quinta-feira, julho 28, 2011

IVES GANDRA DA SILVA MARTINS - A velhice dos tempos modernos


A velhice dos tempos modernos
IVES GANDRA DA SILVA MARTINS
FOLHA DE SP - 28/07/11

A expressão "conservadores" seria mais aplicável aos que repetem "costumes flexíveis", e não os valores abraçados pelos construtores das civilizações
O desconhecimento da história e a pouca atenção que, nas grades escolares, principalmente universitárias, se dá à importância do estudo de toda espécie de acontecimentos passados, principalmente na política e nos costumes, faz com que aquele que vive o momento presente termine por repetir os mesmos erros, vícios e "novidades" pretéritas.
Na política, como procurei demonstrar em meu livro "Uma Breve Teoria do Poder", o homem pouco evoluiu. Se uma democracia formal foi conquistada a duras penas, a verdade é que nem por isso a sociedade consegue controlar a figura do detentor do poder, que quer o poder pelo poder, sendo a prestação de serviços públicos apenas efeito colateral de seu exercício.
A corrupção endêmica nas entidades estatais, nos tempos modernos, é tão velha quanto a dos primeiros tempos. Apenas mais sofisticada. Carl Schmitt ("O Conceito do Político") e Maquiavel ("O Príncipe") continuam atualíssimos.
Nos costumes, a denominada liberdade sexual, em que dar vazão aos instintos é modelo da modernidade, remonta, pelo menos, ao tempo da decadência babilônica, quando as mulheres conseguiam seus dotes para o casamento entregando-se livremente no templo, ou à decadência do Império Romano.
Políbio ("História"), este historiador grego que viveu em Roma, demonstrou que tal liberdade estava desfazendo as famílias romanas, prevendo o fim do Império pela deterioração dos costumes.
É de se lembrar que, no período anterior, quando da República, as famílias respeitavam valores e a sociedade se representava perante o Senado e os cônsules por meio do Tribunato da Plebe (Fustel de Coulanges, "A Cidade Antiga"). A cidadania romana tornou-se um bem que protegia não só os romanos, mas aqueles que a conquistavam dentro de suas fronteiras.
É de se lembrar que, antes da queda de Esparta, a liberdade sexual das mulheres espartanas faria inveja às mais desinibidas senhoras da atualidade. O próprio homossexualismo, praticado em Atenas, tornou-se bem evidente quando do início de sua decadência, que termina, de rigor, com a derrota na Guerra do Peloponeso, tão bem narrada por Tucídides.
Tais breves e perfunctórias reminiscências históricas sobre costumes e política objetivaram apenas mostrar que as denominadas conquistas dos tempos modernos são muito velhas e, quase sempre, coincidem com a decadência de civilizações formadas, como o Império Romano, à luz de valores diferentes.
Parece-me, portanto, que a denominação "conservadores" seria mais aplicável àqueles que repetem, através da história, "costumes flexíveis" -para adotar uma terminologia politicamente correta-, e não os valores abraçados pelos verdadeiros construtores das civilizações, que, como Toynbee afirma ("Um Estudo da História"), nasceram, fundamentalmente, dos preservados pelas grandes religiões.
Uma última observação, de caráter apenas explicativo.
Nos tempos de costumes condenáveis, em que as mulheres, em algumas nações, tinham um estatuto inferior, foi Cristo que abriu a perspectiva da igualdade entre o homem e a mulher, ao dar ao matrimônio a dignidade de Estado, com obrigações e direitos mútuos rigorosamente idênticos, com deveres de lealdade e fidelidade necessários para criar os valores próprios para a correta educação da prole que geravam. E elevou uma mulher à condição de mais importante figura da humanidade, para os católicos, acima de todos os homens, ou seja, santa Maria.
Política e costumes merecem sempre uma reflexão histórica.
Pouco comum, mas necessária.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - Dólar, bomba e tiro n"água

Dólar, bomba e tiro n"água
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 28/07/11
Governo toma medida cambial mais forte desde Lula e pode intervir no coração do mercado

O GOVERNO enfim decidiu jogar a bomba atômica no mercado de câmbio. Por meio de um decreto e uma medida provisória, avisou que pode intervir à vontade no mercado futuro de dólar e nos instrumentos financeiros ali negociados, derivativos.
A radiação da bomba vai causar mutações no mercado de câmbio. Mas ainda deve ser um tiro n"água no que diz respeito a limitar a valorização do real. No entanto, deve limitar a facilidade com que se realizam operações amalucadas de endividamento em dólar.
Até agora, desde 2009, havia controles convencionais do influxo de dólares. Os governos petistas haviam tomado apenas medidas indiretas, remotas, com o fim de limitar negócios no mercado futuro, que, não raro, gira dez vezes mais dinheiro que o mercado à vista --é onde se define mesmo o preço da troca de reais por dólares.
Ontem, depois de quase dois anos de hesitação no assunto, o governo chutou a porta do futuro. Durma com um barulho desses e chupe o dedo quem considerava que a política econômica de Dilma Rousseff se encaminhava para a ortodoxia.
O governo pode aumentar o imposto sobre negócios com derivativos de câmbio de 1% para até 25%. Isto é, sobre negócios de quem aumentar sua exposição vendida em "moeda estrangeira".
O governo pode ainda encarecer a operação, exigindo mais garantias nos derivativos. Pode modificar prazos da operação. Pode fazer o diabo. O pessoal do mercado estava ontem entre fulo e confuso.
Na prática, o aumento do custo (e do risco de o governo intervir mais) dos negócios no mercado futuro deve fazer com que parte das operações migre para o mercado à vista ou para o exterior. Note-se que, faz duas semanas, o governo limitou o passivo dos bancos em dólares "no presente" (limite para "posição vendida").
O aumento do custo das operações no futuro em tese deve também encarecer e tornar mais arriscada a tomada de empréstimos no exterior. O encarecimento da operação com derivativos pode ainda reduzir a liquidez (quantidade e volume de negócios) em tempos de estresse, com o que o dólar pode variar mais em momentos de crise.
Mercados de contratos futuros, em suma, servem para que, por algum custo, garanta-se que o valor a ser recebido por tal ou qual ativo no futuro seja equivalente a um certo valor esperado agora ("fazer hedge"). Isso ao menos nos termos da cartilha "Caminho Suave" dos derivativos: comprar proteção contra variações indesejáveis de preços.
Na prática, derivativos servem para apostas em geral de que, no futuro, um ativo ou uma taxa ou um índice qualquer de nossa preferência vá nos render mais do que os ativos etc. preferidos pela nossa contraparte no negócio.
As medidas de ontem dizem respeito aos derivativos que dependem da variação do preço do real em relação ao dólar ("moeda estrangeira"). Esse mercado serve, claro, para proteção contra o risco cambial da torrente de empréstimos em moeda estrangeira para o setor privado; serve para organizar operações para que não residentes ganhem dinheiro com a indecente taxa de juros brasileira (para "especulação").
O governo tentou limitar as duas operações.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Isenção incentiva importação de equivalente nacional
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 28/07/11

