domingo, março 04, 2012

A dura vida do presidente da OAB - ELIO GASPARI


O GLOBO - 04/03/12


É dura a vida do presidente da Ordem dos Advogados, Ophir Cavalcante. No último ano ele condenou o tamanho da fila dos precatórios de São Paulo, a farra dos passaportes diplomáticos, as fraudes nos exames da Ordem, a atuação de advogados estrangeiros em Pindorama, o enriquecimento de Antonio Palocci e a blindagem dos "ficha suja". Defendeu a autonomia salarial do Judiciário e os poderes do Conselho Nacional de Justiça.

Como se sabe, Ophir Cavalcante é sócio de um escritório de advocacia em Belém e procurador do governo do Pará, licenciado desde 1998, quando se tornou vice-presidente da seccional da Ordem. Até aí, tudo bem, pois Raymundo Faoro era procurador do estado do Rio, apesar de não lhe passar pela cabeça ficar 13 anos com um pé na folha da Viúva e outro na nobiliarquia da Ordem.

Em agosto do ano passado, quando o Tribunal Regional Federal permitiu que Senado pagasse salários acima do teto constitucional de R$ 26.723, Cavalcante disse o seguinte: "O correto para o gestor público é que efetue o corte pelo teto e que as pessoas que se sentirem prejudicadas procurem o Judiciário, e não o contrário".

Em tese, os vencimentos dos procuradores do Pará deveriam ficar abaixo de um teto de R$ 24.117. Seu "comprovante de pagamento" de janeiro passado informa que teve um salário bruto de R$ 29.800,59.

O documento retrata as fantasias salariais onde a Viúva finge que paga pouco e os doutores fingem que recebem menos do que merecem. Isso não ocorre só com ele, nem é exclusividade do Ministério Público do Pará.

O salário-base do doutor é de R$ 8.230,57. Para os cavalgados, é isso, e acabou-se. No caso de Cavalcante, somam-se sete penduricalhos. Há duas gratificações, uma de R$ 6.584 por escolaridade, outra de R$ 7.095 por "tempo de serviço"; (na repartição, ficou três anos, mas isso não importa); R$ 4.115 por "auxílio pelo exercício em unidade diferenciada" (a procuradoria fica em Belém, mas ele está lotado na unidade setorial de Brasília).

Esse contracheque levou uma mordida de R$ 5.196 do Imposto de Renda. Se o doutor trabalhasse numa empresa privada, com salário bruto de 29.800,59, tivesse dois dependentes e pagasse, como ele, R$ 2.141 na presidência privada, tomaria uma mordida de R$ 6.760.

Finalmente, há R$ 314 de auxílio-alimentação, o que dá R$ 15,70 por almoço. A OAB precisa protestar: o Ministério Público paraense passa fome.

O aparelho petista tungou os ferroviários

A Rede Ferroviária Federal foi privatizada em 1996. Junto com o patrimônio da Viúva, torraram seus compromissos e o Serviço Social das Estradas de Ferro, com o plano de saúde de 90 mil trabalhadores caiu na mão de liquidantes nomeados pelo governo. Eram quatro, cada um recebendo R$ 19 mil por mes. Na administração petista, nomearam 48 companheiros e queimaram R$ 13 milhões de uma caixa de R$ 41 milhões, aplicados em papéis que hoje valeriam R$ 83,4 milhões.

O dinheiro sumiu, transformando-se numa dívida de R$ 52 milhões. O Tesouro Nacional reconhece que "o destino dos recursos (...) permanece não esclarecido" e a Agencia Nacional de Saúde Suplementar pede a liquidação extrajudicial do plano de saúde dos ferroviários.

Desde 1989 as vítimas contribuiram mensalmente para o plano. Vão para o sereno 17 mil trabalhadores, 1.670 acima dos 70 anos, três deles centenários.

O comissariado acusa a privataria tucana de ter dilapidado o patrimônio físico do Estado. Para os ferroviários da Rede, a privataria petista queimou-lhes o patrimônio social.

Malvinas, 30 anos

Vem aí os 30 anos da Guerra das Malvinas, um momento de brilho da diplomacia brasileira. Graças ao então chanceler Ramiro Guerreiro, o Brasil conseguiu ficar ao lado da Argentina, sem se aliar ao general-ditador Leopoldo Galtieri, que tomava umas doses a mais e achava que podia desafiar Margaret Thatcher, invadindo o arquipélago. Guerreiro tirou a meia sem tirar o sapato.

Roberto Campos era embaixador do Brasil em Londres e acreditava que Margaret Thatcher não desceria a frota. No dia 9 de abril de 1982, quando os ingleses estavam com o dedo no gatilho, o secretário de Estado americano Alexander Haig desceu no Recife para reabastecer seu avião.

Exausto, vinha de Londres e ia para Buenos Aires. O então governador de Pernambuco, Marco Maciel, levou-o para passear pela cidade e conversaram por mais de 1 hora. Maciel, que é capaz de ouvir o que não é dito e de ler o que não está escrito, entendeu tudo:

1) Haig aconselharia que os argentinos negociassem, pois o presidente Ronald Reagan ficaria ao lado dos ingleses.

2) Se os generais não cedessem, seriam batidos militarmente.

3) Derrotada, a junta militar estaria defunta.

Não deu outra, os argentinos renderam-se a 14 de junho e a ditadura foi ferida de morte. Galtieri morreu em 2003, em regime de prisão domiciliar.

Cortinas

A roupa de lamê dourado de Merryl Streep na noite do Oscar ecoava o inesquecível vestido de Scarlett O'' Hara (Vivian Leigh) em "E o Vento Levou".

Com uma diferença: Streep pegou o seu na Casa Lanvin e Scarlett, não tendo o que usar, vestiu uma cortina de veludo verde de sua casa.

Machão

Um curioso que viu Nicolas Sarkozy (1 m 65 cm) sentado à mesa de almoço do Palácio do Eliseu ao lado de Carla Bruni (1 m 79 cm) garante que o assento da cadeira dele é mais alto e o dela, mais baixo.

A moça não usa salto alto ao lado do marido, mas isso é pouco.

Empulhação

A Anvisa diz que "na área de alimentos, coordena, supervisiona e controla as atividades de registro, informações, inspeção, controle de riscos e estabelecimento de normas e padrões".

Um incauto acreditou e queixou-se por ter encontrado um congelador de frangos desligado, com a mercadoria dentro, num supermercado Walmart do Rio, onde pombos andavam pelos corredores.

Recebeu de volta uma mensagem automática, informando que deveria encaminhar sua queixa à central de atendimento para a prefeitura. Gentilmente, pediam que voltasse a se manifestar num prazo de 60 dias, do contrário, a queixa seria arquivada. Mais: "Não responda a este e-mail".

A Anvisa trabalha com a máxima de Nenem Prancha: "Chuta pra cima que enquanto estiver no céu não é gol". Em vez de retransmitir a queixa à prefeitura, repassam o trabalho à vítima. Não custava informar à choldra que a Anvisa não processa queixas pontuais.

Pegou pesado

A doutora Eliana Calmon perdeu o tato. Há juízes despreparados, venais, politiqueiros e preguiçosos, mas "vagabundo" está mais para o vocabulário dos "caveiras" do Bope do que para uma ministra do Superior Tribunal de Justiça.

Essa é a palavra que policiais e carcereiros usam para se dirigir a delinquentes.

Agora, é surfar no tsunami - ALBERTO TAMER


O Estado de S.Paulo - 04/03/12


O Banco Central Europeu (BCE) injetou mais 530 bilhões no sistema financeiro e todo mundo no Brasil se assustou. Os euros, convertidos em reais, serão aplicados aqui, onde juros elevados, equilíbrio fiscal e crescimento tornam os investimentos seguros e rentáveis. Há casos de aplicações rendendo 1,0% ou 1,5% lá fora - e aqui, 10,5% ao ano. Não há como resistir.

É o caso das grandes montadoras instaladas no País, por exemplo. O diretor financeiro da Coca-Cola disse nesta semana que 30% do caixa da empresa estão aplicados no Brasil, "onde os juros são bem altos".

Uma grande parte dos 530 bilhões, que 800 bancos europeus absorveram rapidamente, serão usados na recompra de títulos da dívida soberana. Afinal, elas ainda rendem mais de 5,0% ao ano e têm garantias novas. Mas muito desses euros acabarão vindo para o mercado brasileiro, mais seguro, líquido e rentável. Aliás, muitos já estavam aqui antes mesmo da nova ação do BCE.

Tsunami. Para a presidente Dilma Rousseff, é um "tsunami monetário", que nos prejudica porque valoriza ainda mais o real. O ministro da Fazenda, Guido Mantega transformou a "guerra comercial" em "guerra cambial", o que repercutiu na imprensa internacional. E anunciou novas medidas para conter a invasão de dólares com mais atenção aos investimentos diretos, que se transformam em financeiros, e às operações intercompanhias, que representam 28% da divida externa.

E o Banco Central Europeu está atrasado. Como disse o ministro Mantega, há mais de um ano, "quanto mais eles demorarem, maior será o custo para os europeus".

Mario Draghi, presidente do BCE, deve receber elogios e não críticas porque em pouco mais de 100 dias afastou uma crise que ameaçava o sistema financeiro internacional com um novo Lehman Brothers. O caso foi adiado.

