O Estado de S.Paulo - 15/12
Em depoimento no Senado, na terça-feira, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, disse que "não há nova matriz econômica" e acrescentou: "Ninguém com responsabilidade na área econômica da atual administração" defende mudar a matriz - arranjo arquitetado pelo Ministério da Fazenda para substituir o tripé herdado da gestão FHC (inflação na meta, câmbio flutuante e superávit primário elevado).
Tombini também reprovou a troca do indexador da dívida dos Estados e prefeituras, igualmente proposta pela Fazenda: "A palavra é de cautela para qualquer mudança nessa arquitetura fiscal que foi construída no País" - outra herança bem-sucedida da gestão FHC. Neste item ele advertiu para o caos financeiro que na década de 1980 imperava em Estados e prefeituras e elogiou a renegociação de suas dívidas com a União, a proibição para bancos estaduais emitirem títulos de dívidas e a privatização desses bancos - tudo planejado e realizado no governo FHC.
Funcionário de carreira do BC desde 1998, Alexandre Tombini acompanhou de perto os governos FHC, Lula e Dilma. Ele não é tucano nem petista, é um técnico que tenta - sempre que pode - dar caráter técnico às suas análises e decisões. Já o ministro da Fazenda, Guido Mantega, é ligado ao PT desde antes da eleição de Lula e suas análises e decisões invariavelmente têm forte viés político, sobretudo quando ele faz previsões para o futuro - nunca concretizadas. Junto com sua equipe, há pouco mais de um ano ele arquitetou a "nova matriz econômica", que consiste na desvalorização do câmbio, queda da taxa de juros e redução da meta fiscal para acomodar investimentos.
Há um ano, em 17 de dezembro de 2012, em entrevista ao jornal Valor Econômico, o secretário de Política Econômica da Fazenda, Márcio Holland, explicou o significado da "nova matriz", sustentou que o movimento de transição para ela já estava completado e fez previsões econômicas para 2013, já sob seu efeito. Vejamos o que ele previu e o que aconteceu:
Juros: "As taxas de juros não voltarão aos níveis anteriores", garantiu o secretário na entrevista, saudando os efeitos positivos da "nova matriz". Na época, a Selic sofrera um corte brusco e estava em 7,25%, mas em abril de 2013 começou a trajetória de reajustes e hoje está em 10%.
Inflação: na época, com a inflação longe do centro da meta e muito próxima de 6%, Márcio Holland partiu para um argumento absurdo para aquele momento: "Taxas de inflação muito baixas levam os BCs a juros muito baixos, que, por sua vez, geram bolhas de ativos", advertiu. O caso brasileiro era justamente o inverso. Diante da insistência do repórter em comparar com a média de 3% de inflação nos países emergentes, respondeu simplesmente: "Não dá para comparar". E previu que em 2013 a taxa voltaria ao centro da meta. Segundo projeções do boletim Focus, do BC, em 2013 vai fechar em 5,7% e, em 2014, em 5,92%. Portanto, mais longe do que perto do centro da meta (4,5%).
Investimentos: há um ano o secretário da Fazenda fazia forte aposta na expansão de investimentos de longo prazo - públicos e privados - em 2013, em decorrência dos estímulos do governo e da "nova matriz econômica". A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF), que mede os investimentos, iria crescer 8% em 2013, o dobro do PIB. Segundo o IBGE, no terceiro trimestre de 2013, em comparação com igual período de 2012, a FBCF subiu 6,5%, mas caiu 2,2% em relação ao trimestre anterior. Por sua vez, o PIB está longe de confirmar a expansão de 4% prevista, devendo fechar próximo da metade, em 2013. Os leilões de privatização só engrenaram no final deste ano, ainda não viraram investimento efetivo e, na área estatal, Petrobrás e Eletrobrás não conseguem cumprir suas metas porque o governo encolhe suas tarifas e faturamento para conter a inflação.
Superávit primário: é onde mais aparece a discrepância entre promessa e realização. O governo passou o ano gastando além da conta e encolhendo a meta fiscal. Na entrevista, Holland prometeu superávit de 3,1% sem descontos. Na realidade, vai entregar 1/3 disso.
Cadê a "nova matriz"?
domingo, dezembro 15, 2013
Rumo ao grau de potência - HENRIQUE MEIRELLES
FOLHA DE SP - 15/12
Há compreensível preocupação com a possibilidade de o Brasil ter sua nota rebaixada pelas agências de avaliação de risco, com impacto no crédito e na economia em geral.
Menos falado, mas talvez mais preocupante, é a possibilidade de o país perder seu grau de potência econômica do século 21. A economia brasileira teve o pior desempenho entre as grandes economias no terceiro trimestre, mas voltou a crescer em outubro, apontando para um padrão de crescimento instável.
Mudanças estruturais e de alto impacto na dinâmica econômica, social, política e mesmo psíquica do país ocorreram na última década, alavancadas principalmente pela melhora do padrão de vida dos brasileiros, com incorporação de milhões à classe média e inflação controlada.
Fator de grande força simbólica foi a transformação do Brasil em credor internacional, quando o total das reservas líquidas do país superou o total da dívida pública e privada com o exterior, em 2008.
Meses depois, tivemos outro marco nesse rumo --a classificação do Brasil como grau de investimento, um selo de bom pagador crucial para financiar empresas e aumentar investimentos.
A percepção internacional do país começara a mudar antes disso. No início daquela década, o economista britânico Jim O'Neill criou o acrônimo Bric para reunir Brasil, Rússia, Índia e China, os quatro emergentes com grandes populações e potencial de crescimento, aptos a serem grandes potências econômicas nas próximas décadas.
Isso, e a evolução nos anos seguintes, pôs o Brasil em outra liga, dando sequência à evolução histórica de país subdesenvolvido, em desenvolvimento, emergente e, finalmente, Bric. Muito significativo, porém, foi o alerta dado pelo mesmo O'Neill de que o país, a seguir com o baixo crescimento dos últimos dois anos, pode sair do bloco dos Brics econômicos (há também o grupo Brics político, que reúne os quatro países mais a África do Sul).
Para reverter essa tendência, o Brasil deve retomar sua trajetória rumo ao grau de potência econômica. Isso demanda um choque de confiança, que elimine a contabilidade controversa das contas públicas e traga tranquilidade em relação à trajetória fiscal.
O controle dos gastos correntes deve financiar a expansão dos investimentos em infraestrutura e educação. É preciso também criar condições para aumentar o investimento do setor privado, elevar sua competitividade, incentivar a produtividade e o empreendedorismo e, finalmente, propor ao Congresso a independência legal do Banco Central.
Essas medidas são importantes para recolocar o Brasil no caminho do grau de país desenvolvido, com o padrão de vida desejado pelos brasileiros.
Há compreensível preocupação com a possibilidade de o Brasil ter sua nota rebaixada pelas agências de avaliação de risco, com impacto no crédito e na economia em geral.
Menos falado, mas talvez mais preocupante, é a possibilidade de o país perder seu grau de potência econômica do século 21. A economia brasileira teve o pior desempenho entre as grandes economias no terceiro trimestre, mas voltou a crescer em outubro, apontando para um padrão de crescimento instável.
Mudanças estruturais e de alto impacto na dinâmica econômica, social, política e mesmo psíquica do país ocorreram na última década, alavancadas principalmente pela melhora do padrão de vida dos brasileiros, com incorporação de milhões à classe média e inflação controlada.
Fator de grande força simbólica foi a transformação do Brasil em credor internacional, quando o total das reservas líquidas do país superou o total da dívida pública e privada com o exterior, em 2008.
Meses depois, tivemos outro marco nesse rumo --a classificação do Brasil como grau de investimento, um selo de bom pagador crucial para financiar empresas e aumentar investimentos.
A percepção internacional do país começara a mudar antes disso. No início daquela década, o economista britânico Jim O'Neill criou o acrônimo Bric para reunir Brasil, Rússia, Índia e China, os quatro emergentes com grandes populações e potencial de crescimento, aptos a serem grandes potências econômicas nas próximas décadas.
Isso, e a evolução nos anos seguintes, pôs o Brasil em outra liga, dando sequência à evolução histórica de país subdesenvolvido, em desenvolvimento, emergente e, finalmente, Bric. Muito significativo, porém, foi o alerta dado pelo mesmo O'Neill de que o país, a seguir com o baixo crescimento dos últimos dois anos, pode sair do bloco dos Brics econômicos (há também o grupo Brics político, que reúne os quatro países mais a África do Sul).
Para reverter essa tendência, o Brasil deve retomar sua trajetória rumo ao grau de potência econômica. Isso demanda um choque de confiança, que elimine a contabilidade controversa das contas públicas e traga tranquilidade em relação à trajetória fiscal.
O controle dos gastos correntes deve financiar a expansão dos investimentos em infraestrutura e educação. É preciso também criar condições para aumentar o investimento do setor privado, elevar sua competitividade, incentivar a produtividade e o empreendedorismo e, finalmente, propor ao Congresso a independência legal do Banco Central.
Essas medidas são importantes para recolocar o Brasil no caminho do grau de país desenvolvido, com o padrão de vida desejado pelos brasileiros.
Natasha e Eremildo numa prova do Enade - ELIO GASPARI
O GLOBO - 15/12
Madame Natasha fez as provas de administração e ciências econômicas do Enade e concluiu que o Ministério da Educação estimula a criação de um dialeto no qual os professores ensinam (e cobram) conhecimentos num idioma que não falam em casa. A senhora entende que há expressões técnicas que devem ser ensinadas e aprendidas, mas "empresa potencial entrante" é a popular "concorrente", "estatisticamente não significante" é apenas "insignificante", uma "asserção" é uma "afirmação" e "fator explicativo" é "uma das explicações".
Se um diretor de uma companhia disser que talvez seja obrigado a enfrentar uma empresa potencial entrante mas está tranquilo porque ela virá com uma produção estatisticamente não significante e que essa asserção é um fator explicativo da sua esperança de ganhar o bônus no fim do ano, será mandado ao manicômio.
Natasha acredita que, estimulando-se os alunos a aprender um dialeto incompreensível, consegue-se apenas fazer com que professores que não se fazem entender propaguem, com a ajuda do MEC, um blá-blá-blá de empulhação.
Por coincidência, Eremildo, o Idiota, fez a mesma prova. Como vive num quarto alugado nos fundos de uma pensão, sonha em se credenciar para um cargo na diretoria da Petros. Numa pergunta relacionada com economia brasileira dos anos 30, ele achou a expressão "indústria capitalista". O cretino acha que em Pindorama só havia essa, pois a socialista estava sob os cuidados de Stálin.
A dupla até hoje tenta decifrar o seguinte enunciado, relacionado com as novas formas de organização das empresas. Segundo o texto, elas são vistas também "como aperfeiçoamento da abordagem contingencial da administração. Os estudos realizados carecem, entretanto, de aprofundamento para que se possa considerar as chamadas organizações pós-modernas ou como expressão da ruptura qualitativa com a modernidade ou como versão especificamente histórica das organizações modernas".
Umas das alternativas de resposta era a seguinte: "De acordo com a compreensão sistêmica e comportamental da administração, as novas formas organizacionais revelam a ruptura com a racionalidade instrumental, caracterizando o paradigma pós-modernista".
Ganha uma viagem de ida a Pyongyang quem souber o que isso quer dizer. Indo-se ao gabarito, vê-se que essa alternativa estava errada. Era uma pegadinha, em blá-blá-blês.
Um professor com títulos e desempenho empresarial suficientes para dar inveja aos educatecas do MEC testou-se respondendo às oito questões de formação geral. Valendo-se de seus conhecimentos e de sua opiniões, errou quatro. Numa nova tentativa, colocou-se no modo "politicamente correto" e deu as respostas que intuiu serem as desejadas. Acertou seis. Num enunciado em que se descreve a influência dos jogos domésticos sobre as crianças, reduzindo seu interesse por questões ambientais, pedia-se aos estudantes que escolhessem um título para o texto. Uma das alternativas dizia: "Preferências atuais de lazer de jovens e crianças: preocupação dos ambientalistas". Errado. O título certo seria: "Engajamento de crianças e jovens na preservação do legado natural: uma necessidade imediata". Isso é título de manifesto.
POESIA
Os doutores Sérgio Cabral e Eduardo Paes apresentam-se como construtores de um novo Rio de Janeiro. Diante da cena do portão do novo Maracanã alagado, coisa que jamais ocorreu, vale relembrar o poema de Cacaso num período de euforia cívica:
Ficou moderno o Brasil,
Ficou moderno o Milagre:
A água já não vira vinho,
Vira direto vinagre.
PERNAS
De um empresário de nove dígitos:
"Se o problema da economia brasileira fosse o fato de estar com duas pernas mancas, talvez um ortopedista ajudasse. Como o problema está no cérebro, o caso é para psiquiatra."
PT CALMO
Uma parte do comissariado espera que a solidariedade coletiva oferecida ao mensaleiros presos seja a última. Nos últimos anos o partido ameaçou botar seus militantes nas ruas e Lula prometeu percorrer o país discutindo o caso. Nenhuma das duas coisas aconteceu.
ROSA WEBER
Se as decisões da ministra Rosa Weber no caso do cartel das fornecedores de equipamentos e de seus vínculos com os governos do PSDB paulista contrariarem o tucanato, virá a grita de que foi a doutora Dilma quem a nomeou.
Tudo bem, mas quem nomeou Joaquim Barbosa foi Lula.
OUTRA PONTA
Há um ponto cego nas inves-tigações das propinas cobradas por fiscais da Prefeitura de São Paulo. Quando empresários decidem enfrentar os achacadores e resolvem ir à Justiça, descobrem que nesse caso terão que lidar com uma nova quadrilha.
Isso acontece em vários Estados.
EDUARDO CAMPOS E O ATENTADO DE GUARARAPES
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tinha um ano de vida quando aconteceu o primeiro atentado terrorista de vulto da década. No dia 25 de julho de 1966 explodiu uma bomba no saguão do Aeroporto de Guararapes, onde centenas de pessoas esperavam pelo marechal Arthur da Costa e Silva, que sucederia seu colega Castello Branco na Presidência da República. A explosão matou um almirante, um jornalista e feriu 14 pessoas, inclusive uma criança.
Durante a cerimônia em que Ricardo Zarattini foi justamente inocentado de qualquer responsabilidade pelo episódio, Campos relembrou uma velha desconfiança: o atentado teria sido "um episódio utilizado para dividir a resistência ao golpe".
Sem o esclarecimento de que o atentado foi obra de militantes de esquerda, sobra a suspeita de que os militares tiveram algo a ver com a coisa. Lenda desonesta. Naqueles dias explodiram no Recife três bombas. Todas colocadas por um grupo ligado à Ação Popular, a AP. Quem montou e colocou o explosivo no aeroporto foi Raimundo Gonçalves Figueiredo, o "Raimundinho". Vindo para o Rio, e militando na VAR-Palmares, detonou mais duas bombas e foi assassinado em 1971.
Eduardo Campos já tinha 25 anos quando Jacob Gorender esclareceu que Zarattini nada tinha a ver com o atentado. Gorender sabia a identidade do autor. O governador tinha trinta anos quando o "Jornal do Commercio" do Recife publicou uma reportagem definitiva sobre o assunto. Nela havia uma entrevista do ex-padre Alipio de Freitas, que teria sido o mentor do grupo, ao repórter Gilvandro Filho. Nas palavras de Alipio: "Morreu gente, nós lamentamos. Mas aquilo era uma guerra, tinha que haver vítimas".
Madame Natasha fez as provas de administração e ciências econômicas do Enade e concluiu que o Ministério da Educação estimula a criação de um dialeto no qual os professores ensinam (e cobram) conhecimentos num idioma que não falam em casa. A senhora entende que há expressões técnicas que devem ser ensinadas e aprendidas, mas "empresa potencial entrante" é a popular "concorrente", "estatisticamente não significante" é apenas "insignificante", uma "asserção" é uma "afirmação" e "fator explicativo" é "uma das explicações".
Se um diretor de uma companhia disser que talvez seja obrigado a enfrentar uma empresa potencial entrante mas está tranquilo porque ela virá com uma produção estatisticamente não significante e que essa asserção é um fator explicativo da sua esperança de ganhar o bônus no fim do ano, será mandado ao manicômio.
Natasha acredita que, estimulando-se os alunos a aprender um dialeto incompreensível, consegue-se apenas fazer com que professores que não se fazem entender propaguem, com a ajuda do MEC, um blá-blá-blá de empulhação.
Por coincidência, Eremildo, o Idiota, fez a mesma prova. Como vive num quarto alugado nos fundos de uma pensão, sonha em se credenciar para um cargo na diretoria da Petros. Numa pergunta relacionada com economia brasileira dos anos 30, ele achou a expressão "indústria capitalista". O cretino acha que em Pindorama só havia essa, pois a socialista estava sob os cuidados de Stálin.
A dupla até hoje tenta decifrar o seguinte enunciado, relacionado com as novas formas de organização das empresas. Segundo o texto, elas são vistas também "como aperfeiçoamento da abordagem contingencial da administração. Os estudos realizados carecem, entretanto, de aprofundamento para que se possa considerar as chamadas organizações pós-modernas ou como expressão da ruptura qualitativa com a modernidade ou como versão especificamente histórica das organizações modernas".
Umas das alternativas de resposta era a seguinte: "De acordo com a compreensão sistêmica e comportamental da administração, as novas formas organizacionais revelam a ruptura com a racionalidade instrumental, caracterizando o paradigma pós-modernista".
Ganha uma viagem de ida a Pyongyang quem souber o que isso quer dizer. Indo-se ao gabarito, vê-se que essa alternativa estava errada. Era uma pegadinha, em blá-blá-blês.
Um professor com títulos e desempenho empresarial suficientes para dar inveja aos educatecas do MEC testou-se respondendo às oito questões de formação geral. Valendo-se de seus conhecimentos e de sua opiniões, errou quatro. Numa nova tentativa, colocou-se no modo "politicamente correto" e deu as respostas que intuiu serem as desejadas. Acertou seis. Num enunciado em que se descreve a influência dos jogos domésticos sobre as crianças, reduzindo seu interesse por questões ambientais, pedia-se aos estudantes que escolhessem um título para o texto. Uma das alternativas dizia: "Preferências atuais de lazer de jovens e crianças: preocupação dos ambientalistas". Errado. O título certo seria: "Engajamento de crianças e jovens na preservação do legado natural: uma necessidade imediata". Isso é título de manifesto.
POESIA
Os doutores Sérgio Cabral e Eduardo Paes apresentam-se como construtores de um novo Rio de Janeiro. Diante da cena do portão do novo Maracanã alagado, coisa que jamais ocorreu, vale relembrar o poema de Cacaso num período de euforia cívica:
Ficou moderno o Brasil,
Ficou moderno o Milagre:
A água já não vira vinho,
Vira direto vinagre.
PERNAS
De um empresário de nove dígitos:
"Se o problema da economia brasileira fosse o fato de estar com duas pernas mancas, talvez um ortopedista ajudasse. Como o problema está no cérebro, o caso é para psiquiatra."
PT CALMO
Uma parte do comissariado espera que a solidariedade coletiva oferecida ao mensaleiros presos seja a última. Nos últimos anos o partido ameaçou botar seus militantes nas ruas e Lula prometeu percorrer o país discutindo o caso. Nenhuma das duas coisas aconteceu.
ROSA WEBER
Se as decisões da ministra Rosa Weber no caso do cartel das fornecedores de equipamentos e de seus vínculos com os governos do PSDB paulista contrariarem o tucanato, virá a grita de que foi a doutora Dilma quem a nomeou.
Tudo bem, mas quem nomeou Joaquim Barbosa foi Lula.
OUTRA PONTA
Há um ponto cego nas inves-tigações das propinas cobradas por fiscais da Prefeitura de São Paulo. Quando empresários decidem enfrentar os achacadores e resolvem ir à Justiça, descobrem que nesse caso terão que lidar com uma nova quadrilha.
Isso acontece em vários Estados.
EDUARDO CAMPOS E O ATENTADO DE GUARARAPES
O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, tinha um ano de vida quando aconteceu o primeiro atentado terrorista de vulto da década. No dia 25 de julho de 1966 explodiu uma bomba no saguão do Aeroporto de Guararapes, onde centenas de pessoas esperavam pelo marechal Arthur da Costa e Silva, que sucederia seu colega Castello Branco na Presidência da República. A explosão matou um almirante, um jornalista e feriu 14 pessoas, inclusive uma criança.
Durante a cerimônia em que Ricardo Zarattini foi justamente inocentado de qualquer responsabilidade pelo episódio, Campos relembrou uma velha desconfiança: o atentado teria sido "um episódio utilizado para dividir a resistência ao golpe".
Sem o esclarecimento de que o atentado foi obra de militantes de esquerda, sobra a suspeita de que os militares tiveram algo a ver com a coisa. Lenda desonesta. Naqueles dias explodiram no Recife três bombas. Todas colocadas por um grupo ligado à Ação Popular, a AP. Quem montou e colocou o explosivo no aeroporto foi Raimundo Gonçalves Figueiredo, o "Raimundinho". Vindo para o Rio, e militando na VAR-Palmares, detonou mais duas bombas e foi assassinado em 1971.
Eduardo Campos já tinha 25 anos quando Jacob Gorender esclareceu que Zarattini nada tinha a ver com o atentado. Gorender sabia a identidade do autor. O governador tinha trinta anos quando o "Jornal do Commercio" do Recife publicou uma reportagem definitiva sobre o assunto. Nela havia uma entrevista do ex-padre Alipio de Freitas, que teria sido o mentor do grupo, ao repórter Gilvandro Filho. Nas palavras de Alipio: "Morreu gente, nós lamentamos. Mas aquilo era uma guerra, tinha que haver vítimas".