Criado há 13 anos para incentivar a exploração de petróleo e gás no país, o Repetro, regime que isenta de impostos as importações voltadas ao setor, continua a permitir a entrada de bens que já são fabricados em larga escala pela indústria nacional.
O uso do regime pela bilionária indústria de petróleo e gás não para de crescer. Desde 2001, a renúncia fiscal soma R$ 50 bilhões, sendo que R$ 33 bilhões nos últimos seis anos, segundo a Receita.
De 2005 a 2010, o Repetro respondeu por 21% de toda a suspensão de tributação no país. Trata-se da maior renúncia fiscal do país, acima da Zona Franca de Manaus.
Com o real sobrevalorizado, a importação fica mais atrativa. A Folha mostrou no mês passado que, de 22 plataformas de produção de petróleo encomendadas nos últimos quatro anos, só três estão sendo integralmente construídas no Brasil.
A manutenção do regime é contestada, especialmente entre fornecedores brasileiros, que pedem uma revisão da regra.
O Repetro entrou em vigor em 1998, em um cenário em que a indústria do petróleo ainda engatinhava e poucos bens e equipamentos eram fabricados no país.
Outra diferença de contexto gritante era o preço do barril. No final da década de 90, girava em torno de US$ 20. Hoje, beira US$ 100, o que garante margens mais folgadas aos produtores.
Na época em que o Repetro foi instituído, a perspectiva de se encontrar grandes quantidades de petróleo e gás no país não era tão clara.
O risco de se explorar era bem maior.

SETOR MADURO
O Repetro prevê isenção fiscal na entrada de plataformas, navios de apoio e outros equipamentos, desde que destinadas à exploração e produção.
Não há uma lista definida com o que é permitido pelo regime. As empresas importam qualquer produto e apresentam com justificativa à Receita, que avalia se o que está sendo importado será usado para explorar ou produzir.
Ex-secretário de energia do Rio, Wagner Victer diz que o Repetro não é mais necessário à indústria. Segundo ele, o setor já está maduro, e a alta rentabilidade atual dos negócios com petróleo dispensa necessidade de isenção.
"O Repetro estava previsto para durar até 2005. Foi estendido até 2020, mas já deveria ter parado."
A exploração no pré-sal, que vai ampliar ainda mais as atividade do setor de petróleo e gás, é vista como um ponto de partida para mudanças no Repetro.
A Receita avalia que será preciso estender a estrutura diante da perspectiva de alta das importações pelo pré-sal.

RESULTADO ENERGÉTICO
A EDP no Brasil, do grupo EDP Energias de Portugal, fechou o primeiro semestre deste ano com lucro líquido de R$ 316,5 milhões, o que representa crescimento de 2,5% em relação ao mesmo período de 2010.
O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) atingiu R$ 875,4 milhões, com alta de 7,8%.
"O resultado foi bom, porém, impactado pela provisão que fizemos por razão judicial relativa a uma ação de 11 anos atrás", disse António Pita de Abreu, presidente do grupo no Brasil.
Quanto ao volume de energia vendida no semestre, o aumento na comercialização no mercado livre foi de 28,2%. Na geração, registrou alta de 9,5% e de 3,4% na distribuição, com acréscimo de 2,4% na EDP Escelsa (ES) e de 3,9% na EDP Bandeirante (SP).
"A média de 3% deve ficar próxima do que deverá ser o PIB no semestre."
A recente oferta secundária de ações da EDP na Bolsa, que girou R$ 810,724 milhões, teve procura 4,5 vezes maior que a oferta, revelou.

SEM SOLIDARIEDADE
O Brasil destina apenas 0,3% do PIB (Produto Interno Bruto) para caridade, de acordo com pesquisa da consultoria Bain & Company.
Entre os países analisados, apenas a China tem percentual de doação inferior ao brasileiro (0,2%). Os EUA apresentaram o maior índice de doação, de 2,2%.
Os valores são calculados com base nas doações de empresas e pessoas físicas.
Nos EUA, as doações individuais representam 75% do total. Já na Índia, esse índice é de 26%.
A consultoria prevê que o percentual doado nos países em desenvolvimento cresça de maneira significativa.

10% DO GARÇOM

O Ministério Público do Trabalho obteve liminar que determina que a rede de restaurantes Outback Steakhouse inclua gorjetas no holerite de garçons e outros trabalhadores para que sejam recolhidas as verbas trabalhistas.
A rede pode recorrer.
Segundo o MPT, o Outback não teria seguido a CLT ao recolher FGTS e pagar férias e 13º apenas sobre o fixo, sem incluir o valor de gratificações. "A gorjeta tem natureza salarial", diz o procurador Ronaldo Lira. A empresa diz que não foi notificada.

CINTURA FINA
A Emagrecentro, de serviços de emagrecimento e estética, inicia a expansão no mercado internacional.
Até o final deste ano, serão inauguradas três franquias em Portugal, Angola e Panamá. A primeira a ser aberta será na semana que vem na Cidade do Panamá.
"O que facilitou a entrada no país foi a baixa burocracia para a abertura de empresas", diz o cirurgião plástico Edson Ramuth, fundador da empresa.
"A obesidade é uma epidemia mundial. Em países como EUA e Austrália, 70% da população está com sobrepeso. Temos muito mercado para crescer."
Com 201 unidades em 21 Estados brasileiros, a companhia já negocia a abertura de mais 50 franquias até o final deste ano.
"Estaremos em todos os Estados do país até dezembro. O nosso foco também são cidades do interior do país com mais de 100 mil habitantes", diz Ramuth.
As novas unidades devem representar incremento de 25% no faturamento deste ano, que deve chegar a R$ 63 milhões, segundo projeções da empresa.

