domingo, junho 23, 2013

Ninguém sabe em que vai dar - JOÃO UBALDO RIBEIRO

O GLOBO - 23/06

As manifestações podem ter sido fumarolas de um vulcãozinho por tradição comodista e resignado, mas também podem não ter sido


Escrevo antes deste domingo e, portanto, pode haver acontecido alguma coisa, ou muita coisa, que invalide o que penso agora. Mas não creio muito nisto, porque praticamente todos, inclusive comentaristas especializados e experientes, se mostram aturdidos, quase tontos, com as manifestações de protesto por todo o país. Não sou exceção à perplexidade geral e tampouco sei responder às perguntas que se oferecem. Como se iniciaram as manifestações, onde foram concebidas, por que de repente multidões saíram às ruas para reclamar e reivindicar? Que lideranças estarão ocultas, interessa a alguém o que vem sucedendo, beneficia algum grupo? O momento terá sido escolhido ou deflagrou-se um movimento espontâneo, que fugiu do controle de quem quer que o tenha organizado? De agora em diante, fazendo-se um retrospecto, talvez as respostas se esbocem, mas, no momento, elas parecem desconhecidas.

Mas uma coisa ali e outra acolá, mesmo que meio na base do palpite, podem ser observadas agora mesmo. As categorias que vemos empregadas por muitos analistas e que nós próprios usamos talvez estejam cada vez mais obsoletas. Não me refiro aos saudosos tempos em que o panorama era bom para todo mundo. Havia o ouro de Moscou e as ideologias exóticas para culpar por qualquer agitação e volta e meia um severo general emitia uma ordem do dia em que fazia uma advertência à Nação. O imperialismo ianque, por seu turno, era o responsável por tudo o de medonho sobre a face da Terra, das secas no Nordeste às derrotas da Seleção. Isso parece que sumiu, mas ainda usamos um arsenal conceitual inadequado.

Esquerda e direita, notadamente no Brasil, são como o conto de Mário de Andrade, quer disse que conto é tudo aquilo que se chama conto. Esquerda aqui é tudo aquilo que se chama esquerda e direita é tudo o que se chama direita, não fazem nenhum sentido prático e são uma salada de enganações, farsas, meias verdades, vigarices e ignorância mesmo. Elite, nem se fala, e até virou sinônimo, em nosso caso grotesco, de oposição. Os partidos políticos não querem dizer nada e seus programas de televisão são um desfile obsceno de inanidades genéricas, em que todos se manifestam a favor da justiça social, de melhor educação, melhor saúde e mais um farto e invariável bolodório, mas nenhum diz como chegar lá. Se alguém der a ousadia de indagar aos partidos se concordam com aquilo por que clamam os manifestantes, todos eles vão assentir, não só porque são reivindicações tão genéricas que não oferecem risco e apenas suscitam as promessas fajutas de sempre, como porque as diferenças entre eles são apenas os nomes dos que se locupletam.

Os estudos sobre liderança e movimentação de massas depois do celular e da internet ainda estão por ser feitos. Eu mesmo — lá se vai outra revelação em primeira mão e tremo ao fazê-la, porque sou do tempo em que isso dava cana — ajudei a organizar e coordenar, já faz alguns anos, uma passeata contra a insegurança em Itaparica, do Rio e falando pelo Skype para os celulares de meu amigo Beto Atlântico e minha prima Bete Saldanha, que comandavam as ações no front. Participei de tudo e a passeata foi um sucesso, houve até visita do governador e mudança de delegado. Muita gente escreve bobagens apressadas sobre o papel das redes sociais, porque ainda é cedo para avaliá-lo completamente, mas essas redes e a internet em geral introduziram novidades que todo mundo já sentiu e cujas consequências mal começamos a ver.

A organização simultânea de manifestações pelo mundo afora é temível para os poderosos. Estou acostumado a perguntas de estrangeiros sobre o Brasil. Mesmo se muito interessados, querem explicações sucintas, quando a gente sabe que nem mesmo nós conhecemos essas explicações. A maior parte das perguntas requereria um seminário especial. Mas as manifestações de rua, reunindo o que, para cidades estrangeiras, é muita gente, são bem mais poderosas. Não há artigo de jornal com a mesma força e razão assiste à Presidente, quando, além de se preocupar com os acontecimentos internos, busca preservar a imagem de uma democracia próspera, estabelecida ao longo de anos e agora cada vez mais ameaçada, por inflação, insegurança, corrupção e serviços públicos execráveis. Nada substitui a visão de gente de carne e osso protestando nas ruas, gente que pode ser mobilizada em horas e é capaz de tecer uma cadeia de ações de que não podemos nem suspeitar agora.

Não há como prever o que vai acontecer. As manifestações podem ter sido fumarolas de um vulcãozinho por tradição comodista e resignado, mas também podem não ter sido. Qualquer evento de alguma repercussão pode afetar o rumo da situação. Quando se trata de multidões, um estudioso dirá que não se espere racionalidade. Besteira achar que as manifestações continuarão sem que haja depredações e saques. Há saques até quando um caminhão carregado tomba na avenida Brasil, quanto mais numa situação de tumulto generalizado. Para não falar nos ladrões habituais mesmo, que procurarão aproveitar as oportunidades profissionais oferecidas.

Para finalizar, peço vênia para não deixar de tocar no assunto sobre o qual tencionava inicialmente escrever hoje. É que o Congresso Nacional vai votar o infame projeto conhecido como PEC 37, emenda constitucional que retira do Ministério Público a atribuição de investigar crimes. Trata-se de um retrocesso absurdo, que só beneficia a delinquência, a prevaricação e a impunidade. Manda a boa paranoia acolher a suspeita, ainda que tênue, de que alguém quer distrair-nos para, enquanto atentamos nas passeatas, tungar-nos mais uma vez. Ia dizer que devemos combater essa emenda, embora ela não tenha a ver com as manifestações. Mas tem, claro que tem, tomara que tenha.

Tia Fifa - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 23/06

Uma visita da tia Fifa causa alvoroço nas famílias. Ela anuncia a visita com antecedência para a família se preparar. Porque a tia Fifa é exigente. Quer que, quando chegar, tudo esteja perfeito. E não aceita explicações.

Quando chega, a tia Fifa passa o dedo nos móveis com luva branca, atrás de poeira. Examina as unhas de todo o mundo. Procura sujeirinha atrás de todas as orelhas e cheira todas as meias. Inspeciona as novas instalações que mandou construir antes de chegar, de acordo com especificações rigorosas. E ai de quem reclamar.

— Tia Fifa, nós somos pobres...

— Não interessa. Pobreza não é desculpa para desleixo. A África do Sul também era pobre e minha visita lá foi um sucesso. As instalações que mandei construir ficaram lindas. Impressionantes, imponentes...

— E imprestáveis. Dizem que eles não sabem o que fazer com as instalações que a senhora deixou lá, depois da sua visita...

— Bobagem. São belíssimas.

É importante saber que a tia Fifa não é como é por insensibilidade ou elitismo desvairado. Suas exigências, que parecem irrealistas, obedecem a um desejo de ordem social e estética. A tia Fifa sonha com um mundo limpo, em que as desigualdades entre ricos e pobres desaparecem desde que todos sigam as mesmas regras e tenham o mesmo gosto, e por isso a convidam.

— Mas tia Fifa, o dinheiro que nós vamos gastar para que a casa fique como a senhora quer não seria melhor aproveitado na educação das crianças, ou na...

— Isso já não me diz respeito. Me convidaram e eu irei. Acabem as instalações que eu pedi no prazo e ponham a casa em ordem. E mais uma coisa:

— O que, tia Fifa?.

— Você está com mau hálito. Providencie.

É hora da educação - MARCELO GLEISER

FOLHA DE SP - 23/06

Se o Brasil quiser competir com Alemanha, Japão e Coreia do Sul, tem que reformular o ensino público


"O Brasil acordou!" é o que temos ouvido, mesmo daqui dos EUA, sobre as manifestações no país. A mídia, como sempre, enfatiza a violência acima do que as pessoas nas ruas estão pedindo.

Na quinta, a primeira página do "New York Times" mostrou um guarda atingindo o rosto de uma senhora com um spray lacrimogêneo; pouco fala da insistência da maioria dos manifestantes em manter a ordem, dos esforços em abrir uma relação com a polícia que, como tantos já disseram, é povo e precisa de melhorias tanto quanto o resto.

Existe um contrato social e financeiro entre a população e o governo. A população, por meio dos impostos, paga o governo para exercer certas funções que deveriam garantir sua qualidade de vida: saúde, educação, segurança, transportes. Se a população não paga, o governo castiga com multas e prisão.

O que ocorre quando o governo não faz a sua parte e deixa de garantir a qualidade do tratamento médico, da educação pública, da segurança nas ruas e das fronteiras, dos transportes?

É óbvio que existe uma assimetria no poder: como o governo detém controle da polícia e das forças armadas, fica fácil coibir qualquer desavença. O que as pessoas talvez estejam começando a perceber é que também têm poder. O contrato deve ser mantido dos dois lados; sem dinheiro, o governo quebra.

Mas vamos ser positivos e imaginar que as manifestações tenham o efeito de redefinir as metas do governo para cumprir o seu lado do contrato. O que deve ser feito?

O desafio do Brasil é ser um país de dimensões continentais, com mais de 200 milhões de habitantes. Bem diferente da Suécia ou Holanda. Temos uma economia baseada na agropecuária e mineração. Nada de errado nisso, mas é insuficiente no mundo de hoje, onde tecnologias digitais estão redefinindo como vivemos. Precisamos de energia sustentável, de infraestrutura de comunicação, de técnicos, engenheiros e cientistas que possam competir em pé de igualdade com os dos países que vemos como modelos.

Um exemplo simples: quais carros guiamos no Brasil? Alemães, americanos, japoneses e coreanos. O que isso nos diz? Que esses países têm um sistema de educação capaz de suprir a enorme demanda que uma tecnologia competitiva requer. Se o Brasil tem a intenção de competir nesse nível, tem que reformular o ensino público.

Imagine que a Coreia do Sul era um dos países mais pobres do mundo em 1950, não muito diferente do Haiti. O que aconteceu? Fizeram da educação a área prioritária. Treinaram engenheiros, cientistas e médicos para levantar o país da miséria.

Não é falta de dinheiro. Em 2010, 4,3% do PIB foi investido em educação básica. O que falta? Treinamento de professores que então recebam salários dignos. Que jovem vai querer ser professor para ganhar R$ 1.200 por mês? Não basta apenas pôr as crianças nas escolas; o que fazem lá é essencial. Para isso, precisamos de professores bem treinados e de escolas com laboratórios, bibliotecas e computadores.

Sem uma profunda transformação na educação, o Brasil será passado para trás pelos países que já perceberam que sem um investimento sério na educação estão optando pela mediocridade.

Poderes e corrupção - ROBERTO ROMANO

O ESTADÃO - 23/06

As fraturas no Estado brasileiro fortalecem a corrupção que entre nós está sedimentada. Naquele artefato político anacrônico o Poder Executivo é essencial, os demais setores são adjetivos. Ele não se modificou em profundidade desde 1824 e o poder de quem o controla foi hipertrofiado após as ditaduras do século 20. A Presidência, para se manter, deve pedágios aos oligarcas do Congresso e garante a escolha de seus candidatos aos tribunais superiores. Da crise entre o Judiciário e parlamentares pode vir um fortalecimento desastroso do Executivo. A Constituição de 1988 em farrapos não encontra quem a interprete de maneira inconteste. O mito da harmonia entre poderes é desmentido a cada minuto. Para entender o desarrazoado que nos rege, podem ajudar algumas achegas ao pensamento jurídico conservador e liberal.

