domingo, maio 03, 2009

SONHO


LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

Minha lista

O GLOBO - 03/05/09

Há dias assisti a um concerto de piano em que o pianista precisava ler a partitura. Portanto precisava de alguém ao seu lado para virar as páginas da partitura. “Mais uma!” pensei, entusiasmado, e já me explico.

Não fazia muito eu tinha começado uma lista de coisas que continuavam as mesmas através dos anos. Coisas que eram iguais, hoje, ao que eram no tempo dos nossos avós. Ou mais ou menos iguais. A técnica podia tê-las aperfeiçoado aqui e ali, mas, basicamente, continuavam as mesmas que antes, com o mesmo uso.

A primeira coisa na minha lista era papel-higiênico. Pouco mudou o papel-higiênico desde que alguém teve a idéia de vendê-lo enrolado num cilindro de papelão e – imagino que mais tarde – picotado, para fácil acesso e manuseio. A qualidade do papel melhorou desde que nossos avós comentavam a sua aspereza, que era igual para todos, sem sonhar que um dia haveria mais suavidade para quem pudesse pagar por ela. Hoje há uma grande escolha de texturas e cores – mas o velho rolo continua o mesmo, e colocado no mesmo lugar. Certa vez tivemos a ideia de fazer histórias em quadrinhos impressas em papel higiênico. A pessoa iria puxando o papel e acompanhando a historinha. Havia o risco do consumidor se interessar pela história e desenrolar mais papel do que o necessário, mas as pessoas sensatas deixariam para ver a continuação na próxima..., no próximo... Enfim, depois. A proposta não foi adiante, apesar da perspectiva de ganharmos muito dinheiro, porque ninguém aguentou a ideia de ver seu desenho passando por isso. Ou, no caso, aquilo.

Outra coisa que pouco mudou é guarda-chuva. Claro, hoje existem guarda-chuvas bem melhor estruturados do que aqueles que, a qualquer ventania, se transformavam em urubus atropelados. Há guarda-chuvas dobráveis que ficam tão pequenos que cabem no bolso da camisa. Mas, em essência, o guarda-chuva continua sendo uma tendinha portátil para guardá-lo da chuva – quando você esperava que já tivessem desenvolvido, sei lá, alguma espécie de domo de laser invisível, controlado pelo movimento das sobrancelhas, que lhe protegesse da chuva sem o perigo de ser esquecido em táxis e restaurantes. Mas não há nenhum aperfeiçoamento previsível no futuro do guarda-chuva.

O problema com a minha lista era que ficara muito curta. Pensei em incluir o lápis, que também continua o mesmo desde que foi inventado – mas o que mais? Foi quando vi o moço virando as páginas da partitura para o pianista. Sua função era antiga como o piano e não mudara com o tempo. Ele poderia estar virando as páginas para o Lizst. Não aparecera nada, como uma partitura eletrônica sensível ao som cujas páginas virassem sozinhas de acordo com a música, no momento certo, para substituir o virador. Mais uma coisa para a minha lista!

Outra coisa que não muda, claro, é a compulsão de fazer listas.

Repúdio

É compreensível o repúdio da comunidade judaica à visita do presidente do Irã, Ahmadinejad, ao Brasil. Ahmadinejad prega a aniquilação de Israel. Com o histórico empenho da nossa diplomacia em ajudar a apagar o fogo no Oriente Médio não se entende que seja recebido com honras oficiais o mais notório incendiário da região.

DORA KRAMER

Entre a cruz e a caldeirinha

O ESTADO DE SÃO PAULO - 03/05/09

O plano de compensar o fim de algumas mordomias no Congresso com aumento dos salários de deputados e senadores dos atuais R$ 16.512 para R$ 24.500, o teto do funcionalismo, está de pé, mas ficará em suspenso durante algum tempo.

“A ideia já esteve mais perto de ser posta em prática. Hoje, digamos que esteja temporariamente arquivada”, diz o presidente da Câmara, deputado Michel Temer, visivelmente cansado de dar murro em ponta de faca.

Aumento, só depois de o Parlamento apresentar não só uma solução que represente uma significativa economia de recursos, mas principalmente que seja assim reconhecida pela sociedade.

Dito dessa forma parece tudo muito simples, mas a coisa é bem mais complicada. Tão intrincada que Michel Temer quer distância do tema, por ora. A questão voltará ao debate, mas o presidente da Câmara só quer entrar nessa cena quando for possível sair bem na foto.

E isso não é nada fácil. Não basta a comissão encarregada de fazer um diagnóstico sobre a mudança da estrutura de gastos da Câmara apresentar uma proposta de cortes de um lado e propor aumento de outro.