Há um custo a pagar, sim. Parte dele recai sobre o Brasil, como afirma Dilma e é preciso enfrentá-lo.

Os que sofrem. Como? Defendendo sua moeda com medidas até mesmo heterodoxas, como sugere e aprova o novo Fundo Monetário Internacional de Christine Lagarde que não se cansa de elogiar Draghi. Ele criou um "tsunami monetário", mas apagou e reduziu a fagulhas, por enquanto, o incêndio florestal que só aumentava na zona do euro e ameaçava o sistema financeiro internacional. Um tsunami antigo provocou ondas fortes sim, nos países emergentes, mas não enchentes devastadoras.

Por quê? Simplesmente porque essas ondas de dinheiro já estavam vindo há algum tempo e o Brasil, como a China, havia se preparado para absorvê-las.

Chegaram aqui aos poucos, não como "marolas", mas ondas de porte médio onde o BC e o governo estão agora navegando, até mesmo "surfando" com medidas de defesa do real. Elas já estavam chegando antes sob a forma de captações de empresas brasileiras no exterior. Só nos dois primeiros meses do ano, mais de US$ 12 bilhões, a maior parte com prazos superiores a três anos, o que debilita o efeito do novo IOF, e a juros pela metade do existente no mercado interno. Muito é investimento financeiro - não produtivo - com a rara exceção da Petrobrás.

Manobras a enfrentar. A maior parte é de empréstimos intercompanhias. De acordo com o BC, do total da dívida externa brasileira em setembro do ano passado, de US$ 364 bilhões, 28% eram desse tipo e 40% venciam em até três anos. Banco Central, Tesouro e Fazenda estão agindo no caminho certo ao enfrentar a "guerra cambial" provocada pela liquidez internacional - que era necessária, estava atrasada e era inevitável para a economia mundial.

É preciso mais. Mas é apenas um atalho. Como lembra editorial do caderno de Economia de sexta-feira, "Medidas contra a guerra cambial são insuficientes". O que pesa ainda - e muito - é o diferencial entre os juros internos, de 10,5%, e externos, negativos nos Estados Unidos e na Europa. E mesmo que os juros internos recuem muito - digamos, para 9% -, ficando em 5,0% reais, ainda há grande margem para que as empresas brasileiras continuem captando no exterior. Mais ainda, os bancos centrais já deram sinais de que vão continuar injetando liquidez, emitindo dólares, euros, ienes, libras... Dinheiro que acabará vindo mesmo para o saudável, seguro e rentável mercado brasileiro, onde ao contrário dos outros países, a economia continua crescendo.

O barro do Banco Central - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 04/03/12



A política de juros do Banco Central mostra coerência, mas o corpo de justificativas usadas para fundamentá-la é um barro no meio do caminho que pega a forma de cada pisada.

Na atual fase, o corte dos juros começou em agosto. Na ocasião, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu a derrubada dos juros como melhor maneira de defender a economia brasileira da catástrofe global que estaria próxima: seria o naufrágio de vários titanics bancários, com todos os destroços que viriam com ele.

Logo se viu que esse pior dos mundos não se confirmaria: mal ou bem, os dirigentes dos países ricos ganharam tempo e blindaram o patrimônio dos bancos contra quebras em dominó. Mas a derrubada interna dos juros tinha de prosseguir.

A nova explicação veio da desaceleração do crescimento do PIB. Mesmo com desemprego recorde e expansão da massa salarial, os motores da indústria vinham batendo pino. Assim, passou a ser preciso, avisava o Banco Central, continuar a calibragem dos juros a essa quebra futura de poder aquisitivo do consumidor. Portanto, mesmo não se confirmando o quadro imaginado, o Banco Central estava correto, como quem atirasse no que viu, mas acertasse no que não viu.

Mas o governo Dilma parece contrariar esses prognósticos. Aposta num avanço do PIB para este ano entre 4,5% e 5,0% e não no devagar-quase-parando sugerido pelos documentos do Banco Central. Foi preciso, então, buscar nova justificativa para a derrubada dos juros. A ata da última reunião do Copom avisou que os juros neutros (ou seja, o nível dos juros que não provocam inflação) caiu substancialmente nos últimos anos, graças aos avanços de qualidade da economia. Não foi um argumento convincente e o próprio mercado passou a discordar abertamente do Banco Central.

Desse modo, o Copom passou a procurar outras justificativas. As últimas manifestações de Tombini sobre o crescimento abaixo do potencial parecem ter esse objetivo. Também vai nessa direção a indignação da presidente Dilma Rousseff: Há um tsunami de moeda estrangeira invadindo o câmbio do Brasil, adverte ela, não só porque melhorou a percepção global sobre a qualidade da economia, mas, também, porque as atuais condições favorecem a entrada de capitais destinados a especular com a diferença de juros.

Não é nada, o Banco Central Europeu acaba de despejar 1 trilhão de euros nos bancos, em empréstimos de pai pra filho por três anos, a juros de apenas 1% ao ano. Para eles, a generosa acolhida do Brasil, que paga juros reais (descontada a inflação) de 4,0% a 4,5% ao ano, é sopa no mel.

Conclui-se pelo discurso presidencial que vivemos momento atípico, de forte canibalismo monetário. A melhor defesa do Brasil desse jogo é manter ou até acentuar a atual trajetória de derrubada dos juros. A hora é de dançar no salão a música que está sendo orquestrada pelos grandes bancos centrais - e injetar mais dinheiro na economia. O combate à inflação, se ela aparecer, fica para mais à frente.

Mas, afinal, estão certos ou errados o governo Dilma e o Banco Central, quando desenvolvem essa estratégia de política monetária? Podem até estar certos. Mas as explicações mudam a cada pisada dos acontecimentos.

MBA Daslu - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 04/03/12
Crias de Eliana Tranchesi, as dasluzetes contam como foi a formação em um cargo mais disputado "do que ser paquita" e o que as fez se espalharem como "corintiano" pelo mercado

Em um rápido passeio pelo shopping Cidade Jardim, templo paulistano do consumo de luxo, elas encontram várias colegas dos tempos áureos da Daslu. Ao entrar no elevador, três ex-dasluzetes, como são conhecidas as vendedoras e auxiliares da empresária Eliana Tranchesi, dão de cara com uma modelista da época da Vila Nova Conceição, berço da multimarcas em São Paulo.

No reencontro, a jovem conta que abriu uma empresa e desfia a lista de grifes que atende. "Ex-Daslu virou corintiano. Está em todo lugar", afirma Julia Maringoni à repórter Eliane Trindade. Ela passou dez dos seus 30 anos como vendedora na loja, ícone de glamour, mas também símbolo de sonegação fiscal.

A frase da ex-dasluzete sintetiza a diáspora da turma. A própria Ju, como é chamada, saiu da Daslu em abril do ano passado. Hoje, está à frente da operação brasileira de duas marcas internacionais: Pucci e Jimmy Choo.

No hospital onde morreu no último dia 24, aos 56 anos, a antiga dona da Daslu comentara com Monica Mendes, uma de suas ex-pupilas, o quanto estava "proud" (orgulhosa) do sucesso de suas "meninas". "Muitas pessoas aprenderam muita coisa com a gente e hoje podem trabalhar nessa área fora da Daslu", disse Eliana.

Nos últimos seis anos, a empresária lutou contra um câncer e viu seu império, que chegou a faturar R$ 200 milhões por ano, mudar de mãos em meio ao escândalo fiscal que lhe rendeu condenação, em primeira instância, a 94 anos de prisão.

Ter trabalhado com Eliana é o currículo de profissionais que levam o conceito criado por ela mercado afora. "Daslu virou escola e celeiro de capacitação. É o grande legado de Eliana Tranchesi", afirma Carlos Ferreirinha, da MCF Consultoria.

Mesmo com a recuperação judicial e a venda ao grupo Laep, o consultor diz que dez entre dez shoppings querem uma Daslu para chamar de sua. "Eliana e seu modelo de negócio conseguiram decifrar com propriedade o comportamento do consumo de alta renda no Brasil."

Nesse contexto, o passe das dasluzetes está em alta. A Chanel contratou Cicila Street (52 anos, 25 de Daslu). Valentino abre a primeira loja em SP no segundo semestre tendo à frente Patrícia Bagattini (29 anos, 12 de Daslu).

Elas reconhecem ter uma mesma credencial. "Trabalhar na Daslu foi uma faculdade melhor do que a Parsons", diz Cicila, em referência à escola americana de moda e design. "Eliana me deu a oportunidade de ir a todos os fashion weeks e visitar os showrooms das mais importantes grifes internacionais. Que outras pessoas no mundo tiveram esse privilégio?"

Além do know-how, as dasluzetes, com seus sobrenomes de peso, eram peças-chave de um serviço criado à imagem de Eliana.

Patrícia, que cursou a Parsons, diz que fez um "MBA Daslu". "Na faculdade, aprendi o lado artístico da moda; na Daslu, o que é o business, a ser comercial e a conhecer a clientela", compara Patinha, apelido dado por Eliana para diferenciá-la das várias Pats da loja.

"Cada uma seguiu seu rumo. Eu fiquei na Daslu", afirma Patrícia Cavalcanti, diretora de marketing na nova fase. "Somos as verdadeiras guardiãs do legado da Eliana. O conceito criado por ela sobreviveu à crise e vai sobreviver à morte dela", emociona-se Pat C, 44, 21 anos de dasluzete.