De mal a pior - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 15/12
Não têm sido boas, na semana passada pioraram e tendem a se deteriorar de vez as relações entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal caso não seja feito um arranjo no meio dos dois campos para se chegar a um entendimento sobre os limites de atuação de cada um dos Poderes. O Judiciário justifica que age no vácuo da inércia do Legislativo que, por sua vez, se sente usurpado em suas prerrogativas e já começa a preparar atos de revide explícito.
Na visão de um líder de bancada expressiva na Câmara, o Supremo pretende levar o Parlamento “ao corner” ao tentar proibir o financiamento de campanhas por empresas privadas com base no princípio da igualdade entre os cidadãos (cláusula pétrea da Constituição) só para impedir que deputados e senadores anulem a decisão por meio de emenda autorizando aquelas doações.
Cláusulas pétreas, como assenta a expressão, não podem ser modificadas. Em contrapartida, já se articulam no Congresso dois tipos de medidas: uma contra a Ordem dos Advogados do Brasil, autora da ação de inconstitucionalidade das doações corporativas, outra para atingir os ministros do Supremo.
Na quinta-feira, quando ficou clara a disposição de proibir as doações, os parlamentares começaram a falar de novo em acabar com as provas para obtenção de registro na OAB. O fim do “exame da Ordem” já sofreu duas derrotas no Congresso, mas diante do assunto posto em pauta pela entidade, muitos dos que eram contra vão ficando a favor: há movimentação para pedir votação em regime de urgência para esta semana, antes do recesso.
Outra reação ficaria para o ano que vem, quando concluído o julgamento interrompido pelo pedido de vista do ministro Teori Zavascki. A ideia é retomar a proposta de estipular um tempo de mandato para os ministros, que hoje só saem do cargo por desistência voluntária ou por aposentadoria compulsória aos 70 anos de idade.
O clima é de beligerância crescente pelo acúmulo de decisões judiciais que o Congresso acredita de sua exclusiva competência, culminando com essa questão do financiamento. Da perspectiva dos parlamentares, agora o STF entrou em área de ameaça à sobrevivência eleitoral de cada um deles.
A falta de diálogo entre os dois Poderes é patente. O espaço para interlocução, várias vezes utilizado quando questões sensíveis mereciam abordagens diretas entre as cúpulas do Legislativo e do Judiciário, ficou interditado desde a posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF. Ele é visto como um oponente. Por alguns, possível concorrente.
Há questionamento sobre a oportunidade de uma decisão sobre doações perto de uma eleição presidencial e o temor de que isso tumultue o processo. A ação da OAB chegou ao Supremo há dois anos.
E por que nesse meio tempo o Congresso não se mexeu para legislar sobre o financiamento? A resposta que se ouve é bastante óbvia: porque o Congresso quer manter as regras atuais e, se assim o deseja, considera que tem o direito delegado pelo voto popular de tratar o assunto como acha que deve ser tratado.
Não há, por esse raciocínio, base institucional para o Supremo acumular as funções de legislador e julgador. Nem haveria lógica formal na declaração de inconstitucionalidade do sistema de arrecadação em vigor que elege presidentes que indicam ministros do Supremo, cuja nomeação é confirmada por senadores também eleitos pelo mesmo sistema.
Seriam, então, todos ilegítimos, o processo estaria todo viciado por inconstitucional? Em face da realidade, a pergunta soa meramente retórica. Mas, se interesse houvesse das partes, poderia muito bem servir como ponto de partida para a construção de um ambiente mais afeito à convivência entre as instituições que ao clima de ringue de luta livre que assola a capital da República.
Não têm sido boas, na semana passada pioraram e tendem a se deteriorar de vez as relações entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal caso não seja feito um arranjo no meio dos dois campos para se chegar a um entendimento sobre os limites de atuação de cada um dos Poderes. O Judiciário justifica que age no vácuo da inércia do Legislativo que, por sua vez, se sente usurpado em suas prerrogativas e já começa a preparar atos de revide explícito.
Na visão de um líder de bancada expressiva na Câmara, o Supremo pretende levar o Parlamento “ao corner” ao tentar proibir o financiamento de campanhas por empresas privadas com base no princípio da igualdade entre os cidadãos (cláusula pétrea da Constituição) só para impedir que deputados e senadores anulem a decisão por meio de emenda autorizando aquelas doações.
Cláusulas pétreas, como assenta a expressão, não podem ser modificadas. Em contrapartida, já se articulam no Congresso dois tipos de medidas: uma contra a Ordem dos Advogados do Brasil, autora da ação de inconstitucionalidade das doações corporativas, outra para atingir os ministros do Supremo.
Na quinta-feira, quando ficou clara a disposição de proibir as doações, os parlamentares começaram a falar de novo em acabar com as provas para obtenção de registro na OAB. O fim do “exame da Ordem” já sofreu duas derrotas no Congresso, mas diante do assunto posto em pauta pela entidade, muitos dos que eram contra vão ficando a favor: há movimentação para pedir votação em regime de urgência para esta semana, antes do recesso.
Outra reação ficaria para o ano que vem, quando concluído o julgamento interrompido pelo pedido de vista do ministro Teori Zavascki. A ideia é retomar a proposta de estipular um tempo de mandato para os ministros, que hoje só saem do cargo por desistência voluntária ou por aposentadoria compulsória aos 70 anos de idade.
O clima é de beligerância crescente pelo acúmulo de decisões judiciais que o Congresso acredita de sua exclusiva competência, culminando com essa questão do financiamento. Da perspectiva dos parlamentares, agora o STF entrou em área de ameaça à sobrevivência eleitoral de cada um deles.
A falta de diálogo entre os dois Poderes é patente. O espaço para interlocução, várias vezes utilizado quando questões sensíveis mereciam abordagens diretas entre as cúpulas do Legislativo e do Judiciário, ficou interditado desde a posse de Joaquim Barbosa na presidência do STF. Ele é visto como um oponente. Por alguns, possível concorrente.
Há questionamento sobre a oportunidade de uma decisão sobre doações perto de uma eleição presidencial e o temor de que isso tumultue o processo. A ação da OAB chegou ao Supremo há dois anos.
E por que nesse meio tempo o Congresso não se mexeu para legislar sobre o financiamento? A resposta que se ouve é bastante óbvia: porque o Congresso quer manter as regras atuais e, se assim o deseja, considera que tem o direito delegado pelo voto popular de tratar o assunto como acha que deve ser tratado.
Não há, por esse raciocínio, base institucional para o Supremo acumular as funções de legislador e julgador. Nem haveria lógica formal na declaração de inconstitucionalidade do sistema de arrecadação em vigor que elege presidentes que indicam ministros do Supremo, cuja nomeação é confirmada por senadores também eleitos pelo mesmo sistema.
Seriam, então, todos ilegítimos, o processo estaria todo viciado por inconstitucional? Em face da realidade, a pergunta soa meramente retórica. Mas, se interesse houvesse das partes, poderia muito bem servir como ponto de partida para a construção de um ambiente mais afeito à convivência entre as instituições que ao clima de ringue de luta livre que assola a capital da República.
A estratégia do escracho - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR
GAZETA DO POVO - PR - 15/12
Que a Justiça em nosso país está caprichando em protagonismos midiáticos, não há dúvida. Um exemplo é a data escolhida pelo ministro Joaquim Barbosa para decretar a prisão dos mensaleiros mais ilustres: um feriado no fim de semana. Afinal, era a data da República e o gesto inédito de mandar altos dirigentes políticos do partido dominante para a cadeia tinha uma clara significação republicana. Outros episódios são totalmente desnecessários e banalizam as opiniões de pessoas que deveriam – por uma questão de recato profissional – se reservar para falar “nos autos”, sem correr o risco de más interpretações e manipulações de suas opiniões. Mas essas coisas são apenas gravetos lançados à fogueira das vaidades.
Ainda no caso do mensalão, os protestos indignados dos condenados e de seus partidários políticos soam como comparações espúrias e descabidas: os condenados, por exemplo, se declaram presos políticos em um país em pleno exercício das liberdades e garantias civis, tendo sido julgados por juízes majoritariamente indicados por governantes que lhes são simpáticos. Ao mesmo tempo, o deputado João Paulo Cunha, aquele mesmo que mandou a esposa a uma agência bancária em Brasília para arrecadar R$ 50 mil e mentiu declarando que ela havia ido ao banco pagar uma conta de celular, se compara a Nelson Mandela (que não deve ter se dado ao trabalho de se revirar no caixão pelo absurdo da coisa) como vítima de um Estado iníquo. Isso é parte do jus esperneandi e ponto final.
Sério, muito sério mesmo, é o episódio da prisão de dois delegados de polícia pelo orgão investigativo do Ministério Público do Paraná, o Gaeco, por motivos aparentemente injustificáveis. Digo “aparentemente” em benefício da dúvida, pois o Gaeco não se deu ao trabalho de declarar publicamente, com mínima exatidão, a razão de se chegar às 6 da manhã com grande aparato na casa de pessoas que não são criminosos procurados ou na iminência de fuga. A invocação do “segredo de Justiça” e a alegação vaga de que se tratava de “proteger as investigações em curso” tem um inevitável odor de vendetta corporativa.
Ora, as investigações a que se refere o Gaeco têm dois anos e – de novo aparentemente – não experimentaram nenhuma reviravolta dramática com a descoberta de fatos escabrosos nos últimos tempos. O que se sabe, pela imprensa, é que se trata ainda da invasão de uma casa no Parolin onde se praticava jogo ilegal de caça-níqueis. A não ser que a tavolagem tenha sido transformada em crime hediondo, ou que no Paraná bicheiros e afins tenham tomado o caminho dos seus colegas cariocas e se envolvido com crimes de sangue e com o tráfico de drogas, não há justificativa para tanta truculência. Quanto à exploração da prostituição no local, trata-se também de uma infração “datada”, como está na moda se dizer; a vetusta profissão resiste bravamente aqui e ali, mas, em vez de invadir aparatosamente casas de supostos envolvidos, por que não fazer algo mais simples e barato: transitar em algumas ruas do Centro, onde até outdoors são utilizados para promover as meninas da casa? Ou acessar a internet, onde a oferta de garotas e garotos de programa, sem disfarces, tem escala industrial?
Carlos Lacerda, com sua invencível inteligência demolidora, disse certa vez que a polícia do estado da Guanabara, que ele governava, não iria perseguir prostitutas e cafetões porque o sexo era o único setor da atividade humana em que o amadorismo iria derrotar o profissionalismo mais cedo ou mais tarde.
Em português claro e inequívoco: prender alguém, macular sua vida pessoal e profissional para sempre como sócio de proxenetas ou bicheiros, e refugiar-se atrás do segredo de Justiça para não explicar à sociedade por que e para que está cometendo esse ato extremo é pura e simplesmente adotar a estratégia do escracho, o desrespeito mais flagrante aos direitos civis de alguém, um ato de mera arrogância e truculência de que as instituições do Estado civilizado têm obrigação de preservar todos seus cidadãos a qualquer custo.
Que a Justiça em nosso país está caprichando em protagonismos midiáticos, não há dúvida. Um exemplo é a data escolhida pelo ministro Joaquim Barbosa para decretar a prisão dos mensaleiros mais ilustres: um feriado no fim de semana. Afinal, era a data da República e o gesto inédito de mandar altos dirigentes políticos do partido dominante para a cadeia tinha uma clara significação republicana. Outros episódios são totalmente desnecessários e banalizam as opiniões de pessoas que deveriam – por uma questão de recato profissional – se reservar para falar “nos autos”, sem correr o risco de más interpretações e manipulações de suas opiniões. Mas essas coisas são apenas gravetos lançados à fogueira das vaidades.
Ainda no caso do mensalão, os protestos indignados dos condenados e de seus partidários políticos soam como comparações espúrias e descabidas: os condenados, por exemplo, se declaram presos políticos em um país em pleno exercício das liberdades e garantias civis, tendo sido julgados por juízes majoritariamente indicados por governantes que lhes são simpáticos. Ao mesmo tempo, o deputado João Paulo Cunha, aquele mesmo que mandou a esposa a uma agência bancária em Brasília para arrecadar R$ 50 mil e mentiu declarando que ela havia ido ao banco pagar uma conta de celular, se compara a Nelson Mandela (que não deve ter se dado ao trabalho de se revirar no caixão pelo absurdo da coisa) como vítima de um Estado iníquo. Isso é parte do jus esperneandi e ponto final.
Sério, muito sério mesmo, é o episódio da prisão de dois delegados de polícia pelo orgão investigativo do Ministério Público do Paraná, o Gaeco, por motivos aparentemente injustificáveis. Digo “aparentemente” em benefício da dúvida, pois o Gaeco não se deu ao trabalho de declarar publicamente, com mínima exatidão, a razão de se chegar às 6 da manhã com grande aparato na casa de pessoas que não são criminosos procurados ou na iminência de fuga. A invocação do “segredo de Justiça” e a alegação vaga de que se tratava de “proteger as investigações em curso” tem um inevitável odor de vendetta corporativa.
Ora, as investigações a que se refere o Gaeco têm dois anos e – de novo aparentemente – não experimentaram nenhuma reviravolta dramática com a descoberta de fatos escabrosos nos últimos tempos. O que se sabe, pela imprensa, é que se trata ainda da invasão de uma casa no Parolin onde se praticava jogo ilegal de caça-níqueis. A não ser que a tavolagem tenha sido transformada em crime hediondo, ou que no Paraná bicheiros e afins tenham tomado o caminho dos seus colegas cariocas e se envolvido com crimes de sangue e com o tráfico de drogas, não há justificativa para tanta truculência. Quanto à exploração da prostituição no local, trata-se também de uma infração “datada”, como está na moda se dizer; a vetusta profissão resiste bravamente aqui e ali, mas, em vez de invadir aparatosamente casas de supostos envolvidos, por que não fazer algo mais simples e barato: transitar em algumas ruas do Centro, onde até outdoors são utilizados para promover as meninas da casa? Ou acessar a internet, onde a oferta de garotas e garotos de programa, sem disfarces, tem escala industrial?
Carlos Lacerda, com sua invencível inteligência demolidora, disse certa vez que a polícia do estado da Guanabara, que ele governava, não iria perseguir prostitutas e cafetões porque o sexo era o único setor da atividade humana em que o amadorismo iria derrotar o profissionalismo mais cedo ou mais tarde.
Em português claro e inequívoco: prender alguém, macular sua vida pessoal e profissional para sempre como sócio de proxenetas ou bicheiros, e refugiar-se atrás do segredo de Justiça para não explicar à sociedade por que e para que está cometendo esse ato extremo é pura e simplesmente adotar a estratégia do escracho, o desrespeito mais flagrante aos direitos civis de alguém, um ato de mera arrogância e truculência de que as instituições do Estado civilizado têm obrigação de preservar todos seus cidadãos a qualquer custo.
A cocaína de Lula - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 15/12
BRASÍLIA - Lula não precisa e não deveria desferir golpes abaixo da cintura, até porque o PT já tem bom arsenal contra os tucanos nas eleições de 2014, atacando de Siemens, Alstom, trem, metrô, palavrinhas que marcam bem uma campanha.
Com sua alta popularidade, seu poder de comando no PT e seu status de ex-presidente, ele deveria pensar bem antes de falar e mais ainda antes de insinuar. Mas Lula foi buscar mensagem subliminar de profundo mau gosto contra adversários.
Os gritos ecoavam no salão cheio de jovens e militantes no congresso do PT: "Sou brasileiro e não me engano, a cocaína financia os tucanos".
O grande líder não apenas autorizou como potencializou, jogando gasolina na fogueira: "Se for comparar o emprego do Zé Dirceu no hotel com a quantidade de cocaína no helicóptero, pelo menos houve uma desproporcionalidade no assunto".
Era para ser mais um ataque à imprensa, tática surrada de Lula para levar as plateias petistas ao delírio, mas virou uma tentativa um tanto sórdida de criar e massificar um vínculo dos tucanos com cocaína.
A referência dos militantes --que até podem ser irresponsáveis-- e do seu líder --que não tem esse direito-- era à grande dose da droga encontrada no helicóptero da família do senador Zezé Perrella.
Perrella é ligado ao candidato tucano à Presidência, Aécio Neves, mas ele não é do PSDB, é do PDT. E, aliás, até sexta não havia algo que o comprometesse com a co- caína e muito menos um documento, uma declaração ou uma revelação envolvendo o tucano com as dro- gas do helicóptero.
Derrotado usar essa sujeira já seria inadmissível. Se quem usa é potencial vitorioso, como Lula, passa a ser indigno. Enlameia não os adversários, mas a própria campanha.
Duvido que Dilma aprove. Mas também duvido que ela tenha poder para controlar Lula, o partido e até a própria campanha. Que, apesar de favorita, vai por um mau caminho.
Pão, circo e violência - GAUDÊNCIO TORQUATO
O ESTADÃO - 15/12
A historinha é conhecida. Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d. C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito, aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum(Coliseu), que daria a ele “muitas alegrias e infinita memória”. Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar nas arquibancadas deste último. O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso monumento, no centro de Roma, com 100 dias de festa. Descortinava-se, ali, a era do “panis et circensis”, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão. Implicava alto custo aos cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos. É sabido que os jogos, ao longo da história da Humanidade, funcionaram como verniz para ilustrar a imagem de governantes. Hoje, a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua recebendo atenção de administradores públicos de todos os quadrantes.
"O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes.”
Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo. O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de alçar os píncaros da fama, mas o comportamento das plateias. Espectadores que, outrora, fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando a performance de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não apenas a arma das imprecações, mas armas de fogo e partindo para a violência física. A alteração comportamental das pessoas que vão aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional, e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas. O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento de torcedores a estádios, majoração de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes.
Pouco adiantará administrar as tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está em baixo. A mobilização de pessoas para formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo. A competição assume posicionamento singular em todos os setores, espaços, núcleos, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual envergando bandeiras, discursos, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos pólos de poder. Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertinência a um grupo. Fazer parte de torcidas, como a Mancha Verde, os Gaviões da Fiel, a Independente, passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e de lazer.
Ao escopo semântico – onde se agrupam as agruras sociais – adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores – o verde, o vermelho e preto, o preto e branco, o azul, o amarelo canarinho – os símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), a vestimenta com os dizeres da moda, o estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos, e, fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas de TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra. Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos. Não se trata de implantar meras ações de marketing cultural – eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube – mas de um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.
É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais, um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania. É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o sarro tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de um torcedor sejam motivo para a pancadaria. Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico “panis et circensis” seria acrescido de “violentia”. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.
A historinha é conhecida. Vespasiano, o imperador, em 22 de junho de 79 d. C., pouco antes de morrer, em carta ao filho Tito, aconselhava-o a concluir a construção do Colosseum(Coliseu), que daria a ele “muitas alegrias e infinita memória”. Pois, entre um banheiro, um banco de escola ou um estádio, o povo preferia sentar nas arquibancadas deste último. O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes. Tito acabou inaugurando o famoso monumento, no centro de Roma, com 100 dias de festa. Descortinava-se, ali, a era do “panis et circensis”, que consistia em proporcionar, naquela arena, espetáculos sangrentos entre gladiadores e distribuição gratuita de pão. Implicava alto custo aos cofres do Império, com elevação de impostos e economia destroçada, mas a prática populista emprestava enorme prestígio aos imperadores romanos. É sabido que os jogos, ao longo da história da Humanidade, funcionaram como verniz para ilustrar a imagem de governantes. Hoje, a estratégia para cooptar a simpatia das populações por meio das artes/artimanhas e do entretenimento continua recebendo atenção de administradores públicos de todos os quadrantes.
"O conselho se fundamentava na ideia de que seduzir a plebe com pão e circo era a melhor receita para diminuir a insatisfação popular contra os governantes.”
Não por acaso, nossas arenas esportivas, que se preparam para abrigar os jogos da Copa de 2014, deverão colorir o portfólio de feitos do governo. O que tem mudado na paisagem dos espaços lúdicos não é a ambição dos condutores dos Estados de alçar os píncaros da fama, mas o comportamento das plateias. Espectadores que, outrora, fruíam a catarse dos embates esportivos, exaltando ou deplorando a performance de contendores, tornam-se eles próprios competidores, lutadores, gladiadores, disparando uns contra outros não apenas a arma das imprecações, mas armas de fogo e partindo para a violência física. A alteração comportamental das pessoas que vão aos estádios é preocupante, principalmente em nosso território, que elege o futebol como esporte nacional, e se depara, a cada campeonato, com os novos sujeitos, as chamadas torcidas organizadas. O fenômeno toma vulto ante o risco de o Brasil vir a ser, por excelência, o palco da violência futebolística, pela constatação de que o aparato da segurança pública tem sido ineficaz para debelar a desordem e a pancadaria nas arquibancadas, a par de medidas paliativas, como cerceamento de torcedores a estádios, majoração de ingressos, jogos com portões fechados, perda de mando de campo e multas aos clubes.