NÚMEROS

201
unidades estão em operação no Brasil, sendo 113 no Estado de São Paulo

50
franquias serão inauguradas no país até dezembro e 3 no exterior, em Portugal, Angola e Panamá
Fonte: Emagrecentro

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK, VITOR SION e CIRILO JUNIOR

RICARDO MELO - A parte do salário

A parte do salário
RICARDO MELO
FOLHA DE SP - 28/07/11

SÃO PAULO - O desempenho das contas externas do Brasil, bem como a safra de balanços semestrais, seja de bancos, seja de grandes empresas, desmente a onda de previsões sombrias do início do ano.
Os números sobre os investimentos estrangeiros diretos são impactantes. Como as manchetes estamparam, no semestre bateram o recorde de várias décadas, se considerada a série histórica que o Banco Central inaugurou em 1947. Os resultados do setor privado na primeira metade do ano também vão indo muito bem, obrigado.
Eis alguns: o lucro líquido do Bradesco cresceu mais de 20% e chegou a R$ 5,5 bilhões. Mesmo o Santander, sediado na tormentosa Europa, não pode reclamar. Seu lucro global recuou, mas aqui cresceu 7,6% e alcançou 1,4 bilhão.
Em dinheiro nosso, algo como R$ 3,1 bilhões. Detalhe: o Brasil, sozinho, respondeu por cerca de 25% dos ganhos auferidos pelo grupo mundo afora. Já a operadora Vivo conheceu um salto percentual ainda mais expressivo. Em comparação com o ano passado, os lucros da empresa avançaram 46%.
No conjunto dos setores, nada indica que as cifras abandonem o azul. Lá fora, a crise europeia e a queda de braço nos EUA sinalizam que a enxurrada de dinheiro externo deve continuar, sendo duvidoso o efeito das últimas medidas do governo na área cambial.
Embora a inflação nacional esteja um pouco mais elevada, nossa altíssima taxa de juros exerce uma força de atração incomparável.
Diante de algarismos tão vistosos e com campanhas salariais pela frente, é justo que o trabalhador brasileiro reivindique a sua parte.
Aquela conversa de reajustes pela inflação futura e de ausência de ganho real ou as pregações de que é necessário moderar o crescimento e esfriar a economia (num país com tantas carências como o Brasil!), vamos e venhamos, chegam a agredir o bom-senso. Mesmo sabendo que distribuir renda nunca foi o lado forte da elite nacional.

ELIANE CANTANHÊDE - Caminho da roça


Caminho da roça
ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 28/07/11

Há coisas que a gente pensa, mas não diz. Há coisas que todo mundo sabe e não precisam – ou não devem – ser ditas. Ao agredir essas duas regras básicas de elegância social e convivência pacífica, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, deixa no ar uma interrogação: aonde ele quer chegar?

Em entrevista a Fernando Rodrigues na estreia do programa “Poder e Política” da Folha, Folha.com e UOL, Jobim justificou que “não costuma fazer dissimulações” e disse, em bom e alto som, que votou no tucano José Serra em 2010.

Acrescentou que, com Serra, “seria a mesma coisa” na gerência da crise dos Transportes, quando Dilma Rousseff botou 18 para correr, incluindo os que optaram pela versão da demissão “a pedido”.

Tanto quanto não há e não havia dúvida sobre o candidato de Jobim na eleição Serra versus Dilma, não há dúvida de que ele está insatisfeito. Primeiro, criticou o governo até em casamento.

Depois, usou um discurso em homenagem a Fernando Henrique para falar nos “idiotas” que ficam e lembrar que o ex-presidente não gritava e não humilhava assessores. Nada sutil. Chamado ao Planalto, disse a Dilma que era tudo intriga da imprensa. Aliás, que os “idiotas” a que se referira eram os jornalistas que criticavam FHC.

Todos, e, sobretudo, Dilma, fingiram que acreditaram, mas isso certamente ficou entalado. Agora mais essa. Novamente chamado, o que Jobim diria? Esse excesso de liberdade para falar verdades aí tem uma origem certa e um objetivo deduzido. A origem é que Jobim só está ministro porque Lula convidou e Dilma engoliu.

O objetivo é que, sem ter mais o que fazer, Jobim está tomando o caminho da roça.

O mais curioso é que, enquanto o PT tomou as dores de Dilma, o PMDB se dividiu entre os que não viram nada demais e os que até defenderam o correligionário. Assim: o PMDB é leal a Dilma, mas não pega em armas por ela.

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - O resto

O resto
LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO
o globo - 28/07/11

Anders Behring Breivik é um belo espécime de raça superior. Aquela que, segundo ele, deve se defender da mestiçagem e do multiculturalismo para não perder sua identidade, sua religião e finalmente seu espaço numa Europa ocupada por inferiores. E Breivik não contribuiria apenas com sua boa estampa para hipotéticos cartazes promovendo a causa. Ele próprio é um exemplo da eficiência e da produtividade que caracterizam a raça nórdica, em contraste com as outras e com os mestiços. Fazer o que ele fez, em tão pouco tempo, requer uma organização e uma racionalização de meios incomuns. Como já se disse sobre a política de extermínio dos nazistas, abstraindo-se o resto a simples engenharia do feito foi admirável. O “resto” a ser abstraído são os milhões de seres humanos assassinados pela engrenagem mortal, certo. Mas julgada pela eficiência e a produtividade, que para Breivik distinguem os puros dos híbridos e das raças menores, a engrenagem funcionou. Seu pequeno genocídio de noruegueses inocentes também funcionou. Assim, ao mesmo tempo que sua estampa nos mostra um ideal da raça que deve ser preservada, ele nos dá uma aula
prática da sua superioridade. Se conseguirmos abstrair o “resto”, claro.

