quarta-feira, setembro 26, 2012

Os réus morais do mensalão - JOSÉ NÊUMANNE

O ESTADÃO - 26/09


Assim como retiram assinaturas de projetos, líderes governistas renegam nota anti-STF

Há dúvidas se os efeitos do julgamento do escândalo que se tornou conhecido como mensalão – e agora se vê que por motivo justo, pois havia mesmo parlamentares e dirigentes partidários recebendo propinas mensais – ajudarão a sanear a política brasileira de seus péssimos costumes ou se ele será uma exceção. Não no sentido de servir a interesses discricionários, como definiu o insigne professor Wanderley Guilherme dos Santos, presidente da Casa de Rui Barbosa, até segunda ordem um órgão do governo, ao Valor Econômico, mas significando algo anômalo, fora do comum e que não produzirá efeitos. Uma coisa, porém, é certa – e, até agora, isso já o torna histórico: trata-se de uma tomografia que expõe sem piedade as vísceras apodrecidas da República. E é capaz de revelar detalhes da promiscuidade e, como já se pode constatar, também da desfaçatez e da pusilanimidade sem pudor da elite que manda e desmanda no País.

O imenso pântano de cinismo e caradura em que essa elite chafurda já foi descrito em detalhes no manual da corrupção na administração pública nacional que é o livro Nervos de Aço (Topbooks, Rio de Janeiro, 2007), do delator do esquema de compra de votos das bancadas governistas com dinheiro público, Roberto Jefferson, presidente nacional do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Mas como tudo o que expõe sesquipedais rabos de palha, a publicação caiu em ostracismo. Agora, não mais: a malversação do dinheiro público tem sido descrita em capítulos, lidos nas tardes de segunda, quarta e quinta-feiras pelo relator do processo no Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa. O relato, feito com lógica de orgulhar Aristóteles e lido com dicção perfeita e no tom certo, é seguido com interesse pela sociedade graças à oportuníssima exibição ao vivo em canais por assinatura na televisão. E também é reportado pelos meios de comunicação, para desespero de todos quantos pensavam que seriam capazes de mandar o velho Abraham Lincoln às favas, pois conseguiriam enganar todos durante todo o tempo que lhes conviesse.

O trabalho minucioso e competente do ministro trouxe à luz a forma como foi aparelhada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no poder uma instituição secular e respeitável como o Banco do Brasil (BB), fundado no começo do século 19 pelo monarca português e que virou símbolo da passagem de nossa condição colonial à de sede da Corte. E narra o que no livro de Jefferson pode até ser considerado retaliação de perdedor: a entrega de envelopes (e até malotes transportados em carros-fortes de bancos) com gorjeta usada para convencer parlamentares cúpidos e chefes partidários venais a dizerem amém na Câmara e no Senado às ordens emanadas do que passou a ser todo-poderoso Executivo.

Atrás do propinoduto de que Marcos Valério foi só “operador”, no dizer do delator e confirmado pelo relator, foi engendrado o verdadeiro ovo da serpente, o golpe sub-reptício com o objetivo sórdido de instalar uma ditadura dos políticos profissionais sobre os cidadãos comuns. O julgamento do mensalão decidirá o destino de gestores acusados de desviar recursos públicos para aplicarem em seus projetos partidários e nas próprias fortunas pessoais. E terá o condão de decidir de vez que em nosso frágil, mas irreversível, Estado Democrático de Direito todos são de fato iguais perante a lei. A tentativa de reduzir crimes maiores, como corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro, a um delito menor, o caixa 2 de campanha (“recursos não contabilizados”, no eufemismo da vez), partiu do pressuposto de que eles podem fazer o que não nos é permitido. A contabilidade paralela da Daslu levou a empresária Eliane Tranchesi à prisão. Não a de Delúbio Soares. “Pois, afinal, é praticada por todos os partidos. Se os outros podem, por que o PT não?”, questionou o chefão geral, Luiz Inácio Lula da Silva, como acaba de fazê-lo o único acusado do esquema que se beneficiou da delação premiada, o chef Silvio Pereira.

A cúpula petista no poder republicano não tinha dúvidas de que a teoria do padim transmitida a seus causídicos milionários seria aceita facilmente no plenário do Supremo. Afinal, oito dos 11 ministros foram nomeados por um presidente do partido e teriam de ser-lhe gratos. Se o BB foi aparelhado, se a Casa Ruy Barbosa foi aparelhada, se a Petrobrás foi aparelhada, por que não o STF? A verdadeira elite dirigente esqueceu-se de prestar atenção em Chapolim e não contou com a astúcia dos ministros que, imunes à demissão, tratam de evitar que a gratidão emporcalhe sua biografia. O general De Gaulle disse muito bem que a ingratidão é a maior virtude de um estadista.

E é assim que o velho conceito da igualdade de todos perante a lei está sendo garantido pelo STF e os políticos viciados em caronas em jatinhos (quando não dispõem do próprio avião) e nas festas promíscuas pagas pelos sanguessugas do Estado exercem o direito que os galhofeiros verteram para o latim: jus sperneandi. O direito de espernear é a única explicação para a carta dita de apoio a Lula, articulada pelo presidente nacional do PT, Rui Falcão, e assinada por seis partidos da chamada “base governista”, comparando a atuação do STF ao movimento que levou Getúlio Vargas em 1954 ao suicídio e à derrubada de João Goulart em 1964.

O presidente do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), Valdir Raupp, disse que a assinou “constrangido”. Terá o Falcão do PT recorrido a um revólver para convencê-lo? Parlamentares do Partido Democrático Trabalhista (PDT) desautorizaram seu líder, Carlos Lupi. Por que, então, não o depõem da presidência? Habituados a retirar assinaturas de projetos, ao terem atendidos seus pleitos pelo Executivo, devem calcular a inteligência alheia pelo conceito que têm da própria honra. Ao assinarem o documento tragicômico e tentarem fugir da responsabilidade por isso, incluem-se, e também Lula, na categoria de “réus morais” do mensalão. Pois não é isso mesmo que eles são?

Comparação indevida - DORA KRAMER

 O Estado de S.Paulo - 26/09

A determinada altura da sessão desta segunda-feira o revisor Ricardo Lewandowski justificou assim o voto pela condenação de três réus por formação de quadrilha: "Era um mecanismo permanentemente em funcionamento. Isso caracteriza a quadrilha, e esses crimes eram praticados à medida da necessidade demonstrada pelos parlamentares que se deixaram corromper".

Portanto, se alguém se deixou corromper, houve também o agente corruptor e um motivo para corrupção.

A forma da prova, entretanto, continua em debate. A manifestação majoritária dos ministros em relação ao crime de corrupção passiva em "fatia" anterior do julgamento do mensalão provoca revolta aqui e ali.

Advogados de defesa, políticos e agora até um grupo de intelectuais, artistas e acadêmicos alegam que o Supremo Tribunal Federal está inovando. Invocam o julgamento que absolveu Fernando Collor de Mello em 1994, reivindicando tratamento semelhante.

O próprio Lewandowski qualificou de "heterodoxo" o entendimento preponderante no tribunal e justificou a absolvição de João Paulo Cunha do crime de corrupção passiva dizendo que havia se baseado na jurisprudência da ação penal 307, a do caso Collor.

Na essência da lei o STF não está criando nada. A condenação de Cunha decorreu do artigo 317 do Código Penal, cuja definição do ilícito é a mesma: "Solicitar ou receber, para si ou outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função, mas em razão dela, vantagem indevida ou aceitar promessa de tal vantagem".

O único dos atuais ministros a participar do julgamento de Collor, Celso de Mello, na época apontou a exigência de "precisa identificação de um ato de ofício" na esfera das atribuições do presidente, para que se caracterizasse a corrupção.

Justamente o que a Procuradoria-Geral da República não conseguiu demonstrar na ocasião: a denúncia não descreveu uma parte do crime, não apontou que interesses as pessoas que deram dinheiro ao operador de Collor, Paulo César Farias, teriam nos atos do presidente.

E, naquele voto em 94, Celso de Mello falou também sobre a necessidade de haver "uma relação entre a conduta do agente que solicita, recebe ou aceita a promessa de vantagem indevida e a prática, que pode até não ocorrer, de um ato determinado de ofício".

E o que demonstra a denúncia ora em exame? Exatamente a existência de uma relação de trocas indevidas entre parlamentares, partidos e um governo mediante práticas ilegais.

Ou seja, o Supremo não inventa. Os casos é que são diferentes.

Conceito de ética. Quando deixou a presidência da Comissão de Ética Pública em fevereiro de 2008, três meses antes do fim do mandato, Marcílio Marques Moreira disse o seguinte: "Não temos nenhuma força, não temos nenhuma tropa, temos apenas a nossa consciência e a nossa autoridade moral".

Autoridade solapada pelo então presidente Luiz Inácio da Silva ao ignorar por diversas vezes a recomendação de que Carlos Lupi optasse entre o Ministério do Trabalho e a presidência do PDT pelo evidente conflito de interesses entre as duas funções.

Quando renunciou na segunda-feira à presidência da Comissão de Ética Pública um ano antes do fim do mandato, Sepúlveda Pertence nem precisou repetir as palavras de Marcílio para que deixasse perfeitamente entendida a razão de sua saída.

Demolição de autoridade moral.

Desta vez pela presidente Dilma Rousseff, que resolveu retaliar contra dois conselheiros que cobravam mais duramente explicações do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a respeito de contratos de consultoria cujos serviços não foram comprovados.

Oposição na berlinda - ILIMAR FRANCO


O GLOBO - 26/09

À medida que as eleições municipais se aproximam, a oposição (PSDB/DEM) perde fôlego. O Ibope de São Paulo foi recebido com preocupação pela direção tucana. O julgamento do mensalão está mantendo José Serra no jogo. Outros resultados negativos são esperados. A oposição, cada vez mais, depende de um rompimento do governador Eduardo Campos com a presidente Dilma.

Richa perde terreno
Os petistas estão fora do segundo turno, mas estão comemorando o resultado das eleições em Curitiba. Eles estão agora apostando suas fichas no candidato Ratinho Junior (PSC), que lidera nas pesquisas. O otimismo se deve ao desempenho do prefeito Luciano Ducci (PSB), candidato do governador Beto Richa (PSDB). Ocorre que, em 2008, Richa foi reeleito no primeiro turno com 77,8% dos votos. Agora, seu sucessor e candidato tem apenas 25%. Os petistas avaliam que Richa está se enfraquecendo. Dizem que o cenário também é positivo no interior. Nas seis maiores cidades do estado, tucanos e seus aliados caminham para vencer apenas em Londrina.

“O voto do ministro revisor, Ricardo Lewandowski, deixou a situação (do deputado Valdemar Costa Neto) muito complicada.
Está bem difícil” 
Alfredo Nascimento Senador (AM) e presidente do PR

A falta de elegância dos senadores
A sabatina do ministro Teori Zavascki (STJ) foi suspensa. Ele foi levado ao gabinete do senador Eunício Oliveira (PMDB-CE). Os senadores decidiram não retomar a reunião, mas não avisaram Teori. Ele ficou duas horas de molho.

Em campo
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) vai cumprir uma maratona de hoje até sábado. Candidato nas eleições presidenciais de 2014, ele irá a João Pessoa, Campina Grande, Salvador, Feira de Santana, Recife e Maceió fazer campanha para candidatos do PSDB ou apoiados pelos tucanos. Aproveita para ser mais conhecido e nacionalizar sua imagem.

Fazendo a corte ao oráculo
O presidente do PT, Rui Falcão, jantou anteontem em Porto Alegre com o ex-marido da presidente Dilma, Carlos Araújo. O petista falou da importância de a presidente participar do comício de Fernando Haddad sábado, em São Paulo.

PMDB quer cargo numa estatal
Reunião ontem com o vice-presidente Michel Temer tratou da volta de Gleisi Hoffmann para sua vaga ao Senado. O suplente, Sérgio Souza (PMDB), preocupado com a perda do mandato, pediu um cargo. Não para ele. Disse que ficava satisfeito se o ex-governador Orlando Pessuti (PR), a quem é ligado, fosse nomeado para diretor de alguma estatal na área de tecnologia.

Virou piada: o médico e o padre
Dois ministros foram a Recife tentar salvar a candidatura de Humberto Costa. Alexandre Padilha e Gilberto Carvalho. Os petistas brincam que um deu diagnóstico de paciente em estágio terminal, e o outro ministrou, a extrema-unção.

Concurso de beleza para políticos
Todo ano, ONGs elegem políticos de destaque no Congresso. Os parlamentares acham isso importante. Os internautas votam. Ano passado, um senador criou um programa para votar nele. A ONG descobriu a tramoia e anulou os votos.

O SENADOR ALOYSIO NUNES FERREIRA (PSDB-SP) propôs que a TV Senado interrompesse a transmissão, ao público, da sabatina do ministro Teori Zavascki.

Inovações legislativas preocupantes - LUÍS ALBERTO THOMPSON FLORES


ZERO HORA - 26/09



Realmente, o Brasil vive hoje um período muito difícil, em que impera um profundo empobrecimento cultural da nação.

Isso se manifesta em muitas áreas do conhecimento, notadamente na música, nas artes em geral, na política e na educação.

Essa situação lamentável, e como não poderia deixar de ser, apresenta-se, também, na esfera jurídica, na qual, apesar de aflorarem cursos de Direito à profusão, com mestrados e doutorados temerários, o nível acadêmico nunca foi tão baixo.

É o que se pode apreender da elevadíssima repetência no exame da OAB e dos inúmeros cancelamentos de registro de faculdades de Direito promovidos pelo MEC.

Agora, o que é particularmente preocupante neste cenário de calamidade é que tramitam no Congresso Nacional projetos de lei extremamente relevantes para o país, notadamente o novo Código Penal e o Código de Processo Civil.

Se a situação já era aflitiva apenas no que diz com as implicações de estarmos em ano eleitoral, ela se torna dramática com a informação de que esses projetos estão andando a toque de caixa, de forma açodada.

Tanto isso é verdade, que o deputado Miro Teixeira ficou escandalizado com o fato de o projeto do CPC ter sido aprovado no Senado em apenas 40 minutos, sem qualquer debate no plenário.

Apenas para comparar, basta informar que o CPC anterior, ainda em vigor, de autoria do insuperável professor e ministro Alfredo Buzaid, então o maior processualista da América Latina, foi discutido e analisado pela sociedade por 10 anos antes de ser aprovado.

Já o projeto do novo Código Penal, em razão de conter erros crassos decorrentes da falta de conhecimento de seus mentores, foi tachado de obsceno e sem conserto no site Consultor Jurídico de 21 de agosto por ninguém menos do que Miguel Reale Júnior, com a autoridade de ter sido secretário de Segurança de SP, ministro da Justiça e professor titular de Direito Penal da USP.

Tais fatos, por si só, impõem, por parte das autoridades afetas à área, a adoção de uma prudência especial no exame dessas matérias, de excepcional relevância para a vida das pessoas, sob pena de se criar uma expectativa falsa de evolução na sociedade, à semelhança do que ocorreu com a aprovação da Constituição Cidadã de 1988, decantada como panaceia para todos os males.

Marcha a ré na exportação - ROLF KUNTZ


O Estado de S.Paulo - 26/09


Vai muito mal o comércio exterior, fonte importante de emprego e de atividade industrial, mas nem tudo é má notícia nas novas projeções do Banco Central (BC) para as contas externas. Para o otimista militante há pelo menos duas boas novidades. O buraco na conta corrente, agora estimado em US$ 53 bilhões, será pouco menor que o apontado na previsão anterior (US$ 56 bilhões). Além disso, o déficit será coberto com folga pelo investimento estrangeiro direto, projetado em US$ 60 bilhões. Para quem se preocupa mais com fluxos financeiros do que com produção, tudo bem. Não há motivo para inquietação, até porque o rombo em transações correntes ainda será administrável, embora deva corresponder a 2,3% do produto interno bruto (PIB), pouco mais que no ano passado (2,1%).

O cenário é menos luminoso para quem dá mais valor à atividade real e à geração de empregos do que ao entra e sai de capitais, mesmo quando o dinheiro de fora é oficialmente destinado ao setor produtivo. Quem pensa de outra maneira talvez devesse levar em conta a história recente do setor sucroalcooleiro. Durante alguns anos, pipocaram projetos de grandes empreendimentos. O Brasil logo se tornaria, segundo o discurso oficial, capaz de inundar o mundo com álcool barato. Onde estão todo aquele dinheiro e todos aqueles investimentos fantásticos?

Para quem prefere pensar mais prosaicamente sobre a produção, as novas projeções do BC são tenebrosas. O superávit comercial previsto para o ano, US$ 18 bilhões, é o mesmo da projeção anterior. Mas esse número só se manteve porque o mesmo valor, US$ 10 bilhões, foi cortado tanto das exportações quanto das importações projetadas. A estimativa do valor exportado caiu de US$ 258 bilhões para US$ 248 bilhões. As importações, segundo as novas contas, devem ficar em US$ 230 bilhões.

Pela estimativa anterior, a receita comercial ainda seria 0,8% maior que a do ano passado (US$ 256 bilhões). Pela nova projeção, será 3,1% menor que a de 2011. O gasto com as compras seria 6,2% superior ao do ano anterior. Pela reestimativa, será 1,7% maior.

Os números absolutos obviamente importam, mas é muito mais inquietante o descompasso entre exportações e importações. Os novos números projetados pelo BC corroboram uma tendência observada na maior parte deste ano e já registrada antes da crise de 2008. Se alguma crise é refletida nas contas externas, seus efeitos são bem mais sensíveis na atividade exportadora do que na importadora. Os danos são maiores para as fábricas em operação no Brasil do que para suas concorrentes.

O descompasso é observável nos números acumulados até a terceira semana de setembro. Nesse período, as exportações renderam US$ 175,6 bilhões e as importações custaram US$ 160,3 bilhões. Pelo critério das médias dos dias úteis, o valor exportado foi 4,8% menor que o de um ano antes. O das importações, apenas 0,6% inferior ao de igual período do ano passado. Pela mesma comparação, o superávit da conta de mercadorias ficou 33,9% abaixo daquele registrado no mesmo prazo de 2011.

Não se trata, obviamente, apenas de um problema de curto prazo. Em épocas de crise, o baixo crescimento econômico tende a refletir-se em aumento do saldo comercial. Quanto à variação do PIB neste ano, ninguém pode ter grande ilusão. O Ministério do Planejamento já reduziu de 3% para 2% sua previsão de crescimento econômico para este ano. Analistas do mercado financeiro e de consultorias já chegaram a números menores, com a mediana próxima de 1,6%. Mesmo com o início de recuperação indicado por informações recentes, o resultado de 2012 dificilmente ficará fora da faixa de 1,5% a 2%. As importações, no entanto, se mantêm bem mais firmes que as exportações.

É uma crise estranha, pelos padrões internacionais, e suas características têm forte relação com o nível de emprego e com a expansão do crédito. O governo jamais chegou de fato a contrair seus gastos e mesmo neste ano seria um exagero falar de aperto fiscal, apesar da quase estagnação da receita da União. A nova projeção é de crescimento na faixa de 1,5% a 2%. Pela anterior, a arrecadação aumentaria entre 3,5% e 4%.

Embora o grande problema esteja claramente do lado da oferta, o governo insiste em alimentar a demanda e continua tentando expandir e baratear o crédito. Para isso, decidiu destinar mais R$ 21 bilhões do Tesouro Nacional ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica. Medidas desse tipo devem produzir efeito muito mais velozmente que os estímulos à produção concedidos por meio da redução de encargos e de programas de investimentos em infraestrutura. Em vez de se concentrar no alvo certo, o governo insiste em gastar munição do lado errado.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 26/09

Empresas de máquinas para grandes obras mantêm equipamento parado
Um grupo de dez companhias que importam equipamentos para grandes obras tem hoje quase 50 máquinas paradas em seus pátios, segundo empresários do setor.

Estão entre as maiores do segmento de içamento e transportes, engenharia de fundações e geotecnia, que atende obras como construção de parques eólicos, refinarias e infraestrutura em geral.

"Essas são empresas que fazem importação definitiva de equipamentos novos. Mas estão sofrendo concorrência predatória de outras que fazem importação temporária, e, por isso, têm tributação muito inferior", afirma José Bastazini, consultor de sindicatos do setor.

A admissão temporária de máquinas que são posteriormente alugadas no país está em conformidade com a legislação, segundo Claudia Maluf, sócia do escritório Demarest e Almeida, que trabalha com a modalidade.

"Quem nacionaliza o bem definitivamente paga integralmente os tributos que incidem sobre a importação, como IPI, PIS, imposto de importação, Cofins e ICMS. Quem deixa aqui por poucos anos paga proporcional."

A importação definitiva pode sair até 110% do valor do bem adquirido, segundo Guilherme Bueno, sócio da Emit e da Eleva Brasil, que já praticou admissão temporária.

"Como a carga é muito alta no país, muitas vezes, o temporário pode solucionar. Grandes empresas que tinham a cultura de comprar, imobilizar e depreciar agora estão sofrendo", diz Bueno.

A Saraiva Equipamentos investiu em 25 máquinas na expectativa de atuar em obras do PAC, mas tem agora 40% delas disponíveis, segundo Ricardo Teixeira, diretor.

"O governo sinalizou que deveríamos nos estruturar para os projetos. Treinamos mão de obra e investimos."

Situação semelhante aconteceu no grupo Tomé, de acordo com o diretor Washington Moura.

CORTE NO TREINAMENTO
Investimentos no treinamento de funcionários devem diminuir nos próximos 18 meses, de acordo com levantamento da EIU (Economist Intelligence Unit).

Entre os CEOs entrevistados, 77% disseram que haverá corte nos gastos. Dos diretores financeiros, 49% afirmaram o mesmo. Apenas executivos de recursos humanos falaram em maiores investimentos em qualificação.

A pesquisa, no entanto, também mostra que 43% dos consultados afirmaram que a empresa onde trabalham não conseguiu, recentemente, atingir metas financeiras porque os trabalhadores não foram bem geridos.

Para 40%, a falta de uma boa coordenação dos trabalhadores por parte da direção reduziu a capacidade de inovação. Pouco mais de 35% não conseguiram iniciar um grande projeto. Foram ouvidos 300 executivos.

Nova direção A Page Personnel, empresa de recrutamento, mudará o comando de algumas de suas unidades. Danilo Castro deixa o escritório de São Paulo, que será dirigido por Roberto Picino, e passa a dedicar-se à unidade do Rio.

Destino: Oriente O Tecon Salvador, empresa do Grupo Wilson Sons, importou 82 mil toneladas de cargas em agosto -incremento de 18% em relação à média dos meses anteriores. O maior volume de compras tem origem na China.

FÁBRICA DE CHOCOLATE
A rede Chocolates Brasil Cacau, que pertence ao grupo CRM, vai fechar 2012 como o ano de maior expansão de suas lojas.

Serão 90 unidades neste ano, 60 delas nos próximos meses. Para 2013 estão previstos mais 150 pontos, segundo Renata Vichi, vice-presidente da empresa.

A maior concentração está em São Paulo e no Rio de Janeiro, de onde vem 70% do faturamento da empresa, de acordo com a executiva.

"Temos alguns quiosques, que estão recebendo interesse de franqueados. Alguns chegam a faturar mais que loja física", diz.

"O que define o faturamento não é o tamanho, mas a localização."

O grupo também é dono da marca Kopenhagen que, para este ano, projetou 20 unidades no país.

CONFIANÇA GERMÂNICA
O índice de confiança alemã apresentou ligeira elevação neste mês, de acordo com a consultoria GfK. O indicador elaborado pela empresa vai de -100 a 100 pontos.

A intenção de realizar compras na Alemanha se manteve em 33,1 pontos.

As expectativas em relação à renda, por sua vez, caíram 7,7 pontos, para 23,9.

Segundo a GfK, a pesquisa mostra que o índice não deve cair ao patamar de 2008 e 2009, quando a perspectiva sobre a economia chegou a -30 pontos.

MODA SERTANEJA
O grupo paranaense Wood's, especializado em casas noturnas sertanejas, anuncia hoje investimentos de R$ 15 milhões na abertura de cinco novas casas -três delas fora do Paraná.

A empresa, que já está em São Paulo e em Balneário Camboriú (SC), abrirá filiais em Belo Horizonte, Campo Grande (MS) e Cuiabá (MT) até o final do ano.

A nova unidade de Curitiba, que está incluída nesse pacote de investimentos, também deverá ser anunciada hoje.

Aperta que vai - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 26/09


As cotações das ações dos bancos despencaram ontem na Bolsa em reflexo ao anúncio feito pela direção do Bradesco, na véspera, de que cortará em mais da metade (de 14,9% ao mês para 6,9% ao mês) os juros cobrados no segmento rotativo dos cartões de crédito.

Esses 6,9% ao mês ainda são escorchantes. Correspondem a juros anuais de 123%, nível que também não tem justificativa técnica.

A decisão do Bradesco foi tomada sob pressão. Primeiramente, seus dirigentes sentiram no cangote o tacão do governo federal. Desde o dia 7 de setembro, a presidente Dilma Rousseff fulminava os bancos com críticas cortantes sobre o nível dos juros praticados no crédito rotativo dos cartões e nos cheques especiais. A retórica foi, depois, transformada em consequência, quando os dois maiores bancos estatais de controle federal - Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal - anunciaram fortes derrubadas nesses custos ao tomador. Desta vez, foi notável, também, o desentendimento entre Bradesco e Itaú sobre como reagiriam aos apertos federais.

As justificativas do diretor executivo do Bradesco, Marcelo Noronha, para a decisão tomada pareceram tão inconsistentes quanto as manifestadas anteriormente pelos seus dirigentes quando tentavam justificar os níveis da agiotagem então praticada. Ou eram descabidas antes ou passaram a ser agora.

Sem passar o recibo de que foi forçado a cortar os juros pela ação do governo, sob pena de graves perdas de participação no cobiçado mercado dos cartões de crédito, Noronha se limitou a reconhecer que "os bancos têm de fazer a sua parte e virar a página dos juros de dois dígitos no cartão de crédito". Disse, também, que a elevação da base de clientes e de transações com cartões de crédito e os ganhos de escala se encarregarão de recompor os resultados do banco.

Ontem, o Credit Suisse alertou os acionistas do Bradesco de que o volume de financiamento do cartão de crédito precisaria subir 40% para que o banco tivesse escala suficiente para compensar as perdas de receita que virá com o corte nos juros - como disse Noronha. Como todos os concorrentes também buscarão aumento de escala, parece inevitável que os altos lucros não voltem por aí.

A indústria de cartões está em expansão. Nos últimos cinco anos, cresceu em 85% o número de usuários para os 193 milhões previstos no final de dezembro. Nesse período, o volume de transações financeiras cobertas saltou 111% e seu faturamento, 169%.

Os cartões de crédito prestaram grande serviço ao País e aos bancos. Baixaram a necessidade de suprimento de papel-moeda e o uso de cheques, que exigem processos custosos de manipulação, transporte e compensação. Ampliaram a clientela bancária e automatizaram boa parcela das suas operações de crédito. Enfim, não só ajudaram a modernizar o sistema nacional de pagamentos, mas também a aumentar os negócios dos bancos.

No mais, é nova mostra de que é perda de tempo argumentar com os bancos. Cedem só sob pressão ou quando uma concorrência para valer começa a desmanchar seu jogo oligopolista. Ontem, o Itaú anunciou a redução dos seus juros.

O capital, esse culpado - MARCOS DANTAS


O GLOBO - 26/09

Sim, o capital impulsiona as grandes obras hidrelétricas em construção na bacia amazônica. O capital também impulsiona a invenção, fabricação e venda de computadores, aparelhos de TV, smartphones, ônibus, caminhões, trens, automóveis, geladeiras e os alimentos e bebidas que enchem as geladeiras, remédios, também as novelas, os jogos de futebol, filmes ou livros que preenchem os nossos tempos livres. "Acusar" o capital pelas grandes obras hidrelétricas na Amazônia é mera platitude. A questão a discutir é a de se precisamos delas ou não para continuarmos a viver na civilização em que vivemos.

A expressão "capital", nesse significado que se confunde com "empresa" e, daí, com um certo tipo de pressão política "espúria", identifica um discurso que se pretende de "esquerda". Assumindo esse discurso, é certo que existem empresas poderosas interessadas na construção de Belo Monte.

Com os recursos auferidos, gerarão bons lucros para os seus milionários acionistas. Mas boa parte desses recursos também pagará salários a engenheiros, outros profissionais de nível superior ou médio, milhares de "peões" de obra, milhões de outros trabalhadores em empresas direta ou indiretamente fornecedoras. Esses salários comprarão geladeiras, televisores, alimentos etc., etc., etc. Esses salários, mal ou bem, pagarão estudos de crianças e jovens, e cuidados com a saúde. Esses salários, tanto o do engenheiro quanto o do "peão", também movimentarão contas de FGTS, cadernetas de poupança, contribuições para o INSS, além, claro, de alimentar o voraz "leão". Isto em Altamira, Belém, Imperatriz, São Luís e tantas outras cidades do Norte e Nordeste, mas também, devido a seus efeitos multiplicadores, no Rio, em São Paulo, em todo o país. Belo Monte pode interessar ao capital, mas também muito interessa ao trabalho.

Obras como essas modificam tudo no território à sua volta. É verdade. Atraem novas gentes, num movimento aliás inerente à espécie humana, desde quando ela se originou em um ponto qualquer da África subsahariana. No Brasil mesmo, para não remontarmos a 15 mil anos atrás, nossa história recente seria incompreensível sem as migrações de nordestinos para o Centro-Sul (no meio deles veio um certo Lula da Silva). Os brasileiros agora estão indo para o Norte, um dos nossos últimos territórios ainda quase nada modificados, levados pelo capital que, para onde vai, não sabe viver sem as suas brigas com o trabalho.

Como sempre aconteceu ao longo de toda a história da humanidade, diante de movimentos assim, as populações autóctones ou se adaptam, ou perecem. Sobrevivem aquelas que logram incorporar novos hábitos, e nisto modificando os antigos. Aliás, este tem sido o caminho pelo qual a humanidade, ao não extinguir, logra manter, enriquecer e aprimorar sua diversidade. Que o diga a cultura brasileira, cuja rica variedade resultou de sua mestiça e sincrética herança ameríndia, europeia e africana.

Esta sempre foi a visão da esquerda, aquela mesma esquerda da crítica ao capital, ao menos desde Saint Simon e Marx. De uns tempos para cá, no entanto, quer-se negar esse projeto de progresso civilizatório. Parece novidade. Pós-moderno. Não é.

Não passa de reciclagem da velha utopia primitivista de Rousseau. Mas que, como discurso, interessa, e muito, a outros setores do... capital. Estes que bancam as ONGs, logo também pagam os salários que compram as geladeiras, as TVs de LED, as roupas de shopping, os computadores, os automóveis particulares e o permanente turismo internacional dos seus profissionalizados militantes. Não esquecendo as suas contas de luz.

Novos rumos na economia - ANTONIO CORRÊA DE LACERDA


O ESTADÃO - 26/09

Todos que tomamos decisões que envolvem aspectos fora do nosso controle precisamos estar atentos aos novos sinais e às novas tendências que determinarão os rumos da economia brasileira. Rejeite o chavão de que "nada mudou", assim como os preconceitos, e faça uma análise pragmática. São mudanças às vezes sutis,mas que, tudo indica, vieram para ficar e deverão representar novos desafios e oportunidades.

As transformações em curso nas políticas econômicas brasileiras apontam para um cenário futuro menos desfavorável à atividade produtiva e aos investimentos. Várias ações foram, ou estão sendo, tomadas para um ambiente mais favorável ao valor agregado local. Destaco algumas delas:

Juros: houve redução de cinco pontos na taxa básica Selic nos últimos 12 meses, apontando para um juro real de cerca de 2% ao ano, considerando a expectativa de inflação para os próximos 12 meses.Os juros para o financiamento do BNDES foram reduzidos e há ações em curso para baixar o custo do financiamento privado aos consumidores e às empresas. Essa mudança tem grandes impactos positivos, a começar pela diminuição do custo de financiamento da dívida pública, mas não só. A queda do custo de oportunidade deve favorecer um maior interesse de grandes fundos investidores em diversificar seu portfólio e investir em projetos.

Taxa de câmbio: o real desvalorizou se de R$1,60, em julho de 2011, para um nível ao redor de R$2. O Banco Central (BC) tem envidado esforços para ações visando a evitar a valorização do real. Os juros mais baixos, as intervenções no mercado e o IOF desestimulam o ingresso de capitais voltados para operações de arbitragem, mas os influxos de investimentos estrangeiros diretos e em portfólio já são suficientes para provocar a valorização da nossa moeda. Isso só não está ocorrendo porque o BC tem estado corretamente atento para evitá-la.

Aqui, trata-se de uma mudança de direção importante, pois sinaliza um quadro mais favorável para a produção local, que ganha competitividade relativamente aos produtos importados. Também a exportação de manufaturados é favorecida pelo mesmo motivo.

Elevação de alíquotas de importações: embora não seja desejável, o protecionismo reinante no quadro internacional nos obriga a tomar medidas preventivas. Neste campo, todos os países ficam a dever. No mais das vezes, adotam um discurso liberal, mas são protecionistas na prática. O fato é que quem não se cuidar vai acabar pagando uma parcela maior da conta.

Redução do custo Brasil: aqui, sim, temos ações para melhorada competitividade sistêmica, com impactos mais amplos. Desonerações tributárias e de encargos incidentes sobre a folha de salários favorecem a competitividade dos produtos brasileiros. Nesse campo, outra medida bem-vinda foi o anúncio da redução do custo da energia elétrica.

Concessões públicas: o governo anunciou que ampliará seu programa de concessões na área de infraestrutura, buscando atrair investimentos do setor privado - uma importante ação para viabilizar a eliminação de entraves importantes para o crescimento de longo prazo.

É certo que as medidas citadas, embora na direção correta e revelando importantes quebras de paradigma, ainda são insuficientes para garantir um ambiente isonômico relativamente ao praticado internacionalmente. Mas representam importantes mudanças de rota. É preciso que as transformações em curso não sejam só transitórias, mas perenes, para propiciar um cenário mais favorável à produção e aos investimentos.

Ao contrário de alguns que veem uma deterioração de qualidade da política econômica, os novos rumos apontam para justamente o contrário. O Brasil vem respondendo bem à desordem econômico- financeira que se estabeleceu depois das crises americana e europeia. As transformações domésticas em curso também refletem o cenário de exceção em voga na maior parte do mundo. E, se não as fizéssemos, estaríamos numa situação muito pior do que estamos.

CLAUDIO HUMBERTO

“Juiz que não ouviu o relatório não participa do julgamento”
Teori Zavascki, futuro ministro do STF, sinalizando que não julgará o mensalão


GOVERNO TEME QUE ESPIÃO SEJA LIGADO AO WIKILEAKS

A área da inteligência do governo federal entrou em pânico com a descoberta do roubo de dados supostamente confidencias realizado pelo ex-agente William (o sobrenome é omitido por segurança), que entrou na Agência Brasileira de Inteligência (Abin) há dois meses e passou a copiar papéis. O temor do governo é que o ex-araponga seja ligado ou pretendesse se ligar ao site WikiLeaks, de Julian Assange.

VAZOU, ACABOU

O general Elito Siqueira, do Gabinete de Segurança Institucional, e a alta arapongagem temem “o fim da Abin” se houver “megavazamento”.

VOLTA À ATIVA

Aumentaram as preocupações do governo: o STF anulou a demissão do agente Nery Kluwe, suspeito de “vazar informações à imprensa”.

NO ATAQUE

Candidato a prefeito de São Paulo, Gabriel Chalita vai adotar tom mais incisivo na reta final da campanha. Atacará Serra e Russomanno.

BEM DISTANTE

Efeito Cachoeira: o tucano Marconi Perillo não deu as caras na campanha do aliado Jovair Arantes (PTB) à Prefeitura de Goiânia. 

DILMA IGNORAVA PERTENCE E ATÉ SUAS INDICAÇÕES

Dilma não dava a mínima para o ex-presidente da Comissão de Ética da Presidência Sepúlveda Pertence. Nem despachavam. Trocaram palavras pela última vez na posse do ministro Carlos Ayres Britto na presidência do STF, em abril. Ela mandou dizer pelo ministro Gilberto Carvalho, o secretário-geral, que os nomes por ele sugeridos, de atuação independente, não seriam reconduzidos. Foi a gota d’água.

ÉTICA SÓ NOS OUTROS

A presidente Dilma se irritou com sugestões dos membros não reconduzidos para demitir um ministro (Carlos Lupi) e advertir outro (Fernando Pimentel).

MÃO NA RODA

O governo liberou R$1,6 milhão para a Advocacia-Geral da União alugar carros zero, no Rio, com seguranças, até setembro de 2013.

ARREPENDIMENTO

O PSC avalia que deu tiro no pé ao apoiar Gabriel Chalita (PMDB) em São Paulo, e está doido para aderir a Russomanno (PRB), no 2º turno.

TRÂNSITO EM PAUTA

Dilma citou ontem o esforço para reduzir a violência no trânsito. Acordo com a ONU objetiva reduzir acidentes à metade e tirar o Brasil da condição de 5º país em mortes no trânsito. Foi deflagrada sexta (21) a campanha permanente de conscientização de governos e sociedade.

NEM LIGARAM

Até as emissoras de TV do governo ignoraram o ótimo discurso de Dilma, na abertura da 67ª assembleia-geral da ONU. Só o canal de notícias Band News transmitiu o discurso ao vivo.

ASPONE ESPAÇOSO

Quando a presidente Dilma Rousseff recebeu em Nova York o português Durão Barroso, da Comissão Europeia, o aspone Marco Aurélio ia sentando na cadeira do chanceler Antonio Patriota. Frustrado o ensaio, Top-Top saiu de fininho.

LOBBY AÉREO

Empresas aéreas são contra o projeto que transfere ao poder público, que paga as passagens, os créditos das milhas aéreas. Dizem que o programa de milhas é para “agradar ao passageiro”. Já o contribuinte...

DESCONFIANÇA

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) critica o constrangimento ao qual foi submetido Teori Zavascki em sabatina no Senado, ontem: “A pressa para nomeá-lo gerou suspeitas”.

AGENDA INTERNACIONAL

Mal chegou de Londres e Roma, o vice-presidente da República, Michel Temer, já se prepara para possível viagem à Alemanha. O objetivo é atrair empresários e investidores ao mercado brasileiro.

O IRÃ É AQUI

Virou moda: após a ordem de prisão do presidente do Google Brasil, a Justiça Eleitoral do Estado do Pará proibiu no YouTube um vídeo acusando um candidato a prefeito de Capanema de assassinatos.

SEIS ANOS SÁBADO

O acidente do voo 1907 da GOL faz seis anos no sábado (29), e familiares homenagearão as vítimas às 16h59, hora da tragédia, no memorial erguido no Jardim Botânico, em Brasília.

PERGUNTA NO FLAT

Waldemar Costa Neto agora vai se queixar ao bispo? 

PODER SEM PUDOR

O "MÃO SANTA" DO DF

Ao discursar na inauguração da Clínica da Família em Samambaia (DF), perto de Brasília, o secretário de Saúde, Rafael Barbosa, fez um agrado no chefe. Disse que os pacientes beneficiados com o mutirão de cirurgias vem dizendo que só aceitam ser operados pelo cirurgião Agnelo Queiroz (PT), o governador que vem sendo escalado semanalmente para ajudar a diminuir a fila nos centros cirúrgicos dos hospitais do DF. Um gaiato aproveitou a deixa e gritou, do meio da plateia, arrancando gargalhadas: 

- É o Mão Santa!

QUARTA NOS JORNAIS


- Globo: Hora do mensalão – Supremo só terá novo ministro após eleições
- Folha: Dilma ataca os EUA e diz que defesa da indústria é legítima
- Estadão: Dilma diz na ONU que ganho com protecionismo é espúrio
- Correio: Senadores dão calote e quem vai pagar é você
- Valor: Grandes bancos enfrentam desafio do ajuste de contas
- Estado de Minas: Amigos, amigos. Negócios à parte
- Zero Hora: Avanços na ofensiva pelo juro “civilizado” no cartão de crédito

terça-feira, setembro 25, 2012

Vai levar, freguesa? - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 25/09

A empresa paulista Sax perguntou a dez mil pessoas em todo o país quem atende melhor no comércio.
Numa escala de um a cinco, a maior nota ficou com as feiras livres (3,9), seguidas pelas padarias (3,7) e pelas farmácias (3,5).
A pior nota ficou com as lojas de telefonia (2,2), depois os bancos (2,4) e os supermercados e as lojas de eletroeletrônicos (3,0).

E o pior e que...
Ainda teve telefônica que fez beicinho de quem teria sido injustiçado quando a Anatel aplicou um corretivo em muitas delas, lembra-se?

Sobrou para o Rio

De Ruy Castro sobre a proposta de alguns comissários petistas da cultura de transferir a Funarte do Rio para Brasília:
— Querem 'desprovincianizar' a Funarte, tirando sua sede do Rio e levando-a para Brasília. Se acontecer, será uma dupla contradição em termos.

Em tempo
A ideia de tirar a Funarte do Rio tem DNA de São Paulo, terra da ministra Marta Suplicy.

É muita tensão

Esta maratona do julgamento no STF do Mensalão tem naturalmente estressado os ministros.
Um deles já foi parar no médico com doença de fundo nervoso.

Brasil melhorouOs dados que o Ipea, sob nova direção, divulga hoje mostram que a pobreza caiu 57% na última década.
O Brasil atingiu em dez anos uma das Metas do Milênio, da ONU, prevista para ser alcançada em 25 anos.

‘HOJE O CÉU ESTÁ TÃO LINDO...’

Ontem começou de fato a primavera no Jardim Botânico do Rio, três dias depois da mudança oficial de estação. Confira aqui. A aleia “Primavera” (o nome técnico é Bougainvillea spectabilis Willd), ali quase em frente ao Bromeliário, excedia em beleza, provocando a parada obrigatória e o encantamento dos visitantes, muitos deles estrangeiros que não conhecem essa trepadeira tão, tão característica do nosso clima tropical. No mais, é como diz um versinho da música “Primavera”, de Tim Maia: “Hoje o céu está tão lindo (sai chuva)...” •

Perigo francês

O diário International “Herald Tribune,” do jornalão "New York Times” publicou que Samia Ghali, prefeita de dois distritos de Marseille, na França, pediu ajuda ao Exército francês para combater as gangues da cidade.
Deve ser terrível... você sabe.

Síndrome de Down
Muitas vezes os portadores da síndrome de Down não são bem atendidos pelo SUS por ignorância dos profissionais de saúde.
O ministro Alexandre Padilha vai lançar um plano para padronizar e humanizar esse tipo de atendimento na rede pública.

Teacher Carminha
Tem estrangeiro, como se sabe, que aprende o português vendo novela.
É o caso do cônsul do Canadá no Rio, Sanjeev Chowdhury, que não gosta de assumir compromissos na hora de "Avenida Brasil”

Nome novo
A agência Euro RSCG, que atua em 75 países, mudou de nome para Havas Worldwide (pronuncia-se: ravas worldwaide). O boa-praça Armando Strozenberg é o chairman Brasil.

Vestidos da ‘Divina’
A produtora carioca Carino pretende produzir um livro de fotografias com vestidos de Elizeth Cardoso (1920-1990), a saudosa cantora. Vai se chamar "Faces de Elizeth” e será lançado com show e exposição de vestidos e fotos.
O MinC autorizou a captação de R$ 1.110.900.

Mas...
Um milhão e cem mil reais não é muito dinheiro público?

Saidinha de banco
A 3? Vara Cível do Rio determinou que o Banco Itaú indenize uma cliente por um assalto na saída do banco em agosto de 2007.
Cláudia Mello Alves, do Trapiche Gamboa, sacou R$ 10 mil de sua conta e, ao sair do banco, foi assaltada, segundo o seu advogado João Tancredo. O banco terá de pagar o dinheiro roubado com juros, além de R$ 25 mil de danos morais.

Cinderela em casa
A 7? Câmara Criminal do Rio concedeu, parcialmente, o habeas corpus impetrado pelas advogadas Guiomar Mairovitch e Paula Barioni para transformar a prisão preventiva em domiciliar de uma das garotas de programa acusadas de aplicar o golpe conhecido como Boa Noite Cinderela em turistas estrangeiros, em Copacabana.
É que, segundo as advogadas, não há prova do uso da substância.

Imprensa
O “Jornal do Commercio” festeja seus 185 anos no dia 1°, no Copacabana Palace. É o mais antigo ainda em circulação na América Latina.

Piu-piu

O candidato Rodrigo Maia visitou uma associação de criadores de pássaros em Vargem Grande, no Rio, tentando ciscar uns votinhos.
Ficou encantado com a cantoria e saiu de lá com um trinca-ferro na gaiola.

Stanley Fischer, economista - ANTONIO DELFIM NETTO

VALOR ECONÔMICO - 25/09


No Brasil um grande número de analistas condena até um encontro casual num elevador, do ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central. Isso revela que entendem mal o exercício da política monetária e o da política fiscal. Exigir que o presidente do BC e o ministro da Fazenda se ignorem, não passa de pura ignorância!

Para comprovar isso, nada melhor do que um anúncio conjunto de meia página no "The Economist" de 15 de setembro de 2012 pelo Tesouro Inglês (His Majesty Treasury) e do Banco Central inglês (Bank of England) no qual convidam, para um concurso público, candidatos ao cargo de presidente do banco. Em junho de 2013 deverá vencer o mandato do atual, sir Mervyn King.

E como o feliz vencedor vai trabalhar? O mesmo anúncio informa: "O presidente (the governor) trabalhará intimamente com o ministro da Fazenda (chanceller of the Exchequer) e com o Tesouro (His Majesty Treasury) que é responsável pelo estabelecimento das diretrizes dentro das quais o banco deve operar". Se encontrarmos num "pub" tomando "Guinness" e confraternizando os três ilustres personagens, não devemos suspeitar que o "eleito" perdeu a sua "independência" como acontece em Pindorama...

Fischer combina o conhecimento da Academia e do mundo

Falando de política monetária, Stanley Fischer, presidente do Banco Central de Israel desde 2005, comentou um magnífico trabalho (Cagliarini, A.-Kent, C.-Stevens, G. - "Fifty Years of Monetary Policy: What Have We Learned?"). À sua excelência acadêmica ele soma agora a experiência prática de dirigir um banco central, o que lhe dá muito mais responsabilidade de quando vice-chairman do Citi (1988-1990) e posteriormente, managing director do International Monetary Fund (1994-2001).

Talvez não haja no mundo outro economista que tenha atingido a excelência na Academia, metido as mãos nas entranhas do sistema financeiro privado, aproveitado o poder arrogante do FMI e, no fim, castigado com a presidência de um banco central num país onde as dificuldades políticas e econômicas são notáveis. É por isso que o que ele fala deve ser levado muito a sério.

Depois de mostrar que um sistema de metas de inflação relativamente "flexível", no qual o banco central usa cuidadosa política monetária que leva em conta seus efeitos sobre o nível de atividade para decidir se a velocidade de retorno à meta é capaz de produzir o resultado esperado de estabilizar a expectativa de inflação no longo prazo, ele tece algumas considerações extremamente úteis que derivam de sua longa e variada experiência. Divide-as em quatro itens:

1) o problema de um único instrumento com dois objetivos;

2) o "trade off" nulo no longo prazo entre inflação e crescimento que toma a mesma forma no curto prazo;

3) o problema da taxa de câmbio para as pequenas economias abertas e;

4) os problemas dos preços dos ativos, da estabilidade financeira e da supervisão macroprudencial.

Com relação ao primeiro, ele mostra a inutilidade do famoso teorema que exige um número de instrumentos igual ao número de objetivos, porque esse supõe a independência dos instrumentos e dos objetivos. E conclui: "Portanto, não é geralmente verdade que por que o banco central tem apenas um instrumento (a taxa de juros) ele pode influenciar apenas um objetivo, a menos que o instrumento não tenha nenhum efeito sobre os outros objetivos." No fundo trata-se de um problema prático: de como chegar no entorno, ou seja, não precisamente nos dois objetivos, usando um só instrumento.

Com relação ao segundo, sugere que a não existência de "trade-off" entre inflação e variação do PIB no longo prazo, não é verdadeira no curto prazo. Tal hipótese decorre da aceitação da teoria das expectativas racionais que em geral é incorreta. A verdade, conclui Fischer "é que o longo prazo é uma sucessão de curtos prazos e que em todo momento o banco central tem de levar em conta esse "trade-off"" (no curto prazo).

Com relação à terceira questão, Fischer é categórico (uma mudança de 180 graus com relação à Academia, à prática do mercado financeiro e ao FMI de então): "Nenhuma pequena economia pode ser indiferente ao comportamento de sua taxa de câmbio, que compete com a taxa de juros pelo papel de ser o mais importante preço relativo da economia (certamente a palavra "real" poderia ser inserida duas vezes nessa frase)". E acrescenta, do alto de sua experiência: "Os livros-texto dizem que a política fiscal pode ser apertada para reduzir a taxa de juro e, assim, reduzir os incentivos para a entrada de capitais. Essa é uma boa história e é válida em certas circunstâncias. Usualmente, porém, a política fiscal já tem problemas suficientes para administrar as despesas do governo e seu financiamento sem ter que assumir a responsabilidade pela política cambial. Dessa forma o problema volta ao banco central e a outros instrumentos que não a política fiscal." Ele reconhece as dificuldades do controle de capital, mas adverte que "um banqueiro central nunca deve dizer que nunca"... vai utilizá-lo!

Com relação ao quarto item, resume a questão à de como enfrentar "bolhas". O problema não é decidir se o banco central deve furá-las, mas sim se ele deve levar em conta o estado dos mercados de ativos na formulação da política monetária. A resposta de Fischer é simples e direta: "Sim".

A vida ensinou-lhe a necessária humildade na combinação do conhecimento acadêmico e o mundo real. Alguns de nossos arrogantes analistas que se pensam portadores da "verdadeira ciência monetária" fariam muito bem em tentar imitá-lo.

O voto e o fato - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 25/09


O ministro revisor do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, já condenou vários políticos, de diferentes legendas partidárias, por crime de corrupção passiva, o que pressupõe que ele tenha um culpado, ou culpados, do crime de corrupção ativa que será julgado em seguida, pegando o núcleo político do caso, composto pelo ex-ministro José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro petista Delúbio Soares.

Ao contrário do que fez em relação ao deputado João Paulo Cunha, a quem absolveu de todos os crimes imputados a ele - corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro -, no voto deste item o ministro Lewandowski condenou vários réus políticos por corrupção passiva, o que deixa pouca margem para a aceitação da tese de caixa dois. No caso do deputado petista, o ministro alegou, em conversa comigo depois da votação, que ele poderia caracterizar "um outro crime que não está na denúncia", deixando no ar se seria crime eleitoral ou até mesmo tributário.

Se, no entanto, insistir na teoria que já esboçou anteriormente ao julgar o deputado João Paulo Cunha, de que o que houve foi um crime eleitoral de financiamento de caixa dois de campanha, estará diante de uma impossibilidade na visão do ministro Marco Aurélio Mello, que tem interpretações bastante próprias, e quase sempre apropriadas, dos textos legais e do regimento interno do Supremo Tribunal Federal. Para ele, se a linha de acusação for a da defesa, não é possível condenar os réus do mensalão por corrupção passiva, pois "os institutos não se confundem".

O ministro relator Joaquim Barbosa, mesmo acreditando que não é necessário o "ato de ofício" para caracterizar corrupção passiva, assume a acusação de os réus terem se vendido em troca de apoio político ao governo federal.

Para Lewandowski, a corrupção passiva exige apenas a demonstração de recebimento ou oferecimento da vantagem ilegal ao parlamentar ou servidor. Já Marco Aurélio Mello diz que o caixa dois é um crime regido pelo Código Eleitoral, que não se mistura com um crime regido pelo Código Penal. Por isso, lembra Marco Aurélio, os advogados admitiram da tribuna o crime eleitoral, porque já estariam prescritos.

Nesse caso, não seria possível dar as penas aos acusados por corrupção passiva se a maioria do plenário do STF seguir o revisor e considerar que o que houve foi mesmo um crime eleitoral.

Saberemos apenas no voto do ministro revisor sobre a atuação do núcleo político qual a sua interpretação para os fatos que estão sendo julgados.

Caberá aos ministros do, na votação que deve começar amanhã, encaminhar a decisão do Supremo para uma conexão de causa e efeito entre a corrupção passiva e a compra de apoio político ao governo no Congresso, ou enveredar pelo caminho nebuloso do financiamento eleitoral através do caixa dois, que parece cada vez mais estreito e improvável, e que poderá provocar o conflito enxergado por Marco Aurélio.

Outro conflito que o ministro antevê é sobre a possibilidade de o novo ministro, Teori Zavascki, pedir vista do processo ao assumir seu posto no Supremo Tribunal Federal, atrasando assim o julgamento do mensalão.

Para Marco Aurélio, ele pode participar das sessões do julgamento do mensalão depois de aprovado pelo Senado, mas não poderá pedir vista, porque, na sua interpretação, se se considerar "apto" a participar do julgamento, como exige o Regimento Interno, não poderia alegar desconhecimento do processo.

Essa seria uma contradição insanável, na visão de Marco Aurélio, mas é uma interpretação bastante estrita da letra do regimento, que provavelmente será superada pelo entendimento majoritário do plenário, que considera que o novo ministro tem o direito de pedir vista, mas terá que arrostar as consequências de seu ato perante a opinião pública.

Quem o conhece acha que ele não atuaria para atrasar o julgamento, embora tenha o direito de participar dele nos itens em que Cezar Peluso, a quem substitui, não votou.

Caso a sabatina se realize mesmo hoje, no entanto, o ministro indicado Teori Zavascki estaria disposto a anunciar, se perguntado, que não pretende participar do julgamento.

Brasil amarrado e sem saída - MAURO LAVIOLA

O Globo - 25/09


Soa no mínimo insólita a recente declaração do ministro Antonio Patriota de que "o Brasil precisa de mais acordos internacionais (subentende-se fora da América Latina) para defender sua posição nos mercados e disputar mais espaços à sua economia". Vindo do chefe da diplomacia brasileira, ela encerra uma clara contradição frente à política externa do país, particularmente desenvolvida nos últimos dez anos.