Já outras crias de Eliana abriram negócios próprios, como Fernanda Kujawski, 32, dona da grife FK, e Helena Sicupira (herdeira da Ambev), da Etoiles. Nesta quarta, o estilista Sandro Barros, 35, que assinava a alta-costura da butique, inaugura ateliê nos Jardins, em sociedade com Renata Queiroz de Moraes, herdeira da JFernandes Construtora e sua antiga cliente.

A mini-Daslu de Sandro vai ocupar uma "maison" de dois andares e venderá vestidos de noiva e festa de até R$ 60 mil. "Vamos oferecer os serviços aos quais minhas clientes estão acostumadas."

E as técnicas de sedução na Daslu eram imbatíveis. "Cansei de arrumar armário de cliente. Entrava na intimidade delas, decorava o que cada uma tinha tinha no closet para oferecer os novos produtos e montar os looks", diz Ju Maringoni.

As dasluzetes levam uma vantagem competitiva no balcão. "Frequentamos o mesmo círculo das nossas clientes", afirma Tatiana Monteiro de Barros, vendedora por quatro anos. Ela virou representante da La Perla no Brasil, primeiro em um "corner" na Daslu e depois com loja própria.

Com a abertura das importações no governo Collor, a primeira leva de dasluzetes fez a festa. A multimarcas chegou a ter 150 grifes estrangeiras nas araras. Reza a lenda que uma delas chegou a vender R$ 1 milhão no mês. E teria ganhado R$ 30 mil entre salário e comissão.

A remuneração e as viagens por Nova York, Milão e Paris faziam o posto ser cobiçadíssimo. "Uma conhecida disse que ser dasluzete era mais difícil que ser paquita", conta Ju Maringoni. Na "Dasluland", a rainha Eliana era tão admirada e temida quanto Xuxa. "Ela era uma espécie de celebridade do conceito que criou. Todo mundo que vinha à Daslu queria dar uma palavrinha e tirar uma foto com ela", recorda-se Cicila.

Na "Disneylândia da moda", como Eliana definiu seu reino, as broncas e as cobranças de meta eram feitas em bilhetinhos com coração. "Diziam que era muita mulher junta, muita fofoca. Nada disso. Criamos uma grande família", diz Fê Kujawski.

As escolhidas de Eliana tinham que se "virar nos 30". Arrumavam estoque, ajudavam nos desfiles e até faziam manicure uma da outra nas viagens. "Nos sentíamos também donas da Daslu", diz Ju. Os donos do negócio hoje são outros. E as meninas viraram concorrentes em um jogo de R$ 26 bilhões que o mercado de luxo no Brasil movimenta a cada ano. Agora, é cada dasluzete no seu "corner".

Ex-Daslu

Onde estão algumas das crias de Eliana Tranchesi

Cicila Street
ex-diretora da multimarcas, foi para a Chanel brasileira

Sandra Toscano
saiu da Daslu Homem para a Bottega Veneta

Patrícia Bagattini
ex-compradora de importados, foi para o grupo Valentino

Ricardo Minelli
ex-diretor da Daslu Homem, é CEO da Giorgio Armani no Brasil

Donata Meirelles
braço direito da empresária, virou diretora de estilo da 'Vogue'

Julia Maringoni
ex-vendedora, está à frente da Jimmy Choo e Pucci no Brasil

Ainda as privatizações - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO


O Estado de S.Paulo - 04/03/12


A recente e tardia decisão do governo federal de enfrentar o péssimo estado da infraestrutura aeroportuária deu margem a loas de quem conhece a precariedade de nossos aeroportos e a justificativas envergonhadas por parte de dirigentes petistas, segundo os quais "concessões" não são privatizações, como se ambas não fossem modalidades do mesmo processo.

Passados tantos anos das primeiras privatizações de empresas e concessões de serviços públicos, e dada a sua continuidade em governos controlados por partidos que se opunham ferozmente a elas, a relevância ideológica da discussão é marginal. Só o oportunismo eleitoral pode explicar por que insistem num tolo debate que sustenta ser "patriótico" manter sob controle estatal um serviço público, ao passo que concedê-lo à iniciativa privada, com ou sem a venda da propriedade, é coisa de "entreguista".

Esvaziar o Estado de funções econômicas não passou pela cabeça dos constituintes, nem dos congressistas ou dos governos que regulamentaram ou modificaram a Constituição para adequá-la às transformações da realidade produtiva. Ainda no final dos anos 80 houve privatização de empresas de menor importância que se haviam tornado estatais porque o Estado as tinha salvado da falência, nas chamadas operações-hospital do BNDES.

No começo dos anos 90, já regulamentadas em lei, as privatizações ganharam corpo. Alcançaram, por exemplo, o obsoleto parque siderúrgico do País, que desde então passou por imensa modernização, com apoio do BNDES, não mais na função de socorrer empresas falidas, mas de promover a atualização do setor produtivo. Na segunda metade dos anos 90, quando se tratou de atrair o capital privado para os investimentos que o Estado já não podia fazer na oferta de telecomunicações, energia, petróleo, etc., flexibilizaram-se monopólios estatais e se criaram as agências reguladoras para assegurar a competição nesses setores, evitando o surgimento de monopólios privados. O governo atuou não apenas para aumentar a concorrência nos leilões - e, portanto, o ágio recebido pelo Tesouro -, mas também para apoiar, por meio do BNDES, o investimento privado que se seguiu à desestatização.

No caso do petróleo, depois da quebra do monopólio, em 1997, a Petrobrás transformou-se numa verdadeira empresa moderna, menos sujeita a influências político-fisiológicas, que hoje se insinuam novamente. Diziam que o governo queria privatizá-la, quando, na verdade, estava comprometido a fortalecê-la. Mantida sob o controle da União, mas submetida à competição, tornou-se uma das cinco maiores petrolíferas do mundo. A participação acionária do setor privado na companhia, existente desde o período Vargas, foi ampliada, até com a possibilidade de uso do FGTS para a compra de ações por parte dos trabalhadores. As contas da empresa tornaram-se mais transparentes para o governo e para a sociedade. A quebra do monopólio veio acompanhada de uma política de indução ao investimento local na indústria do petróleo, com a fixação de porcentuais de conteúdo nacional já nas primeiras licitações realizadas pela ANP. Medida adotada, no entanto, com o equilíbrio necessário para evitar aumento nos custos dos equipamentos e atrasos em sua produção, como agora se verifica.

Nas telecomunicações houve uma combinação de privatização e concessão de serviços. No caso da telefonia celular poucos foram os ativos transferidos, pois ela praticamente inexistia no País. Estamos vendendo vento, brincava Sérgio Motta, então ministro das Comunicações, que sonhava com o dia em que celulares seriam vendidos em todo canto. Pena ter morrido antes de ver seu sonho realizado. Hoje existem no Brasil mais celulares do que habitantes. Na desestatização do Grupo Telebrás houve transferência de ativos. A divisão da holding em várias empresas foi classificada de esquartejamento, quando pretendia assegurar a competição no setor. Graças a esse novo ambiente e às regras estabelecidas pelo governo, as empresas privatizadas foram obrigadas a fazer pesados investimentos para acompanhar os avanços tecnológicos e ampliar o acesso às linhas, inclusive à internet, deixando-nos sem saudades do antiquado sistema de telefonia pré-privatização.

Já no caso da Vale do Rio Doce, assim como da Embraer, houve privatização pura e simples, com a ressalva de que, nesta última empresa, o governo manteve uma golden share, com direito a veto; e o BNDES adquiriu e manteve uma posição importante, de cerca de 20%, no controle da mineradora. Para não falar na participação dos fundos de pensão das empresas estatais. Na privatização da Vale, os críticos diziam que o governo estava alienando o subsolo nacional - uma afirmação descabida, já que este era e continuou a ser propriedade da União, conforme manda a Constituição. Falavam também que a empresa terminaria "desnacionalizada", com número menor de empregos - retórica que os fatos posteriores desmentem sem margem à contestação. Ainda se escutam murmúrios do surrado argumento de que a mineradora, que hoje vale muito mais do que o bom preço por ela pago à época, foi vendida por valor vil (não foi o que se viu no leilão, vencido por um grupo nacional que ousou no preço bem mais do que o considerado razoável pelos demais concorrentes). Ora, se hoje a Vale tem valor em bolsa da ordem de US$ 100 bilhões, é porque, liberta das amarras estatais, pôde chegar aonde chegou.

Os que criticam as privatizações são os mesmos que se gabam dessas empresas e de sermos hoje a quinta economia do mundo. Esquecem-se de que isso se deve em muito ao que sempre criticaram: além das privatizações, o Plano Real, o Proer, a Lei de Responsabilidade Fiscal, enfim, a modernização do Estado e da economia. Mas atenção: não basta fazer concessões e privatizar. É preciso fazê-las com critérios predefinidos, elaborar editais claros, exigir que se cumpram as cláusulas das licitações e evitar que as agências reguladoras se transformem em balcões partidários.

Esperemos para julgar o que ocorrerá com os aeroportos.

Dinheiro e ética - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 04/03/12

SÃO PAULO - Que os ricos admitem cometer mais violações éticas não é novidade. Pesquisa Datafolha de 2009 mostrou que as classes altas batiam os mais pobres em atitudes como furar o sinal vermelho, mentir no IR e infringir direitos autorais.