Pouco adiantará administrar as tensões e conflitos sob o escudo policial-repressivo. Como se diz no vulgo, o buraco é mais profundo e está em baixo. A mobilização de pessoas para formação de grupos e a organização de torcidas obedecem a nova ordem que impregna a dinâmica social no mundo contemporâneo. A competição assume posicionamento singular em todos os setores, espaços, núcleos, categorias profissionais e classes sociais. As massas fragmentam-se em núcleos, cada qual envergando bandeiras, discursos, uniformes, armas e instrumentos. Os avanços civilizatórios nos campos da macroeconomia, da política e da cultura abrem comportamentos diferentes, multiplicando as pequenas organizações sociais e gerando novos pólos de poder. Os espaços urbanos ganham novos contornos, a esfera do trabalho traz novos desafios e a busca de uma identidade passa a ser central para os indivíduos, principalmente os jovens, motivados a expressar valores como masculinidade, coragem, companheirismo, coesão, solidariedade, sentimento de pertinência a um grupo. Fazer parte de torcidas, como a Mancha Verde, os Gaviões da Fiel, a Independente, passou a ser referência para habitantes de cidades congestionadas, carentes de serviços e de lazer.
Ao escopo semântico – onde se agrupam as agruras sociais – adiciona-se uma estética de diferenciação, caracterizada pelas cores – o verde, o vermelho e preto, o preto e branco, o azul, o amarelo canarinho – os símbolos (gavião, porco, urubu, galo, raposa, coelho, timbu, baleia, leão), a vestimenta com os dizeres da moda, o estilo de andar, de pensar, de perambular em bandos, e, fechando o circuito, a espetacularização midiática, por meio da qual os torcedores poderão ver nas telas de TV seus gestos, feições alegres ou crispadas de ódio e ouvir gritos de guerra. Condenar as turbas com designativos de vândalos, bandidos, selvagens, adensar forças policiais em estádios, continuar a usar meios tradicionais, como punição a clubes, não conseguirão eliminar a violência das torcidas organizadas. Mais cedo ou mais tarde, os atos voltarão. O disciplinamento e a ordem hão de levar em conta a elevação de padrões comportamentais, ancorada no esforço de educação (reeducação) de torcedores fanáticos. Não se trata de implantar meras ações de marketing cultural – eventos festivos e associativos para alinhamento dos torcedores ao espírito do clube – mas de um amplo programa com o objetivo de compor um ideário voltado para engrandecer o espírito da democracia, com respeito aos princípios da ordem e disciplina, que não devem ser incompatíveis com o entusiasmo das torcidas.
É evidente que ante a moldura de extrema competitividade e crescente agressividade entre grupamentos sociais, um esforço nessa direção não será tarefa fácil. O que aqui se propõe é uma ação cívica dos clubes de futebol na tentativa de ajudar o Estado brasileiro a melhorar a argamassa do edifício da cidadania. É inimaginável que torcidas se vejam como inimigas tomadas de ódio e virulência; e que o sarro tirado por um bandeirinha na direção de um grupo nas arquibancadas, o apito errado de um juiz, um ato menos educado de um policial ou um xingamento de um torcedor sejam motivo para a pancadaria. Nem Vespasiano nem Tito imaginariam que, um dia, o dístico “panis et circensis” seria acrescido de “violentia”. Fosse assim, o velho Coliseu não estaria em pé.
O dinheiro do voto - JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SP - 15/12
Não tem fundamento dizer que substituir as doações empresarias por pessoais vai aumentar o caixa dois
O argumento mais forte contra a provável proibição, pelo Supremo Tribunal Federal, de doações eleitorais por empresas, é pobre de seriedade e paupérrimo de inteligência. Não tem fundamento afirmar que substituir as doações empresariais por pessoais vai aumentar ameaçadoramente o caixa dois nas campanhas, o dinheiro de doações encobertas, dada a óbvia razão de que não se tem nem estimativa da proporção dessa ilegalidade nas eleições passadas.
O chute, difundido pelo PSDB, expressa a preocupação dos grandes beneficiários de doações empresariais. Mas implica acusar seus doadores publicamente: se as pessoas não precisam fazer doações ilegais, o aumento de caixa dois em campanhas só pode ser feito por doações clandestinas de empresas, em prática criminosa de empresários. Gente mal-agradecida, esses peessedebistas.
Na preocupação dos partidos identificados com o empresariado percebe-se também o medo de que, permitidas apenas doações pessoais, os partidos mais populares levem vantagem. Os fatos não apoiam tal medo: o PT sempre precisou buscar, e recebeu, doações empresariais para suprir a estrangulante modéstia das doações pessoais, apesar do esforço para incentivá-las. Era o efeito de um condicionante econômico que pode estar mudado, mas não extinto.
Por isso mesmo, as doações apenas individuais são potencialmente capazes de surpreender quem hoje as teme. Os partidos populares podem esperar maior quantidade de doadores. Mas, para cada real vindo dos seus, os do PSDB, do DEM e dos centuriões do agronegócio estão prontos para doar na proporção de dez reais por aquele real, cem por um, mil por um, sem que a carteira sequer o perceba.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, está tão irritado quanto os peessedebistas mais irritados com a perspectiva da mudança de doadores. Chama a ação da OAB, pelo fim das doações de empresas, de estudantada. Com uma pergunta assim, por exemplo: "Essa gente fica fora da política?" É uma sagração da empresa que nem os neoliberais fizeram: a empresa vista como gente. E portadora de cidadania, para ser parte da política. Muito original.
Não tanto, porém, quando, em crítica aos quatro colegas que já votaram pela mudança, diz que "estamos [lá o Supremo] fazendo um tipo de lei para beneficiar quem estiver no poder". Dá oportunidade para observar-se uma reação fraudulenta cometida por muitos, inclusive pelos presidentes da Câmara e do Senado. O Supremo não está absorvendo função do Congresso, não está fazendo lei. Está, como lhe compete, examinando e vai decidir a compatibilidade, ou sua falta, entre a Constituição e a participação de empresas em eleições como financiadoras de candidatos, além do mais, selecionados a critério empresarial.
A doação pessoal não assegura o fim do caixa dois, o dinheiro não declarado pelo candidato ou pelo partido à Justiça Eleitoral. Mas dificulta e, portanto, reduz essa violação do processo de composição do Congresso e dos governos. Logo, colabora para maior higiene política. E tende a reduzir o custo, hoje imoral, da eleição a qualquer cargo. Logo, colabora para a democratização eleitoral e para a maior legitimidade da composição dos poderes. Democratização eleitoral e legitimidade hoje degeneradas.
PS -- Alguma boa alma precisa avisar aos Estados Unidos que o financiamento eleitoral deles ainda não passa de estudantada.
O FEITO
A vida pública de Nelson Mandela permite, e não lhe faltou, uma infinidade de ângulos de abordagem, análise e avaliação. Mas, suponho, só um tem sentido.
Mandela mudou a concepção de vida de uma nação, ideias consolidadas e sentimentos enraizados por várias gerações. O PIB, a segurança, a inflação, essas são as miudezas habituais que só poderiam ficar, como ficaram, com os habituais que delas se ocupam dos modos habituais. O que distingue Mandela é ter feito com uma nação o que é difícil mesmo na vida pessoal e, quando ocorre, em geral leva muito mais tempo.
Não tem fundamento dizer que substituir as doações empresarias por pessoais vai aumentar o caixa dois
O argumento mais forte contra a provável proibição, pelo Supremo Tribunal Federal, de doações eleitorais por empresas, é pobre de seriedade e paupérrimo de inteligência. Não tem fundamento afirmar que substituir as doações empresariais por pessoais vai aumentar ameaçadoramente o caixa dois nas campanhas, o dinheiro de doações encobertas, dada a óbvia razão de que não se tem nem estimativa da proporção dessa ilegalidade nas eleições passadas.
O chute, difundido pelo PSDB, expressa a preocupação dos grandes beneficiários de doações empresariais. Mas implica acusar seus doadores publicamente: se as pessoas não precisam fazer doações ilegais, o aumento de caixa dois em campanhas só pode ser feito por doações clandestinas de empresas, em prática criminosa de empresários. Gente mal-agradecida, esses peessedebistas.
Na preocupação dos partidos identificados com o empresariado percebe-se também o medo de que, permitidas apenas doações pessoais, os partidos mais populares levem vantagem. Os fatos não apoiam tal medo: o PT sempre precisou buscar, e recebeu, doações empresariais para suprir a estrangulante modéstia das doações pessoais, apesar do esforço para incentivá-las. Era o efeito de um condicionante econômico que pode estar mudado, mas não extinto.
Por isso mesmo, as doações apenas individuais são potencialmente capazes de surpreender quem hoje as teme. Os partidos populares podem esperar maior quantidade de doadores. Mas, para cada real vindo dos seus, os do PSDB, do DEM e dos centuriões do agronegócio estão prontos para doar na proporção de dez reais por aquele real, cem por um, mil por um, sem que a carteira sequer o perceba.
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo, está tão irritado quanto os peessedebistas mais irritados com a perspectiva da mudança de doadores. Chama a ação da OAB, pelo fim das doações de empresas, de estudantada. Com uma pergunta assim, por exemplo: "Essa gente fica fora da política?" É uma sagração da empresa que nem os neoliberais fizeram: a empresa vista como gente. E portadora de cidadania, para ser parte da política. Muito original.
Não tanto, porém, quando, em crítica aos quatro colegas que já votaram pela mudança, diz que "estamos [lá o Supremo] fazendo um tipo de lei para beneficiar quem estiver no poder". Dá oportunidade para observar-se uma reação fraudulenta cometida por muitos, inclusive pelos presidentes da Câmara e do Senado. O Supremo não está absorvendo função do Congresso, não está fazendo lei. Está, como lhe compete, examinando e vai decidir a compatibilidade, ou sua falta, entre a Constituição e a participação de empresas em eleições como financiadoras de candidatos, além do mais, selecionados a critério empresarial.
A doação pessoal não assegura o fim do caixa dois, o dinheiro não declarado pelo candidato ou pelo partido à Justiça Eleitoral. Mas dificulta e, portanto, reduz essa violação do processo de composição do Congresso e dos governos. Logo, colabora para maior higiene política. E tende a reduzir o custo, hoje imoral, da eleição a qualquer cargo. Logo, colabora para a democratização eleitoral e para a maior legitimidade da composição dos poderes. Democratização eleitoral e legitimidade hoje degeneradas.
PS -- Alguma boa alma precisa avisar aos Estados Unidos que o financiamento eleitoral deles ainda não passa de estudantada.
O FEITO
A vida pública de Nelson Mandela permite, e não lhe faltou, uma infinidade de ângulos de abordagem, análise e avaliação. Mas, suponho, só um tem sentido.
Mandela mudou a concepção de vida de uma nação, ideias consolidadas e sentimentos enraizados por várias gerações. O PIB, a segurança, a inflação, essas são as miudezas habituais que só poderiam ficar, como ficaram, com os habituais que delas se ocupam dos modos habituais. O que distingue Mandela é ter feito com uma nação o que é difícil mesmo na vida pessoal e, quando ocorre, em geral leva muito mais tempo.
Gastos frouxos anulam rigor na arrecadação - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 15/12
A União tem a obrigação de administrar as despesas públicas com o mesmo rigor que emprega na arrecadação de receitas. Mas a lógica desse preceito não encontra a correspondência na realidade. Todos os anos o contribuinte se cerca de cuidados para declarar o Imposto de Renda, sabedor de que o máximo de zelo ainda será pouco para livrá-lo das garras do Leão. Cumprir tal responsabilidade seria o de menos, se houvesse a certeza de que a parcela dos salários entregue ao Estado fosse voltar na forma de bons serviços de educação, saúde, transportes, segurança, infraestrutura.
Não é o que se vê. O pagamento de propinas, o superfaturamento, o desperdício provocado pela escolha errada na hora de investir os recursos, os aditamentos de contratos decorrentes do descumprimento de prazos e de irregularidades em licitações, a omissão na fiscalização de obras - que, em regra, atrasam, são malfeitas e precisam ser refeitas ou reparadas - e por aí afora formam uma peneira do tamanho deste país continental, por onde escorrem os provimentos penosamente retirados dos salários dos trabalhadores. Pesa a injustiça dupla de saber que a gastança inconsequente ainda resulta em juros mais altos para a sociedade.
Fica, pois, a singela pergunta: por que não aperfeiçoar os mecanismos do controle de saída com a eficiência com que se avança nos da entrada? Agora mesmo, a Receita Federal fisgou mais de 700 mil contribuintes na malha fina, 18% a mais do que em 2012. E as consequências para quem não fez direito o dever de casa são imediatas. Para começar, os que têm direito à restituição só vão recebê-la depois de corrigir a prestação de contas, sob o risco de severas punições se comprovada eventual má-fé. Quem não gostaria de ver igual resultado no combate à corrupção e ao desperdício?
Aliviar as contas públicas é aliviar o cidadão. Já ser perdulário ou negligenciar gastos é impor sofrimento desnecessário a população sujeita a uma das mais pesadas cargas tributárias do planeta. O Estado precisa ir muito além da Lei de Responsabilidade Fiscal, passar por ampla reformulação e deixar de esbanjar o que não tem. O número de ministérios - quatro dezenas - é exemplar do gigantismo atingido pela máquina pública. Por seu lado, o empenho demonstrado na arrecadação de impostos dos assalariados não é, nem de longe, sinônimo de eficiência no enfrentamento da sonegação. São muitos os setores da economia que ainda dispõem de amplo leque de facilidades para escapar do Leão.
Às vezes, a elisão ou a evasão fiscal são incentivadas exatamente pelo excesso de custos da burocracia, que transforma o bolo dos impostos numa bola de neve sem-fim. Ou seja, é um círculo vicioso que o Brasil deve quebrar, para romper também com o cíclico voo de galinha e se pôr na trilha do crescimento sustentável. A tarefa não é fácil, mas tampouco trata-se de exigência recente. Reforma tributária é assunto velho de primeira ordem na pauta das prioridades nacionais, que não pode mais ser adiada. Com eleições presidenciais à vista, marcadas para outubro de 2014, espera-se que os candidatos tragam propostas realistas para suas campanhas.
Não é o que se vê. O pagamento de propinas, o superfaturamento, o desperdício provocado pela escolha errada na hora de investir os recursos, os aditamentos de contratos decorrentes do descumprimento de prazos e de irregularidades em licitações, a omissão na fiscalização de obras - que, em regra, atrasam, são malfeitas e precisam ser refeitas ou reparadas - e por aí afora formam uma peneira do tamanho deste país continental, por onde escorrem os provimentos penosamente retirados dos salários dos trabalhadores. Pesa a injustiça dupla de saber que a gastança inconsequente ainda resulta em juros mais altos para a sociedade.
Fica, pois, a singela pergunta: por que não aperfeiçoar os mecanismos do controle de saída com a eficiência com que se avança nos da entrada? Agora mesmo, a Receita Federal fisgou mais de 700 mil contribuintes na malha fina, 18% a mais do que em 2012. E as consequências para quem não fez direito o dever de casa são imediatas. Para começar, os que têm direito à restituição só vão recebê-la depois de corrigir a prestação de contas, sob o risco de severas punições se comprovada eventual má-fé. Quem não gostaria de ver igual resultado no combate à corrupção e ao desperdício?
Aliviar as contas públicas é aliviar o cidadão. Já ser perdulário ou negligenciar gastos é impor sofrimento desnecessário a população sujeita a uma das mais pesadas cargas tributárias do planeta. O Estado precisa ir muito além da Lei de Responsabilidade Fiscal, passar por ampla reformulação e deixar de esbanjar o que não tem. O número de ministérios - quatro dezenas - é exemplar do gigantismo atingido pela máquina pública. Por seu lado, o empenho demonstrado na arrecadação de impostos dos assalariados não é, nem de longe, sinônimo de eficiência no enfrentamento da sonegação. São muitos os setores da economia que ainda dispõem de amplo leque de facilidades para escapar do Leão.
Às vezes, a elisão ou a evasão fiscal são incentivadas exatamente pelo excesso de custos da burocracia, que transforma o bolo dos impostos numa bola de neve sem-fim. Ou seja, é um círculo vicioso que o Brasil deve quebrar, para romper também com o cíclico voo de galinha e se pôr na trilha do crescimento sustentável. A tarefa não é fácil, mas tampouco trata-se de exigência recente. Reforma tributária é assunto velho de primeira ordem na pauta das prioridades nacionais, que não pode mais ser adiada. Com eleições presidenciais à vista, marcadas para outubro de 2014, espera-se que os candidatos tragam propostas realistas para suas campanhas.
O risco das reformas de Bachelet para o Chile - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 15/12
Favorita quer elevar carga tributária das empresas para financiar mudanças no problemático setor educacional
A expectativa sobre o segundo turno hoje da eleição presidencial no Chile deve se resumir ao percentual de votos a ser obtido pela franca favorita, a ex-presidente Michele Bachelet, da coligação oposicionista de centro-esquerda Nova Maioria. A característica mais marcante do pleito é a disputa entre duas mulheres: sua adversária é Evelyn Matthei, da coligação de centro-direita que está no governo com o presidente Sebastián Piñera. No primeiro turno, Bachelet, com 46,6% dos votos e Matthei, com 25,01%, bateram outros sete candidatos. Uma curiosidade: elas conviveram na infância, pois seus pais eram oficiais da Aeronáutica e amigos, antes de se tornarem adversários. O pai de Bachelet foi morto pela ditadura militar, da qual fez parte o pai de Matthei.
Bachelet, que presidiu o Chile de 2006 a 2010 como integrante da frente Concertação, agora se apresenta com uma plataforma mais à esquerda. Na sua opinião, o país vive um novo momento social, político e econômico e, por isso, precisa de reformas mais profundas, concentradas nas áreas educacional, tributária e constitucional. Por sua vez, Matthei tem como objetivo impulsionar as políticas de Piñera, baseadas em estímulo ao crescimento econômico e criação de empregos.
O modelo de educação privatista adotado ainda pela ditadura militar tem sido fonte das maiores dores de cabeça no país: jovens tomaram ruas e praças aos milhares, no primeiro governo Bachelet e no de Piñera, reivindicando reformas, entre elas a redução do custo do ensino universitário. O programa de Bachelet propõe uma profunda reforma educacional para alcançar, entre outros objetivos, a gratuidade da educação superior num prazo de seis anos e fortalecer a ensino público, com queda progressiva da participação privada no ensino. Para financiar as mudanças, promete elevar em cinco pontos percentuais os impostos das empresas, como parte de uma reforma tributária para arrecadar US$ 8,2 bilhões. Este será um teste para seu governo, pois poderá enfrentar forte resistência política. Contempla, ainda, uma reforma constitucional.
Matthei, que mira na classe média, defende incentivos às pequenas e médias empresas, para obter um crescimento médio de 5% (ele foi de 5,6% em 2012 e está projetado em 4,6% este ano), o que geraria mais recursos para investimento e luta contra a pobreza.
O Chile tem o modelo mais bem-sucedido da América Latina, mas ainda precisa reduzir as desigualdades internas e está sujeito à desaceleração global da atividade econômica. Provável vencedora, Bachelet deverá ser cautelosa para não pôr em risco, com suas reformas, o que o país conquistou nos últimos anos: estabilidade política e econômica, ampla abertura comercial e inserção em dinâmicos blocos comerciais, como a Aliança do Pacífico.
Favorita quer elevar carga tributária das empresas para financiar mudanças no problemático setor educacional
A expectativa sobre o segundo turno hoje da eleição presidencial no Chile deve se resumir ao percentual de votos a ser obtido pela franca favorita, a ex-presidente Michele Bachelet, da coligação oposicionista de centro-esquerda Nova Maioria. A característica mais marcante do pleito é a disputa entre duas mulheres: sua adversária é Evelyn Matthei, da coligação de centro-direita que está no governo com o presidente Sebastián Piñera. No primeiro turno, Bachelet, com 46,6% dos votos e Matthei, com 25,01%, bateram outros sete candidatos. Uma curiosidade: elas conviveram na infância, pois seus pais eram oficiais da Aeronáutica e amigos, antes de se tornarem adversários. O pai de Bachelet foi morto pela ditadura militar, da qual fez parte o pai de Matthei.
Bachelet, que presidiu o Chile de 2006 a 2010 como integrante da frente Concertação, agora se apresenta com uma plataforma mais à esquerda. Na sua opinião, o país vive um novo momento social, político e econômico e, por isso, precisa de reformas mais profundas, concentradas nas áreas educacional, tributária e constitucional. Por sua vez, Matthei tem como objetivo impulsionar as políticas de Piñera, baseadas em estímulo ao crescimento econômico e criação de empregos.
O modelo de educação privatista adotado ainda pela ditadura militar tem sido fonte das maiores dores de cabeça no país: jovens tomaram ruas e praças aos milhares, no primeiro governo Bachelet e no de Piñera, reivindicando reformas, entre elas a redução do custo do ensino universitário. O programa de Bachelet propõe uma profunda reforma educacional para alcançar, entre outros objetivos, a gratuidade da educação superior num prazo de seis anos e fortalecer a ensino público, com queda progressiva da participação privada no ensino. Para financiar as mudanças, promete elevar em cinco pontos percentuais os impostos das empresas, como parte de uma reforma tributária para arrecadar US$ 8,2 bilhões. Este será um teste para seu governo, pois poderá enfrentar forte resistência política. Contempla, ainda, uma reforma constitucional.
Matthei, que mira na classe média, defende incentivos às pequenas e médias empresas, para obter um crescimento médio de 5% (ele foi de 5,6% em 2012 e está projetado em 4,6% este ano), o que geraria mais recursos para investimento e luta contra a pobreza.
O Chile tem o modelo mais bem-sucedido da América Latina, mas ainda precisa reduzir as desigualdades internas e está sujeito à desaceleração global da atividade econômica. Provável vencedora, Bachelet deverá ser cautelosa para não pôr em risco, com suas reformas, o que o país conquistou nos últimos anos: estabilidade política e econômica, ampla abertura comercial e inserção em dinâmicos blocos comerciais, como a Aliança do Pacífico.