CHICO
O crítico Edward Said escreveu sobre o “estilo tardio” que em muitos casos – o Beethoven dos últimos quartetos é o exemplo mais notório – distanciam o artista do seu público. O artista quer evoluir e experimentar e o público quer a repetição do que gosta.
No caso do Chico Buarque o estranhamento causado pelo seu novo CD pode durar uma ou duas audições de algumas das músicas (com outras a rendição é instantânea) mas não resiste à terceira audição, quando o estranhamento vira encantamento. Chico experimenta com rimas insólitas e sutilezas tonais (esmiuçadas naquele antológico artigo do Arthur Nestrovski sobre o disco no Estadão, e pelo Wisnik no Globo, semana passada), letras que misturam naturalmente o coloquial e o literário, canções que se esfarelam num quase recitativo, um blues e até um dueto de amor inevitável, que termina com o moço e a moça cantando “e lalari, lairiri” em vez de completar a letra. O estilo tardio do Chico é um estilo rarefeito, mas insista. O estranhamento acaba logo. E mal dá para esperar o que virá depois.

DEFINIÇÃO
Ouvi uma perfeita definição de super-herói, que serve para todos:
– São aqueles caras que usam a cueca por fora das calças.
E...
E lalari, lairiri...

CLÁUDIO HUMBERTO

“Jobim deve se achar a última bolacha do pacotinho”
DEPUTADO ANDRÉ VARGAS (PT-PR), SOBRE O MINISTRO DA DEFESA TER DECLARADO VOTO EM JOSÉ SERRA

CRISE JOBIM-DILMA COMEÇOU NO RIO
O rompimento de Nelson Jobim (Defesa) com a presidente Dilma Rousseff se deu veladamente numa reunião a portas fechadas no Rio, em janeiro. Ele anunciou o Exército no controle das ações na região serrana, atingida pelas chuvas. Mas foi desautorizado na frente do governador Sérgio Cabral. Dilma o interrompeu e deu aval para o vice, Luiz Pezão, comandar o socorro. Jobim também se indispôs com o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) sobre o Plano de Fronteiras.

É GUERRA 
Jobim não quer a participação da PF e do Ministério da Justiça no Plano de Fronteiras. Para ele, é responsabilidade do Exército. Perdeu de novo.

BIQUINHO 
O ministro da Defesa força a sua saída do governo, como adiantou essa coluna. Seu sonho é ser opção do PMDB à Presidência algum dia.

TÔ NEM AÍ 
A revelação de Jobim à Folha de S. Paulo de que votou no tucano José Serra, na eleição presidencial, piorou sua relação com o próprio PMDB.

A JATO 
Jobim só pensa na compra dos caças da FAB. Foi ele o artífice de passeio de congressistas em Paris, pagos pela Dassault, em junho.

BRASÍLIA GANHARÁ 14 HOTÉIS 
O governo do Distrito Federal lançará edital para venda de lotes numa grande área ao lado do futuro Estádio Nacional, como prolongamento do Setor Hoteleiro Norte. Estão reservados terrenos para mais 14 hotéis. Grandes redes procuraram o secretário de Turismo, Luiz Otávio Neto, e demonstraram interesse na compra. A Justiça engavetou ontem ação do Iphan e do Ministério Público contra o novo loteamento. 

OLHO NO LANCE 
De olho nas obras bilionárias do Maracanã, o MPF e o Iphan promovem audiência pública hoje no Centro do Rio para evitar gol contra do Estado.

TAXA TAXIANDO 
A casa de câmbio Confidence orientou funcionários a colocarem na conta do BC, e não da Infraero, a tarifa de R$ 10 que cobra no Aeroporto JK.

RICO SEM DIPLOMA 
Ex-presidente do Conselho Federal de Enfermagem, Gilberto Linhares, preso em Bangu por desvio de R$ 50 milhões, teve o registro cassado.

COPA: BRASÍLIA TEM CHANCE 
A Fifa informou à CBF que acompanha com interesse a prioridade do governo do Distrito Federal para a Copa do Mundo. O estádio, com obra avançada, é o único considerado arena multiuso, e atende aos requisitos para a abertura do evento. A mobilidade urbana é a melhor do País. 

É SÓ TREINAMENTO 
A deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC) quer promover simulação inédita no Congresso Nacional de evacuação em caso de emergência. Se a polícia participar, muita gente vai correr de verdade.

LAMBENDO SELO 
Além do superintendente-executivo, que fica até terça (2), quatro servidores dos Correios estão no Japão, com tudo pago até sexta (5), para a Exposição Filatélica Mundial Philanippon, em Yokohama.

VOTO CONSIGNADO 
O MP Eleitoral do Rio quer cassar o deputado Fábio da Silva (PMDB) por distribuir 83 mil “Votocards” – propaganda igual a cartão de crédito. Os capos Jorge Picciani e Eduardo Cunha foram excluídos da denúncia.

MEU GAROTO 
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) disse em entrevista à Rádio Itatiaia que o Dnit é foco de corrupção. Esqueceu que o secretário de Gestão Metropolitana do governo Anastasia, Alexandre Silveira ,ex PPS, foi diretor do Dnit em Minas Gerais, e depois diretor-geral no governo Lula. 

FURO NO CASCO
Seis meses após anunciar as obras de dragagem no Porto de Itajaí (SC), a empresa belga Jan De Nul, vencedora da licitação, desistiu do projeto por “problemas técnicos”. A obra de R$ 55 milhões faz parte do PAC.

DESCONECTADOS 
Se pode atrapalhar, por que ajudar? Em vez de congestionar o 135 ou obrigar idosos a ter internet, por que a Previdência não publica nos jornais a lista dos aposentados com direito a atrasados?

REBELDES SEM CAUSA 
Com o ponto eletrônico instalado, consultores legislativos do Senado que fazem bico, nem aparecem no Congresso e exageram nas “horas-extras”, perdem até R$ 12 mil por mês. Eles preparam uma rebelião.

PENSANDO BEM... 
a ficha de Dilma ainda não caiu exigindo “ficha limpa” nos Transportes. 

PODER SEM PUDOR
SABOR DE VINGANÇA 
Certa vez, no escurinho da última fila do plenário, o então deputado Pedro Henry (PP-MT) se lamentava com Virgílio Guimarães (PT-MG), cuja candidatura à presidência da Câmara foi derrotada pelo Palácio do Planalto: 
– Estou assustado. As pessoas estão irritadas com a gente, agressivas... 
A reação de Virgílio deixou Pedro Henry ainda mais preocupado: 
– Pois eu, qualquer dia, vou ser carregado nos braços. Estou gostando do clima das ruas...