A dúvida era se os privilegiados eram só mais sinceros ou se, de fato, transgrediam mais. Surgem agora indícios favoráveis à segunda hipótese.

Psicólogos da Universidade da Califórnia desenvolveram uma série de experimentos que revelam que quem tem mais dinheiro trapaceia mais -e isso em contextos tão diversos como trânsito e jogos virtuais. Eles até roubam mais bombons de criancinhas.

A hipótese dos cientistas é a de que a cobiça leva os endinheirados a abandonar princípios morais em favor do interesse próprio. Em tempos de crise deflagrada por banqueiros, é popular falar mal de ricos. O quadro, porém, tende a ser um pouco mais complexo.

Se a tese dos pesquisadores é correta (e acho que é), os abonados trocam um padrão ético baseado em normas absolutas (deontológico) por um no qual as ações são consideradas boas ou más em virtude dos resultados que produzem (consequencialista).

Embora essas duas matrizes sejam mutuamente excludentes, nós estamos sempre pulando de uma para a outra. E por boas razões. Levados até o fim, tanto a ética deontológica quanto o consequencialismo produzem paradoxos inaceitáveis. Uma regra absoluta de jamais mentir obrigaria você a dizer para o policial nazista que esconde um judeu no sótão, o que implicaria a morte dos dois. Já um consequencialismo sem freios nos autorizaria a tomar como refém a mãe do traficante foragido para forçá-lo a entregar-se à polícia.

Antes de maldizer os ricos, lembre-se que, no agregado da sociedade, são as posições mais consequencialistas e menos moralistas típicas da classe média que estão na raiz de políticas progressistas, como a afirmação de direitos de minorias e a descriminação de comportamentos privados.

O Kremlin não acha graça nenhuma - JOSHUA YAFFA

O Estado de S.Paulo - 04/03/12


Humor político é uma das faces mais populares - e divertidas - do movimento de oposição a Putin

O primeiro-ministro russo Vladimir Putin mal pode abrir a boca hoje em dia sem se tornar objeto de chacota. Depois que ele comparou as fitas brancas de manifestantes com camisinhas durante uma programa de televisão com participação dos espectadores, fotos adulteradas de Putin com uma camisinha pregada à sua lapela se tornaram virais online em poucos minutos.

No mesmo programa, Putin comparou os que se opunham ao seu regime ao bando de macacos renegados Bandar-log de O Livro da Jângal de Rudyard Kipling. O programa satírico mais popular da televisão do país o mostrou como uma jiboia com feições apatetadas.

As grandes manifestações contra o regime de Putin indicam muitas transformações importantes na vida política e civil da Rússia - incluindo a volta da sátira política. O humor político de hoje - a maior parte dele feito online - pretende fazer Putin e seus aliados parecerem perdidos, ultrapassados e, de certa maneira, não especialmente perigosos - uma ideia revigorante num país que cresceu acostumado ao poder incondicional de quem está no Kremlin.

No processo, os profissionais urbanos da Rússia estão forjando uma nova linguagem política: leve, muito mais viva, e espessamente revestida de ironia. Ela anuncia uma mudança significativa em como os russos se relacionam entre si e com os que os governam, uma mudança cultural que poderá durar além até da eleição presidencial de hoje, que Putin quase certamente vencerá.

Cutucar as peculiaridades da Rússia e de seu povo tem raízes na literatura do século 19, especialmente em escritores como Nikolai Gogol e Aleksei Konstantinovich Tolstoi (primo em segundo grau de Lev Tolstoi). Numa paródia de 1869 dos sofrimentos russos, Mikhail Saltykov-Schchedrin criou a ficcional Glupov ("Estupidópolis"), onde os cidadãos simplesmente aceitavam seu destino, embebedavam-se e matavam-se.

A sátira virou uma espécie de esporte nacional nos dias cinzentos e estéreis da União Soviética, quando o humor servia como porta de entrada numa realidade alternativa - e de fuga da versão absurda de vida soviética propagandeada pelo Kremlin. Anekdoty - piadas curtas, por vezes grosseiras, na forma de diálogos curtos, passadas entre parentes e amigos - ofereciam uma maneira restrita, mas potente, de vencer o medo de um Estado distante e todo-poderoso.

No ocaso da União Soviética, piadas zombavam das tentativas de Mikhail Gorbachev de reordenar a economia e a vida civil do país, como sua malfadada campanha contra a vodca em meados dos anos 1980. Elas continuaram sendo uma força poderosa nos anos 90, no governo de Boris Yeltsin, que era zombado por sua própria campanha individual pró-vodca.

Ressentido. Mas o humor político começou a enfraquecer depois que Putin foi eleito em 2000. Alguns dias depois da posse de Putin, Mikhail Zlatkovski, um dos mais renomados cartunistas políticos do país, foi chamado para uma reunião com o editor-chefe de seu jornal, que acabava de voltar de uma reunião especial no Kremlin. O editor disse a Zlatkovski: "Misha, não vamos mais desenhar imagens de Putin. O sujeito é irascível e ressentido."

No começo do mandato de Putin, ele comandou a compra do controle estatal da NTV, um canal de televisão independente e combativo que transmitia "Kukli", um programa que exibia versões em bonecos de políticos russos. Num episódio cáustico, Putin foi retratado como o Pequeno Zacharias, um anão abjeto da literatura alemão do século 19. Em 2002, a rede cancelou o programa.

Enquanto Putin consolidava seu poder, as receitas russas de petróleo aumentaram enormemente. Todo dia os russos viam suas rendas crescerem e suas oportunidades econômicas se ampliarem como nunca. A riqueza recém-descoberta e um governo forte e distante fomentaram o cinismo, a apatia e o desinteresse.

Começou a desparecer no público russo todo senso de envolvimento nos assuntos de governo; o mesmo ocorreu com o apetite pelo humor político. Nos últimos meses, contudo, no momento em que a classe média da Rússia - urbana, relativamente bem de vida e perfeitamente afinada com a internet - emergia como uma força política, ressurgia a rica tradição de humor e sátira política do país.

Renascimento. Para muitos manifestantes atuais, esta é a primeira vez que dão tamanha atenção à política, e eles estão cansados do tom sisudo que por muito tempo definiu a oposição política russa. Usam o humor para sinalizar que não estão interessados na política tradicional e não se levam - ou a Putin - muito a sério.

Por outro lado, as autoridades que se levam tremendamente a sério acabam parecendo atrapalhadas e estúpidas, como quando a polícia da cidade siberiana de Barnaul pediu para os promotores investigarem um "protesto" realizado por figurinhas de Lego e bonecos de South Park.

Ilya Krasilshchik, o editor de 20 e poucos anos da revista e arte e cultura Afisha e um dos organizadores originais dos protestos de dezembro em Moscou, disse-me que a ubiquidade da sátira dá aos manifestantes um sentimento de que "aquilo é um protesto, mas, ao mesmo tempo, não é realmente um protesto. Estamos fazendo piada, mas também somos sérios."

Surgiram tantas piadas antigovernamentais, vídeos e brincadeiras na internet nos dois últimos meses que Afisha publicou um "dicionário" deles no número da semana retrasada. Os verbetes incluíam "146%", uma referência à votação total risivelmente errada que a televisão estatal mostrou para uma região russa.

De acordo com a natureza amorfa, essencialmente sem liderança, do movimento de protesto atual na Rússia, o humor mais contundente anti-Putin hoje em dia não é produzido por instituições da mídia tradicional, mas simplesmente aparece na internet ou em cartazes feitos à mão em demonstrações. Uma das sensações de internet mais populares nos últimos meses foi um video musical chamado "Nosso Manicômio Vota em Putin", em que um suposto doente mental pergunta para onde foram as receitas de gás e petróleo do país (ele recebe uma injeção na nádega em resposta).

Twitter. A comédia política começou a surgir nos sites em língua russa antes da disputada eleição e floresceu de lá para cá. Uma das fontes mais populares de humor online é KermlinRussia, uma conta de Twitter satírica que começou em junho de 2010 zombando das postagens do presidente Dmitri Medvedev.

Agora que Medvedev foi se retirando da conversa pública após anunciar, em setembro, que não concorreria a um segundo mandato, a conta evoluiu para atacar novos alvos: a polícia, as autoridades eleitorais e o próprio Putin.

De um ponto de vista puramente humorístico, os dois profissionais por trás de KermlinRussia quase apreciam a volta de Putin ao Kremlin porque com suas encenações machistas - colocar coleira em urso polar no Ártico russo, por exemplo - ele é um prato feito para a sátira. Uma recente postagem em KermlinRussia zombou da reverência quase norte-coreana que a televisão estatal mostra para com as jogadas de relações públicas de Putin: "Na floresta de Ryazan, onde um incêndio foi apagado pelo primeiro-ministro em pessoa, três safras de toras já foram colhidas." Como diz um dos autores de KermlinRussia: "Putin deixou de ser assustador. Ele começou a ficar idiota."

Talvez ninguém tenha captado essa idiotice com maior incisividade, ou popularidade, que Poeta Cidadão, um programa semanal em que Dmitri Bykov, um talentoso jornalista e poeta, pega poemas clássicos russos e lhes confere um texto inteiramente novo com base nas notícias da semana, para ser lido em voz alta com tom solene e zombeteiro pelo ator Mikhail Yefremov.

