quarta-feira, janeiro 06, 2010

GOSTOSA

MÍRIAM LEITÃO

À moda brasileira

O GLOBO - 06/01/10


O ano começa com a criação de um monopólio e uma reestatização. A compra da Quattor pela Braskem dará ao grupo formado pela Odebrecht e Petrobras o controle de todas as centrais petroquímicas e a maioria da produção das resinas plásticas. A operação em que a Cemig está comprando ações dos sócios da Rio Minas Energia é na prática a volta da Light a mãos estatais.

A privatização da Light não foi privatização de fato.

Na época, quem comprou foi uma estatal francesa, a EDF. Logo após, o Rio viveu uma onda de apagões. Em seguida, melhorou, mas os grandes prejuízos levaram a empresa francesa a vender a Light. O grupo de investidores que se formou para comprar dizia que estava enfim trazendo a administração da empresa de volta ao Rio. Agora, o controle será da estatal mineira. Os novos donos já avisaram que não há garantia de que os apagões vão acabar. Todos os donos justificam o baixo investimento com os mesmos argumentos: no Rio, é difícil combater o roubo de energia e isso mina a receita da empresa. Além disso, é um mercado estagnado.

O consumo continua 1% menor do que há dez anos.

A petroquímica nasceu no Brasil por decisão do Estado, mas não para ser estatal. Era um modelo tripartite: cada uma das três centrais de produção de matéria-prima era controlada por um consórcio diferente, formado por capital estrangeiro, um grupo privado nacional e a Petrobras.

A segunda geração de produtos derivados da matériaprima nasceu incentivada e financiada pelo Estado, mas em vários grupos privados.

Décadas depois, o governo decidiu retirar a Petrobras do setor e privatizar suas participações. Nos últimos anos, no entanto, a Petrobras voltou a crescer, comprando participações ou empresas e aprofundando sua sociedade com a Odebrecht.

Com a compra da Quattor, a Braskem vai controlar todas as centrais e um altíssimo percentual de produção das resinas termoplásticas: polietilenos, polipropilenos, poliestirenos e PVCs. Hoje, o Brasil produz 5,5 milhões de toneladas de resinas. Quando a Petrobras inaugurar a Comperj, em Itaboraí, serão mais dois milhões de toneladas.

Só a resina Pet não é produzida pelo grupo, e sim por outro monopólio, o grupo italiano MG.

A Braskem argumenta que mesmo tendo todo esse controle, isso não produz riscos para o mercado.

— Esse é um mercado internacional, as resinas são facilmente importadas, os produtos viajam bem. Isso significa que se algum produtor local, formador de preço, quiser reajustar o produto além da cotação internacional vai incentivar a importação — diz Marcelo Lyra, vice-presidente Institucional da Braskem.

Ontem de manhã, a Braskem informou à CVM que a compra da Quattor ainda não havia sido fechada. E até à tarde, quando falei com a empresa, as negociações continuavam para contornar a resistência de um dos familiares. Uma das vantagens do negócio será resgatar a Quattor das brigas da família Geyer, paralisante para qualquer grupo.

O negócio tornará a Braskem a maior empresa do Mercosul. A Dow Química e a Solvay operam na Argentina, mas são bem menores do que a empresa petroquímica brasileira.

Lyra disse que os clientes da empresa não veem a operação como uma ameaça.

— A consolidação dará ganhos de escala que beneficiarão os clientes com mais competitividade e inovação — disse.

Ter um grupo nacional forte é bom sim, desde que o tamanho da empresa não crie distorções de mercado.

No caso das resinas plásticas, de fato, outros especialistas confirmam a visão da empresa. O Brasil exporta 25% do que produz e importa 20% do que consome de resinas.

A economia brasileira é cheia de grandes empresas que dependem excessivamente do financiamento estatal, ou se associam a estatais, ou justificam o controle do mercado onde atuam com o argumento nacionalista.

Isso cria uma espécie de capitalismo à moda brasileira.

No caso da Light, os erros já começaram na privatização.

Ela foi a leilão antes de haver órgão regulador. Os apagões tiveram o agravante do processo decisório lento de uma estatal francesa.

A esperança nasceu quando se formou um grupo de investidores privados, mas no fim do ano passado novos apagões revelaram a crônica falta de manutenção. Agora, o negócio será assumido por uma estatal mineira.

Algumas estatais são bem geridas, algumas empresas privadas são mal geridas.

O problema é que as estatais bem geridas, dependendo de quem assume o governo, podem ser entregues a interesses políticos.

Monopólios são sempre um perigo, mas quando há chance de importação há como evitar abuso de poder de mercado.

ARI CUNHA

A marca do insucesso

CORREIO BRAZILIENSE - 06/01/10


O presidente da Câmara Legislativa do DF, Leonardo Prudente, não se preocupa com o que possa advir. Aparentando respeitabilidade, surge à vista dos colegas como se fosse virgem. Como a mulher de César. Havia pedido licença por metade do ano. Seu propósito é suspendê-la e reassumir o cargo. O espelho da verdade mostra o desejo em plena agitação. Barão de Itararé tinha senso de humor e via a vida pelos olhos da maldade. “Negociata é o bom negócio ao qual estamos ausentes.” Era crítico mordaz. Sentia a maldade nas intenções dos que dela se aproximavam. Revelava pensamento dos outros. A vida do país está em mãos de quem deseja o poder por qualquer razão.


A frase que não foi pronunciada

“Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.”
» Político pensando em se regenerar enquanto lê Clarice Lispector.




Prédios históricos
» A preocupação do governador José Serra é salvar “e recuperar os prédios históricos de São Paulo”. Ideia é boa, não para a atualidade. Morre gente por toda a parte. A vida humana desvalorizada não terá cidadãos para honrar essas tradições.

Ciem
» Tempos atrás, a Universidade de Brasília tinha cursos para ensinar tudo aos alunos. Decisão final seria deles. O Ciem era a melhor educação. O livre arbítrio fez cada um escolher seu destino. Uns, para a maldade ou lucro fácil. Outros, pela dignidade humana. O homem segue o destino desejado.

Supremo
» Assaltado no Rio, Gilmar Mendes era vice-presidente do STF. Acompanhava a presidente Ellen Gracie. Segurança não reagiu. Recuperou o automóvel abandonado. Nos feriados, em companhia da mulher, Guiomar Mendes, fez percurso tranquilo de bicicleta pela Península Norte.

Bravura
» Caseiros no Lago Norte receberam homenagens dos moradores. Ao perceberem a entrada de um ladrão na residência vazia, os trabalhadores se telefonaram e aguardaram o meliante do lado de fora. Assim que saiu, foi rendido, amarrado e exposto no gramado para exibição pública antes da prisão. Faixas de agradecimentos dos patrões foram espalhadas pela rua.

Briga feia
» Newton Cardoso, ex-governador de Minas Gerais, mexe os pauzinhos para recuperar o PMDB mineiro. Com os olhos em 2010, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, não gosta da ideia. Pode haver tumulto.

Embratur
» Ontem, João Mendes Santana tomou posse no Escritório Brasileiro de Turismo em Madrid. Chega com uma responsabilidade importante. Ultrapassa o turismo, ao mostrar o Brasil como parceiro comercial viável.

ONU
» Divulgada a oportunidade de o Brasil ocupar por dois anos uma vaga no Conselho de Segurança da ONU. O presidente Lula vê êxito na primeira etapa do lobby. O próximo passo é acrescentar uma cadeira permanente para um representante da América Latina, Europa Oriental e África.


História de Brasília

O Departamento de Limpeza da Prefeitura tem outro lugar para ver: é a S-2MW, cuja pista de asfalto está sendo coberta de entulho, por empreiteiros sem escrúpulos. (Publicado em 22/2/1961)

GOSTOSA DO TEMPO ANTIGO

GUSTAVO M. BAPTISTA

O planeta está realmente esquentando?

