terça-feira, novembro 12, 2013

No ringue - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 12/11

BRASÍLIA - A relação entre Fernando Haddad e Gilberto Kassab passou ao largo do campo diplomático, saiu do estritamente político e descambou para um pugilato verbal. Ponto para a Folha, que escancarou o ringue e a tensão entre sucessor e sucedido, sem subterfúgios e sem intermediários.

Na edição de domingo, Haddad disse, sem citar nomes, que encontrou uma situação de "descalabro" e de "degradação", com "nichos instalados e empoderados".

Na de ontem, Kassab deu o troco, e não foi com luvas de pelica, mas de boxe. Para ele, além de o real "descalabro" ser o primeiro ano da gestão Haddad, o descalabro é duplo. E meteu no meio o final da gestão Marta Suplicy, da qual Haddad participou.

Eles, que conhecem a prefeitura da maior e mais rica cidade brasileira, com um dos maiores orçamentos do país, que se entendam. Para nós, olhando de fora, ninguém tem ainda razão. A única certeza é que descalabro há, havia e, muito provavelmente, ainda vai continuar havendo. Mas quem é o pai dessa criança? E quem a embalou mais ou menos?

Haddad, que precisa compensar a falta de jeito com o aumento do IPTU e a interferência do padrinho Lula, arroga-se o fato de ter criado a controladoria e de ter aberto todo o processo de investigação na sua gestão. Sem explicar, claro, onde entra o seu secretário citado na confusão toda.

Já Kassab, que está mal na fita e na troca de socos, defende-se dizendo que os esquemas já vinham de administrações anteriores à sua (pois ninguém "se torna desonesto de uma hora para outra") e que as investigações começaram quando ele ainda era prefeito. Sem explicar, claro, a fita em que um dos envolvidos diz, em bom português, que ele mandou arquivar as denúncias.

Quanto mais os dois se atacarem em público, mais os podres continuarão saindo. Só não vale, no final, Kassab apoiando Padilha e abraçado a Haddad e a Maluf --o grande e disputado aliado de ambos.

Choque de realidade - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 12/11

Na mesma semana em que o PT dá mais uma demonstração de unidade, reelegendo com larga margem o deputado Rui Falcão, candidato de Lula e Dilma, para sua presidência nacional, o PSDB repete comportamento autodestrutivo, exibindo suas divergências ao respeitável público a menos de um ano da eleição presidencial que pode ser a mais difícil para os petistas, mas que os tucanos teimam em facilitar para o adversário.

Não é que os petistas tenham escondido suas divergências, ao contrário. Há muito tempo o governo Dilma não era tão criticado pelas diversas correntes em que se divide o partido. E houve até mesmo quem defendesse o fim da aliança com o PMDB, o maior trunfo que o governo Dilma tem no momento para tentar a reeleição. Os críticos, no entanto, a partir deste fim de semana, terão que se recolher à sua insignificância, pois a maioria se pronunciou.

O ex-governador José Serra, obcecado com uma candidatura à Presidência da República, que já tentou duas vezes sem sucesso, exibe a frustração pessoal de não poder tentar uma terceira vez, fazendo críticas públicas à legenda que ajudou a fundar.

Todos sabem, até mesmo Serra, que a maioria do PSDB considera que em 2014 a vez é do ex-governador mineiro Aécio Neves. Ao decidir permanecer no PSDB, em vez de se jogar em uma aventureira candidatura à presidência pelo PPS, tudo indicava que o ex-governador aceitara a realidade política que tem pela frente: encerrar sua carreira como deputado federal ou senador, mantendo o prestígio dentro do partido. Ia tudo dentro do script combinado com as lideranças tucanas, entre elas, a maior de todas, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que já lhe dissera em particular o que declarou em recente entrevista: Serra tem que dar um tempo, a vez é de Aécio. O próprio Aécio saiu em sua defesa, dizendo que ele tem todo o direito de sair pelo país fazendo palestras, e que sua imagem nacional só ajudaria o PSDB.

Mas, na última semana, a receita desandou. Em uma palestra para a juventude do PSDB, Serra simplesmente chutou o pau da barraca. Disse que o PSDB tem necessidade de ser aceito pelo PT . E deu uma explicação psicológica adaptada às circunstâncias: (...) o problema da Madame Bovary é querer ser aceita pelo outro lado. Ela vai à loucura, quebra a família e trai o marido com Deus e todo mundo para ser aceita. O PSDB tem um pouco do bovarismo .

Serra tem até certa razão, e basta lembrar que nem ele nem Geraldo Alckmin usaram as conquistas do PSDB para se opor ao PT quando foram candidatos à Presidência, até mesmo escondendo o ex-presidente FH. Alckmin com aquele ridículo colete cheio de logos de empresas estatais é uma imagem inesquecível.

Mas, mesmo se a definição correta de bovarismo fosse a dada, a comparação não ficaria bem para ele. Afinal, quem foi que iniciou a campanha presidencial de 2010 querendo fazer-se passar por amigo de Lula, pensando em receber os votos petistas descontentes com a candidatura de Dilma? Após usar o nome do ex-presidente em jingle na propaganda eleitoral ( Quando o Lula da Silva sair, é o Zé que eu quero lá ), sua campanha exibiu imagens em que Serra e Lula se abraçam.

Mas bovarismo, no sentido mais amplo que o psicólogo Jules de Gaultier deu em 1892, não é a tentativa de ser aceito pelo outro, ou pelo menos não é só isso. Na verdade, o bovarismo passou a designar fenômeno psíquico produzido pelo choque entre as aspirações de uma pessoa e a realidade que está acima de suas possibilidades. É justamente o que ocorre hoje com Serra, político de inegáveis qualidades, que tem todo o direito de querer ser presidente, mas não aceita a realidade que o impede de atingir o objetivo. O psiquiatra Joel Birman identifica na irritabilidade de Serra sintoma desse mal-estar provocado pela impossibilidade de realizar sonho que acalenta desde a juventude.

O jogo político na Educação - JOSÉ CASADO

O GLOBO - 12/11

Plano de Lula, balizado por lobbies setoriais e políticos, foi posto em rediscussão pelo governo Dilma e já está em exumação no Senado



Vem aí a segunda Conferência Nacional de Educação (Conae). Vai acontecer em fevereiro, em Brasília. O ciclo preparatório terminou há uma semana com 11 mil propostas coletadas em 2.800 reuniões, com participação de 600 mil pessoas, segundo o Ministério da Educação. É recorde.

A primeira conferência, em 2010, resultou no Plano Nacional de Educação. A de 2014 debaterá o impacto desse plano “na articulação do sistema — participação popular, cooperação federativa e regime de colaboração”.

Assim, em quatro anos, o governo terá patrocinado três mil assembleias, com quase um milhão de pessoas, e extraído um acervo de 14 mil sugestões sobre como resolver a crise da educação.

Na tarde de quarta-feira, 15 dezembro de 2010, sete meses depois da primeira conferência, Lula mandou o plano ao Congresso. Era para ser decenal, mas, como só faltavam duas semanas para troca de guarda no Palácio do Planalto, optou-se por fixar nove anos de prazo para execução (2011-2020). Aprovado na Câmara 22 meses depois, chegou ao Senado em projeto de lei com 12 mil palavras e 56 páginas.

Em meados deste ano, o Senado tentou acelerar a tramitação, mas o governo Dilma Rousseff resolveu mudar o projeto. E a Conae-2014 já tem mais 11 mil sugestões para mudanças.

É filme conhecido, com frustração da plateia no final. Na última década foram estabelecidas mais de 300 “metas” e, no entanto, a crise educacional se agravou, lembrou o professor Claudio de Moura Castro em recente debate no Senado:

— O Ideb mostra, o Pisa mostra, o Saeb já mostrou e o Enem mostra que se aprende muito pouco. Há evasão no ensino básico e, sobretudo, 50% de evasão no ensino médio.

O plano de Lula, balizado por lobbies setoriais e políticos, foi posto em rediscussão pelo governo Dilma e já está em exumação no Senado. Ali, parlamentares apelam aos convidados: “O que é possível fazer para salvar o plano?”

Confrontado, Castro foi direto:

— Analisar uns cinco ou dez pontos, que são críticos. Há muita coisa lá que não é errada, ideias muito boas perdidas numa salada de irrelevâncias e de equívocos. Esqueçam o resto. Não tem jeito.

— O que nós temos? — argumentou. — Por exemplo, a grande crise no ensino brasileiro hoje é a do ensino médio. No plano só um artigo trata do ensino médio. É o artigo que fala da padronização dos ônibus escolares, proposta sonhadora, pois como é que se vai obrigar o prefeito a escolher ônibus daquela marca e daquele tamanho? Temos excesso de disciplinas (escolares) e a formação de professores tem teoria e ideologia demais. O “como implementar” é confuso. Em alguns casos, impossível: pede-se 90% de (meta de) conclusão no ensino superior. Os Estados Unidos têm 50% de deserção no ensino superior, então, como é que nós vamos conseguir 90% de conclusão?

Na Conae-2010 Castro apresentou um “sumário” da educação brasileira, que repetiu no Senado:

— Etapa um, ensino ruim para poucos; etapa dois, no presente, ensino ruim para muitos.

Nunca antes na história deste país houve tanto debate sobre Educação. É saudável e pode até resultar em boas alternativas. O risco está no assembleísmo, onde cada reunião é apenas um prelúdio para a seguinte. Por coincidência, sempre em anos de eleição presidencial.

Há bens que vêm para o mal - ARNALDO JABOR

O Estado de S.Paulo - 12/11

A frase que mais me impressionou na semana foi escrita pelo Comando Vermelho em sua "constituição", em seu estatuto de regras: "O crime nos dá a convicção de que nossas bravuras são pelo progresso, por nosso esforço e mérito. Farão de nós vitoriosos. Pois nós somos o lado certo da vida errada". É extraordinário: "nós somos o bem do mal".

Citei o CV e agora cito Jean Pierre Dupuy, filósofo da Escola Politécnica de Paris e da Universidade de Stanford que escreveu em seu livro Por um Catastrofismo Esclarecido: "Sempre o Mal esteve relacionado com as intenções de quem o comete. Os horrores do século 20 deviam nos ter ensinado que isso é uma ilusão. O absurdo é que um mal imenso possa ser causado por uma completa ausência de malignidade, que uma responsabilidade monstruosa possa caminhar junto com uma total ausência de más intenções. (...) a catástrofe ecológica maior com que nos deparamos e que põe em perigo toda a humanidade será menos o resultado de um mal dos homens ou mesmo de sua estupidez. Terá sido mais por uma ausência de pensamento ('thougthlessness' )(...) Hoje, um sem número de decisões de toda ordem, caracterizadas mais pela miopia do que pela malícia ou pelo egoísmo, compõem um todo que paira sobre elas, segundo um mecanismo de autoexteriorização ou de autotranscendência. O mal não é nem moral nem natural. É um 'mal' do terceiro tipo, que chamarei de 'mal sistêmico'."