Embora o programa tenha matizes políticos óbvios, Yefremov insiste em que sua principal finalidade é divertir, e não defender alguma causa particular. "Não se deve levar a política tão a sério", ele me disse. "E, nesse sentido, espero que nosso programa tenha ajudado." Ou, como ele diz: "É melhor rir dos políticos do que ser metido na prisão."

O humor e o senso de ironia não impedirão Putin de retornar à presidência, mas contribuíram para um sentimento de engajamento e vitalidade cívica que seguramente sobreviverão à eleição de hoje. Como diz Krasilshchik: "Afinal, não é só pelas piadas que estamos nos unindo." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Brincadeiras e solidéus - YOANI SÁNCHEZ

O ESTADÃO - 04/03/12


Janeiro de 1998 foi um momento de descobrimento e criatividade, de cenas inéditas e orações em voz alta. João Paulo II nos visitou e na Praça da Revolução - o marco mais vermelho da Cuba ateia - fez uma homilia na qual pronunciou mais de dez vezes a palavra liberdade. Além do rito e da liturgia, no nível da rua e das pessoas, a vida também estava em ebulição. A produção de piadas disparou. Uma verdadeira avalanche de brincadeiras e histórias satíricas teve como protagonista tanto o próprio papa quanto o então presidente Fidel Castro. Quando acreditávamos que a picardia nos havia abandonado e a crise econômica do "período especial" havia transformado o nosso sorriso em esgar, renascia a zombaria e a risada.

Até Pepito, o eterno menino malicioso dos nossos contos, reapareceu para surpresa dos que achavam que fugira durante a crise dos balseiros. À direita do báculo papal e à esquerda do guerrilheiro de verde-oliva, uma cabecinha hirsuta zombava do humano e do divino, do milenar e do imediato.

Entretanto, agora, a poucas semanas da chegada de Joseph Ratzinger à ilha, a fonte dos nossos sarcasmos parece ter-se esgotado, minguado.

Apenas uma piada ridícula e batida fica nos rodeando. Uma tosca palhaçada que indaga sobre a semelhança entre o Ministério da Agricultura e o Vaticano. Sem pensar muito, os interrogados a respeito respondem: "Sim... já sei. Que em 50 anos se produziram somente quatro papas ..."(papa significa também batata em espanhol), numa alusão ao desabastecimento deste tubérculo, tema hoje de conversas, boatos e até extensas reportagens na TV oficial.

A pergunta que devemos nos fazer é se este empobrecimento satírico é uma medida das poucas expectativas em torno da chegada do máximo representante da Igreja Católica. Ou então é um processo de apatia que invade nossa sociedade, que pode ser resumido com a frase: "Nada vai mudar, ninguém vai conseguir que as coisas mudem".

No final dos 90, Karol Wojtila nos incentivou a esperar. Neste 2012, a dose de cinismo nacional conspira contra o entusiasmo. Já sabemos que a frase: "Se Cuba se abrir para o mundo, o mundo se abrirá para Cuba", ficou na bela intenção de um papa polonês.

Nos quase 15 anos entre uma visita e outra, a Igreja ganhou espaço na nossa vida pública. Mas para tanto, sua hierarquia teve de fazer concessões que decepcionaram parte da congregação de fiéis, leigos e até alguns ateus iludidos. Quando indagamos entre os sacerdotes a respeito dos passos cuidadosos e lentos da Igreja cubana, eles sempre respondem com a frase: "Sobrevivemos dois milênios apesar das piores dificuldades, não podemos nos apressar agora".

João Paulo II afirmou que "o homem é o principal caminho da Igreja" e a defesa dos direitos humanos é a pedra angular desta premissa. No caso de Cuba e diante da evidência de que outros espaços de liberdades civis foram proibidos e satanizados, os templos e seminários deveriam assumir um papel menos cauteloso. A negociação entre o governo cubano e o cardeal Jaime Ortega para a libertação dos presos políticos da Primavera Negra não se concluiu - como se esperava - com um aumento do prestígio da Igreja na ilha. Mas levantou questionamentos e críticas, inclusive entre os familiares dos próprios libertados. Em parte, porque na mesa do pacto faltou a voz das Damas de Branco, que há sete anos pressionavam para que seus esposos condenados em 2003 voltassem para casa. O governo cubano escolheu o interlocutor menos incômodo para entregar os reféns. As estratégias milenares tropeçam - às vezes - nestas artimanhas do transitório.

O papa chegará a um país onde a hierarquia eclesiástica conseguiu ampliar instalações, abrir novo seminário, criar uma cátedra para discutir temas sociais com convidados muito seletos. Uma nação onde já ninguém é expulso do trabalho ou estudo por rezar o Pai Nosso, e onde a TV oficial transmite a Missa do Galo e outras tantas cerimônias. Mas também encontrará um cardeal que já passou da idade da aposentadoria, um presidente que há 5 anos superou os 80 e um povo onde os jovens escasseiam, pela emigração e pela baixa natalidade. Chega num momento de flexibilização econômica e radicalização do discurso político, de expectativas comerciais e desenganos ideológicos. Indubitavelmente, sua visita não será precedida pelo torvelinho de esperança, curiosidade e humor que João Paulo II conseguiu arrancar dos cubanos. Mas quem sabe! Quem sabe nem o mesmo Pepito tenha conseguido adiantar as surpresas que nos trará Joseph Ratzinger. De minha parte, sonho que na Praça da Revolução, ateia e exclusiva, ele proponha que "Cuba se abra a Cuba".

Morte aos "gatos"! - JOSUÉ GOMES DA SILVA

FOLHA DE SP - 04/03/12


O Brasil tem imensos ônus com as ligações clandestinas de energia elétrica, água, gás e TV por assinatura. Alguns números relativos aos famigerados "gatos", embora pouco atualizados, são estarrecedores, revelando distorção a ser combatida com firmeza, inclusive por um amplo processo educativo da comunidade.

Segundo a ANEEL (Agência Nacional de energia Elétrica), o prejuízo anual desses desvios é de R$ 7 bilhões. Aproximadamente 13% da eletricidade consumida não são faturados. Dados da Light, responsável pelo fornecimento no Rio, indicam que as perdas representam 21,75% do total e seriam suficientes para iluminar o Espírito Santo por um ano.

A pirataria na TV a cabo equivale a 13% do mercado. São cerca de 400 mil conexões ilegais. Além disso, há aparelhos que permitem a captura gratuita dos sinais, provocando prejuízo anual de R$ 1,2 bilhão, revela a ABTA (Associação Brasileira de Televisão por Assinatura). Em 2011, a Justiça proibiu a venda dos equipamentos, mas, em alguns locais, eles continuam sendo ilegalmente comercializados.

Quanto à água, interessante a análise de Demetrios Christofidis, especialista em infraestrutura hídrica e professor da Universidade de Brasília, que esclarece: mundialmente, considera-se que as perdas acima de 20% decorrem de desvios.

Em todas as regiões do Brasil os índices estão muito acima. Segundo o SNIS (Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento), em 2007 a região Norte perdeu 56,7%, o Nordeste, 44%, e o Sul, 28%. Os "gatos", presentes em todo o país, estão nas várias classes socioeconômicas. Condomínios de luxo já foram indiciados por ligações clandestinas de TV a cabo.

Instalações piratas configuram-se como furto, ou seja, crime! É um delito que prejudica muito a sociedade, pois lesa as empresas, reduz investimentos, faz com que os serviços fiquem mais caros para os bons pagadores, diminui o número de empregos e o montante de impostos. Há, por fim, a questão da segurança -inclusive dos próprios transgressores-, que podem provocar incêndios e explosões nas precárias conexões ilegais de gás e eletricidade.

Não é um absurdo?! Pois bem, algo semelhante ocorre no tocante ao ICMS. Alguns Estados estão fazendo um tipo de "gato" ao isentar o tributo para produtos importados, gerando lá fora os postos de trabalho que poderiam ser criados aqui. É a equivocada "guerra fiscal dos portos".

Para esses "gatos", há uma saída encaminhada -a resolução 72/2010, do Senado Federal. Estamos confiantes de que o voto de nossos parlamentares será favorável à aprovação imediata dessa medida, defendendo o emprego e a renda dos brasileiros.

Meu camarim - LUIZ FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 04/03/12
É pouco provável que me convidem para fazer algum megashow num futuro próximo, mas nunca se sabe. Por via das dúvidas, e para não ficar atrás das exigências feitas pelos artistas internacionais que nos visitam, enquanto o convite não vem preparei uma lista do que eu quero no meu camarim.

– Cento e dezessete toalhas de banho fofas, brancas, com meu monograma em dourado.

– O mesmo número de toalhas de rosto, com monogramas simples.

– Cinquenta roupões felpudos.

– Cinquenta pares de chinelos na forma de coelhos, também felpudos.

– Uma banheira jacuzzi.

– Patinhos flutuantes para a banheira jacuzzi.

– Submarinos de brinquedo para a banheira jacuzzi.

– Um sortimento de pastéis, dividido igualmente entre de carne e de camarão. Queijo não.

– Uma bandeja de empadas do restaurante Caranguejo, de Copacabana.

– Um suprimento inesgotável de picolés de coco da Kibon.

– Doze garrafas de champanhe Taittinger numa temperatura não menor do que 8 ou maior do que 11 graus.

– Quatro garrafas do vinho Cheval Blanc, safra 2005.