Se for assim, será a contratação de uma emenda para piorar o já suficientemente horroroso soneto. Por exemplo: se acabarem todos os privilégios, mas o salário for reajustado, automaticamente as assembleias legislativas e as câmaras municipais de todo o país aumentarão os salários dos deputados estaduais e vereadores.

Por lei, um vereador ganha o equivalente a 75% do subsídio de um deputado estadual, que, por sua vez, recebe 75% do salário de um parlamentar federal.

Se as assembleias e as câmaras não cortarem também as mordomias, o resultado será uma elevação exorbitante de despesas pela qual o Congresso Nacional será responsabilizado e, portanto, ainda mais massacrado pela opinião pública.

Para que a conta final seja realmente satisfatória, seria necessário acabar com aquela vinculação salarial e ainda conseguir que os parlamentares nos estados e municípios cortassem os benefícios, em muitos casos bem superiores aos existentes no plano federal.

Pois é, e como convencer assembleias e câmaras a aderir ao projeto se nos estados e municípios nem de longe sofrem a pressão popular de que é alvo o Congresso?

Nessa hora é que se revela a falácia da tese segundo a qual as práticas políticas no Brasil degeneraram-se por causa da mudança da capital para Brasília onde os congressistas ficam “longe do povo”.

Por acaso a Assembleia Legislativa e a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, localizadas bem no centro da cidade que era capital do país até 1960 são exemplos de lisura e compostura? Um levantamento feito pela Câmara das verbas em todo o país aponta que o Rio sequer informou os valores pagos aos deputados e vereadores.

Na listagem das benesses há exorbitâncias para todos os gostos, sendo Alagoas o caso mais absurdo. Lá, um deputado ganha R$ 12.384 e recebe R$ 39 mil de verba indenizatória.

No Congresso, a verba é de R$ 15 mil, o mesmo valor recebido pelos estaduais do Acre, de Roraima, Amapá, Bahia, Rio Grande do Sul.

Em Minas Gerais os estaduais ganham adicional de R$ 20 mil, no Ceará R$ 22.970, em São Paulo R$ 17.450, no Paraná R$ 27.500, em Santa Catarina R$ 38 mil, em Mato Grosso R$ 23 mil.

Em Rio Branco (AC), a verba extra dos vereadores é de R$ 15 mil, no Recife (PE) R$ 14.300, em Belo Horizonte (MG) R$ 15 mil, em Fortaleza (CE) R$ 12.800 e por aí vão as extravagâncias das quais dificilmente quem recebe aceitaria espontaneamente abrir mão.

Fica o Congresso, então, entre a cruz e a caldeirinha: pressionado pela opinião pública a cortar gastos e refém da resistência dos deputados estaduais e vereadores, indispensáveis cabos eleitorais para a renovação dos mandatos federais.

Portanto, de um lado o Legislativo federal não tem mais crédito para afrontar o público externo e, de outro, não pode se confrontar com seu público interno.

O dilema está posto. Michel Temer já procura presidentes de assembleias e câmaras para tentar construir uma maioria disposta a negociar uma solução que, pelo(des) ânimo exibido, não é coisa para essa geração.

Saúva

“Se o mal do Brasil fosse esse, o Brasil não teria mal”, versejou o presidente Luiz Inácio da Silva a propósito de defender o Congresso no caso da farra das passagens aéreas.

De fato, muito pior são governantes que não apenas não enxergam a fronteira entre o público e o privado como se dispõem a emprestar sua popularidade ao retrocesso cívico de uma nação.

Há quatro anos, Lula reduziu o uso do caixa 2 à categoria das ações corriqueiras. Agora, atribui à apropriação indébita o caráter de prática natural.

Por essas e várias outras, ao fim de seus oito anos de mandato terá dado significativa contribuição à banalização da impostura que assola o Brasil.

MÍRIAM LEITÃO

Capitalismo estatal

O GLOBO - 03/05/09

As treze maiores empresas de petróleo do mundo são estatais. O Estado, na Rússia, controla da telefonia fixa às fábricas de armas. No Brasil, ele é dono de 40% do mercado bancário, da produção de petróleo e de 70% da geração de energia. A China é quase toda estatal. Empresas privadas vivem das benesses do Estado. Nos países emergentes e pobres, o Estado sempre foi o dono do jogo.

Esta é a tese do artigo publicado na revista Foreign Affairs por Ian Bremmer, presidente do grupo Eurásia. Uma tese que merece reflexão nestes tempos em que se diz que houve no mundo um exagero liberal, e em que governos, como o brasileiro, acham que a intervenção dos governos dos países ricos para enfrentar a crise é uma rendição à ideia de que o Estado é que deve gerir a economia.

