quarta-feira, fevereiro 08, 2012
Me dá um dinheiro aí - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 08/02/12
Todos os dias um figurão da União Europeia se põe a pressionar algum governo de país emergente para que canalize uma fatia de suas reservas para refinanciar o cordão dos endividados da área do euro.
Há meses, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, vem pleiteando, tanto entre emergentes como entre almas boas disponíveis, um reforço de pelo menos US$ 500 bilhões no seu orçamento destinado a operações de socorro financeiro. E, também há meses, autoridades europeias têm pedido especial generosidade dos governos emergentes no âmbito do Grupo dos Vinte (G-2o).
Na semana passada, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, desembarcou em Pequim, onde igualmente pediu que o governo da China se dispusesse a contribuir para o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) e para o Mecanismo Europeu de Estabilidade, que vai suceder-lhe.
E, ontem, em discurso pronunciado em Frankfurt, uma das autoridades do Banco Central Europeu, Benoit Coeuré, achou-se no dever de cobrar dos governos emergentes mais disposição para refinanciar países do euro. Para ele, as reservas externas dos emergentes (cerca de US$ 6,5 trilhões) são excessivas, ao menos como blindagem contra crises, e parte desse dinheiro parado deveria, segundo ele, ajudar a recuperação dos tesouros europeus.
Nessa cruzada, há pelo menos quatro equívocos. O primeiro deles é achar que as reservas externas dos emergentes sejam recursos parados. Eles não estão amontoados nos cofres-fortes dos bancos centrais. Foram emprestados a Tesouros nacionais, mais especialmente para o dos Estados Unidos. Nesse sentido, já atuam como instrumento de refinanciamento de um grande país endividado.
O segundo erro está em pedir empréstimos aos emergentes quando a maioria das economias da área do euro, em princípio, dispõe de recursos para isso e não quer adquirir diretamente os títulos emitidos pelos vizinhos endividados, nem fortalecer o EFSF nem canalizá-los para o FMI. Então, se nem eles próprios se interessam por cumprir a parte que lhes caberia, por que os emergentes teriam de fazê-lo no lugar deles.
O terceiro engano é pretender que essas operações dos emergentes sejam feitas sem contrapartida, apenas porque será uma honra irrecusável ajudar países em dificuldades na velha Europa. O governo brasileiro já se dispôs a canalizar parte das reservas para o FMI sob a condição de contar com mais peso decisório no seu corpo diretivo.
E, finalmente, não faz sentido cobrar engajamento financeiro dos emergentes se os dirigentes políticos do euro não se têm mostrado nem suficientemente rápidos nem suficientemente empenhados numa solução.
No mais, segue o afluxo de recursos internacionais para os emergentes, como ainda ontem mostrou o Financial Times, principal jornal de Economia e Finanças da Europa. E, mais ainda, vão afluir a partir de final do fevereiro, quando o BCE abrir novamente seus guichês para operações de crédito ilimitado de três anos para os bancos.
Mais privatizações no ar - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 08/02/12
Próximos aeroportos seriam Galeão, Confins e Salvador; mas ainda falta plano para o "novo modelo"
COMO SE previa pelas conversas de ontem nos corredores da privatização dos aeroportos, o governo, ou pelo menos parte dele, se animou tanto com o resultado do leilão que pretende vender ("conceder") mais aeroportos até 2014.
O plano seria o de adiantar a concessão do Galeão (Rio) e de Confins (perto de Belo Horizonte), já na lista de privatizações, e, novidade, colocar na mira o aeroporto de Salvador, porta de entrada do Nordeste.
O motivo não é, nem deveria ser, apenas pecuniário, embora o rendimento dos leilões tenha sido espantoso. Mesmo as propostas derrotadas vieram muito acima do sonhado pelo governo.
Em tese, ou na teoria, o objetivo da privatização é elevar a eficiência do transporte aéreo. Para tanto, em suma, é preciso haver mais voos por dia, para mais lugares, a preço melhor, com menos atrasos. Para alcançar tais objetivos, é preciso mais lugar nos aeroportos (pistas, terminais), mais aeroportos, mais rotas.
É fácil perceber que não é possível incrementar a eficiência do sistema melhorando apenas um, dois ou três aeroportos.
Parece quase piada, mas note-se que um avião precisa pousar e voltar a decolar dos aeroportos de destino: não pode despejar seus passageiros de paraquedas. Se o aeroporto de destino é ruim e/ou apertado, a coisa toda não anda.
No caso brasileiro, é preciso melhorar os corredores entre São Paulo e Rio e entre São Paulo e Nordeste -apenas para começo de conversa. Para continuar a conversa, é preciso incluir Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cuidar do turismo (e carga) em Manaus e em Foz do Iguaçu, por exemplo. É preciso melhorar alguns aeroportos regionais, em especial em São Paulo.
É preciso criar uma rede eficiente. Decerto, o problema não se limita à infraestrutura física. A capacidade de controle de voo precisa aumentar e melhorar, por exemplo.
Existe um programa completo de melhorias? Ainda não. Movido pelo medo de dar vexame na Copa, por falta de aeroportos, o governo mudou faz muito pouco tempo (no ano passado) toda a sua política de expansão do setor, que não previa privatizações. Nessa nova diretriz, o trabalho está apenas começando.
Há gente no governo, porém, mais ressabiada. Tanto no que diz respeito a privatizações em geral quanto a algumas concessões em particular, que não têm funcionado muito bem, caso de algumas ex-estradas federais.
Esses integrantes do governo gostariam de ver como vai funcionar a concessão em Guarulhos, Viracopos e Brasília antes de deslanchar mais concessões e dar com burros n"água.
Essa corrente não se opõe, em tese, a mais concessões. Mas prefere que o processo ande mais devagar. Observa, ainda, que o governo terá mais dinheiro em caixa para reformar aeroportos estatais.
As empresas concessionárias devem pagar, a partir do ano que vem, cerca de R$ 1,5 bilhão, o equivalente a uns três anos (recentes) de investimentos da Infraero, a estatal aeroportuária que será sócia minoritária das novas concessionárias de aeroportos.
Mas há planos para o uso desse dinheiro? O pessoal desconversa. Fica difícil saber, se não há prioridades definidas, agora que o "modelo" mudou; e/ou se o governo não vai guardar no caixa esse dinheiro.
Próximos aeroportos seriam Galeão, Confins e Salvador; mas ainda falta plano para o "novo modelo"
COMO SE previa pelas conversas de ontem nos corredores da privatização dos aeroportos, o governo, ou pelo menos parte dele, se animou tanto com o resultado do leilão que pretende vender ("conceder") mais aeroportos até 2014.
O plano seria o de adiantar a concessão do Galeão (Rio) e de Confins (perto de Belo Horizonte), já na lista de privatizações, e, novidade, colocar na mira o aeroporto de Salvador, porta de entrada do Nordeste.
O motivo não é, nem deveria ser, apenas pecuniário, embora o rendimento dos leilões tenha sido espantoso. Mesmo as propostas derrotadas vieram muito acima do sonhado pelo governo.
Em tese, ou na teoria, o objetivo da privatização é elevar a eficiência do transporte aéreo. Para tanto, em suma, é preciso haver mais voos por dia, para mais lugares, a preço melhor, com menos atrasos. Para alcançar tais objetivos, é preciso mais lugar nos aeroportos (pistas, terminais), mais aeroportos, mais rotas.
É fácil perceber que não é possível incrementar a eficiência do sistema melhorando apenas um, dois ou três aeroportos.
Parece quase piada, mas note-se que um avião precisa pousar e voltar a decolar dos aeroportos de destino: não pode despejar seus passageiros de paraquedas. Se o aeroporto de destino é ruim e/ou apertado, a coisa toda não anda.
No caso brasileiro, é preciso melhorar os corredores entre São Paulo e Rio e entre São Paulo e Nordeste -apenas para começo de conversa. Para continuar a conversa, é preciso incluir Minas Gerais e Rio Grande do Sul, cuidar do turismo (e carga) em Manaus e em Foz do Iguaçu, por exemplo. É preciso melhorar alguns aeroportos regionais, em especial em São Paulo.
É preciso criar uma rede eficiente. Decerto, o problema não se limita à infraestrutura física. A capacidade de controle de voo precisa aumentar e melhorar, por exemplo.
Existe um programa completo de melhorias? Ainda não. Movido pelo medo de dar vexame na Copa, por falta de aeroportos, o governo mudou faz muito pouco tempo (no ano passado) toda a sua política de expansão do setor, que não previa privatizações. Nessa nova diretriz, o trabalho está apenas começando.
Há gente no governo, porém, mais ressabiada. Tanto no que diz respeito a privatizações em geral quanto a algumas concessões em particular, que não têm funcionado muito bem, caso de algumas ex-estradas federais.
Esses integrantes do governo gostariam de ver como vai funcionar a concessão em Guarulhos, Viracopos e Brasília antes de deslanchar mais concessões e dar com burros n"água.
Essa corrente não se opõe, em tese, a mais concessões. Mas prefere que o processo ande mais devagar. Observa, ainda, que o governo terá mais dinheiro em caixa para reformar aeroportos estatais.
As empresas concessionárias devem pagar, a partir do ano que vem, cerca de R$ 1,5 bilhão, o equivalente a uns três anos (recentes) de investimentos da Infraero, a estatal aeroportuária que será sócia minoritária das novas concessionárias de aeroportos.
Mas há planos para o uso desse dinheiro? O pessoal desconversa. Fica difícil saber, se não há prioridades definidas, agora que o "modelo" mudou; e/ou se o governo não vai guardar no caixa esse dinheiro.
Confiamos em você - MARCELO COELHO
FOLHA DE SP - 08/02/12
Enquanto um produto reciclado custar mais do que o antiecológico, o meio ambiente vai sair perdendo
Pagar R$ 0,19 por um saquinho plástico biodegradável? A ideia foi mal recebida. Compreendo a revolta do consumidor.
Se os supermercados quisessem mesmo ser amigos da ecologia, poderiam oferecer de graça, durante algum tempo, sacolas permanentes aos fregueses.
Registrariam o brinde no seu cartão de fidelidade, e pronto, será responsabilidade sua se você o esquecer em casa da próxima vez.
Em todo caso, não fiquei especialmente chocado quando me pediram mais alguns centavos pelos tais saquinhos.
Em 1986, passei um tempo na Alemanha, e a prática já era essa por lá: uma moedinha de cobre, justo de 20 centavos, era cobrada por cada saco plástico que você levasse. Bem mais resistente, é verdade, que o equivalente brasileiro.
Não, o velho saquinho gratuito não deixa saudades. Quantas vezes não se rompeu, esparramando molho de tomate e xampu no chão do elevador? Uma fissura mínima naquela pele esbranquiçada se alargava em menos de um minuto; desventrava-se o conteúdo. Pior se o saco plástico estivesse carregando o lixo da cozinha.
Vale lembrar uma diferença com o sistema alemão. Da primeira vez em que fui ao mercado, agi como brasileiro, isto é, com inocência. Ainda assim a inocência me favorecia, o que também é comum com os brasileiros. Ou seja, não sabia que cobravam pelos saquinhos. Estavam espalhados, como aqui, no balcão, e peguei os de que precisava.
Ninguém reclamou. Ninguém me disse que era preciso pagar. O preço não vinha incluído no papelzinho do caixa.
Do mesmo modo, nos Estados Unidos, costuma-se pegar o jornal numa caixa de plástico e deixar o pagamento ali mesmo, sem ninguém para verificar se o consumidor é ladrão ou não é.
Na biblioteca do Instituto Goethe, onde eu fazia um curso, também não havia funcionário para ver que livro eu tinha retirado, e quando iria devolvê-lo. O professor, um jovem alemão politicamente correto, explicou o sistema para a classe heterogênea em que eu estava matriculado.
"Confiamos em vocês", disse para aquele grupo de turcos, gregos, paquistaneses, brasileiros, italianos e filipinos. "Peguem os livros que quiserem e devolvam depois de uma semana."
Ele não tinha lido, provavelmente, os últimos artigos sobre a essência canalha, animal, egoísta e cruel do ser humano. Naquela época não estavam tão em moda.