Acelerar os processos - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 15/12
Em tramitação no Congresso, novo Código de Processo Civil prioriza celeridade; Câmara, porém, descarta um dos dispositivos mais relevantes
Arrasta-se há quase três anos, na Câmara dos Deputados, a tramitação da proposta que cria um novo Código de Processo Civil (CPC) para o país. Não é pouco o que está em jogo. Basta dizer que, excetuada a esfera penal, os demais ritos processuais são regulados por esse conjunto de normas.
Da petição inicial à sentença, passando por recursos e prazos, é nesse código que advogados, promotores e juízes encontram as regras para o andamento de processos em matérias de direito civil, comercial, financeiro, social, trabalhista e tributário, entre outros.
Instituído em plena ditadura militar (janeiro de 1973), o atual CPC tornou-se defasado por variadas razões, que vão da promulgação de uma Constituição democrática, em 1988, ao surgimento de tecnologias capazes de aposentar o papel.
Dada sua importância nos meandros judiciais, é natural, ademais, que especialistas e legisladores olhem para o CPC quando procuram soluções para a exasperante morosidade da Justiça, afogada em quase 100 milhões de ações.
O número excessivo de recursos e mecanismos protelatórios à disposição da parte derrotada é apontado, com razão, como um dos elementos que mais contribuem para abarrotar os tribunais e fundamentar o conhecido adágio "ganhou, mas não levou".
É de estranhar, portanto, que a Câmara tenha suprimido um dos dispositivos que, na proposta elaborada por uma comissão de juristas e aprovada pelo Senado em 2010, prometiam aumentar a efetividade do Poder Judiciário --a saber, o fim do chamado efeito suspensivo das apelações.
Hoje, a sentença do juiz não produz efeitos imediatos na maioria dos casos. Como regra, basta que a parte vencida recorra ao Tribunal de Justiça (segunda instância) para a decisão ficar suspensa até que desembargadores se manifestem a respeito da disputa.
O modelo prioriza, quase sem restrições, a segurança jurídica em detrimento da celeridade processual. Protege o cidadão contra decisões monocráticas exorbitantes e assegura o duplo exame antes de ser proferida, por um órgão colegiado, uma decisão efetiva.
Verdade que sentenças podem acarretar consequências de monta. A existência do efeito suspensivo automático, contudo, traz graves distorções. A primeira e mais evidente é o estímulo à litigância. Mesmo sem razão, qualquer advogado há de apelar --na pior das hipóteses, conseguirá adiar, por anos a fio, o cumprimento da decisão.
A perversidade da situação é evidente. Não é só a parte vencedora que sai prejudicada, ao não ver sua justa demanda atendida; todo o sistema judicial, todos os cidadãos sentem os efeitos deletérios dessa sobrecarga de processos.
É difícil encontrar elementos empíricos que apoiem a transformação dos juízes (primeira instância) em meros pareceristas, como se suas sentenças, no mais das vezes, precisassem ser modificadas. Dá-se precisamente o contrário.
Estudos conduzidos a partir de dados dos Tribunais de Justiça de São Paulo e do Rio de Janeiro indicam que cerca de 60% das decisões dos juízes são mantidas; em apenas 20% dos casos há reforma integral da sentença; nos outros 20%, as mudanças são parciais.
Se a maioria da população seria beneficiada pelo fim desse efeito suspensivo automático, nem por isso a minoria deve ficar desguarnecida. É preciso que a legislação estipule recursos de emergência a fim de evitar danos irreparáveis decorrentes de sentença disparatada.
Outras iniciativas do novo Código de Processo Civil reforçam que a celeridade e a racionalização do sistema são essenciais. Estabelece-se, por exemplo, a ordem cronológica para julgamentos, evitando o acúmulo de causas antigas e o arbítrio de magistrados ao escolher qual processo analisar.
Recursos usados apenas para adiar o cumprimento das decisões serão multados; o uso do meio eletrônico é estimulado; prevê-se uma fase inicial de tentativa de conciliação, num esforço para resolver conflitos sem envolver a via judicial.
Além disso, extingue-se o inexplicável exame de admissibilidade, pelo qual a instância inferior precisa analisar se estão presentes os requisitos necessários para o caso ser examinado pela instância superior --o que apenas retarda o andamento processual.
São estimuladas, ainda, decisões dos tribunais que possam valer para a resolução de uma série de demandas individuais similares, como no caso de questões de direito do consumidor; o peso da jurisprudência também é ampliado.
Todas essas iniciativas sairão enfraquecidas se o efeito suspensivo automático for mantido. De todo modo, a Câmara dos Deputados ainda precisa terminar de votar alguns pontos do projeto antes de reenviá-lo ao Senado. Que ocorra o quanto antes. Não faz sentido que o novo Código de Processo Civil seja vítima de morosidade semelhante à que pretende combater.
Em tramitação no Congresso, novo Código de Processo Civil prioriza celeridade; Câmara, porém, descarta um dos dispositivos mais relevantes
Arrasta-se há quase três anos, na Câmara dos Deputados, a tramitação da proposta que cria um novo Código de Processo Civil (CPC) para o país. Não é pouco o que está em jogo. Basta dizer que, excetuada a esfera penal, os demais ritos processuais são regulados por esse conjunto de normas.
Da petição inicial à sentença, passando por recursos e prazos, é nesse código que advogados, promotores e juízes encontram as regras para o andamento de processos em matérias de direito civil, comercial, financeiro, social, trabalhista e tributário, entre outros.
Instituído em plena ditadura militar (janeiro de 1973), o atual CPC tornou-se defasado por variadas razões, que vão da promulgação de uma Constituição democrática, em 1988, ao surgimento de tecnologias capazes de aposentar o papel.
Dada sua importância nos meandros judiciais, é natural, ademais, que especialistas e legisladores olhem para o CPC quando procuram soluções para a exasperante morosidade da Justiça, afogada em quase 100 milhões de ações.
O número excessivo de recursos e mecanismos protelatórios à disposição da parte derrotada é apontado, com razão, como um dos elementos que mais contribuem para abarrotar os tribunais e fundamentar o conhecido adágio "ganhou, mas não levou".
É de estranhar, portanto, que a Câmara tenha suprimido um dos dispositivos que, na proposta elaborada por uma comissão de juristas e aprovada pelo Senado em 2010, prometiam aumentar a efetividade do Poder Judiciário --a saber, o fim do chamado efeito suspensivo das apelações.
Hoje, a sentença do juiz não produz efeitos imediatos na maioria dos casos. Como regra, basta que a parte vencida recorra ao Tribunal de Justiça (segunda instância) para a decisão ficar suspensa até que desembargadores se manifestem a respeito da disputa.
O modelo prioriza, quase sem restrições, a segurança jurídica em detrimento da celeridade processual. Protege o cidadão contra decisões monocráticas exorbitantes e assegura o duplo exame antes de ser proferida, por um órgão colegiado, uma decisão efetiva.
Verdade que sentenças podem acarretar consequências de monta. A existência do efeito suspensivo automático, contudo, traz graves distorções. A primeira e mais evidente é o estímulo à litigância. Mesmo sem razão, qualquer advogado há de apelar --na pior das hipóteses, conseguirá adiar, por anos a fio, o cumprimento da decisão.
A perversidade da situação é evidente. Não é só a parte vencedora que sai prejudicada, ao não ver sua justa demanda atendida; todo o sistema judicial, todos os cidadãos sentem os efeitos deletérios dessa sobrecarga de processos.
É difícil encontrar elementos empíricos que apoiem a transformação dos juízes (primeira instância) em meros pareceristas, como se suas sentenças, no mais das vezes, precisassem ser modificadas. Dá-se precisamente o contrário.
Estudos conduzidos a partir de dados dos Tribunais de Justiça de São Paulo e do Rio de Janeiro indicam que cerca de 60% das decisões dos juízes são mantidas; em apenas 20% dos casos há reforma integral da sentença; nos outros 20%, as mudanças são parciais.
Se a maioria da população seria beneficiada pelo fim desse efeito suspensivo automático, nem por isso a minoria deve ficar desguarnecida. É preciso que a legislação estipule recursos de emergência a fim de evitar danos irreparáveis decorrentes de sentença disparatada.
Outras iniciativas do novo Código de Processo Civil reforçam que a celeridade e a racionalização do sistema são essenciais. Estabelece-se, por exemplo, a ordem cronológica para julgamentos, evitando o acúmulo de causas antigas e o arbítrio de magistrados ao escolher qual processo analisar.
Recursos usados apenas para adiar o cumprimento das decisões serão multados; o uso do meio eletrônico é estimulado; prevê-se uma fase inicial de tentativa de conciliação, num esforço para resolver conflitos sem envolver a via judicial.
Além disso, extingue-se o inexplicável exame de admissibilidade, pelo qual a instância inferior precisa analisar se estão presentes os requisitos necessários para o caso ser examinado pela instância superior --o que apenas retarda o andamento processual.
São estimuladas, ainda, decisões dos tribunais que possam valer para a resolução de uma série de demandas individuais similares, como no caso de questões de direito do consumidor; o peso da jurisprudência também é ampliado.
Todas essas iniciativas sairão enfraquecidas se o efeito suspensivo automático for mantido. De todo modo, a Câmara dos Deputados ainda precisa terminar de votar alguns pontos do projeto antes de reenviá-lo ao Senado. Que ocorra o quanto antes. Não faz sentido que o novo Código de Processo Civil seja vítima de morosidade semelhante à que pretende combater.
Um problema que não é do meu vizinho - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 15/12
Novas políticas de acolhimento à infância são perfeitas na teoria, mas esbarram na baixa empatia do público com o tema
O setor de atendimento à infância e adolescência em situação de risco tem, pela frente, um deserto a atravessar. Lá se vão cinco anos desde que as novas diretrizes para o setor foram aprovadas, mas ainda não se pode dizer que sejam uma realidade. Pior. O trabalho exaustivo capitaneado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) tarda em chegar ao cidadão comum, o que faz dessa conversa um colóquio entre marcianos.
Caso alguém ainda lave as mãos, por julgar esse assunto uma questão “da alçada de quem trabalha com menores”, vale um refresco à memória. Com base no que se convencionou chamar Nova Lei da Adoção, modificou-se da água para o vinho o funcionamento das casas-lares. Não podem mais ser afastadas. Nem ter mais que 20 moradores. Tampouco seus inquilinos devem permanecer por lá mais de dois anos. A mais importante das recomendações é que crianças e adolescentes abandonados devem ficar próximas de seus pais – por piores que possam parecer –, parentes e pessoas com quem tenham laços. Chácaras, pavilhões e congêneres dos antigos formatos e educandários ficam para o passado. Na falta de uma família para chamar de sua, os pequenos têm direito a programas de famílias substitutas, algo próximo do que se convencionou chamar de pais sociais. Algo ao contrário disso, só se for excepcional. Sim, é isso mesmo – as novas diretrizes tornam a adoção ainda mais complicada do que já era.
Não se trata aqui de colocar em discussão o que órgãos competentes listaram, em meio a uma longa lição de casa. Cada linha do projeto foi discutida à exaustão. Não se pode acusar as diretrizes de levianas. São sólidas e atendem às necessidades da infância vulnerável, de acordo com a experiência de profissionais e líderes que trabalham com ela. O problema é a aplicação. As pequenas casas, espalhadas pela cidade, devem estar debaixo da custódia de uma equipe técnica capaz de garantir o retorno à família. O parangolé é como o poder público vai dar conta disso, tamanha sua paixão pelo andar pesado dos dinossauros. O atendimento à infância via serviço público pode ser a pior das viagens. Ser aprovado em concurso não implica ter unção e ciência para o trato com vítimas da violência doméstica e abandono.
Não é tudo. “E o financiamento? É preciso pensar em como essas pequenas casas vão se manter”, lembra a jornalista Paola Carriel, mestranda em Ciências Sociais da UFPR, pesquisadora da área de infância e adolescência. Ela se refere ao Instituto Nauru, em Curitiba, que baixou suas portas em março deste ano, impossibilitado de se manter com os esquálidos recursos da Fundação da Ação Social. O Nauru cumpria as diretrizes do Conanda.
De acordo com o pesquisador Rodrigo Navarro, a tendência continua sendo a de que o poder público recorra às organizações não governamentais, terceirizando as diretrizes. Outra batalha: as ONGs, como se sabe, vivem debaixo de abalos sísmicos, em geral provocados por contadores despreparados em gerir a coisa pública. Os meninos e meninas, mais uma vez, pagam a conta. “É um setor de alta complexidade”, alerta Navarro, atento à delicadeza do assunto, e aos riscos de tratá-lo no calor da hora.
A saída só pode ser a boa política. Às vezes, acontece. A descentralização das casas-lares se desenha aos poucos no Brasil. É uma lenha. Exige que mais gente trabalhe com as famílias, via sola de sapato e aumento no número dos centros de referência em assistência social, os Creas e os Cras – ao todo, são 705 centros em todo o estado. Esses órgãos serão cada vez mais chamados à mediação, levando os pais e parentes a educarem os filhos, e não os abrigos. “Abrigo passa a ser a última alternativa”, informa Navarro.
Em tempo. A Fundação de Ação Social de Curitiba é campeã em acolhimento de crianças e adolescentes no Brasil, com mil vagas, distribuídas em dez unidades da própria prefeitura e 48 administradas por ONGs. Um plano de acolhimento, nos moldes do Conanda, está “em construção”, como se diz no movimento social. Sabe-se que do xadrez é o mais difícil. Há, por exemplo, 70 adolescentes não adotáveis, impermeáveis às novas regras. Olhando bem de perto, dá até para tremer as pernas e duvidar da eficácia do modelo que se propõe daqui para a frente. Trabalhar com as famílias dos abandonados, afinal, era até então apenas um discurso na ponta da língua. Agora, uma exigência. Fim da abstração.
Novas políticas de acolhimento à infância são perfeitas na teoria, mas esbarram na baixa empatia do público com o tema
O setor de atendimento à infância e adolescência em situação de risco tem, pela frente, um deserto a atravessar. Lá se vão cinco anos desde que as novas diretrizes para o setor foram aprovadas, mas ainda não se pode dizer que sejam uma realidade. Pior. O trabalho exaustivo capitaneado pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) e pelo Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) tarda em chegar ao cidadão comum, o que faz dessa conversa um colóquio entre marcianos.
Caso alguém ainda lave as mãos, por julgar esse assunto uma questão “da alçada de quem trabalha com menores”, vale um refresco à memória. Com base no que se convencionou chamar Nova Lei da Adoção, modificou-se da água para o vinho o funcionamento das casas-lares. Não podem mais ser afastadas. Nem ter mais que 20 moradores. Tampouco seus inquilinos devem permanecer por lá mais de dois anos. A mais importante das recomendações é que crianças e adolescentes abandonados devem ficar próximas de seus pais – por piores que possam parecer –, parentes e pessoas com quem tenham laços. Chácaras, pavilhões e congêneres dos antigos formatos e educandários ficam para o passado. Na falta de uma família para chamar de sua, os pequenos têm direito a programas de famílias substitutas, algo próximo do que se convencionou chamar de pais sociais. Algo ao contrário disso, só se for excepcional. Sim, é isso mesmo – as novas diretrizes tornam a adoção ainda mais complicada do que já era.
Não se trata aqui de colocar em discussão o que órgãos competentes listaram, em meio a uma longa lição de casa. Cada linha do projeto foi discutida à exaustão. Não se pode acusar as diretrizes de levianas. São sólidas e atendem às necessidades da infância vulnerável, de acordo com a experiência de profissionais e líderes que trabalham com ela. O problema é a aplicação. As pequenas casas, espalhadas pela cidade, devem estar debaixo da custódia de uma equipe técnica capaz de garantir o retorno à família. O parangolé é como o poder público vai dar conta disso, tamanha sua paixão pelo andar pesado dos dinossauros. O atendimento à infância via serviço público pode ser a pior das viagens. Ser aprovado em concurso não implica ter unção e ciência para o trato com vítimas da violência doméstica e abandono.
Não é tudo. “E o financiamento? É preciso pensar em como essas pequenas casas vão se manter”, lembra a jornalista Paola Carriel, mestranda em Ciências Sociais da UFPR, pesquisadora da área de infância e adolescência. Ela se refere ao Instituto Nauru, em Curitiba, que baixou suas portas em março deste ano, impossibilitado de se manter com os esquálidos recursos da Fundação da Ação Social. O Nauru cumpria as diretrizes do Conanda.
De acordo com o pesquisador Rodrigo Navarro, a tendência continua sendo a de que o poder público recorra às organizações não governamentais, terceirizando as diretrizes. Outra batalha: as ONGs, como se sabe, vivem debaixo de abalos sísmicos, em geral provocados por contadores despreparados em gerir a coisa pública. Os meninos e meninas, mais uma vez, pagam a conta. “É um setor de alta complexidade”, alerta Navarro, atento à delicadeza do assunto, e aos riscos de tratá-lo no calor da hora.
A saída só pode ser a boa política. Às vezes, acontece. A descentralização das casas-lares se desenha aos poucos no Brasil. É uma lenha. Exige que mais gente trabalhe com as famílias, via sola de sapato e aumento no número dos centros de referência em assistência social, os Creas e os Cras – ao todo, são 705 centros em todo o estado. Esses órgãos serão cada vez mais chamados à mediação, levando os pais e parentes a educarem os filhos, e não os abrigos. “Abrigo passa a ser a última alternativa”, informa Navarro.
Em tempo. A Fundação de Ação Social de Curitiba é campeã em acolhimento de crianças e adolescentes no Brasil, com mil vagas, distribuídas em dez unidades da própria prefeitura e 48 administradas por ONGs. Um plano de acolhimento, nos moldes do Conanda, está “em construção”, como se diz no movimento social. Sabe-se que do xadrez é o mais difícil. Há, por exemplo, 70 adolescentes não adotáveis, impermeáveis às novas regras. Olhando bem de perto, dá até para tremer as pernas e duvidar da eficácia do modelo que se propõe daqui para a frente. Trabalhar com as famílias dos abandonados, afinal, era até então apenas um discurso na ponta da língua. Agora, uma exigência. Fim da abstração.
O germe de uma revolução - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 15/12
Quando o dinheiro fala, o som costuma ser ensurdecedor. Dos R$ 6 bilhões arrecadados pelos candidatos na última eleição nacional, cerca de 95% vieram de 1.900 pessoas jurídicas. Elas podem doar até 2% do faturamento bruto do ano anterior ao do pleito. Sem essa dinheirama, os políticos nem em sonho teriam como custear as extravagantes campanhas encenadas a cada disputa no impropriamente chamado horário gratuito - porque o contribuinte, afinal, é quem arca com o preço do tempo cobrado pelas emissoras de rádio e de TV. Calcula-se que, para ter chances reais nas urnas, um candidato a deputado federal precisa desembolsar, em média, R$ 1 milhão. A senador, R$ 4,5 milhões. A governador, R$ 23 milhões. A presidente da República, R$ 300 milhões. E quanto maior o dispêndio, maior a probabilidade de êxito.
Mais importante ainda, calcula-se que, para cada R$ 1 doado por uma empresa, ela terá um retorno 8,5 vezes maior, sob a forma de contratos obtidos com os governos que ajudou a eleger - razão por que as empreiteiras lideram com folga as listas de financiadores agrupados por setor. Doação, portanto, é eufemismo. É de investimento que se trata. Tudo isso produz uma deturpação grotesca do princípio da igualdade de oportunidades eleitorais para votantes e votados, almejada pela legislação, como requisito da representatividade que se espera do Congresso, Assem-bleias e Câmaras e da legitimidade dos governantes - uma coisa e outra,por sua vez, indispensáveis ao sistema democrático. Agora, pela primeira vez, surge uma perspectiva de ruptura daquele círculo vicioso.
Na quarta-feira passada, o Supremo tribunal Federal (STF) começou a julgar uma ação impetrada em 2011 pela OAB para extinguir o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas - e a tendência da Corte é alentadora. A argumentação dos advogados, encampada pelo relator da matéria, Ministro Luiz Fux, se baseia na premissa irrefutável de que empresas não votam; só pessoas. Se não votam, não podem se intrometer no processo eleitoral - preservado o seu direito, como o de qualquer outra organização ou entidade, de promover os seus interesses nas instituições políticas. Joaquim Barbosa, o presidente do STF, destacou outra inconstitucionalidade na regra enfim contestada: a sua "influência nefasta, perniciosa, no resultado do pleito", além de "comprometer seriamente" a independência dos eleitos. É, resumiu, o infame "toma lá dá cá".
Se a maioria dos ministros acompanhar os votos já proferidos, como bem poderá acontecer, acabará, também por inconstitucional, o porcentual dos rendimentos de pessoas físicas passíveis de doação a políticos (até 10%). De fato, 10% dos rendimentos de um empreiteiro milionário são uma fortuna perto da mesma parcela dos ganhos de seu motorista. A regra, em suma, consagra a desigualdade entre os eleitores. A proposta é que, em lugar de uma porcentagem, se adote um teto, em reais, compatível com o perfil da renda dos eleitores. Poderia ser um salário mínimo (R$ 678, atualmente). Se prevalecer o parecer do relator Fux, o Congresso terá dois anos para implementar as mudanças. Se não o fizer, a questão será regulada pela Justiça Eleitoral. (Para Barbosa, as novas normas entrariam em vigor tão logo publicado o acórdão do. julgamento.)
