabar com a corrupção no Brasil. Há que ter condições também para que as instituições funcionem na direção de assegurar o pleno atendimento ao anseio de limpeza ética reclamado nos quatro cantos do país, ou seja, é preciso fazer valer a lei, fechando as brechas a desmoralizantes recursos judiciais que costumam torná-la letra morta.

A praga da corrupção faz mais do que tirar dinheiro da saúde, da educação, da segurança e dos transportes, para citar quatro áreas essenciais da administração pública, que mais de perto afligem os direitos do cidadão. Ela também violenta a iniciativa privada. Ao encarecer o investimento, com a propina acrescentada ao orçamento das obras, rouba a competitividade do empresariado, desestimula os negócios, reduz a oferta de empregos. O eleitor precisa, pois, estar muito consciente do voto que depositará nas urnas - do presidente da República ao deputado estadual ou distrital.

Adiamento de inspiração eleitoral - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 08/09

As razões técnicas alegadas pelo Ministério de Minas e Energia não são fortes o bastante para afastar a suspeita de que o adiamento, de 30 de setembro para 28 de novembro, do maior leilão de energia nova a ser realizado neste ano decorreu da crescente preocupação do governo com as chances de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Não parece ser mera questão técnica a marcação, para depois de conhecidos os resultados da eleição presidencial (em 5 de outubro, em primeiro turno; e em 26 de outubro, se necessário o segundo turno), do leilão em que os participantes do mercado de energia tenderão a demonstrar a desconfiança criada pelas imensas falhas do programa de energia do atual governo. Caso se mantivesse a data original, a comprovação, às vésperas do primeiro turno da eleição, do fracasso do plano que tem sido uma das bandeiras da campanha de Dilma poderia ter impacto desastroso sobre as possibilidades eleitorais da candidata à reeleição - caso ela consiga preservá-las até lá.

O leilão adiado é da modalidade conhecida no mercado como A-5, por meio do qual se contrata com cinco anos de antecedência a energia elétrica a ser gerada por novos empreendimentos. Ou seja, desta vez será leiloada energia a ser fornecida a partir de 2019. Dessa forma, procura-se garantir a segurança necessária para empreendimentos de longo prazo de maturação, como uma usina hidrelétrica, bem como o fornecimento para os grandes consumidores. Por suas características, é um leilão que tende a mostrar a confiança, ou a desconfiança, no futuro do programa energético.

A principal explicação do governo para o adiamento é a possibilidade de, com o novo prazo, entrar no leilão a energia de hidrelétricas prestes a obter o licenciamento de construção, e que acrescentarão 460 megawatts (MW) de potência ao sistema gerador, além da energia de fonte eólica. Com esse argumento, o governo deixa claro, mais uma vez, que planeja mal suas diferentes ações no campo da energia.

Ao programar o leilão, o governo já deveria dispor dos elementos necessários para fixar seus limites e estabelecer suas regras. As diretrizes do leilão foram publicadas no dia 16 de abril. Pouco depois, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, anunciou que mais de mil projetos - totalizando 50.906 MW - se inscreveram, destacando-se termoelétricas a gás natural e usinas eólicas. Depois de tudo pronto, o governo agora fala em acrescentar novas hidrelétricas.

O interesse nas termoelétricas é justificável. Ele se deve à necessidade de assegurar fontes alternativas às hidrelétricas, cuja operação depende do regime de chuvas. A seca em importantes regiões produtoras colocou em risco a regularidade do abastecimento - e o racionamento de energia seria a última coisa que o governo Dilma desejaria neste ano eleitoral. Já as novas hidrelétricas previstas na nota em que o Ministério anunciou o adiamento do leilão pouco acrescentarão à oferta já conhecida.

Mas, muito além das razões técnicas, o que deve ter levado o governo a adiar o leilão de energia nova foi a situação crítica em que se encontra o setor energético - e que decorre justamente do modelo que a administração Dilma lhe impôs. Esse modelo, baseado na redução de tarifas, levou à crise financeira das empresas distribuidoras, obrigadas a comprar energia a preço de mercado - num período de pouca chuva, que forçou o acionamento de todas as usinas termoelétricas, cuja operação é bem mais cara do que a das hidrelétricas - e a fornecer ao consumidor a preços severamente contidos.

Na área de geração, os critérios para renovação das concessões impuseram pesadas perdas para as empresas que os aceitaram, sobretudo a Eletrobrás. Algumas, porém, não concordaram com as regras.

Novos problemas somaram-se a antigos - como atrasos em obras e investimentos nas áreas de geração e transmissão -, prejudicando ainda mais o setor. Quanto às tarifas, artificialmente contidas, já começam a ser corrigidas, como era previsível.

domingo, setembro 07, 2014

O 'verdadeiro' mensalão - JOÃO BOSCO RABELLO

O ESTADÃO - 07/09

A história política no Brasil não deixa dúvidas quanto aos danos eleitorais provocados por denúncias de corrupção, especialmente aquelas com elementos que lhes dotam de consistência, ainda que dependente de investigações mais aprofundadas.

Não só nas campanhas esse efeito se verifica. Atinge também governos já eleitos, com maior ou menor intensidade, durante ou após seus mandatos, como no impeachment de Fernando Collor e no mensalão, que enterrou o sonho de reeleição no primeiro turno acalentado pelo PT, para ficar nos exemplos recentes.

A campanha atual, já nos seus 30 dias finais, é alcançada pelas primeiras consequências de uma investigação sob condução judicial, que o governo tentou a todo custo, com êxito, sustar na instância parlamentar, obstruindo a CPI da Petrobrás.

As informações prestadas pelo ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa, sob o regime da delação premiada, tem potencial devastador e sua influência na eleição começa agora. O dano só poderá ser medido após conhecida a extensão de suas denúncias.

Pelo que já se sabe, o que Costa narra aos seus inquiridores é que a operação montada dentro da Petrobrás reproduz o mecanismo do mensalão, em volume bem maior, com os mesmos partidos da base governista - PT, PP e PMDB -, que tiveram dirigentes condenados e presos.

Por isso, nos meios políticos , o esquema da Petrobrás é tratado como uma extensão do mensalão, por reproduzir meios, fins e personagens envolvidos em desvios de recursos públicos para financiamento de campanhas e também para enriquecimento pessoal.

O processo do mensalão foi conduzido pelo ex-ministro Joaquim Barbosa com base em valores amplamente comprovados, o que reduziu significativamente o montante real desviado. Foi uma opção por trabalhar judicialmente com o que efetivamente se tinha e não com aquilo que se sabia, mas que demandaria mais tempo para materializar.

Por essa razão, o que desponta das investigações na Petrobrás, tem dimensão muito maior que o escândalo de compra de apoio parlamentar. Já vinha sendo chamado de "o verdadeiro mensalão" nos ambientes políticos da capital.

É bastante provável que o temido depoimento de Costa, finalmente iniciado, atinja em cheio a candidatura governista, ampliando o apoio à candidata do PSB, Marina Silva.

A menos que a menção do ex-diretor a Eduardo Campos se desdobre em revelações graves sobre o ex-governador, a partir da refinaria de Abreu e Lima.

A campanha, já influenciada pelo acidente aéreo de Campos, pode recomeçar pela segunda vez, para vertigem geral de partidos e candidatos.

O fato novo - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 07/09

Não podia ter chegado em pior momento para a presidente Dilma a bomba sobre o esquema de corrupção de políticos montado na Petrobras durante 8 anos em governos petistas. A presidente esboçava uma reação para resistir à investida de Marina, e agora está novamente travada pelos fatos.

Marina tem no episódio a prova material de que a “velha política” transformou o Congresso em um balcão de negócios, mas a confirmação de suas denúncias veio junto com a inclusão do ex-governador Eduardo Campos na lista dos beneficiários das negociações do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa.

Esse é um empecilho e tanto para a exploração do caso, mesmo que esteja implícito que a candidata não tem nada a ver com os fatos acontecidos antes de ela, por constrangimentos políticos que lhe foram impostos, aderir ao PSB, inclusive o jato que veio junto, ao que tudo indica, nesse mesmo pacote.

Se fosse a candidata da Rede Sustentabilidade, Marina estaria hoje livre, leve e solta para empunhar a bandeira da nova política em contraponto às nebulosas transações que seus adversários comandam nos bastidores políticos de Brasília. Mas terá que pisar em ovos para usar a artilharia pesada que lhe caiu no colo sem que o fogo amigo a atinja.