De qualquer maneira, o sistema dava certo; ou porque os mais desonestos não se interessavam pelos livros, ou porque a tão vilipendiada "natureza humana" costuma reagir bem quando é bem tratada.
Só depois de algumas semanas na Alemanha percebi que os saquinhos do supermercado custavam 20 centavos. Havia, de fato, um cartaz informando o preço. Já com boas disposições, por ter sido respeitado na biblioteca, paguei pelas sacolas alegremente.
Tirei da experiência, todavia, uma conclusão menos otimista. Na minha opinião, vale para todas as iniciativas em favor do meio ambiente.
Implico bastante, por exemplo, quando me pedem para economizar o papel da impressora. Florestas são derrubadas para fazer papel, logo devemos economizar...
Certo. Mas se devemos economizar papel, por que é tão barato?
Em última análise, a consciência de cada um pela preservação do meio ambiente pode ajudar muita coisa. Mas enquanto um produto reciclado custar mais do que o produto antiecológico, acho óbvio que o meio ambiente vai sair perdendo.
Cobrar pelos sacos plásticos não é absurdo desse ponto de vista. Claro que, em termos de relações públicas, tudo deu errado. O supermercado poderia oferecer desconto para quem trouxesse as próprias sacolas, por exemplo. Economicamente daria no mesmo.
Enquanto isso, basta ir a qualquer prateleira (detesto o termo "gôndola") para ver o enorme, o ultrajante desperdício de plástico na maioria dos produtos.
Veja-se o caso das lâminas de barbear descartáveis. O produto vem embutido numa grande e duríssima armadura de plástico: preciso de uma navalha para abrir. A razão é que, se a embalagem fosse menor, o consumidor, esse ladrão, enfiaria as lâminas no bolso e sairia sem pagar.
Um jogo cínico assim se estabelece. Nós, do supermercado, sabemos de sua boa vontade com a ecologia, mas sabemos também que você é um bandido em potencial. Temos, aliás, certeza disso: você é como nós. Com a diferença de que paga a conta.
Enquanto um produto reciclado custar mais do que o antiecológico, o meio ambiente vai sair perdendo
Pagar R$ 0,19 por um saquinho plástico biodegradável? A ideia foi mal recebida. Compreendo a revolta do consumidor.
Se os supermercados quisessem mesmo ser amigos da ecologia, poderiam oferecer de graça, durante algum tempo, sacolas permanentes aos fregueses.
Registrariam o brinde no seu cartão de fidelidade, e pronto, será responsabilidade sua se você o esquecer em casa da próxima vez.
Em todo caso, não fiquei especialmente chocado quando me pediram mais alguns centavos pelos tais saquinhos.
Em 1986, passei um tempo na Alemanha, e a prática já era essa por lá: uma moedinha de cobre, justo de 20 centavos, era cobrada por cada saco plástico que você levasse. Bem mais resistente, é verdade, que o equivalente brasileiro.
Não, o velho saquinho gratuito não deixa saudades. Quantas vezes não se rompeu, esparramando molho de tomate e xampu no chão do elevador? Uma fissura mínima naquela pele esbranquiçada se alargava em menos de um minuto; desventrava-se o conteúdo. Pior se o saco plástico estivesse carregando o lixo da cozinha.
Vale lembrar uma diferença com o sistema alemão. Da primeira vez em que fui ao mercado, agi como brasileiro, isto é, com inocência. Ainda assim a inocência me favorecia, o que também é comum com os brasileiros. Ou seja, não sabia que cobravam pelos saquinhos. Estavam espalhados, como aqui, no balcão, e peguei os de que precisava.
Ninguém reclamou. Ninguém me disse que era preciso pagar. O preço não vinha incluído no papelzinho do caixa.
Do mesmo modo, nos Estados Unidos, costuma-se pegar o jornal numa caixa de plástico e deixar o pagamento ali mesmo, sem ninguém para verificar se o consumidor é ladrão ou não é.
Na biblioteca do Instituto Goethe, onde eu fazia um curso, também não havia funcionário para ver que livro eu tinha retirado, e quando iria devolvê-lo. O professor, um jovem alemão politicamente correto, explicou o sistema para a classe heterogênea em que eu estava matriculado.
"Confiamos em vocês", disse para aquele grupo de turcos, gregos, paquistaneses, brasileiros, italianos e filipinos. "Peguem os livros que quiserem e devolvam depois de uma semana."
Ele não tinha lido, provavelmente, os últimos artigos sobre a essência canalha, animal, egoísta e cruel do ser humano. Naquela época não estavam tão em moda.
De qualquer maneira, o sistema dava certo; ou porque os mais desonestos não se interessavam pelos livros, ou porque a tão vilipendiada "natureza humana" costuma reagir bem quando é bem tratada.
Só depois de algumas semanas na Alemanha percebi que os saquinhos do supermercado custavam 20 centavos. Havia, de fato, um cartaz informando o preço. Já com boas disposições, por ter sido respeitado na biblioteca, paguei pelas sacolas alegremente.
Tirei da experiência, todavia, uma conclusão menos otimista. Na minha opinião, vale para todas as iniciativas em favor do meio ambiente.
Implico bastante, por exemplo, quando me pedem para economizar o papel da impressora. Florestas são derrubadas para fazer papel, logo devemos economizar...
Certo. Mas se devemos economizar papel, por que é tão barato?
Em última análise, a consciência de cada um pela preservação do meio ambiente pode ajudar muita coisa. Mas enquanto um produto reciclado custar mais do que o produto antiecológico, acho óbvio que o meio ambiente vai sair perdendo.
Cobrar pelos sacos plásticos não é absurdo desse ponto de vista. Claro que, em termos de relações públicas, tudo deu errado. O supermercado poderia oferecer desconto para quem trouxesse as próprias sacolas, por exemplo. Economicamente daria no mesmo.
Enquanto isso, basta ir a qualquer prateleira (detesto o termo "gôndola") para ver o enorme, o ultrajante desperdício de plástico na maioria dos produtos.
Veja-se o caso das lâminas de barbear descartáveis. O produto vem embutido numa grande e duríssima armadura de plástico: preciso de uma navalha para abrir. A razão é que, se a embalagem fosse menor, o consumidor, esse ladrão, enfiaria as lâminas no bolso e sairia sem pagar.
Um jogo cínico assim se estabelece. Nós, do supermercado, sabemos de sua boa vontade com a ecologia, mas sabemos também que você é um bandido em potencial. Temos, aliás, certeza disso: você é como nós. Com a diferença de que paga a conta.
Xadrez paulista - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 08/02/12
A incapacidade do PSDB de definir seus rumos, empacado eternamente na disputa entre suas principais lideranças, tem sido muito discutida nos últimos dias, tanto por seus próprios membros, o mais destacado deles, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, quanto pelos analistas petistas ou ligados ao partido por interesses variados.
A disputa pela Prefeitura de São Paulo é o reflexo da disputa nacional, que continua sendo entre o PT e o PSDB, em que pese o aparente favoritismo do candidato petista, Fernando Haddad, tendo à frente o ex-presidente Lula, e a explícita fragilidade dos tucanos, que, como sempre, ainda esperam que o ex-governador José Serra se decida a entrar no ringue.
Acontece que, para se decidir a disputar a prefeitura paulistana, Serra tem antes que se decidir a abrir mão do sonho da Presidência da República, convencendo-se de que, desta vez, o candidato óbvio, como disse Fernando Henrique, é o senador Aécio Neves.
Serra até o momento está convencido de que a política brasileira é muito volúvel e que o jogo não está ainda jogado.
O que está em causa em São Paulo é um estilo de fazer política. O PSDB, com este mandato de Alckmin, estará no comando do estado por no mínimo 20 anos, e, mesmo sem nomes de destaque nacional para apresentar para a prefeitura - que desde 2004 está em poder dos tucanos ou de aliados como Kassab -, valoriza a fama de boa gestão pública e preservação da ordem.
O apoio maciço que o governo do estado tem recebido pela sua ação na Cracolândia demonstra que a população leva em conta esses valores.
O PT tem tentado estressar as divergências criticando ações do governo paulista em Pinheirinho, onde uma retomada de posse de um terreno invadido, determinada pela Justiça, foi taxada de "barbaridade" pela própria presidente Dilma.
A luta pela hegemonia na política de São Paulo tem a ver, sobretudo, com a disputa de 2014, quando a base paulista do PSDB estará representada pela tentativa de reeleição do governador Alckmin contra os novos quadros que o PT apresenta no reduto principal do adversário.
Uma derrota de Haddad na eleição da prefeitura paulistana será uma derrota de Lula e seu esquema político, e uma vitória, o primeiro passo para tirar os tucanos do poder estadual.
Aloizio Mercadante, nomeado recentemente para o Ministério da Educação, estaria sendo preparado para disputar o governo paulista em 2014, que ele já perdeu para Serra em 2006.
Na prefeitura, Haddad daria o apoio da máquina petista à campanha de governador de Mercadante, e a influência de Lula em São Paulo ganharia força política, confirmando as pesquisas que indicam que hoje Lula tem mais prestígio entre os paulistas do que jamais teve.
O PSDB está convencido, e Serra também, de que a alta rejeição que aparece nas pesquisas se deve ao receio que o cidadão comum tem de que o tucano novamente deixe a prefeitura para tentar a Presidência da República, como fez em 2006 para disputar e ganhar o governo do estado.
Caso se decida afinal pela disputa, ele teria que apoiar o candidato tucano Aécio Neves à Presidência, para colocar um final nessa angustiante disputa.
Serra encerraria sua carreira política na Prefeitura de São Paulo, o terceiro maior orçamento do país, e teria prestígio político para influenciar um eventual governo de Aécio. É uma opção que Serra prefere a ter que encerrar a vida política como senador.
Ao mesmo tempo, teria o apoio do prefeito Gilberto Kassab, restabelecendo um acordo político por ele firmado na sua sucessão na prefeitura.
Kassab, no momento, negocia uma aproximação com o PT na tentativa de não virar um saco de pancadas eleitoral durante a campanha.
Seu PSD encontra espaço em qualquer aliança, mas ele considera que nenhum dos candidatos tucanos que disputarão as prévias tem densidade política suficiente para ser cabeça de chapa.
Uma de suas alternativas é oferecer o vice-governador Afif Domingos como candidato a prefeito, com o apoio do PSDB, que daria o vice.
Mesmo que não se resolva desta vez a disputa tucana, com Serra insistindo em pagar para ver, na verdade o ex-governador mineiro só não será o candidato do PSDB à Presidência da República se não quiser, ou se for abatido por algum torpedo vindo do submundo da política.
Nos últimos dias, cresceu a boataria, ouvida até aqui em Paris, em torno de uma possível tendência de Aécio de não concorrer à Presidência em 2014, retornando a seu estado na qualidade novamente de candidato a governador, para reorganizar suas forças e disputar em 2018.
O lançamento de sua irmã Andrea Neves como eventual candidata teria o objetivo de segurar o lugar até que se decida a anunciar seu retorno a Minas.
A especulação é de que o recuo ocorrerá caso a presidente Dilma continue mantendo sua popularidade, e a economia se mostre robusta apesar da crise econômica internacional, o que a colocaria como favorita na corrida presidencial.
Em 2018, o PT não teria nem Lula nem Dilma como candidatos, e a disputa poderia ser mais favorável ao PSDB. Mas aí entra o xadrez paulista.
O governador Geraldo Alckmin, se reeleito em 2014, seria um candidato tão forte quanto o governador de Minas em 2018, e o mesmo impasse estaria formado.
Contra essa especulação, há um fato concreto: nunca o PSDB esteve tão unido em torno de um candidato, e o senador Aécio Neves tem um mandato de oito anos, que lhe permitiria até mesmo se lançar candidato à Presidência apenas para ficar conhecido nacionalmente, retornando ao Senado em caso de derrota.
Má-fé em foco - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 08/02/12
Eis o que sente na carne, agora, o serviço jornalístico pela internet Congresso em Foco. Uma série de ações movidas por indissimulável má-fé busca cercear seu esforço de dar transparência ao que se passa nas entranhas do Legislativo.
Nada menos do que 43 ações individuais foram apresentadas por servidores do Senado contra o portal em juizados de pequenas causas. Pediam indenização de R$ 21,8 mil para cada funcionário litigante, sob a desculpa de que sua privacidade fora invadida pela publicação da lista de seus proventos.
