sábado, março 06, 2010

VILAS-BÔAS CORRÊA - COISAS DA POLÍTICA


Lula quase avança o sinal

JORNAL DO BRASIL - 06/03/10


O PRESIDENTE LULA puxou o freio de mão à beira do precipício, ao desmentir que alguma vez tenha passado pela sua cabeça licenciar-se da Presidência da República por dois meses, passando o cargo ao senador José Sarney, presidente do Senado.

O vice-presidente José Alencar é provável candidato a uma vaga de senador por Minas, dependendo do seu estado de saúde. No caso, o desmentido é menos convincente do que o recuo diante da estapafúrdia manobra pela simples evidência de que na pré-campanha para eleger a candidata da sua exclusiva escolha, Lula tem passado por cima da ética e da lei, com o desembaraço de quem, deslumbrado com a popularidade recordista do maior líder da história deste país, faz o que bem entende.

A pré-campanha ao arrepio dos prazos constitucionais da candidata Dilma, é uma descarada demonstração de soberba, desde a arrancada com as viagens pelo Brasil para acompanhar as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e da construção de 1 milhão de residências populares do Minha Casa, Minha Vida. Presidente não é fiscal de obras. E para as viagens, a prioridade óbvia seria às regiões castigadas pelas enchentes, com milhares de famílias que perderam tudo e não sabem como recomeçar a vida. Ou a rede rodoviária em pandarecos, com pontes destruídas, barreiras que exigem malabarismos para o tráfego de carros e caminhões em mão única. O que não faltam são pedidos de socorro e gritos de desespero.

Depois, vamos abrir o jogo: o que é que o presidente Lula e a ministra Dilma podem fiscalizar em obras de rotina? Contar os tijolos assentados no milhão de residências em construção? Ou, com discurso em palanque com microfone e ampla publicidade, estimular a turma a tocar a transferência das águas do Rio São Francisco para encher os açudes do Nordeste? Uma estatística dos dias e horas que o presidente Lula passa no Brasil e em Brasília e toca a rotina em seu gabinete seria embaraçosa para o governo.

E é daqui para pior. A oposição não ameaça o governo com as hesitações do governador de São Paulo, José Serra, em confirmar a sua candidatura e articular a escolha do seu companheiro de chapa, já que o governador mineiro, Aécio Neves, demonstrou que aprendeu as lições do seu avô Tancredo Neves, o mais completo homem público que conheci, e foge da candidatura a vice-presidente como o capeta da cruz.

Os exageros do presidente Lula na obstinação de eleger a ministra Dilma como sua sucessora deveriam ser revistos com bom-senso. Lula praticamente abandonou o governo. Se nunca gostou de tocar a rotina, marcava presença com o eficiente esquema publicitário que enchia os vazios com a presença frequente de convidados que rendem foto em jornais e revistas e minutos nos noticiários da rede de televisão. E que apenas complementa a cobertura recordista da maior rede oficial de comunicação de todos os tempos.

Mas, se a eleição da ministra Dilma é a obsessão de Lula, seria razoável esperar uma plataforma de pré-campanha definindo as prioridades no país de tantas urgências. È indefensável o desprezo por Brasília ou a falta de sensibilidade para reconhecer que o Distrito Federal foi transformado numa bagunça administrativa, com governador – e que governadores, de Roriz a José Roberto Arruda! – com Câmara Distrital, Câmara de Vereadores, milhões de favelados quando a população deveria ser de 500 a 600 mil habitantes e hoje encosta em 3 milhões.

Brasília é vítima da incompetência e da demagogia. E esta é a hora de enfrentar a sua salvação como a prioridade absoluta de todos os candidatos à Presidência da República. Pelo menos o centro administrativo da capital deveria ser recuperado na dignidade do projeto de Lúcio Costa e dos palácio do gênio de Oscar Niemeyer. E fechar as arapucas de falsificações do Senado e da Câmara dos Deputados.

Com Brasília restabelecida como a capital de fato do país, o Senado e a Câmara recuperariam a compostura e a dignidade, acabando com a farra das viagens semanais de senadores e deputados para as suas bases eleitorais, com passagens pagas pela Viúva e a penca de mordomias, vantagens, gabinete individuais com dezenas de assessores e cabos eleitorais.

J. R. GUZZO


REVISTA VEJA
J.R. Guzzo

Opção preferencial por ditaduras

"A política externa brasileira pode ser um primor de independência, mas seu resultado prático mais visível foi tornar o Brasil, ao longo do governo Lula, o grande amigo do que existe de pior no mundo"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não teria ido longe na vida se tivesse tentado fazer no Irã, o mais recente dos grandes amigos de seu governo, a carreira de sindicalista e militante de oposição que fez aqui no Brasil; provavelmente teria sido condenado à morte e mandado para a forca, solução que o regime iraniano adota, como procedimento regular, para lidar com líderes sindicais, adversários políticos e criadores de problema em geral. O Irã é hoje, depois da China, o país que mais aplica a pena de morte; só nos oito primeiros meses do ano passado, último período do qual existem estatísticas, executou 320 pessoas, metade delas nos cinquenta dias que se seguiram às eleições de junho, denunciadas como uma maciça operação de fraude. Nos processos por crimes políticos, os réus não têm direito a advogado. Também não podem reclamar de violências sofridas na prisão; o Irã se recusa, simplesmente, a aprovar qualquer lei proibindo a tortura. A polícia dissolve atos de protesto investindo com motos contra os manifestantes. Oposicionistas são punidos com expulsão da universidade, cassação de direitos trabalhistas e, no caso de dissidentes religiosos, com a destruição de seus templos.
É esse o regime em favor do qual o Brasil tanto vem brigando ultimamente, como teve a oportunidade de deixar claro mais uma vez, na semana passada, durante a visita ao país da secretária Hillary Clinton, a chefe do serviço diplomático dos Estados Unidos. Lula, que em novembro recebeu em Brasília o presidente do Irã e se prepara para ir visitá-lo em maio, já avisou ao mundo que viaja para onde quiser e que não tem de submeter seus planos de voo à aprovação prévia dos Estados Unidos. É mais uma dessas coisas que não se entendem direito, porque não há ninguém dizendo o contrário, nem lá nem aqui. O que os americanos acham, como muitos outros países, é que o Irã representa algo pior que um regime delinquente, apenas; é um regime delinquente a caminho de ter uma bomba atômica e que se recusa a abrir seu programa nuclear a qualquer inspeção internacional séria. Deveria, portanto, receber as sanções legais previstas para esse tipo de conduta. É um ponto de vista.
O Brasil tem o direito de ter um ponto de vista diferente. Tem o direito, também, de manter boas relações com todos os países, e não apenas com os que são considerados virtuosos. Mas o que realmente importa, no caso, não é a divergência de posições com os Estados Unidos e outros países, ou mesmo o debate para saber se o Irã está ou não construindo a bomba e se vai jogá-la em cima de alguém. O que chama atenção é o fato, cada vez mais claro, de que a política externa brasileira pode ser um primor de independência, mas seu resultado prático mais visível foi tornar o Brasil, ao longo do governo Lula, o grande amigo do que existe de pior no mundo em matéria de regimes celerados. É como se o Brasil, nas suas relações com os demais países, fizesse uma pergunta-base: é ditadura ou não? Se for, tem a nossa preferência.
As declarações mais recentes dos pensadores da nossa política externa a respeito do assunto não são de animar. O diplomata Samuel Pinheiro Guimarães Neto, hoje à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, já advertiu que é preciso tomar cuidado com o que chamou de "direitos humanos ocidentais"; trata-se dos mesmos direitos que todo mundo conhece há mais de 200 anos, mas que, em sua opinião, são impostos pelas "grandes potências" para defender seus próprios interesses. Outro mau momento foi a recente visita do presidente Lula a Cuba, que coincidiu com a morte, após uma longa greve de fome, do operário Orlando Zapata, condenado a 25 anos de cadeia por fazer oposição ao governo. Para o Brasil, tudo bem. "Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro", comentou o assessor presidencial para política externa, Marco Aurélio Garcia. Lula, por sua vez, não foi capaz, com toda a sua influência junto ao governo cubano, de dizer uma única palavra em favor do companheiro Zapata; embora houvesse uma carta aberta pedindo sua intervenção, reclamou, irritado, que ninguém lhe escreveu nada a respeito. O que ele queria? Os presos em Cuba não têm acesso a e-mail, carta registrada ou serviço de entrega rápida dos correios. Lula achou o episódio "lamentável". Mas deu a impressão de que estava aborrecido, mais do que tudo, com o próprio Zapata – por ter feito a greve de fome e por não ter tido a consideração de esperar, antes de morrer, que a visita acabasse.