O Congresso abriga líderes sem compromisso com os programas oferecidos nas urnas. Eles fazem política sem doutrinas, domesticados por verbas ou cargos num farsesco realismo miúdo. Em vez de atenuar os delitos políticos, tal atitude reforça na população a esperança em algum salvador que, da Presidência e de modo autoritário, limparia os costumes. O golpe de 1964, recordemos, foi justificado pelo combate à corrupção. Figuras como Jânio Quadros, Collor de Mello e outras usaram a indignação das massas para chegar à Presidência, lá ficando por breve tempo, sem apoio político.

Na história recente as teses da direita elogiam o Executivo em detrimento dos outros poderes. É o caso de Carl Schmitt, o autor de A ditadura. Emulado por juristas como Francisco Campos, Schmitt cunhou a fórmula segundo a qual "soberano é quem decide sobre o estado de exceção". Ele foi crítico (e, não raro, com acerto) do Parlamento. Para levar a sério a democracia, afirmava, só o povo pode decidir o seu destino e jamais os deputados. Em O Protetor da Constituição, ele apela ao presidente da República, o único vigia seguro da Carta, e menciona o Poder Moderador brasileiro posto acima das pretensões parlamentares. Nega também que o Judiciário possa guardar a Constituição porque age atrasado para sanar desvios institucionais. "A independência é a necessidade primeira para um protetor da Constituição", juízes e deputados não podem cumprir o mister, pois não são independentes o bastante para garantir o Estado. Só o presidente suspende o direito "em virtude de um direito de autoconservação". É o golpe e a ditadura. Schmitt retoma o slogan contra o regime democrático: nele se discute, pouco se decide. Mas a democracia é um processo no qual não existem garantias de vitórias sem amarguras. Cada costume melhorado incentiva o bem público. Hoje, infelizmente, boa parte de nossos parlamentares age como lobistas. Quando se ouve falar em "bancadas" no Congresso, o que temos são grupos que atuam em prol de interesses particularíssimos.

Carl Schmitt não cita por acaso a Carta brasileira de 1824. O Poder Moderador, nela, foi um golpe contra a soberania popular e o Parlamento. Os idealizadores de nosso Estado seguiram a contrarrevolução europeia. O movimento de 1789, no seu entendimento, resultou em anarquia. Para barrar tal ameaça, fomos submetidos ao monarca "pela graça de Deus". Segundo o conservador Guizot, "o mais simples bom senso reconhece a necessidade da limitação de todos os poderes, quaisquer que sejam seus nomes e formas. Abri o livro em que o sr. Benjamin Constant tão engenhosamente representou a realeza como poder neutro, moderador, elevado acima dos acidentes, das lutas sociais, e que só intervém nas grandes crises. É preciso que haja nesta ideia algo muito próprio a mover os espíritos, pois ela passou com uma rapidez singular dos livros para os fatos. Um soberano dela fez, na Constituição do Brasil, a base de seu trono; a realeza é representada como Poder Moderador elevado acima dos poderes ativos, com espectador e juiz".

Segundo Constant, o Poder Moderador é neutro e apanágio da realeza, os ministros respondem pelo governo e os legisladores nada recebem. O julgamento pelo júri é a norma e impera a livre imprensa. No elogio do Poder Moderador feito por Guizot há um desvio do conceito. Constant define aquele poder como neutro para coordenar os demais. Pôr os quatro poderes numa hierarquia vertical foi o golpe em 1824. A tendência centralizadora definiu o Estado com privilégio do chefe, amesquinhando o Parlamento e o Judiciário.

As prerrogativas do Poder Moderador, inconfessadas, persistem hoje na Presidência da República, o que leva às fraturas no Estado, pois o Executivo negocia apoio parlamentar (com várias técnicas), nomeia os juízes do Supremo, controla o Senado, mas é praticamente destituído de responsabilidade. Vivemos como se ainda vigorasse o Título 5, Capítulo primeiro, artigo 99 da Constituição de 1824. Sagrada, a pessoa presidencial não está sujeita a sérios questionamentos. Ela domestica, pela propaganda e controle dos recursos públicos, a soberania popular, distorce a representação do Parlamento. As duas ditaduras que marcaram o século anterior levaram ao paroxismo a distorção da máquina estatal. A Presidência brasileira é absolutista e propensa à ditadura. A lei da reeleição, as medidas provisórias que se eternizam, a prerrogativa de foro para agentes dos poderes definem alguns dos principais óbices para a democracia. E temos a sucessão de crise após crise, porque não existe limite efetivo para o Executivo. Se este último ignora barreiras, o mesmo tentam fazer os demais. Reaparece, surgida da indecisão jurídica nacional, outra fórmula cunhada por Carl Schmitt: política é o campo onde os inimigos são definidos. Inimigo harmônico é quimera, algo tão fantasioso quanto as leis no Estado brasileiro.

Caminho da transformação - HENRIQUE MEIRELLES

FOLHA DE SP - 23/06

Há uma sensação de mal-estar difuso e generalizado no país. Muitos associam as manifestações a esse sentimen-to. Existem explicações diversas para isso, que passam pela piora da economia, a rejeição de práticas políticas, os gastos com a Copa.

Eu gostaria de focar hoje a questão da qualidade de vida da população.

Vemos a irritação das pessoas com o trânsito, o mau funcionamento dos telefones, a superlotação dos aeroportos, a precariedade dos hospitais e dos serviços. Notícias de mau uso dos recursos públicos são frequentes.

Mas o problema vai além dos serviços públicos. Um amigo que está reformando sua casa me relatou, com grande indignação, que nenhum de seus fornecedores entregou serviços e produtos no prazo nem deu qualquer satisfação.

Não há dúvidas de que vivemos uma crise de produtividade no país, e isso está longe de ser mero conceito econômico teórico. É algo que atinge a todos diariamente.

Quando discutimos a necessidade de aumentar a produtividade com licitações de portos, rodovias, aeroportos e ferrovias, por exemplo, debatemos algo que terá impacto na vida de cada um e nos preços dos produtos. A demanda muito maior por produtos e serviços, fruto do desenvolvimento econômico da última década, deve ser acompanhada por investimentos.

Já o desemprego muito baixo reduz a preocupação com a manutenção do emprego e a exigência de qualificação. "Isso, por um lado, é muito bom, porque dá mais segurança às pessoas em relação ao emprego, e toda teoria econô- mica existe, em última análise, para elevar o bem-estar dos cidadãos.

O problema é como, nesse ambiente, motivar as organizações privadas e os governos a investir na qualidade dos seus produtos e serviços e em treinamento. E também como motivar as pessoas a fazer um bom trabalho, a prestar bom serviço e a seguir a lei.

Mais importante ainda, é preciso consolidar os valores de um trabalho bem execu- tado. Eles devem estar pre- sentes da escola fundamen- tal à universidade e seguir no governo, na empresa e no terceiro setor.

Portanto, o grande desafio do país é voltarmos a recuperar o orgulho de um trabalho bem-feito em todos os níveis. A ética, nesse movimento, será fundamental.

Em minha experiência profissional, no setor público e na área privada, vi como as pessoas podem se orgulhar de um serviço bem-feito, de uma instituição que funcione bem, do bom uso dos recursos.

Precisamos reforçar esses valores e trabalhar para que prevaleçam cada vez mais. É um caminho eficiente para a transformação tão claramente desejada pela população.

Déficit de credibilidade - CELSO MING

O Estado de S.Paulo - 23/06


De nada serviu à presidente Dilma adotar certas práticas da presidente Cristina Kirchner e chamar os críticos de sua política econômica de terroristas. Ela já deve ter elementos para entender que seu governo enfrenta sério déficit de credibilidade.

Ao longo dos dois últimos anos se atirou ao desmonte dos fundamentos da economia que haviam dado certo nos anos anteriores. O compromisso com uma política fiscal responsável foi substituído por uma sucessão aleatória de contratação de despesas públicas destituídas de um programa estratégico que lhes desse solidez. As metas passaram a ser atropeladas por resultados construídos por truques contábeis. E o resto é opaco. Ninguém entendeu, por exemplo, como o ministro da Fazenda, Guido Mantega, vai construir o prometido superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de 2,3% do PIB.

As manifestações que tomaram as ruas das grandes capitais questionam os critérios que determinaram as prioridades das despesas públicas. O governo do PT, que lá atrás pregava as excelências do orçamento participativo, conduz suas pautas de uma maneira errática, à base de desonerações temporárias e discriminatórias e de transferências de dezenas de bilhões de reais do Tesouro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica Federal e para o BNDES.

Até agora, os estragos provocados pela inflação no orçamento do trabalhador foram considerados irrelevantes. O importante era perseguir o "pibão grandão", que não acontece. A escalada de preços foi entendida como consequência de choques externos, de impacto temporário. A política monetária (política de juros) que deveria ater-se a levar a inflação à meta de 4,5% ao ano, foi reorientada para perseguir uma meta de juros. A obsessão da presidente Dilma foi derrubar os juros reais (descontada a inflação) para o nível dos 2% ao ano, não importando se as condições o comportavam.

Mas o momento não é só de desarrumação das contas públicas e de impacto inflacionário. É também de deterioração das contas externas. O rombo nas contas correntes (comércio exterior de mercadorias e serviços mais transferências unilaterais) passou de 2,4% para 3,2% em apenas cinco meses (veja o Confira). E, pior, tende a alargar-se para acima do afluxo de capitais de investimento. Esse é o principal fator que vai puxando as cotações do dólar para o alto.

Ainda na quinta-feira, o governo Dilma desmentiu categoricamente a substituição de peças-chave no comando da política econômica, como manobra destinada a recuperar credibilidade. Não basta a simples troca de nomes. É preciso primeiro admitir a substituição do atual arranjo experimentalista de política econômica por outro que garanta estabilidade e confiança.

Até agora, o governo Dilma descartou peremptoriamente quaisquer mudanças radicais de rumo. A opção foi ir tocando as coisas, do jeito que der, de maneira a não colocar em risco a recondução da presidente Dilma a um segundo mandato nas eleições de 2014. Mas essa é uma aposta em que nenhuma reviravolta política acontecerá até lá. As manifestações pelo País parecem dizer o contrário.

Sinal de desgaste do contrato social - SAMUEL PESSÔA

FOLHA DE SP - 23/06

O baixo crescimento sob Dilma explicitou à sociedade os limites à melhora da situação de cada um


Impossível não tratar o tema das enormes manifestações que ocorrem há várias semanas em diversas cidades do país. Meu entendimento é que os protestos representam um sinal de que o contrato social da redemocratização brasileira está desgastado.

Desde a Constituição de 1988, foi-se consolidando a decisão da sociedade de construir um abrangente Estado de bem-estar social. Universalizamos a educação fundamental e avançamos muito em direção a universalizar o ensino médio.

Instituímos o SUS, um serviço de saúde universal e integral, isto é, que cobre todos os procedimentos médicos. Finalmente, os diversos programas sociais para idosos, em associação com a aposentadoria do INSS e do funcionalismo, universalizaram, na prática, a aposentadoria.

Além desses programas universais, criamos diversas iniciativas para ajudar as famílias a enfrentar riscos típicos das economias de mercado. Foram criados o seguro-desemprego, o auxílio-doença, a aposentadoria por invalidez e o Bolsa Família, entre outros programas.

Finalmente, introduziu-se o Minha Casa, Minha Vida, que subsidia a aquisição da casa própria por pessoas de baixa renda. Recentemente, o programa foi estendido, com a criação de um subsídio adicional para a aquisição de mobiliário e eletrodomésticos.

A partir da virada na política econômica em 2009, o governo trouxe para a agenda os interesses da indústria. Acumulamos reservas internacionais para ajudar a manter o câmbio mais desvalorizado, e o Tesouro emprestou quantias expressivas de recursos para o BNDES, com o objetivo de elevar o volume de crédito subsidiado ao investimento produtivo.

Adicionalmente, a agenda da indústria levou a inúmeras medidas de desoneração de tributos e à elevação da alíquota de importação para diversos produtos, com o objetivo de aumentar a competitividade manufatureira.

O resultado é um Estado que arrecada muito, por volta de 35% do PIB, transfere muitos recursos às famílias na forma de aposentadoria e programas sociais, cerca 14% do PIB, e gasta muito com juros e subsídios. Apesar da queda da taxa básica, a Selic, o custo de carregamento das reservas e dos subsídios implícitos nas operações do BNDES onera muito a conta de juros.

Não sobram, portanto, recursos para investimentos em logística, que poderão ser viabilizados se o governo aceitar taxas de remuneração maiores nos leilões de concessão. Mas, principalmente, faltam recursos para investimento em infraestrutura urbana.

Para terminar essa longa lista, é preciso lembrar que, apesar de termos caminhado muito na agenda de extensão de direitos, há o crônico problema da baixa qualidade dos serviços públicos, principalmente em educação e saúde. Nesse desafio, como em outros, pouco temos avançado.

O crescimento mais elevado no governo Lula deixou a sociedade em torpor com relação às fragilidades do contrato social da redemocratização. O crescimento bem mais baixo ao longo do mandato da presidente Dilma, que, provavelmente, fechará seu quadriênio com expansão média do PIB próxima a 2%, explicitou à sociedade os limites existentes à melhora da situação de cada um.

Aparentemente, o atual movimento de protestos levanta bandeiras pela melhoria da qualidade dos péssimos serviços públicos de educação, saúde e transporte urbano, entre outros. O aumento da passagem de ônibus e o reconhecimento dos elevados custos dos eventos esportivos serviram com detonadores da insatisfação.

A notícia que circulou na semana de que a adoção do passe livre requererá dobrar a alíquota de imposto predial coloca a discussão em bases racionais. Pode-se considerar a criação do pedágio urbano. Outras possibilidades podem ser imaginadas.

Com relação à melhora da qualidade dos serviços de saúde e educação, há uma extensa agenda que depende da criação de instrumentos que tornem a gestão desses serviços mais eficiente.

Não há saída simples e indolor nas escolhas das políticas públicas para enfrentar as deficiências do contrato social da redemocratização. Oxalá o processo eleitoral de 2014 sirva para que a sociedade amadureça esses temas e encontre os caminhos mais adequados.

O Grande Evento - DORRIT HARAZIM

O GLOBO - 23/06
Terça-feira, 30 de outubro de 2007. Na sede da Fifa em Zurique, o Brasil fazia a última de suas cinco apresentações para sediar a Copa do Mundo de 2014. Nem era preciso tanto esforço. Diante da desistência da Colômbia, cinco meses antes, e da dissolução da candidatura conjunta Argentina-Chile, sobrava o Brasil como candidato único no sistema de rodízio por continentes, hoje sepultado.

Ainda assim, a delegação que fora apoiar a nossa candidatura era de peso. Tinha à frente o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, além do presidente da CBF Ricardo Teixeira, 12 governadores estaduais, o ministro do Esporte Orlando Silva, o senador Marconi Perillo, representando o Congresso Nacional, e Dunga, o técnico da seleção canarinho. Cada qual com sua respectiva comitiva, é claro. Além de dois embaixadores pinçados a dedo pelo entusiasmo à causa: o escritor Paulo Coelho e o atacante Romário.

A apresentação de Paulo Coelho, que saudara o presidente da Fifa Joseph Blatter com um cher ami , foi a mais aplaudida por fazer uma irreverente comparação entre a paixão brasileira por futebol e por sexo.

Ao final, por voto unânime dos 20 membros do Comitê Executivo, o Brasil foi confirmado. O mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer , festejou Lula para uma nação inebriada.

(Seis anos depois o povo mostraria a Lula e ao mundo o que é capaz de fazer.)

Na ocasião, Blatter assegurara que o Brasil era um candidato de qualificação garantida e, mesmo não havendo outros países no páreo, teria sido vetado se não tivesse se comprometido a cumprir as exigências estipuladas pela Fifa. Em tese, até meados de 2012 ainda poderia ter sido trocado por algum país-sede alternativo, caso o andamento das medidas acordadas não seguisse o curso necessário.

Mas, de arena em arena e com transparência zero nas contas, a coisa andou. Mudaram os protagonistas, mas os investimentos canalizados para este Brasil emergente nunca faltaram. Ainda duas semanas atrás, faltando 48 horas para a abertura da Copa das Confederações em Brasília, a presidente Dilma Rousseff inaugurou um moderníssimo centro de comando e monitoramento nacional de segurança.

O equipamento tem nome comprido, Sistema Integrado de Comando e Controle para Segurança de Grandes Eventos, e custo alto - R$ 1,1 bilhão. Apresentado como capaz de integrar todas as forças de segurança nas seis cidades-sede da Copa das Confederações, foi ativado simultaneamente em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Agora podemos dizer que a segurança durante a Copa das Confederações está garantida , afirmou a presidente durante a cerimônia. Teremos condições tecnológicas para, no espaço de quilômetros, saber a pessoa que está cometendo delitos, e ter tudo filmado , complementou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, elencando a versatilidade do novo sistema.

No Rio de Janeiro, o telegênico Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) fora estreado semanas antes pelo governador Sérgio Cabral, a um custo de R$ 104,5 milhões. Tecnologia, ali, também não falta, a começar pelo já famoso telão de cinco metros de altura, 17 de comprimento e seus 98 monitores de LED. Esse centro é um exemplo para o mundo, e a segurança pública ganha em qualidade. Terá papel central na articulação das seis cidades-sede na Copa das Confederações , assegurou o ministro Cardozo.

Só que parafernália tecnológica, sozinha, não articula, e se houve algo que as cidades brasileiras não ganharam ao longo da última semana foi segurança pública. Ademais, nem o mais moderno dos sistemas é programável para também alertar governantes a prestar atenção a movimentos como o Passe Livre. Nem a emitir boletins sobre o estado de calamidade dos serviços públicos da nação. Por terem falhado numa obrigação que é deles, os governantes agora estão perplexos.

Quanto aos milhões de brasileiros que permaneceram calados enquanto se construiu uma Copa sem prestação de contas transparentes, sem audiências públicas com apresentação de projetos, discussão de impasses ou debates de soluções, a hora de opinar começou. Na rua. Sem data para aquietar-se.

Até porque o próprio calendário dos Grandes Eventos lhes servirá de pauta - no mínimo até os Jogos Olímpicos do verão de 2016, no Rio.

Por ora, o movimento já conseguiu enxotar Joseph Blatter pelo menos por alguns dias. O presidente da Fifa, que estava no Brasil para a Copa das Confederações e só se desloca num séquito de automóveis de proporções pouco republicanas, viajou na noite de quarta-feira para participar da abertura do Mundial Sub-20 na Turquia. Paradoxalmente, porém, a hipótese, mesmo remotíssima, de a Fifa ter de suspender a continuação do evento no Brasil por força maior (leia-se, falta de segurança) deixaria uma marca de choque múltiplo no país.

Com tudo isso em mente, cabe aqui uma homenagem a Belisario Betancur, 53º presidente da Colômbia. Em 1972 o país fora escolhido sede da Copa do Mundo de 1986. Com doze anos de antecedência, portanto. Em 1982, ao ser empossado, Betancur não precisou de mais de dois meses no poder para concluir o óbvio: a Colômbia não tinha condições de sediar uma Copa. Comunicou sua decisão em pronunciamento brevíssimo à nação: Como preservamos o bem público, como sabemos que o desperdício é imperdoável, anuncio a meus compatriotas que o Mundial de Futebol não se realizará na Colômbia, após consulta democrática sobre quais são as necessidades reais do país: não se cumpriu a regra de ouro segundo a qual a Copa deveria servir à Colômbia e não a Colômbia à multinacional da Copa. Aqui temos outras coisas para fazer e não teríamos sequer tempo para atender às extravagâncias da Fifa e de seus sócios. García Márquez nos compensa totalmente pelo que perderemos como vitrine sem o mundial de futebol.

Quatro dias antes, Gabriel García Márquez havia sido anunciado vencedor do Nobel de Literatura. O presidente da Fifa à época era o brasileiro João Havelange. A Copa de 1986 acabou sendo realizada no México.

Dilma assume a pauta da rua - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 23/06

É uma posição prudente, mas resta saber se ganha um crédito de confiança da massa ressabiada


Alguém já disse que ou o líder político sai à cabeça da massa ou a massa sai com a sua cabeça.

O pronunciamento de Dilma Rousseff na sexta-feira segue a lógica dessa frase: Dilma assumiu, sabiamente, a pauta da rua.

Da promessa de trabalhar por um plano abrangente de mobilidade urbana, o problema que estava na origem das manifestações, à necessidade de mais instrumentos de combate à corrupção.

De mais recursos para a educação e mais médicos (estrangeiros) para a saúde à promessa de "oxigenação do sistema político".

É cedo, no momento em que escrevo (manhã do sábado), para avaliar a reação da rua ao discurso da presidente.

Não dá para saber, depois do vendaval que sacudiu o país nos últimos dez dias, se o desgaste dos políticos em geral, inclusive da presidente, é de tal ordem que o pessoal vai dizer: "Por que não fez antes tudo o que agora promete, se está na Presidência faz dois anos e meio e há dez no governo, como ministra de Minas e Energia primeiro e chefe da Casa Civil depois?".

Ou, então, a reserva de confiabilidade ainda é suficiente para que se dê a Dilma um crédito para que arme todo o circo de "mudanças", necessariamente demoradas e complexas.

Mais que educação, saúde, serviços públicos em geral, corrupção, mobilidade urbana, creio que a chave da situação está na tal "oxigenação do sistema político".

Foi este que entupiu, a ponto de o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) ter proposto na sexta-feira a extinção de todos os partidos.

"Não refletem mais o que o povo precisa de seus representantes, nem do ponto de vista do conteúdo nem do ponto de vista da forma", decretou Cristovam.

Não esteve só. Marina Silva, em sua coluna da Folha, defendeu a "democratização da democracia", a partir do pressuposto de que "as pessoas não querem ser meros espectadores, lugar em que foram colocadas pelos partidos que detêm o monopólio da política. Querem ser protagonistas, reconectar-se com a potência transformadora do ato político".

Se os partidos brasileiros não tivessem se demitido da tarefa essencial de fazer a intermediação entre as demandas da sociedade e o poder público, teriam, por exemplo, estudado há tempos a questão do passe livre, de sua viabilidade e de seu custo, o que dispensaria ir às ruas para conseguir não o passe livre mas um "passe" algo menos caro.

O outro foco do discurso --o da lei e da ordem-- era previsível e inevitável.

As manifestações abriram, contra a vontade da maioria, espaço para a baderna --e baderna é antidemocrática por definição.

Agora, é esperar que as manifestações refluam, o que daria a Dilma o tempo que necessita para tentar avançar na agenda de mudanças que a rua lhe impôs.

Não é fácil. Talvez valha para o futuro a observação sobre o passado do editorial de sexta do "New York Times": "Há uma imensa brecha entre as promessas dos políticos de esquerda no governo e a dura realidade da vida cotidiana fora da elite política e econômica".

Uma difícil reversão - JOÃO BOSCO RABELLO

O Estado de S.Paulo - 23/06

Governo da hora - e no poder há dez anos -, o PT é depositário do maior desgaste político com as manifestações dos últimos dias em todo o País. A gradativa corrosão de seu capital político, do que o mensalão é mais emblemático, tem na perda do monopólio das ruas o fim de um ciclo em que o patrimônio ideológico sucumbiu ao fisiologismo.

O modelo de cooptação de partidos, sindicatos e entidades estudantis, na busca de uma hegemonia que gerou a condenação do partido pelo Supremo Tribunal Federal, emudeceu os canais legítimos de crítica ,essenciais ao equilíbrio do governo, mergulhado numa zona de conforto agora sacudida pela marcha histórica da classe média.

O movimento é apartidário, porém não apolítico, o que torna precipitado traduzi-lo como uma ameaça à democracia representativa, até porque é a omissão do Poder Legislativo, em grande parte cooptado (basta ver a extensão da base de apoio ao governo), que dá causa ao impulso pela democracia direta, da qual o recuo no aumento das passagens é uma demonstração pontual.

O veto à participação dos demais partidos, por enquanto, parece sugerir mais um protesto pela indiferença com a deterioração dos serviços públicos que perdem investimentos para a corrupção - a maior causa da gestão ineficiente a gerar a cobrança por mais presença do Estado ( que não deve ser confundida com mais Estado).

Embora o recado alcance todos, em todas as instâncias de governo, também a presidente Dilma Rousseff é atingida de forma mais dura no primeiro momento. O movimento coincide com uma substancial queda de sua aprovação nas pesquisas, explicada principalmente pela inflação, com a qual flertou.

É um quadro de difícil reversão, não só pelo curto prazo até o final do mandato, mas porque seu governo está definitivamente conduzido pelo projeto de reeleição - incompatível com as medidas de ajuste necessárias para uma virada. Se após as pesquisas a maioria do mundo político passou a lidar com a irreversibilidade de um segundo turno, agora já se questiona até seu favoritismo em 2014.

A perplexidade ainda não deu lugar a ações práticas, como uma agenda positiva - e nem poderia, dado o pouco tempo para que sejam analisados todos os aspectos das manifestações. Mas do que já se sabe, fica claro que se esgotou o ciclo dos truques e dos governos de marketing, que "produzem" gestores, mas não serviços.

O que explica o discurso da presidente Dilma, anteontem, correto do ponto de vista institucional, mas sem qualquer conteúdo que responda à pauta das ruas, cuja síntese é a devolução à função pública do conceito de servir.

O rugido - BELMIRO VALVERDE JOBIM CASTOR

GAZETA DO POVO - PR - 23/06

Como não poderia deixar de acontecer, começa a busca pelos motivos para as manifestações populares dos últimos dias que se espalharam pelo país inteiro e já mobilizam milhões de pessoas. Parece cada vez mais claro que ninguém está nas ruas apenas para conseguir dez ou 20 centavos de redução do custo das passagens de ônibus e metrôs. Na realidade, as atuais manifestações representam a mais importante e ampla demonstração de repúdio popular às práticas escandalosas e debochadas que emporcalham a vida cívica brasileira de toda a nossa história. É um rugido surdo que sobe das ruas em que vive o Brasil real.

Existe uma diferença fundamental de foco em relação a outras grandes mobilizações populares do passado: o movimento das Diretas Já tinha como objetivo básico a restauração do direito de votar, usurpado da população durante 20 anos; o Fora Collor! mobilizou milhares de pessoas para mostrar seu repúdio à forma de governar do então presidente. No caso atual, a característica dominante das atuais manifestações é não ter foco, expressa na multiplicidade dos inconformismos: inconformismo com a corrupção desenfreada e cada vez mais ostensiva que transformou Brasília na Meca dos “escritórios de advocacia administrativa” e de lobbies agindo com descaramento na compra e venda de favores oficiais; inconformismo com a desenvoltura indecente das Erenices Guerras, Rosemarys Noronhas e Josés Dirceus capitaneando alegremente empresários em busca de favores, vantagens e atalhos obscuros e malcheirosos em seus relacionamentos com o governo; inconformismo com um Congresso desmoralizado dirigido por figuras à altura dessa desmoralização: um Renan Calheiros que foi enxotado moralmente pela população que coletou 1,7 milhão de assinaturas pedindo que ele não reassumisse a presidência do Senado (de onde saiu porque pagava as contas de sua teúda e manteúda com dinheiro de empreiteira de obras públicas). E, por que não, com os senadores que o elegeram e os governantes que o apoiaram sem experimentar um único traço de rubor.

De repente, o rei mostrou a sua nudez quando a mesma população que idolatra a seleção canarinho confrontou a opulência dos estádios construídos com dinheiro público com a miséria de seu cotidiano, espremida durante horas em um ônibus ou um trem, gastando horas para ir e voltar do trabalho, e obrigada a conviver com a absoluta penúria dos serviços médicos que fazem seus filhos e parentes queridos passar horas, dias ou meses aguardando uma consulta ou uma internação urgente, ou lutando para conseguir educar seus filhos em escolas minimamente decentes e eficazes. É claro que sempre aparecerão os Pelés e os Ronaldos Fenômenos da vida, com os bolsos recheados de patrocínios e de contratos de relações públicas, insistindo para que o povo se cale para que o circo milionário da Fifa possa funcionar em paz.

Quanto às depredações e aos saques, a melhor homenagem que se poderá prestar aos milhões de pessoas que pacificamente disseram um “Basta!” à degradação de nossa vida pública é colocar a canalha que os vem promovendo na cadeia, para que recobrem a serenidade. Afinal, como diria Samuel Johnson, nada aguça mais a mente do que a visão do patíbulo; a perspectiva de alguns dias e noites em cadeias superlotadas, imundas, infectas, em distinguida companhia ajudará a esfriar os ânimos mais exaltados.

Um exercício de fantasia futurológica - ELIO GASPARI

O GLOBO - 23/06
Numa tarde de Brasília, o Supremo Tribunal Federal reúne-se para julgar os recursos dos mensaleiros, revoga as condenações por formação de quadrilha e livra-os do cárcere. Joaquim Barbosa, o presidente da corte que relatara o processo, joga a toga sobre a bancada, faz um breve discurso, renuncia ao cargo, sai do prédio e chama um táxi. Dias depois, seu nome é lançado como candidato à Presidência da República.

Há fantasia nesse cenário, mas o gesto da renúncia é uma possibilidade real. Se Joaquim Barbosa será candidato, trata-se de pura futurologia.

Quem duvida dessa possibilidade apresenta o que seria um obstáculo intransponível: a falta de base política. Alguém conhece pessoa que votará no candidato que for indicado pelo PMDB? Ter base partidária é mais uma carga do que um impulso, mesmo no caso do PT. Para a campanha da doutora Dilma será bom negócio esquecer a estrelinha vermelha, fechando o foco na personalização de seu governo. O PT decidiu confundir-se com os mensaleiros. Problema dele.

Dos cinco presidentes eleitos nos últimos 60 anos, três prevaleceram sem que devessem qualquer coisa às bases partidárias. Fernando Henrique Cardoso foi eleito pelo Plano Real. Se dependesse da força do PSDB, seria candidato a deputado federal. Ele foi eleito porque o real ficou de pé. Depois do fracasso do Plano Cruzado, houve sete ministros da Fazenda e só ele teve futuro político.

Fernando Collor passou por três grandes partidos, mas elegeu-se pelo microscópico PRN, que não existe mais. Recuando-se aos anos 60, Jânio Quadros elegeu-se governador de São Paulo pelo irrelevante PTN e em 1958 foi engolido pela União Democrática Nacional num lance puramente oportunista.

Partido, quem teve foi Lula. Todos brincam de cubos, formando alianças fisiológicas lubrificadas pelos métodos que desembocam em mensalões.

Olhando-se para a rua cheia de gente contra-isso-que-está-aí, vê-se um quebra-cabeça onde falta uma peça. Aécio Neves tem nas costas o doutor Eduardo Azeredo, com seu mensalão mineiro. Eduardo Campos não entendeu nada, disse que baixou as tarifas de transportes em um ato "unilateral", como se fosse um coronel do semiárido falando aos peões de sua fazenda.

Joaquim Barbosa pode vir a ser a peça que fecha o quebra-cabeças. Se isso acontecerá, não se sabe. Também não se sabe que resultados trará. Os dois exemplos de avulsos que chegaram a presidente, Jânio e Collor, terminaram em catástrofes. No caso de Jânio, numa catástrofe que levou as instituições democráticas para a beira do precipício no qual elas cairiam três anos depois, em 1964. Barbosa defende grandes causas, mas é chegado a pitis e construções inquietantes, como a sua denúncia das "taras antropológicas" que a sociedade brasileira carrega. Descontrola-se e justifica-se atribuindo sua conduta a dores de coluna. Se todas as pessoas que têm esse tipo de padecimento perdessem o controle quando viajam em trens lotados na hora do rush, as tardes brasileiras teriam pancadarias diárias. Há nele uma misteriosa predisposição imperial.

Talvez esse exercício de futurologia tenha o valor de uma leitura de cartas. Sobretudo se o PT perceber que a ida dos mensaleiros para a prisão, ainda este ano, deixará de ser um peso nas suas costas. Afinal, depois que Fernando Haddad e Geraldo Alckmin acordaram o monstro, é difícil saber como levar a rua para casa, mas é certo que o monstro sairá de casa se os mensaleiros forem poupados.

Às 19h de quinta-feira, os manifestantes que estavam na avenida Paulista em frente ao prédio da Gazeta mandaram que as bandeiras vermelhas fossem abaixadas: "O povo unido não precisa de partido". Minutos depois, queimaram algumas. Há 12 anos elas estavam lá, gloriosas, festejando a eleição de Lula.

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DRAGÃO DE BIOMBO
Do prefeito Fernando Haddad, na terça-feira, depois de receber a turma do Passe Livre, coisa que se recusara a fazer antes de ir para Paris:

"Vou fazer uma reflexão sobre os números, sobre o que ouvi [na reunião] e vou dar uma resposta para o movimento e pronto".

Blá-blá-blá de dragão de biombo.

No dia seguinte baixou a tarifa porque ficou com medo da rua.

QUEIXA
O comissário Gilberto Carvalho, que desde 2003 gere as relações do governo (e do PT) com os movimentos sociais, queixou-se de que o ronco das ruas não tinha comando único.

Se tivesse, muita coisa seria possível. Inclusive a criação de uma discreta Bolsa Comando.

POESIA NA RUA
Aqui vai o agradecimento a uma jovem que estava na passeata de terça-feira em São Paulo, com uma blusa branca de mangas curtas, carregando um poema em forma de cartaz. Dizia só isso:

"Cidade muda não muda".

Ecoou na sua criatividade um cartaz de 1968, quando um tiro da PM matou Edson Lima Souto:

"Bala mata fome?"

SONHO DE VANDA
Em 1970, quando a Vanda da Vanguarda Popular Revolucionária estava no presídio Tiradentes, em São Paulo, talvez sonhasse com um dia em que 1 milhão de brasileiros fossem para as ruas, cercando o Palácio do Planalto.

Na quinta-feira havia gente querendo fazer isso, mas a doutora só saiu do palácio, protegido pela tropa do Exército, às 20h.

PECULIARIDADE 1
Nenhuma manifestação teve discurso.

PECULIARIDADE 2
Qualquer comparação com o movimento das multidões destes dias com as da campanha das Diretas-Já, dos anos 80, tem um vício de origem.

Nas Diretas os governadores oposicionistas do Rio e de São Paulo cacifaram a infraestrutura dos comícios, com metrôs grátis, palanques, som e até mesmo ônibus.

Agora, pelo menos na mobilização, a Viúva não gastou um ceitil.

PECULIARIDADE 3
A rua de 2013 não teve celebridades.

Para se ter uma ideia da megalomania demófoba dos governantes que acordaram a rua, em dezembro do ano passado o doutor Sérgio Cabral convocou uma passeata contra o projeto de redivisão dos royalties do petróleo. Nela havia um cercadinho para os VIPs, que recebiam pulseirinhas verdes e tinham a proteção de seguranças.

Na semana passada o governador Cabral ficou no cercadinho do palácio.

PEC 37
O presidente da Câmara, Henrique Alves, marcou a votação da PEC 37 para a próxima quarta-feira. É a emenda constitucional que inibe as investigações de roubalheiras pelo Ministério Público.

Na semana passada ele anunciou sua disposição de adiar a decisão. A menos que possa citar outro motivo para o adiamento, teve a ideia por causa da ida do monstro às ruas.

Ele pode pensar que a manobra ajuda a esfriar os ânimos. Estará apenas marcando a data da próxima manifestação: 3 de julho.

Se Alves marcar a votação para as primeiras horas da tarde de quarta-feira, tira o Congresso do caminho do monstro. Ou arrosta.

A rua das novidades velhas - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 23/06

Manifestantes querem um 'líder de fora para combater a casta política corrupta, mas isso só não resolve


JOAQUIM BARBOSA, presidente do Supremo, paladino antimensaleiro, "homem novo", venceria a eleição para presidente entre os manifestantes de São Paulo. Segundo o Datafolha, era o preferido de 30% do pessoal na rua. Marina Silva, o "voto de protesto" de 2010 e política "diferente" (ora "sem partido"), viria a seguir, com 22%. Dilma Rousseff teria 10%. Não se trata de uma amostra "popular": os manifestantes têm mais renda e mais instrução que a média de paulistas ou brasileiros.

Para os manifestantes de quinta-feira, o protesto era contra a corrupção (50%), as passagens mais caras (32%) e os políticos (27%). A pesquisa não apresentou dados da ojeriza aos partidos, mas a evidência anedótica (e a pancadaria) parece suficiente para ilustrar a raiva.

O povo dos protestos, pois, não gosta da política politiqueira, o que não é novidade, embora a revolta seja chamada de "nova". Sim, é inusual que um povo até ontem "satisfeito" com o governo "descubra" que está farto e é ignorado devido a uma manifestação a princípio minoritária (mas simpática e tratada com boçalidade ditatorial pelo governo paulista).

Mas o povo dos protestos mui convencionalmente quer um líder "outsider", de fora da ordem da "política suja" ("dos partidos"), embora seu protesto contra a ordem pareça se limitar ao sistema político desvirtuado em corrupção. Os problemas estariam no abuso da Versalhes da politicagem. Uma vez derrubada a casta politiqueira, haverá recursos para "saúde, educação e transporte".

É uma visão convencional, desinformada e, de certo modo, conveniente (para conservadores) da política. Estamos "todos juntos", "o povo acordou", enrolado na bandeira e cantando o Hino Nacional, contra o inimigo comum, a casta política corrupta.

No entanto, nem a "casta" política é uma e una nem tudo é inércia nas políticas públicas; parte do "povo unido" é conivente ou se beneficia da ordem. A "união nacional" contra a casta ou a corrupção é ideologia. Isto é, mascara o fato de que os recursos sociais (dinheiro público, produção econômica) são escassos e distribuídos de acordo com privilégios (entre membros desse "povo" ora unido).

Mesmo uma discussão séria, mas ainda municipal, sobre o custo do transporte (e por que não dos lucros das empresas de lixo etc.?) logo terá de lidar com o problema de escolhas, perdas e ganhos (o que leva a formação de diferentes "partidos", formais ou informais). Mais transporte significa menos dinheiro para outro gasto social ou em imposição de perdas (mais IPTU, imposto sobre uso de carros etc.).

Corrupção, lucro "excessivo", tudo pode ser remediado. Mas, mesmo que imediatamente passássemos a viver na república dos anjos socialistas, ainda haveria escassez e seriam inevitáveis disputas sobre distribuição de recursos (via economia, de mercado ou não) e redistribuição (por meio de taxação e transferências via governo ou uma "nova" forma de representação e confronto negociado de interesses).

Decerto massas em protesto, "novas" ou não, não são a assembleia para analisar e negociar a disputa. Mas não dar forma, organização, a essas demandas de justiça é ingenuidade desinformada, dá em nada ou acaba em coisa pior, na procura de um líder salvador.

De bom tamanho - DORA KRAMER

O ESTADÃO - 23/06

Falácia a alegação de governantes, partidos e políticos em geral de que não estão entendendo direito a razão das manifestações. Sabem muito bem do que se trata. Só estão – como de resto todo mundo – intrigados com o fato de a coisa ter surgido assim, supostamente “do nada”, com adesão impressionante.

Na realidade surgiu e se alastrou em decorrência “do tudo”. Mal explicada mesmo estava a discrepância entre o registro de satisfação nas pesquisas e a insatisfação dos que, no cotidiano, se perguntavam por que não havia reação aos desmandos em série. O que, afinal de contas, estava assim tão bom se o custo de vida sobe e o Estado não faz a sua parte?

O recado está dado, a mensagem perfeitamente captada principalmente quando as manifestações mais contundentes ocorrem depois de prefeitos e governadores anularem aumentos em tarifas de transportes coletivos. Atordoados pelo barulho improvisaram um lenitivo que, como se viu, não satisfez.

Agora, completadas duas semanas desde o início dos protestos, seria hora de começar a pensar em deixar de lado entusiasmos e aturdimentos para abrir espaço à objetividade. Olhar, primeiramente, com frieza para a violência que emerge em todos os atos, salvo raríssimas exceções. Se o Estado não pode ficar inerte diante de depredações – até porque hoje se agride o patrimônio amanhã podem ser agredidas pessoas –, cabe à polícia distinguir a quem dirige a força e modular sua aplicação.

Não se pode também desconhecer que, ao contrário de movimentos com direção nítida que têm seus próprios métodos de proteção, esse nascido da espontaneidade não dispõe de instrumentos para se defender de provocadores. Tal defesa é importante para que a violência não passe a ser a questão central, deixando as demandas em papel secundário.

Outro dado é a administração da hora de parar. Conveniente seria fazê-lo no auge, a fim de que não se perca a eficácia da mensagem. Considerando a impossibilidade de as ruas ficarem ocupadas indefinidamente, mais cedo ou mais tarde os protestos vão arrefecer. A natural retirada, porém, precisa ser feita de modo que não seja confundida com desmobilização dos propósitos que motivaram o despertar da apatia.

Essa pasta de dente não volta ao tubo. A relação entre Estado e sociedade não será mais a mesma. O PT pensará duas vezes antes de trocar afagos com um ex-presidente posto para fora por vontade manifesta nas ruas que agora se fazem de novo ouvir. O Senado pensará duas vezes antes de eleger um presidente obrigado a renunciar dois anos antes acusado de pagar despesas particulares com dinheiro de empreiteira. A Câmara pensará duas vezes antes de brigar pela preservação de mandatos de condenados por corrupção e assim por diante.

Quais os termos da renovação do contrato entre representantes e representados ainda é impossível vislumbrar, mas é inevitável que a diferença se expresse com nitidez na campanha eleitoral de 2014. O rumo depende de como reagirão os alvos do grito de chega. O principal deles, não há como negar, os governos, primordialmente o federal. É ele o dono da pauta nacional cuja amplitude não lhe apaga a nitidez. As cobranças estão ditas. Algumas são objetivas, outras implicam mudança de procedimentos. Em todos os Poderes.

Não dará uma boa resposta a Presidência da República se tergiversar, procurando socializar o prejuízo. A desmoralização é geral, de fato. Mas o problema real não se enfrenta transferindo obrigações, mas assumindo-as.

A revolta é dirigida a “tudo isso que está aí”. Ao governo, contudo, cumpre apresentar as soluções, dar a direção. À sociedade cabe não se deixar enganar. Perceber que culpar a todos equivale a cobrar responsabilidade de ninguém.

A classe média - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 23/06
A decisão do Movimento Passe Livre de não convocar novas manifestações porque "grupos conservadores" infiltraram-se nos últimos atos serve para retirar a máscara desse movimento, que começou o protesto contra o aumento do preço das passagens de ônibus como se fosse apartidário, com foco específico na melhoria dos transportes públicos - com a utopia de alcançar o transporte gratuito como política de governo -, e acabou se revelando o que sempre foi: organização política ligada a movimentos de esquerda radical, que tem uma pauta muito além da melhoria dos transportes públicos.

Acontece que essa pauta esquerdista, que abrange desde a reforma agrária até a reforma do "latifúndio urbano" e o controle social da mídia, nada tem a ver com a da grande maioria das centenas de milhares de pessoas que saíram às ruas nas principais cidades e capitais brasileiras. O que o movimento chama de agenda "conservadora" nada mais é do que a reivindicação de melhorias no dia a dia da população, que seriam alcançadas com o combate à corrupção em seus vários níveis.

Variações sobre o mesmo tema, como a rejeição aos partidos políticos tradicionais e o protesto contra a PEC 37, que limita a ação investigativa do Ministério Público, acabaram prevalecendo nas manifestações, que pareciam espontâneas, e na verdade estavam sendo manipuladas por movimentos de cunho esquerdista como o Passe Livre.

Com o que eles não contavam é que o protesto contra o aumento das passagens de ônibus serviria para detonar uma manifestação mais ampla correspondente ao estado de indignação da população, mais especialmente da nova classe média das periferias das grandes cidades.

Entre os diversos temas que saíram para as ruas depois de aberta a Caixa de Pandora está justamente a insegurança pública, e a questão da redução da maioridade penal surgiu espontaneamente como uma das reivindicações. O que o Movimento do Passe Livre vê como uma agenda "retrógrada", boa parte da sociedade vê como medidas a serem tomadas para que a vida das pessoas melhore.

Na nota oficial do MPL, está revelado claramente o DNA de sua atuação: "Essa é uma defesa histórica das organizações de esquerda, e é dessa história que o MPL faz parte e é fruto." Não se ouviu até hoje uma crítica dos integrantes desse e de outros movimentos envolvidos nas manifestações contra os baderneiros que aproveitaram as manifestações para atos de vandalismo.

Mas o MPL repudiou em sua "nota oficial" "os atos de violência" contra os partidos de esquerda que tentaram participar das manifestações e também "a violência policial". A rejeição aos partidos políticos e ao vandalismo foi, portanto, uma ação espontânea de participantes das manifestações e revela um traço característico da classe média, a busca de um ambiente de ordem.

O que o Movimento Passe Livre disse de maneira indireta, a filósofa Marilena Chaui, uma das intelectuais orgânicas do petismo, disse com todas as letras na seguinte análise sobre a classe média, na presença do ex-presidente Lula, em evento comemorativo dos dez anos do PT no poder: "A classe média é o atraso de vida, (...) é estupidez. É o que tem de reacionário, conservador, ignorante, petulante, arrogante, terrorista."

No desdobramento de sua palestra, Marilena Chaui foi adiante: "A classe média é uma abominação política, porque ela é fascista, uma abominação ética, porque ela é violenta, e uma abominação cognitiva, porque é ignorante."

Essa leitura radicalizada dos movimentos sociais não tem guarida, pelo menos até o momento, na visão do Palácio do Planalto, que, ao contrário, se mostra sensível aos anseios da classe média e reage com os mesmo sentimentos de desejo de ordem nas manifestações. A presidente Dilma, no seu pronunciamento de sexta-feira, assumiu essa crítica aos arruaceiros, colocando-se ao lado da maioria da população, que quer mudanças em paz e ordem.

O dono do nome - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 23/06

SÃO PAULO - Num de meus muitos defeitos de fabricação, nasci sem o software do nacionalismo. Não acredito em excepcionalismos nem consigo entender por que alguém deveria julgar o país em que calhou de ter nascido como intrinsecamente melhor ou detentor de mais direitos do que qualquer outra nação.

Dada essa preliminar, só posso considerar meio descabido o protesto que o governo brasileiro ensaia contra a Icann, a entidade que gerencia o sistema de nomes da internet, que pretende disponibilizar comercialmente domínios que remetem a topônimos como ".amazon", ".patagonia" e ".shenzhen". Se entendi bem a objeção oficial, exposta no artigo de Virgilio Almeida, do Ministério da Ciência e Tecnologia, e de Benedicto Fonseca Filho, do Itamaraty, que a Folha publicou na quinta, o Brasil e outros países reclamam direitos especiais sobre esses nomes, que não poderiam ser concedidos a empresas privadas sem sua autorização.

Não sou sócio da amazon.com, mas não vejo por que o Brasil deveria ter mais legitimidade do que a livraria americana para usar o domínio. Para começar, o termo vem do grego "amazónes", que é o substantivo pelo qual se designavam as integrantes de uma tribo mítica de guerreiras que viviam sem homens. Nós, ou melhor, o explorador espanhol Francisco de Orellana é que se apropriou de uma palavra do léxico grego para dar nome à região. Ele teria ficado chocado ao constatar que mulheres de uma etnia amazônica combatiam ao lado dos homens.

Analogamente, "patagonia" é uma criação politicamente incorreta do português Fernão de Magalhães, que teria ficado impressionado com o tamanho das "patas" dos índios tehuelches que viviam na área.

A grande verdade é que línguas, incluindo seus topônimos e antropônimos, são patrimônio comum da humanidade e não deveriam admitir nenhum tipo de exclusividade, seja ela detida por empresas ou países.

E agora, galera? - GAUDÊNCIO TORQUATO

O ESTADÃO - 23/06

Ante a provável baixa da tarifa de ônibus nas capitais que sediaram as maiores manifestações populares dos últimos tempos, a indagação aguça a curiosidade de todos: qual será o próximo foco? O primeiro round da guerra que tem, de um lado, exércitos compostos por variados conjuntos da sociedade, e, de outro, guerreiros defensores do establishment, deve terminar com evidente vitória dos primeiros. O atendimento da demanda por executivos estaduais e municipais (até o alcaide paulistano cedeu) será o jorro d’água para apagar faíscas que ameaçam multiplicar fogueiras acesas nas principais regiões do território. Urge atentar para o sinal amarelo aceso no farol dos governantes e suas múltiplas significações: o som barulhento das ruas não mais carece de maestros de grandes orquestras, sejam políticos ou lideranças sindicais; não é preciso muito tempo para as massas afluírem às ruas; a tuba de ressonância desses temp for acolhida, como governantes de algumas capitais e Estados já o fizeram (gerando o efeito dominó), permanecerá a dúvida sobre os próximos passos da ampla movimentação social, eis que as palavras de ordem tentam expressar a amálgama de carências que compõem o Produto Nacional Bruto da Insatisfação, agrupando, entre outras, os estrangulamentos do sistema de transportes, a precária estrutura de saúde, as deficiências nas frentes educacionais e a crescente insegurança pública ante a avalanche de atos de extrema violência nas grandes cidades. E agora, galera, as batalhas continuarão? Haverá questões específicas a serem proclamadas? Os administradores públicos, por sua vez, ficarão entre a cruz e a caldeirinha: atenderão as demandas ou farão ouvidos de mercador.

A questão abre um leque de abordagens. A primeira diz respeito à natureza das reivindicações. O pleito da redução da tarifa de ônibus posicionou na linha de vanguarda a esfera estudantil. Os jovens encontraram na vertente dos transportes uma causa próxima aos seus interesses, sem deixar de avocar outras demandas. Vale registrar a energia de um universo de quem se reclamava inércia, desinteresse, apatia. Desde os “caras pintadas” da era Collor não se via tanta disposição, a demonstrar que os exércitos estudantis são os primeiros a usar a musculatura e a entrar no palco de guerra, caso tenham motivo para tanto. A mobilização estudantil ganha expressão diante de uma paisagem urbana tradicionalmente ocupada por soldados comandados por Centrais Sindicais. Nas últimas décadas, vale lembrar, infiltraram-se elas nas entranhas do Estado, em conluio que deixa transparecer preocupação com os cofres. (Basta anotar as grandes concentrações de massas a cargo das Centrais nas festas do 1º de maio, animadas por sorteios de casas e carros). É saudável, portanto, enxergar grupamentos jovens voltando às passeatas, empunhando bandeiras e fazendo ecoar demandas e palavras de ordem. Ocorre que, para ser eficaz, a locução cívica dos estudantes carecerá, doravante, de clarificação de metas, sob pena de suas vozes se perderem na polifonia de uma Torre de Babel.

Não se quer dizer que tenham de esquecer o discurso que clama por mudanças em muitas frentes, como este que costurou o pano de fundo da reivindicação da tarifa zero para as passagens de ônibus. Governantes e atores políticos de todas as instâncias precisam ser monitorados, avaliados, cobrados e, assim, perceber que há vigilantes cívicos fazendo ronda no entorno de palácios, sedes de governo, cúpulas congressuais, assembléias e câmaras. Mas, para efeito de resultados imediatos, as manifestações de caráter massivo necessitam abrigar metas, de acordo com parâmetros de bom senso e capazes de abrir diálogo entre partes. Nessa trilha e por conexão com a redução de tarifas, seria razoável que, nesse momento, os entes municipais e estaduais se debruçassem sobre os meios de mobilidade urbana, refazendo programas, reordenando cronogramas, com vistas à expansão dos sistemas e melhoria de qualidade dos serviços. Dessa forma, a movimentação adensará seu escopo e poderá obter mais vitórias.

O recado das ruas serve também de alerta para que gestores públicos passem a lupa sobre os serviços precários em todos os setores da vida cotidiana. Afinal, aguda dissonância fere a sensibilidade tanto de platéias das cadeiras numeradas quanto de galeras das gerais: de um lado, a estética exuberante dos estádios de futebol, emoldurada por formas e traços futuristas, a denotar a absorção de avançados parâmetros tecnológicos; de outro, a acanhada e esburacada estrutura de serviços, cuja estética é pontilhada por corredores de hospitais locupletados de macas, filas quilométricas em postos de atendimento, superpopulação nos meios de transporte, vielas e becos apinhados de jovens drogados, chacinas seriadas nas periferias. Para completar o cenário de contrastes, a falta de ônibus para acesso rápido aos majestosos estádios e a indignação por se cobrar de torcedores 8 reais por um cachorro quente. A imagem que se tem é a do reizinho que tenta esconder doenças nas habitações de seu reino com paredes folheadas de ouro.

Chama atenção o fato de que as manifestações se desenvolvem sob o empuxo de integrantes de grupamentos centrais: estudantes de curso superior (e seus pais), simpatizantes de partidos de esquerda, punks, ativistas em defesa de igualdade de gêneros e minorias, funcionários públicos, profissionais liberais etc. Os exércitos periféricos não formam os maiores volumes dos contingentes. Sabendo-se que as correntes centrais influenciam as margens (a pedra jogada no centro faz marolas que chegam à beira do lago), pode-se imaginar desdobramento perigoso caso bolsões miseráveis sejam afetados em sua parte mais sensível, o bolso. Nesse caso (Deus nos livre dessa ameaça), a fome se juntaria com a vontade de comer.


Dilma sitiada - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 23/06

O desafio de Dilma e do PT agora é sair desse redemoinho em que os problemas econômicos alimentam as manifestações e vice-versa. Há tempos um presidente não se vê em cenário tão desfavorável

Há tempos um presidente da República não se vê em situação tão desfavorável, em que um fator negativo alimenta o outro, embaçando inclusive a paixão do brasileiro pelo futebol. Primeiro, a economia. O governo vem perdendo a batalha da comunicação de que os indicadores vão bem. Até porque, o mesmo ministro Guido Mantega que passou os últimos anos cantando Produtos Internos Brutos mais atraentes, mas não confirmados, é quem dá as boas novas da inflação em queda. Para completar, na sexta-feira, os dados de emprego dão sinais de arrefecimento em relação ao mesmo mês do ano passado.

Esses ingredientes econômicos ajudaram a alimentar a insatisfação dos brasileiros, ao ponto de levar muitos às ruas. Aliás, o estopim, vale lembrar, foi o já resolvido aumento das passagens de ônibus nos grandes centros, como São Paulo. As tarifas voltaram ao patamar anterior, mas a catarse coletiva não cessou. Ao contrário. O que se viu ao longo da última semana foi uma paralisação geral do país ao pôr do sol. O ritual da “hora da manifestação” continua.

Talvez o vandalismo registrado na semana passada por grupos de bandidos organizados para tumultuar e saquear tire parte das pessoas das ruas, mas, por enquanto, não há essa disposição de pôr fim às manifestações. Essas passeatas por serviços de qualidade estão tão na moda entre jovens quanto estava nos anos 1960 lutar contra a ditadura militar. E, com os movimentos de rua, o comércio fecha as portas mais cedo e a imagem do Brasil no exterior fica embaçada. Daí à queda dos tais “investments grades” (graus de investimento) é questão de tempo. E tome-lhe mais vento para reforçar o tornado das ruas.

O desafio de Dilma, que até aqui não tinha enfrentado posições desfavoráveis, e do PT agora é sair desse redemoinho. À primeira vista, a carta de intenções lançada pelo pronunciamento da última sexta-feira foi positivo. Mas executá-lo em meio às barreiras da economia e da própria política é que é o nó. E nada indica, até agora, que Dilma terá a faca e o queijo em mãos para aproximar o discurso da prática.

O caso dos royalties do petróleo para a educação é um exemplo. Mais uma vez, o governo corre o risco de produzir uma expectativa que não terá efeito tão cedo, como ocorre hoje com o tal legado da Copa. Isso porque as propostas em discussão no Congresso sobre esse tema indicam que só serão canalizados para o ensino os royalties futuros. Alguns estudos já feitos mostram que passarão alguns anos até se extrair o óleo e deixar em ponto de pagamento esses royalties.

Enquanto isso, na política…
A tal “oxigenação do sistema político” é outro ponto que se traduz em anos-luz e dificuldades. Há quem diga no parlamento que esse tema só vai para frente o dia em que houver um Congresso constituinte exclusivo para esse fim. Mas, enquanto esse Congresso não vem, a cidadania cantada por Dilma em seu discurso virá pela própria sociedade civil organizada, e não vai demorar. Amanhã, o juiz Marlon Reis, autor do projeto da Lei da Ficha Limpa, estará em Brasília justamente para encaminhar essa proposta por iniciativa popular. “O que vemos hoje nas ruas é o grito dos excluídos, aqueles que não se sentem representados. São várias as petições da sociedade que ficaram sem resposta. Esse somatório produziu o que estamos vendo nas cidades brasileira. A relação do mandato parlamentar hoje é muito mais forte com o capital do que com a sociedade”, afirma ele.

E nos partidos…A tal oxigenação também se mostra presente na base política do governo. No pronunciamento de sexta-feira, por exemplo, muitos se lembraram do governo Sarney, em especial, pelo uso da palavra “pacto” e do bordão “brasileiras e brasileiros” que o ex-presidente sempre usava em suas falas à nação. Foi assim depois do “badernaço” de novembro de 1986, quando o governo colocou o Plano Cruzado a perder por conta do reajuste de tarifas que havia adiado a fim de dar a vitória ao PMDB. Dessa vez, governos estaduais e municipais também evitaram aumento de tarifas de ônibus antes, por causa das eleições municipais e da conversa de Dilma com os empresários, ocorridas em janeiro. Mais uma vez, a história parece se repetir.

Talvez Sarney tenha sido um presidente tão sitiado quanto Dilma está sendo agora, naquele período de fracasso do cruzado. E nem tinha um Lula para ajudar. Lula, aliás, estava do outro lado, gritando “fora, Sarney”. O fim daquele período foi o então presidente, hoje aliado do PT, criticado por todos os lados, sem perspectiva de fazer o sucessor. Se a atual presidente terá o mesmo destino, vai depender da sua capacidade de romper esse ciclo de as manifestações retroalimentarem a crise econômica e vice-versa.

Entre baderna e política - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 23/06

A atribuição desmedida de caráter político às passeatas deu forte contribuição às tensões propagadas


O tipo é bem conhecido. É aquele que anda em bandos para criar brigas ferozes, não raro mortais, a caminho dos estádios e depois nas arquibancadas. E arma brigas, não raro mortais, nas casas noturnas da pesada. E agride gays, e sempre em bando destrói partes de ônibus e de metrô, arrebenta nas ruas o que puder. A indumentária de todos é igual, o aspecto de suor e sujeira é igual em todos, a linguagem comum a todos é um dialeto da pobreza mental. São os exemplares mais completos da falta de civilidade.

Esses são aos autores dos ataques, a prédios oficiais e outros alvos, que se diz decorrerem da "insatisfação generalizada" da população. E exprimirem o repúdio geral aos políticos, aos partidos e aos governos.

Uma semana antes da sociedade aproveitar a rejeição das novas passagens para mostrar sua "insatisfação generalizada", o Datafolha mostrava Dilma Rousseff capaz de vencer no primeiro turno qualquer combinação de adversários, apesar da perda de oito pontos em sua aprovação. Na véspera daquela manifestação, o Ibope constatava o mesmo, com igual perda, mas com maior aprovação.

Que uma das pesquisas errasse, seria admissível. Não as duas, com indicações tão equivalentes e diferenças cabíveis nas margens de erro. Nelas não aparece a "insatisfação generalizada", mas cabem ainda os efeitos do Bolsa Família, dos ganhos do salário mínimo, do desemprego em um dos níveis mais baixos do mundo (os Estados Unidos comemoram seus 7,6%, aqui é de 5,8% e estabilizado), ganho real na massa de salários, e outros fatores que fazem uma reviravolta de melhorias em dezenas de milhões de famílias.

A ideia de "insatisfação generalizada" facilitou aos que, perplexos com a grandiosidade das manifestações, ainda assim precisávamos dar pretensas explicações dos fatos. "Análises", dizem. Mas quais são as indicações convincentes de tamanha e tão disseminada insatisfação, isso não foi sequer sugerido.

A ser sugestiva de alguma coisa, a variedade temática dos cartazes (relativamente pouco numerosos) talvez confirme a regra de que não há, em lugar algum do mundo, classe social que não tenha do que se queixar ou reivindicar. E aqui temos de sobra, não é o caso de desprezar a oportunidade oferecida por uma iniciativa simpática e sem atrelamento partidário.

Generalizante, entre nós, com toda a certeza, é a repulsa aos congressistas. Mas nem isso faz o ataque ao Congresso ter mais do que as características, todas, de mera arruaça. Se a baderna dos delinquentes tivesse sentido político, haveria razões políticas, por exemplo, para o seu ataque ao Ministério de Relações Exteriores. E não consta que alguém fizesse o prodígio de encontrar alguma, uma que fosse.

O mesmo se pode dizer da depredação, no Rio, do sambódromo e do Terreirão do Samba, de quase cem luminosos de trânsito, carros particulares. Atos semelhantes em tantas cidades, e, em São Paulo, os saques a que os meios de comunicação preferiram não dar a devida atenção, exceto a TV Bandeirantes e, em parte, a TV Record. Saquear toda uma joalheria de bom tamanho, a ponto de não deixar nem uma só peça, nem é mais baderna desatinada.

A propósito, deve-se às PMs do Rio, de São Paulo e de Brasília que não ocorresse o inimaginável na noite bárbara de quinta-feira. As três, apesar de bastante agredidas, foram capazes de manter o autocontrole, com erros apenas individuais e que não diminuem o mérito.

Em outro plano, mas na mesma linha de maturidade e bom senso, foi a aliança decisória do governador Geraldo Alckmin e do prefeito Fernando Haddad. Estão sendo capazes da rara grandeza de situar o interesse público e situar-se acima do interesse político e partidário. O oposto do oportunismo barato de Rui Falcão, presidente do PT, ao conclamar à provocadora partidarização petista da passeata apartidária.

A atribuição desmedida de caráter político às passeatas, feita nos meios de comunicação e oriundos de universidades, deu forte contribuição às tensões propagadas e às dificuldades de decisão, antes e agora, dos poderes públicos. Venha o que vier por aí, nas ruas, seria muito proveitoso não confundir baderneiros com radicais e falta de civilidade com protesto político.


De quem é a culpa? - JOSÉ OLAVO MOURÃO ALVES PINTO

O GLOBO - 23/06
A velha e eterna aspiração de ser o Brasil, o país do futuro ficou presa em um imaginário de dias melhores que não alcançamos no presente. O sonho frustrado de desenvolvimento da nação é compartilhado por diversos outros países, infelizmente. Abra o mapa e aponte o país que conseguiu nos últimos cinquenta anos sair do subdesenvolvimento para atingir um Produto Interno Bruto (PIB) per capita acima de US$ 20.000? Pesquise, mas não espere uma resposta. Não existe tal nação. De quem é a culpa? Sem retirar a responsabilidade dos que a merecem, deveríamos posicionar uma lupa em cima dos velhos discursos batidos e colocar o dedo na ferida que muitos tentam cicatrizar com programas sociais populistas e planos econômicos mirabolantes.

Há diversos modos de se trabalhar pelo desenvolvimento de um país. Melhorar o saldo da balança comercial, atrair o capital estrangeiro, melhorar o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), são algumas delas. Se olharmos para os países com elevado IDH como Canadá, Suíça, Suécia, Estados Unidos e Austrália, por exemplo, veremos que eles também apresentam um PIB per capita elevado. Ao estudarmos o índice: PIB per capita = produto interno bruto/população do país, percebemos que apenas duas variáveis refletem no resultado final. Mais do que natural, então, que os países busquem formas de fazer crescer os números do PIB e assim vêm incansavelmente tentando. Mas uma estratégia pouco ou nada adotada é a tentativa de diminuição do índice de nascimentos. Qual a explicação para o esquecimento do divisor dessa operação matemática? Ao diminuirmos o denominador, também não conseguiríamos elevar o resultado?

Em vez do aumento da atividade econômica a qualquer custo, a estabilidade populacional poderia aplacar a ânsia atual pelo aumento do PIB. Dessa forma, toda a elevação do PIB resultaria no aumento automático do PIB per capita e, consequentemente, da qualidade de vida da população. Vale lembrar que o custo de um procedimento de planejamento familiar é milhares de vezes mais barato do que criar um filho. Também custa menos aos cofres públicos do que muitos planos assistenciais, como as diversas bolsas oferecidas ao povo. Tais iniciativas ajudam os menos favorecidos a se manterem no curto espaço de tempo, mas são apenas um paliativo e não resolvem o cerne do problema. Outra mudança que se perceberá será o crescimento da quantidade de pessoas aptas a pagar impostos. Além disso, a queda do número de nascimentos gerará uma consequente diminuição da demanda por educação, saúde, saneamento básico, infraestrutura, habitação, segurança pública, trabalho, transporte, alimentação e lazer.

Vale ressaltar que nos países subdesenvolvidos o peso da miséria é tão grande que inibe o crescimento econômico por causa do déficit acumulado de investimentos no capital humano. Se há tantos pobres precisando de ajuda, beira a insensatez a passividade com que muitos assistem ao descontrole sobre as taxas de natalidade no Brasil. Devemos uma mudança neste quadro para com as próximas gerações, pois de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE, o número dos mais pobres aumenta a cada ano em relação ao mais ricos.

Recado aos surdos - FLÁVIO TAVARES

ZERO HORA - 23/06

Resta esperar que Dilma se liberte dos surdos _dos cortesãos alugados que fingem tudo



O mudo recuperou a voz e grita aos ouvidos do surdo _ eis a síntese do histórico 20 de junho. Desde as manifestações dos anos 1967-68-69 contra a ditadura militar, nada foi tão espontâneo e autêntico quanto os protestos em que o aumento das tarifas de transporte foi só o detonante de uma explosão maior e até grandiosa. Nem a campanha das Diretas Já, de 1984, ou o Fora Collor, de 1992, se equiparam à revolta pacífica atual. Nas Diretas, parte do poder político e dos partidos comandava tudo, com os governadores de São Paulo, Rio e Minas (Montoro, Brizola e Tancredo) à frente. No Fora Collor, a ideia inicial veio da imprensa, dos partidos e do parlamento. Agora, é como se a energia de 1968 ressuscitasse, cansada dos embusteiros que (na democracia) se apossaram da política e do poder.
Moças e moços de 20 anos iniciaram tudo. Não contaminados nem corroídos pelo poder político ou econômico, identificaram a falsidade. Longe do conluio "política & negócios" que rege o poder entre nós, definiram-se pelos cartazes das passeatas _ contra a corrupção, a mentira, a orgia de gastos em estádios, a Fifa mandando nas cidades, o descaso pela saúde e educação! E contra a imoral PEC 37.