QUINTA NOS JORNAIS

- Globo: Governo cria nova taxa para frear especulação com dólar

Folha: Governo age e dólar tem maior alta em um ano

Estadão: Governo faz sua maior intervenção no câmbio e ameaça ir mais longe

Correio: Brasil puxa o freio do dólar

Valor: CMN assume batalha cambial

Estado de Minas: Guerra à especulação

Jornal do Commercio: Mudar de plano de saúde fica mais fácil

Zero Hora: Apenas 10% dos desmanches de carros estão regularizados

quarta-feira, julho 27, 2011

ALON FEUERWERKE - O mercado e o povão


O mercado e o povão
ALON FEUERWERKE
Correio Braziliense - 27/07/2011

O "PIB potencial" está aí, vivinho da silva, a lembrar que somos um país condenado pelos nossos governantes a crescer pouco. Apesar de todas as promessas e ilusões em contrário

Como o Brasil vai sair da encalacrada simultânea de uma inflação no limite máximo com um dólar no limite mínimo? O governo parece ter optado pela saída mais confortável. Juro alto e real forte, o suficiente para funcionar como âncora anti-inflacionária. As importações seguram a onda dos preços, mesmo ao custo do crescimento, especialmente o industrial.

Na sua coluna de ontem no Valor Econômico, o ex-ministro Delfim Netto afirmou que o crescimento vistoso de 2010 não passou de um artefato estatístico. O objetivo do articulista foi contrapor aos que pedem mais aperto monetário, e aqui ele está alinhado com a presidente da República, com a Fazenda e com o Banco Central.

Segundo Delfim, o crescimento brasileiro real, depurado das excepcionalidades, vem patinando em torno de 4% ao longo destes anos todos. E é verdade.

Curioso apenas que o discurso sirva para um público, o mercado, mas não para outro, o povão. Para o mercado afirma-se que o Brasil cresce pouco, e por isso não seria prudente apertar ainda mais a política monetária. Para o povão vende-se a ideia de que o Brasil arrancou definitivamente para adiante.

O antecessor de Dilma, por exemplo, repisou estes dias a fantasia de que o governo dele derrubou a tese do PIB potencial de 3%, tese segundo a qual a economia brasileira não poderia expandir a uma taxa superior sem produzir inflação excessiva.

Mas se sua ex-excelência olhar os números verá que o tal PIB potencial continua forte e saudável. Depois do "artefato estatístico", a crer nas palavras de Delfim, voltamos à mediocridade. Crescimento abaixo de 4%, mas agora com inflação acima de 6%.

Na prática, o governo ajustou para dois pontos acima de 4,5% a meta de inflação, sem admitir oficialmente. Na real, a meta agora é 6,5%. Uma mediocridade, portanto, além de tudo perigosa. Mas que serve ao governo para refutar pressões ortodoxas.

Caberia talvez aqui algumas perguntas. E o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)? Por que não acelerou o crescimento? É uma dúvida razoável. Dirá o governo que estamos crescendo bem mais do que o mundo desenvolvido. Verdade. Mas uma verdade conveniente. Pois nossa expansão é bem menor que a dos demais emergentes. Essa é outra verdade.

Trata-se de um truque habitual. Conforme o caso comparamo-nos a quem mais convém. Que tal se nos comparássemos, por exemplo, aos europeus e americanos não só no crescimento, mas também na educação, na saúde, na infraestrutura e na segurança pública?

Mas nosso desafio maior não é decifrar as polêmicas e as malandragens políticas, é crescer e criar empregos. Há as estatísticas fantasiosas, segundo as quais vai tudo bem. Aliás, o Brasil talvez seja o único país em que os índices de emprego e crescimento dançam independentemente. O país pode estar melhor ou pior, mas os números de emprego saem sempre bons do forno oficial. Curioso.

Na vida que vale escasseia o emprego de boa qualidade e o desemprego entre os jovens permanece motivo de forte preocupação. Especialmente por causa da estagnação industrial. Essa filha indesejada do casamento incestuoso do juro alto com o dólar fraco. Mas que ajuda os governos quando a temperatura dos preços ameaça ficar alta demais. E que se lasque o futuro do país.

Ilusionismo
Alguém com tempo para desperdiçar deveria fazer a lista do número de vezes que as autoridades econômicas vieram a público para garantir que, agora sim, o governo tinha adotado medidas suficientes para conter a valorização do real.

Mas isso não chega a ser notícia. Inclusive porque repete um padrão. Na crise de 2009 era habitual as autoridades virem aos microfones para prometer um crescimento de pelo menos 4%. No fim o número veio negativo, retração.

No Brasil, infelizmente, a regra não é as autoridades econômicas dizerem o que está acontecendo. Mas o que elas gostariam que nós acreditássemos que está acontecendo.

JOSÉ PAULO KUPFER - E se não for o que parece?


E se não for o que parece?
JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S. Paulo - 27/07/2011

Não é surpresa a confirmação da escalada dos investimentos estrangeiros no Brasil, agora atualizada pelo Banco Central com os números do fechamento do primeiro semestre. O forte fluxo de entrada de capitais externos pode ser explicado pela resultante de duas forças que operam no mesmo sentido: de um lado, a alta liquidez internacional e a restrição de oportunidades nos mercados mais maduros; de outro, o mercado interno brasileiro ainda pujante e a grande diferença entre as taxas de juros pagas no Brasil e as oferecidas na maior parte das outras economias.

Há um inegável movimento de arbitragem de taxas de juros - ou seja, aplicações que objetivam, na essência, ganhar dinheiro no mercado brasileiro, que oferece altos rendimentos relativos a recursos obtidos a baixo custo em outros mercados. A imposição de alíquotas crescentes do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre essas aplicações não tem sido suficiente para conter o ímpeto dos investidores.

Mas há também um terreno mais pantanoso, por onde escoa um volumoso conjunto de investimentos estrangeiros, genericamente classificados como diretos. Em teoria, e na nomenclatura oficial, esses investimentos se destinam à produção e, portanto, não são atraídos pelas facilidades conjunturais do mercado financeiro, mas por oportunidades setoriais, de maturação em prazos mais longos, oferecidas pela economia real.