O mal é o bem ou o bem é o mal? Antigamente, era mole. O mal era o capitalismo e o bem o socialismo.

Agora, os intelectuais, os bondosos de carteirinha, os cafetões da miséria, os santos oportunistas, estão em pânico. Se não houver um mal claro, como seremos 'bons'? No mundo inteiro, há uma reviravolta ética, um cinismo que nos acostuma com o inaceitável. E também renasce, com descaro, a boçal divisão guerreira entre "esquerda" e "direita". Ninguém aguenta conviver com singularidades. Há uma fome bruta por "universais". Mas, como escreveu Baudrillard: "Hoje não há mais o universal; só temos o singular e o mundial".

Quem é o mal: o assaltante faminto ou o assaltado rico? Ou nenhum dos dois? Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? Como inventar uma "práxis" do bem?

O Mal é sempre o outro. Nunca somos nós. Ninguém diz de fronte alta: "Eu sou o mal!" Ou: "Muito prazer, Diabo de Almeida".

Como disse Hannah Arendt, na frase que virou lugar comum: o mal ficou banal. Tanto que o mal dos terroristas e jihadistas consiste em injetar no Ocidente o seu "bem", o arcaico no moderno, neste inferno "clean" que o capital inventou. Em nome de uma razão ideológica, de uma finalidade futura, os soviéticos assassinaram milhões pelo "bem" do Homem Total. A fé excessiva no Sentido e na finalidade prejudicaram muito o pensamento, mais do que a gente imagina. Hoje em dia, a esperança é mais remota, mas talvez esse vazio seja o início de uma reflexão mais à altura de nossa mediocridade finita, de um "geist" mais vagabundo.

Quem é o planejador do mal? O Japão vai parar de produzir robôs, para empregar a mão de obra faminta da Somália? Quem controla o mal? A Al-qaeda, o Putin, o Assad? Ou eles são agentes de um "mal" histórico-concreto inevitável? E cito mais uma vez Baudrillard, tão criticado pelas academias porque tinha imaginação e brilho: "Hoje, contra o mal, só temos o fraco recurso dos direitos humanos".

Talvez um caminho seja, como escreveu Louis Dumont, nos Ensaios sobre o Individualismo (apud Dupuy): "O bem deve englobar o mal, mesmo sendo seu contrário".

(Arghh, quanta citação!)

O bem está virando um luxo e o mal uma necessidade social. Sem participar do mal, não conseguimos viver. Como ser feliz olhando as crianças empilhadas na Síria, no Iraq, nos grotões do Brasil feudal: Maranhão, Alagoas, etc.? Temos de fechar os olhos. "Sou feliz se conseguir manter os olhos fechados." Ser feliz é não ver. Como praticar o bem? Apenas se horrorizando com o mal? Não vale ficar "tristinho", nem lançar apelos à razão ou à caridade. "Eu fiz tudo para ser um homem de bem. Serei um canalha?" Todos se acusam, todos querem ser o bem. Durante a ditadura, todos éramos o bem. O mal eram os milicos. Acabou a dita e as "vitimas" (dela) pilharam o Estado. O que é o "bem" hoje? É lamentar com certo prazer uma impotência, é um negror melancólico, é um elogio da morte? Ou o bem é ser pragmático, frio? É uma identificação mecânica com as desgraças ou um desejo "protestante" de melhorar na vida?

O pensamento aspira à totalidade. O bem será um desejo de harmonia, de Uno ou o bem é suportar heroicamente o múltiplo, o incontrolável, a impotência "democrática"? O bem hoje é aceitar os limites do "possível histórico" ou persistir em utopias, apenas pelo prazer de se sentir acima da insânia da vida? Pensamos com o corpo, queremos que o mundo seja um "todo harmônico", como o nosso organismo. A ideia de "fragmentário" gera angústia, porque lembra a morte. Por isso, a aceitação do fragmentário se reergue em nova totalidade e começa tudo de novo. A democracia é muito complicada, lenta e está deixando todo mundo impaciente - somos todos totalitários. Ao denunciar o Mal, vivemos dele. Eu ganho a vida denunciando o que eu acho o "mal".

O mal no mundo atual é o "incompreensível". Também, nós sabemos desses perigos todos, mas não cremos neles. A catástrofe talvez já tenha acontecido, mas a gente não acredita. No Brasil, o grande Mal não tem importância. O perigo aqui é o pequeno mal, enquistado nos estamentos, nos aparelhos sutis do estado, nos seculares dogmas jurídicos, nos crimes que são lei. O mal aqui está nos pequenos psicopatas que, quietinhos, nos roem a vida. Aqui o grande canalha serve para camuflar os pequenos, que são os grandes canalhas. O mal do Brasil não está na infinita crueldade dos torturadores ou das elites sangrentas, está mais na sua cordialidade. No Brasil, o mal nos engana. Aqui, o perigo é o Bem.

51: uma boa ideia! - ELIZEO FERRAZ FURQUIM

GAZETA DO POVO - PR 12/11

Criado em 1978, o slogan “Uma boa ideia” se transformou em ditado popular, exemplo de campanha publicitária que transcende ao produto. Goebbels, ministro da propaganda nazista, já ensinava que através da manipulação de informações é possível produzir uma resposta emocional e não racional à informação apresentada.

A PEC 51 atropelou a criação do Fundo Nacional de Segurança Pública, que garantiria um aporte de recursos para a efetiva melhoria da segurança pública de todos os brasileiros. Essa PEC reacendeu o estéril debate sobre desmilitarização, municipalização e Ciclo Completo de Polícia, e complicou tanto as discussões que gerou uma comissão especial do Senado para debater essas propostas.

O Brasil está redemocratizado. Os policiais do Brasil, formados nos últimos dez anos, foram capacitados e especializados pela matriz curricular nacional idealizada e referendada por Luiz Eduardo Soares. Mas, mesmo assim, a ditadura militar inspira a PEC 51, e uma tradução malfeita de uma recomendação da delegação da Dinamarca virou recomendação da ONU pela extinção das Polícias Militares, falsas premissas que levaram a errôneas conclusões.

Temos graves problemas na segurança pública. Nossos associados, militares estaduais, são constantemente oprimidos, seu direito de expressão é ilegalmente cerceado, sofrem por parte da sociedade um enorme preconceito. Se não bastassem estes problemas, a PEC 51 vem acirrar a cizânia entre oficiais e praças, entre militares e civis, entre entes federados e municípios.

O Ciclo Completo de Polícia enfrenta poderosos lobbies contra sua restauração ao sistema policial brasileiro. A municipalização seria uma redefinição do pacto federativo, já que 90% dos municípios brasileiros não dão conta de suas atuais atribuições constitucionais. Empurrar um sistema americanizado de segurança pública que nos Estados Unidos custa US$ 44 bilhões por ano, é no mínimo, pueril.

O pior é ameaçar deixar desempregados nossos 18 mil sócios e extinguir a corporação a que pertencem e a função que exercem. E não adiantam falsas promessas de que seus direitos serão preservados: os governos não são confiáveis – o federal prometeu a PEC 300 e não cumpriu; o estadual prometeu regulamentar a Emenda 29 e empurrou o remendo 30.

O produto para o qual a campanha da “boa ideia” foi escrita é na verdade uma droga psicotrópica que atua no sistema nervoso central, causa dependência e tem sua comercialização proibida em vários países, mas é socialmente aceito. A verdadeira boa ideia é moderação! A PEC 51 também precisa de moderação, e não de radicalização. Nós estamos fazendo a nossa parte: unidos a todas as entidades representativas dos militares estaduais, estamos elaborando uma alternativa crível, que melhore as condições em que atuam os trabalhadores da segurança pública, lembrando que o sistema de segurança pública é na verdade o somatório dos subsistemas policial, de persecução criminal e o penitenciário ou reeducativo, todos essenciais quando falha a educação – este, sim, um sistema composto pela família, sociedade e Estado, capaz de gerar amor, ordem e progresso.

UPPs no divã - LETÍCIA SANDER

FOLHA DE SP - 12/11

RIO DE JANEIRO - Há um ano ou mais, não havia conversa sobre as eleições de 2014 no Rio que não terminasse no nome de José Mariano Beltrame. Ele era cortejado para ser o candidato à sucessão de Sérgio Cabral, era o vice dos sonhos de Luiz Fernando Pezão, era referência indispensável até para candidatos de oposição, que se apressavam em garantir que a política de criação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) estava garantida. Agora que a disputa começa a esquentar, soa um tanto irônico que o próprio governo Cabral comece a tirar a principal marca de sua gestão da vitrine.

O desabafo feito pelo comandante das UPPs, coronel Frederico Caldas, para quem a morte, sob tortura, do pedreiro Amarildo de Souza "destruiu a confiança dos moradores", é simbólico. Assim também é a intrigante "promoção" do delegado que iniciou as investigações sobre o desaparecimento do pedreiro. Encerradas as apurações que levaram 25 colegas à cadeia, Orlando Zaccone, há 14 anos na polícia, foi tirado da Gávea para assumir um posto em Ricardo de Albuquerque, na zona norte, quase na Baixada Fluminense...

Soa injusto, porém, colocar na conta do destino do ex-pedreiro toda a crise de credibilidade que ronda as UPPs. A impressão que se tem, isto sim, é a de que, após Amarildo, o programa começou a ser visto com outra lupa. A sequência de tiroteios em favelas como a da Rocinha e a do Complexo do Alemão, com comércio fechado e relatos de moradores apreensivos, prova isso tanto quanto o ranking elaborado pelas próprias chefias das UPPs mostrando que só duas mereceram um "verde", de nível bom.

A revelação, por esta Folha, de que o governo Cabral decidiu "congelar" a criação de novas unidades pelos próximos sete ou oito meses não prova nenhum fracasso. É evidente que a política das UPPs trouxe uma série de ganhos ao Rio. E repensá-la, mais do que salutar, é preciso.

Ecologia e ideologia - XICO GRAZIANO

O Estado de S.Paulo - 12/11

Importante tendência ideológica anda se esforçando para dominar o ambientalismo brasileiro. Sua mais recente tacada se materializou com o lançamento, pelo governo federal, do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Planapo). Verdadeiro anticapitalismo no campo.

Recheado de boas intenções, tal plano configura uma espécie de socioesquerdismo esverdeado. Não é fácil defini-lo. Sua articulação política envolve os chamados "povos oprimidos", em que se misturam índios, quilombolas, quebradoras de coco, comunidades ribeirinhas, pescadores artesanais, grupos em geral alinhados com o ideário do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na contramão da História, eles propugnam uma "via camponesa" em contraposição ao agronegócio empresarial.

Naquela conferência mundial sobre sustentabilidade promovida em 2012 pela ONU no Brasil (Rio+20) já se podia perceber a força desse movimento, que, mais amplamente, pretende falar pelos "excluídos" da sociedade contemporânea. Lideranças de várias organizações não governamentais (ONGs) lutaram para derrubar o enunciado oficial sobre a "economia verde", argumentando que pouco lhes interessava esverdear o capitalismo. Defendiam uma sociedade pós-capitalista.

Embora sem jamais explicar ao certo como funcionaria esse mundo alternativo, obtiveram sucesso ao emperrar as negociações da diplomacia internacional. Dezenas de causas, as mais inesperadas, progressivamente postas nas mesas de discussão, embaralharam os debates sobre a agenda do desenvolvimento sustentável. Resultado: tudo se confundiu e nada se decidiu na Conferência Rio+20.

Nessa época, circulava um documento da Articulação Nacional de Agroecologia propondo criar no Brasil uma política distinta para o desenvolvimento rural brasileiro. O texto expressava posição contrária aos empresários do campo e, até mesmo, criticava as políticas de apoio à agricultura familiar, acusando-as de induzirem à vinculação dos pequenos produtores aos setores do agronegócio. Algo como se fosse proibido progredir na roça.

Zander Navarro já apontou, em artigo publicado aqui, no Estado (Fadas, duendes e agricultura, 30/10), a fraqueza teórica e prática desse suposto "modelo agroecológico" de produção campesina. Seus formuladores vivem da retórica, não comprovam viabilidade prática. Existem, sim, casos interessantes de agricultura alternativa. Mas seguem restritos, funcionam isolados, com baixa produtividade, incapazes de gerar excedentes alimentares para abastecer a massa da população.

Há meio século, início do movimento ambientalista, alguns marxistas franceses tencionaram fazer da luta ecológica uma frente de batalha contra o capitalismo. A pregação não vingou plenamente. Uma das razões estava no fato de que os então países comunistas, União Soviética à frente, igualmente depredavam os recursos naturais do planeta. Nesse contexto se formaram inusitados partidos políticos na Europa: nem esquerda nem direita, mas verdes.

Bem antes disso, na agricultura mundial haviam surgido algumas tendências se contrapondo às tecnologias intensivas, principalmente contestando a quimificação. Primeiro nasceu a linha dos alimentos orgânicos, a partir das observações de sir Albert Howard, no começo do século 20, acerca dos métodos indianos de produção rural. Seu princípio básico, um dogma, estabelece que a sanidade das plantas depende do húmus existente no solo.

Outras vertentes se seguiram, cada qual liderada por renomados estudiosos. A biodinâmica iniciou-se na década de 1920, baseada nos princípios filosóficos do humanista alemão Rudolf Steiner, fundador da antroposofia. A agricultura biológica, por sua vez, surgiu entre a França e a Suíça, a partir dos trabalhos de Francis Dhaboussou, voltados para o controle natural de pragas e doenças. Mais recente, a permacultura, encabeçada na Austrália por Bill Mollison, baseia-se nas técnicas indígenas, que intercalam cultivos temporários com plantios florestais.

De todas essas correntes, a que mais se avolumou foi a orgânica, destacando-se principalmente na Europa. Há uma explicação técnica. Acontece que nos países temperados o frio intenso limita a população dos patógenos que atacam as lavouras, facilitando a produção. Nas calorentas e úmidas regiões tropicais, porém, sem neve a hibernar a terra, a enorme proliferação das pragas e doenças torna tudo mais complexo na produção rural. Mesmo assim, no Brasil e na Argentina existem bons produtores orgânicos.

Obrigatoriamente certificada, para comprovar que segue um rigoroso protocolo, a produção orgânica nada guarda de ideologia. Seu intuito é comercial, atendendo aos nichos de mercado constituídos por consumidores mais exigentes e mais ricos, capazes de pagar seu elevado preço. Essa característica advém dos modestos níveis de produtividade com que opera, resultado das tecnologias brandas que utiliza. Por essa razão, fora das quimeras, ninguém imagina que o cultivo orgânico seja capaz de alimentar a humanidade. Não no horizonte atual.

Nisso derrapa o Planapo da presidente Dilma Rousseff. Seus propósitos, positivos no estímulo de formas mais amigáveis de produção no campo, se diluem em seu recheio ideológico, condenando-o ao fracasso. Agora, perigosa mesmo é uma mamata escondida em suas ações. Nele existe uma fabulosa quantia, de R$ 100 milhões, destinada até 2015 ao "fortalecimento de redes de agroecologia, de agroextrativismo e de produção orgânica". Sabe-se lá o que significam essas "redes". Cheira a dinheiro público a ser liberado via convênios para entidades, algumas meio fantasmas, criadas para viverem à custa do erário.

Velha esperteza disfarçada na causa ecológica.

Os donos da história - ARTHUR POERNER

O GLOBO - 12/11

A memória dos grandes vultos e personalidades do país, inclusive da área artística, é propriedade pública, parte inalienável da identidade nacional



Sempre acho bom evitar a personalização nos debates e controvérsias, porque ela acaba desviando as atenções do tema principal, mas, na polêmica das biografias não autorizadas, por envolver alguns dos mais renomados músicos do país, já não é possível dissociar posições dos que as defendem. De modo que, como autor, me vejo obrigado, pela primeira vez, a discordar do Chico, do Caetano e do Gil, líderes do grupo Procure Saber, com os quais sempre me senti irmanado quanto ao essencial, às matérias de relevância nacional como esta. O mesmo já não posso dizer do outro protagonista no noticiário sobre o caso, o Roberto Carlos, que nunca nos deu a oportunidade de concordar ou discordar dele, simplesmente porque se desconhece o que pensou até agora, inclusive quanto à ditadura. E vago e impreciso continuou sendo na badalada entrevista ao “Fantástico”.

Penso que a memória dos grandes vultos e personalidades do país, inclusive da área artística, é propriedade pública, parte inalienável da identidade nacional, e, como tal, não pode ficar à mercê ou depender da vontade, do capricho, das idiossincrasias ou, como ocorre com mais frequência, da cobiça dos seus herdeiros; a estes cabe, sim, parcela já regulamentada dos lucros financeiros decorrentes do culto a essas memórias, da venda das suas obras, pois são, afinal, legatários do prestígio dos seus antepassados.

A experiência vem demonstrando que é nas vantagens pecuniárias que se concentra e fundamenta a maioria das objeções e exigências dos familiares, como tão bem exemplifica o caso de “Estrela solitária”, a excelente biografia do Garrincha escrita pelo Ruy Castro, relatado pelo seu editor, Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras, no Segundo Caderno do GLOBO de 17 de outubro.

O Brasil é um dos poucos países em que ainda vigora essa aberrante forma de censura prévia, a autorização de biografias, uma flagrante violação do direito constitucional à liberdade de expressão, incompatível com a democratização em curso, muito embora os abusos e infrações no exercício deste direito já estejam até previstos legalmente, inclusive com a cominação das respectivas punições.

Em suma: ou completamos e modernizamos a nossa legislação nessa área, com a aprovação do projeto que tramita na Câmara Federal, ou convoquemos a família imperial, para integrar as bancas universitárias que julgam as dissertações e teses de pós-graduação em História do Brasil referentes aos seus ilustres antepassados.

É possível uma educação pública de qualidade? - HERMAN VOORWALD

BRASIL ECONÔMICO - 12/11

Sim, é possível. Não há dúvida. Experiências recentes, dentro e fora do país, têm demonstrado que é possível. Trabalho, retidão nos princípios norteadores de todo e qualquer programa, de toda e qualquer ação, e conhecimento aprofundado do tema são pontos de partida desejáveis para serem tomados por todos aqueles que se lançam em tarefa tão importante.

Desejáveis como ponto de partida, não bastam,no entanto, para a formação de uma plataforma segura de onde devemos atuar com a máxima eficiência e eficácia possível. São necessários, a partir daí, elementos e ferramentas que atendam à questão da organização,do planejamento, da gestão de recursos, da gestão pedagógica e, certamente, da atenção direta necessária para com os alunos.

No estado de São Paulo, a gestão eficiente dos recursos tem nos possibilitado atender a um número maior de necessidades, investindo no que é fundamental, ampliando as margens para descentralização, imprimindo um ritmo mais ágil para o aproveitamento desses mesmos recursos e o encaminhamento de soluções.

Aqui também, a gestão pedagógica tornou-se sinônimo de programas e projetos que consolidam o currículo por meio de formação continuada, de avaliação em processo, que monitora muito de perto o processo de ensino e aprendizagem de nossos alunos, lançando mão de ações de recuperação e reforço de forma muito mais ágil.

A gestão pedagógica,no estado de São Paulo, tornou-se também sinônimo de parcerias exitosas, como a que, de forma simultânea, como programa Residência Educacional,abre a oportunidade de universitários e suas escolas de origem participarem da rica experiência do dia a dia das salas de aulas, ao mesmo tempo em que apoiam professores e alunos em suas atividades.

Por sua vez, a alfabetização aos 7 anos de idade - programa que se inicia -, passará, ainda em 2013, pelo seu primeiro teste,no momento em que os segundos anos serão avaliados pelo SARESP - Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo. A escola de ensino integral vem consolidando de forma surpreendente o protagonismo juvenil, sobretudo quando cria as condições para que os alunos construam seus projetos de vida, como apoio constante de sua unidade escolar e de seus professores e tutores.

O VENCE - programa que articula o Ensino Médio ao Ensino Técnico, seja na forma integrada ou concomitante-tem nos revelado dados surpreendentes sobre a empregabilidade de seus formandos. E o Centro de Estudos de Línguas (CEL) alcança milhares de alunos, reforçando seus projetos de Formação profissional e proporcionando a todos um pouco mais de cultura. Quanto mais a sociedade estiver perto da escola - todos sabemos! -, mais ela será segura e de melhor qualidade.

O programa Escola da Família já organizou e organiza, desde sua criação,muitas atividades que buscam consagrar essa parceria e ampliar os laços de atuação. Pois bem, como quadro parcial de realizações até aqui descrito, talvez seja já o bastante para dar a todos uma ideia da complexa rede que envolve e inter-relaciona pessoas, recursos e programas. São cerca de 300 mil funcionários e 4,3 milhões de alunos.

Os números são grandiosos, tal qual os desafios diários inerentes da rotina das mais de 5 mil escolas. Talvez seja o bastante para demonstrar o grau de dificuldade com que nos deparamos quando nos propomos à elaboração e execução de políticas em diferentes áreas, sobretudo na Educação. Com isto,uma pergunta fundamental nos impulsiona, antes que qualquer outra: alguém é capaz de imaginar que tudo o que aqui foi descrito e muito mais possa existir sem o professor?

Certamente não. Há muitas décadas, governos e administrações vêm trabalhando com base em princípios norteadores que se diferem no tempo e no espaço. Nesse governo e nessa gestão, não nos acomodaremos enquanto não for feito tudo o que estiver ao nosso alcance para que o professor se sinta efetivamente valorizado, efetivamente reconhecido.

Não tenham dúvida de que é o aluno na sala de aula, em particular,e a sociedade, em geral, que sairão ganhando. Esperamos, assim, que as pessoas identifiquem, reconheçam na figura desse profissional um aliado na formação geral e positiva de seus filhos, e que devem, sempre, como registro de reconhecimento, dedicar-lhe todo respeito.

Picadinho à brasileira - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 12/11

Lula ilustrou bem o que é o PT atual, ao pedir que o outrora partido da juventude saia à caça de jovens


O miserê da política brasileira exposto em um só acontecimento, a eleição de novos/velhos dirigentes do PT. Um ato que mostrou a mesma coisa por diferentes maneiras: o PT, que foi a organização mais parecida com um partido programático no pós-ditadura, não tem mais absolutamente nada a dizer. O que está evidenciado tanto na tranquila continuidade do imobilismo, como na ausência de ao menos uma palavrinha nova e interessante até entre os derrotados, que deveriam ser contestadores.

Lula ilustrou bem o que é o PT atual, ao pedir que o outrora partido da juventude saia à caça de jovens. Com que ideias, com que ação política que não seja a mera prestação de serviço ao governo? Silêncio.

Como se diz no futebol, a eleição no PT foi só para cumprir tabela.

2) A crítica de Dilma Rousseff ao Tribunal de Contas da União não mereceu maior interesse. Mas se justifica, e não por pouco. A paralisação de obras, sete dessa vez, é contumaz no TCU, quando encontrados indícios ou evidências de irregularidades. Mas não é preciso paralisar obras, por tempo indeterminado e em geral longo, para investigar, corrigir e eventualmente punir, por exemplo, irregularidades financeiras.

Foi o próprio autor do relatório aprovado para as novas suspensões, Walton Rodrigues, a dizer que nesses casos "predominam achados de sobrepreço, restrição ao caráter competitivo da licitação e atrasos injustificados nas obras". A solução de sobrepreço e de atraso não impede a continuidade de obra, cuja sustação tem alto custo para os cofres públicos.

E "restrição ao caráter competitivo da licitação" é o que, até agora, se vê o TCU impor ao leilão dos aeroportos previsto para o dia 22.

3) O problema de José Serra está longe de ser Aécio Neves. É, sim, a disposição de Fernando Henrique e Geraldo Alckmin de impedir sua candidatura à Presidência. O governador, por conveniência pessoal e de sua corrente no partido; o ex-presidente, por velhas convicções e observação atual.

O problema de Fernando Henrique e Geraldo Alckmin está longe de ser José Serra. É, sim, a inconvincente determinação de Aécio Neves de levar adiante sua candidatura. Daí a insistência de Fernando Henrique em que Aécio assuma a posição de candidato do PSDB já em dezembro, no máximo, e não em março como combinado com Serra.

Fernando Henrique não está equivocado quanto à aparente pré-candidatura de Aécio Neves.

4) Ao menos para consideração futura, pelo Supremo ou pelo Congresso, faz sentido o argumento agora apresentado por alguns advogados: dizem eles que a exigência de quatro votos favoráveis, para que certos réus do mensalão ganhem direito a novo recurso, não se justifica se o tribunal fez a condenação quando desfalcado de um ou de dois ministros.

Diz a Constituição, art. 101, que "o Supremo Tribunal Federal compõe-se de onze Ministros". Se não tem onze, o tribunal ainda "compõe-se" de acordo com a Constituição?

Quatro em onze são uma proporção; em dez ou nove são outra, mais desfavorável ao réu.

Nisso está presente, também, a falta de prazo para indicação de novos ministros pela Presidência da República. Dilma Rousseff foi de lentidão injustificável, que impôs muito atraso a numerosas causas.


O verdadeiro absurdo - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 12/11
Para a presidente Dilma Rousseff, é "um absurdo" paralisar obras públicas, como recomendou há pouco o Tribunal de Contas da União (TCU). Dilma considera a interrupção das obras "algo extremamente perigoso", pois ninguém arcará com os custos nem se responsabilizará pelos danos que a interrupção causar. A obra "para e ninguém ressarce o que foi perdido", disse ela. Mas a interrupção de obras recomendada pelo TCU ao Congresso, longe de ser um ato absurdo, como supõe a presidente, é uma providência necessária para evitar lesões irreparáveis ao erário e, assim, proteger o interesse dos cidadãos.
A paralisação de obras públicas tem, de fato, consequências de diversas naturezas, pois ela pode implicar gastos não previstos com a manutenção de canteiros de obras e a preservação do que já foi construído, além de retardar os benefícios que elas podem trazer para a população. Apesar de também poder produzir consequências desse tipo, no entanto, a recomendação do TCU está longe de ser um absurdo, pois ela comprova a persistência, na administração pública, de práticas que geram custos adicionais para os contribuintes e, por isso, precisam ser combatidas com rigor.

Se há algum absurdo nisso é que, a despeito de frequentemente o TCU apontar irregularidades na contratação de obras e em outros atos da administração pública, o governo continua a praticá-las.

No balanço que, por lei, faz anualmente sobre a situação das obras públicas - apontando ao Congresso aquelas que devem ter sua execução interrompida pela existência de indícios de irregularidades graves o TCU recomendou a suspensão de sete obras do governo federal. Dessas, quatro fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que ajudou a eleger Dilma em 2010 e que ela parece disposta a utilizar i como ferramenta eleitoral também i em 2014. Para outras obras, incluindo várias do PAC, o TCU recomendou a retenção dos recursos públicos até que as irregularidades sejam sanadas.

Ao considerar a suspensão de obras um "absurdo", a presidente, que participava de uma solenidade no Rio Grande do Sul, citou uma em particular - a implantação e pavimentação da Rodovia BR-448, no trecho de 22,3 quilômetros entre Porto Alegre e Sapucaia do Sul, chamada de Rodovia do Parque. "Eu não perco a inauguração por nada", disse ela, referindo-se à obra, que chamou de "emblemática" para qualquer governo.

Há motivos para ela ser considerada um emblema do governo do PT. Orçada em mais de R$ 1 bilhão, a obra já integrou listas anteriores do TCU de obras que deveriam ser para! Usadas. Como em relatórios anteriores, no referente a 2013 é apontada a persistência de suspeita de sobrepreço, com a observação de que os responsáveis haviam assumido o compromisso de sanar as irregularidades no ano passado, mas não o fizeram. A origem do problema seriam falhas no projeto básico da obra, que, por utilizar técnicas defasadas, encareceria a construção.

É um problema comum em obras do governo federal. Projetos mal elaborados ou incompletos dão margem a atrasos, a necessidades de recálculo do valor do contrato e, em resumo, a aumentos exorbitantes do custo final da obra. Isso ocorre até mesmo em áreas consideradas críticas pelo governo para a melhoria da infraestrutura e para a expansão dos investimentos, como ferrovias, portos e aeroportos, além das rodovias.

Há também falhas administrativas - que retardam a contratação, a fiscalização e o pagamento das obras má gestão financeira e despreparo técnico do pessoal do serviço público, que induzem as empresas contratadas a reclamar pagamentos adicionais ou geram sobrepreço e até corrupção.

Não é uma anomalia nova, reconheça-se. Mas a maneira como o PT vem lidando com os recursos públicos a tornou mais frequente e visível. A atuação do TCU, a atenção dos cidadãos e a ação de parte do Congresso têm evitado o agravamento do problema, mas ele persiste, e precisa ser enfrentado, até com paralisação de obras. Ainda que não seja do agrado da presidente, é medida necessária para proteger o dinheiro público.

Meta refeita, de novo - EDITORIAL FOLHA E SP

FOLHA DE SP - 12/11

Governo quer afrouxar, pela quinta vez, compromisso de economia nas contas públicas, o que rebaixa ainda mais a credibilidade federal


É tentador para o governante ter à mão uma máquina de fazer dinheiro, capaz de atender às novas demandas por despesa. Sem contrapeso social, político e institucional, o governo sempre elevaria os tributos e a dívida pública, fosse qual fosse a ideologia do partido no poder.

Hoje campeões na retórica da moderação fiscal, os tucanos só colocaram freio na gastança, fixando metas para o chamado superavit fiscal, no final do primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso. Foram movidos não pela consciência, mas pela necessidade de um país quebrado em moeda estrangeira, às portas do FMI.

A ideologia apenas muda o sinal da justificativa para o aumento do gasto público. Tucanos o faziam em nome da estabilidade monetária, cuja conta inevitável acreditavam ser juros exoticamente altos. Petistas torram dinheiro do contribuinte como se o Estado fosse o motor da economia.

Mas o fazem, estes últimos, dentro de um traje institucional herdado da penosa estabilização brasileira --imposto aos governantes como freio a sua vocação gastadora. Embora não creia nas virtudes do modelo, a presidente Dilma Rousseff é obrigada a perseguir uma meta de poupança pública --o superavit primário-- que não leva em conta as despesas com juros.

O atual governo respondeu ao dilema com uma série de artimanhas, contábeis e legais, para vestir o velho "desenvolvimentismo" com a roupagem da disciplina fiscal. Atordoado pelo péssimo resultado das contas públicas de setembro, que na prática inviabilizou o cumprimento da meta de poupança deste ano, o Executivo prepara novo rebaixamento do objetivo a ser cumprido em 2013.

Voltou a tramitar no Congresso o projeto de lei que desobriga o Tesouro Nacional de cobrir a parte da poupança que Estados e municípios deixam de perfazer. Seria a quinta versão do objetivo fiscal de 2013. A esta altura, é de perguntar qual a razão para tanto malabarismo, dado que ninguém mais acredita no compromisso do governo federal com o controle de gastos.

Se controles institucionais estão sendo minados pela ação do Planalto, outros contrapesos na sociedade permanecem ativos. Os juros na praça terão de subir ainda mais para compensar os efeitos do consumismo e do descrédito do Tesouro, que põe lenha na fogueira da inflação e do deficit externo, além de elevar a dívida pública.

Os efeitos negativos dessa conduta do governo petista, contudo, serão sentidos no país inteiro, na medida em que exaurem o fôlego do investimento produtivo e alongam o período, já exasperante, de crescimento anêmico da economia.

A sociedade de confiança - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR

GAZETA DO POVO - PR - 12/11

A baixa taxa de confiança, derivada de um complexo fator cultural, responde pelo atraso e pela falta de progresso


Por que algumas nações se desenvolvem e oferecem elevado padrão de bem-estar social médio a sua população, enquanto outras – muitas vezes mais ricas em recursos naturais – vivem em estado de elevada pobreza e baixo padrão de vida? Esse é um dos temas mais pesquisados e um dos mistérios não compreendidos. Aplicada ao Brasil, essa questão chega às raias do paradoxo: tendo tudo para ser rica e oferecer a seu povo elevado nível socioeconômico, a nação brasileira insiste em chafurdar na miséria, na pobreza, na violência urbana, na precária saúde pública e no baixo nível educacional de grande parte de sua população.

Nunca é demais examinar as causas da pobreza deste país, pois a pobreza ocorre sobre um território privilegiado, com recursos naturais abundantes, vocação para o pacifismo internacional e uma mistura de raças que, a princípio, deveria ser fator de promoção do desenvolvimento econômico e social. Na tentativa de encontrar explicações, merece atenção o estudo feito pelo sociólogo e cientista político Alain Peyrefitte, em sua obra A Sociedade de Confiança. As análises e os argumentos ali expostos são de grande valia para a compreensão dos fenômenos sociais, políticos e econômicos que atrasam o desenvolvimento do Brasil.

O autor francês afirma ter acumulado leituras e observações em viagens por cinco continentes e nas experiências vividas como político e como ministro por mais de quatro décadas. Sua tese central é de que a confiança é um elemento-chave para o desenvolvimento econômico e social de qualquer nação. A confiança recíproca entre as pessoas, a confiança de uma sociedade em suas instituições, o cumprimento de regras não escritas de respeito mútuo e um comportamento capaz de minimizar a incerteza levam os indivíduos a saber o que esperar dos outros e das instituições, e são elementos vitais e decisivos para promover os negócios, os empreendimentos, os contratos, o progresso material e o desenvolvimento social.

Alain Peyrefitte faz uma observação interessante. “Foi o conhecimento do Terceiro Mundo que me convenceu de que o capital e o trabalho – considerados pelos teóricos do liberalismo e do socialismo como os fatores do desenvolvimento econômico – eram na realidade fatores secundários; o fator principal do desenvolvimento é um terceiro, o qual chamei de terceiro fator imaterial, ou seja, o fator cultural.” Lembrando ser difícil provar a existência desse terceiro fator imaterial, não há dúvida de que a baixa taxa de confiança, derivada de um complexo fator cultural, responde pelo atraso e pela falta de progresso.

Segundo o autor da obra, a sociedade de confiança é uma sociedade em expansão, na qual se pratica o jogo do ganha-ganha: o indivíduo confia na autoridade, a população confia no governo, as pessoas acreditam na Justiça, a lei protege os contratos juridicamente perfeitos, os cidadãos cumprem as regras – muitas vezes sem precisar de fiscalização ou de punição –, a corrupção é pequena, o governo é razoavelmente eficiente e a população se sente representada pelos políticos que elege. Em uma sociedade de confiança, um idoso não precisa de um cartão para estacionar em vagas a eles reservadas, pois a lei é sempre cumprida, da mesma forma que um fiscal representando o poder público não se corrompe e as obras públicas não são superfaturadas nem usadas para desvio de dinheiro dos tributos.

Contrariamente, em uma sociedade na qual impera elevada desconfiança geral, o desenvolvimento não se faz, recursos são desperdiçados, pessoas seguem na miséria e a vida torna-se precária, sofrida e violenta. Nessa sociedade impera o medo e a angústia cotidiana; as casas tornam-se prisões autoimpostas, pois o simples ato de manter abertas portas e janelas ou andar à noite pelas ruas das cidades transforma-se em atitude perigosa, e as cidades deixam de ser espaços públicos usufruídos por adultos e crianças.

Na sociedade de desconfiança, a população não acredita nas autoridades, não confia no governo e não espera que a Justiça funcione; os serviços governamentais são eivados de ineficiência e a corrupção é elevada. Nessa sociedade, a pobreza e a violência urbana continuam, pois o crescimento econômico e a produtividade do trabalho, tão necessários para romper o atraso social, não passam de uma promessa jamais cumprida. Eis o retrato claro do Brasil.

É necessária forte reafirmação das UPPs - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 12/11
A mais bem-sucedida política de segurança pública executada no Rio de Janeiro em décadas, a instalação de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), não pode ser entendida como solução única e definitiva para o problema da violência e criminalidade. Mas, sim, o início de um projeto mais amplo de resgate pelo Estado de amplos territórios subjugados pelo crime, para, a partir daí, haver a efetiva integração destas comunidades ao mundo formal da cidade, com o acesso a todos os serviços públicos, etc. A começar pelo Rio até se estender pela Baixada Fluminense e o restante do estado.
Sequer deve ser cobrado das UPPs o fim do tráfico de drogas, meta que nem os Estados Unidos, o país mais bem aparelhado em termos militares e policiais, conseguiram atingir. Realista, o objetivo da UPP, como diz o nome, é a pacificação das favelas, o que implica o banimento das armas pesadas e do comércio atacadista de drogas.

As UPPs, em funcionamento em 34 localidades, em que residem 1,5 milhão de pessoas, tiveram e têm grande impacto na redução dos índices de criminalidade, com destaque para os homicídios. A cidade do Rio chegou a ter, em 2000, cerca de 50 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes; hoje, se encontra na faixa pouco acima dos 20, próximo à média nacional.

Porém, se o programa não for gerenciado com a devida atenção, há o perigo de um desastroso retrocesso - desastroso para a sociedade. Reportagem de domingo do Extra traz informações preocupantes sobre o retorno de traficantes bem armados para áreas de UPPs.

No Pavão-Pavãozinho, Copacabana/Ipanema, a polícia já não entra na localidade chamada de Vietnã , como era no passado. Na Rocinha, estourou uma guerra entre remanescentes da quadrilha do traficante local, preso; e um grupo grande de pessoas com armas pesadas foi visto atravessando a Estrada da Gávea de madrugada. Situação semelhante ocorre no Complexo do Alemão (Parque Proletário, Vila Cruzeiro). Há outros casos. De forma organizada ou não, estão em curso ações de tentativa de retomada de territórios por traficantes, um ataque grave a um dos pilares do programa das UPPs - a manutenção do controle das áreas reintegradas aos cuidados do Estado.

No momento, importa menos discutir as possíveis causas desta pressão sobre as unidades de pacificação - até mesmo previsíveis - do que o poder público organizar uma resposta à criminalidade, firme como deve ser.

Não seria possível imaginar que quadrilhas há tanto tempo incrustadas nessas comunidades desistiriam de seus negócios . Cabe, então, aos governos estadual e federal repetirem as forças-tarefas que, com absoluto êxito, libertaram o Alemão, a Rocinha e outras comunidades, para retomar as áreas reocupadas por bandidos. A resposta do Estado precisa ser rápida e dura, para desestimular novas ações.

Tragédia no trânsito: até quando? - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE

CORREIO BRAZILIENSE - 12/11
É inaceitável a ocorrência de tragédias evitáveis relacionadas ao trânsito. Pior: se a tragédia se repete, o tema ultrapassa o limiar da aceitabilidade. Atinge o da revolta e indignação. A capotagem de ônibus nas proximidades de Luziânia serve de exemplo. Na noite de sábado, a irresponsabilidade matou duas adolescentes, roubou o antebraço de um garoto de 15 anos e deixou 34 feridos.
A reprise da catástrofe se deve à combinação de três fatores explosivos. Um deles: álcool. Outro: velocidade. O último, não menos importante: superlotação. Todos podem ser agrupados sob o guarda-chuva da impunidade. Empresários desrespeitam a lei na certeza da inexistência de fiscalização. A convicção, porém, não se deve à falta de legislação rigorosa.

Ao contrário. O Brasil dispõe de uma das mais modernas normas sobre o assunto. Mas imenso abismo existe entre a letra e a concretização. Palavras sem atos têm o valor de zero à esquerda. Ganham discursos no Congresso e notícias na mídia. Rendem votos. Mas o ganho social é nulo. Sem aplicação efetiva, estende-se o tapete vermelho para o abuso.

Este é o terceiro acidente de ônibus com moradores do Distrito Federal registrado em 2013. Em julho, coletivo com problemas mecânicos saiu de Sobradinho com 44 pessoas que foram a Minas Gerais participar de inauguração de templo evangélico. Em Governador Valadares, 10 fiéis morreram. Seis meses antes, van com excesso de velocidade e de passageiros bateu em carreta na BR-316, no Piauí. Roubou a vida de 10 brasilienses e deixou 12 feridos. Em anos anteriores, o enredo se repetiu.

Até quando? As autoridades precisam encarar o problema com firmeza e seriedade. Impõe-se planejar estratégias de curto, médio e longo prazo. Segurança no trânsito é questão transversal. Implica diálogo coerente e concatenado com diferentes áreas da administração. Entre elas, educação, saúde, transporte, segurança, justiça. O que se vê, porém, são ações pontuais e descontínuas. Pior: a indiferença governamental.

Vale um exemplo. O governo federal tem uma política específica voltada para educação e segurança no trânsito executada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), órgão vinculado ao Ministério das Cidades. A principal fonte de recursos é o Fundo Nacional de Segurança e Educação de Trânsito (Funset), cujo orçamento, só para para 2013, é de R$ 860,6 milhões. Porém, até agora, apesar das estatísticas assustadoras, o Tesouro desembolsou apenas R$ 197,8 milhões - 23% do total previsto.

Assim, ficam relegadas às calendas gregas iniciativas que poderiam salvar vidas e poupar verbas da Previdência e da Saúde. O dinheiro é usado, por exemplo, para a produção de campanhas de conscientização, execução de programas e ações de modernização e aperfeiçoamento das atividades do Denatran voltadas à educação e à segurança de trânsito e articulação entre os órgãos do sistema. Trata-se de mais um caso do hiato abissal entre palavras e atos. Até quando?

COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO

“Não dá para comparar banana com laranja”
José Serra (PSDB) evitando comparações entre ele e o presidenciável Aécio Neves


‘IMOBILIÁRIA EXÉRCITO’ TEM MAIS DE 19 MIL IMÓVEIS

A Marinha do Brasil pode ser uma mãe, mas o Exército briga para ser um pai no ramo imobiliário: são mais de 19 mil imóveis do Exército com a designação de “Próprio Nacional Residencial” (PNR), ou seja, com o propósito de serem distribuídos em todo o território nacional a seus integrantes, que pagam apenas uma taxa de ocupação de valor reduzido. Um sargento, por exemplo, paga no máximo 5% do soldo.

NO INTERIOR

A 4ª região (Tocantins, Goiás, Brasília e parte de Minas) é responsável por mais de 25% das unidades residenciais do Exército: 4,8 mil.

PATRIMÔNIO

Além das casas, a “imobiliária Exército” ainda contabiliza seus próprios operacionais, além de escritórios, fazendas etc.

PRAZO

Depois de reformados, os militares ganham prazo elástico de 180 dias para desocupar a unidade residencial onde residam.

TRANSFERÊNCIAS

As Forças Armadas acham necessários tantos imóveis, por serem frequentes as transferências dos militares para unidades militares.

PMDB PRETENDE LANÇAR CLÉSIO ANDRADE EM MINAS

O presidente do PMDB, Valdir Raupp (RO), reafirmou em Caratinga que o partido deve lançar candidatos próprios e que o senador Clésio Andrade é hoje o principal nome para o governo de Minas, e não o empresário
Josué Alencar, filho do falecido vice José de Alencar, um mineiro que sempre viveu em São Paulo, não conhece o eleitorado e teria dificuldades até de formular uma plataforma eleitoral para 2014. 

MINAS O QUÊ?

Josué Alencar disse que vai a um encontro do PMDB, dia 23, em Montes Claros e Diamantina. Periga se perder no caminho.

TOMA LÁ, DÁ CÁ

Para barrar projetos que impliquem em gastos, a ministra Ideli Salvatti prometeu liberar emendas para a base aliada, e até para a oposição.

POÇO DE MÁGOAS

O presidente do PPS, Roberto Freire, topa se aliar a Aécio ou Eduardo Campos, mas Marina Silva, que o preteriu, é taxativo: sem chance.

ÁRABES NA ÁREA

O príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Mohamed bin Zayed disse ao vice Michel Temer que enviará comitiva de governo para tratar de negócios envolvendo portos, aeroportos, rodovias e ferrovias no Brasil, em 2014.

EIS A QUESTÃO

Correndo o risco de extinção em 2014, o DEM não sabe ainda se lança Ronaldo Caiado (GO) ou apoia Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência. A cúpula teme que candidatura própria dificulte a eleição de deputados.

TIRO NO PÉ

Osmar Terra (PMDB-RS) desceu a lenha, em audiência na Comissão de Saúde do Senado uruguaio, na decisão do país de legalizar a maconha: “Só aumenta o tráfico de outras drogas, inclusive ao Brasil”.

OS RIGORES DA LEI

Após meses tentando audiência, o governador Beto Richa (PSDB-PR) será, finalmente, recebido pela presidente Dilma para tratar do “excesso de rigor” na liberação de empréstimos para seu estado.

NOME É SECRETO

O governador Jaques Wagner (PT-BA) e o ministro Fernando Pimentel participam em Camaçari, nesta quarta, do lançamento do primeiro carro criado no Brasil, com transmissão ao vivo para Ford de vários países.

ACORDO TUCANO

A provável candidatura Pimenta da Veiga ao governo de Minas, em 2014, é vista na política mineira como compromisso do senador Aécio Neves com FHC, de cujo governo ele foi ministro das Comunicações.

PLANOS POLÍTICOS

Com o pé no PSB de Eduardo Campos, a ministra Eliana Calmon (STJ) disse, em conversa com o prefeito ACM Neto (DEM-BA), que a fascina a ideia de disputar a Câmara ou Senado, possivelmente por Brasília.

PALAVRA DA RECEITA

A Receita Federal nega o sumiço de multas aplicadas, e informa que impugnações são apreciadas na Delegacia de Julgamento e depois pelo conselho de Recursos Fiscais. E que o ex-subsecretário de Fiscalização Caio Cândido deixou o cargo “por motivos pessoais”.

LUTA DE RAÇAS

Além da cota de 20%, a presidente Dilma criou o Disque Igualdade, para denúncias. Brancos ou que assim se
dizem poderão reclamar ao bispo.


PODER SEM PUDOR

UM TÁXI NA FILA

Deputado estadual no Paraná, o ex-ministro Rafael Greca participava ativamente da organização da bênção anual de animais, na tradicional festa Ordem de São Francisco, no centro histórico de Curitiba. Certa vez, numa fila cheia de crianças com cães e gatos, alguém apareceu com um enorme elefante. Devia ser de algum circo. Pais, mães e crianças ficaram inquietos, alguns entraram em pânico. Greca resolveu intervir, aos gritos:

- Calma, calma, não se assustem! Na Índia, é táxi!…

TERÇA NOS JORNAIS

- Globo: Devastação da Amazônia deve crescer 20% este ano
- Folha: Fiscal suspeito foi da equipe de secretário de Haddad
- Estadão: Quadrilha é acusada de cobrar para zerar dívidas de IPTU
- Zero Hora: Chuva mata, isola e deixa desabrigados no Estado
- Brasil Econômico: EUA têm novo título com lastro em aluguel
- Correio Braziliense: Voos nada éticos complicam Ideli 
- Estado de Minas: BRT vigiado
- Jornal do Commercio: Fiat deve contratar mais mil pessoas

segunda-feira, novembro 11, 2013

Lobby por lobby - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA


Eles vão ficar conosco até o fim da nossa vida. Começaram a chegar nas últimas décadas do século XX, trazendo em sua pregação uma ideia simples: estava mais do que na hora, diziam, de proteger o homem de si próprio, pois ele não vinha se mostrando capaz, sozinho, de aproveitar corretamente os frutos do maior período de progresso contínuo jamais registrado na história da humanidade. 
Deixado por sua conta, iria gastar mal o que havia ganhado, cair no desperdício e cometer todos os pecados que as crianças decoram hoje já no primeiro ano do curso primário.
 É possível que as coisas tivessem ido por aí mesmo, levando-se em conta a invencível capacidade do homem de transformar em problema a maioria dos sucessos que obtém. Mas o fato é que os governos e seus funcionários, reforçados por militantes de todos os tipos de causas particulares, foram recebendo cada vez mais a tarefa de decretar como os cidadãos devem se comportar, para o seu próprio bem — e de decidir o que é certo, suficiente, virtuoso e por aí afora. Desde então o mundo não parou mais de regular a si próprio, e hoje já não existe nenhuma perspectiva de que os reguladores venham a dar sua tarefa por terminada: quando se pensa que já regularam tudo o que podia ser regulado nesta vida. aparecem com alguma coisa em que ninguém havia pensado antes, e vêm com regras novas em folha para determinar o que o cidadão pode ou não fazer. De fato, estarão aí para sempre — mesmo porque a soma das suas atividades já forma hoje todo um mundo com vida própria, que dá sustento, trabalho e benefícios materiais a centenas de milhares de pessoas dentro ou fora dos governos, ou mais que isso, movimenta bilhões de dólares, influi nas decisões públicas e privadas de investimento e exerce, em geral, um poder que não lhe foi dado por nenhum instrumento democrático de uso comum. Tomaram-se um sistema com interesses a defender. Não vão parar.

As demonstrações práticas do que é descrito aí acima acontecem o tempo todo. em tudo o que se possa imaginar, e mesmo naquilo que ninguém imagina — as descargas de privadas, por exemplo, para ficar no caso mais recente, e especialmente cômico, de obsessão por regular qualquer coisa, mas qualquer coisa mesmo, que passe pela cabeça de um regulador aplicado. Sinceramente: dá para pensar em algo menos sujeito à intromissão da autoridade pública do que o ato de ir ao banheiro? Pois os técnicos da Comunidade Europeia acham que sim, perfeitamente — a visita ao toalete não é coisa tão privada como se pensa, decidiram eles, e não pode mais permanecer nessa situação de liberalismo selvagem em que se encontra hoje. Resultado: após três anos inteiros de labor numa pesquisa que consumiu 100000 euros (sorte dos europeus; não têm ideia de quanto lhes custaria isso num orçamento padrão PAC), rendeu 120 páginas de sabedoria e cobriu os 28 países da organização, eles decidiram neste início de novembro que, a partir de agora, todas as privadas da Europa deverão ter descargas geradas em caixas com 5 litros de água — nem uma gota a mais. Os mictórios terão direito a 1 litro. Serão permitidas meias-descargas, com 3 litros, e fim de conversa — tudo isso, sustentam os técnicos, é fruto de médias aritméticas, cálculos de distância entre as bordas dos vasos e de estudo dos “hábitos pessoais” dos usuários. Quais seriam? A comissão responsável pelo chamado euroflush preferiu ser discreta a respeito — limitando-se a observações menos arriscadas, como a de que a Inglaterra é o país que mais consome água em suas privadas (6 ou mais litros por descarga) ou que só a ducha, no consumo doméstico, gasta mais que uma boa puxada de água no vaso sanitário.

O objetivo de todo esse esforço é salvar a Europa e sua gente da “falta de recursos hídricos”. O estudo indica, alarmado, que há no momento 400 milhões de privadas e mictórios na Comunidade Europeia — algo que, pelo bom-senso, parece ser coisa muito boa, pois mostra que todo indivíduo tem acesso ao mais elementar dos recursos sanitários. Parece, mas não é. Segundo a autoridade pública, isso já é privada demais, e privada tem de ser utilizada com moderação. Pode, uma coisa dessas? Não só pode — é a regra, hoje em dia. Regulamentos do governo para isso ou aquilo sempre houve, desde que a Revolução Industrial começou a gerar efeitos, mas estamos entrando em outra dimensão. Uma das atividades que mais crescem no mundo de hoje é a que se propõe a controlar as atividades dos outros — um lobby tão forte quanto qualquer dos que existem e, por isso mesmo, tão perturbador como todos eles.

Kubrick de olhos bem abertos - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 11/11

Somos seres do desejo, e não de razão. Devoramos tudo em consequência do desejo irracional


Depois de ler sobre pré-história, minha percepção do mundo mudou. Para começo de conversa, o tema da violência na condição humana é melhor compreendido quando olhamos para nossos ancestrais do Paleolítico Superior do que quando tentamos compreendê-lo a partir de ideias como "o modelo social está ultrapassado", apesar de saber que frases como essa dão orgasmo em muita gente.

Somos seres do desejo, e não de razão. Com isso não quero dizer que não sejamos racionais, mas sim que o desejo se impõe à razão. Freud e Lacan bem sabem disso. Schopenhauer e Nietzsche também sabem isso. Devoramos tudo à nossa volta por conta dessa força irracional chamada desejo.

O cineasta Stanley Kubrick (que aliás está "nos visitando" no Museu da Imagem e do Som, o MIS) entendeu bem esse aspecto: é na pré-história e no desejo que melhor entendemos nossa desorganização interna, nossas contradições e a luta que temos cotidianamente contra elas. Refiro-me a dois dos seus filmes, "2001, Uma Odisseia no Espaço", de 1968, e "De Olhos Bem Fechados", de 1999.

O primeiro se abre com o momento descrito como "aurora". Nessa sequência, dois bandos de homens pré-históricos disputam a posse de um pequeno lago. O mais fraco perde. Depois, acuados, comem ervas embaixo de uma pedra, atormentados por predadores à noite.

Um deles, na manhã seguinte, descobre que, tendo um osso nas mãos, consegue ficar mais forte. Matam um animal grande e "se tornam" carnívoros (o vegetarianismo é um comportamento ultrapassado evolucionariamente).

Mais tarde, munidos de ossos nas mãos, atacam o bando que os haviam expulsado do lago. O "novo homem", com uma arma na mão, retoma o lago. Na cena seguinte, joga o osso para cima e este vira uma nave espacial. Chegamos ao futuro da pré-história.

Já na última parte do filme, vemos o primeiro computador com inteligência artificial se "revoltar" contra os dois astronautas da nave. O que o filme nos revela? Que o "avanço técnico" seguramente está associado à violência.

Isso não significa que seja "bonito". Hoje em dia, por causa do modo como se dá o debate público, baseado em caricaturas do outro, difamação e simplificação ridícula (tipo: quem não pensa como eu é racista, "sequicista" e a favor da TFP), torna-se necessário fazermos reparos como esse: reconhecer a relação de implicação entre melhoria material da vida, avanço cultural e uma dose de violência não significa achar isso bonito, mas sim reconhecer o grau de ambivalência que marca nossa condição. Mas, num mundo de mimados, como é o nosso, dizer isso parece ser "gostar" disso.

O que Kubrick está dizendo aqui é que provavelmente nossa história de ganhos técnicos implica um alto grau de risco. O problema é que queremos os ganhos, mas, no mundo da carochinha, no qual vivem os mimados, parece ser possível zerar a ambivalência. Nada disso quer dizer que devemos cultivar a violência, mas que não adianta pintar sua cara com cores de anjo porque só vai convencer gente boba.

No outro filme, "De Olhos Bem Fechados", Kubrick dialoga profundamente com Freud. O filme é baseado, em última instância, num sonho de Freud no qual ele entra num trem e um aviso diz que ali só permanecem pessoas de olhos bem fechados.

O sonho está dentro do processo de "autoanálise" de Freud, no qual ele descobre o complexo de Édipo e sua vergonha pelo fato de o pai não ter reagido a uma humilhação feita por um grupo de antissemitas testemunhada pelo menino Sigmund. O tema envolve a ambivalência dos sentimentos e desejos da criança para com os pais.

No filme, a mulher (a deusa Nicole Kidman) conta para o marido (Tom Cruise) que um dia desejou fazer sexo violento com um oficial da Marinha que ela tinha visto num hotel quando eles estavam num momento "família" (quis ser a "puta" dele). Com isso, ela joga o marido num total desespero, que só se encerra quando ela o chama para trepar ("let's fuck").

O desejo da bela e bem comportada mulher revela ao marido que nem ela escapa da desorganização do desejo sexual "ilegítimo". A vida ordenada está sempre por um triz.

Astroturfing - MARION STRECKER

FOLHA DE SP - 11/11

A Samsung me ensinou o que é astroturfe; algo enganoso, que se faz passar por algo que não é de fato


Já ouviu falar de astroturfing? Eu não conhecia essa palavra até outubro, quando a gigante sul-coreana Samsung foi multada em US$ 340 mil em Taiwan por pagar pessoas para falar mal, na internet, de produtos da concorrente HTC e bem de seu próprio smartphone. Essas falas deveriam parecer depoimentos espontâneos do público.

Duas empresas de marketing que faziam tal servicinho também foram multadas pela Comissão de Comércio de Taiwan (FTC), que considerou a prática similar a uma propaganda enganosa.

Eu mesma já vi executivo criticar concorrente aproveitando o anonimato na internet. Já vi blogueiro fraudando data de publicação de texto para enganar o sistema de busca do Google. Já vi tuiteiro usar software para aumentar artificialmente sua popularidade, usando seguidores fantasmas criados para esse fim. Já soube de robôs que inflam números de audiência ou resultados de publicidade. Mas para cada veneno há de haver um antídoto.

Por conta da Samsung, descobri que turfe, além de hipismo, quer dizer prado, relva. E que Astroturf é nome de uma empresa que fabrica grama sintética. Por extensão, astroturfe é alguma coisa enganosa, que se faz passar por algo que não é de fato.

O astroturfing marketing consiste em dar a impressão de que há endosso público a algum produto, serviço, ideia ou pessoa, pagando gente para fingir esse apoio. Partidos políticos e sindicalistas fazem isso quando pagam pessoas para participar de comícios, passeatas ou vestir a camiseta de um candidato.

Na mídia, o astroturfing pode se dar em cartas ao editor ou mensagens em murais e fóruns de discussão, incluindo respostas a críticas feitas espontaneamente.

Ainda que antiético e ilegal, hoje é possível contratar empresas no mercado para fazer marketing de detração (quando alguém quer nocautear a imagem de um concorrente), além do marketing de evangelização (quando o assunto é conversão de pessoas a favor de algo).

Os sites de avaliação de produtos, os blogs e as redes sociais são paraísos para astroturfistas.

Há softwares que permitem aos astroturfistas mascarar a própria identidade. Com isso, um indivíduo pode operar com muitas personas diferentes, de acordo com a agenda do cliente.

Estudos sugerem que o astroturfing pode ser eficaz, já que muita gente não sabe que boa parte dos comentários e avaliações que vemos na internet são falsos.

Nosso comportamento é largamente influenciado pela opinião dos outros na vida. Na internet, temos a ilusão da verdade ao ler comentários do público, mesmo quando os comentários são forjados e os autores são inventados.

Bing Liu, professor do departamento de ciência da computação da Universidade de Illinois, em Chicago, estima que um terço das resenhas de consumidores na internet sejam falsas.

Bing Liu é um especialista em "opinion mining" ou análise de sentimento, um campo de estudo que analisa opinião, sentimentos, avaliações, atitudes e emoções a partir da linguagem escrita. É um caminho para empresas que querem soluções de engenharia para problemas éticos.

A era do rebelde chapa-branca - LOBÃO

REVISTA VEJA


Vivemos um momento histórico de uma vulgaridade, obscurantismo e insipidez sem precedentes que, por várias razões entrelaçadas, propiciou a eclosão de um personagem patético, insólito, abundante e que ficará marcado como a expressão máxima deste triste período: o rebelde chapa-branca.

Sim! É ele o protagonista em todas as rodinhas, redes sociais, botequins, universidades e passeatas. Revela-se por duas características inseparáveis: é revoltado contra o sistema e, ao mesmo tempo, chancelado por ele.

Vamos a alguns exemplos. O MST é subvencionado pelo governo, tem o respaldo do governo e, no entanto, não para de reclamar, invadir e destruir terras produtivas. No rap, há um sem-número de rebeldes chapa-branca, mas seu ícone são os Racionais. Fazem campanha para o governo, sobem nos palanques, têm o beneplácito da mídia oficial bancada pelo governo e, mesmo assim, são revoltadíssimos contra o sistema! No seu último videoclipe, Marighella, eles aparecem prontos para assaltar a Rádio Nacional, numa reconstituição de época, exibindo inúmeros trabucos de grosso calibre e conclamando à luta armada, incorporando aquela mímica marrenta um tanto canastrona que lhes é peculiar.

O detalhe é que eles estão no poder. Eles são o poder. Eles são a situação.

No aniversário da morte do nosso Che Guevara tupiniquim, a Comissão da Verdade comemorou a data com solenidade e deferência. Marighella pode ter arrancado a perna de uns, matado outros e lutado para implementar uma ditadura sanguinolenta no Brasil, mas os rebeldes chapa-branca chancelam a festa, impõem a farsa com mão de ferro e ai de quem piar.

Na semana passada, o tal Procure Saber implodiu com a defecção do rei, deixando desnorteados Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque — rebeldes chapa-branca de longa data. O Gil acabou no comando do Ministério da Cultura, onde foi aninhando sua cria, o Fora do Eixo, que tem como ponta de lança Pablo Capilé, um rapaz que afirma ser contra o direito autoral, contra o autor, contra o livro e é pupilo de Zé Dirceu. Tira dos artistas para entregar de mão beijada aos magnatas das redes sociais como o Google, o YouTube e o Facebook. Isso porque não estamos ainda perguntando para onde foi toda a grana que ele recebeu através das leis de incentivo à cultura. É um típico rebelde chapa-branca. Mas o Caetano acha “muderno” esse retrocesso estúpido e desonesto. O Chico, lá da França, assina carta de apoio ao Genoino. São os nossos coronéis chapa-branca solando de cavaquinho.

Temos de ressaltar também a performance fulminante da presidente do Procure Saber, esta sim uma rottweiler de incontestável pedigree, Paula Lavigne. Descontrolada, vem cometendo lambança atrás de lambança, incluindo um ataque covarde à colunista da Folha de S.Paulo Mônica Bergamo. E o que dizer de sua performance no Saia Justa com a Barbara Gancia? Há um mês, ela invadiu o meu Twitter, acompanhada por uma centena de integrantes da seita black bloc, me chamando de nazista, ex-músico, ex-Lobão. amante da ditadura, decadente (tem gente me chamando de decadente há uns trinta anos). Depois de algumas trocas de gentilezas, fui obrigado a bloqueá-la.

Uma das características dos rebeldes chapa-branca é o uso da técnica do espantalho: criam uma figura caricatural, colocam frases fora de contexto (quando não inventadas) em sua boca e tentam fazer acreditar que essa figura patética é você! Um vodu de psicopata.

Uma jornalista chapa-branca de uma revista bancada pelo governo declarou, num momento de búdica inspiração, que é a favor de fuzilamento para determinados casos (quais seriam?). É o tipo de comportamento visto com simpatia e condescendência pelo rebelde chapa-branca, pois a visão assimétrica do mundo, com um peso para duas medidas, é outra marca registrada dele.

Estou inaugurando com muito orgulho e entusiasmo minha coluna em VEJA. Não é fortuito o nosso encontro, assim como não é por acaso que se percebe a sociedade civil começando a se organizar para repensar a nossa condição atual. Tentarei tratar dessa miséria que nos assola como se estivesse praticando um novo esporte: épater la gauche. Essa turma está imprimindo o ridículo em sua própria história. E desse vexame não escapará.

Segredos e mentiras - LUCIA GUIMARÃES

O Estado de S.Paulo - 11/11

Com algumas semanas de atraso, um relutante Barack Obama pronunciou a palavra "desculpas", mas a frase escolhida parece não ter aplacado os destinatários da contrição: "Peço desculpas se eles se encontram nesta situação com base em garantias que receberam de mim".

Uau. Se há um prêmio oficial para Eufemismo do Ano, o Prêmio Nobel de 2009 pode arranjar mais uma vaga na prateleira. O presidente se referia ao fato de que repetiu dezenas de vezes, com vídeos on-line para provar, variações desta afirmação: "Se você gosta do seu atual plano de saúde, se gosta do seu médico, nada vai mudar. Ponto".

Desde o dia 1o de outubro, centenas de milhares de americanos começaram a receber cartas de cancelamento de seus planos porque ficam abaixo do mínimo de serviços determinados pela lei do Obamacare. A lei inspirou o Tea Party a fazer o público americano de refém, paralisando Washington durante mais de duas semanas. Obrigar os planos de saúde a fornecer serviços como medicina preventiva e incluir assistência de saúde mental é uma ótima ideia.

Mas uma população que varia, na boca de especialistas, de 300 mil a 10 milhões de americanos vai ter que trocar seu plano e, talvez, seu médico. Até aí, tudo bem. O problema é que a lei excluiu, sob pressão do lobby das seguradoras privadas, a opção do plano público de saúde. E, assim, dependendo do Estado onde vive, uma família americana chefiada por trabalhadores autônomos pode ter um aumento de até 500% na despesa mensal com plano de saúde. Diga isto para os milhões que não conseguiram se reintegrar ao mercado de trabalho desde a grande recessão. Ou para o recém-formado que há três anos não consegue entrar no mercado de trabalho e é jovem o suficiente para arriscar um plano de saúde fuleiro. Ou nenhum plano, como fez esta colunista, durante cinco anos de insensatez, no passado.

A contribuição dessa população de jovens saudáveis e insensatos, que vão pesar muito menos do que os baby boomers na assistência médica mais cara do planeta, é crítica para a sobrevivência econômica do Obamacare e, cada vez que escrevo esta palavra, me lembro de sua origem espúria.

O termo Obamacare foi cunhado com malícia calculada pelos republicanos para ridicularizar o mais ambicioso plano da agenda doméstica do presidente. A definição jocosa foi adotada não só por jornalistas de direita como pelos preguiçosos que cobrem o mundo de pijama no seu sofá. Na campanha de reeleição de 2012, algum mago do marketing presidencial deve ter soprado no ouvido do chefe: tome posse do apelido. E Obama saiu fagueiro nos comícios, assumindo: É isso aí, Obamacare, é a minha lei e eu me orgulho dela. Oh, brother.

Agora ficamos sabendo que o fiasco do website healthcare.gov, crucial para a inscrição no Obamacare, foi não só previsto, como exibe, na origem, seu parentesco com a obsessão pelo sigilo que começa no 11 de setembro, durante o governo de George W. Bush.

Um relatório recente do Comitê Para a Proteção de Jornalistas, sobre a relação de Barack Obama com a imprensa, recolheu depoimentos como estes: "Ele é o menos transparente dos sete presidentes que cobri" (Anne Compton, repórter da rede ABC). "Esta é a mais fechada, bizarramente controladora administração que cobri" (David Sanger, Correspondente Chefe de Washington do New York Times).

Sim, ninguém haveria de sugerir que invadir o Iraque sob falso pretexto equivale em gravidade a jogar um número indeterminado de americanos na incerteza sobre suas opções de assistência médica com um website cuja eficiência está mais para Caracas do que para o Vale do Silício. Mas é fato que o renomado economista de Harvard David Cutler, escreveu, em 2010, um memorando para Lawrence Summers, então principal assessor econômico do presidente, detalhando a impossibilidade de implementar o Obamacare com a equipe de cozinha da Casa Branca e prevendo parte do desastre em curso. Summers bem que brigou, mas foi derrotado pelos consiglieri políticos da câmara de eco em que se transformou a sede do poder executivo.

Mesmo se descontamos o sentimento de perseguição diante de um Partido Republicano disposto a impedir a qualquer preço que 45 milhões fossem integrados aos planos de saúde, a obsessão com o segredo, agora sabemos, se estendeu até a liderança democrata. A gente como a Deputada Nancy Pelosi, a quem Obama deve parte do sucesso da passagem da lei que leva seu nome. O governo tratou o lançamento da mais importante iniciativa social inclusiva dos últimos 50 anos como um Manhattan Project. Mas não alistou um Robert Oppenheimer para comandar a implementação, preferiu contar com apparatchniks trabalhando em segredo.

O sigilo fora de controle no Poder Executivo pode resultar na morte de 100 mil iraquianos ou na escuta do papo de Angela Merkel com o marido. Acaba de reclamar nova vítima, o lançamento do Obamacare.

A demonização da privatização e do FMI - MAÍLSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA


Nos últimos anos, assistiu-se à desconstrução sistemática dos feitos da administração do PSDB sob a complacência dos tucanos. Nessa missão, o PT demonizou a privatização e o FMI, valendo-se dos preconceitos em relação ao setor privado e da desinformação. Recorreu a surrados conceitos de soberania e à xenofobia, ainda dominantes em grande parte da sociedade, para acusar a oposição de ter malbaratado o patrimônio nacional e submetido o país a interesses alienígenas.

Comecemos pela privatização. A presidente Dilma se convenceu, contra seus instintos estatistas, da necessidade de atrair capitais privados para a infraestrutura de transportes. No pré-sal, o PT já percebera que faltavam à Petrobras robustez financeira e amplitude gerencial para tocar, sozinha, essa vasta província petrolífera. Mesmo assim, Dilma nega que privatize. Falou em rede nacional para afirmar que o leilão de Libra não teria sido uma privatização, mesmo que o Estado controle apenas 40% do campo.

O setor público assumiu, durante anos, o suprimento de serviços de energia, telecomunicações e infraestrutura de transportes, e a produção de certos bens industriais. A decisão se justificava pela falta de capacidade do setor privado e pelo que dizia a teoria econômica. Assim que possível, caberia privatizar e concentrar as energias do Estado onde ele é insubstituível.

O PT era contra a privatização, por razões ideológicas, e não por racionalidade econômica. Isso mudou em parte. Seria estupidez negar os benefícios da venda da Telebrás. O telefone celular, privilégio de poucos, tornou-se amplamente acessível. Empresas estatais viraram êxitos indiscutíveis após a privatização, como a Vale, a Embraer e as siderúrgicas.

Quanto ao FMI, Lula se vangloria de ter resgatado a dívida com o fundo, livrando o país de sua interferência. É como se isso tivesse acontecido por um ato de pura vontade dele, e não por causa de condições excepcionais. Outros países também o fizeram, alguns antes do Brasil. Esperto, Lula explorou a boa-fé dos que enxergam o FMI como um bicho-papão a ser vencido pela valentia nacional. Muitos acreditam que ele pagou a dívida externa.

Em cerimônia recente, Dilma citou o FMI na presença de um tucano paulista, Geraldo Alckmin. "A gente tinha de pedir autorização ao Fundo Monetário para investir. Por isso foi tão bom, né, governador, a gente ter pagado a dívida do Fundo Monetário, que não supervisiona mais as nossas contas.” Não é verdade. O Brasil jamais precisou da autorização do FMI para investir. Acordos com o fundo costumam incluir cortes de gastos públicos para reduzir excessos de demanda, restaurar o equilíbrio macroeconômico e reconquistar a confiança. É o caso atual de Grécia, Portugal e Irlanda. Quem decide o que cortar é o país, e não o FMI. O fundo erra, mas jamais para prejudicar de propósito ou para servir a alguma potência estrangeira, como parecem sugerir certos petistas.

É difícil acreditar que o equívoco da presidente decorra de mero despreparo. Como economista, ela tem procurado mostrar que conhece os meandros da economia e das finanças, nacionais e internacionais. É melhor acreditar que sua provocação a Alckmin foi mero fruto de deselegância e demagogia.

Líderes políticos verdadeiros têm a missão de convencer a sociedade sobre assuntos complexos, incluindo, em muitos casos, a aceitação de sacrifícios necessários à restauração da solvência do Estado, à melhoria da gestão pública, à defesa nacional e ao enfrentamento de privilégios. No Reino Unido, o fracasso das empresas estatais deu lugar às privatizações do governo conservador de Margaret Thatcher, que continuaram em administrações trabalhistas. Ambos exerceram uma ação educativa para realçar a conveniência e as vantagens da privatização. Aqui, os governos do PT, motivados essencialmente por razões eleitorais, exercem papel exatamente oposto, isto é, o de reforçar o equivocado sentimento antiprivatização e tratar pejorativamente o setor privado. Ainda há quem se oponha à privatização por acreditar na utopia socialista, mas a maioria provavelmente se daria conta do contrário se não fosse deseducada por líderes populistas.


Chances desiguais - ANTONIO SERGIO PETRILLI

FOLHA DE SP - 11/11

O diagnóstico precoce do câncer pediátrico é fundamental. Muitas vezes, os sintomas são semelhantes aos de doenças comuns


O câncer infantil corresponde de 2% a 3% de todos os tumores malignos no Brasil. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, estima-se para 2013 a ocorrência de mais de 500 mil novos casos de câncer no Brasil, sendo 11.530 em crianças e adolescentes até os 19 anos, à exceção dos tumores de pele não melanoma.

Assim como em países desenvolvidos, no Brasil, o câncer já representa a primeira causa de morte por doença em crianças e adolescentes.

A sobrevida de crianças com câncer melhorou muito nas últimas décadas. Atualmente, cerca de 75% das 50 mil crianças diagnosticadas a cada ano em países desenvolvidos sobreviverão. No entanto, em países em desenvolvimento, onde vivem 80% de todas as crianças do mundo, apenas 25% das 200 mil crianças diagnosticadas sobreviverão, devido ao acesso limitado aos tratamentos curativos.

No Brasil, existem centros em que a sobrevida é satisfatória, mas diferenças regionais de recursos para atendimento à população dificultam a extensão de tais resultados.

Os mapas das taxas de mortalidade por câncer e indicadores de assistência --internações, quimioterapias e radioterapias-- do Sistema Único de Saúde (SUS) de 2000-2007 mostram a desigualdade no acesso. O volume de tratamentos é menor para moradores nas regiões mais carentes do país --Norte e algumas regiões do Nordeste.

Felizmente, o câncer em crianças e adolescentes é, em sua maioria, sensível ao tratamento quimioterápico e tem alto potencial de cura, se tratado com presteza.

O diagnóstico precoce é, entretanto, o principal desafio, já que vários tipos de câncer nessa faixa etária apresentam sinais iniciais e sintomas que são semelhantes aos de doenças benignas e comuns e geralmente envolvem um curto período de latência com crescimento rápido.

Estudos internacionais indicam que os melhores resultados são obtidos em centros especializados com equipe multiprofissional e infraestrutura adequada. É fundamental o treinamento de pediatras para a suspeita clínica precoce e definição de fluxos rápidos para aumentar a chance de cura.

Até o momento, faltam dados completos sobre a epidemiologia do câncer pediátrico no Brasil, e estes ainda sofrem de muitas fontes de erro, tais como certidões de óbito imprecisas, erro diagnóstico e casos não notificados.

Entretanto, avaliar a incidência de câncer, sobrevida e mortalidade em âmbito nacional é importante para observar mudanças populacionais, gerar hipóteses para estudos causais, medir o impacto de novos tratamentos e orientar futuras pesquisas e políticas de saúde publica.

Um estudo avaliou 14 registros de câncer de base populacional brasileiro e os principais tipos, em ordem de frequência, foram leucemia e linfoma. Entretanto, os tumores de sistema nervoso central, anteriormente reportados como terceira neoplasia mais comum na infância, passaram a aparecer em segundo lugar nos registros de Porto Alegre, Campinas e Aracaju, assim como acontece nos países desenvolvidos. Esse aumento observado na incidência deve ser devido ao maior acesso a exames de imagem.

Diante de tamanha disparidade nacional, a luta em nosso país deve ser focada em garantir maior sensibilidade do sistema de saúde para a detecção dos casos novos de câncer.

Pensando nisso, o Instituto de Oncologia Pediátrica Graacc (Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer) - Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), por meio de uma parceria público-privada, inaugurou o anexo de seu hospital, que ampliará o atendimento.

Com o novo complexo com radioterapia de alta tecnologia, o Graacc reforça o objetivo de, atendendo 90% de pacientes SUS, diminuir as sequelas a longo prazo e oferecer todos os recursos necessários para alcançar índices de cura de 70%.