Na realidade, a página Congresso em Foco deu divulgação, em agosto, a uma relação preparada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) com 464 nomes de funcionários que recebiam salários acima do teto constitucional (R$ 26,7 mil). A minoria que abriu os processos segue orientação do Sindilegis (Sindicato dos Servidores do Poder Legislativo Federal e do TCU).
As 43 ações são idênticas e foram propostas por uma só advogada, mas distribuídas para vários juízes. Os sete jornalistas do serviço tiveram de desdobrar-se para comparecer às 27 audiências realizadas desde 31 de janeiro.
É evidente a intenção de criar dificuldades práticas e financeiras para o portal. O Sindilegis e seus liderados reeditam a tática maliciosa empregada pela Igreja Universal do Reino de Deus -sem sucesso- contra a Folha e a jornalista Elvira Lobato, autora de reportagem que desagradou à sua cúpula.
Seis das 43 ações contra o Congresso em Foco foram encerradas, por ausência dos queixosos ou porque o juiz decidiu pela improcedência. É pouco provável que outros magistrados deem seguimento a uma manipulação tão impudente.
Não faz sentido o argumento dos servidores públicos de que a publicação -releve-se a redundância vocabular, por eloquente- de seus salários atente contra a privacidade. Mais: é óbvio o interesse público de dar a conhecer que recebem valores acima do teto legal.
Em 2009, o Supremo Tribunal Federal já decidiu que divulgar relações de vencimentos de servidores, como fez a Prefeitura de São Paulo, não apenas é legal como obedece ao princípio constitucional da publicidade de atos oficiais.
São fúteis as ações contra ele, como as dos funcionários do Senado. Cumpre aos juízes rechaçá-las.
CLAUDIO HUMBERTO
“Há um software pirata em execução no Brasil”
Senador Aécio Neves (PSDB-MG), acusando o governo de copiar projetos tucanos
INFRAERO BANCA METADE DA CONTA DA PRIVATIZAÇÃO
O modelo de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília vem sendo chamado ironicamente de “jabuticaba”, porque só existe no Brasil. O governo comemora os altos valores dos ágios vencedores do leilão, mas, passada a euforia inicial, verifica-se que, na prática, a Infraero vai bancar 49% dos R$ 24,5 bilhões a serem pagos pela venda dos seus próprios aeroportos aos consórcios vencedores. A Infraero vendeu apenas 51% dos aeroportos e mantém os demais 49%.
MÃO BOBA
No negócio de pai para filho com dinheiro alheio, do contribuinte, o BNDES financiará 80% dos investimentos prometidos nos aeroportos.
OREMOS
Se o grupo Invepar (OAS, Previ e Petros) administrar o aeroporto de Guarulhos como o faz no Metrô do Rio, teremos saudades da Infraero.
GOLPE DE MESTRE
Fica no Gabão o principal aeroporto do grupo francês Egis Avia, que, para o jornal Les Echos, arrematou Viracopos num “golpe de mestre”.
MAIS ORAÇÕES
A Corporación America administra 33 aeroportos na Argentina, cuja soma de fluxo de passageiros é inferior ao de Brasília, que comprou.
DF NIVELA POR BAIXO ELEIÇÃO PARA DIRETOR DE ESCOLA
Lei distrital que entrou em vigor ontem, no DF, modificou para pior o processo de eleição direta para diretor de escola pública. Pela nova lei, os candidatos estão dispensados de tirar nota maior que 7 em prova de conhecimentos em gestão escolar. E nem precisa ser professor: merendeira, vigilante ou servente de limpeza podem se candidatar. E o corporativismo prevaleceu: ficou reduzido o peso dos pais, a maioria.
GOLPE CORPORATIVISTA
Cada grupo de eleitores (pais, professores servidores) vale 33%. Como há mais pais que professores, as corporações garantiram hegemonia.
OURO OLÍMPICO
De leitor gaúcho: a troca de ministros de mesmo partido lembra prova de revezamento 4x100, passando o bastão em busca do ouro no final.
COISA DE DOIDO
Depois de proibir a boneca Barbie, os porra-loucas do Irã baniram os bonecos dos Simpsons. Mas acreditar em Papai Noel ainda pode.
CAMINHO LIVRE
O secretário-geral do PDT, Manoel Dias, deu o primeiro passo para se habilitar ao cargo de ministro do trabalho: mandou sua mulher Dalva desocupar a boquinha de diretora-executiva da Fundacentro, ligada ao Ministério. Ela mora em Florianópolis e o órgão fica em São Paulo.
ADMIRAÇÃO AMAZÔNICA
O governador do Amazonas, Omar Aziz, é um admirador confesso da capacidade de trabalho e da lealdade das ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Mirian Belchior (Planejamento) à presidenta Dilma.
CRISE DE IDENTIDADE
A cúpula do PR se reunirá nesta quarta em Brasília para discutir rumos. Apesar da pressão, até agora a sigla não foi chamada pelo Planalto para tratar da substituição do ministro Paulo Passos (Transportes).
AMEAÇA DE MOTIM NO DF
PMs do DF, cujo piso é R$ 5 mil mensais, fizeram carreata ameaçando motim, ontem. Não foram vistos o BMW ou o Camaro do PM João Dias, cujas denúncias derrubaram o ex-ministro do Esporte Orlando Silva.
EFEITO DOMINÓ
A reboque do motim na Bahia, policiais militares ameaçam entrar em greve em nove estados e a polícia civil já organiza uma paralisação nacional contra o “descaso” do governo com a segurança pública.
INSTANTE DE SABEDORIA
O jornalista Carlos Chagas lembrou ontem a reação Milton Campos, então governador de Minas, à sugestão de um auxiliar, numa greve de ferroviários, de mandar um trem blindado para enfrentar grevistas. “Não seria melhor mandar o trem pagador?”, indagou o sábio político.
ALINHADO
Presidente da Comissão de Turismo e Desporto, o deputado Jonas Donizete (PSB-MG) não vê qualquer problema em ser sucedido pelo correligionário Romário (RJ): “Ele agora está alinhado com a Fifa”.
DE OLHO
O PDT começou uma série de reuniões no em Brasília para tratar das eleições de 2014. Rompido com o governador Agnelo Queiroz (PT), o senador Cristovam Buarque trabalha para sair candidato ao governo.
PENSANDO BEM...
...O governo Dilma inaugurou o sistema de rodízio ministerial. Tremendo espeto.
PODER SEM PUDOR
SAI UMA BRAHMTÁRCTICA!
Lucídio Portella Nunes era governador do Piauí, em 1982, quando participou da inauguração de uma fábrica da Antarctica. Ele carregava a fama de mal falar o português, o que, aliás, nunca dificultou a eleição, nem mesmo a presidente. Lucídio saudou, em seu discurso:
– Agora temos uma fábrica da Antarctica para tomar Brahma a valer!
O que na época foi gafe, hoje certamente seria recebido como uma sacada inteligente pela Ambev, a empresa que atualmente produz as duas marcas.
Senador Aécio Neves (PSDB-MG), acusando o governo de copiar projetos tucanos
INFRAERO BANCA METADE DA CONTA DA PRIVATIZAÇÃO
O modelo de privatização dos aeroportos de Guarulhos, Viracopos e Brasília vem sendo chamado ironicamente de “jabuticaba”, porque só existe no Brasil. O governo comemora os altos valores dos ágios vencedores do leilão, mas, passada a euforia inicial, verifica-se que, na prática, a Infraero vai bancar 49% dos R$ 24,5 bilhões a serem pagos pela venda dos seus próprios aeroportos aos consórcios vencedores. A Infraero vendeu apenas 51% dos aeroportos e mantém os demais 49%.
MÃO BOBA
No negócio de pai para filho com dinheiro alheio, do contribuinte, o BNDES financiará 80% dos investimentos prometidos nos aeroportos.
OREMOS
Se o grupo Invepar (OAS, Previ e Petros) administrar o aeroporto de Guarulhos como o faz no Metrô do Rio, teremos saudades da Infraero.
GOLPE DE MESTRE
Fica no Gabão o principal aeroporto do grupo francês Egis Avia, que, para o jornal Les Echos, arrematou Viracopos num “golpe de mestre”.
MAIS ORAÇÕES
A Corporación America administra 33 aeroportos na Argentina, cuja soma de fluxo de passageiros é inferior ao de Brasília, que comprou.
DF NIVELA POR BAIXO ELEIÇÃO PARA DIRETOR DE ESCOLA
Lei distrital que entrou em vigor ontem, no DF, modificou para pior o processo de eleição direta para diretor de escola pública. Pela nova lei, os candidatos estão dispensados de tirar nota maior que 7 em prova de conhecimentos em gestão escolar. E nem precisa ser professor: merendeira, vigilante ou servente de limpeza podem se candidatar. E o corporativismo prevaleceu: ficou reduzido o peso dos pais, a maioria.
GOLPE CORPORATIVISTA
Cada grupo de eleitores (pais, professores servidores) vale 33%. Como há mais pais que professores, as corporações garantiram hegemonia.
OURO OLÍMPICO
De leitor gaúcho: a troca de ministros de mesmo partido lembra prova de revezamento 4x100, passando o bastão em busca do ouro no final.
COISA DE DOIDO
Depois de proibir a boneca Barbie, os porra-loucas do Irã baniram os bonecos dos Simpsons. Mas acreditar em Papai Noel ainda pode.
CAMINHO LIVRE
O secretário-geral do PDT, Manoel Dias, deu o primeiro passo para se habilitar ao cargo de ministro do trabalho: mandou sua mulher Dalva desocupar a boquinha de diretora-executiva da Fundacentro, ligada ao Ministério. Ela mora em Florianópolis e o órgão fica em São Paulo.
ADMIRAÇÃO AMAZÔNICA
O governador do Amazonas, Omar Aziz, é um admirador confesso da capacidade de trabalho e da lealdade das ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Mirian Belchior (Planejamento) à presidenta Dilma.
CRISE DE IDENTIDADE
A cúpula do PR se reunirá nesta quarta em Brasília para discutir rumos. Apesar da pressão, até agora a sigla não foi chamada pelo Planalto para tratar da substituição do ministro Paulo Passos (Transportes).
AMEAÇA DE MOTIM NO DF
PMs do DF, cujo piso é R$ 5 mil mensais, fizeram carreata ameaçando motim, ontem. Não foram vistos o BMW ou o Camaro do PM João Dias, cujas denúncias derrubaram o ex-ministro do Esporte Orlando Silva.
EFEITO DOMINÓ
A reboque do motim na Bahia, policiais militares ameaçam entrar em greve em nove estados e a polícia civil já organiza uma paralisação nacional contra o “descaso” do governo com a segurança pública.
INSTANTE DE SABEDORIA
O jornalista Carlos Chagas lembrou ontem a reação Milton Campos, então governador de Minas, à sugestão de um auxiliar, numa greve de ferroviários, de mandar um trem blindado para enfrentar grevistas. “Não seria melhor mandar o trem pagador?”, indagou o sábio político.
ALINHADO
Presidente da Comissão de Turismo e Desporto, o deputado Jonas Donizete (PSB-MG) não vê qualquer problema em ser sucedido pelo correligionário Romário (RJ): “Ele agora está alinhado com a Fifa”.
DE OLHO
O PDT começou uma série de reuniões no em Brasília para tratar das eleições de 2014. Rompido com o governador Agnelo Queiroz (PT), o senador Cristovam Buarque trabalha para sair candidato ao governo.
PENSANDO BEM...
...O governo Dilma inaugurou o sistema de rodízio ministerial. Tremendo espeto.
PODER SEM PUDOR
SAI UMA BRAHMTÁRCTICA!
Lucídio Portella Nunes era governador do Piauí, em 1982, quando participou da inauguração de uma fábrica da Antarctica. Ele carregava a fama de mal falar o português, o que, aliás, nunca dificultou a eleição, nem mesmo a presidente. Lucídio saudou, em seu discurso:
– Agora temos uma fábrica da Antarctica para tomar Brahma a valer!