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

CLÓVIS ROSSI

Mercados içam a bandeira negra


FOLHA DE SÃO PAULO - 06/03/10


Episódios recentes ilustram uma subversão das regras do jogo: é o sistema financeiro quem controla os governos


NA SEMANA passada, o "Wall Street Journal" deu conta de rumores de que um grupo de investidores, capitaneados pelo inoxidável George Soros, havia se reunido para discutir a estratégia para atacar o euro. Objetivo: levá-lo à paridade com o dólar.
Até ontem à tarde, o objetivo, se o rumor for verdadeiro, não havia sido alcançado. O euro, na hora do fechamento dos mercados europeus, estava a US$ 1,35. Mesmo assim, 10% abaixo da cotação de US$ 1,50 que foi mais ou menos a constante no início do ano.
O importante, no caso, não é se o objetivo foi ou não alcançado. Nem se houve ou não a tal reunião conspiratória.
O essencial é que ela, bem como o objetivo traçado, é verossímil. Ainda mais por envolver Soros, um nome lendário no mercado de apostas: em 1992, ele ganhou US$ 1 bilhão apostando contra a libra esterlina. O Tesouro britânico perdeu 3,4 bilhões de libras, que, a valores de hoje, corresponderiam a R$ 8 bilhões, quantia ponderável em qualquer moeda, em qualquer tempo.
O que me choca no episódio é a maneira digamos normal como o caso foi noticiado, como se tratasse de uma reuniãozinha de Beatas de Maria para organizar uma jornada de orações.
Não é. São corsários erguendo a bandeira negra para o ataque.
Imagine o escândalo que haveria se fosse o contrário, se um punhado de chefes de governo tivesse se reunido para estabelecer rígidos regulamentos para os mercados financeiros. Basta lembrar o que aconteceu na sequência do pacote que o presidente Barack Obama anunciou em janeiro, exatamente com esse objetivo. Obama disse, em dado momento: "Se [o sistema financeiro] quer guerra, terá guerra".
Posto de outra maneira, ergueu a bandeira das listas e estrelas para enfrentar a negra dos corsários. Reação da banca, na palavra de Charles Dallara, o executivo do Instituto da Finança Internacional, o conglomerado das grandes instituições planetárias: "É um moleque".
O episódio é apenas mais uma ilustração da subversão das regras do jogo que está em curso já faz algum tempo, sem que haja reações proporcionais ao tamanho da subversão: em vez de os governos controlarem os mercados financeiros, são os mercados financeiros que impõem suas regras ao governo.
No caso da Grécia, o coro predominante, o chamado pensamento único, só fala dos abusos praticados pelos governantes de um desses países-cigarras, que vivem fazendo farra enquanto outros trabalham duro.
É claro que houve abusos e maquiagens estatísticas na Grécia. Mas e o Reino Unido, a menina dos olhos do pensamento único desde Margaret Thatcher, passando pelos trabalhistas que convergiram para essa linha de comportamento a partir da ascensão de Tony Blair? A libra esterlina também foi atacada no início da semana e fecha-a no valor mais baixo em nove meses.
Claro que o Reino Unido também tem um baita deficit, mas incorreu nele para impedir o colapso da economia, na esteira da crise que se tornou exponencial com a quebra do Lehman. Os governos gastaram US$ 11 trilhões para salvar os mercados, o que dá oito "Brasis", grosso modo.
Mas quem disse que corsários têm piedade ou ética?

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE

Campo minado


O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/03/10




Mais pressão sobre o Brasil. Nem bem Hillary foi embora, chega na terça Guido Westerwelle, ministro do Exterior alemão. Lembrando: são os alemães que batem mais forte, na Europa, contra a atual política nuclear iraniana.

E têm moral para tanto: a Alemanha não é uma potência nuclear.
Simples assim

A assessoria de Hillary foi mais realista que a rainha: pediu que todos se dirigissem a ela, durante a visita, como secretária de Estado.

Em rápida conversa com William Waack, da Globo, antes da apresentação na Faculdade Zumbi dos Palmares, liberou: "Quero que me chamem de Hillary".
Unha e cutícula

Maurício Botelho (ao lado) está de volta à ativa. O presidente do conselho da Embraer associou-se a José Eduardo de Lacerda Soares, da Arsenal Investimentos, para montar operações de fusões e aquisições de empresas. Prometem.
Way in and out

Eliana Tranchesi, da Daslu, já sabe o que fazer com o espaço que está sendo deixado vago com a saída das marcas estrangeiras. Como o da Dior, que decidiu se concentrar nos Jardins.

"Estamos programando instalar no primeiro andar as marcas da própria loja."
Apagão postal? 

Estão paradas na Justiça, mais de metade das licitações para contratar franquias postais.

A Abrapost teme apagão .
Tapete vermelho

Penélope Cruz foi eleita, pela Entertainment Weekly, a mais bem vestida do Oscar nos últimos 20 anos.