Quem poderá se beneficiar da situação é o candidato do PSDB Aécio Neves, que precisava de um fato novo para turbinar sua campanha, e ele chegou pela delação premiada do ex-diretor da Petrobras. Não é possível dizer agora se mais essa denúncia de roubalheira institucional será suficiente para recolocá-lo na disputa, mas ele tem a vantagem no momento de poder atacar tanto Marina quanto Dilma, reforçando a ideia central de sua campanha de que ele é a mudança segura.

A presidente Dilma dificilmente perderá votos do núcleo duro petista, que vota nela mesmo de olhos e narizes fechados, e considera normais esses esquemas corruptos. Veremos agora de que tamanho é o apoio da candidata Marina Silva, e qual a intensidade da revolta de eleitores que estavam fora da eleição por vontade própria e retornaram devido à sua presença.

Aécio poderá tentar retomar eleitores que foram para Marina, que também receberá eleitores que voltaram para Dilma e poderão ficar sensíveis a mais esses escândalo. Tudo dependerá de como Marina usará esse episódio.

Quem é Marina de fato, desde a eleição de 2010, já estará convencido de que ela foi apanhada em uma armadilha montada pela “velha política” de que Eduardo Campos se utilizava antes de romper com o governo petista. E a perdoará por isso, entendendo que não tem condições de romper agora com o esquema político que a acolheu em momento difícil.

Ainda mais tendo como vice um político orgânico do PSB. Muitos que foram para ela em busca de um refúgio poderão se convencer de que Aécio Neves é a melhor oposição, e muitos outros podem desistir mais uma vez de votar, convencidos pelos fatos de que são todos farinha do mesmo saco.

O certo é que a presidente Dilma, que ensaiava uma reação levada pela máquina partidária e pelos militantes petistas, está novamente enredada em um esquema político deletério. Se é verdade que ensaiava retirar do fundo da gaveta a imagem da faxineira ética do início de seu governo para reforçar o combate à corrupção, agora vai ter que desistir da ideia.

Já era uma proposta desesperada, pois as contradições são evidentes entre a faxineira e a atual presidente que colocou de volta no ministério praticamente todos os que enxotara, e agora é inviável.

Também fica sem sentido a tentativa do presidente do PT Rui Falcão de insinuar que Marina pretende privatizar a Petrobras e os bancos públicos, uma acusação reciclada que por si só mostra a falta de argumentos do partido na disputa política com Marina.

O novo escândalo da Petrobras vai reviver a ideia de Aécio Neves de reestatizar a Petrobras, que foi tomada de assalto por forças políticas da base aliada governista, sob o comando do PT.

Como disse muito bem o presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves, aliás um dos acusados de estar envolvido no esquema de corrupção, “a Petrobras é petista”.

Cai o pano - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 07/09


O efeito da delação do ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa no resultado das eleições realmente é o menor dos problemas diante do conteúdo do que ele tem revelado à polícia e ao Ministério Público na última semana.

A preocupação deve pertencer a quem precise arcar com as consequências. O importante para o País é que uma situação dessa gravidade produza consequência à altura.

Em resumo, durante oito anos - de 2004 a 2012 - os contratos da maior empresa brasileira com grandes empreiteiras eram usados como fonte de propina para funcionários, partidos e políticos. Uma espécie de mensalão 2.0.

Desta vez, no entanto, o acusador envolve em sua rede de relações gente grande da República: os presidentes da Câmara e do Senado, ministros de Estado, senadores, governadores e até o ex-presidente Luiz Inácio da Silva com quem, segundo ele, costumava se reunir frequentemente.

Quando Roberto Jefferson denunciou o esquema do mensalão, numa entrevista à Folha de S.Paulo, a primeira reação dos acusados foi desmentir e tentar desqualificar a denúncia. Até que veio a CPI dos Correios.

Escaldado, no início deste ano o governo não deixou que prosperassem as duas comissões de inquérito instaladas no Congresso para investigar os negócios da Petrobrás. Lula mesmo aconselhou o PT a "ir para cima" da oposição a fim de evitar a repetição do episódio.

Agora a coisa é mais complicada. Enquanto a história estava no âmbito do Congresso saiu tudo como planejado. Deputados e senadores da base governista prestaram-se à farsa de maneira obediente. A ponto de deixarem que depoimentos de ex-diretores, presidente e ex-presidente da Petrobrás tivessem perguntas e respostas previamente combinados.

No dia 10 de junho, no intervalo entre uma prisão e outra, Costa foi à CPI. Fez uma defesa ardorosa da lisura ética vigente na empresa e disse o seguinte: "Pode se fazer uma auditoria por 50 anos na Petrobrás que não vai se achar nada de ilegal porque não há nada de ilegal". Suas excelências mais que depressa se deram por satisfeitas.

Teria ficado tudo por isso mesmo se dias depois o juiz Sérgio Moro não tivesse mandado prender Paulo Roberto Costa de novo. Ele havia ficado na cadeia durante 59 dias, foi solto por ordem do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, e preso em 19 de junho por ter escondido a existência de uma conta na Suíça e um passaporte português.

Em dois meses Costa se convenceu de que poderia ir pelo mesmo caminho de Marcos Valério, condenado a 40 anos de prisão. Quando quis fazer acordo de delação premiada, o operador do mensalão não tinha mais nada a oferecer à Justiça porque o esquema já estava desvendado.

No dia 22 de agosto, o ex-diretor da Petrobrás decidiu fazer o acordo. Com o processo no início, não havendo ninguém denunciado, era o momento propício para ele oferecer o que os investigadores precisavam: os autores e as provas dos crimes.

Por isso é que as coisas agora ficam mais complicadas para o lado dos acusados. Os desmentidos serão difíceis. Para que obtenha o benefício da redução da pena ou mesmo o perdão judicial, Paulo Roberto Costa terá necessariamente de fornecer informações verdadeiras, comprovadas, que sirvam para provar a materialidade e a autoria dos crimes.

Por menos do que isso não sairá da prisão. Depois que forem encerrados os interrogatórios e apresentadas as provas o Ministério Público examinará e cruzará todos os dados. Em seguida, dará seu parecer sobre a concessão do benefício que será maior ou menor dependendo da contribuição que a delação tiver dado para a elucidação do caso, cabendo a decisão final ao ministro Teori Zavascki.

Um país não é uma empresa - ODEMIRO FONSECA

O GLOBO - 07/09

Paul Krugman (Prêmio Nobel de Economia 2008) publicou, em janeiro de 1996, artigo com o título acima, na “Harvard Business Review”. Concluía que executivos e empresários não deveriam aconselhar políticas econômicas, pois nada entendiam da complexidade da economia, com seus balanços e preços agregados e seu sofisticado equilíbrio geral. Empresários teriam um viés cognitivo de pedir incentivos ao governo e aconselhar em causa própria. A tarefa era para outros conselheiros, os economistas. Krugman chamava o testemunho de Keynes, para o qual, “economia é assunto técnico e difícil”. Keynes achava que a qualidade dos conselheiros era condição necessária ao sucesso dos governos e que o fracasso dos Stuarts era um grande exemplo de maus conselheiros.

Krugman pressupunha a ausência de um governo empresário e sua argumentação é música para empresários que não gostam das antessalas de Brasília e gostam de competição. Segundo Krugman, o papel dos governos (não entendido pelos empresários) era estabelecer regras do jogo econômico claras e iguais para todos, sair da frente e deixar os mercados funcionarem. Zombava de políticas protecionistas, incentivadoras com subsídios ou que “escolhiam ganhadores”. Parecia escrever sobre o Brasil de hoje.

Mas um país é diferente de uma empresa por motivos muito mais bicudos. Um país não precisa de gerência, como uma empresa, mas de governança política. Um grande gerente (Abilio Diniz) tocou neste ponto recentemente, ao mencionar que “o Brasil não é ingovernável, mas ingerenciável".

O marketing da presidente Dilma pintou-a como boa gerente, motivo de chacota hoje, sendo alguém que se embrulha no próprio discurso. Mas serve à presidente o consolo que nem mesmo Abilio Diniz seria um bom gerente para o Brasil. Por isso, criticar a Marina por falta de experiência gerencial é bobagem. Se os brasileiros correm atrás de um bom gerente para presidente, a frustração vai continuar. A dúvida é se Marina vai poder escolher bons conselheiros e querer ou poder usar seus conselhos.

Quando não em franca desconfiança e confronto, o que governos buscam com empresários é ajuda sobre como tocar a máquina pública com maior eficiência. Apesar de louváveis esforços de empresários, os resultados são frustrantes.

A principal busca dos governos por mais eficiência é na arrecadação, que, junto com custos de transação imbecilizantes, são as principais fontes de conflito com empresários. Mas a mais intratável questão é a do erro gerencial. Empresários sabem e entendem que o erro com o qual mais convivem é o erro de julgamento, que vem da necessidade de inovar e da ausência do conhecimento perfeito. O erro de julgamento não existe na administração pública, que só reconhece o erro por ineficiência ou má-fé.

Por isso, quando o governo desestatiza alguma de suas atividades gerenciais, criando competição ao vender empresas ou fazer concessões, resolve sérios problemas políticos. Além de tirar o foco de si, retira a pressão por subsídios, por arrecadação e pode baixar a carga fiscal e os custos de transação, concentrando-se no seu papel, que é governar. Existe uma lista longa de atividades que os governos podem deixar de gerenciar e o setor privado poderá então entrar, inovar e gerar progresso, sem medo do erro de julgamento.

O novo mensalão - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 07/09


BRASÍLIA - Se a Petrobras entrou na eleição de 2010 para aniquilar as chances do PSDB, ela já entrava na de 2014 para enfraquecer a posição do PT e se torna agora um canhão contra o governo e os governistas.

O ex-diretor da empresa Paulo Roberto Costa, que sabe das coisas, aproximou-se do PT, mas está longe de ser um quadro do partido como Delúbio Soares, que aguentou o tranco e foi para o abatedouro sem entregar o resto da boiada.

Com a delação premiada, o ex-diretor deixou claro que sua prioridade é salvar o que for possível da própria pele. Joga uma profusão de nomes e siglas nas páginas da Justiça e nos ares da eleição. Aliás, já que falamos de Delúbio, uma peça-chave nas denúncias é o novo tesoureiro do PT. Está um salve-se quem puder.

Na reta final da campanha, com Marina Silva na cola de Dilma Rousseff e ameaçando o seu antigo partido, o PT. Haja coração! Lula que o diga. Se está complicado para Dilma, seu primeiro poste, e péssimo para Alexandre Padilha, sua derradeira tentativa de poste, pode ficar pior. Tende a chegar no coração do PT e é improvável que Lula passe incólume.

Se a Petrobras já era um campo minado para a imagem de gestora de Dilma, as novas histórias que saem da boca de Paulo Roberto explodem num outro campo muito delicado para os governos do PT: o da ética. Certo ou errado, o fato é que o mensalão, o deputado amigão do doleiro, o vereador aliado ao PCC e as peripécias dos aliados minaram a aura e o discurso petista construídos em décadas. Cada coisa nova só reforça a sensação que se generalizou. E a "coisa", desta vez, é cabeluda.

O único e frágil alívio para Lula, Dilma e o PT é que a citação a Eduardo Campos embaralha as cartas e deixa Marina sem artilharia para atacar, sobretudo depois da história mal contada do avião da campanha do PSB. É difícil reverter o quadro crítico para Aécio Neves, mas, no mínimo, o tucano deve estar pensando: quem ri por último ri melhor.

As coisas podem não ser o que parecem - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 07/09


É cada vez menor o número dos que duvidam hoje da derrota de Dilma Rousseff nas urnas de outubro. Mas a probabilidade da vitória de Marina Silva poderá resultar em enorme decepção para quem acredita que o voto na ex-senadora é o melhor caminho para livrar o País do lulopetismo. Esta é a conclusão a que têm chegado, nos círculos políticos de Brasília, petistas e não petistas com algum acesso a Lula, a partir da análise de seu comportamento diante de um quadro eleitoral que era impensável pouco tempo atrás.

Não é de hoje, garantem seus seguidores mais chegados, que Lula perdeu a paciência com a campanha da reeleição de Dilma. E não se trata nem de discordar da estratégia, se é que se pode chamar assim, que a presidente e seu círculo de assessores diretos impuseram à disputa. Aos mais íntimos o ex-presidente se tem permitido expressar irritada decepção com a falta de competência política e de carisma de sua criatura. Afirma mesmo, como se não tivesse nada a ver com isso, que ela "não é do ramo".

Diante do provável revés, Lula se esforça para disfarçar o mau humor com um comportamento discreto que o tem levado, para usar uma expressão futebolística tão a seu gosto, a simplesmente "cumprir tabela" na campanha. Mesmo porque uma omissão ostensiva seria inadmissível e a estridência crítica seria contraproducente.

Lula, portanto, parou para pensar em si mesmo, entregar os anéis para salvar os dedos e se concentrar em 2018, quando ele próprio poderá tentar, com o prestígio popular que lhe tiver restado, uma volta triunfal ao Palácio do Planalto. E, pelo que dizem ser seus cálculos, a eleição de Marina Silva agora pode ser mais útil a esse objetivo do que a reeleição de Dilma.

Dilma Rousseff entregará a seu sucessor um país em situação muito pior do que aquele que recebeu de Lula há quatro anos. Os indicadores econômicos, financeiros e sociais revelam essa lamentável realidade. O próximo ocupante da cadeira presidencial receberá uma verdadeira herança maldita. Reeleita, Dilma terá de mostrar uma competência que já provou não ter para evitar que a inflação estoure, a recessão econômica se instale, os programas sociais definhem e a companheirada em desespero piore as coisas tentando "salvar o seu". E aí provavelmente nem mesmo Lula seria capaz de operar o milagre de manter o PT no poder em 2018.

Já Marina Silva na Presidência, com um programa repleto de boas intenções, mas sem nenhuma perspectiva concreta de apoio parlamentar para aprová-lo e de uma ampla e competente equipe técnica para realizá-lo, seria presa fácil de um PT que, na oposição, estaria à vontade para fazer aquilo em que é especialista: atacar, destruir. E depois de devidamente demolida a imagem de Marina, Lula poderia surgir, mais uma vez, como salvador da pátria.

Mas haveria ainda, segundo essas maquinações, uma segunda hipótese: governar com o PT. Marina não ignora as dificuldades que terá pela frente e tentará garantir o apoio de forças políticas que possam fazer diferença em seu governo. Petistas ou tucanos dariam a Marina apoio decisivo semelhante àquele que o PMDB oferece hoje a Dilma. Mas PT e PSDB dificilmente comporiam juntos uma base de apoio confiável. E, mesmo que os tucanos venham a apoiar Marina num eventual segundo turno contra Dilma, toda a história política da ex-senadora dentro do PT e a aversão aos tucanos que ela não se preocupa em disfarçar indicam que seus parceiros preferenciais seriam os petistas.

Reforçaria essa hipótese o fato de que Marina tem feito acenos de boa vontade a Lula, como a reiterada manifestação de que não seria candidata à reeleição em 2018 e de que estaria disposta a não desalojar completamente o PT de seu governo, promessa implícita na garantia de que pretende governar "com todos os partidos".

Seja como for, Lula parece estar assimilando bem - e talvez até desejando - uma vitória de Marina Silva, que trabalharia para caracterizar como uma derrota de Dilma e não do PT. E o PT estaria, tanto quanto seu líder máximo, preservado do inevitável desgaste de mais quatro anos de barbeiragens políticas e administrativas.

A ser isso verdade, votar em Marina com a intenção de cravar uma bala de prata no coração do lulopetismo seria comprar gato por lebre.


COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

‘Nenhuma das negociações de hoje passa a ter credibilidade’
Aécio Neves sobre a demissão do ministro da Fazenda 4 meses antes de sair do cargo


LIBERAÇÃO DE INIBIDORES PODE SER LOBBY DE YOUSSEF

Documentos apreendidos pela Polícia Federal na Operação Lava Jato, aos quais esta coluna teve acesso, revelam grande interesse de uma empresa investigada, Piroquímica, no sal químico sibutramina, inibidor de apetite. O megadoleiro Alberto Youssef fazia lobby para reverter a proibição desse comércio bilionário. Investigadores suspeitam que ele está por trás da liberação de inibidores, definida pelo Senado no dia 2.