O que na época foi gafe, hoje certamente seria recebido como uma sacada inteligente pela Ambev, a empresa que atualmente produz as duas marcas.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: País ainda tem 3,8 milhões de crianças fora da escola
- Folha: Governo teme que crise nas políciais chegue a 6 Estados
- Estadão: Negociação fracassa na BA e mortes passam de 120
- Correio: Cinco mil empregos à vista no aeroporto
- Valor: União fará mudança geral no sistema de aeroportos
- Estado de Minas: Enquadraram a folia
- Jornal do Commercio: Parceria pela segurança
- Zero Hora: A trincheira rebelde que assusta o Brasil
terça-feira, fevereiro 07, 2012
À mão armada - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 07/02/12
O governador da Bahia, Jaques Wagner, não é o primeiro nem será o último a enfrentar uma das piores situações a que pode ser submetida uma população: rebeliões de agentes responsáveis pela segurança do público.
Já aconteceu em Minas Gerais, no Ceará, em São Paulo, ameaça acontecer no Rio de Janeiro. Sem entrar no mérito dos antecedentes até por ausência de dados precisos sobre as circunstâncias de cada um deles, Wagner, contudo, depara-se com a peculiaridade de pertencer a um partido que há dez anos, quando oposição, apoiou o que com propriedade agora chama de "levante", na mesma Bahia hoje governada por ele.
Sejam greves ou movimentos de protesto, não podem ser vistos como fenômenos naturais da democracia por uma diferença essencial em relação a tantos outros. Trata-se de manifestantes armados no exercício da obstrução do direito fundamental de ir e vir (com vida) do cidadão que espera deles proteção. Por obrigação funcional.
Já o Estado, detentor do monopólio do uso legal da força, tem o dever de garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem.
Posição conservadora, de direita? Era o que dizia o PT quando longe das obrigações governamentais e o que ainda alega quando o problema não lhe atinge diretamente os calos.
Violência não tem ideologia, bem como agressões à legalidade são uma afronta ao Estado de Direito de qualquer ângulo ou sob quaisquer justificativas.
Reivindicações todos têm. Mas nem todos detêm o poder de recorrer ao terror como fizeram policiais baianos ao invadir ônibus, obrigar os passageiros a descer e tumultuar a cidade de Salvador na semana passada.
Movimentos grevistas aceitáveis não levam pânico à sociedade. De uma só vez não paralisam as aulas, não fecham o comércio, não provocam o cancelamento de shows, não afugentam turistas e, sobretudo, não provocam um aumento de 130% nos crimes de homicídio no período de seis dias.
Não ocupam uma assembleia legislativa, fazendo crianças e familiares de escudo, nem dão abrigo a gente com prisão decretada pela Justiça. Foragidos, pois.
O governador Jaques Wagner não tem se notabilizado pela eficiência da política de segurança pública. Os índices de criminalidade na Bahia cresceram na sua gestão.
Pode-se também criticá-lo por ter sido surpreendido com a magnitude do movimento e, além do mais, enquanto estava ausente em Cuba, vestido a caráter, em guayabera, trocando amabilidades com o regime Castro e já de agenda marcada para, na volta, visitar barracões de escolas de samba no Rio de Janeiro.
Mas não dá para lhe tirar a razão quando se recusa de antemão a anistiar os revoltosos e quando se refere como "bandidos" aos que, armados, disseminam o desvario tentando sobrepor suas vontades ao bem-estar da população.
O uso político-eleitoral do episódio é outro aspecto dos mais lamentáveis e inaceitáveis. Ah, o PT faz isso? Sempre que está ao seu alcance. Na greve baiana de 2001, Lula chegou a acusar o então governador César Borges (DEM) de incentivar o levante para jogar os policiais contra a população.
Não há mérito nessa lógica, também muito usada pelo PT, de que o erro quando coletivo adquire feição de acerto. O "todo mundo faz" é primo-irmão da falta de argumento, do desapreço ao discernimento, do menosprezo pela obediência à lei como fator de soberania democrática. Quem pega carona no discurso fácil de atacar o adversário apenas pelo fato de ser adversário, não raro diz besteira.
"Acusar" o governador de recorrer ao Exército para intimidar, se não reprimir, a materialização da transgressão inscreve-se entre uma das mais robustas.
Saber administrar o melhor desfecho, dentro dos parâmetros da lei, é da responsabilidade do governador. Critique-se se o fizer ao molde do abuso de poder.
Mas sem perder de vista de que lado está a legalidade: do governo eleito para, entre outras obrigações, impedir que a baderna se instaure e que grupos se apropriem de funções exclusivas do Estado; e da Justiça, cujas decisões quando não cumpridas configuram, aí sim, a barbárie.
O governador da Bahia, Jaques Wagner, não é o primeiro nem será o último a enfrentar uma das piores situações a que pode ser submetida uma população: rebeliões de agentes responsáveis pela segurança do público.
Já aconteceu em Minas Gerais, no Ceará, em São Paulo, ameaça acontecer no Rio de Janeiro. Sem entrar no mérito dos antecedentes até por ausência de dados precisos sobre as circunstâncias de cada um deles, Wagner, contudo, depara-se com a peculiaridade de pertencer a um partido que há dez anos, quando oposição, apoiou o que com propriedade agora chama de "levante", na mesma Bahia hoje governada por ele.
Sejam greves ou movimentos de protesto, não podem ser vistos como fenômenos naturais da democracia por uma diferença essencial em relação a tantos outros. Trata-se de manifestantes armados no exercício da obstrução do direito fundamental de ir e vir (com vida) do cidadão que espera deles proteção. Por obrigação funcional.
Já o Estado, detentor do monopólio do uso legal da força, tem o dever de garantir o cumprimento da lei e a manutenção da ordem.
Posição conservadora, de direita? Era o que dizia o PT quando longe das obrigações governamentais e o que ainda alega quando o problema não lhe atinge diretamente os calos.
Violência não tem ideologia, bem como agressões à legalidade são uma afronta ao Estado de Direito de qualquer ângulo ou sob quaisquer justificativas.
Reivindicações todos têm. Mas nem todos detêm o poder de recorrer ao terror como fizeram policiais baianos ao invadir ônibus, obrigar os passageiros a descer e tumultuar a cidade de Salvador na semana passada.
Movimentos grevistas aceitáveis não levam pânico à sociedade. De uma só vez não paralisam as aulas, não fecham o comércio, não provocam o cancelamento de shows, não afugentam turistas e, sobretudo, não provocam um aumento de 130% nos crimes de homicídio no período de seis dias.
Não ocupam uma assembleia legislativa, fazendo crianças e familiares de escudo, nem dão abrigo a gente com prisão decretada pela Justiça. Foragidos, pois.
O governador Jaques Wagner não tem se notabilizado pela eficiência da política de segurança pública. Os índices de criminalidade na Bahia cresceram na sua gestão.
Pode-se também criticá-lo por ter sido surpreendido com a magnitude do movimento e, além do mais, enquanto estava ausente em Cuba, vestido a caráter, em guayabera, trocando amabilidades com o regime Castro e já de agenda marcada para, na volta, visitar barracões de escolas de samba no Rio de Janeiro.
Mas não dá para lhe tirar a razão quando se recusa de antemão a anistiar os revoltosos e quando se refere como "bandidos" aos que, armados, disseminam o desvario tentando sobrepor suas vontades ao bem-estar da população.
O uso político-eleitoral do episódio é outro aspecto dos mais lamentáveis e inaceitáveis. Ah, o PT faz isso? Sempre que está ao seu alcance. Na greve baiana de 2001, Lula chegou a acusar o então governador César Borges (DEM) de incentivar o levante para jogar os policiais contra a população.
Não há mérito nessa lógica, também muito usada pelo PT, de que o erro quando coletivo adquire feição de acerto. O "todo mundo faz" é primo-irmão da falta de argumento, do desapreço ao discernimento, do menosprezo pela obediência à lei como fator de soberania democrática. Quem pega carona no discurso fácil de atacar o adversário apenas pelo fato de ser adversário, não raro diz besteira.
"Acusar" o governador de recorrer ao Exército para intimidar, se não reprimir, a materialização da transgressão inscreve-se entre uma das mais robustas.
Saber administrar o melhor desfecho, dentro dos parâmetros da lei, é da responsabilidade do governador. Critique-se se o fizer ao molde do abuso de poder.
Mas sem perder de vista de que lado está a legalidade: do governo eleito para, entre outras obrigações, impedir que a baderna se instaure e que grupos se apropriem de funções exclusivas do Estado; e da Justiça, cujas decisões quando não cumpridas configuram, aí sim, a barbárie.
Domado - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 07/02/12
A presidente Dilma e o vice Michel Temer conversaram sobre o líder do PMDB na Câmara, Henrique Alves (RN). Ela estava intrigada com seu comportamento, pois ele pretende presidir a Câmara nos dois últimos anos de seu mandato. Temer assumiu a tarefa de enquadrar Alves e pedir moderação. Ontem, um ministro comentou que a ação surtiu efeito: "Ele está se empenhando. Isso é notório nestes últimos quatro ou cinco dias."
Fratura exposta
A principal preocupação política do Planalto neste início dos trabalhos do Congresso é evitar a convocação do ministro Guido Mantega (Fazenda) para dar explicações sobre denúncias de corrupção que derrubaram o ex-presidente da Casa da Moeda Luiz Felipe Denucci. O temor é que um mau desempenho de Mantega em eventual depoimento afete os mercados. Apesar de a presidente Dilma ter mandado o ministro dar explicações sobre o caso, a avaliação no governo é que ele foi inábil na entrevista coletiva, concedida semana passada, ao tensionar ainda mais a relação com o PTB, que faz parte da base aliada.
"Emplacamos três ministros” — Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara (RN), fazendo piada ontem, ao lado do líder no Senado, Renan Calheiros (AL), vindo do andar, no Planalto, onde fica o gabinete da presidente Dilma
BANDEIRA BRANCA. Em visita do presidente nacional do PT, Rui Falcão, a Mato Grosso do Sul, no sábado, o ex-governador Zeca do PT declarou que vai apoiar o senador Delcídio Amaral (PT-MS) para o governo do estado, em 2014. Os dois eram desafetos. Zeca do PT também defendeu uma aliança com o atual governador, André Pucinelli (PMDB). Delcídio é visto como um estranho no ninho no PT por já ter sido filiado ao PSDB. Ele também desagradou a petistas ao presidir a CPI dos Correios.
Menos PT
A exemplo da pasta de Ciência e Tecnologia, a futura ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, também não é petista. Depois de sair da cadeia, na ditadura, em 1974, ela trocou a militância partidária pelo movimento feminista.
Timing
Apesar de querer deixar o governo para disputar a prefeitura de Vitória, Iriny Lopes pretendia ficar no cargo até 8 de março, Dia da Mulher. Ela sai em meio aos preparativos das comemorações oficiais, cujo tema seria sustentabilidade.
Depois da querela, a cooperação
Os palácios do Planalto e dos Bandeirantes estão decididos a trabalhar juntos no caso de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). O governo federal está satisfeito com a decisão do governador Geraldo Alckmin de construir 5 mil casas. Por sua vez, o Ministério das Cidades e a Caixa procuram áreas públicas, como as pertencentes à Rede Ferroviária Federal, para reassentar os desalojados. O Planalto quer usar dívidas com a União para reassentar algumas famílias em Pinheirinho.
Vetado
Pressão do PT contra a eventual nomeação do deputado Vieira da Cunha (PDT-RS) para o Ministério do Trabalho. Não o perdoam por ter relatado a CPI da Segurança Pública, que atingiu a gestão do governador Olívio Dutra (RS).
Niterói
O secretário estadual Rodrigo Neves elegeu 45% dos delegados que vão escolher o candidato do PT à prefeitura de Niterói. O deputado federal Chico D´Angelo fez 30%. Já o ex-vereador Romério Duarte vai decidir. Ele fez 25% dos delegados.
NA CHUVA. A presidente Dilma não demonstra estar disposta a trocar o ministro Paulo Sérgio Passos (Transportes) para agradar ao PR.
O GOVERNO da Rússia enviou carta ao Planalto oferecendo financiamento de 85% do valor dos caças Sukhoy se forem adquiridos para reequipar a FAB.
EMBAIXADORA. A presidente da CNA e senadora Kátia Abreu (PSD-TO) fala, quinta-feira, para um grupo de alunos e professores da Universidade de Harvard sobre "Cenários de crescimento da agropecuária brasileira: produção e sustentabilidade".
