sábado, janeiro 16, 2010

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Fim do mundo

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


SÃO PAULO - Conforme os dias avançam, as imagens e os relatos que nos chegam do Haiti tornam mais claros a extensão e os efeitos da devastação. Diante dessa tragédia, as palavras parecem obsoletas.
Empilhada nas ruas ou entre escombros, uma multidão de corpos em putrefação se mistura ao desespero dos sobreviventes. Milhares de cadáveres estão sendo enterrados em valas comuns -e nunca se conhecerá o número de vítimas.
Pessoas disputam alimentos a céu aberto; muita gente vaga a esmo, sem saber o que fazer nem para onde ir; há registro de saques, roubos, pessoas com medo de sair às ruas e também de dormir em casa.
Há ainda o temor de que a ajuda humanitária seja insuficiente para aliviar os efeitos da calamidade e a tensão se desdobre em mais barbárie, no rastro de infinitas carências -de água, comida, casa, luz, telefone, hospitais... de civilização.
Quase 60% da população do Haiti vive com menos de US$ 1 por dia -em situação de pobreza extrema. O analfabetismo alcança cerca de metade dos adultos. Qualquer indicador social ou econômico põe o Haiti no final da fila do bem-estar.
Em entrevista ao jornal "Valor Econômico", o professor Antonio Jorge Ramalho da Rocha, do Instituto de Relações Internacionais da UnB, que morou em Porto Príncipe, diz que o Haiti teve sucessivos governos, mas nunca construiu instituições de Estado -e este seria o grande desafio a longo prazo.
No contexto da Guerra Fria, quando Cuba era a ameaça, a ditadura sanguinária de Papa Doc, inaugurada em 1957, teve o respaldo dos EUA. Depois da queda de Baby Doc, nos anos 80, o Haiti já foi alvo de várias intervenções internacionais frustradas. Entre surtos autoritários e um histórico de conflitos, o país vive sob o signo da instabilidade, à beira da anomia social.
A fúria da natureza se junta a um desastre histórico que parece irremissível. O episódio comove de modo particular o Brasil, que tinha em Zilda Arns uma figura ímpar e tem razões para se orgulhar da missão de paz que comanda desde 2004.

JAPA GOSTOSA

RUY CASTRO

Símbolo vs. destino

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


Há algo de simbólico na morte de Zilda Arns. Morreu sob os escombros de uma igreja no terremoto de Porto Príncipe enquanto se preparava para ensinar higiene, nutrição e saúde às crianças haitianas. Tal discurso era seu 'métier' e, com ele, irradiado para centenas de milhares de voluntários, calcula-se que tenha salvado milhões de vidas em dois ou três continentes.

Morreu numa igreja, mas poderia ter sido num asilo para idosos, creche ou escola. Em qualquer desses cenários, estava em casa. E foi no Haiti, mas poderia ter sido no Maranhão, na Bolívia, na Guiné-Bissau ou em qualquer lugar onde o nível de miséria passasse do tolerável. Mas não creio que, para dona Zilda, houvesse um nível 'tolerável'.

Nelson Rodrigues dizia que, se Cristo, em vez de morrer na cruz, tivesse morrido de coqueluche aos 4 anos, não teria sido Cristo. Os heróis costumam morrer em combate, porque não dão tempo ao destino de flagrá-los na cama ou na cadeira de balanço, aposentados, nanando netos ou assistindo à novela. Dona Zilda, aos 75 anos, parecia tão ativa quanto na época em que começou a Pastoral da Criança, em 1983 – talvez até mais, porque, em 2004, ajudara a fundar a Pastoral do Idoso.

Em 2003, outro grande brasileiro pela paz, o diplomata Sergio Vieira de Mello (bem lembrado por Bárbara Gancia ontem na Folha), morreu num ataque terrorista às instalações da ONU em Bagdá. A guerra é assim mesmo: mata os que saem a campo para tentar matá-la. É duro, mas faz parte do jogo.

Já o que aconteceu no Haiti é absurdo, inexplicável. Supondo que o terremoto fosse inevitável, Zilda Arns deveria estar entre os que iriam para lá ajudar as vítimas, não para ser uma delas. Parece uma brincadeira do destino – este, aliás, famoso pelo mau gosto.

PAINEL DA FOLHA

Não vai rolar a festa

FOLHA DE SÃO PAULO - 16/01/10


Alvo preferencial para emendas de deputados e senadores em 2010, o Ministério do Turismo publicará duas portarias na segunda-feira restringindo a liberação de verbas para grandes eventos e shows no ano eleitoral. Uma das medidas proíbe o financiamento dessas atividades no período da campanha -2 de julho a 31 de outubro- para Estados, prefeituras ou entidades privadas sem fins lucrativos. A outra portaria estabelece um teto para o uso dos recursos fora do tempo de campanha de acordo com o tamanho dos municípios. Por exemplo: cidades com até 20 mil habitantes poderão receber até R$ 200 mil por ano, mas só R$ 100 mil poderão ser gastos num mesmo evento.




Providências. Lula fará um balanço da situação no Haiti com o ministro Nelson Jobim (Defesa) durante o final de semana. Asseguradas as ações emergenciais, o petista pediu a elaboração de um plano de socorro mais efetivo.

Viagem. Lula, a propósito, orientou a equipe a manter em sua agenda a visita já prevista ao Haiti na segunda quinzena de fevereiro.

Pijama. Em Washington, onde participa de uma reunião sobre aumento de capital do BID e a tragédia do Haiti, o ministro Paulo Bernardo (Planejamento) teve uma crise de insônia e correu para o Twitter: "5 horas, uns cinco graus negativos e sem sono..."

Calendário. Não se sabe se foi deslize ou excesso de confiança, mas Lula fez planos para 2011 na entrevista à TV Mirante ontem, no Maranhão. Ao comentar sobre o Minha Casa, Minha Vida, disparou: "No ano que vem nós vamos programar novos planos habitacionais". A meta, acrescentou, será zerar o deficit habitacional no país. Faltou especificar na gestão de quem e em que prazo.

Trem da alegria. Apesar das críticas da oposição, que chegou a acionar a Justiça Eleitoral, sobre a caravana do governo às obras de transposição do São Francisco, Lula sugeriu ontem a José Sarney (PMDB) que organize uma comissão de senadores para conferir in loco a obra.

Capitão. Há no PT uma certa inquietação diante da falta de estrutura mais consolidada, como uma divisão de tarefas, para a campanha de Dilma Rousseff. Enquanto uns atribuem o fato à posse tardia dos novos dirigentes do partido (em fevereiro), outros apontam o "fator Lula". Leia-se: todos estão à espera de que ele dite as coordenadas.

Tom. Dilma avisou aos marqueteiros que ela dará o "toque final" no discurso que fará como estrela do Congresso do PT, em 18 de fevereiro.

Cenários. As considerações finais de uma pesquisa feita pelo PT sobre possíveis candidatos ao governo de São Paulo apontam que o senador Aloizio Mercadante detém a menor rejeição, mas "foi detectado o desejo de parcela expressiva de pesquisados por novidades na política paulista".

Isca. Tucanos que consideraram desastradas as declarações do presidente do partido, Sérgio Guerra (PSDB-PE), defendendo mudanças na economia e o fim do PAC comemoraram ontem o teor das críticas de Dilma. A avaliação é que ela minimizou o estrago ao disparar só contra Guerra, poupando José Serra (SP).

Veja bem. Sergio Guerra responde: "O PSDB vai fazer obras, e não propaganda".

Palanque. Desgastado com o envolvimento em denúncias de corrupção, o vice-governador de Santa Catarina, Leonel Pavan (PSDB), pediu ajuda ao partido afirmando estar sendo monitorado por agentes da Abin. O PSDB, aliás, já descarta o nome dele para as eleições e negocia uma aliança para apoiar a candidatura de Raimundo Colombo (DEM).

com LETÍCIA SANDER e MALU DELGADO

Tiroteio

O PSDB mostra que não fez a autocrítica do desastre fiscal e cambial que promoveu entre 1995 e 1998.

Do deputado RICARDO BERZOINI (SP), sobre afirmação do presidente do PSDB, Sergio Guerra, segundo quem seu partido está à esquerda do PT e poderia fazer mudanças no câmbio, juros e nas metas de inflação.

Contraponto

Ritmo de férias Às vésperas do Natal, congressistas desesperados para deixar Brasília aprovavam emendas ao Orçamento a toque de caixa em votação simbólica. Presidente da sessão, o deputado Marco Maia (PT-RS) fez um apelo:
-O último inscrito para falar e vamos encerrar!
-Mas eu gostaria de mais um minuto para justificar a emenda...-, insistiu Paulo Piau (PMDB-MG).
Cláudio Cajado (DEM-BA), que comandava a oposição, colocou fim na discussão para alívio e gargalhada geral:
-Nós estamos com espírito natalino, deputado. Vamos conversar sem microfone, vai...

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

LYA LUFT

REVISTA VEJA
Lya Luft

Trabalhar e sofrer

"Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até
emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar,
explorar e solapar qualquer dignidade"

Ilustração Atômica Studio


O trabalho enobrece" é uma dessas frases feitas que a gente repete sem refletir no que significam, feito reza automatizada. Outra é "A quem Deus ama, ele faz sofrer", que fala de uma divindade cruel, fria, que não mereceria uma vela acesa sequer. Sinto muito: nem sempre trabalhar nos torna mais nobres, nem sempre a dor nos deixa mais justos, mais generosos. O tempo para contemplação da arte e da natureza, ou curtição dos afetos, por exemplo, deve enobrecer bem mais. Ser feliz, viver com alguma harmonia, há de nos tornar melhores do que a desgraça. A ilusão de que o trabalho e o sofrimento nos aperfeiçoam é uma ideia que deve ser reavaliada e certamente desmascarada.

O trabalho tem de ser o primeiro dos nossos valores, nos ensinaram, colocando à nossa frente cartazes pintados que impedem que a gente enxergue além disso. Eu prefiro a velha dama esquecida num canto feito uma mala furada, que se chama ética. Palavra refinada para dizer o que está ao alcance de qualquer um de nós: decência. Prefiro, ao mito do trabalho como única salvação, e da dor como cursinho de aperfeiçoamento pessoal, a realidade possível dos amores e dos valores que nos tornariam mais humanos. Para que se trabalhe com mais força e ímpeto e se viva com mais esperança.

O trabalho que dá valor ao ser humano e algum sentido à vida pode, por outro lado, deformar e destruir. O desprezo pela alegria e pelo lazer espalha-se entre muitos de nossos conceitos, e nos sentimos culpados se não estamos em atividade, na cultura do corre-corre e da competência pela competência, do poder pelo poder, por mais tolo que ele seja.

Assim como o sofrimento pode nos tornar amargos e até emocionalmente estéreis, o trabalho pode aviltar, humilhar, explorar e solapar qualquer dignidade, roubar nosso tempo, saúde e possibilidade de crescimento. Na verdade, o que enobrece é a responsabilidade que os deveres, incluindo os de trabalho, trazem consigo. O que nos pode tornar mais bondosos e tolerantes, eventualmente, nasce do sofrimento suportado com dignidade, quem sabe com estoicismo. Mas um ser humano decente é resultado de muito mais que isso: de genética, da família, da sociedade em que está inserido, da sorte ou do azar, e de escolhas pessoais (essas a gente costuma esquecer: queixar-se é tão mais fácil).

Quanto tempo o meu trabalho – se é que temos escolha, pois a maioria de nós dá graças a Deus se consegue trabalhar por um salário vil – me permite para lazer, ou o que eu de verdade quero, se é que paro para refletir sobre isso? Quanto tempo eu me dou para viver? Quanto sobra para meu crescimento pessoal, para tentar observar o mundo e descobrir meu lugar nele, por menor que seja, ou para entender minha cultura e minha gente, para amar minha família?

E, se o luxo desse tempo existe, eu o emprego para ser, para viver, ou para correr atrás de mais um trabalho a fim de pagar dívidas nem sempre necessárias? Ou apenas não me sinto bem ficando sem atividade, tenho de me agitar sem vontade, rir sem alegria, gritar sem entusiasmo, correr na esteira além do indispensável para me manter sadio, vagar pe-los shoppings quando nada tenho a fazer ali e já comprei todo o possível – muito mais do que preciso, no maior número de prestações que me ofereceram? E, quando tenho momentos de alegria, curto isso ou me preocupo: algo deve estar errado?

Servos de uma culpa generalizada, fabricamos caprichosamente cada elo do círculo infernal da nossa infelicidade e alienação. Essas frases feitas, das quais aqui citei só duas, podem parecer banais. Até rimos delas, quando alguém nos leva a refletir a respeito. Mas na verdade são instrumento de dominação de mentes: sofra e não se queixe, não se poupe, não se dê folga, mate-se trabalhando, seja humilde, seja pobre, sofrer é nosso destino, darás à luz com dor – e todo o resto da tola e desumana lavagem cerebral de muitos séculos, que a gente em geral nem questiona mais.

ANCELMO GÓIS

O DIA SEGUINTE

O GLOBO - 16/01/10


Papo entre Lula e Sarney, ontem, no Maranhão, no lançamento de uma refinaria de petróleo:
– Eu fico pensando no que vou fazer em janeiro de 2011, quando deixar a Presidência. Como você enfrentou as primeiras semanas? – perguntou Lula.
– Eu me recolhi por três meses na Ilha de Curupu, no Maranhão – respondeu Sarney.
– Mas, Sarney, você aguentou esta solidão?
– Não tinha outro jeito.
LEMBRANDO...
Em 2003, FH, logo que deixou o governo, passou dois meses em Paris, onde tinha morado. Nadou num clube, andou de metrô, foi ver filmes e exposições. Depois, recebeu várias propostas de trabalho.
EM 2011...
Com Lula, que tem também grande prestígio aqui e lá fora, não deve ser diferente. De tédio, ele não morre.
PENSE NO HAITI 1
Carlos Minc vai sugerir a Lula o leilão de 50.000m³ de madeira nobre apreendida por fiscais do Ministério do Meio Ambiente. A ideia é destinar a grana, algo em torno de R$ 50 milhões, para as vítimas do Haiti.
PENSE NO HAITI 2
O Orçamento do governo do Haiti é de US$ 967 milhões por ano – ou 64% do Orçamento do Senado brasileiro, hoje de US$ 1,5 bilhão. Na ilha devastada pelo terremoto, vivem 9 milhões de pessoas. Frequentam o Senado dez mil funcionários e 81 parlamentares.
BBB PIRATA
A empresa estrangeira contratada pela TV Globo para retirar da internet imagens roubadas da emissora, planeta afora, bloqueou, em três dias, 100 sites e blogs com flagrantes pirateados do Big Brother 10. É muita coisa.
SOGRA DO DICRÓ
De Dicró, o sambista gaiato, em entrevista a Rodrigo Faour para o programa História sexual da MPB, do Canal Brasil:
– Esta história de que eu não gosto de sogras é lenda. Até dei de presente para a minha uma cama redonda. É que descobri que jararaca só dorme enrolada...
TANQUE CHEIO
A BR bateu recorde de vendas de combustível para aviação em dezembro. Foram 310.383m³ de gasolina e querosene de avião, superando a marca da empresa em julho, de 289.988m³.
A RAZÃO...
Isto se deu, segundo a BR, pelo aumento das vendas de passagens da WebJet e da Azul, pelo início das operações da US Airways no Galeão-Tom Jobim e pelo volume de voos extras de outras companhias no período.
OFERTA E PROCURA
Veja como a lei da demanda, meu Deus, também se aplica nos cemitérios. Alguns corpos enterrados ontem no São João Batista, em Botafogo, no Rio, tiveram de ser velados no cemitério do Catumbi. A Santa Casa explicou que não havia espaço para velório em Botafogo, pois morreu gente demais quinta-feira.
PAPEL QUE DÁ FRUTO
O convite do Prêmio Atitude Carioca, que será entregue dia 28 agora no Jockey Club, no Rio, é de papel-semente. Se picado, plantado e molhado, dá flores e frutos.

GOSTOSA

DORA KRAMER

Serra foi a Cesar

O ESTADO DE SÃO PAULO - 16/01/10


Sob o pretexto de prestigiar o lançamento do livro Os reis dos musicais, sobre a dupla de diretores de teatro Charles Möeller e Cláudio Botelho, editado pela Imprensa Oficial de São Paulo, o governador José Serra esteve no Rio nesta quarta-feira, deixando nos presentes ao evento a impressão de que estava em plena campanha.

Estava. Não necessariamente ainda atrás de votos, mas já cuidando pessoalmente de acertar as composições estaduais mais complicadas. Saindo do lançamento do livro, Serra foi direto para o bairro de São Conrado, na casa do ex-prefeito Cesar Maia, para uma conversa pessoal que, sabe-se lá o motivo, foi divulgada como tendo sido um telefonema.

Talvez para amenizar a dimensão do fato, que revela os movimentos de José Serra já na condição de candidato a presidente e também para manter parcialmente o trato de não dar publicidade ao encontro.

Uma conversa, em si, nada espetacular em termos de notícia, considerando que ambos pertencem ao mesmo campo político e são de partidos tradicionalmente aliados.

Com sua presença, Serra queria dizer - sem precisar pronunciar exatamente essas palavras - um "estamos juntos" a Cesar. Isso significa que o DEM estará na coligação que o PSDB fará em torno do deputado Fernando Gabeira para o governo do Estado e que o ex-prefeito será, além de candidato ao Senado, um participante ativo da campanha.

O encontro teve o objetivo também de selar o fim do mal-estar provocado no ano passado pelo presidente do DEM e filho de César Maia, Rodrigo, que se manifestou a favor da candidatura do governador de Minas, Aécio Neves, e foi acompanhado pelo pai na troca de declarações algo desaforadas com Serra pela imprensa.

Não por coincidência, a visita ocorreu logo após o fim de semana em que o PSDB do Rio bateu o martelo com Fernando Gabeira e permitiu aos tucanos a abertura de um palanque competitivo para a candidatura da oposição no terceiro colégio eleitoral do País, com mais de 11 milhões de votantes.

Oficialmente a coalizão ainda depende de acertos nas chamadas "regras do jogo". Mas, na realidade, o arcabouço da coalizão já está montado. Será integrada pelo PSDB, PPS, PV e DEM, embora a entrada deste último seja ainda falada em termos de dúvida.

Não há nenhuma e a ida de Serra à casa de Cesar dirimiu alguma que porventura houvesse.

Essa aliança dará a Gabeira de 6 a 8 minutos no horário eleitoral, dependendo ainda das definições do PTB, PDT e PP. A expectativa é a de que o PTB siga com Gabeira, o PDT com Garotinho e o PP fique com Sérgio Cabral.

O vice de Fernando Gabeira será alguém do PSDB, o que soluciona em parte a questão da divisão do palanque nacional. Ficou combinado que Gabeira fará a campanha de Marina Silva, candidata a presidente pelo partido dele, o PV.

O que se pensa é em reservar parte do programa para que o vice do PSDB peça votos para José Serra. Nos outros atos de campanha, Gabeira terá material de Marina e os demais integrantes da coligação distribuirão propaganda de Serra.

No mais, a despeito de algumas questões de aparência ainda a serem resolvidas do lado do PV - a companhia do DEM é uma delas -, o negócio é bom para todos os lados.

O PV ganha um nome a governador de expressão nacional, o PSDB, o PPS e o DEM até então órfãos, garantem uma candidatura competitiva, a oposição a Sérgio Cabral assegura realização do segundo turno e Marina e Gabeira passam a dispor de estrutura até então inexistentes.

Aliança informal

Houve realmente quem propusesse no PSDB uma aliança com o ex-governador Anthony Garotinho. Como a ideia era fruto do desespero com a ausência de nomes viáveis, morreu antes de nascer de fato quando Gabeira aceitou encabeçar a aliança.

O que existe agora é um acordo tácito de apoio mútuo no segundo turno. No primeiro, será cada um com seu cada qual e todos contra o governador Sérgio Cabral.

As armas

Cada um luta com a munição que lhe é mais conveniente. O PT ataca o PSDB na seara ideológica e os tucanos contra-atacam no campo do Código Penal.

Ao comentar a declaração - "esquerda somos nós" - do presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra, o assessor especial da Presidência da República e coordenador do programa de governo da candidata Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, disse que o PSDB é, na verdade, "o partido da direita".

Na tréplica, Guerra pede a Garcia que explique, afinal, de onde veio o dinheiro para comprar o chamado dossiê dos aloprados.

Em 2006 quando a Polícia Federal flagrou petistas num hotel de São Paulo com R$ 1,7 milhão para comprar um dossiê contra o então candidato ao governo do Estado, José Serra, Marco Aurélio Garcia era o coordenador da campanha da reeleição de Lula.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Foi o pior dia da minha vida. A gente não podia fazer nada”
CABO CARLOS PIMENTEL DE ALMEIDA, DO 5º BATALHÃO DE INFANTARIA, QUE SERVIA NO HAITI

“DIREITO PENAL MÍNIMO” ESTIMULA O CRIME NO DF
Edmar Ramos, 24, e Lucas Nunes, 19, têm em comum, além da opção pelo crime, o gosto de atirar covardemente no rosto de suas vítimas. Têm também em comum o benefício do princípio do “Direito Penal mínimo”, em voga no Brasil. Soltos, voltaram a praticar crimes. Ontem, num ônibus, em Brasília, Edmar “bateu” o revólver de um policial militar e atirou no rosto dele. Estava sob o benefício do regime semiaberto.
CRUEL COVARDIA
Em prisão domiciliar desde 23 de dezembro, Lucas cometeu o terceiro crime em poucos dias: atirou no rosto do comerciante que assaltou.
O CRIME COMPENSA
Lucas, 19, o bandido que atirou no comerciante, cumpriu só um dos 6 anos de condenação por assalto. O “Direito Penal mínimo” o soltou.
PARA A JUSTIÇA, “ANJOS”
Edmar e Lucas são usuários de drogas, com “passagens pela polícia” até por latrocínio, mas, cega, a Justiça não viu problema em soltá-los.
CAPITAL DA IMPUNIDADE
No DF, dos cerca de 7.300 sentenciados a cumprir prisão em regime fechado, só 1.200 estão na penitenciária. É o “Direito Penal mínimo”.
GOL DESRESPEITA CLIENTELA E ANAC SE OMITE
O voo Gol 1469, Brasília-Rio, quinta (14), deveria decolar às 22h30, mas saiu à 1 hora da madrugada. Sem motivo, o piloto arremeteu antes de pousar no Galeão e foi parar em Guarulhos (SP), onde oitenta passageiros embarcaram. Ficou claro o porquê da “arremetida”. Quem saiu de Brasília para chegar no Rio antes da meia-noite, pousou às 5h30. Sem pedido de desculpas. Nem sinal da Agencia Nacional de Aviação Civil.
DEMOROU
O presidente Lula levou 72 horas para elogiar os bravos militares brasileiros que tombaram no Haiti, durante a missão inventada por ele.
PROTEÇÃO
O Comando do Exército tenta sensibilizar Lula a priorizar a assistência material e psicológica às famílias dos militares mortos.
PREOCUPAÇÃO
A bela e talentosa atriz Christine Fernandes, a médica Ariane na novela Viver a Vida, ainda está aflita: seu irmão Leo estava no
Haiti.
MACUNAÍMA
O deputado tucano José Aníbal (SP) conserva solene desprezo por dois figurões do seu partido: José Serra e FHC, “o Macunaíma que deu certo”, segundo ele definiu o ex-presidente para uma amiga.
DILMA MOSTRA A CARA
Os marqueteiros já estudam como descolar um pouco a candidata a presidente Dilma Rousseff do presidente Lula. Avaliam que é chegada a hora de ela mostrar a própria “identidade”, propostas e a que veio.
NOVO ENCONTRO
O governador José Serra encontrou o colega Aécio Neves, esta semana, em Brasília, e sapecou um “vamos conversar”, sobre a disputa presidencial. E disse que visitaria o governador mineiro em BH.
SUCESSÃO
O presidente da Associação do Ministério Público do DF, Carlos Alberto Cantarutti, será um dos candidatos à sucessão do procurador-geral de Justiça do DF, Leonardo
Bandarra, com grandes chances de vencer.
FORÇA BRASILEIRA
A gigante Vale, orgulho dos brasileiros, negocia a compra da operação da empresa americana de fertilizantes Bunge. O valor do negócio, um dos maiores dos últimos tempos, pode chegar a US$ 3,8 bilhões.
DESAPARECIDO
Ainda está desaparecido o tenente da Polícia Militar do Distrito Federal Cleiton Batista Neiva, que é boina azul das Nações Unidas no Haiti. Ele é um dos encarregados do serviço de segurança no país.
CAÇA ÀS BRUXAS
Como os “camisas negras” de Mussolini ou a juventude nazista de Hitler, pistoleiros virtuais vinculados ao PT e pagos por estatais, listam e insultam na internet jornalistas que ousam criticar o governo Lula.
BRASIL ON-LINE
O Brasil e a Rússia são os maiores centros de origens de ataques cibernéticos, segundo a empresa Akamai, especialista em internet. Os dois países são responsáveis por 22% dos ataques em todo o mundo.
PENSANDO BEM...
O ano novo ainda nem começou.

PODER SEM PUDOR
MÚSICA NO TRASEIRO
Certa vez, em pleno regime militar, ao noticiar o aniversário do golpe de 1964, o Jornal de Alagoas, órgão Associado, referiu-se à exibição de banda de música no 20º Batalhão de Caçadores. Mas a nota saiu truncada: em lugar de banda, saiu “bunda”. Convocado a se explicar no Exército, Arnoldo Jambo, diretor e jornalista brilhante, garantiu que o erro foi involuntário.
– Coronel, no fundo, não houve erro – disse, ao despedir-se do comandante.
– Como não houve erro, seu Jambo? – reagiu o militar.
– Porque no fundo, no fundo, bunda tem duas bandas...

UM PUTEIRO CHAMADO BRASIL

SÁBADO NOS JORNAIS

- Globo: Países assumem controle da infraestrutura do Haiti


- Folha: EUA terão 10 mil soldados no Haiti


- Estadão: Após enterrar 40 mil vítimas, Haiti teme onda de violência


- JB: Barril de pólvora


- Correio: Terra sem lei


- Valor: CVM nega acordo sobre 'insider' no caso Suzano


- Jornal do Commercio: Haitianos lutam para sobreviver

sexta-feira, janeiro 15, 2010

BILL CLINTON

O que podemos fazer para ajudar

O GLOBO - 15/01/10


À medida que escrevo, não se sabe a extensão dos danos causados pelo terremoto que abalou o Haiti. Porém, um trágico número de pessoas morreu ou se feriu e as estimativas indicam que quase três milhões de pessoas — cerca de um terço da população do Haiti — podem precisar de ajuda, o que torna este um dos maiores casos de emergência humanitária na História das Américas.

Reuni-me com o secretáriogeral Ban Ki-moon na quartafeira e com outros importantes líderes da ONU para discutir as necessidades imediatas e de longo prazo do Haiti. Aqueles que ainda estão vivos sob escombros precisam ser achados.

Os corpos dos que morreram precisam ser retirados. O poder precisa ser restaurado e as estradas, reabertas. Mas o que o Haiti mais precisa é dinheiro para água, alimentos, abrigo e medicamentos básicos para dar alívio imediato àqueles que estão desabrigados, famintos e feridos.

Toda a ONU está trabalhando para atender essas necessidades e se reagrupar no Haiti, após o colapso do prédio de nossa sede e a perda de muitos colegas. O governo dos EUA comprometeu seu total apoio aos esforços de recuperação, assim como fizeram governantes de muitas outras nações.

Organizações não-governamentais e cidadãos comuns ofereceram ajuda. Até as pequenas contribuições farão diferença após tal destruição.
No entanto, depois que a emergência passar, o trabalho de reconstrução continuará.

Desde que eu e Hillary viajamos pela primeira vez ao Haiti, em dezembro de 1975, fiquei cativado pelas promessas e perigos do país e pela persistência esperançosa de sua população, mesmo diante de abuso, negligência e pobreza. O governo e a população do Haiti, a diáspora haitiana, países vizinhos e aliados, ONGs e grupos internacionais já estavam comprometidos com um projeto de desenvolvimento a longo prazo.

Esses esforços precisarão de ajuste devido ao desastre de terça-feira, mas não podem ser abandonados.
Como presidente, trabalhei para encerrar uma violenta ditadura no Haiti e para reconduzir seu presidente eleito ao governo.

Em junho passado, aceitei o papel de enviado especial da ONU ao Haiti, para ajudar a implementar o plano de desenvolvimento de longo prazo do país, elevando a assistência governamental estrangeira e investimentos privados, e também coordenando e elevando as contribuições de grupos não-governamentais, envolvendo mais voluntários da diáspora haitiana. Este trabalho ajuda a criar empregos, a melhorar a educação e a assistência médica, a conter a devastação florestal e criar energia limpa. Começamos bem e, antes do terremoto, achei que o Haiti estava mais perto do que nunca em garantir um futuro brilhante.

Apesar da tragédia, ainda creio que o Haiti pode vencer.
Primeiro, precisamos ajudar os feridos, tomar conta dos mortos e sustentar aqueles que estão sem teto, sem emprego e famintos. À medida que limparmos os escombros, vamos criar um amanhã melhor, reconstruindo um Haiti melhor: com prédios mais fortes, melhores escolas e assistência médica, com mais industrialização e menos desmatamento, com mais agricultura sustentável e energia limpa.

Nos próximos dias, histórias de perdas e triunfos do espírito humano serão contadas. Os haitianos vão nos pedir ajuda — não apenas para restaurar o Haiti, mas para ajudar a tornálo uma nação mais forte e segura, como sempre desejou e mereceu seu povo.

JAPA GOSTOSA

JOSÉ SERRA

Uma mulher e tanto

O GLOBO - 15/01/10


“É um grande prazer recebêlos aqui, senhor bispo, doutora Zilda. Já li a pauta que sugeriram para este encontro e que inclui várias questões pendentes entre o ministério e a Pastoral da Criança. Mas, antes de ouvi-los, eu queria perguntar: a senhora estaria disposta, seria possível duplicar o trabalho que a Pastoral vem fazendo com o apoio do Ministério da Saúde? Nós duplicaríamos imediatamente os recursos, bastaria apresentarem um plano de expansão. Acho a ação da Pastoral extraordinária e fundamental para derrubarmos ainda mais a mortalidade infantil no Brasil”.

Foi mais ou menos isso o que eu disse aos dois visitantes, numa tarde de abril de 1998, enquanto eles ainda se acomodavam nas poltronas da minha sala, no Ministério da Saúde. Não disfarçaram sua surpresa, esqueceram seus pleitos e aceitaram o desafio na hora. Eu havia assumido o cargo fazia poucos dias e tinha atendido rapidamente a um pedido de audiência do bispo Dom Aloysio Penna, responsável pela área da criança na CNBB, e da doutora Zilda Arns, coordenadora da Pastoral da Criança.

Dali em diante, Zilda Arns tornou-se uma parceira de todos os momentos. Recorri a ela muitas vezes, como no caso do Projeto de Emenda Constitucional nº 30, em 2000/01, que definia recursos orçamentários mínimos para a Saúde, nas três esferas de governo. A tramitação no Congresso era difícil, principalmente no Senado. Por isso, pedi ajuda a ela e a seu irmão, Dom Paulo Evaristo. E eles acabaram sendo fundamentais na mobilização da opinião pública em favor da aprovação da emenda.

Zilda Arns tinha formação científica e era cristã fervorosa.
Com sua crença, tornou mais humana a sua ciência; com a sua ciência, deu impressionante dimensão prática à sua crença. Sempre evidenciou a importância de unir o Brasil num propósito, em vez de dividi-lo. De potencializar o conhecimento com a fé, e a fé com o conhecimento.
Ela era infinitamente paciente.

Uma mulher serena nos gestos, no olhar, no sorriso fácil, na delicadeza com que tratava a todos, em qualquer circunstância, e na tolerância em relação às ideias das quais divergia e às pessoas que não admirava. Ao mesmo tempo, era disciplinada, organizada e sistemática no trabalho, docemente insistente na defesa de suas crenças e propostas.

Certa vez, quando intensificamos, no Ministério da Saúde, a distribuição de anticoncepcionais e preservativos, a doutora Zilda veio me ver. Sem fazer menção à nossa campanha, mostrou-me uma espécie de terço que, à primeira vista, não identifiquei. Não percebi do que se tratava. Finalmente, depois de alguns rodeios, ela me explicou: era um expediente de custo mínimo, para as mulheres lembrarem seus dias de fertilidade e controlarem suas relações sexuais, evitando gravidez indesejada. Surpreso, tentei argumentar: — Mas, dona Zilda, o pessoal aqui do ministério não vai aceitar nunca que esse terço seja utilizado em vez de anticoncepcionais.

— Sei disso. Mas nada impede que este método seja utilizado como complemento, inclusive com mulheres que não podem tomar anticoncepcionais.
Aí as pessoas que são contra vão se convencer, pois os resultados serão muito bons.

Essa era a Zilda Arns. Não brigava, procurava persuadir. A mesma dona Zilda que salvou a vida de centenas de milhares de crianças. Tradicionalmente, o combate à mortalidade infantil no Brasil, do ângulo correto do governo, requer três linhas de ação: expansão das obras de saneamento básico, atenção às gestantes e melhora do atendimento no parto, incluindo a fase pré-natal. No ministério, ratificamos essas linhas, reforçando muito cada um dos seus elos e estendendo-as ao pósnatal, mediante uma expansão considerável das UTIs especializadas por todo o país.

O trabalho da Pastoral da Criança, contudo, era e é de outra natureza, complementar, educativa e psicológica, enfatizando a atenção à família, as condições de higiene e nutrição, acompanhando o desenvolvimento das crianças, em cada casa, em cada bairro. É um trabalho feito por voluntários (hoje, mais de 150 mil) e focalizado nas regiões e municípios mais pobres (cerca de 3,4 mil). Até certo ponto, acaba sendo, também, uma “porta de entrada” dos mais carentes nas redes públicas de Saúde.

Dona Zilda fazia muito mais com muito menos. Perdoemme o economicismo: a “produtividade” dessas ações era enorme, em termos de queda da mortalidade infantil. Certa vez, estimei que, para obter os resultados do trabalho comandado por ela, uma ação equivalente de governo custaria de oito a dez vezes mais.

O governo já havia percebido a necessidade de atuar junto às famílias. Traduziu-a nos programas de Saúde da Família e de agentes comunitários de Saúde, criados na primeira metade dos anos noventa, mas ainda incipientes, no caso do PSF. Por isso mesmo, multiplicamos por dez, em poucos anos, o número de equipes, de forma mais concentrada nas áreas mais carentes do país. Porém, as ações da Pastoral, integrais, envolventes e próximas das pessoas, mais do que necessárias, continuaram insubstituíveis.

Em 2001, por ideia de um amigo que a admirava, deflagrei uma campanha para a concessão do Prêmio Nobel da Paz à doutora Zilda Arns. Naquele momento, ficou claro o reconhecimento que seu trabalho e seu exemplo mereciam, não só no Brasil como em todo o mundo, pela extensão e representatividade dos apoios que sua indicação recebeu.

Aliás, ela sempre deu prioridade à transmissão e à réplica da experiência brasileira da Pastoral da Criança nos países pobres da América Latina, da Ásia e da África. Foi nessa missão que ela estava no Haiti, o país mais pobre das Américas. E foi dali, dentro de uma igreja onde pregava, que nos deixou, sob os escombros da tragédia que matou também jovens militares brasileiros, num incrível capricho do destino.
Morreu dona Zilda. Viva dona Zilda, na sua obra, no seu exemplo e nas milhares e milhares de crianças cujas vidas ajudou a salvar e a construir.

CELSO MING

Dedo em riste

O ESTADO DE SÃO PAULO - 15/01/10



Ontem, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, passou uma descompostura nos governos de alguns países-membros da União Europeia por sua indisciplina fiscal.

No depoimento que deu depois da reunião que definiu pela manutenção dos juros básicos em 1,0% ao ano, Trichet denunciou o crescente desequilíbrio das finanças de "muitos governos da área do euro".

Ele advertiu que a escalada do rombo orçamentário obriga os tesouros nacionais dos países deficitários a recorrer crescentemente a levantamentos de empréstimos e os credores já estão exigindo juros cada vez mais elevados. Num segundo momento, a perda de confiança reduz o investimento privado, deteriora os fundamentos da economia e, assim, o crescimento econômico futuro fica comprometido.

E avisou que essa situação obriga a que o BCE force sua política monetária (política de juros) para compensar o estrago provocado pelos governos em sua política fiscal.

Paralelamente, disse ele, perdem credibilidade tanto os tratados da União Europeia como o Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), que exigem equilíbrio fiscal dos governos dos países-membros do bloco.

Os casos mais graves não precisaram ser citados. São Espanha, Itália, Irlanda, Portugal e Grécia. Mas o problema não se limita a esses. O simples uso da expressão "muitos governos da área do euro" (many governments e não some governments), dá a entender que há mais países encrencados entre os 16 participantes da área do euro. A situação quase limite é a da Grécia, cujos títulos de dívida estão sendo fortemente ameaçados de rebaixamento.

Trichet lembrou que não vai dar um tratamento especial para a Grécia, mas não foi claro sobre se o BCE continuaria aceitando os títulos de dívida do Tesouro grego como garantia das operações de crédito com as instituições financeiras. Em todo o caso, ficou a impressão de que o tratamento será duro: "não vamos mudar nossas normas sobre colaterais (garantias) em favor de qualquer país".

A crise global parece ter-se tornado pretexto para que os governos da União Europeia perdessem o controle do cofre. Tanto o Tratado de Maastricht, que criou o euro e a União Monetária Europeia, como o PEC proíbem déficits orçamentários superiores a 3% do PIB e dívidas públicas superiores a 60% do PIB. O déficit do ano passado da Grécia deve ter ficado nas proximidades dos 12,5% do PIB e o da Itália, por volta dos 5,5%. As dívidas dos dois países são superiores a 120% do PIB. Se ainda não é a desmoralização, é uma situação que se encaminha para isso. E, se o BCE passar a rejeitar os títulos de dívida de certos países-membros da União, fica difícil evitar que a quebra de confiança contamine o resto do clube.

No mais, as denúncias feitas por Trichet deveriam ser tomadas como paradigma para os dirigentes do Banco Central do Brasil que normalmente ou se omitem ou se agacham diante da escalada da gastança do governo federal e das suas consequências sobre a inflação.

Como Trichet está demonstrando, não pode haver separação entre os campos fiscal e monetário. O mau desempenho num deles compromete o outro e compromete o todo.

Confira

Dureza com os gatos gordos - O presidente Obama não tem nada a perder politicamente se for duro com os administradores dos grandes bancos.

Eles afundaram seus bancos com gestões irresponsáveis, obrigaram o Tesouro dos Estados Unidos a despejar US$ 730 bilhões para salvá-los da falência e ainda querem manter as centenas de milhões de dólares em gratificações de desempenho ("bônus obscenos").

É tão grande a indignação popular contra os "gatos gordos" que deverá ser fácil a aprovação do novo imposto dos bancos: "taxa de responsabilidade na crise financeira".

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

O câmbio do PSDB


O Globo - 15/01/2010
O senador Sérgio Guerra, presidente do PSDB, disse que o partido não pretende, se for eleito, mudar metas de inflação, nem câmbio flutuante, nem autonomia do Banco Central. Isso parece a você o oposto do que ele disse à "Veja"? Também achei. Ele garante que os fundamentos da política econômica serão os mesmos, mas os pesos serão diferentes. Entendeu? Nem eu.

O que o senador me disse, quando liguei para entender melhor o que ele enunciara na entrevista da revista, foi o seguinte:


- As metas de inflação serão mantidas porque têm tido um bom resultado. O câmbio permanecerá sendo flutuante. O grande instrumento de mudança será o controle dos gastos públicos. Vamos cortar gastos de custeio e aumentar os investimentos, mudando o papel do Estado.

Na revista "Veja", quando o repórter Diego Escosteguy perguntou se haveria mudança na política econômica caso eles fossem eleitos, o mesmo senador respondeu: "Sem dúvida nenhuma. Iremos mexer nas taxas de juros, no câmbio e nas metas de inflação. Essas variáveis continuarão a reger nossa economia, mas terão pesos diferentes."

Exceto o fato de que elas terão pesos diferentes, a resposta que ele me deu tem um peso bem diferente da que deu à "Veja".


Explicação de Sérgio Guerra quando cobrei a contradição:

- Dei uma entrevista muito maior do que essa, como é normal na revista. Isso é parte do que eu disse, mas não tudo. Não disse que se vai mexer nas metas de inflação.

Quis saber então como é que eles vão "mexer com câmbio e com os juros". Qual será a nova política cambial e monetária que vai substituir a atual?


- Vamos atuar fortemente nos gastos públicos, vamos reorganizar o Estado, rever prioridades. Os juros são bastante altos. O mercado continuará tendo um papel, mas vamos trabalhar para que os juros caiam.


Perguntei se esse mexer com os juros significaria intervir nas decisões hoje tomadas de forma autônoma pelo Banco Central:

- Não vamos intervir, o Banco Central terá independência.


Então quer dizer que vocês vão propor a independência do Banco Central?


- Não. Isso não foi discutido dentro do partido.

Então ficará tudo como é atualmente, com o BC tendo autonomia?

- Sim, o BC continuará tendo autonomia, mas trabalharemos para que os juros caiam porque eles são altíssimos no Brasil.

Argumentei que os juros são altos, mas caíram muito nos últimos anos, por decisões do próprio BC.

Os juros vão cair, segundo Sérgio Guerra, por força desse ajuste fiscal.

- Vamos fazer um forte ajuste fiscal - disse.

De fato, essa é a forma pela qual se abre espaço para a queda dos juros, mas nada é feito de uma hora para a outra, e na revista ele tinha dito: "Se ganharmos, agiremos rápida e objetivamente."

Na conversa comigo, ele falou de refazer o planejamento do governo, mudar a forma de gastar. Nada que tenha resultado assim tão imediato.

O senador me disse, mais de uma vez, que não será abandonada a flutuação do câmbio. Mas falou em mudar o câmbio.

- O câmbio será mais apreciado. É claro que não dá mais para conviver com estas taxas de câmbio. Os níveis são evidentemente prejudiciais às exportações brasileiras - disse.

O interesse em tudo o que ele disse é óbvio: ele é o presidente do maior partido de oposição e que está na frente nas pesquisas de intenção de votos.

Sem intervir no câmbio, a única forma de apreciar a taxa é derrubar os juros. E a única forma de derrubar os juros é cortando os gastos públicos, reduzindo demanda agregada para neutralizar possíveis pressões inflacionárias que coloquem as metas de inflação em risco.

Foi esse o edifício montado pelo próprio PSDB depois da desvalorização cambial de 1999. Na política de metas de inflação, o BC tem que ter autonomia para elevar os juros caso a inflação saia da trajetória estabelecida.

O problema é que isso sempre causa atritos com a área política. Em qualquer governo. O dólar baixo é curioso porque traz efeitos diferentes. Por um lado, reduz a inflação e aumenta a capacidade de compra dos salários. Desses efeitos, todos os governantes gostam, mas nunca atribuem ao câmbio. Por outro, reduz a competitividade das exportações e incentiva importações. Isso, todos condenam. E nesse caso também há uma complicação a mais: muitas vezes quem exporta também importa e isso acaba neutralizando um pouco suas perdas. A confusão é que nenhum governo consegue apreciar o câmbio quando quer, a menos que mude a política de flutuação cambial, o que tem, como aprendemos, vários perigos.

A política econômica em seus fundamentos principais foi uma montagem do governo do PSDB. Ela foi mantida pelo governo do PT. Durante a campanha, como todos sabem, o então candidato Lula teve que divulgar uma "Carta aos Brasileiros", mudando as bases das políticas que eles vinham defendendo por anos. Se continuar falando em mudanças na política econômica sem explicar direito, o PSDB vai acabar tendo que fazer também a sua "Carta aos Brasileiros".

VINICIUS TORRES FREIRE

Políticos vs. bancos e BC nos EUA

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/01/10



POLÍTICOS dos Estados Unidos querem que bancos, banqueiros e o banco central (Fed) levem mais do que um pito retórico pelos malfeitos financeiros que resultaram na catástrofe de 2008. Ontem, Barack Obama anunciou seu plano de taxar grandes bancos de modo que paguem o custo da intervenção estatal na lambança dos financistas - é a "Taxa de Responsabilidade da Crise Financeira".
No Congresso, funciona a Comissão de Inquérito da Crise Financeira, que investiga responsáveis pela crise (como banqueiros). Na mesma comissão, a presidente da Seguradora Federal de Depósitos acusou ontem o Fed de negligência na supervisão do papelório tóxico. Além do mais, senadores querem tirar do Fed poderes de supervisão bancária. Nesta semana, um humilde Ben Bernanke, o presidente do Fed, enviou carta ao Comitê de Bancos do Senado dizendo que tal medida aleijaria a capacidade do Fed de fazer política monetária, o que é verdade, reconhecendo também, a contragosto, "significativas insuficiências" na supervisão dos investimentos de risco dos bancos.
Na verdade, o Fed, pré e pós-Bernanke, foi cúmplice quando não animador das políticas, das legislações e dos lobbies da farra financeira -está nos autos. O presidente do Comitê de Bancos, o senador Christopher Dodd, chama de "fracasso abissal" a atuação do Fed na prevenção da crise.
Populismos? No final do ano, há eleição legislativa nos EUA. Pesquisas mostram o povo fulo com o desemprego, com a dinheirama que, imaginam, acabou apenas no cofre da banca; fulo com as "elites": ricos, banqueiros, "intelectuais da Costa Leste", amigos do "governo grande", de impostos etc., tudo posto no mesmo saco. Trata-se da renovação do populismo de direita que parecia derrotado na eleição de Obama.
O mau humor popular deve crescer, pois agora no início do ano serão divulgados lucros e bônus piramidais da banca. A chapa de Obama e parlamentares vai ficar quente. As implicações da taxa sobre os bancos são assunto para outro dia, mas já vale lembrar que a banca provavelmente não vai pagar o imposto. Vai repassar o custo para clientes.
E, mesmo que pagasse, não cobriria o desastre que causou. Obama diz que seu imposto vai recuperar cada centavo de dinheiro do contribuinte usado para salvar instituições financeiras, "determinação reforçada" pela visão dos "lucros maciços e bônus obscenos das mesmas firmas que devem sua existência ao povo americano". Obviamente, não vai reaver. A crise custou muito mais.
Em uma década, espera-se arrecadar US$ 90 bilhões com o imposto. O deficit federal passou de US$ 459 bilhões em 2008 para US$ 1,417 trilhão em 2009, um aumento de US$ 958 bilhões, desculpe a redundância. Nas palavras do Departamento de Orçamento do Congresso dos EUA: "Esses números resultam de uma combinação de receitas fracas e gastos elevados devidos à crise econômica e ao tumulto financeiro".
Mudanças mais amplas nas leis financeiras, de resto, parecem cada vez mais improváveis. Reforma na economia, então, é assunto inexistente. O país se financia com bolhas faz ao menos uma década; faz uma década que parou de criar empregos.
No período, a banca floresceu.

O ABILOLADO E A MENTIROSA

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

A China muda de terapia

FOLHA DE SÃO PAULO - 15/01/10



O BANCO CENTRAL da China surpreendeu o mercado financeiro ao dar dois passos seguidos na direção de um aperto nas condições monetárias da economia. Como é o padrão chinês, são medidas graduais, definidas unilateralmente pelo governo, mas que têm um objetivo claro a ser perseguido. No momento atual, o sinal dado é o de que a economia já se recuperou de forma sólida e a ameaça de um superaquecimento no futuro já é considerável. Para um governo cauteloso em seus movimentos, é uma prova de que já há mais confiança nos meios dirigentes de Pequim.
Sabe-se hoje que o governo chinês tomou um grande susto com o agravamento da crise econômica mundial depois de setembro de 2008. A economia caiu em um verdadeiro precipício, principalmente nos setores voltados para a exportação de bens industriais, o que levou a demissões em massa no setor privado da economia.
O colapso do comércio internacional mostrou de forma clara a dependência do modelo chinês em relação ao consumo no mundo desenvolvido. Para um país que procura construir uma posição geopolítica de grande potência, essa fragilidade foi assustadora. Por outro lado, com seu equilíbrio social vinculado ao sucesso na absorção de centenas de milhões de chineses na chamada economia de mercado, essas flutuações cíclicas de grandes proporções podem ser altamente perigosas.
O governo chinês sabe que, para ter sucesso em sua estratégia de construir uma grande potência, será necessário mais de uma década de crescimento continuado, sem grandes flutuações. Por isso, a tomada de consciência da dependência chinesa em relação aos ciclos das economias desenvolvidas fez as lideranças colocarem as barbas de molho.
Analistas que acompanham o governo chinês de forma mais sistemática são unânimes em reconhecer o susto tomado e prever mudanças profundas na gestão da economia no futuro. Para Stephen Roach, do banco Morgan Stanley, o instrumento efetivo para isso será o 12º Plano Quinquenal, que cobrirá o período de 2011 a 2016. Segundo esse analista experiente em China, o governo vai seguir a recomendação de vários economistas, aumentando a participação do consumo dos chineses na composição do PIB (Produto Interno Bruto).
Com isso, pode reduzir a importância das exportações industriais para o Primeiro Mundo e moderar o impacto das flutuações cíclicas das economias mais maduras sobre a velocidade do crescimento chinês.
O consumo das famílias representa hoje apenas 35% da formação do PIB e precisaria ser de, pelo menos, 45% ou 50% para acomodar uma participação menor das exportações. Também são conhecidas as principais medidas que deverão ser tomadas para atingir esse objetivo. Entre elas, a criação de uma rede de proteção social -que leve o chinês médio a reduzir sua taxa de poupança- e a expansão do setor de serviços seriam as mais importantes.
Mas o movimento recente do Banco Central não tem nada a ver com essa mudança de rumo. Ele está associado a uma correção tática na medida em que a economia mostra sinais de que voltou a uma dinâmica de crescimento sustentado.
É a primeira grande economia que inicia um movimento sistemático de redução dos estímulos monetários -e certamente fiscais- colocados em prática nos dias negros que se seguiram à quebra do banco Lehman Brothers.

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 67, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

RUY CASTRO

Rei Zulu

O GLOBO - 15/01/10


Não há criança da década de 1950 que não tenha brincado o carnaval ao som de “O Rei Zulu”, a marchinha de Antonio Nássara e Antonio Almeida lançada por Blecaute no carnaval daquele ano. Discreta, sem nunca estourar, ela continuou tocada nos salões pelos anos seguintes e falava de um personagem que todo mundo parecia invejar: “Rei Zulu-u, o Rei Zulu/ Não paga casa, nem comida e anda nu/ Pode não ter dinheiro prá gastar/ Mas tem mulher prá chuchu./ [Bis]/ Rei Zulu não precisa/ De dinheiro prá viver/ Tem casa prá morar/ Comida prá comer/ Mulher prá namorar/ Atrás do murundu/ Vamos saravá, minha gente!/ Salve o Rei Zulu”! E dá-lhe de mais bis.

No tempo do apartheid, os zulus, como todas as tribos nativas da África do Sul, passaram o diabo. Mas só podíamos imaginar, porque, sob o regime branco, o mundo sabia pouco sobre eles. Hoje temos mais informações. Com seus 10 milhões de cidadãos, são o maior grupo étnico da África do Sul. Vestem-se como uma ala de escola de samba e não largam mão de certos hábitos seculares e selvagens. Um, mais conhecido, é a circuncisão de mulheres. Outro, cometido de novo há pouco, é o sacrifício do touro.

Este consiste em soltar um touro no cercado e deixar que 40 guerreiros o matem com as próprias mãos, praticando atrocidades cuja descrição em detalhes estragaria o dia do leitor. Basta dizer que, durante horas, o martírio do touro é pior que o das touradas, da farra do boi ou dos rodeios. A ideia é a de que “a força da besta se transmita aos guerreiros e, destes, ao rei”.

Mesmos os zulus esclarecidos hesitam em lutar contra essa tradição. Temem que, se algo grave acontecer ao rei, será porque a força do touro “não se transferiu para ele”. O “Rei Zulu” do Blecaute nunca precisou disso e era um homem realizado e feliz.