Tais recursos externos ingressam no País como investimento direto, sofrendo menor tributação. Mas não há, pelo menos com base no atual sistema de fiscalização do Banco Central, como saber o que acontece com eles depois que caem no caixa das empresas que os angariam. O BC não controla os caminhos do dinheiro depois do seu registro de entrada, feito por declaração eletrônica voluntária do investidor.

Assim, os investimentos estrangeiros diretos (IED) podem mesmo ser usados como tijolo e cimento para expansão da produção ou aplicados na compra de ativos locais já existentes, atividades a que estão convencionalmente associados. Mas podem também passear um tempo pelo mercado financeiro, enquanto os planos de expansão se desenvolvem ou, simplesmente, ficar por lá, ganhando na arbitragem de taxas.

A enxurrada de IED em direção ao Brasil, reforçada pelos números exuberantes do primeiro semestre, tem alimentado a suspeita de que uma parte dos crescentes investimentos estrangeiros diretos se mistura com investimentos no mercado financeiro. A dúvida é compartilhada por especialistas de prestígio internacional, caso do economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard. O BC, no entanto, mesmo sem dispor de mecanismos de controle mais rigorosos, repele a suspeita.

ROLF KUNTZ - A inundação continua


A inundação continua
ROLF KUNTZ
O Estado de S. Paulo - 27/07/2011

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, acena com novas medidas para conter a valorização do real, enquanto dólares continuam jorrando e levando na enxurrada o poder de competição da indústria nacional. Na segunda-feira, a cotação da moeda americana chegou a R$ 1,543, o nível mais baixo desde o começo de 1999, quando o governo foi forçado a mudar a política de câmbio. Ontem, no meio da tarde, a cotação havia caído para R$ 1,535. Horas antes, o Banco Central (BC) havia divulgado o balanço de pagamentos do primeiro semestre. O déficit de US$ 25,45 bilhões nas transações correntes havia sido coberto com enorme folga pelo superávit de US$ 67,03 bilhões na conta financeira e de capital. A maior parte desse valor correspondeu a investimento direto: US$ 42,7 bilhões em termos líquidos, 15,7% acima do valor de um ano antes.

O Brasil tem recebido muito dinheiro para todas as finalidades. Parte corresponde a endividamento adicional, porque muitas empresas têm procurado no exterior financiamento mais barato que o disponível no País. As aplicações em carteira diminuíram, passando de US$ 22,79 bilhões, no primeiro semestre do ano passado, para US$ 14 bilhões, entre janeiro e junho deste ano, provavelmente por causa das barreiras impostas pelo governo. Mas o volume continuou apreciável. Em contrapartida, houve aumento de US$ 5,79 bilhões no investimento direto.

Ninguém sabe se toda aplicação listada nessa rubrica foi destinada, de fato, ao setor empresarial. Há meses, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, Olivier Blanchard, levantou a suspeita: dinheiro especulativo poderia estar sendo simplesmente maquiado por causa da barreira tributária. Não há confirmação dessa hipótese, segundo o BC. Mas quem controla o uso efetivo desses dólares?

O Brasil foi, no ano passado, o 5.º principal destino do investimento direto estrangeiro, segundo relatório da Organização das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), divulgado ontem. Nos quatro primeiros postos ficaram Estados Unidos, China, Hong Kong e Bélgica. Em 2009 o Brasil havia sido o 15.º. Em 2011 deve ficar novamente numa posição destacada.

O ingresso de capitais no Brasil é explicável em boa parte pelo tamanho da sua economia, pelas perspectivas de crescimento e pela resistência à crise internacional. Mas os juros, entre os mais altos do mundo, e as possibilidades de ganhos especulativos em curto prazo são sem dúvida importantes fatores de atração. Sejam quais forem as motivações, o efeito sobre o câmbio é a valorização do real. A esses fatores tem-se acrescentado a insegurança internacional em relação ao dólar, agravada pelo risco de calote da dívida americana. Não há perspectiva, por enquanto, de uma reversão de tendência. Mudanças, no entanto, podem ocorrer de forma inesperada, e o BC tem alertado para esse risco os tomadores de empréstimos em moeda estrangeira.

Antes de uma reversão, a maior parte dos produtores brasileiros tem de enfrentar outras ameaças. Segundo a Confederação Nacional da Indústria, o déficit comercial do setor de transformação deve aumentar de US$ 33,5 bilhões em 2010 para US$ 51,1 bilhões neste ano. Em 2007, quando a valorização cambial começou a tomar impulso, a indústria de transformação ainda fechou o ano com um superávit de US$ 19,5 bilhões.

Por causa do câmbio e de várias outras desvantagens - até mais importantes no longo prazo -, a indústria nacional é impedida de aproveitar mais amplamente as oportunidades criadas pelo dinamismo do mercado interno. O emprego vai bem, as famílias estão otimistas e pretendem comprar mais nos próximos meses, segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas. O Índice de Confiança do Consumidor atingiu em julho o recorde de 124,4 pontos. A alta mensal, 5,4%, foi a maior desde janeiro de 2006. A intenção de compra de bens duráveis é menor que a de novembro, o pico da série, mas continua elevada. A notícia pode ser boa para a indústria nacional, mas é ainda melhor para a estrangeira, convidada especial para a festa do consumo.

Não há nada errado no aumento de importações, quando a economia cresce. Mas muita coisa vai mal quando a indústria do país perde espaço por causa de um desajuste cambial excessivo e de problemas de competitividade há muito conhecidos e nunca resolvidos. Boa parte desses problemas está ligada à ineficiência e à incontinência do gasto público e a duas de suas contrapartidas - tributação excessiva e de baixa qualidade e juros muito elevados. Se a demanda interna, ainda aquecida e reforçada pelo gasto público, resultar em mais inflação, o problema dos juros será agravado. O do câmbio, também.

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO - Mundo que vai, mundo que volta


Mundo que vai, mundo que volta 
ROBERTO POMPEU DE TOLEDO
REVISTA VEJA

Não é todo dia que se assiste a uma página virada na história do mundo. O modesto estado americano de Indiana (modesto em termos da federação a que pertence) começará a virá-Ia a partir do início do próximo ano letivo, em setembro, quando suas escolas deixarão de ensinar obrigatoriamente a letra de mão aos alunos. Há algum tempo corre nos Estados Unidos o debate sobre a utilidade de ensiná-la. O tempo aí empregado seria mais bem aproveitado em disciplinas hoje mais pertinentes, a começar pelo manejo do teclado do computador. Mas Indiana é o primeiro estado a tomar a medida oficial, por meio de instrução às escolas. Obrigatório será o ensino do teclado. A letra de mão, que também atende pelo bonito nome de cursivo, com origem em "correr" e "corrente", terá ensino facultativo. Ela hoje corre bem menos, coitada. e é bem menos corrente que os caracteres do computador.

O cursivo, como até os chimpanzés saberiam prever, foi atropelado impiedosamente pela eletrônica. Que as cri.anças precisam familiarizar-se desde cedo com o computador é ponto pacífico. Discutível é se o abandono do cursivo trará perdas às novas gerações. Especialistas acenam com possível involução na capacidade motora e na coordenação entre olho e mão. Outros pergutam como as crianças de hoje assinarão os cheques que as esperam na vida adulta - se é que ainda haverá cheques, e se é que algum truque digital não virá a substituir as assinaturas.

A máquina de escrever já foi um golpe na letra de mão. A rigor, a prensa de Gutenberg, muito antes, já fora um golpe. Mas nenhum deles acertou em cheio. O computador sim, com seu avanço totalizante sobre a vida. A morte do cursivo pode resultar no fenômeno, inédito na história, de uma criança de hoje não conseguir ler o que o pai escreveu na escola, ou numa cana, ou num diário. Aqueles traços redondos como argolas, inclinados para a direita como matagal ao vento, engatados uns aos outros como vagões de trem, que diabos seriam? O cursivo difere bastante da letra de fôrma. O filho achará que o pai escrevia em árabe.

A ilegibilidade de um texto em letra de mão não é ocorrência nova na história. Documentos do século XVI só os paleógrafos são capazes de decifrar. Mas sempre se passou um tempo considerável, até que uma maneira de escrever caducasse aos olhos dos vindouros. O que se desenha de inédito no horizonte é o fenômeno se dar no espaço de apenas uma geração. Os avanços tecnológicos têm ocorrido velozmente, mas corte tão nítido e abrupto, a erguer-se como muro generacional intransponível, ainda estava por vir. É um mundo que vai embora.

O mundo que volta, quem o traz é o comandante Hugo Chávez. É o mundo dos reis cujas doenças eram escondidas do povo - afinal eles tinham parte com os deuses, que não ficam doentes - ou, se as revelavam, o faziam só em parte, sem especificarlhes a natureza nem a gravidade. Vá lá, o presidente eleito Tancredo Neves e seus médicos tentaram esconder a doença que o acometia, e os presidentes franceses também têm, ou tinham, como norma não dar satisfações ao público quanto a esse item. Mas o Brasil se corrigiu. O linfoma da então candidata DiLma Rousseff foi noticiado ao primeiro momento. E mesmo na França, onde os presidentes Georges Pompidou e François Mitterrand disfarçaram os respectivos cânceres enquanto puderam, dificilmente o mesmo procedimento se repetiria. No mundo democrático fixa-se a doutrina de que entre as obrigações do mandatário inclui-se a de dar conta ao eleitorddo de seu estado de saúde.

De novo podemos invocar os chimpanzés. Até eles saberiam dizer por que Chávez não veio se tratar no Brasil. Aqui, o segredo da doença não duraria 24 horas. Cuba oferece as ideais condições de censura - ou de encarceramento, se preciso for - para a manutenção de um segredo. Restam, como sempre ocorre, as especulações. A mais radical é a de que não haveria doença alguma. Estaria em curso uma farsa, com o fim de preparar uma suposta vitória sobre a suposta doença que revelaria a força invencível do líder. Outra é a de que se trata de câncer de próstata, e nesse caso o chimpanzé, agora travestido de especialista em psicologia dos caudilhos, interpretaria o caso a partir da constatação de que cirurgia da próstata pode resultar em esterilidade ou mesmo impotência. Ora, como um líder de tão másculas virtudes, herói do povo e salvador da pátria, se arriscaria a ser visto como estéril? Ou IMPOTENTE?

ANCELMO GÓIS - PIB dos mendigos

PIB dos mendigos
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 27/07/11

Acredite. Ontem, por volta de 9h30m, na Padaria Martinica, na Rua Visconde de Pirajá, em Ipanema, um mendigo que pagava seu pão na chapa e seu cafezinho pingado, ao reparar a curiosidade em volta, disse: — Brasileiro está com dinheiro. Até mendigo está comendo.

Dilma e Pelé
O ministro Orlando Silva avisou na véspera a Ricardo Teixeira que Dilma nomearia ontem Pelé embaixador honorário do governo para a Copa de 2014. O presidente da CBF e Pelé sempre andaram às turras. 

Ricardo e Pelé...
Ricardo Teixeira disse que entende a situação e foi além. Ligou para Pelé e o chamou para se juntar ao trabalho da Comissão Organizadora. 

Londres e Rio...
Por causa disso, Pelé cancelou um compromisso em Londres e estará sábado no sorteio dos grupos da Copa, no Rio. 

Aliás...

Seria absurdo Pelé, o maior ídolo do futebol, ficar de fora de uma Copa no Brasil. 

Vítima da ditadura
Hoje, o TJ-SP ouvirá testemunhas de acusação no caso em que o coronel Brilhante Ustra é processado pela morte do jornalista Luiz Eduardo Merlino na ditadura. Já Sarney é testemunha de defesa do ex-diretor do DOI-Codi. É outra tentativa de enquadrar Ustra, embora militares acusados de tortura se sintam protegidos pela Lei da Anistia. 

Tem culpa eu?

Depois que capítulos de “Insensato coração”, da TV Globo, começaram a vazar à imprensa, Gilberto Braga e Ricardo Linhares bolaram uma pegadinha. Agora, os autores da novela misturam aos textos diálogos que nunca serão gravados. 