Os políticos - que devem os seus mandatos à "bondade de estranhos" - acusaram o STF de usurpar as suas funções e ameaçaram retaliar. Não consta que o exame da constitucionalidade das leis esteja entre as atribuições dos congressistas ou, como há quem sugira vingativamente, que as decisões do Tribunal nesse campo sejam referendadas por eles. Agitam ainda o espectro da proliferação de doações ilícitas (caixa 2), se as lícitas deixarem de sê-lo. Balela. Basta endurecer as punições aos transgressores, "promovendo" o caixa 2 de infração eleitoral a crime capitulado no Código Penal. Os brasileiros só têm a ganhar com o veto a contribuições eleitorais de empresas. A medida contém o germe de uma revolução cultural na disputa pelo voto, com menos influência do poder econômico, menos propaganda enganosa na TV - e mais respeito pela inteligência do eleitor.
Mais importante ainda, calcula-se que, para cada R$ 1 doado por uma empresa, ela terá um retorno 8,5 vezes maior, sob a forma de contratos obtidos com os governos que ajudou a eleger - razão por que as empreiteiras lideram com folga as listas de financiadores agrupados por setor. Doação, portanto, é eufemismo. É de investimento que se trata. Tudo isso produz uma deturpação grotesca do princípio da igualdade de oportunidades eleitorais para votantes e votados, almejada pela legislação, como requisito da representatividade que se espera do Congresso, Assem-bleias e Câmaras e da legitimidade dos governantes - uma coisa e outra,por sua vez, indispensáveis ao sistema democrático. Agora, pela primeira vez, surge uma perspectiva de ruptura daquele círculo vicioso.
Na quarta-feira passada, o Supremo tribunal Federal (STF) começou a julgar uma ação impetrada em 2011 pela OAB para extinguir o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas - e a tendência da Corte é alentadora. A argumentação dos advogados, encampada pelo relator da matéria, Ministro Luiz Fux, se baseia na premissa irrefutável de que empresas não votam; só pessoas. Se não votam, não podem se intrometer no processo eleitoral - preservado o seu direito, como o de qualquer outra organização ou entidade, de promover os seus interesses nas instituições políticas. Joaquim Barbosa, o presidente do STF, destacou outra inconstitucionalidade na regra enfim contestada: a sua "influência nefasta, perniciosa, no resultado do pleito", além de "comprometer seriamente" a independência dos eleitos. É, resumiu, o infame "toma lá dá cá".
Se a maioria dos ministros acompanhar os votos já proferidos, como bem poderá acontecer, acabará, também por inconstitucional, o porcentual dos rendimentos de pessoas físicas passíveis de doação a políticos (até 10%). De fato, 10% dos rendimentos de um empreiteiro milionário são uma fortuna perto da mesma parcela dos ganhos de seu motorista. A regra, em suma, consagra a desigualdade entre os eleitores. A proposta é que, em lugar de uma porcentagem, se adote um teto, em reais, compatível com o perfil da renda dos eleitores. Poderia ser um salário mínimo (R$ 678, atualmente). Se prevalecer o parecer do relator Fux, o Congresso terá dois anos para implementar as mudanças. Se não o fizer, a questão será regulada pela Justiça Eleitoral. (Para Barbosa, as novas normas entrariam em vigor tão logo publicado o acórdão do. julgamento.)
Os políticos - que devem os seus mandatos à "bondade de estranhos" - acusaram o STF de usurpar as suas funções e ameaçaram retaliar. Não consta que o exame da constitucionalidade das leis esteja entre as atribuições dos congressistas ou, como há quem sugira vingativamente, que as decisões do Tribunal nesse campo sejam referendadas por eles. Agitam ainda o espectro da proliferação de doações ilícitas (caixa 2), se as lícitas deixarem de sê-lo. Balela. Basta endurecer as punições aos transgressores, "promovendo" o caixa 2 de infração eleitoral a crime capitulado no Código Penal. Os brasileiros só têm a ganhar com o veto a contribuições eleitorais de empresas. A medida contém o germe de uma revolução cultural na disputa pelo voto, com menos influência do poder econômico, menos propaganda enganosa na TV - e mais respeito pela inteligência do eleitor.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Essa é uma tarefa que tem que ser feita pelo próprio legislador”
Ministro Gilmar Mendes (STF), sobre o financiamento privado de campanhas políticas
LULA DEU ASILO A BATTISTI PARA PAGAR DÍVIDA PESSOAL
O delegado Romeu Tuma Jr era secretário Nacional de Justiça, e por isso testemunhou os bastidores da decisão do então presidente Lula de proteger o terrorista italiano Cesare Battisti. Em seu livro Assassinato de Reputações (ed. Topbooks, Rio), ele revela que Lula não foi motivado pela ideologia, ao conceder “asilo político” ao criminoso, mas por “dívida de gratidão” com o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.
DEDICAÇÃO PREMIADA
O ex-presidente queria retribuir a Greenhalgh as várias defesas que fez dele na Justiça, sem cobrar, e por sua dedicação aos interesses do PT.
SENTIMENTO DE CULPA
Lula se sentia culpado por vários reveses do amigo, como a humilhante derrota para Severino Cavalcante na briga pela presidência da Câmara.
PADRINHO REAL
Segundo Tuma Jr, Battisti ganhou asilo porque Greenhagh pediu e não por influência de Tarso Genro, ex-ministro da Justiça. Simples assim.
ASSASSINO CRUEL
Cesare Battisti foi condenado duas vezes à prisão perpétua, na Itália, pelo assassinato de quatro inocentes, a serviço de um grupo terrorista.
METRÔ-CE: CONSÓRCIO ENROLADO EM ESCÂNDALOS
Sob suspeita no Ministério Público e Tribunal de Contas da União, o consórcio Cetenco-Acciona assinou contrato de R$ 2,49 bilhões com o governo do Ceará para construir a linha leste do metrô de Fortaleza. Além de não observar pré-requisitos do edital, como experiência, a Acciona teve dois executivos presos acusados de desviar R$ 150 milhões em suposto esquema no metrô de Aragón, na Espanha.
FIANÇA
A Acciona pagou fiança de R$ 32 milhões para soltar os executivos José Jordán e Miguel Ángel Bretón, presos pela Operação Molinos.
ACORDO
Após pagar fiança, em setembro, Jordán teve passaporte liberado para voltar ao Brasil, onde teria negociado as obras do metrô do Ceará.
NOVIDADE
Apesar de pareceres contrários ao consórcio, a Procuradoria-Geral do Ceará diz nunca ter sido questionada sobre a legalidade do assunto.
BANCADA PRESIDIÁRIA
Com José Dirceu comandando os trabalhos, Delúbio Soares “tesourando” e Genoino assinando sem ler, em breve teremos novo movimento clandestino: o VIP (Vanguarda Insurgente da Papuda).
DESOLÉ
É pegadinha do presidente francês François Hollande o acordo de trabalho de brasileiros até 30 anos na França. Disputarão no tapa com os franceses de 15 a 24 anos, que somam 24,6% dos desempregados.
NEGOCIAÇÃO
Estão adiantadas as conversas na Bahia para compor uma chapa com Geddel Vieira Lima (PMDB) ao governo e, na vice, o ex-senador ACM Júnior, pai do atual prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM).
LIÇÃO DE CASA
Juiz federal contra o tráfico mais famoso do País, Odilon Oliveira sugere ao Conselho Nacional de Justiça o exemplo para outros juízes: fez 77 palestras gratuitas de prevenção do uso de drogas para 40 mil pessoas em escolas públicas em todo o Mato Grosso do Sul.
ATENÇÃO ESPECIAL
O governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB) conversou um tempão com o ex-ministro da Integração Fernando Bezerra Coelho, durante almoço de Natal com secretários e ex-secretários do governo.
PRATA DE FORA
O governo garante preocupação com seca no Nordeste, mas designou dois estrangeiros para representar o Brasil na convenção da ONU de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca: Aldrin Martin Pérez Marin (Nicarágua) e Ignacio Hernan Salcedo (Argentina).
MEIO A MEIO
Após meses de briga, o deputado Júnior Coimbra aceitou dividir o diretório do PMDB-TO com a senadora Kátia Abreu e o ex-governador Marcelo Miranda, que indicarão o vice-presidente estadual do partido.
QUESTÃO DE TEMPO
Aspirante a disputar a Presidência em 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) se utiliza dos baixos índices da presidente Dilma em 2009 para minimizar, em seus discursos, o mau desempenho nas pesquisas.
PENSANDO BEM...
...está na hora de exumar Leonel Brizola, para ver se Lula, além da mãe, também teria pisado o pescoço dele, como dizia o velho caudilho.
PODER SEM PUDOR
RUIM DE CONVERSA
O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) foi um jornalista competente e é intelectual completo, mas nem sempre se sente à vontade em entrevistas. Ele era ministro de Relações Institucionais do governo Lula quando, interpelado por uma repórter, desconversou:
- Fala ali com o Mercadante...
- Mas, ministro, ele é muito ruim de fala...
Rebelo mentiu:
- Eu sou pior, pode acreditar...
Ministro Gilmar Mendes (STF), sobre o financiamento privado de campanhas políticas
LULA DEU ASILO A BATTISTI PARA PAGAR DÍVIDA PESSOAL
O delegado Romeu Tuma Jr era secretário Nacional de Justiça, e por isso testemunhou os bastidores da decisão do então presidente Lula de proteger o terrorista italiano Cesare Battisti. Em seu livro Assassinato de Reputações (ed. Topbooks, Rio), ele revela que Lula não foi motivado pela ideologia, ao conceder “asilo político” ao criminoso, mas por “dívida de gratidão” com o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh.
DEDICAÇÃO PREMIADA
O ex-presidente queria retribuir a Greenhalgh as várias defesas que fez dele na Justiça, sem cobrar, e por sua dedicação aos interesses do PT.
SENTIMENTO DE CULPA
Lula se sentia culpado por vários reveses do amigo, como a humilhante derrota para Severino Cavalcante na briga pela presidência da Câmara.
PADRINHO REAL
Segundo Tuma Jr, Battisti ganhou asilo porque Greenhagh pediu e não por influência de Tarso Genro, ex-ministro da Justiça. Simples assim.
ASSASSINO CRUEL
Cesare Battisti foi condenado duas vezes à prisão perpétua, na Itália, pelo assassinato de quatro inocentes, a serviço de um grupo terrorista.
METRÔ-CE: CONSÓRCIO ENROLADO EM ESCÂNDALOS
Sob suspeita no Ministério Público e Tribunal de Contas da União, o consórcio Cetenco-Acciona assinou contrato de R$ 2,49 bilhões com o governo do Ceará para construir a linha leste do metrô de Fortaleza. Além de não observar pré-requisitos do edital, como experiência, a Acciona teve dois executivos presos acusados de desviar R$ 150 milhões em suposto esquema no metrô de Aragón, na Espanha.
FIANÇA
A Acciona pagou fiança de R$ 32 milhões para soltar os executivos José Jordán e Miguel Ángel Bretón, presos pela Operação Molinos.
ACORDO
Após pagar fiança, em setembro, Jordán teve passaporte liberado para voltar ao Brasil, onde teria negociado as obras do metrô do Ceará.
NOVIDADE
Apesar de pareceres contrários ao consórcio, a Procuradoria-Geral do Ceará diz nunca ter sido questionada sobre a legalidade do assunto.
BANCADA PRESIDIÁRIA
Com José Dirceu comandando os trabalhos, Delúbio Soares “tesourando” e Genoino assinando sem ler, em breve teremos novo movimento clandestino: o VIP (Vanguarda Insurgente da Papuda).
DESOLÉ
É pegadinha do presidente francês François Hollande o acordo de trabalho de brasileiros até 30 anos na França. Disputarão no tapa com os franceses de 15 a 24 anos, que somam 24,6% dos desempregados.
NEGOCIAÇÃO
Estão adiantadas as conversas na Bahia para compor uma chapa com Geddel Vieira Lima (PMDB) ao governo e, na vice, o ex-senador ACM Júnior, pai do atual prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM).
LIÇÃO DE CASA
Juiz federal contra o tráfico mais famoso do País, Odilon Oliveira sugere ao Conselho Nacional de Justiça o exemplo para outros juízes: fez 77 palestras gratuitas de prevenção do uso de drogas para 40 mil pessoas em escolas públicas em todo o Mato Grosso do Sul.
ATENÇÃO ESPECIAL
O governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB) conversou um tempão com o ex-ministro da Integração Fernando Bezerra Coelho, durante almoço de Natal com secretários e ex-secretários do governo.
PRATA DE FORA
O governo garante preocupação com seca no Nordeste, mas designou dois estrangeiros para representar o Brasil na convenção da ONU de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca: Aldrin Martin Pérez Marin (Nicarágua) e Ignacio Hernan Salcedo (Argentina).
MEIO A MEIO
Após meses de briga, o deputado Júnior Coimbra aceitou dividir o diretório do PMDB-TO com a senadora Kátia Abreu e o ex-governador Marcelo Miranda, que indicarão o vice-presidente estadual do partido.
QUESTÃO DE TEMPO
Aspirante a disputar a Presidência em 2014, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) se utiliza dos baixos índices da presidente Dilma em 2009 para minimizar, em seus discursos, o mau desempenho nas pesquisas.
PENSANDO BEM...
...está na hora de exumar Leonel Brizola, para ver se Lula, além da mãe, também teria pisado o pescoço dele, como dizia o velho caudilho.
PODER SEM PUDOR
RUIM DE CONVERSA
O deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP) foi um jornalista competente e é intelectual completo, mas nem sempre se sente à vontade em entrevistas. Ele era ministro de Relações Institucionais do governo Lula quando, interpelado por uma repórter, desconversou:
- Fala ali com o Mercadante...
- Mas, ministro, ele é muito ruim de fala...
Rebelo mentiu:
- Eu sou pior, pode acreditar...
DOMINGO NOS JORNAIS
- Globo: Famílias têm mais renda e também mais dívidas
- Folha: Eleição faz Alckmin dobrar gasto mensal com propaganda
- Estadão: Ações no STF dão à Corte protagonismo na reforma política
- Correio: Mais dinheiro para a casa própria em 2014
- Estado de Minas: o inferninho voltou
- Jornal do Commercio: Em cada esquina há uma senzala
- Zero Hora: Desarmamento, 10 anos depois : Estatuto ajudou a estancar mortes por arma de fogo
sábado, dezembro 14, 2013
Como dar seu presente de Natal - WALCYR CARRASCO
REVISTA ÉPOCA
Presentes práticos são os que menos entusiasmam. E fuja de liquidações!
Adiei o que pude. Xinguei o sistema de consumo. Agora tenho de tratar dos presentes de Natal. Nem preciso ir à academia. Gastarei minhas calorias andando por lojas, atravessando shoppings e mergulhando em multidões exaltadas em torno de caixas lentos.
Tenho uma teoria a respeito de presentes, ótima para o Natal. Presentes se dividem entre: de luxo, práticos e criativos. De forma geral, a regra é a seguinte: quanto menor a caixinha, mais rico quem ganha ou quem dá. Quanto maior, menos grana no pedaço. Claro, há exceções. Mas brincos de brilhantes, gargantilhas de rubis exigem embalagens pequenas. Uma máquina de lavar é um pacotão. Se você tem muito dinheiro, está fácil. Um relógio de marca famosa, champanhe Dom Perignon, Veuve Clicquot ou Cristal sempre são bem acolhidos, assim como bons vinhos, charutos cubanos, bolsas de grife exclusivas, lanchas, carros zero. Todo mundo adora rico que bota presente bom na mesa. Aquele adágio que milionários e mestres de etiqueta adoram declamar – “ser elegante é ser simples” – é mentira. Se alguém tem um amigo rico, odiará um presentinho qualquer. Quer que o rico mostre quem é, dando algo de luxo. Confesso: recentemente ganhei um conhaque Louis XIII. Já falei dele aqui, custa mais de R$ 12 mil a garrafa. Meu coração tremeu de emoção.
– Como alguém pode gastar tanto comigo? – pensei, com os olhos faiscando de autoestima.
Depois, é claro, escondi a garrafa. Sou filho de pobre. Não correrei o risco de que algum amigo bebum enxugue meu conhaque. Eu mesmo o beberei de gota em gota. Mais tarde, quando a preciosidade acabar, encho a garrafa com um conhaque comum e sirvo a quem vier, para parecer generoso.
A categoria luxo impressiona. Mas o criativo funciona para ricos e pobres. Tem toda a chance de se tornar inesquecível. Por exemplo, um pacote de argila fresca dado a uma criança na noite de Natal é inesquecível. Para a mãe e a dona da casa. Mas a criança vai adorar! Fuja de filhotes de cães ou gatos. Bichos a gente só dá a quem realmente quer. Já ganhei um presente criativo e inesquecível, entre muitos, de minha amiga Lucilia Diniz. Quando fiz 60 anos, ela me ofereceu uma caixa com DVDs de todos os filmes que ganharam o Oscar do ano em que nasci até meu aniversário. Para meu orgulho, também já fiz sucesso em um aniversário da Bethy Lagardère, que hoje vive no Rio e já foi casada com o homem mais rico da França. Bem, o que se dá para alguém assim? Roupa de grife, para uma das mulheres que melhor se vestem no planeta? Encontrei um livro sobre os pássaros do mundo. A cada página, as ilustrações subiam em relevo e ouvia-se o som dos pássaros cantando. Ela adorou! Para ser criativo, é preciso também ser surpreendente. Conheci uma mulher que preparava biscoitos e oferecia em vidros personalizados aos amigos. Uma delicadeza. Aviso: estou cultivando abelhas. Ano que vem me safo engarrafando potes de mel e oferecendo com um “eu mesmo produzi”. Presentes criativos, ou as pessoas adoram ou disfarçam. Mas, se fingem que gostam, é o que realmente conta no Natal.
Presentes práticos são os que menos entusiasmam. Mães costumam ser vítimas dessa categoria. Ganham coisas para a casa: pratos, panelas, eletrodomésticos. Minha mãe, que não era boba, a certa altura da vida implorou: “Neste Natal, quero um presente para mim”. Foi o único jeito de se livrar dos liquidificadores, dados ano após ano por mim e meus irmãos. A gente nunca sabe exatamente o que dar a pai e mãe, que parecem ter tudo. O segredo: pense em algo que, na imaginação, eles nunca usariam. Tipo um estojo de maquiagem transado, para ela se sentir uma mocinha; shorts colorido para ele; material de pintura, caso não pintem; ou inscreva seu velho num curso de culinária; ou ofereça um pacote de seis meses numa academia. Se insistir num presente prático, fuja de liquidações. Certa vez dei uma camisa a um amigo secreto no trabalho. Não serviu. Tentei a troca, não aceitaram. Na época, eu estava durango. Nunca mais toquei no assunto. O amigo secreto virou inimigo público.
A não ser que tenha certeza absoluta, fuja do presente prático. Senão, um dia encontrará uma pilha de eletrodomésticos na área de serviço de sua mãe, tia ou sogra, acumulados ao longo do tempo. Surpresa ainda é o melhor no Natal. E, quem sabe, você ofereça um vale salto paraquedas a seu primo, e ele te agradeça eternamente?
Presentes práticos são os que menos entusiasmam. E fuja de liquidações!
Adiei o que pude. Xinguei o sistema de consumo. Agora tenho de tratar dos presentes de Natal. Nem preciso ir à academia. Gastarei minhas calorias andando por lojas, atravessando shoppings e mergulhando em multidões exaltadas em torno de caixas lentos.
Tenho uma teoria a respeito de presentes, ótima para o Natal. Presentes se dividem entre: de luxo, práticos e criativos. De forma geral, a regra é a seguinte: quanto menor a caixinha, mais rico quem ganha ou quem dá. Quanto maior, menos grana no pedaço. Claro, há exceções. Mas brincos de brilhantes, gargantilhas de rubis exigem embalagens pequenas. Uma máquina de lavar é um pacotão. Se você tem muito dinheiro, está fácil. Um relógio de marca famosa, champanhe Dom Perignon, Veuve Clicquot ou Cristal sempre são bem acolhidos, assim como bons vinhos, charutos cubanos, bolsas de grife exclusivas, lanchas, carros zero. Todo mundo adora rico que bota presente bom na mesa. Aquele adágio que milionários e mestres de etiqueta adoram declamar – “ser elegante é ser simples” – é mentira. Se alguém tem um amigo rico, odiará um presentinho qualquer. Quer que o rico mostre quem é, dando algo de luxo. Confesso: recentemente ganhei um conhaque Louis XIII. Já falei dele aqui, custa mais de R$ 12 mil a garrafa. Meu coração tremeu de emoção.
– Como alguém pode gastar tanto comigo? – pensei, com os olhos faiscando de autoestima.
Depois, é claro, escondi a garrafa. Sou filho de pobre. Não correrei o risco de que algum amigo bebum enxugue meu conhaque. Eu mesmo o beberei de gota em gota. Mais tarde, quando a preciosidade acabar, encho a garrafa com um conhaque comum e sirvo a quem vier, para parecer generoso.
