domingo, janeiro 17, 2010

DORA KRAMER

Instituição questionada

O ESTADO DE SÃO PAULO - 17/01/10


No ano passado nem o “vício insanável da amizade” – na expressão do notório deputado Edmar Moreira, o do castelo – sustentou uma tradição do Senado: pela primeira vez não houve festa de confraternização entre os senadores, habitualmente recebidos pelo presidente na residência oficial da instituição.

Mais forte que o cerimonial foi a indisposição à fraternidade e a ausência de clima para comemorações, depois de um ano de crises e um longo período de escândalos que quase derrubaram dois presidentes e provocaram a renúncia de outros dois.

“As pessoas estão cansadas umas das outras”, constata o senador José Agripino Maia, para quem o cancelamento da festa reflete o ponto de exaustão a que chegou o Senado com as próprias mazelas.

E, se nem os senadores aguentam mais uns aos outros, quem dirá o que pensa o cidadão a respeito da Casa, que de dez anos para cá é cenário de brigas, ilicitudes, operações abafa e toda sorte de comportamentos condenáveis.

Nesse ambiente é que o Senado enfrentará uma eleição que tem tudo para ser diferente das outras. Em outubro haverá a renovação de dois terços da Casa que só por obra do improvável deixará de ser intensamente questionada pelo eleitorado.

Será uma eleição atípica e que chamará muito mais atenção do que habitualmente. Sobre o Senado o eleitor tem muito mais condições de interferir pelo voto do que na Câmara, pelo fato de a eleição ser majoritária e a marcação, homem a homem.

Na votação para deputado, pelo sistema proporcional, o eleitor não tem controle sobre sua vontade. Vota em um candidato e pode perfeitamente – o que ocorre com frequência – eleger outro. Entram no jogo os cálculos, os coeficientes, as divisões entre as coligações, uma série de fatores que se interpõem entre o votante e o votado.

“O Senado chega à próxima eleição aos espasmos”, diz o senador Agripino, otimista, entretanto, com a próxima legislatura. Acha que, se os candidatos não tomarem a iniciativa de fazer suas campanhas propondo a substituição do “velho” pelo “novo” Senado, os eleitores se encarregarão da faxina.

“Hoje ninguém fala sobre isso porque a eleição está distante. Mas, com toda certeza, as pessoas guardaram na memória todos os episódios degradantes e vão levar em conta aquele acúmulo de acontecimentos para dar o troco na urna. Portanto, quem quiser ficar em consonância com a sociedade vai precisar se credenciar. Primeiro, com vida pregressa correta e, depois, com disposição de atuar na contramão dos velhos vícios.”

E a força das máquinas? “No caso de eleição majoritária e do completo esgotamento do modelo, valerá mais o voto de opinião.”

Nova embalagem

A oposição, que até agora dizia rechaçar a ideia de uma campanha eleitoral polarizada para presidente, já começa a propagar uma análise diferente.

Pela nova versão, a polarização não seria de todo má para a candidatura do PSDB porque facilitaria uma vitória no primeiro turno.

Claro que a premissa não é a de um embate nos termos propostos pelo presidente Luiz Inácio da Silva: um plebiscito entre o governo dele e o do antecessor Fer nan do Henrique Cardoso.

A polarização que os tucanos acham favorável é aquela em que de um lado esteja o candidato do PSDB e de outro a ministra Dilma Rousseff como tutelada pelo presidente.

Por esse raciocínio, a passagem de Dilma para o segundo turno daria a ela uma outra dimensão – passaria de “júnior” a “sênior” –, atrairia apoios e criaria dificuldades sérias aos oposicionistas.

Bom combate

A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de baixar uma resolução obrigando os partidos a identificarem os nomes dos doadores e dos beneficiários de recursos para financiamento de campanhas reflete as críticas da Justiça Eleitoral à chamada “reforma política” que o Congresso aprovou no ano passado.

Na época, o presidente do TSE, ministro Carlos Ayres Britto, alertou para as distorções das alterações feitas na legislação eleitoral, sendo uma das mais graves a permissão para que os partidos recebessem doações ocultas. Sem a identificação dos doadores nem dos beneficiários.

Alguns parlamentares, com destaque para o senador Eduardo Suplicy, tentaram até o último instante derrubar esse ponto da “reforma”, mas os grandes partidos, inclusive os de oposição, foram contrários.

Na ocasião, Ayres Britto alertou que a modificação facilitaria o uso do caixa 2 e dificultaria o trabalho da Justiça para seguir o rastro das ilegalidades.

Como a questão ainda será debatida em audiências públicas e tem prazo até 5 de março para ser aprovada, nesse meio tempo, não há dúvida: o Congresso dará algumas demonstrações de apreço ao mau combate em defesa da permanência das doações ocultas.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

LUIS FERNANDO VERISSIMO

Deus e o Diabo no Haiti

O GLOBO - 17/01/10


O evangélico Pat Robertson, um dos lideres da direita religiosa americana, tem uma explicação para as desgraças do Haiti que culminaram com esse terremoto demolidor. Um dos países mais miseráveis do mundo, com uma história ininterrupta de privações, violência e instabilidade política, o Haiti estaria pagando por um pacto que fez com o Diabo em 1804, quando pediu sua ajuda para expulsar os colonizadores franceses e tornar-se uma república. Desde então, os haitianos viveriam sob uma maldição. O terremoto, segundo Pat Robertson, é apenas o castigo mais recente. Mas o religioso pediu a seus fiéis que rezassem pelos haitianos. E, presumivelmente, pedissem a Deus que esquecesse velhos ressentimentos e lhes desse uma folga.
Se o Diabo ajudou mesmo os haitianos contra os franceses foi por uma causa nobre. O Haiti foi o primeiro país do mundo a abolir a escravidão, dando um exemplo que custou a ser seguido pelos outros. A república, também inédita, fundada depois da expulsão dos franceses era de ex-escravos, e acolhia escravos fugidos ou alforriados de outros países. E se Deus os castigou por esta audácia, não foi o único. A França exigiu e recebeu reparação pela colônia perdida, o que aleijou a economia da nova república por muito tempo. A vizinhança com os Estados Unidos também não ajudou, os americanos chegaram a ocupar o Haiti durante vinte anos, sem muito proveito para o país. Grandes negócios foram feitos na época dos ditadores Papa Doc e Baby Doc Duvalier, também sem muito proveito para o país. Nos últimos tempos, apoiando e desapoiando líderes mais ou menos populares, os americanos têm tentado manter no Haiti uma democracia representativa mas não representativa demais, a ponto de armar politicamente uma massa de desesperançados, com o risco de eles também convocarem o Diabo. Agora não se sabe o que vai surgir dos escombros da tragédia.
OUTRO
O Deus vingativo de Pat Robertson certamente não era o Deus de Zilda Arns, que morreu no Haiti trabalhando pela causa da sua vida, a ajuda aos pobres e, principalmente, às crianças. O seu era um Deus solidário. Infelizmente, pouca gente no mundo está disposta a fazer um pacto como o que Zilda Arns fez com este outro Deus. Ela sobreviverá como um exemplo e uma inspiração.

CLÁUDIO HUMBERTO

“A oposição não tem nem rumo”
DEPUTADO CÂNDIDO VACAREZZA (SP), LÍDER DO PT NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

GASTOS SECRETOS DA PRESIDÊNCIA CRESCEM 39%
As despesas com cartões corporativos da Presidência da República, protegidas por sigilo a pretexto de garantir “a segurança da sociedade e do Estado” cresceram quase R$ 2 milhões em 2009, um aumento de 39,1% em relação a 2008. O total dos gastos sigilosos foi de R$ 6,79 milhões. Os gastos secretos da Vice-Presidência aumentaram 174%, pulando de R$ 182 mil em 2008 para quase R$ 500 mil em 2009.
O CAMPEÃO
O campeão de gastos secretos no governo é o Ministério da Justiça, que omite do contribuinte o destino de R$ 13,56 milhões em 2009.
INTELIGÊNCIA
As despesas da Agência Brasileira de Inteligência, que não detalha os gastos, cresceram apenas 2,5% em 2009. Gastaram R$ 6,75 milhões.
FICÇÃO
Para o senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA), o Orçamento é visto pelo governo federal como uma “mera peça de ficção”.
LIMPEZA
O Ministério da Agricultura renovou contrato com a empresa
Ipanema para a prestação de serviços de limpeza. Custo: R$ 7,15 milhões.
PANDORA INVESTIGA ATÉ COMPRA DE AVIÃO
Os responsáveis pelas investigações da Operação Caixa de Pandora, em uma segunda fase, investigam sinais exteriores de riqueza de ocupantes de cargos públicos envolvidos no escândalo. O caso do presidente da Câmara Legislativa do DF, Leonardo Prudente, aquele que enfiou dinheiro na meia, é um dos que mais impressionam. Há informações inclusive sobre a compra de avião em nome de laranja.
LARANJA VOADORA
Um avião turbo-hélice King Air, que pode custar US$ 4 milhões, teria sido comprado em nome de um assessor de Leonardo Prudente.
AJUDA
O Ministério da Justiça avalia a ideia de enviar um contingente da Força Nacional de Segurança ao Haiti.
TRABALHÃO
O Distrito Federal tem hoje 1,1 milhão de carros, mas o Detran de Brasília só tem dois guinchos para atender a população.
AÉCIO NO PARAÍSO
Usando um capacete que lhe garante o anonimato, o governador Aécio Neves se juntou a amigos e, no comecinho do ano, percorreu de moto, na areia, todas as praias de Alagoas, de norte a sul. Ficou extasiado: “É o mais belo litoral do Brasil”. O grupo já percorreu 2.600km de praias.
ATESTADO MÉDICO
A Polícia Federal realizou na última sexta o primeiro depoimento da Operação Caixa de Pandora. A convocação era para duas pessoas, mas uma delas apresentou atestado médico e adiou a conversa.
INSPIRAÇÃO FASCISTA
O “plano de direitos dos mano”, da turma do secretário Paulo Vanucchi, é a terceira investida contra a liberdade de imprensa, no governo Lula. A primeira foi o “conselho federal de jornalismo”, de inspiração fascista.
EMENDAS DE BANCADAS...
A retenção de emendas de bancada dos parlamentares gera desconforto entre o Congresso e o governo. O Ministério do Planejamento fez cortes e a liberação não chegou a 15% do valor inicial.
... SÃO FOLCLORE NOS ESTADOS
O Estado do Pará, por exemplo, tinha previsto R$ 350 milhões em emendas, mas só recebeu R$ 80 milhões. No caso do Amazonas ainda é mais grave. O valor executado não chegou a R$ 20 milhões.
NÚMERO 1
O Estado que recebeu a maior quantidade de emendas de bancada do Congresso Nacional em 2009 foi o Distrito Federal. Foram orçados no início do ano R$ 796 milhões e liberados um total de R$ 366 milhões.
JOVENS EMBAIXADORES
Trinta e cinco brasileiros que participam da 8ª edição do programa Jovens Embaixadores foram recebidos esta semana pela primeira-dama dos Estados Unidos, Michelle Obama. A reunião durou 25 minutos
FOCO DIGITAL
O Ministério da Ciência e Tecnologia tenta investir na capacitação digital da população de Roraima. Para a capital Boa Vista foram destinados R$ 1,6 milhão. O difícil vai ser comprovar os resultados.
PENSANDO BEM...
Os tucanos acusam Dilma Rousseff de se esconder atrás de Lula. A verdade é que ela se esconde bem em cima dele.

PODER SEM PUDOR
EM LISBOA, SÓ DOIDO
Em visita a Lisboa no fim de 2003, Fernando Henrique jantou com o ex-presidente Mário Soares e o ex-primeiro-ministro António Guterrez, contando casos para ridicularizar o seu ex-embaixador, Itamar Franco:
– E vocês não sabem da maior: o doido não queria vir para cá, mas, para Buenos Aires, o que seria uma loucura à qual eu jamais chegaria...
Os portugueses trocaram olhares constrangidos, FHC tentou consertar:
– Um ex-presidente tinha de vir para um posto da importância de Lisboa...
Mas o estrago estava feito. Os portugueses se ofenderam com a gafe que confirmou o desprezo do francófilo FHC pelas relações luso-brasileiras.