FOLHA DE SÃO PAULO - 06/011/10


A mudança do clima, para mais quente ou para mais frio, ocorrerá com ou sem o nosso consentimento. Quem viver verá


ACABAMOS de assistir às principais lideranças mundiais reunidas em Copenhague para discutir os destinos do planeta diante da ameaça do aquecimento global antropogênico. Ironicamente, foram necessários muitos agasalhos, pois o frio de um inverno rigoroso já se anunciava.
A tese defendida pelo IPCC, de que o aquecimento é provocado pelo homem, baseia-se em três grandes pilares: as séries históricas dos desvios de temperatura global, as séries históricas de concentrações atmosféricas de dióxido de carbono (CO2) e uma previsão de clima baseada no dobro da concentração de CO2.
As séries históricas dos desvios de temperatura global, nas quais se baseia o IPCC, mostram que, nos últimos cem anos, a temperatura média do planeta aumentou 0,6, mas, ao analisarmos os dados, notamos que esse crescimento não foi constante nem linear, pois houve períodos em que ocorreu redução da temperatura do globo.
Além disso, e mais curioso ainda, observamos na análise dos mesmos dados que, nos momentos em que a temperatura subiu, não há relação de proporcionalidade com o aumento de CO2, ou seja, não é possível, com base nessas séries históricas, afirmar que a temperatura aumentou em decorrência do aumento das emissões de dióxido de carbono.
Outra observação inquietante desses dados mostra que, entre 1943 e 1966, período em que o processo de urbanização se consolidava no mundo, associado ao crescimento econômico expressivo do pós-guerra, ocorreu redução de 0,18 na temperatura global.
Mais recentemente, a partir de 2005, os dados de temperatura média global baseada em dados de satélites divulgados pela Universidade do Alabama Huntsville (UAH) mostram uma tendência de resfriamento global. Contrariando as previsões dos ambientalistas, o planeta viveu entre 2007 e 2009, no Hemisfério Norte, invernos bastante rigorosos, com direito a uma nevasca histórica em Washington no último mês de dezembro e a inacreditáveis 34,6 negativos na Alemanha, onde, de acordo com o Serviço Alemão de Meteorologia, o inverno está sendo classificado entre os cinco ou dez mais frios dos últimos cem anos.
Os outros dois pilares do aquecimento antropogênico estão relacionados à concentração de CO2 na atmosfera. Segundo os que anunciam essa pseudocatástrofe, essa concentração nunca foi tão elevada quanto agora. Será?
Essa afirmação baseia-se inicialmente nos estudos de Guy S. Callendar, que, a partir de 1938, passou a pregar a influência humana no incremento da temperatura do planeta em decorrência da queima de combustíveis fósseis. É dele um estudo publicado em 1958 que afirma que a concentração média de CO2 atmosférico no século 19 era de 290 ppm (partes por milhão) e, no século 20, chegou a 320 ppm.
Estudos posteriores dos cientistas Fonselius, Koroleff e Wärme lançaram dúvida sobre a tese de Callendar, mostrando que, na verdade, ele teria escolhido a dedo seus dados.
A manipulação teve o objetivo de estabelecer uma suposta tendência de crescimento exponencial nos índices de concentração e de desprezar concentrações superiores ao patamar eleito por ele.
Nos dados desprezados, encontram-se concentrações superiores a 500 ppm já no século 19, mas elas tiveram de ser ignoradas para tornar defensável seu ponto de vista.
Afirma-se que o grande vilão do aquecimento global é o homem, por sua parcela de contribuição para o efeito estufa -retenção do calor pelos gases que apresentam concentração variável na atmosfera, entre eles o dióxido de carbono.
Um dado que tem sido ignorado, no entanto, é que 95% do efeito estufa é decorrente da concentração de outro gás: o vapor d'água. O CO2 corresponde somente a 3,6% do total. Mais grave ainda é que, desse percentual, o homem e suas máquinas respondem por apenas 0,1%. Por essa razão, o climatologista Marcel Leroux disse que "na atmosfera do IPCC não há água".
Entramos recentemente numa nova fase fria do oceano Pacífico e enfrentamos um ciclo de manchas solares que tem apresentado uma atividade muito baixa, como se esperava com os ciclos de Gleissberg.
Isso deve nos levar, ao contrário do que anunciam os profetas do apocalipse climático, a um novo período de resfriamento global, apesar do El Niño deste ano.
O fato é que as temperaturas globais são reguladas por fenômenos naturais de âmbito sistêmico. A mudança do clima, para mais quente ou para mais frio, ocorrerá com ou sem o nosso consentimento. Quem viver verá!

GUSTAVO M. BAPTISTA, 40, doutor em geologia, é professor adjunto da UnB (Universidade de Brasília) e autor do livro "Aquecimento Global: Ciência ou Religião?"

ANCELMO GÓIS

O MORRO NA NOVELA

O GLOBO - 06/01/10


Veja como a pacificação da favela Dona Marta, no Rio, ainda rende frutos. A TV Globo planeja rodar no morro a sua próxima novela das 18h, “Entre dois amores” (nome provisório).
‘BBB’ GAY
De Jane Di Castro, a transformista, eufórica, ao saber que haverá uma drag queen no próximo “Big Brother”, da TV Globo:
– Vou preparar uma caravana numa van cor de rosa rumo ao Projac nos dias de paredão! Finalmente, a TV abre espaço para as bibas que se montam. Não vejo travesti nem de sacoleira de supermercado!
OS NAVIOS DE EIKE
A OSX, a empresa noviça de Eike Batista que pretende construir um estaleiro em Santa Catarina, lança mês que vem uma oferta pública de ações (IPO). Planeja captar entre US$ 2,5 bi e US$ 3 bi.
MTT BANCO
Até agora o BC analisa a criação do MTT Banco, do empresário Eugênio Holanda, anunciada em março de 2009, a partir da compra da filial brasileira do Dresdner Bank. O sócio de Holanda é Luiz Cezar Fernandes, que ajudou a criar o Pactual e o Garantia.
CALMA, PINTINHO
De Pintinho, craque tricolor nos anos 1980, que há 29 anos vive na Espanha, sobre Kaká, do Real Madrid e da seleção:
– Kaká é mais valorizado do que merece. Nunca nos deu título importante. Cristiano Ronaldo (português do Real) é melhor.
Mãe África Lula nomeou uma mulher para comandar nossa embaixada na Etiópia. O posto será da embaixadora Isabel Cristina de Azevedo Heyvaert.
LÁ E CÁ
Roberto Carlos, o lateral pentacampeão do mundo que vai jogar no Corinthians de Ronaldo Fenômeno, decidiu entrar com processo na Fifa para receber salários atrasados no Fenerbahçe, da Turquia. Deve ser terrível... você sabe
PROCOPA HOTÉIS
O BNDES vai investir R$ 1 bi na reforma e na construção de hotéis para a Copa de 2014. O programa, batizado de ProCopa Hotéis, só vai até o fim de 2012, ou seja, tudo tem de estar pronto até o Mundial.
UM PAÍS DE TODOS
Os presidentes dos clubes Naval, Militar e de Aeronáutica divulgam hoje nota de apoio ao ministro Nelson Jobim e aos três comandantes militares “ante o lançamento inoportuno da Comissão Nacional da Verdade”. A nota elogia a democracia e pede “um País de todos, sem preconceitos nem revanchismos contra qualquer facção”.
A FALTA DE MÍRIAM
Até no PT deram falta no filme “Lula, o filho do Brasil” do romance do presidente com Míriam Cordeiro, mãe de Lurian. O ministro Paulo Bernardo, na revista petista “Teoria e Debate”, escreve que “seria natural que o assunto estivesse no filme, já que é por demais conhecido”.
MEMÓRIAS DO CÁRCERE
Dona Vilma Andrade, 80 anos, viúva do bicheiro Castor, acaba de ganhar da ex-nora Beth Andrade, viúva de seu filho Paulinho Andrade, ação de posse de três casas na Ilha Grande. Castor se apaixonou pela ilha na temporada que passou no... presídio, implodido em 1994.
MADEIRA DA AMAZÔNIA
Aliás, as casas, erguidas em 1993 com madeira da Amazônia e jardins de flores importadas da Holanda, têm 400 m², cada. Quase todo o material foi trazido de barco em cerca de 1.000 viagens, como contou, na época, o arquiteto José Zanini Caldas, autor do projeto.