– Um serviço continuo de caviar, blinis, “creme fraiche”, vodka gelada e limão. O limão pode ser nacional. O caviar, obviamente, não.

– Três tenistas russas. De saiote.

– Uma massagista sueca e uma tailandesa que trabalhem em conjunto. Uma a parte de cima, outra a parte de baixo.

– Uma orquestra de câmara.

– Visitas da Patricia Pillar, da Patrícia Poeta e de alguma outra Patrícia que me ocorrer na hora.

– Um padre franciscano, um pastor evangélico, um rabino e um monge budista, para o caso de eu precisar de orientação espiritual ou de quatro para o pôquer.

– Em Busca do Tempo Perdido, A Montanha Mágica e A Genealogia da Moral, de Nietzsche, não para ler mas para deixar espalhados pelo camarim e dar uma boa impressão, e disfarçar as revistas de quadrinhos.

– Por último: nenhum contato com o mundo exterior. Nem por rádio, nem por TV, sequer por janela. Não quero ser incomodado pela realidade nem na hora do show.

Aí estão minhas exigências. Espero que tenham tomado nota. 

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV


8h30 - Parma x Napoli, Campeonato Italiano, ESPN e Sportv 2

9h - Newcastle x Sunderland, Campeonato Inglês, ESPN Brasil e ESPN HD

11h - Roma x Lazio, Campeonato Italiano, RedeTV! e ESPN Brasil

11h - Challenger de Florianópolis, Tênis (final), Sportv 2

11h30 - Nuremberg x B. M'gladbach, Campeonato Alemão, Bandsports, ESPN e Esporte Interativo

12h - França x Irlanda, Six Nations (rúgbi), ESPN HD

13h10 - Tottenham x M. United, Campeonato Inglês, ESPN Brasil

14h - Granada x Valencia, Campeonato Espanhol, ESPN e ESPN HD

16h - Santos x Corinthians, Campeonato Paulista, Band e Globo (para SP)

16h - Botafogo x Volta Redonda, Estadual do Rio, Band e Globo (menos SP)

16h45 - Inter de Milão x Catania, Campeonato Italiano, ESPN Brasil

16h45 - San Lorenzo x Boca Jrs., Campeonato Argentino, Esporte Interativo

17h - Lorient x Rennes, Campeonato Francês, Sportv 2

17h30 - Real Madrid x Espanyol, Campeonato Espanhol, ESPN e ESPN HD

18h30 - XV de Piracicaba x São Paulo, Campeonato Paulista, Sportv

CLAUDIO HUMBERTO

“A prioridade do Brasil é ganhar o Mundial e não organizá-lo”
Jérôme Valcke, secretário-geral da Fifa, ironizando o atraso nos preparativos da Copa

NOVO CÓDIGO PÕE LÍDER DO PMDB EM SAIA JUSTA

Candidato a presidente da Câmara, o líder do PMDB Henrique Eduardo Alves (RN) se colocou em uma saia justa em relação ao projeto do novo Código Florestal, previsto para ser votado na próxima terça. De um lado, sofre pressão dos ruralistas para apoiar modificações no texto do Senado, mas também não quer contrariar Dilma, que se opõe radicalmente a mudanças.

PASSADO RURALISTA

Para se cacifar frente à oposição, de quem precisa dos votos para ser presidente, o líder peitou o governo e votou com os ruralistas em 2011.

RELAÇÃO DESGASTADA

Henrique Alves vai só aumentar o desgaste se votar contra Dilma, que já perdeu a confiança nele após ser desafiada por cargo no Dnocs.

SEM SAÍDA

Contrariar tanto Dilma quanto a bancada ruralista coloca em risco o projeto do peemedebista da assumir a presidência da Câmara.

DUPLA PERSONALIDADE

Henrique Alves enfrenta ainda dificuldades dentro da bancada do PMDB, que reclama de suposto jogo duplo do líder peemedebista.

PROJETO PREVÊ ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL ATÉ 2022

Está pronta para ser votada uma proposta de emenda constitucional garantindo o ensino fundamental em período integral em todo o País. O autor, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), considera que esse tipo de escola é a melhor maneira de combater o analfabetismo, a miséria e a criminalidade. Uma emenda da Comissão de Constituição e Justiça fixa o ano de 2022 como o prazo para sua implantação total.

ESTAMOS AÍ 

A ordem no PT paulista é levar Fernando Haddad até a batizado de boneca. Já nem disfarça a campanha eleitoral antecipada.

GRANA SOBRANDO

Deputado Arthur Lira (AL), novo líder do PP, já reformou seu gabinete na Câmara, mas diz que pagou tudo do próprio bolso: R$ 50 mil.

DINHEIRO VOANDO

A Agência Nacional de Aviação Civil paga o preço do alto custo de vida no Rio: só de aluguel serão R$2,3 milhões por sua sede, este ano.

SORTE GRANDE

A sorte do senador Eduardo Braga (PMDB-AM), que deseja disputar o governo do Amazonas em 2014, é que a atual primeira-dama estadual, d. Nejma Aziz, não pode ser candidata. Ela lidera todas as pesquisas. Inclusive para a prefeitura de Manaus, que ele também ambiciona.

FOME DE CARGOS

Tapioca garantida: o ex-ministro Orlando Silva (Esporte) poderá escolher entre a Secretaria Extraordinária da Copa no governo Jaques Wagner (PT-BA) ou a candidatura a vereador em SP.

BERGE OU GABAS, EIS A QUESTÃO

Com a adesão do governador Agnelo Queiroz à facção Construindo um Novo Brasil, majoritária no PT, o influente secretário de Governo do DF, Paulo Tadeu, da facção Democracia Socialista, deve cair. Para o lugar, Agnelo sonha com Carlos Eduardo Gabas ou Swedenberg Barbosa.

BOCA ABERTA

Do deputado Hugo Leal (PSC) sobre a pressão do seu partido para fazê-lo ministro do governo Dilma: “Merecemos, estamos na base desde o primeiro governo do ex-presidente Lula”.

HORA DA FAXINA

Admirador de Getúlio Vargas, Lula deve ter lembrado a Dilma a famosa frase atribuída ao ditador. “Ministérios se compõem de dois grupos: um formado por gente incapaz e outro por gente capaz de tudo.”

PUNIÇÃO AO TURISTA

O aeroporto de Brasília recebe cada vez mais voos internacionais, mas mantém estrutura de rodoviária. Quem desembarca do exterior na capital é submetido a longa espera, de até uma hora, com um ou dois funcionários da Polícia Federal carimbando lentamente os passaportes.

LONGE DAQUI

No Planalto, a piada é que Luiz Sérgio, monumento à inutilidade, poderá assumir um novo posto no governo de Dilma Rousseff: o de comandante das obras de reconstrução de uma nova base militar brasileira. Na Antártida.

TEOCRACIA FASCISTA

Ministro de Relações Exteriores de um País de maioria cristã, Antônio Patriota pediu informações ao embaixador do Brasil no Irã, Antônio Salgado, sobre o caso de Youcef Nadarkhani, condenado à morte por ter se convertido ao Cristianismo.

PENSANDO BEM...

...O novo ministro da Pesca terá que pescar com varinha de condão para enfrentar a maré de turbulência. 

PODER SEM PUDOR

TÁXI GETULISTA

O presidente Getúlio Vargas queria fincar o PTB em solo paulista e mandou sua sobrinha Ivete Vargas se candidatar a deputada federal por São Paulo. Eleita com o peso do sobrenome ilustre, ela pegou um avião e seguiu para a capital do Estado. Ao desembarcar, um jornalista logo a provocou:

– Como explica votação tão expressiva conhecendo São Paulo tão pouco?

– Deve haver algum engano de sua parte – respondeu ela, na bucha – Eu fui candidata a deputada federal e não a chofer de táxi.

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: MEC só entrega um terço das creches que divulga
- Folha: Serra sobe nove pontos e lidera disputa em SP
- Estadão: Governo planeja formalizar relação de trabalho eventual
- Correio Braziliense: Mulheres de pedra
- Jornal do Commercio: Médico foge de planos e penaliza os clientes

sábado, março 03, 2012

Fratura do tempo - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 03/03/12


Tudo é bom no jornalismo: coluna, comentário, entrevista, furo, crônica, cobertura continuada, desenhar uma página, ver o trabalho minucioso de uma ilha de edição, correr contra o tempo no fechamento. Mas a reportagem é um momento supremo. Mergulhar numa história e ir unindo as pontas, fechando um quebra-cabeças, ouvindo as partes, é um exercício de paciência e emoção. Quando dá certo, você até sonha. Sonhei.

A ideia que Cláudio Renato e eu tivemos na Globonews há mais de dois meses era a de falar do trabalho da Comissão da Verdade e tentar mostrar como desapareciam os desaparecidos, que mundo era aquele que ainda nos assombra. O resultado do trabalho foi ao ar na quinta-feira e ontem - ainda repete às 0h30m e às 19h05m deste domingo - e foi publicado neste jornal.

O título Uma História Inacabada foi escolhido pela editora Cristina Aragão. Ele reflete com exatidão e delicadeza o drama do país e das famílias que não enterraram seus mortos, não realizaram seu luto.