A cultura terceiro-mundista prevalente conseguiu, a duras penas, via Mercosul, negociar apenas cinco acordos comerciais que pouco valem em termos comerciais - Índia, Israel, Sacu ( Southern African Customs Union ), Egito e Palestina -, sendo que apenas os dois primeiros vigoram.

A Alca (leia-se Estados Unidos) foi sepultada em 2002 e as negociações Mercosul-União Europeia arrastam-se desde o início do século sem perspectivas de êxito, menos pela recalcitrância de alguns setores industriais brasileiros do que pela postura argentina em aceitar qualquer liberalização, mesmo gradual, do comércio de bens industriais.

É importante assinalar que alguns parceiros regionais importantes para o Brasil - Chile, Colômbia, México e Peru (coincidentemente os mesmos que acabam de formalizar a Aliança do Pacífico) - há algum tempo desvincularam-se da idiotice de temer os mais fortes e já formalizaram importantes acordos com o Norte das Américas, Europa, Leste Asiático e Oceania, isto é, a nata do mundo desenvolvido.

Com a efetivação da Venezuela no Mercosul, eventuais negociações extrarregionais tornam-se mais complexas, uma vez que aquele país nem deu início ao processo de eliminação integral das tarifas aduaneiras, adoção da TEC e incorporação dos demais ordenamentos jurídicos do bloco sem o que qualquer eventual acordo não poderá ser concluído. Isso, sem falar nos problemas jurídicos que ainda poderão advir quando ocorrer o término da suspensão do Paraguai em 15 de agosto de 2013, quando se dará a posse do novo presidente eleito em abril do mesmo ano. Recentemente, o Congresso paraguaio finalmente votou contra o ingresso daquele país no bloco.

O contrassenso da declaração do chanceler reside justamente no fato de seu governo e o argentino terem forçado a entrada da Venezuela no bloco sem que a mesma tenha cumprido um mínimo dos compromissos firmados no Protocolo de Adesão de 2006. Se pelo Mercosul são precárias as possibilidades de o Brasil formalizar acordos com o Primeiro Mundo, muito menos o será individualmente em face da "camisa de força" imposta pela Decisão CMC 32/2000, que exige que as negociações com outros parceiros sejam feitas em bloco.

Um tênue espaço pode vir a ocorrer caso as declarações do presidente eleito do México, feitas em São Paulo, visando a desenvolver maior aproximação comercial com o Brasil, efetivamente progredirem. Desde 2008, o setor empresarial, apoiado pelo governo brasileiro, vem tentando emplacar um acordo mais amplo do que o atual ACE-53, que somente agrega parcos 800 itens tarifários, não conferindo um valor global de transações bilaterais compatível com o tamanho das respectivas economias. Apenas o setor automotriz representa perto de 70% de todo o comércio bilateral.

Segundo o ministro Patriota, "se o Brasil negligenciar os acordos comerciais, ficará para trás, porque os concorrentes continuam negociando compromissos em todos os cantos do mundo". Qual então a saída? No momento só vislumbro uma única, pleitear no Mercosul um waiver (suspensão temporária) da Decisão 32/00, mas não creio que o Itamarati tenha "cacife" para tanto.

Falsa intimidade - VLADIMIR SAFATLE

FOLHA DE SP - 25/09


A moralidade é uma virtude disputada. Mesmo aqueles que dela conhecem apenas o nome gostam de falar sobre virtudes morais como se fossem íntimos de longa data.

Em época eleitoral, por exemplo, somos obrigados a acompanhar o espetáculo lamentável de moralistas de última hora, que parecem acreditar no pendor infinito da população ao esquecimento e à indignação seletiva.

Melhor seria que eles se abstivessem de falar de moral antes de meditar profundamente a respeito da passagem do Evangelho que exorta a primeiro tirar a trave no seu próprio olho antes de retirar o cisco no olho do próximo.

Por exemplo, o Brasil vive um momento importante com o corajoso julgamento do chamado mensalão. Espera-se, com justiça, que daí nasça uma nova jurisprudência para crimes de corrupção eleitoral. Espera-se também que ninguém saia impune desse caso vergonhoso.

No entanto é tentar resvalar a moralidade à condição de discurso da aparência e da esperteza ver políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e seu candidato à Prefeitura de São Paulo tentarem utilizar a justa indignação popular em benefício eleitoral próprio.

Caso eles realmente amem os usos das virtudes morais em política, melhor seria se começassem por fazer uma profunda autocrítica sobre o papel de seu partido na criação do próprio mensalão, da acusação de compra de voto na emenda da reeleição, assim como fornecer uma resposta que não fira a inteligência quando membros de seu partido -como Marconi Perillo, Yeda Crusius e Cássio Cunha Lima- aparecem envolvidos até a medula em casos de corrupção.

Seria bom também que eles explicassem por que apoiam incondicionalmente um prefeito que chegou a ter seus bens apreendidos pela Justiça no ano passado devido ao caráter da contratação da empresa Controlar, e por que a Justiça suíça e a francesa investigam propinas que a empresa Alstom teria pago a políticos do governo paulista em troca de contratos com a Eletropaulo.

Por fim, seria uma boa demonstração de respeito aos eleitores que o candidato Serra se defendesse, de preferência sem impropérios, a respeito das acusações sobre o processo de privatização de empresas federais no período FHC.

Sem isso, toda essa pantomima lembrará uma velha piada francesa sobre um sujeito que dizia a todos em sua pequena cidade ser amigo de Charles de Gaulle. Eis que um dia, De Gaulle aparece na cidade. Para não ser desmascarado, o sujeito resolve chegar perto do presidente e, com um tom de cumplicidade, perguntar: "E aí, Charles, o que há de novo?". "De novo", respondeu De Gaulle,"só mesmo essa intimidade".

Estatização bancária e Dilma - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 25/09


No mês do estouro da presente crise financeira, em setembro de 2008, os bancos públicos eram responsáveis por 34,2% do dinheiro emprestado no Brasil (do "estoque de crédito"). Em julho deste ano, tinham 45,4%.

Não é muito errado dizer que, na prática, o governo abocanhou um banco com 11% do crédito. Isto é, um banco do tamanho dos maiores bancos nacionais.

Se o governo tentasse estatizar um bancão privado, haveria, claro, escândalo, goste-se ou não da ideia. Mas, goste-se ou não, o setor bancário ficou mais estatal sob Lula e Dilma. Lula não bulia com bancos até a crise de 2008. Na verdade, sua virada "esquerdista" na economia ocorreu apenas na crise.

Foi então que adeptos e simpatizantes de Lula e gente mais à esquerda passaram a falar de boca cheia sobre "desenvolvimentismo", botando no mesmo saco a expansão das políticas sociais (de matriz no fundo tucana) com intervenções diretas no mercado.

É um "desenvolvimentismo acidental", como acidentais, mais ou menos improvisadas e pragmáticas, foram tantas políticas na história. Como foi o "keynesianismo avant la lettre", antes de Keynes, nos EUA dos anos 1930, ou o próprio desenvolvimentismo brasileiro original, inventado aos trancos e barrancos entre os anos 1940 e 1960.

Claro que inclinações intelectuais e políticas de governantes e partidos, além do clima da época, propiciam viradas para esta ou aquela direção. No meio do caminho, inventa-se uma teoria ou recicla-se uma velha para justificar ou legitimar decisões tomadas muita vez mais por precisão do que por boniteza.

Dilma é "estatista"? Retomou o caminho "liberalizante" ao prometer privatização de estrada, porto e aeroporto? Faz política macroeconômica mais "heterodoxa"?

Dilma é mais intervencionista, mas tomou decisões maiores devido ao desejo de retomar o crescimento econômico de curto prazo. A decisão mais planejada, ao que parece, foi nomear uma diretoria do BC menos ortodoxa e mercadista. No mais, foi se arranjando.

Ministra de Lula, detonou um plano de reduzir rapidamente dívida e deficit. Já presidente, fez um pacto com o BC, segurando gasto a fim de tornar possível a redução de juros.

Era contra a privatização de infraestrutura até perceber que não haveria aeroporto para a Copa e que o governo é lentérrimo, inepto ou bandido quando precisa fazer investimentos.

Mas foi para o confronto com a banca no caso dos juros (aliás, ontem o Bradesco baixou espantosamente sua taxa de juros no cartão de crédito). Voltou a acelerar a "estatização" do crédito no país.

Acabou de arrumar mais de R$ 21 bilhões para o capital do Banco do Brasil e da Caixa, a fim de permitir avanço ainda maior da banca estatal. Neste ano, desde o início da campanha contra juros altos (abril), os bancos públicos foram responsáveis por 73% do aumento do crédito no Brasil. Mais ou menos como na crise de 2008-09.

Mas, se a banca privada voltar à ativa, Dilma vai insistir na "estatização"? Decerto esse tumulto de decisões tem alguma direção e vai fazer diferença (em especial no caso dos juros menores, se ficarem menores). Mas não dá para pensar o jeitão da coisa e o andar da carruagem se apegando a rótulos.

As democracias midiáticas - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 25/09


O que sucede quando a maioria escolhe mal? Ou escolhe o candidato errado pelos motivos errados?



O BRASIL não existe para o jornalismo português. Exceto quando nasce um fenômeno midiático.

Se perguntarem a um português anônimo quem foi Fernando Henrique Cardoso (que passou recentemente por Lisboa, com pompa e circunstância) ou o que significa o julgamento do mensalão, o lusitano terá dificuldades sérias em juntar duas ideias sérias a respeito. "Lula", sim, acende umas luzes, e não apenas gastronômicas. "Dilma", coitada, volta a apagá-las.

Mas se falarem do palhaço Tiririca, o português anônimo rasga um sorriso de orelha a orelha e completa: "Pior do que está, não fica". Tiririca foi o último grande estadista brasileiro a cruzar o Atlântico.

Celso Russomanno pode ser o próximo. Leio jornais lusos. Assisto a reportagens da TV nativa. Russomanno está em todo lado, distribuindo beijos e abraços na corrida para a prefeitura de São Paulo. Há um padrão aqui: Tiririca e Russomanno são produtos de fácil exportação porque ambos são produtos da televisão.

Uma virtude? Longe disso. E os lusitanos deveriam saber, até por experiência própria, que a crise de Portugal também se explica por esse padrão: durante anos, os portugueses não votaram necessariamente nos melhores candidatos. Apenas nos candidatos que tinham maior sucesso midiático. Deu no que deu.

Esse, aliás, é o problema principal das democracias atuais. A democracia é o pior regime que existe, com a exceção de todos os outros?

Sem dúvida. Mas existe um outro pensamento de Churchill sobre o assunto que também merece atenção: dizia ele, com típica bonomia, que o melhor argumento contra a democracia estava em falar durante dois minutos com um eleitor regular.

De fato. Uma cabeça, um voto. Em teoria, essa contabilidade pode ser um bálsamo para a nossa "paixão pela igualdade", para usar a expressão clássica de Alexis de Tocqueville (1805-1859). Mas o que sucede quando a maioria escolhe barbaramente mal? Ou, pior ainda, quando escolhe o candidato errado pelos motivos errados?

O referido Tocqueville, cem anos antes de Churchill, já tinha alertado para o problema na obra "Da Democracia na América". A "era democrática", escrevia ele em 1835, seria imparável nas sociedades cristãs do Ocidente (sintomaticamente, Tocqueville era omisso sobre outras regiões do globo; um aviso sério para os poetas da Primavera Árabe que babam de lirismo por aí).

Mas a "era democrática", capaz de conceder a cada indivíduo iguais direitos e deveres, não apresentava apenas virtudes. Tinha perigos óbvios e o maior deles estava precisamente na ideia de que quantidade é qualidade.

Ou, como escreveu o autor, na crença infantil de que existe "mais inteligência e sabedoria em um certo número de homens unidos do que em um único indivíduo".

Com notável presciência, Tocqueville alertava para as "tiranias da maioria" e aconselhava alguns freios para evitar os seus excessos -descentralização política, liberdade de imprensa, reforço do associativismo, separação de poderes etc.

O que Tocqueville não poderia antever no século 19 era a emergência de um novo tipo de regime democrático no século 21: a democracia midiática, esse sistema que premia os talentos superficiais de um indivíduo (imagem de plástico, discurso populista, sentimentalismo postiço) e ignora as qualidades fundamentais de um líder (coragem, experiência, competência, temperança).

Eis a suprema ironia: a mídia assume-se como o "quarto poder", destinado a vigiar e a denunciar os abusos de todos os outros. Mas a própria mídia serve de instrumento, voluntário ou involuntário, para dar luz e palco a personagens que jamais seriam eleitas por suas exclusivas habilitações.

O resultado dessa perversidade é que cresce cada vez mais o abismo entre políticos que merecem ganhar eleições (independentemente da imagem) e políticos que podem ganhar eleições (independentemente da competência). A democracia midiática premia os segundos e ignora os primeiros.

Hoje, o obeso Churchill e o paralítico Roosevelt seriam ofuscados por um palhaço qualquer. Azar o deles?

Não. Azar o nosso, leitor. Quem elege palhaços, acaba vivendo num circo.

O crepúsculo dos políticos - CLÓVIS ROSSI

FOLHA DE SP - 25/09


Prazo de validade dos governantes se encurta, e a rua faz ensaios de uma revolução pacífica



Está convocada para hoje uma revolução na Espanha, a partir das 18h30 (13h30 em Brasília).

Estranho fazer uma revolução com dia, hora e local previamente marcados? Concordo. Mas leia o programa e a agenda da concentração de hoje e diga se não é uma proposta revolucionária: "Cercar o Congresso indefinidamente, exigir sua dissolução, provocar a demissão do governo e do chefe de Estado [o rei], abrir um período constituinte e convocar novas eleições".

A agenda é de um segmento do 15M (15 de março de 2011, a data em que começaram as manifestações dos que se diziam "indignados").

Duvido que a moçada alcance seus objetivos, mas, pelas dúvidas, o governo destacou um forte contingente policial, formado por 1.350 homens, para proteger o Congresso, além de ter estabelecido cordões de isolamento que, em tese, impedirão que os manifestantes abracem o prédio como pretendem.

Além disso, reservou para o que os manifestantes chamam de "assembleia-geral" (prevista para durar cinco dias) a praça de Cibeles, 700 metros ladeira abaixo do Palácio de las Cortes, o neoclássico edifício que abriga o Congresso de Deputados da Espanha.
A "assembleia-geral" na Espanha é só um dos incontáveis sintomas de que os políticos convencionais estão vivendo seu crepúsculo.

Na semana passada, em Portugal, colossal manifestação da mesma índole não chegou a derrubar o governo, mas derrubou, sim, mais um corte, na forma de um aumento de 7% na contribuição dos assalariados para a Previdência Social, o que, como é óbvio, talharia os salários na mesma proporção.

Mais informações sobre o crepúsculo:

1 - Pedro Passos Coelho, eleito premiê de Portugal em junho de 2011, é, um ano depois, o último colocado entre os políticos locais em termos de aprovação (nota 6,3 de 20 possíveis), conforme pesquisa do jornal "Diário de Notícias".

2 - Mariano Rajoy, seu colega espanhol, eleito mais recentemente (novembro), tem seu prazo de validade já vencido: pesquisa de "El País" do dia 9 mostra que 84% dos espanhóis têm pouca ou nenhuma confiança nele.

3 - Pesquisa divulgada no domingo na França informa que apenas 43% dos franceses estão satisfeitos com o presidente socialista François Hollande, 11 pontos percentuais menos do que ao assumir, em maio, faz apenas quatro meses.
É bom lembrar que 14 governos europeus foram "derrubados" nas urnas desde que a crise se reinstalou, em 2010.

Onde governava a esquerda, ganhou a direita, e vice-versa.

Portugal, Espanha e França se incluem nesse troca-troca. O desgaste dos seus novos governantes explica os ensaios de revolução convocados por fatias mobilizadas da sociedade, como acontece hoje na Espanha.

É razoável supor que Mariano Rajoy sobreviverá, mas não é razoável imaginar que possa durar muito tempo (tem, em tese, mais 3,5 anos de mandato) ante tamanha desconfiança do público, seja do que vai ao encontro marcado pela revolução, seja dos que preferem curtir em casa sua desconfiança.

Cérebro ideológico - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 25/09


SÃO PAULO - Muito interessante o exercício do Datafolha de mensurar o conservadorismo/liberalismo da população paulistana. O ligeiro excesso de pessoas com ideias mais à direita (34% contra 27%) ajuda a explicar o fenômeno Russomanno, mas isso é só a ponta do "iceberg".
Desde que a ciência começou a investigar a orientação política das pessoas, há cerca de 40 anos, tivemos algumas surpresas. Para começar, o papel do DNA é maior do que se suspeitava. Um estudo de John Hibbing de 2005 que envolveu mais de 8.000 pares de gêmeos nos EUA estimou que genes respondiam por 53% da variação no perfil ideológico.
Cuidado, não se deve imaginar aqui que existe o gene do PT e o do PSDB. O efeito é bem mais indireto. Fatores hereditários têm peso importante na formação da personalidade, que é razoavelmente estável ao longo da vida e determinante para definir como nos sentimos em relação a uma série de questões como igualdade, justiça, autoridade, pureza -itens que constituem a base da identidade moral de cada indivíduo.
Outro ponto interessante é que já quase dá para ver a coloração política das pessoas em exames de neuroimagem. Um trabalho de 2011 de Ryota Kanai mostrou que conservadores tendiam a ter amígdalas, estruturas cerebrais envolvidas na memória das emoções, maiores e mais ativas. Já liberais exibiam maior quantidade de massa cinzenta no córtex anterior cingulado, que processa informações contraditórias. O conservador seria assim um sujeito mais intuitivo e com baixa tolerância a incertezas. O liberal, por seu turno, seria mais reflexivo. Não liga tanto se o mundo é um lugar meio sem sentido.
O bacana aqui é que, como o voto é o resultado de interações complexas entre indivíduo e sociedade, por mais que avancemos no entendimento do cérebro ideológico e da política partidária, eleições, ainda que encerrem alto grau de previsibilidade, sempre nos reservarão surpresas.