A PORCA

DORA KRAMER

Enquanto Serra não vem

O ESTADO DE SÃO PAULO - 06/01/10


Depois de muita conversa entre a cúpula do partido nessa virada de ano, o PSDB resolveu inverter o enunciado do problema segundo o qual o início dos trabalhos eleitorais dependia da definição oficial do candidato a presidente.

De agora até março passa a vigorar o oposto: o partido dá a largada exatamente para preservar o candidato, ocupando todos os espaços de ataque, defesa e organização da logística a fim de reduzir as pressões para que o governador de São Paulo, José Serra, assuma a condição de porta-voz da oposição no processo de sucessão do presidente Luiz Inácio da Silva.

Trata-se, no dizer dos dirigentes, da "montagem de uma retaguarda" composta pelos parlamentares, diretórios e as estruturas das campanhas estaduais.

São eles os encarregados de falar sobre as posições do partido, comentar as notícias do dia a dia, criar fatos políticos, denunciar ações do governo que se prestarem a denúncias, enfim, chamar sobre si todas as atenções.

Com isso, atendem a uma reivindicação de Serra, que há tempos vinha aborrecido com o fato de o PSDB achar que a tarefa do embate caberia exclusivamente àquele que na eleição vai representar a voz e a face do partido.

Como isso o governador não queria nem podia fazer, inclusive porque havia outro pretendente (Aécio Neves), o campo oposicionista simplesmente não se mexia, vivia uma espécie de compasso de espera permanente.

A nova linha de ação foi facilitada por dois fatores que, na visão dos tucanos, fizeram o PSDB "fechar" 2009 em situação favorável: a desistência do governador de Minas, Aécio Neves, de pleitear a candidatura presidencial e a permanência do governador de São Paulo num primeiro lugar praticamente sem oscilações.

A retirada de Aécio livrou o PSDB da formalidade da dúvida sobre o candidato e a vantagem consolidada (até agora) dá ao partido desenvoltura para contrapor a versão do governo de que a ministra Dilma Rousseff está em situação privilegiada.

"Não está, com toda a popularidade de Lula, Dilma tem 23% no melhor cenário, aquém dos 30% previstos para o fim do ano pela expectativa divulgada pelo PT em meados de 2009", diz o deputado Jutahy Magalhães, que tem participado dessas avaliações sobre a agenda do PSDB nesse vácuo até a saída de Serra do governo de São Paulo, em 2 de abril.

Na pauta, além de "bater o bumbo" sobre a vantagem nas pesquisas, o PSDB inclui a "denúncia" dos comerciais de empresas privadas cujos textos são muito semelhantes ao discurso do governo. Ou seja, não vendem seus produtos, mas o "mood" publicitário do governo.

Qual prejuízo isso imputaria ao campo do adversário?

Além de desvendar a manobra, "alertar", principalmente multinacionais como a Ambev e a GM, sobre a politização de suas filiais.

Nessa agenda há, no entanto, um tema interditado: a formação da chapa puro-sangue. Pergunte-se mil vezes a respeito ao presidente do partido, Sérgio Guerra, e mil vezes ele responderá: "Por enquanto é tempo de calar."

Processo (in)decisório

Para quem não gosta de arbitrar, preferindo pairar acima de qualquer conflito, Lula tem paradas duras para resolver antes de passar a faixa presidencial: a escolha dos novos aviões caças da FAB (ele prefere os franceses, a Aeronáutica os suecos), a querela entre os Ministérios da Defesa e Justiça sobre os crimes da ditadura e a extradição de Cesare Battisti.

Aos dois primeiros assuntos o presidente sempre poderá aplicar seu habitual método de impulsão com a parte mais protuberante do abdome.

Já sobre Battisti, a partir da publicação do acórdão do Supremo Tribunal Federal, prevista para fevereiro ou março, o presidente tem 40 dias para dar o veredicto.

Perdas e ganhos

Prefeito do Rio, Eduardo Paes começou se inspirando em projetos de ordenamento urbano de São Paulo, mas, pelo resultado de seu "choque de ordem" na cidade apinhada de turistas, pode terminar exportando tecnologia.

O projeto foi um sucesso na virada do ano e no cotidiano tem feito, pelo menos da zona sul, um espaço de convivência mais civilizada. Barracas de praia padronizadas, ambulantes uniformizados, guarda municipal em todo canto, frescobol, futebol e assemelhados banidos da beira do mar, aplicação rigorosa da lei seca, fiscalização das regras de estacionamento, presença do poder público, enfim, é o melhor remédio.

O governador Sérgio Cabral, cuja ação na ocupação dos morros livrou parte deles do domínio do tráfico, ficou em desvantagem no quesito menção honrosa por seu sumiço nas primeiras 24 horas da tragédia de Angra dos Reis, onde seis meses antes havia autorizado construções em área de proteção ambiental.

Se, como disse ele, a tragédia era "anunciada", Cabral é réu confesso do crime de omissão.

CLÁUDIO HUMBERTO

“(...) até o presente momento não encaminhou’ ”
A FAB NEGANDO ENTREGA DE RELATÓRIO À DEFESA OPTANDO PELOS CAÇAS SUECOS GRIPEN

LULA NA PRAIA: REFORMA DA CASA CUSTOU R$ 2 MI
A Marinha do Brasil gastou mais de R$ 2 milhões para reformar a casa agora utilizada pelo presidente Lula e família em sua temporada de férias na Praia de Inema, da Base Naval de Aratu, litoral baiano. As despesas para deixar a casa como queriam os inquilinos provocam grande revolta na Marinha, em razão dos problemas de manutenção das instalações e navios da própria Base Naval, por falta de dinheiro.
OUTRO LADO
A Marinha prometeu resposta “o mais breve possível”, após checar a informação “junto a outras organizações militares”.
DO JEITO DELE
Lula também passou férias na Base Naval de Aratu, em 2008. Mas a casa não parecia estar do jeito que ele e sua família gostam.
CANSEI
O presidente, que também levou amigos, ficará na praia até segunda (11), descansando de tantas viagens mundo afora e de ser “o cara”.
SILÊNCIO NO PARAÍSO
Ponte cai no Sul, calamidade pública no Rio e em São Paulo, e Lula continua mudo al mare, com um isopor na cabeça, cheio de guaraná.
SINAL AMARELO NA EDUCAÇÃO
A Conferência Nacional de Educação, que será realizada em Brasília, em março, já acendeu o sinal amarelo na Confenem (Confederação dos Estabelecimentos de Ensino Particular). É que os burocratas de esquerda, os “cumpanhêro”, em cargos de direção no MEC e seus aliados planejam criar o Fórum Nacional de Educação como instância máxima de deliberação de política educacional, acima do próprio MEC.
PROPOSTA DERROTADA
Essa proposta foi derrotada na Assembleia Constituinte e nos debates anteriores à Lei de Diretrizes e Bases de 1996.
ORÇAMENTO NA BERLINDA
O Fórum teria poderes para controlar a execução orçamentária na área. É inconstitucional. Vai dar rolo.
VELHOS COMPANHEIROS
Adivinha quem seriam os integrantes do Fórum? Representantes dos sindicatos e ONGs de sempre, inclusive do clandestino MST.
ANO-NOVO, GENTE NOVA
No dia do seu aniversário, ontem (5), o governador do DF, José Roberto Arruda, reuniu seu secretariado, com um quadro completamente diferente de quando assumiu. Ele tenta manter a governabilidade.
DIAMANTES DEMAIS
O garimpo na Reserva Roosevelt, em Rondônia, está a todo vapor mesmo com a extração proibida desde 2004. Os índios Cinta-Larga, que vivem na região, são cúmplices dos garimpeiros.
CADÊ O MP?
Agora o Ministério Público quer que o Ministério da Justiça invista em programas sociais para os índios no mesmo valor que aplica no combate ao garimpo: R$ 7 milhões por ano. Só assim fechariam a área.
RIO 2016
A Agência Fields, contratada pelo Ministério dos Esportes para fazer a campanha da candidatura do Rio às Olimpíadas de 2016, explica que estava licitada quando saiu a suplementação orçamentária do governo.
NA PAZ
O ministro das Comunicações, Hélio Costa, acionou o “deixa disso”, após o governo federal e a Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abert) se estranharem na Conferência de Comunicação (Confecom). Costa garantiu que até fevereiro lança o sistema de rádio digital.
BOLÃO DE CRISTAL
Um popular vidente mexicano conhecido como “Bruxo Maior”, garantiu que o presidente deposto Manuel Zelaya “desaparecerá qualquer dia da embaixada do Brasil e não voltará mais a Honduras”. Será?
PRIMEIRO AQUI
A notícia nos jornalões de ontem saiu aqui, em novembro: ambientalistas protestaram contra o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), que autorizou novas construções na Ilha Grande, ignorando órgãos técnicos.
PENSANDO BEM...
O DEM leva na meia, o PT na cueca, e o povo no lugar de sempre.