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Mesmo assediados pelos badulaques do consumo, os jovens não perderam o tino. Enxotaram das passeatas as bandeiras dos partidos políticos, na melhor mostra do desencanto atual. Dirigidos por oportunistas que prostituíram a política, os partidos têm se interessado apenas em táticas para captar votos.
Desde que o conluio PT-PMDB (com sua ampla "base alugada") assumiu o poder, diluíram-se os movimentos sociais. As centrais sindicais, cooptadas. A UNE não representa os estudantes. Os partidos tornam-se degraus para negociar ministérios e empresas estatais, num derrame geral de corrupção.
Querem nos fazer fantoches, bonequinhos que falam e pulam, manipulados detrás duma parede?
Num desafio a essa impostura, jovens e não jovens saíram às ruas em centenas de grandes ou pequenas cidades, convocados uns aos outros pela internet. A espontaneidade mostra a falência das estruturas formais, que já nada representam. Senadores, deputados, vereadores, prefeitos, governadores e a própria presidente da República, ausentes de tudo _ atônitos, isolados nas salas do poder em que tudo é artificial. Até o ar.

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Vivemos o absurdo de que é preciso sair à rua para que o poder político "aceite dialogar e debater" com quem o elegeu. Na onda espontânea, a boçalidade da polícia de São Paulo (que, entre outras proezas, quase deixou cega uma jornalista) transformou o protesto num movimento nacional muito além dos 20 centavos das passagens. E a rua vomitou a indignação geral!
E os vândalos que saqueiam comércios ou destroem prédios públicos? Eles não são manifestantes, apenas marginais, como os que nos estádios (ou nos velórios e enterros) batem carteiras e roubam. Aproveitam-se da situação, imitando os políticos corruptos.
Ninguém melhor do que a presidente Dilma explicou o sentido dos protestos: "A mensagem direta das ruas é para influir nas decisões dos governos, em repúdio à corrupção e ao uso indevido do dinheiro público", disse em Brasília, na solenidade de lançamento do marco regulatório da mineração. Os mais eminentes figurões da corrupção, ali presentes, aplaudiram, fingindo que não era com eles. Ela própria mais parecia a jovem coerente de 1968-69 e não a presidente da República, que entendeu o recado das ruas.
Agora que o povo mudo recuperou a voz, resta esperar que Dilma se liberte dos surdos _ dos cortesãos alugados que fingem tudo, até a surdez. Será o caminho para que o grito de agora reconstrua o que a mentira destruiu!


A revolução do tomate - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 23/06

BRASÍLIA - O grande ausente das manifestações, vamos convir, foi o tomate. O confronto entre o aumento de preços e a corrupção foi a gota d'água que empurrou as pessoas às ruas e às portas dos palácios.

Como bem explicitou a Folha, os protestos são contra "tudo". Logo, não são contra a presidente Dilma Rousseff. Mas são também contra ela e o que representa, tanto que a marca da quinta-feira foi que os manifestantes chegaram perigosamente perto do Palácio do Planalto.

Dilma demorou demais a falar, demonstrou fraqueza ao correr para o colo de Lula e o pronunciamento de sexta-feira foi mais do mesmo quando presidentes se sentem sob pressão, em apuros.

Convocou um pacto nacional, prometeu reforma política, elogiou as manifestações democráticas, condenou os excessos e anunciou medidas que levam anos para ter resultados. Só faltou criar uma comissão.

A reação não resolve um grande problema de Dilma neste momento: a falta de discurso político.

Internamente, ela perde uma das principais armas para enfrentar o pibinho, a inflação, o aumento dos juros, a Bolsa despencando e o dólar insolente: os bons índices de emprego. Em meio à crise, passou quase despercebida a notícia de que a criação de vagas formais em maio é a menor em 21 anos. Isso, apesar de previsível, é demolidor sob o ponto de vista econômico e político.

Externamente, Dilma também perde a chance de repetir em futuras viagens internacionais, principalmente a Washington, em outubro, a arrogância de dizer que EUA, Alemanha e África do Sul, por exemplo, deveriam seguir a política econômica brasileira. Isso já era.

Falta muito tempo para a eleição, os aliados não têm saída e a oposição parece invisível. Mas não é à toa que manifestantes optam pelo voto quimera em Joaquim Barbosa. No fim das contas, Dilma continua favorita, mas ser reeleita só por exclusão não parece nada alvissareiro.

A mais cara de todas as Copas - EDITORIAL O ESTADÃO

O ESTADO DE S. PAULO - 23/06
A Copa do Mundo de 2014 no Brasil será a mais cara de todas. O secretário executivo do Ministério dos Esportes, Luís Fernandes, anunciou que em julho seu custo total chegará a R$ 28 bilhões, um aumento de 10% em relação ao total calculado em abril, que era de R$ 25,3 bilhões. E supera em R$ 6 bilhões (mais 27%) o que em 2011 se previa que seria gasto. Por enquanto, já se sabe que o contribuinte brasileiro arcará com o equivalente ao que gastaram japoneses e coreanos em 2002 (R$ 10,1 bilhões) mais o que pagaram os alemães em 2006 (R$ 10,7 bilhões) e africanos do sul em 2010 (R$ 7,3 bilhões).
O "privilégio" cantado em prosa e verso pelo ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que se sentou sobre os louros da escolha em 2007, e entoado por sua sucessora, Dilma Rousseff, em cuja gestão se realizará o torneio promovido pela Fifa, custará quatro vezes os gastos dos anfitriões do último certame e três vezes os gastos dos dois anteriores.

O governo federal não justifica - nem teria como - este disparate. Mas, por incrível que pareça, os responsáveis pela gastança encontram um motivo para comemorar: a conta ainda não chegou ao teto anunciado em 2010, que era de R$ 33 bilhões. É provável, contudo, que esse teto seja alcançado, superando o recorde já batido, pois, se os custos cresceram 10% em dois meses, não surpreenderá ninguém que subam mais 18% em 12 meses.

Esta conta salgada é execrada porque dará um desfalque enorme nos cofres da União, que poderiam estar sendo abertos para a construção de escolas, hospitais, estradas, creches e outros equipamentos dos quais o País é carente. Como, aliás, têm lembrado os manifestantes que contestam a decisão oficial de bancar a qualquer custo a realização da Copa das Confederações, do Mundial de 2014 e da Olimpíada no Rio de Janeiro em 2016. E, além dos valores, saltam aos olhos evidências de que tal custo não trará benefícios de igual monta.

É natural que, no afã de justificar o custo proibitivo, o governo exagere nas promessas de uma melhoria das condições de vida de quem banca a extravagância. Segundo Fernandes, responsável pela parte que cabe ao governo na organização do torneio, "a Copa alavanca investimentos em saúde, educação, meio ambiente e outros setores". E mais: "Ou aproveitamos esse (sic) momento para o desenvolvimento do País ou perdemos essa (sic) oportunidade histórica".

A Nação aguarda, com muita ansiedade, que o governo, do qual participa o secretário executivo do Ministério dos Esportes, venha a público esclarecer quantos hospitais, escolas ou presídios têm sido construídos e que equipamentos têm sido adquiridos para melhorar nossos péssimos serviços públicos com recursos aportados por torneios esportivos que nos custam os olhos da cara.

Não é preciso ir longe para contestar esta falácia da "Copa cidadã": o Comitê Olímpico Brasileiro (COB) previu um "legado inestimável" que ficaria da realização dos Jogos Pan-americanos de 2007 na mesma cidade onde será disputada a Olimpíada de 2016. O tal "legado" virou entulho: os equipamentos construídos para aquele fim estão sendo demolidos e reconstruídos e, enquanto não ficam prontos, os atletas simplesmente não têm onde se preparar para disputar os Jogos Olímpicos daqui a três anos.

A manutenção do estádio Green Point, na Cidade do Cabo, que custou R$ 600 milhões (menos da metade dos gastos na reforma do Maracanã, no Rio, e do Mané Garrincha, em Brasília) para ser usado na Copa da África do Sul, demanda, por ano, R$ 10,5 milhões em manutenção, o que levou a prefeitura local a cogitar de sua demolição. Por que os estádios de Manaus, Cuiabá e Natal terão destino diferente depois da Copa?

A matemática revela que o maior beneficiário da Copa de 2014 será mesmo a Fifa, e não o cidadão brasileiro, que paga a conta bilionária. Prevê-se que o lucro da entidade será de R$ 4 bilhões, o dobro do que arrecadou na Alemanha e o triplo do que lucrou na África do Sul. O resto é lorota para enganar ingênuos e fazer boi dormir.

Aumento da carga tributária poderá vir pelo ISS - EDITORIAL O GLOBO

O GLOBO - 23/06

Como se viu nas manifestações recentes, as sedes dos legislativos costumam ser alvos de protesto, pois, no imaginário popular, lá há sempre algo sendo tramado para prejudicar os cidadãos. E não é para menos a suspeita, tantas são as iniciativas que, ao fim das contas, pesam nos bolsos dos contribuintes sem que haja contrapartida relevante para a sociedade como um todo.

Nesse rol de iniciativas delirantes pode ser incluído o projeto de autoria do senador Romero Jucá (PMDB-RR), em fase adiantada de tramitação, que amplia consideravelmente a base de tributação do Imposto Sobre Serviços (ISS), cobrado pelos municípios, com alíquotas de até 5%. Como não se trata de imposto sobre o valor agregado, a aparente baixa alíquota do ISS se constitui em um encargo tributário pesado, pois é calculado levando-se em conta o preço bruto cobrado pelo serviço, e não o seu valor líquido.

Pelo projeto do senador, o foco principal seriam as receitas de aluguéis residenciais e comerciais, sobre as quais há incidência de elevadas alíquotas de Imposto de Renda. Além dos aluguéis, foram citadas com passíveis de tributação futura de ISS várias transações realizadas por meio do internet, como transmissão e armazenamento de dados, ou algum arquivo ( música, filme) que seja baixado pelo internauta no computador, tablet ou celular de uso pessoal.

Os especialistas em direito tributário alertam que a tentativa de considerar aluguel como serviço certamente provocará uma enxurrada de contestações. Os serviços que constam da base de tributação do ISS, elaborada em 2003, somam cerca de 200, e diversos até hoje motivam contestações que criam pendengas jurídicas infindáveis, deixando tanto contribuintes como autoridades arrecadadoras em situação de permanente insegurança.

Com o avanço da tecnologia da informação, há hoje serviços que não existiam há dez anos. Mas a atualização da base de tributação do ISS não pode servir de pretexto para se criar novas fontes de receita apenas com o propósito político de angariar apoio e simpatia junto a prefeitos às voltas com orçamentos apertados.

Aluguéis não são transações novas e fruto da evolução da tecnologia da informação. Existem desde muito antes da existência desse tipo de tributo, e nunca se cogitara tributá-los com Imposto sobre Serviços.

Ao apreciar projetos como este, os parlamentares deveriam refletir sobre a carga tributária do país, excessivamente alta considerando-se a renda média dos brasileiros (nas alturas de 36% do PIB, a mais elevada no bloco de nações emergentes). A economia se ressente de uma progressiva perda de competitividade, e a carga tributária excessiva é, sem dúvidas, um dos fatores que contribuem para isso.