Fratura exposta
A principal preocupação política do Planalto neste início dos trabalhos do Congresso é evitar a convocação do ministro Guido Mantega (Fazenda) para dar explicações sobre denúncias de corrupção que derrubaram o ex-presidente da Casa da Moeda Luiz Felipe Denucci. O temor é que um mau desempenho de Mantega em eventual depoimento afete os mercados. Apesar de a presidente Dilma ter mandado o ministro dar explicações sobre o caso, a avaliação no governo é que ele foi inábil na entrevista coletiva, concedida semana passada, ao tensionar ainda mais a relação com o PTB, que faz parte da base aliada.
"Emplacamos três ministros” — Henrique Alves, líder do PMDB na Câmara (RN), fazendo piada ontem, ao lado do líder no Senado, Renan Calheiros (AL), vindo do andar, no Planalto, onde fica o gabinete da presidente Dilma
BANDEIRA BRANCA. Em visita do presidente nacional do PT, Rui Falcão, a Mato Grosso do Sul, no sábado, o ex-governador Zeca do PT declarou que vai apoiar o senador Delcídio Amaral (PT-MS) para o governo do estado, em 2014. Os dois eram desafetos. Zeca do PT também defendeu uma aliança com o atual governador, André Pucinelli (PMDB). Delcídio é visto como um estranho no ninho no PT por já ter sido filiado ao PSDB. Ele também desagradou a petistas ao presidir a CPI dos Correios.
Menos PT
A exemplo da pasta de Ciência e Tecnologia, a futura ministra das Mulheres, Eleonora Menicucci, também não é petista. Depois de sair da cadeia, na ditadura, em 1974, ela trocou a militância partidária pelo movimento feminista.
Timing
Apesar de querer deixar o governo para disputar a prefeitura de Vitória, Iriny Lopes pretendia ficar no cargo até 8 de março, Dia da Mulher. Ela sai em meio aos preparativos das comemorações oficiais, cujo tema seria sustentabilidade.
Depois da querela, a cooperação
Os palácios do Planalto e dos Bandeirantes estão decididos a trabalhar juntos no caso de Pinheirinho, em São José dos Campos (SP). O governo federal está satisfeito com a decisão do governador Geraldo Alckmin de construir 5 mil casas. Por sua vez, o Ministério das Cidades e a Caixa procuram áreas públicas, como as pertencentes à Rede Ferroviária Federal, para reassentar os desalojados. O Planalto quer usar dívidas com a União para reassentar algumas famílias em Pinheirinho.
Vetado
Pressão do PT contra a eventual nomeação do deputado Vieira da Cunha (PDT-RS) para o Ministério do Trabalho. Não o perdoam por ter relatado a CPI da Segurança Pública, que atingiu a gestão do governador Olívio Dutra (RS).
Niterói
O secretário estadual Rodrigo Neves elegeu 45% dos delegados que vão escolher o candidato do PT à prefeitura de Niterói. O deputado federal Chico D´Angelo fez 30%. Já o ex-vereador Romério Duarte vai decidir. Ele fez 25% dos delegados.
NA CHUVA. A presidente Dilma não demonstra estar disposta a trocar o ministro Paulo Sérgio Passos (Transportes) para agradar ao PR.
O GOVERNO da Rússia enviou carta ao Planalto oferecendo financiamento de 85% do valor dos caças Sukhoy se forem adquiridos para reequipar a FAB.
EMBAIXADORA. A presidente da CNA e senadora Kátia Abreu (PSD-TO) fala, quinta-feira, para um grupo de alunos e professores da Universidade de Harvard sobre "Cenários de crescimento da agropecuária brasileira: produção e sustentabilidade".
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 07/02/12
Medida terá pouco impacto nas vendas, diz setor de material de construção
A nova linha de financiamento do governo federal para a compra de material de construção não será suficiente para melhorar as vendas, segundo empresas do setor.
A intenção de compra do consumidor continua mais baixa que a registrada há 12 meses, segundo estudo do Programa de Administração do Varejo e da Fundação Instituto de Administração.
"Esperamos que 2012 seja semelhante ou pouco melhor que o ano passado. Há muitos imóveis para serem entregues, então não haverá retração", diz o diretor-geral da C&C, Jorge Gonçalves Filho.
As vendas de 2011 foram 4,5% melhores que as do ano anterior, segundo a Anamaco (associação nacional dos comerciantes do setor).
O novo financiamento, que terá recursos do FGTS e sairá ainda neste mês, prevê juros de 12% ao ano e 120 meses para pagar.
Para o copresidente da Dicico, Jorge Letra, o governo poderia ter adotado uma medida mais eficiente. "O crédito não fará diferença. Não devemos ter resultados superiores aos de 2011."
A expectativa do setor é que as vendas melhorem a partir de março. "Está chovendo muito nos últimos meses. Quando parar, muita coisa terá de ser reconstruída no país", explica o presidente da Anamaco, Cláudio Conz.
A Telhanorte espera pequena desaceleração em 2012, mas prevê que a medida aumente a confiança de empresas e do consumidor.
"Não devemos ter retração em 2012 devido aos lançamentos que já estavam previstos desde o ano passado"
JORGE GONÇALVES FILHO
diretor-geral da C&C
"Em vez de crédito, o consumidor deveria poder antecipar seu FGTS para reformar, e não apenas para comprar a casa própria"
JORGE LETRA
copresidente da Dicico
Regulação decisiva
A regulação é o fator que mais influencia o trabalho dos executivos do setor financeiro, segundo a Accenture.
Mais da metade (53%) dos 536 entrevistados classificaram essa característica como sendo de "alto impacto".
Em seguida aparece a permanente volatilidade dos mercados, com 46%.
Para minimizar o problema da volatilidade, 67% dos executivos concentram seus esforços no gerenciamento de custos. Outras soluções indicadas são a administração dos riscos e o planejamento do fluxo do caixa.
Orçamento para gestão
Apenas 2% do faturamento das empresas é destinado ao aperfeiçoamento da gestão, segundo pesquisa da Fundação Nacional da Qualidade, entidade privada que reúne empresas como Braskem, Bradesco e Gerdau, entre outras.
O percentual, porém, é considerado suficiente pelo superintendente-geral da fundação, Jairo Martins.
"Entre 2% e 5% é razoável. As empresas já sabem que investir em gestão reduz custos."
Das 309 empresas ouvidas, 46% acreditam que o setor automobilístico é o que mais se preocupa com gestão.
Fundo Estocado
O volume de cotas de fundos abertos e fechados chegou a R$ 931,9 bilhões em janeiro na Cetip (depositária de títulos privados de renda fixa).
O valor é 20% superior ao registrado no mesmo período de 2011, quando o total era de R$ 772,4 bilhões.
A maior parte do estoque atual é formada por cotas de fundos abertos -R$ 859,9 bilhões contra R$ 55,3 bilhões de fundos fechados.
Idiomas A Fisk inaugura nesta semana sua primeira unidade na Flórida -a sexta nos Estados Unidos. Até o final do semestre, a empresa abrirá sua primeira franquia no Chile. A Cultura Inglesa, por sua vez, terá mais duas unidades próprias em SP neste ano.
com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ
Medida terá pouco impacto nas vendas, diz setor de material de construção
A nova linha de financiamento do governo federal para a compra de material de construção não será suficiente para melhorar as vendas, segundo empresas do setor.
A intenção de compra do consumidor continua mais baixa que a registrada há 12 meses, segundo estudo do Programa de Administração do Varejo e da Fundação Instituto de Administração.
"Esperamos que 2012 seja semelhante ou pouco melhor que o ano passado. Há muitos imóveis para serem entregues, então não haverá retração", diz o diretor-geral da C&C, Jorge Gonçalves Filho.
As vendas de 2011 foram 4,5% melhores que as do ano anterior, segundo a Anamaco (associação nacional dos comerciantes do setor).
O novo financiamento, que terá recursos do FGTS e sairá ainda neste mês, prevê juros de 12% ao ano e 120 meses para pagar.
Para o copresidente da Dicico, Jorge Letra, o governo poderia ter adotado uma medida mais eficiente. "O crédito não fará diferença. Não devemos ter resultados superiores aos de 2011."
A expectativa do setor é que as vendas melhorem a partir de março. "Está chovendo muito nos últimos meses. Quando parar, muita coisa terá de ser reconstruída no país", explica o presidente da Anamaco, Cláudio Conz.
A Telhanorte espera pequena desaceleração em 2012, mas prevê que a medida aumente a confiança de empresas e do consumidor.
"Não devemos ter retração em 2012 devido aos lançamentos que já estavam previstos desde o ano passado"
JORGE GONÇALVES FILHO
diretor-geral da C&C
"Em vez de crédito, o consumidor deveria poder antecipar seu FGTS para reformar, e não apenas para comprar a casa própria"
JORGE LETRA
copresidente da Dicico
Regulação decisiva
A regulação é o fator que mais influencia o trabalho dos executivos do setor financeiro, segundo a Accenture.
Mais da metade (53%) dos 536 entrevistados classificaram essa característica como sendo de "alto impacto".
Em seguida aparece a permanente volatilidade dos mercados, com 46%.
Para minimizar o problema da volatilidade, 67% dos executivos concentram seus esforços no gerenciamento de custos. Outras soluções indicadas são a administração dos riscos e o planejamento do fluxo do caixa.
Orçamento para gestão
Apenas 2% do faturamento das empresas é destinado ao aperfeiçoamento da gestão, segundo pesquisa da Fundação Nacional da Qualidade, entidade privada que reúne empresas como Braskem, Bradesco e Gerdau, entre outras.
O percentual, porém, é considerado suficiente pelo superintendente-geral da fundação, Jairo Martins.
"Entre 2% e 5% é razoável. As empresas já sabem que investir em gestão reduz custos."
Das 309 empresas ouvidas, 46% acreditam que o setor automobilístico é o que mais se preocupa com gestão.
Fundo Estocado
O volume de cotas de fundos abertos e fechados chegou a R$ 931,9 bilhões em janeiro na Cetip (depositária de títulos privados de renda fixa).
O valor é 20% superior ao registrado no mesmo período de 2011, quando o total era de R$ 772,4 bilhões.
A maior parte do estoque atual é formada por cotas de fundos abertos -R$ 859,9 bilhões contra R$ 55,3 bilhões de fundos fechados.
Idiomas A Fisk inaugura nesta semana sua primeira unidade na Flórida -a sexta nos Estados Unidos. Até o final do semestre, a empresa abrirá sua primeira franquia no Chile. A Cultura Inglesa, por sua vez, terá mais duas unidades próprias em SP neste ano.
com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ
Saída "made in USA" - JOSÉ PAULO KUPFER
O ESTADÃO - 07/02/12
Sinais interessantes têm chegado da economia americana. Números da criação líquida de postos de trabalho, nos Estados Unidos, registram taxas positivas, mês após mês, sobretudo desde o último trimestre de 2011, sempre acima das expectativas dos analistas. As estatísticas de janeiro surpreenderam ainda mais.
Depois de revisado, o total líquido de vagas abertas evoluiu de 157 mil, em novembro, e 203 mil, em dezembro, para 243 mil, em janeiro de 2012. A criação de novos empregos refletiu na taxa de desemprego. Ela vem caindo também mês a mês. Em janeiro, desceu a 8,3%, o menor índice em três anos.
Há consenso de que o quadro do emprego pinta melhor, mas não se pode tomá-lo sem ressalvas. Primeiro, porque o desalento no mercado de trabalho ainda é elevado - muitos desistiram, pelo menos temporariamente, de procurar emprego - e as taxas de desemprego mais suaves se devem, em boa medida, à redução da população ativa. Depois, porque a recuperação é lenta e está longe de compensar as perdas ocorridas depois da eclosão da crise. No ritmo atual, a reposição dos estimados 10 milhões de vagas perdidas levaria perto de sete anos.
Gatos escaldados com a ameaça não concretizada de retomada em fins de 2010, os analistas estão tendendo a refrear o otimismo diante dos indicadores melhores. Mas o fato é que a atividade econômica, principalmente na indústria e em segmentos dos serviços, como turismo e entretenimento, está revelando vigor antes inexistente. O valor médio das horas trabalhadas na indústria, por exemplo, alcançou em janeiro o nível mais alto em seis anos.