PODER SEM PUDOR
AO PÉ DA LETRA
Monoglota convicto, o ex-prefeito de São Mateus (ES), Amocim Leite, durante viagem aos Estados Unidos, resolveu traduzir o próprio nome ao – digamos – “pé da letra”. Apresentava-se assim:
- Muito prazer, meu nome é I love Yes Milk...

TERÇA NOS JORNAIS

- O Globo: Governo vai cortar impostos para beneficiar exportador

- Folha: Ponte desaba em rio do Sul; dez pessoas desaparecem

- O Estadão: Planalto descarta parecer da Aeronáutica sobre caças

- JB: Manobra de Paes sob fogo na Câmara

- Correio: A inflação dentro de casa

terça-feira, janeiro 05, 2010

BRASÍLIA -DF

O xis da sucessão

Luiz Carlos Azedo

CORREIO BRAZILIENSE - 05/01/10


O governador de São Paulo, José Serra (PSDB), está que não se aguenta para abrir uma polêmica sobre os rumos da economia na era do pré-sal. Não fez isso ainda porque não quer um confronto aberto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Pretende esperar a campanha eleitoral para se digladiar com a candidata petista à sucessão presidencial, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. Nos meios empresariais, Serra já bate na tecla de que o Brasil caiu numa armadilha macroeconômica: os maiores juros do mundo; a taxa de câmbio mais valorizada do planeta; e uma explosão de gastos correntes sem precedentes com moeda estável (argumenta que no governo Sarney houve explosão de gastos, mas a inflação era de dois dígitos ao mês).

O que Serra mais questiona é a megavalorização da moeda. Considera um erro crasso de uma estratégia desenvolvimentista ma non troppo. A política cambial, agravada pela taxa de juros, seria muito prejudicial à indústria nacional. Além da invasão de bens de consumo chineses, desestruturaria cadeias produtivas estratégicas, como aquela que produz peças e equipamentos para a Embraer. O Brasil produzia 60% dos componentes dos aviões. Agora, não passariam de 30% do valor gerado. Segundo Serra, a médio prazo, o Brasil pode virar um país agrário-exportador e deixar de gerar milhões de empregos na indústria.


Tripé

Lula pode argumentar que Serra tem saudade da inflação, pois o câmbio garante a estabilidade dos preços para a grande massa da população consumir. E que suas críticas não passam de xororô do empresariado paulista menos competente, que precisa melhorar a produtividade e a qualidade dos produtos. Para Serra, porém, o problema da competitividade do Brasil não tem nada a ver com teses neoliberais ou desenvolvimentistas. Só teria a ver com a forma errada de armar o tripé do “mais do mesmo”: responsabilidade fiscal, câmbio flutuante e metas de inflação.

Afobado

O prefeito de Nova Iguaçu, Lindberg Faria, lamenta não ter deixado o acordo com o governador Sérgio Cabral (PMDB) — no qual abriu mão da candidatura a governador — para depois do Carnaval. Ao jogar a toalha, a vaga de candidato ao Senado do PT, também pleiteada pela ex-governadora Benedita da Silva, passou a ser assunto exclusivo do PT e da aliança com Cabral.

Socorro

Em conversa por telefone com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), ontem, o presidente Lula prometeu liberar recursos em conta do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para os moradores que sofreram prejuízos com os deslizamentos de terras em Angra dos Reis e com as enchentes na Baixada Fluminense. Nos mesmos moldes do socorro a Santa Catarina, medida provisória também liberará recursos para obras de emergência, inclusive para o assentamento de desabrigados.

Jeitinho

O governo minimiza as críticas aos cortes das verbas destinadas à Copa do Mundo de 2014 no relatório final do deputado Geraldo Magela (PT-DF) ao Orçamento Geral da União para 2010. Na execução orçamentária, recursos de outras áreas serão remanejados para cobrir o rombo de R$ 1,8 bilhão

Saúde

Ainda convalescente de uma delicada cirurgia no pâncreas, realizada em outubro, o governador licenciado de Sergipe, Marcelo Déda, do PT, comemora os indicadores de saúde de seu estado. Proporcionalmente, é o que mais investe na área, com recursos na ordem de R$ 300 milhões. Em valores absolutos, Minas Gerais lidera o ranking, com um investimento de R$ 400 milhões.

Aspone/Assessor da direção do Sindicato dos Petroleiros do Rio de Janeiro, o sindicalista Nilo Mendes foi confinado num hotel do Cairo pela polícia do Egito, após ser detido quando tentava atravessar a fronteira com a Palestina carregando a bandeira do Sindipetro-RJ. Pretendia fazer agitação na faixa de Gaza, na Marcha pela Liberdade em apoio aos guerrilheiros do Hamas.

Bronca/ O deputado Alfredo Kaefer (PSDB/PR) não desistiu de reapresentar requerimento para a realização de uma audiência pública, na Comissão de Finanças e Tributação, com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, e com o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Eles não foram à audiência marcada para o fim do ano passado.

Dieta/Acerca da nota Gula, publicada domingo, o presidente do Sindilegis, Magno Mello, esclarece que os salários dos consultores legislativos não corresponderão ao previsto inicialmente no substitutivo da administração do Senado (PL nº 372, de 2009). Receberão, em fim de carreira, R$ 1,6 mil a menos do que os R$ 24,2 mil divulgados pela coluna.

Fica

O líder do PSB na Câmara, Rodrigo Rollemberg (DF), foi reconduzido ao cargo pela bancada socialista. Quer se lançar candidato a governador do Distrito Federal.

JANIO DE FREITAS

A FALTA DE INTERDIÇÃO NAS CIDADES FAVELIZADAS RESULTOU EM UMA ESPÉCIE DE URBANISMO CRIMINOSO

FOLHA DE SÃO PAULO - 05/01/10


Um ato inovador

COM O ATRASO denunciado em uma quantidade inqualificável de mortes, o prefeito de Angra dos Reis adota uma providência administrativa que o põe à frente dos mais de 5.000 prefeitos brasileiros, no que seja respeito ao próprio dever, coragem política e contribuição social. Tal medida de Juca Brandão é a que proíbe construções e ampliações em 15 morros de Angra. Ao menos até que as perícias de geotécnica manifestem-se sobre a segurança das áreas.
A falta de tal interdição nas cidades favelizadas, proveniente apenas da conveniência eleitoreira, resultou em uma espécie de urbanismo criminoso, que tantos administradores públicos têm praticado por tão longo tempo, com a permissão para o crescimento de favelas (formas de degradação da vida urbana) e para a especulação imobiliária (como degradação também da natureza).
Se não era possível conter a debandada rural para cidades grandes, sob auspícios das problemáticas oportunidades de ascensão econômica, um mínimo de orientação e racionalidade todos os administradores públicos de tais cidades e Estados deviam estabelecer, até por obrigação preliminar. Mas os novos conglomerados não foram vistos como acréscimos de gente, de pobreza e da necessidade de ação: aos olhos dos políticos, o que chegava e se instalava eram votos disponíveis.
A atitude das administrações não foi e não é, por acaso, uma tolerância por compreensão social, como pretendem tantos argumentos atenuadores dos problemas implícitos na favelização, pelo país todo? As condições deprimentes das favelas ("onde o Estado não entra", admitem os mesmos argumentos) têm as assinaturas daqueles todos que permitiram, ou permitem ainda, o seu surgimento indiscriminado e crescimento alucinado. Perversidade que segue, por si mesma, um processo de evolução sob as mesmas responsabilidades: favelas hoje são áreas também de especulação imobiliária, com a criação da indústria das lajes e da expansão sorrateira.
O "choque de ordem", que o recém-prefeito carioca Eduardo Paes tenta aplicar no Rio, demoliu como exemplo um vasto prédio que se alastrava em uma favela. O exemplo ficou para quem não mora em favela, lê jornal e assiste à TV: sobreposição de quatro, cinco andares, sobre bases precárias, e muitas delas expulsando ou sufocando vizinhos a poder de violências, continuam a subir. A indústria da laje é o enriquecimento, relativo, mas enriquecimento, à custa da subcondição favelada. Sempre sob o patrocínio da conveniência eleitoreira.
As vidas que correm risco ou se perdem com as ocupações sem critério, permitidas porque ricas ou porque pobres, não jamais foram as dos administradores públicos.

DEU BODE!

MERVAL PEREIRA

Estratégias

O GLOBO - 05/01/10



A grande discussão política que domina os debates sobre a próxima eleição presidencial de outubro é se o presidente Lula terá a capacidade de transferir sua popularidade para a candidata que tirou do bolso de seu colete, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. E se a eleição será plebiscitária.

A centralidade da figura de Lula na sua sucessão é a confirmação de que ele encerra seus oito anos de Presidência em situação singular na história política brasileira recente.

Não bastassem os 83% de popularidade interna, o reconhecimento internacional consolidou-se no final de 2009 com diferentes homenagens à sua liderança, vindas de órgãos da grande imprensa europeia, como os jornais “El País”, da Espanha (considerado hoje o mais importante jornal europeu), “Le Monde”, da França, e o “Financial Times”, de Londres, que colocou Lula entre os 50 personagens que mais influenciaram a década que se encerra.

Mas querer, como Lula quer, transformar a próxima eleição em um plebiscito onde ele estará em jogo, não é meramente um movimento político esperto, mas uma redução do momento que o país vive, uma tentativa de evitar que a população escolha o melhor candidato para restringir a escolha a uma questão quase pessoal.

Dentro das circunstâncias, a estratégia do governador de São Paulo, José Serra, virtual candidato do PSDB à sucessão de Lula, está se mostrando adequada. Muitos o criticaram, inclusive eu, por ter evitado críticas diretas ao presidente Lula e, ao contrário, até mesmo querer mostrarse em público como um político próximo a Lula.

Mesmo correndo o risco de criar a impressão de que não se coloca como uma alternativa de mudança em outubro, Serra está na verdade empenhado em não deixar que a eleição se torne plebiscitária.

Impedir que o eleitorado o identifique como o “anti-Lula”, transferindo para Dilma o papel que foi escolhida para representar de “o mesmo que Lula”, é a decisão certa.

Ao fazer isso, Serra mantém sua possibilidade de ampliar o eleitorado para a direita e para a esquerda, da mesma maneira que o lulismo fez nas eleições de 2006, mudando a geografia eleitoral do candidato Lula.

O professor Cesar Romero Jacob, da PUC do Rio, já havia identificado esse fenômeno a partir da análise da penetração da votação de Lula nos grotões do Norte e Nordeste com base nas políticas assistencialistas como o Bolsa Família e no aumento do salário mínimo.

O cientista político André Singer, que já foi porta-voz do presidente Lula e hoje é professor do Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo, publicou recentemente um estudo onde mostra que os votos do “subproletariado”, beneficiado pelos programas assistencialistas do governo e pelo aumento do salário mínimo, foram para Lula, mas dentro da lógica da direita, que identificou no governo um fiador da estabilidade econômica e garantidor de sua nova situação financeira.

Segundo o estudo, em 2006, enquanto os eleitores de escolaridade superior dividiamse por igual entre os campos da esquerda (31%), do centro (32%) e da direita (31%), entre os que frequentaram até a quarta série do ensino fundamental, a direita tinha 44% de preferência, mais do que o triplo de adesão que tinha a esquerda (16%) e o centro (15%).

Segundo Singer, “na ausência de um avanço da esquerda, o primeiro mandato de Lula terminou por encontrar outra via de acesso ao subproletariado, amoldandose a ele, mais do que o modelando, porém, ao mesmo tempo, constituindo-o como ator político”. A isso ele chama de “lulismo”.

O voto em Lula sofre então “uma mudança ideológica”, segundo André Singer, aumentando em direção aos extremos, “tanto esquerdo como direito”, e caindo em direção ao centro. Lula passaria a representar, então, uma opção nova, que “mistura elementos de esquerda e de direita, contra uma alternativa de classe média organizada em torno de uma formulação de centro”.

Permanecendo em posição neutra com relação ao presidente, exercendo suas críticas ao governo em direção a pontos específicos, como a política do Banco Central de juros e câmbio, o governador paulista tenta manterse uma alternativa viável para esse eleitorado de Lula.

Tanto de direita, representado pelo que Singer chama de “subproletariado”, como mostra sua boa penetração no Nordeste, graças, segundo as pesquisas qualitativas, ao seu trabalho como ministro da Saúde, quanto de esquerda, que possam identificálo como uma opção mais consistente do que a ministra Dilma Rousseff.

Essa tendência explicaria também a guinada à esquerda do governo Lula no segundo mandato, e a escolha de uma política ligada aos movimentos de guerrilha na época da ditadura militar, para garantir esse eleitorado, que no primeiro turno de 2006 foi em parte para os candidatos oriundos do PT, Cristovam Buarque e Heloísa Helena, e hoje têm tanto em Serra como na senadora Marina Silva opções ao voto oficial.

O aprofundamento dos programas assistencialistas, como o aumento do valor do pagamento do Bolsa Família e a garantia de aumentos reais para o salário mínimo, garantiriam os votos do subproletariado.

A tentativa de fazer uma eleição plebiscitária esbarra também na percepção por parte do eleitorado de que Dilma não é Lula, e portanto a escolha pode ser outra, até mesmo Ciro Gomes no Nordeste.

Para um eleitorado mais escolarizado, há também o incômodo de querer transformar a eleição em uma espécie de “herança” em vida para uma escolhida, mesmo que não tenha melhores qualificações que os adversários.

Para Dilma, há uma dificuldade adicional, por paradoxal que seja: quanto mais Lula ganha homenagens e se torna um mito para seu povo, mais ela se distancia de seu criador, suas deficiências aparecem e fica mais difícil convencer o eleitorado de que ela é “Lula de novo”.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO

Brasil terá a menor "taxa de desconforto social" em 2010

FOLHA DE SÃO PAULO - 05/01/10



"Em 2010, teremos o menor desconforto social da história brasileira", diz Octavio de Barros, diretor do Depec (Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos) do Bradesco.
Barros baseia-se no indicador Misery Index, criado por Arthur Okun em 1968, que mede a taxa de desconforto no Brasil. O índice é obtido com a simples soma aritmética da taxa de inflação e da taxa de desemprego.
O Depec reduziu a sua projeção da taxa média anual de desemprego para este ano, de 7,5% para 7,3%.
Por outro lado, o Brasil irá registrar no ano que vem o terceiro maior deficit em conta-corrente do mundo. Ficará atrás apenas dos Estados Unidos e da Espanha.
Com relação à necessidade de recursos externos, o Brasil vai precisar de US$ 91 bilhões para 2010 (conta-corrente e amortizações de dívida), segundo cálculos de Barros. "É muito, mas não assusta. Por enquanto", diz ele.
"O financiamento será abundante a ponto de permitir acúmulo de reservas em 2010."
Na opinião de Barros, o país deve rolar, no mínimo, 120% do que vence de dívida. "Investimento direto, ações e renda fixa sobrefinanciarão os R$ 91 bilhões", afirma.
O diretor do Depec estima que 3,1% do PIB (Produto Interno Bruto) não é muito para um país credor líquido como o Brasil, com R$ 230 bilhões de reservas e grau de investimento, em um mundo com penúria de oportunidades.
Para o câmbio, porém, mais do que o tamanho do deficit, três fatores serão decisivos, em 2010, segundo Barros: o que ocorrerá com o dólar no mundo e com o câmbio chinês; com os termos de troca; e qual será a percepção do mercado em relação às eleições brasileiras. A taxa deverá ficar em R$ 1,70 nos próximos trimestres, de acordo com projeções do banco.
"Com menor espaço para seguir deteriorando indicadores externos, a apreciação sistemática do câmbio pode estar perto do fim", afirma Barros.