A categoria luxo impressiona. Mas o criativo funciona para ricos e pobres. Tem toda a chance de se tornar inesquecível. Por exemplo, um pacote de argila fresca dado a uma criança na noite de Natal é inesquecível. Para a mãe e a dona da casa. Mas a criança vai adorar! Fuja de filhotes de cães ou gatos. Bichos a gente só dá a quem realmente quer. Já ganhei um presente criativo e inesquecível, entre muitos, de minha amiga Lucilia Diniz. Quando fiz 60 anos, ela me ofereceu uma caixa com DVDs de todos os filmes que ganharam o Oscar do ano em que nasci até meu aniversário. Para meu orgulho, também já fiz sucesso em um aniversário da Bethy Lagardère, que hoje vive no Rio e já foi casada com o homem mais rico da França. Bem, o que se dá para alguém assim? Roupa de grife, para uma das mulheres que melhor se vestem no planeta? Encontrei um livro sobre os pássaros do mundo. A cada página, as ilustrações subiam em relevo e ouvia-se o som dos pássaros cantando. Ela adorou! Para ser criativo, é preciso também ser surpreendente. Conheci uma mulher que preparava biscoitos e oferecia em vidros personalizados aos amigos. Uma delicadeza. Aviso: estou cultivando abelhas. Ano que vem me safo engarrafando potes de mel e oferecendo com um “eu mesmo produzi”. Presentes criativos, ou as pessoas adoram ou disfarçam. Mas, se fingem que gostam, é o que realmente conta no Natal.
Presentes práticos são os que menos entusiasmam. Mães costumam ser vítimas dessa categoria. Ganham coisas para a casa: pratos, panelas, eletrodomésticos. Minha mãe, que não era boba, a certa altura da vida implorou: “Neste Natal, quero um presente para mim”. Foi o único jeito de se livrar dos liquidificadores, dados ano após ano por mim e meus irmãos. A gente nunca sabe exatamente o que dar a pai e mãe, que parecem ter tudo. O segredo: pense em algo que, na imaginação, eles nunca usariam. Tipo um estojo de maquiagem transado, para ela se sentir uma mocinha; shorts colorido para ele; material de pintura, caso não pintem; ou inscreva seu velho num curso de culinária; ou ofereça um pacote de seis meses numa academia. Se insistir num presente prático, fuja de liquidações. Certa vez dei uma camisa a um amigo secreto no trabalho. Não serviu. Tentei a troca, não aceitaram. Na época, eu estava durango. Nunca mais toquei no assunto. O amigo secreto virou inimigo público.
A não ser que tenha certeza absoluta, fuja do presente prático. Senão, um dia encontrará uma pilha de eletrodomésticos na área de serviço de sua mãe, tia ou sogra, acumulados ao longo do tempo. Surpresa ainda é o melhor no Natal. E, quem sabe, você ofereça um vale salto paraquedas a seu primo, e ele te agradeça eternamente?
Somos um povo fútil? - HELOISA SEIXAS
O GLOBO - 14/12
Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes
“No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua.”
Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de carnaval. “É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa.”
Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos black blocks, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.
Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. Sempre fui contra isso. Mas, desta vez — depois de visitar 11 museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros —, alguma coisa aconteceu comigo.
Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o Facebook — sem escalas.
Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória — e a História — de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.
Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos — refiro-me à nossa classe média —, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação — em todos os sentidos.
Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.
Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes
“No Brasil, tudo vira moda. Até manifestação de rua.”
Ouvi essa frase de um motorista de táxi durante os acontecimentos de junho, e achei um exagero. Rebati, dizendo que o povo nas ruas tinha um significado imenso e ia propiciar a mudança de várias leis. Ele me olhou pelo retrovisor e respondeu que era verdade, mas que via muitos jovens, a caminho das manifestações, agindo como se estivessem indo para um bloco de carnaval. “É a onda do momento”, insistiu. “Daqui a pouco passa.”
Em poucas semanas, as manifestações começaram a esvaziar. Os motivos eram muitos: a ação dos black blocks, as depredações, a violência da polícia, as denúncias de interesses escusos por parte de políticos, milicianos, traficantes. Mas não pude deixar de pensar nas palavras do motorista de táxi.
Tornei a pensar nelas há algumas semanas, ao voltar de uma viagem de quase um mês à Alemanha. Ao desembarcar no Brasil, fui tomada pela sensação de que somos mesmo um país de modismos. Um povo fútil. Sei que é um clichê essa história de ir à Europa e voltar falando de “um banho de civilização”. Sempre fui contra isso. Mas, desta vez — depois de visitar 11 museus, duas exposições, de ir a um concerto de música clássica e de visitar uma gigantesca feira de livros —, alguma coisa aconteceu comigo.
Acho que uma das razões dessa sensação foi a leitura, durante a viagem, do livro de Mario Vargas Llosa, “A civilização do espetáculo”. Embora em alguns pontos eu discorde do escritor, o livro me chamou a atenção para a destruição da cultura no mundo moderno, em favor do entretenimento. Esse conceito me deixou pensando no Brasil — nesse país que não lê livros, mas onde quase todo mundo tem celular. Onde se veem, nos bairros pobres, antenas parabólicas sobre casas miseráveis, onde há mais televisores do que geladeiras, e onde, em vez de bibliotecas, temos lan houses. País que parece ter passado, em massa, do analfabetismo funcional para o Facebook — sem escalas.
Outro fator que contribuiu para a minha sensação, ao voltar, foi essa lamentável discussão sobre as biografias. Muito me entristeceu ver biógrafos e historiadores serem tratados como se fossem caçadores de fofocas, quando o que está em jogo, com essa distorção no Código Civil, é a memória — e a História — de nosso país. Lamentei ver artistas que sempre lutaram pela liberdade defendendo posições indefensáveis. Não pude deixar de comparar o que estava acontecendo aqui com a atitude dos alemães em relação ao seu próprio passado (e que passado!). Eles não escondem nada. Não são um país sem memória. Tinham todos os motivos para ser, mas não são.
Nós somos. Descuidamos de nossos museus, nosso patrimônio, nossos arquivos. Deixamos cair aos pedaços a Biblioteca Nacional. Mas adoramos automóveis. E televisores gigantes, com telas de LED. Não podemos ficar um segundo sem falar ao celular, nem mesmo quando almoçamos (na Alemanha, os trens têm vagões em que é proibido ligar celulares e computadores, porque os bips incomodam). Quando viajamos — refiro-me à nossa classe média —, o que mais gostamos é de fazer compras. Já somos até conhecidos nas lojas de Nova York e Miami, onde os lojistas contratam vendedores que saibam falar português. E somos vaidosos. Queremos espetar botox no rosto e botar silicone nos seios. Já há meninas de 14, 15 anos, pedindo às mães que as deixem fazer isto. Nas ruas da Europa, não se vê essa quantidade de seios artificiais que temos por aqui. Estamos entre os campeões mundiais em número de cirurgias plásticas. Em cidades como Rio e São Paulo, há quase uma academia de ginástica em cada quarteirão. Precisamos malhar. E emagrecer. E não envelhecer nunca. E comprar tênis novos. Mas podemos passar um ano inteiro sem ler um único livro. Temos péssimos resultados em matéria de educação — em todos os sentidos.
Voltei da viagem com essa sensação de que somos mesmo fúteis, superficiais, e me lembrei do motorista do táxi.
Feijoada radical - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 14/12
RIO DE JANEIRO - No Rio, em 1960, Jean-Paul Sartre foi levado a uma feijoada no apartamento do jornalista José Guilherme Mendes. A folhas tantas, resolveu ir à cozinha e inspecionar o famoso prato brasileiro, que não conhecia. Pediu licença e destampou a panela. Contemplou aquela sarabanda de carnes indefinidas borbulhando no feijão preto e exclamou: "Mais... C'est la merde!".
É por essas e outras que o prestígio de Sartre não para de cair, e o de seu rival e desafeto Albert Camus, de subir. Camus era "pied-noir", habituado às agrestias da Argélia --deve ter comido coisa até pior na Casbah, a megafavela de Argel. Já Sartre era esnobe, só comia carne branca e jovem, e não se passava nem pela Simone de Beauvoir. Bem, pior para Sartre. Com ou sem a sua opinião, a feijoada está prestes a se tornar patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O espantoso é que ainda não fosse. Com tudo que já fez por nós nos últimos 200 anos, por que nos esquecemos de elegê-la fundamental na nossa cultura? Será porque, ao contrário da capoeira, do jongo e da Folia de Reis --todos entronizados--, ela não corra risco de extinção e inunde o país a cada sábado e quarta-feira? Pois, até por isso, a feijoada deveria ser louvada --ela não precisa de subsídio.
Quanto a mim, toda semana, em casa ou na rua, debruço-me sobre o grande prato nacional. Principalmente --que minha médica não me leia-- se, em vez dos rotineiros paio, linguiça e carne-seca, ele vier enriquecido com costela, pé, orelha, focinho ou bochecha.
Sou íntimo de algumas das maiores feijoadas cariocas: a de Leila, na quadra do Salgueiro; a de Tia Surica, na Portela; e a de Jorge Ferraz, no Renascença. Mas, neste verão, pretendo radicalizar: a qualquer hora dessas, vou encarar uma feijoada vegetariana.
RIO DE JANEIRO - No Rio, em 1960, Jean-Paul Sartre foi levado a uma feijoada no apartamento do jornalista José Guilherme Mendes. A folhas tantas, resolveu ir à cozinha e inspecionar o famoso prato brasileiro, que não conhecia. Pediu licença e destampou a panela. Contemplou aquela sarabanda de carnes indefinidas borbulhando no feijão preto e exclamou: "Mais... C'est la merde!".
É por essas e outras que o prestígio de Sartre não para de cair, e o de seu rival e desafeto Albert Camus, de subir. Camus era "pied-noir", habituado às agrestias da Argélia --deve ter comido coisa até pior na Casbah, a megafavela de Argel. Já Sartre era esnobe, só comia carne branca e jovem, e não se passava nem pela Simone de Beauvoir. Bem, pior para Sartre. Com ou sem a sua opinião, a feijoada está prestes a se tornar patrimônio cultural pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).
O espantoso é que ainda não fosse. Com tudo que já fez por nós nos últimos 200 anos, por que nos esquecemos de elegê-la fundamental na nossa cultura? Será porque, ao contrário da capoeira, do jongo e da Folia de Reis --todos entronizados--, ela não corra risco de extinção e inunde o país a cada sábado e quarta-feira? Pois, até por isso, a feijoada deveria ser louvada --ela não precisa de subsídio.
Quanto a mim, toda semana, em casa ou na rua, debruço-me sobre o grande prato nacional. Principalmente --que minha médica não me leia-- se, em vez dos rotineiros paio, linguiça e carne-seca, ele vier enriquecido com costela, pé, orelha, focinho ou bochecha.
Sou íntimo de algumas das maiores feijoadas cariocas: a de Leila, na quadra do Salgueiro; a de Tia Surica, na Portela; e a de Jorge Ferraz, no Renascença. Mas, neste verão, pretendo radicalizar: a qualquer hora dessas, vou encarar uma feijoada vegetariana.
Um amor que não acabou - MARCELO RUBENS PAIVA
O Estado de S.Paulo - 14/12
Paulo Mendes Campos é preciso. E preciso quando descreveu o fim de um amor em O Amor Acaba. Mas impreciso quando atesta que todos têm um fim. Nem todos acabam. Um amor, sim.
Quer um programão para as férias? O cineasta Richard Linklater nos proporciona uma experiência cinematográfica sem precedentes: assistir na sequência aos filmes Antes do Amanhecer (de 1994), Antes do Pôr do Sol (de 2004) e Antes da Meia-Noite (de 2013), todos com os mesmos atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, sobre o mesmo casal, o americano Jesse e a francesa Celine.
No primeiro filme, eles se encontram num trem para Viena. Decidem descer e arriscar uma história de amor por uma noite apenas. Passeiam pela cidade, falam sem parar. No segundo, eles se reencontram dez anos depois em Paris, engatam uma história não mais por uma noite. Que é revista na década seguinte na Grécia, no terceiro filme.
Feitos pela mesma equipe, eles têm o mesmo jeitão: planos longos, externas, diálogos intermináveis e um debate arriscado sobre as diferenças de gêneros, americanos e europeus, Dionísio e Apolo. Cada filme se passa num momento da história (guerra da ex-Iugoslávia, o debate ecológico e a decadência financeira do euro), percorre o platonismo dos inconsequentes 20 anos, a busca por um amor sólido aos 30, e a crise dos 40 pautada pelo questionando se ele acaba, sobre ruínas gregas. Passam pelo amor sonhador, o real e o pactuado.
Assim como os atores, o diretor-roteirista cresceu e nos coloca os dilemas de uma jornada com que muitos de nós se identificam. Assim como eles, tivemos 20, 30 e 40, sonhos, arrependimentos, mal-entendidos e amores casuais que poderiam ter rendido. Compre ou alugue, ejete a criançada, chame a patroa e... Boa sorte. Não esqueça dos lencinhos de papel em mão.
*
A escritora Margarita Robayo escreveu sobre seus romances com homens mais velhos: "São como qualquer namorado, só que mais felizes". Oona escreveu sobre o marido 36 anos mais velho: "Gargalhar é um dos maiores presentes que Charlie me deu. Minha infância não foi nada feliz. Ele é meu mundo".
Uma das histórias de amor que derrubam os prognósticos fatalistas e das mais lindas que existiram foi protagonizada por uma das mulheres mais lindas que já existiu, Oona O'Neill, Lady Chaplin, a senhora Charlie Chaplin, filha do maior dramaturgo americano, Eugene O'Neill (Longa Jornada Noite Adentro), Nobel de Literatura de 1936, que a abandonou quando ela tinha 4 anos de idade com a mãe, a escritora Agnes Boultyon, e um irmão mais velho que se matou.
Oona se mudou na adolescência para Nova York. Circulava nos anos 1940 com uniforme da Brearley School (saia plissada xadrez, meia soquete e sapatinho Oxford). Aparecia depois da lição de casa nos bares da boemia intelectualizada com Truman Capote. Era a musa do Stork Club, do tipo em que "pessoas comuns olham celebridades olhando no espelho".
Era fotografada e paparicada como uma celebridade. Ou melhor, filha de uma. Se o pai, que nasceu num pulgueiro da Broadway e se tornou um anarquista radical e bebum, era avesso a badalações, a filha gostava do holofote. A psicanálise de coluna de jornal diria que, sufocada por um complexo de rejeição edipiano, queria chamar a atenção do pai que curava uma ressaca tomando outro porre.
Era dos rostos mais perfeitos em 56 quilos e 1m62 de altura. Viajou pela Califórnia com o casal de amigos Carol Marcus e William Saroyan (de A Comédia Humana). Foram vistos nus pelas praias de São Francisco. Para aonde o pai se mudou.
Já tinha namorado o cartunista da New Yorker, Peter Arno, e o cineasta Orson Welles, quando conheceu aos 16 anos J. D. Salinger.
Salinger encaixava. Era mais velho (25 anos de idade), baladeiro, escritor como o pai (conhecido pelo circuito de revistas literárias) e rico, que entendia como poucos de problemas da adolescência e o sentimento de se sentir à parte. Mas Salinger queria atenção, Oona, chamar a atenção.
Estourou a Segunda Guerra. Salinger, judeu, se sentiu na obrigação de combater Hitler e se alistou. No versão de 1942, Oona foi eleita a Debutante do Ano. Sua foto rodou o país. A repercussão foi tamanha que, pela primeira vez, recebeu uma carta do pai. Eugene não buscava a reconciliação, criticava a sua exposição.
Salinger foi para academia militar. Trocaram longas cartas, algumas com mais de dez páginas. Ele mostrava para os colegas de farda fotos de Oona modelo e se vangloriava: "Essa é minha garota. Me casaria com ela amanhã, se topasse".
Ela fez dois pequenos papéis em peças de teatro, até a mãe a matricular numa escola de artes dramáticas de Hollywood. Orson Welles a ciceroneava. Sua reputação já era conhecida sob o sol da Califórnia. Reclamou com a agente que todos que a entrevistavam queriam ir pra cama com ela. Até a agente descobrir que Chaplin precisava de uma jovem para um papel. Mandou Oona. Chaplin, com 54 anos, não a escalou. Mas escreveu na sua biografia que foi amor à primeira vista.
Ela se encantou pelos olhos azuis do "velhote". Parou de responder às cartas de Salinger sem explicação. Ironia: virou garota-propaganda de uma linha de cosméticos cujo slogan era "fique linda para seu garoto soldado", enquanto o seu soldado não tão garoto partia para guerra.
Oona se casou com Chaplin em 16 de junho de 1943, um mês e dois dias depois de completar 18 anos. Nunca mais atuou. Chaplin escreveu: "No começo fiquei com medo da diferença de idade, mas Oona não ligava". Eugene a deserdou e não permitiu que falassem dela. Salinger soube do noivado pelos jornais e fez o que mais sabia fazer, escreveu longas e sarcásticas cartas. Na biblioteca da Universidade do Texas, pesquisadores têm acesso à pilha de cartas desaforadas que escreveu. Escrevia e desenhava Chaplin como um velho desagradável.
Salinger desembarcou no Dia D na Normandia. Viu o horror no front. Apesar do "escândalo", Oona e Charlie viveram inseparáveis por 35 anos em Beverly Hills e, depois, no exílio na Europa. Tiveram oito filhos. Geraldine é a mais velha. Ficaram juntos até ele morrer.
Ela morreu alcoólica e reclusa em 1991, 14 anos depois do grande amor, de pancreatite aguda. Sempre se recusou a falar de Salinger. Está enterrada na Suíça ao lado de Chaplin. Seu quinto filho se chama Eugene (engenheiro de som que trabalhou com Rolling Stones, David Bowie e Queen), em homenagem ao pai, que nunca mais a viu. Aí está o exemplo de um amor que não acabou, apesar de tudo conspirar contra.
Paulo Mendes Campos é preciso. E preciso quando descreveu o fim de um amor em O Amor Acaba. Mas impreciso quando atesta que todos têm um fim. Nem todos acabam. Um amor, sim.
Quer um programão para as férias? O cineasta Richard Linklater nos proporciona uma experiência cinematográfica sem precedentes: assistir na sequência aos filmes Antes do Amanhecer (de 1994), Antes do Pôr do Sol (de 2004) e Antes da Meia-Noite (de 2013), todos com os mesmos atores, Ethan Hawke e Julie Delpy, sobre o mesmo casal, o americano Jesse e a francesa Celine.
No primeiro filme, eles se encontram num trem para Viena. Decidem descer e arriscar uma história de amor por uma noite apenas. Passeiam pela cidade, falam sem parar. No segundo, eles se reencontram dez anos depois em Paris, engatam uma história não mais por uma noite. Que é revista na década seguinte na Grécia, no terceiro filme.
Feitos pela mesma equipe, eles têm o mesmo jeitão: planos longos, externas, diálogos intermináveis e um debate arriscado sobre as diferenças de gêneros, americanos e europeus, Dionísio e Apolo. Cada filme se passa num momento da história (guerra da ex-Iugoslávia, o debate ecológico e a decadência financeira do euro), percorre o platonismo dos inconsequentes 20 anos, a busca por um amor sólido aos 30, e a crise dos 40 pautada pelo questionando se ele acaba, sobre ruínas gregas. Passam pelo amor sonhador, o real e o pactuado.
Assim como os atores, o diretor-roteirista cresceu e nos coloca os dilemas de uma jornada com que muitos de nós se identificam. Assim como eles, tivemos 20, 30 e 40, sonhos, arrependimentos, mal-entendidos e amores casuais que poderiam ter rendido. Compre ou alugue, ejete a criançada, chame a patroa e... Boa sorte. Não esqueça dos lencinhos de papel em mão.
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A escritora Margarita Robayo escreveu sobre seus romances com homens mais velhos: "São como qualquer namorado, só que mais felizes". Oona escreveu sobre o marido 36 anos mais velho: "Gargalhar é um dos maiores presentes que Charlie me deu. Minha infância não foi nada feliz. Ele é meu mundo".
Uma das histórias de amor que derrubam os prognósticos fatalistas e das mais lindas que existiram foi protagonizada por uma das mulheres mais lindas que já existiu, Oona O'Neill, Lady Chaplin, a senhora Charlie Chaplin, filha do maior dramaturgo americano, Eugene O'Neill (Longa Jornada Noite Adentro), Nobel de Literatura de 1936, que a abandonou quando ela tinha 4 anos de idade com a mãe, a escritora Agnes Boultyon, e um irmão mais velho que se matou.
Oona se mudou na adolescência para Nova York. Circulava nos anos 1940 com uniforme da Brearley School (saia plissada xadrez, meia soquete e sapatinho Oxford). Aparecia depois da lição de casa nos bares da boemia intelectualizada com Truman Capote. Era a musa do Stork Club, do tipo em que "pessoas comuns olham celebridades olhando no espelho".
Era fotografada e paparicada como uma celebridade. Ou melhor, filha de uma. Se o pai, que nasceu num pulgueiro da Broadway e se tornou um anarquista radical e bebum, era avesso a badalações, a filha gostava do holofote. A psicanálise de coluna de jornal diria que, sufocada por um complexo de rejeição edipiano, queria chamar a atenção do pai que curava uma ressaca tomando outro porre.
Era dos rostos mais perfeitos em 56 quilos e 1m62 de altura. Viajou pela Califórnia com o casal de amigos Carol Marcus e William Saroyan (de A Comédia Humana). Foram vistos nus pelas praias de São Francisco. Para aonde o pai se mudou.
Já tinha namorado o cartunista da New Yorker, Peter Arno, e o cineasta Orson Welles, quando conheceu aos 16 anos J. D. Salinger.
Salinger encaixava. Era mais velho (25 anos de idade), baladeiro, escritor como o pai (conhecido pelo circuito de revistas literárias) e rico, que entendia como poucos de problemas da adolescência e o sentimento de se sentir à parte. Mas Salinger queria atenção, Oona, chamar a atenção.