As mais mal vestidas? Celine Dion, Cher e Demi Moore.
Primeira noite 

Sergei de Carvalho, filho de Eleazar de Carvalho, estreia amanhã como regente. Comanda parte do concerto de abertura da Filarmônica Bachiana, na Sala São Paulo. No piano, João Carlos Martins.
first for ever 

Gustavo Kuerten receberá troféu do ex-rival Marat Safin. Comemorando dez anos da sua estreia no topo do ranking da ATP.

Na abertura do Banco Cruzeiro do Sul Rio Champions - que reúne, entre dias 12 e 14, Mats Willander, Jim Courier e Mark Philippoussis, entre outros.
Sem vazio

Ponto para Heitor Martins.

A Fiat fechou com a Bienal e será patrocinadora master da 29ª mostra, ao lado do Itaú-Unibanco, com aporte inicial de R$ 5 milhões.
Meu nome é...

A equipe de Luiz Barreto, da Justiça, abriu cruzada para que a mídia o chame por Teles, seu segundo sobrenome. É que nunca antes na história recente houve dois ministros na ativa com o mesmo nome.

Luiz Eduardo Barretto, do Turismo, parece importar-se menos que seu xará.
Senta, levanta 

Desafio à plateia, anteontem, na abertura da temporada da Osesp. A orquestra atacou com versão-fantasia do Hino Nacional... e uns ficaram em pé, outros não. Como outras fantasias virão, fica a dica: todos sentados.
Honra ao mérito

Maria Della Costa é convidada ilustre, dia 17, no Bandeirantes. Onde receberá, de Serra, a medalha do Ipiranga, que será dada também a Agnaldo Rayol e Danilo Miranda, entre outros. Na lista de agraciados constava... José Mindlin.
Na frente

José Henrique Lobo recebeu ontem a medalha Ruth Carsodo. No Mube.

Isabel Allende está confinada até abril. Concentra-se no fim de seu novo romance.

O Sírio Libanês começa a vacinar, segunda, seus 4.000 colaboradores contra gripe suína.

Maitê Proença estreia sua peça As Meninas. Sexta que vem, no TCA do Itaim-Bibi.

A peça de Betty Milan Adeus, Doutor, ganha leitura dia 17, no Sesc Santana.

Amir Slama dá aula magna em Cambridge, dia 9, sobre marcas em países emergentes.

Clarisse Abujamra lança o livro Na Artéria, amanhã, no Bar Higienópolis.

Os meninos do Groove Samba participam no evento do Instituto Cidadania Brasil. Segunda, na Sala São Paulo.

Martin Raven, cônsul-geral britânico em SP, volta para Londres. Em seu lugar, assume John Doddrell.

Acredite quem quiser: o governo de Israel não paga segurança a nenhum familiar de seus políticos e executivos, depois de deixarem o cargo.

RUTH DE AQUINO


REVISTA ÉPOCA
Os amigos tiranos do Brasil de Lula
RUTH DE AQUINO
Revista Época
RUTH DE AQUINO
é diretora da sucursal de ÉPOCA no Rio de Janeiro
raquino@edglobo.com.br
Três regimes autoritários e ditatoriais, que vetam a liberdade de expressão e punem com a prisão quem ouse contestá-los, contam com um aliado de peso no mundo: o Brasil do presidente Lula. Essa amizade incondicional é mais valiosa por ser o Brasil uma democracia, presidida por um líder eleito e consagrado que respeita as instituições e as leis. Esse apoio dá respaldo a tiranos.
Uma coisa é não ler jornais. Outra é fechar e censurar meios de comunicação, manter isolados presos de consciência, impedir a verificação internacional de violações de direitos humanos.
A Cuba dos irmãos Castro, a Venezuela de Chávez e o Irã de Ahmadinejad têm desfrutado elogios públicos de Lula e companhia. Por motivos que variam do comércio a uma genuína admiração, Lula tem desconcertado o Brasil e o mundo com declarações de apoio a governos que não toleram oposição política e muito menos o exercício sagrado da liberdade de opinião. Lulistas convictos, que desculpam tudo e esquecem o passado recente da ditadura militar no Brasil, são do time do companheiro Marco Aurélio Garcia: “Há problemas de direitos humanos no mundo inteiro”. É um mero detalhe. Uma rotina. Sejamos pragmáticos. Ou não?
Para o amigão Lula, “a Venezuela é uma democracia completa e Chávez o melhor presidente que o país já teve”. Não importa que tenham sido suspensas concessões de televisão e rádio e que a imprensa seja censurada. Não importa que o bufão Chávez tenha exigido que redes de TV divulguem a qualquer momento e por duração infinita seus pronunciamentos à nação. Não importa que a estatização indiscriminada de empresas ocorra à força e que ele governe por decreto.
Ahmadinejad, Chávez e Fidel recebem elogios do presidente. 
Pode ser isso um mero detalhe?
Para o amigão Lula, é “profundamente lamentável que uma pessoa se deixe morrer por greve de fome”. Quem mandou não comer? O dissidente cubano Orlando Zapata, operário condenado em 2003 por protestar contra a ditadura castrista, morreu após 85 dias de greve de fome. Foi um tremendo azar para Lula. Por que o dissidente decidira morrer logo em sua visita de cortesia a los hermanos Fidel e Raúl? Lula poderia abrir mão de condenar seus anfitriões, mas culpar a vítima foi demais. Os risos e a cumplicidade do presidente brasileiro estimularam Fidel a dizer, na semana passada: “Lula sabe que nunca matamos nem torturamos em Cuba”. Lula sabe, tanto que calou e consentiu. Será que a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, ex-guerrilheira que sentiu literalmente na pele o preço de se opor a um regime militar, também “sabe” que dissidentes nunca foram executados ou torturados em Cuba?
Para o amigão Lula, o Irã de Ahmadinejad tem o direito de desenvolver uma política nuclear, como o Brasil. Mesmo que não aceite inspeção internacional. Nem assine tratados. O líder radical iraniano que deseja varrer Israel do mapa, nega a existência histórica do Holocausto e manda arrebentar opositores seria tão legítimo quanto qualquer democrata. O Brasil simplesmente “acredita” que o programa nuclear de Ahmadinejad é destinado a uso pacífico. E não acha prudente “encostar o Irã contra a parede”. Quem disse que os iranianos sonham em fabricar alguma bomba? Lula foi fotografado com Ahmadinejad não com um protocolar aperto de mãos. As mãos dos líderes, entrelaçadas umas por cima das outras, simbolizavam uma aliança de camaradas de fé.
A justificativa de Lula não convence ninguém que seja alfabetizado. Como falar em princípio de não intervenção depois da trepidante novela estrelada por Zelaya e seu chapéu na embaixada brasileira em Honduras?
Por todas essas circunstâncias, é compreensível o receio com o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH 3), que não honra o nome ao propor o controle da mídia. Coordenador da campanha de Dilma, Antônio Palocci afirmou discordar da “ideia de interferência estatal na qualidade da comunicação”. Governos autoritários, disse o ex-ministro, tendem a desabar por não permitir o equilíbrio proveniente da crítica.
Seria reconfortante crer que, apesar do silêncio e da cumplicidade do PT e de Lula com ditaduras, tanto ele quanto Dilma assinariam embaixo das palavras de Palocci.

MERVAL PEREIRA


O sonho de Marina

O GLOBO - 06/03/10


A senadora Marina Silva tem um sonho. Quer transformar a questão ambiental num tema central da discussão política, mas sem virar uma candidata de uma nota só. Mais que transversalidade, palavra que Marina ensinou a Lula, mas que o governo adotou só na retórica, a intenção é dar centralidade no programa de governo à questão socioambiental, saindo do que considera uma discussão do passado para preparar o país do futuro.

Sua equipe está convencida de que elaborar um programa de governo que reflita os tempos atuais com uma visão de futuro é mais difícil do que fazer um programa tradicional, como os partidos políticos costumam fazer, em que a questão ambiental geralmente é um dos últimos itens.

A candidata do Partido Verde está preparando um programa que não será dividido em tópicos separados, mas composto de temas integrados por uma visão que tente antecipar os desafios do futuro.

Ela pretende se diferenciar dos dois candidatos favoritos à sucessão presidencial justamente pela ação voltada para um desenvolvimento que não objetive apenas o lado econômico, o crescimento do PIB como medida do sucesso de um governo, embora não subestime a importância desses indicadores.

Ela vai manter, como Lula manteve, as bases da política econômica, com o equilíbrio fiscal e controle da inflação, mas também os programas sociais que melhoraram a distribuição de renda no país.

Nesse sentido, ela é pós-FH e pós-Lula. Mas é sobretudo pró-desenvolvimento que englobe outros aspectos, um desenvolvimento que melhore o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) não apenas como consequência do crescimento econômico, mas como fruto de uma ação governamental que privilegie a qualidade do ensino, a melhoria da situação na saúde, as pesquisas tecnológicas que coloquem o país em outro patamar, muito além da mera disputa entre tendências políticas antagônicas.

A senadora Marina Silva sente falta de um período em que a política era feita de desassombros, quando o país vislumbrava o futuro como um sonho coletivo, contra um presente que é muito pragmático e limitado.

Ela acha que a política que está sendo feita no país obedece muito a certos ditames que visam à manutenção do poder político, não a avanços institucionais, a melhorias na qualidade do bem-estar do cidadão.

Sabe que será difícil oferecer ao eleitorado um sonho que ele pensa já estar sendo realizado pelo que o governo Lula tem oferecido, e que a sensação de bem-estar existente reduz as possibilidades de tentativa de superação desses limites.

Mas acha que é possível convencer o eleitorado de que há outros objetivos a serem alcançados além de participar da sociedade de consumo.

A própria qualidade desse consumo tem que ser revista, para que a sensação de bem-estar seja mais ampla e atinja mais cidadãos.

Um bom exemplo seria a venda de automóveis, um sonho de consumo de todas as classes. Trabalhar para que as cidades a longo prazo tenham um sistema de transportes eficiente e de energia limpa seria uma maneira de oferecer à maioria dos cidadãos uma opção de deslocamento saudável, e aos donos de automóveis vias menos congestionadas.

A exploração do petróleo do pré-sal seria outro exemplo da diferença entre um projeto de futuro de país mais saudável em vários sentidos, e um imediatista, que é o que está sendo desenhado, com o jogo político disputando a suposta riqueza de uma energia poluente que hoje já está em vias de ser ultrapassada.

O empresário Guilherme Leal, copresidente do Conselho de Administração da Natura Cosméticos e candidato a vice-presidente na chapa do PV, compara o petróleo do pré-sal à herança de uma avó: o dinheiro guardado pode se transformar em pó, não valer mais nada quando se puder usá-lo.

O petróleo como fonte de energia poluente, caminha para a obsolescência no mundo do futuro, e sua exploração teria que ser feita com vistas à preparação da economia do futuro, financiando pesquisas que colocassem o país em condições de competitividade num novo mundo que está se desenhando.

E não como se fosse um tesouro inesgotável que será a salvação de todos no presente.

Mas a senadora Marina Silva tem um sonho mais abrangente, que engloba a democracia como valor universal.

Valores como a liberdade de expressão são caros a ela.

Pensar o futuro do país é pensar o fortalecimento da democracia brasileira, em um continente que passa por experiências democráticas que estão resultando em regimes com tendências autoritárias.

Ela tem louvado a decisão do presidente Lula de não ter aceitado tentar mudar a Constituição para poder disputar um terceiro mandato consecutivo, e costuma dar seu testemunho pessoal de que o presidente sempre reagiu mal às sugestões nesse sentido, e desencorajou quem chegava próximo com a tentação da continuidade.

Mas, ao mesmo tempo em que tem feito esse reconhecimento, ela, bem no seu estilo tranquilo, tem perturbado seus interlocutores com um raciocínio no mínimo interessante: o empenho do presidente Lula na eleição de uma candidata escolhida a dedo, que não saiu da disputa partidária, não guardaria alguma semelhança com aqueles mesmos processos? Não haveria o risco de que a intenção do presidente seja transformar o governo Dilma em apenas um intervalo entre dois governos Lulas, o que poria em xeque a alternância de poder, um dos pilares da democracia? Quem tem estado com Marina fica com a certeza de que, na visão dela, para que a democracia se fortaleça no país é fundamental que a divergência de opiniões seja respeitada, que a imensa popularidade do presidente não transforme em verdade absoluta o que diz ou pensa, que a discordância seja aceita, e que os governos se submetam à pluralidade da sociedade, governando para todos, e não apenas para os seus.

ANCELMO GÓIS

ISTO É MARINA


O GLOBO - 06/03Q10


 
Marina Silva, candidata do PV à Presidência, tem viajado para cima e para baixo em avião de carreira.
Recusou-se a usar um jatinho cedido pelo empresário Guilherme Leal, presidente da Natura, e provável vice em sua chapa.


SEGUE... 
A senadora pode, quem sabe, até usar um avião alugado na campanha, desde que esteja dentro das normas do TSE.


OUTRA... 
Marina foi por conta própria a Copenhague, em dezembro, para a Conferência do Meio Ambiente. Viajou de classe econômica.
Recusou passagens oferecidas pelo Senado. Quando o PV soube, fez um upgrade para a classe executiva, na volta.


PARA CONCLUIR... 
O grande pesquisador social Ricardo Paes de Barros, do Ipea, vai ajudar a fazer o programa de governo de Marina.