Segundo o economista, a diferença é que nos países de economia madura, como os Estados Unidos e a Inglaterra, os governos sabem que qualquer controle estatal deve ser revertido tão logo passe a crise. Mas em muitos países emergentes e em desenvolvimento, a mão pesada do Estado nunca saiu da economia e há, em vários desses países, uma rejeição doutrinaria à economia de mercado. Rejeição que deve, agora, se fortalecer.

O mais impressionante é o inventário que ele faz da presença existente do Estado na economia, anterior até à crise econômica, quando era um bordão muito repetido – no Brasil inclusive – a ideia de que a privatização tinha ido longe demais. Começa pelos fundos soberanos, que mesmo tendo perdido US$ 1 trilhão, continuam tendo US$ 3 trilhões de patrimônio. Ao contrário do nosso, que é pequeno, feito na undécima hora e constituído com endividamento, os fundos soberanos de inúmeros outros países foram formados pelo excesso de poupança com a alta dos preços das commodities nos últimos anos. A alocação desse dinheiro é toda feita pelo Estado. “Hoje, os emergentes já emergiram e funcionários estatais em Abu Dhabi, Ancara, Pequim, México, Moscou, Nova Délhi, tomam decisões econômicas – sobre investimento estratégico, propriedade estatal e regulação – que se refletem no mundo inteiro.”

Um dos maiores empregadores do mundo na área não-militar é a empresa ferroviária da Índia. Tem um milhão e meio de empregados. Na China, são as estatais que controlam o monopólio do alumínio, as maiores empresas de telecomunicações, a transmissão de energia e as companhias aéreas, por exemplo. Medidas pelas reservas que controlam, as treze maiores empresas de petróleo do mundo são estatais, entre elas a nossa Petrobras. A Aramco, da Arábia Saudita, a Companhia Iraniana, a Petróleos da Venezuela, a Grazprom e Rosneft, da Rússia, a Petronas, da Malásia, a Corporação Nacional de Petróleo da China. Empresas estatais controlam 75% das reservas globais de petróleo e a sua produção. O governo ficou sócio em outras indústrias e ativos do setor de tal forma que empresas totalmente privadas controlam só 10% da produção mundial, diz Bremmer.

E tem mais, ele explica. “Uma tendência recente complicou mais o fenômeno. Em alguns países em desenvolvimento, grandes companhias que continuam em mãos privadas dependem do patrocínio governamental em termos de crédito, contratos e subsídios.” Esse patrocínio governamental para as grandes empresas, que são tratadas como “campeãs nacionais”, o Brasil conhece bem e tem se aprofundado nos últimos tempos, a pretexto da crise econômica. Na Rússia, esses “campeões nacionais” são “controlados por pequenos grupos de oligarcas, que são pessoalmente favorecidos pelo Kremlim”, como os grupos que controlam a mineração, a metalurgia e a siderurgia. Na China, entre várias empresas mais favorecidas pelo governo e dirigidas por pessoas bem conectadas com os poderosos do regime, o autor inclui a Lenovo. Entre os “campeões nacionais”, empresas que as autoridades tratam como estratégicas, o autor inclui a Vale, no Brasil. Se for da perspectiva de receber dinheiro subsidiado, a lista brasileira é extensa, e ficou maior ainda durante o atual governo.

O artigo deixa claro que nunca houve um exagero de privatização, como se apontou. Houve um movimento nos anos 80 e 90 que reduziu a força do capitalismo de estado nos países desenvolvidos, como a Inglaterra, por exemplo, mas que nem alcançou completamente a Europa. A França ainda tem estatais em áreas como energia. Nos países emergentes, o capitalismo de estado continua forte, vigoroso e se fortalecendo à sombra das dramáticas decisões que os governos dos EUA e de diversos países europeus estão tomando na esteira da atual crise econômica. O argumento contra o capitalismo estatal perdeu força quando se vê o campeão da economia de mercado virando sócio de fabricantes de automóveis, de seguradoras e de bancos, como é o caso dos EUA.

A diferença é que, nos EUA, o custo político de manter o Estado controlando empresas será tão alto que todos sabem que é um período transitório. Mas em países como o Brasil, o que se vive é um retrocesso mesmo no aumento da presença do Estado na economia, e também na mistura de interesses partidários com as empresas estatais.

Certos desafios à frente, como, por exemplo, os desastres ambientais, diz o autor, podem provar que burocratas, ou militantes partidários, não são os melhores gestores da economia.

Com Leonardo Zanelli

O IDIOTA


DOMINGO NOS JORNAIS

Globo: Em 6 estados, Bolsa Família já atende metade da população

 

Folha: Surto se limita à América do Norte, diz OMS

 

Estadão: China reage e salva exportação do Brasil

 

JB: Brasileiro volta a viajar para o exterior

 

Correio: Gripe suína cresce e país tem 14 suspeitos

sábado, maio 02, 2009

MERVAL PEREIRA


Tateando no escuro

O GLOBO - 02/05/09

A reação até certo ponto bem-humorada do ex-ministro José Dirceu, hoje um dos articuladores da candidatura da Ministra Dilma Rousseff à sucessão de Lula, à previsão do presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, de que o governador de São Paulo, José Serra, pode vencer no primeiro turno a eleição de 2010, é reveladora de que os petistas já trabalham com a possibilidade de derrota, especialmente agora que a doença da candidata oficial levou de volta à estaca zero as articulações políticas em torno de seu nome. O interessante a notar é que também na seara dos tucanos ninguém canta vitória, e a perplexidade é geral, sem que saibam o que vai acontecer com a candidatura da ministra Dilma Rousseff, ou se vai dar certo a estratégia governista de "humanizar" a imagem da ministra, diante da doença que a acomete.

Sem falar na cautela com que analisam a possibilidade de transferência de votos de Lula para sua candidata (o). Até mesmo o governador José Serra, tido como o favorito pelas pesquisas de opinião, já não parece tão certo da vitória, e não descarta por completo a disputa da reeleição para o governo paulista, uma avaliação que deverá ser feita no início do próximo ano.

O PMDB velho de guerra, mais do que nunca, é o fiel da balança, e os palanques regionais dependem de articulações que passam pelo maior partido do país, seja para evitar enfrentá-lo, seja para tê-lo como aliado.

Com a experiência de quem coordenou as alianças políticas que levaram à eleição de Lula em 2002, José Dirceu admite que Serra é o favorito, mas ressalta que os acordos políticos podem fazer a diferença.

O problema do PT é que fazer acordos com Lula é uma coisa, outra muito diferente é acertar os ponteiros com qualquer "japonês" do partido. Há muito tempo que a força do PT se dissolveu nas lambanças do jogo político rasteiro, que o transformou em mais um participante do jogo, no mesmo nível do PMDB, sem uma ascendência moral que o faça prevalecer.

O presidente Lula se reinventou com êxito depois do mensalão, com o sucesso internacional retroalimentando a imagem interna, transformando-o em um líder midiático global invejado por seus pares pelos altos índices de popularidade num mundo em crise.

Os tucanos admitem que nos últimos tempos, depois da queda de popularidade devido à crise econômica, só aconteceram fatos a favor do governo, como o reconhecimento mundial da importância do Brasil, culminando com o elogio público de Obama a Lula.

Aguardam agora a medição dos efeitos da crise, como a alta do desemprego, na popularidade de Lula, e até mesmo como a doença da ministra Dilma Rousseff impactou a opinião pública.

Os governadores José Serra e Aécio Neves se aproximam, na certeza de que, mais do que nunca, dependem dessa união para manter o PSDB como um dos pólos de poder nacional, agora que a era Lula está chegando ao fim, e com ela o desequilíbrio que o inegável carisma presidencial traz consigo na disputa política.

O PSDB, que sobreviveu à era Lula por ter entre seus feitos o Plano Real implantado por Fernando Henrique Cardoso ainda como ministro da Fazenda de Itamar Franco, e suas raízes fortemente fincadas em São Paulo, tendo ampliado essa influência política para Minas Gerais com Aécio Neves, precisa aproveitar a saída de cena de Lula para superar novamente o PT, que, por sua vez, debate-se para se reinventar, sem seu principal líder e já sem a aura de partido emblemático que um dia ostentou.

O partido tem, no entanto, a máquina governamental altamente azeitada trabalhando a todo vapor para a manutenção do poder, que significa manter os empregos e a influência política. A militância petista tem hoje razões práticas para se empenhar na eleição de quem quer que seja.

É também para animar sua precária militância que o PSDB pretende realizar até setembro diversas manifestações regionais reunindo seus dois candidatos, Serra e Aécio.

A primeira está marcada para o dia 14 deste mês na Paraíba, onde Cássio Cunha Lima teve o mandato de governador cassado pelo TSE.

A escolha é simbólica para a região Nordeste, onde Lula tem grande força eleitoral. Mesmo correndo o risco do desgaste político, os tucanos vão atrás de um dos seus líderes regionais que tem votos na região dominada pelo lulismo.