São muitos, obviamente, os riscos de que a tendência positiva agora vislumbrada em cores mais nítidas venha a não se confirmar. Um recrudescimento da crise na Europa e estouros descontrolados das bolhas acumuladas na economia chinesa, possibilidades que não podem ser descartadas, com suas previsíveis repercussões negativas nas economias emergentes, tenderiam a quebrar o ritmo da recuperação esboçada nos Estados Unidos.
De todo modo, mesmo com essas sombras no horizonte, pode valer a pena tentar investigar as razões da incipiente, talvez frágil, certamente insuficiente, mas visível retomada econômica americana. A receita da saída "made in USA" da crise é clássica e se apoia em duas pernas. Uma delas é o afrouxamento monetário, usado para sustentar o setor financeiro, mas também para reduzir os custos de produzir e, mais do que tudo, desvalorizar o dólar e, assim, impulsionar exportações. A outra é uma política fiscal se não expansionista, pelo menos não contracionista.
O déficit do governo, no ano fiscal de 2011, que se encerrou em 30 de setembro do ano passado, subiu ligeiramente em relação a 2010, para US$ 1,3 trilhão, mantendo-se nas vizinhanças de 9% do PIB. É menos do que o pico de 10% do PIB registrado em 2009 - o mais elevado desde 1945 -, mas ainda assim muitíssimo alto e um verdadeiro Himalaia diante das pretensões das lideranças da zona do euro de limitar os déficits dos Tesouros de seus países a 0,5% do PIB.
Cabe, porém, ao esforço exportador a parcela mais expressiva da fórmula americana da retomada. Há exatamente dois anos, no discurso sobre o estado da União, o presidente Barack Obama espantou os analistas com o lançamento do desafio de dobrar o volume das exportações em cinco anos, levando-as, em 2015, a superar US$ 3 trilhões. A maior surpresa dessa história é que está funcionando. No ano passado, as exportações cresceram 16% e superaram US$ 2 trilhões. Mantido o ritmo, a meta será atingida com folga.
Ainda que a taxa média de incremento das exportações fique em 8% - metade da verificada em 2011 -, como analistas consideram mais realista, diante da possibilidade de menor crescimento dos emergentes e de contração no mercado internacional, especialmente no segmento das commodities, ocorreria um aumento de 60% no volume exportado pelos Estados Unidos. Isso seria suficiente para suportar mais de 15 milhões de postos de trabalho.
Não é só o dólar desvalorizado que anda operando o "milagre". A taxa de câmbio mais favorável tem sido turbinada por estímulos à produção - que, por sinal, estão promovendo aumentos de produtividade - e, acima de tudo, por ações agressivas de Washington no comércio exterior. De um lado, o governo não alivia as pressões para a valorização da moeda chinesa e, de outro, não descansa na negociação de acordos comerciais com países e blocos.
Sinais interessantes têm chegado da economia americana. Números da criação líquida de postos de trabalho, nos Estados Unidos, registram taxas positivas, mês após mês, sobretudo desde o último trimestre de 2011, sempre acima das expectativas dos analistas. As estatísticas de janeiro surpreenderam ainda mais.
Depois de revisado, o total líquido de vagas abertas evoluiu de 157 mil, em novembro, e 203 mil, em dezembro, para 243 mil, em janeiro de 2012. A criação de novos empregos refletiu na taxa de desemprego. Ela vem caindo também mês a mês. Em janeiro, desceu a 8,3%, o menor índice em três anos.
Há consenso de que o quadro do emprego pinta melhor, mas não se pode tomá-lo sem ressalvas. Primeiro, porque o desalento no mercado de trabalho ainda é elevado - muitos desistiram, pelo menos temporariamente, de procurar emprego - e as taxas de desemprego mais suaves se devem, em boa medida, à redução da população ativa. Depois, porque a recuperação é lenta e está longe de compensar as perdas ocorridas depois da eclosão da crise. No ritmo atual, a reposição dos estimados 10 milhões de vagas perdidas levaria perto de sete anos.
Gatos escaldados com a ameaça não concretizada de retomada em fins de 2010, os analistas estão tendendo a refrear o otimismo diante dos indicadores melhores. Mas o fato é que a atividade econômica, principalmente na indústria e em segmentos dos serviços, como turismo e entretenimento, está revelando vigor antes inexistente. O valor médio das horas trabalhadas na indústria, por exemplo, alcançou em janeiro o nível mais alto em seis anos.
São muitos, obviamente, os riscos de que a tendência positiva agora vislumbrada em cores mais nítidas venha a não se confirmar. Um recrudescimento da crise na Europa e estouros descontrolados das bolhas acumuladas na economia chinesa, possibilidades que não podem ser descartadas, com suas previsíveis repercussões negativas nas economias emergentes, tenderiam a quebrar o ritmo da recuperação esboçada nos Estados Unidos.
De todo modo, mesmo com essas sombras no horizonte, pode valer a pena tentar investigar as razões da incipiente, talvez frágil, certamente insuficiente, mas visível retomada econômica americana. A receita da saída "made in USA" da crise é clássica e se apoia em duas pernas. Uma delas é o afrouxamento monetário, usado para sustentar o setor financeiro, mas também para reduzir os custos de produzir e, mais do que tudo, desvalorizar o dólar e, assim, impulsionar exportações. A outra é uma política fiscal se não expansionista, pelo menos não contracionista.
O déficit do governo, no ano fiscal de 2011, que se encerrou em 30 de setembro do ano passado, subiu ligeiramente em relação a 2010, para US$ 1,3 trilhão, mantendo-se nas vizinhanças de 9% do PIB. É menos do que o pico de 10% do PIB registrado em 2009 - o mais elevado desde 1945 -, mas ainda assim muitíssimo alto e um verdadeiro Himalaia diante das pretensões das lideranças da zona do euro de limitar os déficits dos Tesouros de seus países a 0,5% do PIB.
Cabe, porém, ao esforço exportador a parcela mais expressiva da fórmula americana da retomada. Há exatamente dois anos, no discurso sobre o estado da União, o presidente Barack Obama espantou os analistas com o lançamento do desafio de dobrar o volume das exportações em cinco anos, levando-as, em 2015, a superar US$ 3 trilhões. A maior surpresa dessa história é que está funcionando. No ano passado, as exportações cresceram 16% e superaram US$ 2 trilhões. Mantido o ritmo, a meta será atingida com folga.
Ainda que a taxa média de incremento das exportações fique em 8% - metade da verificada em 2011 -, como analistas consideram mais realista, diante da possibilidade de menor crescimento dos emergentes e de contração no mercado internacional, especialmente no segmento das commodities, ocorreria um aumento de 60% no volume exportado pelos Estados Unidos. Isso seria suficiente para suportar mais de 15 milhões de postos de trabalho.
Não é só o dólar desvalorizado que anda operando o "milagre". A taxa de câmbio mais favorável tem sido turbinada por estímulos à produção - que, por sinal, estão promovendo aumentos de produtividade - e, acima de tudo, por ações agressivas de Washington no comércio exterior. De um lado, o governo não alivia as pressões para a valorização da moeda chinesa e, de outro, não descansa na negociação de acordos comerciais com países e blocos.
O prazer da contradição - HÉLIO SCHWARTSMAN
FOLHA DE SP - 07/02/12
Em 2001, membros da corporação deflagraram uma paralisação, que também degenerou em violência. Na ocasião, o PT, por intermédio de Lula, defendeu a legitimidade da greve e responsabilizou o governo baiano, que era do PFL, pela barbárie. Hoje, o governador petista Jaques Wagner chama alguns dos grevistas de bandidos e se recusa a negociar. Denuncia a utilização política do movimento.
Ainda mais instrutivo é ver como os blogs de simpatizantes e antipatizantes do PT tratam a disputa, que ainda ganha pitadas do caso Pinheirinho.
A pergunta que fica é: as pessoas não se dão conta de suas contradições? E a resposta é "muito pouco".
O psicólogo Drew Westen mostrou que, na política, emoções falam mais alto que a lógica. Ele monitorou os cérebros de militantes partidários enquanto viam seus candidatos favoritos caindo em contradição. Como previsto, eles não tiveram dificuldade para perceber a incongruência do "inimigo", mas foram bem menos críticos em relação ao "aliado".
Segundo Westen, quando confrontados com informações ameaçadoras às nossas convicções políticas, redes de neurônios associadas ao estresse são ativadas. O cérebro percebe o conflito e tenta desligar a emoção negativa. Circuitos encarregados de regular emoções recrutam, então, crenças capazes de eliminar o estresse. A contradição é apenas fracamente percebida.
A surpresa foi constatar que esse processo de relativização não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara sensações positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose. Em suma, políticos e simpatizantes sentem prazer ao ignorar suas contradições.
Guerra civil na Bahia - CLÁUDIO GONÇALVES COUTO
VALOR ECONÔMICO - 07/02/12
A debilidade é evidenciada por um dado tétrico: o volume de homicídios na Região Metropolitana de Salvador atingiu a casa da centena em uma semana de greve. Por si só tal cifra já seria aterradora, pois corresponde ao dobro do registrado na semana precedente - cinquenta e duas mortes, um número altíssimo. Mas há algo pior, notado pelo governador do Estado, Jaques Wagner. Em entrevista à Folha de S. Paulo de ontem, ele acusa policiais militares de, utilizando armas, ameaçarem passageiros de ônibus, bloquearem vias de trânsito e, o mais terrível, assassinarem moradores de rua (algo que o governador admite ser, por enquanto, uma suspeita). Se tais ações são por si só lastimáveis, simplesmente por já terem acontecido, elas embutem algo ainda mais preocupante em relação ao futuro: serão os policiais perpetradores dessa barbárie os responsáveis por zelar pela segurança dos cidadãos e pela preservação da lei e da ordem após o final da greve. Dá para confiar? Como cantou Chico Buarque, "chame o ladrão!".
Greve dos PMs baianos revela instituições frágeis
Por um lado, o evento evidencia um problema institucional das polícias país afora, que repetidamente emerge: uma cultura de truculência e banalização de ações ilegais. Quando tal modo de agir se dirige a criminosos ordinários, justiçados ao arrepio do direito, alguns segmentos da sociedade brasileira - em particular da mídia e da classe política - dão de ombros ou até mesmo aplaudem. "Menos um", diriam certos cronistas midiáticos da violência cotidiana, apelando ao atavismo dos espectadores. Vez por outra, contudo, essa mesmíssima truculência, corriqueiramente empregada contra bandidos, dirige-se a cidadãos comuns, que ou não cometeram crime algum, ou apenas ultrapassaram a fronteira jurídica dos microdelitos.
Quando os vilipendiados habitam periferias das grandes cidades, quase nada vira notícia, pois os atingidos não dispõem nem de status social, nem de conexões que lhes permitam vocalizar seus reclamos e denunciar a violência sofrida. Já quando a truculência atinge os que dispõem de status e poder político ou econômico, há repercussão - o caso das ações desastradas da PM paulista na USP não nos deixam mentir. Para justificar tais deslizes, os porta-vozes da polícia costumam dizer que não se trata de um problema da corporação, mas de um ato individualizado de homens que não honram a farda. Nada mais enganoso, pois o caráter reiterado das transgressões (das quais é preciso escusar-se apenas quando se tornam públicas) revela que a honra corporativa passa, em boa medida, por ações de violência e demonstrações de força incompatíveis com a ordem legal vigente em qualquer Estado democrático de direito.
Os eventos na Bahia explicitam que o hábito de lançar mão da violência de acordo com seu próprio arbítrio pode, em circunstâncias particulares, levar ao flerte com a guerra civil. Senão, como classificar uma situação em que homens armados tomam de assalto um parlamento, promovem o terror contra cidadãos comuns e assassinam indivíduos vulneráveis para coagir o poder constituído a fazer-lhes concessões? Tanto mais grave por se tratarem justamente de "homens da lei".