CALMA, GENTE 
Flávia Arruda, mulher do governador preso, tentava ontem com o Ministério da Justiça que o marido receba a filha pequena, impedida pela PF de visitá-lo.


ANO PERDIDO
Trabalho recente de Marcelo Neri, do CPS/FGV, sobre classes econômicas, mostrou que, em janeiro de 2009, todos os indicadores sociais pioraram.
Houve paulatina recuperação das perdas de fevereiro em diante. “Chegamos ao fim de 2009 nos mesmos níveis de 2008, ou seja, variação próxima de zero.”


AMORIM FICA 
O chanceler Celso Amorim, que já foi filiado ao PMDB e, recentemente, assinou a ficha no PT, desistiu de disputar uma vaga no Congresso nas eleições deste ano.
Vai ficar no posto até o fim do mandato de Lula.


TRAGÉDIA SOCIAL
Terça, seguranças do Shopping Leblon, no Rio, suspeitaram da aparência de dois homens que aguardavam atendimento na loja de celular e os revistaram inteiros, de forma ríspida.
Não acharam nada e os liberaram. Eles vestiam roupas surradas. Parece preconceito. E é.


VIVA CARMÉLIA! 
De Carmélia Alves, 87 anos, a Rainha do Baião, em depoimento para o livro As Rainhas do Rádio, de Maria Luísa Rinaldi Hupper:
– Antigamente, a gente tinha muito contato com os fãs. Hoje, o artista faz uma força danada para ficar famoso e, depois, uma força danada para se esconder.
Faz sentido.


NO MAIS 
É como disse ontem na CBN mestre Carlos Alberto Sardenberg:
– E desde quando Lula precisou de licença para fazer campanha eleitoral?


ÚLTIMA HORA
Sílvio Berlusconi acaba de cancelar sua visita ao Brasil. Desembarcaria terça-feira.


MADEIRA RECICLADA 
O governo do Pará está colocando em prática a proposta de destinar a madeira ilegal apreendida no estado para obras em comunidades carentes. Em fevereiro, foram entregues 50 metros cúbicos de madeira serrada (pouco mais de uma carreta) à comunidade quilombola Menino Jesus para construção de duas pontes. A mesma quantidade foi repassada a prefeitura de Marituba, onde virou 220 carteiras
escolares. Mais 10 metros foram doados à construção da sede da Associação Palmeiras Futebol Clube, em Belém. 




De Chávez para Lula
Avança o projeto do grupo argentino Techint — que deixou a Venezuela escorraçado por Chávez — de instalar uma siderúrgica no Porto do Açu, no Rio.
O desafio é garantir junto à Anglo-American, que controla o projeto de minério de ferro Minas-Rio no porto, o suprimento do insumo.



Tapetes persasO Itamaraty tenta mostrar que as relações com o Irã não se resumem à polêmica nuclear.
Aceita sugestões. Mas uma das ideias é fazer algum tipo de acordo cultural. É. Pode ser.



Nike: lá e cá
Sabe quanto custa a nova camisa da seleção brasileira na Lillywhites, megaloja de esportes em Picadilly, Londres? Cerca de 40 libras, uns R$ 107. Ou seja, quase a metade do preço no Brasil

MAÍLSON DA NÓBREGA


REVISTA VEJA
Maílson da Nóbrega 

O PT não conhece o BB

"O BB é agora outro banco. Seus executivos têm nível de 
qualificação semelhante ao dos dirigentes das instituições
privadas. A escolha para posições de liderança valoriza
mais a preparação acadêmica e o treinamento"

Após ser sagrada futura candidata do PT à Presidência, a ministra Dilma Rousseff assumiu dois compromissos: preservar a política econômica e promover o desenvolvimento com base em um "estado forte".
Ela diz que esse "estado forte" não significa o estatismo de outros tempos. De fato, a volta ao passado, ainda que desejada por muitos, é impossível. Não dá para imaginar o governo de novo pondo-se a produzir aço ou a vender farinha de trigo na porta dos moinhos. O estado seria o "indutor" e não o gestor do desenvolvimento. Palmas para a ministra se isso significar, por exemplo, melhoria na qualidade da educação, um sistema tributário racional e leis que incentivem o investimento privado em infraestrutura.
Acontece que as diretrizes do partido da candidata, o PT, divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo, sinalizam justamente intervenções como aquelas dos tempos passados. É o caso da criação de "campeões nacionais" via empréstimos generosos do BNDES. Montanhas de subsídios poderão conferir poder de mercado a grupos privilegiados. O resultado seria o aumento da concentração de renda, que o PT condenava. Como antes, haveria uma industrialização socialmente ineficiente.
Os aumentos de participação estatal no capital da Petrobras já preocupam investidores. Mas o pior mesmo seria usar o Banco do Brasil como alavanca da "grande transformação" de um governo Dilma, como se depreende do documento que engloba as tais diretrizes do PT. O assessor internacional de Lula, o petista Marco Aurélio Garcia, de inequívocas convicções estatistas, é um dos coordenadores do documento. Promete-se ali usar o crédito do BB para beneficiar o setor produtivo.
Essa visão, bolorenta, remonta ao tempo em que o BB dava crédito subsidiado com recursos do governo, os quais eram supridos por uma "conta de movimento", que se tornou insustentável quando a inflação agigantou a demanda desses recursos.
A conta foi extinta em 1986, sob intensa oposição dos que não viam sua impropriedade e o risco que ela impunha ao BB. Iniciou-se a longa transição até a virada final, entre 1995 e 1999. O banco viria a protagonizar a maior revolução de uma empresa estatal brasileira.
Cortado o acesso fácil ao Tesouro, o BB se reinventou. Autorizado a atuar em todo o sistema financeiro - a contrapartida natural do fim da "conta de movimento" -, o banco preparou-se para explorar novas oportunidades. Com seus melhores talentos e consultoria externa, redesenhou sua estrutura e reduziu o quadro de pessoal.
A área financeira foi separada da comercial. Essa segregação, comum nos bancos, tinha no BB uma justificativa adicional: blindá-lo contra o populismo de seu maior acionista. A área comercial empresta, mas a financeira fixa as condições. Em tese, não é mais possível direcionar o BB para ações "desenvolvimentistas".
O BB é agora outro banco, inclusive na formação de recursos humanos. Seus executivos têm nível de qualificação semelhante ao dos dirigentes das instituições privadas. A escolha para posições de liderança, no país e no exterior, valoriza mais a preparação acadêmica e o treinamento focalizado na excelência dos serviços e na competição no mercado.
O BB atua em todas as áreas, abrangendo as de gestão de recursos de terceiros, banco de investimento, previdência e seguros. Sua subsidiária no exterior, a BB Securities, é campeã de lançamento de papéis de empresas brasileiras nos mercados globais de capitais, superando tradicionais instituições nacionais e estrangeiras.
Em situações excepcionais, como na recente crise, o BB pôde assumir riscos maiores do que os bancos privados, aumentando sua participação na oferta de crédito. Fez isso de forma responsável, sem piorar os níveis de impontualidade. Nada a ver com seu passado de provedor do crédito subsidiado que beneficiava relativamente poucos.
As citadas diretrizes implicam eliminar a segregação de funções. O BB voltaria a ser instrumento de concentração de renda em lugar de avançar na modernização baseada na competitividade, meritocracia e boa governança corporativa.
Como fez Lula, Dilma pode desprezar tais ideias, que por ora serviriam para contentar segmentos mais atrasados e radicais do PT. A porta não seria aberta para desatinos e o BB continuaria a ser estrela de primeira grandeza na constelação do sistema financeiro brasileiro. Rezemos.

DORA KRAMER


O que for necessário

O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/03/10


Não é de hoje que se fala no governo sobre a possibilidade de o presidente Luiz Inácio da Silva se licenciar do cargo para se dedicar sem amarras legais à candidatura de Dilma Rousseff.

A hipótese começou a ser levantada no ano passado entre parlamentares do PT e circulou com naturalidade no Palácio do Planalto até pouco antes das últimas pesquisas mostrando a candidata em situação de quase empate com o pré-candidato da oposição.

A negativa oficial, portanto, não soa veraz quando dita em tom veemente.

O que há é a inconveniência tática de se falar no assunto no momento. Quando a oposição ainda não mostrou como vai jogar, o quadro de candidaturas estaduais está indefinido e Dilma aparece bem nas pesquisas.

A apresentação de uma arma dessa potência agora poderia, por exemplo, levar o adversário a se reforçar e o governo acabar patrocinando o que mais teme: a formação da chapa José Serra-Aécio Neves.

Seria também um atestado da fragilidade da candidata. Se não preside a própria campanha, teria credenciais para presidir o Brasil?

Ademais, a substituição de Lula não é uma tarefa das mais simples. Primeiro é preciso resolver o problema em Minas. Se o PT desiste de candidatura própria, se José Alencar será ou não candidato ao Senado, ao governo estadual ou se continua vice-presidente da República.

Se ficar, a história é uma. Facilita. Se sair, complica. O único político da linha sucessória disponível para assumir é o presidente do Senado, José Sarney. O próximo da fila seria o presidente do Supremo Tribunal Federal.

Deixar o governo nas mãos de José Sarney - protagonista de todos os escândalos do Senado no ano passado - e do PMDB - símbolo do fisiologismo a quem a PT se refere como "um mal necessário" - poderia pôr em risco o êxito do projeto, dado o impacto negativo que provavelmente teria na opinião pública.

Sarney diz que jamais cogitaria aceitar porque quem foi presidente não poderia ocupar o lugar como interino.

De lá para cá o senador prestou-se a tantos papéis indignos de um presidente da República, que considerar uma ofensa ocupar a cadeira principal do Palácio do Planalto por dois meses recende a dissimulação.

Além do que Sarney é especialista em negar que vai para em seguida ir.

De qualquer modo isso não é assunto para ser resolvido neste momento. Petistas não comprometidos com a tarefa de negar oficialmente a licença consideram que no cenário de hoje o afastamento de Lula mais atrapalharia que ajudaria.

Exatamente pelas razões que o presidente apresentou ontem para negar a licença. "Seria uma irresponsabilidade para com o mandato que me foi dado pelo povo brasileiro." Assim também provavelmente o público receberia a notícia da licença.

As análises que tomam por base o cenário de hoje mudam inteiramente na perspectiva de o favoritismo de Dilma não se confirmar ao longo da campanha. Nesse caso, o presidente Lula avalia o quadro e, se necessário for, sai do cargo para entrar na campanha.

Por ora, Dilma caminha bem, a oposição vive uma fase ruim e a Justiça Eleitoral dá animadores (do ponto de vista do Planalto) sinais de complacência.
Descendente

A defesa de José Roberto Arruda segue cumprindo seu roteiro sem queimar etapas. Tentou negociar uma licença em troca da liberdade e agora pede a prisão domiciliar do governador.

Mas dificilmente Arruda poderá se desviar da rota da renúncia. Pelas seguintes circunstâncias: há provas incontestáveis contra ele, seus aliados querem salvar as respectivas peles, o Estado que governa é politicamente fraco e, não bastasse, é reincidente.
Expiatório

Correligionários de José Serra atribuem a queda nas intenções de voto no Sudeste ao desgaste do prefeito Gilberto Kassab junto à população da cidade de São Paulo.

Cruzam dados daqui e de lá e chegam à seguinte conclusão: a redução de preferências na capital foi tão acentuada que influiu de maneira desastrosa na média da região.

Pode até ser, mas pela lógica é de se supor que o cálculo da pesquisa seja feito para evitar esse tipo de distorção.
Pelo menos

O ideal na cabeça do tucanato seria que Aécio Neves fosse o porta-voz do anúncio oficial da candidatura José Serra. Independentemente da composição da chapa.
Via das dúvidas

Amigos de José Serra acham "impossível" que ele desista, no entanto lembram que em 2006 ele quase desistiu de deixar a prefeitura.

Minutos antes da entrevista coletiva para anunciar a decisão de disputar o governo de São Paulo.

CLÁUDIO HUMBERTO

“A decisão é um marco no combate à impunidade no Brasil”
OPHIR CAVALCANTE, PRESIDENTE NACIONAL DA OAB, SOBRE A DECISÃO DO STF CONTRA ARRUDA

DUDA À JUSTIÇA: PT PAGOU A ELE R$ 32,6 MILHÕES
Em depoimento à Justiça Federal na Bahia, no caso do mensalão, ainda inédito na imprensa, o publicitário Duda Mendonça revelou que entre 2001 e 2003 recebeu R$ 32,6 milhões do PT por sua atuação nas campanhas de Lula, em 2002, e de São Paulo e Rio de Janeiro. Do total pago pelo PT, R$ 10,4 milhões foram depositados em conta no Bank Boston, em Miami, “por exigência do empresário Marcos Valério”.
HOMEM DO DINHEIRO
Duda contou que “todos os recebimentos foram combinados e autorizados” pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares.
AS COISAS MUDAM 
Duda também afirmou à Justiça que “àquele momento a imagem do PT não indicava possibilidade de existir pagamento com dinheiro escuso”.
SEM OPÇÃO 
Sobre a grana depositada no exterior pelo PT, “era pegar ou largar” repetiu Duda Mendonça em seu depoimento à Justiça Federal.
SEM PROBLEMAS
Duda lembrou à Justiça que a devassa em sua vida e suas empresas não resultaram em qualquer atuação da Receita Federal.
INB: HÁ 16 ANOS EM BUSCA DO URÂNIO PERDIDO
O superintendente da Indústrias Nucleares do Brasil, José Carlos Castro, chegou da Alemanha, em mais um périplo atrás do “cano” de US$ 62 milhões da multinacional falida Nuexco, para a qual a INB transferiu, em 1994, seis lotes de urânio, hoje com a alemã Siemens. Diz apenas que a suprema corte alemã “atendeu ao nosso pleito”. O gasto com advogados e viagens já ultrapassou os R$ 10 milhões.
ENCRENCA ATÔMICA
Além do “rombo”, o negócio com a Nuexco foi ilegal, sem autorização presidencial para exportar reserva estratégica e pagamento de imposto.
ESPERA EM CASA
O STJ mandou um acusado de roubo esperar em casa a apelação. Achou excessiva a demora de três anos para o TJ-SP julgar o pedido.
NOSSA GRANA 
A Câmara dos Deputados contratou, sem licitação, uma empresa de web design e web ilustração por R$ 744,8 mil.
EM FAMÍLIA 
O fim do segredo de Justiça da Operação Naufrágio – envolvendo juízes, advogados e servidores do Tribunal de Justiça do Espírito Santo em venda de sentenças – mostrou, entre outros absurdos, que o ex-presidente do TJ Frederico Pimentel empregava 16 parentes.
TV LUSITANA 
A TV Justiça teve enfim grande audiência, ao transmitir o julgamento do habeas-corpus de Arruda, no STF, mas os números são “segredo de Justiça”: o contrato com o Ibope prevê “sigilo”. Parece piada.
AUSÊNCIA 
Dos onze ministros do STF, somente dez comparecerem à votação do habeas-corpus do governador Arruda. O único ausente foi Eros Grau, em campanha para uma vaga na Academia Brasileira de Letras. Ele vai ser atingido pela compulsória em 19 de agosto, ao completar 70 anos.
NÃO FOI BEM ASSIM
Não é “DEM abre mão de vice”, como avisou o líder do Democratas no Senado, José Agripino Maia (DEM). O correto é “Serra abre mão do DEM como vice”. E quem quer ser o vice de Serra? Poucos, pelo visto.
DESPREPARO
Na sabatina com Hillary Clinton, um professor da faculdade Zumbi dos Palmares se apresentou como “mestre e doutor”, mas chamou a secretária de Estado de “chefe de Estado”. Coitados dos alunos.
PÔNCIO PILATOS
Afastado pelo Conselho Nacional de Justiça por suposta irregularidade na fiscalização de cartórios, o corregedor da Justiça do Rio, Roberto Wider, atribuiu a indicação de dois advogados para cartórios vagos ao juiz auxiliar Luiz de Melo Serra, que empurra o problema para Wilder.
DOSE PARA ELEFANTE 
Em mais um palanque na Bahia, Lula ironizou a oposição, dizendo que, se pudesse, ela estaria cantando “um Lulinha incomoda muita gente, uma Dilminha incomoda muito mais”. Não é eleição, é um enfarte.
PERCALÇOS
O coronel e senador Tasso Jereissati (CE) termina uma semana adversa: ofereceu-se para ser vice de José Serra, mas ninguém lhe deu importância. E saiu de Brasília reclamando da vida, como sempre.
PENSANDO BEM...
... Lula está certo. Quem pariu Dilma, que a embale.

PODER SEM PUDOR 
DUPLA SERTANEJA 
Os deputados Inaldo Leitão (PL-PB) e Luciano Leitoa (PSB-MA) estavam próximos um do outro, como uma piada à procura de quem a contasse. Encontraram o deputado Marcelo Ortiz (PV-SP), sempre muito brincalhão:
– Essa é a dupla mais dinâmica da Casa, Leitão e Leitoa.

O VERME E O ABILOLADO

SÁBADO NOS JORNAIS


Globo: Nenhum candidato poderá participar de inaugurações

Estadão: Privatização de aeroportos fica para o próximo governo

JB: No Iraque, quem decreta o recolher é a Al Qaeda

- Folha: PF apura desvio de R$ 700 milhões em 303 obras públicas

sexta-feira, março 05, 2010

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO


A diplomacia da pirraça

O Estado de S. Paulo - 05/03/2010
 

Três rodadas de sanções impostas pelo Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas não impediram o Irã de desenvolver o seu programa nuclear alegadamente para fins pacíficos - em parte porque a Rússia e a China ajudaram o governo de Teerã a burlá-las. A julgar pelo retrospecto, portanto, uma nova bateria de punições seria inútil ou, pior, teria um efeito bumerangue. "Não é prudente encostar o Irã na parede", disse o presidente Lula na quarta-feira, horas antes de receber a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, que reafirmou em Brasília a posição dos Estados Unidos, endossada pela União Europeia, segundo a qual "o tempo da ação internacional é agora". Mas o retrospecto que aparentemente respalda a posição brasileira, favorável a negociações com os iranianos sem data para terminar, é uma premissa enganosa.

É verdade que o tipo de ação que Washington tem em mente costuma produzir, por si, escassos efeitos - com a espetacular exceção do boicote econômico à África do Sul, que precipitou a queda do regime do apartheid. Isso não é o principal, porém. No caso iraniano, se a adoção de novas sanções exprimir e em seguida cimentar a coesão internacional contra a nuclearização do país, a República Islâmica terá recebido uma vigorosa mensagem política que não poderá ignorar. Seria ingenuidade supor que o Irã poderá ser reduzido à condição de Estado-pária. Afinal, a nação persa não é bem um paiseco. Ainda assim, se os aiatolás olharem em volta e se derem conta de que os seus aliados se limitam aos países muçulmanos da África subsaariana e à Venezuela de Hugo Chávez, quem sabe se disponham a fazer de verdade o que até agora só fingiram - conversar a sério. Restará saber em que termos.

Hoje como hoje, o Irã se empenha em obter as condições - matéria-prima, equipamentos, tecnologia e base industrial - que lhe permitam fazer a bomba se e quando entender que chegou a hora. Há poucas semanas, o cão de guarda da ONU para o setor, a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), afirmou existirem amplas evidências de que o país caminha a passos firmes nessa direção. É o mais claro alerta já emitido pela entidade sobre as intenções iranianas. Confere à questão um novo sentido de urgência. E implicitamente eleva o preço das contrapartidas que o Irã poderá exigir para mudar de ideia. Não é impossível - a Líbia mudou -, mas não há uma fórmula segura para dissuadir Teerã. No comunicado conjunto sobre a visita de Hillary, Brasil e Estados Unidos manifestaram a sua "séria preocupação com a evolução nuclear no Irã" e o exortaram a cumprir a resolução da ONU.

Uma coisa, no entanto, são as vastas incertezas sobre como chegar à "solução diplomática positiva para o tema" de que fala o comunicado. Outra é o infantilismo da atitude brasileira de rejeitar liminarmente a via das sanções, com a única finalidade de acicatar o governo americano. O que move a diplomacia lulista é a tolice de que a projeção do País como ator global depende de ser visto repetidamente mostrando a língua para os Estados Unidos - quanto mais importante o pretexto para a pirraça, tanto mais depressa Brasília será contemplada com esse imaginário passaporte para a fama. Já não se trata apenas, ao que tudo indica, do antiamericanismo de ranço ideológico. Agora é a vez do antiamericanismo de resultados - conquanto impalpáveis até onde a vista alcança.

Mas deve ter feito um tremendo sucesso em Teerã a esdrúxula tirada do chanceler Celso Amorim, comparando as pressões dos Estados Unidos contra o Irã à retórica americana sobre as armas de destruição em massa do Iraque antes da invasão do país. Saddam Hussein fazia crer que as tinha para não ser derrubado por seus generais. Mahmoud Ahmadinejad nega que pretenda tê-las enquanto se prepara para fazê-las. Com a lábia dos vendedores de tapetes do bazar de Teerã, os diplomatas iranianos se desdobram em lisonjas ao Brasil - e o Itamaraty, ofuscado pela soberba, cai no conto. Cheio de si, Amorim não quer saber se cresce o consenso pelo endurecimento com o Irã. "O Brasil pensa com a própria cabeça", anunciou, contando vantagem à maneira dos novos-ricos. Só foi superado pelo seu "guia", como se refere a Lula. "Se o Irã for além disso (o uso da energia nuclear para fins pacíficos)", balbuciou ele, "não poderemos concordar." Ahmadinejad treme de medo.

PETISTA

JOÃO DONATO


Nova bossa na nossa Bossa Nova


O Globo - 05/03/2010
 
Em  1962, voltei ao Brasil para gravar um disco, depois de dois anos morando nos Estados Unidos. Era uma tarde quente e um produtor entrou no estúdio falando em voz alta: “Mas isso não é Bossa Nova”. Retruquei: “Eu não disse que é, só estou gravando um disco.” Era o meu primeiro 12 polegadas: João Donato e seu Trio Muito à Vontade, com os saudosos Milton Banana (bateria) e Tião Neto (baixo).

Um ano depois retornava à América, em seguida o disco foi lançado pela Pacific Jazz com o nome de “Sambou Sambou” e se tornou o responsável pelo meu ingresso definitivo no mercado fonográfico americano. No auge da Bossa Nova, eu, que desembarcara na terra de Frank Sinatra antes da chegada dos meus amigos João Gilberto e Tom Jobim, assistia à euforia dos músicos de jazz com a novidade.

O jornal “São Francisco Chronicle” chegou a anunciar que o novo gênero musical brasileiro era a melhor coisa que tinha acontecido na música americana.

Cansados de tocar a música exageradamente popular da época, os músicos passaram a usufruir do prazer de viajar pelos ricos acordes do samba-jazz e da sua versão mais suave, a Bossa Nova.

O improviso andava solto e por caminhos nunca antes percorridos. A carreira de Stan Getz, estacionada, ganhou fôlego com a chegada da Bossa Nova. Bud Shank e Chet Baker, meus parceiros de estrada, queriam tocar, gravar e se aprofundar nos ritmos deste país da América Latina que contribuía com algo diferente do mambo, da salsa e da rumba dos imigrantes da América Central.

Mais de meio século depois do marco da exportação da Bossa Nova para o mundo, após fazer música com parceiros de tantas gerações e estilos musicais variados, e de ver minhas canções interpretadas por brasileiros do samba, do bolero e do hip hop, pela Orquestra Sinfônica da Rússia, por um grupo vocal de cubanas, de tocar na Líbia e de ser tratado como um artista popular no Japão, tais lembranças me fazem refletir sobre como talvez eu tenha dado ouvidos àquele produtor e passado a vida resistindo à minha participação e influência no ritmo que veio a se chamar Bossa Nova.

Hoje, tenho consciência de que negar minha participação na história da Bossa Nova seria deletar um trecho da história da música popular brasileira e de minha história pessoal. Em 2002, quando a Dubas relançou “Muito à Vontade” em CD, o escritor Ruy Castro lembrou que o disco me abriu novos horizontes e, nas palavras dele, “devolveu a Donato, sem ele saber, um movimento que ajudara a construir”.

Em 2008, nas comemorações dos 50 anos da Bossa Nova, convidado pelo meu parceiro musical Nelson Motta a receber uma homenagem da nova geração de intérpretes da música, já cansado do peso das viagens — rodei 
11 países em quatro continentes, fui duas vezes a Cuba no mesmo ano — acabei desabafando em uma entrevista: “Não aguento mais falar em Bossa Nova.” Eu sou mesmo assim.

Para lembrar um grande músico brasileiro, Eloir de Morais, “envaideçome” ao ser convencido de integrar uma história tão bonita pelo desenrolar da própria história. Mas devo confessar que, como acreano-pianista-compositorintuitivo, o que me encanta são as infinitas possibilidades que a música me oferece de experimentar novos sons, novos rumos, novas combinações, novos acordes, novas vozes, numa constante renovação.

Algo que foi percebido há muito tempo por gente como Stan Kenton, Miles Davis, mais recentemente por Diana Krall e — por que não? — Black Eyed Peas. Algo que o mundo inteiro reconhece e modernamente aprecia. Percebo que na atualidade há um improviso do improviso.

Uma nova bossa dentro da Bossa e é um patrimônio que, quanto mais se transforma, mais herdeiros faz ao longo do caminho e de uma estrada rumo à imortalidade.

Faltava o Rio, berço da Bossa, valorizar e dar o suporte para que novos compositores, músicos e intérpretes possam fazê-la ecoar e ser recriada a partir da sua maternidade. Um bom começo é o Circuito da Bossa Nova que a prefeitura lançou na segunda-feira, na festa dos 445 anos do Rio, no Espaço Tom Jobim do Jardim Botânico.

Agora, Leny Andrade, Joyce, João e Bebel Gilberto, Pery Ribeiro, Carlos Lyra, Milton Nascimento, Os Cariocas, Emílio Santiago, Roberto Menescal, Cris Dellano, Zé Renato, Mariana Aydar, Wanda Sá, Thaís Fraga, Mário Adnet, Augusto Martins, Miúcha, Sérgio Mendes, Sandra de Sá, Fernanda Takai, Johnny Alf, Adriana Calcanhoto, Marcos Valle, Francis e Olivia Hime, Jaques e Paula Morelenbaum, Roberta Sá — nosso catálogo é infinito — poderão mostrar com ternura, amor e sem temer contradições que a boa música é celestial, é de todos, é nossa e se renova.