CADEIRAS
Paulo Kakinoff, presidente da Audi do Brasil, passa a integrar o conselho da Gol. Kaki, como é conhecido, já foi diretor de vendas e marketing da Volkswagen do Brasil e diretor-executivo para a América do Sul na matriz da Volks na Alemanha. Com a chegada de Kakinoff, o conselho da Gol passa a ter cinco membros independentes. Além dele, a empresa conta com Álvaro de Souza, Antonio Kandir, Richard Lark Jr. e Luiz Kaufmann.

BAGAGEM DE MÃO
O mercado de turismo de negócios de São Paulo se aqueceu em 2009. A ICCA (International Congress and Convention Association) elevou a cidade do 23º lugar para o 12º entre os melhores destinos para eventos. São Paulo passou metrópoles como Madri, Sydney, Atenas e Vancouver, firmando-se como o grande centro de diálogo empresarial e financeiro do continente americano. A arrecadação de impostos do setor deve fechar 2009 em R$ 127 milhões, um recorde. "Antes, o homem de negócios só participava dos eventos e logo ia embora. Isso mudou. Graças a uma agenda cultural rica, os profissionais que ficaram em São Paulo em média 2,6 dias em 2006 gastaram 3,8 dias em 2009, o que significa mais dinheiro para a nossa economia", diz Caio Luiz de Carvalho, presidente da São Paulo Turismo, órgão municipal.

PROPOSIÇÕES DE NOVO ANO
de Fábio Barbosa

Como presidente da Febraban

Metas cumpridas em 2009
Os impactos da crise no mercado internacional foram sentidos no Brasil, mas os bancos daqui estavam sólidos e foram parte da solução

Crescimento nos volumes

Redução nas taxas e "spreads"

Metas para 2010
Alongar os prazos dos empréstimos

Levar o serviço bancário a uma parcela cada vez maior da população

Como presidente do Santander Brasil

Metas cumpridas em 2009
Integração entre Santander e Banco Real, consagrada com a realização do maior IPO do Brasil e o maior do mundo no ano

Valorizar o melhor das culturas dos dois bancos para formar uma nova, mais completa, que contemple sustentabilidade, inovação e relacionamento

Metas para 2010
Completar a integração dos dois bancos

Consolidar os resultados

Dar mais um passo para ser o melhor prestador de serviços financeiros do país

com JOANA CUNHA, ALESSANDRA KIANEK e DENYSE GODOY

MULHER-PLANTA

HELOISA MAGALHÃES

A Telebrás provoca arrepios


Valor Econômico - 05/01/2010

Ficou para fevereiro o lançamento pelo governo federal do Plano Nacional de Banda Larga. Estava previsto para o fim de janeiro mas, devido ao período de férias presidenciais e do ministro das Comunicações, Helio Costa, as agendas precisaram ser revistas, diz Cezar Alvarez, assessor direto do presidente Lula e coordenador das políticas de inclusão digital do governo. De qualquer forma, o plano ainda não está totalmente pronto. Alvarez contou que uma equipe trabalhou, entre os feriados de Natal e Ano Novo na montagem do projeto. Mas uma definição, por enquanto, parece clara: a rede da Eletronet vai ser incorporada ao Plano Nacional de Banda Larga e o novo veículo para prestar o serviço deverá ser a Telebrás.

O que se sabe é que, além da reação de boa parte da sociedade civil brasileira, que sente arrepios quando se fala em reviver estatais, dentro do próprio governo o assunto causa polêmica. O Ministério das Comunicações lidera as reações contrárias quando o tema é a volta da Telebrás, a presença estatal em mercados que exigem pesados investimentos e que podem ser operados pelas empresas privadas.

A discussão no setor é que mesmo ativando a rede da Eletronet não seria necessário reviver a Telebrás. Os argumentos contra passam pela constatação de que existem Eletronorte, Eletrosul, Furnas e Chesf, estatais que já oferecem capacidade de rede para telecomunicações. Bastaria criar um mecanismo de coordenação, como um comité do próprio setor elétrico onde estão as empresas.

Aliás, as quatro companhias fecharam contratos com a Eletronet quando esta foi criada. Mas hoje a questão é política. A área de energia está ligada ao PMDB e a infraestrutura de rede voltada para a oferta de banda larga ficaria atrelada ao ministro das Minas Energia, Edison Lobão, e seus aliados.

Por outro lado, ainda não está claro o que Telebrás vai fazer. Há dúvidas se irá operar um serviço ou vai oferecer infraestrutura. Se for serviço de banda larga existe um complicador jurídico, pois enquadram-se em serviços privados. Ou no Serviço de Comunicação Multimidia (SCM), que é prestado em regime privado, ou no Serviço Móvel Pessoal (SMP), mas, como diz o nome, é móvel e onde está hoje a terceira geração da telefonia celular.

A Telebrás foi montada para coordenar o planejamento integrado e a estrutura financeira das concessionárias em regime público, e para passar para regime privado, como é definido para quem presta banda larga, seria necessário uma lei para garantir a transformação, avaliam especialistas.

Outro complicador é de ordem técnica e econômica. Uma empresa para realizar prestação de serviços e causar impacto no mercado precisa de expressivo orçamento de investimentos e projeto operacional em horizonte de médio prazo. A pergunta ainda não respondida é qual o orçamento que o governo federal estaria planejando para ativar a Telebrás, se este for realmente o plano gestado no Planalto.

Alvarez, que é moderado em suas posições, nega-se a divulgar números e detalhar a proposta. Argumenta, entretanto, que não faz sentido deixar de lado uma rede com pouco uso como a da Eletronet. Frisa que serão usadas "todas as infraestruturas disponíveis do governo para transformar o ativo de fibra óptica do sistema Eletronet". Admite que também não faria sentido e nem há recursos para replicar as redes das operadoras privadas, mas a proposta é o governo atuar como "elemento regulador para dar conta das discrepâncias do mercado privado de banda larga", afirma.

É conhecido que onde não há concorrência o preço do serviço de banda larga sobe. As operadoras não escondem que, quando não têm exigências fixadas pela Anatel, buscam privilegiar a presença nas cidades mais populosas e nas áreas onde é maior o poder aquisitivo da população. Alvarez cita estudo do J.P. Morgan. O resumo, publicado pelo noticiário "Teletime News", mostra que, onde há apenas as concessionárias de telefonia, o preço do serviço de banda larga de 1 a 2 Mbps é R$ 118, e pode cair para pouco mais de metade, quando há a presença da Net e da GVT.

De acordo com o assessor do presidente Lula, o que vem sendo montado é a articulação de uma política pública com serviços privados, mas estimulando a competição, passando pelo "constrangimento da indução e do subsídio" e que "nenhum instrumento está fora da cesta de hipóteses" do plano de governo.

Alvarez destaca que a questão da rede é um ponto de uma proposta muito mais ampla e ambiciosa para reduzir o fosso do acesso ao mundo digital entre os de baixa e alta renda .Um lado interessante do projeto é toda uma articulação de políticas públicas para ampliar o acesso da população não só à banda larga como também ao computador, uma vez que é grande o percentual de pessoas que não sabe usar e, talvez por isso, acabe não tendo interesse de navegar pela internet. A estratégia é também criar condições para que o preço dos computadores continue caindo - em dezembro, o ministro Mantega anunciou a reedição da medida de isenção de PIS e Cofins.

Ontem, foi publicada no "Diário Oficial da União" portaria interministerial para criação de novos 3 mil telecentros no país, que serão somados aos 5,5 mil existentes. Os interessados em sediar, sejam prefeituras ou organizações não governamentais, têm 60 dias para apresentar propostas. O governo fica responsável pelo investimento, que prevê a instalação em local de fácil acesso, uma área com 10 estações de trabalho, 11 estabilizadores, um roteador wireless, uma impressora a laser, uma câmera para monitoramento remoto. Também é oferecido treinamento e apoio-bolsa aos monitores.

Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad) relativa ao ano de 2008 mostrou o fosso digital. O volume de pessoas que usam a internet vem crescendo, mas os dados mostraram que 65,2% da população brasileira (104,7 milhões de pessoas) não utilizou a rede nos três meses anteriores à data da entrevista. Os principais motivos foram a falta de interesse, com 32,8% do total; a falta de conhecimento para navegar, com 31,6% do total; e a falta de acesso a um microcomputador, com 30% do total.

Heloísa Magalhães é chefe da redação do Rio de Janeiro

PAUL KRUGMAN

Aquela sensação de 1937 poderá se repetir agora

O Estado de S. Paulo - 05/01/2010


Segundo o noticiário econômico, o próximo relatório sobre o emprego poderá mostrar que, pela primeira vez em dois anos, estão sendo criados empregos nos EUA, e o próximo relatório sobre o Produto Interno Bruto (PIB) provavelmente apontará para um sólido crescimento no final de 2009. Haverá inúmeros comentários otimistas - e os apelos, que já ouvimos antes, para que acabem os estímulos e se suspendam as medidas do governo e do Federal Reserve (Fed, banco central americano) destinadas a amparar a economia, se tornarão ainda mais fortes.

Entretanto, se estes apelos forem atendidos, repetiremos o grande erro de 1937, quando o Fed e o governo Roosevelt decidiram que a Grande Depressão havia acabado, e estava na hora de a economia largar as muletas. Os gastos foram reduzidos, a política monetária sofreu novo aperto - e a economia imediatamente mergulhou na crise.

Isto não deveria acontecer. Ben Bernanke, presidente do Fed, e Christina Romer, chefe do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, são estudiosos da Grande Depressão. Romer advertiu explicitamente que os eventos de 1937 não podem se repetir.

Mas os que lembram do passado, às vezes o repetem.

Como lemos nos noticiários, é importante ter em mente, em primeiro lugar, que os rápidos lampejos que acendem nossas esperanças - os números positivos ocasionais desprovidos de significado - são comuns mesmo quando, na realidade, a economia está mergulhada numa crise prolongada. Por exemplo, no início de 2002, os primeiros relatórios mostravam que a economia estava crescendo a uma taxa anual de 5,8%. No entanto, a taxa de desemprego continuou subindo por mais um ano.

E no início de 1996, relatórios preliminares mostraram que a economia japonesa se expandia a uma taxa anual superior a 12%, provocando declarações triunfalistas como "a economia finalmente entrou numa fase de recuperação autoalimentada". Na realidade, o Japão estava na metade de sua década perdida.

Ocorre que estes sinais ocasionais muitas vezes são ilusões estatísticas. Mas o que é mais importante ainda é que, em geral, são provocados por um "salto dos estoques". Quando a economia entra em crise, as companhias em geral ficam com grandes estoques de bens não vendidos. Para eliminar estes excedentes, elas reduzem a produção; uma vez eliminado o excesso, elas voltam a aumentar a produção, o que parece um crescimento repentino do PIB. Infelizmente, este crescimento é apenas momentâneo, a não ser que haja uma recuperação das fontes da demanda, como gastos dos consumidores e investimentos a longo prazo.

O que nos traz de volta à situação ainda sombria dos fundamentos da nossa economia.

Nos bons anos da década passada, o crescimento foi impulsionado por um boom da habitação e por um aumento dos gastos com o consumo. Nada disso deverá acontecer novamente. Não pode haver outro boom da habitação enquanto a nação continua com um estoque extraordinário de casas e apartamentos vagos em consequência do boom passado, e os consumidores - hoje US$ 11 trilhões mais pobres em relação ao que eram antes da crise da habitação - não têm a menor condição de retomar aos hábitos de então, ou seja, "comprar agora e nunca poupar".

O que acontecerá então? Neste momento, um boom dos investimentos das empresas seria muito útil. Mas é difícil imaginar onde poderia se dar: a indústria apresenta um enorme excesso de capacidade, e os alugueis comerciais estão despencando, dada a superoferta.

A ajuda poderia vir das exportações? Durante algum tempo, a queda do déficit comercial americano permitiu atenuar a crise econômica. Mas o déficit voltou a crescer, em parte porque a China e outros países superavitários se recusam a fazer um ajuste das suas moedas.

Portanto, há grande probabilidade de que as eventuais boas notícias econômicas que a gente possa ouvir no futuro próximo sejam falsos sinais, e não uma indicação de que estamos caminhando para uma recuperação sustentada. Mas é possível que os responsáveis pelas decisões políticas interpretem erroneamente as notícias e repitam os erros de 1937? Na realidade, já estão fazendo isto.

O plano de estímulo fiscal de Obama deveria alcançar seu efeito máximo sobre o PIB e sobre o emprego na metade deste ano, e depois começaria a desaparecer. Será muito cedo para fazer isto: para que retirar a ajuda considerando o persistente e maciço desemprego atual? O Congresso deveria ter adotado uma segunda rodada de ajuda meses atrás, quando ficou claro que a crise se agravaria e duraria mais do que o previsto. Mas nada foi feito.

Ao mesmo tempo, no Fed fala-se da necessidade de uma "estratégia de saída" para as suas medidas de apoio da economia. Uma destas medidas, as compras dos títulos da dívida do governo americano de longo prazo, já chegou ao fim. Acredita-se que outra, a das compras de títulos atrelados às hipotecas, será suspensa em alguns meses. A consequência será um aperto monetário, mesmo que o Fed não eleve diretamente as taxas de juros - e há fortes pressões para que Bernanke o faça. O Fed se dará conta de que o combate à crise não acabou? E o Congresso? Se isto não acontecer, 2010 será um ano que começou com esperança e acabará na aflição.

GOSTOSA

ELIANE CANTANHÊDE

prefere caça sueco a francês

FOLHA DE SÃO PAULO - 05/01/10


Contrariando Lula e Jobim, FAB opta por caças suecos
Aeronáutica recomenda compra do Gripen NG, o mais barato dos finalistas do FX-2

Relatório técnico contraria preferência pública pelos franceses manifestada pelo governo federal; decisão final cabe ao presidente


O caça francês Rafale, da empresa Dassault, ficou em terceiro e último lugar no relatório técnico que o Comando da Aeronáutica entregou ao ministro da Defesa, Nelson Jobim, sobre o projeto FX-2, de renovação da frota da FAB. O Gripen NG, da sueca Saab, ficou em primeiro lugar na avaliação, e o F-18 Super Hornet, da norte-americana Boeing, em segundo.
O resultado tende a gerar constrangimentos no governo e mais atrasos para a decisão final sobre o projeto de compra de 36 caças, ao contrapor a avaliação técnica da Aeronáutica pró-suecos à preferência política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e da área diplomática pela oferta que foi apresentada pelos franceses.
A decisão pró-Rafale chegou a ser anunciada em nota conjunta assinada pelos presidentes Lula e Nicolas Sarkozy, em setembro passado, mas o governo brasileiro recuou depois da repercussão negativa na FAB e entre os concorrentes, já que a avaliação técnica nem sequer havia sido concluída.
Agora, o governo está num impasse: ou passa por cima do relatório da FAB e fica com os Rafale, ou desagrada o governo francês e opta pelo Gripen NG. Formalmente, o presidente Lula está liberado para escolher qualquer um dos três.
Conforme a Folha apurou, o "sumário executivo" do relatório da FAB, com as conclusões finais das mais de 30 mil páginas de dados, apontou o fator financeiro como decisivo para a classificação do caça sueco: o Gripen NG, até por ser monomotor e ainda em fase de projeto (se baseia no Gripen atual, uma versão inferior em performance), é o mais barato dos três concorrentes finais.
A diferença de valores é tanto no quesito preço do produto como no custo de manutenção. A Saab diz que ofereceu o Gripen pela metade do preço do Rafale, ou seja, algo na casa dos US$ 70 milhões. Afirma que a hora-voo de seu avião é quatro vezes menor do que a do francês, o que a Dassault rejeita: como o Rafale tem duas turbinas, é mais caro de operar, mas teria melhor performance.
Quem vai arcar com todos esses custos, durante os cerca de 30 anos de vida útil do jato, é a FAB, que considera a questão prioritária.
Pesou também o compromisso de transferência de tecnologia. O Gripen NG é um projeto em desenvolvimento que oferece em tese mais acesso a tecnologias para empresas futuramente parceiras, como a Embraer. Há a promessa genérica de produção final no Brasil, mas de resto o Rafale também diz isso. O problema é que o francês é um produto pronto, supostamente com menor taxa de transferência de conhecimento de produção.
O relatório da FAB não considerou como negativo o fato de o jato sueco ser monomotor, já que em aviões modernos isso é visto com um problema menor na incidência de acidentes.
Já o Rafale apresentou três obstáculos, na análise da FAB:
1) Continuou com valores considerados proibitivos, ao contrário do que o presidente da França, Nicolas Sarkozy, havia prometido a Lula.
2) O prometido repasse de tecnologia foi considerado muito aquém da ambição brasileira. Trata-se de um "produto pronto", que teria, ou terá, dificuldades para ser vendido a outros países a partir do Brasil.
3) A Embraer, consultada pela Aeronáutica, declarou que, se fosse o Rafale, não teria interesse em participar do projeto, pois lucraria muito pouco em tecnologia e em negócios.
O relatório foi feito pela Copac (Comissão Coordenadora do Programa Aeronaves de Combate) e ratificado pelo Alto Comando da Aeronáutica no dia 18 de dezembro.
Jobim voltou ontem à noite a Brasília pronto para se reunir com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito. Oficialmente, para ganhar tempo, a versão do governo é que a FAB ainda não lhe entregou o documento.
O ministro já sabe do resultado desde uma viagem que fez com Saito à China e à Ucrânia, no final do ano. Os dois aproveitaram uma escala justamente em Paris para discutir a questão com o presidente da Copac, brigadeiro Dirceu Tondolo Noro, que, conforme a Folha apurou, foi chamado de última hora a viajar à capital francesa para encontrá-los.
É uma das grandes compras em curso no mundo, e pode bater os R$ 10 bilhões.
Em entrevista à Folha em dezembro, Jobim admitiu que tinha interferido para mudar as regras do relatório da Copac, mas sem assumir que a intenção era evitar que a FAB indicasse um favorito que não batesse com o do Planalto.

ROBERTO NICOLSKY

Crescimento insustentável

FOLHA DE SÃO PAULO - 05/01/10


Exportamos cinco toneladas de soja ou quatro de minério de ferro pelo preço de um laptop, cuja produção gerou mais empregos e renda


FELIZMENTE o Brasil já superou os principais reflexos da recente crise econômica mundial. Mas mesmo assim a economia brasileira, que entre 2006 e 2008 cresceu a uma taxa média de cerca de 5% ao ano, em 2009 não repetirá esse desempenho e deverá até encolher um pouco, conforme as estatísticas irão mostrar. A questão a se discutir, portanto, é se o modo de crescer que o governo vem praticando é sustentável.
O crescimento brasileiro tem sido puxado, principalmente, pelos produtos agropecuários, extrativos e primários. São as chamadas commodities, de muito pouco valor por unidade física. Crescemos também produzindo para o mercado interno mediante a expansão do crédito, o que levou famílias a consumir mais, mas também a aumentar muito o seu endividamento. O inconveniente desse tipo de crescimento é que ele se sustenta no crescimento, bem mais acelerado, de outros países, como a China. Os preços de commodities são definidos pela demanda do mercado mundial, e se nos últimos anos têm estado elevados é porque a China compra muito. São fatores que fogem ao nosso controle e qualquer mudança pode paralisar o nosso crescimento, exatamente como aconteceu neste ano.
Esses fatores, em conjunto com a apreciação do real frente ao dólar, geram uma forte pressão de substituição da produção interna por produtos importados, principalmente aqueles de maior intensidade tecnológica e maior valor agregado. Ou seja, exportamos cinco toneladas de soja ou quatro de minério de ferro pelo preço de um laptop, cuja produção gerou muito mais empregos e renda. A indústria brasileira de transformação, que agrega tecnologia e deixa o produto pronto para o consumidor final, está crescendo bem menos do que o PIB. A nossa economia é cada vez mais produtora de commodities agropecuárias e minerais, de produtos básicos e de serviços simples, como o comércio.
A indústria instalada no país, seja eletrônica, farmacêutica, de máquinas e equipamentos etc., importa mais e mais componentes com os quais finaliza ou monta os produtos, sem que o governo aja na defesa da renda e dos empregos industriais. Já tivemos a quinta indústria de bens de capital do mundo e hoje temos apenas a décima quarta, com muito menos conteúdo tecnológico próprio. Isto é a desindustrialização! Entre 2006 e 2008, o deficit do comércio exterior em produtos de maior valor agregado e alta intensidade tecnológica quadruplicou, alcançando US$ 51 bilhões, enquanto exportávamos cada vez mais commodities.
A consequência dessa inconsistente política industrial é que o crescimento da indústria de transformação tem sido inferior ao do PIB. Só em 2008, enquanto a produção interna bruta total cresceu 5,08%, a indústria de transformação registrou um acréscimo de apenas 0,85%, perdendo quatro pontos percentuais de participação no PIB, o que significa menor oferta de empregos de qualidade nos centro urbanos e menor massa salarial na economia.
Mas é possível crescer mais do vimos crescendo? Claro que sim, pois esse é o desempenho de países como China e Índia, que têm crescimento entre 9% e 11% por ano puxado pelas suas manufaturas. Durante a crise que acarretou a redução do nosso PIB deste ano, a China cresceu 8,9% e a Índia 6,5% ao ano.
Como seria possível termos um desempenho semelhante? Colocando o nosso foco no desenvolvimento rápido da indústria de transformação mediante investimentos na acelerada agregação de inovações tecnológicas com preservação ambiental e sem reduzir as atividades agropecuárias e de mineração. Ou seja, ao invés de apenas esburacarmos cada vez mais a nossa terra e desmatarmos as nossas florestas para fazer pastos ou plantar soja, devemos usar a nossa criatividade para desenvolver e agregar as inovações que o mercado mundial quer em nossos produtos, de uma maneira compatível com a sustentabilidade -as chamadas tecnologias verdes-, tornando-nos altamente competitivos e disputando esse mercado até com produtores asiáticos, que ainda não têm uma ação ambiental consistente.
Este é o caminho para o país crescer de modo sustentável: investir pesadamente no desenvolvimento de tecnologia nacional e na incorporação de inovações em nossas manufaturas para que elas atendam o mercado global, gerando empregos qualificados e renda bem distribuída, sem prejudicar o meio ambiente. Fala-se que podemos crescer mais de 5% em 2010. É possível, se o rápido crescimento da China deixar, pois, como visto, esse modelo é para nós um crescimento insustentável.

ROBERTO NICOLSKY é doutor em física e diretor-geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec).