sexta-feira, junho 22, 2012

Novo contrato social - MERVAL PEREIRA

O GLOBO - 22/06


Diante do documento final da Rio+20, que parece sem ambições maiores que a de alcançar um consenso entre os participantes, sem importar a profundidade dos compromissos assumidos, já começam vários movimentos para tentar avançar além dele, em acordos paralelos que possam suprir sua falta de perspectiva histórica.

A defesa de uma postura solidária entre as nações, defendida em entrevistas paralelas por dois pensadores da questão ambiental com uma visão política mais abrangente e menos burocrática do que a que domina a redação do documento final do encontro, parece ser o caminho para esses acordos paralelos.

Um deles é o secretário-geral adjunto da ONU Carlos Lopes, de Guiné-Bissau, encarregado da Comissão Econômica da África, que pretende retomar a tese do filósofo Jean-Jacques Rousseau de um novo contrato social para enfrentar os desafios econômicos e políticos.

O outro é o sociólogo francês Edgar Morin, presidente do Institut International de Recherche Politique de Civilisation. Os dois encontraram-se ontem em um almoço promovido pelo sociólogo brasileiro Cândido Mendes, membro da Academia Brasileira de Letras e secretário-geral da Academia da Latinidade, um organismo internacional dedicado à aproximação cultural e política entre o Oriente e o Ocidente, do qual os dois participam.

O sociólogo Edgar Morin participou de uma atividade paralela da Rio+20 na Escola Sesc de Ensino Médio na Barra da Tijuca justamente sobre "a força moral de um contrato social para o século XXI".

O resultado dos debates será levado ao Segmento de Alto Nível da Conferência. Entre os assuntos discutidos estão os desafios de uma política da humanidade, o papel dos povos e territórios frente às encruzilhadas relacionadas à agricultura, segurança alimentar, fonte de energia, às formas de produção e de consumo.

As experiências agroecológicas para produções alternativas foram tema do pioneiro em agricultura agroecológica na França, Philippe Desbrosses. Também estava presente o professor emérito da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, Ignacy Sachs, precursor do conceito de "desenvolvimento sustentável" a partir, na década de 1970, de um modelo ambientalmente correto de produção, distribuição e consumo de bens.

Sachs vai participar do debate com Carlos Lopes e outros para buscar os pontos de um novo pacto social para o século XXI. Lopes acredita que assim como os Objetivos do Milênio da ONU foram aprovados como maneira de superar o impasse do Protocolo de Kyoto, que os Estados Unidos não ratificaram, também novos compromissos paralelos poderão ser assumidos para evitar o fracasso da Rio+20, mais uma vez provocado pela atitude dos Estados Unidos e da China de não se empenharem na aprovação de um documento mais ousado.

Nos Objetivos do Milênio estão incorporados compromissos com as questões social, econômica e ambiental, que não podem ser dissociadas, como defende Edgar Morin, em busca de uma visão solidária dos países.

Carlos Lopes acha que a solução só chegará quando a visão econômica moderna incorporar a questão ecológica não como uma barreira, mas como uma maneira de impulsionar o desenvolvimento.

Uma das grandes questões da atual discussão é a do financiamento dos projetos e programas, devido à grave crise econômica internacional que assola o mundo desde 2008. Lopes dá a China como exemplo de uma maneira de encarar esses investimentos no longo prazo, sem uma visão imediatista que domina a economia mundial.

Segundo Edgar Morin, os países hoje estão atrelados à especulação financeira e são incapazes de ter uma visão holística dos problemas do planeta.

Carlos Lopes lembrou que, segundo o FMI, as zonas mais resilientes à crise, que crescerão mais na próxima década são precisamente aquelas que precisavam progredir mais, como a África, que é o continente que mais cresce hoje no mundo.

Mesmo que a base seja muito pequena, e, portanto, o crescimento médio de cerca de 6% possa não significar o mesmo que em outras regiões mais desenvolvidas, o fato é que a África está sofrendo uma alteração profunda em sua estrutura física, com grandes investimentos em tecnologia da informação, com uma população urbana jovem conectada com as novas tecnologias.

A China compreende esse fenômeno e, para exemplificar a grandeza dos seus investimentos, Carlos Lopes lembra que nos anos 60 do século passado a China começou aplicando U$ 1 milhão de dólares na região, e hoje tem programação de U$ 120 bilhões até 2015, investimento que foi sendo ampliado de maneira exponencial no decorrer das décadas e continuará em ritmo acelerado nos próximos anos.

Ele lamenta que o Brasil não tenha uma visão estratégica tão bem estruturada para a África como a China, independente da capacidade de investimento. Na sua visão, por enquanto o Brasil, embora compreenda a importância de apoiar o desenvolvimento da África, tem mais voluntarismo do que programa estratégico.

Ele lembra que a África tem as maiores reservas de terras aráveis do mundo ainda não aproveitadas, e o futuro da produção alimentar para a humanidade está lá e no Brasil. As experiências da Embrapa podem ser muito úteis para a agricultura na África.

Carlos Lopes vê no rascunho do documento final da Rio+20 coordenado pelo Brasil a prova do que vinha sustentando nos últimos dias: o Brasil não é um líder ambiental, apesar de estar no centro dos debates sobre o assunto desde a Rio 92 e agora a Rio+20.

Estádios novos, miséria antiga - MILTON HATOUM


O ESTADÃO - 22/06


A arquibancada do Parque Amazonense era um treme-treme, o esqueleto de madeira podia desabar antes do primeiro gol, mesmo assim eu não perdia uma partida do clássico Rio Negro x Nacional. Quando chovia ou ventava, mangas maduras caíam na arquibancada e eram disputadas pelos torcedores. Como não havia drenagem no campo, a chuva torrencial transformava o gramado num parque aquático, o jogo era cancelado, e aproveitávamos para brincar na piscina formada pela natureza.

O Parque, situado num bairro humilde e arborizado de Manaus, era um dos destinos de quem gostava de futebol. No fim dos anos 60 foi construído o estádio Vivaldo Lima, vulgo Tartarugão, projetado por Severiano Mário Porto. Formado no Rio, esse arquiteto mineiro se mudou em 1966 para Manaus, onde viveu por mais de 30 anos. O projeto do Vivaldo Lima ganhou o prêmio Nacional de Arquitetura; outros projetos de Severiano foram premiados no Brasil e na Argentina.

Ele fez dezenas de projetos que, a meu ver, traduzem uma compreensão profunda de Manaus e da região amazônica. As soluções técnicas para proteção do sol e da chuva, o uso consciencioso da madeira na estrutura, janelas, portas, escadas e painéis, um sentido estético que integra a estrutura à fachada e ao espaço interior, tudo isso fez dos projetos desse mineiro-carioca-amazonense um lugar para se viver e trabalhar com conforto.

Inaugurado em abril de 1970, o Tartarugão chegou a receber mais de 50 mil torcedores em uma partida em 1980. Era um projeto grandioso, mas essa grandiosidade tinha fundamento: o arquiteto havia previsto, para as próximas três décadas, um crescimento demográfico incomum, explosivo de Manaus. Para os jogos da Copa do Mundo em 2014, o Tartarugão poderia ser restaurado e tornar-se um estádio perfeitamente adaptado aos torcedores amazonenses. Mas de nada adiantou o olhar visionário de Severiano Porto. O estádio foi demolido para dar lugar a uma obra gigantesca, caríssima, faraônica, com capacidade para 47 mil torcedores.

Destruir um patrimônio da arquitetura amazônica é um lance de extrema crueldade e ignorância. O que há por trás dessa crueldade e incultura? A ganância, a grana às pencas, o ouro sem mineração, sem esforço. O Tribunal de Contas da União já descobriu um superfaturamento na demolição do Vivaldo Lima e em todas as etapas da construção do novo estádio. Aos R$ 580 milhões do orçamento previsto, será acrescido um valor astronômico. Afora o superfaturamento e a demolição de uma obra premiada, há outra questão, demasiadamente humana: Manaus é uma das metrópoles brasileiras mais carentes de infraestrutura. Os serviços públicos são péssimos, na zona leste da cidade proliferam habitações precárias (eufemismo de favelas), a violência atinge níveis alarmantes. Depois da Copa, o novo estádio será um monumento vazio, ou um desperdício monumental. Quem paga a fatura (ou a superfatura) são os mais pobres, que necessitam de serviços públicos eficientes, e não de obras grandiosas.

Isso vale para Manaus e para as outras cidades que vão sediar os jogos da Copa. Vale para o Recife e Rio, e também para São Paulo, cuja prefeitura optou pela renúncia fiscal para ajudar a construir o tal do Itaquerão. E isso numa cidade em que faltam centenas de creches, mais de 1 milhão de habitantes sobrevivem em favelas e cortiços, milhões sofrem diariamente com a precariedade e o caos do transporte público.

Mas agora é tarde. Sim, impludam todos os estádios! Construam obras colossais e faturem montanhas de ouro! Superfaturem tudo: desde a demolição até a pintura dos camarotes da CBF e patrocinadores! Joguem no entulho e nos esgotos a céu aberto a dignidade e a esperança do povo brasileiro. Enterrem de uma vez por todas a promessa de cidadania! Caprichem na maquiagem urbana e escondam (pela milésima vez) a miséria brasileira, bem mais antiga que o futebol. E quando a multidão enfurecida cobrar a dignidade que lhe foi roubada, digam com um cinismo vil que se trata de uma massa de baderneiros e terroristas.

Digam qualquer mentira, mas aí talvez seja tarde. Ou tarde demais.

O ocaso de Lula - ROBERTO FREIRE

BRASIL ECONÔMICO - 22/06

Depois da Presidência, Lula consome o PT e transforma pretensos aliados em cúmplices de suas armações ilimitadas 


Durante muito tempo, o PT buscou aparecer como um partido comprometido com as necessárias mudanças estruturais que o país precisava para se desenvolver de forma sustentada, além do célebre discurso ético.

Contudo, desde seu primeiro mandato, o governo Lula mostrou a que veio. A política econômica do governo FHC foi mantida. As políticas sociais foram apropriadas, mas transformadas em mero assistencialismo para cabalar votos para o neocoronelismo. Na política, Lula aliou-se a figuras antes renegadas pelo PT como Renan Calheiros e Sarney e, mais recentemente, Collor.

A denúncia do "mensalão", que será julgado no próximo mês pelo STF, como feita pelo então procurador-geral da República Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, desnudou a forma não republicana de constituição de uma "maioria" comprada com o desvio do dinheiro público e que, até hoje, causa perplexidade e desconforto entre os militantes do PT que ainda acreditavam em mudanças verdadeiras.

Mas, durante todo esse período, o PT gostava de mostrar-se como uma organização democrática associada às organizações sociais. Esse "charme democrático" levou a primeira bordoada quando o Diretório Nacional interveio no Diretório do Rio de Janeiro e forçou uma composição com "Garotinho", então candidato ao governo pelo PMDB. Desde então, Diretórios Estaduais sofreram "intervenções", sendo uma das mais notórias a havida no Maranhão em 2010, quando foram obrigados a comporem com Roseana Sarney, até a mais recente anulação das prévias no Recife, quando o candidato lulista foi derrotado.

No entanto, nada se parece com o que está acontecendo agora, emSão Paulo, quando Lula atuou por cima da estrutura partidária e por "dedaço" definiu como candidato a prefeito Fernando Haddad. Não contente em preterir a senadora Marta Suplicy, Lula envolveu-se pessoalmente para atrair Maluf, inimigo histórico das forças democráticas no país, para apoiar seu obscuro candidato. Esse gesto foi a gota d"água para afastar a anunciada candidata a vice, Erundina do PSB.

Essa movimentação de Lula resulta de sua necessidade de ser sempre o protagonista, como demonstrado no nebuloso caso em que procurou influir no próprio Supremo Tribunal Federal (STF), tentando impedir o início do julgamento do mensalão e em seu empenho em atingir o seu desafeto, governador Marconi Perillo de Goiás com a "CPI de Cachoeira". Ao menos a CPI desnudou o sistema de desvio de dinheiro público pela construtora Delta, que cresceu de forma assombrosa com obras do PAC em seu governo sob a coordenação da presidente Dilma, então chefe da Casa Civil.

Para garantir o apoio de Paulo Maluf e do PP, Lula contou com o auxílio luxuoso da presidente Dilma, que franqueou no Ministério das Cidades o controle da política nacional de saneamento aos partidários de Maluf. Depois de dois mandatos presidenciais, Lula consome seu partido e transforma seus pretensos aliados em cúmplices de suas armações ilimitadas, sempre contra o espírito republicano e democrático.

Limonada - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 22/06


BRASÍLIA - A novidade no "affair" Lula-Maluf é a versão de que tudo foi ótimo para a candidatura de Fernando Haddad, que ganha visibilidade inédita e gratuita, aparecendo em todas as TVs, rádios, páginas de jornais e bombando na internet. Mais ou menos na linha do "falem mal, mas falem de mim".

Trata-se da velha tática de Lula de transformar o negativo em positivo, a desvantagem em vantagem.

Qualquer que seja a circunstância, ele faz do limão uma limonada. Até pode acontecer quando se fala do candidato Haddad, que ainda tem 8% no Datafolha e precisa crescer e aparecer. Mas não faz o menor sentido para o próprio Lula.

Nesse caso, ele só tem a perder. A foto nos jardins de Maluf entrou para a história e para sua própria história como um carimbo.

Além de ficar "feio", a foto é uma espécie de documento não só dos erros como das derrotas de Lula ultimamente. O nosso gênio da política tem levado vários tombos: o drible de Kassab, o gol contra no jogo com Maluf, a petulância de Marta e a lição pública de Luiza Erundina.

Lula parece tonto e, à essa altura, deve estar ainda mais obcecado pela vitória de Haddad. E ela é possível? Evidentemente que sim. Haddad tem a força natural do PT e de Lula, além de dois novos fatores: o peso crescente de Dilma e o voto malufista que ganha um rumo.

Dê no que der, uma coisa é certa: se Haddad ganhar, terá mais uma vitória fenomenal para Lula comemorar como sua; se perder, a culpa será do... julgamento do mensalão.

José Dirceu tem costas largas e Lula nunca tem culpa de nada.

*
O projeto do Congresso que, na prática, acaba com o teto salarial no setor público é uma manobra escandalosa. Primeiro, o Senado acaba com o 14º e 15º salários dos parlamentares. Agora, aumenta o teto. Vai dar elas por elas.

O enigma do emprego - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 22/06


Os economistas vão agora dedicar-se a sessões de contorcionismo cerebral para tentar explicar como é possível a convivência no Brasil do atual raquitismo produtivo com o forte crescimento do emprego.

Pois foi o que ontem mostraram os números do IBGE. Enquanto o PIB executa um medíocre voo de galinha (crescimento ao redor de 2% em 2012), o desemprego em maio ficou em apenas 5,8%, o menor para meses de maio desde março de 2002. A mais baixa contratação de pessoal com carteira assinada ocorrida em maio (dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados - Caged) não contraria a situação excepcional do mercado de trabalho.

Para os padrões do Brasil, se não é de pleno emprego, este nível de ocupação está próximo disso. A escassez de mão de obra, especialmente da especializada, já é percebida em praticamente todos os setores. E vem refletida no aumento da renda real efetiva que, no período de 12 meses terminado em maio, avançou 6,9%, bem acima da evolução do PIB e alguma coisa acima da inflação (de 5,05% no período).

A aparente anomalia de emprego forte numa economia fraca não é apenas intrigante questão acadêmica; tem importantes implicações práticas. Se a criação de postos de trabalho já está tão vigorosa num quadro de desempenho decepcionante do PIB, o que acontecerá se o governo conseguir puxar a atividade econômica para a velocidade de 4% a 5% ao ano, como está prometendo?

Mas como explicar a anomalia? Alguns especialistas vinham levantando a hipótese de que a fatia da População Economicamente Ativa (PEA) pode estar encolhendo no Brasil devido a novidades demográficas: queda do índice de natalidade, mais gente estudando por mais tempo, crescimento das aposentadorias, etc. Mas o ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central Alexandre Schwartsman observa, em boletim divulgado por sua consultoria, que a situação do emprego no Brasil é tanto mais surpreendente quando se leva em conta que a parcela da população que trabalha ou procura emprego (PEA) em relação ao total da população brasileira nunca foi tão alta (57,6%).

Outros economistas olham para o preparo da mão de obra e raciocinam que as novas contratações tiveram de ser feitas em camadas de baixa qualificação. Em consequência disso, a produtividade do trabalho diminuiu, pensam esses especialistas. Isso significaria que esteja sendo preciso mais gente para produzir as mesmas tarefas. Schwartsman admite que isso pode estar acontecendo na indústria, mas não nos outros setores.

Outra hipótese é a de que as Contas Nacionais do IBGE no âmbito do setor mais dinâmico e maior empregador de mão de obra, o de serviços, enfrentem algum problema metodológico e não reflitam corretamente o avanço da produção. Nesse caso, o PIB pode ser bem mais alto do que vem sendo apontado.

Seja como for, nunca os níveis de emprego foram tão altos como os alcançados nestes últimos 12 meses no Brasil. E isso não deixa de ser um dado positivo quando comparado com a enorme destruição de postos de trabalho no resto do mundo, especialmente nos países ricos.

E AGORA, FERNANDO? - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 22/06

A sondagem que o PT fez para que Luiz Flavio D'Urso (PTB-SP) seja candidato a vice-prefeito na chapa de Fernando Haddad causou alvoroço entre os advogados paulistas. É que está em curso feroz campanha pelo comando da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) de SP, presidida por D'Urso. E Haddad já tinha declarado apoio a Alberto Toron, principal adversário do candidato de D'Urso, Marcos da Costa.
TUDO INVENÇÃO
Toron diz que o convite para o cargo de vice, que o PT nega ter feito, "é uma invenção e espécie de grito de desespero de quem não conseguiu se viabilizar nem viabilizar seu candidato". D'Urso confirma o convite e diz que ele foi feito por Edinho Silva, presidente estadual do PT.
TODO OUVIDOS
D'Urso, por sinal, telefonou para o ex-ministro Márcio Thomaz Bastos para pedir apoio na indicação de seu nome para vice de Haddad. Bastos, que apoia Toron, se limitou a ouvir o pedido.
FORA DA CAMA
Andres Sanchez, ex-presidente do Corinthians, aceitou que a seleção brasileira treinasse no centro de treinamento de Cotia, do arquirrival São Paulo, para o jogo contra a África do Sul, em setembro. Mas exigiu que o time não dormisse lá.
APERTO DE MÃO
Mesmo contrariado, Sanchez visita hoje o centro são-paulino ao lado de José Maria Marin, presidente da CBF. E se encontra com o arqui-inimigo Juvenal Juvêncio, presidente do tricolor.
LINHA DIRETA
E ontem Marin recebeu Gilberto Kassab (PSD-SP) em sua casa, nos Jardins. Combinaram de nomear alguém para ser "embaixador da CBF junto à prefeitura".
TROPA DE CHOQUE
Ana Hickmann e Britto Jr. estão sendo escalados para apresentar o "Hoje em Dia", programa matutino da Record, na próxima segunda-feira, dia da estreia de Fátima Bernardes na TV Globo.
DANCIN' DAYS
Taís Araújo, da novela "Cheias de Charme" (Globo), encarna a dançarina Josephine Baker na capa da revista "Glamour" de julho; "não faço o tipo tiete de ninguém. Em Cannes, vi o Brad Pitt de pertinho, mas não pirei", diz a atriz
DISFARCE
A Fundação Ação Criança promoveu um baile de máscaras beneficente, anteontem, no Jockey. A apresentadora Ticiana Villas Boas e a produtora Jéssica Faustino circularam pela festa.
PARIS HILTON
MAL POSSO ESPERAR PARA VER MICHEL TELÓ
Paris Hilton estreia como DJ amanhã, no Anhembi, no Pop Music Festival, que terá shows de Jennifer Lopez e Michel Teló. Ela conversou com a coluna por telefone, anteontem, nos EUA, um dia antes de voar para o Brasil.
Conhece Michel Teló?
Paris Hilton - Sim, já ouvi a música dele e achei ele muito talentoso. Estou muito ansiosa pra vê-lo tocando. Estou no Twitter e vi que ele me citou com a Jennifer Lopez e a Kelly Clarkson sobre fazermos um show juntos. Fiz uma busca na internet e vi vídeos dele. Ele tem uma linda voz. Mal posso esperar para vê-lo diante dos meus olhos.
Está ansiosa?
Sim, estou muito animada. Eu tenho sido DJ há muito tempo, mas só para amigos, em festas em casa e clubes pequenos. Esse é meu primeiro trabalho como DJ, meu primeiro concerto.
Está animada em tocar com a J-Lo?
Sim, eu amo a Jennifer Lopez. Ela é linda, uma artista incrível e uma cantora incrível, um ícone fashion. Já a conheci antes. Ela é muito doce.
E o Brasil?
Estou muito feliz em voltar [ao Brasil], faz um tempo que não vou e eu gosto das pessoas, de fazer compras, dos restaurantes. Eu amaria relaxar e ver alguns pontos turísticos porque minhas viagens aí são sempre muito rápidas, com sessões de foto o dia inteiro. Desta vez chego um dia antes e no dia seguinte ao show pretendo andar por aí e conhecer lugares bonitos. Estarei no Brasil por quatro ou cinco dias. Eu amo os brasileiros. São as pessoas mais bonitas, mais divertidas e mais legais do planeta. Adoro sair com eles. Estou rezando para que tenhamos uma noite incrível [no show de amanhã].
Você prefere São Paulo ou Rio?
Amo os dois. Me diverti muito em SP fazendo a semana de moda [São Paulo Fashion Week de 2011], mas também adorei o Carnaval no Rio. É uma festa linda.
Qual é o seu conselho para celebridades em ascensão?
Acho que é muito importante acreditar em você mesmo, não temer o que as outras pessoas dizem. As pessoas que se arriscam e assumem responsabilidades são as que ficam mais fortes.
CURTO-CIRCUITO
A peça "A Doença da Morte" estreia hoje, às 21h30, no Teatro Augusta. 16.
A consultora dinamarquesa Lisbeth Rysgaard fala hoje sobre economia criativa, na Rio+20.
O Nu Beginnings faz show amanhã, às 15h, no parque do Povo, no projeto New Orleans Connection. Livre.
A ONG Florescer faz festa junina beneficente, hoje, no Jockey. 18 anos.
com ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, LÍGIA MESQUITA e OLÍVIA FLORÊNCIA

