domingo, novembro 24, 2013

Pressão total - ILIMAR FRANCO

O GLOBO - 24/11
COM SIMONE IGLESIAS 

O presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, está sendo pressionado pelos 15 partidos aliados em Minas Gerais, prefeitos e  deputados tucanos a decidir de uma vez seu candidato ao governo. Apelam por definição porque o Planalto e o candidato petista, Fernando Pimentel, estão em plena  campanha, entregando obras e fazendo eventos políticos, numa ofensiva anti-PSDB. 

Devagar, devagarinho 

Apesar da pressão, Aécio Neves só vai decidir o candidato em março de 2014. Acha que a campanha estadual andará no vácuo da corrida ao Planalto. Aécio está entre o ex-ministro Pimenta da Veiga e o deputado Marcus Pestana. 

Candidatura incômoda 

O ex-presidente Lula torce o nariz para a  candidatura do ministro Fernando Pimentel ao  governo de Minas Gerais. E não para por aí. A  pessoas próximas, Lula diz que ele será uma  pedra no caminho da presidente Dilma em 2014. 

Cinéfilos por conveniência 

Entidades ligadas aos católicos, evangélicos e espíritas se mobilizam e estão levando caravanas de jovens para assistir ao documentário "Blood Money - aborto legalizado", em exibição em vários cinemas do país. O filme é a visão dos contrários ao aborto nos Estados Unidos. Graças a essa audiência, os religiosos estão conseguindo mantê-lo em cartaz. A mobilização envolve dez capitais. Em Fortaleza, por exemplo, a procura por "Blood Money" já supera "Jogos Vorazes 2". O Movimento Brasil Contra o Aborto divulga assim o filme nas redes sociais: "Você não verá esse filme num comercial de TV. É que ele fala sobre assunto não muito 'politicamente correto' "  .

"O biógrafo não é um artista menor. Sua atividade demanda pesquisa e comprometimento ético. Esse trabalho não deve ser reprimido em nome da desconfiança e do preconceito" .

Márlon Reis  
Juiz e um dos articuladores da Lei da Ficha Limpa 

Médico de grife 

João Marcelo Goulart, neto de Jango, formou-se em  Medicina em Cuba em  julho e voltou ao Brasil  para trabalhar no Mais  Médicos. Ele atua em  Duque de Caxias (RJ). João levou para o programa sua companheira, a  equatoriana Sandra Perez.  O casal  estudou em Havana, ele como indicação da Juventude Socialista do PDT. 

Ou dá ou desce 

O PT não dará chance ao novo presidente do partido em Santa Catarina, Cláudio Vignatti. Ele será obrigado a apoiar a reeleição do governador Raimundo Colombo (PSD) e indicar nesta chapa, ao Senado, a ministra Ideli Salvatti. Se ele não acatar, o PT fará intervenção no estado. 

Batido o martelo 

O candidato do PT ao governo da Bahia será o  chefe da Casa Civil de Jaques Wagner, Rui Costa.  O ex-presidente Lula esteve em Salvador para  resolver a questão. Mas o senador Walter Pinheiro  lançará sua pré-candidatura, sem o aval de Lula. 

Neorruralista 

O deputado Protógenes Queiroz (PCdoB-SP) assinou ficha de filiação à Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), a conhecida bancada ruralista. O comunista discorreu como ninguém contra a demarcação de terras indígenas. 

A MAFIA DA ESTRELA 2. O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) lançará quarta-feira, na Câmara, livro sobre o julgamento do mensalão. 

Na ponte aérea - VERA MAGALHÃES - PAINEL

FOLHA DE SP - 24/11

O PT e João Santana acertam os últimos detalhes do arranjo para que ele supervisione a campanha de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo. Pelo desenho, o marqueteiro terá dedicação pessoal exclusiva a Dilma Rousseff, mas indicará a linha da comunicação e fará os pilotos da propaganda no Estado, considerado fundamental para a reeleição da presidente. Também designará o coordenador da campanha, que pilotará, com autonomia, inclusive o programa de TV.

Dobradinha O jornalista Eduardo Oinegue, que coordenou a campanha de Patrus Ananias (PT) à Prefeitura de Belo Horizonte em 2012, respondendo a Santana, é cotado para assumir a mesma função no time de Padilha.

Adeus, toga Eliana Calmon protocolou na sexta-feira seu pedido de aposentadoria no STJ, para vigorar a partir de 18 de dezembro. A data é justamente a véspera de evento em que o PSB pretende anunciar, com pompa, a filiação da ministra ao partido para disputar o Senado.

Na rede Eduardo Campos e Marina Silva voltam a se encontrar na quinta-feira em São Paulo. Vão lançar juntos uma plataforma digital em que serão recebidas colaborações ao programa de governo conjunto, que começou a ser discutido há um mês e será divulgado na internet.

NRSVP O PPS decidiu "desconvidar" Campos e Aécio Neves do congresso nacional que fará no início de dezembro. Roberto Freire disse ter avisado aos dois pré-candidatos que queria evitar constrangimento a um deles caso saia uma decisão sobre o apoio do partido em 2014.

Caminho... O Palácio do Planalto programa para que Dilma faça uma visita de dois ou três dias às obras de transposição do rio São Francisco, que viraram alvo da oposição. A ideia é que a presidente passe por cinco cidades.

... das águas O roteiro é semelhante à viagem que Lula fez aos canteiros da obra em outubro de 2009. A presidente deve realizar as vistorias em dezembro ou janeiro.

Aperto Dilma ordenou que ministros engavetem projetos de suas pastas que prevejam desonerações não acordadas com a Fazenda.

Contra-ataque O PSDB de São Paulo estuda um meio de tentar responsabilizar criminalmente o presidente do Cade, Vinícius Carvalho, por ter omitido documento ao encaminhar para o Ministério Público e a Justiça paulistas os autos da investigação sobre cartel na compra e manutenção de trens no Estado.

Mapa Nas planilhas com nomes dos supostos envolvidos no esquema de propina do metrô de São Paulo e do DF, o ex-executivo da Siemens Everton Rheinheimer afirma que dois diretores da MGE Transportes tinham cópias de provas "no apartamento de suas amantes".

Arquivo No ofício enviado à Polícia Federal de São Paulo em que diz ter recebido as denúncias do ex-executivo "via Cade", o delegado Braulio Cezar Galloni sugere que a PF avalie fazer diligências e instaurar novo inquérito.

Verão passado Rheinheimer diz também que os executivos da MGE temiam que a Operação Caixa de Pandora, que degolou o ex-governador do DF José Roberto Arruda em 2009, revelasse vídeos seus dando pacotes de dinheiro a Durval Barbosa, pivô do mensalão do DEM.

SOS Logo após José Genoino ser autorizado a cumprir pena em casa devido a seu estado de saúde, seu advogado, Luiz Fernando Pacheco, teve queda de pressão e desmaiou no aeroporto de Brasília. Levado ao posto médico, foi liberado em seguida.

TIROTEIO
"Dilma mostra evolução ao reconhecer valor na iniciativa privada e adotar prática que há pouco seria tachada de entreguista pelo PT."

DO DEPUTADO BETO ALBUQUERQUE (RS), líder do PSB na Câmara, sobre leilão dos aeroportos de Confins (MG) e Galeão (RJ) realizado pelo governo federal.

CONTRAPONTO


Crise visceral
A Câmara dos Deputados instalou recentemente no hall da taquigrafia --passagem obrigatória de acesso ao plenário-- um grande stand da Federação Brasileira de Gastroenterologia, para ações de prevenção de retocolite ulcerativa. O banner chama a atenção dos transeuntes: "Seu intestino mudou?".

O deputado Hugo Leal (Pros-RJ) manifestou temor pelas brincadeiras que apodem aparecer:

--Alguns que passam por aqui falarão de fisiologismo. E os maldosos vão vincular mudança no intestino com melhoria da qualidade nas iniciativas legislativas...

A magia do “mais” - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 24/11

Certa de que a geração de empregos estará segura em 2014, apesar da diferença entre setembro e outubro deste ano, a presidente Dilma Rousseff usará outros motes para a eleição. Entrará em todo e qualquer programa que ainda precisa de grandes avanços e a palavra “mais”, de forma a pregar a continuidade. Nesse quesito, entram “mais médicos”, “mais casas” (Minha Casa, Minha Vida), “mais educação (Pronatec, Ciência em Fronteiras)”.

Esse advérbio serve ainda para amortecer os dois adversários. Aécio Neves diz diariamente que é preciso “mais” eficiência e diálogo com a sociedade, com estados e municípios; e Eduardo Campos diz ser possível avançar “mais” com outros gestores. Essas quatro letrinhas serão batidas e rebatidas. Pode esperar, leitor.

Curingas I
Aloizio Mercadante ganhou outro concorrente ao papel de precursor da presidente Dilma Rousseff na reforma ministerial: o ministro de Comunicações, Paulo Bernardo. Mercadante cuidou desse serviço na última reforma, mas há um grupo que o considera impaciente demais para a função. O ministro da Educação é visto como alguém que, antes de terminar a conversa, olha para o relógio e solta um “então tá”.

Curingas II
No PT, Mercadante é citado em todas as rodas como aquele que falará por Dilma na definição dos palanques estaduais. Daí, sua presença no ato que celebrou o apoio do PSD à reeleição da presidente. Em relação à Casa Civil, entretanto, a presidente tem na manga, além de Carlos Gabas, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior. Nessa hipótese, Paulo Bernardo voltaria ao Planejamento, área que pilotou no governo Lula.

Eu sou você amanhã
Depois das prisões dos réus do mensalão, tem parlamentar doido para acabar com o foro privilegiado e levar tudo para a primeira instância. Assim, acreditam muitos, fica mais fácil protelar os processos envolvendo as excelências para além dos 7 anos, tempo que o Supremo Tribunal Federal levou para julgar a AP 470.