Estourou a Segunda Guerra. Salinger, judeu, se sentiu na obrigação de combater Hitler e se alistou. No versão de 1942, Oona foi eleita a Debutante do Ano. Sua foto rodou o país. A repercussão foi tamanha que, pela primeira vez, recebeu uma carta do pai. Eugene não buscava a reconciliação, criticava a sua exposição.
Salinger foi para academia militar. Trocaram longas cartas, algumas com mais de dez páginas. Ele mostrava para os colegas de farda fotos de Oona modelo e se vangloriava: "Essa é minha garota. Me casaria com ela amanhã, se topasse".
Ela fez dois pequenos papéis em peças de teatro, até a mãe a matricular numa escola de artes dramáticas de Hollywood. Orson Welles a ciceroneava. Sua reputação já era conhecida sob o sol da Califórnia. Reclamou com a agente que todos que a entrevistavam queriam ir pra cama com ela. Até a agente descobrir que Chaplin precisava de uma jovem para um papel. Mandou Oona. Chaplin, com 54 anos, não a escalou. Mas escreveu na sua biografia que foi amor à primeira vista.
Ela se encantou pelos olhos azuis do "velhote". Parou de responder às cartas de Salinger sem explicação. Ironia: virou garota-propaganda de uma linha de cosméticos cujo slogan era "fique linda para seu garoto soldado", enquanto o seu soldado não tão garoto partia para guerra.
Oona se casou com Chaplin em 16 de junho de 1943, um mês e dois dias depois de completar 18 anos. Nunca mais atuou. Chaplin escreveu: "No começo fiquei com medo da diferença de idade, mas Oona não ligava". Eugene a deserdou e não permitiu que falassem dela. Salinger soube do noivado pelos jornais e fez o que mais sabia fazer, escreveu longas e sarcásticas cartas. Na biblioteca da Universidade do Texas, pesquisadores têm acesso à pilha de cartas desaforadas que escreveu. Escrevia e desenhava Chaplin como um velho desagradável.
Salinger desembarcou no Dia D na Normandia. Viu o horror no front. Apesar do "escândalo", Oona e Charlie viveram inseparáveis por 35 anos em Beverly Hills e, depois, no exílio na Europa. Tiveram oito filhos. Geraldine é a mais velha. Ficaram juntos até ele morrer.
Ela morreu alcoólica e reclusa em 1991, 14 anos depois do grande amor, de pancreatite aguda. Sempre se recusou a falar de Salinger. Está enterrada na Suíça ao lado de Chaplin. Seu quinto filho se chama Eugene (engenheiro de som que trabalhou com Rolling Stones, David Bowie e Queen), em homenagem ao pai, que nunca mais a viu. Aí está o exemplo de um amor que não acabou, apesar de tudo conspirar contra.
Ueba! Fita crepe na Simone! - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 14/12
E já imaginou tucanos na Papuda? 'Tem concierge?' 'De que safra é o vinho?' 'A quentinha é do Fasano?'
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E adorei a dieta do Roberto Jefferson: salmão, geleia real e água de coco! Papuda Gourmet! Spapuda! E o resto na quentinha com dois "zóiudos" fritos! Rarará!
E o funeral babado do Mandela?! Sabe o que o Obama prometeu pra Michelle? "No próximo funeral, eu sento entre a Dilma e a Angela Merkel". Rarará!
E o intérprete dos discursos para surdos é impostor! Só fazia sinais sem sentido! E o Kibeloco: era a dança dos dedinhos da Eliana! Rarará.
E diz que a Globo vai contratar o intérprete esquizofrênico pra traduzir o Bial no "BBB"! E adorei a charge do Xalberto! Obama: "Mandela is a great man". E o tradutor dos sinais: "O que esse tal de Collor tá fazendo aqui?". Rarará!
E o helipóptero dos Perrella? Tão dizendo que: a fazenda é do pai, o helicóptero é do filho e a cocaína é do Espírito Santo! Então: amém! Rarará!
E atenção! Faltando dez dias pro Natal, ainda não ouvi a Simone, entrei em shoppings, supermercados, padarias e presídios, e não ouvi a Simone, resta alguma esperança? Será que eu escapei dessa vez? E um amigo: "PQP, fudex! Meu vizinho ouvindo a Simone. Vou passar o Natal na Síria". DOIS! Rarará.
Na internet, taparam a boca da Simone com uma fita crepe. Prateada! E um tuiteiro: "Gostaria que na cela dos mensaleiros tocasse dia e noite num alto-falante a Simone cantando Então É Natal'". Isso fere a Convenção de Genebra! E não tem pena de morte no Brasil!
E sabe o que eu vou dar de presente de Natal pro Dirceu? Um par de havaianas listrado de preto e branco. Verão na Papuda! Rarará!
E essa: "Procurador que engavetou pedido da Suíça reassume inquérito do caso Alstom". Gaveta de novo! Tapetão do Trensalão! Tem o tapetão e o gavetão! Petista é na Papuda e tucano é na gaveta! E já imaginou tucanos na Papuda? "Tem concierge?" "De que safra é o vinho?" "A quentinha é do Fasano?" "Tem cela para éticos?". Rarará!
O Brasil é Lúdico! Corre na internet um vírus: "Seu cartão foi cronado". O hacker não fez Enem! "Cronado em Frorianóporis na estreia do filme CRÔ?". Rarará!
E olha o que apareceu na tela do "Cidade Alerta": "Presos queimam colhões em motim". Rarará! Corta pra mim! Põe na tela! Põe na tela! Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza.
Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
E já imaginou tucanos na Papuda? 'Tem concierge?' 'De que safra é o vinho?' 'A quentinha é do Fasano?'
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E adorei a dieta do Roberto Jefferson: salmão, geleia real e água de coco! Papuda Gourmet! Spapuda! E o resto na quentinha com dois "zóiudos" fritos! Rarará!
E o funeral babado do Mandela?! Sabe o que o Obama prometeu pra Michelle? "No próximo funeral, eu sento entre a Dilma e a Angela Merkel". Rarará!
E o intérprete dos discursos para surdos é impostor! Só fazia sinais sem sentido! E o Kibeloco: era a dança dos dedinhos da Eliana! Rarará.
E diz que a Globo vai contratar o intérprete esquizofrênico pra traduzir o Bial no "BBB"! E adorei a charge do Xalberto! Obama: "Mandela is a great man". E o tradutor dos sinais: "O que esse tal de Collor tá fazendo aqui?". Rarará!
E o helipóptero dos Perrella? Tão dizendo que: a fazenda é do pai, o helicóptero é do filho e a cocaína é do Espírito Santo! Então: amém! Rarará!
E atenção! Faltando dez dias pro Natal, ainda não ouvi a Simone, entrei em shoppings, supermercados, padarias e presídios, e não ouvi a Simone, resta alguma esperança? Será que eu escapei dessa vez? E um amigo: "PQP, fudex! Meu vizinho ouvindo a Simone. Vou passar o Natal na Síria". DOIS! Rarará.
Na internet, taparam a boca da Simone com uma fita crepe. Prateada! E um tuiteiro: "Gostaria que na cela dos mensaleiros tocasse dia e noite num alto-falante a Simone cantando Então É Natal'". Isso fere a Convenção de Genebra! E não tem pena de morte no Brasil!
E sabe o que eu vou dar de presente de Natal pro Dirceu? Um par de havaianas listrado de preto e branco. Verão na Papuda! Rarará!
E essa: "Procurador que engavetou pedido da Suíça reassume inquérito do caso Alstom". Gaveta de novo! Tapetão do Trensalão! Tem o tapetão e o gavetão! Petista é na Papuda e tucano é na gaveta! E já imaginou tucanos na Papuda? "Tem concierge?" "De que safra é o vinho?" "A quentinha é do Fasano?" "Tem cela para éticos?". Rarará!
O Brasil é Lúdico! Corre na internet um vírus: "Seu cartão foi cronado". O hacker não fez Enem! "Cronado em Frorianóporis na estreia do filme CRÔ?". Rarará!
E olha o que apareceu na tela do "Cidade Alerta": "Presos queimam colhões em motim". Rarará! Corta pra mim! Põe na tela! Põe na tela! Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza.
Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Hoje a festa é sua - CACÁ DIEGUES
O GLOBO - 14/12
Devíamos nos orgulhar da origem portuguesa. Devíamos aproveitar o fato de sermos a única nação luso-afro-indígena
Por motivos profissionais, me encontro em Lisboa nessas vésperas de Natal. Adoro essa cidade. Não só porque ela é linda, elegante, afetuosa e fala a nossa lingua, como também porque aqui percebo de onde vim.
Como Portugal não participou de nenhuma daquelas guerras arrasadoras e genocidas do século 20, Lisboa permaneceu inteira. Isso é, inteira como sempre foi depois de destruída por um terromoto seguido de maremoto que acabou com dois terços da cidade, em 1755. Ao contrário do que escreveu Lévy Strauss sobre o Brasil exibir uma decadência que não conheceu a civilização, as poucas ruínas de Lisboa parecem intervenções urbanas contemporâneas, como as que produz em outras cidades Gordon Matta-Clark, autodenominado “o anarquiteto”, com manipulação artística de prédios em demolição.
É comovente ver uma juventude lisboeta moderna, a passear pelas velhas vias da cidade vestindo, cantando e dizendo algo à altura do que veste, canta e diz qualquer jovem em Nova York, Londres, Paris ou Barcelona. Assim como não é possível deixar de pensar numa cultura secular, quando se come muito bem em qualquer canto caro ou barato de Lisboa.
No ensaio “Notas para uma definição de cultura”, T.S.Eliot diz que cultura e conhecimento não têm nada a ver, não são a mesma coisa, aquela antecede a este. O conhecimento é uma forma superior das relações do homem com a natureza, enquanto a cultura faz parte e é indispensável à própria existência do homem sobre a terra.
Já cansei de dizer a meus amigos que devíamos nos orgulhar de termos a origem portuguesa que temos. Devíamos aproveitar o fato de sermos a única nação luso-afro-indígena do mundo. Alguma coisa de original temos que extrair dessa mistura, daí sairia nossa potencial contribuição à civilização humana, poderíamos torná-la mais fraterna, solidária e indiferente às diferenças.
Vizinha à Torre de Belém, me espanto com a reprodução de uma nau das descobertas, uma daquelas barcacinhas frágeis em que nossos antepassados portugueses se atiravam ao mar, indo com o vento parar na India e no Japão. Ou nas terras desconhecidas do que seria o Brasil. Uns loucos, esses navegadores; loucos cheios de curiosidade e de esperança no que haveriam de encontrar.
É bom pensar em tudo isso nessa véspera de Natal, a festa do recomeço. O grande poeta alagoano Jorge de Lima, um dos maiores da língua portuguesa, dizia que a diferença cultural entre os catolicismos hispânico e lusitano que nos formaram a todos na América Latina, é que a festa máxima dos espanhóis é a da Paixão, representada pela imagem do Cristo em chagas a sofrer na cruz, ferido de morte por nossos pecados.
Já a festa portuguesa por excelência, a que herdamos deles, é a do Natal, cuja imagem fundadora é a do Menino na manjedoura iluminada, cercado por seus pais, por pastores e reis, com a estrela de Belém ao fundo, a anunciar a chegada de nossa Redenção. É isso o que devíamos ser e representar para o mundo, não importa a religião ou a ausência dela.
Não me apego a nostalgias, tenho saudades de muito pouca coisa, quase todas muito pessoais (como a saudade de meu corpo jovem, por exemplo). O mundo já foi muito pior, o país mais atrasado, nossa vida muito mais difícil. Apesar de tudo, mesmo com tanta miséria e injustiça, com tanto egoísmo e abandono, com os confrontos pelo mundo afora, vamos avançando, tentando prolongar nossa existência com uma certa qualidade, conquistando nossos direitos específicos e universais.
Mas não posso deixar de dizer que já gostei mais de Natal, sobretudo o de minha terra, Alagoas. Na minha infância, Natal era mesmo festa. As pessoas cantavam e dançavam pastoris, reisados, cheganças, todos os festejos populares de origem portuguesa (às vezes, com influência moura). Num certo sentido, talvez fosse até mais animado que no carnaval.
Mesmo já morando no Rio de Janeiro, minha mãe organizava na Rua da Matriz, com jovens filhos e filhas de vizinhos, grupos de pastoril, quase sempre na casa de Valquíria e Barreto Filho, ilustre crítico literário amigo de meu pai. Minha mãe se encantou quando foi convidada por médicos do Instituto Pinel a ensinar o pastoril aos internos da casa e passou a fazê-lo todo ano.
As festas de Natal duravam o mês de dezembro inteiro e só iam terminar no 6 de janeiro, Dia de Reis. Agora, a gente fica sentado na sala, assistindo em silêncio à festa de um só Rei, único, maravilhoso e inbiografável. Por que estamos tão tristes? Precisamos recuperar nossa alegria de viver, nossa herança das famosas “três raças tristes”.
Confesso que não acho graça no Papai Noel que invadiu a festa. Com aquela barriga, sempre acho que se trata de propaganda de cerveja. E acho árvore de Natal um estorvo em casa e na rua. Essa não é a minha festa. Eu gosto mesmo é de presépio e de desejar um bom Natal a com quem cruzo na rua.
Por falar em Natal, paro de escrever hoje e só volto no dia 11 de janeiro. Feliz fim de ano para todo mundo.
Devíamos nos orgulhar da origem portuguesa. Devíamos aproveitar o fato de sermos a única nação luso-afro-indígena
Por motivos profissionais, me encontro em Lisboa nessas vésperas de Natal. Adoro essa cidade. Não só porque ela é linda, elegante, afetuosa e fala a nossa lingua, como também porque aqui percebo de onde vim.
Como Portugal não participou de nenhuma daquelas guerras arrasadoras e genocidas do século 20, Lisboa permaneceu inteira. Isso é, inteira como sempre foi depois de destruída por um terromoto seguido de maremoto que acabou com dois terços da cidade, em 1755. Ao contrário do que escreveu Lévy Strauss sobre o Brasil exibir uma decadência que não conheceu a civilização, as poucas ruínas de Lisboa parecem intervenções urbanas contemporâneas, como as que produz em outras cidades Gordon Matta-Clark, autodenominado “o anarquiteto”, com manipulação artística de prédios em demolição.
É comovente ver uma juventude lisboeta moderna, a passear pelas velhas vias da cidade vestindo, cantando e dizendo algo à altura do que veste, canta e diz qualquer jovem em Nova York, Londres, Paris ou Barcelona. Assim como não é possível deixar de pensar numa cultura secular, quando se come muito bem em qualquer canto caro ou barato de Lisboa.
No ensaio “Notas para uma definição de cultura”, T.S.Eliot diz que cultura e conhecimento não têm nada a ver, não são a mesma coisa, aquela antecede a este. O conhecimento é uma forma superior das relações do homem com a natureza, enquanto a cultura faz parte e é indispensável à própria existência do homem sobre a terra.
Já cansei de dizer a meus amigos que devíamos nos orgulhar de termos a origem portuguesa que temos. Devíamos aproveitar o fato de sermos a única nação luso-afro-indígena do mundo. Alguma coisa de original temos que extrair dessa mistura, daí sairia nossa potencial contribuição à civilização humana, poderíamos torná-la mais fraterna, solidária e indiferente às diferenças.
Vizinha à Torre de Belém, me espanto com a reprodução de uma nau das descobertas, uma daquelas barcacinhas frágeis em que nossos antepassados portugueses se atiravam ao mar, indo com o vento parar na India e no Japão. Ou nas terras desconhecidas do que seria o Brasil. Uns loucos, esses navegadores; loucos cheios de curiosidade e de esperança no que haveriam de encontrar.
É bom pensar em tudo isso nessa véspera de Natal, a festa do recomeço. O grande poeta alagoano Jorge de Lima, um dos maiores da língua portuguesa, dizia que a diferença cultural entre os catolicismos hispânico e lusitano que nos formaram a todos na América Latina, é que a festa máxima dos espanhóis é a da Paixão, representada pela imagem do Cristo em chagas a sofrer na cruz, ferido de morte por nossos pecados.
Já a festa portuguesa por excelência, a que herdamos deles, é a do Natal, cuja imagem fundadora é a do Menino na manjedoura iluminada, cercado por seus pais, por pastores e reis, com a estrela de Belém ao fundo, a anunciar a chegada de nossa Redenção. É isso o que devíamos ser e representar para o mundo, não importa a religião ou a ausência dela.
Não me apego a nostalgias, tenho saudades de muito pouca coisa, quase todas muito pessoais (como a saudade de meu corpo jovem, por exemplo). O mundo já foi muito pior, o país mais atrasado, nossa vida muito mais difícil. Apesar de tudo, mesmo com tanta miséria e injustiça, com tanto egoísmo e abandono, com os confrontos pelo mundo afora, vamos avançando, tentando prolongar nossa existência com uma certa qualidade, conquistando nossos direitos específicos e universais.
Mas não posso deixar de dizer que já gostei mais de Natal, sobretudo o de minha terra, Alagoas. Na minha infância, Natal era mesmo festa. As pessoas cantavam e dançavam pastoris, reisados, cheganças, todos os festejos populares de origem portuguesa (às vezes, com influência moura). Num certo sentido, talvez fosse até mais animado que no carnaval.
Mesmo já morando no Rio de Janeiro, minha mãe organizava na Rua da Matriz, com jovens filhos e filhas de vizinhos, grupos de pastoril, quase sempre na casa de Valquíria e Barreto Filho, ilustre crítico literário amigo de meu pai. Minha mãe se encantou quando foi convidada por médicos do Instituto Pinel a ensinar o pastoril aos internos da casa e passou a fazê-lo todo ano.
As festas de Natal duravam o mês de dezembro inteiro e só iam terminar no 6 de janeiro, Dia de Reis. Agora, a gente fica sentado na sala, assistindo em silêncio à festa de um só Rei, único, maravilhoso e inbiografável. Por que estamos tão tristes? Precisamos recuperar nossa alegria de viver, nossa herança das famosas “três raças tristes”.
Confesso que não acho graça no Papai Noel que invadiu a festa. Com aquela barriga, sempre acho que se trata de propaganda de cerveja. E acho árvore de Natal um estorvo em casa e na rua. Essa não é a minha festa. Eu gosto mesmo é de presépio e de desejar um bom Natal a com quem cruzo na rua.
Por falar em Natal, paro de escrever hoje e só volto no dia 11 de janeiro. Feliz fim de ano para todo mundo.
Alegria do Evangelho - DOM ODILO P. SCHERER
O Estado de S.Paulo - 14/12
No dia 24 de novembro o papa Francisco entregou à Igreja sua exortação apostólica Evangelii Gaudium - A Alegria do Evangelho. Diversamente de uma encíclica, dirigida de maneira aberta a todos, a exortação apostólica é uma diretriz vigorosa sobre determinado tema dirigida aos membros da própria Igreja.
Nesta sua primeira exortação apostólica Francisco trata do anúncio do Evangelho no mundo atual, tema relacionado estreitamente com a assembleia do Sínodo dos Bispos de outubro de 2012, sobre "a nova evangelização para a transmissão da fé cristã". O papa expõe as intuições e preocupações levantadas naquele Sínodo, fundidas com a sua pessoal percepção e orientação sobre as questões relacionadas ao tema.
A principal missão da Igreja de Cristo é, de fato, anunciar o Evangelho, ou "evangelizar". Ela o faz quer pela pregação explícita e pela celebração dos sacramentos, quer pelo testemunho de vida dos seus membros, quer, ainda, pelas obras que realiza no meio da comunidade humana - nos âmbitos da saúde, da educação, da assistência social e da promoção da justiça e da dignidade humana. "A Igreja existe para evangelizar", já afirmava o papa Paulo VI na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975) - sempre recordada quando se trata do assunto.
Se bem que a Igreja nunca tenha deixado de evangelizar ao longo de toda a sua história quase bimilenar, ela não o fez sempre do mesmo modo. O conteúdo é o mesmo, mas o jeito mudou, com novos enfoques e destaques, dependendo das circunstâncias e necessidades. Mais de uma vez a Igreja precisou enfrentar o risco da desmotivação e do cansaço, de perplexidades resultantes de situações momentâneas, ou de crises, que ela teve de enfrentar com ânimo renovado. Hoje não é diferente.
Essa é a questão posta na exortação Evangelii Gaudium. Antes de tudo, Francisco exorta a Igreja a que ela não pode esquecer nem abdicar de sua identidade missionária. O Evangelho, que lhe foi confiado por seu Fundador, é um dom para o mundo todo, que a Igreja não deve reter apenas para si mesma, muito menos esconder para não ser contaminado com as realidades do mundo. A Igreja não existe em função de si mesma, nem se pode fechar sobre si mesma; por sua própria natureza, ela precisa estar em "atitude de saída", em estado de missão.
Por isso Francisco chama os membros da comunidade eclesial a se voltarem para essa identidade missionária. Isso demanda a superação de certa tendência à introversão eclesial e a renovação de convicções e atitudes, "a partir do coração do Evangelho". Há tentações a serem evitadas, como o desânimo, a acomodação à mentalidade individualista, que faz perder a força dinâmica do anúncio do Evangelho; há também a tentação de transformar a religião em praça de consumo ou em fonte de lucro, poder e vanglória.
O "mundanismo", processo sutil de assimilação da Igreja e de sua pregação originária ao ambiente, foi um risco já advertido por São Paulo no início do cristianismo - "não vos conformeis com este mundo!" - e recorrente em toda a história da Igreja. "Não tenham medo de ir contra a corrente", convidou Francisco, com insistência, aos milhões de jovens reunidos na orla de Copacabana em julho. E isso não por uma perfeição já alcançada, mas por se ter uma meta alta para a existência humana e um caminho para alcançá-la, que requerem escolhas lúcidas e corajosas.