O ponto europeu - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 22/06
A Grécia pode ter uma nova ajuda, mas não se sabe em que termos. O empréstimo para os bancos espanhóis já está aprovado, mas a Espanha terá sim que cumprir condições. Na próxima quarta-feira serão discutidas na Europa as primeiras propostas para a construção de uma união bancária, ou seja, um órgão supervisor supranacional para os bancos. Quem me disse tudo isso foi o presidente da União Europeia, José Manuel Durão Barroso.
No Brasil, para a Rio+20, Durão Barroso disse que a Europa considerou o texto pouco ambicioso, mas que o Brasil merece parabéns por ter conseguido um acordo e evitado o que houve em Copenhague, quando os chefes de Estado foram embora sem documento fechado:

- Queríamos objetivos de desenvolvimento sustentável quantificados e com data. E queríamos, da mesma forma que a África, uma agência global forte para cuidar do tema. De 92 até hoje demos um salto em termos de consciência ambiental. Hoje sabemos que o universo é infinito, mas nosso planeta não é.

Sobre a declaração do embaixador Luiz Alberto Figueiredo, de que só pode pedir mais ambição quem for ambicioso também em pôr dinheiro na mesa, ele disse que a região não se sente atingida:

- Não pode ser com a Europa que ele está falando. A Europa é o maior doador dos países da OCDE para os países em desenvolvimento. Nós concedemos 60% da ajuda. Estamos doando 8 bilhões, ou US$ 10 bilhões, para programas focalizados nos objetivos do Rio. É o maior doador, mesmo com a crise. Mais da metade dos recursos. Esta não é uma conferência para discutir doação, mas convocada para acertarmos os objetivos de desenvolvimento sustentável.

Sobre a crise europeia, Durão Barroso disse que o caminho é mais união, e que o pedido de aprofundamento da integração não é apenas de europeus. Contou que na reunião do G-20 todos pediram isso, inclusive a presidente brasileira.

Um passo desse aprofundamento da Europa começará a ser dado na semana que vem, quando os ministros das Finanças vão analisar as primeiras propostas para uma união bancária:

- A supervisão bancária até hoje tem sido feita pelas autoridades nacionais, mas precisamos de uma autoridade que garanta estabilidade financeira dos sistemas bancários de todos os países. Já que temos união monetária, temos que ter uma união bancária. Essa autoridade de supervisão deve estar em nível superior às autoridades locais. Não digo que isso deva se aplicar a todas as instituições financeiras, mas sim aos bancos grandes que operam em vários países. Vamos apresentar na próxima quarta-feira algumas ideias sobre como realizar essa união bancária.

Mas o problema que se teme é o oposto: uma desintegração da Europa. Quando perguntei sobre isso, ele lembrou que o euro continua sendo a segunda moeda do mundo e que permanece forte. Lembrou que o dólar continua sendo financiado, apesar dos déficits americanos, porque é a moeda de reserva internacional. Mas que o quadro monetário tende a mudar no futuro, porque as grandes economias emergentes terão mais exposição e mais responsabilidade no contexto global. O atual sistema do mundo não reflete essas transformações.

Perguntei se o novo governo grego receberia, num gesto de boa vontade, uma ajuda extra. Ontem mesmo a Grécia pediu mais prazo para o cumprimento das metas fiscais. Ele explicou que o acordo da Grécia não é com a troica - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI - mas sim com toda a zona do euro, e aprovado pelos governos e pelos parlamentos da Grécia e dos outros 16 países e pelo FMI. É muito difícil mudar o programa como está:

- Dito isto, eu posso acrescentar que há uma vontade dos países de fazer mais para ajudar a Grécia, principalmente em programas com vias ao crescimento. Podemos concordar, na Europa, com novas em medidas de apoio. Qual o formato, no entanto, não posso dizer.

A Espanha também será tema da próxima reunião da zona do euro:

- Não é verdade que não existam condições a serem cumpridas pela Espanha para receber os recursos. Na Europa, cada caso é um caso. O que é diferente na Espanha é que ela não pediu ajuda para o Estado espanhol, para o orçamento, como fez a Grécia. Pediu ajuda, mas pediu ajuda para os bancos. Uma ajuda de 100 bilhões, que já foi aprovada. A Espanha já está aplicando um programa fiscal apertado para redução do déficit e da dívida.

Ele acha que a questão europeia não tem sido bem entendida. É apontada como centro de desequilíbrios e uma região em decadência. Barroso acha que, pelo contrário, o desdobramento da crise mostra que um pequeno problema na Europa pode transformar-se num problema global:

- Queria lembrar coisas essenciais. Está havendo uma análise do problema europeu que é incorreta. A Europa é o maior destino dos investimentos estrangeiros, isso prova que o mundo confia em nós. E é o maior investidor nos Brics. Muito investimento que vem para o Brasil é europeu. Temos um comércio equilibrado, e isso significa que não estamos contribuindo para os desequilíbrios globais. Alguns dos problemas que temos foram causados por produtos financeiros pouco ortodoxos que nasceram nos EUA. Temos responsabilidades iguais. Por isso, disse na reunião do G-20 que não estávamos lá para receber lições.

Uma outra visão fundamentada - RODOLFO LANDIM


FOLHA DE SP - 22/06
A real influência humana nas mudanças que vêm ocorrendo no clima global é algo bastante discutível

Estamos em plena Rio+20, encontro que marca 20 anos da realização da Rio-92, Conferência das Nações Unidas sobre o ambiente.

Além de focar a conservação e a proteção dos ecossistemas da Terra, a Rio-92 foi marcante por introduzir o conceito de que isso somente seria possível aliando o desenvolvimento socioeconômico dentro dos princípios da sustentabilidade, cujos compromissos assumidos pelos países foram incluídos na Agenda 21.

Entre os temas debatidos na Rio-92, aquele que atraiu maior atenção foi a mudança do clima, seus impactos e a discussão sobre possíveis ações mitigadoras prescritas, algo que levou cinco anos mais tarde ao Protocolo de Kyoto.

Nele, foram definidas metas de redução da emissão de gases poluentes que ajudam a provocar o efeito Estufa, contribuindo para o aquecimento global, com destaque para o CO₂ (gás carbônico) fruto da queima de combustíveis fósseis.

É incontestável que o planeta se encontra em processo de aquecimento, mas a real influência humana nas mudanças que vêm ocorrendo no clima global é algo discutível.

Há uma clara divisão de opiniões sobre o tema: existe um grupo de cientistas que acredita que o comportamento da humanidade nos coloca a caminho de grandes desastres, enquanto outros defendem que o aquecimento global que estamos vivenciando é apenas parte de um processo cíclico que vem ocorrendo na face da Terra ao longo dos últimos milhares de anos.

Os impactos causados pelo lançamento de compostos de carbono de origem humana na atmosfera afetariam apenas os locais em que eles se situam, ou, no máximo, o seu entorno, sem nenhuma expressão em termos de abrangência global.

Toda a energia consumida pela humanidade por dia equivale a sete milésimos da que o nosso planeta recebe do Sol no mesmo período.

Em recente carta enviada à Presidência da República, um grupo de renomados cientistas brasileiros de algumas das mais importantes instituições do país (como USP, UFRJ, Inpe, ITA, Unesp e CPRM), formado por geólogos, geógrafos, físicos, meteorologistas, engenheiros e ambientalistas, defenderam essa visão de forma clara e objetiva.

Considerando somente o período dos últimos 20 mil anos, ou seja, a partir do início do degelo da última glaciação, as evidências geológicas demonstram ter havido períodos em que as variações de temperatura e do nível do mar foram várias vezes maiores que no período de 1850 a 2000, pós-Revolução Industrial, quando a temperatura subiu 0,74ºC (grau centígrado) e o mar subiu 20 centímetros.

Entre os diversos exemplos citados no documento está o de que entre 6.000 e 5.000 anos atrás as temperaturas médias chegaram a ser de 2ºC a 3ºC superiores, enquanto o nível do mar atingiu três metros acima do atual. Entre 12,9 mil e 11,6 mil anos atrás, as temperaturas caíram cerca de 8ºC em menos de 50 anos e, ao término deles, voltaram a subir na mesma proporção, em pouco mais de meio século.

Quanto ao nível do mar, ele subiu cerca de 120 metros entre 18.000 e 6.000 anos atrás, o que equivale a um metro por século.

Portanto, as variações observadas no período da industrialização estariam com folga dentro da faixa de oscilações naturais do clima, não podendo elas serem atribuídas ao uso de combustíveis fósseis.

A "descarbonização" da economia seria desnecessária e contraproducente por buscar uma pseudossolução para um problema inexistente, já que, além de não implicar nenhum efeito palpável sobre o clima, levaria ao encarecimento das tarifas de energia pelo uso de outras fontes alternativas mais caras ou subsidiadas, cujos recursos poderiam ser mais bem direcionados.

Dessa forma, a humanidade, que hoje detém um enorme acervo de conhecimentos e recursos técnicos e humanos, deveria deixar de lado o alarmismo climático e dirigir seu foco para viabilizar de forma sustentável a universalização de melhores níveis de bem-estar por meio de obras de infraestrutura de água, saneamento, transportes, comunicação, serviços de educação e saúde e prover eletricidade a mais de 1,5 bilhão de pessoas hoje desassistidas.

Diálogo como espécie em extinção na política - FERNANDO GABEIRA


O Estado de S.Paulo - 22/06


Algumas coisas estranhas ocorrem no Brasil. Nada apocalíptico como o sertão virando mar, o mar virando sertão. Mas desconcertantes, eu diria. Deputados da CPI do Cachoeira se encontram com Fernando Cavendish num restaurante da Avenue Montaigne, em Paris. Um homem me disse na rua: "Os deputados alegaram que foi uma coincidência. Não dá para ouvi-los. Acham que somos otários". Concordei, para encurtar a conversa (estava com pressa). Não acho que nos consideram otários. Simplesmente deixaram de fazer sentido, quebraram as pontes de comunicação, eliminaram o diálogo racional que fertiliza a política.

É o caso do presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), recusando-se a dizer como tinha sido gasto o dinheiro dado pelo governo para a construção de uma sede na Praia do Flamengo: "A UNE é uma entidade privada. Não precisa explicar como gasta seu dinheiro".

Todos sabem que recurso repassado pelo governo, ao ser aprovado no Congresso, tem uma finalidade explícita para que seu uso possa ser comprovado depois. O prefeito do Rio, Eduardo Paes, ao comentar o assunto, atribuiu a cobrança de prestação de contas a uma manobra típica de ano eleitoral. É preciso ter "casca grossa", disse Paes, "a UNE é maior do que tudo isso".

A denúncia sobre o mau uso das verbas partiu do Tribunal de Contas da União (TCU) e foi publicada no O Globo. Paes dá a entender que o jornal publicou a matéria para enfraquecer as candidaturas governistas, como a dele. Na sua fantasia para jovens socialistas, começou a luta de classes do O Globo contra ele e seus camaradas da comuna de Paris, aqueles do guardanapo na cabeça.

O Supremo Tribunal Federal levou sete anos para julgar o mensalão. O ministro Ricardo Lewandowski bateu todos os recordes históricos para apresentar o relatório de um processo. Ainda assim, alguns acusados afirmam que o Supremo se precipitou ao marcar o julgamento para agosto. Neste território do mensalão, a fantasia corre solta. Luiz Carlos Barreto escreveu um artigo recente defendendo José Dirceu e citou Fidel Castro. Lembrou que na sua visita ao Brasil, conversando com socialites, Fidel, ao ouvir queixas sobre Carlos Lacerda, perguntou: ¿Por qué no lo matan? O amigo Barreto esqueceu que, na história real, tentaram matar Lacerda e criaram uma crise sem precedentes para o governo de Getúlio Vargas. Foram os precursores do que hoje chamamos aloprados.

O próprio José Dirceu, que vinha se comportando como um acusado clássico, afirmando sua inocência e desejando um julgamento rápido, despediu-se de nós. No encontro com a juventude socialista do PCdoB, disse que o julgamento representava a batalha final e que sua geração estava em causa.

Qual seria a geração de Dirceu? Os nascidos nos anos 50? Os que fizeram a luta armada? Nos anos 50 nasceu muita gente com trajetórias distintas. Na luta armada havia gente nova, como Cesar Benjamin, e idosos, como Joaquim Câmara Ferreira e Apolônio de Carvalho. Ao levar uma suposta geração para o banco dos réus, Dirceu carrega consigo um inútil colchão de ar, apenas um conforto íntimo para a longa maratona.

Quanto à batalha final da juventude do PCdoB contra amplos setores da opinião pública, haja chope e caipirinhas. O TCU lamenta que a UNE lance bebidas alcoólicas em suas prestações de contas. Numa batalha final, estarão, pelo menos, livres desse pequeno constrangimento.

Todos esses episódios marcam o fim de certa racionalidade política. É uma ilusão achar que nos consideram otários. É uma ilusão, também, supor que estão só delirando. No fundo, a escolha, por não fazer sentido, não é para se afastar do debate, mas se inserir nele de uma nova maneira. Nela, as evidência não contam, apenas as versões. Tudo é possível, se houver um batalhão de internautas pagos, empresas especializadas em influenciar redes sociais.

É uma situação nova no País. Até os militares tinham preocupação com coerência, embora, quando achavam necessário, encerrassem a discussão no porrete.

Parte do grupo que domina hoje a vida política do País resolveu falar o que quiser, no momento que escolher. Quando Cesar Maia me apoiou, muitos amigos sinceros e bem intencionados foram contra a aliança. Tinham argumentos fortes e verdadeiros que até hoje respeito. Mas a pressão mesmo foi feita na internet pelos inflamados militantes virtuais: era desprezível porque aceitei o apoio de Cesar Maia.

Agora, o sertão não virou mar nem o mar virou sertão. Mas Maluf abraçou Lula, que abraçou Maluf, celebrando uma aliança. Como se chamará essa nova entidade? Malula? Luluf? Não importa. O interessante é vê-los agora, os militantes da internet, justificando uma opção dessa grandeza. Na arquitetura política que montaram havia muita gente na mira da Polícia Federal. Era necessário alguém perseguido pela Interpol para dar um tom cosmopolita. Da cueca a New Jersey, não há fronteiras para o fluxo de dólares.

Sumiram os debates baseados na evidência. Basta antepor uma versão e os problemas se resolvem. O que adianta afirmar a impossibilidade estatística de um encontro acidental num restaurante de Paris entre deputados que investigam a Delta e o dono da empresa, Fernando Cavendish?

Esse é um modo de argumentar superado pelos novos tempos. O esforço legítimo de estabelecer o que realmente aconteceu se volta para o passado, ao qual dedicamos uma Comissão da Verdade. Se alguém se interessar, no futuro, por investigar o que se passa hoje no Brasil, provavelmente dará grandes gargalhadas. A tentação é lembrar do Festival de Besteiras que Assola o País, criado por Stanislaw Ponte Preta. Mas o momento é outro.

Quando a Delta diz que sofreu bullying empresarial, não está se importando com os humoristas. É sua versão para enriquecer o pântano, sua voz na polifonia.

Alguns interlocutores se foram de qualquer maneira. Resta esperar que um dia voltem a fazer sentido, num diálogo responsável e transparente diante de nossas tarefas nacionais, num mundo cheio de novos desafios.

"Mata! Mas não esquarteja" - CARLOS HEITOR CONY


FOLHA DE SP - 22/06

Sem me atrever a condenar ou elogiar o conselho de Maluf, acho que chegou a hora de mudar a frase



O nosso arraial político está surpreendido (ou irritado) com o acordo municipal celebrado entre dois pesos-pesados de larga quilometragem no cenário nacional: Lula e Paulo Maluf.

Aqui entre nós, por nada entender nem querer entender nada de nada, sobretudo de política, não a nossa, mas a universal, a política histórica, confesso que não fiquei nem irritado nem muito menos surpreendido.

Mas o destaque dado a Maluf me fez lembrar de uma de suas frases que causaram indignação na mídia, no seio das famílias e em todos os escaninhos da mídia: "Estupra, mas não mata!". Foi dita por ocasião de sucessivos casos policiais que aconteceram por aí, causando justificado horror na sociedade.

Sem me atrever a condenar ou elogiar o conselho de Maluf, acho que chegou a hora de mudar a frase: "Mata, mas não esquarteja!".

Estamos atualmente com um caso tenebroso, que não é inédito, mas raro: uma mulher traída pelo marido, seguindo talvez sem saber a tecnologia de Jack, o Estripador, matou o consorte com um tiro na cabeça, esperou mais de dez horas até que o corpo esfriasse e começasse a entrar na rigidez dos mortos.

Cortou-o em pedaços que couberam em três sacolas de lixo, que por sua vez couberam em três malas relativamente pequenas. Que por sua vez couberam no bagageiro de um carro e foram esvaziadas de sua carga macabra, espalhada em locais diferentes.

Já vimos coisas parecidas no cinema e na literatura policial. Os códigos penais e civilizados de nações igualmente civilizadas abrem um tipo de exceção ou de compreensão para os crimes passionais praticados por conta de uma súbita e violenta emoção que acompanha principalmente os casos de traição conjugal, de relacionamentos amorosos que acabam sem comum acordo ou de insultos que a honra de um ser humano não pode aceitar.

Não pretendo comentar o crime em si, seu cenário, suas circunstâncias que ainda estão sendo apuradas. Comento apenas o seu desfecho, o esquartejamento que começou -segundo laudos periciais que estão surgindo- com a vítima ainda viva.

Barbaridade à parte, que pode ser entendida, mas não justificada (o tiro na cabeça do marido sem a possibilidade de defesa), a repugnância que todos sentimos foi o esquartejamento, na certa demorado, de cabeça, tronco e membros de um corpo humano que talvez ainda estivesse com alguns resíduos de vida.

A assassina, que prontamente confessou o crime, tivera alguma prática de enfermagem, em cujo curso não deve ser ensinado o processo de desmanchar um corpo humano. Há donas de casa que na ceia de Natal pedem sempre a colaboração de algum convidado para destrinchar o peru tradicional.

Além da enfermagem, a criminosa tem em seu currículo o grau de bacharel em direito. E um passado que, segundo as informações da polícia e da mídia, parece bastante turvo para os padrões da burguesia e dos bons costumes.

Nesse caldeirão ainda pouco detalhado, o mais chocante é a constatação do quanto pode a natureza humana. E aí não importa saber se a criminosa agiu sozinha ou se teve a colaboração de terceiros.

Falo em natureza humana sem diferenciar machos e fêmeas, ou companheiros e companheiras -como sempre faz o ex-presidente Lula. No caso, foi uma mulher que expressou de forma hedionda a natureza humana. Fosse um homem, teria como causa o mesmo resíduo do barro do qual todos viemos.

Sem espanto e sem irritação, poderia lembrar inúmeros casos, na história e na ficção, em que a nossa condição se exprime de forma aviltante. Citarei o comentário de Iago, que envenenou Otelo com a suspeita da traição de Desdêmona.

Em crise de "violenta emoção", o mouro de Veneza matou a mulher por causa de um lenço, mas não a esquartejou -nem Shakespeare chegou a tanto.

Para explicar a confusão provocada pela sua própria intriga e ampliada pelo ciúme injustificado e pela justificada cólera de Otelo, além de recomendar a todos um pouco de calma, Iago resume genericamente a situação, dizendo "men are men". (E as mulheres, pedindo perdão às feministas de todos os tamanhos e feitios, são mulheres.)

CLAUDIO HUMBERTO

“A independência da magistratura precisa ser preservada”
Ophir Cavalcante, presidente da OAB nacional, sobre ameaças a magistrados

MALVINAS: REINO UNIDO PEDE MEDIAÇÃO BRASILEIRA

Em reunião com o vice-presidente Michel Temer na Rio+20, o vice-primeiro-ministro do Reino Unido, Nick Clegg, pediu a intermediação brasileira na solução da crise diplomática com a Argentina, que reivindica a “devolução” das ilhas Malvinas. Os britânicos as batizaram de Falklands em 1833. Clegg diz que o país está disposto a cooperar, mas deixou claro que é inegociável a soberania britânica nas ilhas.

SEM INTIMIDADES

Na Rio+20, Nick Clegg cumprimentou Cristina Kirchner, mas se recusou a receber carta sobre as Falklands, que ela tirou da bolsa.

GUERRA INÚTIL

Há 30 anos, a ditadura militar argentina tentou atrair apoio popular invadindo as ilhas. Morreram 649 argentinos e 255 britânicos.

SEM ESSA

A delegação do Canadá na Rio+20 não engoliu o convite de Dilma ao lixo atômico do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Saiu no discurso dele.

MAIS UM

Analistas e técnicos da Controladoria-Geral da União articulam greve para a semana que vem. Temem novo congelamento salarial.

PAGOT RECUA

Após se negar a esclarecer as acusações que fez ao PT e ao PSDB, o ex-diretor do DNIT Luiz Antonio Pagot poderá se tornar alvo na CPI do Cachoeira. O PSDB vai pedir a quebra dos sigilos fiscal, bancário e telefônico de Pagot, demitido do DNIT após denúncias. O PSDB quer promover uma acareação entre Pagot e Cachoeira, acusado pelo ex-diretor de tê-lo derrubado do cargo.

TIRO PRA TODO LADO

Pagot acusou também o PSDB-SP de desviar verbas para esquema de “caixa 2” e o PT de negociar contratos em troca de doação eleitoral.

VOTO DE ‘CABRESTO’

O PT contou com ajuda da base para impedir a convocação de Pagot, o que só aumentou a insatisfação das siglas com os métodos petistas.

FESTRIO+20

Na Rio+20, o troféu Rosa de Plástico é disputado por ditadores caras-de-pau, ONGs ecopicaretas, índios de araque e “cientistas” de ocasião.

CACHOEIRA PAGOU ARQUITETO

Construtora ligada a Cachoeira, a Alberto & Pantoja pagou R$ 10 mil ao arquiteto Alexandre Milhomem, responsável pela reforma da casa que foi do governador Marconi Perillo (PSDB). Ele diz que tratou só com Andressa, mulher do bicheiro: “Não tenho contato com o Perillo”.

NA ÍNTEGRA

Relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG) fez duas viagens a Goiânia, esta semana, em busca dos áudios das operações Vegas e Monte Carlo. Obteve o restante das 57 mídias com o material bruto.

A VEZ DA MULHER

Três embaixadoras também são citadas como prováveis substitutas do chanceler Antonio Patriota: Maria Luiza Viotti (ONU de Nova York), Maria Nazareth Farani Azevedo (ONU de Genebra) e Vera Machado.

LOBBY AMIGO

O porralouca iraniano Mahmoud Ahmadinejad pediu a interferência de Lula para ser recebido por Dilma. Ficou tão esperançoso que até desmarcou reunião ontem com o vice Michel Temer.

DISPUTA PELO BNB

O governador da Bahia, Jaques Wagner, comprou briga com o seu PT e o PMDB do Ceará para indicar a presidência do Banco do Nordeste do Brasil. O PMDB defende um ex-presidente do BNB, João Melo.

VIROU FUMAÇA

Tem tudo para dar em nada a decisão do Uruguai de vender maconha. Como perguntou o ex-prefeito do Rio de Janeiro, Cesar Maia, quem vai comprar, plantar, preparar e distribuir a erva? A estatal “Urumarijuana?”.

BRASÍLIA ONTEM E HOJE

Há muito radicado em Brasília, o lusitano Hermínio Oliveira inaugura na cidade do Porto, em Portugal, hoje, uma exposição com fotos espetaculares, reveladoras da sua paixão pela capital brasileira.

QUEIXE-SE AO EX-BISPO

Ao contrário do que diz a imprensa paraguaia, a Itaipu Binacional no Brasil negou “alerta vermelho” contra apagão, pela instabilidade política com o pedido de impeachment do presidente tarado do Paraguai.

PERGUNTA ELEITORAL

O número 51 do novo partido PEN é para atrair o apoio de Lula?

PODER SEM PUDOR

RECADO DAS TREVAS

Carlos Fehlberg chegava à redação do jornal Zero Hora, de Porto Alegre, onde trabalhava, quando encontrou o recado que deveria comparecer imediatamente ao QG do 3º Exército. Como sabia da forte repressão do regime militar, ele se escondeu, enquanto amigos sondavam os militares sobre o que pesava contra ele. Logo veio o alívio: Fehlberg não sabia que o comandante do 3º Exército, general Emílio Garrastazu Médici, havia sido o escolhido para ser presidente da República, e o queria como assessor, em Brasília.

SEXTA NOS JORNAIS


Globo: Impeachment relâmpago pode cassar presidente do Paraguai
Folha: Líder do Paraguai pode ser destituído, Dilma tenta evitar
Estadão: Paraguai abre processo de impeachment; Dilma vê golpe
Correio: Brasil tenta salvar governo do Paraguai
Valor: Em ambiente de discórdia, Abilio passa poder ao Casino
Estado de Minas: Fraude de R$ 100 milhões

quinta-feira, junho 21, 2012

Fator Odebrecht - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 21/06

A ministra Isabel Gallotti, ao decidir que o caso será apreciado pela 4+ Turma do STJ, deu uma vitória parcial à fami-lia Odebrecht em sua batalha judicial com os Grandin.
Trata-se de uma das maiores disputas societárias do Brasil. Em jogo, uns R$ 3 bi.

Magoou

Era enorme ontem a irritação do governo com as críticas das ONGs estrangeiras.
O Planalto considerou que elas são duras com o Brasil, que tem reduzido desmata-mentos, enquanto falam manso com EUA e Europa, os grandes poluentes do mundo.

FH+20
De FH, irônico, ontem, no burburinho da Rio+20, ao encontrar no restaurante do Hotel Sofitel um ex-assessor seu que agora trabalha com Lula e lhe disse estar ali “para acompanhar o presidente”:
— Que presidente mesmo?

Ele é craque
Ronaldo, para assumir o marketing da AmBev, teve de convencer a gigante WPP, sua sócia na 9INE, que trabalha com a concorrente Coca-Cola.

Maconha+20
Acabou ontem a “Rio+420, Cúpula Canábica”, na Rio+20.
Foram três dias de debates com mais de cem ativistas do país todo. A turma decidiu criar a Rede de Coletivos e Ativistas pela Legalização da Maconha.

Homem como Túlio
Autor do livro “Nunca houve um homem como Heleno”, que virou filme com Rodrigo Santoro no papel-título, o coleguinha Marcos Eduardo Neves vai escrever a história de Túlio Maravilha, o folclórico jogador de 43 anos que diz estar perto de mil gols.

NESTES DIAS de Rio+20, a coluna abre sua janela fotográfica para imagens captadas por dois Renatos. As primeiras, de Renato de Sousa Almeida, celebram, nesta sequência, a vida na cidade fluminense de Itaperuna.

Uma rolinha construiu seu ninho numa árvore junto à varanda da casa dele. Logo em seguida, pôs dois ovinhos e começou a chocá-los. Dias depois, com a maternidade, o encanto da vida se fez presente, e lá estava a penosa a cuidar de dois filhotes. A outra, de Renato Gomes Pires, carrega muito simbolismo. Éesta coruja que parece tapar a boca de um velho canhão do Forte de Copacabana — palco, aliás, de emocionantes eventos da Rio+20 — para pedir paz. Que Deus proteja a todos — a coruja, a rolinha eseusfilhinhos, ea nós não desampare jamais

Rumo ao México
Rubem Fonseca, 87 anos, parece, melhor assim, que vai abandonar sua vida de recluso.
Primeiro, posou aqui ao lado de uma árvore que protege no Le-blon. Agora, vai à Feira de Guada-lajara, em novembro, a maior de livros em espanhol e português.

Rombo no fundo
A 7+Turma do TRF do Rio julga dia 28 se mantém anulação de multa de R$ 504 milhões da CVM a um pessoal que vendeu créditos imobiliários do finado Banerj.
A empresa ASM DTVM é acusada de favorecimento. A operação deu preju ao RioPrevidência.

Poder feminino
Com Dilma, as mulheres têm a força. Ontem, a presidente teve de escolher um médico da Aeronáutica para ficar de plantão na ambulância de sua comitiva.
Entre quatro doutores e uma doutora, escolheu... você sabe.

Bandejão dos vips
O restaurante Antiquarius, da Barra, perto do Riocentro, virou uma espécie de... “bande-jão” dos vips nessa Rio+20.
Além do presidente de Gana, almoçou ali ontem Ted Turner, o magnata da mídia nos EUA. Comeu peixe e bebeu água sem gás. Na véspera, jantaram a rainha Sílvia e o rei Carl Gustav, da Suécia.

Mama África
Dilma confirmou presença no jantar que Lula oferece hoje no Palácio da Cidade aos chefes de Estado africanos.

Santo Antônio, valei
Frei Ivo Müller, guardião do Convento de Santo Antônio, no Rio, para ter a ajuda dos homens, apela à de Deus.
Conclama amigos e fiéis, por e-mail, para um abraço ao convento, terça, às 11h, “pedindo em oração que o Iphan e o MinC aprovem a captação dos recursos necessários para a restauração desse patrimônio do Rio”.

Rio+Varig
Os ex-funcionários da finada Varig aderiram à onda de protestos da Rio+20.
O deles será hoje, às 10h, perto do Forte de Copacabana.

Cena carioca
Um indígena da Rio+20 embarcou no metrô na Estação Largo do Machado, ontem, no vagão... feminino.
Em protesto, uma passageira começou a bater na boca, produzindo aquele grito de guerra de índio de cinema: “Uu-uu-uu-uu... ”

A próxima fronteira - DENISE ROTHENBURG

CORREIO BRAZILIENSE - 21/06




Se Dilma tivesse que respeitar a lei eleitoral em caso de eventos internacionais, poderia ser punida por transporte de eleitores. Ela aproveita a Rio+20 para, corretamente, estreitar relações com os países africanos

Com a Rio+20 praticamente limitada a um “caldo ralo” em termos de avanços de financiamentos para o desenvolvimento sustentável, a aposta desses dois dias para muitos países será mesmo na possibilidade de encontros bilaterais. E, no caso do Brasil, está clara a prioridade aos países africanos, ao ponto de o governo oferecer “carona” a várias comitivas do continente em aviões da Força Aérea Brasileira.

Dos 64 pedidos de audiência que a presidente Dilma Rousseff recebeu, haverá tempo para 10, sendo três dedicados aos africanos. Além de um jantar com a União Africana — solução encontrada com o auxílio do prefeito Eduardo Paes e com o governador Sérgio Cabral, para que todos os presidentes do continente presentes pudessem ter uma conversa com Dilma, ainda que mais informal — ela recebeu para conversas reservadas os presidentes do Senegal, Macky Sall; e o da Nigéria, Goodluck Jonathan; e vai conversar com o presidente do Congo, Joseph Kabila, em audiência hoje, às 15h.

O sinal é claro: a aposta deflagrada no governo Luiz Inácio Lula da Silva não só tem a total concordância da presidente como deverá ser ampliada, conforme a visão de diplomatas brasileiros. E com total aval de Lula, também convidado para o jantar hoje com representantes da União Africana.

Por falar em aposta…
Você leitor, às vezes, pode se perguntar por que diabos a presidente Dilma aposta na África. Afinal, você que tem memória deve se lembrar de que Lula, em certa ocasião não muito distante, cometeu a gafe de dizer que a Namíbia era tão “limpinha que nem parecia a África”. Mas saiba que ali no caso da aposta na África, Lula não estava errado nem “malufou” como fez agora na campanha de prefeito de Fernando Haddad em São Paulo.

A aposta de Lula foi correta. Afinal, é preciso ter em mente que, em política externa, assim como na vida, vale o ditado que quem chega primeiro bebe água limpa. Como me disse ontem um alto funcionário do Itamaraty, nem sempre o que parece filantropia pode ser encarado como tal. Isso inclui a carona da FAB. Há toda uma estratégia de aposta no futuro envolvida nesse relacionamento e na escolha da agenda em um evento tão repleto de rodadas de negociações como a Rio+20.

Por falar em “carona”…
No caso da “carona”, se Dilma tivesse que cumprir as regras eleitorais na Conferência da ONU certamente seria punida por transporte de eleitores. Afinal, os países africanos têm jogado em parceria com o Brasil nos eventos multilaterais, como a Rio+20. Se dependesse do G-7, onde o continente tem mais peso, certamente o documento final da Rio+20 seria bem mais ambicioso do que o acordado em bloco com os europeus e os Estados Unidos, que ameaçavam reabrir tudo, caso houvesse uma insistência em reformular o texto fechado antes da chegada dos chefes de estado à Conferência.

E votos não são o único aspecto a levar em conta nesse estreitar de relações. Há todo o interesse em levar empresas brasileiras nas áreas de fabricação de móveis, materiais de construção, e de energia para os países africanos em desenvolvimento. E a África é hoje o pedaço da terra que cresce mais do que a Ásia. Ok, você pode pensar que, para quem sai praticamente do zero, qualquer crescimento soa grande, algo do tipo, “em terra de cego quem tem olho é rei”. Mas não é por aí. Vale averiguar o que fazem outros países em relação à África.

E se você, leitor, considera o chinês um comerciante de primeira grandeza há milênios, saiba que eles veem a África como a próxima fronteira. E estão investindo lá recursos com os quais o Brasil não tem condições de competir. São quase US$ 70 bilhões. E chinês não brinca com dinheiro. Se a África não fosse uma aposta positiva, eles não estariam jogando seus preciosos recursos no continente. Pelo visto, ao contrário do que disse há alguns anos o nosso então presidente, a África está cada vez mais brilhante aos olhos do mundo, em especial, do Brasil.

Mensagem de Atenas - DEMÉTRIO MAGNOLI


O ESTADÃO - 21/06

"É um triunfo para toda a Europa" - as palavras de Antonis Samaras, líder do Nova Democracia (ND), o partido conservador que venceu por escassa margem as eleições gregas, simultaneamente revelam e ocultam a verdade. A coleção heteróclita de partidos contrários ao memorando de austeridade firmado com a União Europeia teve o respaldo da maioria dos eleitores. O eleitorado que conferiu ao ND o direito de formar uma coalizão de governo moveu-se sob a espada da chantagem: a alternativa, exposta quase explicitamente pela alemã Angela Merkel, era a saída forçada do euro - e a fusão do que resta da economia grega.

"Eleições não podem colocar em questão os compromissos assumidos pela Grécia", alertou Merkel, num recado direto ao partido vencedor. No horizonte de semanas, a coalizão de Samaras deve promover novos cortes nos gastos públicos, para adaptá-los aos "compromissos assumidos", agravando uma depressão econômica sem fim. Seu governo pode não sobreviver a tal prova. O Syriza, partido de esquerda que rejeita o memorando, tinha menos de 5% dos votos no início da crise do euro. Há um mês, obteve 17% e, no domingo, 27%. Samaras apelou à formação de um "governo de salvação nacional", pela via da unidade de todos os grandes partidos, mas o Syriza se recusou a avalizar o memorando. O "triunfo para toda a Europa" não é mais que uma estreita janela de oportunidade.

Há 15 anos, às vésperas da introdução do euro, o economista Nouriel Roubini, que se tornou célebre mais tarde por prever a crise financeira global de 2008, sugeriu o cancelamento da união monetária. Como muitos outros, Roubini apontava a inconsistência de uma zona monetária submetida às forças centrífugas decorrentes do diferencial de produtividade entre as economias europeias e, ainda por cima, não sustentada por uma união fiscal. Há pouco, o ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira ofereceu como solução para a crise do euro a dissolução da união monetária e a restauração das antigas moedas nacionais. Roubini e Bresser Pereira abstraem a História: a moeda única, tanto quanto a própria União Europeia, é um fruto de Hitler, não o produto da mente dos economistas.

"A União Europeia foi criada para evitar a repetição dos desastres da década de 1930", escreveu o mesmo Roubini, em parceria com Niall Ferguson, num artigo recente, publicado no semanário Der Spiegel, que não comete o erro de circundar a História. "Europa", no sentido atual do termo, é o conjunto de intercâmbios destinados a dissolver a rivalidade franco-alemã que provocou as duas guerras gerais do século 20. A barganha fundadora, idealizada por Jean Monnet e aceita por Konrad Adenauer em 1951, colocou a siderurgia alemã sob autoridade plurinacional, na hora da criação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e do rearmamento da Alemanha Ocidental. A barganha seguinte, quatro décadas depois, foi articulada por François Mitterrand e aceita por Helmut Kohl: a união monetária soldaria a aliança do pós-guerra, afastando o persistente espectro da "Europa alemã". O euro nasceu de um imperativo político, como solução para o problema da reunificação alemã. É por isso, não por seus discutíveis méritos econômicos, que ele deve ser preservado.

"É algo extraordinário que seja a Alemanha, entre todos os países, a desconhecer as lições da História. Hipnotizada pela inexistente ameaça da inflação, a Alemanha de hoje parece conferir maior importância a 1923 (o ano da hiperinflação) que a 1933 (o ano em que a democracia morreu)", escreveram Roubini e Ferguson. É pior que isso: a fixação de Merkel nas políticas de austeridade extrema reflete uma interpretação nacionalista alemã sobre a União Europeia. A narrativa, que contrasta com o que pensavam os também democrata-cristãos Adenauer e Kohl, descreve o projeto europeu como uma chantagem permanente contra a Alemanha. Segundo tal tese, o euro teria sido contaminado pela inclinação dos outros - da Grécia, de Portugal, da Espanha e também da França - de viver além de seus meios, na crença de que, no fim de tudo, a Alemanha pagaria a conta.

A falha intelectual da tese tem escassa relevância diante das suas consequências políticas. Os planos radicais de austeridade impostos por Berlim nos últimos anos não apenas fracassaram na esfera econômica, aprofundando a estagnação e ampliando as dívidas, mas produziram uma crise política com o potencial de arruinar a própria União Europeia. O aspecto mais óbvio dessa crise se manifesta na escala dos sistemas políticos nacionais, pela desmoralização dos partidos tradicionais e pela ascensão de correntes extremistas, à esquerda e à direita, que contestam a "Europa" em nome da nação. Abaixo da superfície, contudo, a crise desgasta as engrenagens geopolíticas que sustentam a União Europeia.

Dias atrás, o ministro da Economia Social da França, Benoît Hamon, disparou projéteis contra a Alemanha, acusando-a de operar como "lobo solitário" na Europa, praticando políticas de aumento da competitividade nacional que minam as redes de proteção social erguidas nos demais países. Hamon fala aquilo que François Hollande não pode dizer, escancarando a estratégia francesa de organizar uma coalizão europeia de resistência à orientação de Merkel. A solidariedade franco-alemã, motor do projeto europeu, já não existe mais. No lugar dela, ressurgem sob disfarces cada vez mais diáfanos os discursos do ressentimento nacional.
O euro será salvo - ou perecerá - na esfera da política. De Atenas, enquanto a Grécia continua a dançar à beira do abismo, parte uma mensagem decisiva dirigida à "Europa". Os gregos votaram contra o desmantelamento instantâneo de sua economia, mas não se curvaram à perspectiva de um longo, inexorável, empobrecimento nacional. Eles estão dizendo que a "Europa" tem uma oportunidade final para reverter a política destrutiva da austeridade permanente. Berlim deveria escutá-los.

História do futuro próximo - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 21/06


A ECONOMIA DOS Estados Unidos vai estar entre adoentada e convalescente até 2015. É pelo menos o que deram a entender os diretores do banco central americano, o Fed.

A política de taxa de juro zero (Zirp, na sigla em inglês) continua pelo menos até 2014 ou 2015. A Zirp começou no fim de 2008. Vai fazer seis anos.

Juro zero por tanto tempo assim significa que muita gente está desempregada ou endividada demais para consumir e que muita gente está com medo de consumir e de investir (em aumento da produção). Oferta-se dinheiro à vontade, mas a coisa não anda.

Para completar, o Fed anunciou que continuará até o fim do ano as operações de recompra de títulos da dívida pública de longo prazo.

Trocando em miúdos, continua a pôr dinheiro na praça para tentar baixar taxas de financiamentos longos, como a da casa própria. Mas a economia reage devagar, quase parando quando leva susto da Europa.

A crise americana começou já em 2007. Mesmo que os EUA voltem à "normalidade" em 2014 ou 2015, a Europa ainda estará com lama pelos joelhos.

Nas estimativas mais otimistas, a economia europeia volta a ser o que era em 2007 lá por 2017, 2018. Se o caso de Grécia, Portugal, Espanha ou Itália não der em besteira grave.

Portanto, a crise vai chegar a dez aninhos.

Ou será que a "crise" e seus desdobramentos serão o "normal" daqui por diante? Não se trata de dizer que o tumulto financeiro e econômico será eterno, mas de imaginar que o tombo de 2008 foi um episódio crítico de processo maior de mudança e que tal tombo deixará sequelas.

Talvez o mundo euroamericano não possa nem consiga (ou mesmo deva) crescer a um ritmo forte. Porque talvez não consiga é assunto para outro dia e para mais espaço. Mas, a esse respeito, note-se que o mundo rico vive de bolhas financeiras faz uns 20 anos. Não vinha crescendo a não ser com anabolizantes.

Porque não deve crescer mais é o assunto do momento, pois estamos no meio da Rio+20, a conferência ambiental, e o assunto lá, em última instância, é como equilibrar o crescimento mundial (mais nos lugares mais pobres, menos nos mais ricos) e como dividir a conta do investimento em melhoria ambiental.

O problema maior (e talvez insolúvel) é, claro, como coordenar o rebalanceamento (quem vai querer segurar seu crescimento?), como dividir a conta sem guerra e como reduzir a desigualdade em cada país, mesmo rico. Entenda-se: o esteio social e político de uma programa de "crescimento menor" depende de melhoria na distribuição de renda.

EUA ou Europa Ocidental ainda precisam crescer rápido? O esforço de solução da crise deles deve ter esse objetivo? E a eventual retomada deve se apoiar em que setor?

Note-se que o consumo per capita de energia nos EUA é o dobro do britânico, 85% maior que o alemão, num mundo em que bilhões ainda passam fome e frio.

Note-se que o "plano" europeu de recuperação econômica em última instância se baseia na depressão de rendas (de salários e benefícios), em aumento da desigualdade, para que se mantenha a "competitividade" da economia tradicional deles, assolada pela concorrência asiática. Isso não vai dar certo. Talvez nem seja possível.

Erundina acertou no milhar! - TUTTY VASQUES

O ESTADÃO - 21/06


Claro que não foi premeditado! Nem o mais maquiavélico dos marqueteiros conseguiria bolar estratégia tão eficiente de promoção política: Luiza Erundina é, desde terça-feira, a grande vencedora das eleições municipais de São Paulo, quatro dias após sua apresentação como vice na chapa do candidato do PT.

A deputada abandonou a campanha de Fernando Haddad para entrar para a história enaltecida nas redes sociais como a mulher que teve "dignidade", "coerência", "postura ética", "decência", "lucidez", "vergonha na cara" e o escambau para não aceitar o batom do Maluf na cueca do Lula em flagrante de primeira página nos jornais de anteontem.

Para quem nunca foi unanimidade entre o eleitorado paulistano, Erundina sai desse episódio apoiada até pelos que ainda outro dia a desprezavam por puro preconceito à sua origem de mulher nordestina, solteirona e sem filhos.

Marta Suplicy deve estar morrendo de inveja! Se imaginasse a repercussão positiva de uma reação extrema à aliança de Lula com Maluf, talvez não ficasse perdendo seu tempo nas últimas semanas rejeitando Fernando Haddad pelas beiradas.

Tem dó!

Rejeitado por Marta Suplicy e abandonado por Luiza Erundina, Fernando Haddad tem ainda boas chances com o eleitorado feminino. Mulher nenhuma resiste àquela expressão de andorinha molhada posada em fio de alta tensão. Muitas vão votar nele por pena!


Vaga aberta

Ter perdido a Erundina não foi nada! Pior é que, com Maluf no time do PT, nem o Vasco vai querer ser vice do Haddad!

Fim do mundo

Um universitário africano venceu o prêmio Estudante Empreendedor Global com a invenção do "banho sem água", à base de um gel que dispensa chuveiro, sabão e toalha. Isso quer dizer o seguinte: no futuro, ninguém mais vai precisar fazer xixi durante o banho para economizar a água da descarga.

Nome a zelar

Chocado com a denúncia do Ministério Público Federal contra os "aloprados" do PT por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, Paulo Maluf pode abandonar a campanha de Fernando Haddad em São Paulo. O ex-prefeito não sabia que Lula andava com esse tipo de gente!

Companheira

No mesmo dia em que Luiza Erundina renasceu em São Paulo, morreu no Rio Iramaya Queiroz Benjamin, símbolo brasileiro da luta pela anistia, outra grande mulher que o PT não fez por merecer. Que Deus a tenha!

Conta zerada

Com a decisão do Flamengo de pedir R$ 40 milhões a Ronaldinho por danos à imagem do clube - mesmo valor cobrado pelo jogador a título de salários atrasados -, deve terminar empatada a briga judicial entre partes. Resta saber se a sentença vai considerar os dois igualmente culpados ou inocentes.

Investir mais para garantir o crescimento - PEDRO SIMON

ZERO HORA - 21/06

O governo deve ao país uma estratégia clara de enfrentamento da crise financeira internacional, uma política capaz de garantir o crescimento da economia. Especialistas apontam a necessidade de elevação do investimento público, expressiva o suficiente para induzir o setor privado a seguir o exemplo. 
As autoridades econômicas insistem nas desonerações pontuais de impostos e no crédito barato para promover o consumo. Um conjunto de medidas esparsas que não representam estímulo consistente à economia. O endividamento das famílias chegou ao limite. Os pátios das montadoras de automóveis permanecem lotados e a GM já incentiva as demissões voluntárias. 
Paralelo à desoneração fiscal, o governo permitiu uma agressiva desvalorização do real frente ao dólar, buscando maior competitividade aos nossos produtos no mercado internacional. Mas qual mercado? A Europa, a China e os Estados Unidos, nossos clientes principais, restringiram as compras no exterior. 
A alta do dólar tem impacto nos índices de inflação. Vamos pagar mais pelo pão nosso de cada dia, pois aumentou o preço do trigo que importamos. E ficam mais caras as máquinas e equipamentos para modernização do parque fabril. Ainda temos a energia mais cara do mundo, graças aos impostos. 
Outra recente medida de impacto do governo é a oferta de empréstimo, via BNDES, aos Estados - em ano eleitoral - para que possam investir mais. Um reforço em orçamentos já bastante pressionados por uma dívida histórica impagável. Aumentar esse passivo, contraindo mais empréstimos, não parece ser a melhor opção. 
Nesse cenário, uma das propostas em debate é a redução do superávit primário, atual- mente fixado em 3,1% do PIB. Uma diminuição de 0,5% representaria mais R$ 22,4 bilhões para investimentos. Outra sugestão se refere ao desequilíbrio entre o que os Estados arrecadam e transferem à União e o montante que recebem de volta. O Rio Grande do Sul repassa R$ 30,8 bilhões e recebe de volta apenas R$ 6,2 bilhões. 
A renegociação das dívidas dos Estados também está sobre a mesa. Num momento em que a taxa básica dos juros é rebaixada e o governo consegue reduzir sua dívida pública, o mesmo não acontece com os Estados. Esses continuam comprometendo suas receitas de forma excessiva. 
Uma redistribuição mais justa dos royalties do petróleo também integra o conjunto de temas que estão na ordem do dia. Finalmente, seria recomendável uma redução no gasto da máquina pública. Mas essa já é outra história. 

Arrastões - CONTARDO CALLIGARIS

FOLHA DE SP - 21/06


Hoje, é impossível invocar um aumento da diferença econômica para explicar a volta da criminalidade



Um amigo, dono de um restaurante paulistano tradicional, não perde a piada. Ele me explicou por que sua categoria está preocupada com a recente onda de arrastões: é que pensávamos, ele me disse, que assaltar os clientes fosse prerrogativa exclusiva da gente.

Piada à parte, na semana passada, a TV Folha me entrevistou sobre os arrastões que estão acontecendo logo em São Paulo -onde sair para jantar é o programa convivial por excelência, e o restaurante é um lugar tão familiar quanto a casa da gente.

Mesmo sem considerar essa especificidade paulistana, o assalto à mesa é sempre perturbador. A oralidade é o prazer mais primitivo, cuja "lembrança" (digamos assim) permanece em nós como modelo de qualquer outro prazer (por isso, aliás, é difícil parar de fumar ou de comer: as tentações orais são as mais irresistíveis).
Consequência: a experiência de ser assaltado no meio de uma boa refeição é comparável à de um bebê que recebesse um cascudo bem na hora em que ele está mamando, de olhos fechados, perdidamente feliz.

Enfim, a reportagem suspeitou que os arrastões ganhassem espaço na mídia por serem contra restaurantes na moda. Será que as classes C e D são excluídas das pautas da mídia?

A questão me levou de volta aos anos 1980 e 90, quando quase todos os bem-pensantes pareciam concordar com a suposição de que a causa da apavorante criminalidade brasileira fosse a também apavorante diferença social. Essa ideia (desmentida por qualquer pesquisa séria) voltava, como um joão-bobo, a cada vez que se tratasse de explicar a insegurança nas nossas ruas.

Para proteger essa tese falida, a gente (eu mesmo cooperei) insistia na distinção entre diferença econômica e exclusão: a diferença, por maior que fosse, não seria causa de criminalidade, enquanto a exclusão social, ela sim, produziria criminalidade, pois, afinal, quem é ou se sente excluído não pertence à comunidade -e, se não pertenço à comunidade, por que eu respeitaria suas leis? Para o excluído, as ditas forças da ordem não teriam legitimidade, mas seriam uma espécie de exército estrangeiro de ocupação. Para ele, o crime seria, então, um ato de resistência? "Mamma mia."

Mesmo a ideia de uma relação entre criminalidade e exclusão mal resiste à prova dos fatos. Mas tanto faz: o que importa é que, hoje, no Brasil, é difícil invocar um aumento da diferença econômica ou da exclusão para explicar a volta da criminalidade.

De fato, sempre soubemos que a criminalidade não é um efeito da diferença econômica, nem da exclusão, mas adorávamos essa ideia porque ela satisfazia tanto nossas aspirações de clareza (temos uma criminalidade absurda, mas "sabemos" por quê) quanto nossos anseios de justiça (a criminalidade compensa a iniquidade social).

A criminalidade brasileira assim explicada não precisava de um plano de ação: a culpa era nossa, e, portanto, podíamos nos resignar a sermos "justamente" assaltados (ou quem sabe mortos) por sermos cúmplices de um sistema "injusto". Aguentaríamos a violência e a inexistência de um espaço público frequentável porque assim expiaríamos o pecado original da diferença social.

Você não acha que a violência dos anos 1980 e 90 fosse aceita como uma necessária penitência depois da confissão? Certo, havia outras razões por essa tolerância da criminalidade: uma delas é que as ditas elites econômicas eram tão estrangeiras ao país quanto os excluídos -não havia problema em entregar ruas e esquinas aos bandidos, contanto que a residência (real, psíquica ou sonhada) das elites fosse em Miami, Nova York ou Paris.

Seja como for, a prova dessa aceitação é que nenhum político nacional dos anos 1980 ou 90, nem mesmo um demagogo, apresentou-se como porta-voz de um grande plano de segurança pública. Com a verbosa exceção da "Rota na rua" de Maluf em 2002, parece que um verdadeiro projeto de segurança nunca foi prioritário (aparentemente, porque tal projeto não prometia dividendos eleitorais suficientes).

Pois bem, felizmente, nos últimos dez anos, a diferença social diminuiu, assim como diminuiu a exclusão. Portanto, não é possível explicar a criminalidade crescente pela diferença social, que não está crescendo.
Talvez, agora, possamos começar a lidar realmente com o problema da segurança pública no Brasil, sem que nossos conselheiros sejam a culpa e a necessidade de autopunição.

O impacto do filho evitado - FERNANDO REINACH


O ESTADÃO - 21/06


A Europa vai decidir como controlar mais uma fonte de poluição: a urina das mulheres que tomam pílulas anticoncepcionais.

As pílulas anticoncepcionais, utilizadas por mais de 100 milhões de mulheres em todo o mundo, contêm uma quantidade muito pequena de substâncias capazes de bloquear a produção de óvulos pelos ovários. Sem óvulos capazes de serem fertilizados, o sexo pode ser praticado sem o risco de a mulher engravidar.

Um dos componentes mais usados na composição de pílulas anticoncepcionais é o ethinyl-estradiol (EE2), uma molécula semelhante ao estrógeno. Ao contrário do estrógeno produzido pelo corpo, o EE2 não é rapidamente degradado pelo fígado e, portanto, pode ser administrado em doses extremamente baixas. Isso tornou possível o desenvolvimento das pílulas anticoncepcionais em meados do século 20. Nos últimos 50 anos, as doses e combinações de hormônios nas pílulas foram aperfeiçoadas com a intenção de reduzir os efeitos colaterais sobre o organismo da mulher. O resultado é que hoje dispomos de pílulas extremamente seguras, baratas e quase infalíveis (se as mulheres não se esquecerem de tomá-las todos os dias e os fabricantes não substituírem o estradiol por farinha).

Mas o fato do EE2 não ser degradado tem uma consequência importante. Ele é retirado intacto do sangue pelos rins e excretado na urina de todas as mulheres que tomam o anticoncepcional. E essa urina acaba no sistema de esgoto das cidades, que, depois de tratado, é despejado nos rios.

A quantidade de EE2 presente nas pílulas é pequena e extremamente segura para os seres humanos, mas o mesmo não pode ser dito para diversas formas de vida aquática. Ao longo dos últimos anos, diversos experimentos demonstraram efeitos nocivos do EE2 sobre a reprodução de peixes.

Em algumas espécies de peixes, as doses de EE2 despejadas nos rios provocam alterações nos testículos e impedem sua reprodução. Em outras, provocam o aparecimento de indivíduos transexuais. Um estudo cuidadoso, feito em 2001 no Canadá, adicionou a um lago doses mínimas de EE2 (5 miligramas para cada milhão de litros de água).Diversos peixes tiveram sua reprodução reduzida e uma espécie foi totalmente dizimada, desaparecendo do lago. Atualmente, doses muito maiores que essas são encontradas nos rios que recebem o esgoto tratado de diversas cidades.

Em 2004, a agência ambiental inglesa admitiu que era necessário administrar esse risco para o meio ambiente. E finalmente, neste ano, a União Europeia decidiu que até 2021 o nível máximo aceitável de EE2 no rios deve ser reduzido a 0,035 miligramas para cada milhão de litros de água. Nesses níveis, essa opção para evitar filhos não afeta a reprodução dos peixes.

Pílulas mais caras. Essa decisão está sendo amplamente debatida. O problema é o investimento necessário para tratar o esgoto e remover o excesso de EE2. O método mais barato consiste em filtrar a água com carvão ativado, o que para uma cidade de 250 mil pessoas custa R$ 20 milhões para instalar e R$ 2 milhões por ano para trocar os filtros. E quem deve pagar essa conta? Todos os cidadãos, quem polui ou a indústria farmacêutica que vende as pílulas? Qualquer que seja a escolha, o custo de evitar filhos vai subir.

É claro que o EE2 não é uma das maiores ameaças ao meio ambiente, mas um aumento no custo dos anticoncepcionais pode ter um impacto significativo no mundo.

A capacidade do ser humano de controlar sua reprodução, evitando o crescimento descontrolado da população, é um dos fatores mais importantes para a preservação do meio ambiente. O controle populacional contribui para reduzir a devastação dos ecossistemas, facilita o combate a pobreza, ajuda no esforço educacional e aumenta a liberdade das mulheres, permitindo sua participação mais ativa no mercado de trabalho. Parte de todos esses ganhos pode ser creditada à disseminação de métodos baratos, seguros e eficazes de contracepção. E a pílula é um dos mais importantes.

O dilema a ser enfrentado pela União Europeia, que em novembro vai ter de decidir se coloca ou não o EE2 na lista de substâncias poluentes, é no mínimo cruel.

O que você decidiria? Devemos exigir a remoção do EE2 dos rios, aumentando direta ou indiretamente o custo dos anticoncepcionais e salvar algumas espécies de peixes? Ou devemos sacrificar esses peixes e manter os anticoncepcionais cada vez mais baratos, garantindo um controle cada vez mais eficiente da natalidade, o que pode ajudar a salvar milhares de espécies ameaçadas pela expansão descontrolada do Homo sapiens? Esse é um bom exemplo dos dilemas e compromissos que terão que ser enfrentados se desejamos preservar a Terra, mais um bom tópico para ser discutido nos corredores da Rio+20.

Ueba! Nina é a Noiva-Cadáver! - JOSÉ SIMÂO

FOLHA DE SP - 21/06


Ainda bem que a novela se chama "Avenida Brasil", se fosse "Avenida 23 de Maio", só ia ficar tudo parado!


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E como escreveu um amigo no meu Twitter: quem é o vice do Haddad? ERA UNDINA! Rarará!

E já tão dizendo que, se o Lula quer mais tempo de TV, devia ter feito aliança com o Chaves!

E o Maluf roubou o dedo do Lula. O da aliança! E a Luiza Erundina? Foi pro Canaddad. Rarará! Bem infame essa!

E a novela barraco "Avenida Brasil"? Ainda bem que se chama "Avenida Brasil", se fosse "Avenida 23 de Maio", não ia acontecer nada, ia ficar tudo parado!

"Avenida Brasil"! UFC das nove! Ultimate Barraco Fighting! E a Nina? A Nina parece a Noiva-Cadáver! Rarará!

E quem eu adoro mesmo é a Suellen Periguete. Com aquela calça lycra Knorr: deixa qualquer galinha gostosa!

E, se a Suellen viesse em cima de uma carroça, a gente começava a chupar pelo burro! Rarará!

E a Carminha? A Carminha não está parecendo aquela menina de "O Exorcista"? Ou então, "Carrie, a Estranha"! Carminha, a Estranha. Rarará!

E a Rio Mais ou Menos 20? Pensamento da Rio+20: "Se tivesse julgamento para quem soltasse gás poluente, meu pai pegava perpétua".

E um amigo meu pegou um táxi no Rio, a corrida deu R$ 25 e o taxista cobrou R$ 45. Aí ele reclamou, e o taxista gritou de volta: "Rio Mais 20!". Rarará!

E a manchete do Piauí Herald: "Sarney é homenageado como pioneiro do nepotismo sustentável". Senador Orgânico Sustentável. Sarney+200! Parentes! Tudo sustentável! Diz que tem parente do Sarney até nas tribos ianomâmis! Tudo no Brasil acaba no Sarney. Obsessão nacional!

E o desmatamento tá tão grande que o Mato Grosso vai mudar de nome pra Desmato Grosso. "Bem-vindos ao Desmato Grosso". Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

Os Predestinados! Mais três para a minha série "Os Predestinados". Direto de São Paulo, funcionária da Tim: Anália ALÔ!

E João Pessoa embaixo d'água e o coordenador do órgão de áreas de risco se chama: Noé Estrela! Rarará! E adorei o nome daquela velhinha que matou o assaltante em Porto Alegre: Odete Hoffman! Rarará!
Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Segurança ou incompetência? - CARLOS ALBERTO SARDENBERG


O GLOBO - 21/06


James Bond já surfou ondas de três metros para alcançar praias inimigas. Assim, por que um terrorista não poderia voar de asa-delta da Pedra da Gávea até o Riocentro, descer lá armado de bazucas e eliminar meia dúzia de chefes de estado?

Vai daí, o Exército proibiu voos de asa-delta em todo o espaço aéreo da cidade durante a Rio+20.

Com segurança não se brinca, dizem.

Reparem, porém: o sujeito teria que trazer a arma de algum lugar, circular pela cidade, carregar a coisa até a Pedra, voar e descer no Riocentro, tudo isso sem ser percebido e interceptado. Ninguém desconfiaria. E com todos aqueles soldados e policiais, brasileiros e estrangeiros, que estão na cidade e, concentrados, no local da conferência? Só se fossem muito incompetentes, não é mesmo?

Mas proibindo todos os voos, em todo o Rio, qualquer um que passar de asa-delta torna-se suspeito. Fica fácil para a segurança. E atrapalha a vida de quem gosta de asa-delta.

Dirão que esse é um aspecto menor e que, afinal, o pessoal pode ficar uns dias sem voar, em nome da segurança que garanta um bom evento no Rio.

O problema é que esse tipo de comportamento se aplica a todo o evento. Não há qualquer esforço ou qualquer planejamento para garantir a segurança e, ao mesmo tempo, causar o menor dano possível aos moradores e visitantes.

Não está vetada apenas a asa-delta. O espaço aéreo foi fechado. Até os inocentes voos da Ponte Aérea sofrem restrição. Será que não conseguem detectar uma aeronave suspeita, voando fora das rotas?

Só para lembrar: todo mês de setembro tem a assembleia geral da ONU em Nova York, para onde se dirigem mais de 100 chefes de estado. Sabem o que acontece com o tráfego aéreo? Nada. Continua tudo normal nos três aeroportos.

Dirão: lá tem mais aeroportos e mais pistas, de modo que fica mais fácil. Falso. Lá também há muito mais voos por hora. A resposta é outra: mais equipamento, mais engenharia, mais eficiência e empenho de não torrar a paciência dos moradores.

Outra: as comitivas não podem ficar presas no trânsito carioca, claro. Saída simples: fecham-se vias ou pistas, que se tornam seletivas para os carros credenciados. Assim, o não credenciado fica horas e horas no trânsito, tendo ali ao lado pistas e vias vazias, apenas vez ou outra ocupadas por uma comitiva. Será que não existe engenharia melhor?

E, pensando bem, quem precisa mesmo de segurança extrema? Hilary Clinton certamente é um alvo, mas, com todo respeito, o chefe de estado de Tuvalu? Na verdade, nem precisa ser chefe de estado. Autoridades menores gostam do aparato de segurança. Polícia e Exército também gostam de exibir seu aparato.

Experimente passar um tempinho ali no Forte Copacabana, por exemplo, onde há exposição e reuniões. A autoridade vai deixar o local. Aparecem seguranças com terno preto, mesmo quando são mulheres, e soldados com metralhadora. Motos param o trânsito, fecham a rua, afastam as pessoas. Surgem os carrões, pelo menos três: um da segurança, o da autoridade, outro da segurança. Param abruptamente, abrem-se as portas, gritaria nos celulares. Chega o tal, sempre acompanhado, e todos vão entrando rapidamente nos veículos, como se estivessem fugindo. Então, o grande espetáculo: as portas batendo em sequência, as motos arrancam, os carros partem em velocidade. Todos os seguranças com expressão de que estão tirando alguém de um atentado.

E ali olhando, com expressão de paciência obrigada, um homem de bermuda tomando sorvete, a mulher ao lado de um carrinho de bebê, garotos esperando com pranchas, que, aliás, ainda não foram proibidas. Não devem ter visto o filme do James Bond.

Grandes eventos valorizam as cidades. Mas também exibem suas carências. Falta de equipamentos e de planejamento cobram um custo da cidade e, sobretudo, de seus moradores.

Sem contar as contradições: a Rio+20 provoca aumento de emissão de poluentes só com os enormes congestionamentos. E terem utilizado geradores a diesel no Riocentro é inacreditável. E o etanol?

Na Rio 92, o governo brasileiro encontrou a melhor maneira de fazer propaganda de uma energia renovável bem nacional: os carros oferecidos às autoridades eram todos movidos a etanol.

De lá para cá, a tecnologia do etanol só melhorou. A produção de cana tornou-se mais eficiente e sustentável, inclusive com a progressiva eliminação do penoso corte manual, as usinas são mais produtivas, o etanol gera mais energia, sendo, pois, mais econômico, e, ponto forte, o motor flex é um marco tecnológico. Também se começou a produzir energia a partir do bagaço da cana. Mas na Rio+20, nem a presidente Dilma vai de carro a álcool.
PREÇO

Parece que um minuto e meio de televisão vale mais que uma Erundina.