Contrabando
Entre as emendas à Medida Provisória 627, que trata de temas tributários, o líder do PMDB, Eduardo Cunha, colocou uma que isenta os bacharéis em direito do pagamento da taxa para prestar o exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Se não dá para acabar com exame, vamos, pelo menos, tirar a receita da OAB.”

Convers@ de Domingo
O coordenador de Assuntos Institucionais da Frente Parlamentar de Agricultura, Nilson Leitão
(PSDB-MT), fala da greve que o setor prepara no Congresso Nacional. A ordem é não votar nada até que se resolva o imbróglio entre índios e agricultores no país. Confira no site www.correiobraziliense.com.br

Portinhola
Com a onda de denúncias sobre os tucanos em São Paulo, há quem anteveja uma guerra de acusações de lado a lado em 2014. Assim, haveria uma pequena brecha para Eduardo Campos, do PSB, sair do compartimento espremido entre PT e PSDB a que foi confinado nos últimos dias.

CURTIDAS 

Não gostaram/ Muitos diplomatas brasileiros ficaram meio constrangidos com o telefonema que a presidente Dilma Rousseff fez a Michelle Bachelet para lhe parabenizar pela vitória antes do resultado final da eleição, que será decidida em segundo turno entre Bachelet, a favorita, e a ex-ministra Evelyn Matthei. Embora a assessoria da presidente tenha dito que a ligação foi pessoal, os itamaratecas consideram que não dá para separar a presidente da República da amiga numa hora dessas.

Mão Santa quer voltar/ Os senadores suspiraram aliviados ao saber que o ex-senador Mão Santa será candidato a deputado federal. Mão Santa não deixava de discursar um só dia na Casa. Se for eleito, concorrerá com o deputado Mauro Benevides em número de pronunciamentos em plenário. O irmão de Mão Santa, Francisco José Morais, será candidato a governador.

Perguntinhas I/ Os senadores Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos conversavam na sala de café da Câmara, quando, de repente, Simon perguntou ao pernambucano: “Tu, que conheces o Serra, por que ele não se engaja logo na campanha do Aécio?” “Ele vai acabar se engajando.”


Perguntinhas II/ Aí, alguém quis saber de Simon (foto) em quem ele apoiaria em 2014: “Eu estou esperando o Jarbas!”. E Jarbas retrucou
“Eu apoiarei Eduardo Campos”. Eis que Simon se saiu com esta: “Essa Câmara (referia-se ao plenário da Casa) é confusa, né? Vamos ficar aqui até tarde para votar o cancelamento simbólico da cassação do Jango…”

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

FOLHA DE SP - 24/11

Einstein fará prédio para pronto-socorro e 80 leitos
O hospital Albert Einstein vai ampliar seu pronto-socorro e criar 80 leitos com a construção de um novo prédio, atrás de onde está localizada a unidade hoje.

A maternidade também vai se expandir com a transferência das áreas administrativas e de TI para um prédio na avenida Faria Lima (SP).

As obras de ampliação do pronto atendimento começam em 2014 e devem ficar prontas em dois ou três anos. O hospital investe cerca de R$ 200 milhões, entre expansão, um novo sistema de TI, capacitação e manutenção.

"O pronto-socorro é um problema seja no setor privado seja no SUS porque o paciente busca uma resposta imediata, sem ter um caso emergencial", diz o médico Claudio Lottenberg, presidente do Albert Einstein.

A capacidade da UTI neonatal e da maternidade será ampliada com a reorganização de andares especializados, durante o ano que vem.

"Estamos transformando algumas unidades em acomodação de caráter universal, para contemplar especialidades diferentes. Não é fácil porque o Einstein é um hospital sobre o outro: o hospital de cardiologia em um andar, o de ortopedia em outro", afirma.

"Além da mudança, investimos R$ 75 milhões para trocar todo o sistema de TI e mais R$ 75 milhões em capital humano", diz.

A área administrativa, exceto a diretoria, e de tecnologia será desocupada para ceder espaço a leitos para a unidade materno-infantil.

Além de se expandir, o hospital tem procurado melhorar o seu fluxo interno, como na internação e na liberação de quartos, de acordo com o médico oftalmologista.

A reforma no prédio alugado na avenida Faria Lima para a transferência da administração já começou.

HOSPITAL EM ALPHAVILLE
A grande dúvida é para onde o hospital Albert Einstein deve crescer, na região do Morumbi ou fora.

Em Alphaville, na unidade inaugurada recentemente e que já está apertada, há uma reserva técnica, diz o presidente Claudio Lottenberg.

"Cabe um prédio, pode ser que façamos um hospital."

O fator limitante é o capital de investimento.

"Como uma sociedade sem fins lucrativos, temos uma séria preocupação de não endividar loucamente a instituição pela responsabilidade com pacientes e dirigentes", afirma Lottenberg.

Gravidez revisada
Entre setembro de 2010 e setembro deste ano, o número de leitos obstétricos na cidade de São Paulo caiu 20%, segundo a Anahp (associação dos hospitais privados).

A retração é consequência da redução da taxa da natalidade. O aumento da faixa etária das grávidas, no entanto, tem elevado a necessidade de UTIs para bebês.

"Houve um acréscimo no número de leitos de UTI neonatal, pois, como as mulheres passaram a ter seus filhos em idade mais avançada, aumentou a complexidade da gestação", diz Francisco Balestrin, presidente da associação.

ESPECIALIDADE FEMININA
Apesar da constante queda no número de leitos obstétricos particulares, o Grupo Santa Joana, especializado em atendimento à mulher, investe na ampliação de sua capacidade.

O número de berços na unidade intensiva neonatal da maternidade passou de 80 para 110 neste ano.

Foram aportados R$ 10 milhões na expansão.

A unidade dispõe ainda de 142 apartamentos.

Além da maternidade Santa Joana, o grupo é tem a Pro Matre Paulista, em São Paulo, e 50% da Perinatal Laranjeiras e da Perinatal Barra, no Rio de Janeiro.

"Mantemos hoje a fatia de 56,4% dos partos realizados em São Paulo. Só na Pro Matre, são 12 mil procedimentos por ano", diz Antônio Amaro, sócio-diretor do grupo.

Na Pro Matre, são 106 apartamentos e 52 leitos de UTI neonatal.

Na contramão dos hospitais que atendem diferentes áreas médicas, o grupo opta pela especialização na clínica feminina e neonatal.

"Atendemos desde unha encravada até cirurgia cardíaca no neném", acrescenta o médico.

NÚMEROS
162
é o número de leitos em UTI neonatal das maternidades Santa Joana e Pro Matre

12 mil
é o número de partos realizados por ano somente na maternidade Pro Matre Paulista

GP aéreo
Com o aumento da procura de helipontos para garantir o traslado até a Fórmula 1 no GP de Interlagos, hotéis equipados com o serviço chegam a cobrar até R$ 600 por toque (pouso) da aeronave.

Um deles é o Sheraton São Paulo WTC Hotel, localizado na região da Berrini. Em dias comuns, o custo varia entre R$ 350, para hóspedes, e R$ 450 para o público.

"Fica mais caro porque temos de contratar ao menos duas pessoas a mais na equipe de atendimento", diz Maria Luisa Siqueira, proprietária da Net Air, que opera o heliponto do hotel.

O Maksoud Plaza, próximo à avenida Paulista, também cobra R$ 600 por operação.

No Blue Tree Premium Faria Lima, o valor do toque varia entre R$ 250 e R$ 290, mais uma taxa de 5%. Após as 18 horas, há um acréscimo de 50% pela periculosidade.

O heliponto do GP de Interlagos prevê um aumento de 10% no fluxo nesta edição.

Copo... A rede de lojas de cervejas premium Mr. Beer pretende abrir cerca de 55 unidades no ano que vem.

...cheio A meta é fechar 2014 com 150 lojas. Hoje são 94 pontos. Neste ano, foram inauguradas 30 franquias.

Aquisição... A empresa de água mineral Viva comprou a Manacá, que atua no mesmo segmento com a marca Roda D'Água.

...mineral O escritório de direito Azevedo Sette foi o responsável pela negociação, pelo planejamento tributário e pelos contratos da transação.

Pés no... A Neoway Business Solution, de tecnologia, planeja a inauguração de três escritórios no exterior em março de 2014.

...exterior A empresa se instalará na Cidade do México, em Santiago (Chile) e Bogotá (Colômbia). Hoje, está em Florianópolis, São Paulo e Miami.

Filas nas farmácias - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 24/11

Comprar medicamentos tem exigido cada vez mais tempo e paciência do consumidor. Além da distribuição de senhas, algumas farmácias em São Paulo já dispõem de bancos ou cadeiras enfileiradas para os que aguardam atendimento.

O problema se agrava no caso dos remédios sujeitos a controle ou no das compras por meio do programa Farmácia Popular, do Ministério da Saúde. Em ambos os casos, além de apresentar a receita médica e documento de identidade, o cliente deve preencher formulário com múltiplos dados pessoais, que depois precisam ser lançados em sistemas eletrônicos.

Essas exigências aumentaram o tempo de atendimento e carregam os custos das farmácias. Pelos cálculos da Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a operação de venda de um medicamento comum leva, em média, 6 minutos. Nos casos de controle, são 14 minutos. "Há excesso de burocracia, o farmacêutico se tornou um digitador de luxo", reclama Sérgio Mena Barreto, presidente executivo da Abrafarma.

Em uma farmácia na Avenida Pompeia, em São Paulo, por exemplo, quatro farmacêuticos se revezam para lançar diariamente cerca de 300 receitas médicas no Sistema Nacional de Gestão de Produtos Controlados (SNGPC). Nessas condições, tende a aumentar a incidência de erros de digitação.

Essa é a lei e a lei tem de ser cumprida, argumentam os reguladores da Anvisa e do Ministério da Saúde. Mas, para garantir segurança, não é necessário tanto arrasta-arrasta. Nos Estados Unidos e em certos países da Europa, por exemplo, as receitas médicas têm validade de dois a três anos. E pacientes com doenças crônicas ou que fazem uso contínuo de medicamentos podem cadastrar-se e encomendar remédios até pela internet.