Por outro lado, é forçoso reconhecer que os PMs baianos têm uma causa justa. Assim como os professores de escolas públicas, policiais recebem salários aviltantes. Todavia, se no caso dos professores uma política nacional voltada a garantir-lhes um piso nacional mínimo foi implantada e deu início a um lentíssimo processo de recuperação da dignidade e das condições de trabalho da categoria, o mesmo não aconteceu com os policiais. O governador da Bahia tem razão quando observa que o movimento mira na PEC-300, que visa justamente conferir a policiais uma remuneração nacional mínima. E não seria o caso, então, de buscar uma solução para o pleito? Certamente isto não deve ocorrer como fruto de uma chantagem de criminosos fardados, que colocam uma faca no pescoço do governo com seu motim. A razão legítima é que dificilmente qualquer política de segurança prosperará no país sem que salários condignos sejam pagos a policiais - sobretudo num momento de melhora na remuneração dos trabalhadores brasileiros em geral, aumentando a disparidade e, por conseguinte, o desprestígio social da categoria e sua insatisfação.
O mais sério obstáculo à elevação da remuneração é o passivo previdenciário do setor público. Enquanto certas categorias do funcionalismo recebem altos salários, mas são pouco numerosas, impactando menos as combalidas contas previdenciárias do serviço público, professores e policiais são muitos, e que qualquer aumento de seus salários gera de imediato um novo choque de gastos previdenciários. Neste momento, em que o governo federal tenta aprovar o fundo de previdência dos servidores, é o caso de articular sua aprovação com políticas de reestruturação das condições de carreira e remuneração de setores do funcionalismo, permitindo políticas salariais necessárias ao bom trabalho e sustentáveis no longo prazo. Mudanças nessa direção teriam inclusive o condão de melhorar o recrutamento, atraindo gente mais capacitada para funções primordiais do serviço público. Nada disso será viável, entretanto, sem que se olhe também para a questão previdenciária.
Espancar as alternativas - ANTONIO DELFIM NETTO
VALOR ECONÔMICO - 07/02/12
E como se determina a oferta global? Voltemos ao mundo platônico das ideias e imaginemos que existe uma "função de produção" matemática bem educada, contínua, diferenciável (mais algumas propriedades convenientes) e que revela a produção global (oferta) máxima com relação ao uso de dois fatores de produção: trabalho (horas trabalhadas) e o estoque de capital. Com um dos fatores fixo, a função revela rendimentos decrescentes quando aumentamos o uso do outro. Mesmo no mundo das ideias o estoque de capital (trabalho do passado cristalizado em máquinas, equipamentos, estradas, portos etc) é fixo no curto prazo. Podemos, portanto, explorar as variações da "função de produção" (a oferta máxima) para cada acréscimo de hora trabalhada. Essa relação é conhecida como "produtividade marginal" física do trabalho.
Para lançar um pouco de luz sobre essa caverna platônica, suponha uma fábrica de sapatos na qual o aumento de uma hora de trabalho produz mais um par de sapatos. Se o empresário quiser maximizar o seu lucro quantas horas de trabalho ele deve contratar? Como o estoque de capital físico é fixo, a produtividade marginal do trabalho é decrescente. Logo, a última hora que ele empregará é a que lhe custará exatamente o valor do seu sapato. A condição de maximização do lucro é, portanto, que o preço do sapato multiplicado pela produtividade marginal física do trabalho seja igual ao salário nominal. Em outras palavras, o salário real do trabalhador deve ser igual à sua produtividade marginal (decrescente quando aumenta o mínimo de horas utilizadas).
No mundo platônico das ideias, todas as funções de produção (desde as de uma usina atômica até a de um pé de banana) podem ser agregadas e todas as horas trabalhadas somadas, o que revela o nível de emprego. Para maximizar o "bem estar geral" e obter a oferta máxima de um misterioso bem chamado "Produto Interno Bruto", basta determinar quantas horas de trabalho (qual o nível de emprego) serão utilizadas. Mas para fazer isso é preciso conhecer o salário real (físico) idêntico à produtividade marginal física do trabalho.
Como se faz isso? Pensemos um nível fixo de preços. O salário real é igual ao salário nominal dividido por ele. A oferta e a procura de trabalho dependem, no mundo platônico das ideias, apenas do salário real. Supondo, de novo, que essas ligações sejam bem comportadas, a oferta de trabalho cresce e a demanda decresce com o crescimento do salário real. Num ponto qualquer (como uma é crescente e a outra decrescente) elas se cruzam e determinam o salário real de equilíbrio, onde, por hipótese, todos os que podem e desejam trabalhar têm emprego. Isso exclui, por construção, qualquer desemprego "involuntário". No ponto de encontro da oferta e da procura a produtividade marginal física do trabalho é igual ao salário real e determina o ponto ótimo do emprego.
Temos assim a oferta global que maximiza o lucro do capital e, por construção, produz o "pleno emprego". É preciso entender que essa oferta global é fixa no curto prazo. O passo seguinte é juntar esta conclusão à relação inicial (que liga a taxa de juros real à demanda global) e verificar que, então, deve EXISTIR uma taxa de juros real "neutra" que iguala a oferta global à demanda global que, em condições estáticas, produzirá o máximo PIB, o pleno emprego e a estabilidade da taxa de inflação.
O problema é que mesmo no mundo platônico podem acontecer choques de oferta (quebra de safra) ou de demanda (excesso de crédito, pressões redistributivas etc) e a taxa de inflação flutuará sob a pressão dos eventuais desequilíbrios entre a oferta e a procura global. Essa relação é chamada de curva de Phillips. Ela sugere aos Bancos Centrais um mecanismo de controle (uma regra monetária) que relaciona a diferença entre a taxa de inflação e a meta de inflação desejada (a que aconteceria no mundo congelado) aos desequilíbrios entre a oferta e a procura globais.
Temos aqui três relações: a primeira que liga a demanda global à taxa de juro real, que exige o conhecimento da taxa de juros real "neutra"; a segunda que liga a taxa de inflação às pressões derivadas das diferenças entre o nível do PIB e o desconhecido PIB potencial; e a terceira que dá ao Banco Central a possibilidade de manobrar a política monetária para manter na meta a taxa de inflação (fixada pelo poder político).
As contas fecham no mundo platônico das ideias, mas as coisas ficam mais feias no mundo real. Nele não há equilíbrio estático. A complexidade das relações é muito maior e instável. Existe assimetria de informação e as estimativas da "taxa de juro neutra" e do "produto potencial" são imprecisas e seus erros têm custos sociais importantes. Se olharmos com cuidado, mesmo os mais sofisticados modelos de que dispomos (o Samba, do nosso Banco Central, por exemplo) têm no seu DNA a sementinha daquelas três relações. É por isso que vale a pena escrutinizar cuidadosamente as suas estimativas. Está na moda espancá-las para ver se elas ficam de pé...
Casa da Moeda ou da mãe joana? - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADÃO - 07/02/12
O fio de ligação entre todas essas histórias sempre foi a partilha de postos federais como um grande butim conquistado por tropas de assalto. A novidade, agora, foi a espantosa troca de acusações entre o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e a liderança de um grupo aliado, o PTB. Ninguém assume a responsabilidade pela indicação de um indivíduo para presidir nada menos que a Casa da Moeda, o departamento responsável pela impressão e pela cunhagem do dinheiro em circulação no País. Só não é exatamente uma piada pronta porque isso ultrapassa a imaginação dos melhores humoristas.
Segundo o presidente do PTB, Roberto Jefferson, o ministro da Fazenda pediu ao líder do partido na Câmara, deputado Jovair Arantes, um aval ao nome de Luiz Felipe Denucci. "Ele não é do PTB", disse Jefferson. "É do Mantega." O ministro contestou. Declarou desconhecer o possível candidato ao posto, nunca tê-lo encontrado e ter recebido seu currículo do deputado Jovair Arantes. Segundo Mantega, o currículo era adequado e Denucci até conseguiu modernizar a Casa da Moeda. Além disso, ele atribuiu ao partido as denúncias de operações irregulares no exterior.
O ministro da Fazenda disse isso cumprindo ordem da presidente Dilma Rousseff para se manifestar sobre a demissão e esclarecer a participação do PTB na história. E, segundo se informou em Brasília, a cúpula do Planalto aprovou seu desempenho. Em outras palavras, a presidente e seus conselheiros mais próximos teriam ficado satisfeitos porque o ministro se eximiu da responsabilidade pela escolha de um presidente da Casa da Moeda e a lançou sobre um partido aliado. Segundo as mesmas fontes, a presidente da República teria cobrado a nomeação de um técnico para o posto.
A presidente pode insistir na nomeação de um técnico, mas isso de nenhum modo elimina a questão básica: a quem cabe a responsabilidade pela nomeação de ministros, de dirigentes de estatais e de autarquias e, de modo geral, de ocupantes de postos de confiança? Ao jogar para o PTB a responsabilidade pela nomeação de Luiz Felipe Denucci, o ministro da Fazenda reiterou de forma inequívoca a resposta conhecida até agora: as nomeações são sujeitas a critérios de loteamento. O encarregado de assinar o ato oficial - no caso, o ministro - pode até rejeitar algum nome, mas a indicação, de toda forma, cabe a um partido, de acordo com algum critério de partilha.
Em outras condições de normalidade, um ministro julgaria humilhante assumir publicamente o papel de mero carimbador de uma nomeação para um cargo vinculado ao seu gabinete. Mas os critérios dominantes em Brasília são de outra natureza. As palavras "não conhecia, nunca tinha visto o Luiz Felipe Denucci" estão no segundo parágrafo de uma nota divulgada sexta-feira no portal do Ministério da Fazenda. Não constam de uma acusação ao ministro. São elementos - quem diria? - de sua defesa.
Mas o ministro age segundo critérios considerados normais para a gestão pública brasileira. Esses critérios foram reafirmados pela presidente, ao manter sob controle do PP o Ministério das Cidades. Partidos têm cotas no governo. Obviamente, só brigam pela conquista e pela manutenção de cotas porque esperam servir-se da administração pública. Presidencialismo de coalizão é isso, no Brasil, e a presidente nunca renegou essa concepção. Apenas a aperfeiçoou, ao aceitar que um ministro negue sua responsabilidade pela nomeação do presidente da Casa da Moeda.
O enigma do desemprego baixo no Brasil - ILAN GOLDFAJN
O ESTADÃO - 07/02/12
Algo interessante está ocorrendo no Brasil. No final do ano passado o desemprego atingiu 4,7% (ou 5,5%, levando em conta a sazonalidade favorável de dezembro), um recorde de baixa. A princípio, mereceria apenas os festejos de sempre. Mas há algo mais enigmático. O desemprego tem melhorado num contexto de piora da economia: o crescimento do PIB desacelerou para cerca de 2,7% no ano passado, o que normalmente levaria a um aumento do desemprego. O que está acontecendo? O mercado de trabalho está-se descolando do resto da economia? Quais as consequências?
O comportamento do desemprego é importante demais numa economia para ser ignorado. Afeta o bem-estar da população de forma relevante: pesquisas mostram a relação de satisfação com a taxa de desemprego. O desemprego também afeta o desempenho da economia via produtividade e crescimento, assim como o impacto na inflação.
Uma parte da explicação é simplesmente a existência de defasagens na economia. O mercado de trabalho é normalmente o último da cadeia a sentir o impacto da desaceleração. As vendas caem e a produção tem de diminuir para evitar acúmulo de estoques desnecessários. O desemprego aumenta quando as empresas diminuem a produção e o emprego fica ocioso. Pode ser que ainda estejamos no início do processo. Se for, devemos esperar uma subida do desemprego daqui em diante. Mas a defasagem parece longa demais e o mercado de trabalho, forte demais para fazer acreditar que nada mudou desta vez. Há duas teorias alternativas (não excludentes).
A primeira diz respeito à produtividade do trabalhador. Alguns temem que a combinação do desemprego em recorde de baixa com economia fraca seja sinal de problemas à frente. Afinal, estamos produzindo menos com mais gente - produtividade menor. A economia poderia estar mostrando sinais de esgotamento mais duradouros. Uma economia com produtividade menor está fadada a crescer menos e/ou a ter mais inflação. O risco é que a retomada da economia venha a diminuir ainda mais o desemprego, tornando a mão de obra mais escassa, elevando custos para empresas, o que poderia resultar em mais inflação. Controlar a inflação exigiria crescer menos.
