O GLOBO - 24/06
Os ambientalistas são uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente
Nosso planeta está na iminência de derreter e, para salvá-lo, é preciso mudar radicalmente nosso estilo de vida, abandonar o progresso industrial e delegar poder absoluto aos governos. Ao menos é isso que muita gente quer que acreditemos. São os ambientalistas, uma seita que mascara profundo desprezo pelo avanço capitalista e tenta monopolizar a legítima preocupação com o meio ambiente.
Contra essa ameaça, o ex-presidente da República Tcheca Vaclav Klaus escreveu o excelente livro “Planeta azul em algemas verdes”, afirmando que é a liberdade, não o clima, que corre verdadeiro perigo atualmente. Klaus considera o risco “verde” mais sério do que o comunismo, e isso, vindo de alguém que sofreu intensamente sob o regime comunista, é algo que merece atenção.
“O aquecimento global tornou-se símbolo e exemplo da luta entre a verdade e a propaganda. A verdade politicamente correta já foi estabelecida e não é fácil opor-se a ela”, diz ele. A postura de muitos ambientalistas remete àquela de seitas religiosas fanáticas. Há uma “verdade” absoluta revelada, os “profetas” (como Al Gore e companhia), e os “hereges”, que adotam posição mais cética e demandam cautela.
O regozijo pessoal que vem com a sensação de superioridade moral apenas por pertencer a esse grupo de “escolhidos” que deseja “salvar o planeta” fica acima dos fatos e da razão, impedindo qualquer debate construtivo. É preciso atacar o “inimigo”, rotular com adjetivos chulos aqueles que não aceitam sem reservas o catastrofismo vendido pelos ambientalistas.
No começo, muitos se mostraram preocupados com os rumos dos “debates”, com o excesso de pânico infundado que foi incutido nos mais leigos, com a politização oportunista da ciência. Hoje, como confessa Vaclav Klaus, a preocupação deu lugar à fúria, pois é revoltante ver como a coisa desandou, transformando-se em uma perigosa ideologia coletivista que asfixia nossas liberdades.
O tcheco, que é economista, afirma que o problema com as mudanças climáticas tem mais a ver com as ciências sociais do que com as naturais. Citando os austríacos Hayek e Mises, o ex-presidente lembra que a “arrogância fatal” e o “cientificismo” ofuscam toda a ignorância das autoridades e dos especialistas em relação a um fenômeno complexo como o clima. A analogia com os planejadores centrais comunistas em relação à economia é evidente demais.
A “ordem espontânea” está no centro dos ataques dos ambientalistas, da mesma forma que faziam os marxistas. Eles rejeitam as liberdades individuais e depositam uma fé ingênua e absurda nos “clarividentes” e “onipotentes” tecnocratas e políticos. O modelo capitalista se tornou o principal alvo da ideologia ambientalista. Klaus resume: “Se levarmos o raciocínio dos ambientalistas a sério, descobriremos que defendem uma ideologia anti-humana. Essa ideologia vê como causa fundamental dos problemas do mundo a própria evolução do homo sapiens”.
Para concentrar cada vez mais poder e recursos no estado, a sensação de grande perigo precisa ser constante. Somente assim se justificam medidas drásticas que ignoram completamente qualquer relação de custo e benefício, qualquer alternativa mais racional para o uso de recursos escassos. Se o que está em jogo é “salvar o planeta” que será destruído a qualquer momento, então pro inferno até com a democracia, bolas!
S. Fred Singer, físico atmosférico da Universidade de Virgínia, faz uma pergunta importante: “Por que deveríamos dedicar nossos escassos recursos ao que é, em essência, um não problema, e ignorar os problemas reais que o mundo enfrenta: a fome, as doenças, o desrespeito aos direitos humanos — isso para não mencionar as ameaças de terrorismo e guerras nucleares?”
A imprensa, que vende mais quando há desgraças e catástrofes iminentes, ajuda a disseminar o medo infundado. Não chegam aos leigos fatos importantes, como a enorme quantidade de cientistas renomados que rejeitam as mensagens e a linguagem catastrofista do IPCC, ligado à ONU. Tampouco há a consciência de que existem muitos interesses em jogo, já que os próprios governos financiam boa parte das pesquisas que dão respaldo às soluções propostas de mais poder aos governos.
Václav Klaus conclui: “O atual debate sobre o aquecimento global é, portanto, essencialmente um debate sobre a liberdade. Os ambientalistas adorariam subjugar todos os aspectos possíveis (e impossíveis) de nossas vidas.” Se quisermos preservar nossas liberdades e o progresso capitalista, então é preciso combater a histeria dos ambientalistas.
terça-feira, junho 24, 2014
Tiroteio a esmo - DORA KRAMER
O ESTADÃO - 24/06
A julgar pelos discursos dos três oradores que importavam na convenção nacional do PT - considerando que Michel Temer estava ali por honra da firma -, Rui Falcão, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, por ordem de entrada em cena, o partido ainda não chegou a um acordo sobre qual a abordagem mais eficaz junto ao eleitor de 2014.
Cada qual foi numa direção diferente, não raro dizendo uma coisa em oposição a outra. Um exemplo: Falcão, o presidente do partido, avaliou que essa será a eleição mais difícil que o PT já enfrentou e pregou a guerra contra a oposição "homofóbica, odienta e fundamentalista".
Lula, o presidente de honra, afirmou que é preciso parar de dizer que a eleição será difícil; Dilma, presidente da República, pregou uma campanha "da paz", sem rancor. Eram três personagens encarnando três papéis diversos no palco. Sim, são pessoas diferentes, mas do roteiro de um partido que procura um mesmo objetivo espera-se ao menos unidade de pensamento. Não foi o que se viu no último sábado.
Rui Falcão entrou para, como se dizia antigamente, botar fogo na roupa, fazer do ressentimento um motor do entusiasmo genuinamente inexistente pela candidata. O que faltava de ardor por Dilma sobrava no clamor do grito "mídia fascista, sensacionalista", quando Falcão apontou os meios de comunicação como "arautos do mau humor que levam o negativismo para dentro da casa do povo".
Pode-se argumentar que o objetivo era mobilizar a militância. Dois problemas nesse argumento. Primeiro, o pequeno número de militantes ali presentes, devido à opção de fazer uma convenção em recinto acanhado, com a finalidade principal de produzir cenas para o programa de TV. Não seria dali que sairiam hordas de guerreiros.
Segundo problema: as propostas apresentadas como palavras de ordem para a militância são de fato palavras ao vento - por inexequíveis -, e a direção partidária sabe disso. Falou-se no plebiscito para a reforma política por meio de Constituinte exclusiva, marcando até data, 7 de setembro próximo - sugestão já devidamente morta e enterrada.
Voltou-se a falar na "democratização dos meios de comunicação", sabendo-se que tal proposta não tem aceitação entre nenhum dos partidos com representação no Congresso além do PT. Ou seja, convidou-se a militância a enxugar gelo.
Em seguida, falou Lula. Uma apoteose. Ali se viu quem o partido queria realmente como candidato, a quem o PT segue e venera. Foi o Lula de sempre, das metáforas, da quase lógica, da mistura de alhos com bugalhos, das mistificações, mas um exímio animador de auditórios.
Ao fim e ao cabo ficou a impressão de que vai jogar na tese de que inventou o Brasil Maravilha e que a ele os brasileiros devem toda sua gratidão. Além de dizer que a eleição não será assim tão difícil, mas "sui generis", avisou aos adversários "que se preparem", pois o PT se elegeu primeiro por quatro anos, depois por mais quatro e mais quatro, "e pode ficar no poder até a metade do século 21". Deve ter um plano e, pelo jeito, passa pela máquina do Estado.
Para encerrar a convenção, a presidente Dilma. Em ritmo de anticlímax, com um discurso cansativo que provocou dispersão na plateia e visível tédio em petistas sentados às duas mesas montadas no palco. Contrariando o tom dos antecessores e a própria personalidade, acenou com a "paz". Por uma hora enumerou seus feitos naquele conhecido tom maçante. "Produção de conteúdo para o horário eleitoral", justificava a assessoria. Mas, se aborreceu os correligionários ao ponto de enrolarem suas bandeiras, deixarem o recinto para lanchar ou comprar na lojinha do PT nas salas ao lado e os que ficaram preferirem conversar, esse conteúdo é capaz de não entusiasmar muito o eleitorado.
Ao contrário, porém, do "jingle" da campanha, "Coração valente", um forrozinho bom que só.
A julgar pelos discursos dos três oradores que importavam na convenção nacional do PT - considerando que Michel Temer estava ali por honra da firma -, Rui Falcão, Luiz Inácio da Silva e Dilma Rousseff, por ordem de entrada em cena, o partido ainda não chegou a um acordo sobre qual a abordagem mais eficaz junto ao eleitor de 2014.
Cada qual foi numa direção diferente, não raro dizendo uma coisa em oposição a outra. Um exemplo: Falcão, o presidente do partido, avaliou que essa será a eleição mais difícil que o PT já enfrentou e pregou a guerra contra a oposição "homofóbica, odienta e fundamentalista".
Lula, o presidente de honra, afirmou que é preciso parar de dizer que a eleição será difícil; Dilma, presidente da República, pregou uma campanha "da paz", sem rancor. Eram três personagens encarnando três papéis diversos no palco. Sim, são pessoas diferentes, mas do roteiro de um partido que procura um mesmo objetivo espera-se ao menos unidade de pensamento. Não foi o que se viu no último sábado.
Rui Falcão entrou para, como se dizia antigamente, botar fogo na roupa, fazer do ressentimento um motor do entusiasmo genuinamente inexistente pela candidata. O que faltava de ardor por Dilma sobrava no clamor do grito "mídia fascista, sensacionalista", quando Falcão apontou os meios de comunicação como "arautos do mau humor que levam o negativismo para dentro da casa do povo".
Pode-se argumentar que o objetivo era mobilizar a militância. Dois problemas nesse argumento. Primeiro, o pequeno número de militantes ali presentes, devido à opção de fazer uma convenção em recinto acanhado, com a finalidade principal de produzir cenas para o programa de TV. Não seria dali que sairiam hordas de guerreiros.
Segundo problema: as propostas apresentadas como palavras de ordem para a militância são de fato palavras ao vento - por inexequíveis -, e a direção partidária sabe disso. Falou-se no plebiscito para a reforma política por meio de Constituinte exclusiva, marcando até data, 7 de setembro próximo - sugestão já devidamente morta e enterrada.
Voltou-se a falar na "democratização dos meios de comunicação", sabendo-se que tal proposta não tem aceitação entre nenhum dos partidos com representação no Congresso além do PT. Ou seja, convidou-se a militância a enxugar gelo.
Em seguida, falou Lula. Uma apoteose. Ali se viu quem o partido queria realmente como candidato, a quem o PT segue e venera. Foi o Lula de sempre, das metáforas, da quase lógica, da mistura de alhos com bugalhos, das mistificações, mas um exímio animador de auditórios.
Ao fim e ao cabo ficou a impressão de que vai jogar na tese de que inventou o Brasil Maravilha e que a ele os brasileiros devem toda sua gratidão. Além de dizer que a eleição não será assim tão difícil, mas "sui generis", avisou aos adversários "que se preparem", pois o PT se elegeu primeiro por quatro anos, depois por mais quatro e mais quatro, "e pode ficar no poder até a metade do século 21". Deve ter um plano e, pelo jeito, passa pela máquina do Estado.
Para encerrar a convenção, a presidente Dilma. Em ritmo de anticlímax, com um discurso cansativo que provocou dispersão na plateia e visível tédio em petistas sentados às duas mesas montadas no palco. Contrariando o tom dos antecessores e a própria personalidade, acenou com a "paz". Por uma hora enumerou seus feitos naquele conhecido tom maçante. "Produção de conteúdo para o horário eleitoral", justificava a assessoria. Mas, se aborreceu os correligionários ao ponto de enrolarem suas bandeiras, deixarem o recinto para lanchar ou comprar na lojinha do PT nas salas ao lado e os que ficaram preferirem conversar, esse conteúdo é capaz de não entusiasmar muito o eleitorado.
Ao contrário, porém, do "jingle" da campanha, "Coração valente", um forrozinho bom que só.
Depois da Copa - VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 24/06
País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito
A BRISA ALEGRE da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?
A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.
Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.
Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.
No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).
Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.
Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.
Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.
O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.
Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.
Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.
País toma anestesia local, não geral, faz festa com o futebol, mas o eleitor continua insatisfeito
A BRISA ALEGRE da Copa até agora festiva dissipou os miasmas que deixavam o clima pesado até faz muito pouco: 12 dias. Mas os maus humores terão escorrido para o ralo? O que será quando a Copa acabar, o que, esperamos, ocorrerá com vitória em 13 de julho?
A anestesia futebolística não foi geral, mas local. Os insatisfeitos com governo, política e economia ganharam adesões, dizem as pesquisas. Mas até para militantes é difícil viver em tensão permanente. A maioria de nós parece ter resolvido fazer um pouco de festa; não mudou de opinião.
Nos últimos meses, falamos muito de política e governo por meio de símbolos tais como a Copa ou, entre minorias, na guerra "ideológica" desencadeada por questões que foram dos rolezinhos aos insultos contra Dilma Rousseff.
Pouco antes, foi comum se tratar de insatisfações diversas, quando não adversárias, por meio da crítica genérica dos "políticos", de um Estado distante, que não oferece serviços públicos, quando não é apenas fonte de opressão física.
No rescaldo de um ano de revolta, os partidos e candidatos maiores apareceram mais desprestigiados que de costume, vide a quantidade de "votos de protesto" (nulo, branco, nem aí etc).
Findo o show da Copa, começa sem mais o show da eleição. Se a insatisfação de fundo continuar, contra governos e políticos em geral, quais contornos terá? Ainda haverá "rua"? Militantes, como os sem-teto e os do passe livre, em São Paulo, não vão submergir sem mais. Difícil é, a princípio, imaginar que o combustível das manifestações não tenha diminuído desde junho do ano passado e depois da Copa.
Os fatores de irritação mais difusa, cotidiana, não desapareceram, pelo contrário. Ainda que o mau humor econômico tenha sido exagerado em abril e maio, a economia real declina de fato e mais do que o esperado, inclusive no emprego. A mais recente previsão dos economistas privados estima que o PIB deve crescer menos que 1,2%, quase estagnação.
Há chance razoável de notícias simbolicamente ruins em julho e agosto (não serão boas de modo algum, mas devem soar ainda pior): inflação talvez acima do teto da meta, PIB zero, demissões em indústrias visíveis, com sindicatos fortes. Haverá algum motivo e muita oportunidade para o acirramento de ânimos políticos.
O governo decerto vai contra-atacar. Vai lançar o Minha Casa, Minha Vida fase 3 ainda em julho. Vai trombetear para o público menos informado e pobre os programas sociais que patrocinou, muito extensos, goste-se ou não deles.
Para o eleitorado minoritário mais dado à política-politiqueira, haverá mais motivos para decepção ou nojo, dada a barafunda de alianças cruzadas entre partidos. A oposição federal alia-se regionalmente a aliados nacionais do governo, entre outras indignidades. Pequenos e provincianos, os candidatos maiores não se dão conta do tamanho da repulsa que realimentam.
Não há motivos para acreditar que a fervura baixe. Está mais difícil de saber como tal desgosto vai se expressar. Em ano de eleição nacional, era de esperar que partidos maiores dessem sentido às revoltas mais comuns, ao menos. Só que não. Ainda, ao menos.
A herança para 2015 - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
Quem vencer a eleição presidencial no fim do ano terá de pensar, com urgência, em como carregar a desastrosa herança econômica deixada pelo atual governo. Se for reeleita, a presidente Dilma Rousseff precisará mudar muito mais do que prometeu no discurso de lançamento de sua candidatura. A parte mais visível da herança está indicada nas projeções de inflação alta, crescimento baixo e contas externas ainda em mau estado formuladas por economistas de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Essas projeções são coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus.
Na pesquisa divulgada ontem, a inflação estimada para 2014 continuou em 6,46%, muito perto do limite de tolerância, 6,50%, mas o número previsto para o próximo ano subiu ligeiramente, de 6,08% para 6,10%. A variação pode parecer pequena, mas está longe de ser insignificante. Na mesma sondagem, a alta projetada para os preços administrados chegou a 7%. Na semana anterior, a taxa estimada era 6,85%. Quatro semanas antes, 6,50%.
A mensagem contida nesses números parece muito clara. Economistas do mercado continuam prevendo um forte ajuste, em 2015, dos preços e tarifas contidos politicamente. Esse grupo inclui preços de combustíveis e tarifas de energia elétrica e de transporte público.
Parte desses valores tem sido corrigida neste ano, mas em proporção insuficiente para eliminar o atraso.
Com a correção, a defasagem poderá até desaparecer. Dificilmente serão compensadas, no entanto, as perdas acumuladas pelas empresas prestadoras de serviços e pela Petrobrás, vítima habitual do controle político dos preços de combustíveis.
O primeiro ano de um mandato - novo ou renovado - é em geral o mais propício, politicamente, para medidas duras na área econômica. Mas o governo terá de ser muito mais severo e ambicioso do que tem sido há muito anos. Se quiser, de fato, conduzir a inflação à meta, 4,5%, terá de cuidar mais seriamente das contas públicas, cortar a gastança e ser muito mais seletivo na concessão de benefícios fiscais.
Os incentivos concedidos a partir da crise de 2008 foram inúteis para estimular o crescimento geral ou perderam eficácia muito rapidamente. As contas nacionais deixam pouca ou nenhuma dúvida quanto a isso. Não há, portanto, como defender tecnicamente a manutenção dessa estratégia.
O governo deveria saber disso, mas prorrogou na semana passada parte dos incentivos. Reafirmou, assim, a disposição de continuar trabalhando com remendos tributários, em vez de batalhar por uma efetiva reforma do sistema. Para mudar de rumo, as autoridades terão de mostrar coragem, afastar-se do populismo e exibir imaginação e competência.
Quanto mais séria a política fiscal, menos o BC precisará elevar os juros para conter os preços. De todo modo, uma política monetária menos sujeita a interferências da cúpula governamental poderá ser mais eficaz. Quanto maior a credibilidade do BC, maior tende a ser o efeito de suas ações. Isso tem sido comprovado pela experiência internacional.
As projeções do mercado indicam, também, uma piora das expectativas de crescimento. O quadro geral inclui, além da inflação elevada neste e no próximo ano, estimativas menores de expansão econômica. Em uma semana a previsão para 2014 caiu de 1,24% para 1,16%. Para 2015, a redução foi de 1,73% para 1,60%, mesmo sem a expectativa de ações muito mais duras contra a inflação.
Para a produção industrial neste ano, a mudança foi de um crescimento de 0,51%, abaixo de medíocre, para uma contração de 0,14%. Para 2015, a expansão prevista aumentou de 2,25% para 2,30%, um número ainda muito ruim e explicável, pelo menos em parte, pela base de comparação muito baixa.
O quadro se completa com um desempenho fraco no comércio exterior, com superávits previstos de US$ 2 bilhões neste ano e US$ 10 bilhões no próximo. São resultados muito baixos para as necessidades do País, por causa do déficit estrutural em serviços e rendas.
Quem vencer a eleição presidencial no fim do ano terá de pensar, com urgência, em como carregar a desastrosa herança econômica deixada pelo atual governo. Se for reeleita, a presidente Dilma Rousseff precisará mudar muito mais do que prometeu no discurso de lançamento de sua candidatura. A parte mais visível da herança está indicada nas projeções de inflação alta, crescimento baixo e contas externas ainda em mau estado formuladas por economistas de uma centena de instituições financeiras e consultorias. Essas projeções são coletadas semanalmente pelo Banco Central (BC) na pesquisa Focus.
Na pesquisa divulgada ontem, a inflação estimada para 2014 continuou em 6,46%, muito perto do limite de tolerância, 6,50%, mas o número previsto para o próximo ano subiu ligeiramente, de 6,08% para 6,10%. A variação pode parecer pequena, mas está longe de ser insignificante. Na mesma sondagem, a alta projetada para os preços administrados chegou a 7%. Na semana anterior, a taxa estimada era 6,85%. Quatro semanas antes, 6,50%.
A mensagem contida nesses números parece muito clara. Economistas do mercado continuam prevendo um forte ajuste, em 2015, dos preços e tarifas contidos politicamente. Esse grupo inclui preços de combustíveis e tarifas de energia elétrica e de transporte público.
Parte desses valores tem sido corrigida neste ano, mas em proporção insuficiente para eliminar o atraso.
Com a correção, a defasagem poderá até desaparecer. Dificilmente serão compensadas, no entanto, as perdas acumuladas pelas empresas prestadoras de serviços e pela Petrobrás, vítima habitual do controle político dos preços de combustíveis.
O primeiro ano de um mandato - novo ou renovado - é em geral o mais propício, politicamente, para medidas duras na área econômica. Mas o governo terá de ser muito mais severo e ambicioso do que tem sido há muito anos. Se quiser, de fato, conduzir a inflação à meta, 4,5%, terá de cuidar mais seriamente das contas públicas, cortar a gastança e ser muito mais seletivo na concessão de benefícios fiscais.
Os incentivos concedidos a partir da crise de 2008 foram inúteis para estimular o crescimento geral ou perderam eficácia muito rapidamente. As contas nacionais deixam pouca ou nenhuma dúvida quanto a isso. Não há, portanto, como defender tecnicamente a manutenção dessa estratégia.
O governo deveria saber disso, mas prorrogou na semana passada parte dos incentivos. Reafirmou, assim, a disposição de continuar trabalhando com remendos tributários, em vez de batalhar por uma efetiva reforma do sistema. Para mudar de rumo, as autoridades terão de mostrar coragem, afastar-se do populismo e exibir imaginação e competência.
Quanto mais séria a política fiscal, menos o BC precisará elevar os juros para conter os preços. De todo modo, uma política monetária menos sujeita a interferências da cúpula governamental poderá ser mais eficaz. Quanto maior a credibilidade do BC, maior tende a ser o efeito de suas ações. Isso tem sido comprovado pela experiência internacional.
As projeções do mercado indicam, também, uma piora das expectativas de crescimento. O quadro geral inclui, além da inflação elevada neste e no próximo ano, estimativas menores de expansão econômica. Em uma semana a previsão para 2014 caiu de 1,24% para 1,16%. Para 2015, a redução foi de 1,73% para 1,60%, mesmo sem a expectativa de ações muito mais duras contra a inflação.
Para a produção industrial neste ano, a mudança foi de um crescimento de 0,51%, abaixo de medíocre, para uma contração de 0,14%. Para 2015, a expansão prevista aumentou de 2,25% para 2,30%, um número ainda muito ruim e explicável, pelo menos em parte, pela base de comparação muito baixa.
O quadro se completa com um desempenho fraco no comércio exterior, com superávits previstos de US$ 2 bilhões neste ano e US$ 10 bilhões no próximo. São resultados muito baixos para as necessidades do País, por causa do déficit estrutural em serviços e rendas.
A ciência gordurosa - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 24/06
Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional
Vou ao supermercado e fico pasmo com os produtos nas prateleiras. Não falo da quantidade de iogurtes, bolachas, pastas dentifrícias ou papel higiênico que me transformam no famoso burro de Buridan --o asno do paradoxo filosófico que morre de fome por não saber qual dos pedaços de feno escolher. De fato, tanta variedade paralisa qualquer um.
Falo de outro fenômeno igualmente agônico: a quantidade de produtos alimentares que parecem diretamente saídos de um consultório médico.
Um iogurte não é um iogurte, com um determinado sabor e uma determinada textura. É quase um remédio de farmácia que promete diminuir o colesterol e controlar 50 outros indicadores orgânicos igualmente importantes para a saúde do sujeito.
E quem fala em iogurtes, fala em sucos (com seu cortejo de vitaminas), batatas fritas (com reduções heroicas na quantidade de sal) e até chocolates (alguns deles prometem melhorar o fluxo arterial). Como se chegou a isto?
Verdade: com a "morte de Deus" e o fim de uma vida transcendente, cuidar do corpo transformou-se na única religião dos homens modernos. De tal forma que nem a gastronomia está a salvo: antes do prazer ou da mera fome, está primeiro a saúde. Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional.
Honestamente, nem sei por que motivo não se abrem restaurantes em hospitais, com refeições cozinhadas por médicos e servidas por enfermeiros. No final, o cliente faria análises ao sangue e só pagaria a conta se tivesse o número certo de triglicerídeos.
O problema é que nem no hospital o cliente estaria a salvo. Desde logo porque é cada vez mais difícil saber o que comer: existem estudos, publicados a um ritmo demencial, que dizem uma coisa e o seu contrário. Às vezes, na mesma semana --ou até no mesmo dia.
A carne vermelha é má, defendem uns. A carne vermelha é ótima, garantem outros. Sobre os laticínios, há opiniões para todos os gostos: são puro veneno; são simplesmente insubstituíveis. E até as gorduras, que deveriam ser um inimigo consensual, parece que não são tão inimigas assim.
A revista "Time", aliás, dedicou matéria especial ao fenômeno: durante décadas, o país declarou guerra às gorduras. Que o mesmo é dizer: incluiu no Index da dieta nacional a carne vermelha, os ovos, os laticínios, a manteiga. A mensagem era simples: conservar um coração saudável implicava dizer adeus a todo esse lixo. Conclusão?
Os americanos foram dizendo adeus ao lixo, optando por aves, leite magro ou cereais. Infelizmente, a mudança na dieta não os tornou mais saudáveis. Pelo contrário: o país está mais doente do que nunca.
A diabete de tipo 2 aumentou 166% entre 1980 e 2012. Os problemas do coração continuam no topo da lista --e das mortes. E, sobre a obesidade, estamos conversados: falar dos Estados Unidos é imaginar uma nação disforme de glutões disformes. Explicações?
Não, a gordura não é o papão que se imaginava, explica a revista. Não entro em termos técnicos, até porque eles são demasiado gordurosos para mim. Mas parece que a gordura do peixe e dos vegetais é boa para o coração. E até a gordura "suspeita" de um bom filé (cozinhado com manteiga, claro) tem vantagens respeitáveis na limpeza do mau colesterol.
Os verdadeiros inimigos, hoje, são os carboidratos presentes nos açúcares, nos doces, nos farináceos. Isso, claro, enquanto não surgir um novo estudo a defender precisamente o contrário --ou, pelo menos, a colocar as coisas na suas devidas proporções.
E eu? Que fazer perante essa selva de alarmes contraditórios?
Nada. Rigorosamente nada. Perdido no supermercado, vou retirando das prateleiras os alimentos que a ciência aprova e desaprova nos dias pares e ímpares, respectivamente.
E confesso que as gorduras continuam a ter espaço generoso na minha dieta animalesca. Não que eu me orgulhe disso, cuidado. Mas enquanto não existirem estudos definitivos sobre o assunto, prefiro seguir as recomendações da minha ilustre dra. Gula.
Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional
Vou ao supermercado e fico pasmo com os produtos nas prateleiras. Não falo da quantidade de iogurtes, bolachas, pastas dentifrícias ou papel higiênico que me transformam no famoso burro de Buridan --o asno do paradoxo filosófico que morre de fome por não saber qual dos pedaços de feno escolher. De fato, tanta variedade paralisa qualquer um.
Falo de outro fenômeno igualmente agônico: a quantidade de produtos alimentares que parecem diretamente saídos de um consultório médico.
Um iogurte não é um iogurte, com um determinado sabor e uma determinada textura. É quase um remédio de farmácia que promete diminuir o colesterol e controlar 50 outros indicadores orgânicos igualmente importantes para a saúde do sujeito.
E quem fala em iogurtes, fala em sucos (com seu cortejo de vitaminas), batatas fritas (com reduções heroicas na quantidade de sal) e até chocolates (alguns deles prometem melhorar o fluxo arterial). Como se chegou a isto?
Verdade: com a "morte de Deus" e o fim de uma vida transcendente, cuidar do corpo transformou-se na única religião dos homens modernos. De tal forma que nem a gastronomia está a salvo: antes do prazer ou da mera fome, está primeiro a saúde. Hoje, não se come mais para viver. Come-se para viver até aos cem --uma importante revolução civilizacional.
Honestamente, nem sei por que motivo não se abrem restaurantes em hospitais, com refeições cozinhadas por médicos e servidas por enfermeiros. No final, o cliente faria análises ao sangue e só pagaria a conta se tivesse o número certo de triglicerídeos.
O problema é que nem no hospital o cliente estaria a salvo. Desde logo porque é cada vez mais difícil saber o que comer: existem estudos, publicados a um ritmo demencial, que dizem uma coisa e o seu contrário. Às vezes, na mesma semana --ou até no mesmo dia.
A carne vermelha é má, defendem uns. A carne vermelha é ótima, garantem outros. Sobre os laticínios, há opiniões para todos os gostos: são puro veneno; são simplesmente insubstituíveis. E até as gorduras, que deveriam ser um inimigo consensual, parece que não são tão inimigas assim.
A revista "Time", aliás, dedicou matéria especial ao fenômeno: durante décadas, o país declarou guerra às gorduras. Que o mesmo é dizer: incluiu no Index da dieta nacional a carne vermelha, os ovos, os laticínios, a manteiga. A mensagem era simples: conservar um coração saudável implicava dizer adeus a todo esse lixo. Conclusão?
Os americanos foram dizendo adeus ao lixo, optando por aves, leite magro ou cereais. Infelizmente, a mudança na dieta não os tornou mais saudáveis. Pelo contrário: o país está mais doente do que nunca.
A diabete de tipo 2 aumentou 166% entre 1980 e 2012. Os problemas do coração continuam no topo da lista --e das mortes. E, sobre a obesidade, estamos conversados: falar dos Estados Unidos é imaginar uma nação disforme de glutões disformes. Explicações?
Não, a gordura não é o papão que se imaginava, explica a revista. Não entro em termos técnicos, até porque eles são demasiado gordurosos para mim. Mas parece que a gordura do peixe e dos vegetais é boa para o coração. E até a gordura "suspeita" de um bom filé (cozinhado com manteiga, claro) tem vantagens respeitáveis na limpeza do mau colesterol.
Os verdadeiros inimigos, hoje, são os carboidratos presentes nos açúcares, nos doces, nos farináceos. Isso, claro, enquanto não surgir um novo estudo a defender precisamente o contrário --ou, pelo menos, a colocar as coisas na suas devidas proporções.
E eu? Que fazer perante essa selva de alarmes contraditórios?
Nada. Rigorosamente nada. Perdido no supermercado, vou retirando das prateleiras os alimentos que a ciência aprova e desaprova nos dias pares e ímpares, respectivamente.
E confesso que as gorduras continuam a ter espaço generoso na minha dieta animalesca. Não que eu me orgulhe disso, cuidado. Mas enquanto não existirem estudos definitivos sobre o assunto, prefiro seguir as recomendações da minha ilustre dra. Gula.
Soberba e populismo - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
Há uma característica peculiar no DNA do PT que tem dificultado a articulação de alianças em torno da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição: a soberba. A arrogância do comando lulopetista, que posa de monopolista da virtude e despreza os aliados porque age por puro fisiologismo, tem sido responsável por importantes reveses nesta pré-campanha eleitoral. O mais recente é a decisão do PMDB fluminense de apoiar a candidatura de Aécio Neves à Presidência em dobradinha com a do governador Luis Fernando Pezão à reeleição.
A dissidência do PMDB fluminense não se enquadra exatamente na galeria dos episódios louváveis que honram a política brasileira. É pura e simplesmente o desdobramento do toma lá dá cá que o PT não inventou, mas empenhou-se diligentemente em aperfeiçoar ao longo de quase 12 anos no poder. Desde a eleição ao governo estadual do peemedebista Sérgio Cabral em 2006, coerente com a orientação da direção nacional do partido, o PMDB fluminense e o governador em particular posicionaram-se com armas e bagagens no séquito de Luiz Inácio Lula da Silva. A ligação entre Lula e Cabral parecia tão sólida que este chegou a sonhar, em 2010, em ser o vice de Dilma Rousseff. Teve de se contentar com a candidatura à reeleição.
Mas a decepção definitiva de Cabral veio quando, em vez de honrar a aliança apoiando o candidato dele à própria sucessão, o PT optou por aceitar o fato consumado da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado, até porque a popularidade de Cabral caíra vertiginosamente, contaminando a de Pezão. Agora, Cabral e o PMDB fluminense dão o troco. Oficialmente, Pezão e Cabral continuarão apoiando Dilma. Mas a poderosa máquina política do PMDB fluminense vai trabalhar por Aécio Neves.
Às más notícias no plano das alianças eleitorais a soberba lulopetista parece disposta a responder com mais do mesmo, a julgar por tudo que foi proclamado na convenção nacional que confirmou a candidatura de Dilma à reeleição. A começar pelo fato de que a presidente está agora oficialmente enquadrada, pela proverbial imodéstia de Lula, na condição subalterna de "criatura" do Grande Chefe.
A insatisfação generalizada dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos se manifesta vigorosamente nas ruas. Mas Lula, Dilma e o PT se gabam de terem inventado um novo país, criando uma nova realidade nacional de desenvolvimento econômico e conquistas sociais. Estariam plenamente credenciados, portanto, a se lançarem à campanha eleitoral com o apelo à continuidade das fantásticas realizações com que mudaram para melhor a face do País. Mas como não podem ignorar que os brasileiros não estão lá muito satisfeitos com o que veem e, principalmente, sentem, é melhor ir de "mudança". Aliás, "mais mudança", porque, afinal, o estoque de promessas não cumpridas está longe de se esgotar.
O pior é que as principais novidades das "mudanças" apontam na direção do retrocesso. Apesar de terem repudiado o "ódio" revelado pela "elite branca" contra Dilma no lamentável episódio da abertura da Copa do Mundo, o discurso petista continuará focado no estímulo à cizânia nacional, à divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles", agora com uma pegada mais "esquerdista" que procurará dar destaque à necessidade do "controle social da mídia" e de uma reforma política destinada não a aperfeiçoar o sistema democrático a serviço de uma sociedade pluralista, mas a consolidar a hegemonia da nomenklatura petista. Não é outro o objetivo do decreto que, a pretexto de "regulamentar o texto constitucional", pretende aparelhar a estrutura do Poder Central com "conselhos populares" manipulados pelo Planalto.
E todo esse conteúdo "popular" se derramará na campanha petista, embalado pela demagogia dos chavões populistas que durante a convenção de sábado Dilma leu no teleponto: "Recolhamos as pedras que atiram contra nós e vamos transformá-las em tijolos para fazer mais casas do Minha Casa, Minha Vida. Vamos recolher os xingamentos, os impropérios e as grosserias e transformá-los em versos de canções de esperança no futuro do Brasil".
A soberba afasta aliados. A demagogia populista nem sempre atrai eleitores.
Há uma característica peculiar no DNA do PT que tem dificultado a articulação de alianças em torno da candidatura de Dilma Rousseff à reeleição: a soberba. A arrogância do comando lulopetista, que posa de monopolista da virtude e despreza os aliados porque age por puro fisiologismo, tem sido responsável por importantes reveses nesta pré-campanha eleitoral. O mais recente é a decisão do PMDB fluminense de apoiar a candidatura de Aécio Neves à Presidência em dobradinha com a do governador Luis Fernando Pezão à reeleição.
A dissidência do PMDB fluminense não se enquadra exatamente na galeria dos episódios louváveis que honram a política brasileira. É pura e simplesmente o desdobramento do toma lá dá cá que o PT não inventou, mas empenhou-se diligentemente em aperfeiçoar ao longo de quase 12 anos no poder. Desde a eleição ao governo estadual do peemedebista Sérgio Cabral em 2006, coerente com a orientação da direção nacional do partido, o PMDB fluminense e o governador em particular posicionaram-se com armas e bagagens no séquito de Luiz Inácio Lula da Silva. A ligação entre Lula e Cabral parecia tão sólida que este chegou a sonhar, em 2010, em ser o vice de Dilma Rousseff. Teve de se contentar com a candidatura à reeleição.
Mas a decepção definitiva de Cabral veio quando, em vez de honrar a aliança apoiando o candidato dele à própria sucessão, o PT optou por aceitar o fato consumado da candidatura do senador Lindbergh Farias ao governo do Estado, até porque a popularidade de Cabral caíra vertiginosamente, contaminando a de Pezão. Agora, Cabral e o PMDB fluminense dão o troco. Oficialmente, Pezão e Cabral continuarão apoiando Dilma. Mas a poderosa máquina política do PMDB fluminense vai trabalhar por Aécio Neves.
Às más notícias no plano das alianças eleitorais a soberba lulopetista parece disposta a responder com mais do mesmo, a julgar por tudo que foi proclamado na convenção nacional que confirmou a candidatura de Dilma à reeleição. A começar pelo fato de que a presidente está agora oficialmente enquadrada, pela proverbial imodéstia de Lula, na condição subalterna de "criatura" do Grande Chefe.
A insatisfação generalizada dos brasileiros com a qualidade dos serviços públicos se manifesta vigorosamente nas ruas. Mas Lula, Dilma e o PT se gabam de terem inventado um novo país, criando uma nova realidade nacional de desenvolvimento econômico e conquistas sociais. Estariam plenamente credenciados, portanto, a se lançarem à campanha eleitoral com o apelo à continuidade das fantásticas realizações com que mudaram para melhor a face do País. Mas como não podem ignorar que os brasileiros não estão lá muito satisfeitos com o que veem e, principalmente, sentem, é melhor ir de "mudança". Aliás, "mais mudança", porque, afinal, o estoque de promessas não cumpridas está longe de se esgotar.
O pior é que as principais novidades das "mudanças" apontam na direção do retrocesso. Apesar de terem repudiado o "ódio" revelado pela "elite branca" contra Dilma no lamentável episódio da abertura da Copa do Mundo, o discurso petista continuará focado no estímulo à cizânia nacional, à divisão dos brasileiros entre "nós" e "eles", agora com uma pegada mais "esquerdista" que procurará dar destaque à necessidade do "controle social da mídia" e de uma reforma política destinada não a aperfeiçoar o sistema democrático a serviço de uma sociedade pluralista, mas a consolidar a hegemonia da nomenklatura petista. Não é outro o objetivo do decreto que, a pretexto de "regulamentar o texto constitucional", pretende aparelhar a estrutura do Poder Central com "conselhos populares" manipulados pelo Planalto.
E todo esse conteúdo "popular" se derramará na campanha petista, embalado pela demagogia dos chavões populistas que durante a convenção de sábado Dilma leu no teleponto: "Recolhamos as pedras que atiram contra nós e vamos transformá-las em tijolos para fazer mais casas do Minha Casa, Minha Vida. Vamos recolher os xingamentos, os impropérios e as grosserias e transformá-los em versos de canções de esperança no futuro do Brasil".
A soberba afasta aliados. A demagogia populista nem sempre atrai eleitores.
Abre o olho, Dilma! - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 24/06
BRASÍLIA - Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O "Aezão" agora é orgânico.
Assim, Dilma divide seus palanques no Rio com Aécio, que lhe roubou o PMDB, e com Eduardo Campos, que lhe subtraiu uma fatia da campanha do petista Lindbergh Farias.
Ela não vai repetir o passeio de 2010 no Rio e em Minas e vai ter de suar a camisa em São Paulo. Confirmam-se as dificuldades da petista no "Triângulo das Bermudas", ou "grupo da morte", com cerca de 40% dos votos nacionais.
Isso reforça a sensação de fragilidade que vai se generalizando ou, como disse o lulista Gilberto Carvalho, "a coisa desceu, vai gotejando". Na dúvida, basta olhar os aliados do PT e ver para onde eles vão.
O PTB escancarou sua posição e o PMDB se mexe sorrateiramente rumo à oposição. Garantiu a Vice-Presidência para Michel Temer, mas liberou os pemedebistas para fazer o que bem entenderem nos Estados. Muitos deles estão entendendo que o mais conveniente é partir para outra.
Além do Rio, isso se reflete em outros Estados chaves, como Bahia e Rio Grande do Sul. E quer dizer muita coisa, principalmente a irritação com a vocação hegemônica do PT e a falta de confiança nas chances de vitória de Dilma.
Com esses dois argumentos, líderes do PSD pressionam Gilberto Kassab para que o partido opte pela neutralidade. Ele parece irredutível, mas perdeu o rumo sem a vaga de vice de Alckmin e foi à convenção do PT rapidinho, só a tempo de ser vaiado.
À Folha Gilberto Carvalho fez um diagnóstico realista sobre o clima negativo, que Lula quer enfrentar com a "adrenalina" da militância. Tempo de TV ajuda, mas não resolve, e marketing é científico, não faz milagres. Aliás, o slogan é reconhecimento das dificuldades: Dilma candidata das "mudanças"? Não cola.
BRASÍLIA - Em plena Copa, Dilma toma uma bola nas costas atrás da outra. A convenção do PT foi driblada pela deserção do PTB e depois por uma jogada bem ensaiada de Aécio com Cabral e Pezão no Rio. O "Aezão" agora é orgânico.
Assim, Dilma divide seus palanques no Rio com Aécio, que lhe roubou o PMDB, e com Eduardo Campos, que lhe subtraiu uma fatia da campanha do petista Lindbergh Farias.
Ela não vai repetir o passeio de 2010 no Rio e em Minas e vai ter de suar a camisa em São Paulo. Confirmam-se as dificuldades da petista no "Triângulo das Bermudas", ou "grupo da morte", com cerca de 40% dos votos nacionais.
Isso reforça a sensação de fragilidade que vai se generalizando ou, como disse o lulista Gilberto Carvalho, "a coisa desceu, vai gotejando". Na dúvida, basta olhar os aliados do PT e ver para onde eles vão.
O PTB escancarou sua posição e o PMDB se mexe sorrateiramente rumo à oposição. Garantiu a Vice-Presidência para Michel Temer, mas liberou os pemedebistas para fazer o que bem entenderem nos Estados. Muitos deles estão entendendo que o mais conveniente é partir para outra.
Além do Rio, isso se reflete em outros Estados chaves, como Bahia e Rio Grande do Sul. E quer dizer muita coisa, principalmente a irritação com a vocação hegemônica do PT e a falta de confiança nas chances de vitória de Dilma.
Com esses dois argumentos, líderes do PSD pressionam Gilberto Kassab para que o partido opte pela neutralidade. Ele parece irredutível, mas perdeu o rumo sem a vaga de vice de Alckmin e foi à convenção do PT rapidinho, só a tempo de ser vaiado.
À Folha Gilberto Carvalho fez um diagnóstico realista sobre o clima negativo, que Lula quer enfrentar com a "adrenalina" da militância. Tempo de TV ajuda, mas não resolve, e marketing é científico, não faz milagres. Aliás, o slogan é reconhecimento das dificuldades: Dilma candidata das "mudanças"? Não cola.
Equívoco conceitual - FÁBIO GIAMBIAGI
O ESTADO DE S.PAULO - 24/06
A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.
Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.
Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.
O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.
É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.
O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.
A saída para a situação de baixo crescimento em que se encontra a economia brasileira requer um diagnóstico correto das causas desse desempenho. É nesse ponto que reside o problema da estratégia oficial que vem sendo adotada para lidar com os problemas da economia. Se Drummond dizia que no meio do caminho tinha uma pedra, no caso brasileiro no meio do caminho temos um erro de diagnóstico.
Desde a eleição de 2002, aqueles que viriam a ocupar posições no governo a partir de 2003 pregavam simultaneamente três teses. A primeira era que a retomada do crescimento deveria se basear na constituição de um amplo consumo de massas, o que implicaria que o consumo deveria liderar o crescimento. A segunda - consensual - é que a taxa de investimento deveria aumentar. E a terceira, que era necessário atacar o desequilíbrio externo, o que na ocasião significava aumentar as exportações a uma taxa maior que a das importações. Estaríamos todos de acordo, exceto por um detalhe: era impossível cumprir com os três objetivos ao mesmo tempo, pela simples razão de que a soma das partes deve ser igual ao todo. Consumo, investimento e saldo das relações com o exterior não podem aumentar como proporção do PIB ao mesmo tempo.
Lula julgou ter encontrado a solução mágica para resolver aquela impossibilidade graças ao "paraíso zodiacal" que o País viveu no seu segundo mandato. A mágica atendeu pelo nome de melhora dos termos de troca. Foi ela que permitiu que as importações funcionassem como variável de ajuste, crescendo muito acima das exportações, viabilizando o atendimento da expansão do consumo e do investimento e sem afetar pesadamente o balanço de pagamentos (BP). Entre 2004 e 2010, enquanto as exportações, pelos dados da Funcex, cresceram em termos reais a uma média anual de 2%, as importações cresceram nada menos que 12% a.a. Apesar disso, o superávit comercial de 2010 foi ainda de US$ 20 bilhões, graças ao desempenho excepcional dos termos de troca. Hoje, a festa acabou e essa mágica não é mais possível: se o consumo e o investimento crescerem muito, as importações avançarão na frente das exportações e o balanço de pagamentos exibirá um déficit monstruoso.
O que ocorreu naqueles anos, mitigado pelos termos de troca, respondia ao esquema de quem se acostumou a pensar no mundo da restrição de demanda. Nesse caso, de fato, não importam muito os coeficientes relativos ao PIB, porque é possível que o numerador de todos os coeficientes se expanda e a expansão do consumo e do investimento seja satisfeita pelo aumento de tamanho do PIB, sem pressionar excessivamente a balança comercial em termos absolutos. Quando a restrição é de oferta, porém, maior absorção doméstica bate "na veia" no setor externo, que é rapidamente afetado pelos gargalos domésticos existentes. É esse o caso da economia brasileira em tempos recentes.
É um erro imaginar que a insuficiência de investimentos do País se resolve apenas com melhora de gestão e aprimoramento dos projetos. É claro que se conseguirmos isso teremos dado um passo fantástico, à luz das enormes falhas desse tipo de processos. O que se quer frisar, porém, é que isso é somente parte do problema. Melhorar a gestão é condição necessária, mas não suficiente, para que o investimento ocorra. Para isso, é preciso mudar o perfil da economia: precisamos aumentar a taxa de investimento sem "arrebentar" com o BP, o que só pode ter uma solução: diminuir a relação entre o consumo e o PIB.
O problema é que a agenda nacional vai na direção contrária. Independentemente do seu mérito, as reivindicações em favor de "mais isso e mais aquilo" redundam no que se deveria evitar. Qualquer que seja o(a) presidente, em 2015 ele(a) terá de explicar para a cidadania que é preciso dosar as demandas, pois se elas forem satisfeitas, o investimento terá um desempenho raquítico ou o déficit em conta corrente alcançará mais de US$ 100 bilhões. Não é uma questão (apenas) de gestão: há decisões difíceis a tomar.
Abreu e Lima continua a assombrar governo - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 24/06
Interesses de partidos, ideologias e pessoas fizeram com que o custo operacional da refinaria deva ser duas vezes superior à média mundial
A Petrobras oficialmente insiste que tudo transcorre dentro da normalidade, enquanto o governo atua no front político para evitar qualquer possibilidade de investigação séria no Congresso, onde há uma CPI chapa-branca instalada no Senado e outra, mista, de deputados e senadores, em que existe algum risco para o Planalto.
Mas, apesar de todas as manobras, os gritantes desmandos na execução do projeto da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a se impor por si mesmos. São tamanhos os desvios que, recorrendo à imagem desgastada do lixo jogado para baixo do tapete, conclui-se que a capacidade de toda a indústria de tecelagem não parece capaz de encobrir tudo que tem sido descoberto nessa história exemplar de como não se pode subordinar a ação do Estado a interesses de partidos, ideologias e pessoas. Houve a conjugação desses três fatores no escândalo de Abreu e Lima.
Não é sempre, mesmo na indústria do petróleo, onde as cifras são contabilizadas em bilhões de dólares, que um projeto orçado há 11 anos em US$ 2,3 bilhões chega a US$ 18,5 bilhões, dado de abril, e pode ter um custo final de US$ 20,1 bilhões.
Reportagens publicados pelo GLOBO domingo e ontem traçam o roteiro de como o projeto, uma decisão conjunta dos amigos e aliados político-ideológicos Lula e Hugo Chávez, atropelou a sensatez e relatórios técnicos, para fazer surgir uma refinaria cujo preço do barril refinado será de US$ 87 mil, mais que o dobro da média mundial. E pior para o Brasil, pois Chávez morreu e os venezuelanos, que já não colocavam dinheiro no projeto, deixaram de vez a pesada fatura com a Petrobras. Por tabela, para o Tesouro, sustentado pelo contribuinte.
Cada vez mais se entende o sentido da afirmação do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa à “Folha de S.Paulo”, entre uma prisão preventiva e outra, de que Abreu e Lima foi aprovada a partir de uma “conta de padeiro”. Quer dizer, a Petrobras, à época sob controle do lulopetismo sindicalista e aparelhada por indicações políticas, mesmo de técnicos da casa, se subordinou à vontade política do Planalto e do partido no poder.
Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento, ele próprio apadrinhado (PP, PT e PMDB), conhece a história por dentro, porque presidiu o conselho de administração da refinaria. E nessa condição atuou na aprovação de inúmeros aditivos em contratos com empreiteiras e fornecedores de bens e serviços em geral, causa da explosão dos custos do projeto — em dólares, quase 800% acima do orçado.
Paulo Roberto está preso, de forma preventiva, a pedido da Polícia Federal, enquanto transcorre a Operação Lava-Jato, sobre bilionário esquema de lavagem de dinheiro administrado pelo doleiro Alberto Youssef, antigo conhecido do submundo da política. Impossível não relacionar uma coisa com a outra.
Interesses de partidos, ideologias e pessoas fizeram com que o custo operacional da refinaria deva ser duas vezes superior à média mundial
A Petrobras oficialmente insiste que tudo transcorre dentro da normalidade, enquanto o governo atua no front político para evitar qualquer possibilidade de investigação séria no Congresso, onde há uma CPI chapa-branca instalada no Senado e outra, mista, de deputados e senadores, em que existe algum risco para o Planalto.
Mas, apesar de todas as manobras, os gritantes desmandos na execução do projeto da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, continuam a se impor por si mesmos. São tamanhos os desvios que, recorrendo à imagem desgastada do lixo jogado para baixo do tapete, conclui-se que a capacidade de toda a indústria de tecelagem não parece capaz de encobrir tudo que tem sido descoberto nessa história exemplar de como não se pode subordinar a ação do Estado a interesses de partidos, ideologias e pessoas. Houve a conjugação desses três fatores no escândalo de Abreu e Lima.
Não é sempre, mesmo na indústria do petróleo, onde as cifras são contabilizadas em bilhões de dólares, que um projeto orçado há 11 anos em US$ 2,3 bilhões chega a US$ 18,5 bilhões, dado de abril, e pode ter um custo final de US$ 20,1 bilhões.
Reportagens publicados pelo GLOBO domingo e ontem traçam o roteiro de como o projeto, uma decisão conjunta dos amigos e aliados político-ideológicos Lula e Hugo Chávez, atropelou a sensatez e relatórios técnicos, para fazer surgir uma refinaria cujo preço do barril refinado será de US$ 87 mil, mais que o dobro da média mundial. E pior para o Brasil, pois Chávez morreu e os venezuelanos, que já não colocavam dinheiro no projeto, deixaram de vez a pesada fatura com a Petrobras. Por tabela, para o Tesouro, sustentado pelo contribuinte.
Cada vez mais se entende o sentido da afirmação do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa à “Folha de S.Paulo”, entre uma prisão preventiva e outra, de que Abreu e Lima foi aprovada a partir de uma “conta de padeiro”. Quer dizer, a Petrobras, à época sob controle do lulopetismo sindicalista e aparelhada por indicações políticas, mesmo de técnicos da casa, se subordinou à vontade política do Planalto e do partido no poder.
Paulo Roberto Costa, diretor de Abastecimento, ele próprio apadrinhado (PP, PT e PMDB), conhece a história por dentro, porque presidiu o conselho de administração da refinaria. E nessa condição atuou na aprovação de inúmeros aditivos em contratos com empreiteiras e fornecedores de bens e serviços em geral, causa da explosão dos custos do projeto — em dólares, quase 800% acima do orçado.
Paulo Roberto está preso, de forma preventiva, a pedido da Polícia Federal, enquanto transcorre a Operação Lava-Jato, sobre bilionário esquema de lavagem de dinheiro administrado pelo doleiro Alberto Youssef, antigo conhecido do submundo da política. Impossível não relacionar uma coisa com a outra.
Administrar o tempo - MERVAL PEREIRA
O GLOBO - 24/06
A uma semana do prazo final para a definição das candidaturas para a eleição deste ano, quem soube administrar melhor o tempo de decisões, uma arte da política, levou vantagem na armação das coligações. No lado da oposição, o PSDB saiu na frente do PSB nesta primeira etapa da disputa, muito porque o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos perdeu tempo administrando sua relação com a Rede de Marina Silva.
A união com a ex-senadora pareceu, no primeiro momento, uma jogada de mestre de Campos para fortalecer a oposição, mas, com o passar do tempo, Marina mostrou-se mais isolacionista do que Campos se dispunha a ser. Marina levou o PSB a se colocar como oposição tanto ao PT quanto ao PSDB, na tentativa de marcar uma diferenciação entre as candidaturas de Campos e Aécio e quebrar a polarização dos dois principais concorrentes à Presidência.
A estratégia não funcionou, muito também porque Campos escolheu a posição dúbia de centrar suas críticas à presidente Dilma e preservar o ex-presidente Lula, o que retirou de sua candidatura a marca de oposicionista, deixando o PSDB de Aécio livre nessa raia.
A união implícita do PSB com o PSDB caracterizava a candidatura de Campos na área oposicionista, e o potencial apoio recíproco no segundo turno fortalecia ambas as candidaturas. Na análise dos tucanos, Campos piscou muito cedo ao se colocar também como oposição ao PSDB, e deixou crescer a impressão de que poderia ser um aliado em potencial do PT no segundo turno, devido à sua ligação com Lula.
O ex-presidente também ajudou a colocar Campos na defensiva ao dizer que ele não podia exagerar nas críticas, porque, até pouco tempo, estava no campo governista. Lula, como já fizera anteriormente com José Serra, deixou sempre claro que sua candidata era Dilma, retirando a chance de que petistas descontentes encontrassem na candidatura de Campos uma alternativa na área de influência petista.
O receio de ficar sem identidade diante do eleitor confirmou-se com a queda nas pesquisas. Por isso, nas últimas semanas, Campos voltou ao ponto de partida para fazer alianças pragmáticas, como as que fechou em SP, apoiando o governador Geraldo Alckmin, e no Rio, em apoio à candidatura de Lindbergh Farias, do PT, ao governo do estado, contra a opinião de Marina.
O que perdeu em coerência ganhou em apoio político em dois dos principais colégios eleitorais do país. Em Minas, é possível que acabe mesmo apoiando a candidatura tucana de Pimenta da Veiga, como era o plano original. Já Aécio Neves conseguiu o que era considerado impossível: unir o PSDB.
Por incrível que pareça, o PSDB hoje é o único partido na disputa unido em torno da candidatura do senador mineiro, inclusive a regional paulista do partido. A administração inteligente do tempo partidário deu frutos, com a adesão do PTB à candidatura nacional e o acordo com o DEM no Rio para apoiar a candidatura de Pezão, do PMDB, ao governo do estado.
Deixando as convenções para o último dia do prazo oficial, Aécio ganhou tempo para negociar apoios e ainda espera duas novas defecções no bloco governista. A adesão do PSD, que seria a cereja no bolo com a indicação de Henrique Meirelles para a vice-presidência na sua chapa, parece difícil de se concretizar, mas é possível que o PP se decida pela neutralidade, o que tiraria alguns minutos da propaganda de Dilma.
A presidente, por sua vez, tem como seu grande apoio Lula, que traz com ele a expectativa de poder que mantém unida a maioria dos partidos da base aliada. Mas, se não reverter a situação de declínio em que se encontra nas pesquisas, mesmo estando à frente da disputa, pode ser simplesmente abandonada por seus aliados durante a campanha eleitoral.
A maioria deles entra dividido na campanha, mesmo os que oficialmente apoiam sua reeleição, até o PT, que tem em Lula seu candidato natural. O PMDB já tem dissidências abertas em vários estados. A maioria do PSD está em coligação com o PSDB nos estados, e somente a garantia pessoal do criador do partido, o ex-prefeito Gilberto Kassab, mantém o apoio oficial à reeleição de Dilma. O PP, mesmo que dê o tempo de propaganda ao PT, continuará dividido.
O que os une é a expectativa de vitória, que, mais que nunca, Lula mantém viva no banco de reservas, como principal cabo eleitoral de Dilma, ou, em último caso, como muitos ainda sonham, esperança de gol nos minutos finais do jogo, como Messi fez com a Argentina.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Estímulo à intolerância, ao ódio e à divisão do País”
Aécio Neves (PSDB) definindo as ameaças do PT de perseguir os críticos do governo
Abin cria aplicativo clone do Whatsapp
Após a espionagem dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras, que não foi capaz de evitar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) criou um aplicativo de troca instantânea de mensagens semelhante ao consagrado Whatsapp. Batizado de "Whatsbin", o aplicativo dos arapongas da Abin se chama na verdade Athenas e garante utilizar um sistema de mensagens criptografadas que seriam "ingrampeáveis".
Mercado
O “Whatsbin” interessa a políticos poderosos de Brasília, que temem a quebra de sigilo, porque seria, além de “ingrampeável”, “irrastreável”.
Clientela
Várias autoridades do governo passaram a usar o “Whatsbin”, como o secretário-adjunto da Casa Civil, Gilson Alceu Bittencourt.
‘Te amo’
Entre os “traídos” pelo Whatsapp estão o doleiro Alberto Youssef e o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), pegos em grampos dos federais.
Flagra
A Operação Lava Jato, da PF, flagrou mais de duzentas mensagens de Whatsapp do deputado André Vargas (PT-PR) com o doleiro Youssef.
PF alega sigilo
Ignora-se o destino de dezenas de armas que a Polícia Federal destruiu quando começou a utilizar somente pistolas Glock em serviço. Confrontada num pedido de acesso à Lei da Informação, a PF alegou “informação sigilosa” para preservar “a segurança da sociedade e do Estado”, mesma alegação dos cartões corporativos do Planalto, recordistas em “sigilo” e gastança. Também não revela o nº de armas.
Mão no gatilho
A PF negou-se a dizer quem autorizou e também se as armas teriam sido entregues ao Exército, como deveria, a fim de destruí-las.
Falou demais
Muitos petistas reclamaram do interminável discurso de Dilma na convenção do PT. Boa parte dos delegados foi embora antes do final.
Base de lançamento
Merece uma chuva de ovos o jerico que colocou em pauta na Câmara dos Deputados um projeto criando o Dia Nacional do Ovo.
Nem pensar
Dos 11 pontos previstos para o Live Site, o “Fan Fest” dos Jogos Olímpicos, um já foi descartado: Santa Tereza. A ideia foi abandonada pelo Comitê de Segurança das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Pedindo demais
Gilberto Kassab (PSD) tentou uma última cartada: sair candidato ao governo paulista com o Solidariedade de vice, mas mantendo o apoio a Dilma. Fechado com Geraldo Alckmin (PSDB), o Solidariedade rejeitou.
Público virou privado
Senadores do PT utilizaram, sem o menor pudor, carro oficial do Senado para ir à convenção nacional do PT que ratificou no último sábado (23), em Brasília, candidatura à reeleição da presidente Dilma.
Sob controle
A cúpula do PP tranquilizou o Planalto quanto a rompimento com Dilma na convenção nacional, nesta quarta (25). O foco de rebeldia se limita ao Rio, de Francisco Dornelles, e Rio Grande do Sul, de Ana Amélia.
Rasteira
Causou mal estar no PP a decisão de Sérgio Cabral (PMDB), orientado pelo tucano Aécio Neves, de rifar a candidatura de Francisco Dornelles (PP) e oferecer a César Maia (DEM) a vaga para disputar ao Senado.
Mestre Maduro
Ignora-se a expertise da Venezuela em Segurança e Defesa, mas o ministro Celso Amorim despachou para lá um coronel do Exército para fazer mestrado de 11 meses às nossas custas, em setembro.
Último dia
O relator Marcos Rogério (PDT-RO) prorrogou até esta terça (24) o prazo para o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) apresentar defesa no Conselho de Ética sobre suas relações com doleiro Alberto Youssef.
Quase lá
Está praticamente fechada a candidatura de José Serra ao Senado em São Paulo. O tucano exige exclusividade, mas o PTB ameaça lançar a candidatura avulsa de Marlene Campos Machado.
Pensando bem...
...dizendo asneiras docemente desmentidas pela família petista, Lula lembra aquele tio velho meio demente, tolerado por ter a chave do cofre.
PODER SEM PUDOR
De política e virgindade
Exímio frasista, Geddel Vieira Lima certa vez reuniu a bancada da Bahia na Câmara, logo após a sua posse como ministro da Integração, sob o impacto da sugestão do então presidente Lula para que o americano George W. Bush buscasse seu "ponto G". Geddel resolveu explicar por que ele, de oposição ao PT, aliou-se a Lula:
- Em tempo de citações eróticas, devo dizer que aos 18 anos eu definia o caráter da mulher pela virgindade; aos 48, considero isso uma besteira...
Hoje aos 55 anos, ele se aligou aos "carlistas" na Bahia, que sempre o atacaram, para enfrentar a chapa liderada pelo PT.
Aécio Neves (PSDB) definindo as ameaças do PT de perseguir os críticos do governo
Abin cria aplicativo clone do Whatsapp
Após a espionagem dos Estados Unidos contra autoridades brasileiras, que não foi capaz de evitar, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) criou um aplicativo de troca instantânea de mensagens semelhante ao consagrado Whatsapp. Batizado de "Whatsbin", o aplicativo dos arapongas da Abin se chama na verdade Athenas e garante utilizar um sistema de mensagens criptografadas que seriam "ingrampeáveis".
Mercado
O “Whatsbin” interessa a políticos poderosos de Brasília, que temem a quebra de sigilo, porque seria, além de “ingrampeável”, “irrastreável”.
Clientela
Várias autoridades do governo passaram a usar o “Whatsbin”, como o secretário-adjunto da Casa Civil, Gilson Alceu Bittencourt.
‘Te amo’
Entre os “traídos” pelo Whatsapp estão o doleiro Alberto Youssef e o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA), pegos em grampos dos federais.
Flagra
A Operação Lava Jato, da PF, flagrou mais de duzentas mensagens de Whatsapp do deputado André Vargas (PT-PR) com o doleiro Youssef.
PF alega sigilo
Ignora-se o destino de dezenas de armas que a Polícia Federal destruiu quando começou a utilizar somente pistolas Glock em serviço. Confrontada num pedido de acesso à Lei da Informação, a PF alegou “informação sigilosa” para preservar “a segurança da sociedade e do Estado”, mesma alegação dos cartões corporativos do Planalto, recordistas em “sigilo” e gastança. Também não revela o nº de armas.
Mão no gatilho
A PF negou-se a dizer quem autorizou e também se as armas teriam sido entregues ao Exército, como deveria, a fim de destruí-las.
Falou demais
Muitos petistas reclamaram do interminável discurso de Dilma na convenção do PT. Boa parte dos delegados foi embora antes do final.
Base de lançamento
Merece uma chuva de ovos o jerico que colocou em pauta na Câmara dos Deputados um projeto criando o Dia Nacional do Ovo.
Nem pensar
Dos 11 pontos previstos para o Live Site, o “Fan Fest” dos Jogos Olímpicos, um já foi descartado: Santa Tereza. A ideia foi abandonada pelo Comitê de Segurança das Olimpíadas do Rio de Janeiro.
Pedindo demais
Gilberto Kassab (PSD) tentou uma última cartada: sair candidato ao governo paulista com o Solidariedade de vice, mas mantendo o apoio a Dilma. Fechado com Geraldo Alckmin (PSDB), o Solidariedade rejeitou.
Público virou privado
Senadores do PT utilizaram, sem o menor pudor, carro oficial do Senado para ir à convenção nacional do PT que ratificou no último sábado (23), em Brasília, candidatura à reeleição da presidente Dilma.
Sob controle
A cúpula do PP tranquilizou o Planalto quanto a rompimento com Dilma na convenção nacional, nesta quarta (25). O foco de rebeldia se limita ao Rio, de Francisco Dornelles, e Rio Grande do Sul, de Ana Amélia.
Rasteira
Causou mal estar no PP a decisão de Sérgio Cabral (PMDB), orientado pelo tucano Aécio Neves, de rifar a candidatura de Francisco Dornelles (PP) e oferecer a César Maia (DEM) a vaga para disputar ao Senado.
Mestre Maduro
Ignora-se a expertise da Venezuela em Segurança e Defesa, mas o ministro Celso Amorim despachou para lá um coronel do Exército para fazer mestrado de 11 meses às nossas custas, em setembro.
Último dia
O relator Marcos Rogério (PDT-RO) prorrogou até esta terça (24) o prazo para o deputado Luiz Argôlo (SDD-BA) apresentar defesa no Conselho de Ética sobre suas relações com doleiro Alberto Youssef.
Quase lá
Está praticamente fechada a candidatura de José Serra ao Senado em São Paulo. O tucano exige exclusividade, mas o PTB ameaça lançar a candidatura avulsa de Marlene Campos Machado.
Pensando bem...
...dizendo asneiras docemente desmentidas pela família petista, Lula lembra aquele tio velho meio demente, tolerado por ter a chave do cofre.
PODER SEM PUDOR
De política e virgindade
Exímio frasista, Geddel Vieira Lima certa vez reuniu a bancada da Bahia na Câmara, logo após a sua posse como ministro da Integração, sob o impacto da sugestão do então presidente Lula para que o americano George W. Bush buscasse seu "ponto G". Geddel resolveu explicar por que ele, de oposição ao PT, aliou-se a Lula:
- Em tempo de citações eróticas, devo dizer que aos 18 anos eu definia o caráter da mulher pela virgindade; aos 48, considero isso uma besteira...
Hoje aos 55 anos, ele se aligou aos "carlistas" na Bahia, que sempre o atacaram, para enfrentar a chapa liderada pelo PT.
segunda-feira, junho 23, 2014
Afetações de um vira-lata - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 23/06
Sofrer de bovarismo cultural é achar que existe uma vida maravilhosa do outro lado do Atlântico
A afetação com vinhos é um sintoma clássico. Chegamos ao ponto de ser melhor não falar sobre vinhos em jantares inteligentes para que não pensem que somos gente que faz curso de enologia. Na verdade, quem entende mesmo de vinhos deve ficar calado quando os outros começam a expor seus cursos feitos por aí. Nunca se deve usar expressões como "amadeirado".
Sim, falo das afetações típicas de brasileiros e paulistanos, mais especificamente. A burguesia sempre sofreu de um complexo de vira-lata em relação à aristocracia medieval, porque esta era o que era, enquanto a burguesia é o que tem, e nada mais.
Quando atravessamos o Atlântico e chegamos ao Brasil, a agonia da burguesia com sua condição vira-lata piora. Desesperados buscam passaportes italianos para poderem, num momento de glória, pegar a fila dos passaportes europeus ao entrar na Europa. O desespero fica maior se não tiver ninguém pra ver os 15 minutos de fama na fila dos passaportes europeus. Quem viaja sozinho busca com o coração na boca algum brasileiro coitado com passaporte brasileiro para que ele veja a glória do pseudo-italiano.
Outro sintoma da mesma patologia é a tentativa de encontrar nobreza na ancestralidade. Hipótese pouco provável porque normalmente quem está bem nunca imigra para lugar nenhum. Todo imigrante é um coitado, por definição.
Mas, talvez uma das afetações mais terríveis, e muito comum nesta época de Copa do Mundo, é ficar falando mal do Brasil. Claro, o Brasil é mesmo um problema. A Copa do Mundo trouxe à tona de forma evidente, sob os holofotes do mundo, nossa incompetência em infraestrutura. E, de fato, o Brasil é levado pouco a sério por aí. O jornalismo internacional está muito mais atento à África e à Ásia do que à América Latina. Somos um continente esquecido, para o bem e para o mal. Mas, a afetação vira-lata vai muito além da consciência de nossas mazelas.
Vejamos. Ela se manifesta na mania de usar expressões (hoje um pouco fora de moda) como "coisa de primeiro mundo". A tentação de comparar o Brasil com a Europa é a mais "chique", porque inclusive mostra que o fulano é "viajado" --expressão triste por definição. Os mais ingênuos comparam o Brasil com os EUA, os mais afetados comparam com a Europa ocidental porque os EUA "eram" capitalistas selvagens. Digo "eram" porque os EUA paulatinamente se transformam em um dos países de maior invasão da vida privada pelo governo federal.
Quer um exemplo banal? A vida real é mesmo banal, quem não sabe disso e imagina que existe uma "vida chique e especial" por aí é gente que sofre de bovarismo cultural. Sofrer de bovarismo cultural é achar que existe uma vida maravilhosa do outro lado do Atlântico que só gente inteligente conhece.
Mas, voltemos ao exemplo banal. Dizer que no Brasil não se respeita fila e que na Europa se respeita é coisa de quem nunca viajou muito mesmo. Muitos europeus furam a fila na maior cara de pau, dando as mais variadas razões. Às vezes, tenho a impressão que os brasileiros respeitam fila com muito mais frequência.
Outra afetação é querer ir a restaurantes "melhores do mundo". A fila de espera pode durar meses. Restaurantes assim são aquele tipo de lugar que você vai mais pra ser visto lá do que pela comida mesmo, que às vezes é tão chique que o gosto se perde na sofisticação fake.
Claro, bons restaurantes existem, mas nada tem a ver com excessos de propaganda.
No final das contas, como sempre, toda elegância é discreta, assim como toda virtude é silenciosa. Esta é, talvez, uma das maiores contradições do mundo contemporâneo pautado pelo ridículo das redes sociais: todo mundo tem que aparecer para existir. Esta contradição aparece, por exemplo, quando reclamamos de que as pessoas invadem nossa privacidade quando a maioria de nós "posta tudo" pra ser visto.
A propósito, a entrevista de Zygmunt Bauman, "Vigilância Líquida", recém-publicada no Brasil, é uma boa reflexão sobre este desejo infantil de ser visto, desejo este que faz de todos nós reféns das informações que nós mesmos "postamos".
Sofrer de bovarismo cultural é achar que existe uma vida maravilhosa do outro lado do Atlântico
A afetação com vinhos é um sintoma clássico. Chegamos ao ponto de ser melhor não falar sobre vinhos em jantares inteligentes para que não pensem que somos gente que faz curso de enologia. Na verdade, quem entende mesmo de vinhos deve ficar calado quando os outros começam a expor seus cursos feitos por aí. Nunca se deve usar expressões como "amadeirado".
Sim, falo das afetações típicas de brasileiros e paulistanos, mais especificamente. A burguesia sempre sofreu de um complexo de vira-lata em relação à aristocracia medieval, porque esta era o que era, enquanto a burguesia é o que tem, e nada mais.
Quando atravessamos o Atlântico e chegamos ao Brasil, a agonia da burguesia com sua condição vira-lata piora. Desesperados buscam passaportes italianos para poderem, num momento de glória, pegar a fila dos passaportes europeus ao entrar na Europa. O desespero fica maior se não tiver ninguém pra ver os 15 minutos de fama na fila dos passaportes europeus. Quem viaja sozinho busca com o coração na boca algum brasileiro coitado com passaporte brasileiro para que ele veja a glória do pseudo-italiano.
Outro sintoma da mesma patologia é a tentativa de encontrar nobreza na ancestralidade. Hipótese pouco provável porque normalmente quem está bem nunca imigra para lugar nenhum. Todo imigrante é um coitado, por definição.
Mas, talvez uma das afetações mais terríveis, e muito comum nesta época de Copa do Mundo, é ficar falando mal do Brasil. Claro, o Brasil é mesmo um problema. A Copa do Mundo trouxe à tona de forma evidente, sob os holofotes do mundo, nossa incompetência em infraestrutura. E, de fato, o Brasil é levado pouco a sério por aí. O jornalismo internacional está muito mais atento à África e à Ásia do que à América Latina. Somos um continente esquecido, para o bem e para o mal. Mas, a afetação vira-lata vai muito além da consciência de nossas mazelas.
Vejamos. Ela se manifesta na mania de usar expressões (hoje um pouco fora de moda) como "coisa de primeiro mundo". A tentação de comparar o Brasil com a Europa é a mais "chique", porque inclusive mostra que o fulano é "viajado" --expressão triste por definição. Os mais ingênuos comparam o Brasil com os EUA, os mais afetados comparam com a Europa ocidental porque os EUA "eram" capitalistas selvagens. Digo "eram" porque os EUA paulatinamente se transformam em um dos países de maior invasão da vida privada pelo governo federal.
Quer um exemplo banal? A vida real é mesmo banal, quem não sabe disso e imagina que existe uma "vida chique e especial" por aí é gente que sofre de bovarismo cultural. Sofrer de bovarismo cultural é achar que existe uma vida maravilhosa do outro lado do Atlântico que só gente inteligente conhece.
Mas, voltemos ao exemplo banal. Dizer que no Brasil não se respeita fila e que na Europa se respeita é coisa de quem nunca viajou muito mesmo. Muitos europeus furam a fila na maior cara de pau, dando as mais variadas razões. Às vezes, tenho a impressão que os brasileiros respeitam fila com muito mais frequência.
Outra afetação é querer ir a restaurantes "melhores do mundo". A fila de espera pode durar meses. Restaurantes assim são aquele tipo de lugar que você vai mais pra ser visto lá do que pela comida mesmo, que às vezes é tão chique que o gosto se perde na sofisticação fake.
Claro, bons restaurantes existem, mas nada tem a ver com excessos de propaganda.
No final das contas, como sempre, toda elegância é discreta, assim como toda virtude é silenciosa. Esta é, talvez, uma das maiores contradições do mundo contemporâneo pautado pelo ridículo das redes sociais: todo mundo tem que aparecer para existir. Esta contradição aparece, por exemplo, quando reclamamos de que as pessoas invadem nossa privacidade quando a maioria de nós "posta tudo" pra ser visto.
A propósito, a entrevista de Zygmunt Bauman, "Vigilância Líquida", recém-publicada no Brasil, é uma boa reflexão sobre este desejo infantil de ser visto, desejo este que faz de todos nós reféns das informações que nós mesmos "postamos".
Num filme de terror - JOÃO LUIZ MAUAD
O GLOBO - 23/06
Qualquer novo investimento deve percorrer um labirinto sem fim de controles e processos
Prezada presidente Dilma: em entrevista a jornalistas estrangeiros, quando perguntada sobre as causas do persistente baixo crescimento de nossa economia, vossa senhoria, com saudável e corajosa sinceridade, respondeu que não sabe. Com a experiência de quem trabalha há mais de 30 anos como administrador de empresas e vivenciou várias fases da nossa história econômica, venho, humildemente, tentar ajudá-la a entender o problema.
Para começar, esqueça um pouco os agregados macroeconômicos e concentre-se no ambiente econômico que os investidores precisam enfrentar. Dê uma olhada, por exemplo, num relatório divulgado anualmente pelo Banco Mundial, chamado “doing business" (http://www.doingbusiness.org/). Esse estudo minucioso é baseado na análise quantitativa e qualitativa de dez diferentes aspectos ligados ao ambiente institucional de negócios em centenas de países, com destaque para a burocracia envolvida na abertura e fechamento de empresas, licenciamentos governamentais, contratação de mão-de-obra — principalmente os encargos relacionados à admissão e demissão de pessoal —, registros de propriedade, acesso ao crédito, segurança jurídica dos empreendedores, pagamento de impostos, facilidades (dificuldades) de comércio com o exterior e respeito aos contratos. No relatório de 2014, o Brasil ocupa a 116ª posição geral, entre 189 países.
Para abrir um novo negócio por aqui são necessários, em média, 13 procedimentos burocráticos, que podem levar até 107 dias para cumprir. Para obter as 15 diferentes licenças para erguer um prédio ode-se levar até 400 dias. Quanto aos tributos, além de arcar com um peso de impostos que consomem perto de 70% dos lucros, as empresas precisam de, no mínimo, 2.600 horas anuais para lidar com as obrigações acessórias exigidas pelo fisco.
Tocar qualquer empreendimento por estas plagas é algo comparável a um filme de suspense e terror, em que fantasmas e vorazes monstros estão sempre à espreita, ansiosos para abocanhar a maior parte dos lucros e prontos a opor obstáculos no caminho dos empreendedores.
Qualquer novo investimento deve percorrer um labirinto sem fim de controles e processos, além da má vontade de burocratas e, em certos casos, a oposição de grupos ativistas raivosos e barulhento. Cada etapa de um projeto envolve custos indiretos absurdos. Um incauto que pretenda construir um condomínio residencial, explorar uma mina, abrir uma pequena indústria ou mesmo furar um poço para precisa estar disposto a encarar uma burocracia asfixiante, uma intrincada teia de licenciamentos e um sem número de onipotentes agências reguladoras,com autoridade suficiente para paralisar por tempo indeterminado qualquer empreendimento. Recentemente, a inauguração do novo aeroporto de Natal foi adiada por conta de problemas com o canil para animais em trânsito. Pode isso, presidente? E olha que estamos em época de Copa do Mundo...
Como a senhora pode ver, é um verdadeiro milagre que alguém, à exceção daqueles poucos felizardos agraciados pelo dinheiro fácil e barato do BNDES ou beneficiados por contratos públicos superfaturados, ainda pense em investir aqui.
Qualquer novo investimento deve percorrer um labirinto sem fim de controles e processos
Prezada presidente Dilma: em entrevista a jornalistas estrangeiros, quando perguntada sobre as causas do persistente baixo crescimento de nossa economia, vossa senhoria, com saudável e corajosa sinceridade, respondeu que não sabe. Com a experiência de quem trabalha há mais de 30 anos como administrador de empresas e vivenciou várias fases da nossa história econômica, venho, humildemente, tentar ajudá-la a entender o problema.
Para começar, esqueça um pouco os agregados macroeconômicos e concentre-se no ambiente econômico que os investidores precisam enfrentar. Dê uma olhada, por exemplo, num relatório divulgado anualmente pelo Banco Mundial, chamado “doing business" (http://www.doingbusiness.org/). Esse estudo minucioso é baseado na análise quantitativa e qualitativa de dez diferentes aspectos ligados ao ambiente institucional de negócios em centenas de países, com destaque para a burocracia envolvida na abertura e fechamento de empresas, licenciamentos governamentais, contratação de mão-de-obra — principalmente os encargos relacionados à admissão e demissão de pessoal —, registros de propriedade, acesso ao crédito, segurança jurídica dos empreendedores, pagamento de impostos, facilidades (dificuldades) de comércio com o exterior e respeito aos contratos. No relatório de 2014, o Brasil ocupa a 116ª posição geral, entre 189 países.
Para abrir um novo negócio por aqui são necessários, em média, 13 procedimentos burocráticos, que podem levar até 107 dias para cumprir. Para obter as 15 diferentes licenças para erguer um prédio ode-se levar até 400 dias. Quanto aos tributos, além de arcar com um peso de impostos que consomem perto de 70% dos lucros, as empresas precisam de, no mínimo, 2.600 horas anuais para lidar com as obrigações acessórias exigidas pelo fisco.
Tocar qualquer empreendimento por estas plagas é algo comparável a um filme de suspense e terror, em que fantasmas e vorazes monstros estão sempre à espreita, ansiosos para abocanhar a maior parte dos lucros e prontos a opor obstáculos no caminho dos empreendedores.
Qualquer novo investimento deve percorrer um labirinto sem fim de controles e processos, além da má vontade de burocratas e, em certos casos, a oposição de grupos ativistas raivosos e barulhento. Cada etapa de um projeto envolve custos indiretos absurdos. Um incauto que pretenda construir um condomínio residencial, explorar uma mina, abrir uma pequena indústria ou mesmo furar um poço para precisa estar disposto a encarar uma burocracia asfixiante, uma intrincada teia de licenciamentos e um sem número de onipotentes agências reguladoras,com autoridade suficiente para paralisar por tempo indeterminado qualquer empreendimento. Recentemente, a inauguração do novo aeroporto de Natal foi adiada por conta de problemas com o canil para animais em trânsito. Pode isso, presidente? E olha que estamos em época de Copa do Mundo...
Como a senhora pode ver, é um verdadeiro milagre que alguém, à exceção daqueles poucos felizardos agraciados pelo dinheiro fácil e barato do BNDES ou beneficiados por contratos públicos superfaturados, ainda pense em investir aqui.
Solene esnobada - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 23/06
RIO DE JANEIRO - Quem imaginava que a Copa seria uma vitrine para o Brasil vender seu potencial turístico --com clipes espetaculares de paisagens brasileiras, antes e depois da transmissão dos jogos pelo pool controlado pela Fifa-- já tirou o cavalo da chuva. As vinhetas oficiais se limitam a um desenho chinfrim e a um rápido sobrevoo de cada cidade-sede, logo cortando para o estádio visto de cima e mergulhando direto no gramado. O governo, ao sentar-se com a Fifa para planejar a Copa, esqueceu-se de reservar uma cadeira para o ministro do Turismo.
Com isso, a plateia de bilhões da Copa continuará alheia à Floresta Amazônica, às cidades mineiras, às igrejas baianas, às cataratas do Iguaçu, ao Pantanal, ao Círio de Nazaré, ao bumba meu boi, ao Carnaval etc. Nem mesmo a orla do Rio mereceu um singelo take. Só há uma explicação para essa solene esnobada: a Fifa não conseguiu registrar o domínio dos nossos postais. E ela só se interessa pelos produtos e marcas que detém.
Daí que as únicas imagens oficiais da Copa são as que se passam dentro das "arenas". E nada mais parecido com uma "arena" da Fifa do que outra "arena" da Fifa. A grã-fina de Nelson Rodrigues pode ter entrado no Maracanã e perguntado quem era a bola, mas sabia que estava no Maracanã. Hoje, para identificar um estádio brasileiro, só lendo o nome da cidade na lateral à beira do gramado.
O SporTV faz bem em cobrir a Copa a partir de um cenário querido dos cariocas e, até então, nunca usado para esse fim: a ilha Fiscal. Palco do último baile do Império, com o Pão de Açúcar e a baía de Guanabara ao fundo, a ilha Fiscal não tem nem sombra da visitação que merece ter. A tremenda exposição que está recebendo deverá multiplicar seu apelo no turismo interno.
Só falta algum governante em fim de mandato criar coragem e resolver dar um baile por lá.
RIO DE JANEIRO - Quem imaginava que a Copa seria uma vitrine para o Brasil vender seu potencial turístico --com clipes espetaculares de paisagens brasileiras, antes e depois da transmissão dos jogos pelo pool controlado pela Fifa-- já tirou o cavalo da chuva. As vinhetas oficiais se limitam a um desenho chinfrim e a um rápido sobrevoo de cada cidade-sede, logo cortando para o estádio visto de cima e mergulhando direto no gramado. O governo, ao sentar-se com a Fifa para planejar a Copa, esqueceu-se de reservar uma cadeira para o ministro do Turismo.
Com isso, a plateia de bilhões da Copa continuará alheia à Floresta Amazônica, às cidades mineiras, às igrejas baianas, às cataratas do Iguaçu, ao Pantanal, ao Círio de Nazaré, ao bumba meu boi, ao Carnaval etc. Nem mesmo a orla do Rio mereceu um singelo take. Só há uma explicação para essa solene esnobada: a Fifa não conseguiu registrar o domínio dos nossos postais. E ela só se interessa pelos produtos e marcas que detém.
Daí que as únicas imagens oficiais da Copa são as que se passam dentro das "arenas". E nada mais parecido com uma "arena" da Fifa do que outra "arena" da Fifa. A grã-fina de Nelson Rodrigues pode ter entrado no Maracanã e perguntado quem era a bola, mas sabia que estava no Maracanã. Hoje, para identificar um estádio brasileiro, só lendo o nome da cidade na lateral à beira do gramado.
O SporTV faz bem em cobrir a Copa a partir de um cenário querido dos cariocas e, até então, nunca usado para esse fim: a ilha Fiscal. Palco do último baile do Império, com o Pão de Açúcar e a baía de Guanabara ao fundo, a ilha Fiscal não tem nem sombra da visitação que merece ter. A tremenda exposição que está recebendo deverá multiplicar seu apelo no turismo interno.
Só falta algum governante em fim de mandato criar coragem e resolver dar um baile por lá.
A revolução da lei - VINICIUS MOTA
FOLHA DE SP - 23/06
SÃO PAULO - Faz sentido o Movimento Passe Livre não querer criminalizar os chamados black blocs, que liberam energia revolucionária quebrando lojas, bens públicos e agências bancárias. Ambos, anticatraqueiros e mascarados, brincam no jardim da infância a que regrediu certa ação política de esquerda no país.
Nesse terreno fantástico, embalado em construtivismo poético, toda repressão há de ser repudiada. Toda regra de conduta que pretenda limitar o desejo original e fraterno do "coletivo" deve ser rejeitada.
Esses garotos mimados --alguns entrando na quarta década de vida-- dão valor absoluto a sua vontade. Em seu playground anticapitalista, a falta de limites para a ação, e de quem os questione com autoridade, favorece a confusão mental.
A imaturidade reflexiva os impede de enxergar que grande presente deram aos patrões, cujo vale-transporte repassado aos trabalhadores ficou congelado em razão dos protestos do ano passado. Tampouco vislumbram o golpe duradouro que isso representou na capacidade da prefeitura de investir no bem-estar urbano de milhões de paulistanos mal remediados.
Num país ainda infectado pelo patrimonialismo, cujos beneficiários atropelam os deveres legais em nome de sua vontade e seu interesse, revolucionário é submeter todos os cidadãos ao conjunto de regras da convivência civil. Isso significa responsabilizar, reprimir e criminalizar quem desrespeita esse acervo civilizatório.
Depredar patrimônio é crime. Fazer manifestação de rua sem aviso prévio às autoridades afronta a Constituição. O direito de circular na cidade é tão importante quanto o de reunir-se e o de protestar. Daí decorre a necessidade de negociar em que locais e sob quais restrições de espaço ocorrerão os atos coletivos.
A qualidade da vida civil brasileira dará um salto quando todos se sentirem responsabilizáveis por suas atitudes públicas.
SÃO PAULO - Faz sentido o Movimento Passe Livre não querer criminalizar os chamados black blocs, que liberam energia revolucionária quebrando lojas, bens públicos e agências bancárias. Ambos, anticatraqueiros e mascarados, brincam no jardim da infância a que regrediu certa ação política de esquerda no país.
Nesse terreno fantástico, embalado em construtivismo poético, toda repressão há de ser repudiada. Toda regra de conduta que pretenda limitar o desejo original e fraterno do "coletivo" deve ser rejeitada.
Esses garotos mimados --alguns entrando na quarta década de vida-- dão valor absoluto a sua vontade. Em seu playground anticapitalista, a falta de limites para a ação, e de quem os questione com autoridade, favorece a confusão mental.
A imaturidade reflexiva os impede de enxergar que grande presente deram aos patrões, cujo vale-transporte repassado aos trabalhadores ficou congelado em razão dos protestos do ano passado. Tampouco vislumbram o golpe duradouro que isso representou na capacidade da prefeitura de investir no bem-estar urbano de milhões de paulistanos mal remediados.
Num país ainda infectado pelo patrimonialismo, cujos beneficiários atropelam os deveres legais em nome de sua vontade e seu interesse, revolucionário é submeter todos os cidadãos ao conjunto de regras da convivência civil. Isso significa responsabilizar, reprimir e criminalizar quem desrespeita esse acervo civilizatório.
Depredar patrimônio é crime. Fazer manifestação de rua sem aviso prévio às autoridades afronta a Constituição. O direito de circular na cidade é tão importante quanto o de reunir-se e o de protestar. Daí decorre a necessidade de negociar em que locais e sob quais restrições de espaço ocorrerão os atos coletivos.
A qualidade da vida civil brasileira dará um salto quando todos se sentirem responsabilizáveis por suas atitudes públicas.
Ainda falta muito III - PAULO GUEDES
O GLOBO - 23/06
Os países escolhem a prosperidade ou a pobreza de acordo com as instituições que plantam. O empobrecimento da Argentina, de Cuba e da Venezuela não se deu por acidente. E as melhorias no Chile, na Colômbia e no Peru não foram obra do acaso. O Brasil precisa avançar nessa longa estrada de aperfeiçoamento institucional que conduz à Grande Sociedade Aberta. Somos uma democracia, mas ainda em construção. Uma economia de mercado emergente, embora travada por intervencionismo excessivo. Um estado de direito também em construção. Temos redes de solidariedade, ainda precárias. Uma imprensa livre, mesmo sob ameaça de controle social pelo Estado. Moeda decente, apesar de indefinições nos regimes monetário e fiscal. Marcos regulatórios ainda instáveis. Muito a construir.
O impeachment do presidente Collor, há pouco mais de 20 anos, teria sido o momento de afirmação do Congresso com a demarcação da independência do Poder Legislativo. Da mesma forma que os ministros do Supremo tribunal Federal (STF) teriam agora demarcado a independência do Poder Judiciário pela condenação da compra de apoio parlamentar por representantes do Executivo. Mas pode haver também uma interpretação bastante cética sobre tais avanços. Teria Collor caído porque era de direita e não quis repartir o butim? Teria caído por arrogância frente à esquerda hegemônica e inexperiência ante um establishment conservador e corrupto? Teria sua queda apenas revelado o lubrificante da governabilidade , essa busca disfuncional e despolitizada de sustentação parlamentar movida a corrupção, tráfico de influência e desvio de recursos públicos? Estaríamos sob a ilusão da independência do Judiciário exclusivamente pelo histórico protagonismo de Joaquim Barbosa?
O julgamento da História dirá se foram ilusões momentâneas ou episódios virtuosos de uma evolução institucional. Esta última interpretação, favorável, seria reforçada por um compromisso dos candidatos à Presidência com a reforma política. Com práticas decentes de sustentação parlamentar, como fidelidade partidária e cláusula de votação em bloco, fortalecendo os partidos, reforçando alianças partidárias no atacado e eliminando a compra de votos no varejo. Não haveria melhor celebração dos 30 anos de redemocratização.
O impeachment do presidente Collor, há pouco mais de 20 anos, teria sido o momento de afirmação do Congresso com a demarcação da independência do Poder Legislativo. Da mesma forma que os ministros do Supremo tribunal Federal (STF) teriam agora demarcado a independência do Poder Judiciário pela condenação da compra de apoio parlamentar por representantes do Executivo. Mas pode haver também uma interpretação bastante cética sobre tais avanços. Teria Collor caído porque era de direita e não quis repartir o butim? Teria caído por arrogância frente à esquerda hegemônica e inexperiência ante um establishment conservador e corrupto? Teria sua queda apenas revelado o lubrificante da governabilidade , essa busca disfuncional e despolitizada de sustentação parlamentar movida a corrupção, tráfico de influência e desvio de recursos públicos? Estaríamos sob a ilusão da independência do Judiciário exclusivamente pelo histórico protagonismo de Joaquim Barbosa?
O julgamento da História dirá se foram ilusões momentâneas ou episódios virtuosos de uma evolução institucional. Esta última interpretação, favorável, seria reforçada por um compromisso dos candidatos à Presidência com a reforma política. Com práticas decentes de sustentação parlamentar, como fidelidade partidária e cláusula de votação em bloco, fortalecendo os partidos, reforçando alianças partidárias no atacado e eliminando a compra de votos no varejo. Não haveria melhor celebração dos 30 anos de redemocratização.
Além da mediocridade - LUIS EDUARDO ASSIS
O ESTADÃO - 23/06
Nem o mais lúgubre dos ogros poderia ter antecipado este final bizarro para o mandato da presidente Dilma. Tudo parecia fácil no fim de 2010, quando o crescimento do PIB alcançou 7,3%, o mais alto em 24 anos. Muita coisa mudou desde então. Diz-se do bom goleiro que não basta ser tecnicamente qualificado; é preciso também ter sorte. Pois a política econômica dos últimos anos, ao revés, não só padeceu de equívocos lamentáveis, como também teve muito azar. Tudo indica que as eleições serão disputadas com indicadores econômicos ainda mais fracos dos que hoje temos. A julgar pela desaceleração recente, não será surpresa se no dia 29 de agosto próximo, quando o IBGE divulgar o PIB do segundo trimestre, ficar caracterizado que o Brasil está em recessão.
Como sair deste marasmo? Como desatar o nó? É preciso constatar, em primeiro lugar, que o beco em que metemos nossa jamanta é muito estreito. O raio de manobra é pequeno e não há soluções simples. Portanto, convém rechaçar três ideias encontradiças nestes tempos de embate eleitoral. A primeira é que um novo ciclo de crescimento poderia ser deflagrado se o novo governo (mesmo que ele seja velho) atenda à pauta das reivindicações populares das manifestações de junho de 2013. Tolice. Uma das características dessas marchas foi justamente o seu caráter multifacetado e contraditório ("I contradict myself, I am large, I contain multitudes", já disse W. Whitman). Como é típico de manifestações espontâneas desprovidas de liderança, nada do que foi exigido se assemelha a uma agenda de mudanças exequível e consentânea com as restrições institucionais que manietam o governo. Pedir redução da carga tributária e melhoria dos serviços públicos, por exemplo, é o mesmo que querer ir para o céu sem precisar morrer. Uma segunda falácia é acreditar que, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, o próprio mercado imporá soluções, com o que o novo governo terá apenas que escolher se fará a "lição de casa" (como se o Brasil fosse um aluno relapso) por bem ou por mal. Ora, o mercado não tem - nem deve ter - propostas, compromissos ou soluções. O conceito de felicidade para traders e tesoureiros é apenas estar comprado quando o preço de um ativo sobe e vendido quando ele declina (e nunca ao contrário). Se o Brasil vai crescer e o brasileiro prosperar é uma questão secundária. Nem mesmo quando entendido de forma abstrata como o livre jogo das forças de oferta e demanda o mercado oferece pistas para tirar o país da estagnação, já que há instabilidades intrínsecas ao seu funcionamento, como ensinou H. Minsky. Se a expectativa de mudança for frustrada, haverá uma pressão sobre o dólar, o que dificultará o ajuste de preços represados e forçará uma nova rodada de elevação de juros, empurrando a recuperação para 2016. Mas a "lição" dos mercados se esgota aí. É uma punição não pedagógica. Nada garante que disto resulte um novo modelo que engendre um ciclo de crescimento. Por fim, há que se rechaçar a tese de que tudo não passa de uma crise de confiança e que um governo de oposição conseguiria rapidamente acelerar o crescimento. Aqui é necessário fazer a distinção entre duas agendas. É provável, necessário e talvez inevitável que o próximo governo se veja na contingência de corrigir os equívocos mais crassos que foram cometidos recentemente. O atraso dos preços administrados é um exemplo. É evidente que eles serão atualizados após as eleições, mas isto apenas repõe o País nas condições anteriores em que estávamos. Evita o colapso, mas não nos empurra para a frente. Também algo certamente será feito para recuperar, minimamente, a credibilidade das contas públicas. O governo atual abusou a tal ponto de artifícios que hoje alguns indicadores fundamentais como dívida pública e resultado primário começam a perder sentido, tamanha a lista de ressalvas para analisá-los. São medidas importantes, mas paliativas. Colocam-nos de volta à encruzilhada onde escolhemos o caminho errado, mas não definem a rota correta. Se quisermos avançar no ritmo de outros países emergentes, será preciso promover reformas estruturais que redesenhem o pacto social que, aliás, não foi criado pelo atual governo. Nós, brasileiros, escolhemos ter um Estado grande, generoso, benevolente, capaz de fazer as vezes de uma imensa câmara de distribuição de recursos onde, de um lado, entram impostos e, de outro, saem benefícios. Há méritos nisso, na medida em que nos tornamos uma sociedade mais solidária, mas a contrapartida é uma elevada carga tributária e uma pequena capacidade de investimento em projetos de grande envergadura que não atraem a iniciativa privada. Mais: como a expectativa de vida da população aumenta, os gastos com saúde, aposentadoria e pensão crescem mais que proporcionalmente ao crescimento da economia, exigindo novo aumento de impostos ou da dívida pública. Já gastamos com esses itens cerca de 15% do PIB. A tendência é de elevação nos próximos anos. Reformas estruturais, no entanto, não podem ser feitas sem acordos políticos amplos, o que é particularmente penoso neste nosso presidencialismo de coalizão em que numerosos partidos se comportam como grupos organizados que repartem o butim surrupiado do erário. De onde se conclui que o verdadeiro desafio para o novo governo é mais político que econômico. Se das urnas surgir uma liderança capaz de tecer um novo pacto que avance na modernização da economia, temos grande chance de desencadear um novo ciclo de crescimento acelerado. Caso contrário, o cumprimento de uma agenda meramente emergencial nos salvará do colapso apenas para nos colocar novamente na trilha de um crescimento medíocre.
Nem o mais lúgubre dos ogros poderia ter antecipado este final bizarro para o mandato da presidente Dilma. Tudo parecia fácil no fim de 2010, quando o crescimento do PIB alcançou 7,3%, o mais alto em 24 anos. Muita coisa mudou desde então. Diz-se do bom goleiro que não basta ser tecnicamente qualificado; é preciso também ter sorte. Pois a política econômica dos últimos anos, ao revés, não só padeceu de equívocos lamentáveis, como também teve muito azar. Tudo indica que as eleições serão disputadas com indicadores econômicos ainda mais fracos dos que hoje temos. A julgar pela desaceleração recente, não será surpresa se no dia 29 de agosto próximo, quando o IBGE divulgar o PIB do segundo trimestre, ficar caracterizado que o Brasil está em recessão.
Como sair deste marasmo? Como desatar o nó? É preciso constatar, em primeiro lugar, que o beco em que metemos nossa jamanta é muito estreito. O raio de manobra é pequeno e não há soluções simples. Portanto, convém rechaçar três ideias encontradiças nestes tempos de embate eleitoral. A primeira é que um novo ciclo de crescimento poderia ser deflagrado se o novo governo (mesmo que ele seja velho) atenda à pauta das reivindicações populares das manifestações de junho de 2013. Tolice. Uma das características dessas marchas foi justamente o seu caráter multifacetado e contraditório ("I contradict myself, I am large, I contain multitudes", já disse W. Whitman). Como é típico de manifestações espontâneas desprovidas de liderança, nada do que foi exigido se assemelha a uma agenda de mudanças exequível e consentânea com as restrições institucionais que manietam o governo. Pedir redução da carga tributária e melhoria dos serviços públicos, por exemplo, é o mesmo que querer ir para o céu sem precisar morrer. Uma segunda falácia é acreditar que, de uma forma ou de outra, cedo ou tarde, o próprio mercado imporá soluções, com o que o novo governo terá apenas que escolher se fará a "lição de casa" (como se o Brasil fosse um aluno relapso) por bem ou por mal. Ora, o mercado não tem - nem deve ter - propostas, compromissos ou soluções. O conceito de felicidade para traders e tesoureiros é apenas estar comprado quando o preço de um ativo sobe e vendido quando ele declina (e nunca ao contrário). Se o Brasil vai crescer e o brasileiro prosperar é uma questão secundária. Nem mesmo quando entendido de forma abstrata como o livre jogo das forças de oferta e demanda o mercado oferece pistas para tirar o país da estagnação, já que há instabilidades intrínsecas ao seu funcionamento, como ensinou H. Minsky. Se a expectativa de mudança for frustrada, haverá uma pressão sobre o dólar, o que dificultará o ajuste de preços represados e forçará uma nova rodada de elevação de juros, empurrando a recuperação para 2016. Mas a "lição" dos mercados se esgota aí. É uma punição não pedagógica. Nada garante que disto resulte um novo modelo que engendre um ciclo de crescimento. Por fim, há que se rechaçar a tese de que tudo não passa de uma crise de confiança e que um governo de oposição conseguiria rapidamente acelerar o crescimento. Aqui é necessário fazer a distinção entre duas agendas. É provável, necessário e talvez inevitável que o próximo governo se veja na contingência de corrigir os equívocos mais crassos que foram cometidos recentemente. O atraso dos preços administrados é um exemplo. É evidente que eles serão atualizados após as eleições, mas isto apenas repõe o País nas condições anteriores em que estávamos. Evita o colapso, mas não nos empurra para a frente. Também algo certamente será feito para recuperar, minimamente, a credibilidade das contas públicas. O governo atual abusou a tal ponto de artifícios que hoje alguns indicadores fundamentais como dívida pública e resultado primário começam a perder sentido, tamanha a lista de ressalvas para analisá-los. São medidas importantes, mas paliativas. Colocam-nos de volta à encruzilhada onde escolhemos o caminho errado, mas não definem a rota correta. Se quisermos avançar no ritmo de outros países emergentes, será preciso promover reformas estruturais que redesenhem o pacto social que, aliás, não foi criado pelo atual governo. Nós, brasileiros, escolhemos ter um Estado grande, generoso, benevolente, capaz de fazer as vezes de uma imensa câmara de distribuição de recursos onde, de um lado, entram impostos e, de outro, saem benefícios. Há méritos nisso, na medida em que nos tornamos uma sociedade mais solidária, mas a contrapartida é uma elevada carga tributária e uma pequena capacidade de investimento em projetos de grande envergadura que não atraem a iniciativa privada. Mais: como a expectativa de vida da população aumenta, os gastos com saúde, aposentadoria e pensão crescem mais que proporcionalmente ao crescimento da economia, exigindo novo aumento de impostos ou da dívida pública. Já gastamos com esses itens cerca de 15% do PIB. A tendência é de elevação nos próximos anos. Reformas estruturais, no entanto, não podem ser feitas sem acordos políticos amplos, o que é particularmente penoso neste nosso presidencialismo de coalizão em que numerosos partidos se comportam como grupos organizados que repartem o butim surrupiado do erário. De onde se conclui que o verdadeiro desafio para o novo governo é mais político que econômico. Se das urnas surgir uma liderança capaz de tecer um novo pacto que avance na modernização da economia, temos grande chance de desencadear um novo ciclo de crescimento acelerado. Caso contrário, o cumprimento de uma agenda meramente emergencial nos salvará do colapso apenas para nos colocar novamente na trilha de um crescimento medíocre.
Os portos na Terra do Nunca - LEONARDO COELHO RIBEIRO
VALOR ECONÔMICO -23/06
A lei aponta um norte, mas as disposições vão no sentido oposto, produzindo paralisia ou resultados inferiores
O Brasil precisa deixar de ser inimigo de si, saber o que quer e agir de acordo com isso para obter os bons resultados que todos esperam. Do contrário, seguiremos em uma espécie de Terra do Nunca, sem futuro, nem passado, onde os recursos naturais abundam, a vida é maravilhosa e divertida, mas a principal atividade é praticar esgrima com a própria sombra.
É fundamental reafirmar isso, especialmente num ano eleitoral. E observar como essa característica nefasta influencia o desenvolvimento do país. O setor portuário é um exemplo. A recente reforma do marco regulatório dos portos foi movida por alguns grandes objetivos. O primeiro deles, o de superar as dificuldades surgidas no contexto do marco anterior, encabeçado pela Lei 8.630/1993.
A dualidade de regimes exploratórios constitucionalmente prevista fez surgir, naquelas circunstâncias, intensa disputa acerca do tipo de carga que poderia ser movimentada. A lei permitia tanto a prestação de serviços públicos por concessões de portos organizados ou arrendamentos de instalações portuárias, quanto a exploração de atividade econômica habilitada mediante autorização, ao mesmo tempo em que fomentava a concorrência entre portos.
Daí surgiu um litigioso impasse envolvendo a restrição ou o consentimento para a movimentação de cargas de terceiros pelos Terminais de Uso Privativo Misto. A polêmica girava em torno dos custos e vantagens característicos aos arrendamentos, visto que remunerados por tarifa, mas localizados dentro do porto organizado e, por isso, beneficiários de uma infraestrutura já existente. O resultado foi uma grande insegurança para a realização de novos investimentos de parte a parte.
Em atenção a isso, o novo marco regulatório, inaugurado pela Lei nº 12.815/2013, deu cabo à distinção entre carga própria e carga de terceiros, refutando-a ao não lhe prestar qualquer referência enquanto critério diretivo da assimetria regulatória que segue constando do novo arcabouço normativo setorial. Em vez disso, optou por se valer da delimitação tracejada pela poligonal da área do porto organizado para separar, exceção apenas para os casos de Terminais de Uso Privado já instalados dentro dessas áreas, os regimes públicos (das concessões e arrendamentos), do regime privado regulado (das autorizações que habilitam o particular a construir e operar Terminal de Uso Privado).
Um outro objetivo do novo marco regulatório foi o de disciplinar a prorrogação antecipada de arrendamentos em vigor, condicionando-a à concordância do poder concedente e à realização de investimentos. Além disso, a exposição de motivos da Medida Provisória nº 595/2012, convertida posteriormente na Lei 12.815/2013, revela que a reforma do marco regulatório veio para fazer frente às necessidades decorrentes da expansão econômica brasileira.
Em síntese, esse documento afirma que a nova lei busca promover eficiência, por meio da ampliação e modernização da infraestrutura, e do aumento de investimentos públicos e privados no setor. "Choque de oferta", como convencionaram dizer, por inúmeras vezes, os diretores da Antaq. Além de funcionarem como guias interpretativos, esses objetivos fornecem os parâmetros a serem seguidos na elaboração dos incentivos e desincentivos do marco regulatório dos portos, formado pela própria Lei 12.815/2013, seu decreto regulamentador 8.033/2013 e demais normas regulatórios e arranjos contratuais que venham a ser editados.
Ocorre que há uma incoerência entre a lei e alguns dispositivos subsequentes, no que diz respeito aos incentivos para aumentar os investimentos privados no setor.
São três os instrumentos habilitantes para atuar no setor, do ponto de vista de seus regimes e objeto. As concessões e os arrendamentos seguem regimes semelhantes. As primeiras são voltadas à delegação da administração de todo o porto organizado - algo que não conta com exemplos práticos, mas, possivelmente, se aproximaria de uma parceria público-privada administrativa. Ao passo que os arrendamentos dedicam-se a delegar a exploração de áreas específicas dentro do referido porto organizado. Esses dois vínculos se diferenciam do da autorização, basicamente, pelo regime privado - ainda que regulado - que a rege.
Sendo a disciplina dos Terminais de Uso Privado guiada por um regime de características privadas, suas exigências e limitações deveriam ser informadas pela liberdade de iniciativa típica da atividade empresarial. A liberdade é a regra. As exigências e restrições consistem em exceções aplicáveis tão somente quando necessárias e compatíveis aos objetivos que se quer alcançar.
Em contrário a isso, contudo, a implantação do novo marco vem sendo feita com deslizes que transparecem dificuldades em respeitar a lógica dos regimes jurídicos aplicáveis a cada um dos instrumentos habilitantes. Nota-se uma visão estatizante, que torna público o que deve ser privado e limita a concorrência a pretexto de evitar um monopólio impossível. Assim ocorre na autorização, com a falta de um adequado regime de transição para o novo modelo, a exigência de garantias de proposta e contrato, típicas do regime público, e a limitação à expansão territorial de Terminais; e no arrendamento, com o limite à participação de arrendatários em concorrências por novos arrendamentos, mesmo que as tarifas cobradas não sejam livres, mas reguladas.
Ou seja, a lei aponta um norte, mas uma série de disposições vão no sentido oposto, produzindo, invariavelmente, paralisia ou resultados inferiores aos que se poderia alcançar.
A antiutopia pelega - FERNÃO LARA MESQUITA
O ESTADO DE S.PAULO - 23/06
Volta à cena o discurso do ódio. Já não é plantação, é colheita. Nenhum ódio tem sido desprezado pelo partido do "nós" contra "eles", este que patrocina o exército de apedrejadores profissionais que patrulha a internet. Está morto o Brasil em que Gilberto Freyre viveu e há muitos outros ódios no forno. Mas o ódio por trás de todos os outros, o ódio cujo nome o PT que sobrou não ousa mencionar é o ódio ao merecimento.
Há uma boa razão para isso.
O PT não é causa, o PT é consequência. Essa corrupção toda não está no ponto de chegada, está no ponto de partida.
O que é essa "expertise" em se apropriar das bandeiras alheias e pervertê-las para sustentar a Contrarrevolução em nome da Revolução senão o velho expediente "corporativista" que Portugal inventou lá atrás para "fazer a revolução antes que o povo a fizesse" e, assim, abortar a da igualdade perante a lei, da meritocracia e dos representantes submetidos aos representados que vinha derrubando monarquia atrás de monarquia pela Europa afora?
O PT que sobrou é o resultado dessa receita na versão retemperada por Getúlio Vargas apud Benito Mussolini e Juan Domingo Perón. O produto do sindicalismo pelego que saltou do papel de "coadjuvante assalariado" para o de dono do cofre e do Poder, ele próprio.
Essa evolução de "subornado" para "subornante" a que nós todos assistimos não foi apenas natural, portanto, era inevitável.
A receita não poderia resultar em coisa muito diferente.
Junte meia dúzia de "companheiros" dispostos a tudo e funde um sindicato sem trabalhadores associados que o governo vai lhe dar uma teta eterna no grande úbere do imposto sindical. Trate, daí por diante, apenas de não perdê-la nas "eleições" por aclamação desse seu sindicatozinho do nada. É a primeira etapa do curso. Use dinheiro, use intimidação, use a imaginação: vale tudo nesse jogo sem juiz.
Como força auxiliar dessa "forja de lideranças", monte uma justiça paralela e diga a todo sujeito que trabalhou para alguém um dia que contrato, neste país, não vale nada: se ele mentir, inventar e trair, e se cabalar quem se preste a coadjuvá-lo nessa milonga depois de finda a relação, ganha um monte de dinheiro no mole.
"Seja desonesto que o governo garante!", é a mensagem que desce do Olimpo. Essa sempre próspera indústria custou R$ 51 bi aos empregadores brasileiros só no ano passado.
Repita a mesma receita para a criação de partidos do nada. Adicione ao dinheiro do Fundo Partidário o tempo de TV negociável no mercado "spot" da governabilidade e você estará selecionando a "elite" dos mais sem limites entre os que não se põem limites para disputar esse tipo de "liderança".
Cubra tudo com uma categoria de brasileiros "especiais" que, uma vez tocados pela mão que loteia o Estado, nunca mais perde o emprego, nem que não trabalhe, nem que seja pego roubando.
Decore com elementos da pornografia comportamental - essa em que todo mundo trai todo mundo dentro e fora da família; os filhos às mães e estas a eles e daí para baixo tudo, e "Tudo bem! Ai de quem disser o contrário!" - em que todo brasileirinho e toda brasileirinha é sistematicamente treinado pela televisão desde o nascimento.
Está pronto! "Reserve" e deixe fermentar.
Que tipo de país pode resultar dessa mistura? Este cuja festa nacional evoluiu da ingênua "pátria em chuteiras" de há pouco para esta Copa da corrupção com 57 mil soldados do Exército nas ruas para garantir a paz que não há, um para cada brasileiro assassinado no ano passado?
Não é um palpite absurdo...
Enquanto procura a resposta sobre se "é a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte", vá se perguntando que argumento tem uma mãe da favela para convencer seu filho a não entrar para o tráfico e continuar estudando nas nossas escolas públicas porque este é o país onde quem se esforça vai pra frente!
Esse é o único jeito de jogar o jogo do poder que o PT entende; aquele em que o partido nasceu e foi criado. Eventualmente "lá", até por falta de qualquer outro tipo de repertório, é inevitavelmente mais do mesmo que o carregou até ali que o partido fará para manter o que conquistou.
Mas as contas, agora, são outras. Será preciso comprar 50% + 1 de todas as lealdades, o que pode custar a destruição da economia. Para que essa relação de causa e efeito não seja percebida será necessário falsificar as contas nacionais. A confiança do investidor será, porém, a primeira vítima. E então o dilema se apresentará: para que os investimentos voltem será preciso admitir a verdade; mas para admitir a verdade será preciso admitir que se estava mentindo antes. Como, então, manter "aprovada" a farsa exposta senão substituindo a regra de maioria pela do "onguismo pelego"? A lei terá de passar a ser feita na rua; no porrete. Mas isso só será possível se o jornalismo livre for substituído por um "jornalismo" também "pelego"...
Não é, portanto, uma questão de ideologia ou de coerência - e quem se importa com elas? - a progressão da antiutopia pelega do lulopetismo. É um imperativo de sobrevivência.
Há um Brasil submetido à meritocracia - se não por outra razão, porque a internacionalização do jogo econômico o impõe implacavelmente - no qual educação é a única medida do merecimento; e há um Brasil que, a um preço cada vez mais proibitivo para o outro, só subsiste se conseguir mantê-la longe dele. Esses dois Brasis são mutuamente excludentes na nova realidade globalizada. A opção hoje está em entrar nele pelo mérito ou sair do mundo e viver bolivarianamente à margem dele.
Pense nisso antes de decidir qual das alternativas de caminho postas à sua frente conduz ao beco sem saída do ódio e qual a que, com todas as dificuldades que houver, deixa aberta a porta da esperança. Sua escolha vai decidir o destino de toda uma geração.
Volta à cena o discurso do ódio. Já não é plantação, é colheita. Nenhum ódio tem sido desprezado pelo partido do "nós" contra "eles", este que patrocina o exército de apedrejadores profissionais que patrulha a internet. Está morto o Brasil em que Gilberto Freyre viveu e há muitos outros ódios no forno. Mas o ódio por trás de todos os outros, o ódio cujo nome o PT que sobrou não ousa mencionar é o ódio ao merecimento.
Há uma boa razão para isso.
O PT não é causa, o PT é consequência. Essa corrupção toda não está no ponto de chegada, está no ponto de partida.
O que é essa "expertise" em se apropriar das bandeiras alheias e pervertê-las para sustentar a Contrarrevolução em nome da Revolução senão o velho expediente "corporativista" que Portugal inventou lá atrás para "fazer a revolução antes que o povo a fizesse" e, assim, abortar a da igualdade perante a lei, da meritocracia e dos representantes submetidos aos representados que vinha derrubando monarquia atrás de monarquia pela Europa afora?
O PT que sobrou é o resultado dessa receita na versão retemperada por Getúlio Vargas apud Benito Mussolini e Juan Domingo Perón. O produto do sindicalismo pelego que saltou do papel de "coadjuvante assalariado" para o de dono do cofre e do Poder, ele próprio.
Essa evolução de "subornado" para "subornante" a que nós todos assistimos não foi apenas natural, portanto, era inevitável.
A receita não poderia resultar em coisa muito diferente.
Junte meia dúzia de "companheiros" dispostos a tudo e funde um sindicato sem trabalhadores associados que o governo vai lhe dar uma teta eterna no grande úbere do imposto sindical. Trate, daí por diante, apenas de não perdê-la nas "eleições" por aclamação desse seu sindicatozinho do nada. É a primeira etapa do curso. Use dinheiro, use intimidação, use a imaginação: vale tudo nesse jogo sem juiz.
Como força auxiliar dessa "forja de lideranças", monte uma justiça paralela e diga a todo sujeito que trabalhou para alguém um dia que contrato, neste país, não vale nada: se ele mentir, inventar e trair, e se cabalar quem se preste a coadjuvá-lo nessa milonga depois de finda a relação, ganha um monte de dinheiro no mole.
"Seja desonesto que o governo garante!", é a mensagem que desce do Olimpo. Essa sempre próspera indústria custou R$ 51 bi aos empregadores brasileiros só no ano passado.
Repita a mesma receita para a criação de partidos do nada. Adicione ao dinheiro do Fundo Partidário o tempo de TV negociável no mercado "spot" da governabilidade e você estará selecionando a "elite" dos mais sem limites entre os que não se põem limites para disputar esse tipo de "liderança".
Cubra tudo com uma categoria de brasileiros "especiais" que, uma vez tocados pela mão que loteia o Estado, nunca mais perde o emprego, nem que não trabalhe, nem que seja pego roubando.
Decore com elementos da pornografia comportamental - essa em que todo mundo trai todo mundo dentro e fora da família; os filhos às mães e estas a eles e daí para baixo tudo, e "Tudo bem! Ai de quem disser o contrário!" - em que todo brasileirinho e toda brasileirinha é sistematicamente treinado pela televisão desde o nascimento.
Está pronto! "Reserve" e deixe fermentar.
Que tipo de país pode resultar dessa mistura? Este cuja festa nacional evoluiu da ingênua "pátria em chuteiras" de há pouco para esta Copa da corrupção com 57 mil soldados do Exército nas ruas para garantir a paz que não há, um para cada brasileiro assassinado no ano passado?
Não é um palpite absurdo...
Enquanto procura a resposta sobre se "é a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte", vá se perguntando que argumento tem uma mãe da favela para convencer seu filho a não entrar para o tráfico e continuar estudando nas nossas escolas públicas porque este é o país onde quem se esforça vai pra frente!
Esse é o único jeito de jogar o jogo do poder que o PT entende; aquele em que o partido nasceu e foi criado. Eventualmente "lá", até por falta de qualquer outro tipo de repertório, é inevitavelmente mais do mesmo que o carregou até ali que o partido fará para manter o que conquistou.
Mas as contas, agora, são outras. Será preciso comprar 50% + 1 de todas as lealdades, o que pode custar a destruição da economia. Para que essa relação de causa e efeito não seja percebida será necessário falsificar as contas nacionais. A confiança do investidor será, porém, a primeira vítima. E então o dilema se apresentará: para que os investimentos voltem será preciso admitir a verdade; mas para admitir a verdade será preciso admitir que se estava mentindo antes. Como, então, manter "aprovada" a farsa exposta senão substituindo a regra de maioria pela do "onguismo pelego"? A lei terá de passar a ser feita na rua; no porrete. Mas isso só será possível se o jornalismo livre for substituído por um "jornalismo" também "pelego"...
Não é, portanto, uma questão de ideologia ou de coerência - e quem se importa com elas? - a progressão da antiutopia pelega do lulopetismo. É um imperativo de sobrevivência.
Há um Brasil submetido à meritocracia - se não por outra razão, porque a internacionalização do jogo econômico o impõe implacavelmente - no qual educação é a única medida do merecimento; e há um Brasil que, a um preço cada vez mais proibitivo para o outro, só subsiste se conseguir mantê-la longe dele. Esses dois Brasis são mutuamente excludentes na nova realidade globalizada. A opção hoje está em entrar nele pelo mérito ou sair do mundo e viver bolivarianamente à margem dele.
Pense nisso antes de decidir qual das alternativas de caminho postas à sua frente conduz ao beco sem saída do ódio e qual a que, com todas as dificuldades que houver, deixa aberta a porta da esperança. Sua escolha vai decidir o destino de toda uma geração.
Dilma Arantes do Nascimento - VALDO CRUZ
folha de sp - 23/06
BRASÍLIA - Contestada dentro de sua própria equipe, Dilma Rousseff ganhou um voto de confiança de seu time e foi indicada novamente pelo PT, no último sábado, candidata à Presidência da República.
Agora, vai ter de mostrar serviço dentro de campo. Seu criador, Lula, ficou no banco de reservas, mas deseja que sua pupila volte a brilhar como nos velhos tempos em que era chefe da Casa Civil de sua seleção.
Numa reflexão sobre o governo de sua criatura, Lula já fez a seguinte avaliação a interlocutores. Dilma era o Pelé de sua equipe. Driblava, armava as jogadas, fazia gol, dava até canelada quando preciso, mas fazia a diferença dentro de campo.
Depois que assumiu o comando do time, porém, não manteve o mesmo rendimento. Caiu de produção. Lula teme que Dilma seja mais um caso muito comum no futebol. Nem sempre um grande craque nas quatro linhas vira um excelente treinador. Pelé nunca se tornou um.
Ameaçada de perder a posição, Dilma passou a ouvir mais as dicas de seu mentor e a treinar fundamentos em que é questionada, como dialogar mais com empresários, políticos aliados e movimentos sociais.
Terá de suar a camisa para entusiasmar a torcida que anda avaliando mal o desempenho de seu governo. Precisa, por sinal, começar o trabalho dentro de sua própria casa.
A convenção petista do último sábado em nada lembrou os eventos do passado. Tudo muito sofisticado e tecnológico, mas a empolgação soava artificial. Até Lula não estava nos melhores dias. Fez um bom discurso, mas longe dos memoráveis.
Talvez por isso ele tenha conclamado a militância petista a ir para as ruas, algo que deixou de fazer depois que o PT chegou ao poder e virou farinha do mesmo saco político.
Foi emblemático, por sinal, chegar ao local da convenção e encontrá-lo cercado por grades, com seguranças barrando a entrada até de convencionais. Era o partido do povo cercando o seu próprio povo.
BRASÍLIA - Contestada dentro de sua própria equipe, Dilma Rousseff ganhou um voto de confiança de seu time e foi indicada novamente pelo PT, no último sábado, candidata à Presidência da República.
Agora, vai ter de mostrar serviço dentro de campo. Seu criador, Lula, ficou no banco de reservas, mas deseja que sua pupila volte a brilhar como nos velhos tempos em que era chefe da Casa Civil de sua seleção.
Numa reflexão sobre o governo de sua criatura, Lula já fez a seguinte avaliação a interlocutores. Dilma era o Pelé de sua equipe. Driblava, armava as jogadas, fazia gol, dava até canelada quando preciso, mas fazia a diferença dentro de campo.
Depois que assumiu o comando do time, porém, não manteve o mesmo rendimento. Caiu de produção. Lula teme que Dilma seja mais um caso muito comum no futebol. Nem sempre um grande craque nas quatro linhas vira um excelente treinador. Pelé nunca se tornou um.
Ameaçada de perder a posição, Dilma passou a ouvir mais as dicas de seu mentor e a treinar fundamentos em que é questionada, como dialogar mais com empresários, políticos aliados e movimentos sociais.
Terá de suar a camisa para entusiasmar a torcida que anda avaliando mal o desempenho de seu governo. Precisa, por sinal, começar o trabalho dentro de sua própria casa.
A convenção petista do último sábado em nada lembrou os eventos do passado. Tudo muito sofisticado e tecnológico, mas a empolgação soava artificial. Até Lula não estava nos melhores dias. Fez um bom discurso, mas longe dos memoráveis.
Talvez por isso ele tenha conclamado a militância petista a ir para as ruas, algo que deixou de fazer depois que o PT chegou ao poder e virou farinha do mesmo saco político.
Foi emblemático, por sinal, chegar ao local da convenção e encontrá-lo cercado por grades, com seguranças barrando a entrada até de convencionais. Era o partido do povo cercando o seu próprio povo.
O problema é o elenco, estúpido! - RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 23/06
"Futebol é muito simples: quem tem a bola ataca; quem não tem defende"
Neném Prancha
Neném Prancha
O que os políticos e a seleção brasileira têm em comum? Ambos se preocupam mais com a defesa. Compreende-se que os políticos procedam assim. Afinal, inocentes ou culpados, antes de tudo são suspeitos de prometerem o que não fazem, de trambicagens inimagináveis e de traírem o voto que os elege. Só há um motivo para que a seleção aposte mais na defesa: o medo que seus dirigentes têm da derrota.
O MEDO DERIVA de outra coisa que aproxima políticos e seleção: a carência de uma ideia nova. O Plano Real foi a ideia nova que marcou o período de oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso. E a inclusão social, a que marcou o período de oito anos do presidente Lula. Agradecido, o povo quer mais. E, por ora, nada surgiu capaz de satisfazê-lo. Ocorre o mesmo com a seleção. Que nova proposta sustenta o futebol que ela apresentou na Copa até aqui? Ou nos amistosos que a precederam?
O EXERCÍCIO DA POLÍTICA entre nós só tem feito se deteriorar desde o fim da ditadura militar de 1964. Nos anos 1980, por exemplo, quando se reclamava da qualidade do Congresso, o deputado Ulysses Guimarães, então presidente do PMDB, respondia: "Espere o próximo". Quanto à seleção... A rigor o futebol servido por ela não surpreende o mundo desde o tri no México em 1970.
ESTA TARDE, EM BRASÍLIA, não basta que a seleção vença a dilacerada seleção de Camarões. Nem mesmo que a goleie. É preciso que exiba um futebol capaz de resgatar pelo menos parte da confiança da torcida abalada por seu desempenho mediano até aqui. Contra a Croácia, demos graças ao Senhor. Ou melhor: ao juiz japonês que viu um pênalti onde não houve. Contra o México, o medo venceu a esperança.
NA MAIORIA DAS VEZES só ganha quem não tem medo de perder. É verdade que fomos tetra na Copa de 1994 exibindo um futebol de segunda categoria. Ou de terceira. Fomos penta em 2002 quando o brilho de três ou quatro jogadores se impôs a um esquema burocrático de jogo. Mas o que é pior: a melhor lembrança do futebol de 1958, 1962 e 1970 está, hoje, nos pés e na imaginação de alguns dos nossos adversários.
SALVE A ALEMANHA do futebol compacto pontuado de estrelas que trocam de posição e que não se desesperam nem mesmo se estiverem em desvantagem no placar. Foi o que ocorreu no último sábado quando empatou com Gana. Sem falar do extravagante 4 x 0 aplicado em Portugal de Cristiano Ronaldo. Salve a Holanda que ocupa todos os espaços do campo, sobe e desce em bloco e dispõe de um contra ataque mortal.
SALVE O URUGUAI que fez contra a Inglaterra um dos melhores jogos desta Copa. Exibiu a garra que falta à seleção brasileira desde a final da Copa das Confederações. Salve a França que desencantou em cima da Suíça e que mais de uma vez já foi a nossa algoz. Cuidado com a Itália e a Argentina. Estão um degrau abaixo das que merecem ser louvadas. Em todo o caso, a Argentina tem Messi. A Itália, o maestro Andrea Pirlo.
QUE TEMOS? Temos Neymar. Que como Messi pode decidir uma parada. Mesmo ele, porém, se apagou no jogo contra o México. É tal seu apetite pela bola que com frequência não a compartilha. Tem quatro anos a mais do que tinha Pelé quando jogou uma Copa pela primeira vez. Está longe de lembrá-lo. O que se espera dele está além do que tem para dar. Corre o risco de ser esmagado pela expectativa nacional.
ASSIM, NA POLÍTICA como no futebol, o problema está no elenco, estúpido! Infelizmente, a pobreza é geral.
O MEDO DERIVA de outra coisa que aproxima políticos e seleção: a carência de uma ideia nova. O Plano Real foi a ideia nova que marcou o período de oito anos do presidente Fernando Henrique Cardoso. E a inclusão social, a que marcou o período de oito anos do presidente Lula. Agradecido, o povo quer mais. E, por ora, nada surgiu capaz de satisfazê-lo. Ocorre o mesmo com a seleção. Que nova proposta sustenta o futebol que ela apresentou na Copa até aqui? Ou nos amistosos que a precederam?
O EXERCÍCIO DA POLÍTICA entre nós só tem feito se deteriorar desde o fim da ditadura militar de 1964. Nos anos 1980, por exemplo, quando se reclamava da qualidade do Congresso, o deputado Ulysses Guimarães, então presidente do PMDB, respondia: "Espere o próximo". Quanto à seleção... A rigor o futebol servido por ela não surpreende o mundo desde o tri no México em 1970.
ESTA TARDE, EM BRASÍLIA, não basta que a seleção vença a dilacerada seleção de Camarões. Nem mesmo que a goleie. É preciso que exiba um futebol capaz de resgatar pelo menos parte da confiança da torcida abalada por seu desempenho mediano até aqui. Contra a Croácia, demos graças ao Senhor. Ou melhor: ao juiz japonês que viu um pênalti onde não houve. Contra o México, o medo venceu a esperança.
NA MAIORIA DAS VEZES só ganha quem não tem medo de perder. É verdade que fomos tetra na Copa de 1994 exibindo um futebol de segunda categoria. Ou de terceira. Fomos penta em 2002 quando o brilho de três ou quatro jogadores se impôs a um esquema burocrático de jogo. Mas o que é pior: a melhor lembrança do futebol de 1958, 1962 e 1970 está, hoje, nos pés e na imaginação de alguns dos nossos adversários.
SALVE A ALEMANHA do futebol compacto pontuado de estrelas que trocam de posição e que não se desesperam nem mesmo se estiverem em desvantagem no placar. Foi o que ocorreu no último sábado quando empatou com Gana. Sem falar do extravagante 4 x 0 aplicado em Portugal de Cristiano Ronaldo. Salve a Holanda que ocupa todos os espaços do campo, sobe e desce em bloco e dispõe de um contra ataque mortal.
SALVE O URUGUAI que fez contra a Inglaterra um dos melhores jogos desta Copa. Exibiu a garra que falta à seleção brasileira desde a final da Copa das Confederações. Salve a França que desencantou em cima da Suíça e que mais de uma vez já foi a nossa algoz. Cuidado com a Itália e a Argentina. Estão um degrau abaixo das que merecem ser louvadas. Em todo o caso, a Argentina tem Messi. A Itália, o maestro Andrea Pirlo.
QUE TEMOS? Temos Neymar. Que como Messi pode decidir uma parada. Mesmo ele, porém, se apagou no jogo contra o México. É tal seu apetite pela bola que com frequência não a compartilha. Tem quatro anos a mais do que tinha Pelé quando jogou uma Copa pela primeira vez. Está longe de lembrá-lo. O que se espera dele está além do que tem para dar. Corre o risco de ser esmagado pela expectativa nacional.
ASSIM, NA POLÍTICA como no futebol, o problema está no elenco, estúpido! Infelizmente, a pobreza é geral.
A ética dos invasores - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S.PAULO - 23/06
Embora independentes e ocorridos a uma distância de mais de 2,1 mil quilômetros entre eles, dois acontecimentos mostram como a escalada de invasões de propriedades públicas e privadas nas grandes capitais e a execução de ações de reintegração de posse determinada pela Justiça vêm comprometendo a segurança pública e pondo em risco a integridade física dos cidadãos.
O primeiro acontecimento - que teve ampla cobertura da imprensa - foi o confronto, no Cais José Estelita, no Recife, entre os invasores de um terreno de 100 mil metros quadrados no centro histórico da cidade e a tropa de choque da Polícia Militar (PM), que havia recebido ordem expedida pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco para retirá-los do local. A área estava deteriorada e foi adquirida por um consórcio de construtoras que lançou um programa para recuperá-la, com a construção de torres empresariais, edifícios residenciais, hotéis, biblioteca, jardins e ciclovias.
Alegando que o projeto descaracterizará o centro histórico, ativistas de movimentos sociais, ONGs e "coletivos" a ocuparam há um mês. E, além de impedir a entrada de máquinas e equipamentos, não acataram a ordem judicial para deixar a área. O resultado foi uma batalha campal, com ônibus e automóveis apedrejados, da qual saíram feridos vários manifestantes e turistas que passavam pelo local, para participar de um evento da Copa do Mundo. Em nota, o governo pernambucano alegou que a ação da PM teve amparo legal e a tropa de choque foi obrigada a responder, com energia, às agressões dos manifestantes. Já os micropartidos de esquerda radical e os movimentos sociais conseguiram as fotos de que precisavam para "denunciar" a violência policial e acusar o Executivo e o Judiciário de estarem a serviço da iniciativa privada.
O segundo acontecimento - que mereceu pouco destaque por parte da imprensa - ocorreu no centro de São Paulo, no antigo prédio do Othon Palace Hotel, situado ao lado da sede da Prefeitura. O edifício, que tem 24 andares e vinha sendo reformado para abrigar a Secretaria Municipal de Finanças e Desenvolvimento Econômico, foi invadido há algumas semanas pelo Movimento da Luta pela Moradia Digna (MLMD). A iniciativa foi tomada com o objetivo de pressionar a Prefeitura a passar os integrantes da entidade na frente das pessoas que já estão cadastradas na lista de espera dos programas de habitação.
Apesar de as autoridades municipais terem impetrado um pedido de reintegração de posse no Tribunal de Justiça, os invasores estão procurando criar uma situação de fato. A ideia é dificultar ao máximo a execução de uma ordem judicial e gerar outro desgastante confronto com a PM, possibilitando mais fotos que possam ser utilizadas para denunciar a "violência policial". Para tanto, os coordenadores do MLMD instalaram cerca de 500 famílias no local, ignorando os riscos à saúde, já que o prédio havia passado por dedetização e desratização dias antes da invasão. E também tentaram entrar com móveis, eletrodomésticos e botijões de gás. Se não fossem impedidos pela Guarda Civil Metropolitana, a área teria se convertido num potencial foco de incêndio, potencializado pela antiguidade da fiação, numa área com muitos prédios carentes de manutenção.
A exemplo do que ocorreu na desocupação do Cais José Estelita, no Recife, os invasores do prédio do antigo Othon Palace Hotel também recorreram ao surrado argumento invocado pelos movimentos sociais nessas ocasiões, alegando que as autoridades policiais se recusaram a negociar. "Eles dizem que tem risco lá dentro. Mas, e na rua, não tem? Na rua acontece de tudo", disse, alheia às graves consequências que um eventual incêndio ou explosão poderia causar, uma invasora que mora no local com o marido e um filho de apenas cinco anos.
Para os coordenadores desses movimentos sociais, os fins justificam quaisquer meios. Além de afrontar acintosamente a ordem pública e o império da lei, eles põem em risco a vida das pessoas que manipulam como marionetes, ameaçando a segurança da população. Essa é a ética dos líderes de invasões.
Embora independentes e ocorridos a uma distância de mais de 2,1 mil quilômetros entre eles, dois acontecimentos mostram como a escalada de invasões de propriedades públicas e privadas nas grandes capitais e a execução de ações de reintegração de posse determinada pela Justiça vêm comprometendo a segurança pública e pondo em risco a integridade física dos cidadãos.
O primeiro acontecimento - que teve ampla cobertura da imprensa - foi o confronto, no Cais José Estelita, no Recife, entre os invasores de um terreno de 100 mil metros quadrados no centro histórico da cidade e a tropa de choque da Polícia Militar (PM), que havia recebido ordem expedida pelo Tribunal de Justiça de Pernambuco para retirá-los do local. A área estava deteriorada e foi adquirida por um consórcio de construtoras que lançou um programa para recuperá-la, com a construção de torres empresariais, edifícios residenciais, hotéis, biblioteca, jardins e ciclovias.
Alegando que o projeto descaracterizará o centro histórico, ativistas de movimentos sociais, ONGs e "coletivos" a ocuparam há um mês. E, além de impedir a entrada de máquinas e equipamentos, não acataram a ordem judicial para deixar a área. O resultado foi uma batalha campal, com ônibus e automóveis apedrejados, da qual saíram feridos vários manifestantes e turistas que passavam pelo local, para participar de um evento da Copa do Mundo. Em nota, o governo pernambucano alegou que a ação da PM teve amparo legal e a tropa de choque foi obrigada a responder, com energia, às agressões dos manifestantes. Já os micropartidos de esquerda radical e os movimentos sociais conseguiram as fotos de que precisavam para "denunciar" a violência policial e acusar o Executivo e o Judiciário de estarem a serviço da iniciativa privada.
O segundo acontecimento - que mereceu pouco destaque por parte da imprensa - ocorreu no centro de São Paulo, no antigo prédio do Othon Palace Hotel, situado ao lado da sede da Prefeitura. O edifício, que tem 24 andares e vinha sendo reformado para abrigar a Secretaria Municipal de Finanças e Desenvolvimento Econômico, foi invadido há algumas semanas pelo Movimento da Luta pela Moradia Digna (MLMD). A iniciativa foi tomada com o objetivo de pressionar a Prefeitura a passar os integrantes da entidade na frente das pessoas que já estão cadastradas na lista de espera dos programas de habitação.
Apesar de as autoridades municipais terem impetrado um pedido de reintegração de posse no Tribunal de Justiça, os invasores estão procurando criar uma situação de fato. A ideia é dificultar ao máximo a execução de uma ordem judicial e gerar outro desgastante confronto com a PM, possibilitando mais fotos que possam ser utilizadas para denunciar a "violência policial". Para tanto, os coordenadores do MLMD instalaram cerca de 500 famílias no local, ignorando os riscos à saúde, já que o prédio havia passado por dedetização e desratização dias antes da invasão. E também tentaram entrar com móveis, eletrodomésticos e botijões de gás. Se não fossem impedidos pela Guarda Civil Metropolitana, a área teria se convertido num potencial foco de incêndio, potencializado pela antiguidade da fiação, numa área com muitos prédios carentes de manutenção.
A exemplo do que ocorreu na desocupação do Cais José Estelita, no Recife, os invasores do prédio do antigo Othon Palace Hotel também recorreram ao surrado argumento invocado pelos movimentos sociais nessas ocasiões, alegando que as autoridades policiais se recusaram a negociar. "Eles dizem que tem risco lá dentro. Mas, e na rua, não tem? Na rua acontece de tudo", disse, alheia às graves consequências que um eventual incêndio ou explosão poderia causar, uma invasora que mora no local com o marido e um filho de apenas cinco anos.
Para os coordenadores desses movimentos sociais, os fins justificam quaisquer meios. Além de afrontar acintosamente a ordem pública e o império da lei, eles põem em risco a vida das pessoas que manipulam como marionetes, ameaçando a segurança da população. Essa é a ética dos líderes de invasões.
Honestidade ao negociar - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 23/06
A crise da dívida da Argentina ganhou um novo e emocionante capítulo na semana passada, mas está longe do epílogo. Norte-americanos que detêm títulos da nação do Cone Sul foram favorecidos por decisão da Justiça que lhes proporcionará US$ 1,33 bilhão. Estima-se que o montante devido a esses fundos seja de US$ 15 bilhões.
Os investidores sabem, porém, que não conseguirão obter tudo a que têm direito legalmente. Isso significaria receber dos argentinos o valor de face dos papéis, sobre o qual foram aplicados descontos que chegaram a 70% na reestruturação dos débitos do país após o calote de 2001.
O problema não está tanto no desembolso em questão, mas no que ele representa para o restante dos credores. Voltar atrás no que foi pactuado envolve algo superior a US$ 200 bilhões, em um país que tem hoje reservas de US$ 28 bilhões.
Representantes dos fundos têm dito que se dispõem a discutir. Afinal, eles não pagaram o valor integral dos títulos, comprados com o desconto posterior à reestruturação. Querem receber mais do que desembolsaram, e quanto mais conseguirem, melhor. Mas não se pode esquecer de que no mundo das finanças impera o pragmatismo. Os fundos, chamados abutres por mirarem a escória dos papéis do mercado, querem é lucrar, se possível rapidamente.
Por outro lado, o governo argentino sabe que não pode ignorar a decisão da Justiça norte-americana. Terá de dar alguma demonstração de boa vontade, na forma de pagamentos maiores do que os previstos no acordo que já havia sido pactuado.
O sucesso dessa nova etapa é, porém, altamente incerto, tanto no que se refere ao tempo quanto ao resultado. O governo argentino tem dado poucos sinais de que pretende usar transparência e objetividade no processo, algo que poderia melhorar suas chances. Na semana passada, o Ministério da Economia negou que estava enviando aos Estados Unidos uma missão para tratar do assunto. Depois voltou atrás e confirmou a viagem.
No fim de semana, a presidente Cristina Kirchner publicou na imprensa norte-americana um anúncio em que diz que os fundos "investiram milhões em lobby e propaganda, tentando fazer o mundo todo acreditar que a Argentina não paga suas dívidas e se recusa a negociar".
É ingênuo acreditar que será possível convencer a opinião pública dos Estados Unidos e, desse modo, fazer com que juízes e investidores mudem de ideia. Mesmo que gastasse toda a reserva cambial do país, a Casa Rosada talvez não conseguisse tal objetivo.
Pautar-se pela razão é algo necessário não só aos líderes do país vizinho, mas também ao governo brasileiro. Pode custar caro, do ponto de vista político, ajudar o aliado do Mercosul com recursos ou com apoio formal neste momento.
Ao prejudicar um de nossos principais parceiros econômicos, a crise terá impactos aqui, ainda que limitados. Mas proporciona também efeito benéfico do lado de cá da fronteira. Cala, ao menos por ora, as vozes que viam no calote e no desconto com a restruturação da década passada algo invejável, uma referência a ser replicada. Como na natureza, nas finanças os abutres podem ser desagradáveis, mas têm sua função.
Os investidores sabem, porém, que não conseguirão obter tudo a que têm direito legalmente. Isso significaria receber dos argentinos o valor de face dos papéis, sobre o qual foram aplicados descontos que chegaram a 70% na reestruturação dos débitos do país após o calote de 2001.
O problema não está tanto no desembolso em questão, mas no que ele representa para o restante dos credores. Voltar atrás no que foi pactuado envolve algo superior a US$ 200 bilhões, em um país que tem hoje reservas de US$ 28 bilhões.
Representantes dos fundos têm dito que se dispõem a discutir. Afinal, eles não pagaram o valor integral dos títulos, comprados com o desconto posterior à reestruturação. Querem receber mais do que desembolsaram, e quanto mais conseguirem, melhor. Mas não se pode esquecer de que no mundo das finanças impera o pragmatismo. Os fundos, chamados abutres por mirarem a escória dos papéis do mercado, querem é lucrar, se possível rapidamente.
Por outro lado, o governo argentino sabe que não pode ignorar a decisão da Justiça norte-americana. Terá de dar alguma demonstração de boa vontade, na forma de pagamentos maiores do que os previstos no acordo que já havia sido pactuado.
O sucesso dessa nova etapa é, porém, altamente incerto, tanto no que se refere ao tempo quanto ao resultado. O governo argentino tem dado poucos sinais de que pretende usar transparência e objetividade no processo, algo que poderia melhorar suas chances. Na semana passada, o Ministério da Economia negou que estava enviando aos Estados Unidos uma missão para tratar do assunto. Depois voltou atrás e confirmou a viagem.
No fim de semana, a presidente Cristina Kirchner publicou na imprensa norte-americana um anúncio em que diz que os fundos "investiram milhões em lobby e propaganda, tentando fazer o mundo todo acreditar que a Argentina não paga suas dívidas e se recusa a negociar".
É ingênuo acreditar que será possível convencer a opinião pública dos Estados Unidos e, desse modo, fazer com que juízes e investidores mudem de ideia. Mesmo que gastasse toda a reserva cambial do país, a Casa Rosada talvez não conseguisse tal objetivo.
Pautar-se pela razão é algo necessário não só aos líderes do país vizinho, mas também ao governo brasileiro. Pode custar caro, do ponto de vista político, ajudar o aliado do Mercosul com recursos ou com apoio formal neste momento.
Ao prejudicar um de nossos principais parceiros econômicos, a crise terá impactos aqui, ainda que limitados. Mas proporciona também efeito benéfico do lado de cá da fronteira. Cala, ao menos por ora, as vozes que viam no calote e no desconto com a restruturação da década passada algo invejável, uma referência a ser replicada. Como na natureza, nas finanças os abutres podem ser desagradáveis, mas têm sua função.
Pouca mudança - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 23/06
Discursos na convenção do PT não ocultam contradições do partido e repetem visão estereotipada sobre o debate político brasileiro
Continuidade e mudança: este seria o eixo que, nominalmente, orienta a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff à Presidência da República. Não sem habilidade, o lema procura dar conotação positiva às atuais dificuldades da postulação petista.
Com a popularidade em baixa, num clima de pessimismo econômico, Dilma não tem como se apresentar ao eleitorado sem acenar com alguma correção de rumos.
Ao mesmo tempo, busca reassegurar os que a apoiam --e a manutenção das políticas sociais aprofundadas a partir do governo Lula constitui, por assim dizer, o marco mínimo a partir do qual traçar o discurso de campanha.
Embora o binômio da continuidade e da mudança expresse um equilíbrio retórico delicado, não se trata, em tese, de nenhuma quadratura do círculo. Mas os problemas dessa formulação se amplificam quando se tenta concretizá-la.
Vieram acrescidos de sérias contradições, aliás, na cerimônia de oficialização da candidatura Dilma, ocorrida neste sábado (21).
Mudanças, por certo, são necessárias; mas quais? Além de promessas requentadas sobre desburocratização, universalização da banda larga e reforma política, em torno de que prioridades se aglutina o heterogêneo espectro de alianças partidárias que, agora com a exceção do PTB, supostamente daria base parlamentar aos projetos legislativos de Dilma?
Quanto à "continuidade", tampouco é claro o que significa. Até mesmo os setores mais entusiastas do petismo sabem que a lista das demandas sociais tende a ser inesgotável, e que a pauta de benefícios agora colocada pela sociedade é de outra natureza.
A bandeira da continuidade só se sustenta, em termos eleitorais, por meio de outro recurso: o da demonização do adversário. Seria para evitar uma "volta ao passado" --com o fantasma de um declínio no nível de renda dos mais pobres-- que valeria a pena manter tudo como está.
Surge a partir daí um outro binômio, este sim perverso, na orientação da campanha petista. Enquanto a candidata Dilma Rousseff aposta num perfil mais simpático e aberto ao diálogo com outros setores da sociedade, em especial o empresariado, Lula e outras figuras do PT alimentam a sede de maniqueísmo da militância.
Na convenção de sábado, alternou-se a atitude vitimizante que atribui a conspirações de direita o "ódio" contra o PT e o discurso inverso, o do ataque indiscriminado. Nesse mar de contradições em que o partido navega, o dedo apontado contra as "elites brancas" não impede a mão estendida a antigos defensores do regime militar.
Discursos na convenção do PT não ocultam contradições do partido e repetem visão estereotipada sobre o debate político brasileiro
Continuidade e mudança: este seria o eixo que, nominalmente, orienta a campanha pela reeleição de Dilma Rousseff à Presidência da República. Não sem habilidade, o lema procura dar conotação positiva às atuais dificuldades da postulação petista.
Com a popularidade em baixa, num clima de pessimismo econômico, Dilma não tem como se apresentar ao eleitorado sem acenar com alguma correção de rumos.
Ao mesmo tempo, busca reassegurar os que a apoiam --e a manutenção das políticas sociais aprofundadas a partir do governo Lula constitui, por assim dizer, o marco mínimo a partir do qual traçar o discurso de campanha.
Embora o binômio da continuidade e da mudança expresse um equilíbrio retórico delicado, não se trata, em tese, de nenhuma quadratura do círculo. Mas os problemas dessa formulação se amplificam quando se tenta concretizá-la.
Vieram acrescidos de sérias contradições, aliás, na cerimônia de oficialização da candidatura Dilma, ocorrida neste sábado (21).
Mudanças, por certo, são necessárias; mas quais? Além de promessas requentadas sobre desburocratização, universalização da banda larga e reforma política, em torno de que prioridades se aglutina o heterogêneo espectro de alianças partidárias que, agora com a exceção do PTB, supostamente daria base parlamentar aos projetos legislativos de Dilma?
Quanto à "continuidade", tampouco é claro o que significa. Até mesmo os setores mais entusiastas do petismo sabem que a lista das demandas sociais tende a ser inesgotável, e que a pauta de benefícios agora colocada pela sociedade é de outra natureza.
A bandeira da continuidade só se sustenta, em termos eleitorais, por meio de outro recurso: o da demonização do adversário. Seria para evitar uma "volta ao passado" --com o fantasma de um declínio no nível de renda dos mais pobres-- que valeria a pena manter tudo como está.
Surge a partir daí um outro binômio, este sim perverso, na orientação da campanha petista. Enquanto a candidata Dilma Rousseff aposta num perfil mais simpático e aberto ao diálogo com outros setores da sociedade, em especial o empresariado, Lula e outras figuras do PT alimentam a sede de maniqueísmo da militância.
Na convenção de sábado, alternou-se a atitude vitimizante que atribui a conspirações de direita o "ódio" contra o PT e o discurso inverso, o do ataque indiscriminado. Nesse mar de contradições em que o partido navega, o dedo apontado contra as "elites brancas" não impede a mão estendida a antigos defensores do regime militar.
Melhor fórmula - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 23/06
A sociedade brasileira iniciou o processo de redemocratização em 1985 com enormes anseios de participação política, e não poderia ser diferente. A última eleição direta para presidente havia sido em 1960, quando Jânio Quadros chegou ao Planalto. Quatro anos depois, o Brasil mergulharia numa ditadura militar, para emergir apenas após duas décadas de interdição da democracia. E mesmo assim o último ato do regime militar foi encerrado num pleito indireto, quando Tancredo Neves e José Sarney venceram no colégio eleitoral do Congresso, mas com apoio nas ruas. A escolha de um presidente pelo voto popular só ocorreria em 1989.
Jejum tão longo, tornado ainda mais frustrante pela derrota da Emenda das Diretas, em abril de 1984, por pequena margem de votos, pode explicar a multiplicidade de movimentos de reivindicação do preenchimento pelo voto direto de cargos na máquina do Estado.
Na rede pública de ensino há alguns casos. Em determinados estados, diretores de escolas são nomeados a partir do voto direto. Reitores também. Há uma pressão constante, em algumas universidades, para a inclusão de alunos e funcionários nos colégios eleitorais, algo desaconselhável, por escapar do melhor entendimento do que é uma comunidade acadêmica. O entendimento é o mesmo no caso de qualquer estabelecimento escolar, onde o balizamento para nomeações deve ser a competência pedagógica, no sentido amplo.
O voto direto, o melhor método no universo da representação política, no Executivo e Legislativo, não tem a mesma eficácia quando aplicado de maneira segmentada. Uma importante questão é a influência negativa dos interesses corporativistas nesse tipo de pleito, nem sempre coincidentes com os da sociedade, responsável por arcar com os custos da burocracia pública e eleger os governantes.
É neste contexto que se deve debater propostas de indicação de ministros das últimas instâncias da Justiça pelo próprio Poder Judiciário, cabendo a palavra final ao Congresso e/ou ao presidente da República.
O Brasil abandonaria, assim, o método americano de o presidente indicar o candidato, o Senado sabatinar e ter a palavra final na nomeação. Um dos grandes méritos do sistema é circunscrever o poder de escolha e nomeação a representantes diretos do povo, distante de corporações.
A falha, no Brasil, é que, ao contrário do que acontece no Congresso americano, o Senado brasileiro apenas carimba a indicação presidencial. Mas a falta de uma avaliação séria de candidatos a ministros não justifica fazer uma mudança radical de método. Melhor é pressionar o Legislativo para fazer o seu trabalho como deve ser, e a sociedade ser vigilante a fim de evitar ao máximo a influência político-partidária na escolha.
Mais ainda se considerarmos que o Poder Judiciário, por características próprias, tem um sentimento de corporação muito arraigado.
A sociedade brasileira iniciou o processo de redemocratização em 1985 com enormes anseios de participação política, e não poderia ser diferente. A última eleição direta para presidente havia sido em 1960, quando Jânio Quadros chegou ao Planalto. Quatro anos depois, o Brasil mergulharia numa ditadura militar, para emergir apenas após duas décadas de interdição da democracia. E mesmo assim o último ato do regime militar foi encerrado num pleito indireto, quando Tancredo Neves e José Sarney venceram no colégio eleitoral do Congresso, mas com apoio nas ruas. A escolha de um presidente pelo voto popular só ocorreria em 1989.
Jejum tão longo, tornado ainda mais frustrante pela derrota da Emenda das Diretas, em abril de 1984, por pequena margem de votos, pode explicar a multiplicidade de movimentos de reivindicação do preenchimento pelo voto direto de cargos na máquina do Estado.
Na rede pública de ensino há alguns casos. Em determinados estados, diretores de escolas são nomeados a partir do voto direto. Reitores também. Há uma pressão constante, em algumas universidades, para a inclusão de alunos e funcionários nos colégios eleitorais, algo desaconselhável, por escapar do melhor entendimento do que é uma comunidade acadêmica. O entendimento é o mesmo no caso de qualquer estabelecimento escolar, onde o balizamento para nomeações deve ser a competência pedagógica, no sentido amplo.
O voto direto, o melhor método no universo da representação política, no Executivo e Legislativo, não tem a mesma eficácia quando aplicado de maneira segmentada. Uma importante questão é a influência negativa dos interesses corporativistas nesse tipo de pleito, nem sempre coincidentes com os da sociedade, responsável por arcar com os custos da burocracia pública e eleger os governantes.
É neste contexto que se deve debater propostas de indicação de ministros das últimas instâncias da Justiça pelo próprio Poder Judiciário, cabendo a palavra final ao Congresso e/ou ao presidente da República.
O Brasil abandonaria, assim, o método americano de o presidente indicar o candidato, o Senado sabatinar e ter a palavra final na nomeação. Um dos grandes méritos do sistema é circunscrever o poder de escolha e nomeação a representantes diretos do povo, distante de corporações.
A falha, no Brasil, é que, ao contrário do que acontece no Congresso americano, o Senado brasileiro apenas carimba a indicação presidencial. Mas a falta de uma avaliação séria de candidatos a ministros não justifica fazer uma mudança radical de método. Melhor é pressionar o Legislativo para fazer o seu trabalho como deve ser, e a sociedade ser vigilante a fim de evitar ao máximo a influência político-partidária na escolha.
Mais ainda se considerarmos que o Poder Judiciário, por características próprias, tem um sentimento de corporação muito arraigado.
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