A regulação dos medicamentos controlados no Brasil, assim como a exigência de receita especial e identificação no ato da compra, existe desde 1998 (Portaria 344). A informatização, a partir de 2009, não deixou de ser um avanço, porque antes os dados eram anotados manualmente em livros de registro.

O secretário-geral do Conselho Federal de Farmácia (CFF), José Vilmore, atribui a excessiva lentidão do sistema à falta de investimentos das farmácias em informatização. O setor de Comunicação da Anvisa argumenta que a digitação dos dados nos sistemas de controle não precisa, necessariamente, ser tarefa de farmacêutico; podendo ser delegada a outros funcionários sob supervisão.

Mesmo que a tarefa seja repassada para auxiliares, não há garantia de fim dos transtornos ao cliente. "O atendimento demora porque há poucos profissionais ou porque eles estão despreparados", diz Ana Maria Malik, coordenadora do Centro de Estudos em Planejamento e Gestão de Saúde da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Independentemente das justificativas de um lado e de outro, o fato é que a população brasileira está ficando mais velha, vai dependendo mais dos seus remedinhos e precisa de mais cuidado, não só das farmácias, mas também da regulamentação. Apenas chá de cadeira não é remédio.


Quem ficou rico no Brasil - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 24/11

Espírito Santo lidera crescimento no século e fica atrás apenas de Rio e SP em renda per capita


O NORDESTE seria a região que mais teria crescido no Brasil "nos últimos tempos", nos anos Lula etc. Era o que a gente tinha a impressão de ouvir por aí.

Bem, o Centro-Oeste cresceu mais entre 2002 e 2011. Quietinho, quietinho, o Estado que mais cresceu foi o Espírito Santo. Também foi o que se tornou relativamente mais rico neste século: o aumento de seu PIB per capita também foi o maior.

Os capixabas tinham em 2011 o terceiro maior PIB per capita do Brasil, depois de São Paulo e Rio (exclui-se aqui o Distrito Federal, uma anomalia estatística, entre outras). Em 2002, estavam em sétimo lugar.

As economias de Rio Grande do Sul, Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro, pela ordem, estão no G4, na "zona de rebaixamento" --foram as que cresceram menos.

Esquisito mesmo, porém, é que alguns Estados se tornaram relativamente mais pobres entre 2002 e 2011. O PIB per capita do Pará ficou estagnado ou decresceu e o de Rondônia cresceu pouco; os de Amazonas, Amapá, Roraima e Acre decresceram.

É o que se pode depreender do balanço das Contas Regionais (PIB por Estados) de 2011, divulgado pelo IBGE na sexta-feira passada. O IBGE divulgou só o PIB per capita de 2011, baseado na contagem de população dos municípios enviada ao Tribunal de Contas da União em 2011.

No entanto, fazendo contas pela estimativa de população da Pnad-IBGE, é possível fazer uma comparação aceitável dos PIBs per capita ("renda per capita") dos Estados entre 2002 e 2011.

Não aconteceu nenhuma catástrofe econômica nos Estados do Norte. As economias do Pará e de Rondônia estão em segundo e terceiro lugares na lista das que mais cresceram. Porém, houve um crescimento brutal das populações desses Estados, o que puxou para baixo seu PIB per capita, claro.

O que o Espírito Santo tem? Commodities (minerais metálicos, papel e celulose, petróleo e gás), por exemplo. Em 2002, 6% do PIB do Estado vinha da indústria extrativa; em 2011, 22,3%.

O grande setor da economia que mais cresceu no Brasil desde 2002 foi o extrativista. Porém, observando estatísticas antigas, vê-se que o Estado cresce bem mais do que o Brasil desde os anos 1980.

Piauí e Maranhão vêm logo depois do Espírito Santo em termos de velocidade do crescimento da renda per capita. Mas sua base (renda inicial) era muito baixa. Os desempenhos mais consideráveis, a seguir, são os de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, que tiraram proveito do crescimento de agropecuária e indústria extrativa, embora Mato Grosso do Sul tenha feito um progresso mais "completo", se industrializando bem.

Fora da região Norte, Rio Grande do Sul e São Paulo registraram a menor alta do PIB per capita, não muito longe, é verdade, da Bahia e do Rio. Nesses Estados, o peso da indústria de transformação ("fábricas") era grande em 2002 e ainda é relevante.

Os tropeços feios do crescimento industrial parecem ter prejudicado o desempenho deles. Mas Santa Catarina tem indústria de peso e não foi nem de longe tão mal. Além do mais, São Paulo tem a economia mais diversificada do país, as maiores e melhores universidades e é o centro financeiro do Brasil. Por que não inventou negócios novos?

Bom dia a cavalo - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 24/11

Como qualquer cidadão, partido, entidade, meio de comunicação, sindicato, movimento, grupos organizados em geral, o PT dispõe de liberdade para dizer o que quiser e sempre fez uso dessa prerrogativa com estridência. Não raro em contraposição aos fatos, muitas vezes ao modo de maquiagem da realidade – como faz, mais uma vez o ex-presidente Lula da Silva ao dizer que a lei no Brasil “parece que só se aplica ao PT” –, mas é um direito que lhe assiste. Até criou dois países diferentes, o “nós” e o “deles”, para simplificar a conexão com a sociedade, cuja maioria por um bom tempo nem percebeu que os “eles” de ontem estavam perfeitamente integrados – para não dizer encastelados – no Brasil que na fantasia petista não tem 513 anos; nasceu em outubro de 2002, com a eleição de Lula para presidente.

Mas, digamos que toda fabulação tenha um limite. Se ultrapassado, expõe os fabuladores ao risco do efeito bumerangue Ocorre quando suas narrativas, por assim dizer, alternativas, se voltam contra eles próprios.

É o caso da recente ofensiva contra o Supremo Tribunal Federal, acusado por dirigentes e parlamentares do partido de agir ao arrepio da lei. Ora, isso só acontece em regimes de exceção, ditaduras. Estaria o PT se dando conta de que, para defender companheiros presos, diz que o país que comanda há 11 anos vive sob a égide de uma Justiça discricionária, situação contra a qual essas autoridades jamais se insurgiram? Ao contrário, compuseram a corte onde ao menos duas vagas lhes foram franqueadas por aposentadorias antecipadas e dela esperavam uma compensação.

O discurso do PT atual já não ficaria bem se o partido fosse oposição. Sendo situação, soa a autoflagelação tão involuntária quanto imprudente e pouco inteligente.

Um governo reverente à democracia não convive com um Poder Judiciário arbitrário sem que no mínimo faça algum movimento em prol do retorno da instituição à legalidade. Se não faz, compactua ou é submisso a essa deformação.

Vamos à mais recente fala de Lula, que havia prometido nada dizer sobre até o julgamento dos recursos pendentes. A lei aplica-se apenas ao PT? Não condiz com a verdade. A ela: só no processo do mensalão foram condenados integrantes das cúpulas do PTB, PL (hoje PR), dois deputados do PP e um ex-líder da bancada do PMDB na Câmara. Além de assessores de três dessas legendas.

Por outros motivos, políticos do DEM foram presos (embora não definitivamente), como o ex-governador José Roberto Arruda ou o ex-senador Demóstenes Torres, cassado pelo Senado e indicado pelo Ministério Público de Goiás por corrupção. Dois parlamentares recentemente condenados pelo STF, deputado Natan Donadon e senador Ivo Cassol, tampouco pertenciam ao PT. O primeiro foi do PMDB e está sem partido e o segundo é do PP. Acrescentem-se os vários governadores que tiveram mandatos interrompidos pela Justiça Eleitoral devido a abusos do poder econômico durante as respectivas campanhas. Entre eles um do PSDB.

E por falar em tucanos, está nas mãos do Supremo a ação contra o deputado, ex-governador de Minas e ex-presidente do PSDB Eduardo Azeredo, com a perspectiva de ser julgada ainda em 2014. Acusação? Peculato e lavagem de dinheiro.

Por essas e várias outras que a memória não alcança e que mediante pesquisa acurada seriam muitas mais, não se pode dizer que só há infratores da lei no PT. Da mesma forma e por isso mesmo é falso afirmar que a lei no Brasil só vale para o PT.

O que existe, sim, é maior repercussão. Primeiro pela dimensão, segundo pela falta de cerimônia do esquema, e terceiro porque se trata do partido no poder, cuja conquista deu-se em boa medida por uma trajetória construída no altar da defesa da ética e dos bons costumes na política e adjacências.


A guinada da China e o recuo do Brasil - JOSÉ FLÁVIO SOMBRA SARAIVA

CORREIO BRAZILIENSE - 24/11

Anunciou-se guinada estratégica no antigo Império do Meio. Criticaram os analistas do Ocidente as poucas palavras lançadas ao ar na reunião do comitê do Partido Comunista Chinês. Mas é assim que funciona a China. Faz-se muito e fala-se pouco naquela área do planeta.

Não se engane. As poucas decisões - pragmáticas e marcadas por elementos próprios da política e da cultura - serão levadas adiante. Setores da nomenclatura sugerem adaptação às crises sistêmicas do capitalismo da zona do euro e nos Estados Unidos, mesmo com a retomada ianque, esse o maior parceiro dos chineses. Os desenvolvimentos da economia política global parecem sugerir adaptação da China ao crescimento moderado dos centros históricos do capitalismo global, que pode durar ainda um pouco mais do que dizem alguns estudiosos.

Linhas pragmáticas do Partido Comunista sugerem introspecção moderada do modelo dos últimos 20 anos, embora a manter o fogo exportador que se espraia para toda as partes do mundo. A terceirização da indústria mundial, entregue aos chineses e conquistados por eles, prejudicou parte da capacidade de recuperação das economias ainda combalidas do Norte.

Poderia ser relevante à China um novo ciclo de elevação dos padrões produtivos e de consumo. O doméstico é caminho que se intui consiste na estratégia dos chineses. Ante a permanência da crise e as dificuldades de alguns parceiros do Sul político das relações internacionais, emerge outro capitalismo à moda chinesa. Esse capitalismo se volta ao telúrico, a incluir novas massas, como o projeto de dobrar o número de chineses no consumo atual.
Se tal projeto for ampliado ao meio asiático, as cadeias produtivas dos satélites e vizinhos chineses vão ganhar muito. Significaria criar o dobro de consumidores internos, como o que foi feito nos últimos 20 anos. Apenas esse projeto já criaria outro país, do tamanho do Brasil, marcado pelo acesso a novos produtos para o consumo interno. A ênfase externa seria seu próprio entorno geográfico e o Pacífico, mas que pode chegar (se já não chegou) ao Chile, ao Equador e ao Peru.

Mas os economistas do Partido Comunista da segunda economia planetária resolveram sugerir o ampliar do capitalismo de Estado controlador, um movimento mais ativo para a Europa e os Estados Unidos. É uma saída congruente com o baixo crescimento de alguns de seus outros parceiros emergentes, particularmente dos colegas do Brics. E permite reduzir certa pressão interna da opinião pública da África e da América do Sul ao avanço dos interesses chineses nessas regiões.

Há, tanto na África quanto na América do Sul, movimentos de atores políticos e sociais preocupados com o avanço dos interesses chineses nessas duas regiões. O ciclo das commodities passou, pelo menos no que tange à elevação importante de preços dos minerais extraídos dessas duas áreas do Sul. Há crítica aos meios de utilização da natureza, das formas de trabalho e da prevaricação dos sinos com governos corruptos nessas regiões.
O Brasil segue sendo parceiro da China. No comércio do nosso país, a China é parceiro primeiro, ao lado dos Estados Unidos e da Argentina. No financiamento, basta ver a recente presença das empresas chinesas no financiamento do campo de Libra.

O Brasil, porém, recuou. A China vem reelaborando suas relações principais com os países desenvolvidos. A China adora a Alemanha, como mostram as aproximações com a maior economia da zona euro. Lá, há um Estado logístico que também funciona bem com os investimentos privados e com os saltos tecnológicos. Os chineses confiam nesse capitalismo alemão. Abandona o antigo Império do Meio, na sua forma atual, o sonho da noite de verão criado pelo Brics, que se mostrou modesto em propostas.

A China se move para os capitais e o risco, integrando de vez sua economia e sua política externa, ao novo ciclo produtivo, competitivo e de novos padrões de inserção internacional. Baseia-se na ampliação dos fatores de poder interno, como a educação e a estrutura logística de um Estado forte, mas sem medo do mercado, emanado pela boa gestão, do estímulo à produção, da marca das lideranças que governam com projetos alentados. Associa-se a tudo isso um espírito reformista que garante o lugar proeminente da China na nova conformação das relações econômicas internacionais e estratégicas para as próximas décadas. Eles não têm pressa, mas avançam celeremente.

Aqui, temos pressa, mas patinamos na criatividade e já quase se teme - como já se comprova em casos como os da Argentina e da Venezuela - que o espírito inventivo do brasileiro possa ser encapsulado pelo recuo das nossas vontades fracas e baixa capacidade de pensar largo. Sem falar o descaso com os investimentos e a infraestrutura nacionais.

Andar em zigue-zague - MIRIAM LEITÃO

 O GLOBO - 24/11

Com Álvaro Gribel e Valéria Maniero (interinos)

Dois meses depois de defender o projeto que muda o cálculo da dívida dos estados e municípios, o governo voltou atrás e colocou a ideia no congelador. Sobre os aeroportos, foram anos criticando as privatizações, e, na sexta-feira, o leilão do Galeão e de Confins foi comemorado. Os juros caíram pela vontade de igualar as taxas do Brasil com as do resto do mundo. Voltaram a subir com o aumento da inflação. Quem acompanha atentamente a condução da política econômica percebe o vai e vem das ideias do governo.

Há vários exemplos. Durante muito tempo o real forte foi o culpado pelos fracos resultados da indústria. Seria só desvalorizar a moeda para que a produção reagisse. Em um passado não muito distante, a expressão da moda era “guerra cambial”. O real desvalorizou, mas a indústria continua patinando e a inflação subiu. O Banco Central, dia sim, outro também, vende dólares no mercado para segurar a cotação da moeda americana. As regras para as concessões das ferrovias já mudaram várias vezes e depois de mais de um ano nenhum leilão foi realizado.

A malha atual está estagnada. Nos portos, a confusão é tão grande que os executivos do setor têm dificuldade de entender e explicar as regras. Nos aeroportos, foi tanto tempo perdido que as concessões não vão promover grandes mudanças para a Copa do Mundo. Apenas cinco aeroportos foram a leilão até agora. 

O Banco Central diz que a meta oficial de inflação é 4,5%. Mas a presidente Dilma Rousseff afirma em seu Twitter que é 6,5%. Passa a considerar como meta a margem de tolerância de dois pontos para cima. Como o IPCA ainda não viu o centro, 4,5%, na atual gestão do BC, fica a impressão de que a autoridade monetária está menos ambiciosa em relação ao controle dos preços. 

Às vezes, contradições acontecem no mesmo dia, como se viu na quarta-feira. Houve recuo na ideia de mudar retroativamente o indexador da dívida dos estados. Mas, logo depois, o Congresso alterou, com o apoio da base governista, a LDO que desobriga a União de compensar o superávit primário de estados e municípios.

Na primeira medida, sinalização de controle das contas públicas. Na segunda, afrouxamento com o mundo ainda em crise e tendo, em 2013, o crescimento mais baixo dos últimos anos, tudo que o país não precisa é criar novos problemas e incertezas internamente. Isso tem aumentado muito o risco de um rebaixamento da nota de crédito do governo, o que tomaria o cenário mais difícil e complexo.

Olhar sobre a Argentina 
Tudo que acontece com a Argentina tem enorme importância para o Brasil. Por isso, a mudança do ministro da economia no país poderia ter sido um bom sinal, mas não é o que parece. Segundo o economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb.com, o novo ministro, Axel Kicillof, deve manter a mesma política econômica dos últimos anos, marcada pela intervenção estatal.

Há pouco espaço para melhorias no comércio bilateral. — Ainda há grande incerteza porque se desconhecem as medidas que o novo ministro tomará em matéria de importações do Brasil. Nas condições atuais, de reservas em queda, não se pode esperar um relaxamento das restrições, mas dificilmente vão piorar — afirma. O Brasil chegou a ter superávit de US$ 5,8 bilhões com a Argentina em 2011, quando a corrente de comércio atingiu o recorde de US$ 39,6 bilhões. Este ano, o saldo soma US$ 2,6 bilhões até outubro, com Us$ 30 bi exportados e importados. 

Moreno desagradava a todos 
Segundo o economista Dante Sica, o ex-secretário de Comércio Interior da Argentina, Guillermo Moreno, vinha se desgastando com vários setores. Ele foi responsável pela intervenção no Indec, o IBGE argentino, que perdeu credibilidade, ordenou o congelamento de preços e determinou que as empresas precisavam ter autorização do governo para importar. 

— Ele estava muito desgastado e sua saída era demandada por amplos setores. Acho que a notícia terá impacto positivo no exterior, sendo interpretada como o afastamento de um funcionário controvertido que esteve por trás do freio às importações por métodos heterodoxos, que expôs a Argentina a um cenário de conflito com seus principais sócios. 

JUROS MAIS ALTOS. Na quarta-feira, o BC deve elevar a Selic, que pode ir a 10%. Será a sexta alta seguida.

Europa melhorou, mas o impasse continua - JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS

O Estado de S.Paulo - 24/11

No final do primeiro trimestre uma onda positiva atingiu a Europa. O crescimento foi bom no período abril-junho, as bolsas subiram e o euro se valorizou.

Os dados mais recentes, entretanto, esfriaram os ânimos. No terceiro trimestre, a taxa de expansão do PIB, quando comparada com a do segundo trimestre, caiu fortemente na França (de 0,5 para -0,1%), a vida na Itália continuou difícil (quedas de -0,3 e -0,1%) e houve desaceleração na Alemanha (de 0,7 para 0,3%). O PIB da área como um todo cresceu apenas 0,1%. Embora a Espanha tenha saído tecnicamente da recessão (crescimento de 0,1%), a perspectiva para 2014 ficou mais preocupante.

Esse resultado é frustrante, porque foram feitos muitos sacrifícios até agora na busca de uma saída para a crise, como atestam as elevadas taxas de desemprego na região: Espanha, 26%; Grécia, 27%; França, 11%; e Itália, 12%.

Embora existam melhoras aqui e ali, o dominante é que a produção se eleva muito pouco, o crédito para as empresas ainda cai (-1,9% em setembro deste ano em relação ao mesmo período do ano passado), a competitividade das companhias italianas e francesas é cada vez mais preocupante e a dívida pública cresce em relação ao PIB, como se vê na tabela.

Entre 2010 e este ano, a dívida bruta em relação ao PIB da Grécia subiu de 157% para 176%, a da Itália de 119% para 132%, a da França de 82% para 93% e a da Espanha (que não tinha dívida significativa quando da eclosão da crise em 2008) viu seu passivo público subir de 62% para 94%, sendo que todos os dados deste ano são projeções para dezembro.

Ademais, descobre-se agora que a ameaça de deflação está muito mais próxima. Como se vê no gráfico, as taxas de inflação caem rapidamente na região, sendo que os 12 meses terminados em outubro, foram negativas em 2% na Grécia e em 0,1% na Espanha. Na Itália, a inflação no mesmo período caiu de 2,7% em outubro de 2012 para 0,7% no mês passado. Mesmo na Alemanha, a inflação foi de 1,2% vinda de 2% no ano terminado em outubro de 2012. A inflação na zona do euro caiu para apenas 0,7%.

Cresce a assimetria na Europa. A Alemanha construiu as bases de sua forte competitividade ao conseguir um histórico acordo entre patrões e sindicatos, na gestão de Gerard Schroeder, cujo resultado foi um crescimento muito moderado nos salários nominais durante a última década. Isso, associado à grande competência da indústria e à relocação de parte do parque produtivo na Europa Oriental, tornou os produtos alemães particularmente competitivos no mundo todo. Assim, o grosso da vantagem comparativa alemã é fruto de seu trabalho e de seus méritos.

Entretanto, é também necessário lembrar que a Alemanha se beneficiou muito da criação da moeda comum por, pelo menos, duas razões poderosas: o acesso dos produtos germânicos na zona do euro ficou muito facilitado. Embora isso seja verdade para todos os países, é óbvio que o mais competitivo se beneficiou mais. E mais importante ainda, o euro certamente foi sempre mais desvalorizado do que seria o marco alemão, sem a moeda comum, o que beneficiou a Alemanha na inversa medida que o mesmo euro prejudicou as exportações dos países mais fracos, como a Itália e a Espanha.

Além disso, pós-crise de 2008, a Alemanha é novamente beneficiada por três fatores adicionais. As empresas alemãs têm acesso a capital a um custo muito menor que as empresas similares nos outros países da zona do euro. Ao longo do tempo, essa é uma vantagem que se acumula.

Por outro lado, muitos jovens profissionais bem formados correm para trabalhar na Alemanha, fazendo com que as taxas de salário se mantenham relativamente baixas.

Em terceiro lugar, o país rola sua dívida pública sem grande prêmio de risco. Na verdade, às vezes, ele foi negativo. O resultado desse fenômeno também pode ser visto na tabela, onde se compara a projeção para o final de 2013 da relação da dívida bruta/PIB com a mesma posição em 2010. Lá se vê que a Alemanha é o único país cuja dívida caiu em relação ao PIB.

Exatamente o inverso de todas essas questões ocorre nos outros países europeus, cada vez menos competitivos em relação ao líder da região e sem grandes perspectivas de melhoras.

Diálogo de surdos. Ao mesmo tempo em que a assimetria se elevou no corrente ano, os esforços de integração fiscal e bancária pouco andaram. Parte disso se deveu às eleições em vários países. Entretanto, o impasse europeu ficou muito mais evidente. De um lado, os países devedores querem mais garantias e ajuda da Alemanha, argumentando inclusive que o crescente superávit externo do país é deflacionário e não ajuda o crescimento.

A esse argumento, os alemães retrucam que o superávit e o baixo desemprego decorrem exclusivamente de sua prudente política econômica e competência industrial e tecnológica, não estando dispostos a subsidiar gastadores compulsivos. As recentes críticas do Tesouro americano e do governo europeu ao superávit alemão reforçam o impasse. Temos hoje um diálogo de surdos na região.

Rumo ao impasse político. A Europa não vai, evidentemente, acabar. Entretanto, a percepção de um impasse vai contaminando a vida política: os pequenos partidos radicais em vários países são cada vez mais contra o euro e isso deverá se refletir nas próximas eleições para o Parlamento Europeu. Uma França muito enfraquecida frente à Alemanha tende a desestabilizar a união monetária. Uma Itália em permanente crise política e que vê sua indústria ser lentamente destruída vai na mesma direção.

Logicamente, veremos em algum tempo do futuro o final do experimento do euro, tal como está organizado hoje. Entre outras coisas, é cada vez mais evidente a vantagem desfrutada por um país como a Polônia, que se beneficia do convívio com a Comunidade Europeia, mas com sua moeda própria. Basta ver que entre 2010 e 2012, o país cresceu 3,4% ao ano, mais de 10%.

Dilemas do Federal Reserve - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 24/11

O ideal para o Fed seria convencer o mercado de que os juros curtos ficarão zerados por mais tempo


Nos dias 7 e 8 ocorreu em Washington, na sede do FMI, a 14º conferência anual dedicada à memória do economista Jacques Polak.

Neste ano foi homenageado o macroeconomista e professor do MIT Stanley Fischer, que acaba de retirar-se da presidência do BC israelense. O evento versou sobre crises, de hoje e do passado. Tema central da produção acadêmica de Fischer.

Dois estudos assinados por membros do corpo técnico do banco central americano (o Federal Reserve ou Fed), que assessora diretamente a diretoria da instituição, chamaram a atenção. Para entender a sua relevância, porém, é preciso recapitular algumas questões da política monetária recente nos EUA.

Desde dezembro de 2008, logo em seguida à eclosão da crise, os juros básicos na economia americana foram fixados entre zero e 0,25%. É impossível reduzir ainda mais os juros.

O problema é que, pela situação do mercado de trabalho, que apresenta taxa de desemprego elevada, e do mercado de bens, com taxa de inflação abaixo da meta de 2%, tudo indica que o juro de equilíbrio na economia é ainda menor.

Ou seja, o equilíbrio requereria a fixação da taxa básica nominal de juros em níveis negativos, o que, em uma economia com moeda fiduciária --isto é, papel-moeda em poder do público--, é uma impossibilidade lógica. Sempre é possível guardar valores a juros nominais nulos, mantendo o dinheiro debaixo do colchão.

Para enfrentar essa situação, o Fed tem atuado para baixar os juros de longo prazo, como a rentabilidade dos títulos de dez anos do Tesouro dos EUA. Essa é uma forma de tornar a política monetária mais frouxa mesmo se os juros de curto prazo já tiverem atingido o limite inferior.

Os juros longos são dados pela composição dos juros curtos esperados de hoje até o vencimento do papel. Adicionalmente os títulos de longo prazo pagam a seu detentor um prêmio pela perda de liquidez (manter o dinheiro aplicado por longo tempo, caso se leve o título a resgate).

Há duas formas, portanto, de baixar os juros longos. A primeira é atuar para reduzir o prêmio de liquidez e a segunda é atuar para convencer o mercado de que a trajetória futura das taxas curtas será mais baixa por um tempo maior.

O Fed tem empregado os dois instrumentos heterodoxos de política monetária. Para reduzir o prêmio de liquidez, conduz operações de compras dos títulos longos, política conhecida por afrouxamento quantitativo ("quantitative easing", QE).

Para convencer o mercado de que as taxas curtas ficarão mais tempo zeradas, adotou a política conhecida por orientação prospectiva ("forward guidance", FG). Estabeleceu que o momento no qual será iniciado um novo ciclo de aperto da política monetária dependerá do nível do desemprego --terá que estar abaixo de 6,5%-- e da expectativa de inflação para os próximos dois anos --terá que estar acima de 2,5%.

O QE reduz a disponibilidade dos ativos longos no mercado e, consequentemente, aumenta seu preço relativo. O prêmio de liquidez se reduz.

No entanto, há sinais de que o Fed está desconfortável com o QE. O problema é que, ao ficar muito carregado de títulos longos, o BC americano certamente terá forte perda patrimonial quando os juros subirem (o que corresponde a uma queda no preço daqueles títulos). Assim, o QE tem uma dimensão fiscal que é impossível de ser eliminada.

O ideal para os membros do Fed seria trocar QE por FG. Isto é, desembarcar do programa de compras e convencer o mercado de que o tempo durante o qual as taxas curtas ficarão zeradas será ainda maior.

Os dois artigos apresentados pelos técnicos do Fed arrolam argumentos teóricos para justificar uma taxa curta zerada por mais tempo.

Independentemente da qualidade técnica dos trabalhos, trata-se de esforço retórico legítimo para preparar o mercado para a saída do QE sem grandes impactos sobre a taxa de juros de longo prazo.

O sucesso da empreitada dependerá da capacidade do Fed de convencer o mercado de que a troca de instrumentos (QE por FG) será processada. O primeiro instrumento envolve a compra corrente de títulos; o segundo, a sugestão de uma trajetória futura.

A dificuldade, a meu ver, é que o Fed está com a sua reputação arranhada após ter direcionado o mercado para o início do desembarque do QE em setembro e na última hora ter mudado de ideia. Isso não ajuda em nada o reforço da estratégia de orientação prospectiva (FG), que depende fundamentalmente da credibilidade.

O tamanho do problema - GUSTAVO FRANCO

O GLOBO - 24/11

O crescimento do endividamento familiar nos últimos anos trouxe preocupações com essa psicologia do “aqui-agora”


A crença inabalável em um futuro de opulência, um traço básico de nossa identidade, sempre afastou do brasileiro o medo de se endividar. Diante dos tesouros que existem no subsolo ou no fundo do mar, quem se importa com os termos de troca entre o presente e o futuro, a taxa de juros?

Nessas condições, é gigantesca a preferência pelo consumo hoje, relativamente ao futuro, por que esperar? O crescimento do endividamento familiar nos últimos anos trouxe preocupações com essa psicologia do “aqui-agora”, que pode ser associada ao consumidor de baixa renda, carente em educação financeira, incentivado a comprar e que facilmente se enreda em endividamento excessivo.

A má notícia é que nossas autoridades operam exatamente com a mesma lógica: desde que possam parcelar, qualquer dívida é aceitável.

A teoria econômica ensina que, se as finanças públicas são sustentáveis, a dívida de hoje são os impostos de amanhã e não há como escapar disso, ao menos em um país onde os governos não podem deixar bombas para os seus sucessores.

Como isso parece um tanto distante de ser o nosso caso, cabe perguntar se os números efetivamente confirmam que o governo não se endividou em excesso. Será que estamos fazendo as contas direito?

Vamos começar pela parte fácil da resposta: se olharmos a dívida externa — a mais perigosa, pois precisa ser paga numa moeda que não a nossa — as notícias são boas. As três esferas de governo devem US$ 116 bilhões, mas o Banco Central (BC) possui ativos em dólar no valor de US$ 376 bilhões. A posição líquida é credora (US$ 260 bilhões) e maior que a dívida externa do setor privado (US$ 171 bilhões).

É uma situação inédita para nós e se deve à brutal acumulação de reservas, a qual, todavia, não tem propriamente a ver com superávits comerciais ou à nossa competitividade, mas com entradas de capital relacionadas à política monetária americana. Pouco importa, os efeitos são conhecidos, o BC vende dívida interna para arrumar os recursos para comprar esses dólares excedentes, ou seja, troca dívida externa por interna ao acumular reservas.

Para muita gente o fato de a dívida externa ter se “domesticado” resolve todos os nossos problemas, o que está muito longe da verdade. Pelo contrário, essa configuração deixa mais clara uma patologia com a qual nos debatemos há anos: uma hiperinflação de desejos que o mundo político se esmera em converter em “obrigações do Estado” em absoluta desproporção com a capacidade da sociedade em pagar essas contas.

A novidade é que não podemos mais fechar a conta no exterior ou com emissões de papel pintado. Com essa restrição, qualquer nova despesa significa tributar nossos próprios filhos e netos, nos termos de uma debochada maldição enunciada por Herbert Hoover, presidente dos EUA entre 1929 e 1933: “bem-aventurados os jovens, pois eles herdarão a dívida pública”.

Em razão do descontrole dos últimos dois anos, que o governo tenta encobrir com truques baratos de contabilidade, muitos enxergam um sério e perigoso retrocesso. Será que não estamos vendo o problema da dívida pública no seu exato tamanho?

Tipicamente, a primeira pergunta de quem olha a dívida interna é o que exatamente entra na conta, sendo esse o caminho mais comum pelo qual a complacência se intromete na métrica e dela se serve para ocultar o tamanho do problema. A resposta certa deveria ser “tudo”, mas a oficial é que devemos olhar a “dívida líquida”, que está em 35% do PIB, um número típico para um país emergente, não fora o fato de um artifício contábil tirar dessa conta as operações do Tesouro com o BNDES, que elevariam esse número para uns quarenta e poucos por cento.

Outro problema é que o conceito internacionalmente aceito é o de “dívida bruta” que, na metodologia do governo, está em 59% do PIB (incluindo as operetas com o BNDES), um número já não muito consistente com a classificação de risco soberano do país. Os especialistas preferem olhar para a dívida bruta, entre outras razões, porque não há como usar os dólares das reservas para pagar a dívida interna.

Mais outro problema é que as normas internacionalmente aceitas de contabilidade indicam que a nossa dívida bruta é maior: 68% do PIB. O ministro da Fazenda insiste em discordar do FMI nesse assunto, o que é mais ou menos como uma empresa listada questionar uma diretriz internacional de contabilidade.

Sessenta e oito por cento do PIB é um número muito elevado para um país emergente, mas seria ótimo se fosse só isso. Existem muitos problemas ainda não contabilizados. Um exemplo: numa empresa mista como a Petrobras, se o acionista controlador pratica populismo tarifário, não deveria indenizar a empresa, como era feito no passado através da chamada “conta petróleo”? A Moody’s reduziu a classificação de risco da Petrobras em razão de seu elevado endividamento, que cresceu US$ 16,6 bilhões apenas no primeiro semestre. Qual seria o saldo da “conta petróleo” hoje, caso ainda existisse?

Coisa parecida se passa no setor elétrico, onde parte significativa dos custos da “redução na conta de luz” ficou para o Tesouro. E também nos bancos públicos, toda vez que o crédito não é concedido de acordo com as melhores práticas bancárias ou os bancos são instruídos a apoiar “campeões”. Não há dúvida que os custos de muitas políticas públicas, cujo mérito sempre se pode discutir, ainda não foram contabilizados na dívida pública.

É inafastável a reflexão: são anos para consertar, bastam meses para estragar.

Mas ainda não acabou: a previdência do servidor, e algumas outras “despesas de caráter continuado”, como as da saúde, são obrigações que não reconhecemos como dívidas, contrariamente ao que fazem muitos países que capitalizam esses gastos e a eles associam reservas e ativos, às vezes dentro de fundos de pensão. Que tamanho teria a dívida pública se essas contas fossem capitalizadas? Há países à beira de um ataque de nervos com os efeitos do envelhecimento sobre os gastos de seguridade social. Não é o nosso caso, pois uma bomba a uma década de distância é como se não existisse.

A conclusão escapista habitual diante de uma “dívida impagável” é que o problema não é nosso, mas do credor. Porém, nesse caso, o assunto é mais complexo: credor e devedor são a mesma pessoa.

A meta fiscal para 2014 - SUELY CALDAS

O Estado de S.Paulo - 24/11

No início de 2013, o governo federal assumiu o compromisso de fechar o ano com um superávit primário equivalente a 3,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Depois, reduziu a meta para 2,3%. Em setembro, o índice fechou em 1,58% e, faltando pouco mais de um mês para encerrar o ano, há mais dúvida do que certeza se alcançará, pelo menos, 1,7% do PIB.

Além dos investimentos públicos, em 2013 o governo passou a descontar da meta também as desonerações tributárias, possibilitando abater mais R$ 64,350 bilhões (até outubro) do resultado final. Com um jeitinho aqui, outro ali, manobras financeiras em bancos públicos, triangulação em operações com estatais, empréstimos exóticos ao BNDES, um leilão do petróleo para arrecadar uma bolada de dinheiro, mágicas e pajelanças de "tira da despesa e bota na receita", o governo tem abusado do manejo de números e desmoralizado as contas públicas para fingir cumprir a meta fiscal.

A quem engana? Ninguém. O que ganha com isso? Descrédito. Não há mais quem acredite na autenticidade das contas públicas. A última, agora, sangrou a Lei de Responsabilidade Fiscal ao desobrigar a União de cobrir metas fiscais não atingidas por Estados e municípios. A próxima será a mudança do indexador das dívidas dos Estados e municípios para favorecer a gestão de Fernando Haddad na Prefeitura de São Paulo (acaba de ser adiada, mas não cancelada).

Ao final de três anos de gestão e com a ajuda do mágico de disfarces decifráveis, Arno Augustin, secretário do Tesouro Nacional, a presidente Dilma Rousseff desconstruiu boa parte da estrutura de leis e regras que embasam a gestão séria e responsável e a credibilidade estatística no setor público. Uma estrutura que começou a ser construída há 20 anos, enfrentou dificuldades de aprovação no Congresso Nacional e que teve na Lei de Responsabilidade Fiscal a barreira maior a frear a ação de políticos e administradores públicos irresponsáveis e corruptos. Pois, lastimavelmente, essa estrutura vem sendo desconstruída, desmorona no governo Dilma.

Nos últimos dias a presidente ensaiou algumas ações para tentar recuperar a credibilidade e desfazer a impressão de que alimenta antagonismos com empresários. Foram poucas, frágeis e malsucedidas, porque destituídas de firmeza em seu propósito. Quer ver? No mesmo dia em que ela arrancou de líderes de partidos aliados um pacto para evitar a aprovação de matérias que impliquem aumento de gastos e cortes de impostos, ela afrouxou a meta fiscal ao desobrigar a União de cobrir metas não alcançadas por Estados e municípios. E mais: nesse mesmo dia, a pedido do governo, o Senado criou a Agência Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural, com orçamento de despesas de R$ 1,3 bilhão, e mais 518 cargos comissionados no Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), inflando a já obesa máquina de 39 ministérios - mais da metade deles é desnecessária e só serve para atrapalhar a eficácia na gestão.

Na terça-feira, Dilma Rousseff escolheu uma plateia de comerciantes reunidos na abertura do Congresso de Associações Comerciais de São Paulo para reconhecer razão em algumas críticas dos empresários. Beneficiados pelo modelo Dilma de estímulo ao consumo contra a crise econômica, os comerciantes não estão entre os empresários que mais a criticam. As críticas partem muito mais de potenciais investidores, que, por temerem interferências extemporâneas do governo em seus negócios, acabam retraindo investimentos. É o que tem atrapalhado e dificultado licitações de serviços públicos em busca do capital privado. A estes ela tem negado haver oposição de parte de seu governo: "Não há oposição, há é a vontade de meu governo de colaborar com os empresários".

Superávit factível. Há dias o ex-ministro Delfim Netto propôs a Dilma Rousseff que anuncie um superávit primário de 2% do PIB para 2014, sem truques nem enganações. "O importante é dizer que o superávit será de 2% do PIB e, quando chegar ao fim do ano, entregar 2%, sem truques", afirmou em entrevista ao Estado. Na quinta-feira, matéria da repórter Débora Bergamasco, publicada no Estado, informava que a presidente ordenou aos assessores que preparem uma estratégia e apresentem um número de superávit primário "alcançável e factível" até o final de seu mandato.

Estaria ela acatando o conselho de Delfim Netto? É possível. Mas, se seu propósito é verdadeiro, e não mais uma tentativa de enganar quem não se deixa enganar, serão necessárias muita determinação, disposição e firmeza para ela rejeitar demandas políticas de toda a sorte que resultam em dobrar, por vezes triplicar, certos gastos públicos em anos de eleições.

Firmeza para dizer NÃO aos caciques do Congresso, aos candidatos a governador, aos futuros senadores e deputados, aos prefeitos, aos partidos de sua extensa base de apoio, dizer NÃO às demandas de sua própria candidatura à Presidência. Dilma afrouxou as rédeas das despesas correntes e desonerações tributárias ao longo de três anos de governo e acabou se metendo na popular sinuca de bico de uma situação em que, se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Não fosse a ameaça de ver a nota soberana do Brasil rebaixada por agências de classificação de risco justamente em seu governo, ela continuaria empurrando o imbróglio fiscal com a barriga. Mas tantos foram os truques para forjar o cumprimento da meta fiscal que seu governo caiu em absoluto descrédito como capaz de frear a gastança e garantir a capacidade de pagamento da dívida pública. Chegou a hora da verdade, de um superávit sério e crível. Será muito difícil de responder aos ataques políticos dos adversários na campanha eleitoral se ela fracassar e o País perder a posição de grau de investimento, conquistada e comemorada com muito festejo pelo amigo, padrinho, idealizador e antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

O tal superávit "factível" terá de contemplar forças opostas: ela precisa de dinheiro para vencer a eleição e continuar como presidente, ao mesmo tempo que terá de comprimir despesas para apresentar um superávit capaz de convencer as agências a não rebaixarem o risco Brasil. Como os truques estão desmoralizados e descartados, o que fará Dilma?

A grande marcha - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 24/11

O enorme avanço da globalização e das comunicações oferece bombardeio incessante de informações que precisam ser colocadas em perspectiva para extrair delas o que é relevante. Olhando a economia mundial hoje, existem três eventos determinantes que, percebidos conjuntamente, ganham enorme relevância.

O primeiro são as abrangentes reformas chinesas recém-anunciadas, que preveem abertura de mercados e retirada gradual do Estado de diversas atividades.

O segundo é a abertura e a modernização do sistema financeiro indiano efetuadas pelo novo presidente do banco central da Índia, Raghuram Rajan. A expectativa geral é que as reformas sejam a partida para um processo mais abrangente de liberalização da economia indiana, com redução de controles e burocracias que emperram o desenvolvimento, apesar do alto potencial baseado na massa de jovens entrando no mercado de trabalho.

O terceiro fato crucial é o surpreendente crescimento da economia do Reino Unido. O governo conservador britânico implementou processo de consolidação fiscal, com corte consistente de despesas e diminuição do tamanho do Estado. Mas, ao contrário de Espanha, Grécia, Irlanda e, de certa maneira, Itália, que adotaram maior responsabilidade fiscal de forma hesitante e após grandes dificuldades de financiamento, as medidas britânicas foram decididas de forma espontânea e soberana.

Londres seguia tendo acesso amplo a crédito, com juros baixos, mas, para horror de muitos, em plena crise, passou a não só liberar ainda mais os mercados como iniciou processo agressivo de redução de despesas, consolidação fiscal e melhora nas condições de financiamento às empresas. Ou seja, o corte de despesas foi logo seguido por reformas produtivas, o que não ocorreu no sul da Europa.

Muitos esperavam que a austeridade trouxesse severa contração à economia britânica, como nos países em crise, mas ocorreu o contrário. As medidas, a partir de determinado momento, geraram mais confiança de consumidores, empresários e investidores na solidez do país. E, ao reduzirem a necessidade de financiamento do Estado, liberaram recursos ao setor privado, que elevou a produtividade.

Em resumo, países de estruturas políticas e econômicas tão diversas quanto Reino Unido, China e Índia caminham na mesma direção: redução do papel e do tamanho do Estado, abertura maior ao setor privado, busca de maior eficiência e produtividade e concentração estatal na regulação de determinados mercados e na provisão de serviços essenciais.

Em meio ao turbilhão diário de notícias, o improvável eixo Pequim-Nova Déli-Londres oferece grande lição de política econômica.

Crônica do deserto - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADÃO - 24/11

Há duas semanas, cerca de 40 empresários brasileiros, devidamente paramentados com paletó escuro e gravata, misturavam-se a homens de túnica branca e chinelos de couro, imprimindo um toque exótico à paisagem abrasadora do deserto de Rub al-Khali, na fronteira entre Abu Dhabi e Dubai, que formam, ao lado de cinco outros, os sete Estados integrantes dos Emirados Árabes Unidos(EAU). Participavam de evento promovido por uma empresa brasileira que inaugurará, daqui a seis meses, sua maior fábrica de alimentos no exterior. O tom das conversas girava em torno do custo Brasil, podendo-se ouvir, de um lado, peroração lamurienta sobre a perda de competitividade da indústria brasileira e, de outro, exclamações de admiração pela capacidade de uma jovem Nação de apenas 42 anos (a completar dia 2 de dezembro) vir a se transformar em um dos mais celebrados ícones da modernização, da gestão e do empreendedorismo mundial nesta segunda metade do século XXI.

Alguns usarão o argumento de que daquele tórrido deserto extraem-se, diariamente, 3 milhões de barris de petróleo e, com essa riqueza( a sexta maior reserva de petróleo do mundo), qualquer território seria capaz de transformar o inferno em céu. Em termos. O emirado de Dubai quase não possui petróleo e é um efervescente centro de serviços, a exibir uma arquitetura futurista, cujos traços sinalizam a opulência em encontro com o arrojo e a beleza. Ao final, o resultado aparece numa apreciada coleção de monumentos e projetos encabeçados por superlativos: o mais alto, o maio extenso, o mais exótico, a arquitetura mais criativa e assim por diante. Tanto em Dubai, a primeira cidade, quanto na capital dos Emirados, Abu Dhabi, que é o maior Estado (86,7% da área), transparecem sinais de um progresso que se instala, a passos avançados, não apenas pela pujança financeira decorrente de recursos do petróleo, mas pela visão apurada e competente de seus líderes, a partir do principal arquiteto da Nação, o xeque Zayed Al Nahayan, que a presidiu de 1971 a 2004; do seu filho Khalifa Bin Zayed, emir de Abu Dhabi e atual presidente do país, e do vice, o emir de Dubai, Mohammed bin Rashid al Maktoum, que é também primeiro ministro. Quem pensa encontrar xeques incultos, rudes ou envoltos completamente no véu religioso terá a grata surpresa de ver líderes preparados, de alta formação, conhecedores da realidade mundial e, sobretudo, pragmáticos. Bela surpresa.

Que princípios orientam os governantes desse país do Golfo Pérsico a transformá-lo numa das mais desenvolvidas economias do Oriente Médio, um dos mais ricos do mundo, com um PIB nominal per capita de US$ 54.607? Fatores se destacam, a começar pelo esforço de integrar os povos (tribos) da região. Com a descoberta das jazidas de petróleo, em 1958, os xeques buscaram a união e a Grã-Bretanha, que controlava a região, foi obrigada a retirar suas tropas, tornando possível a criação do Estado independente. Segundo, a compreensão de que o regime – uma monarquia constitucional – deveria se conformar aos desafios da globalização, sob pena de continuar a ser uma comunidade isolada no deserto, como o foi há décadas. Para tanto, aplica-se a estratégia de maximizar os pontos fortes e eliminar os pontos fracos e, a partir daí, nas palavras do emir de Dubai, “se alcançar um estágio de desenvolvimento equilibrado”. É visível o esforço que se faz para buscar o conceito de excelência, tarefa complexa na sociedade árabe por conta da herança cultural, conservadora, que impõe cuidados na implantação de processos modernizantes.

Os governantes dos emirados ajustam o foco no planejamento de funções no sentido de integrar os setores público e privado, as escolas públicas e privadas, os institutos e universidades. A imagem é a de um laboratório de gestão. Em cada empreendimento, vê-se a preocupação com a qualidade, o detalhe, a lógica, a funcionalidade. O país investiu pesadamente na infraestrutura. Os mais de 4 mil km de estradas são totalmente pavimentados. O turismo é uma das alavancas, a partir da excelência da rede hoteleira, a mostrar como o Brasil, com seus 8 mil km de costa e belezas naturais incomparáveis, vive nesse setor a idade da pedra lascada. Ali, o futuro parece ter chegado com pressa. As planilhas de incentivo aos investimentos forçam a comparação com governos de países que avançam sobre o bolso dos contribuintes: não há imposto de renda de pessoa jurídica nem de pessoa física; não há retenção de imposto; não há imposto sobre os lucros de capital nem restrições de moeda; não há barreiras comerciais e o imposto de importação é de apenas 5%, com muitas isenções alfandegárias. Apenas bancos e companhias de energia pagam impostos. O capital não é um bicho papão como dá a entender em nossos trópicos. O Estado, mesmo sob um regime monárquico, não tem a bocarra pantagruélica que avança sobre o bolso dos contribuintes. As culturas convergem e se misturam na estética das vestimentas e na polifonia das línguas. Em um país regido pela sharia (lei islâmica), é notável a quantidade (pequena) de mulheres que usam a abaya (a túnica preta) em contraste com as roupas ocidentais. A pluralidade se manifesta em mais de 200 nacionalidades que oxigenam a vida cultural e artística.

Samuel P. Huntington, em seu “O Choque das Civilizações”, lembrava que nos anos 80 e 90, a tendência generalizada no Islã seguia uma direção antiocidental. Pontuava: “os muçulmanos receiam e detestam o poderio ocidental e a ameaça que ele representa para sua sociedade e suas crenças”. A realidade dos Emirados Árabes Unidos mostra que essa visão ou está superada ou ganha novos contornos. O vice-presidente da República, Michel Temer, que por lá passou, e o grupo de Líderes Empresariais (LIDE), que foi prospectar negócios na região, viram como uma Nação de pouco mais de 8 milhões de pessoas pode dar lições a um país de dimensão continental de 200 milhões de habitantes.

STF começará a julgar tunga da banca - ELIO GASPARI

O GLOBO - 24/11

Só pode ter sido coisa de São Judas Tadeu, o padroeiro do desesperados. Exatamente uma semana antes do início do julgamento das vítimas dos planos Bresser (1987) e Verão (1989), marcado para quarta-feira, o banco JP Morgan fez um acordo com o governo americano aceitando pagar US$ 13 bilhões aos clientes que lesou vendendo-lhes papéis tóxicos antes da quebradeira de 2007.

No caso do Morgan, quem pôs dinheiro lá sabia que corria algum risco. No caso das vítimas dos planos brasileiros, os poupadores que depositaram suas economias nas cadernetas tinham remuneração garantida pelo governo (correção monetária mais juros mensais de 0,5%). A tunga deu-se quando o governo mexeu na correção monetária, baixando seu índice. Naquele tempo a inflação rodava a 42% ao mês. Repetindo: ao mês. No exemplo mais cristalino, quem tinha mil cruzados (a moeda da época) na poupança em janeiro de 1987, perdeu 204 cruzados na remuneração de 15 dias de fevereiro de 1987. Tomou uma tunga que hoje está em R$ 880.

Há mais de 20 anos, dezenas de milhares de poupadores querem de volta o que perderam. A disputa do JP Morgan com suas vítimas durou sete anos. A dos poupadores brasileiros já dura 27, pois a banca disputa cada palmo na Justiça. Na absoluta maioria dos casos, ela perdeu na primeira e segunda instâncias. No Superior Tribunal de Justiça, perdeu todas. Com exceção de José Antonio Dias Toffoli e Luís Roberto Barroso, todos os ministros do STF já julgaram casos relacionados com esse avanço sobre o bolso alheio e todos votaram contra a banca.

Com ótimos advogados, os bancos mostraram seu poder de persuasão. Durante o governo Lula, o Banco Central saiu de uma posição de neutralidade e hoje é aliado dos banqueiros no litígio.

O argumento mais recente é o de que o ressarcimento das vítimas criaria um risco sistêmico para os bancos, pois a conta iria a R$ 180 bilhões. A Procuradoria-Geral da República e o Instituto de Defesa do Consumidor, campeão desta batalha, garantem que isso é uma lorota. Sempre é bom lembrar que, se os bancos brasileiros fizessem como o Morgan, fechando um acordo em apenas sete anos, teriam pago algo como R$ 10 bilhões.

De qualquer forma, a contabilidade bancária obriga as casas de crédito a provisionar recursos para cobrir despesas decorrentes de litígios judiciais. Somando-se as provisões feitas pelos quatro grandes bancos privados e públicos, seus balanços informam que elas ficaram em R$ 11 bilhões. Se um cliente desses bancos provisionasse R$ 11 mil para se proteger de um risco de R$ 180 mil, o gerente que lhe desse crédito iria para a rua.

"Risco sistêmico" tornou-se uma expressão tóxica. Quando a banca americana estourou as finanças mundiais surgiu uma frase para explicar a necessidade de socorro às grandes casas. Cada uma delas seria "too big to fail" ("muito grande para quebrar"). Como o comprimento das saias, os jogos de palavras mudam ao sabor dos tempos. Recentemente, Judiciário e os órgãos reguladores dos Estados Unidos começaram a apertar os parafusos da fiscalização, e um promotor jogou uma nova expressão na roda, dizendo que nenhuma instituição deve acreditar que é "too big to jail" ("muito grande para acabar na cadeia"). Em 2007 o Morgan poderia ser "too big to fail", mas em 2014 seus diretores perceberam que não eram mais "too big to jail". Preferiram admitir que agiram mal e pagaram a maior indenização de todos os tempos à boa Viúva americana.

Fica na fila a agência de avaliação de riscos Standard & Poor's, que dava boas notas para instituições quebradas. Ela tentou um acordo de US$ 100 milhões, mas o governo quer a confissão do erro e mais de US$ 1 bilhão.

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e resolveu socorrer simultaneamente o governador Agnelo Queiroz, que precisa de um jatinho, e a Polícia Federal, que precisa de verbas.

O governador fez uma licitação oferecendo R$ 1,4 milhão anuais para que uma empresa coloque um jato à sua disposição.

Poderia fechar negócio com a PF, servindo-se do Embraer 150, prefixo PP PFN, que celebrizou-se transportando uma parte do comissariado petista para a cana de Brasília.

A PF poderia comprar vários aviões desse tipo para atender aos maganos da República que usam a FAB como empresa de táxi aéreo.

TUCANOLOGIA

Os grão-tucanos garantem que Lula sabia das traficâncias dos mensaleiros.

Esses mesmos grão-tucanos garantem que nenhum dos três governadores de São Paulo sabia das traficâncias do cartel da Alstom.

Pode-se acreditar numa coisa ou na outra, mas acreditar nas duas é tarefa difícil.

FICA

O ministro Joaquim Barbosa não pretende pedir aposentadoria em dezembro.

A MALDIÇÃO

Fechou-se o ciclo dos 50 anos da morte de Kennedy.

Em 1941 o patriarca Joseph e seus nove filhos atravessavam o Atlântico num navio de luxo e ele incomodou-se com as preces de um rabino que orava em voz alta com um grupo que fugia da Alemanha. Queixou-se ao capitão, e o religioso rogou uma praga em cima de sua descendência.

Dois de seus filhos morreram em acidentes aéreos (Joseph Jr. e Kathleen). Outros dois, assassinados (John e Robert). Salvo Robert, todos desafiaram situações de perigo, no estilo da família.

A BN cuida de tudo, menos de livros

Na teoria, biblioteca cuida de livros. Na prática, a Biblioteca Nacional virou uma feira de egos e convênios. Financia traduções para o macedônio, mas não tem tomadas de recarga para laptops. Ajudou a cacifar a farra da feira comercial de Frankfurt (R$ 18,46 milhões na conta da Viúva), mas está caindo aos pedaços. Há alguns meses resolveu fechar aos domingos, mas anuncia que vai gastar R$ 466 mil coeditando uma coleção de quatro volumes dos "Grandes Pensadores Brasileiros". Parece boa ideia, mas o Brasil tem um vigoroso mercado editorial privado. O dinheiro poderia ser gasto na própria BN.

Entre as atribuições da biblioteca está a concessão às editoras de um selo chamado ISBN, um código de barras impresso na contracapa dos livros. Além de ser uma exigência legal, facilita a comercialização das obras.

Trata-se de um serviço que pode ser feito em uma semana ou mesmo eletronicamente. A biblioteca já pôs na rede a página do "Sistema ISBN Online". Cadê o serviço? "Será implementado em breve." Marca do governo da doutora Dilma: no mundo virtual, todos os problemas estão resolvidos ou, pelo menos, sendo "implementados".

Por enquanto, nesta época de vendas de Natal, há editoras esperando até duas semanas para receber os códigos de seus livros. Sem eles, as capas não podem ser impressas.

Eles também dormem tranquilos - CLÁUDIO SLAVIERO

GAZETA DO POVO - PR - 24/11

Li recentemente um artigo do economista Gustavo Ioschpe, graduado em Ciência Política, no qual manifestava sua angústia sobre como deveria educar seus filhos: para serem éticos ou não no país onde a malandragem parece marca do caráter?

Lembrei-me de que por diversas vezes minha mãe se perguntava se deveria ter criado a mim e a meus irmãos para sermos éticos e decentes, pois sua angústia era tão grande que essa dúvida também a atormentava. Hoje, também sofro com os mesmos pensamentos: valeu a pena criar meus filhos como fui criado, seguindo o caminho da honestidade e retidão?

Da mesma maneira que Ioschpe foi criado por seus pais e eu pelos meus, crio meus filhos seguindo o padrão de moral, ética, retidão e honestidade, esperando que eles façam o mesmo com os deles e assim por diante. Mesmo com o desestímulo para aqueles que seguem um código ético ver que neste país o jeitinho, a malandragem, a desonestidade, o esperto, o que leva vantagem em tudo é mais valorizado e bem-sucedido. Andar na linha, ser cordial e correto é sinônimo de otário.

Os empresários, por exemplo. A grande maioria é correta e decente, gera emprego e riqueza. São verdadeiros heróis que colocam seu capital em risco. Mas, por outro lado, há os parasitas de colarinho branco, que vivem em mansões, promovem festas nababescas e vergonhosamente vivem agarrados nas tetas do governo, incapazes de fazer críticas aos governantes para poder pedir favores mais adiante. Esses fazem qualquer tipo de negócio, pagam mal seus funcionários, não recolhem tributos, passam os outros para trás descaradamente, devem tudo aos bancos e têm uma folha corrida e negativa nos serviços de proteção ao crédito tão longa quanto a de qualquer presidiário.

Mais deprimente ainda é o perfil da maioria de nossos políticos, de quem surgem os piores exemplos, principalmente dos mais altos escalões da República. Verdadeiros velhacos grudados a seus cargos, vivem em benefício próprio e se lixam para a sociedade. Ética não faz parte de seu vocabulário. Tudo vale em troca de favores escusos, do suborno ao roubo, do jogo sujo e pesado, como manter no Congresso deputados condenados pela Justiça.

Ioschpe cita Sócrates, que dizia que o homem que pratica o mal é infeliz e vive em conflito interno. Lembra Arendt, que afirmava que não, que os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram do mal que fizeram porque nunca pensaram na questão. Cita Kant, que dizia que o homem pode mentir para si próprio e que o corrupto ou sonegador tem uma lógica para seus atos, na qual a lei deve se aplicar a todos, menos a ele. Cai por terra, então, o consolo das pessoas honestas de que, pelo menos, dormem tranquilas. Os escroques também dormem tranquilos. Na visão de Ioschpe, só existem dois cenários em que é melhor ser ético do que não ser. A primeira é que, se a pessoa é religiosa, os pecados deste mundo serão punidos no próximo, no que ele não acredita. Nem eu! A segunda é que os desvios de comportamento serão punidos pela coletividade na forma de sanções penais. Para ele, este não é o caso do Brasil. Concordo!

Em última análise, Ioschpe acredita que a ética e a honestidade são valores inquestionáveis. Por isso, criará seus filhos da mesma maneira como foi criado por seu pai porque não conseguiria conviver consigo mesmo e com a memória de seu pai, se criasse seus filhos para serem pessoas como as que ele o havia ensinado a desprezar. E, ainda, porque sociedades e culturas mudam, pois muitos países hoje desenvolvidos e honestos eram antros de corrupção e sordidez há 100 anos, e um dia o Brasil há de levantar-se deste falso berço esplêndido e seguir o mesmo caminho. E a retidão haverá de ser uma vantagem e não um fardo. Também concordo.