Mas qual seria a razão para a produtividade do trabalhador estar caindo? Com o crescimento maior da economia nos últimos anos, as empresas têm encontrado dificuldades crescentes para contratar mão de obra, principalmente qualificada. A solução tem sido contratar um contingente da população cuja capacitação é inferior à dos empregados atuais. Resolve as necessidades imediatas, mas a produtividade desses trabalhadores é inferior, o que derruba a produtividade média da economia. Ao longo do tempo esses trabalhadores poderão adquirir qualificação maior com treinamento nos seus próprios empregos, o que diminuiria o problema, mas pode levar tempo.
A falta de mão de obra é resultado, em parte, de um menor crescimento da população economicamente ativa (PEA), aquela apta a se empregar. Em 1980 a taxa de crescimento da PEA era acima de 3% ao ano; hoje o crescimento é de 1,3%, dada a distribuição populacional. Com menos gente disponível para trabalhar, um período de crescimento maior reduz o desemprego e limita o crescimento sustentado.
A falta de mão de obra qualificada no Brasil é resultado de melhorias ainda insuficientes na educação para fazer frente às necessidades atuais. As defasagens são longas. O esforço atual na melhoria da educação será determinante para o futuro, nas próximas décadas.
A segunda teoria alternativa é que os empresários podem estar evitando demitir. O custo para as empresas de demitir e voltar a empregar é alto no País. Se os empresários têm confiança na retomada da economia e no seu crescimento no médio prazo, podem preferir manter os trabalhadores ociosos por um tempo a demiti-los (e depois recontratá-los). A experiência dos últimos anos, principalmente a reação à crise de 2008-2009, poderia estar induzindo esse comportamento. A economia brasileira recuperou-se rapidamente do impacto da crise internacional. Os empresários não demitem, a economia mantém um contingente de trabalhadores ociosos prontos para serem utilizados mais adiante. É uma "poupança de trabalhadores", como referida na literatura.
Nessa alternativa, o desemprego baixo é função das expectativas quanto à volta do crescimento futuro. Quando a economia voltar a acelerar (acreditamos que o PIB volte a acelerar ainda este ano, principalmente no segundo semestre), essa poupança será utilizada, em vez de maior procura por mão de obra e sobreaquecimento do mercado de trabalho. A evidência dessa alternativa é a queda das horas trabalhadas (em vez de demissões).
É importante citar que parte da queda do desemprego é devida à menor procura por emprego. Não se considera desempregado quem não se encontra ativamente procurando emprego. Parte da queda recente do desemprego é consequência desse "desalento" (por exemplo, a PEA cresceu apenas 0,7% em dezembro de 2011 em relação a dezembro de 2010), mas não explica todo o fenômeno.
Acreditamos que as alternativas acima não sejam excludentes. A facilidade com que a economia incorporou mão de obra no passado (e alavancou o crescimento) pode não se repetir no futuro. Alguma perda de produtividade pode estar ocorrendo como consequência da qualificação ainda insuficiente da mão de obra para o crescimento desejado. Mas parte do que estamos observando pode ser um fenômeno cíclico - preservação do emprego numa economia aprendendo a conviver com altos e baixos. O comportamento do desemprego, da inflação e do crescimento a partir da retomada deste ano depende da força de cada um desses fatores.
Pequena empresa não elege ninguém - PAULO FELDMANN
O Estado de S. Paulo - 07/02/12
Faz parte das regras de todos os países que praticam formas saudáveis de capitalismo defender suas pequenas empresas. Porque, se isso não for feito, é inevitável que a grande maioria dos setores econômicos acabe sendo dominada pelas grandes empresas. Estas, justamente por causa de seu tamanho, conseguem ter características que lhes conferem vantagens enormes. Nada contra as grandes, só que elas não carecem de proteção especial. As pequenas, sim, necessitam dessa proteção, caso contrário a competição será desigual. Vejam alguns exemplos internacionais.
Nos Jogos Olímpicos de Londres, em julho, a maioria das atividades de apoio, bem como os serviços de atendimento ao público, será prestada por pequenas empresas. Aliás, os estádios, as edificações e a maioria das obras que serão sede de eventos também foram construídos ou estão sendo montados por pequenas construtoras. Isso tudo porque em 2008 o governo britânico baixou um decreto - Small Business Act - definindo que era imperativo priorizar a utilização das pequenas empresas como forma de apoiar seu crescimento e diminuir o predomínio das grandes.
Uma das maiores redes mundiais de supermercado é francesa e tem forte atuação no Brasil. Porém, quem já foi a Paris estranhou não ter encontrado nenhuma loja da megarrede na cidade. Ocorre que, para não prejudicar o pequeno comércio, o governo francês proíbe a atuação das megarredes nos perímetros urbanos. Elas só podem abrir suas lojas nas estradas e, assim mesmo, bem afastadas das grandes cidades. Por sinal, a maior empresa do mundo é uma rede de supermercados norte-americana: quem já foi a Nova York, Chicago ou qualquer grande cidade dos EUA certamente não viu nenhuma loja dessa megarrede. As razões são as mesmas.
Os números do Sebrae dizem que, de cada 100 pequenas empresas que são criadas em nosso país, apenas 24 conseguem completar o 5.º aniversário. Esse número não pode ser maior porque o Brasil não oferece nenhuma proteção às pequenas. Se não existirem medidas de apoio, quem vai dominar os mercados é a grande empresa. E é por isso que na Alemanha e na Itália, por exemplo, a pequena empresa representa mais de 60% de toda a produção econômica, ou seja, do PIB. No Brasil as pequenas não conseguem ter nem 20% do PIB. Apesar de serem 99% do número total de empresas brasileiras. Ou seja, 80% da produção brasileira está com as grandes e médias, que são apenas 1% do total de empresas existentes.
O Brasil é o paraíso da grande empresa. Por quê? Justamente porque faltam políticas públicas de apoio aos pequenos empresários. Por isso não temos estímulos à formação de consórcios, não temos agências desenvolvendo inovação e tecnologias e muito menos políticas de compras governamentais destinadas aos pequenos. A causa está na legislação eleitoral. Graças a ela, nossos governantes e parlamentares são apoiados em suas campanhas eleitorais pela grande empresa, que é quem tem condições de canalizar recursos para elas. O pequeno empresário não tem a mínima possibilidade de apoiar as campanhas eleitorais porque está permanentemente correndo o risco de fechar suas portas. O pequeno empresário brasileiro só consegue pensar na sobrevivência da sua empresa, pois sua família dela depende.
Ocorre que, quando eleitos, nossos políticos precisam retribuir a ajuda que tiveram e nisso está a perversidade do modelo atual, pois eles acabam fazendo leis e governando sempre a favor da grande empresa, pois foi esta que apoiou suas campanhas.
A verdadeira democracia é aquela que impede o abuso do poder econômico, como o fazem a Holanda, a Alemanha e a Suécia, onde inclusive as campanhas eleitorais são modestas. Precisamos rever nossa legislação eleitoral nos baseando nos países desenvolvidos que simplesmente proíbem empresas de todo e qualquer tamanho de apoiar campanhas eleitorais. Aí, sim, poderemos dizer que somos uma verdadeira democracia.
Nas asas estatais - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 07/02/12
O consórcio Ivepar, que comprou Guarulhos, em São Paulo, é 80% formado por Previ, Petros e Funcex, ou seja, os mesmos fundos de pensão estatais que sustentaram as privatizações do governo Fernando Henrique. A diferença é que naquela época era mais difícil conseguir financiamento para o Brasil. Tem como sócio o operador de vários aeroportos da África do Sul.
Além disso, a estatal que vendeu o ativo, a Infraero, permanece com 49% e, portanto, pagará metade da conta de R$ 16,2 bilhões. Fica na estranha situação de pagar por ter vendido. Há ainda o compromisso de em Guarulhos investir R$ 4,5 bilhões em 15 anos, sendo R$ 1,4 bilhão até a Copa. O BNDES vai emprestar 80% dos recursos.
- O que achei estranho é que os grandes operadores - aeroportos como os de Cingapura, Zurique e Houston - perderam. Também ficaram de fora as empreiteiras mais sólidas, como Odebrecht e CCR. O ágio foi alto, mas se fosse com os grandes operadores, tudo bem, porque eles estão acostumados a tirar leite de pedra, mas os pequenos, talvez não - avalia o especialista em aviação Respício do Espírito Santo.
O mesmo ceticismo é compartilhado por outro analista: o professor Hugo Ferreira Braga Tadeu, da Fundação Dom Cabral e autor do livro "Logística Aeroportuária".
- Lá fora, os projetos são pensados como cidades-aeroportos, com o entorno, acessos, hotéis, shopping centers. Isso tudo permite que a rentabilidade das empresas fique muito maior, com mais espaço para investimentos. A taxa de retorno é de 20%; aqui, é de 6%. No Brasil se pensa em aeroportos como terminal e pista, apenas - afirmou.
O grupo que ganhou a disputa pelo Aeroporto Juscelino Kubitschek, de Brasília, é o mesmo que ganhou o de São Gonçalo do Amarante e ainda não conseguiu terminar o project finance, e por isso está tendo dificuldade de se financiar. A Engevix, que esteve envolvida em alguns casos controversos, está associada a um grupo argentino no aeroporto. Foi quem deu o maior ágio: de 679%.
O grupo que ganhou o aeroporto de Viracopos, em Campinas, é o mesmo que venceu um leilão do governo de São Paulo para administrar a Rodovia dos Trabalhadores. O problema é que ele não conseguiu apresentar as garantias e foi desclassificado em favor da Eco Rodovias, que estava em segundo lugar.
O que ganhou Guarulhos, a Invepar, é operador do Metrô do Rio, da Linha Amarela e da Rodovia Rio-Teresópolis. A ACSA, da África do Sul, administra aeroportos pelos quais passam 30 milhões de passageiros por ano. Seu maior trunfo, no entanto, é que 80% do consórcio são os três maiores fundos de pensão de estatais.
O modelo do leilão privilegiou o tamanho do ágio. Venceu quem deu o maior lance. O mesmo modelo dos tucanos que foi muito criticado principalmente pela presidente Dilma Rousseff quando era ministra. Ela, naquele tempo, preferia o que chamava de "modicidade tarifária". Ou seja, quem cobrasse menos do consumidor. Nos aeroportos, voltou a ser o maior ágio.
Os grupos terão que pagar grandes ágios, fazer investimentos e ainda entregar parte da receita para um fundo que vai investir em aeroportos menos rentáveis. O especialista em logística Paulo Fleury, do instituto Ilos, acha que esse é um ponto a favor do modelo:
- Desta forma, vai se investir em aeroportos que não são rentáveis agora, mas são importantes na logística do país.
Sobre a excessiva participação estatal nos consórcios, através de fundos de pensão, investimentos financiados pelo BNDES e a sociedade da Infraero, Paulo Fleury explica:
- Isso é um defeito da nossa economia, os grupos privados são excessivamente dependentes do Estado. O investimento em infraestrutura não pode ser feito com financiamento privado porque é caro demais.
Seja como for, há o fato de que a Infraero terá metade do custo do ágio de lances dos quais não participou; terá metade do custo, mas não terá qualquer influência na gestão, que será toda das empresas privadas.
Não há dúvida de que o passo da privatização dos aeroportos precisava ser dado, e não pela Copa ou Olimpíadas, que são eventos que terão um tempo específico. A demanda brasileira é que está aumentando em um ritmo muito rápido.
O professor Braga Tadeu disse que um estudo da Boeing mostra que o transporte aéreo de passageiros tem crescido 10% ao ano no Brasil e assim deve continuar pelos próximos 10 anos.
- Isso significa dobrar o setor em uma década. Em 2011, tivemos 130 milhões de passageiros, e em 2014 teremos 160 milhões. Não é preciso Copa do Mundo e Olimpíadas para que o setor fique estrangulado, ele já está - afirmou.
Resta torcer para que novos gestores e o compromisso de investimento aumentem a eficiência dos aeroportos. E que a modelagem da segunda rodada - que deve incluir os aeroportos do Galeão, de Confins e Recife - tenha aperfeiçoamentos que permitam a entrada de grandes operadores do mundo com experiência e conhecimento. Desta vez, os mais experientes não quiseram pagar tão alto quanto os menos experientes se dispuseram a pagar.
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