A essa se seguirão outras cinco ou seis manifestações, que servirão para expor seus dois candidatos à militância e, sobretudo, para demonstrar que entre eles não há supremacias.

Mesmo considerado favorito, Serra teve que aceitar o plano de ação traçado por Aécio, que também cedeu quanto à data das prévias. Serão realizadas, se necessário, "até fevereiro" de 2010, contentando Serra, por quem o partido deixaria tudo como está até o início do próximo ano, para só então anunciá-lo candidato oficial.

Ao mesmo tempo em que impôs um ritmo ao partido, mostrando publicamente sua força, Aécio Neves está bastante satisfeito com o comportamento de Serra, que tem lhe prestado todas as honras devidas, inclusive deixando no ar a possibilidade de vir a apoiá-lo.

Sem querer se impor apesar de aparecer como o franco favorito nas pesquisas de opinião, Serra tem deixado Aécio sem argumentos para se contrapor a ele, criando um clima favorável a um apoio do mineiro.

Em 2002 e em 2006, Lula venceu em Minas, embora Aécio tenha tido uma votação espetacular. Em 2010, tanto em São Paulo quanto em Minas, o PSDB já não tem candidatos tão fortes quanto tinha para manter seus redutos de poder.

Só a união em termos nacionais pode alavancar uma campanha eleitoral que pode levar o partido novamente ao poder central e a manter os principais estados do país. Uma divisão como nas disputas anteriores pode tirar o partido do mapa político pelos próximos anos, mesmo sem a sombra de Lula.

GOSTOSA


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ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
Todas as acusações do casal Zoghbi
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Adriano Machado
ATAQUE
João Carlos e Denise Zoghbi, funcionários do Senado, em sua casa, em Brasília, durante a conversa com ÉPOCA

Na noite da quinta-feira 23, ÉPOCA manteve duas conversas com o casal João Carlos e Denise Zoghbi na mansão em que eles moram no Lago Sul, área mais nobre de Brasília. No primeiro encontro, a revista mostrou ao casal o resultado de três meses de apuração sobre as empresas de fachada em nome da ex-babá de João Carlos, Maria Izabel Gomes. A babá é uma senhora de 83 anos que não tinha renda até 2006. ÉPOCA mostrou que a família Zoghbi usou o nome de Maria Izabel para ocultar quantias milionárias recebidas de bancos que tinham autorização para fazer operações de empréstimos consignados com os funcionários do Senado. Diante das evidências, João Carlos e Denise confirmaram a história. No primeiro momento, atribuíram a fraude aos filhos, demitidos do Senado após o Supremo Tribunal Federal vetar o nepotismo. No primeiro encontro, o casal Zoghbi parecia desesperado. Repetiam que a divulgação da história da babá acabaria com eles.

Durante a conversa, a reportagem sugeriu que, se os Zoghbis revelassem um escândalo ainda maior, com potencial para ser capa da revista, o caso da babá não seria o destaque principal da edição. Meia hora após o fim da primeira conversa, João Carlos ligou para o repórter Andrei Meireles e pediu um novo encontro. De volta à casa dos Zoghbis, ÉPOCA recebeu propostas de barganha. Denise ofereceu um carro para a reportagem não ser publicada (ÉPOCA apurou depois que se tratava de um Mercedes-Benz). Diante da recusa, passaram a oferecer denúncias sobre supostos esquemas de corrupção em todas as grandes compras, licitações e contratações no Senado.

João Carlos e Denise afirmaram que há corrupção nas contratações do Sistema de Processamento de Dados (Prodasen), na comunicação social, no transporte, na vigilância e no serviço de segurança. Ao falar da área de taquigrafia, são mais específicos: “A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer o mesmo serviço”, diz ela.

Segundo o casal, a quadrilha que opera todos os negócios no Senado tem um chefe. Trata-se, segundo eles, de Agaciel Maia, que foi diretor-geral do Senado por 14 anos. Agaciel deixou o cargo há dois meses, depois da denúncia de que havia registrado uma mansão sua em nome do deputado federal João Maia (PR-RN), seu irmão. “Esses anos todos, o Senado tem dono. Um único dono”, diz Denise, sobre Agaciel. “Ele é sócio de todas as empresas terceirizadas (que têm contrato com o Senado)”.

Agaciel Maia nega as acusações e atribui as denúncias de Zoghbi a uma antiga rivalidade. “Ele (João Carlos) sempre teve diferenças comigo. Sempre sonhou em ser diretor-geral”, diz. Agaciel afirma que nem teria como manipular os milionários contratos com empresas terceirizadas que fornecem mão de obra ao Senado: “A comissão de licitação é formada por 13 integrantes de diversas áreas, que são nomeados pelo presidente do Senado. Não havia como eu interferir”. Agaciel é investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por suspeita de fraude em licitações. “Já me viraram do avesso e não encontraram nada. Nem vão encontrar”, diz.

Na conversa com ÉPOCA, em momento algum o casal Zoghbi pediu reserva sobre as revelações que estava fazendo. A partir da segunda entrevista, eles deixaram de dizer que o uso da babá como laranja havia sido um negócio dos filhos. João Carlos passou a admitir que era a ele que a história da babá comprometia.

O casal Zoghbi fica cauteloso quando a conversa evolui para nomes de senadores. Quem são os parlamentares que bancam e se beneficiam das supostas operações corruptas de Agaciel? Os Zoghbis desconversam. O limite do casal é a insinuação do envolvimento dos senadores Romeu Tuma (PTB-SP) e Efraim Morais (DEM-PB) com Agaciel. Nada falam sobre os padrinhos políticos deles próprios – e também de Agaciel –, como José Sarney (PMDB-AP) e Renan Calheiros (PMDB-AL) e o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão.

Na semana passada, a maior especulação nos principais gabinetes do Senado era sobre as possíveis reações de Denise. “Se essa mulher contar o que sabe, implode a cúpula do Senado”, diz um senador. Numa semana em que se esperava que o assunto predominante nas conversas no Senado fosse a doença da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, Denise roubou a cena. Ela e o marido começaram a falar. Eis os principais trechos do que eles disseram até agora.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O dono do Senado
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Dida Sampaio
AGACIEL MAIA
O ex-diretor-geral do Senado diz que as acusações de Zoghbi se devem à disputa por poder entre os funcionários
O dono do Senado

João Carlos Zoghbi – Mas por que o João Carlos nisso aí? Eu, sem ser ordenador de despesas, poxa vida... O diretor-geral (Agaciel Maia) sim, que vocês já abriram coisa lá. Será que não dá para trabalhar em cima disso, não? Ele, sim, como ordenador de despesas, com a caneta na mão, decide. Eu?

Denise Zoghbi – Por que não vai em cima de quem tem a caneta? Esses anos todos o Senado tem um dono. Um único dono. Não acha que está no endereço errado? 

ÉPOCA  Não. Pode até ter um (caso) mais interessante. Mas preciso de coisa para isso. Não tenho mais coisa do Agaciel. Sei que ele está de diretor escondido, despachando no 9º andar, despachando naquela sala que foi da mulher dele.

Denise – Quantas terceirizadas há no Senado? Verifique quantas? Quanto dá por mês?

ÉPOCA  Como é isso?

João Carlos – O mapa da mina está em cima...

Denise – Mas vai publicar o nosso?

ÉPOCA – Mas eu quero o mapa da mina inteiro.

Denise – O caso é o seguinte: nós não temos dinheiro para oferecer para você.

ÉPOCA – Dinheiro? Como assim? Não estou entendendo.

João Carlos – Nós somos quebrados, porra.

Denise – Esta reportagem vai acabar conosco, o João vai ser demitido. O que eu posso fazer? Dinheiro? Se eu te der o meu carro, você não publica?

ÉPOCA  Denise, eu não sou corrupto. Você está me agredindo.

Denise – Eu não estou querendo te agredir. Eu estou dizendo que nós não temos como te pedir... Não publica isso porque você vai acabar com a nossa vida (chorando). Vai acabar com a vida dos nossos filhos.

João Carlos – Uma humilhação, porra.

ÉPOCA  Essa história está apurada. Deveriam ter pensado na hora que pegaram uma senhora, que chamam de “mãe preta”, e colocado como laranja numa empresa. Três empresas. Não pensaram nisso na hora? Essa mulher vai depor na Polícia Federal.

Denise – Não pensamos. Mas vai publicar isso?

ÉPOCA  É o meu trabalho. 

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O patrimônio de Agaciel
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
O patrimônio de Agaciel 

ÉPOCA  Como funcionava o esquema (do Agaciel) lá dentro?

Denise – Ali, acho que ele divide tudo com o primeiro-secretário.

João Carlos – É a sintonia. Porque o primeiro-secretário, em última análise, é ele que delibera (durante a gestão de Agaciel, vários senadores ocuparam a primeira-secretaria. No período a que Zoghbi se refere, foram os senadores Romeu Tuma, do PTB-SP, e Efraim Morais, do DEM-PB).

Denise – Ele (Agaciel) fica com a parte do leão. Agaciel está milionário. Eu sei que ele tem casa, apartamento em Natal, uma fazenda no interior do Rio Grande do Norte, várias casas em Brasília em nome de irmãos. Ele faz bem feito.

João Carlos – Não vai ser aqui em Brasília. Vai ver na origem dele.



O QUE DIZ EFRAIM: “Não segui cartilha de ninguém. As palavras dele não têm nenhuma verdade. Agaciel nunca determinou nada. Pelo contrário. Como senador, não tem nenhum sentido eu seguir a cartilha de um funcionário. Fiz um trabalho transparente na primeira- secretaria e todas as tentativas contra mim não foram comprovadas”.

 
O esquema das terceirizações

Denise – Eu tenho uma história melhor. Vai atrás das empresas terceirizadas. 

ÉPOCA  Cadê o mapa da mina das terceirizadas?

Denise – Ele (Agaciel Maia) é sócio de todas as empresas terceirizadas.

ÉPOCA  Ele é sócio? Onde é que eu encontro?

Denise – Não sei.

ÉPOCA– Por exemplo: você usou sua ama de leite. Quem ele usa? No nome de quem está essa coisa?

João Carlos – Espera aí: se olhar todo direcionamento de contratos e quem realizava os contratos do Senado... Vai ver um crescimento exponencial de patrimônio do diretor que realizava os contratos. Durante esse período o patrimônio dele cresceu muito...

ÉPOCA  Isso não tem nada de novo. Tanto é que ele caiu. Quero avançar nessa história.

João Carlos – Não estou falando nada disso. É essa pessoa que contribuía para esse processo. Como as terceirizadas? Através do ex-diretor de contratos Dimitrios Hadijnicolaou (ex-diretor da Secretaria de Compras do Senado, que perdeu o cargo em agosto de 2008 depois de ser acusado pelo Ministério Público de participar de fraudes em licitações para contratação de empresas terceirizadas pelo Senado). Estou te dando caminhos.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
Agaciel e as terceirizações
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Agaciel e as terceirizações

Denise – O que todo mundo dentro do Senado sabe é que todas as terceirizadas são dele (Agaciel). Todas as contratações passam por ele. 

ÉPOCA – Mas como provo isso? Por exemplo: quando a gente descobriu a dona Maria Izabel (a babá de João Carlos Zoghbi), a gente teve como chegar. Precisamos da Maria Izabel dele.

João Carlos – Quer uma ponta? Ele tem uma penca de irmãos. Mas tem um que trabalha no Senado. É o Oto Maia, que é o mais próximo. Pode ter outros, mas esse, necessariamente, tem o nome dele.

Denise – Tem de verificar quem são os donos. Tem um compadre, que eu não sei o nome dele, que é o marido de uma mulher que trabalha com a mulher dele. Já me falaram que tem coisa. Trabalha no 9o andar e que, inclusive, ficou no lugar dela.

João Carlos – Uma coisa é certa: ele não está concentrado em cima de uma pessoa. Ele tem braços porque foram 14 anos no comando. Deve ter umas dez terceirizadas.

Denise – Por aí, imagina. Cada um com uma média de mil, 2 mil funcionários.

João Carlos – Tem no Prodasen, na comunicação social, no transporte, na vigilância, na parte de segurança.

ÉPOCA  E na taquigrafia?

Denise – A taquigrafia é um escândalo. O serviço público tem o órgão dele de taquigrafia e contrata uma empresa para taquigrafar e fazer os mesmos serviços.

ÉPOCA – E de quem é essa empresa?

Denise – Essa empresa é da Cleide (Cleide Cruz, diretora da Secretaria de Comissões do Senado, que atuou como secretária de importantes CPIs do Congresso, inclusive a que levou ao impeachment do ex-presidente Fernando Collor). Que eu saiba, a filha dela é que tomava conta da empresa. Era a gerente.


 
O QUE DIZ CLEIDE CRUZ: “Não é verdade. Uma multinacional chamada Steno Brasil presta serviços de transcrição de reuniões em tempo real para o Senado. Não é exatamente taquigrafia, por ser bem mais moderno. Essa empresa, de grande porte, sem ligações empresariais comigo, passou por uma licitação para entrar na Casa. Uma empresa da qual minha filha é sócia presta serviço de administração para a Steno Brasil. Não há nada de irregular e o Ministério Público já investigou”.

ESCANDÂLO NO SENADO

REVISTA ÉPOCA
O Interlegis e o clã Tuma
Acuados pela revelação do esquema da babá, João Carlos e Denise Zoghbi dizem que um enorme esquema de corrupção controla os contratos do Senado
ANDREI MEIRELES
Ailton de Freitas e Glaucio Dettmar
OS TUMAS
O senador Romeu Tuma (à esq.) e seu filho Robson dizem que Zoghbi não tem como provar o que diz
O Interlegis e o clã Tuma 

ÉPOCA  Vocês podem falar do que vocês viram ali dentro.

João Carlos – A gestão é muito centralizada.

Denise – Procura olhar o Interlegis (programa desenvolvido pelo Senado para modernizar e integrar os poderes legislativos, federais, estaduais e municipais).

ÉPOCA  Tinha o Tuminha (ex-deputado federal Robson Tuma, filho do senador Romeu Tuma, do PTB de São Paulo) operando ali em determinado momento?

Denise – O Agaciel neutralizou ele, rapaz. O Agaciel fez o Sarney brigar com o Tuma.

João Carlos – Olha, vamos lá. Ninguém imaginava que o Tuma fosse tão fraco naquele momento. O Agaciel anulou o Tuma. O Tuminha tentou ali, forçou uma situação em determinado momento e o Agaciel neutralizou o Tuminha e deixou o Tuma desmoralizado nisso aí.

Denise – O primeiro-secretário só trabalhava se fosse na cartilha do Agaciel. Todos fecharam com ele. Vai no Interlegis.

João Carlos – Outra ponta para puxar envolve o Interlegis. Ali é dinheiro de recurso internacional, de empréstimo do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), que não passa pelo processo licitatório. Teve uma contratação de R$ 10 milhões de um censo que foi feito diretamente por eles nesse processo. E mais: o Interlegis é todo minado.

Denise – E estão preparando outro censo...

ÉPOCA  E esse censo foi feito?

João Carlos – Foi feito na época.

Denise – Eles inclusive falam com muito orgulho da realização.

João Carlos – O Interlegis nasceu lá atrás com a Regina em um propósito e, de lá para cá, ele foi todo sendo deturpado.

ÉPOCA  A Regina do Prodasen? (Regina Borges é a funcionária que no ano 2000, por determinação dos então senadores Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, mandou violar o painel eletrônico do Senado na votação secreta em que foi cassado o senador Luiz Estevão.)

João Carlos – Antes do escândalo do painel, o Interlegis foi criado com uma finalidade específica. Mas ficou um organismo de fachada para contratação de pessoas e de serviços. O dinheiro do Interlegis não passava pelo crivo da Lei 8.666 (que regula as compras e a contratação de serviços no setor público). Aí é que está. A contratação das pessoas deveria ser para cargos técnicos e trabalhar dentro do Interlegis para cumprir a missão do órgão. No entanto, os servidores foram trabalhar nos Estados e nos gabinetes a critério do Agaciel. Isso tem como provar. Historicamente, toda a trajetória do Interlegis foi sempre de desvios. E não são poucos recursos.


 
O QUE DIZ ROMEU TUMA: o senador Romeu Tuma defende o Interlegis e afirma que tem boas relações com Sarney: “Na primeira-secretaria sempre me pautei pela ética. Advogados e consultores da Casa trabalharam seriamente compromissados com o interesse público, tudo com a concordância da mesa diretora. Sempre fizemos normas para evitar qualquer possibilidade de desvio. Quanto ao Interlegis, há um acordo com o Banco Mundial, que faz regularmente auditoria externa e interna. É um trabalho sério, que investe na transparência. Também repudio qualquer ilação de mal-estar com o senador José Sarney, que respeito muito”.

 
O QUE DIZ ROBSON TUMA: “Nunca tive acesso e nem me envolvi em qualquer processo no Senado. O fato de ele (Zoghbi) ter sido descoberto em atos ilícitos não pode fazer com que ele ataque genericamente para encobrir seus erros. Zoghbi cita o meu nome porque não tenho mais imunidade parlamentar nem tribuna para me defender. É uma atitude própria de quem está desesperado e tenta jogar a culpa em outros para tirar qualquer responsabilidade de suas costas. Vou entrar na Justiça contra o Zoghbi”.

 
O QUE DIZ EFRAIM: o senador Efraim Morais acusa João Carlos de querer tumultuar o Senado: “As palavras dele têm de ser medidas, depois de tudo o que aconteceu. Que se fiscalize o Interlegis. Renovamos o contrato do Interlegis 2 em um total de U$ 33 milhões e não foi usado nada porque estava terminando o nosso mandato na mesa diretora. O Interlegis é fiscalizado pelo BID. Cabe a ele (Zoghbi) mostrar a roubalheira, então. Há uma vontade dele de tumultuar tudo. Ele vai ter de provar”.