Grande família
Novo round na disputa societária da família Geyer, que já foi dona de um potentado grupo petroquímico. O juiz Thomaz de Souza e
Melo, da 5a- Vara Cível do Rio, arrestou R$ 15 milhões do patrimônio de Alberto Geyer, além de todas as suas ações na Vila Velha, holding da Unipar. 

É que...
Alberto Geyer é acusado de “transferir indevidamente apartamentos, automóveis e dinheiro em espécie para duas empresas de sua propriedade”. O objetivo do “desvio” seria “não ressarcir a Vila Velha pelo prejuízo de R$ 35 milhões causado por dívida contraída à época em que presidia a Unipar”. 

Dona Lindu
Cabral levará Lula amanhã para conhecer o Hospital Dona Lindu, em Paraíba do Sul, RJ. O nome é homenagem à falecida mãe do ex-presidente. 

Retratos da vida

Lamento da grande cantora Dóris Monteiro, 76 anos, em plena forma, ao ser aplaudida de pé num show no Centro Cultural dos Correios, no Rio, em que festejava 60 anos de carreira: — Foi bom, mas este é o único show que fiz nos últimos três meses. Ninguém me chama mais para trabalhar. 

Pior...
O fato machuca Dóris e envergonha a cultura brasileira. Nossa talentosa cantora, acredite, pensa em torrar suas joias no penhor da Caixa Econômica para sobreviver. 

Disco furado 
A 11a- Câmara Cível do Rio condenou a EMI Music a indenizar em R$ 60 mil os músicos Wladimir Pinto, Sérgio Diab e Bruno Barreto, contratados para fingir que tocavam enquanto uma música pré-gravada era executada no show do grupo RBD, no Maracanã, em 2006.
A apresentação passou na TV e virou DVD sem remuneração ou autorização dos três. 

Troca de tijolo

A Rádio Cimento diz que o dono de uma construtora carioca, de gestão familiar, está para passar o controle do negócio a uma concorrente paulista. 

Culpa da vítima 

Na madrugada de quinta, um jovem casal foi agredido na Rua Prudente de Morais, em Ipanema,
por três assaltantes. Os jovens saíram com alguns ferimentos. Mas pior foi o que ouviram do delegado na 14a- DP: — A culpa é de vocês por andarem ali àquela hora.

ILIMAR FRANCO - O lobby do jogo

O lobby do jogo 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 27/07/11

A bancada do jogo voltou à carga e está se articulando para tentar legalizar cassinos, bingos e o jogo do bicho no país. Na expectativa de seduzir o governo Dilma Rousseff, governadores e prefeitos estão sugerindo que a receita da jogatina, estimada em R$ 10 bilhões, seja toda ela vinculada aos gastos da União, de estados e de municípios com a Saúde. O financiamento do setor, desde o governo Lula, tem sido um entrave à votação da Emenda 29.

Os planos de guerra do Brasil

Alguns dos segredos mais delicados do país estão sendo reciclados, tendo em vista a nova legislação, ainda para ser aprovada no Senado, sobre o acesso aos documentos históricos classificados como secretos e ultrassecretos. Ocorre que num passado não muito distante, as Forças Armadas brasileiras fizeram exercícios nas fronteiras simulando a invasão de países vizinhos. A revelação desses fatos poderia provocar constrangimento e estremecimento de relações. Para evitar que isso ocorra, por sugestão de um alto executivo do governo, essa documentação está sendo revisada e reescrita. Não constará mais dos informes o nome do país alvo, mas letras: “B, N, C...”.

"Chamo estas leis de fascismo higiênico” — Paulo Portas, ministro de Negócios Estrangeiros de Portugal, sobre leis que proíbem fumar em locais públicos fechados

PRESSÃO. A presidente Dilma cobrou ontem do presidente da Federação Brasileira de Bancos, Murilo Portugal, o financiamento de bolsas de estudo para jovens brasileiros no exterior. “Ô, Mantega, o Murilo Portugal ainda não apresentou o número de bolsas da Febraban. Logo ele, que foi bolsista”, disse Dilma para o ministro Guido Mantega (Fazenda), na frente de Portugal, logo após a reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social. “Nós vamos oferecer as bolsas”, respondeu ele.

No laço
Ao subir ontem a rampa interna do Planalto, após reunião do Conselhão, e ver que o ministro Guido Mantega (Fazenda) tinha ficado para trás, conversando, a presidente Dilma mandou, com ar contrariado, um segurança ir buscá-lo.

Pré-candidatos
Na Esplanada dos Ministérios, além do ministro Fernando Haddad (Educação), Iriny Lopes (Política para Mulheres) também tem planos eleitorais para o ano que vem. Ela quer ser a candidata do PT à prefeitura de Vitória (ES).

O terror americano
Empresários, banqueiros e sindicalistas que participaram ontem da reunião do Conselhão, em Brasília, nas conversas paralelas, tinham uma só preocupação: a situação política e econômica dos Estados Unidos. Estão apreensivos com seus efeitos no Brasil e no mercado mundial. A presidente Dilma também está cautelosa. Na semana que vem, ela pretende colocar o ministro Guido Mantega (Fazenda) para passar um panorama para os líderes aliados.

Submerso

Depois de confirmar presença no casamento do deputado João Carlos Bacelar (PR-BA), sexta-feira, em Salvador, o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP) desistiu de ir para evitar constrangimentos. Ele está atolado no escândalo do Dnit.

Exceção
O ex-deputado Paulo Rocha (PT-PA) contesta que tenha um escritório na Câmara e sugere que seria comum haver salas de bancadas
estaduais na Casa. A Presidência da Câmara informa que somente o Pará tem esse privilégio. 

 O MINISTRO dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Paulo Portas, teve a mala extraviada na África do Sul. Ontem, ao chegar a Brasília, foi a um shopping comprar roupas para usar nos compromissos oficiais.
 FAXINA. Do líder do PSDB, deputado Duarte Nogueira (SP), sobre a crise nos Transportes: “O afastamento não esgota o assunto. Temos que analisar a punição dos acusados e o ressarcimento dos cofres públicos.”
● RECÉM-ELEITO presidente da UNE, Daniel Iliescu se reuniu com o presidente da Embratur, Flávio Dino. Os dois são do PCdoB. Na pauta, a promoção do Brasil como destino de intercâmbio.