O papa exorta todos os membros da comunidade eclesial a fazerem sua parte na evangelização, que não pode ser relegada apenas a poucos e heroicos mensageiros. Há "deveres de casa" que não podem ser repassados simplesmente aos outros. Mas o papa não deixa de dirigir uma palavra especial aos que devem fazer a homilia, a pregação feita dentro da celebração litúrgica. Essa tem um papel inegável na transmissão e no cultivo da fé cristã.
A dimensão social da evangelização deve receber uma atenção renovada, para que o Evangelho alcance todos os âmbitos da vida social e comunitária; sem isso ele seria como o sal ou o fermento que permanecem na prateleira, não produzindo efeito algum. As convicções da fé cristã não dizem respeito apenas à vida privada, mas trazem consigo uma visão própria sobre as realidades do homem e do mundo e têm muito a contribuir em seu benefício. O Evangelho é um bem não apenas para quem crê, mas também para toda a comunidade humana.
A Doutrina Social da Igreja, elaborada ao longo de séculos e apresentada modernamente em várias encíclicas e outros documentos do magistério eclesial, expõe de maneira sistemática o pensamento social cristão e católico sobre temas como a dignidade humana, as relações sociais e políticas, a economia, a justiça social, a paz no mundo e, mais recentemente, sobre as questões ambientais. Nada disso é indiferente ao Evangelho.
Francisco recorda, com renovado frescor, que a atenção especial aos pobres, doentes e desvalidos deriva diretamente da fé em Cristo. Portanto, essa preocupação também é parte integrante da evangelização e precisa ser traduzida não apenas em atitudes assistenciais, mas na ação em favor da justiça e do respeito à dignidade de todos no convívio social.
Porém o papa recorda que o Evangelho não é ideologia, e sim força transformadora da vida. Não se faz a evangelização por decretos nem por decisão em assembleias, mas pela ação de pessoas felizes por terem encontrado a grande luz de sua vida no Evangelho de Cristo e na fé em Deus. Já dissera Bento XVI: "A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração". O Evangelho enche de alegria o coração dos que o acolhem; e eles o transmitem não como um dever pesado, mas como alguém muito feliz por ter coisas boas a comunicar.
No dia 24 de novembro o papa Francisco entregou à Igreja sua exortação apostólica Evangelii Gaudium - A Alegria do Evangelho. Diversamente de uma encíclica, dirigida de maneira aberta a todos, a exortação apostólica é uma diretriz vigorosa sobre determinado tema dirigida aos membros da própria Igreja.
Nesta sua primeira exortação apostólica Francisco trata do anúncio do Evangelho no mundo atual, tema relacionado estreitamente com a assembleia do Sínodo dos Bispos de outubro de 2012, sobre "a nova evangelização para a transmissão da fé cristã". O papa expõe as intuições e preocupações levantadas naquele Sínodo, fundidas com a sua pessoal percepção e orientação sobre as questões relacionadas ao tema.
A principal missão da Igreja de Cristo é, de fato, anunciar o Evangelho, ou "evangelizar". Ela o faz quer pela pregação explícita e pela celebração dos sacramentos, quer pelo testemunho de vida dos seus membros, quer, ainda, pelas obras que realiza no meio da comunidade humana - nos âmbitos da saúde, da educação, da assistência social e da promoção da justiça e da dignidade humana. "A Igreja existe para evangelizar", já afirmava o papa Paulo VI na exortação apostólica Evangelii Nuntiandi (1975) - sempre recordada quando se trata do assunto.
Se bem que a Igreja nunca tenha deixado de evangelizar ao longo de toda a sua história quase bimilenar, ela não o fez sempre do mesmo modo. O conteúdo é o mesmo, mas o jeito mudou, com novos enfoques e destaques, dependendo das circunstâncias e necessidades. Mais de uma vez a Igreja precisou enfrentar o risco da desmotivação e do cansaço, de perplexidades resultantes de situações momentâneas, ou de crises, que ela teve de enfrentar com ânimo renovado. Hoje não é diferente.
Essa é a questão posta na exortação Evangelii Gaudium. Antes de tudo, Francisco exorta a Igreja a que ela não pode esquecer nem abdicar de sua identidade missionária. O Evangelho, que lhe foi confiado por seu Fundador, é um dom para o mundo todo, que a Igreja não deve reter apenas para si mesma, muito menos esconder para não ser contaminado com as realidades do mundo. A Igreja não existe em função de si mesma, nem se pode fechar sobre si mesma; por sua própria natureza, ela precisa estar em "atitude de saída", em estado de missão.
Por isso Francisco chama os membros da comunidade eclesial a se voltarem para essa identidade missionária. Isso demanda a superação de certa tendência à introversão eclesial e a renovação de convicções e atitudes, "a partir do coração do Evangelho". Há tentações a serem evitadas, como o desânimo, a acomodação à mentalidade individualista, que faz perder a força dinâmica do anúncio do Evangelho; há também a tentação de transformar a religião em praça de consumo ou em fonte de lucro, poder e vanglória.
O "mundanismo", processo sutil de assimilação da Igreja e de sua pregação originária ao ambiente, foi um risco já advertido por São Paulo no início do cristianismo - "não vos conformeis com este mundo!" - e recorrente em toda a história da Igreja. "Não tenham medo de ir contra a corrente", convidou Francisco, com insistência, aos milhões de jovens reunidos na orla de Copacabana em julho. E isso não por uma perfeição já alcançada, mas por se ter uma meta alta para a existência humana e um caminho para alcançá-la, que requerem escolhas lúcidas e corajosas.
O papa exorta todos os membros da comunidade eclesial a fazerem sua parte na evangelização, que não pode ser relegada apenas a poucos e heroicos mensageiros. Há "deveres de casa" que não podem ser repassados simplesmente aos outros. Mas o papa não deixa de dirigir uma palavra especial aos que devem fazer a homilia, a pregação feita dentro da celebração litúrgica. Essa tem um papel inegável na transmissão e no cultivo da fé cristã.
A dimensão social da evangelização deve receber uma atenção renovada, para que o Evangelho alcance todos os âmbitos da vida social e comunitária; sem isso ele seria como o sal ou o fermento que permanecem na prateleira, não produzindo efeito algum. As convicções da fé cristã não dizem respeito apenas à vida privada, mas trazem consigo uma visão própria sobre as realidades do homem e do mundo e têm muito a contribuir em seu benefício. O Evangelho é um bem não apenas para quem crê, mas também para toda a comunidade humana.
A Doutrina Social da Igreja, elaborada ao longo de séculos e apresentada modernamente em várias encíclicas e outros documentos do magistério eclesial, expõe de maneira sistemática o pensamento social cristão e católico sobre temas como a dignidade humana, as relações sociais e políticas, a economia, a justiça social, a paz no mundo e, mais recentemente, sobre as questões ambientais. Nada disso é indiferente ao Evangelho.
Francisco recorda, com renovado frescor, que a atenção especial aos pobres, doentes e desvalidos deriva diretamente da fé em Cristo. Portanto, essa preocupação também é parte integrante da evangelização e precisa ser traduzida não apenas em atitudes assistenciais, mas na ação em favor da justiça e do respeito à dignidade de todos no convívio social.
Porém o papa recorda que o Evangelho não é ideologia, e sim força transformadora da vida. Não se faz a evangelização por decretos nem por decisão em assembleias, mas pela ação de pessoas felizes por terem encontrado a grande luz de sua vida no Evangelho de Cristo e na fé em Deus. Já dissera Bento XVI: "A Igreja não cresce por proselitismo, mas por atração". O Evangelho enche de alegria o coração dos que o acolhem; e eles o transmitem não como um dever pesado, mas como alguém muito feliz por ter coisas boas a comunicar.
Para não esquecer - ZUENIR VENTURA
O GLOBO - 14/12
AI-5 foi assinado por 22 dos 23 membros do Conselho de Segurança Nacional, composto pelos ministros civis e militares reunidos pelo então chefe do governo, Costa e Silva
Chamado de golpe dentro do golpe, o Ato Institucional nº 5, cuja promulgação completou 45 anos ontem, foi um dos maiores atentados cometidos contra a liberdade de expressão e os direitos humanos. Vale a pena lembrar. Em uma década de vigência, esse decreto institucionalizando a ditadura militar fechou o Congresso, cancelou o habeas corpus e puniu mais de mil cidadãos, cassando ou suspendendo seus direitos, além de promover a censura de cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, cem revistas, mais de 200 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas. Só o falecido Plínio Marcos teve 18 peças vetadas. O índex ia de Chico Buarque, um dos mais perseguidos, à comediante Dercy Gonçalves. Já na madrugada de 13 de dezembro, vários jornais foram censurados ou impedidos de circular, e centenas de políticos, intelectuais, jornalistas, artistas foram presos num tipo de operação que mais tarde seria consagrada pelos bandidos: o “arrastão”.
O AI-5 foi assinado por 22 dos 23 membros do Conselho de Segurança Nacional, composto pelos ministros civis e militares reunidos pelo então chefe do governo, marechal Costa e Silva, o segundo ditador a mandar no Brasil no período de 1964 a 1985. A sessão que aprovou o Ato constituiu um espetáculo semelhante a uma peça do tropicalismo, então na moda, dirigida por José Celso Martinez Correa. Os ministros-atores funcionaram como encarnações alegóricas da hipocrisia e da pusilanimidade.
O único a se portar com dignidade naquela sexta-feira, 13, foi o vice-presidente da República, Pedro Aleixo, que se recusou a apoiar um documento que, como todos leram, instaurava no país o reino do arbítrio, da tortura e do terror. Basta dizer que um preso acusado de delito político ficaria incomunicável por dez dias — cinco a mais do que o Alvará de 1705, usado para arrancar confissão dos inconfidentes mineiros. Consta que, cheio de dúvidas e quase arrependido, Costa e Silva teria desabafado: “Peço a Deus que não me venha convencer amanhã de que Pedro Aleixo é que estava certo.” Diz-se que o velho ditador tinha esperança de que o AI-5 acabasse logo. Ele acabou antes.
Pelo menos dois remanescentes daquele conselho continuam por aí sem esboçar qualquer revisão crítica do passado: Jarbas Passarinho, ex-ministro do Trabalho e da Previdência, e Delfim Netto, pai do “milagre econômico”. O primeiro é autor da famosa frase que pronunciou ao emitir seu voto a favor do AI-5: “Às favas todos os escrúpulos de consciência.” O segundo tornou-se muito respeitado pelos antigos adversários que agora estão no poder e dos quais tem funcionado como conselheiro ou guru. Tão respeitado que eles parecem ter atualizado a imprecação de Passarinho, mudando-a para: “Às favas todos os escrúpulos éticos.”
AI-5 foi assinado por 22 dos 23 membros do Conselho de Segurança Nacional, composto pelos ministros civis e militares reunidos pelo então chefe do governo, Costa e Silva
Chamado de golpe dentro do golpe, o Ato Institucional nº 5, cuja promulgação completou 45 anos ontem, foi um dos maiores atentados cometidos contra a liberdade de expressão e os direitos humanos. Vale a pena lembrar. Em uma década de vigência, esse decreto institucionalizando a ditadura militar fechou o Congresso, cancelou o habeas corpus e puniu mais de mil cidadãos, cassando ou suspendendo seus direitos, além de promover a censura de cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, cem revistas, mais de 200 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovelas. Só o falecido Plínio Marcos teve 18 peças vetadas. O índex ia de Chico Buarque, um dos mais perseguidos, à comediante Dercy Gonçalves. Já na madrugada de 13 de dezembro, vários jornais foram censurados ou impedidos de circular, e centenas de políticos, intelectuais, jornalistas, artistas foram presos num tipo de operação que mais tarde seria consagrada pelos bandidos: o “arrastão”.
O AI-5 foi assinado por 22 dos 23 membros do Conselho de Segurança Nacional, composto pelos ministros civis e militares reunidos pelo então chefe do governo, marechal Costa e Silva, o segundo ditador a mandar no Brasil no período de 1964 a 1985. A sessão que aprovou o Ato constituiu um espetáculo semelhante a uma peça do tropicalismo, então na moda, dirigida por José Celso Martinez Correa. Os ministros-atores funcionaram como encarnações alegóricas da hipocrisia e da pusilanimidade.
O único a se portar com dignidade naquela sexta-feira, 13, foi o vice-presidente da República, Pedro Aleixo, que se recusou a apoiar um documento que, como todos leram, instaurava no país o reino do arbítrio, da tortura e do terror. Basta dizer que um preso acusado de delito político ficaria incomunicável por dez dias — cinco a mais do que o Alvará de 1705, usado para arrancar confissão dos inconfidentes mineiros. Consta que, cheio de dúvidas e quase arrependido, Costa e Silva teria desabafado: “Peço a Deus que não me venha convencer amanhã de que Pedro Aleixo é que estava certo.” Diz-se que o velho ditador tinha esperança de que o AI-5 acabasse logo. Ele acabou antes.
Pelo menos dois remanescentes daquele conselho continuam por aí sem esboçar qualquer revisão crítica do passado: Jarbas Passarinho, ex-ministro do Trabalho e da Previdência, e Delfim Netto, pai do “milagre econômico”. O primeiro é autor da famosa frase que pronunciou ao emitir seu voto a favor do AI-5: “Às favas todos os escrúpulos de consciência.” O segundo tornou-se muito respeitado pelos antigos adversários que agora estão no poder e dos quais tem funcionado como conselheiro ou guru. Tão respeitado que eles parecem ter atualizado a imprecação de Passarinho, mudando-a para: “Às favas todos os escrúpulos éticos.”
Quem quer a volta de Lula? - LEONARDO CAVALCANTI
CORREIO BRAZILIENSE - 14/12
É cada vez mais forte a percepção de que o setores empresariais torcem para a troca de Dilma pelo ex-presidente na chapa de 2014. O problema para a atual chefe do Planalto é que, por mais distante que tal equação esteja da realidade, ninguém no PT vai defendê-la caso a economia vá mal no próximo ano
Na foto oficial de Dilma Rousseff com os quatro ex-presidentes - feita antes do embarque para o funeral de Mandela e divulgada pelo Palácio do Planalto para todas as agências e jornais do mundo -, o petista Luiz Inácio Lula da Silva está com cara de um coadjuvante. Explico. Ele, Fernando Henrique Cardoso, José Sarney e Fernando Collor têm expressões distintas, mas, em comum, parecem se recusar a olhar diretamente para a câmera, como se resignados com o papel de reservas.
Enquanto Sarney usa óculos escuros, Collor ri de forma forçada e espreme os olhos. Fernando Henrique, naquele momento, parece displicente, mas não tanto quanto Lula, este sim, com a atenção voltada para fora do quadro. Talvez estivesse a mirar outra pessoa, mas o fato é que não olhava para a lente da câmera oficial, responsável por enquadrar Dilma. A presidente, no centro e de vermelho, encara o fotógrafo, disposta a mostrar quem manda ali e a quem caberá os elogios por reunir ex-presidentes.
Por mais que revele a força da presidente, a fotografia de Dilma com os ex-comandantes não é suficiente para tirar da cabeça dos especuladores de cenários políticos a ladainha da volta de Lula ao poder. Mesmo que a mulher recupere, a cada pesquisa, parte da aprovação perdida durante os protestos de junho, a sombra do mentor político está sempre ali, do lado. Mais do que um substituto de luxo, caso a oposição cresça para cima de Dilma, Lula é visto com um jogador pronto para entrar em campo.
É fácil entender a lógica do setor financeiro contra Dilma. Ao mesmo tempo que o atual governo tenha insinuado uma tentativa de diminuir as margens de lucros de bancos com a queda dos juros e a redução do spread, por exemplo, a equipe econômica foi desastrosa ao maquiar números na tentativa de fechar contas públicas. Tudo isso provocou o descrédito do Ministério da Fazenda, que, nem com reza nem com declaração de Guido Mantega, consegue sair das cordas do ringue do debate financeiro.
Atores
A dificuldade de Dilma aumenta à medida que, a partir de um rápido exercício, são colocados mais atores ligados à gestão política e administrativa da presidente. Mire, por exemplo, o parlamento e tente, mesmo de brincadeira, defender a petista ou a ministra-viajante-em-helicóptero-do-Samu, Ideli Salvatti, responsável do Palácio do Planalto pelas negociações com o Congresso. Vai levar boas bordoadas. Mais uma vez, a balança pende para Lula, sem que seja preciso fazer contas ou levantamentos de plenário.
A base aliada gostava de Lula e do jeito quase informal dele de fazer política. Com a substituição por Dilma, até os mais otimistas nunca tiveram dúvidas do jogo duro da presidente em tratar com os parlamentares. Ainda mais quando não se tem escudeiros de peso na intermediação com o Legislativo. Mesmo com os servidores públicos, Dilma mostra dificuldades, aqui pela trava nas negociações salariais. Assim, parece que vai faltar gente da base a apoiar a presidente petista. Não é bem assim.
As pesquisas recentes mostram uma força eleitoral que Dilma havia perdido nas manifestações da metade do ano, mas parece ter recuperado. Hoje, há um percentual de eleitores se dizendo dispostos a elegê-la inclusive no 1º turno. Até onde vai tal recuperação é que são elas, principalmente por causa da chance da volta das manifestações no próximo ano e, é claro, pela fragilidade das políticas econômicas a favor do crescimento e contra a inflação. Em caso de queda de popularidade, o PT vai pular fora.
A falta de solidariedade dos petistas pode ser entendida a partir do receio em perder a máquina federal e todos os cargos federais em Brasília e nos estados. Qualquer risco de deixar o comando a partir de uma eventual derrota de Dilma levará os petistas para o lado de Lula, sem constrangimentos, inclusive para mudar o discurso em favor do ex-presidente e justificar a saída de cena da mulher. Para isso existem os marqueteiros, a adequar a realidade partidária às urnas.
De volta à foto do início: Lula pode até não olhar para a lente, mas está longe de ser um coadjuvante.
Enquanto Sarney usa óculos escuros, Collor ri de forma forçada e espreme os olhos. Fernando Henrique, naquele momento, parece displicente, mas não tanto quanto Lula, este sim, com a atenção voltada para fora do quadro. Talvez estivesse a mirar outra pessoa, mas o fato é que não olhava para a lente da câmera oficial, responsável por enquadrar Dilma. A presidente, no centro e de vermelho, encara o fotógrafo, disposta a mostrar quem manda ali e a quem caberá os elogios por reunir ex-presidentes.
Por mais que revele a força da presidente, a fotografia de Dilma com os ex-comandantes não é suficiente para tirar da cabeça dos especuladores de cenários políticos a ladainha da volta de Lula ao poder. Mesmo que a mulher recupere, a cada pesquisa, parte da aprovação perdida durante os protestos de junho, a sombra do mentor político está sempre ali, do lado. Mais do que um substituto de luxo, caso a oposição cresça para cima de Dilma, Lula é visto com um jogador pronto para entrar em campo.
É fácil entender a lógica do setor financeiro contra Dilma. Ao mesmo tempo que o atual governo tenha insinuado uma tentativa de diminuir as margens de lucros de bancos com a queda dos juros e a redução do spread, por exemplo, a equipe econômica foi desastrosa ao maquiar números na tentativa de fechar contas públicas. Tudo isso provocou o descrédito do Ministério da Fazenda, que, nem com reza nem com declaração de Guido Mantega, consegue sair das cordas do ringue do debate financeiro.
Atores
A dificuldade de Dilma aumenta à medida que, a partir de um rápido exercício, são colocados mais atores ligados à gestão política e administrativa da presidente. Mire, por exemplo, o parlamento e tente, mesmo de brincadeira, defender a petista ou a ministra-viajante-em-helicóptero-do-Samu, Ideli Salvatti, responsável do Palácio do Planalto pelas negociações com o Congresso. Vai levar boas bordoadas. Mais uma vez, a balança pende para Lula, sem que seja preciso fazer contas ou levantamentos de plenário.
A base aliada gostava de Lula e do jeito quase informal dele de fazer política. Com a substituição por Dilma, até os mais otimistas nunca tiveram dúvidas do jogo duro da presidente em tratar com os parlamentares. Ainda mais quando não se tem escudeiros de peso na intermediação com o Legislativo. Mesmo com os servidores públicos, Dilma mostra dificuldades, aqui pela trava nas negociações salariais. Assim, parece que vai faltar gente da base a apoiar a presidente petista. Não é bem assim.
As pesquisas recentes mostram uma força eleitoral que Dilma havia perdido nas manifestações da metade do ano, mas parece ter recuperado. Hoje, há um percentual de eleitores se dizendo dispostos a elegê-la inclusive no 1º turno. Até onde vai tal recuperação é que são elas, principalmente por causa da chance da volta das manifestações no próximo ano e, é claro, pela fragilidade das políticas econômicas a favor do crescimento e contra a inflação. Em caso de queda de popularidade, o PT vai pular fora.
A falta de solidariedade dos petistas pode ser entendida a partir do receio em perder a máquina federal e todos os cargos federais em Brasília e nos estados. Qualquer risco de deixar o comando a partir de uma eventual derrota de Dilma levará os petistas para o lado de Lula, sem constrangimentos, inclusive para mudar o discurso em favor do ex-presidente e justificar a saída de cena da mulher. Para isso existem os marqueteiros, a adequar a realidade partidária às urnas.
De volta à foto do início: Lula pode até não olhar para a lente, mas está longe de ser um coadjuvante.
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