Difícil reconstruir os fatos de cada um dos 183 desaparecidos políticos, mas eles sumiam assim pra nunca mais ao entrar numa guarnição militar, ou até em braços clandestinos do Estado, como foi a tenebrosa Casa da Morte de Petrópolis. Escolher Rubens Paiva é fácil. Ele foi definido por Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição como a encarnação da sociedade. Descobrir o que os militares da Polícia do Exército da Barão de Mesquita fizeram em 1971 com o seu corpo é um segredo que ainda pertence aos assassinos.

Escolhemos então seguir seus passos finais, trazer o personagem à vida fazendo seu perfil na conversa com pessoas que o conheceram, em fotos e imagens públicas e das famílias, em documentos como o valioso relato escrito pela professora do Colégio Sion Cecília Viveiros de Castro. Fizemos uma longa entrevista com o Procurador da Justiça Militar Otávio Bravo, que está reabrindo os processos de 39 pessoas que sumiram no Rio e no Espírito Santo.

Fomos a Brasília duas vezes entrevistar autoridades sobre a Comissão da Verdade, que ainda não está funcionando. Tentamos falar com os comandantes militares. O Ministério da Defesa indicou José Genoino. A linguagem corporal dos chefes das três Forças, na sanção da lei que criou a Comissão já dizia tudo: eles detestam tudo isso. Integrantes dos clubes militares, dos oficiais da reserva, deram respostas vagas aos nossos pedidos, o coronel Brilhante Ulstra, que chefiou o DOI-Codi de São Paulo, segue orientação do seu advogado para não falar. O general Rocha Paiva disse com clareza o que pensa. Ele é contra a Comissão, contra reabrir essa discussão, acha que há um risco enorme de que a procura de informações termine na execração pública e punição de seus companheiros. Afirmou que assim pensam os militares da ativa. Na saída, na porta do seu apartamento em Brasília, o general me explicou o que o move:

- Não fui da comunidade de informações, mas poderia ter sido. O acaso me levou para outra área. Não vou deixar companheiros meus em risco, agora que a situação mudou.

O Brasil pode até decidir não olhar para trás, mas não pode mais permitir que seja resultado do veto das Forças Armadas. Ele e os atuais comandantes militares estavam no início das suas carreiras quando a comunidade de informações montou aparelhos de tortura, morte e ocultação de cadáver dentro de instituições que hoje prestam valiosos serviços à pátria. O general Rocha Paiva rechaçou a minha afirmação de que é um outro Exército: "É o mesmo."

Pelo acaso desse tempo de jornalismo multimídia, eu fiz, recentemente, uma reportagem publicada neste jornal sobre empreendedorismo nas favelas. Para tornar possível o momento que começa a ser luminoso no Rio, forças policiais e os militares se uniram contra traficantes. Naquele tempo obscuro se uniram numa coalizão macabra. Por coincidência, num mesmo dia eu trabalhei de manhã na matéria dos desaparecidos, fui à tarde para a Rocinha conversar com empreendedores para a outra reportagem e terminei o dia fazendo coluna sobre crise do endividamento da Europa. Visitei dois tempos do Brasil e a lembrança de crises econômicas que já superamos.

Cláudio Renato e eu desembarcamos num sábado de manhã em São Paulo e passamos o dia no antigo Deops - Departamento Estadual de Ordem Política e Social - um lindo prédio onde tragédias ocorreram e agora famílias passeiam no fim de semana vendo exposição do memorial da resistência. Lá, entrevistamos os três filhos de Rubens Paiva.

A equipe tinha imaginado gravar numa antiga cela. Marcelo foi logo detonando a ideia, com jeito brincalhão:

- Horrível. Numa cela? Não! Vamos procurar um lugar bonito, leve.

Rimos do nosso erro. Era de fato uma péssima ideia pôr os filhos de Rubens Paiva numa cela. Onde a gente estava com a cabeça?

Na procura dos fios da meada lemos livros, material de jornal, vimos documentários. Jason Tércio no livro "Segredo de Estado" recria a história, com partes de ficção. No livro "K.", Bernardo Kucinski fala do pai que procura a filha, professora da USP, e jamais a encontra. Numa frase, ele resume o que as famílias buscam, entre elas, a do autor: "Para que a sua memória na nossa memória descanse."

PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA DA TV


8h30 - Mundial de biathlon masc., Sportv

9h - CSKA Moscou x Zenit, Campeonato Russo, ESPN

9h45 - Liverpool x Arsenal, Campeonato Inglês, ESPN Brasil e ESPN HD

11h - Ceará x Sport, Superliga B masc. de vôlei, Sportv 2

11h30 - Bayer Leverkusen x B. de Munique, Campeonato Alemão, ESPN

11h30 - Hertha x Werder Bremen, Campeonato Alemão, Bandsports

12h - Manchester City x Bolton, Campeonato Inglês, ESPN Brasil

12h - West Bromwich x Chelsea, Campeonato Inglês, ESPN HD

13h40 - Mundial de skate vertical, Sportv

14h - Palermo x Milan, Campeonato Italiano, ESPN, ESPN HD e Sportv 2

14h30 - B. Dortmund x Mainz, Campeonato Alemão, Bandsports, ESPN Brasil e Esporte Interativo

16h - Olaria x Vasco, Estadual do Rio, Sportv

16h - Vila Velha x Flamengo, NBB, Sportv 2

16h30 - São Bernardo x Campinas, Superliga masc. de vôlei, Esporte Interativo

16h45 - Juventus x Chievo, Campeonato Italiano, RedeTV!, ESPN e ESPN HD

18h - Maranhão x São Caetano, Nacional fem. de basquete, Sportv 2

18h30 - Bragantino x Guarani, Campeonato Paulista, Sportv

19h - Wladimir Klitschko x Jean Marc Mormeck, boxe (pesos pesados), ESPN Brasil

21h - Cruzeiro x Vôlei Futuro, Superliga masc. de vôlei, Sportv

Ufanismo e estética - SILVIANO SANTIAGO


O Estado de S.Paulo - 03/03/12


Matéria obrigatória nos tratados sobre o modo como o Novo Mundo indígena se tornou cópia da Europa, as análises sobre a nossa ocidentalização não fazem jus às reflexões radicais sobre a operação histórica equivalente, ocorrida no Japão a partir do século 18. O fluxo da europeização japonesa ganhou volume durante a restauração Meiji (1868-1912), arrastou dois imperadores e uma Constituição inspirada no direito alemão (1889). Passou pelo colapso do Xogunato Tokugawa e a adoção do xintoísmo como religião do Estado, por guerras regionais e a militarização imperial. E desaguou no oceano belicoso que, ao final dos anos 1930, levou a nação a se aliar às tropas do Eixo.

As irrupções de rebeldia e de revolta nacionalista ocorridas nas Américas não têm a intensidade, a ousadia e a reivindicação de universalidade propostas pela dolorida e sofisticada reação dos japoneses à sobreposição das conquistas técnicas ocidentais à sua vida cotidiana, entendendo-se por esta uma visão popular e estética de mundo. A cultura do povo reage pelo jingoísmo e o nacionalismo ilustrado, pela estética. Os dois pares se casam de maneira notável e constrangedora no ensaio Em Louvor da Sombra (Companhia das Letras, 2007), obra-prima do romancista Junichiro Tanizaki.

Publicado em 1933, Em Louvor da Sombra rechaça as conquistas científicas impostas ao Oriente, a fim de retrabalhar a tradição japonesa, então em desvio fatal e (ainda que não se pudesse prever na data) à beira de catástrofe mundial. A reação ufanista se ampara na frágil e agressiva "imaginação do artista", visto que a realidade já era presa da modernização ocidental. O absurdo encanto do ensaio de Junichiro - e talvez sua atualidade num planeta convulso e de novo atravessado por nacionalismos - resulta de "devaneios" de fundo abstrato, cujo forte é a restauração do passado nipônico pelo elogio de pormenores obsessivos e sedutores. A conjunção "se" dá o chute inicial e formula hipóteses inconformadas e vadias sobre o Japão gorado. Os inventos técnicos de uso prático - se tivessem trilhado um rumo original no Japão - teriam exercido ampla influência sobre o cotidiano e sobre a estrutura política, religiosa, artística e industrial. Por exemplo: "imaginar quão diferente seria o aspecto atual da sociedade japonesa se uma cultura científica única, diversa da ocidental, houvesse prosperado no Oriente".

Recolho uma divagação pitoresca: "Se a caneta-tinteiro tivesse sido inventada na Antiguidade por japoneses ou chineses, não traria uma pena metálica adaptada à sua ponta, mas um tufo semelhante ao de pincel, feito de pelos". A tinta não teria a cor azulada. Seria um tipo de sumi (tinta mais barata que o nanquim), a escorrer aos poucos do corpo da caneta para o pincel. O papel teria de ser semelhante ao japonês (washi) e "as discussões sobre a romanização da escrita japonesa não teriam campo para se expandir e, por outro lado, teriam fortalecido a preferência popular pela escrita de nomes ocidentais com ideogramas". Ezra Pound e os irmãos Campos aplaudiriam.

Se poético o devaneio, é imperial o caminho industrial franqueado: "Em lento e cuidadoso progresso, um dia talvez viéssemos a descobrir substitutos para os trens, os aviões e os rádios atuais, inventos não mais tomados de empréstimo de outras civilizações, e sim conveniências modernas adequadas realmente ao nosso modo de vida". Inventados por japoneses, filmes e reveladores químicos apreenderiam melhor o ambiente de sombras em que vive o japonês, sua cor de pele e aparência física. O rádio e o fonógrafo ressaltariam o timbre de voz do oriental e a sonoridade dos seus instrumentos musicais. Reproduzidas em bolachas, elipses e pausas perdem a graça.