PROIBIÇÃO

Por oferecerem riscos à saúde, os inibidores tiveram a comercialização proibida em 2011, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

ARRUMADINHO

O laboratório Labogen, de Youssef, importava químicos, revendia à Piroquímica, que revendia a outra empresa, que vendia ao governo.

A FAVORITA

A empresa Labogen é uma das principais investigadas na Operação Lava Jato, envolvendo inclusive o deputado André Vargas (ex-PT-PR).

ELES SABEM MAIS

Os senadores alegaram que a Anvisa “extrapolou” ao proibir inibidores de apetite. A Anvisa, na verdade, exerceu suas prerrogativas.

PMDB PODE CONQUISTAR OITO GOVERNOS ESTADUAIS

Maior aliado do governo Dilma, o PMDB pode ser o grande vencedor da eleição 2014, nos estados. Se os cenários previstos nas pesquisas se mantiverem, o partido de Michel Temer pode eleger até oito governadores, dois a mais que o PSDB, segundo colocado nas projeções das pesquisas de Ibope e Datafolha. O PT lidera em quatro estados, o PSB de Marina Silva não lidera, mas pode levar três.

QUATRO NO NORDESTE

No Nordeste, o PMDB tem grande chance de eleger Renan Filho (AL), Eunício Oliveira (CE), Henrique Alves (RN) e Jackson Barreto (SE).

TRÊS NO NORTE

No Norte, são favoritos Eduardo Braga (AM) e Marcelo Miranda (TO). Helder Barbalho (PA) não lidera, mas tem chance. Todos do PMDB.

MÃO NA TAÇA

No Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB) lidera com folga espantosa, em relação ao rival Renato Casagrande (PSB), o atual governador.

AERO-CORRUPA

Chegam a ser engraçados os codinomes utilizados pelos envolvidos no escândalo de corrupção revelado pela Operação Lava Jato. Há emissários batizados de “Grandão” e “Careca”, que faziam o transporte do dinheiro sujo, em jatos, para o exterior e de lá para o Brasil.

RIGIDEZ

Uma das empreiteiras investigadas pela Polícia Federal na Operação Lava Jato também tem nome esquisito: Rigidez. Nome que certamente não foi inspirado na atitude eticamente rígida dos responsáveis.

FIGURÕES NA ESCUTA

A Operação Lava Jato leva pânico a vários figurões do Paraná que aparecem em escutas, ora em conversas indecorosas com o megadoleiro Alberto Youssef, ora com o deputado André Vargas (ex-PT).

LULA CANDIDATO?

Os aliados do governo no Nordeste, inclusive petistas, estão se lixando para a candidatura de Dilma à reeleição. Nem usam sua imagem, nem pedem votos para ela. Só querem saber de Lula.

PT LIPOASPIRADO

O PT deve eleger a 2ª maior bancada de deputados federais, segundo políticos experientes. A Operação Lava Jato inibiu o “caixa 2” e Dilma não abriu o cofre. O PMDB sairá das urnas com a maior bancada.

PROPAGANDA ENGANOSA

O Itaú anunciou redução para 0,99% ao mês os juros do financiamento de veículos, até o dia 10. No rodapé do anúncio, em letras miúdas, a real: a taxa soma 12,55% ao ano, mas, somadas tarifas e otras cositas, vai a 27,66%, mais que o dobro. E 27,66% ao ano são 2,06% ao mês.

VASSALAGEM

Ao atacar Marina Silva (PSB), apostando na sua “derrubada”, caso eleita, o governador do Ceará, Cid Gomes (Pros) prestava vassalagem à presidenta Dilma. Na visita a Fortaleza, ela desabafou que não se sentia bem atacando Marina. Ele se prontificou a fazer o serviço.

DESCONSTRUÇÃO

Os ataques do ex-ministro Ciro Gomes a Marina fazem parte do “pacote” oferecido à presidenta Dilma pelo irmão governador. Até se dispôs a percorrer o País tentando “desconstruir” a candidata do PSB.

ÚLTIMOS A SABER

Se Lula demitiu Cristovam Buarque da Educação por telefone e Dilma demitiu Guido Mantega pela imprensa, os ministros devem ficar ligados para não serem demitidos por sinais de fumaça.



PODER SEM PUDOR

CONVERSA DE PESCADOR

Nos tempos de ditadura, dois candidatos da Arena disputavam a prefeitura de Conceição do Mato Dentro (MG), onde vivia Chiquito, cabo eleitoral particularmente esperto. Na campanha, ele não hesitou em subir no palanque e pedir votos para Sebastião Soares, da Arena 2, mas uma semana depois lá estava ele no outro palanque, de José Mascarenhas, da Arena 1, implorando os votos dos conterrâneos. Um deles, curioso, questionou a repentina mudança. Chiquito não se fez de rogado:

- Eu não mudei, pesquei. Joguei o anzol no ceveiro do Soares, esperei e não deu peixe. Joguei no ceveiro do Mascarenhas, logo veio peixe.

sábado, setembro 06, 2014

Velha política em xeque - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 06/09

O que na verdade vai movimentar a campanha presidencial nos próximos dias, podendo até mesmo definir as reais possibilidades competitivas da presidente Dilma, é o depoimento do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, que já começou a denunciar deputados, senadores e governadores que estavam no esquema de corrupção na estatal dominada pelos interesses políticos do PT.
A candidata Marina Silva se tornou necessariamente o alvo de seus adversários, a presidente Dilma, a quem venceria no 2º turno hoje, e o senador Aécio Neves, a quem deslocou do 2º lugar. Há quem veja um erro de estratégia de Aécio nos ataques que vem desferindo contra Marina, como se a tentativa de desconstruir a candidata do PSB só ajudasse o PT.

Aécio estaria fazendo o mesmo esforço inútil que o tucano José Serra fez em 2002, destruindo, com sucesso, as candidaturas de Roseana Sarney e Ciro Gomes para depois ser derrotado por Lula no segundo turno. Há no entorno do PSDB quem defenda uma "renúncia branca" de Aécio, que deveria se dedicar mais à eleição de Minas para garantir seu cacife político.

Melhorando em Minas, onde segundo o Datafolha está em 3º lugar, Aécio melhoraria indiretamente no plano nacional, já que Minas é o segundo maior colégio eleitoral do país. Também em São Paulo haveria espaço a recuperar ao lado do governador Geraldo Alckmin. Na realidade, os ataques que Aécio vem fazendo a Marina são sinalizações de que não pretende desistir da candidatura, mas sua tarefa principal a essa altura é mesmo garantir que Minas não caia nas mãos do PT.

Vencer a eleição para presidente por lá também seria fundamental para melhorar seu cacife político para futuros acordos internos dentro do PSDB e no apoio a Marina no 2º turno. O fato é que Marina, transformada no alvo preferencial dos adversários, está assumindo o papel de representante da sociedade contra os velhos métodos de fazer política no país.

A candidata do PSB já se utiliza da vitimização para se defender, e lança ao eleitorado a tarefa de defendê-la pelo boca a boca, já que tem menos tempo de propaganda oficial que os adversários. Marina acena com a chegada ao 2º turno para equilibrar a disputa, pois nele os tempos são iguais para os dois pretendentes.

Marina caracterizou os ataques que vem recebendo como oriundos de um sentimento de desespero de seus adversários que fizeram "uma frente" para tirá-la da competição, na tentativa de colocar à margem a sociedade civil organizada que ela representaria.

Os integrantes da "velha política" teriam receio de disputar com movimentos espontâneos do eleitorado, e gostariam de circunscrever as possibilidades de chegar ao poder aos dois partidos que polarizam as disputas desde 1994, PT e PSDB, um preferindo ter o outro como opositor, e os dois temendo enfrentar Marina e a espontaneidade da sociedade organizada.

Ela citou ontem especificamente a ação de seus adversários no Rio, onde lidera a recente pesquisa Datafolha com 37% no estado e 41% na capital. Enfrentando as máquinas estadual e federal, que têm como candidatos a presidente Dilma e o senador Aécio, Marina vem confirmando o caráter libertário do eleitorado do Rio, que já deu a ela em 2010 uma votação expressiva.

Marina se mostrou irritada especialmente com o que chamou de "máquina de boatos" que tem espalhado que ela é contra a distribuição dos royalties do petróleo em proporção maior para o Rio, uma antiga disputa no Congresso que agora surge na campanha presidencial.

Esse seria um tema obrigatório caso Eduardo Campos estivesse na disputa, pois ele foi um dos defensores da distribuição mais igualitária dos royalties, em defesa dos interesses do Nordeste. Marina acabou sendo atacada por outro flanco, o da prioridade do pré-sal.

Alegam que ao reduzir a importância do petróleo na estratégia de energia do país, Marina acabará reduzindo o valor dos royalties para estados e municípios. Há ainda a esperteza política de sindicatos de petroleiros ligados à CUT que querem fazer um protesto contra a suposta política do pré-sal de Marina, o que não passa de um ato politiqueiro.

Discutir os programas partidários, atacar suas contradições e imperfeições e mostrar as debilidades de Marina faz parte do jogo. Mas tentar usar a religião como instrumento de desqualificação política ou inventar posições inexistentes para fazer a "luta política" é realmente usar o pior da velha política. Que estará mais uma vez em xeque a partir deste fim de semana com as revelações da delação premiada do ex-diretor da Petrobras.

Fogueiras da Razão - DEMÉTRIO MAGNOLI

FOLHA DE SP - 06/09


Fundamentalistas querem substituir o livro das leis pela Lei do Livro. Marina não é, portanto, fundamentalista


Política, ao menos na democracia, é diálogo. A condição para o diálogo é a disposição genuína de ouvir --isto é, de mudar de ideia. O fanático não dialoga, prega. Ele pretende converter o interlocutor, mas não contempla a hipótese de rever suas próprias convicções. No fundo, almeja um poder absoluto: moldar o outro segundo o figurino de crenças que selecionou como verdadeiro. O artigo "Desvendando Marina", de Rogério Cezar de Cerqueira Leite (Folha, 31/8), não desvenda a candidata do PSB/Rede, mas atesta a virulência antidemocrática dos fanáticos da Razão.

O articulista classifica Marina Silva como uma fundamentalista cristã. No universo da ciência política, o conceito de fundamentalismo religioso aplica-se às correntes que exigem a subordinação das instituições públicas e da vida civil aos dogmas de uma fé. Os fundamentalistas querem substituir o livro das leis (o contrato constitucional) pela Lei do Livro (a Bíblia, o Corão ou a Torá). Marina não é, portanto, uma fundamentalista --e, assim como a teoria da evolução, tal conclusão não é uma questão de opinião.

O pensamento científico assenta-se sobre modelos e evidências, abrindo-se ao teste da falseabilidade. Do alto de uma torre erguida com a argamassa da arrogância, o fanático da Razão viola as regras que simula seguir, operando por espasmos de subjetividade. Cerqueira Leite escandaliza-se com as "crenças íntimas" de Marina, mas nem tenta apontar nas propostas políticas da candidata alguma contaminação fundamentalista. Marina defende a laicidade do Estado, sugere submeter o tema do aborto a plebiscito e alinha-se com a decisão do STF sobre a união civil de homossexuais. São posições semelhantes às de Dilma e Aécio, que também não reproduzem o catecismo do movimento LGBT. No fim, o "desconforto" do Inquisidor da Razão é com a liberdade de religião.

As grandes fogueiras da Igreja apagaram-se no passado, ainda que suas brasas continuem queimando aqui e ali. No Ocidente, as fogueiras do último século foram acesas por Estados totalitários que falavam a linguagem da Razão. A URSS de Stálin e a China de Mao eliminaram milhões de pessoas em nome da Ciência da História, que decifrara o enigma do futuro da humanidade. A Alemanha de Hitler construiu as engrenagens do exterminismo sobre o alicerce da Ciência da Raça, que prometia a salvação nacional no Reich de mil anos. O fanático da Razão, tanto quanto o da religião, quer um governo que administre as almas, não as coisas. Na democracia, contudo, as almas não fazem parte da esfera de autoridade do Estado.

A pecha de fundamentalista religiosa lançada contra Marina circula no submundo da internet, propagada por blogueiros governistas sustentados por patrocínios de empresas estatais. Simultaneamente, e de acordo com uma calculada lógica da duplicidade, o governo ensaia reativar um projeto de lei que concede benefícios tributários às igrejas. Mas o Inquisidor da Razão parece não sentir "desconforto" com a privatização partidária da máquina pública nem com a transgressão do princípio elementar da separação entre Estado e religião. Ele se incomoda, de fato, com "crenças íntimas".

Sou agnóstico. Acho graça nos mitos religiosos da Criação --e aborreço-me com pregadores que têm a exagerada pretensão de retificar minhas "crenças íntimas". Só existem superficiais diferenças de linguagem entre eles e os intragáveis pregadores do ateísmo, que querem matar Deus, erradicando-o da mente dos seres humanos. Uns e outros sonham com um Estado inquisitorial, aparelhado para desentranhar as "ideias daninhas" que envenenam seus concidadãos.

Marina já não é uma esfinge. A candidata divulgou um extenso programa de governo, atravessado por tensões e não isento de contradições. Melhor criticá-lo que acender uma fogueira com os galhos secos da árvore da intolerância.

O repique da inflação - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S.PAULO - 06/09


Contrariando as profecias do governo, a inflação deu um repique, voltou a subir e atingiu 0,25% em agosto, ponto inicial de uma nova escalada, segundo projeções do setor financeiro. A taxa prevista para setembro é 0,41% e o ano será fechado, pelos cálculos correntes, com um resultado acima de 6%, pouco pior que o de 2013, de 5,91%. Como no ano passado, a inflação declinou durante algum tempo e em seguida ganhou impulso. Neste ano, o ponto mais baixo, de 0,01%, foi atingido em julho. Na quarta-feira, os dirigentes do Banco Central (BC) decidiram por unanimidade manter em 11% a taxa básica de juros, a Selic, seu principal instrumento de política anti-inflacionária. Foram prudentes e tomaram a decisão mais segura - criticada, como sempre, por líderes empresariais defensores da tolerância à inflação.

O número oficial de agosto foi pouco maior que o previsto, uma semana antes, pelos economistas consultados pelo BC na pesquisa Focus. A mediana de suas estimativas havia ficado em 0,22%. Talvez algum ministro ou funcionário do governo acreditasse, de fato, numa forte redução das pressões inflacionárias, depois da acomodação dos indicadores a partir de maio. No mercado financeiro e nas consultorias, a maior parte dos economistas previu uma evolução parecida com a de 2013, quando a inflação chegou a 0,03% em julho e em seguida embicou para cima.

Afinal, nenhum grande fator inflacionário foi eliminado, mesmo com a elevação dos juros em abril. Os consumidores ficaram mais cautelosos e menos dispostos, mas o crédito permaneceu em expansão, aumentos salariais continuaram superando os ganhos de produtividade e, acima de tudo, as contas públicas pioraram a cada mês, porque a gastança prosseguiu e a receita decepcionou.

A queda dos preços por atacado foi apontada pelos mais otimistas como um prenúncio de inflação domada. Mas previsões desse tipo são geralmente baseadas em uma confusão. Oscilações de mercado podem pressionar alguns preços por algum tempo, mas só alimentam a espiral inflacionária quando há condições especiais para isso - excesso de crédito ou de gasto público, por exemplo. Errou, no passado recente, quem atribuiu a inflação brasileira à elevação dos preços das commodities no mercado internacional. Essa elevação afetou também outros países, mas poucos tiveram inflação tão alta quanto a do Brasil. Errou também - e a explicação é a mesma - quem previu o fim das pressões inflacionárias quando os preços das commodities caíram por alguns meses.

De julho para agosto a inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), passou de 0,01% para 0,25%, num salto considerável, embora o custo de alimentos e bebidas tenha diminuído 0,15%. O custo do vestuário também recuou, com variação negativa de 0,15%. Os outros sete grandes componentes do índice aumentaram.

O quadro parece menos mau quando se examina a porcentagem de itens com variação positiva. Esse indicador, conhecido como coeficiente de difusão, diminuiu de 59% em julho para 55% em agosto. Mas isso se explica basicamente pela queda dos preços de muitos alimentos e bebidas e também do vestuário. No caso dos alimentos, só a lista das "principais quedas" apontadas no informe oficial do IBGE inclui 24 produtos. Seria irrealista apostar na continuação dessa tendência ainda por muito tempo.

Em agosto, a alta do IPCA acumulada em 12 meses bateu em 6,51% e superou pela segunda vez no ano o limite de tolerância, de 6,5%. O governo tem prometido manter a inflação dentro dessa margem. A insistência nessa promessa, e em nada mais sério, confirma a desistência de buscar a meta efetiva, de 4,5%. A meta real do governo tem sido e continua a ser qualquer número até o limite de 6,5%. É um número muito alto pelos padrões internacionais.

Se depender do governo e de seus interesses eleitorais, haverá muito combustível para a inflação. Desde agosto o Tesouro abandonou o precário represamento e voltou a soltar grandes volumes de dinheiro para os programas oficiais. É hora de investir em votos.


Inflação é coisa séria - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 06/09

O governo insiste em dar à inflação tratamento de campanha eleitoral. Compreende-se o sufoco que a equipe da presidente Dilma Rousseff, candidata à reeleição, vem passando ante os resultados das últimas pesquisas de intenção de voto. Tudo o que o governo não quer é ter de enfrentar o debate sobre a situação da economia, especialmente quanto ao crescimento e à inflação.
"Podemos fazer o diabo quando é hora de eleição", disse a presidente em março do ano passado, em evento político em João Pessoa. Ela e a equipe têm levado essa "máxima" ao pé da letra, sobretudo quando se trata de explicar maus resultados. Mais fácil tem lhes parecido fazer de conta que o fato não ocorreu, que tudo não passa de má vontade da mídia ou de conspiração da oposição.

Mas, como dinheiro não aceita desaforo, os desmentidos têm sido inexoráveis. O ministro da Fazenda repete o mantra de que a inflação está controlada e segue trajetória de queda. A presidente aproveitou a queda sazonal do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em julho (cresceu apenas 0,01%) para dizer que "a inflação é quase zero", o que é menos do que meia verdade, já que em 12 meses está distante da meta de 4,5% ao ano.

Passada a temporada de alta nos preços dos alimentos in natura, não significa que a alimentação está mais barata do que no ano passado, mas apenas que os preços deixaram de subir todos os meses. E quando eram esses itens os vilões, especialistas respeitáveis lembravam que, além deles, outros fatores puxavam os preços na direção oposta aos salários do trabalhador.

Ou seja, a inflação vem sendo movida por algo mais do que a sazonalidade da feira. Os analistas estavam certos. Em agosto, a estabilidade nos preços dos alimentos ajudou a segurar a inflação. Mas outros aumentos conspiraram. A conta de luz começou a refletir as falhas na gestão do setor elétrico. Levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) revela que 79% das obras de construção de hidrelétricas e 83% das de linhas de transmissão estão fora do cronograma.

Com isso, o sistema está sendo obrigado a manter as termelétricas (mais caras) ligadas por mais tempo. Já houve impacto em agosto que, somado aos aumentos de salários da empregada doméstica e das passagens aéreas, fez o IPCA subir 0,25% no mês passado, empurrando o acumulado em 12 meses para 6,51%, deixando ainda mais longe a meta de 4,5% e superando o teto de 6,50%.

A maioria dos consumidores percebe que a vida está mais cara no país do que há três anos. Pior. O consumidor anda desconfiado de que a coisa não vai parar por aí. A conta de luz deve subir mais e não faz uma semana que o ministro da Fazenda admitiu que "todo ano tem aumento da gasolina, e este ano não será diferente". Sofredor experiente com a inflação, o brasileiro médio não sabe, mas imagina o que vai ocorrer com os preços depois das eleições. E nem é preciso entrar na sofisticação do controle artificial do dólar pelo Banco Central para segurar os preços internos.

A redução do valor dos salários é ruim, mas a perda da credibilidade das autoridades é igualmente nefasta para o país, pois afeta a esperança de dias melhores.

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

EX-DIRETOR ENTREGOU PELO MENOS 4 EMPREITEIRAS

Além de entregar políticos, em depoimentos ao Ministério Público Federal, o ex-diretor da Petrobras, Paulo Roberto Costa, também apontou os dirigentes de empreiteiras beneficiadas por contratos superfaturados, principalmente na construção da refinaria petrolífera de Abreu e Lima (PE). Entre as empreiteiras envolvidas em negócios com o ex-diretor estão a Mendes Junior, UTC, OAS e a Camargo Correa.

VALOR DA PROPINA

Paulo Roberto Costa contou que pagava aos políticos 3% do valor dos contratos da Petrobras, quando ele foi diretor, entre 2004 e 2012.

TRIANGULAÇÃO

As empreiteiras repassariam o dinheiro sujo ao doleiro Alberto Youssef, que por sua vez se encarregava de fazê-lo chegar aos políticos.

SÓ O COMEÇO

Foram delatados pelo ex-diretor 12 senadores, 49 deputados federais e um governador filiados ao PT, PMDB e PP. E tem mais.

BC DA LADROAGEM

Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef são suspeitos de chefiar uma espécie de “banco central da corrupção” no Brasil.

PIOR QUE MANTEGA É A ALTERNATIVA: ARNO AUGUSTIN

Vencendo a eleição e trocando ministros, como anunciou, um dos nomes mais fortes para substituir Guido Mantega no Ministério da Fazenda provoca arrepios: Arno Augustin, o secretário do Tesouro. É do tipo que se vê ainda em meio à “guerra fria” e com certeza adoraria criminalizar o lucro. Na prática, Augustin e Dilma já tocam a política econômica. Há dois anos Mantega tem apenas papel coadjuvante.

MAGOOU

Mantega ficou sabendo pelas notícias na internet da decisão de Dilma de substituí-lo, em eventual segundo governo. Ficou magoado.

PERDEU O RESPEITO

Dilma não respeita Guido Mantega, por isso resolveu tomar decisões na área econômica, delegando a Arno Augustin providências práticas.

PROTEGIDO DE LULA

Dilma até pediu a Lula que compreendesse a necessidade de demitir Mantega, seu protegido. Lula não aceitou e Mantega foi ficando.

ÀS ESCONDIDAS

Guido Mantega chegou ao trabalho pela garagem, nessa sexta-feira, sorrateiramente, para evitar os jornalistas. E para não comentar o fato de haver recebido pela imprensa o seu “aviso prévio”.

DIAS DE TENSÃO

Por suas conhecidas relações com a Petrobras, onde já foi diretor, o senador Delcídio Amaral (PT-MS) é um dos políticos mais tensos com a delação premiada do ex-diretor Paulo Roberto Costa. Foi Delcídio quem indicou Nestor Cerveró, outro diretor enrolado no escândalo.



Gilberto Carvalho é outro ministro de quem a presidente Dilma está louca para se livrar, num eventual segundo governo. Ele se presta ao papel de porta-recados e “olheiro” de Lula no Palácio do Planalto.

FILA NA PORTA

Diplomatas em busca de promoção fazem fila na porta de Giles Azevedo, porta-agenda de Dilma. Até porque, em eventual segundo governo, ele pode substituir Gilberto Carvalho na Secretaria-Geral.

PENDÊNCIA

Metade dos estados passa pelo processo de judicialização das eleições para governador. Postulantes ao cargo de 14 estados ainda lutam na Justiça Eleitoral para aprovar a candidatura.

O PAPA POP

O papa Francisco continua um fenômeno de popularidade no Twitter. Ontem, ele fez o primeiro tweet com foto. As contas, com posts em diferentes línguas, já possuem mais de 15 milhões de seguidores.

SORRISO AMARELO

Depois que o livro da ex-mulher revelou que François Hollande chama pobres de “desdentados”, o presidente da França enfrentou protesto do sindicato dos dentistas pedindo que devolva o sorriso aos franceses.

GRITO NA REDE

Viciada em mídias sociais (que inspiraram seu projeto de partido “Rede”), Marina Silva utilizou o Twitter para reclamar da “indústria de boatos e mentiras” que lhe tira a paz. Ela diz sentir-se injustiçada.

PENSANDO BEM...

... se a qualidade do ensino caiu em quase todo o País, talvez o problema não seja com os alunos, mas com a dona da escola.


PODER SEM PUDOR

O PISTOLÃO CERTO

O talentoso jornalista Mauro Santayana acabara de ser nomeado adido cultural à embaixada do Brasil em Roma, nos anos 80. Um belo cargo, na mais impressionante representação diplomática em solo italiano - o Palácio Doria Pamphilij, na Piazza Navova, centro de Roma.

Um amigo encontrou Santayana e foi logo gozando:

- Puxa, esse é o emprego que pedi a Deus!...

O jornalista respondeu na bucha:

- Acho que você pediu ao cara errado. Quem me nomeou foi o presidente José Sarney.

sexta-feira, setembro 05, 2014

Petrodelação despeja óleo queimado na eleição - JOSIAS DE SOUZA

BLOG DO JOSIAS DE SOUZA


Como previsto, Paulo Roberto Costa, o ex-diretor preso da Petrobras, moveu a língua. Em troca de redução da pena, ele revela à Justiça segredos que estavam armazenados abaixo da camada pré-moral da maior estatal brasileira. O repórter Mario Cesar Carvalho conta que pingaram dos lábios do delator os nomes de 62 políticos que morderam propinas. São 12 senadores, 49 deputados e um governador. Gente filiada a três partidos: PT, PMDB e PP.

Na cadeia, Paulinho, como o depoente é chamado na intimidade, vinha dizendo que não haveria eleições em 2014 se ele contasse tudo o que sabe. Enquanto espera pelas novidades, resta à plateia raciocinar com hipóteses, desde as mais amplas —na pior das hipóteses, a sucessão presidencial será engolfada pelo óleo queimado, na melhor das hipóteses ficará com óleo pelo nariz— até as mais específicas.

No caso do que o país pode esperar com uma delação à vera de Paulinho, o leque das hipóteses é enorme, já que todo mundo tem uma noção do que foi feito da Petrobras depois que os partidos tomaram a estatal de assalto. A melhor das hipóteses é que o ex-diretor confirme que o dinheiro saía mesmo pelo ladrão nos contratos da Petrobras. A pior das hipóteses é que ele informe que os ladrões entraram nos contratos da Petrobras com autorização superior.

Dependendo do que está por vir, é possível que os protagonistas do governo tenham que se reposicionar na cena eleitoral. Talvez precisem fazer pose de administradores ingênuos ou políticos distraídos sendo usados por salteadores. Este é um governo dos patrimonialistas do PT, do PMDB e congêneres. Mas quem bota a cara na tevê por eles é a Dilma, quem fica com a má fama é a esquerda guerrilheira, que combateu a ditadura para acabar como marionete.

Por sorte, João Santana dispõe de um bom tempo de propaganda. Na pior das hipóteses, o marqueteiro de Dilma disfarçará os interesses escusos que se escondem atrás da boa biografia. Na melhor das hipóteses, ele ajuda a manter a ilusão de que há em Brasília alguém que comanda.

CAPA DA REVISTA VEJA

Paulo Roberto Costa começa a revelar nomes dos beneficiários do esquema de corrupção da Petrobras

Rodrigo Rangel





Preso em março pela Polícia Federal, sob a acusação de participar de um mega esquema de lavagem de dinheiro comandado pelo doleiro Alberto Youssef, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras Paulo Roberto Costa aceitou recentemente os termos de um acordo de delação premiada – e começou a falar.

No prédio da PF em Curitiba, ele vem sendo interrogado por delegados e procuradores. Os depoimentos são registrados em vídeo — na metade da semana passada, já havia pelo menos 42 horas de gravação. Paulo Roberto acusa uma verdadeira constelação de participar do esquema de corrupção. Aos investigadores, ele disse que três governadores, seis senadores, um ministro de Estado e pelo menos 25 deputados federais embolsaram ou tiraram proveito de parte do dinheiro roubado dos cofres da estatal.

Ele esmiúça, além disso, a lógica que predominava na assinatura dos contratos bilionários da Petrobras – admitindo, pela primeira vez, que as empreiteiras contratadas pela companhia tinham, obrigatoriamente, que contribuir para um caixa paralelo cujo destino final eram partidos e políticos de diferentes partidos da base aliada do governo. Conheça, nesta edição de VEJA, detalhes dos depoimentos que podem jogar o governo no centro de um escândalo de corrupção de proporções semelhantes às do mensalão.

Conheça nesta edição de VEJA os nomes dos políticos mencionados por Paulo Roberto Costa e outros detalhes do depoimento.

Para ler a continuação dessa reportagem compre a edição desta semana de VEJA no IBA, no tablet ou nas bancas, neste sábado.

EVITE FILA


                                                  

                           VIDEO ENVIADO POR APOLO

Dilma, Marina e o diabo - REINALDO AZEVEDO

FOLHA DE SP - 05/09


Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar das tentações do demônio do autoritarismo


Por mais que alguns torçam por isto, ainda não chegou a hora de eu ir criar galinhas, mas a tentação é grande. Às vezes, vem aquela preguiça enorme, a acídia, que alguém definiu certa feita como "entristecer-se do bem divino"... O Brasil fica muito chato com os mortos que procriam, a reivindicar mais quatro anos para que possam fabricar mais 40 de atraso. A alternativa são ilusões redentoras não menos defuntas a disputar um lugar no futuro. Não nos dispersemos, no entanto. Mas sem essa de "vamos juntos, de mãos dadas". Tou fora! Pensamento em grupo é formação de quadrilha intelectual.

Não achei que viveria o bastante para ver um argumento meu no horário eleitoral do PT, mas vi. Justo eu, o cara que cunhou o termo "petralha", que foi parar na lista negra, elaborada pelo sr. Alberto Cantalice, chefão do partido, das nove pessoas que fazem mal ao país. Sabem como é... Não sou herói do povo brasileiro, como José Dirceu e Delúbio Soares. Só dois presidentes foram eleitos acima dos partidos, notei no meu blog: Jânio Quadros e Fernando Collor. O primeiro deu no que deu. O segundo também. É claro que eu estava criticando o discurso de Marina Silva. Os petistas gostaram e levaram a observação ao ar. Franklin Martins e os blogueiros sujos não conseguiram ter uma ideia melhor do que a minha. O ex-ministro estava ocupado demais escrevendo asnices no site "Muda Mais" sobre a independência do Banco Central...

"Terrorismo!", gritaram os marineiros. Não! É história. O chamado "Eixo 01" do programa de Marina, intitulado "Estado e Democracia de Alta Intensidade", deixa no chinelo o Decreto 8.243, o destrambelho de sotaque bolivariano de Gilberto Carvalho --Dilma só é a "laranja" da proposta. Lá no tal "eixo" está escrito que "a política brasileira vive, atualmente, uma das crises de legitimidade mais agudas da democratização". E o texto prossegue: "Tornou-se comum a ocupação do espaço público por cidadãos que não pretendem mais delegar tudo a seus governantes". Então tá.

Esse modelo "em crise" mandou pra casa o primeiro presidente eleito depois da ditadura; deu posse ao vice; abrigou o Plano Real --que levou o povão a conviver com duas moedas, fato raro na história mundial; elegeu um sociólogo de esquerda (que apelou aos conservadores para fazer reformas vitais para o país); deu posse a um ex-operário, com baixa instrução, oriundo de uma região pobre (que apelou aos conservadores para não fazer reformas vitais para o país); elegeu uma ex-terrorista e tem, no momento, duas mulheres liderando a disputa presidencial: uma delas, a ex-seringueira dos pés descalços, ambientalista e sem partido, é justamente quem acusa a... crise do "modelo".

Que coisa, né? O PT chegou ao poder por intermédio da democracia representativa e propõe um simulacro de democracia direta, via decreto, para que seus "conselhos populares" possam, definitivamente, tomar conta do Estado. Esse mesmo sistema fez da Marina Descalçada uma figura mundialmente conhecida e pode lhe render até a Presidência da República, mas também ela não já não vê virtudes no modelo e pretende abrir o caminho para que suas ONGs substituam o povo.

É um escândalo intelectual que aquela glossolalia autoritária, disfarçada de "democracia de alta intensidade", não tenha sido destrinchada pela imprensa. Em vez disso, preferiu-se dar destaque à religiosidade de Marina. Suas considerações sobre o universo LGBT --e não consigo, de fato, imaginar nada mais urgente no Brasil...-- em nada diferem, em substância, das feitas por Dilma ou Aécio. Mas a máquina de difamação petista resolveu caracterizá-la como homofóbica. Parece que ela lê a Bíblia antes de tomar decisões. E daí? Logo se viu nisso um mal terrível. Bem fazia Stálin, por exemplo, que lia livros de linguística antes de mandar matar.

Acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Não acreditar em Deus nunca foi um problema no Brasil. Só a democracia, que deu à luz Dilma e Marina, pode salvar crentes e ateus das tentações do demônio do autoritarismo.

Ainda sobre a verdade no debate público - ARMINIO FRAGA

FOLHA DE SP - 05/09


Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com os fatos no debate público


Estamos em época de debate. Como mencionado em meu artigo "Mitos do PT", publicado na quinta-feira (28/8) nesta página, alguns simpatizantes daquele partido insistem em distorcer os fatos. Um perfeito exemplo surge no artigo desta última segunda-feira (1º), de Jorge Mattoso e Pedro Rossi, no qual manipulam duas frases minhas e erram, propositalmente ou não, sobre um dado público e fundamental. Não por acaso, essas criações são pilares da argumentação dos autores.

Os autores põem duas vezes entre aspas que acusei o governo de "preconceito ideológico com o investimento", quando escrevi que "falta investimento (no Brasil), vítima de preconceitos ideológicos e má gestão". Trata-se de tema de artigos e entrevistas que concedi ao longo de quatro anos.

Registre-se aqui também meu protesto contra outras aspas indevidas com que me brindou recentemente a deputada Margarida Salomão do PT em uma rede social. Ela pôs em minha boca que "o salário mínimo subiu demais", quando eu disse, em entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo" que tinha subido "muito". Sutil talvez, mas bem diferente. Essa mesma frase é convenientemente repetida pelos autores citados acima em seu artigo, demonstrando um padrão de desonestidade ou, no mínimo, de descuido.

Ainda sobre o investimento, constatei apenas que os resultados foram pífios, pois permanece deprimido como porcentagem do PIB. Não há preconceito ideológico contra o investimento, apenas contra o mercado, e incompetência em mobilizá-lo. O governo mascara seu fracasso quando a candidata oficial lista com valores inúmeros investimentos e programas, sem registrar que no agregado foi pouco. Equivale a dizer que fez dois gols e omitir que levou cinco. A propósito, cabe registrar que, de acordo com o IBGE, a taxa de investimento em 2013 foi de 17,9% do PIB, e não de 20,9%, como publicado no artigo dos autores (chegando hoje a 16,5% do PIB).

Os autores prosseguem cobrando uma série de respostas a perguntas que, para um leitor desavisado, podem dar a impressão de que tudo vai bem na economia, e que nós somos uma ameaça, uma certa cara de pau dado que a economia está em recessão, inclusive com perda de emprego na indústria.

Uma dessas perguntas liga a falsa referência aos salários à nossa postura quanto à distribuição de renda no Brasil. Aqui faltou reconhecerem os ganhos sociais do fim da hiperinflação e os ganhos de produtividade das muitas reformas de FHC, da mesma maneira que nós reconhecemos o mérito de Lula ao turbinar os programas sociais (alguns criados por FHC) e preservar em seu primeiro mandato os fundamentos da estabilidade macroeconômica e a agenda de reformas.

No campo da distribuição e igualdade de oportunidade, além de continuar com bons programas como o Bolsa Família, pretendemos se nos for dada a chance focar na qualidade da educação, saúde, transportes e segurança públicos. Pretendemos também eliminar ao longo do tempo a parte injustificada das medidas de proteção, subsídio e desoneração voltadas a empresas (o chamado bolsa empresário do atual governo) e direcionar esses recursos para programas de maior retorno social, com relevantes benefícios distributivos.

Nem tudo deu errado no âmbito da economia durante os anos do PT no poder, mas o modelo de Dilma nos deixou mal parados, precisando urgentemente de uma correção de rumo. No mais, sigo enjoado com a maneira desonesta pela qual pessoas como Mattoso e Rossi se colocam. Ninguém tem o monopólio da indignação e do repúdio à pobreza e à desigualdade. Nada justifica o descuido com as palavras e os fatos no debate público.

'Recessão técnica' - MONICA BAUMGARTEN DE BOLLE

O ESTADO DE S.PAULO 05/09


"O Brasil está em recessão técnica", disse-nos o IBGE na semana passada. Para os iniciados, recessão técnica é nada mais do que a constatação de que a atividade econômica do País se retraiu pelo segundo trimestre consecutivo. Para os incautos, "recessão técnica" é um péssimo termo para expressar as mazelas que nos afligem. Lembra "parada técnica", aquela regra que a Fifa inventou e que vimos na Copa, quando a temperatura excedia os 32° e os jogadores precisavam parar para dar aquela respirada, aquela hidratada, para então retornar ao campo a pleno vapor.

A economia brasileira não há de voltar ao campo a pleno vapor. Há quatro anos a coitada tenta se reerguer e dá de cara com os obstáculos que o governo impõe, inadvertidamente. Inadvertidamente porque pensa estar fazendo o melhor para o País e se recusa a perceber que nada funcionou até agora. Culpa a "crise externa" - ainda que os EUA estejam se recuperando e a China, crescendo -, secas e caprichos da natureza. Culpa até a Copa das Copas: "Foi a falta de dias úteis", diz Guido Mantega, e ecoa a presidente Dilma Rousseff.

Por certo, o mundo não está fácil. Problemas geopolíticos são muitos, das ameaças de Vladimir Putin às investidas do movimento islâmico Isis. A Europa está à beira de tornar-se um novo Japão: economia que não cresce, risco de deflação ou de queda generalizada dos preços. Nada disso, entretanto, tem impedido nossos pares de crescer. Podem até não estar se expandindo no ritmo que gostariam, mas crescem ainda assim. Afora as Argentinas e Venezuelas do mundo - casos escrachados de má gestão econômica -, os demais países emergentes têm conseguido contornar os problemas globais com alguma destreza. Não o Brasil. O Brasil do investimento que "ia se recuperar", mas que caiu 11% no segundo trimestre de 2014. Brasil, país da poupança de míseros 14% do PIB, montante que não dá nem para o começo dos ambiciosos planos de desenvolvimento do atual governo.

As políticas do governo deram errado. E agora? Como sair do atoleiro criado pelas supostas boas intenções que resultaram no pior resultado para a atividade desde 2009, ano das sequelas da maior crise financeira internacional do século? Essas são as questões que o próximo governo deverá enfrentar. Não nos iludamos: os próximos quatro anos hão de ser dedicados a consertar os estragos provocados pela má condução econômica do atual governo. A infraestrutura, o resgate da competitividade da economia brasileira, as reformas estruturais relativas à estrutura tributária e ao mercado de trabalho ficarão para depois. Não importa o que digam os candidatos hoje. A verdade inconveniente é que nenhum esforço para resolver os problemas estruturais do País resultará em algo se a estabilidade macroeconômica - hoje desmontada - não estiver consolidada.

Promessas sobre o que um ou outro fará para melhorar a saúde, a educação, a segurança nada significam se o País não voltar a crescer com inflação baixa, o que só pode ocorrer se a política fiscal for aprumada e a política monetária, resgatada. A política monetária, como comentei recentemente em entrevista para este jornal, é a parte fácil. Difícil mesmo é desembaralhar os balanços do Tesouro, das empresas do setor elétrico, do BNDES, da Caixa Econômica Federal. Sem isso, não há saneamento fiscal possível. Por onde começar? Confesso que não sei.

O que sei é que as promessas do atual governo perderam o sentido, as explicações fracassaram e não há mais espaço, tempo ou paciência para aguentar o discurso enfadonho que nos levou à "recessão técnica". O PT teve a sua era e deixou seu legado - uma melhora passageira da distribuição de renda. Passageira porque não souberam fazer a economia crescer e pouco se importaram com a inflação em alta. Repetem à exaustão que o mercado de trabalho está bem, mas a verdade é que o país que encolhe perde empregos, mais cedo ou mais tarde. Se nem sempre é vantajoso mexer em time que está ganhando, em time que está perdendo essa é uma necessidade premente. Está na hora de mexer.