O ABILOLADO

DOMINGO NOS JORNAIS

- Globo: Jobim: Brasil deve ficar no Haiti pelo menos até 2015


- Folha: Brasil ficará no Haiti mais 5 anos, diz Jobim


- Estadão: Países se mobilizam para acelerar ajuda ao Haiti


- JB: Haiti – Brasil não abre mão do comando


- Correio: Fome e medo levam a fuga em massa no Haiti

sábado, janeiro 16, 2010

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO

Lula e as obras da Copa

O ESTADO DE SÃO PAULO - 16/01/10


Ao pedir que os órgãos incumbidos de fiscalizar e conceder licença ambiental para obras públicas ajam com menos rigor no exame dos projetos ligados à Copa do Mundo de 2014, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tomou o cuidado de ressalvar que "facilitar" a execução dessas obras não significa "ilegalidade", mas "agilidade". Trata-se, segundo ele, de dar-lhes "um tratamento totalmente especial".

No entanto, como o governo Lula, desde seu início, vem dando "tratamento especial" ao principal órgão fiscalizador das obras públicas federais, o Tribunal de Contas da União (TCU), criticando duramente sua atuação, e às agências reguladoras encarregadas de assegurar o bom funcionamento de setores vitais da infraestrutura, asfixiando-as funcional e financeiramente, convém examinar com cuidado suas declarações.

"A Copa do Mundo tem data, junho de 2014", argumentou Lula, na solenidade em que foi firmado o compromisso de responsabilidade da União, dos Estados e municípios envolvidos na organização do evento, e que reuniu governadores e prefeitos das cidades que sediarão os jogos. Por isso, segundo ele, as obras programadas para a realização do evento não podem sofrer atrasos provocados por fiscalização, questões ambientais não resolvidas, exigências formais do TCU, entre outros fatores que podem retardar ou paralisar a construção. Estendeu o raciocínio para as obras destinadas à Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro.

Para evitar a paralisação das obras por problemas contratuais ou de pagamentos, Lula recomendou que se negocie, desde já, uma espécie de "ajuste de conduta" entre os órgãos executores e os órgãos fiscalizadores, "seja na questão ambiental, seja na Controladoria (Geral da União), seja no Tribunal de Contas, ou em qualquer outro órgão".

A questão, porém, talvez seja bem mais simples. Para que as obras não sejam retardadas ou embargadas por irregularidades, bastará que seus projetos e seus contratos respeitem as exigências da lei, o que nem sempre acontece com os contratos do governo federal.

O TCU suspendeu alguns contratos porque as licitações foram feitas, os contratos assinados e as obras iniciadas sem que houvesse um projeto executivo, lembrou o presidente do órgão, ministro Ubiratan Aguiar, há algum tempo, após participar de uma reunião de um grupo de trabalho convocado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para discutir medidas que reduzam os obstáculos impostos pelos órgãos fiscalizadores à execução das obras públicas.

Em alguns casos, reconheça-se, o atraso se deve à inexistência de prazo para o órgão de controle ou de licenciamento ambiental apresentar seu parecer, ou à possibilidade de recurso à Justiça, por qualquer pessoa, para embargar determinada obra pública.

Mas certamente não são questões técnicas ou formais que preocupam o presidente Lula e o levam a propor menos rigor na fiscalização. O que os sete anos de governo deixam claro é seu desprezo pelos mecanismos e instituições que impõem limites à sua ação. "Não é fácil governar com a poderosa máquina de fiscalização e a pequena máquina de execução", disse em outubro, ao empossar o novo titular da Advocacia-Geral da União, Luiz Inácio Adams. Na ocasião, chegou a propor a "punição" dos que suspendem obras públicas sem "motivo justo": "Quem dá a ordem para fazer está subordinado a todas as leis, mas quem dá a ordem para parar não fica sob nenhuma."

Em outra oportunidade, atribuiu a lentidão das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a principal peça de propaganda político-eleitoral de seu governo, não à notória incompetência gerencial de sua equipe, mas a decisões dos órgãos fiscalizadores.

Quanto às agências reguladoras, desde o início de seu primeiro mandato o presidente tenta desmoralizar suas funções e boicotar seu funcionamento, com o congelamento sistemático de até 75% dos recursos orçamentários. Quando não retardou a nomeação de diretores das agências, paralisando-as, barganhou as indicações com os partidos da base de sustentação do governo.

Não surpreende que tenha defendido um ação menos rigoroso desses órgãos que limitam seu modo de exercer o poder.

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

ROBERTO RODRIGUES

2013

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


Com o decreto editado três anos antes, criminosos passaram a ter direitos quase iguais aos de suas vítimas

O CASALZINHO conversava no jardim em frente à casa da menina. Passava das nove da noite daquela quinta-feira, dezembro de 2013, e o assunto era o vestibular. Ele, 19 anos, estudava duro para a segunda fase dos exames: queria ser advogado, defender a Justiça, ajudar o país a ser mais equitativo e moderno na área jurídica.
Entusiasmado, ele explicava à namoradinha os seus projetos; ela, no esplendor dos 17 anos, escutava encantada e feliz por compreender que o vestibulando compartilhava seus sonhos e a incluía neles. Eram duas almas se tocando, duas vidas se entrelaçando na esperança de participarem da construção de um mundo melhor.
Começou uma garoa fina, rala, e resolveram ir embora. Quando se preparavam para atravessar a rua, um carro parou de repente à beira da calçada e, antes que tivessem tempo de entender o que se passava, dois brutamontes os puxaram para o banco de trás e partiram em alta velocidade.
No matagal, o futuro defensor dos oprimidos foi torturado até a morte, sob o olhar desesperado da menina, que foi, depois, estuprada, esbofeteada e, por fim, estrangulada por quatro marginais. Seus corpos foram encontrados dois dias depois, e a dor das famílias e amigos pode apenas ser imaginada. A imprensa não podia contar toda a tragédia, em nome da proteção dos direitos humanos...
Mas a Polícia foi eficiente e, em três dias, prendeu os bandidos. E, antes que a Justiça cumprisse seu papel que levaria às grades aqueles bárbaros, as famílias foram chamadas para um diálogo com eles.
É que, três anos antes, fora publicado um decreto para garantir os direitos humanos. Era um decreto bastante extenso, tratando de mais de 500 assuntos, desde o acompanhamento editorial dos meios de comunicação até a apuração de crimes ocorridos no regime militar; propunha proteger o idoso, combater as desigualdades salariais, limitava a exposição de símbolos religiosos em locais públicos e estabelecia que, quando uma propriedade rural fosse invadida, seriam feitas audiências públicas antes que um juiz, usando suas prerrogativas, concedesse liminar para a reintegração de posse.
A enorme polêmica gerada pelo decreto foi transferida para dentro do Congresso Nacional, que faria as leis implementadoras das intenções nele contidas. Era ano de eleições.
E embora, mais tarde, alguns bodes fossem tirados da sala (especialmente para atender os procedentes reclamos de militares e da Igreja), os setores mais discriminados pelo despeito ou pelo pouco-caso acabaram sendo prejudicados. E vieram reflexos piores, tirando dos juízes sua condição de arbitrar. Até mesmo o direito de propriedade, salvaguardado na Declaração dos Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas e na nossa Constituição, ficou reduzido.
E criminosos passaram a ter direitos parecidos com os de suas vítimas. Com as leis que vieram no rastro do decreto, aquelas pobres famílias, três anos depois, tiveram de se sentar diante dos algozes de seus filhos para dialogar com eles, antes que o juiz os mandasse para a cadeia.
Preconceitos, idiossincrasias, ressentimentos, revanchismo e radicalismo nunca foram e nunca serão sementes do bom-senso, do equilíbrio, da justiça, da democracia e da paz. Quem planta aquelas sementes, sem querer ou querendo, colhe frutos idênticos.

ROBERTO RODRIGUES, 67, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da Agricultura (governo Lula). Escreve aos sábados, a cada 15 dias, nesta coluna.

KÁTIA ABREU

O raio e o trovão

O GLOBO - 16/01/10



Há sintomas que, por si só, resumem as doenças. São mais que sinais, são o próprio mal. Por exemplo: quando aparece alguma tentativa de retardar, adiar ou limitar a proteção da Justiça, não há dúvida de que está em marcha uma conspiração contra as liberdades individuais e a própria democracia. Como os trovões. Quando se ouve o barulho, os raios já caíram.

Não há dúvida de que essas metáforas resumem a percepção generalizada sobre o decreto que lançou o PNDH-3 (Plano Nacional dos Direitos Humanos 3), assinado em dezembro e que, com o retardo dos trovões, só agora causa perplexidade.

Ao extrapolar seus bons e saudáveis objetivos - reafirmar e reler conforme a realidade atual os sagrados 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1947, da ONU - os redatores do decreto do PNDH-3 aproveitaram a expectativa de apoio unânime aos princípios que só os inimigos públicos contestam e infiltraram dezenas de dispositivos e propostas que são apenas bandeiras de luta ideológica de grupos radicais em ano eleitoral.

Bem que valia se aplicar aqui uma paródia da célebre frase de Manon, na Revolução Francesa: "Liberdade, quantos crimes se cometem em teu nome." O certo é que o PNDH 3 anuncia a criação de obstáculos às ações rápidas e indispensáveis da Justiça para conter crimes e violações que poderiam causar danos irreversíveis, se não fossem contidos imediatamente. Tanto que propõe que seja vedada a ação imediata e urgente da Justiça mediante a concessão de medida liminar.

Epa! Procrastinar a ação da Justiça, sob qualquer pretexto, não é sintoma para discussão acadêmica, mas um indicador clássico de intenções totalitárias. No caso concreto contido no PNDH 3, em que se impede que a Justiça contenha a tempo as invasões do MST, há sinais evidentes de preocupação.

Primeiro, porque nega um dos direitos humanos consagrado desde as primeiras declarações, como a da Revolução Francesa, proclamada há mais de dois séculos: o direito à propriedade.

Como não se mexe numa pedra das conquistas civilizatórias sem abalar toda a sua estrutura, o decreto ameaça outros princípios fundamentais da democracia. No caso da liberdade de imprensa prevê a criação de um ranking para classificar a mídia, conforme a interpretação de grupos ideológicos que substituirão, de fato, a Justiça no exame dos delitos de opinião. Donde pode-se concluir como numa demonstração de teorema: estamos diante de um vespeiro. Ou, no mínimo, diante de uma impostura.

A pretexto de criar um plano de atualização e promoção dos direitos humanos, o que se propõe é uma depuração ideológica desses mesmos direitos para atender casuisticamente a composições político-eleitorais. Como, por exemplo, estigmatizar e segregar o agronegócio para atender a grupos radicais na contramão da realidade econômica e social.

Aliás, no mesmo dia em que explodiram as revelações sobre o PNDH-3, revelava-se que a agropecuária salvou a balança comercial brasileira e foi responsável pelo superávit de US$23 bilhões, sem o qual o Brasil teria registrado déficit global de US$29 bilhões devido à queda na exportação dos produtos industrializados.

O importante, porém, é não cair na provocação, típica das técnicas de propaganda revolucionária, e, por algum descuido, permitir a menor suspeita de que atacamos os direitos humanos e sua necessária afirmação. Pelo contrário, estamos denunciando uma tentativa solerte de uso ideológico dessa bandeira para negar a liberdade e a propriedade, asseguradas em todas as declarações de direitos humanos, desde o século XVIII.

KÁTIA ABREU é senadora (DEM-TO) e presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

Mercado agitado

O GLOBO - 16/01/10


Este ano começou animado no mercado de fusões e aquisições. Aqui e no exterior diariamente saem notícias sobre novas operações ou ofertas. A crise atingiu algumas empresas tornando-as vulneráveis ao ataque de concorrentes mais fortes, o dólar fraco aumentou as chances para companhias brasileiras no exterior. Há muitos motivos para a agitação neste mercado e desafios para os órgãos reguladores.

A crise do ano passado num primeiro momento parou todo o mercado pelo aumento da aversão ao risco e falta de crédito. Em seguida, como fragilizou inúmeras empresas, acabou abrindo oportunidades que têm sido aproveitadas por concorrentes. No agregado, o começo da crise não foi de crescimento do mercado de fusões, mas houve casos emblemáticos, como os da Sadia e Perdigão, e Votorantim e Aracruz.

No exterior, também houve casos de resgate de empresas. O real forte cria um ambiente especialmente propício para companhias brasileiras fazerem aquisições no exterior porque grupos tradicionais estão com baixo preço de ativos. As operações devem acontecer em setores de Tecnologia da Informação; Alimentos e bebidas; e Telecomunicações, segundo especialistas.

Difícil é saber o número exato de fusões de 2009. Cada consultoria tem um número. Pelos dados da Pricewaterhouse Coopers, em 2009 houve estabilidade na comparação com 2008, com 644 fusões contra 643. Já pelo balanço da KPMG, houve redução de 30%. Os números da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) são mais parecidos com os da KPMG. Segundo a Seae, foram 467 os casos de "concentração", como eles dizem, que deram entrada por lá para análise. Isso é 27% menos do que no ano anterior.

Contabilidade à parte, os números indicam que houve uma queda no começo do ano, e crescimento no final.

- A partir do segundo semestre de 2009, com a recuperação, o número de fusões voltou a acelerar e agora entramos em 2010 com a expectativa de quebrar o recorde de 721 negócios de 2007 - afirmou o economista da Pricewaterhouse Alexandre Pierantoni.

De setembro de 2008, quando começou a crise, ao fim de 2009, foram negócios bilionários. Além da fusão entre Sadia e Perdigão, criando a Brasil Foods, houve a união entre Itaú e Unibanco; a compra do Nossa Caixa pelo Banco do Brasil; a aquisição das operações do UBS no Brasil pelo banco BTG; a compra do Banco Votorantim pelo BB; da Aracruz pela Votorantim Celulose e Papel; do banco Ibi pelo Bradesco; da CPFL pela Camargo Corrêa; do Ponto Frio pelo Pão de Açúcar. E ainda a fusão entre o Pão de Açúcar e as Casas Bahia.

As operações têm criado desafios para os reguladores brasileiros. O processo de decisão sobre concentração continua no Brasil dividido em três órgãos diferentes. A Seae, a SDE (Secretaria de Defesa Econômica) e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). O Congresso ainda não aprovou a criação da nova agência reguladora. O secretário de acompanhamento econômico, Antônio Henrique Pinheiro, acha que a nova regulamentação será positiva.

- É extremamente positiva porque hoje os órgãos de defesa da concorrência só se manifestam depois que as fusões estão acertadas entre as empresas. Pela nova lei, haverá uma análise prévia para dizer se a fusão é possível ou não. Depois do fato ter se concretizado, haverá uma nova análise - disse.

A CVM não tem conseguido dar uma resposta satisfatória aos casos em que há dúvidas sobre vazamento da informação. O salto espetacular que houve na valorização das ações da Globex, veículo usado pelo Pão de Açúcar na operação com as Casas Bahia, é só um exemplo da impotência do órgão.

O capital nacional esteve presente em 64% das transações em 2009, com forte presença do BNDES. No caso da Perdigão comprando a Sadia, por exemplo, o BNDES financiou a operação e ainda comprou participação. A compra da Brasil Telecom pela Oi, ainda em 2008, foi financiada por um mega empréstimo do banco público.

Aqui e lá fora os anúncios de operações são quase diários. A Kraft aumentou sua oferta hostil pela Cadbury, depois de ter vendido uma unidade de pizza para a Nestlé. A Heineken anunciou a compra da rival mexicana Femsa, que fabrica a Kaiser no Brasil; Petrobras e Brasken estão negociando a compra da Quattor, que vai formar uma mega empresa na área petroquímica. Camargo Corrêa fez proposta pela Cimpor, que havia recebido oferta da CSN. Enfim, dia sim, dia não, acontecem anúncios de propostas, ofertas hostis, fechamento de operações.

No mundo, o número e o valor das transações em 2009 caiu 27% em relação a 2008, de acordo com a consultoria americana Mergermarket. Mas os processo de fusões de empresas com insolvência foram recorde histórico: 543, o que corresponde a soma dos três anos anteriores. Em valores, as operações de insolvência cresceram 370% em relação a 2008, totalizando US$95,5 bilhões.

No Brasil, em alguns setores, a crise fez com que o processo de fusões se intensificasse. Foi o que aconteceu com o setor de açúcar e álcool. André Castello Branco, sócio de finanças corporativas da KPMG, explica que as empresas do segmento estavam fortemente alavancadas porque investiram muito nos últimos anos, acreditando num boom de vendas de etanol. Quando chegou a crise de crédito, no final de 2008, a solução para muitas foi o processo de fusão.

JOSÉ SIMÃO

BBB Urgente! Selinho dá sapinho!

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10

Adoro a drag de língua presa que em vez de "adoro" fala "ADOGO"! Adogo e dlag queen!

BUEMBA! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
Chão desaba em reunião dos Vigilantes do Peso! Rarará! Na Suécia! "Pensamos que era terremoto." Viu, tá todo mundo estressado! Se você comer uma batata chips e CRECK, sai todo mundo correndo! Entramos em 2012! Enchentes! Desabamento! Terremoto! Só falta a minha sogra vir morar em casa!
E recado no Twitter: "Eike Batista, o mundo não é só a Madonna e seus projetos, pense no Haiti". A Angelina Jolie arrasou na doação! E essa: "Lula liga pra Obama propondo ação conjunta para o Haiti". Se for pra rachar doação, eu dou na cara deles. Rarará! Essa pra descontrair um pouco! E como disse a Carla Perez: "Deu 7,2 DEGRAUS NA ESCADA RICHARD!". Rarará!
E anteontem uma amiga foi pra lavagem do Bonfim e viu uma barraca de caipiroska: "Putóao é slogo da Roska. Formado na putaria da Bahia para o mundo!".
E numa rádio em Maceió perguntaram: "O que a senhora acha do sexo no cinema?". "Desconfortável. Prefiro em casa ou no motel!"
E o "BBB", o "Big Biba Brasil"? Uma coisa que o Brasil pergunta: por que o Bial faz aquele bailadinho com o pé, como se estivesse cumprimentando a rainha? E eu adoro a drag de língua presa que em vez de "adoro" fala "ADOGO"! Adogo e dlag queen. E célebro. Célebro pra virar cerebridade. Cerebridades instantâneas!
E pior que BBB é ex-BBB! Ex-BBB se prolifera mais rápido que os gremlins. E vocês viram que puseram um ex-BBB no "BBB"? E aí perde de novo. E vira ex-ex-BBB! Isso que é projeto de vida, hein?! E até agora não teve nenhum bacanal herético, como disse a prima mineira da Nair Belo do Twitter. Só selinho. Selinho dá sapinho!
E essa: "Lentidão atrapalha pagamento do IPVA". OU seja, paulista enfrenta engarrafamento até pra pagar o IPVA! Deve ser tara! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. É que numa loja em Santo André tem uma promoção: "Imperdível! DVDs dos TRAPALÕES!" Rarará! Adogo! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil!
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Epicentro": companheiro que tem o buraco fora do centro. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis.

GOSTOSA

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO

REVISTA VEJA
Roberto Pompeu de Toledo

O milagre do sorinho
e outros milagres

"Zilda Arns era contra a cesta básica. Achava-a humilhante
e de presença incerta. Optou por ensinar como proporcionar
uma boa dieta com recursos escassos"

A doutora Zilda Arns fez tudo ao contrário de como costumam ser feitos os programas de políticas públicas no Brasil. Não chamou o marqueteiro, como providência inaugural dos trabalhos. Não engendrou uma generosa burocracia, capaz de proporcionar bons e agradáveis empregos. Não ofereceu contratos milionários aos prestadores de serviço. Sobretudo, não anunciou o programa e, com o simples anúncio, deu a coisa por feita e resolvida. Milagre dos milagres, Zilda Arns, que morreu na semana passada, no terremoto do Haiti, aos 75 anos, realmente fez. Se o Brasil teve uma redução significativa nos níveis de mortalidade e desnutrição infantil, nas últimas décadas, isso se deve em primeiro lugar à Pastoral da Criança, criada e administrada por ela, com apoio da Igreja Católica, e aos exemplos que semeou.

O índice de mortalidade infantil no Brasil andava pelos 82,8 mortos por 1 000 nascidos vivos, em 1982, quando Zilda foi convocada pelo irmão, o cardeal Paulo Evaristo Arns, então arcebispo de São Paulo, a pôr sua experiência de médica pediatra e sanitarista a serviço de um programa de combate ao problema. Hoje está em 23,3 por 1 000. Nas áreas com atuação direta da Pastoral da Criança - são 42 000 comunidades pobres, espalhadas por 4 000 municípios brasileiros - está em 13 por 1 000. O que mais espanta, na obra de Zilda, é o contraste entre a eficácia dos resultados e a simplicidade dos métodos. Nada de grandiosos aparatos, nada de invencionices. A partir da gestão do hoje governador José Serra no Ministério da Saúde, ela passou a contar com forte apoio governamental. Mas suas ferramentas básicas continuaram as mesmas:

• O sorinho e a multimistura. O soro caseiro feito de água, açúcar e sal foi o grande segredo no combate à desidratação, por muito tempo a maior causa de mortalidade infantil no Brasil. A multimistura feita de casca de ovo, arroz, milho, semente de abóbora e outros ingredientes singelos foi, e continua sendo, a arma contra a desnutrição. Zilda Arns era contra a cesta básica. Achava-a humilhante, para quem a recebia, e de presença incerta. Optou por ensinar como proporcionar uma boa dieta com recursos escassos.

• A multiplicação da boa vontade. A ordem era ensinar e fazer com que os que aprendiam passassem também a ensinar. A Pastoral da Criança conta hoje 260 000 voluntários.

• O trabalho e a persistência. Se fosse só ensinar a tomar o sorinho ou a multimistura e ir embora, seria repetir outro padrão das políticas públicas à brasileira. Cabe ao voluntariado fazer uma visita por mês às famílias assistidas. Um instrumento imprescindível nessas ocasiões é a balança, para medir a evolução da criança.

• A escora da índole feminina. Noventa e dois por cento do voluntariado da Pastoral da Criança é constituído por mulheres. Uma tarefa dessas é séria demais para ser deixada por conta dos homens. A mulher é muito mais confiável quando se mexe com assunto situado nos extremos da existência, como são os cuidados com o nascimento e a morte, a saúde e a doença.

Zilda Arns conduziu-se por uma estratégia baseada na sabedoria antiga e na vontade de fazer, nada mais do que isso. É paradoxal dizer isso de uma pessoa tão religiosa, mas não houve milagres na sua ação. A menos que se considere um milagre a presença dessa coisa chamada amor como motor, tanto dela como das pessoas em quem ela inoculava o mesmo vírus. Vai ver, ela diria isso. Vai ver, isso foi importante, mesmo.

O escritor Saul Bellow conta que, certa vez, passeava de bote num rio infestado de jacarés quando começou a ficar apavorado. Não era tanto a morte que o apavorava. Era o necrológio: "Morreu ontem, devorado por jacarés…". Zilda Arns está condenada ao necrológio: "Morreu de terremoto, no Haiti". Não é esdrúxulo como ser devorado por um jacaré. Também não é raro como cair no poço do elevador, como a atriz Anecy Rocha, irmã de Glauber, ou ser tragado pela boca do Vesúvio, como o republicano histórico Silva Jardim. Mas é raro para um brasileiro, em cujo território não ocorrem terremotos de proporções mortais, e chocante como são as mortes inesperadas, provocadas por acidentes. Zilda Arns, como Anecy Rocha e Silva Jardim, morreu em circunstâncias do tipo que nunca se esquece. Mas, também, em circunstâncias que lhe coroam a vida. Estava no Haiti para, em contato com religiosos locais, propagar a metodologia da Pastoral da Criança. Morreu em combate.

MERVAL PEREIRA

Além das pernas

O GLOBO - 16/01/10


A presença das tropas brasileiras no Haiti ganhou uma dimensão muito maior agora, depois da tragédia em decorrência do terremoto. A presença brasileira já era um ponto importante da política externa brasileira de estender a liderança regional do país para a América Central, em uma situação diametralmente oposta à da ação brasileira em Honduras, por ocasião da deposição do presidente Manuel Zelaya.

Naquela ocasião, embora partindo de um pressuposto correto de que não se deve mais aceitar golpes militares na região, o governo brasileiro deixou de lado as peculiaridades do ocorrido, fazendo vista grossa para o fato de que o presidente eleito tentara, ele sim, um golpe para permanecer no poder além de um mandato, o que é vedado como cláusula pétrea na Constituição hondurenha, e embarcou numa aventura chavista.

A tentativa de estabelecer um fato consumado com a volta ao país de Zelaya, acobertado pela embaixada brasileira, não deu certo, e a política externa brasileira, numa tentativa canhestra de ampliar sua influência na América Central, acabou ficando sócia do fiasco de Chávez.

Agora, no Haiti, onde estamos desde 2004 fazendo um trabalho realmente importante e com frutos visíveis, temos uma boa oportunidade para reafirmar nossa importância regional.

Curioso notar que o trabalho do Exército no Haiti, que tanto orgulho nos dá como brasileiros, fica em evidência justamente agora quando se discute no país o papel do mesmo Exército na repressão política durante o regime militar e a necessidade de serem abertos os arquivos das instituições militares no período, e do esclarecimento de situações ocorridos naqueles "anos de chumbo".

A mesma instituição está em destaque nas discussões da sociedade civil, por motivos completamente distintos, o que talvez deixe patente que a sociedade como um todo não tem dificuldade em se orgulhar de seu Exército, e a instituição não deveria ter receio de colocar em pratos limpos situações do passado que, uma vez esclarecidas, e circunscritas a determinado período e à ação de determinadas pessoas, trarão a verdadeira reconciliação entre ela e a população.

Voltando ao Haiti, aumentou enormemente a responsabilidade brasileira, já que o país é visto naturalmente como o líder do trabalho de reconstrução.

Não são uma surpresa, portanto, as declarações tanto do ministro da Defesa, Nelson Jobim, de que o Brasil fará tudo o que for possível para salvar o Haiti, como as do próprio presidente Lula, que está propenso a "adotar" o país, assumindo a tarefa de reconstruí-lo.

Eles agem dentro de uma diretriz que já vinha sendo adotada pelo Itamaraty, a de que caberia ao Brasil, a partir do momento em que decidiu aceitar o chamamento da comunidade internacional para que assumisse o comando da Força de Paz no Haiti, fazer com que essa mesma comunidade internacional se mobilizasse para ajudar no trabalho de recuperação.

Com o terremoto ocorrido, todo o trabalho de reconstrução foi literalmente abaixo. O Exército brasileiro, com o auxílio de várias ONGs também brasileiras, a mais importante delas o Viva Rio, estava assumindo inclusive tarefas de construção de cisternas para o abastecimento de água em Porto Príncipe e a organização de atividades comunitárias, como o recolhimento de lixo nas ruas e serviços básicos de higiene elementar.

Tudo voltou à estaca zero, e possivelmente terá piorado com a involução do estado de espírito dos moradores. O controle da cidade, que está sendo vítima de saques e de depredações pelo desespero dos que perambulam pelas ruas sem destino, deverá exigir muito mais empenho no momento.

O Exército, nos primeiros três anos de atuação, fez um trabalho profundo de estratégia para conseguir dominar os locais que estavam sob o comando de gangues, muitas delas formadas por antigos militares.

O trabalho exitoso dos militares brasileiros agora terá de recomeçar, pois as novas tropas que estão se preparando para assumir a missão em Porto Príncipe já têm informações de que a maioria dos integrantes dessas gangues, que estavam presos, escapou com a destruição da cadeia e do presídio de Porto Príncipe.

O ambiente desorganizado que domina a cidade só facilitará o trabalho desses bandidos, e o surgimento de novas gangues com a falta de perspectiva de futuro.

Por isso, além do controle militar da situação, as tropas brasileiras terão que ter o apoio político do Itamaraty e do governo brasileiro no sentido de garantir, nos organismos internacionais, o apoio necessário a um programa de reconstrução do Haiti.

O Brasil pode e deve assumir a liderança desse movimento de solidariedade internacional, mas não tem condições financeiras de assumir a responsabilidade sozinho.

Será preciso que aconteça agora o que vinha sendo prometido há anos sem que se transformasse em realidade: o verdadeiro empenho de países como os Estados Unidos e os da Comunidade Europeia. Por mais que queira mostrar sua capacidade de atuação, e tenha a responsabilidade da liderança, o Brasil não pode dar um passo maior que as próprias pernas.

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

EUA reduzem compra de alta tecnologia do Brasil

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


As importações norte-americanas de produtos de alta tecnologia do Brasil caíram 66% no acumulado do ano passado até novembro na comparação com o mesmo período de 2008. Essa foi a maior queda entre os principais países exportadores para os Estados Unidos. Em segundo lugar, figurou a Malásia, com queda de 29%.
Nos últimos anos, os produtos de maior valor agregado têm perdido espaço na pauta de exportações brasileiras.
No geral, as importações dos EUA de produtos de alta tecnologia caíram 11% no período -o que mostra que a queda brasileira ficou bem acima da média.
Pelos dados do governo norte-americano (que não são iguais aos do brasileiro, devido a metodologias diferentes), os EUA importaram do Brasil US$ 814 milhões em produtos de alta tecnologia, como aeronaves e aparelhos de comunicação, no ano passado -valor abaixo dos US$ 2,370 bilhões de 2008.
Grande parte dessa queda se deve à crise de demanda do mercado norte-americano e à taxa de câmbio brasileira. "O atual nível do dólar afeta principalmente o bem manufaturado. Quanto mais elaborado, mais tributos agregados. O que torna o produto mais caro", diz José Augusto de Castro, vice-presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil). Outro fator que pesou nessa queda, segundo Castro, foi o fato de o Brasil não realizar nenhuma missão governamental.
"É como se tivéssemos abandonado os EUA." A perda de posição no mercado norte-americano é preocupante e abre espaço para os concorrentes, principalmente os asiáticos. Para Castro, a tendência é continuar assim em 2010, devido à dificuldade de se recuperar o mercado perdido.
Já na opinião do economista André Sacconato, da Tendências Consultoria, a queda das importações de produto de alta tecnologia é pontual, um reflexo da crise financeira. "Esses são os primeiros itens que as pessoas deixam de comprar num momento de crise." Se a queda das exportações brasileiras continuar neste ano, aí sim a situação ficará bastante preocupante, segundo Sacconato.

CORTE PELA RAIZ
A Tora Brasil, marca de móveis que extrai madeira certificada da Amazônia, vai expandir neste ano, com fábrica e showroom novos em SP. A demanda cresceu desde que o tema sustentabilidade ganhou mais espaço, diz o proprietário Cristiano do Valle. "Hoje é pequena a parcela de produtos certificados no setor moveleiro", diz o empresário, que retira a matéria-prima da Amazônia, segundo ele, procurando "manter a floresta em pé". A ideia é extrair sem destruir, e, ao mesmo tempo, gerar emprego e exportação, afirma. "Um hectare na floresta tem de 7.000 a 10 mil árvores. Com a certificação, podemos retirar de 5 a 7 árvores a cada 30 anos." As árvores retiradas chegam a 70 anos. Em 2009, o arquiteto que elaborou o projeto da loja Louis Vuitton em Macau incluiu poltronas da Tora no ambiente. Neste ano, Valle traz à loja uma mesa de 30 lugares, de 6 metros de diâmetro, da parte do caule próxima à raiz. Ainda não tem preço. O transporte será escoltado. A mesa de centro custa R$ 4.000, uma de jantar, R$ 20 mil, mais baratas que a nova peça.

RACHA
Um tema deve esquentar e "rachar" a reunião das centrais sindicais na próxima semana: o apoio à candidatura de Dilma Rousseff à eleição presidencial. CUT e Força Sindical apoiam Dilma. Mas o nome da ministra não é unanimidade entre as outras quatro centrais que participam do encontro: UGT, CTB, CGTB e Nova Central Sindical.

LIGAÇÃO
A Telefônica decidiu enviar dez profissionais da empresa ao Haiti para apoiar a missão do governo brasileiro no socorro às vítimas do terremoto. A empresa diz que pretende colaborar para estabelecer o sistema de comunicação em caráter emergencial e restabelecer o sistema de telecomunicações do país. A delegação deverá começar a operar hoje.

VESTIDA PARA O SUCESSO

SAIA CURTA NO TRABALHO?
"Por ser um local de trabalho o comprimento da saia não deve ser muito curto", diz Natalie Klein, da NK Store. Diana Sternfeld, coordenadora de estilo da Lilla Ka, sugere até um palmo acima do joelho, acompanhada de salto médio ou sapatilha. "Mesmo que saia curta esteja na moda, para ir trabalhar, a mulher não deve se vestir pensando na moda da rua", diz o diretor criativo Luis Fiod, que, para escapar do verão, cita tecidos como linho e seda, que são mais nobres. A estilista da Alcaçuz, Paula Marques, diz que em ambientes que pedem discrição, como bancos e escritórios de advocacia, fica deselegante usar acima do joelho. "Em locais informais, como agências de publicidade, dá para usar saia jeans com lavagem uniforme e sem muito bolso."




com JOANA CUNHA e ALESSANDRA KIANEK

CLÓVIS ROSSI

Não há olhos azuis no Haiti

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


De certa maneira, o país é um Afeganistão das Américas; tudo de que não precisa é de uma conferência de ajuda


É COMOVEDORA a iniciativa do presidente francês Nicolas Sarkozy de convocar conferência internacional para analisar a ajuda ao Haiti. Comovedora não por mostrar um ímpeto humanitário admirável, mas uma admirável compulsão pelos holofotes da mídia.
Já imaginou a quantidade de câmeras e microfones à volta de chefes de governo como o próprio Sarkozy, Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva e o canadense Stephen Harper, que seriam os chamados para a conferência, em meio à comoção global causada pela tragédia haitiana?
Seria bom que, pelo menos uma vez na vida, os governantes fossem claros: tudo de que o Haiti NÃO precisa é de uma conferência para discutir como ajudá-lo. Precisa de ajuda, que, sem qualquer tipo de conferência, já começa a chegar, mas que será claramente insuficiente se o seu caso não servir para mudar a maneira como a comunidade internacional se organiza e atua.
De alguma maneira, o Haiti é o Afeganistão das Américas.
O chanceler Celso Amorim cobrou incontáveis vezes de seus parceiros envolvidos com o Haiti o aumento da cooperação. Seu argumento era basicamente o mesmo que Barack Obama passou a utilizar recentemente para o Afeganistão: tropas, como as brasileiras que estão no Haiti, são necessárias para dar um mínimo de estabilidade a uma situação caótica.
Mas, se além da estabilização, se pretende que o país funcione, que haja um poder público minimamente organizado e confiável, capaz de fornecer serviços essenciais, então é preciso muito mais recursos financeiros, o envio de especialistas em construção institucional e a disposição de permanecer no país o tempo necessário para a reconstrução.
Antes do terremoto, o Haiti já tinha necessidade de tudo isso. A revista "Foreign Affairs" listou-o no 12º lugar entre os 60 "Estados falidos" do planeta. Transparência Internacional diz que se trata do país mais corrupto do mundo.
É evidente que uma ação internacional mais firme e mais generosa não teria evitado o terremoto. Mas provavelmente teria reduzido um pouco que fosse o caos posterior.
Não serão conferências de doadores que fortalecerão o Estado e a sociedade, no Haiti ou em qualquer outra parte. Os exemplos abundam: vira e mexe, há uma conferência de doadores do Afeganistão, sem que se possa dizer que o país está hoje melhor do que estava em 2001 quando foi invadido pelos Estados Unidos e parceiros, para afastar um governo (o do Taleban), que impunha não um Estado forte, mas violento. Como era o Haiti dos Duvalier, aliás.
De resto, não foi preciso convocar conferência de governantes para socorrer os bancos, que não eram vítimas e, sim, agentes do terremoto financeiro iniciado em 2007.
O problema é que os banqueiros, como diria o presidente Lula, são "brancos de olhos azuis". Já no Haiti, na África, no Afeganistão, quase não há olhos azuis.