No Ocidente, prata, ferro ou cobre são usados na fabricação de aparelhos de jantar e talheres, que são polidos até brilhar. Devaneia o artista: "Nós, os japoneses, sentimos desassossego diante de objetos cintilantes (...). As coisas que apreciamos como belas e requintadas têm em sua composição parcelas de sujeira e de desasseio". A verdadeira beleza dos objetos de uso doméstico não está no branco imaculado da porcelana, está na laca, que só se revela plenamente na penumbra. "A sombra", Junichiro arremata, "é elemento indispensável à beleza dos utensílios laqueados".

Reaparecem o cá e o lá de Gonçalves Dias. A beleza das igrejas góticas reside em suas torres altaneiras. No Japão, sobressaem o telhado de telha ou de colmo e o extenso beiral. Ao construir uma residência, o japonês abre primeiro um guarda-sol - o telhado - para projetar um pedaço de sombra na terra. Na ausência de tijolo, vidraça ou concreto, o beiral alongado protege o morador das arremetidas de chuva. Nesse espaço sombrio, levantam-se a casa popular, o palácio ou o templo. Lá dentro, na penumbra, é que os antepassados descobriram "a beleza na sombra e, com o tempo, aprenderam a usar a sombra para favorecer o belo" e "dela tirar efeitos estéticos". Dentro de casa, os arranjos florais - continua o ensaísta - visam antes a acrescentar profundidade à sombra do que a exercer função decorativa.

O elogio da sombra no processo de restauração dos valores orientais se confunde com o projeto literário de Junichiro Tanizaki, que pretende "invalidar" as desvantagens técnicas e culturais decorrentes do processo de ocidentalização do Japão. Confessa ele no parágrafo final do ensaio: "Quanto a mim, gostaria de fazer reviver, pelo menos no campo literário, esse universo de sombra que estamos prestes a dissipar". Continua: "Gostaria de projetar um beiral amplo para o santuário da Literatura. Pintar as paredes de cores sombrias, enfurnar nas trevas tudo o que se destaca em demasia e eliminar os enfeites desnecessários". E convoca: "E agora: vamos apagar as luzes elétricas para ver como fica".

Militares de pijama - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 03/03/12

SÃO PAULO - Para mim, a Comissão da Verdade é absolutamente necessária, e a indicação de Eleonora Menicucci para a pasta das Mulheres foi o ponto alto da reforma ministerial da presidente Dilma Rousseff. Não concordo, portanto, com nenhuma linha dos manifestos com críticas ao governo que oficiais da reserva vêm publicando.
Numa República presidencialista, o comandante em chefe das Forças Armadas é o presidente. Todos os militares da ativa lhe devem obediência, independentemente de partilharem ou não de suas ideias e políticas. Indo um pouco mais longe, acho que daria até para argumentar que os oficiais da reserva remunerada, que podem eventualmente ser chamados para o serviço ativo, também estejam submetidos ao regime disciplinar e hierárquico dos militares.
Parece-me um exagero, porém, que as leis e regulamentos castrenses permitam enquadrar e punir por desrespeito à hierarquia os oficiais reformados, que são, para todos os efeitos, cidadãos aposentados.
Se essas regras são constitucionais, temos uma situação em que as obrigações diferenciadas exigidas dos militares se tornam perpétuas, o que se assemelha mais a disposições da ordem escravocrata do que aos contratos típicos do mundo livre.
É bem verdade que, em 1986, sob o governo Sarney, foi aprovada a lei nº 7.524, que faculta aos militares inativos "opinar livremente sobre assunto político, e externar pensamento e conceito ideológico, filosófico ou relativo à matéria pertinente ao interesse público". Mas essa salvaguarda fica ainda aquém daquelas que constituem o núcleo das liberdades fundamentais asseguradas pela Carta de 1988 e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não há nenhuma razão para privar pelo menos o oficial reformado dessas proteções.
Não deixa de ser irônico que agora se invoque para os militares as garantias individuais que as Forças Armadas tão amiúde ignoraram.

Minhocas e amebas - FERNANDO RODRIGUES

FOLHA DE SP - 03/02/12

BRASÍLIA - Ontem, na posse do novo ministro da Pesca, Marcelo Crivella, estava na plateia a ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci. Entrou muda e saiu calada.
Nessas ocasiões, em meio à discurseira, há aplausos e palavras de apoio. Quando Crivella fez citações religiosas, foi possível ouvir alguém dizer "glória a Deus".
Essas duas nomeações recentes, a de Crivella e a de Menicucci, mostram como há ainda uma assimetria no trato de determinados temas dentro do Estado brasileiro. A ministra das Mulheres, como se sabe, é uma histórica defensora dos direitos iguais entre os sexos e da descriminalização do aborto.
No governo, Menicucci rendeu-se ao discurso anódino do Planalto. Aborto? Fica para o Congresso decidir. E não se fala mais nisso.
Já Crivella, criacionista e descrente da teoria da evolução, pode derrubar quantas vezes quiser o muro que deveria separar igreja e Estado. Como senador, em 2009 compartilhou uma dúvida com seus colegas -"O surgimento da vida a partir de uma ameba traz o primeiro questionamento: e a ameba, surgiu de onde?". O discurso sobre o ser unicelular está em bit.ly/crivella.
Ontem, repetiu não saber "colocar a minhoca no anzol", apesar de ter virado ministro da Pesca. Olhou para Dilma Rousseff. Compungido, amparou-se na força divina: "Muitas vezes, Deus não chama os mais qualificados, não escolhe os mais qualificados. Mas sempre Deus qualifica os escolhidos". Ou seja, tornar-se um bom ou mau ministro é também uma questão de fé.
Crivella é do PRB e bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Igreja e partido entram no governo com a missão de vocalizar os anseios de políticos evangélicos. Em meio a metáforas e a discursos sobre minhocas e amebas, Dilma Rousseff oficializa, assim, mais um oximoro da administração petista, o excêntrico Estado laico-cristão.

As intenções ocultas dos norte-coreanos - GILLES LAPOUGE


O Estado de S.Paulo - 03/03/12


Há dois meses, em 17 de dezembro de 2011, morreu Kim Jong-il, dirigente do país mais misterioso e opaco do planeta. Logo em seguida foi nomeado seu sucessor o jovem Kim Jong-un, seu filho de 28 anos sobre o qual pouco se sabia, apenas que estudara na Suíça, na Escola Internacional de Negócios de Berna, que praticava esqui e era um fã do jogador de basquete americano Michael Jordan e do ator Jean-Claude Van Damme.

Como Kim Jong-un administraria essa sucessão, num país arruinado, consumido pela fome, isolado do mundo, possuidor da bomba atômica e herdeiro combalido do fanatismo comunista? Muita gente não acreditava no futuro desse país que surgiu no fim da Guerra da Coreia, que fez 2 milhões de vítimas e deu nascimento em 1953 a duas Coreias inimigas: a do Sul, ocidental e opulenta, e a do Norte, fechada, extenuada, miserável e confinada em sua solidão, sua desconfiança, seu segredo.

A expectativa era de dificuldades e caos. Ora, contra todos os prognósticos, a vida retomou seu curso normal em Pyongyang. As pessoas que conseguem entrar no país trazem imagens aprazíveis - nada de frenesis, tampouco penúria.

E outra prova dessa sucessão pacífica foi o pacto firmado entre Estados Unidos e a Coreia do Norte, que prevê a suspensão por Pyongyang do enriquecimento de urânio e testes com mísseis. Em contrapartida, o país deve receber 240 mil toneladas de alimentos, a título de ajuda, do governo do presidente Barack Obama. O regime norte-coreano, que fez dois testes nucleares nos últimos 15 anos, também aceitou o retorno dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) para controlar a moratória do complexo nuclear de Yong-byon, ao norte de Pyongyang.

Só podemos nos espantar com a diferença de tom, nessa questão nuclear, entre o Irã, que continua a desafiar o universo (Israel e Estados Unidos em primeiro lugar), enriquecendo urânio para fabricar uma bomba atômica, e a Coreia do Norte, que, já de posse da bomba, aceita nada menos que suspender seu programa.

Será o caso de concluir que o filho de Kim Jong-il deu as costas à diretriz seguida antes dele e prepara uma abertura da Coreia do Norte a novos ventos, está pronto para retirar o colete de ferro que há 70 anos tira o fôlego desse país desafortunado? Devemos imaginar, como alguns sugerem, que 30 anos após a reunificação das duas Alemanhas poderemos ver o mesmo cenário com uma reaproximação ou mesmo uma reunião das duas Coreias?

É muito otimismo. Não é inimaginável, mas não é o caso no momento. O acordo que Estados Unidos acabam de firmar com Kim Jong-un estava em preparação bem antes da morte de Kim Jong-il. O filho apenas seguiu os passos do pai. Na verdade, o acordo já estava pronto em dezembro e foi a morte de Kim Jong-il que atrasou a assinatura.

Ao menos, o pacto agora firmado vai na boa direção. Foi acolhido com satisfação no Ocidente, ainda que, no passado, a palavra da Coreia do Norte tenha sido tantas vezes quimérica, variável e esquecida que evitamos muito júbilo. Pelo menos o pior não sucedeu. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO