O Estado de S.Paulo - 25/02
Para alcançar o equilíbrio financeiro, sem afetar demasiadamente seu bilionário programa de investimentos, a Eletrobrás terá de cortar 30% de seus gastos correntes e aumentar suas receitas também em 30% nos próximos três anos. Esses números, anunciados por seu presidente, José da Costa Carvalho Neto, dão a dimensão das imensas dificuldades por que passa a estatal. O corte de receitas que lhe está sendo imposto pelo programa de energia do governo, destinado basicamente a reduzir tarifas, soma-se a problemas que a empresa já vinha enfrentando, em decorrência da gestão político-partidária a que foi submetida por muitos anos. Será brutal o ajuste necessário para restabelecer sua saúde financeira.
A Eletrobrás, por causa de suas dimensões e de seu papel no sistema elétrico brasileiro, foi a empresa mais afetada pelas regras do novo programa para o setor elétrico, que fixou valores insuficientes para a indenização de usinas e linhas de transmissão cujas concessões fossem renovadas antecipadamente e tarifas igualmente abaixo do valor necessário para a operação das geradoras que aceitassem a renovação da concessão nos termos definidos pelo governo.
Em documentos e estudos encaminhados ao Ministério de Minas e Energia, a empresa alertou que teria prejuízos bilionários caso as regras não fossem alteradas. No entanto, controlada pelo governo federal, a Eletrobrás foi obrigada a aceitar essas regras, pois o Planalto a utilizou como exemplo - sobretudo para as empresas estaduais controladas por governos tucanos que rejeitaram as condições de renovação das concessões - para mostrar a viabilidade do programa.
O preço que ela tem de pagar por isso é o aprofundamento de um ajuste que, mesmo sem o programa de energia do governo Dilma, teria de ser drástico.
Desde o governo Lula, o setor elétrico tem sido alvo de feroz disputa entre o PMDB e o PT. Para acomodar os interesses de sua base, o ex-presidente Lula nomeou pessoas indicadas pelos dirigentes partidários para a presidência e diretoria das principais empresas do setor, como Furnas, Chesf e Eletronorte, além da própria Eletrobrás. Dirigidas por critérios exclusivamente políticos, as estatais do setor elétrico perderam eficiência e acumularam maus resultados.
No início do governo Dilma, alguns dos principais dirigentes do PMDB tentaram evitar que essa forma de aparelhamento do setor fosse modificada e procuraram preencher os cargos principais das empresas com nomes por eles indicados. Mas a presidente decidiu encarar a feroz resistência e as duras críticas de deputados como Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha - que pretendiam indicar nomes para a diretoria de Furnas, onde exerciam grande influência -, e escolheu o nome que lhe pareceu mais adequado para presidir a empresa. Por ironia, Dilma continua tendo de negociar com esses deputados: Alves é hoje presidente da Câmara e Cunha, o líder do PMDB na Casa. Para poder colocar na Eletrobrás o nome de sua preferência, Dilma enfrentou a resistência do senador José Sarney.
Os resultados da acertada decisão da presidente começam a aparecer. Há alguns meses, o presidente de Furnas, Flávio Decat, anunciou um profundo programa de ajuste da empresa a ser executado durante cinco anos e que prevê a redução de 35% de seu quadro de pessoal e corte de até 22% das despesas com materiais, serviços e outros itens.
Há pouco menos de um ano, Costa Carvalho havia anunciado plano semelhante para a Eletrobrás, que, além das consequências negativas das gestões políticas por que passou, teve de absorver distribuidoras estaduais em séria crise financeira. Essas distribuidoras, agora integradas ao Grupo Eletrobrás, continuam a gerar prejuízos, compensados pelos resultados de outras áreas de atuação da estatal.
O uso político da Eletrobrás como instrumento para viabilizar o programa elétrico do governo do PT força a empresa a fazer um ajuste ainda mais profundo. Espera-se que, mesmo assim, a Eletrobrás consiga preservar seu programa de investimentos, de cerca de R$ 12 bilhões neste ano, para evitar problemas nesse setor vital para a economia.
segunda-feira, fevereiro 25, 2013
Homem novo, truque velho - VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 25/02
SÃO PAULO - Gilberto Kassab vai-se tornando o político dos sonhos de qualquer governo. Inclina-se a apoiar todos eles, e de todos participar com seu partido, sem importar-se com a cor da camisa.
Agora o seu sucessor na prefeitura desta capital descobriu mais uma utilidade de Kassab. O líder do PSD aceita numa boa posar de bode expiatório para as mazelas da cidade sob a gestão do "homem novo", o petista Fernando Haddad.
Alagou? Deu pane nos semáforos? Caíram centenas de árvores? Apagou a luz? Embolou o tráfego? Tudo culpa do Kassab. O ex-prefeito resmunga um pouco, mas assimila o golpe, como assimila as vaias de petistas nos encontros públicos do partido de Lula, seu dileto aliado.
A velha tática de acusar a "herança maldita" de gestões passadas soa cômica nesse caso. Haddad franqueou ao kassabismo um pedaço generoso da sua administração -a estatal de eventos SPTuris, com seus gordos contratos e salários.
Na habitação, o feudo ficou com o fotogênico Paulo Maluf, outro ex-prefeito antes amaldiçoado pelo petismo. Numa conta simples, o governo do homem novo carrega em seu DNA traços marcantes dos caciques que fizeram o que fizeram na cidade nos últimos 20 anos.
Marcante foi também o primeiro teste para Haddad mostrar, na prática, a sua originalidade e o seu compromisso com as promessas. A montanha da ampla flexibilização alardeada no programa de inspeção veicular pariu um rato quando chegou à Câmara. Um vexame para quem acaba de sair das urnas com 3,4 milhões de votos.
Mas a máquina de atribuir responsabilidade aos outros não deu trégua. A prefeitura pôs-se a "pressionar" o governador do Estado para que estabeleça inspeção obrigatória em veículos da Grande São Paulo.
Quando vai começar a gestão nova de Fernando Haddad? A velha já começou.
SÃO PAULO - Gilberto Kassab vai-se tornando o político dos sonhos de qualquer governo. Inclina-se a apoiar todos eles, e de todos participar com seu partido, sem importar-se com a cor da camisa.
Agora o seu sucessor na prefeitura desta capital descobriu mais uma utilidade de Kassab. O líder do PSD aceita numa boa posar de bode expiatório para as mazelas da cidade sob a gestão do "homem novo", o petista Fernando Haddad.
Alagou? Deu pane nos semáforos? Caíram centenas de árvores? Apagou a luz? Embolou o tráfego? Tudo culpa do Kassab. O ex-prefeito resmunga um pouco, mas assimila o golpe, como assimila as vaias de petistas nos encontros públicos do partido de Lula, seu dileto aliado.
A velha tática de acusar a "herança maldita" de gestões passadas soa cômica nesse caso. Haddad franqueou ao kassabismo um pedaço generoso da sua administração -a estatal de eventos SPTuris, com seus gordos contratos e salários.
Na habitação, o feudo ficou com o fotogênico Paulo Maluf, outro ex-prefeito antes amaldiçoado pelo petismo. Numa conta simples, o governo do homem novo carrega em seu DNA traços marcantes dos caciques que fizeram o que fizeram na cidade nos últimos 20 anos.
Marcante foi também o primeiro teste para Haddad mostrar, na prática, a sua originalidade e o seu compromisso com as promessas. A montanha da ampla flexibilização alardeada no programa de inspeção veicular pariu um rato quando chegou à Câmara. Um vexame para quem acaba de sair das urnas com 3,4 milhões de votos.
Mas a máquina de atribuir responsabilidade aos outros não deu trégua. A prefeitura pôs-se a "pressionar" o governador do Estado para que estabeleça inspeção obrigatória em veículos da Grande São Paulo.
Quando vai começar a gestão nova de Fernando Haddad? A velha já começou.
A CIA agradece - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 25/02
Digamos que proceda a desconfiança disseminada pelo governo cubano de que a blogueira Yoani Sánchez é, sim, agente da CIA, a agência de espionagem americana.
Por sinal, estão em cartaz dois filmes, concorrentes ao Oscar, que destacam a eficiência da CIA: "A hora mais escura"," sobre a captura e morte de Bin Laden, e "Argo" que trata do resgate de um grupo de americanos reféns do regime iraniano.
0 OUE A CIA esperava da passagem de Yoani pelo Brasil? Que ela tivesse oportunidades para falar mal de Cuba, há mais de 50 anos sob o controle dos irmãos Castro (Fidel e Raúl). E que a imprensa, ocupada com os assuntos internos do país, dedicasse à blogueira um mínimo de atenção. Ela viajou ao Brasil a convite do jornal "O Estado de S. Paulo" Ali, certamente, teria espaço garantido.
COMO OUE a CIA não contava? Com a adesão entusiástica aos seus planos dos partidos brasileiros de esquerda. Por toda a sua vida, a esquerda batalhou para chegar ao poder. E a CIA, e os serviços de espionagem que a antecederam, sempre atrapalhou. Tentou chegar pela primeira vez em 1935 ao deflagrar a Intentona Comunista. O movimento fracassou em menos de 72 horas. Um vexame.
A RENÚNCIA EM 1961 de Jânio Quadros permitiu que o vice João Goulart ascendesse à Presidência da República. A esquerda imaginou que, se o manobrasse com apuro, o poder acabaria ao alcance de suas mãos. Os militares derrubaram Goulart e empolgaram o poder durante 21 anos. Depois se passaram três eleições para que, na quarta, cavalgando o ex- metalúrgico Lula, a esquerda finalmente chegasse lá.
UMA ESQUERDA DÓCIL, que renunciara à maioria dos seus dogmas. A esquerda possível, haja vista que seu principal líder nunca foi de esquerda. Embora atraente devido às suas miçangas, o penoso exercício do poder desfigurou a esquerda por completo, a ponto de levá-la a se sentar no banco dos réus. Nem por isso se pensou que pudesse tê-la despojado de inteligência. Foi o que aconteceu.
FALTARÁ AO GOVERNO cubano a energia do passado? Não me refiro ao "paredón" como instrumento de castigo para os que contrariam os interesses do regime. O "paredón" saiu se moda; Mas, entre ele e uma reles admoestação, deve haver um meio-termo para se punir o desastrado embaixador que pediu a ajuda de ativistas políticos tão espertos quanto ele. Resultado: transformaram a vilegiatura de Yoâni em um baita sucesso de audiência.
NÃO O DEBITEM, porém, apenas à ignorância das seções juvenis de partidos e de organizações que ainda pregam a implantação do comunismo no país. Por que as direções de partidos como o PT e o PCdoB não desautorizaram os atos de hostilidade dos seus militantes contra a blogueira cubana? Ora, porque estavam de acordo com eles. Sabiam quem os encomendara. Calaram por conveniência.
NEM ASSIM CONSEGUIRAM esconder suas impressões digitais deixadas em cada um dos atos. Yoani foi à Câmara falar em uma comissão técnica. Deputados do PT em desespero, convenceram Henrique Alves, presidente da Câmara, a convocar sessão extraordinária. Evitariam assim que a TV Câmara transmitisse a exposição de Yoani. Realizou-se a sessão. Mas Yoani foi até lá confraternizar com seus algozes. Ou seus cúmplices.
A SEMANA OUE PASSOU não teve para ninguém — nem para Dilma, lançada candidata à reeleição, nem para Lula, que a lançou, nem para Aécio, que discursou no Senado. Só deu Yoani. Comovida, a CIA agradece aos seus agentes voluntários.
Digamos que proceda a desconfiança disseminada pelo governo cubano de que a blogueira Yoani Sánchez é, sim, agente da CIA, a agência de espionagem americana.
Por sinal, estão em cartaz dois filmes, concorrentes ao Oscar, que destacam a eficiência da CIA: "A hora mais escura"," sobre a captura e morte de Bin Laden, e "Argo" que trata do resgate de um grupo de americanos reféns do regime iraniano.
0 OUE A CIA esperava da passagem de Yoani pelo Brasil? Que ela tivesse oportunidades para falar mal de Cuba, há mais de 50 anos sob o controle dos irmãos Castro (Fidel e Raúl). E que a imprensa, ocupada com os assuntos internos do país, dedicasse à blogueira um mínimo de atenção. Ela viajou ao Brasil a convite do jornal "O Estado de S. Paulo" Ali, certamente, teria espaço garantido.
COMO OUE a CIA não contava? Com a adesão entusiástica aos seus planos dos partidos brasileiros de esquerda. Por toda a sua vida, a esquerda batalhou para chegar ao poder. E a CIA, e os serviços de espionagem que a antecederam, sempre atrapalhou. Tentou chegar pela primeira vez em 1935 ao deflagrar a Intentona Comunista. O movimento fracassou em menos de 72 horas. Um vexame.
A RENÚNCIA EM 1961 de Jânio Quadros permitiu que o vice João Goulart ascendesse à Presidência da República. A esquerda imaginou que, se o manobrasse com apuro, o poder acabaria ao alcance de suas mãos. Os militares derrubaram Goulart e empolgaram o poder durante 21 anos. Depois se passaram três eleições para que, na quarta, cavalgando o ex- metalúrgico Lula, a esquerda finalmente chegasse lá.
UMA ESQUERDA DÓCIL, que renunciara à maioria dos seus dogmas. A esquerda possível, haja vista que seu principal líder nunca foi de esquerda. Embora atraente devido às suas miçangas, o penoso exercício do poder desfigurou a esquerda por completo, a ponto de levá-la a se sentar no banco dos réus. Nem por isso se pensou que pudesse tê-la despojado de inteligência. Foi o que aconteceu.
FALTARÁ AO GOVERNO cubano a energia do passado? Não me refiro ao "paredón" como instrumento de castigo para os que contrariam os interesses do regime. O "paredón" saiu se moda; Mas, entre ele e uma reles admoestação, deve haver um meio-termo para se punir o desastrado embaixador que pediu a ajuda de ativistas políticos tão espertos quanto ele. Resultado: transformaram a vilegiatura de Yoâni em um baita sucesso de audiência.
NÃO O DEBITEM, porém, apenas à ignorância das seções juvenis de partidos e de organizações que ainda pregam a implantação do comunismo no país. Por que as direções de partidos como o PT e o PCdoB não desautorizaram os atos de hostilidade dos seus militantes contra a blogueira cubana? Ora, porque estavam de acordo com eles. Sabiam quem os encomendara. Calaram por conveniência.
NEM ASSIM CONSEGUIRAM esconder suas impressões digitais deixadas em cada um dos atos. Yoani foi à Câmara falar em uma comissão técnica. Deputados do PT em desespero, convenceram Henrique Alves, presidente da Câmara, a convocar sessão extraordinária. Evitariam assim que a TV Câmara transmitisse a exposição de Yoani. Realizou-se a sessão. Mas Yoani foi até lá confraternizar com seus algozes. Ou seus cúmplices.
A SEMANA OUE PASSOU não teve para ninguém — nem para Dilma, lançada candidata à reeleição, nem para Lula, que a lançou, nem para Aécio, que discursou no Senado. Só deu Yoani. Comovida, a CIA agradece aos seus agentes voluntários.
Corrupção - crime ou esperteza? - ALOÍSIO DE TOLEDO CÉSAR
O ESTADO DE S. PAULO - 25/02
De que riem os petistas? Com certeza, de nós e da farra que fizeram nestes dez anos
Nestes dias em que os políticos do Partido dos Trabalhadores passaram a lamber uns aos outros,em comemoração pelos dez anos no poder, é o caso de perguntar: além da farra com dinheiro público, além do fim da corrupção como crime para se converter em ato de esperteza, o que mais eles estão festejando?
Nesses dez anos eles conseguiram praticamente quebrar a Petrobrás, que era uma das empresas mais sólidas do mundo; reduzir o desenvolvimento do País a níveis inferiores aos do Paraguai e da Bolívia; fazer crescer a inflação, que fora zerada por Fernando Henrique Cardoso; e aumentar a carga tributária a praticamente 40% do produto interno bruto (PIB).
Em nenhum outro país do mundo a venda de remédios sofre carga de impostos tão alta como no nosso. Os bens duráveis de consumo, afetados pela mesma carga tributária, custam muito mais do que nos outros países. E os preços são tão absurdos que os brasileiros ficaram viciados em viagens ao exterior apenas para comprar.
Bilhões de dólares de brasileiros engordam a economia americana todos os anos porque os produtos lá vendidos custam muito menos do que aqui, no Brasil. Isso ocorre exatamente no momento em que os petistas aparecem rindo nas fotos. Rindo de quê? Com certeza eles estão rindo de nós e da farra que fizeram nesses dez anos.
Quando Tancredo Neves, com sua habilidade e seu maneirismo, conseguiu eleger-se presidente, arrebatar a Bandeira brasileira das mãos dos militares e devolvê-la a todos nós, ficou a impressão de que o País teria mais sorte e melhor rumo.Mas com o seu trágico falecimento e a posse do biônico José Sarney na Presidência da República, ficou desmentida a ideia enganosa de que Deus é brasileiro. É nada, deve ser suíço.
O lado pior e mais trágico que surgiu nos últimos dez anos foi deixar transparente que é possível cometer na vida pública os mais graves crimes e nada acontecerá. Corrupção, peculato, formação de quadrilha e outros hediondos crimes contra a administração pública foram praticados em grande escala e até agora não se viu um único infrator sendo levado para detrás das grades.
Algumas semanas atrás o mundo teve conhecimento do exemplo invejável da Justiça inglesa, que condenou e determinou a imediata prisão de um figurão da política que cometera infração de trânsito, mas para não ter a imagem afetada publicamente fez sua mulher assumir a responsabilidade pela transgressão. Isso foi descoberto somente dez anos depois, mas, mesmo assim, a Justiça inglesa não perdoou e ele foi direitinho para atrás das grades.
Qualquer pessoa que tenha sentimento de justiça logo perceberá como nós estamos a milhares de anos-luz dessa exemplar conduta.
A ausência de punição tem sido característica marcante em nosso país. Nos últimos tempos, porém, a impunidade assumiu feição muito mais grave, porque os delitos praticados por altos figurões da República continuam à espera de execução da pena. Realmente, ainda que tenham sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, a condenação permanece destituída de eficácia e isso propaga a ideia de que poderosos nunca vão para a cadeia.
Dá para imaginar o que a Justiça inglesa teria feito com José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e outros aos quais o linguajar policial atribui terem a "mão cabeluda"? Por incrível que pareça, eles talvez apareçam perante boa parte da população brasileira como pessoas dotadas de invejável esperteza, porque, afinal, a despeito da "mão cabeluda", continuam por aí, sempre aparecendo e rindo nas fotos. Julgados e condenados, são verdadeiros exemplos da ineficácia do nosso sistema jurisdicional.
A Justiça brasileira, infelizmente prisioneira de entraves processuais que herdamos dos romanos, ainda não conseguiu a eficácia e a praticidade da de ingleses e norte-americanos. Estes sabem de sobra que o exemplo da punição influi na redução da criminalidade muito mais do que qualquer repressão policial.
Os políticos do Partido dos Trabalhadores que comemoram os dez anos de governo com certeza não farão nenhuma referência ao fato de o Brasil figurar nos índices internacionais de desenvolvimento humano em 84º lugar e que continuamos a ser um dos campeões mundiais de analfabetismo, além de nossa mortalidade infantil persistir como problema a ser resolvido.
Com a entrada em vigor do Plano Real, em 1994, praticamente zerada a inflação, o dinheiro passou a valer mais e isso beneficiou, sobretudo, as pessoas mais pobres, que foram gradativamente inseridas no processo capitalista de consumo.Essa melhora, contudo, não foi suficiente para tirar da pobreza alguns milhões de brasileiros, que continuam na linha da miserabilidade e, portanto, é mesmo necessário que recebam atendimento do governo, com a distribuição de recursos.
Essa doação de dinheiro público, todavia, não poderia ter a feição lamentavelmente adquirida de subterfúgio político destinado a angariar votos e prestígio eleitoral. Quem doa dinheiro público deveria ter no próprio gesto de doar a recompensa, e não a esperada resposta de apoio e votos.
O poeta de origem árabe Khalil Gibran, com lirismo e profundidade, ensinou: "Há aqueles que doam e não sentem dor ao doar, nem buscam alegria, nem doam pensando em virtude.Eles doam como no longínquo vale o mirto exala sua fragrância no espaço. É através dessas mãos que Deus fala, e é por detrás de seus olhos que Deus sorri sobre a Terra".
Seria um invejável gesto de grandeza a distribuição de recursos públicos aos mais sofridos se tal conduta não estivesse marcada por interesses pessoais, por isso mesmo mesquinhos, de feição eleitoral. Quem doa buscando o reconhecimento talvez não perceba que essas dádivas se tornam corruptas.
Nestes dias em que os políticos do Partido dos Trabalhadores passaram a lamber uns aos outros,em comemoração pelos dez anos no poder, é o caso de perguntar: além da farra com dinheiro público, além do fim da corrupção como crime para se converter em ato de esperteza, o que mais eles estão festejando?
Nesses dez anos eles conseguiram praticamente quebrar a Petrobrás, que era uma das empresas mais sólidas do mundo; reduzir o desenvolvimento do País a níveis inferiores aos do Paraguai e da Bolívia; fazer crescer a inflação, que fora zerada por Fernando Henrique Cardoso; e aumentar a carga tributária a praticamente 40% do produto interno bruto (PIB).
Em nenhum outro país do mundo a venda de remédios sofre carga de impostos tão alta como no nosso. Os bens duráveis de consumo, afetados pela mesma carga tributária, custam muito mais do que nos outros países. E os preços são tão absurdos que os brasileiros ficaram viciados em viagens ao exterior apenas para comprar.
Bilhões de dólares de brasileiros engordam a economia americana todos os anos porque os produtos lá vendidos custam muito menos do que aqui, no Brasil. Isso ocorre exatamente no momento em que os petistas aparecem rindo nas fotos. Rindo de quê? Com certeza eles estão rindo de nós e da farra que fizeram nesses dez anos.
Quando Tancredo Neves, com sua habilidade e seu maneirismo, conseguiu eleger-se presidente, arrebatar a Bandeira brasileira das mãos dos militares e devolvê-la a todos nós, ficou a impressão de que o País teria mais sorte e melhor rumo.Mas com o seu trágico falecimento e a posse do biônico José Sarney na Presidência da República, ficou desmentida a ideia enganosa de que Deus é brasileiro. É nada, deve ser suíço.
O lado pior e mais trágico que surgiu nos últimos dez anos foi deixar transparente que é possível cometer na vida pública os mais graves crimes e nada acontecerá. Corrupção, peculato, formação de quadrilha e outros hediondos crimes contra a administração pública foram praticados em grande escala e até agora não se viu um único infrator sendo levado para detrás das grades.
Algumas semanas atrás o mundo teve conhecimento do exemplo invejável da Justiça inglesa, que condenou e determinou a imediata prisão de um figurão da política que cometera infração de trânsito, mas para não ter a imagem afetada publicamente fez sua mulher assumir a responsabilidade pela transgressão. Isso foi descoberto somente dez anos depois, mas, mesmo assim, a Justiça inglesa não perdoou e ele foi direitinho para atrás das grades.
Qualquer pessoa que tenha sentimento de justiça logo perceberá como nós estamos a milhares de anos-luz dessa exemplar conduta.
A ausência de punição tem sido característica marcante em nosso país. Nos últimos tempos, porém, a impunidade assumiu feição muito mais grave, porque os delitos praticados por altos figurões da República continuam à espera de execução da pena. Realmente, ainda que tenham sido condenados pelo Supremo Tribunal Federal, a condenação permanece destituída de eficácia e isso propaga a ideia de que poderosos nunca vão para a cadeia.
Dá para imaginar o que a Justiça inglesa teria feito com José Dirceu, José Genoino, João Paulo Cunha e outros aos quais o linguajar policial atribui terem a "mão cabeluda"? Por incrível que pareça, eles talvez apareçam perante boa parte da população brasileira como pessoas dotadas de invejável esperteza, porque, afinal, a despeito da "mão cabeluda", continuam por aí, sempre aparecendo e rindo nas fotos. Julgados e condenados, são verdadeiros exemplos da ineficácia do nosso sistema jurisdicional.
A Justiça brasileira, infelizmente prisioneira de entraves processuais que herdamos dos romanos, ainda não conseguiu a eficácia e a praticidade da de ingleses e norte-americanos. Estes sabem de sobra que o exemplo da punição influi na redução da criminalidade muito mais do que qualquer repressão policial.
Os políticos do Partido dos Trabalhadores que comemoram os dez anos de governo com certeza não farão nenhuma referência ao fato de o Brasil figurar nos índices internacionais de desenvolvimento humano em 84º lugar e que continuamos a ser um dos campeões mundiais de analfabetismo, além de nossa mortalidade infantil persistir como problema a ser resolvido.
Com a entrada em vigor do Plano Real, em 1994, praticamente zerada a inflação, o dinheiro passou a valer mais e isso beneficiou, sobretudo, as pessoas mais pobres, que foram gradativamente inseridas no processo capitalista de consumo.Essa melhora, contudo, não foi suficiente para tirar da pobreza alguns milhões de brasileiros, que continuam na linha da miserabilidade e, portanto, é mesmo necessário que recebam atendimento do governo, com a distribuição de recursos.
Essa doação de dinheiro público, todavia, não poderia ter a feição lamentavelmente adquirida de subterfúgio político destinado a angariar votos e prestígio eleitoral. Quem doa dinheiro público deveria ter no próprio gesto de doar a recompensa, e não a esperada resposta de apoio e votos.
O poeta de origem árabe Khalil Gibran, com lirismo e profundidade, ensinou: "Há aqueles que doam e não sentem dor ao doar, nem buscam alegria, nem doam pensando em virtude.Eles doam como no longínquo vale o mirto exala sua fragrância no espaço. É através dessas mãos que Deus fala, e é por detrás de seus olhos que Deus sorri sobre a Terra".
Seria um invejável gesto de grandeza a distribuição de recursos públicos aos mais sofridos se tal conduta não estivesse marcada por interesses pessoais, por isso mesmo mesquinhos, de feição eleitoral. Quem doa buscando o reconhecimento talvez não perceba que essas dádivas se tornam corruptas.
Intolerância - AÉCIO NEVES
FOLHA DE SP - 25/02
"Não herdamos nada", disse a presidente Dilma no evento comemorativo dos dez anos do PT no governo federal.
O que à primeira vista pode parecer apenas arrogância esconde, na verdade, um estímulo à intolerância que começa a ficar cada vez mais evidente no discurso e na prática de setores do PT.
A tolerância é componente importante da vida política, assim como o respeito ao contraditório é pressuposto dos regimes democráticos: ambos garantem a convivência entre diferenças.
As recentes celebrações do petismo explicitaram com nitidez essa grave distorção.
Para muitos, trata-se de um traço do partido agravado pela posição defensiva que foi obrigado a assumir após a comprovação das irregularidades cometidas.
Até a legítima defesa de iniciativas do governo passou a vir embalada por desnecessária agressividade, refletindo projeto de poder apequenado pelos seus próprios interesses.
Ao mesmo tempo, talvez não por acaso, limites éticos e republicanos que ultrapassam o sentido formal da legalidade vão sendo atropelados. Foi o caso da presença da presidente em rede oficial de rádio e TV para atacar adversários.
Ao lado da defesa do controle da imprensa, ataques e calúnias que tentam destruir reputações, distribuídos nas redes sociais de forma orientada, transformaram-se em autêntica jornada contra instituições, como o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público e a imprensa; contra autoridades constituídas e forças políticas que militam em outros campos.
São outras faces dessa tendência, que tem como objetivo dificultar o debate democrático. Nunca é demais lembrar que a intolerância é a antessala do autoritarismo.
Acredito que esta postura, crescente em alguns setores do PT, pode ser explicada também pelo desconforto causado pela percepção da sociedade sobre as contradições entre o discurso do passado e as práticas do partido no presente.
Nesse sentido, fiz há poucos dias perguntas que, acredito, são de muitos brasileiros.
Qual PT celebra dez anos no poder? O que fez do discurso da ética durante anos a sua principal bandeira eleitoral ou o que defende em praça pública os réus do mensalão?
O que condenou com ferocidade as privatizações conduzidas pelo PSDB ou o que as realiza hoje sem nenhum constrangimento? O que discursa defendendo um Estado forte ou o que fragiliza empresas públicas nacionais, como a Petrobras e a Eletrobrás?
O que ocupou as ruas lutando pelas liberdades ou o que, no governo, apoia ditaduras e defende o controle da imprensa? O PT que considerava inalienáveis os direitos individuais ou o que se sente ameaçado por uma ativista cuja única arma é a sua consciência?
Qual?
"Não herdamos nada", disse a presidente Dilma no evento comemorativo dos dez anos do PT no governo federal.
O que à primeira vista pode parecer apenas arrogância esconde, na verdade, um estímulo à intolerância que começa a ficar cada vez mais evidente no discurso e na prática de setores do PT.
A tolerância é componente importante da vida política, assim como o respeito ao contraditório é pressuposto dos regimes democráticos: ambos garantem a convivência entre diferenças.
As recentes celebrações do petismo explicitaram com nitidez essa grave distorção.
Para muitos, trata-se de um traço do partido agravado pela posição defensiva que foi obrigado a assumir após a comprovação das irregularidades cometidas.
Até a legítima defesa de iniciativas do governo passou a vir embalada por desnecessária agressividade, refletindo projeto de poder apequenado pelos seus próprios interesses.
Ao mesmo tempo, talvez não por acaso, limites éticos e republicanos que ultrapassam o sentido formal da legalidade vão sendo atropelados. Foi o caso da presença da presidente em rede oficial de rádio e TV para atacar adversários.
Ao lado da defesa do controle da imprensa, ataques e calúnias que tentam destruir reputações, distribuídos nas redes sociais de forma orientada, transformaram-se em autêntica jornada contra instituições, como o Supremo Tribunal Federal, o Ministério Público e a imprensa; contra autoridades constituídas e forças políticas que militam em outros campos.
São outras faces dessa tendência, que tem como objetivo dificultar o debate democrático. Nunca é demais lembrar que a intolerância é a antessala do autoritarismo.
Acredito que esta postura, crescente em alguns setores do PT, pode ser explicada também pelo desconforto causado pela percepção da sociedade sobre as contradições entre o discurso do passado e as práticas do partido no presente.
Nesse sentido, fiz há poucos dias perguntas que, acredito, são de muitos brasileiros.
Qual PT celebra dez anos no poder? O que fez do discurso da ética durante anos a sua principal bandeira eleitoral ou o que defende em praça pública os réus do mensalão?
O que condenou com ferocidade as privatizações conduzidas pelo PSDB ou o que as realiza hoje sem nenhum constrangimento? O que discursa defendendo um Estado forte ou o que fragiliza empresas públicas nacionais, como a Petrobras e a Eletrobrás?
O que ocupou as ruas lutando pelas liberdades ou o que, no governo, apoia ditaduras e defende o controle da imprensa? O PT que considerava inalienáveis os direitos individuais ou o que se sente ameaçado por uma ativista cuja única arma é a sua consciência?
Qual?
Apropriação indébita - DENIS LERRER ROSENFIELD
O GLOBO - 25/02
As campanhas em curso do desarmamento mostram o quanto a liberdade está se tornando um valor relativo em função de supostos bens maiores
A esquerda, sobretudo de orientação marxista, em suas várias vertentes, ficou completamente desorientada após a queda do Muro de Berlim e a derrocada da União soviética. Suas bandeiras e princípios foram lançados por terra, mostrando uma discrepância aterradora entre a realidade totalitária e os princípios supostamente humanistas.
Um caso interessante dessa desorientação foi a apropriação operada pela esquerda da doutrina dos direitos humanos, como se ela fosse uma coisa sua. Isto é particularmente visível no Brasil. Ora, a doutrina dos direitos humanos, no século XX, foi um instrumento dos dissidentes soviéticos e dos países do Leste Europeu para reclamar do controle totalitário e autoritário seguido por seus respectivos governos.
Clamavam eles por liberdade de expressão, de imprensa, de publicação. Lutavam pelo direito de ir e vir, que lhes era proibido. Zakharov, na extinta União Soviética, e Vaclav Havel, depois presidente da República Checa, foram símbolos importantes dessa época. Ou seja, os direitos humanos foram elaborados e usados contra os governos de esquerda, de modo a que viessem a aceitar uma liberdade necessária, de valor universal.
Nessa perspectiva, Yoani Sanchéz, dissidente cubana e colunista do Estadão, nada mais faz do que colocar-se como herdeira dessa tradição dos direitos humanos. Cuba, governo de esquerda, tão prezado por alguns setores de nosso país, é um esbirro caribenho dos governos comunistas. Por via de consequência, os defensores da ditadura dos irmãos Castro são liberticidas que desprezam profundamente os direitos humanos.
A vergonha, utilizando mesmo um termo brando, das manifestações esquerdistas, com seus respectivos apoios partidários, contra a dissidente cubana mostra o quanto certos setores da esquerda, em nosso país, continuam presos aos dogmas totalitários do século passado. Uma visitante impedida fisicamente de falar é um exemplo de como essa doutrina, que deveria ter um valor universal, é pervertida ideologicamente.
O governo brasileiro tem uma Secretaria de Direitos humanos. O mais curioso é a seleção que opera dos valores ditos universais. Se um policial morre no cumprimento do dever, o mutismo é a regra, como se não fosse algo universal. Se um invasor do MST é preso, lá vão os companheiros conclamando o respeito aos direitos humanos. Eloquente também é a omissão do governo brasileiro em relação à questão dos direitos humanos em Cuba. A contradição é flagrante.
No caso de Yoani Sanchéz, o silêncio da Secretaria de Direitos Humanos é de furar os tímpanos. Será que não há nada a ser dito? Nem uma indignação a ser externada em relação a grupos que usam da violência para impedir a liberdade de pensamento de uma digna representante dos direitos humanos?
O outro lado da apropriação se manifesta no uso que se tornou corrente do politicamente correto, como se fosse a outra face dos direitos humanos. O mais interessante aqui consiste nas restrições que operam na liberdade de escolha, como se fosse um valor que deveria ser relativizado em função de “bens” supostamente maiores.
Há setores da esquerda brasileira, do PT aos tucanos, passando pelo novo partido de Marina Silva, que importam o purismo religioso comportamental americano enquanto símbolo da nova esquerda. Os “liberals” americanos, cuja tradução correta deveria ser “trabalhistas” ou “social-democratas”, para distingui-los dos verdadeiros “liberals”, os “liberais” no sentido inglês do termo, estariam fornecendo os novos parâmetros da esquerda. Não deixa de ser interessante constatar que os discursos antiamericanos vêm acompanhados da importação da ideologia esquerdizante americana.
O politicamente correto brasileiro está importando as cotas raciais americanas, apelando para posições morais, como se a solução da miséria em nosso país passasse pela reintrodução de uma nova forma de racialismo, discriminando, em sentido inverso, as pessoas pela cor. Pior ainda, pela autodeclaração da cor, o que aumenta ainda mais o componente ideológico dessa diferenciação/discriminação. O valor universal da igualdade entre as pessoas perde-se no ralo.
Outra importação reside nas restrições à liberdade de fumar e, mesmo, por extensão as tentativas de interferência na própria produção de tabaco, produto, aliás, importante da pauta de exportação brasileira. Não se trata, evidentemente, de defender que uma pessoa tenha o direito de dar uma baforada na cara de outro, mas tão simplesmente de guardar o respeito à liberdade de escolha de cada um em lugares adequados e separados. Marina Silva chegou a considerar a indústria do tabaco como “algo sujo”, quando se trata de um setor que se caracteriza pelo desenvolvimento sustentável em sua área agrícola, cultivada por agricultores familiares.
Outro exemplo ainda é a campanha crescente que só tende a aumentar contra o consumo de álcool, alcançando proibições draconianas na direção de veículos. Beber está se tornando um ato que vem a ser identificado a um dano irremediável à saúde, podendo se traduzir, mesmo, pela morte do próximo. Estamos voltando ideologicamente à doutrina da lei seca americana, revigorada de outra maneira pelo purismo comportamental religioso.
Outra questão que se encaixa nessa “cruzada” do politicamente correto é o controle quase total da liberdade de escolha dos cidadãos, no exercício legítimo — e universal — do direito à autodefesa. As campanhas em curso do desarmamento, deixando o cidadão completamente a mercê, em um Estado incapaz de assegurar a segurança física de seus membros, mostram o quanto a liberdade está se tornando um valor relativo em função de supostos bens maiores.
Os direitos humanos, tais como foram elaborados e defendidos no século XX, inclusive pelos críticos dos governos de esquerda, apresentam posições de defesa irrestrita da liberdade de escolha em todos os seus níveis, contra as ideologias coletivistas e totalitárias.
As campanhas em curso do desarmamento mostram o quanto a liberdade está se tornando um valor relativo em função de supostos bens maiores
A esquerda, sobretudo de orientação marxista, em suas várias vertentes, ficou completamente desorientada após a queda do Muro de Berlim e a derrocada da União soviética. Suas bandeiras e princípios foram lançados por terra, mostrando uma discrepância aterradora entre a realidade totalitária e os princípios supostamente humanistas.
Um caso interessante dessa desorientação foi a apropriação operada pela esquerda da doutrina dos direitos humanos, como se ela fosse uma coisa sua. Isto é particularmente visível no Brasil. Ora, a doutrina dos direitos humanos, no século XX, foi um instrumento dos dissidentes soviéticos e dos países do Leste Europeu para reclamar do controle totalitário e autoritário seguido por seus respectivos governos.
Clamavam eles por liberdade de expressão, de imprensa, de publicação. Lutavam pelo direito de ir e vir, que lhes era proibido. Zakharov, na extinta União Soviética, e Vaclav Havel, depois presidente da República Checa, foram símbolos importantes dessa época. Ou seja, os direitos humanos foram elaborados e usados contra os governos de esquerda, de modo a que viessem a aceitar uma liberdade necessária, de valor universal.
Nessa perspectiva, Yoani Sanchéz, dissidente cubana e colunista do Estadão, nada mais faz do que colocar-se como herdeira dessa tradição dos direitos humanos. Cuba, governo de esquerda, tão prezado por alguns setores de nosso país, é um esbirro caribenho dos governos comunistas. Por via de consequência, os defensores da ditadura dos irmãos Castro são liberticidas que desprezam profundamente os direitos humanos.
A vergonha, utilizando mesmo um termo brando, das manifestações esquerdistas, com seus respectivos apoios partidários, contra a dissidente cubana mostra o quanto certos setores da esquerda, em nosso país, continuam presos aos dogmas totalitários do século passado. Uma visitante impedida fisicamente de falar é um exemplo de como essa doutrina, que deveria ter um valor universal, é pervertida ideologicamente.
O governo brasileiro tem uma Secretaria de Direitos humanos. O mais curioso é a seleção que opera dos valores ditos universais. Se um policial morre no cumprimento do dever, o mutismo é a regra, como se não fosse algo universal. Se um invasor do MST é preso, lá vão os companheiros conclamando o respeito aos direitos humanos. Eloquente também é a omissão do governo brasileiro em relação à questão dos direitos humanos em Cuba. A contradição é flagrante.
No caso de Yoani Sanchéz, o silêncio da Secretaria de Direitos Humanos é de furar os tímpanos. Será que não há nada a ser dito? Nem uma indignação a ser externada em relação a grupos que usam da violência para impedir a liberdade de pensamento de uma digna representante dos direitos humanos?
O outro lado da apropriação se manifesta no uso que se tornou corrente do politicamente correto, como se fosse a outra face dos direitos humanos. O mais interessante aqui consiste nas restrições que operam na liberdade de escolha, como se fosse um valor que deveria ser relativizado em função de “bens” supostamente maiores.
Há setores da esquerda brasileira, do PT aos tucanos, passando pelo novo partido de Marina Silva, que importam o purismo religioso comportamental americano enquanto símbolo da nova esquerda. Os “liberals” americanos, cuja tradução correta deveria ser “trabalhistas” ou “social-democratas”, para distingui-los dos verdadeiros “liberals”, os “liberais” no sentido inglês do termo, estariam fornecendo os novos parâmetros da esquerda. Não deixa de ser interessante constatar que os discursos antiamericanos vêm acompanhados da importação da ideologia esquerdizante americana.
O politicamente correto brasileiro está importando as cotas raciais americanas, apelando para posições morais, como se a solução da miséria em nosso país passasse pela reintrodução de uma nova forma de racialismo, discriminando, em sentido inverso, as pessoas pela cor. Pior ainda, pela autodeclaração da cor, o que aumenta ainda mais o componente ideológico dessa diferenciação/discriminação. O valor universal da igualdade entre as pessoas perde-se no ralo.
Outra importação reside nas restrições à liberdade de fumar e, mesmo, por extensão as tentativas de interferência na própria produção de tabaco, produto, aliás, importante da pauta de exportação brasileira. Não se trata, evidentemente, de defender que uma pessoa tenha o direito de dar uma baforada na cara de outro, mas tão simplesmente de guardar o respeito à liberdade de escolha de cada um em lugares adequados e separados. Marina Silva chegou a considerar a indústria do tabaco como “algo sujo”, quando se trata de um setor que se caracteriza pelo desenvolvimento sustentável em sua área agrícola, cultivada por agricultores familiares.
Outro exemplo ainda é a campanha crescente que só tende a aumentar contra o consumo de álcool, alcançando proibições draconianas na direção de veículos. Beber está se tornando um ato que vem a ser identificado a um dano irremediável à saúde, podendo se traduzir, mesmo, pela morte do próximo. Estamos voltando ideologicamente à doutrina da lei seca americana, revigorada de outra maneira pelo purismo comportamental religioso.
Outra questão que se encaixa nessa “cruzada” do politicamente correto é o controle quase total da liberdade de escolha dos cidadãos, no exercício legítimo — e universal — do direito à autodefesa. As campanhas em curso do desarmamento, deixando o cidadão completamente a mercê, em um Estado incapaz de assegurar a segurança física de seus membros, mostram o quanto a liberdade está se tornando um valor relativo em função de supostos bens maiores.
Os direitos humanos, tais como foram elaborados e defendidos no século XX, inclusive pelos críticos dos governos de esquerda, apresentam posições de defesa irrestrita da liberdade de escolha em todos os seus níveis, contra as ideologias coletivistas e totalitárias.
As usinas estão parando - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 25/02
Soam como zombaria as palavras pronunciadas há seis anos pelo então presidente Lula, quando - ao comentar o memorando de cooperação para a produção de álcool combustível que ele e o presidente americano George W. Bush acabavam de assinar - afirmou que se abria, então, "um novo momento para a humanidade". O ex-presidente dizia que Brasil e Estados Unidos, os dois países líderes na produção de biocombustíveis, estimulariam a produção global de etanol, dando assim "uma contribuição inestimável para a geração de renda, para a inclusão social e para a redução da pobreza em muitos países". A política energética dos governos chefiados pelo PT, primeiro o de Lula e agora o de Dilma Rousseff, agravou os problemas enfrentados pelos produtores de etanol no País e levou a uma crise que, mesmo se enfrentada adequadamente, demorará para ser debelada.
Nos próximos dois ou três anos, 60 das 330 usinas de açúcar e de etanol da região Centro-Sul, que respondem por 90% da cana-de-açúcar processada no País, encerrarão suas operações ou serão vendidas, como mostrou reportagem do Estado. A previsão é da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Por dificuldades financeiras, pelo menos dez usinas não processarão a safra 2013/2014.
Desde 2008, quando começou a crise mundial, não se anunciou nenhuma decisão de instalação de novas usinas. Quatro unidades devem entrar em operação até 2014, mas seus projetos estavam decididos antes do início da crise. Em compensação, 36 usinas entraram com pedido de recuperação judicial e 40 foram desativadas. Só em 2012, o setor fechou 18 mil postos de trabalho.
A dívida das empresas do setor, no final da safra 2013/2014, deverá chegar a R$ 56 bilhões, R$ 4 bilhões mais do que o total apurado no final da safra anterior e pouco abaixo do faturamento projetado para as usinas do Centro-Sul, de R$ 60 bilhões.
É um quadro totalmente diferente daquele anunciado pelo governo, segundo o qual o Brasil se tornaria referência e líder mundial na produção de etanol de cana. Para provar isso, o Brasil precisou convencer os grandes países consumidores - os da Europa e os Estados Unidos, sobretudo - de que o etanol de cana-de-açúcar brasileiro era um combustível avançado e de alta produtividade. O acordo entre os governos brasileiro e americano foi um passo importante na consolidação da imagem do etanol brasileiro. O americano é produzido a partir do milho, e o uso intensivo desse cereal na produção de álcool impulsiona sua cotação internacional.
A crise mundial afetou a capacidade financeira das usinas brasileiras. Investimentos em novas unidades e ampliação das existentes foram suspensos, não foram plantadas as novas áreas necessárias, a produtividade caiu e o Brasil perdeu a condição de produtor de menor custo. A produção de cana e de álcool, que cresceu cerca de 10% ao ano entre 2004 e 2008, diminuiu no ano passado, enquanto a de veículos aumentou 3%.
O congelamento do preço do combustível no mercado interno, imposto pelo governo para conter a inflação, resultou em perdas severas para a Petrobrás e tornou o etanol ainda menos competitivo. As usinas adaptadas para isso passaram a produzir mais açúcar, cujo preço internacional é mais compensador do que o do etanol. A política do governo tornou mais grave uma crise que já era difícil para o setor, por causa de problemas financeiros e também da ocorrência de uma seca severa entre 2010 e 2011.
Ironicamente, essa crise se tornou mais grave justamente no momento em que, como o Brasil sempre reivindicou, as usinas brasileiras poderiam estar livremente abastecendo o mercado americano, pois, por problemas fiscais, o governo de Washington eliminou o subsídio ao etanol de milho e a sobretaxa sobre o etanol importado.
A correção do preço do combustível e o aumento de 20% para 25% do porcentual do etanol na gasolina tendem a melhorar a situação das usinas. Mas são medidas de curto prazo. O setor carece de segurança para investir, o que depende, entre outros fatores, de definição clara do governo sobre o papel do etanol na matriz energética, por exemplo.
Soam como zombaria as palavras pronunciadas há seis anos pelo então presidente Lula, quando - ao comentar o memorando de cooperação para a produção de álcool combustível que ele e o presidente americano George W. Bush acabavam de assinar - afirmou que se abria, então, "um novo momento para a humanidade". O ex-presidente dizia que Brasil e Estados Unidos, os dois países líderes na produção de biocombustíveis, estimulariam a produção global de etanol, dando assim "uma contribuição inestimável para a geração de renda, para a inclusão social e para a redução da pobreza em muitos países". A política energética dos governos chefiados pelo PT, primeiro o de Lula e agora o de Dilma Rousseff, agravou os problemas enfrentados pelos produtores de etanol no País e levou a uma crise que, mesmo se enfrentada adequadamente, demorará para ser debelada.
Nos próximos dois ou três anos, 60 das 330 usinas de açúcar e de etanol da região Centro-Sul, que respondem por 90% da cana-de-açúcar processada no País, encerrarão suas operações ou serão vendidas, como mostrou reportagem do Estado. A previsão é da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica). Por dificuldades financeiras, pelo menos dez usinas não processarão a safra 2013/2014.
Desde 2008, quando começou a crise mundial, não se anunciou nenhuma decisão de instalação de novas usinas. Quatro unidades devem entrar em operação até 2014, mas seus projetos estavam decididos antes do início da crise. Em compensação, 36 usinas entraram com pedido de recuperação judicial e 40 foram desativadas. Só em 2012, o setor fechou 18 mil postos de trabalho.
A dívida das empresas do setor, no final da safra 2013/2014, deverá chegar a R$ 56 bilhões, R$ 4 bilhões mais do que o total apurado no final da safra anterior e pouco abaixo do faturamento projetado para as usinas do Centro-Sul, de R$ 60 bilhões.
É um quadro totalmente diferente daquele anunciado pelo governo, segundo o qual o Brasil se tornaria referência e líder mundial na produção de etanol de cana. Para provar isso, o Brasil precisou convencer os grandes países consumidores - os da Europa e os Estados Unidos, sobretudo - de que o etanol de cana-de-açúcar brasileiro era um combustível avançado e de alta produtividade. O acordo entre os governos brasileiro e americano foi um passo importante na consolidação da imagem do etanol brasileiro. O americano é produzido a partir do milho, e o uso intensivo desse cereal na produção de álcool impulsiona sua cotação internacional.
A crise mundial afetou a capacidade financeira das usinas brasileiras. Investimentos em novas unidades e ampliação das existentes foram suspensos, não foram plantadas as novas áreas necessárias, a produtividade caiu e o Brasil perdeu a condição de produtor de menor custo. A produção de cana e de álcool, que cresceu cerca de 10% ao ano entre 2004 e 2008, diminuiu no ano passado, enquanto a de veículos aumentou 3%.
O congelamento do preço do combustível no mercado interno, imposto pelo governo para conter a inflação, resultou em perdas severas para a Petrobrás e tornou o etanol ainda menos competitivo. As usinas adaptadas para isso passaram a produzir mais açúcar, cujo preço internacional é mais compensador do que o do etanol. A política do governo tornou mais grave uma crise que já era difícil para o setor, por causa de problemas financeiros e também da ocorrência de uma seca severa entre 2010 e 2011.
Ironicamente, essa crise se tornou mais grave justamente no momento em que, como o Brasil sempre reivindicou, as usinas brasileiras poderiam estar livremente abastecendo o mercado americano, pois, por problemas fiscais, o governo de Washington eliminou o subsídio ao etanol de milho e a sobretaxa sobre o etanol importado.
A correção do preço do combustível e o aumento de 20% para 25% do porcentual do etanol na gasolina tendem a melhorar a situação das usinas. Mas são medidas de curto prazo. O setor carece de segurança para investir, o que depende, entre outros fatores, de definição clara do governo sobre o papel do etanol na matriz energética, por exemplo.
Tacape - GEORGE VIDOR
O GLOBO - 25/02
Os juros altos entorpeceram a economia brasileira. Criaram ilusões e não venceram a inflação crônica
A dificuldade de explicar a inflação em economias como a do Brasil é tanta que em determinados momentos isso já deu margem para o surgimento de teorias esdrúxulas, que até vinculavam a trajetória dos preços a uma certa fraqueza de caráter de habitantes dos trópicos. Quando os sistemas econômicos eram aparentemente simples ficava mais fácil vincular a inflação à quantidade de moeda em circulação, conceituando-se como tal o dinheiro emitido somado aos depósitos bancários. Hoje, se as autoridades monetárias só olhassem para esse conceito estariam perdidas. Se o Tesouro quer reforçar o caixa do BNDES emite títulos e entrega ao banco. Isso vira "moeda" de imediato, pois há um mercado que garante liquidez diária para eles, com considerável ajuda do Banco Central, que não deixa o sistema financeiro "micar" com esses papéis (no máximo, pode impor alguma perda nas chamadas operações compromissadas, quando fica evidente que o banco assumira riscos demasiados).
Não fosse esses mecanismos, que sempre funcionaram bem no Brasil, o país já teria ficado, anos atrás, pior do que a Grécia atual, por absoluta insolvência do setor público (chegamos a ficar próximo disso, em certos momentos).
Em face dessa confusão de "moedas" é difícil combater a inflação pelo lado puramente monetário, pois nem se sabe o efeito que as medidas clássicas ocasionam na economia real. Uma alta na taxa de juros pode ter impacto inverso ao desejado, da mesma maneira que uma baixa. Somente agora, com a dívida líquida do setor público reduzida, correspondendo a 35% do Produto Interno Bruto, o Tesouro consegue ir eliminando a parcela do endividamento que se apoia em papéis de curtíssimo prazo. Sem "matéria-prima" disponível, os mercados estão buscando novos caminhos para remunerar a poupança financeira. A ilusão do almoço grátis, com a possibilidade de nos acomodarmos confortavelmente como rentistas ainda persiste, mas certamente diminuiu com a queda dos juros no ano passado.
Esse é um tipo de "ganho" ou melhor, "perda" da ilusão sobre os juros altos eternos, não mensurável, mas que sem dúvida contribuirá para a economia brasileira ter uma inflação "mais normal" no futuro. Os juros excessivamente altos não conseguiram quebrar o círculo vicioso da indexação. Não há categoria profissional que não aguarde ansiosamente no Brasil pela data do dissídio coletivo; o aumento do salário mínimo, no primeiro dia do ano, já virou um acontecimento político; alugueis, anuidades escolares, impostos são corrigidos anualmente, porque também é preciso repor as perdas com a elevação de custos e despesas. Nesse ambiente, a inflação só cai com oferta abundante ou demanda reprimida a tacape.
E como não surgem propostas factíveis para desatar esse nó, a única terapia que os mercados rlamam é o do tacape dos juros altos. Na sua próxima reunião, é possível que o Comitê de Política Monetária (Copom) volte a elevá-los. Tomara que a alta seja em doses moderadas, que não signifiquem um retrocesso em relação ao terreno conquistado nessa batalha contra os juros que entorpeceram a economia brasileira por tanto tempo."
Economia esfinge
Já na reta final do primeiro trimestre, ainda discutimos sobre quanto o Brasil deverá crescer em 2013. A economia brasileira é uma esfinge, que ameaça devorar quem não a decifra.
Linhão de fibras ópticas
A enorme linha de transmissão de energia elétrica que interligará Manaus e Macapá ao resto do país, co-nectando-se em Tucuruí ào sistema nacional, está pronta, e sua contribuição rião se restringirá à eletricidade. Pelas torres também passa agora uma rede de fibras ópticas, que ficará aos cuidados da TIM, vencedora da licitação entre as operadoras de telecomunicações. Como é de hábito no setor, a rede será compartilhada com outros operadores que vêm negociando contratos com a TIM. Hoje a Amazônia é atendida basicamente por satélite e sistemas de microondas, com estações base que ficam junto a rodovias, e são de difícil manutenção. A fibra óptica possibilitará um avanço considerável não só nos serviços de voz (as ligações interurbanas de e para Manaus terão mais qualidade), mas também na transmissão de dados e imagens. Sem as linhas de transmissão de energia elétrica, esse investimento em telecomunicações seria inviável. E o uso compartilhado certamente contribuiu para reduzir o custo do investimento, feito pelo consórcio responsável pelo novo linhão. A TIM tinha apenas nove quilômetros de fibras ópticas, há poucos anos. Agora sua malha passa de 54 mil quilômetros.
Os juros altos entorpeceram a economia brasileira. Criaram ilusões e não venceram a inflação crônica
A dificuldade de explicar a inflação em economias como a do Brasil é tanta que em determinados momentos isso já deu margem para o surgimento de teorias esdrúxulas, que até vinculavam a trajetória dos preços a uma certa fraqueza de caráter de habitantes dos trópicos. Quando os sistemas econômicos eram aparentemente simples ficava mais fácil vincular a inflação à quantidade de moeda em circulação, conceituando-se como tal o dinheiro emitido somado aos depósitos bancários. Hoje, se as autoridades monetárias só olhassem para esse conceito estariam perdidas. Se o Tesouro quer reforçar o caixa do BNDES emite títulos e entrega ao banco. Isso vira "moeda" de imediato, pois há um mercado que garante liquidez diária para eles, com considerável ajuda do Banco Central, que não deixa o sistema financeiro "micar" com esses papéis (no máximo, pode impor alguma perda nas chamadas operações compromissadas, quando fica evidente que o banco assumira riscos demasiados).
Não fosse esses mecanismos, que sempre funcionaram bem no Brasil, o país já teria ficado, anos atrás, pior do que a Grécia atual, por absoluta insolvência do setor público (chegamos a ficar próximo disso, em certos momentos).
Em face dessa confusão de "moedas" é difícil combater a inflação pelo lado puramente monetário, pois nem se sabe o efeito que as medidas clássicas ocasionam na economia real. Uma alta na taxa de juros pode ter impacto inverso ao desejado, da mesma maneira que uma baixa. Somente agora, com a dívida líquida do setor público reduzida, correspondendo a 35% do Produto Interno Bruto, o Tesouro consegue ir eliminando a parcela do endividamento que se apoia em papéis de curtíssimo prazo. Sem "matéria-prima" disponível, os mercados estão buscando novos caminhos para remunerar a poupança financeira. A ilusão do almoço grátis, com a possibilidade de nos acomodarmos confortavelmente como rentistas ainda persiste, mas certamente diminuiu com a queda dos juros no ano passado.
Esse é um tipo de "ganho" ou melhor, "perda" da ilusão sobre os juros altos eternos, não mensurável, mas que sem dúvida contribuirá para a economia brasileira ter uma inflação "mais normal" no futuro. Os juros excessivamente altos não conseguiram quebrar o círculo vicioso da indexação. Não há categoria profissional que não aguarde ansiosamente no Brasil pela data do dissídio coletivo; o aumento do salário mínimo, no primeiro dia do ano, já virou um acontecimento político; alugueis, anuidades escolares, impostos são corrigidos anualmente, porque também é preciso repor as perdas com a elevação de custos e despesas. Nesse ambiente, a inflação só cai com oferta abundante ou demanda reprimida a tacape.
E como não surgem propostas factíveis para desatar esse nó, a única terapia que os mercados rlamam é o do tacape dos juros altos. Na sua próxima reunião, é possível que o Comitê de Política Monetária (Copom) volte a elevá-los. Tomara que a alta seja em doses moderadas, que não signifiquem um retrocesso em relação ao terreno conquistado nessa batalha contra os juros que entorpeceram a economia brasileira por tanto tempo."
Economia esfinge
Já na reta final do primeiro trimestre, ainda discutimos sobre quanto o Brasil deverá crescer em 2013. A economia brasileira é uma esfinge, que ameaça devorar quem não a decifra.
Linhão de fibras ópticas
A enorme linha de transmissão de energia elétrica que interligará Manaus e Macapá ao resto do país, co-nectando-se em Tucuruí ào sistema nacional, está pronta, e sua contribuição rião se restringirá à eletricidade. Pelas torres também passa agora uma rede de fibras ópticas, que ficará aos cuidados da TIM, vencedora da licitação entre as operadoras de telecomunicações. Como é de hábito no setor, a rede será compartilhada com outros operadores que vêm negociando contratos com a TIM. Hoje a Amazônia é atendida basicamente por satélite e sistemas de microondas, com estações base que ficam junto a rodovias, e são de difícil manutenção. A fibra óptica possibilitará um avanço considerável não só nos serviços de voz (as ligações interurbanas de e para Manaus terão mais qualidade), mas também na transmissão de dados e imagens. Sem as linhas de transmissão de energia elétrica, esse investimento em telecomunicações seria inviável. E o uso compartilhado certamente contribuiu para reduzir o custo do investimento, feito pelo consórcio responsável pelo novo linhão. A TIM tinha apenas nove quilômetros de fibras ópticas, há poucos anos. Agora sua malha passa de 54 mil quilômetros.
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 25/02
Indústria terá de reciclar 17% de eletroeletrônicos
A indústria de eletroeletrônicos terá de recolher e reciclar 17% dos produtos que forem colocados no mercado, de acordo com edital do governo federal.
A meta terá de ser cumprida em até cinco anos após a assinatura do acordo entre as partes. A data inicial ainda não foi estipulada.
O setor tem até o dia 13 de junho para apresentar um plano de ação para o Ministério do Meio Ambiente
"Poderíamos nos comprometer a reciclar 100% dos produtos que nos forem entregues pelos consumidores, mas não 17% de tudo que for produzido", diz Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee).
"Como as indústrias vão saber com quem estão os produtos após sua vida útil?", diz.
Se as propostas não forem aceitas pelo ministério, valerá as determinações que já constam no edital.
"É preciso uma responsabilidade compartilhada das comunidades envolvidas", diz a advogada Roberta Danelon Leonhardt, sócia da área ambiental do escritório Machado Meyer.
"Muitas pessoas podem querer vender ao invés de entregar em um ponto de reciclagem. Por isso é mais prudente mudar a proposta para a reciclagem de 100% dos produtos entregues nos pontos de coleta", afirma a advogada Ana Grizzi, sócia do Veirano Advogados.
Catálogo Ordenado
O Google lança hoje no Brasil um canal no YouTube que permitirá aos usuários saber quais foram os vídeos mais vistos em uma data específica passada.
Atualmente é possível conhecer apenas os mais acessados recentemente.
"É um projeto com a capacidade de capturar tendências do consumo de vídeo e, cada vez mais, as pessoas querem saber quais são elas", diz o presidente da empresa no Brasil, Fábio Coelho.
A ferramenta começou a ser desenvolvida no ano passado em parceria com o Itaú.
Inicialmente, o canal estará disponível em todo o mundo, mas com dados apenas dos usuários brasileiros.
"Em breve, devemos ter as tendências globais, começando pelos acessos dos Estados Unidos e da Inglaterra", afirma Cinthia Assali, uma das responsáveis pelo desenvolvimento do projeto.
As informações dos vídeos mais vistos desde outubro de 2012, mês em que os primeiros testes do canal começaram a ser realizados, são as que estarão disponíveis.
Tinta nova
A Suvinil, empresa produtora de tintas imobiliárias, começará a atuar no ramo de produtos para a construção civil.
Artigos como impermeabilizantes, adesivos e mantas líquidas estarão no mercado no começo de março.
O lançamento será feito nas 200 maiores lojas dentre os 30 mil pontos de venda que contam com os produtos da marca, 60 estão na capital paulista.
O investimento para a diversificação dos negócios da empresa foi baixo, segundo Antônio Carlos Lacerda, vice-presidente-sênior da Basf, grupo do setor químico dono da Suvinil.
"A Basf é detentora da tecnologia na área de impermeabilização e o que fizemos foi aproveitar a força que a marca Suvinil tem no mercado brasileiro".
Segundo Lacerda, uma pesquisa foi realizada com varejistas para o lançamento. A previsão da empresa é conquistar 20% do mercado até o fim de 2014.
Oportunidade francesa
Empresas brasileiras dos setores de serviços (40%) são as que mais consultam a Câmara de Comércio França-Brasil (CCFB-SP) para investir no país europeus. As companhias da indústria e agroalimentar ficam com 10% e 9%, respectivamente.
Em 2012, 149 empresas brasileiras entraram em contato com a entidade para obter informações sobre a França. O setor da aeronáutica liderou o ranking de consultas.
A inflação volta ao centro do debate - LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
VALOR ECONÔMICO - 25/02
A questão da inflação voltou definitivamente ao centro do debate econômico no Brasil. Mesmo a forma como o Banco Central vem administrando o sistema de metas de inflação começou a ser questionada por grande parte dos formadores de opinião. O sistema de metas teve um período de grande credibilidade durante os anos Lula, quando a instituição foi presidida pelo sr. Henrique Meirelles. Mas, na primeira metade do mandato da presidenta Dilma ocorreu uma mudança importante com a introdução do chamado sistema dual de mandatos.
No início, essa mudança de foco esteve alinhada com a posição de bancos centrais conservadores em vários países importantes e parecia seguir um novo paradigma de atuação no mundo pós-crise. Mas, diferentemente do que ocorreu em outras regiões do mundo - principalmente nos Estados Unidos e na Europa - a inflação no Brasil nesse período seguiu sempre acima do centro do sistema de metas e, mesmo flertou por várias vezes com números acima do limite superior da banda de flutuação. Recentemente, principalmente a partir de certas decisões administrativas do governo com o objetivo de interferir em itens importantes do IPCA, a credibilidade do Banco Central ficou seriamente arranhada.
Sem a âncora de expectativas, representada pelo compromisso do Banco Central de sempre buscar o centro da meta, os preços de mercado passaram a apresentar recentemente uma taxa de dispersão mensal compatível com taxas de inflação superiores a 7% ao ano. Contribuiu em muito para esse novo paradigma de dispersão de preços internos a política do governo de - deliberadamente - enfraquecer o real em relação ao dólar americano na segunda parte de 2012. Ao permitir uma desvalorização superior a 20% em curto espaço de tempo e sinalizar que ela poderia ser ainda maior no futuro, o governo desestabilizou a outra âncora interna para referência de preços futuros, representada pela taxa de câmbio. Como resultado dessas duas mudanças voltou de forma mais forte a indexação de preços de mercado às taxas passadas de inflação, tornando a política de controle da inflação bem menos eficaz que no passado recente.
A situação não se tornou mais dramática porque o consumidor pisou nos breques de seu endividamento
A situação da inflação só não se tornou mais dramática porque nos últimos meses de 2012 - e agora em 2013 - o consumidor brasileiro, pressionado pelo elevado comprometimento de sua renda com o serviço do crédito bancário, foi obrigado a pisar nos breques de seu endividamento. Esse comportamento está associado no Brasil à abrangência - e eficácia - do uso do sistema Serasa de acompanhamento de inadimplência por empresas e bancos. A vida do devedor em atraso no Brasil não é fácil. Com o sistema bancário privado também reduzindo as taxas de expansão de crédito para ajustar suas carteiras a um ambiente de crescimento econômico mais reduzido, evitou-se que um choque especulativo de demanda agravasse ainda mais a pressão sobre a inflação.
Some-se a esses fatores de natureza conjuntural o fato de que por questões de oferta - principalmente no mercado de trabalho - temos pressões de natureza estrutural atuando sobre o sistema de preços hoje no Brasil. A massa total de salários, crescendo a taxas próximas aos 5% ao ano, e o desemprego muito baixo devem manter o otimismo do cidadão consumidor ao longo de 2013. Por essa razão as projeções de inflação, que no Brasil têm uma abrangência e credibilidade muito grandes, têm sempre incorporadas aumentos no futuro próximo.
Nas condições atuais de oferta e demanda, uma ação do Banco Central para estabilizar o IPCA ao redor do centro da meta de 4,5% ao ano exigirá uma elevação dos juros suficientemente grande para reduzir o hiato atual. Ou seja, para devolver de forma definitiva a tranquilidade de longo prazo no âmbito das expectativas inflacionárias será necessário um período de recessão na economia.
Mas será isso viável em um momento em que começamos a viver de forma mais intensa o período eleitoral de 2014? Parece-me que dificilmente o Banco Central terá o mandato para realizar esse trabalho. Portanto um plano B terá que ser desenvolvido para levar o país até as eleições do próximo ano e a um novo mandato presidencial em 2015 sem que a inflação provoque uma crise econômica. Um primeiro elemento desse plano deve ser a estabilização da taxa de câmbio para que uma das âncoras de médio prazo de nosso sistema de preços seja restabelecida. O sucesso dessa medida poderá ser medido acompanhando-se nos próximos meses a taxa de dispersão de preços do IPCA. Um segundo elemento da ação do governo pode ser o aumento simbólico das taxas de juros 100 a 150 pontos. O efeito dessa medida sobre o hiato do produto será pequeno, mas pode evitar uma perda maior de credibilidade por parte do Banco Central. Uma terceira ação deve abranger a construção de um discurso mais coerente e homogêneo do governo, evitando-se que membros do segundo escalão criem uma cacofonia deletéria neste momento.
Finalmente seria importante que o governo adotasse uma atitude mais alinhada com os interesses e valores do setor privado, evitando a continuada repetição de intervenções abruptas em contratos e regras de funcionamento de uma verdadeira economia de mercado.
A questão da inflação voltou definitivamente ao centro do debate econômico no Brasil. Mesmo a forma como o Banco Central vem administrando o sistema de metas de inflação começou a ser questionada por grande parte dos formadores de opinião. O sistema de metas teve um período de grande credibilidade durante os anos Lula, quando a instituição foi presidida pelo sr. Henrique Meirelles. Mas, na primeira metade do mandato da presidenta Dilma ocorreu uma mudança importante com a introdução do chamado sistema dual de mandatos.
No início, essa mudança de foco esteve alinhada com a posição de bancos centrais conservadores em vários países importantes e parecia seguir um novo paradigma de atuação no mundo pós-crise. Mas, diferentemente do que ocorreu em outras regiões do mundo - principalmente nos Estados Unidos e na Europa - a inflação no Brasil nesse período seguiu sempre acima do centro do sistema de metas e, mesmo flertou por várias vezes com números acima do limite superior da banda de flutuação. Recentemente, principalmente a partir de certas decisões administrativas do governo com o objetivo de interferir em itens importantes do IPCA, a credibilidade do Banco Central ficou seriamente arranhada.
Sem a âncora de expectativas, representada pelo compromisso do Banco Central de sempre buscar o centro da meta, os preços de mercado passaram a apresentar recentemente uma taxa de dispersão mensal compatível com taxas de inflação superiores a 7% ao ano. Contribuiu em muito para esse novo paradigma de dispersão de preços internos a política do governo de - deliberadamente - enfraquecer o real em relação ao dólar americano na segunda parte de 2012. Ao permitir uma desvalorização superior a 20% em curto espaço de tempo e sinalizar que ela poderia ser ainda maior no futuro, o governo desestabilizou a outra âncora interna para referência de preços futuros, representada pela taxa de câmbio. Como resultado dessas duas mudanças voltou de forma mais forte a indexação de preços de mercado às taxas passadas de inflação, tornando a política de controle da inflação bem menos eficaz que no passado recente.
A situação não se tornou mais dramática porque o consumidor pisou nos breques de seu endividamento
A situação da inflação só não se tornou mais dramática porque nos últimos meses de 2012 - e agora em 2013 - o consumidor brasileiro, pressionado pelo elevado comprometimento de sua renda com o serviço do crédito bancário, foi obrigado a pisar nos breques de seu endividamento. Esse comportamento está associado no Brasil à abrangência - e eficácia - do uso do sistema Serasa de acompanhamento de inadimplência por empresas e bancos. A vida do devedor em atraso no Brasil não é fácil. Com o sistema bancário privado também reduzindo as taxas de expansão de crédito para ajustar suas carteiras a um ambiente de crescimento econômico mais reduzido, evitou-se que um choque especulativo de demanda agravasse ainda mais a pressão sobre a inflação.
Some-se a esses fatores de natureza conjuntural o fato de que por questões de oferta - principalmente no mercado de trabalho - temos pressões de natureza estrutural atuando sobre o sistema de preços hoje no Brasil. A massa total de salários, crescendo a taxas próximas aos 5% ao ano, e o desemprego muito baixo devem manter o otimismo do cidadão consumidor ao longo de 2013. Por essa razão as projeções de inflação, que no Brasil têm uma abrangência e credibilidade muito grandes, têm sempre incorporadas aumentos no futuro próximo.
Nas condições atuais de oferta e demanda, uma ação do Banco Central para estabilizar o IPCA ao redor do centro da meta de 4,5% ao ano exigirá uma elevação dos juros suficientemente grande para reduzir o hiato atual. Ou seja, para devolver de forma definitiva a tranquilidade de longo prazo no âmbito das expectativas inflacionárias será necessário um período de recessão na economia.
Mas será isso viável em um momento em que começamos a viver de forma mais intensa o período eleitoral de 2014? Parece-me que dificilmente o Banco Central terá o mandato para realizar esse trabalho. Portanto um plano B terá que ser desenvolvido para levar o país até as eleições do próximo ano e a um novo mandato presidencial em 2015 sem que a inflação provoque uma crise econômica. Um primeiro elemento desse plano deve ser a estabilização da taxa de câmbio para que uma das âncoras de médio prazo de nosso sistema de preços seja restabelecida. O sucesso dessa medida poderá ser medido acompanhando-se nos próximos meses a taxa de dispersão de preços do IPCA. Um segundo elemento da ação do governo pode ser o aumento simbólico das taxas de juros 100 a 150 pontos. O efeito dessa medida sobre o hiato do produto será pequeno, mas pode evitar uma perda maior de credibilidade por parte do Banco Central. Uma terceira ação deve abranger a construção de um discurso mais coerente e homogêneo do governo, evitando-se que membros do segundo escalão criem uma cacofonia deletéria neste momento.
Finalmente seria importante que o governo adotasse uma atitude mais alinhada com os interesses e valores do setor privado, evitando a continuada repetição de intervenções abruptas em contratos e regras de funcionamento de uma verdadeira economia de mercado.
É possível resgatar a Petrobrás? - ADRIANO PIRES
O ESTADO DE S. PAULO - 25/02
A Petrobrás precisa, com urgência, passar por uma grande reestruturação. As causas da deterioração já são conhecidas e o problema é que muito se falou e muito pouco se fez. Enquanto isso, os números da empresa vão piorando e o horizonte continua de cinza para negro. Quais decisões precisam ser tomadas com urgência?
Em primeiro lugar, o acionista majoritário precisa voltar a respeitar o minoritário. E a primeira atitude para mostrar esse respeito seria a nomeação de um novo presidente para o Conselho de Administração da companhia. Ter como presidente desse conselho o ministro da Fazenda, seja ele quem for, significa engessar a administração da empresa, já que os interesses e deveres do ministro são, na maior parte das vezes, conflituosos com os da empresa e, principalmente, do acionista minoritário. A atual política de preços da gasolina e do diesel, subordinada à preocupação com o controle da inflação, é o maior exemplo dessa incompatibilidade.
Ainda na questão da alta administração da empresa, seria desejável a nomeação de uma diretoria executiva pelo critério mais da meritocracia e menos pelo critério político, o que já se nota na atual gestão da presidente Graça Foster. Em vez de interferir nas decisões diárias da empresa, o acionista majoritário deveria dar liberdade de gestão e cobrar pelos resultados, o que não ocorre atualmente. Ao contrário, hoje quem dirige a empresa são a presidente da República, o Ministério da Fazenda, o PT e os partidos da base aliada. Seria fundamental o governo estabelecer algum tipo de contrato de gestão com a empresa e, a partir daí, cobrar metas e resultados, arrecadando impostos e dividendos como acionista majoritário. Com isso, o critério das decisões deixaria de ser o político e passaria a ser o da eficiência.
Outro campo a ser atacado é a política de desinvestimento. O desinvestimento deveria começar pela venda pura e simples de ativos que não têm nenhuma explicação de racionalidade econômica para fazer parte da Petrobrás ou que tenham rentabilidade incompatível com o porte da empresa. A venda de ativos vem sendo tentada pela empresa, porém de forma muita tímida. Além de vender ativos no exterior, como refinarias e mesmo blocos de petróleo, no mercado interno a empresa deveria se desfazer de ativos que não fazem parte de seu foco de negócio, como a sua participação em distribuidoras de gás natural, bem como em usinas térmicas ou qualquer tipo de empresa geradora de energia elétrica. O negócio da Petrobrás é explorar e produzir petróleo, gás natural e derivados, e não os mercados de distribuição de gás e de geração de energia elétrica.
Outro caminho para a Petrobrás retomar a sua eficiência e lucratividade seria a criação de uma política de parcerias com outras petroleiras, tanto no exterior quanto, principalmente, no mercado interno. Se o governo desse a tão sonhada autonomia de gestão, e com isso a empresa pudesse ter uma política de preços de derivados alinhada ao mercado internacional, fariam todo o sentido a venda de alguma refinaria e o estabelecimento de parcerias em outras, em particular as novas, não com a venezuelana PDVSA, e sim com investidores que realmente aportem capital e tragam experiência e conhecimento técnico.
Além de parcerias em refinarias, seria importante estabelecer parcerias no segmento de transporte, em dutos de escoamento da produção, de transporte de gás natural e de derivados e nas plantas de regazeificação. Tanto nas existentes quanto naquelas a serem construídas.
Uma outra mudança que ajudaria a Petrobrás a reencontrar o caminho da eficiência e da lucratividade seria o governo alterar o marco regulatório criado em 2010. As principais alterações seriam acabar com a obrigatoriedade da Petrobrás de ter um mínimo de 30% dos blocos do pré-sal que venham a ser leiloados, bem como com a exigência de monopólio na operação desses blocos. Esses dois pontos, colocados no marco regulatório de 2010, não representam um privilégio para a empresa, e, ao contrário, só penalizam a Petrobrás e retardam a produção do pré-sal. Sem falar nas regras retrógradas de conteúdo local, que também só prejudicam a estatal e impedem o desenvolvimento de uma indústria nacional forte e competitiva.
Com a reestruturação, com os desinvestimentos e com as mudanças no marco regulatório, estariam dadas as condições essenciais para que a Petrobrás voltasse a ser uma das maiores petroleiras do mundo. Pois, tendo uma das maiores e mais promissoras reservas de petróleo do mundo, tendo um quadro de funcionários de alta qualidade e sendo líder em pesquisa e tecnologias de exploração offshore, a empresa possui as condições estruturais para alcançar o total sucesso.
A Petrobrás está diante de duas alternativas distintas. Reencontrar a trajetória da eficiência perdida e retomar o ciclo virtuoso do lucro e do investimento ou se transformar num braço político-econômico do governo. Neste caso, a rentabilidade e a produção estarão comprometidas, a exemplo do que aconteceu com a venezuelana PDVSA.
A Petrobrás precisa, com urgência, passar por uma grande reestruturação. As causas da deterioração já são conhecidas e o problema é que muito se falou e muito pouco se fez. Enquanto isso, os números da empresa vão piorando e o horizonte continua de cinza para negro. Quais decisões precisam ser tomadas com urgência?
Em primeiro lugar, o acionista majoritário precisa voltar a respeitar o minoritário. E a primeira atitude para mostrar esse respeito seria a nomeação de um novo presidente para o Conselho de Administração da companhia. Ter como presidente desse conselho o ministro da Fazenda, seja ele quem for, significa engessar a administração da empresa, já que os interesses e deveres do ministro são, na maior parte das vezes, conflituosos com os da empresa e, principalmente, do acionista minoritário. A atual política de preços da gasolina e do diesel, subordinada à preocupação com o controle da inflação, é o maior exemplo dessa incompatibilidade.
Ainda na questão da alta administração da empresa, seria desejável a nomeação de uma diretoria executiva pelo critério mais da meritocracia e menos pelo critério político, o que já se nota na atual gestão da presidente Graça Foster. Em vez de interferir nas decisões diárias da empresa, o acionista majoritário deveria dar liberdade de gestão e cobrar pelos resultados, o que não ocorre atualmente. Ao contrário, hoje quem dirige a empresa são a presidente da República, o Ministério da Fazenda, o PT e os partidos da base aliada. Seria fundamental o governo estabelecer algum tipo de contrato de gestão com a empresa e, a partir daí, cobrar metas e resultados, arrecadando impostos e dividendos como acionista majoritário. Com isso, o critério das decisões deixaria de ser o político e passaria a ser o da eficiência.
Outro campo a ser atacado é a política de desinvestimento. O desinvestimento deveria começar pela venda pura e simples de ativos que não têm nenhuma explicação de racionalidade econômica para fazer parte da Petrobrás ou que tenham rentabilidade incompatível com o porte da empresa. A venda de ativos vem sendo tentada pela empresa, porém de forma muita tímida. Além de vender ativos no exterior, como refinarias e mesmo blocos de petróleo, no mercado interno a empresa deveria se desfazer de ativos que não fazem parte de seu foco de negócio, como a sua participação em distribuidoras de gás natural, bem como em usinas térmicas ou qualquer tipo de empresa geradora de energia elétrica. O negócio da Petrobrás é explorar e produzir petróleo, gás natural e derivados, e não os mercados de distribuição de gás e de geração de energia elétrica.
Outro caminho para a Petrobrás retomar a sua eficiência e lucratividade seria a criação de uma política de parcerias com outras petroleiras, tanto no exterior quanto, principalmente, no mercado interno. Se o governo desse a tão sonhada autonomia de gestão, e com isso a empresa pudesse ter uma política de preços de derivados alinhada ao mercado internacional, fariam todo o sentido a venda de alguma refinaria e o estabelecimento de parcerias em outras, em particular as novas, não com a venezuelana PDVSA, e sim com investidores que realmente aportem capital e tragam experiência e conhecimento técnico.
Além de parcerias em refinarias, seria importante estabelecer parcerias no segmento de transporte, em dutos de escoamento da produção, de transporte de gás natural e de derivados e nas plantas de regazeificação. Tanto nas existentes quanto naquelas a serem construídas.
Uma outra mudança que ajudaria a Petrobrás a reencontrar o caminho da eficiência e da lucratividade seria o governo alterar o marco regulatório criado em 2010. As principais alterações seriam acabar com a obrigatoriedade da Petrobrás de ter um mínimo de 30% dos blocos do pré-sal que venham a ser leiloados, bem como com a exigência de monopólio na operação desses blocos. Esses dois pontos, colocados no marco regulatório de 2010, não representam um privilégio para a empresa, e, ao contrário, só penalizam a Petrobrás e retardam a produção do pré-sal. Sem falar nas regras retrógradas de conteúdo local, que também só prejudicam a estatal e impedem o desenvolvimento de uma indústria nacional forte e competitiva.
Com a reestruturação, com os desinvestimentos e com as mudanças no marco regulatório, estariam dadas as condições essenciais para que a Petrobrás voltasse a ser uma das maiores petroleiras do mundo. Pois, tendo uma das maiores e mais promissoras reservas de petróleo do mundo, tendo um quadro de funcionários de alta qualidade e sendo líder em pesquisa e tecnologias de exploração offshore, a empresa possui as condições estruturais para alcançar o total sucesso.
A Petrobrás está diante de duas alternativas distintas. Reencontrar a trajetória da eficiência perdida e retomar o ciclo virtuoso do lucro e do investimento ou se transformar num braço político-econômico do governo. Neste caso, a rentabilidade e a produção estarão comprometidas, a exemplo do que aconteceu com a venezuelana PDVSA.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
PSB quer a ministra Eliana Calmon candidata ao Senado
A ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), tem sido alvo do assédio de políticos interessados em sua filiação e candidatura na eleição de 2014. As investidas mais sérias têm sido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB, para que ela dispute a vaga de senadora pelo Distrito Federal. A valente ex-corregedora nacional de Justiça tem driblado os convites.
Heroína
Após acusar a existência de “bandidos de toga”, a minha Eliana Calmon se viu transformada em heroína nacional.
Recusa
Em novembro, Eliana Calmon já havia descartado disputar a presidência da República, como pretendia o Partido Verde.
Foco no Sul
Candidato a presidente pelo PV, Fernando Gabeira percorrerá o Brasil este ano. A começar pelo Sul, onde o partido perdeu feio em 2010.
Disco arranhado
Para o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), o PT perdeu o rumo: “O governo Dilma só fica requentando programas assistencialistas”.
PSD de Kassab pode ganhar a Secretaria de Aviação Civil
Além de Micro e Pequena Empresa, que deve ir para o vice-governador paulista Afif Domingos, o PSD poderá emplacar Paulo Simão (MG) na Secretaria de Aviação Civil, segundo tem dito o presidente do partido, Gilberto Kassab. A mudança aumentaria a cota de Minas no primeiro escalão, fazendo frente a Aécio Neves (PSDB-MG), cotado a disputar a Presidência em 2014. Simão é engenheiro civil e comanda o PSD-MG.
Em dívida
A presidenta Dilma teria uma dívida com Paulo Simão, que enquadrou o partido, a mando de Kassab, para apoiar Patrus Ananias (PT) em BH.
Prestígio
Paulo Simão também tem prestígio no Planalto por integrar o chamado “Conselhão”, e por ter ajudado no programa Minha Casa, Minha Vida.
‘Paulistério’
A presidenta Dilma já avisou aos paulistas que vai priorizar outros Estados na minirreforma. “Não quero formar paulistério”, avisou.
Seca viaja
O ministro Fernando Coelho (Integração) está na corda bamba. A avaliação do seu desempenho, no Planalto, é muito ruim, assim como do subordinado Paes Landim, da Sudene, que viaja na seca.
PTchau
Ricardo Kotscho, jornalista consagrado, ex-assessor de Lula em campanhas e na presidência, não foi convidado para a festa dos dez anos do partido no poder, esta semana, em São Paulo. Ficou triste.
Olha o clima
Como pessoal do cerimonial tem medo de perguntar a Dilma, todos os dias, por onde ela deseja ir embora do Planalto, no final do expediente, os diplomatas fazem plantão em todas as saídas, com rádios à mão.
Can can
Se for nomeado diretor da Petrobras, o ex-deputado do PMDB-MG Aloisio Vasconcelos promete grandes emoções na estatal de Graciosa Foster. É que, ao deixar a Eletrobras, ele foi presidir a francesa Alston, aquela encrencada com denúncias de propinoduto nos metrôs.
Sai da frente
O diplomata Américo Fontenelle, novamente acusado de assédio moral contra subordinados em Sidney, vangloriava-se diante de funcionárias, no consulado em Toronto (Canadá): “Sou o embaixador do p...grande.”
Nasce uma estrela
A Namíbia, que Lula achou “limpa, nem parece África”, passou o Brasil. Está em 13º no ranking da agência Bloomberg de mercados emergentes em previsões do FMI, PIB, inflação, dívida e investimentos.
Obstáculos
Isolado no PV, Alfredo Sirkis (RJ) diz que já está de “mala e cuia” para se filiar ao futuro partido de Marina Silva. Para ele, o único problema é a conspiração dos partidos para inviabilizar sua criação.
Falou e disse
A revista americana Forbes não dá trégua com o Brasil, “descobrindo que não é fácil ser rico”: superou a Inglaterra, mas na 6ª economia falta transporte público, milhões vivem em favelas e há mendigos nas ruas.
Hasta la vista
Yoani Sánchez não imaginava que a truculência da ditadura cubana se materializasse nas turbas de “camisas negras”, de inspiração fascista.
Poder sem pudor
Teatral, sempre
O ex-governador Carlos Lacerda era dado a gestos teatrais, não apenas em público, no exercício da política, mas até mesmo em sua casa. Certa vez, ao encontrar um passarinho morto em uma gaiola esquecida ao sol, ele gritou para o empregado, com a ave inerte na mão e o braço estendido:
- Contempla tua obra, assassino!
A ministra Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), tem sido alvo do assédio de políticos interessados em sua filiação e candidatura na eleição de 2014. As investidas mais sérias têm sido do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, presidente do PSB, para que ela dispute a vaga de senadora pelo Distrito Federal. A valente ex-corregedora nacional de Justiça tem driblado os convites.
Heroína
Após acusar a existência de “bandidos de toga”, a minha Eliana Calmon se viu transformada em heroína nacional.
Recusa
Em novembro, Eliana Calmon já havia descartado disputar a presidência da República, como pretendia o Partido Verde.
Foco no Sul
Candidato a presidente pelo PV, Fernando Gabeira percorrerá o Brasil este ano. A começar pelo Sul, onde o partido perdeu feio em 2010.
Disco arranhado
Para o presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), o PT perdeu o rumo: “O governo Dilma só fica requentando programas assistencialistas”.
PSD de Kassab pode ganhar a Secretaria de Aviação Civil
Além de Micro e Pequena Empresa, que deve ir para o vice-governador paulista Afif Domingos, o PSD poderá emplacar Paulo Simão (MG) na Secretaria de Aviação Civil, segundo tem dito o presidente do partido, Gilberto Kassab. A mudança aumentaria a cota de Minas no primeiro escalão, fazendo frente a Aécio Neves (PSDB-MG), cotado a disputar a Presidência em 2014. Simão é engenheiro civil e comanda o PSD-MG.
Em dívida
A presidenta Dilma teria uma dívida com Paulo Simão, que enquadrou o partido, a mando de Kassab, para apoiar Patrus Ananias (PT) em BH.
Prestígio
Paulo Simão também tem prestígio no Planalto por integrar o chamado “Conselhão”, e por ter ajudado no programa Minha Casa, Minha Vida.
‘Paulistério’
A presidenta Dilma já avisou aos paulistas que vai priorizar outros Estados na minirreforma. “Não quero formar paulistério”, avisou.
Seca viaja
O ministro Fernando Coelho (Integração) está na corda bamba. A avaliação do seu desempenho, no Planalto, é muito ruim, assim como do subordinado Paes Landim, da Sudene, que viaja na seca.
PTchau
Ricardo Kotscho, jornalista consagrado, ex-assessor de Lula em campanhas e na presidência, não foi convidado para a festa dos dez anos do partido no poder, esta semana, em São Paulo. Ficou triste.
Olha o clima
Como pessoal do cerimonial tem medo de perguntar a Dilma, todos os dias, por onde ela deseja ir embora do Planalto, no final do expediente, os diplomatas fazem plantão em todas as saídas, com rádios à mão.
Can can
Se for nomeado diretor da Petrobras, o ex-deputado do PMDB-MG Aloisio Vasconcelos promete grandes emoções na estatal de Graciosa Foster. É que, ao deixar a Eletrobras, ele foi presidir a francesa Alston, aquela encrencada com denúncias de propinoduto nos metrôs.
Sai da frente
O diplomata Américo Fontenelle, novamente acusado de assédio moral contra subordinados em Sidney, vangloriava-se diante de funcionárias, no consulado em Toronto (Canadá): “Sou o embaixador do p...grande.”
Nasce uma estrela
A Namíbia, que Lula achou “limpa, nem parece África”, passou o Brasil. Está em 13º no ranking da agência Bloomberg de mercados emergentes em previsões do FMI, PIB, inflação, dívida e investimentos.
Obstáculos
Isolado no PV, Alfredo Sirkis (RJ) diz que já está de “mala e cuia” para se filiar ao futuro partido de Marina Silva. Para ele, o único problema é a conspiração dos partidos para inviabilizar sua criação.
Falou e disse
A revista americana Forbes não dá trégua com o Brasil, “descobrindo que não é fácil ser rico”: superou a Inglaterra, mas na 6ª economia falta transporte público, milhões vivem em favelas e há mendigos nas ruas.
Hasta la vista
Yoani Sánchez não imaginava que a truculência da ditadura cubana se materializasse nas turbas de “camisas negras”, de inspiração fascista.
Poder sem pudor
Teatral, sempre
O ex-governador Carlos Lacerda era dado a gestos teatrais, não apenas em público, no exercício da política, mas até mesmo em sua casa. Certa vez, ao encontrar um passarinho morto em uma gaiola esquecida ao sol, ele gritou para o empregado, com a ave inerte na mão e o braço estendido:
- Contempla tua obra, assassino!
SEGUNDA NOS JORNAIS
- Globo: Sem competitividade – Governo dará incentivos a portos públicos
- Folha: Busca pelo poder dividiu a igreja, diz arcebispo
- Estado: G-20 avalia barrar entrada de corruptos nos países-membros
- Correio: TJ livra condomínio em terra da União de pagar IPTU
- Valor: Custos do frete disparam no início da safra de soja
- Estado de Minas: A revanche do consumidor
- Jornal do Commercio: Timbu dá goleada e Leão segue má fase
- Zero Hora: Alta no preço de imóveis é quase o triplo da inflação
domingo, fevereiro 24, 2013
Afinados - MARTHA MEDEIROS
ZERO HORA - 24/02
Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....
Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.
Tudo porque a música não é uma forma de ocupar o silêncio, simplesmente. Ela provoca uma experiência física e sensorial. Ela vai buscar você onde você se esconde. E compartilhar isso com quem amamos é roçar no sublime.
Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos. A música invade e captura o que há de melhor em nós, nossa essência primeira, a que não foi corrompida por racionalizações. E essa sensibilidade refinada, ao ser despertada simultaneamente em um homem e em uma mulher (ou numa plateia inteira, no caso de um espetáculo) gera uma comunhão tão rara quanto mágica.
Muitos filmes já demonstraram como a música pode ser um fator de aproximação entre casais. Para citar dois que concorrem ao Oscar neste domingo, no belíssimo Amor, os protagonistas idosos não eram apaixonados apenas um pelo outro, mas igualmente por música erudita, o que reforçava o laço. Em O Lado Bom da Vida, duas vítimas de perturbações psíquicas encontram uma forma de serenizar sua ansiedade descontrolada através da dança, fazendo com que seus corpos obedeçam a um ritmo, e sua alma também. A música facilita que identifiquemos um “igual”, ou alguém razoavelmente parecido conosco. E ajuda a fazer esse encontro perdurar.
Não que tenha sido descoberta a fórmula do sucesso das relações – elas se desfazem, mesmo quando há gostos afins.
Mas, entre os momentos que ficarão na lembrança, estarão aqueles em que ambos sabiam com certeza o que o outro estava sentindo quando conectados pela música, uma música que, às vezes, nem estava sendo tocada, mas escutada por dentro, como na hora exata do parto do filho, em que se ouve internamente uma orquestra, ou na hora da decolagem de um voo, quando se ouve internamente uma ópera, ou durante o primeiro beijo, quando se ouve internamente... sinos? Humm, eu escolheria uma trilha sonora menos óbvia, mais inspiradora.
Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia.
Uma vez, em uma conversa entre amigos, alguém comentou que jamais conseguiria casar com quem ouvisse Celine Dion. Casar? Eu não conseguiria pegar uma carona com alguém que ouvisse Celine Dion, retruquei, exagerando. E foi nesse tom de brincadeira que continuamos falando sobre nossos eu nunca poderia me relacionar com alguém que....
Puro blábláblá, pois, na hora em que a paixão se apresenta, nossos gostos se adaptam rapidinho, e a gente se pega dançando forró quando queria mesmo era estar num show do Pearl Jam. Ainda assim, essa questão de ter afinidade musical não é absolutamente tola. Gostar de gêneros musicais diferentes não impede um relacionamento, mas, quando há compatibilidade, dois amantes evoluem e transformam-se em dois cúmplices.
Tudo porque a música não é uma forma de ocupar o silêncio, simplesmente. Ela provoca uma experiência física e sensorial. Ela vai buscar você onde você se esconde. E compartilhar isso com quem amamos é roçar no sublime.
Se aquilo que gosto de ouvir estimula as mesmas sensações em quem convive comigo, cria-se um diálogo sem palavras, à prova de mal-entendidos. A música invade e captura o que há de melhor em nós, nossa essência primeira, a que não foi corrompida por racionalizações. E essa sensibilidade refinada, ao ser despertada simultaneamente em um homem e em uma mulher (ou numa plateia inteira, no caso de um espetáculo) gera uma comunhão tão rara quanto mágica.
Muitos filmes já demonstraram como a música pode ser um fator de aproximação entre casais. Para citar dois que concorrem ao Oscar neste domingo, no belíssimo Amor, os protagonistas idosos não eram apaixonados apenas um pelo outro, mas igualmente por música erudita, o que reforçava o laço. Em O Lado Bom da Vida, duas vítimas de perturbações psíquicas encontram uma forma de serenizar sua ansiedade descontrolada através da dança, fazendo com que seus corpos obedeçam a um ritmo, e sua alma também. A música facilita que identifiquemos um “igual”, ou alguém razoavelmente parecido conosco. E ajuda a fazer esse encontro perdurar.
Não que tenha sido descoberta a fórmula do sucesso das relações – elas se desfazem, mesmo quando há gostos afins.
Mas, entre os momentos que ficarão na lembrança, estarão aqueles em que ambos sabiam com certeza o que o outro estava sentindo quando conectados pela música, uma música que, às vezes, nem estava sendo tocada, mas escutada por dentro, como na hora exata do parto do filho, em que se ouve internamente uma orquestra, ou na hora da decolagem de um voo, quando se ouve internamente uma ópera, ou durante o primeiro beijo, quando se ouve internamente... sinos? Humm, eu escolheria uma trilha sonora menos óbvia, mais inspiradora.
Coisa mais triste quando, ao recordar um amor, a gente tenta lembrar: qual era a nossa música? E não havia.
Nordeste sangrento - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 24/02
Só que...
O aumento maior foi nas regiões Norte e Nordeste, onde a taxa de homicídios saltou de 15 para mais de 35 assassinatos por 100 mil habitantes: mais de 100% de aumento entre 1999 e 2010. Segundo dados do Ipea, entre 2001 e 2011, a renda no Nordeste subiu 72,8%, enquanto no Sudeste cresceu 45,8%.
Pais e filhos
A Quarta Turma do STJ abriu, quinta passada, um precedente. Definiu que os pais não são obrigados a dar pensão aos filhos depois que eles terminam o curso de graduação, ainda que estejam desempregados.
Mar não está pra peixe
A Cedae suspendeu, por enquanto, o processo de abertura de seu capital que previa arrecadar uns R$ 3 bilhões. A estatal concluiu que o mercado financeiro anda mal-humorado com o Brasil depois da paulada que tomou no setor elétrico.
Ai, que calor!
De Paula Toller, a cantora, sexta passada, no Twitter:
— Fui à praia para um rápido mergulho sem nenhum, nenhum equipamento, livre, sem frescura. Hoje sequer usei um biquíni. Shprimenta (sic)!
O DOMINGO É DE...
... Deborah Secco, a linda atriz carioca de 33 anos que comprova seu talento a cada novo desafio. Agora, além de interpretar no cinema uma mulher com o vírus da Aids, na telinha ela vive a leve Giovana, no seriado “Louco por elas”, da TV Globo. No próximo episódio, terça agora, ela usará este vestido preto bordado para oficializar a sua solteirice durante uma festa de “descasamento” com Léo, personagem vivido por Eduardo Moscovis. Casa com eu?
Invasão brasuca
Os brasileiros estão comprando mais do que nunca em outlets europeus. Segundo dados da McArthurGlen, uma das maiores redes de outlets de luxo da Europa, houve, pelo menos, 16% mais clientes brasileiros em 2012 do que em 2011.
Só no LA Reggia Designer Outlet, centro de compras da McArthurGlen próximo a Nápoles, foi de 94% o aumento do volume de compras feitas por brasileiros.
Papo de pelada
Sílvio Cesar convocou os amigos de pelada no Politheama para cantar no CD “Agosto”. Vão participar Chico Buarque, dono do campo, Carlinhos Vergueiro, Sombrinha e Hyldon. Sílvio é o autor daquele sucesso “Pra você”. Um trecho: “Ah, se eu fosse você, eu voltava pra mim.”
O mundo de Mautner
Jorge Mautner, o poeta e filósofo, veja só, vai virar professor. Irá dar aula de História Geral no Midrash, o centro de estudos judaico sem março. Vai ensinar o mesmo programa que montou exclusivamente para a filha, a diretora Amora Mautner, quando ela era adolescente.
É da família
Um camelô no Centro do Rio anuncia a venda das “primas das Havaianas”, veja na foto. Enquanto uma Havaiana custa mais de R$10, a dele, que não é legítima, mas é “da mesma família”, custa R$ 4. Ah, bom!
Águia verde e rosa
A lista de beneméritos da Portela surpreende pela quantidade de... mangueirenses. Estão nela o governador Cabral, Elmo José dos Santos e Álvaro Luiz Caetano, ex-presidentes da escola, e o deputado Chiquinho da Mangueira. Todos com direito a voto na próxima eleição da azul e branco.
Já...
Paulinho da Viola, acredite, não é benemérito.
Transplante de rins
O Centro Estadual de Transplante do Hospital São Francisco de Assis, inaugurado quinta passada, já fez dois transplantes de rim e um de fígado. Em 2012, por falta de lugar para fazer transplante no Rio, 72 rins foram enviados para fora do estado. E, em dezembro, três fígados.
A volta da bandeira
Rogério Dornelles e Lucinha Nobre, um dos mais importantes casais de mestre-sala e porta-bandeira da atualidade, estão de volta à Mocidade Independente de Padre Miguel.
‘Playboy’ da Mangueira
Do querido Nelson Sargento, 88 anos, depois de folhear a revista da Mangueira:
— Parece a “Playboy”. Só tem mulher pelada. Só no meio da revista tinha um retrato 3x4 meu e de outros antigos.
MULHERES PERERECAS
Excesso de magreza de um lado. Músculos demais do outro. Luiza Brunet, 50 anos, monumento de beleza, anda intrigada com os corpos femininos exibidos nos desfiles de moda e na passarela do samba. A modelo trocou dois dedos de prosa com Márcia Vieira, da turma da coluna.
Falou sobre a sua biografia que está escrevendo ao lado da amiga Laura Malin e elegeu as rainhas de bateria mais bonitas do carnaval que passou. Veja a seguir:
O que está acontecendo com o corpo das madrinhas de bateria?
Elas perderam a mão. Acho feio este tipo de corpo musculoso como o da Gracyanne Barbosa (rainha na Mangueira). Há um excesso de musculatura. São mulheres pererecas: cintura fina, coxa grossa e perna fina. Antes, os corpos eram mais femininos.
De quais madrinhas você mais gostou este ano?
Sabrina Sato e Quitéria Chagas. A Sabrina é um tipo mais feminino, tem um corpo belíssimo. Ela tem carisma, é simpática, trabalha pra caramba. Acho ela mais parecida com as rainhas da época em que eu comecei. E a Quitéria é uma mulata linda. Ela tem uma leveza quando samba! Ela flutua no ar, tem gestos femininos.
E, na moda, a tendência à magreza vai passar?
Eu torço para que passe porque as meninas estão cada vez mais magras. Elas têm acesso a tudo que não é legal para ficar nesse padrão. O que me deixa mais triste é ver as agências tratando modelo como produto e não como ser humano.
Quando você desfilava, não era assim?
Não. Eu sobressaí porque era gostosa. Tinha um corpo bem brasileiro.
Este foi o primeiro ano em três décadas que você ficou longe da Sapucaí. Foi difícil?
Eu amo carnaval, mas decidi fazer uma coisa totalmente diferente. Fugi deste calorão e fui para o frio de Nova York.
Na biografia que você está escrevendo, vai ter referência à sua saída da Dijon, do Humberto Saade?
Claro. Eu tinha 22 anos, queria sair, e o Humberto não aceitou. Ele queria o direito sobre o meu nome. Foi um momento muito difícil, mas eu devo muito a ele. A partir daquela confusão, fiquei esperta com os contratos. Não assino nada que, no futuro, possa me dar uma rasteira.
Yoani e a ‘Senhor’ - CAETANO VELOSO
O GLOBO - 24/02
Nossos esquerdistas mereceriam mais confiança se tratassem Yoani com respeito
É difícil aceitar como progressista a atitude dos que agrediram Yoani Sanchez em sua chegada ao Brasil. E logo em minhas duas terras, Bahia e Pernambuco (ganhei cidadania da Assembleia Legislativa Pernambucana, a Casa de Joaquim Nabuco). Se um indivíduo eleva voz dissidente num país que mantém presos políticos por décadas, deveria receber o apoio dos que lutam pela justiça. Quando Marighella ficou sabendo o que se passava na União Soviética sob Stalin (pelas revelações que Nikita Kruschev, num esboço de perestroica-glasnost, incentivou), ficou semanas a fio em pranto. Para ser sincero, não me surpreenderam as revelações kruschevianas: meu pai, apesar de ser simpatizante de esquerda, sempre comentava que a Rússia stalinista podia esconder opressões brutais. Mas o pasmo entre comunistas foi grande. O chororô de Marighella pareceu desproporcional a alguns de seus companheiros, mas diz algo de profundamente bom sobre ele.
Não desconheço a possibilidade de interpretar os fatos políticos a partir de uma perspectiva que submeta o sentido moral do caso Yoani à crítica do desequilíbrio mundial. A força americana pode ser sentida a ponto de neguinho pôr sua capacidade de solidariedade abaixo de uma visão geral da luta. Aí Fidel pode ser visto como o herói que enfrenta o Dragão da Maldade, qualquer relativização desse enfrentamento sendo suspeito. Por que Obama não acaba com o bloqueio a Cuba? Yoani pode aparecer nesse quadro como uma colaboracionista. Mas como, se ela própria declara repúdio ao embargo?
Tive a honra de ser atacado juntamente com Yoani por Fidel em pessoa. Fidel escreveu o prefácio a um livro sobre Evo Morales (que nome! Sempre paro quando ouço ou leio o nome de Eva no masculino) e, nesse prefácio, me desancou por eu ter dito em entrevista que minha canção “Base de Guantánamo” não significava apoio à política de Estado cubana. Ali, o herói caribenho me equiparava à blogueira de milhões. Éramos, os dois, agentes do imperialismo americano. Inocentes úteis da potência capitalista. Gosto dos textos de Yoani. Fui a Havana em 1999 e sinto a presença da vida cubana neles. Eu teria mais confiança em nossos esquerdistas se eles a tratassem com respeito.
Gente próxima e distante estranhou que eu escrevesse que estou triste. Minha mãe morreu. Senti a passagem do tempo com violência. Mas leio “Porventura”, de Antonio Cicero, e a força (qualidade) dos poemas me revigora. Filósofo e poeta, Cicero é um dos grandes.
Recebi de presente essa maravilha que é o livro-antologia da revista “Senhor”. Gracias Ana Maria Mello e Ruy Castro. Em 1959, um vendedor de enciclopédias bateu à nossa porta em Santo Amaro. Ele oferecia a assinatura de uma revista cujos primeiros números trazia consigo. Meu irmão Rodrigo, a quem devo tanto, ficou impressionado com o que via e me chamou para que eu tomasse conhecimento da novidade. Ele sabia que eu ia gostar. Fiquei extasiado com as capas e os títulos das matérias: contos de grandes autores conhecidos e desconhecidos, cartuns geniais, comentários inteligentes e cheios de humor sobre assuntos diversos. Suponho que contei longamente sobre o efeito que tiveram sobre mim o primeiro LP de João Gilberto (que saiu em 1959) e, já a partir de 1960, as atividades culturais da Universidade da Bahia sob o reitor Edgard Santos. Devo ter mencionado a “Senhor” também. Mas não creio que tenha dito com todas as letras que essa revista desempenhou papel no mínimo igualmente determinante em minha formação. E estou certo de tê-la conhecido antes de ouvir João. O impacto foi enorme. Tudo o que eu adivinhava nas páginas de Millôr em “O Cruzeiro” (que eu guardava numa caixa) e nos contos de William Saroyan — a modernidade — aparecia desenvolvido nessa publicação. É emocionante para mim rever os desenhos de Glauco Rodrigues, Bea Feitler, Carlos Scliar; os artigos de Paulo Francis; as charges elegantíssimas de Jaguar (que traço!, que ideias!); os contos de Clarice. Curioso ler o texto de Ivan Lessa sobre justamente a nascente bossa nova. Ele, informadíssimo, no calor da hora já falava em Chet Baker. Mas reagia à Rolleiflex do “Desafinado” (e à canção como um todo) com rejeição semelhante à sofrida por imagens e sons tropicalistas poucos anos depois. Eu, que dependia da elegância da Bossa e da “Senhor”, já aprovava a liberdade da menção à marca de câmera e o humor do jogo com o verbo “revelar”. Lessa (que tem um texto engraçadíssimo e muito bem escrito no livro paralelo “SR, uma senhora revista”) censurava. Revelava sua enorme ingratidão. Mas ele saúda o surgimento de Carlos Lyra e Roberto Menescal (embora, como Bob Dylan, por cima de Jobim!).
Nossos esquerdistas mereceriam mais confiança se tratassem Yoani com respeito
É difícil aceitar como progressista a atitude dos que agrediram Yoani Sanchez em sua chegada ao Brasil. E logo em minhas duas terras, Bahia e Pernambuco (ganhei cidadania da Assembleia Legislativa Pernambucana, a Casa de Joaquim Nabuco). Se um indivíduo eleva voz dissidente num país que mantém presos políticos por décadas, deveria receber o apoio dos que lutam pela justiça. Quando Marighella ficou sabendo o que se passava na União Soviética sob Stalin (pelas revelações que Nikita Kruschev, num esboço de perestroica-glasnost, incentivou), ficou semanas a fio em pranto. Para ser sincero, não me surpreenderam as revelações kruschevianas: meu pai, apesar de ser simpatizante de esquerda, sempre comentava que a Rússia stalinista podia esconder opressões brutais. Mas o pasmo entre comunistas foi grande. O chororô de Marighella pareceu desproporcional a alguns de seus companheiros, mas diz algo de profundamente bom sobre ele.
Não desconheço a possibilidade de interpretar os fatos políticos a partir de uma perspectiva que submeta o sentido moral do caso Yoani à crítica do desequilíbrio mundial. A força americana pode ser sentida a ponto de neguinho pôr sua capacidade de solidariedade abaixo de uma visão geral da luta. Aí Fidel pode ser visto como o herói que enfrenta o Dragão da Maldade, qualquer relativização desse enfrentamento sendo suspeito. Por que Obama não acaba com o bloqueio a Cuba? Yoani pode aparecer nesse quadro como uma colaboracionista. Mas como, se ela própria declara repúdio ao embargo?
Tive a honra de ser atacado juntamente com Yoani por Fidel em pessoa. Fidel escreveu o prefácio a um livro sobre Evo Morales (que nome! Sempre paro quando ouço ou leio o nome de Eva no masculino) e, nesse prefácio, me desancou por eu ter dito em entrevista que minha canção “Base de Guantánamo” não significava apoio à política de Estado cubana. Ali, o herói caribenho me equiparava à blogueira de milhões. Éramos, os dois, agentes do imperialismo americano. Inocentes úteis da potência capitalista. Gosto dos textos de Yoani. Fui a Havana em 1999 e sinto a presença da vida cubana neles. Eu teria mais confiança em nossos esquerdistas se eles a tratassem com respeito.
Gente próxima e distante estranhou que eu escrevesse que estou triste. Minha mãe morreu. Senti a passagem do tempo com violência. Mas leio “Porventura”, de Antonio Cicero, e a força (qualidade) dos poemas me revigora. Filósofo e poeta, Cicero é um dos grandes.
Recebi de presente essa maravilha que é o livro-antologia da revista “Senhor”. Gracias Ana Maria Mello e Ruy Castro. Em 1959, um vendedor de enciclopédias bateu à nossa porta em Santo Amaro. Ele oferecia a assinatura de uma revista cujos primeiros números trazia consigo. Meu irmão Rodrigo, a quem devo tanto, ficou impressionado com o que via e me chamou para que eu tomasse conhecimento da novidade. Ele sabia que eu ia gostar. Fiquei extasiado com as capas e os títulos das matérias: contos de grandes autores conhecidos e desconhecidos, cartuns geniais, comentários inteligentes e cheios de humor sobre assuntos diversos. Suponho que contei longamente sobre o efeito que tiveram sobre mim o primeiro LP de João Gilberto (que saiu em 1959) e, já a partir de 1960, as atividades culturais da Universidade da Bahia sob o reitor Edgard Santos. Devo ter mencionado a “Senhor” também. Mas não creio que tenha dito com todas as letras que essa revista desempenhou papel no mínimo igualmente determinante em minha formação. E estou certo de tê-la conhecido antes de ouvir João. O impacto foi enorme. Tudo o que eu adivinhava nas páginas de Millôr em “O Cruzeiro” (que eu guardava numa caixa) e nos contos de William Saroyan — a modernidade — aparecia desenvolvido nessa publicação. É emocionante para mim rever os desenhos de Glauco Rodrigues, Bea Feitler, Carlos Scliar; os artigos de Paulo Francis; as charges elegantíssimas de Jaguar (que traço!, que ideias!); os contos de Clarice. Curioso ler o texto de Ivan Lessa sobre justamente a nascente bossa nova. Ele, informadíssimo, no calor da hora já falava em Chet Baker. Mas reagia à Rolleiflex do “Desafinado” (e à canção como um todo) com rejeição semelhante à sofrida por imagens e sons tropicalistas poucos anos depois. Eu, que dependia da elegância da Bossa e da “Senhor”, já aprovava a liberdade da menção à marca de câmera e o humor do jogo com o verbo “revelar”. Lessa (que tem um texto engraçadíssimo e muito bem escrito no livro paralelo “SR, uma senhora revista”) censurava. Revelava sua enorme ingratidão. Mas ele saúda o surgimento de Carlos Lyra e Roberto Menescal (embora, como Bob Dylan, por cima de Jobim!).
Geração ritalina - ROSELI FISCHAMANN
O ESTADÃO - 24/02
O aumento do consumo de ritalina e congêneres sinaliza como a medicalização de crianças e adolescentes, em substituição a processos educacionais mais plenos, tem sido um caminho "confortável" para famílias, escolas e sociedade, apesar de ser apenas aparente solução para situações vividas.Em nada auxilia o trabalho educativo dos pais, o que se verifica nas estruturas domésticas, qual seja, a passagem dos sistemas tribais (em que todos são responsáveis por todas as crianças do clã, vivendo em amplos espaços compartilhados) para sistemas de unidades familiares (alojadas em imóveis urbanos exíguos). Mesmo se não pensarmos em clãs, há o fato de essas famílias nucleares serem cada vez menores, contrapondo-se ao tempo não tão remoto em que a família era maior, com ascendentes convivendo proximamente, assim como agregados diversos.
O aumento da expectativa de vida e a ampliação das possibilidades de participação socioeconômica trazem situações novas. Avôs e avós estão no mercado de trabalho, sendo muitas vezes responsáveis pelo sustento familiar. Não há mais a figura da vovó velhinha contando histórias e fazendo bolinhos de chuva para os netos, sendo assim um apoio afetivo e emocional à formação.
A criação e a educação dos filhos sobre os efeitos dos diversos tipos de pressão que vivem os pais, em ambientes cada vez mais competitivos, extrapolam o âmbito profissional. São pressões que se espraiam pela imagem propiciada por bens de consumo e usufruto de serviços, somadas ao ritmo acelerado pelo uso das tecnologias de informação, que também reformulam o conceito de tempo, agora composto com um espaço desdobrado em muitos (o presencial, o virtual instantâneo, o virtual latente, etc.).
Toda essa agitação em que vivem os adultos reposiciona as crianças na vida familiar.Espera-se que a criança seja responsável por resultados e por compor parte da imagem de perfeição. É quando se insinua a tentação de lidar de modo mais "eficaz" com a "indisciplina" da criança. Se a preciosa espontaneidade infantil traz situações de "bagunça" doméstica, e suas habilidades motoras, em desenvolvimento, pedem amplidão para exercitar-se e acabam por precisar se acomodar ao espaço disponível, não é o caso de imediatamente rotulá-las como "problemáticas" e "hiperativas", buscando o médico e a prescrição de drogas que as "ajustem".
Uma criança é uma vida em desenvolvimento, com necessidades diversas e ritmos próprios. Ela precisa da interação com adultos para conhecer limites e possibilidades e não para receber a camisa de força de expectativas impróprias que apenas fazem transbordar as pressões vividas pelos pais. A individualidade de cada criança e adolescente não é indício de individualismo, mas de sinais que indicam direções necessárias para que possam se formar como seres íntegros, participativos na família e na sociedade, críticos e colaborativos, produtivos e felizes.
Para trazer um paralelo com as pressões sobre os adultos, no livro Por que a Psicanálise?a francesa Elizabeth Roudinesco, psicanalista lacaniana e historiadora da cultura, afirma que nosso tempo colocou a depressão no lugar que foi antes ocupado por outras doenças como a tuberculose no século 19. Isto é, como mal do século, voltando-se para desenvolver drogas que propiciem lidar com a dor sem enfrentar o que a provoca.
Elizabeth Roudinesco aponta como essa eliminação medicamentosa da dor pode ser um modo de aumentar a alienação. Abrandar artificialmente a dor acomoda e conforma aqueles que, talvez exatamente pelo espírito crítico e inquieto, mais estejam propensos à depressão. E isso os anula. A autora ressalta: expressar-se, verbalizar a dor, debater até encontrar a fonte do incômodo, isso sim propiciaria o sentimento de "preciso fazer algo a respeito", o que ajudaria a mudar as bases sociais que concorrem de modo tão intenso e extenso para a depressão. No caso das crianças que não se enquadram em casos clínicos, mas que vão de roldão, o uso de drogas é menos e pior que um paliativo. Porque caberia perguntar: paliativo para o quê?
A educação de crianças e adolescentes tem na autonomia um de seus fins mais inquestionáveis e decisivos, amparada em capacidade crítica e reflexiva, bem como na responsabilidade pelas escolhas que se faz.Autonomia não significa isolamento ou egoísmo. Ao contrário, exige a plena assunção da alteridade, da vida com os outros, que são a outra face que se impõe eticamente e nos indica até onde podemos ir, com o que podemos contar, o que devemos respeitar, concordando ou não, apreciando ou não.
Já a heteronomia, ou seja, a definição dos próprios atos e atitudes por outrem, está fora do horizonte educacional. Um dos maiores equívocos em relação à disciplina é supor que a determinação a partir de fora possa ser positiva para uma criança. Embora rotina e normas que se deve cumprir sejam parte indispensável da formação da criança, a autodisciplina tem valor insuperável. Por isso, educar é trabalhoso e exige disponibilidade, atenção e abertura para o ser da criança. Educar uma criança é também educar-se, porque gera oportunidades de desenvolvimento para o próprio adulto que não se apresentam em outras situações. O reconhecimento do ganho do processo educativo também para os pais, exatamente por todo o trabalho que exige, é o maior apoio que se pode ter.
Finalmente, mesmo para um mundo imerso nas expectativas do que se espera que um filho ou uma filha possa atingir, vale lembrar o pensamento do prêmio Nobel de Medicina e um dos criadores da etologia, o estudo do comportamento animal (o ser humano aí incluído), Konrad Lorenz, no livro A Demolição do Homem. Ao indicar que ética e amor devem ser os pilares para a criação de crianças desde a mais tenra idade, Lorenz traz o tema da curiosidade. Afirma que muito frequentemente famílias e escolas podam radicalmente a curiosidade das crianças, como se fosse inadequada. Até pelo modo de os pequenos muitas vezes, involuntariamente, saírem-se com perguntas que causam constrangimento. Lorenz afirma que a curiosidade é a base do amor e do pensamento científico. Sabe se que, para a ciência, propor questões é fundamental, e para isso, há que se olhar o mundo com olhos sempre novos. E como se liga a curiosidade ao amor? Lorenz lembra que um dos mais claros indícios de interesse afetivo por alguém é a imensa vontade de saber mais sobre aquela pessoa, dos aspectos mais simples (residência, idade, lugares que frequenta, etc.) aos mais complexos (opiniões, histórias e vivências). Esse interesse é, de fato, curiosidade. E, sem poder expandir e expressar essa curiosidade, o amor não se apresenta, nem se desenvolve.
Assim, as crianças agitadas e tomadas como "impossíveis" podem ser exatamente as mensageiras das agitações e impossibilidades parentais, nela refletidas, que pedem atenção com os adultos. Como podem ser também mensageiras de toda curiosidade que têm e nelas se agita, enquanto traz consigo todas as possibilidades de amor e conhecimento que se concretizarão, bem encaminhadas a energia, a disposição e a curiosidade,em vez de sufocadas por um medicamento que as fará, sim, "obedientes", mas ao custo de homogeneizar friamente o que apenas pede crescimento, luz e calor.
O aumento do consumo de ritalina e congêneres sinaliza como a medicalização de crianças e adolescentes, em substituição a processos educacionais mais plenos, tem sido um caminho "confortável" para famílias, escolas e sociedade, apesar de ser apenas aparente solução para situações vividas.Em nada auxilia o trabalho educativo dos pais, o que se verifica nas estruturas domésticas, qual seja, a passagem dos sistemas tribais (em que todos são responsáveis por todas as crianças do clã, vivendo em amplos espaços compartilhados) para sistemas de unidades familiares (alojadas em imóveis urbanos exíguos). Mesmo se não pensarmos em clãs, há o fato de essas famílias nucleares serem cada vez menores, contrapondo-se ao tempo não tão remoto em que a família era maior, com ascendentes convivendo proximamente, assim como agregados diversos.
O aumento da expectativa de vida e a ampliação das possibilidades de participação socioeconômica trazem situações novas. Avôs e avós estão no mercado de trabalho, sendo muitas vezes responsáveis pelo sustento familiar. Não há mais a figura da vovó velhinha contando histórias e fazendo bolinhos de chuva para os netos, sendo assim um apoio afetivo e emocional à formação.
A criação e a educação dos filhos sobre os efeitos dos diversos tipos de pressão que vivem os pais, em ambientes cada vez mais competitivos, extrapolam o âmbito profissional. São pressões que se espraiam pela imagem propiciada por bens de consumo e usufruto de serviços, somadas ao ritmo acelerado pelo uso das tecnologias de informação, que também reformulam o conceito de tempo, agora composto com um espaço desdobrado em muitos (o presencial, o virtual instantâneo, o virtual latente, etc.).
Toda essa agitação em que vivem os adultos reposiciona as crianças na vida familiar.Espera-se que a criança seja responsável por resultados e por compor parte da imagem de perfeição. É quando se insinua a tentação de lidar de modo mais "eficaz" com a "indisciplina" da criança. Se a preciosa espontaneidade infantil traz situações de "bagunça" doméstica, e suas habilidades motoras, em desenvolvimento, pedem amplidão para exercitar-se e acabam por precisar se acomodar ao espaço disponível, não é o caso de imediatamente rotulá-las como "problemáticas" e "hiperativas", buscando o médico e a prescrição de drogas que as "ajustem".
Uma criança é uma vida em desenvolvimento, com necessidades diversas e ritmos próprios. Ela precisa da interação com adultos para conhecer limites e possibilidades e não para receber a camisa de força de expectativas impróprias que apenas fazem transbordar as pressões vividas pelos pais. A individualidade de cada criança e adolescente não é indício de individualismo, mas de sinais que indicam direções necessárias para que possam se formar como seres íntegros, participativos na família e na sociedade, críticos e colaborativos, produtivos e felizes.
Para trazer um paralelo com as pressões sobre os adultos, no livro Por que a Psicanálise?a francesa Elizabeth Roudinesco, psicanalista lacaniana e historiadora da cultura, afirma que nosso tempo colocou a depressão no lugar que foi antes ocupado por outras doenças como a tuberculose no século 19. Isto é, como mal do século, voltando-se para desenvolver drogas que propiciem lidar com a dor sem enfrentar o que a provoca.
Elizabeth Roudinesco aponta como essa eliminação medicamentosa da dor pode ser um modo de aumentar a alienação. Abrandar artificialmente a dor acomoda e conforma aqueles que, talvez exatamente pelo espírito crítico e inquieto, mais estejam propensos à depressão. E isso os anula. A autora ressalta: expressar-se, verbalizar a dor, debater até encontrar a fonte do incômodo, isso sim propiciaria o sentimento de "preciso fazer algo a respeito", o que ajudaria a mudar as bases sociais que concorrem de modo tão intenso e extenso para a depressão. No caso das crianças que não se enquadram em casos clínicos, mas que vão de roldão, o uso de drogas é menos e pior que um paliativo. Porque caberia perguntar: paliativo para o quê?
A educação de crianças e adolescentes tem na autonomia um de seus fins mais inquestionáveis e decisivos, amparada em capacidade crítica e reflexiva, bem como na responsabilidade pelas escolhas que se faz.Autonomia não significa isolamento ou egoísmo. Ao contrário, exige a plena assunção da alteridade, da vida com os outros, que são a outra face que se impõe eticamente e nos indica até onde podemos ir, com o que podemos contar, o que devemos respeitar, concordando ou não, apreciando ou não.
Já a heteronomia, ou seja, a definição dos próprios atos e atitudes por outrem, está fora do horizonte educacional. Um dos maiores equívocos em relação à disciplina é supor que a determinação a partir de fora possa ser positiva para uma criança. Embora rotina e normas que se deve cumprir sejam parte indispensável da formação da criança, a autodisciplina tem valor insuperável. Por isso, educar é trabalhoso e exige disponibilidade, atenção e abertura para o ser da criança. Educar uma criança é também educar-se, porque gera oportunidades de desenvolvimento para o próprio adulto que não se apresentam em outras situações. O reconhecimento do ganho do processo educativo também para os pais, exatamente por todo o trabalho que exige, é o maior apoio que se pode ter.
Finalmente, mesmo para um mundo imerso nas expectativas do que se espera que um filho ou uma filha possa atingir, vale lembrar o pensamento do prêmio Nobel de Medicina e um dos criadores da etologia, o estudo do comportamento animal (o ser humano aí incluído), Konrad Lorenz, no livro A Demolição do Homem. Ao indicar que ética e amor devem ser os pilares para a criação de crianças desde a mais tenra idade, Lorenz traz o tema da curiosidade. Afirma que muito frequentemente famílias e escolas podam radicalmente a curiosidade das crianças, como se fosse inadequada. Até pelo modo de os pequenos muitas vezes, involuntariamente, saírem-se com perguntas que causam constrangimento. Lorenz afirma que a curiosidade é a base do amor e do pensamento científico. Sabe se que, para a ciência, propor questões é fundamental, e para isso, há que se olhar o mundo com olhos sempre novos. E como se liga a curiosidade ao amor? Lorenz lembra que um dos mais claros indícios de interesse afetivo por alguém é a imensa vontade de saber mais sobre aquela pessoa, dos aspectos mais simples (residência, idade, lugares que frequenta, etc.) aos mais complexos (opiniões, histórias e vivências). Esse interesse é, de fato, curiosidade. E, sem poder expandir e expressar essa curiosidade, o amor não se apresenta, nem se desenvolve.
Assim, as crianças agitadas e tomadas como "impossíveis" podem ser exatamente as mensageiras das agitações e impossibilidades parentais, nela refletidas, que pedem atenção com os adultos. Como podem ser também mensageiras de toda curiosidade que têm e nelas se agita, enquanto traz consigo todas as possibilidades de amor e conhecimento que se concretizarão, bem encaminhadas a energia, a disposição e a curiosidade,em vez de sufocadas por um medicamento que as fará, sim, "obedientes", mas ao custo de homogeneizar friamente o que apenas pede crescimento, luz e calor.
E a banda passou - FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 24/02
Por toda zona sul do Rio, são multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos
Passado o Carnaval, me ponho a refletir. No final da década de 1950, o Carnaval de rua, no Rio, havia morrido. À exceção do Cordão da Bola Preta e de um ou outro bloco, quase nada havia. É certo que alguns foliões mascarados, vestidos de palhaço, de urso ou vestidos de mulher, vagavam pela Cinelândia, misturavam-se a um ou outro grupo de gente que brincava na avenida Rio Branco.
Bêbados desgarrados sempre houve e haverá, mas o Carnaval de rua, com banda de música tocando e muita gente sambando, como décadas atrás, isso não havia mais. Por que, não sei, mas lembro das conversas de foliões nostálgicos, lamentando o fim desse tipo de brincadeira carnavalesca.
Foi então que, em Ipanema, surgiu um pequeno grupo que decidiu sair para a rua, batucando e cantando. Parece que a primeira aparição desse grupo foi em 1964, pouco antes do golpe militar que viria instaurar uma ditadura no país. Não era muita gente, não, dez ou 20 pessoas e alguns músicos, creio eu.
Nascia a Banda de Ipanema, inventada por Albino Pinheiro e Ferdy Carneiro, a que aderiram Jaguar, Ziraldo, a turma do Pasquim e do Jangadeiro, mas também Sérgio Cabral e o grupo que militara no CPC da UNE e depois no Teatro Opinião, encabeçados por Thereza Aragão. Com o tempo, outros mais aderiram.
O pessoal se reunia na praça General Osório, a banda começava a tocar chamando gente, aumentando o bloco que seguia pela Prudente de Morais até a altura do Bar Vinte, se não me falha a memória. Ali dobrava e retornava pela Visconde de Pirajá de volta à praça de onde partira e onde se dispersava.
Àquela altura, já anoitecera e o pessoal bastante animado, especialmente porque, durante o percurso, parava nos bares para tomar cerveja e batidas de limão.
Era comum que, quando chegava à praça, já muita gente ficara pelo caminho, muitos pelos botecos onde enchiam a cara pelo resto da noite.
A Banda de Ipanema era, assim, uma exceção, mas, de certo modo, uma retomada do Carnaval de rua que, talvez pela importância que o bairro tomara, por nele residirem ou frequentarem seus restaurantes e bares, artistas e intelectuais de prestígio, despertava o interesse de gente de outros bairros -e a banda foi crescendo, de ano para ano.
Não demorou muito e aquele pequeno grupo inicial duplicara ou triplicara de tamanho, e com isso o entusiasmo dos carnavalescos crescia contaminando, claro, os moradores do bairro que, no começo, ficavam nas janelas vendo a banda passar.
E com isso ela também se tornou, de certo modo, manifestação política contra o regime militar. Não explicitamente e sim pelo fato mesmo de opor-se à hipócrita seriedade da ditadura: mostrar-se alegre e irreverente já era ser contra os milicos. Os anos se passaram e outras bandas começaram a surgir em diferentes bairros da zona sul do Rio: no Leme, em Copacabana, no Catete, no Jardim Botânico.
Tive que deixar o país e, assim que voltei, já estava eu lá na banda de Ipanema. Havia muita gente nova, mas os antigos companheiros continuavam lá. Em seguida, mudei-me para Copacabana e, com o tempo, deixei de desfilar. Quando voltei a participar, ela havia mudado muito. Fora alguns dos velhos participantes -Albino, Jaguar, Sérgio Cabral-, a banda tinha sido tomada por outra turma, e à frente dela iam alegríssimos travestis, vindos talvez de outros Estados.
A banda crescera bastante, não conhecia quase ninguém, ou não encontrava os amigos em meio a tanta gente. Foi a última vez que desfilei.
Pois bem, acabo de ver na televisão a banda de hoje desfilando pela Vieira Souto, tomada por uma multidão, que mal conseguia caminhar quanto mais sambar. Coisa semelhante ocorre, agora, por toda a zona sul do Rio, do Jardim Botânico a Santa Tereza, de Botafogo à Cinelândia. São multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos.
No sábado de Carnaval, aquilo que foi outrora o Cordão da Bola Preta tornara-se uma multidão que encheu a avenida Rio Branco, criando um sufoco: gente apavorada não conseguia sair dali, algumas moças desmaiaram e foram, a muito custo, resgatadas por policiais.
É, a vida muda e, às vezes, para pior.
Por toda zona sul do Rio, são multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos
Passado o Carnaval, me ponho a refletir. No final da década de 1950, o Carnaval de rua, no Rio, havia morrido. À exceção do Cordão da Bola Preta e de um ou outro bloco, quase nada havia. É certo que alguns foliões mascarados, vestidos de palhaço, de urso ou vestidos de mulher, vagavam pela Cinelândia, misturavam-se a um ou outro grupo de gente que brincava na avenida Rio Branco.
Bêbados desgarrados sempre houve e haverá, mas o Carnaval de rua, com banda de música tocando e muita gente sambando, como décadas atrás, isso não havia mais. Por que, não sei, mas lembro das conversas de foliões nostálgicos, lamentando o fim desse tipo de brincadeira carnavalesca.
Foi então que, em Ipanema, surgiu um pequeno grupo que decidiu sair para a rua, batucando e cantando. Parece que a primeira aparição desse grupo foi em 1964, pouco antes do golpe militar que viria instaurar uma ditadura no país. Não era muita gente, não, dez ou 20 pessoas e alguns músicos, creio eu.
Nascia a Banda de Ipanema, inventada por Albino Pinheiro e Ferdy Carneiro, a que aderiram Jaguar, Ziraldo, a turma do Pasquim e do Jangadeiro, mas também Sérgio Cabral e o grupo que militara no CPC da UNE e depois no Teatro Opinião, encabeçados por Thereza Aragão. Com o tempo, outros mais aderiram.
O pessoal se reunia na praça General Osório, a banda começava a tocar chamando gente, aumentando o bloco que seguia pela Prudente de Morais até a altura do Bar Vinte, se não me falha a memória. Ali dobrava e retornava pela Visconde de Pirajá de volta à praça de onde partira e onde se dispersava.
Àquela altura, já anoitecera e o pessoal bastante animado, especialmente porque, durante o percurso, parava nos bares para tomar cerveja e batidas de limão.
Era comum que, quando chegava à praça, já muita gente ficara pelo caminho, muitos pelos botecos onde enchiam a cara pelo resto da noite.
A Banda de Ipanema era, assim, uma exceção, mas, de certo modo, uma retomada do Carnaval de rua que, talvez pela importância que o bairro tomara, por nele residirem ou frequentarem seus restaurantes e bares, artistas e intelectuais de prestígio, despertava o interesse de gente de outros bairros -e a banda foi crescendo, de ano para ano.
Não demorou muito e aquele pequeno grupo inicial duplicara ou triplicara de tamanho, e com isso o entusiasmo dos carnavalescos crescia contaminando, claro, os moradores do bairro que, no começo, ficavam nas janelas vendo a banda passar.
E com isso ela também se tornou, de certo modo, manifestação política contra o regime militar. Não explicitamente e sim pelo fato mesmo de opor-se à hipócrita seriedade da ditadura: mostrar-se alegre e irreverente já era ser contra os milicos. Os anos se passaram e outras bandas começaram a surgir em diferentes bairros da zona sul do Rio: no Leme, em Copacabana, no Catete, no Jardim Botânico.
Tive que deixar o país e, assim que voltei, já estava eu lá na banda de Ipanema. Havia muita gente nova, mas os antigos companheiros continuavam lá. Em seguida, mudei-me para Copacabana e, com o tempo, deixei de desfilar. Quando voltei a participar, ela havia mudado muito. Fora alguns dos velhos participantes -Albino, Jaguar, Sérgio Cabral-, a banda tinha sido tomada por outra turma, e à frente dela iam alegríssimos travestis, vindos talvez de outros Estados.
A banda crescera bastante, não conhecia quase ninguém, ou não encontrava os amigos em meio a tanta gente. Foi a última vez que desfilei.
Pois bem, acabo de ver na televisão a banda de hoje desfilando pela Vieira Souto, tomada por uma multidão, que mal conseguia caminhar quanto mais sambar. Coisa semelhante ocorre, agora, por toda a zona sul do Rio, do Jardim Botânico a Santa Tereza, de Botafogo à Cinelândia. São multidões que já não dançam nem cantam, puxadas por trios elétricos.
No sábado de Carnaval, aquilo que foi outrora o Cordão da Bola Preta tornara-se uma multidão que encheu a avenida Rio Branco, criando um sufoco: gente apavorada não conseguia sair dali, algumas moças desmaiaram e foram, a muito custo, resgatadas por policiais.
É, a vida muda e, às vezes, para pior.
O Pedrão, a Leo e a Melinha - HUMBERTO WERNECK
O Estado de S.Paulo - 24/02
Dona Alzira está passada desde que leu no jornal essa história da exumação de Dom Pedro I (furo de reportagem, lembro a ela, do Edison Veiga e do Vitor Hugo Brandalise aqui no Estadão). Não só de Dom Pedro mas também de Dona Leopoldina e Dona Amélia, com as quais, sabemos todos, ele subiu ao altar, uma de cada vez, é claro. Só faltou sacarem da cova uma terceira Dona, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos, com a qual o imperador andou subindo, não ao altar, mas ao nirvana carnal.
O que mais injuriou minha amiga foi, nas suas palavras, o desrespeito à figura de Pedro I. Entre outras grosserias, a exibição de sua imperial caveira, ainda que aparentemente os dentes estejam todos no lugar. Ah, diz ela, não precisavam ter exposto à galhofa republicana as mandíbulas hoje descarnadas por entre as quais transitou o famoso grito, às margens então plácidas do Ipiranga. Dona Alzira tampouco gostou de ver alardeada a notícia de que o imperador fraturou quatro costelas ao literalmente cair do cavalo, logo ele, um ás da equitação. E daí? Se ele jazia não em um, mas em três caixões, argumenta, um dentro do outro, qual boneca russa, era para que o deixassem em paz.
Ainda que inteiro, o esqueleto de Dom Pedro estava lastimavelmente bagunçado - segundo leu Dona Alzira, de tanto que o chacoalharam, coitado, quando o trouxeram de Lisboa, em 1972. A embalagem com os despojos teria sofrido rudes sacolejos no trajeto pelas sucessivas capitais por onde passou triunfalmente. É dessa época a paixão (um pouco mais do que cívica, chego a desconfiar) de Dona Alzira pelo imperador. Ela se lembra de ter lido no Jornal da Tarde, dias a fio, o diário de bordo de um repórter que veio junto com os ossos de Dom Pedro num navio chamado Funchal. Fernando Portela, identifico eu. Isso, diz ela, e observa: meio irreverente, o moço, além de audacioso: em plena ditadura Medici, o danado conseguiu contar nas entrelinhas que a esposa de um ministro graúdo abandonou às pressas a mesa do almoço para lançar no oceano o conteúdo de seu estômago mareado.
Quase um século e meio depois de falecer, Dom Pedro I fazia então o que se julgava ser sua última viagem - que acabaria sendo a penúltima, pois agora o sacaram de sua cripta, no Ipiranga, e na moita o levaram, noite alta, até o Hospital das Clínicas, onde cientistas o submeteram a exames, como se fosse, preconceito à parte, um paciente do SUS.
Tais exames, que no parecer de Dona Alzira raiam ao vilipêndio, revelaram coisas que ninguém precisava saber - como o fato de que Pedro I, tão grande no imaginário popular, media 1,70 metro, por aí. Mais: com exceção das abotoaduras, de ouro, os adornos de seu cadáver são de metais plebeus. Falaram até dos botões de osso da cueca do imperador!
Soube-se também que os derradeiros brincos de Dona Leopoldina têm, em vez de pedras preciosas, gemas feitas de resina. Em compensação, ressalta Dona Alzira, a ausência de fraturas veio aniquilar aleivosias segundo as quais o imperador teria jogado a mulher escada a baixo na Quinta da Boa Vista, quebrando-lhe um fêmur. Já a discreta Dona Amélia, revelou-se uma múmia: 137 anos depois de baixar à cova, seu corpo, embora enegrecido, está espantosamente bem conservado.
Mas precisava mostrar coisas assim? - revolta-se minha amiga. Para completar, nas Clínicas botaram apelidos nos defuntos: a pretexto de sigilo, permitiram-se o desplante de chamá-los de "Pedrão, "Leo" e "Melinha", e ao grupo, "Trio Parada Dura". Pelo menos providenciaram, a pedido da família imperial, um padre para rezar durante a exumação. Em latim. Poucas vezes uma língua morta terá sido tão adequada à circunstância.
Acabou-se a sem-cerimônia? Nada, desalenta-se Dona Alzira: agora estão dizendo que talvez seja possível reconstituir os rostos e até as vozes dos falecidos. Tento consolar a boa senhora: quem sabe a gente vai poder ouvir Dom Pedro gritando Independência ou Morte?
Dona Alzira está passada desde que leu no jornal essa história da exumação de Dom Pedro I (furo de reportagem, lembro a ela, do Edison Veiga e do Vitor Hugo Brandalise aqui no Estadão). Não só de Dom Pedro mas também de Dona Leopoldina e Dona Amélia, com as quais, sabemos todos, ele subiu ao altar, uma de cada vez, é claro. Só faltou sacarem da cova uma terceira Dona, Domitília de Castro, a Marquesa de Santos, com a qual o imperador andou subindo, não ao altar, mas ao nirvana carnal.
O que mais injuriou minha amiga foi, nas suas palavras, o desrespeito à figura de Pedro I. Entre outras grosserias, a exibição de sua imperial caveira, ainda que aparentemente os dentes estejam todos no lugar. Ah, diz ela, não precisavam ter exposto à galhofa republicana as mandíbulas hoje descarnadas por entre as quais transitou o famoso grito, às margens então plácidas do Ipiranga. Dona Alzira tampouco gostou de ver alardeada a notícia de que o imperador fraturou quatro costelas ao literalmente cair do cavalo, logo ele, um ás da equitação. E daí? Se ele jazia não em um, mas em três caixões, argumenta, um dentro do outro, qual boneca russa, era para que o deixassem em paz.
Ainda que inteiro, o esqueleto de Dom Pedro estava lastimavelmente bagunçado - segundo leu Dona Alzira, de tanto que o chacoalharam, coitado, quando o trouxeram de Lisboa, em 1972. A embalagem com os despojos teria sofrido rudes sacolejos no trajeto pelas sucessivas capitais por onde passou triunfalmente. É dessa época a paixão (um pouco mais do que cívica, chego a desconfiar) de Dona Alzira pelo imperador. Ela se lembra de ter lido no Jornal da Tarde, dias a fio, o diário de bordo de um repórter que veio junto com os ossos de Dom Pedro num navio chamado Funchal. Fernando Portela, identifico eu. Isso, diz ela, e observa: meio irreverente, o moço, além de audacioso: em plena ditadura Medici, o danado conseguiu contar nas entrelinhas que a esposa de um ministro graúdo abandonou às pressas a mesa do almoço para lançar no oceano o conteúdo de seu estômago mareado.
Quase um século e meio depois de falecer, Dom Pedro I fazia então o que se julgava ser sua última viagem - que acabaria sendo a penúltima, pois agora o sacaram de sua cripta, no Ipiranga, e na moita o levaram, noite alta, até o Hospital das Clínicas, onde cientistas o submeteram a exames, como se fosse, preconceito à parte, um paciente do SUS.
Tais exames, que no parecer de Dona Alzira raiam ao vilipêndio, revelaram coisas que ninguém precisava saber - como o fato de que Pedro I, tão grande no imaginário popular, media 1,70 metro, por aí. Mais: com exceção das abotoaduras, de ouro, os adornos de seu cadáver são de metais plebeus. Falaram até dos botões de osso da cueca do imperador!
Soube-se também que os derradeiros brincos de Dona Leopoldina têm, em vez de pedras preciosas, gemas feitas de resina. Em compensação, ressalta Dona Alzira, a ausência de fraturas veio aniquilar aleivosias segundo as quais o imperador teria jogado a mulher escada a baixo na Quinta da Boa Vista, quebrando-lhe um fêmur. Já a discreta Dona Amélia, revelou-se uma múmia: 137 anos depois de baixar à cova, seu corpo, embora enegrecido, está espantosamente bem conservado.
Mas precisava mostrar coisas assim? - revolta-se minha amiga. Para completar, nas Clínicas botaram apelidos nos defuntos: a pretexto de sigilo, permitiram-se o desplante de chamá-los de "Pedrão, "Leo" e "Melinha", e ao grupo, "Trio Parada Dura". Pelo menos providenciaram, a pedido da família imperial, um padre para rezar durante a exumação. Em latim. Poucas vezes uma língua morta terá sido tão adequada à circunstância.
Acabou-se a sem-cerimônia? Nada, desalenta-se Dona Alzira: agora estão dizendo que talvez seja possível reconstituir os rostos e até as vozes dos falecidos. Tento consolar a boa senhora: quem sabe a gente vai poder ouvir Dom Pedro gritando Independência ou Morte?
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