domingo, fevereiro 13, 2011

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

A sina do Nilo
SONIA RACY
O ESTADO DE SÃO PAULO - 13/02/11

Depois dos faraós, que caíam do trono por morte -fosse ela natural ou por assassinato- e das dominações, o Egito deu início a uma safra de ciclos, digamos assim, "duradouros". Primeiro em 1923, com o rei Farouk, que abdicou 30 anos depois sem conseguir deixar seu filho Fuad, de um ano, no trono. Daí entrou o movimento nacionalista, costurado por Abdel Nasser. Foram 17 anos até sua morte, em 1970. Seu vice, Anuar Sadat, assumiu, e lá se foram mais 15 anos até ele ser... assassinado. O vice Mubarak subiu e agora caiu, três décadas depois... ao tentar indicar seu filho para sucessão. Decifra-me. Que eu te devoro do mesmo jeito.

Estranha, a política
Maurício Ceschin, da Agência Nacional de Saúde, anda incomodando a ala radical do PT. Pelo seu trabalho bastante técnico na casa.

PensataO Fronteiras do Pensamento avisa: trará para o País, em maio, três laureados com o Prêmio Nobel.

Não adiantou nada
Andreas von Richthofen bem que tentou incluir Suzanne na partilha de bens dos pais. Fez isto no meio do processo instaurado por ele mesmo para excluí-la da herança. A mudança de posição do moço não foi aceita pela Justiça.

CadênciaRoberto Carlos está pronto para cair no samba. Depois de dois meses de tratamento com Linamara Batistella, fisiologista, o cantor está com a perna 100% recuperada. O "rei" sofreu acidente de moto no fim do ano passado.

Fernando Prado, designer, tem o que comemorar. Com 40 anos, pode se considerar um dos brasileiros mais premiados em seu métier. Ganhou nada menos que 12 prêmios iF Design - três somente neste ano. O iF é alemão e uma espécie de Oscar da área. Além disso, os próprios pares escolhem o vencedor. E qual o diferencial de Porto? "Acredito que tem a ver com a mobilidade de uso das minhas luminárias", arrisca. Uma das mais conhecidas, a Bossa, por exemplo, possibilita o controle da intensidade e do efeito de luz. Viva o Brasil!

Responsabilidade social
O Mercado Livre fez as contas. O seu programa Mercado Solidário - que permite que instituições sem fins lucrativos ofereçam produtos na plataforma com isenção de tarifas - teve adesão de 70 novas empresas. Que se somam a outras 250 que já aderiram ano passado.

O Projeto Guri, programa de iniciação musical do Estado de São Paulo, avisa: as inscrições estão abertas até dia 28. Tudo para acomodar 8 mil estudantes de 6 a 18 anos.

O restaurante Praça São Lourenço decidiu. Vai ceder até o fim do mês uma parcela da arrecadação de seus almoços dos sábados e domingos para a APAE.

O Grupo Suzano e Instituto Ecofuturo doaram 500 exemplares do livro Uma Trajetória Ambientalista - Diário de Paulo Nogueira Neto para o Programa São Paulo: Um Estado de Leitores. Essas doações seguirão para bibliotecas municipais e têm como objetivo promover o hábito da leitura e a democratização do acesso à informação.

A mineradora Rio Tinto doará R$ 450 mil para auxiliar na reconstrução da região serrana do Rio. E ajudará a oferecer atendimento psicológico para 600 crianças por meio de parceria com a Abrinq.

A Orquestra Instituto Grupo Pão de Açúcar, projeto social da empresa, apresenta-se na Hebraica dia 20. Regência? Daniel Misiuk. E é de graça.

Está saindo do forno a Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade. Será lançada oficialmente no fim do mês com debate na ESPM. O tema: Quem é o Profissional da Sustentabilidade?

GOSTOSA

DORA KRAMER

Vice-presidencialismo

DORA KRAMER 

O Estado de S.Paulo - 13/02/11

Michel Temer não é exatamente o vice-presidente dos sonhos do PMDB: sua atuação está alguns tons abaixo do que desejariam seus correligionários mais afeitos ao jogo pesado da pressão direta sobre a Presidência da República.

Talvez atue também alguns tons acima do que seria o esperado pelo PT ou qualquer outro partido que detenha o poder, porque foge ao figurino tradicional da invisibilidade do cargo e inaugura o ativismo vice-presidencial.

Presidente da Câmara duas vezes, presidente do PMDB de direito por quase uma década e, de fato, ainda no posto, Temer não "desencarnou" do passado. Investido na nova função há pouco mais de 40 dias, nada indica que pretenda desencarnar.

Sentado em seu gabinete no anexo 2 do Palácio do Planalto - onde além das visitas protocolares sempre reinou a mais absoluta calmaria - na tarde em geral inútil de quinta-feira à tarde, Temer discorre sobre a estratégia governista para a votação do valor do salário mínimo e tropeça no ato falho: "Quando o projeto chegar aqui...", começa, logo interrompido pela lembrança de que "aqui" na realidade é "lá", na Câmara.

"Tenho saudade daquela agitação, daquela bagunça organizada, do entra e sai." A contar pela agenda daquela dia, razão nenhuma para nostalgia: minutos antes haviam saído dali os ministros Antonio Palocci e Luiz Sérgio e os líderes do PMDB na Câmara e no Senado para fechar um armistício com base na divisão de cargos do segundo escalão federal.

Tudo em paz? "Enquanto houver espaços em disputa, os partidos vão lutar. Não podemos é deixar que o conflito seja permanente", diz, revelando uma de suas funções: administrador de distúrbios na "base".

Outra: regimentalista da plantão. Foi dele a ideia de mandar o reajuste do mínimo por projeto de lei e não por medida provisória, recorrendo a uma interpretação da própria autoria quando presidente da Câmara, segundo a qual assuntos que não possam ser tratados em MPs não trancam a pauta.

Incluiu-se, então, no projeto de lei um dispositivo de natureza penal relativo a dívidas com a Receita que se enquadra naquele caso e tudo resolvido. "Por medida provisória a vigência seria imediata, mas como o mínimo entraria na fila atrás de outras 22 medidas, o governo ficaria uns três meses sendo contestado pelas centrais sindicais."

E já que o governo desistiu de patrocinar a reforma política, o vice-presidente aproveita a brecha para, "em caráter pessoal", articular uma proposta de reforma política a ser apresentada à Câmara talvez já nesta semana.

É uma adaptação ampliada do voto distrital: considera-se o Estado todo um distrito e se elegem os mais votados levando em conta o número de cadeiras à disposição. Por exemplo, em São Paulo são 70 vagas e, portanto, se elegeriam os 70 candidatos mais votados.

Temer já recebeu naquele gabinete do anexo 2 o presidente da OAB, Ophir Cavalcanti, e conseguiu convencê-lo de que a mudança, além de firmar a supremacia do princípio da maioria, tem outras vantagens: "Reduz o número de candidatos, acaba com as coligações, diminui o número de partidos e estabelece um sistema mais facilmente compreendido pelo eleitor."

Enquanto cuida de manter ativa a agenda nacional, Michel Temer não descuida das questões partidárias locais: dissolveu os diretórios do PMDB de São Paulo depois da morte de Orestes Quércia e assumiu o controle.

Aguarda a filiação do prefeito Gilberto Kassab, com quem tem mantido conversas frequentes, mas avisa que isso não significa cessão de poderes. "Kassab poderá ser um parceiro no comando da sucessão municipal, mas não o comandante porque o PMDB não aceitaria."

Portanto, uma das condições impostas pelo prefeito está fora de cogitação. E a outra, apoiar José Serra em caso de futura candidatura?

"Kassab será muito bem recebido, mas quem decide sobre alianças e candidaturas é o partido." Quer dizer, a chefia não está disponível.

Egito. O povo quando quer e se empenha, ganha sempre.

CELSO MING

A China na alça de mira

CELSO MING 

O Estado de S.Paulo - 13/02/11

Por várias razões e, às vezes, por nenhuma, governo e empresários estão engasgados com a China. Pregam o fim da passividade diante do que entendem por concorrência predatória e desleal, mas fora das diatribes verbais, não sabem o que fazer.

Quando denunciou a existência de uma guerra cambial, por exemplo, o ministro Guido Mantega tinha como alvo preferencial o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), que despeja moeda emitida nos mercados, desvaloriza o dólar e encharca as economias emergentes com avalanches de recursos. Como, no entanto, o yuan chinês está amarrado ao dólar e flutua com ele, também fica seriamente incomodado com a superdesvalorização da moeda chinesa e seus efeitos sobre o comércio do Brasil. Tanto é assim que o secretário do Tesouro americano, Tim Geithner, identifica em Mantega um importante aliado para pressionar a China por uma revalorização do yuan.

O ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, quer mais defesa comercial contra a invasão de produtos chineses. Mas, se fosse possível abrir mil processos antidumping e barrar importações da China com tarifas aduaneiras superiores a 35% (o que é proibido) e demais instrumentos burocráticos, ainda assim, é improvável que se consiga deter a entrada de produtos chineses. Eles chegariam disfarçados sob outra bandeira. De mais a mais, a Receita Federal não dá conta de inspecionar nem 20% das cargas que chegam ou que saem dos portos brasileiros.

Desde o governo Lula as autoridades da área fundiária pedem providências contra investimentos chineses em mineração e terras agricultáveis. Também o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson de Andrade, quer barrar os investimentos que tiram do jogo o produto brasileiro, mas não foi capaz de apontar instrumentos que não caracterizassem perversa reserva de mercado.

Um levantamento da própria CNI indica que 67% dos empresários brasileiros reclamam que seu produto está sendo alijado pela entrada de mercadorias chinesas a preços que não passam de uma fração dos praticados pela indústria local.

Uns depois dos outros, autoridades, empresários e sindicalistas querem barrar os chineses sob o argumento de que atropelam tratados da Organização Internacional do Trabalho, pagam salários ínfimos a trabalhadores submetidos a até o dobro da carga horária, que quase não têm férias e não recolhem contribuições previdenciárias. Mas como acusar esse regime trabalhista se, apesar dos salários de fome, o chinês ainda poupa 51% do que ganha? O problema é que essas condições mais a capacidade de manter o câmbio onde querem também podem ser consideradas vantagens comparativas dos chineses, portanto, dentro das regras.

Não só no Brasil, mas em todo o Ocidente, os produtores estão gravemente incomodados com a agressividade comercial da China. E sabem qual é uma das principais razões pelas quais ninguém consegue enquadrar os chineses? Ora, porque na China estão todas as multinacionais ganhando muito dinheiro. Estão lá a GM, a DuPont, a Procter & Gamble, a Nestlé, IBM, a Microsoft, a Matel... Engana-se demais o empresário e tantos outros que estão com a China entalada na garganta. O produto que chega aos portos brasileiros com etiquetas "made in China" é, mais que tudo, produzido pela GM, pela DuPont, pela Procter & Gamble... Então é para atacar para valer essas fortalezas?

GOSTOSA

GAUDÊNCIO TORQUATO

O canto desafinado das oposições

GAUDÊNCIO TORQUATO 

O Estado de S.Paulo - 13/02/11

Uma nota de pé de página revela traços do ethos nacional: as máscaras de Tiririca e Dilma Rousseff são as preferidas dos brasileiros para o carnaval; já as máscaras de Serra e Marina são as menos vendidas. A cara de Tiririca, o palhaço que se elegeu deputado, e a de Dilma, a técnica que se elegeu presidente da República, deverão ser as mais vistas na folia carnavalesca. A explicação? Ambos expressam atributos que emolduram o jeito de ser do brasileiro: a improvisação, o deboche, a irreverência, de um lado; a identificação com o poder, a opção pelos vitoriosos, de outro. Tiririca encarna a índole bagunceira e pouca afeita à formalidade; já a mulher presidente, além de ser a novidade da estação, projeta a ideia de força e de mando, de respeito e autoridade, valores reconhecidos nos perfis que detêm competência (e tinta na caneta) para nomear, demitir, decidir, ordenar. Puxar personagens com esse estofo para os salões da folia é dar vazão ao sentimento das ruas. O deputado e a presidente representam, portanto, o verso e o reverso, o poder informal e o poder formal, conjuminados na ampla radiografia da nossa cultura.

Se as máscaras do ex-governador de São Paulo José Serra e da ex-senadora Marina Silva abarrotam estoques, não é por serem feias ou bonitas, bem desenhadas ou extravagantes, mas porque ambos perderam as eleições. O caleidoscópio da paisagem desenhada pelo povo nada mais é que um desfile de personagens e suas representações. Assim, quem perdeu posição na política fica fora de foco, com exceção de quem consegue pular na gangorra, subindo e descendo, como Geraldo Alckmin, por exemplo, ou de figurantes que furam a névoa do tempo, como José Sarney e Paulo Maluf, cujas máscaras continuam à disposição em qualquer loja do ramo. O que tem chamado a atenção, porém, é a pequena atração exercida ultimamente por Serra, seja no mostruário das máscaras, seja no próprio palco da política. A sensação é de que o ex-candidato a presidente se encontra, agora, num patamar exageradamente baixo no ranking da influência. Ou, em outras letras, atende no balcão de fundo. O que teria acontecido para distanciamento tão acentuado, considerando que, mesmo derrotado no último pleito, chegou a ter quase 44 milhões de votos? Tentemos algumas hipóteses, a começar pela onda governista, que, na abertura de ciclos administrativos, invade fronteiras, ampliando territórios e apagando rastros das oposições.

Serra, como se sabe, tem sido o alvo mais impactado pela vitória da candidata petista. Seu afastamento do centro político tem que ver com o ditado "quem é dono da flauta dá o tom". Seu toque é débil. Neste momento, a orquestra tucana parece desafinada ante a regência (precária) de Sérgio Guerra, que pleiteia voltar ao comando do partido. Os acordes mais afinados são dados pelo maestro Fernando Henrique Cardoso, aliás, deixado à margem por ocasião da campanha presidencial, sob o argumento de que poderia ser alvo fácil de bombardeio. O fato é que o PSDB dá sinais de que o perfil em ascensão na floresta tucana e nas hostes oposicionistas é o do senador Aécio Neves, cujo bom desempenho em Minas Gerais (além de sua eleição, contabiliza a vitória do governador Antonio Anastasia e a do senador Itamar Franco) o habilita a ser o principal jogador no tabuleiro de 2014. E é fato também que o PSDB atravessa uma das curvas mais fechadas de sua trajetória. Mais que uma disputa envolvendo lideranças, o partido vive uma crise de identidade. Ao longo dos anos foi forçado a repartir o escopo da social-democracia com outras siglas, incluindo o PT. Desde que foi criado, em 1988, sempre circulou pelo meio da pirâmide - classes médias, profissionais liberais, núcleos acadêmicos e formadores de opinião -, nunca frequentando as margens. Ganhou, com alguma razão, o selo de partido elitista.

É visível o esforço do ex-presidente FHC para oferecer um norte aos tucanos desorientados. Basta ler a orientação tática e estratégica que o ex-presidente fornece nas pistas dos temas prioritários e formas de atuação política, objeto de seu artigo Tempo de muda, neste jornal (6/2). Abrir o verbo e falar forte, conforme sugere o sociólogo à oposição, seria, afinal de contas, bom conselho? Ou será que faltam interlocutores e ouvintes? Montaigne dizia que o poder da palavra pertence metade a quem fala e metade a quem ouve. Donde se pinça a dúvida: quem está motivado a ouvir a mensagem da oposição? Os milhões de eleitores que votaram em Serra continuam fiéis a ele? É sabido que a mudança no campo da adesão eleitoral é intensa, principalmente num país de comportamento volúvel como o nosso. Os votos de ontem podem já não ser os de hoje, seja por causa da atração fatal exercida pelo governismo, seja pela identificação do povo com os novos condimentos adicionados ao tempero social. A maioria da população parece contente com os novos ares, sob o abrigo social agora administrado pela nova governante. Por conseguinte, o anzol oposicionista não consegue fazer boa pescaria, a não ser fisgar um grupo de peixes que habita o centro da lagoa.

Se as oposições pretendem botar a locomotiva na linha para puxar um trem social mais comprido, hão de arrumar estratégias que abarquem a reorganização partidária, visando, primeiro, ao pleito municipal de 2012. Os primeiros tijolos do edifício político são feitos com o barro dos municípios. E, convenhamos, o PSDB deles está distante, enquanto o DEM definha a olhos vistos. Qualquer projeto de poder sem sólida base municipal equivale a castelos construídos na areia. As querelas internas, por seu lado, estiolam a meta da unidade oposicionista. Por último, a lembrança de que horizontes mais abertos para as forças oposicionistas passam, necessariamente, pelos bons ventos a serem soprados pelas administrações dos dois maiores colégios eleitorais do País: São Paulo e Minas. Desafio maior: seus governantes deverão azeitar intensamente as máquinas para evitar o corrosivo desgaste de material.

JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP, CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

ROBERTO ABDENUR

Obama, o Brasil e o Conselho de Segurança

ROBERTO ABDENUR 

O Estado de S.Paulo - 13/02/11

É usual, no contexto da preparação de visitas internacionais, a troca pela imprensa de "recados" entre uma parte e outra. Serve isso para ventilar desde logo certas tendências ou mesmo posicionamentos já cristalizados quanto à agenda das conversações a se darem durante a viagem. Merece atenção, a esse respeito, matéria saída na edição deste jornal do último dia 8 de fevereiro. Nela a correspondente em Washington afirma que o presidente Barack Obama não quer o Brasil no Conselho de Segurança da ONU (CSNU). Segundo fonte do Departamento de Estado, o Brasil teria cometido um "pecado mortal", uma "burrada", ao se opor às sanções aprovadas pelo conselho contra o Irã. Diante disso, quando da visita ao País, em março, Obama só por "milagre" virá a apoiar o pleito brasileiro por assento permanente no CSNU.

O tema merece detida avaliação, pois não deixa de ter algum impacto sobre o relacionamento bilateral, ainda que não constitua condição sine qua non para avanços que são, por sinal, de profundo interesse para ambas as partes. E porque, para além disso, envolve decisões que dizem respeito a como conseguirá a comunidade internacional melhor se organizar para enfrentar os ingentes desafios que se lhe apresentam em numerosas questões de ordem econômica, ambiental, energética, política e de segurança. Um importante antecedente vem desde logo à baila: abandonando a postura de silêncio sobre a questão da ampliação do CSNU, em sua recente viagem a Nova Délhi o presidente Obama desdobrou-se em loas à Índia, cuja candidatura ao conselho endossou plenamente. E o fez ao formalizar-se inédito acordo de cooperação nuclear entre os Estados Unidos e o país que se tornou potência nuclearmente armada ao arrepio do Tratado de Não Proliferação. Foi a Índia, na ocasião, consagrada como parceira estratégica dos Estados Unidos. Subjacente a esses ousados passos esteve o interesse dos Estados Unidos em respaldar aquele país como contrapeso ao crescente poderio econômico, político e militar da China. Assim é a Realpolitik, há que compreender (como, de resto, fez agora, de sua parte, o governo brasileiro, outrora profundamente crítico da bomba indiana).

O que vem ao caso, com vista à presença de Obama em Brasília, é o fato de que o presidente norte-americano passou a admitir o princípio da ampliação do CSNU - e aí se faz indispensável que Washington proceda a uma cuidadosa, serena e objetiva análise do "caso brasileiro". Para começo de conversa, não faz sentido que, sobre assunto de tão amplas implicações internacionais, se deixe o governo dos Estados Unidos levar pelo inconformismo com o voto brasileiro no caso iraniano. Salta aos olhos que a atitude do governo Lula constituiu fragorosa anomalia, no sentido de que não estava em jogo, no caso, nenhum interesse nacional. Aquela desventurada aventura constituiu grave - mas momentâneo, passageiro - desvio das diretrizes históricas da diplomacia brasileira. Trata-se de episódio isolado e superado, que de modo algum representou alteração de rumos na trajetória do País no plano internacional. O que, sim, vem mudando, e muito rapidamente, na trajetória do País é sua ascensão à condição de ator relevante, em não poucos casos até decisivo, ao largo do amplo espectro de problemas internacionais (e globais) cujo encaminhamento está a exigir pronta reconfiguração dos sistemas decisórios nas Nações Unidas e em outros foros.

É preciso que os Estados Unidos reconheçam, na devida medida, a virtual singularidade do que chamo de "caso brasileiro". Diferentemente da Índia - e da China, e da Rússia, e dos próprios Estados Unidos -, é o Brasil o único país de dimensões continentais, vultosa população e grande e dinâmica economia a situar-se fora (e até longe) dos contextos de tensão geopolítica que marcam outras regiões do mundo. Será que os Estados Unidos estariam agora adotando como critério para seu apoio a uma entrada no CSNU a posse da bomba? Se assim for, o Brasil decididamente não terá jamais títulos para um assento permanente no conselho (nem o terão outros candidatos fortes, como a Alemanha e o Japão). O que singulariza o Brasil é, ao contrário, o fato de viver em região privilegiadamente pacífica, livre de armas de destruição em massa e onde praticamente inexistem riscos de conflitos. Esse privilégio foi em não pequena medida o fruto de mais de um século de hábil e lúcida diplomacia, de resto correspondida por nossos vizinhos.

Mas a diplomacia brasileira nunca esteve confinada ao Hemisfério ou à América Latina. Mesmo antes de lograr a estabilidade democrática e o vigor econômico que agora usufrui, teve desde sempre o Brasil voz ativa e considerável influência nos debates sobre questões de comércio, economia e finanças, desarmamento, não proliferação e variadas outras questões envolvendo a paz e a segurança internacionais. Muito concretamente, tem atuado como bridge builder entre diferentes regiões e fator de conciliação e entendimento em múltiplos foros de toda ordem. Obama, ainda que seguramente popular em nosso país, não é santo nem precisa fazer "milagres" na visita a Brasília. Basta-lhe refletir mais detidamente sobre o que significa - e cada vez mais significará como ator decisivo no plano internacional - o Brasil como economia, nação e Estado. Tal reflexão deveria incluir, no plano propriamente bilateral, a constatação de que houve em anos recentes uma mudança na natureza mesma do relacionamento Brasil-Estados Unidos. Uma nova dinâmica, de crescente mutualidade, vai criando fortes vínculos de entrelaçamento e interdependência: do que decorre substancial ampliação da área de convergência e entendimento, por sobre diferenças pontuais de pontos de vista. A conclusão lógica de uma tal reflexão será o reconhecimento de que o endosso à candidatura brasileira ao conselho só faz consultar os melhores interesses da comunidade internacional - aí incluídos, claro está, também os dos Estados Unidos.

DIPLOMATA, FOI EMBAIXADOR DO BRASIL NOS ESTADOS UNIDOS

NÃO SABE

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Engrenagem
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11

Os múltiplos interesses favoráveis à abertura de uma janela para trocas partidárias dão ao Congresso o combustível que faltava para a largada da reforma política. Deputados e senadores consideram escassa a possibilidade de aprovação da brecha para mudança de legenda desvinculada de uma revisão mais ampla do arcabouço legal que rege as eleições.
Se divergem quanto à forma e aos prazos, dirigentes das siglas com maior musculatura concordam que a janela teria pouco efeito prático e alto risco jurídico se não forem mudadas também as regras para composição do fundo partidário e partilha do tempo de TV.

Mais simplesMesmo com a convergência pró-reforma, congressistas criticam a criação de comissões distintas na Câmara -com 80 membros, entre titulares e suplentes- e no Senado. Os que defendem a celeridade dos trabalhos preferem uma comissão mista.

Calculadora 
Poucos acreditam que José Serra venha a sair do PSDB, mas o tucano já foi visto fazendo a conta de quantos correligionários e aliados de outros partidos conseguiria reunir numa nova agremiação.

Por que não?
A quem lhe pergunta se pretende disputar a Presidência em 2014 mesmo na hipótese de o adversário petista ser Lula, e não Dilma, Aécio Neves (PSDB-MG) responde assertivamente e justifica: "Eu não tenho nada a perder". Seu mandato de senador está garantido até 2018.

Qual é... 

Já são vários os casos de grandes empresários que tentaram e ainda não conseguiram ser recebidos por Dilma no Planalto. De tanto insistir, um deles, frequentador do palácio na era Lula, foi aconselhado por auxiliares da presidente a dar um tempo.

...o assunto? 
Resumo feito por um antigo observador dos modos de Dilma: "Ela não recebe pessoas. Ela recebe pautas".

Leite derramado 
No meio sindical, há quem lamente o fato de as centrais não terem se mobilizado para negociar o salário mínimo na transição. Ali haveria a chance de obter o último reajuste gordo de Lula, e não o primeiro magro de Dilma.

Parábolas 
Durante reunião do Fórum de Desenvolvimento Econômico, na quinta-feira passada, a ministra Ideli Salvatti (Pesca) comentou a perspectiva de facão no Orçamento: "Vocês me deram a responsabilidade de cuidar dos peixinhos...". O colega Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia) interrompeu: "O quê? Você já vai reclamar que a vara está curta?".

Ecumênico 
Para além do conflito PT-PSDB, rola uma simpatia do anestesista Geraldo Alckmin pelo sanitarista Alexandre Padilha. O governador de São Paulo já disse a mais de um auxiliar que o ministro da Saúde lhe causa boa impressão.

Makeover 1 
O governo estadual e a Prefeitura de Guarulhos começam a projetar a revitalização do entorno do aeroporto de Cumbica de olho na Copa de 2014. Entre as medidas em estudo estão a remoção de quatro presídios situados na região e a eliminação de submoradias que circundam o terminal.

Makeover 2 
O projeto deverá ser realizado por meio de PPP (Parceria Público-Privada), com o aproveitamento das áreas ao longo da rota que chega à capital para instalações de logística. A ideia é transferir as unidades prisionais para as margens do Rodoanel-Leste.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio
"Punir Roberto Jefferson, que denunciou o mensalão, é o mesmo que enforcar o carrasco no lugar do condenado."
DO DEPUTADO CAMPOS MACHADO, SECRETÁRIO-GERAL DO PTB,
que pretende iniciar "uma grande mobilização" para trazer o presidente do partido, cassado assim como José Dirceu, "de volta à vida pública".

Contraponto

Muito estranho

Recebido por Dilma no Palácio da Alvorada para jantar na quarta-feira, Lula trocou impressões com a sucessora sobre as residências presidenciais -ambos declararam preferir a Granja do Torto- e aproveitou para contar que sua mudança chegou a São Bernardo depois de várias semanas e um tanto bagunçada.
-Veio até terno que não é meu!
E, fazendo cara de desconfiado, completou:
-Eu falei pra Marisa: só falta ser do Ricardão....

VERA CRISTINA GUIMARÃES MARTINS

Ladrão x otário
VERA CRISTINA GUIMARÃES MARTINS
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11
E porque é temporada de estreias, lá está o cidadão tentando ignorar as propagandas enquanto espera o filme começar. Pois é, no cinema a publicidade é obrigatória, não há controle remoto. Mas há filas enormes, sessões esgotadas, impossibilidade de escolher o assento, estacionamento extorsivo, plateia mal-educada.Essa complacência poderia até ter seu seu charme e entrar na conta do figurino culturete se fosse exceção, não regra. A verdade é que, como consumidores, estamos acostumados a pagar muito, literal e metaforicamente, em troca de produtos ou atendimento de quinta.
Pule para a TV a cabo, e o cenário não será melhor. Com a qualidade dos canais abertos, assinar é questão de sobrevivência. E eles têm as séries, que concentram a melhor dramaturgia americana hoje.
O pacote continua tão caro como no começo, embora a publicidade e o número de assinantes tenham crescido. Comerciais autopromocionais são repetidos à náusea, transformando 20 minutos de episódio em meia hora. Proliferam os programas dublados, sem dar ao cliente o direito básico de optar pela legenda.
O calendário é uma incógnita. Por que, em tempo de comunicação on-line, os canais insistem em submeter o cliente a esperas de meses após a exibição nos EUA?
Piratas tornam disponíveis episódios de seriados duas horas depois da exibição em território americano. Em um ou dois dias, dezenas de fãs fazem rapidamente a tradução (com qualidade frequentemente superior à dos canais) e boas legendas, que postam gratuitamente na internet.
Por incrível que pareça, no Brasil são os canais oficiais de distribuição de TV que mutilam a criação original: formato ruim, qualidade visual sofrível, critério de exibição confuso (alguns nem sequer exibem os títulos originais), dublagem que põe a perder a qualidade dos atores.
Quando o produto pelo qual se paga caro é pior do que aquele que se pode obter de graça, qual é a saída?
Apelar para a ética do usuário. É só lembrar a campanha publicitária que mixa apelo e ameaça para dizer que o download ilegal é crime da mesma magnitude que roubar carros ou bolsas. Argumento equivocado, tarefa inglória.
Equiparar o roubo de carros ao hábito doméstico de baixar arquivo não autorizado oferecido na rede não é licença poética, é apelação patética.
No primeiro, conceitos de propriedade, compra e venda, lucro e prejuízo são cristalinos e consensuais. Na pirataria da rede, os contornos são borrados. Não há compra e venda, e o fim não é o lucro, o que alimenta a ilusão de que nada é de ninguém, tudo é de todos.
Desconfio que escorar-se em uma lei ultrapassada para convencer o usuário de que sua alternativa é ser otário ou ladrão não vai funcionar. Respeito talvez desse mais certo.
VERA CRISTINA GUIMARÃES MARTINS é secretária-assistente de Redação

GOSTOSA

AMIR KHAIR

Nós a desatar

AMIR KHAIR 

O Estado de S.Paulo - 13/02/11

Para ir rumo ao desenvolvimento o Brasil precisa desatar vários nós. A inflação é a principal dor de cabeça do governo, e as perspectivas para o ano não são animadoras devido aos preços dos alimentos e commodities em expansão mundial.

Cada 1% de aumento do CRB (indicador das oscilações das principais commodities) em reais eleva o IPCA em 0,12 ponto porcentual. O cálculo é do professor Affonso Pastore. Entre julho de 2010 e janeiro deste ano ocorreu alta de 19% do CRB em reais, o que deve provocar elevação de 2,28 ponto no IPCA. Esse efeito, segundo Pastore, deve se diluir ao longo de oito meses (Estado 10/2).

No início do ano, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) informou que seu Índice de Preço dos Alimentos bateu recorde em dezembro. Pior, no dia 3, anunciou que esse recorde fora quebrado em janeiro, quando os preços subiram mais 3% (Estado, 8/2).

Em 2010, a inflação foi de 5,9%, sendo 40% explicados pelo aumento nos preços dos alimentos, que superaram 10%. Interessante notar seu impacto no IPCA em 2010. No primeiro quadrimestre, os preços dos alimentos subiram 5,2% e o IPCA, 2,7%. No segundo, tiveram deflação de 1,6% e o IPCA foi de 0,5%. No terceiro, atingiram 6,7% e o IPCA foi de 2,7%.

É bom recordar que o remédio usado pelo Banco Central foi aumentar a Selic a partir do início de maio, que a elevou de 8,75% para 10,75% em 2 pontos, mas isso não causou redução da demanda, pois as taxas de juros ao consumidor caíram até novembro 2 pontos. Portanto, não funcionou.

Em dezembro, houve nova estratégia do Conselho Monetário Nacional de reduzir a liquidez e encarecer o crédito para financiamentos superiores a 24 meses, para produzir efeito imediato na atenuação da demanda. Dados do BC mostram que essa decisão causou elevação de 4,5 pontos nas taxas de juros para o consumidor em duas semanas e reduziu o ritmo de expansão do crédito. Foi definida como uma medida macroprudencial a ser testada. O BC, contudo, nem deu tempo para testá-la, já iniciando a velha receita de elevar a Selic.

Neste ano, além da pressão dos alimentos, outras despesas que ocorrem no início do ano, como material escolar, tarifas de ônibus, IPTU, IPVA já estão pressionando a inflação. Em janeiro, o IPCA foi 0,83%, e só alimentação, bebidas e reajustes de tarifas de ônibus explicaram 67% (!) dessa elevação.

Para combater a inflação, melhor que elevar a Selic é adotar medidas macroprudenciais que desestimulem o crédito, que crescia a taxas elevadas, dando combustível à elevação do consumo. O objetivo é reduzir o ritmo de crescimento do consumo das famílias, responsável por 75% do consumo total, três vezes maior que o consumo do governo, alvo preferido de análises.

Desatar o nó do combate à inflação pelo remédio ultrapassado da Selic é o primeiro desafio do governo, se quiser obter sucesso no combate à inflação, atacando a principal perna do impulso ao consumo que é o crédito. Com isso, não agrava o ingresso dos capitais especulativos, o que tem causado parte importante da valorização do real com os reflexos indesejáveis ao comércio exterior. Isso contribui para desatar em parte outro nó, que é o câmbio fora de lugar num contexto de forte concorrência internacional e tsunami de dólares.

É de se prever que os capitais continuarão fluindo na direção dos emergentes, atraídos por custo de mão de obra mais baixo e consumo em expansão. São várias as consequências desse processo do desenvolvimento do capitalismo. A mais imediata é o aumento da demanda por alimentos e commodities. A de mais longo prazo é a redução do elevado diferencial de custo da mão de obra entre desenvolvidos e emergentes.

O custo da mão de obra depende dos salários e dos encargos trabalhistas. A China, que vem penetrando todos os mercados, tem baixos encargos trabalhistas, pois não oferece a seus trabalhadores os benefícios da seguridade social. A concorrência internacional tende a se deslocar assim, na direção da mão de obra menos atendida em suas necessidades básicas, e não faltam nos emergentes amplas parcelas da população que estão fora do mercado de trabalho e de consumo. Portanto, esse processo de deslocamento da produção mundial tende a continuar.

O Brasil não é exceção. Sofremos uma concorrência interna e externa da China, que só tende a crescer. Temos, no entanto, a nosso favor posição privilegiada em alimentos e commodities, que faltam à China e a vários países, e esse é o nosso trunfo, que deve se manter enquanto durar o processo de forte diferenciação de custos de mão de obra.

Com o tempo os chineses vão exigir maior proteção social e os salários tenderão a aumentar com o avanço do mercado de trabalho. Até lá, o custo Brasil precisa ser reduzido, e para isso precisam ser desatados os nós que ainda nos prendem ao atraso: má distribuição de renda, alta regressividade tributária, juros estratosféricos, precária infraestrutura e logística, cipoal burocrático e imenso atraso na educação, saúde e segurança públicas.

Apesar dessas desvantagens, o País é um dos principais destinos do investimento direto de estrangeiros, atraídos pelas perspectivas de crescimento do mercado interno, que é nossa proteção contra o cenário incerto e altamente disputado do mercado internacional. Felizmente, o Brasil não depende tanto do mercado externo e tem amplo espaço para crescer seu mercado interno, caso políticas públicas se destinem a abrandar nossas deficiências. Mas essas políticas exigem pesados recursos do governo, e podem ser vistas como inadequadas por gerarem excesso de demanda e, consequentemente, de inflação, que corrói os ganhos das camadas de menor renda a quem se quer beneficiar.

Para desatar esse nó, é necessário manter o crescimento em níveis superiores a 5% ao ano, racionalizar e priorizar despesas e usar novos instrumentos de controle inflacionário, rompendo com a tradição de juros básicos anormais. Hoje estamos com juros reais de 5,5% contra uma média internacional de juros negativos de 1% e negativos de 0,5% nos emergentes. O crescimento amplia a arrecadação pública: aumenta o faturamento e lucro das empresas, a massa salarial e reduz a inadimplência e a sonegação. É importante fonte do ajuste fiscal. A outra é o corte de R$ 50 bilhões no orçamento do governo, como contribuição à redução da demanda.

Com relação às despesas, é necessário avaliar as da União, que representam metade das despesas públicas e a dos Estados e Municípios, que administram a outra metade. Para todos deve valer o rigor fiscal, mas há uma realidade que se sobrepõe ao ideal de redução/contenção de despesas. Na União, as despesas são dimensionadas para permitir um resultado primário determinado pela Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), e esse nível depende da arrecadação. Para os Estados e municípios, que renegociaram suas dívidas com a União entre 1997 e 2000, devem transferir até o limite de 11,5% das suas receitas para a União (Resolução n.º 43/2001) para amortizar a renegociação. Isso constitui a parcela do esforço fiscal deles.

Não entram nesse limite as operações de crédito, que cresceram 215% nos últimos dois anos para aumentar os investimentos, o que fez reduzir o superávit primário de 0,95% do PIB, parte requerida do esforço fiscal, para 0,75% em 2009 e 0,56% em 2010.

Outro nó a desatar é o conceito de resultado fiscal, abordado em artigo recente. O resultado primário é apenas parte do resultado fiscal. A outra são os juros, que dependem do nível da dívida bruta e da Selic, que contamina no curto e médio prazos todas as taxas de juros da dívida federal. A dívida está relacionada também aos empréstimos ao BNDES e ao nível das reservas internacionais, que elevam o ônus com juros. Em 2010, o setor público apresentou superávit primário de 2,8% do PIB, mas os juros foram de 5,3%, dando um déficit fiscal de 2,5%. Mesmo assim, a dívida líquida caiu de 43,4% do PIB para 40,4% entre 2009 e 2010 e a dívida bruta, de 62% do PIB para 55%, por causa da elevação dos depósitos compulsórios dos bancos no BC.

Segundo The Economist, para um conjunto representativo dos principais países, o déficit nominal em 2010 foi de 5,5% do PIB, sendo 10,2% para os desenvolvidos e 3,3% para os emergentes. Caso o governo consiga manter sua política de superávit primário de 3% do PIB e recue até 2014 a Selic real (exclusive inflação) dos atuais 5,5% para 2%, as projeções apontam para o almejado déficit nominal zero em 2014.

Para reduzir a demanda, neste ano, o primeiro passo foi dado pelo governo ao cortar despesas do orçamento. Vamos aguardar o BC exercer sua autonomia em relação aos interesses do mercado financeiro e desatar o nó da Selic e do câmbio, adotando políticas monetárias e cambiais eficazes.

CONSULTOR, É MESTRE EM FINANÇAS PÚBLICAS PELA FGV

ELIO GASPARI

O SUS é mais bem avaliado por quem o usa
ELIO GASPARI
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11
O Ipea descobriu que 30,4% dos clientes do SUS estão satisfeitos e 80,7% louvam o programa Saúde da Família

DEVE-SE AO economista John Kenneth Galbraith a expressão "sabedoria convencional" para designar alguma coisa que as pessoas acham porque outras pessoas acham. Por exemplo: se a África está atolada em ladroeiras, golpes e miséria, como Botsuana está na África, Botsuana está ferrado. Erro, esse é um caso de ignorância convencional. Em 30 anos, o país cresceu a uma média superior à da China, Coreia ou EUA. Sua renda multiplicou-se 13 vezes e seus cidadãos tornaram-se mais ricos que os tailandeses, búlgaros ou peruanos. (Mais exemplos no livro "The Rational Optimist", de Matt Ridley, US$ 12,99 no e-book.)
Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada revelou que a percepção de que a rede de saúde pública brasileira é um desastre tem um perigoso ingrediente de ignorância convencional. O SUS não é nenhum Botsuana, mas 30,4% dos entrevistados que buscaram seus serviços ou acompanharam um familiar no último ano avaliaram-no, de uma maneira geral, como bom ou muito bom, enquanto 27,6% consideraram-no ruim ou muito ruim. O índice de aprovação do SUS fica na mesma faixa onde estão os serviços financeiros, aéreos e de telecomunicações.
Propagando a ignorância convencional, 34,3% dos entrevistados que não tiveram experiência alguma com o SUS acharam-no ruim ou muito ruim, e só 19,2% consideraram-no bom ou muito bom. A visão catastrofista está mais em quem não usa o serviço do que naqueles que o usam. Essa tendência já foi detectada há tempo e pesquisas do Ibope informam que ela ocorre também nas áreas de transporte e educação. Palpite: quem não usa um serviço que atende ao andar de baixo sente-se recompensado ao achar que ele não presta, pois custa-lhe dinheiro fugir da rede de atendimento da patuleia. Julga-se protegido, mesmo suspeitando que o plano de saúde poderá desová-lo na rede pública quando seu tratamento for mais caro. Esse pode ter sido o caso do cidadão que a seguradora Porto Seguro, amparada pela Agência Nacional de Saúde, remeteu ao SUS para receber (de graça) uma dispendiosa droga contra artrite reumatoide. Ele, que paga R$ 8.000 mensais no seu plano familiar, argumentou: "Eu não vou ficar em fila de SUS nem morto".
Avaliando cada ramo dos serviços utilizados, os números do Ipea dizem mais: 80,7% dos entrevistados atendidos pelo programa Saúde da Família consideram-no bom ou muito bom; 69,6% dos clientes do serviço de distribuição de remédios gratuitos deram a mesma boa opinião. A avaliação positiva do atendimento por médicos especialistas ficou em 60,6%. Na rabeira, com 48% e 45% de aprovação, estão as emergências e os postos de saúde, considerados ruins ou muito ruins por 31% dos entrevistados que os utilizaram.
Mesmo sabendo-se o risco que há em qualquer comparação de pesquisas, os números do Ipea colocam o SUS num patamar um pouco melhor que o do sistema público e privado americano (o que não chega a ser um elogio) e um pouco pior que o austríaco. Na Alemanha, 14% dos entrevistados acham que a área da saúde pública precisa ser completamente reconstruída, enquanto 38% acreditam que alguns ajustes seriam suficientes.
Se a freguesia do SUS botar a boca no mundo toda vez que for mal atendida, ele melhorará. Se baixar a cabeça, achando que "é assim mesmo", piorará. Em qualquer caso, não é justo que se tenha uma má opinião de um serviço público a partir do juízo de quem não o usa.
Serviço: a pesquisa do Ipea está, na íntegra, em seu portal.

EREMILDO, O IDIOTA
Eremildo é um idiota e convenceu-se de que a Irmandade Muçulmana, um dos braços populares da revolução egípcia, tornou-se um movimento moderado, quase secular.
Ele compartilha essa opinião com três amigos:
Pepe, o cubano, que confiava nas convicções democráticas de um jovem barbudo que lutava na Sierra Maestra contra o ditador Fulgêncio Batista. Até ex-aluno dos jesuítas Fidel Castro fora.
An Bui Duong, o vietnamita, garantia que os guerrilheiros do Vietcong não eram todos comunistas e formavam uma coligação sem qualquer interesse em anexar o Vietnã do Sul ao do Norte.
Ardeshir Amirzadeh, o iraniano, delirou em 1980, quando um presidente laico assumiu a Presidência do seu país.
Pepe fugiu de Cuba em 1963 e montou uma oficina em Miami. Bui Duong saiu do Vietnã em 1978 numa jangada e tem uma pizzaria no Panamá. Ardeshir montou uma exportadora em Paris e desde 1982 é vizinho do ex-presidente Banisadr.

$ISTEMA S
Há um ano o ministro Fernando Haddad, da Educação, tentou desviar para os cofres da Viúva parte do ervanário que o Sistema S, formado pelas confederações patronais, recolhe na folha de pagamento dos trabalhadores. É um ervanário de R$ 13 bilhões, protegido por uma das mais poderosas blindagens político-empresariais do eixo São Paulo-Brasília.
Haddad recuou e agora quer buscar pelo menos R$ 3 bilhões que, a seu juízo, Sesi, Senai, Senac e Sesc devem à Viúva.
As confederações orgulham-se de seus projetos educacionais e culturais, mas a crônica da utilização do dinheiro do Sistema S indica que ele faz também uma singular plutofilantropia, a filantropia para endinheirados.


O TREM-BALA E O FARAÓ

O trem-bala superlotou antes de existir. Infelizmente, não é uma superlotação de passageiros, mas de fontes públicas de financiamento e gestão. Pelo lado das autoridades embarcaram o Planalto, o Ministério dos Transportes, a Agência Nacional de Transportes Terrestres e a Valec. Pelo lado das fontes financiadoras, embarcaram o Tesouro, os fundos de pensão da Viúva, os Correios e, na última hora, a Eletrobras. Aquilo que inicialmente foi um projeto audacioso começou a se transformar numa obsessão.
Ao amanhecer, não precisaria de um só centavo de dinheiro da Viúva. Hoje, cata recursos nos cofres das estatais. Os Correios e a Eletrobras são empurrados para dentro do trem-bala porque o projeto não consegue investidores privados.
Na semana passada, diante da queixa de que a ECT entraria como sócia num trem sem ter feito os devidos estudos de demanda para o transporte de suas mercadorias, a empresa esclareceu que "ainda está em discussões iniciais sobre a viabilidade de participar do consórcio do trem-bala. Estudos sobre demanda serão realizados no momento adequado"."
Ficaria tudo melhor se a ECT invertesse o procedimento e dissesse assim: "A empresa ainda está estudando a demanda. As discussões sobre a viabilidade de participar do consórcio serão realizadas no momento adequado". É isso que faz quem quer montar uma barraca para vender beringelas na feira.
Empreiteiro é aquele sujeito que convenceu o faraó a empilhar umas pedras no deserto. No caso do trem-bala, é o faraó quem quer convencer o empreiteiro.

BANDIDOS

MARCELO GLEISER

Defendendo a ciência
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11


Outros países educam seus jovens sobre a importância da ciência; no Brasil, há uma corrente contrária


PARECE NOTÍCIA VELHA, mas a ciência e o ensino da ciência continuam sob ataque. Por exemplo, uma busca na internet com as palavras "criacionismo", "escolas" e "Brasil" leva ao portal www.brasilescola.com. Lá, há um texto, de Rainer Sousa, da Equipe Brasil Escola, que discute a origem do homem.
O autor afirma que o assunto é "um amplo debate, no qual filosofia, religião e ciência entram em cena para construir diferentes concepções sobre a existência da vida".
No final, diz: "sendo um tema polêmico e inacabado, a origem do homem ainda será uma questão capaz de se desdobrar em outros debates. Cabe a cada um adotar, por critérios pessoais, a corrente explicativa que lhe parece plausível".
"Critérios pessoais" para decidir sobre a origem do homem? A religião como "corrente explicativa" sobre um tema científico, amplamente discutido e comprovado, dos fósseis à análise genética?
Como é possível essa afirmação de um educador, em pleno século 21, num portal que leva o nome do nosso país e se dedica ao ensino?
Existem inúmeros exemplos da tentativa, às vezes vitoriosa, da infiltração de noções criacionistas no currículo escolar. Claro, se o criacionismo fosse estudado como fenômeno cultural, não haveria qualquer problema. Mas alçá-lo ao nível de teoria científica deturpa o sentido do que é ciência e de seu ensino.
Um país que não sabe o que é ciência está condenado a retornar ao obscurantismo medieval. Enquanto outros países estão trabalhando para educar seus jovens sobre a importância da ciência, aqui vemos uma corrente contrária, que parece não perceber que a ciência e as suas aplicações tecnológicas determinam, em grande parte, o sucesso de uma nação.
Muitos dirão que são contra a ciência apenas quando ela vai de encontro à fé. Tomam antibióticos, mas rejeitam a teoria da evolução.
Se soubessem que o uso de antibióticos, que aumenta as chances de que os germes criem imunidade por mutações genéticas, é uma ilustração concreta da teoria da evolução, talvez mudassem de ideia. Ou não. Nem o melhor professor pode ensinar quem não quer aprender.
Os cientistas precisam se engajar mais e em maior número na causa da educação do público em geral.
Mas devemos ter cuidado em como apresentar a ciência, sem fazê-la dona da verdade. Devemos celebrar os seus feitos, mas ser francos sobre suas limitações e desafios (a teoria da evolução não é um deles!) Não devemos usar a ciência como arma contra a religião, pois estaríamos transformando-a numa religião também. Achados científicos são postos em dúvida e teorias "aceitas" são suplantadas.
Bem melhor é explicar que a ciência cria conhecimento por meio de um processo de tentativa e erro, baseado na verificação constante por grupos distintos que realizam experimentos para comprovar ou não as várias hipóteses propostas.
Teorias surgem quando as existentes não explicam novas descobertas. Existe drama e beleza nessa empreitada, na luta para compreender o mundo em que vivemos. Ignorar o que já sabemos é denegrir a história da civilização. O problema não é não saber. O problema é não querer saber. É aí que ignorância vira tragédia.
MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"

GILBERTO DIMENSTEIN

Professores digitais
GILBERTO DIMENSTEIN
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11
O que mudará é que o professor que despeja conteúdos automaticamente será mesmo dispensável


QUANDO ENCONTRA dificuldade para ajudar o filho na lição de casa, Bill Gates aciona o professor Salman Khan. "Tudo fica fácil", diz Gates, que, nos últimos anos, vem gastando dezenas de milhões de dólares em sua fundação para descobrir novos jeitos de educar.
Filho de família da Índia e de Bangladesh, Khan tem um currículo capaz de impressionar qualquer gênio: no MIT (Instituto Tecnológico de Massachusetts), fez matemática, engenharia elétrica e ciência da computação; em Harvard, administração. Mas o que impressiona mesmo Gates é o valor das aulas: são de graça e acessíveis a qualquer um -aliás, neste momento, se quiser, você também pode entrar na internet e receber as mesmas aulas.
Khan foi um dos personagens que influenciaram Gates a escrever um texto em que sugere a substituição dos professores convencionais por aulas, acompanhadas de exercícios, gravadas com recursos multimeios por professores como Khan e distribuídas para todos. "É melhor uma boa aula desse tipo do que as dadas por professores medíocres", provoca o criador da Microsoft.




Muita gente está levando a sério a possibilidade de as novas tecnologias exterminarem o professor como o conhecemos. Haveria uma radicalização do ensino a distância. Já há recursos para que um curso seja dado sem interferência humana. As aulas são gravadas e todos os debates, exercícios e notas são feitos por um programa de computador.
Autor da ideia de um computador por criança, Nicholas Negroponte me disse que está preparando uma experiência para ser lançada em comunidades da África e da Ásia que têm alto índice de analfabetismo. Quer deixar num lugar público computadores conectados à internet para ver como e se as crianças conseguem aprender a ler e a escrever sozinhas. "Cada vez mais o conhecimento vai ser transmitido fora da sala de aula", comentou.




Esse tipo de recurso pode ajudar muito os alunos, especialmente os mais pobres, mas duvido que possa atingir a excelência sem que se viva num ambiente criativo, estimulante, com trocas entre alunos e professores motivados. Qualquer um pode acessar aulas do MIT ou de Harvard, entre outros grandes centros de ensino. Outra coisa é entrar num laboratório e acompanhar, por exemplo, o nascimento de um carro capaz de estacionar sozinho. Esse projeto é desenvolvido no AgeLab, que se dedica a criar produtos e serviços para idosos. Já está criando roupas e acessórios para os mais velhos evitarem acidentes.
Estou aqui em Harvard experimentando uma poderosa combinação do virtual com o presencial, num curso sobre experiências educativas internacionais. Cada aula se transforma num fórum na internet entre os estudantes, conduzido por três monitores. Daí surgem outros fóruns autônomos para cada comentário. Para aprofundar as questões, a classe, separada em três grupos, reúne-se presencialmente.
O professor mistura as aulas expositivas com depoimentos de convidados do mundo inteiro, que, a distância, ilustram os textos curriculares. Um explica como usa a tecnologia para melhorar o ensino em áreas rurais da Índia, outro conta como cria bibliotecas em remotas vilas da Ásia ou da África. Depois da exposição, os convidados respondem às questões dos estudantes. Tudo é gravado e postado na rede.
Tecnologia alguma, porém, supera o entusiasmo de um professor como Fernando Reimers. Ele viaja pelo mundo para conhecer experiências educacionais e participa de algumas delas. Não há software capaz de competir com essa paixão.




O que veio para ficar foi o fato de as informações circularem, criando a possibilidade de que o mundo se converta numa imensa comunidade de aprendizagem. Existem sinais por todos os lados.
Um dos negócios que prosperam no mundo digital são páginas abertas a perguntas que são respondidas por leitores. A diferença agora é que empresas estão contratando especialistas para dar respostas quase imediatamente. Há redes sociais em que se podem aprender todas as línguas importantes. Em outras páginas, são ensinadas expressões e gírias que acabam de surgir. Aprende-se espanhol com alguém que está na Argentina ou na China.




O que vai mudar é que o professor que despeja automaticamente os conteúdos será mesmo dispensável, pois será mais caro e menos eficiente do que uma tela de computador.



PS- Coloquei no www.catracalivre.com.br os links desta coluna: o AgeLab, o MIT, o ensino de línguas, as aulas do professor Khan, as redes sociais para o aprendizado dos idiomas e os cursos gratuitos de universidades.

GOSTOSA

CARLOS HEITOR CONY

Olha quem vem lá
CARLOS HEITOR CONY
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11


RIO DE JANEIRO - Pouco a pouco, mas com persistência crescente, fala-se na volta da inflação. Os entendidos, a começar pelo pessoal do governo, garantem a existência de antídotos, a partir da grande lição que tivemos recentemente, quando o aumento dos preços e a desvalorização da moeda tornaram-se incontroláveis.
Vivemos alguns anos sem o fantasma que corroía as forças da nação e dos indivíduos. De prioridade máxima, a inflação foi substituída por novos desafios igualmente trágicos, como a segurança, a educação, a saúde, problemas de infraestrutura que estamos longe de resolver, como a situação dos portos, aeroportos, estradas de ferro e de rodagem.
Basta lembrar que os produtores de soja reclamam que poderiam estar gerando o dobro de divisas, mas, com escoamento precário, são obrigados a permanecer nos limites acanhados de nossas possibilidades no setor do transporte.
Não se falava na volta da inflação há pelos menos uns dez anos. Embora negada pelos técnicos e responsáveis, a verdade é que ela começa a preocupar não apenas o universo econômico e financeiro, mas todo o sistema de produção e consumo, incluindo a dona de casa, que a cada semana se espanta com o aumento no preço dos alimentos de primeira necessidade.
O recurso do novo governo parece sinalizar um aumento nos juros e uma diminuição do crédito na tentativa de frear a demanda e controlar o binômio inarredável da oferta e da procura.
Evidente que a ameaça de uma inflação cria um fator que não pode ser desprezado. O desafio do governo é investir fortemente nos setores anunciados pela presidente. Para isso, é preciso muito dinheiro. Mas o que foi anunciado até agora foi um corte fantasmagórico no Orçamento. Mesmo sem inflação declarada, o cenário ficou meio complicado.

JOSÉ SIMÃO

Ueba! Silvio Santos vira bloco! 
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/12/11

E eu tô adorando os blocos de Carnaval! Direto do Recife: Metido a Corno! De BH: Mamãe Eu Sou Bicha!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
O Carnaval tá chegando. E o Silvio Santos já virou bloco. É que em Belém do Pará tem um bloco chamado Filhos de Glande. O bloco mais democrático do planeta. Somos todos filhos de glande. Um Filhos de Gandhi pornô. Todos com turbante de piroquinha. E neste ano eles homenageiam Silvio Santos. TÔ DURO QUE NEM BAMBU! No banco. Porque a pipa do vovô não sobe mais. Rarará!
E sabe o que o Mubarak gritou pros egípcios? "Eu fiquei só 30 anos no poder, agora, vocês vão encher o saco do Ricardo Teixeira". Rarará! E ele mandou um recado pro Sarney: "Umba, umba, umba, cada um na sua tumba!". E a nova definição do Berlusconi: um Maluf pornô! E avisa a Dilma que eu sei calcular o salário mínimo: multiplica o número de neurônios da Ana Maria Braga pelo número de vitórias do Rubinho e divide pelo número de assaltos em São Paulo! E salário mínimo era bom no tempo do Lula: ele pegava uma garrafa de 51, multiplicava por dez e dava 510!
E eu tô adorando os blocos de Carnaval 2011! Direto do Recife: Metido a Corno! Olha, eu já vi metido a rico e metido a besta, mas metido a corno só no Recife! E direto de BH: Mamãe, Eu Sou Bicha! Aquele que espera o Carnaval pra contar! E uma amiga carioca, diretora do AMEM (Associação das Mulheres Encalhadas MESMO) vai sair no Perereca Sem Dono. E existe perereca com dono no Carnaval? E finalmente direto de Caiponia, Goiás, o bloco BAIXARIAS TERRÍVEIS! Oba! E o Marcius Melhem da Globo disse que puxador de escola de samba pensa que a gente é surdo: "Portela, o dia clareou, CLA-RE-OU!"; "Mangueira, mostra a sua raça, A SU-A RA-ÇA!"; "E lá vou eu, Lá Vo-u E-u!".
O Brasileiro é cordial! Mais uma placa do Gervásio. Na empresa em São Bernardo: "Se eu pegar o fofoquito abelhudo que anda contando na firma onde eu vou no fim de semana, vou pegar esse Nelson Rubens do Paraguai e fazer ele engolir uma banana de dinamite acesa. Conto com todos. Assinado: Gervásio". Rarará!
Já imaginou o Gervásio como segurança de shopping em São Paulo? "Se eu pegar o cabrunco tentando assaltar joalheria no shopping, eu vou fazer ele engolir vidro moído até obrar um solitário de cem quilates."
A situação está ficando egípcia. Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

BRAZIU: O PUTEIRO

DOMINGO NOS JORNAIS

O Globo: Herança fical de Lula limita o começo do governo Dilma

Folha de S. Paulo: Junta promete honrar acordo externo do Egito

O Estado de S. Paulo: Junta militar egípcia promete preservar a paz com Israel 

Correio Braziliense: Trânsito, o caos nosso de cada dia

Estado de Minas: Acredite: até vereador recebeu Bolsa-Família

Jornal do Commercio: Paciente paga briga de planos e médicos


sábado, fevereiro 12, 2011

WALTER CENEVIVA

 Battisti entre refúgio e extradição
WALTER CENEVIVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 12/02/11

Caberá ao Supremo Tribunal Federal decidir se o refúgio concedido por Lula foi ou não legal


A DIVERSIDADE de posições entre os governos da Itália e do Brasil quanto à extradição de Cesare Battisti aproxima-se do fim. Tem, como afirmou a presidente Dilma Rousseff, predominante caráter jurídico.
A lei brasileira cria dois enquadramentos distintos: o da extradição e o do refúgio. Ambos voltaram à esfera do Judiciário depois que o presidente Lula reconheceu Battisti como refugiado, sob alegação de temores de perseguição política na Itália, com fundamento no art. 1º da lei nº 9.474/97.
Se o STF (Supremo Tribunal Federal) confirmar tal condição, ficará sustado o seguimento "de qualquer pedido de extradição baseado nos fatos que fundamentaram a concessão de refúgio". A apreciação originária do refúgio cabe, no plano administrativo, ao Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão do Ministério da Justiça (art. 11 da lei).
A criação do Conare foi prevista na Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados de 1951, seguido por protocolo em 1967. O estatuto se explica porque, passados seis anos da Segunda Guerra Mundial, era impositivo o cuidado com milhões de refugiados gerados pelo conflito e pela Guerra Fria que se seguiu.
As consequências do estatuto se aplicam à pessoa encontrada no território brasileiro, no qual reconhecidamente se refugiou. No caso de Battisti, para imposição da lei nº 9.474, caberá distinguir se é dissidente político ou criminoso comum. Diz a Itália que foi condenado por delitos graves, sem vínculo com movimentos políticos. Battisti nega ações dessa espécie, mas o governo italiano afirma serem atos de puro terrorismo. Um dos apoios encontrados pelo presidente Lula, levando-o à concessão do refúgio, foi o de risco para a vida do acusado se recambiado para a Itália.
A acusação de terrorismo é das mais severas, conforme se vê do inciso XLIII do art. 5º da Constituição. Nele está dito que a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia, entre outros, o "terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem". Se for o caso de Battisti, não terá direito ao refúgio. A concessão de Lula será anulada.
Tem sido entendido em nosso país que, como regra, não cabe ao Judiciário brasileiro apreciar o mérito e a fundamentação da sentença proferida na nação requerente da extradição. Os atos de Battisti poderão ser enquadrados como terrorismo (se claramente compreenderem mais que simples atos individuais) ou crime comum. Esse dado tem relevo próprio, enquanto requisito da intensidade da visão política dos que perturbam a ordem para fins do interesse de seu grupo.
Caberá ao Supremo Tribunal Federal decidir, com quorum completo graças à boa escolha do ministro Luiz Fux, se o refúgio concedido por Lula foi ou não legal. A confirmação da legalidade extinguirá o pedido de extradição, conforme ficou dito. Afirmada a ilegalidade, a extradição será concedida ou negada pelo mérito, na forma da lei brasileira.
Serão dois momentos distintos, para cuja resolução o Brasil emitirá juízo exclusivamente compatível com sua soberania, definida no art. 1º, I, da Constituição, ajustado ao exercício de sua independência política.