O Estado de S.Paulo - 26/02
Até mesmo o lusófono presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, deve ter tido sérias dificuldades para entender os dois discursos da presidente Dilma Rousseff proferidos em Bruxelas a propósito da cúpula União Europeia (UE)-Brasil. Não porque contivessem algum pensamento profundo ou recorressem a termos técnicos, mas, sim, porque estavam repletos de frases inacabadas, períodos incompreensíveis e ideias sem sentido.
Ao falar de improviso para plateias qualificadas, compostas por dirigentes e empresários europeus e brasileiros, Dilma mostrou mais uma vez todo o seu despreparo. Fosse ela uma funcionária de escalão inferior, teria levado um pito de sua chefia por expor o País ao ridículo, mas o estrago seria pequeno; como ela é a presidente, no entanto, o constrangimento é institucional, pois Dilma é a representante de todos os brasileiros - e não apenas daqueles que a bajulam e temem adverti-la sobre sua limitadíssima oratória.
Logo na abertura do discurso na sede do Conselho da União Europeia, Dilma disse que o Brasil tem interesse na pronta recuperação da economia europeia, "haja vista a diversidade e a densidade dos laços comerciais e de investimentos que existem entre os dois países" - reduzindo a UE à categoria de "país".
Em seguida, para defender a Zona Franca de Manaus, contestada pela UE, Dilma caprichou: "A Zona Franca de Manaus, ela está numa região, ela é o centro dela (da Floresta Amazônica) porque é a capital da Amazônia (...). Portanto, ela tem um objetivo, ela evita o desmatamento, que é altamente lucrativo - derrubar árvores plantadas pela natureza é altamente lucrativo (...)". Assim, graças a Dilma, os europeus ficaram sabendo que Manaus é a capital da Amazônia, que a Zona Franca está lá para impedir o desmatamento e que as árvores são "plantadas pela natureza".
Dilma continuou a falar da Amazônia e a cometer desatinos gramaticais e atentados à lógica. "Eu quero destacar que, além de ser a maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica, mas, além disso, ali tem o maior volume de água doce do planeta, e também é uma região extremamente atrativa do ponto de vista mineral. Por isso, preservá-la implica, necessariamente, isso que o governo brasileiro gasta ali. O governo brasileiro gasta um recurso bastante significativo ali, seja porque olhamos a importância do que tiramos na Rio+20 de que era possível crescer, incluir, conservar e proteger." É possível imaginar, diante de tal amontoado de palavras desconexas, a aflição dos profissionais responsáveis pela tradução simultânea.
Ao falar da importância da relação do Brasil com a UE, Dilma disse que "nós vemos como estratégica essa relação, até por isso fizemos a parceria estratégica". Em entrevista coletiva no mesmo evento, a presidente declarou que queria abordar os impasses para um acordo do Mercosul com a UE "de uma forma mais filosófica" - e, numa frase que faria Kant chorar, disse: "Eu tenho certeza que nós começamos desde 2000 a buscar essa possibilidade de apresentarmos as propostas e fazermos um acordo comercial".
Depois, em discurso a empresários, Dilma divagou, como se grande pensadora fosse, misturando Monet e Montesquieu - isto é, alhos e bugalhos. "Os homens não são virtuosos, ou seja, nós não podemos exigir da humanidade a virtude, porque ela não é virtuosa, mas alguns homens e algumas mulheres são, e por isso que as instituições têm que ser virtuosas. Se os homens e as mulheres são falhos, as instituições, nós temos que construí-las da melhor maneira possível, transformando... aliás isso é de um outro europeu, Montesquieu. É de um outro europeu muito importante, junto com Monet."
Há muito mais - tanto, que este espaço não comporta. Movida pela arrogância dos que acreditam ter mais a ensinar do que a aprender, Dilma foi a Bruxelas disposta a dar as lições de moral típicas de seu padrinho, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Acreditando ser uma estadista congênita, a presidente julgou desnecessário preparar-se melhor para representar de fato os interesses do Brasil e falou como se estivesse diante de estudantes primários - um vexame para o País.
quarta-feira, fevereiro 26, 2014
Sexta-feira, feriado nacional - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 26/02
Dia 28 de fevereiro deveria ser feriado nacional, com direito a hasteamento da bandeira, execução do hino e celebração de culto ecumênico em praça pública. A comemoração impediria que os governantes de plantão se esquecessem da maior vitória da sociedade brasileira na segunda metade do século 20. Fato que mudou a vida dos brasileiros e se tornou conquista tão importante que, ao maltratá-la ou descurar de preservá-la, a autoridade corre o risco de receber o devido troco nas urnas.
Trata-se do tiro de morte na hiperinflação, que muitos comemoram em 1º de julho, data em que entraram em circulação as primeiras notas e moedas do real. Mas foi no último dia de fevereiro de 1994, há 20 anos, portanto, que o Brasil começou a deixar para trás longo e desafortunado período de inflação acelerada. Naquela data, foi publicada a Medida Provisória nº 434, instituindo a unidade real de valor (URV), moeda virtual que não circulava, mas servia como padrão do valor monetário.
Uma equipe de então jovens, mas já experientes economistas, criou a passagem para a moeda definitiva. Mas foi a maioria da população quem fez o milagre. A inflação andava perto dos 40% ao mês e vários planos econômicos tinham fracassado, desgastando a crença na capacidade do governo de cuidar do monstro alimentado durante décadas com rações de correção monetária e gastos públicos sem medida.
Mas o que precisa ser homenageado, não apenas na sexta-feira, mas todos os dias, é a capacidade do brasileiro de aprender. A população já tinha entendido que a inflação só é boa para os próprios governantes e para quem tem dinheiro, que pode ganhar com aplicações financeiras.
Para o comum dos brasileiros, a inflação é imposto perverso, que retira poder de compra dos salários sem dar nada em troca. Para o administrador público, não há perdas, só ganhos. Afinal, os impostos acompanham a corrida dos preços e basta atrasar dois ou três meses a correção dos salários para "gerar" boa reserva e, com ela, inaugurar obras que rendem votos.
Não foi só isso que o cidadão aprendeu. No dia seguinte à publicação da MP 434, já havia vendedores ambulantes explicando aos menos atentos que a URV era o dólar e, por isso, valeria sempre 1, mas seriam necessários mais cruzeiros reais para comprá-la, se ela estivesse à venda. Naquela dia, a URV era "cotada" a CR$ 647,50, e, em julho, quando foi transformada em real, CR$ 2.750.
Desde então, o brasileiro adicionou a moeda aos símbolos nacionais que realmente preza, como o hino e a bandeira. O orgulho nacional não tolera que estrangeiros falem mal do Brasil. Já ao hino e à bandeira nem a brasileiro é permitido outro sentimento que não seja a paixão irrefreável. Do valor da moeda temos aprendido a não abrir mão e é bom que os governantes se lembrem de que, nesse caso, a famosa falta de memória do povo não vigora.
A conquista de uma moeda decente e sua preservação não é, portanto, obra de um governo ou partido. É patrimônio da sociedade. Daí o preço eleitoral a pagar por quem descurar da austeridade com o gasto público e da política monetária adequada ao combate sem trégua do aumento de preços. É isso que, à falta da decretação do feriado da URV, precisa ser lembrado todos os dias aos que pensam em colocar o efêmero sucesso nas urnas à frente das prioridades do povo.
Dia 28 de fevereiro deveria ser feriado nacional, com direito a hasteamento da bandeira, execução do hino e celebração de culto ecumênico em praça pública. A comemoração impediria que os governantes de plantão se esquecessem da maior vitória da sociedade brasileira na segunda metade do século 20. Fato que mudou a vida dos brasileiros e se tornou conquista tão importante que, ao maltratá-la ou descurar de preservá-la, a autoridade corre o risco de receber o devido troco nas urnas.
Trata-se do tiro de morte na hiperinflação, que muitos comemoram em 1º de julho, data em que entraram em circulação as primeiras notas e moedas do real. Mas foi no último dia de fevereiro de 1994, há 20 anos, portanto, que o Brasil começou a deixar para trás longo e desafortunado período de inflação acelerada. Naquela data, foi publicada a Medida Provisória nº 434, instituindo a unidade real de valor (URV), moeda virtual que não circulava, mas servia como padrão do valor monetário.
Uma equipe de então jovens, mas já experientes economistas, criou a passagem para a moeda definitiva. Mas foi a maioria da população quem fez o milagre. A inflação andava perto dos 40% ao mês e vários planos econômicos tinham fracassado, desgastando a crença na capacidade do governo de cuidar do monstro alimentado durante décadas com rações de correção monetária e gastos públicos sem medida.
Mas o que precisa ser homenageado, não apenas na sexta-feira, mas todos os dias, é a capacidade do brasileiro de aprender. A população já tinha entendido que a inflação só é boa para os próprios governantes e para quem tem dinheiro, que pode ganhar com aplicações financeiras.
Para o comum dos brasileiros, a inflação é imposto perverso, que retira poder de compra dos salários sem dar nada em troca. Para o administrador público, não há perdas, só ganhos. Afinal, os impostos acompanham a corrida dos preços e basta atrasar dois ou três meses a correção dos salários para "gerar" boa reserva e, com ela, inaugurar obras que rendem votos.
Não foi só isso que o cidadão aprendeu. No dia seguinte à publicação da MP 434, já havia vendedores ambulantes explicando aos menos atentos que a URV era o dólar e, por isso, valeria sempre 1, mas seriam necessários mais cruzeiros reais para comprá-la, se ela estivesse à venda. Naquela dia, a URV era "cotada" a CR$ 647,50, e, em julho, quando foi transformada em real, CR$ 2.750.
Desde então, o brasileiro adicionou a moeda aos símbolos nacionais que realmente preza, como o hino e a bandeira. O orgulho nacional não tolera que estrangeiros falem mal do Brasil. Já ao hino e à bandeira nem a brasileiro é permitido outro sentimento que não seja a paixão irrefreável. Do valor da moeda temos aprendido a não abrir mão e é bom que os governantes se lembrem de que, nesse caso, a famosa falta de memória do povo não vigora.
A conquista de uma moeda decente e sua preservação não é, portanto, obra de um governo ou partido. É patrimônio da sociedade. Daí o preço eleitoral a pagar por quem descurar da austeridade com o gasto público e da política monetária adequada ao combate sem trégua do aumento de preços. É isso que, à falta da decretação do feriado da URV, precisa ser lembrado todos os dias aos que pensam em colocar o efêmero sucesso nas urnas à frente das prioridades do povo.
Brasil não pode ser cúmplice da violência - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 26/02
Não se apoia golpe na Venezuela, mas Maduro tem de parar de radicalizar o regime, rota perigosa até para si próprio. Tem de haver pressão externa, Brasil à frente
Desde a ascensão do coronel Hugo Chávez pelo voto, em 1999, na Venezuela — depois do golpe frustrado de 92 —, o país do “socialismo do século XXI” passou a ser laboratório para uma maquiavélica experiência autoritária: o manejo de instrumentos formalmente democráticos, como plebiscitos, para sufocar a democracia representativa.
A manobra funcionou, foi exportada para outros países da região, como Bolívia e Equador, mas, morto Chávez, e no governo do discípulo Nicolás Maduro, aconteceu o previsto: anos a fio de políticas populistas, o avanço do estado na produção e toda sorte de desmandos gerenciais impulsionaram a inflação para romper a barreira dos 50%, destroçaram a PDVSA, que repousa sobre uma das cinco reservas mundiais de petróleo sem poder explorá-la com eficiência, e empurraram o país para grave crise econômica, social e, por decorrência, política.
Maduro é presidente eleito pelo povo, e seu mandato precisa ser respeitado. Mas a comunidade internacional não pode voltar as costas para abusos que forças regulares e milícias armadas do chavismo, os “coletivos”, têm cometido contra a população. Até ontem pela manhã, contabilizavam-se 15 mortos. Que fosse apenas um, chavista ou oposicionista. Além disso, há a prisão de um líder de oposição, Leopoldo López, questionável do ponto de vista legal, e detenção de estudantes, com denúncia de torturas.
Até agora, também como esperado, a ação do Mercosul é pífia, como a nota liberada pelo grupo, escrita em estilo chavista. Na Europa, segunda-feira, a presidente Dilma declarou que Venezuela não é Ucrânia. De fato, mas, em certa medida, chega a ser pior, pois, em Kiev, o Parlamento demonstrou independência, afastou o presidente e prepara novas eleições.
Foi, pelo menos por enquanto, barrado o terrorismo de Estado, algo que pode crescer na Venezuela. A presidente brasileira expõe, ainda, uma miopia clássica da esquerda, ao tentar justificar o autoritarismo em nome de avanços sociais. A História contabiliza barbaridades genocidas cometidas no século XX, sob esta justificativa, na China, na extinta União Soviética, em Cuba, na Coreia do Norte e no Camboja dos “campos da morte”.
Houve mesmo avanços sociais na Venezuela, mas que são corroídos por uma inflação que se aproxima dos 60%, pelo desabastecimento galopante, todos os sintomas de uma grave implosão do sistema econômico. O país derrete.
O número de mortes e vítimas em geral deve aumentar, e a simpatia ideológica não pode tornar o Brasil cúmplice de crimes contra direitos humanos. Não é esta a tradição do melhor da diplomacia do país. Não se apoia qualquer golpe na Venezuela, mas que Maduro deixe de radicalizar o regime, rota perigosa para si próprio. Para isso, é necessária pressão internacional, Brasil à frente.
Não se apoia golpe na Venezuela, mas Maduro tem de parar de radicalizar o regime, rota perigosa até para si próprio. Tem de haver pressão externa, Brasil à frente
Desde a ascensão do coronel Hugo Chávez pelo voto, em 1999, na Venezuela — depois do golpe frustrado de 92 —, o país do “socialismo do século XXI” passou a ser laboratório para uma maquiavélica experiência autoritária: o manejo de instrumentos formalmente democráticos, como plebiscitos, para sufocar a democracia representativa.
A manobra funcionou, foi exportada para outros países da região, como Bolívia e Equador, mas, morto Chávez, e no governo do discípulo Nicolás Maduro, aconteceu o previsto: anos a fio de políticas populistas, o avanço do estado na produção e toda sorte de desmandos gerenciais impulsionaram a inflação para romper a barreira dos 50%, destroçaram a PDVSA, que repousa sobre uma das cinco reservas mundiais de petróleo sem poder explorá-la com eficiência, e empurraram o país para grave crise econômica, social e, por decorrência, política.
Maduro é presidente eleito pelo povo, e seu mandato precisa ser respeitado. Mas a comunidade internacional não pode voltar as costas para abusos que forças regulares e milícias armadas do chavismo, os “coletivos”, têm cometido contra a população. Até ontem pela manhã, contabilizavam-se 15 mortos. Que fosse apenas um, chavista ou oposicionista. Além disso, há a prisão de um líder de oposição, Leopoldo López, questionável do ponto de vista legal, e detenção de estudantes, com denúncia de torturas.
Até agora, também como esperado, a ação do Mercosul é pífia, como a nota liberada pelo grupo, escrita em estilo chavista. Na Europa, segunda-feira, a presidente Dilma declarou que Venezuela não é Ucrânia. De fato, mas, em certa medida, chega a ser pior, pois, em Kiev, o Parlamento demonstrou independência, afastou o presidente e prepara novas eleições.
Foi, pelo menos por enquanto, barrado o terrorismo de Estado, algo que pode crescer na Venezuela. A presidente brasileira expõe, ainda, uma miopia clássica da esquerda, ao tentar justificar o autoritarismo em nome de avanços sociais. A História contabiliza barbaridades genocidas cometidas no século XX, sob esta justificativa, na China, na extinta União Soviética, em Cuba, na Coreia do Norte e no Camboja dos “campos da morte”.
Houve mesmo avanços sociais na Venezuela, mas que são corroídos por uma inflação que se aproxima dos 60%, pelo desabastecimento galopante, todos os sintomas de uma grave implosão do sistema econômico. O país derrete.
O número de mortes e vítimas em geral deve aumentar, e a simpatia ideológica não pode tornar o Brasil cúmplice de crimes contra direitos humanos. Não é esta a tradição do melhor da diplomacia do país. Não se apoia qualquer golpe na Venezuela, mas que Maduro deixe de radicalizar o regime, rota perigosa para si próprio. Para isso, é necessária pressão internacional, Brasil à frente.
O detalhe e o essencial - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 26/02
Prisão de Roberto Jefferson é fim de um ciclo no processo do mensalão; decisão do STF sobre formação de quadrilha não vai alterar o principal
Fechou-se um ciclo no processo do mensalão. O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), primeiro a falar abertamente sobre o esquema --em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, publicada por esta Folha no dia 6 de junho de 2005--, foi o último personagem de peso a ter sua punição executada.
Dos 25 réus condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2012, 20 já estão presos, três cumprem penas alternativas e dois recorrem em liberdade.
Trata-se de saldo notável em qualquer circunstância, mas em particular num país onde a Justiça se mostrava especialmente cega ao deliberar sobre os altos escalões.
Resta agora ao STF julgar os embargos infringentes, recurso cabível contra decisões tomadas com ao menos quatro votos divergentes. Estão nessa situação os crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, e acerca deste último a corte deve se pronunciar hoje.
É grande a incompreensão teórica em relação a esse tipo penal. Embora existam fortes razões jurídicas para aplicá-lo no mensalão, insurgem-se contra isso raciocínios igualmente respeitáveis --e há sinais de que a maioria dos ministros se incline nesse sentido.
Na legislação brasileira, é clara a diferença entre a conduta criminosa realizada com o concurso de várias pessoas (por exemplo, um assalto em que diversos comparsas agem em conjunto) e a figura autônoma da formação de quadrilha.
Neste caso, o que conta não é o crime de fato cometido, mas a mera constituição de organização estável e permanente, com vistas à realização de delitos. Um grupo com tais objetivos representa atentado à paz pública, podendo ser punido com até três anos de reclusão.
Para José Dirceu e Delúbio Soares, uma mudança no entendimento do STF acarretaria redução de suas penas, que então não seriam cumpridas em regime fechado.
Seus defensores sustentam que os réus estão sendo condenados duplamente pelo mesmo crime. Não haveria organização autônoma, mas tão só coordenação entre os atores que, segundo narrativa da Procuradoria-Geral da República, cometeram delitos específicos --pelos quais já foram punidos.
A formação de quadrilha, para além do mensalão, sem dúvida tem sido usada de modo automático, como meio de buscar penas mais severas.
O STF terá ocasião de fixar uma interpretação clara sobre esse ponto da doutrina. Seja qual for sua decisão, entretanto, em nada alterará o essencial do que já se concluiu sobre o esquema escandaloso.
Seus participantes desviaram recursos públicos, foram corruptos e corruptores, operaram pela fraude e pela mentira instituições bancárias, sempre jurando inocência e cinicamente dizendo-se vítimas de perseguição política.
A farsa foi desmontada e punida. A questão da quadrilha é acessória, embora relevante, nesse contexto.
Prisão de Roberto Jefferson é fim de um ciclo no processo do mensalão; decisão do STF sobre formação de quadrilha não vai alterar o principal
Fechou-se um ciclo no processo do mensalão. O ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), primeiro a falar abertamente sobre o esquema --em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, publicada por esta Folha no dia 6 de junho de 2005--, foi o último personagem de peso a ter sua punição executada.
Dos 25 réus condenados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em dezembro de 2012, 20 já estão presos, três cumprem penas alternativas e dois recorrem em liberdade.
Trata-se de saldo notável em qualquer circunstância, mas em particular num país onde a Justiça se mostrava especialmente cega ao deliberar sobre os altos escalões.
Resta agora ao STF julgar os embargos infringentes, recurso cabível contra decisões tomadas com ao menos quatro votos divergentes. Estão nessa situação os crimes de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, e acerca deste último a corte deve se pronunciar hoje.
É grande a incompreensão teórica em relação a esse tipo penal. Embora existam fortes razões jurídicas para aplicá-lo no mensalão, insurgem-se contra isso raciocínios igualmente respeitáveis --e há sinais de que a maioria dos ministros se incline nesse sentido.
Na legislação brasileira, é clara a diferença entre a conduta criminosa realizada com o concurso de várias pessoas (por exemplo, um assalto em que diversos comparsas agem em conjunto) e a figura autônoma da formação de quadrilha.
Neste caso, o que conta não é o crime de fato cometido, mas a mera constituição de organização estável e permanente, com vistas à realização de delitos. Um grupo com tais objetivos representa atentado à paz pública, podendo ser punido com até três anos de reclusão.
Para José Dirceu e Delúbio Soares, uma mudança no entendimento do STF acarretaria redução de suas penas, que então não seriam cumpridas em regime fechado.
Seus defensores sustentam que os réus estão sendo condenados duplamente pelo mesmo crime. Não haveria organização autônoma, mas tão só coordenação entre os atores que, segundo narrativa da Procuradoria-Geral da República, cometeram delitos específicos --pelos quais já foram punidos.
A formação de quadrilha, para além do mensalão, sem dúvida tem sido usada de modo automático, como meio de buscar penas mais severas.
O STF terá ocasião de fixar uma interpretação clara sobre esse ponto da doutrina. Seja qual for sua decisão, entretanto, em nada alterará o essencial do que já se concluiu sobre o esquema escandaloso.
Seus participantes desviaram recursos públicos, foram corruptos e corruptores, operaram pela fraude e pela mentira instituições bancárias, sempre jurando inocência e cinicamente dizendo-se vítimas de perseguição política.
A farsa foi desmontada e punida. A questão da quadrilha é acessória, embora relevante, nesse contexto.
Casuísmo na segurança pública - EDITORIAL GAZETA DO POVO - PR
GAZETA DO POVO - PR - 26/02
Os argumentos usados pelo ministro da Justiça para negar a cessão do delegado federal José Alberto Iegas à Secretaria de Estado da Segurança Pública não se sustentam
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, decidiu não permitir a liberação de José Alberto Iegas, chamado pelo governador Beto Richa para assumir a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). Iegas ocupa atualmente o cargo de diretor nacional de Inteligência da Polícia Federal (PF), e por isso precisaria de autorização do ministro para ser empossado no novo posto. A medida de Cardozo surpreendeu o governo estadual e contrariou inclusive uma informação dada pelo próprio Ministério da Justiça, que na manhã de segunda-feira havia dito à RPCTV que não havia obstáculo nenhum à posse de Iegas, bastando apenas a publicação da nomeação no Diário Oficial do Estado. Infelizmente, todas as circunstâncias que envolvem o caso – desde as alegações dadas por Cardozo a Richa até os precedentes abertos por situações semelhantes – permitem considerar a hipótese de que circunstâncias políticas tenham influenciado a decisão em relação ao Paraná.
A legislação, é verdade, não obriga o Ministério da Justiça a ceder quadros da Polícia Federal para ocupar cargos nas administrações estaduais; esta é uma prerrogativa do ministro. Mas, conforme a Gazeta do Povo mostrou em sua edição de ontem, outros 11 estados têm delegados da PF exercendo atualmente a função de secretários de Segurança Pública, como o Rio de Janeiro. Além disso, em ocasiões anteriores outros secretários estaduais e municipais foram cedidos pelo governo federal sem problemas, como os delegados federais Reinaldo de Almeida César Sobrinho (titular da Sesp entre 2011 e 2012) e Fernando Francischini (secretário Antidrogas de Curitiba entre 2008 e 2010). Ora, se a cessão foi feita em todos esses casos, por que negá-la justamente agora? É preciso haver isonomia na relação entre o governo federal e os estados.
Richa ainda contou à Gazeta do Povo que Cardozo mencionou uma “quarentena” para permitir a transferência de Iegas da PF para a Sesp, mas não citou prazos. O que existe, e está determinado pela legislação (no caso, a Lei 12.813/2013), é um período de seis meses entre o desligamento de um servidor federal de alto escalão e sua admissão na iniciativa privada. A quarentena, nesses casos, é importante para evitar que um funcionário leve informações privilegiadas que serão úteis a seu novo empregador – pensemos, por exemplo, no caso do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que precisou passar por um ano de quarentena após deixar o BC, e ao sair dela assumiu a presidência do Conselho de Administração da holding que controla o frigorífico JBS. No entanto, a exigência de quarentena se aplica apenas à iniciativa privada, e não à administração pública. Alegar que Iegas precisaria passar pela quarentena por ser da área de Inteligência, como afirmou à Gazeta a senadora Gleisi Hoffmann, citando Cardozo, não faz o menor sentido. Que o governo do Paraná procure contar com a expertise de Iegas no ramo da segurança pública em nada prejudica a União.
O caso paranaense, no entanto, não é o primeiro envolvendo o ministro da Justiça e governos estaduais de oposição ao PT. Cardozo é um crítico frequente do governo de São Paulo (que, assim como o governo paranaense, nunca foi ocupado pelo PT e também é almejado nas próximas eleições). Em outubro de 2012, quando houve um surto de violência em São Paulo, ordenado de dentro de presídios, Cardozo afirmou que a Secretaria de Segurança Pública paulista havia rejeitado ajuda federal para lidar com a situação, embora o governo paulista tivesse enviado um ofício a Cardozo em junho daquele ano. Os ataques do ministro ao governo paulista se repetiram em 2013, durante as manifestações de junho.
É a segurança do paranaense que está em jogo, e a recusa do ministro da Justiça coloca cálculos eleitorais à frente dos interesses do cidadão. Iegas não apenas é qualificado para o posto, como também é um nome de consenso, apoiado pelas polícias e pelo Sindicato dos Delegados Federais no Paraná. Por isso, Richa tem razão em insistir no nome. Se Cardozo quiser seguir resistindo com os argumentos pouco convincentes apresentados até agora, deixará claro que, ao ignorar a isonomia, está apenas apelando ao casuísmo.
Os argumentos usados pelo ministro da Justiça para negar a cessão do delegado federal José Alberto Iegas à Secretaria de Estado da Segurança Pública não se sustentam
O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, decidiu não permitir a liberação de José Alberto Iegas, chamado pelo governador Beto Richa para assumir a Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). Iegas ocupa atualmente o cargo de diretor nacional de Inteligência da Polícia Federal (PF), e por isso precisaria de autorização do ministro para ser empossado no novo posto. A medida de Cardozo surpreendeu o governo estadual e contrariou inclusive uma informação dada pelo próprio Ministério da Justiça, que na manhã de segunda-feira havia dito à RPCTV que não havia obstáculo nenhum à posse de Iegas, bastando apenas a publicação da nomeação no Diário Oficial do Estado. Infelizmente, todas as circunstâncias que envolvem o caso – desde as alegações dadas por Cardozo a Richa até os precedentes abertos por situações semelhantes – permitem considerar a hipótese de que circunstâncias políticas tenham influenciado a decisão em relação ao Paraná.
A legislação, é verdade, não obriga o Ministério da Justiça a ceder quadros da Polícia Federal para ocupar cargos nas administrações estaduais; esta é uma prerrogativa do ministro. Mas, conforme a Gazeta do Povo mostrou em sua edição de ontem, outros 11 estados têm delegados da PF exercendo atualmente a função de secretários de Segurança Pública, como o Rio de Janeiro. Além disso, em ocasiões anteriores outros secretários estaduais e municipais foram cedidos pelo governo federal sem problemas, como os delegados federais Reinaldo de Almeida César Sobrinho (titular da Sesp entre 2011 e 2012) e Fernando Francischini (secretário Antidrogas de Curitiba entre 2008 e 2010). Ora, se a cessão foi feita em todos esses casos, por que negá-la justamente agora? É preciso haver isonomia na relação entre o governo federal e os estados.
Richa ainda contou à Gazeta do Povo que Cardozo mencionou uma “quarentena” para permitir a transferência de Iegas da PF para a Sesp, mas não citou prazos. O que existe, e está determinado pela legislação (no caso, a Lei 12.813/2013), é um período de seis meses entre o desligamento de um servidor federal de alto escalão e sua admissão na iniciativa privada. A quarentena, nesses casos, é importante para evitar que um funcionário leve informações privilegiadas que serão úteis a seu novo empregador – pensemos, por exemplo, no caso do ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, que precisou passar por um ano de quarentena após deixar o BC, e ao sair dela assumiu a presidência do Conselho de Administração da holding que controla o frigorífico JBS. No entanto, a exigência de quarentena se aplica apenas à iniciativa privada, e não à administração pública. Alegar que Iegas precisaria passar pela quarentena por ser da área de Inteligência, como afirmou à Gazeta a senadora Gleisi Hoffmann, citando Cardozo, não faz o menor sentido. Que o governo do Paraná procure contar com a expertise de Iegas no ramo da segurança pública em nada prejudica a União.
O caso paranaense, no entanto, não é o primeiro envolvendo o ministro da Justiça e governos estaduais de oposição ao PT. Cardozo é um crítico frequente do governo de São Paulo (que, assim como o governo paranaense, nunca foi ocupado pelo PT e também é almejado nas próximas eleições). Em outubro de 2012, quando houve um surto de violência em São Paulo, ordenado de dentro de presídios, Cardozo afirmou que a Secretaria de Segurança Pública paulista havia rejeitado ajuda federal para lidar com a situação, embora o governo paulista tivesse enviado um ofício a Cardozo em junho daquele ano. Os ataques do ministro ao governo paulista se repetiram em 2013, durante as manifestações de junho.
É a segurança do paranaense que está em jogo, e a recusa do ministro da Justiça coloca cálculos eleitorais à frente dos interesses do cidadão. Iegas não apenas é qualificado para o posto, como também é um nome de consenso, apoiado pelas polícias e pelo Sindicato dos Delegados Federais no Paraná. Por isso, Richa tem razão em insistir no nome. Se Cardozo quiser seguir resistindo com os argumentos pouco convincentes apresentados até agora, deixará claro que, ao ignorar a isonomia, está apenas apelando ao casuísmo.
Barbárie diária - EDITORIAL ZERO HORA
ZERO HORA - 26/02
Quando se questionam os governantes, eles costumam responder que se trata apenas de uma “sensação de insegurança” potencializada pela mídia.
O latrocínio que vitimou um conhecido publicitário em Porto Alegre e o espancamento até a morte de um torcedor do Santos em São Paulo chocaram o país neste início de semana, embora ações criminosas como essas já sejam rotineiras neste país desamparado pela segurança. Na porta de casa, na portaria do condomínio, na parada do ônibus, em qualquer lugar, os brasileiros estão permanentemente à mercê de delinquentes que se valem de métodos cruéis e impiedosos para conseguir seus intentos, sejam eles a subtração de qualquer valor ou a disputa de território por gangues de jovens. Os cidadãos, ainda que passem a maior parte de suas vidas enclausurados em prédios gradeados e vigiados o tempo todo por câmeras de segurança, não têm sossego. Independentemente do lugar que habitam e frequentam, da condição social ou da hora do dia e da noite, estão permanentemente expostos aos piores riscos. E muitos já não acreditam mais nos governos e nas forças de segurança, tanto que nem mais registram ocorrências de menor gravidade.
Ainda assim, as estatísticas mostram o Brasil como um dos 10 países mais violentos do mundo. No ano passado, levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, com dados da Organização Mundial da Saúde, colocou o Brasil em sétimo lugar no Mapa da Violência, que contabiliza apenas mortes por armas de fogo. São 27,4 óbitos por cada grupo de 100 mil habitantes. O mesmo estudo mostrou que o homicídio já é a primeira causa de morte não natural e violenta entre os jovens em nosso país.
É tão desanimadora a situação, que parece não haver saída para essa barbárie diária. Quando se questionam os governantes, eles costumam responder que se trata apenas de uma “sensação de insegurança” potencializada pela mídia, que tem o mau hábito, no entendimento deles, de noticiar e dar destaque para crimes escabrosos. Antes fosse apenas isso. A verdade é que o cidadão comum não pode ir ao bar da esquina à noite, os pais não dormem enquanto os filhos não retornam da festa ou da universidade, os jovens têm optado por programas domésticos por puro medo de sair de casa, os comerciantes contratam seguranças privados para não serem assaltados todos os dias e não passa semana sem que aumente o número de famílias enlutadas pela violência nas cidades brasileiras. Além disso, começam a se multiplicar preocupantes episódios de linchamentos promovidos por justiceiros.
Para desanimar mais ainda, os presídios estão lotados. As casas prisionais insuficientes e precárias são o atestado mais evidente da falência de um sistema ineficaz de proteção dos cidadãos, que inclui legislação (e legisladores) em descompasso com a realidade, Justiça impotente ou leniente e governantes relapsos, incapazes de planejar e executar um projeto de segurança eficaz. A polícia, neste contexto, mesmo quando faz o que pode, é apenas a parte visível da inoperância.
Quando se questionam os governantes, eles costumam responder que se trata apenas de uma “sensação de insegurança” potencializada pela mídia.
O latrocínio que vitimou um conhecido publicitário em Porto Alegre e o espancamento até a morte de um torcedor do Santos em São Paulo chocaram o país neste início de semana, embora ações criminosas como essas já sejam rotineiras neste país desamparado pela segurança. Na porta de casa, na portaria do condomínio, na parada do ônibus, em qualquer lugar, os brasileiros estão permanentemente à mercê de delinquentes que se valem de métodos cruéis e impiedosos para conseguir seus intentos, sejam eles a subtração de qualquer valor ou a disputa de território por gangues de jovens. Os cidadãos, ainda que passem a maior parte de suas vidas enclausurados em prédios gradeados e vigiados o tempo todo por câmeras de segurança, não têm sossego. Independentemente do lugar que habitam e frequentam, da condição social ou da hora do dia e da noite, estão permanentemente expostos aos piores riscos. E muitos já não acreditam mais nos governos e nas forças de segurança, tanto que nem mais registram ocorrências de menor gravidade.
Ainda assim, as estatísticas mostram o Brasil como um dos 10 países mais violentos do mundo. No ano passado, levantamento feito pelo Centro Brasileiro de Estudos Latino-Americanos, com dados da Organização Mundial da Saúde, colocou o Brasil em sétimo lugar no Mapa da Violência, que contabiliza apenas mortes por armas de fogo. São 27,4 óbitos por cada grupo de 100 mil habitantes. O mesmo estudo mostrou que o homicídio já é a primeira causa de morte não natural e violenta entre os jovens em nosso país.
É tão desanimadora a situação, que parece não haver saída para essa barbárie diária. Quando se questionam os governantes, eles costumam responder que se trata apenas de uma “sensação de insegurança” potencializada pela mídia, que tem o mau hábito, no entendimento deles, de noticiar e dar destaque para crimes escabrosos. Antes fosse apenas isso. A verdade é que o cidadão comum não pode ir ao bar da esquina à noite, os pais não dormem enquanto os filhos não retornam da festa ou da universidade, os jovens têm optado por programas domésticos por puro medo de sair de casa, os comerciantes contratam seguranças privados para não serem assaltados todos os dias e não passa semana sem que aumente o número de famílias enlutadas pela violência nas cidades brasileiras. Além disso, começam a se multiplicar preocupantes episódios de linchamentos promovidos por justiceiros.
Para desanimar mais ainda, os presídios estão lotados. As casas prisionais insuficientes e precárias são o atestado mais evidente da falência de um sistema ineficaz de proteção dos cidadãos, que inclui legislação (e legisladores) em descompasso com a realidade, Justiça impotente ou leniente e governantes relapsos, incapazes de planejar e executar um projeto de segurança eficaz. A polícia, neste contexto, mesmo quando faz o que pode, é apenas a parte visível da inoperância.
Brasil, UE e Mercosul atolado - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 26/02
A reunião de cúpula entre Brasil e União Europeia (UE) resultou em muita retórica, muita promessa de cooperação e nenhum avanço concreto no assunto econômico mais importante para os dois lados, um acordo de livre-comércio. A presidente Dilma Rousseff reafirmou o interesse brasileiro nesse projeto. O assunto foi mencionado como tema de especial importância no comunicado conjunto, mas, em todos os momentos, o diálogo foi mantido apenas no plano das boas intenções. O governo brasileiro continua amarrado ao Mercosul e forçado a seguir o ritmo do bloco, integrado também por Argentina, Paraguai, Uruguai e, desde o ano passado, pela conturbada e semifalida Venezuela. O ritmo do Mercosul continua ditado, como tem sido há muitos anos, pelos desarranjos políticos e econômicos do segundo maior sócio. Além de impedir compromissos importantes de integração comercial, com troca de concessões, o governo argentino tem dificultado, com barreiras protecionistas e restrições cambiais, as trocas no interior do bloco.
Do lado do Mercosul, as negociações com a União Europeia têm sido emperradas pela resistência da Argentina à apresentação de uma lista de concessões, item essencial de qualquer acordo comercial. Segundo autoridades brasileiras, essa lista será finalmente conhecida no dia 7 de março. Se os argentinos tiverem observado os critérios mínimos, haverá condições para a elaboração de um pacote conjunto. Se os dois lados atenderem ao mínimo desejado, os negociadores poderão iniciar a negociação para valer, comparando as ofertas, cobrando maiores vantagens e pechinchando. Quando isso ocorrer, a negociação terá sido finalmente destravada.
Mas seria precipitado qualquer otimismo antes da reunião do Mercosul prevista para o começo de março. Se os argentinos deixarem de apresentar sua lista de ofertas, o melhor será deixá-los para trás e avançar nas negociações sem a Argentina, disse em Bruxelas a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, senadora Katia Abreu. De toda forma, será preciso incluir a Argentina, mais tarde, no acordo em elaboração.
Por enquanto, o governo brasileiro tem de se preocupar até mesmo com as perspectivas do comércio no interior do bloco. A crise argentina e a política de restrições cambiais imposta pela presidente Cristina Kirchner devem resultar em novas perdas para o Brasil, segundo projeções da Confederação Nacional da Indústria e da Associação de Comércio Exterior do Brasil. As estimativas indicam redução de US$ 3 bilhões das exportações brasileiras para a Argentina. A crise e as limitações cambiais da Venezuela podem custar mais US$ 1 bilhão.
Não há, neste momento, perspectiva de solução dos problemas de nenhum desses dois parceiros. Os dois governos - o argentino e o venezuelano - conservam as desastrosas políticas econômicas escolhidas há vários anos. Mais que isso: tendem a enfrentar os problemas com mais intervencionismo e mais medidas autoritárias, em vez de iniciar os ajustes indicados pelo bom senso.
"Num momento em que a Europa está avançando em tantos acordos comerciais, seria uma pena não termos um com nossos amigos do Mercosul", disse em Bruxelas o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Os políticos e empresários do Mercosul deveriam ver nas entrelinhas dessa declaração mais um sinal de perigo. Enquanto as grandes potências negociam acordos, o Mercosul continua fora do grande jogo comercial.
Mas a presidente Dilma Rousseff mostra otimismo. Segundo ela, na Europa e no Mercosul há hoje consciência da importância do acordo entre os blocos. E antes? A resposta, em puro dilmês, é um desafio aos decifradores. "Então, essa consciência, ela permite que nós tenhamos nesse horizonte a possibilidade real e concreta de fazer o acordo, que não havia de uma forma tão clara nos períodos anteriores, seja porque eram períodos de expansão do ciclo, seja porque nós não tínhamos estado tão diante do fato e dessa consciência que o desencontro não é bom para nenhuma das partes."
A reunião de cúpula entre Brasil e União Europeia (UE) resultou em muita retórica, muita promessa de cooperação e nenhum avanço concreto no assunto econômico mais importante para os dois lados, um acordo de livre-comércio. A presidente Dilma Rousseff reafirmou o interesse brasileiro nesse projeto. O assunto foi mencionado como tema de especial importância no comunicado conjunto, mas, em todos os momentos, o diálogo foi mantido apenas no plano das boas intenções. O governo brasileiro continua amarrado ao Mercosul e forçado a seguir o ritmo do bloco, integrado também por Argentina, Paraguai, Uruguai e, desde o ano passado, pela conturbada e semifalida Venezuela. O ritmo do Mercosul continua ditado, como tem sido há muitos anos, pelos desarranjos políticos e econômicos do segundo maior sócio. Além de impedir compromissos importantes de integração comercial, com troca de concessões, o governo argentino tem dificultado, com barreiras protecionistas e restrições cambiais, as trocas no interior do bloco.
Do lado do Mercosul, as negociações com a União Europeia têm sido emperradas pela resistência da Argentina à apresentação de uma lista de concessões, item essencial de qualquer acordo comercial. Segundo autoridades brasileiras, essa lista será finalmente conhecida no dia 7 de março. Se os argentinos tiverem observado os critérios mínimos, haverá condições para a elaboração de um pacote conjunto. Se os dois lados atenderem ao mínimo desejado, os negociadores poderão iniciar a negociação para valer, comparando as ofertas, cobrando maiores vantagens e pechinchando. Quando isso ocorrer, a negociação terá sido finalmente destravada.
Mas seria precipitado qualquer otimismo antes da reunião do Mercosul prevista para o começo de março. Se os argentinos deixarem de apresentar sua lista de ofertas, o melhor será deixá-los para trás e avançar nas negociações sem a Argentina, disse em Bruxelas a presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, senadora Katia Abreu. De toda forma, será preciso incluir a Argentina, mais tarde, no acordo em elaboração.
Por enquanto, o governo brasileiro tem de se preocupar até mesmo com as perspectivas do comércio no interior do bloco. A crise argentina e a política de restrições cambiais imposta pela presidente Cristina Kirchner devem resultar em novas perdas para o Brasil, segundo projeções da Confederação Nacional da Indústria e da Associação de Comércio Exterior do Brasil. As estimativas indicam redução de US$ 3 bilhões das exportações brasileiras para a Argentina. A crise e as limitações cambiais da Venezuela podem custar mais US$ 1 bilhão.
Não há, neste momento, perspectiva de solução dos problemas de nenhum desses dois parceiros. Os dois governos - o argentino e o venezuelano - conservam as desastrosas políticas econômicas escolhidas há vários anos. Mais que isso: tendem a enfrentar os problemas com mais intervencionismo e mais medidas autoritárias, em vez de iniciar os ajustes indicados pelo bom senso.
"Num momento em que a Europa está avançando em tantos acordos comerciais, seria uma pena não termos um com nossos amigos do Mercosul", disse em Bruxelas o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Os políticos e empresários do Mercosul deveriam ver nas entrelinhas dessa declaração mais um sinal de perigo. Enquanto as grandes potências negociam acordos, o Mercosul continua fora do grande jogo comercial.
Mas a presidente Dilma Rousseff mostra otimismo. Segundo ela, na Europa e no Mercosul há hoje consciência da importância do acordo entre os blocos. E antes? A resposta, em puro dilmês, é um desafio aos decifradores. "Então, essa consciência, ela permite que nós tenhamos nesse horizonte a possibilidade real e concreta de fazer o acordo, que não havia de uma forma tão clara nos períodos anteriores, seja porque eram períodos de expansão do ciclo, seja porque nós não tínhamos estado tão diante do fato e dessa consciência que o desencontro não é bom para nenhuma das partes."
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Vocês me desculpem, mas eu não vou falar nada, nada, nada”
Edmar Moreira (PR-MG), deputado do castelo, fugindo de declarações após sua posse
AGORA É O PV QUE TENTA ATRAIR JOAQUIM BARBOSA
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, anda conversando com a direção nacional do Partido Verde. Alta fonte do PV revelou que a ideia é Barbosa disputar o Senado pelo Rio de Janeiro, fazendo dobradinha com Alfredo Sirkis, candidato verde ao governo estadual. O ministro já revelou a intenção de antecipar a aposentadoria, e disputar mandato de senador é sua maior pretensão.
DE MENTIRINHA?
Após afirmar que o Brasil “só tem partido de mentirinha”, Joaquim Barbosa terá de explicar por que considera o PV diferente dos demais.
BOM DE VOTO
PSB e PDT também cortejaram Joaquim Barbosa. Em pesquisas nacionais para presidente, ele chega a 15% das intenções de voto.
É RACIONAMENTO
O governador tucano Geraldo Alckmin deve anunciar racionamento de água em São Paulo. Os reservatórios estão abaixo do limite mínimo.
ONIPRESENÇA
Além de São Paulo e Goiás, o marqueteiro Duda Mendonça quer fazer a campanha de Eunicio Oliveira (PMDB) para governador do Ceará.
ECONOMISTAS TUCANOS CRITICAM POLÍTICA DO PT
Na festa dos 20 anos do Plano Real, o PSDB escalou a linha de frente de economistas para atacar a política econômica do PT: Edmar Bacha, da campanha de Aécio Neves, e Ilan Goldfajn, do Itaú. Para Bacha, um governo tucano terá a missão de “desfazimento”, mudar tudo na política atual. Goldfajn, ex-BC na era FHC, acha que meta de economizar 1,9% do PIB será frustrada: ficará em 1,4% por causa do baixo crescimento.
VISÃO PESSIMISTA
“Conto com o rebaixamento do Brasil; se não for em dezembro, será em janeiro”, vaticinou Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Itaú.
DUPLA SERTANEJA
As mensagens dos dois economistas tucanos foram complementares, um falando em tom de pré-campanha e outro mais técnico.
CALCANHAR DE AQUILES
Aécio Neves sinalizou, na festa do Plano Real, que já escolheu o caminho para bater no governo Dilma na campanha: a economia.
ARROGÂNCIA INCENDIÁRIA
A “dura” do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) nos líderes aliados, que criaram “blocão” para emparedar o governo, incendiou os deputados, que agora ameaçam criar CPI para investigar a Petrobras.
ALOIZIO EM LOJA DE CRISTAIS
Aloizio Mercadante enfureceu ainda os deputados ao desdenhar das intenções do “blocão”, afirmando que Dilma “está bem nas pesquisas” e que a base aliada “é afortunada por poder sair na foto com ela”.
CENSURA DO FRIBOI
O Friboi, da rede JBS, censurou comentários nas mídias sociais sobre seu anúncio com Roberto Carlos, porque achou “ofensivos” alguns comentários sobre a campanha, da agência Lew Lara. Ruim de dar dó.
NAS SOMBRAS
Carlos Gabas, vice-ministro da Previdência, trabalha nos bastidores para lançar Pedro Nadaf, presidente da Fecomércio-MT, para a presidência da CNC, a Confederação Nacional do Comércio.
PÉ NA ESTRADA
Eduardo Campos, pré-candidato a presidente pelo PSB, já definiu que a partir de junho só vai ao Recife nos finais de semana, para ficar com a família. De segunda a sexta, ele pretende gastar sola de sapato.
PREFEITOS ACUADOS
Evento estadual do PROS, em Palmas (TO), reuniu há dias políticos como o deputado Miro Teixeira (RJ) e Ciro Gomes, e centenas de convidados. Mas poucos prefeitos. Deu certo a ameaça de retaliações do governo estadual, chefiado por Siqueira Campos.
ETERNA MUSA
Considerada a musa da Constituinte, a ex-deputada Rita Camata (ES), nos trinques aos 53 anos, chamou a atenção de parlamentares durante homenagem ao ex-presidente FHC pelos 20 anos do Plano Real.
MEMÓRIA SELETIVA
Dilma sugeriu “diálogo” na crise da Venezuela, mas obediente ao princípio da não intromissão em “assuntos de outros países”. Mas interferiu nos assuntos do Paraguai, forçando-o a sair do Mercosul.
LIÇÃO DE HISTÓRIA
Dilma garantiu que Venezuela e Ucrânia “são situações diferentes”, mas esqueceu de dizer que o final dos déspotas é sempre o mesmo.
PODER SEM PUDOR
AUMENTO, NEM PENSAR
Produtores pediram ao então governador de Alagoas, Silvestre Péricles um aumento justo no preço do leite. Doido de pedra, ele gritou:
- Mãe! Mãe! Venha ver estes ladrões. Nunca se viu tantos juntos!
Foi até sua mesa, retirou um revólver da gaveta e bradou:
- Quer saber de uma coisa, mãe? Vou matar esses ladrões!
A velha senhora levou as mãos à cabeça e os apavorados produtores saíram em disparada. E nunca mais se falou em aumento de preços.
Edmar Moreira (PR-MG), deputado do castelo, fugindo de declarações após sua posse
AGORA É O PV QUE TENTA ATRAIR JOAQUIM BARBOSA
O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, anda conversando com a direção nacional do Partido Verde. Alta fonte do PV revelou que a ideia é Barbosa disputar o Senado pelo Rio de Janeiro, fazendo dobradinha com Alfredo Sirkis, candidato verde ao governo estadual. O ministro já revelou a intenção de antecipar a aposentadoria, e disputar mandato de senador é sua maior pretensão.
DE MENTIRINHA?
Após afirmar que o Brasil “só tem partido de mentirinha”, Joaquim Barbosa terá de explicar por que considera o PV diferente dos demais.
BOM DE VOTO
PSB e PDT também cortejaram Joaquim Barbosa. Em pesquisas nacionais para presidente, ele chega a 15% das intenções de voto.
É RACIONAMENTO
O governador tucano Geraldo Alckmin deve anunciar racionamento de água em São Paulo. Os reservatórios estão abaixo do limite mínimo.
ONIPRESENÇA
Além de São Paulo e Goiás, o marqueteiro Duda Mendonça quer fazer a campanha de Eunicio Oliveira (PMDB) para governador do Ceará.
ECONOMISTAS TUCANOS CRITICAM POLÍTICA DO PT
Na festa dos 20 anos do Plano Real, o PSDB escalou a linha de frente de economistas para atacar a política econômica do PT: Edmar Bacha, da campanha de Aécio Neves, e Ilan Goldfajn, do Itaú. Para Bacha, um governo tucano terá a missão de “desfazimento”, mudar tudo na política atual. Goldfajn, ex-BC na era FHC, acha que meta de economizar 1,9% do PIB será frustrada: ficará em 1,4% por causa do baixo crescimento.
VISÃO PESSIMISTA
“Conto com o rebaixamento do Brasil; se não for em dezembro, será em janeiro”, vaticinou Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco Itaú.
DUPLA SERTANEJA
As mensagens dos dois economistas tucanos foram complementares, um falando em tom de pré-campanha e outro mais técnico.
CALCANHAR DE AQUILES
Aécio Neves sinalizou, na festa do Plano Real, que já escolheu o caminho para bater no governo Dilma na campanha: a economia.
ARROGÂNCIA INCENDIÁRIA
A “dura” do ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) nos líderes aliados, que criaram “blocão” para emparedar o governo, incendiou os deputados, que agora ameaçam criar CPI para investigar a Petrobras.
ALOIZIO EM LOJA DE CRISTAIS
Aloizio Mercadante enfureceu ainda os deputados ao desdenhar das intenções do “blocão”, afirmando que Dilma “está bem nas pesquisas” e que a base aliada “é afortunada por poder sair na foto com ela”.
CENSURA DO FRIBOI
O Friboi, da rede JBS, censurou comentários nas mídias sociais sobre seu anúncio com Roberto Carlos, porque achou “ofensivos” alguns comentários sobre a campanha, da agência Lew Lara. Ruim de dar dó.
NAS SOMBRAS
Carlos Gabas, vice-ministro da Previdência, trabalha nos bastidores para lançar Pedro Nadaf, presidente da Fecomércio-MT, para a presidência da CNC, a Confederação Nacional do Comércio.
PÉ NA ESTRADA
Eduardo Campos, pré-candidato a presidente pelo PSB, já definiu que a partir de junho só vai ao Recife nos finais de semana, para ficar com a família. De segunda a sexta, ele pretende gastar sola de sapato.
PREFEITOS ACUADOS
Evento estadual do PROS, em Palmas (TO), reuniu há dias políticos como o deputado Miro Teixeira (RJ) e Ciro Gomes, e centenas de convidados. Mas poucos prefeitos. Deu certo a ameaça de retaliações do governo estadual, chefiado por Siqueira Campos.
ETERNA MUSA
Considerada a musa da Constituinte, a ex-deputada Rita Camata (ES), nos trinques aos 53 anos, chamou a atenção de parlamentares durante homenagem ao ex-presidente FHC pelos 20 anos do Plano Real.
MEMÓRIA SELETIVA
Dilma sugeriu “diálogo” na crise da Venezuela, mas obediente ao princípio da não intromissão em “assuntos de outros países”. Mas interferiu nos assuntos do Paraguai, forçando-o a sair do Mercosul.
LIÇÃO DE HISTÓRIA
Dilma garantiu que Venezuela e Ucrânia “são situações diferentes”, mas esqueceu de dizer que o final dos déspotas é sempre o mesmo.
PODER SEM PUDOR
AUMENTO, NEM PENSAR
Produtores pediram ao então governador de Alagoas, Silvestre Péricles um aumento justo no preço do leite. Doido de pedra, ele gritou:
- Mãe! Mãe! Venha ver estes ladrões. Nunca se viu tantos juntos!
Foi até sua mesa, retirou um revólver da gaveta e bradou:
- Quer saber de uma coisa, mãe? Vou matar esses ladrões!
A velha senhora levou as mãos à cabeça e os apavorados produtores saíram em disparada. E nunca mais se falou em aumento de preços.
terça-feira, fevereiro 25, 2014
O ilusionismo da presidente - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 25/02
Quando a presidente Dilma Rousseff, impressionada - para não dizer assustada - com as grandes manifestações de junho do ano passado, cujo alvo principal eram as graves deficiências do transporte urbano, anunciou um ambicioso programa de obras para melhorar esse setor, qualquer observador atento pôde perceber que ela estava prometendo mais do que poderia realizar. Nesse programa, as considerações de ordem política e eleitoral primavam claramente sobre as de ordem técnica e administrativa.
Tudo isso está sendo confirmado por levantamento do estado em que se encontram os projetos, como mostra reportagem do jornal Valor. O resultado é decepcionante. Menos de 20% dos projetos de transporte urbano em cidades médias e grandes que contam com apoio financeiro do governo federal estão sendo executados ou foram concluídos. Em números absolutos, a situação aparece com maior nitidez: de 229 projetos, só 47, em 14 municípios, têm obras em andamento. Concluídos e com obras inauguradas, apenas 6. Os demais nem saíram do papel - estão em fase de licitação ou não passaram ainda pela de estudos de viabilidade técnica e econômica.
Ao tentar justificar o atraso das obras desse programa, comparando-o com o que está em execução na área de saneamento básico, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, acabou se complicando. Lembrou ela que em 2007, quando o governo federal se dispôs a destinar recursos para obras de abastecimento de água e tratamento de esgotos de Estados e municípios, um grande número destes não conseguiu realizar os estudos técnicos exigidos para tal.
No caso dos pequenos municípios e mesmo no de Estados mais pobres, isto era perfeitamente previsível, pois é notório que lhes faltam condições mínimas para isso. Mas o governo demorou a perceber que nesses casos a exigência de projetos de boa qualidade técnica era irrealista. Aos poucos ele está conseguindo suprir essa falha, com o oferecimento de assistência àqueles Estados e municípios.
De acordo com a ministra, hoje 60% dos projetos de saneamento básico candidatos a receber financiamento federal já se enquadram nas exigências do governo.
O mesmo deve ocorrer com o transporte urbano, segundo a ministra, pois também nesse caso o governo vai financiar a realização dos estudos necessários para a elaboração de projetos tecnicamente viáveis por parte de municípios e Estados que não se sentem em condições de cumprir sozinhos essa tarefa. Esta é uma das principais razões para o fraquíssimo desempenho do programa. Ora, se o governo sabia que essa era a realidade a ser enfrentada pelas obras de transporte urbano, com base na experiência recente do saneamento básico, só a vontade de cortejar a opinião pública, majoritariamente simpática às manifestações de junho, parece explicar o lançamento daquele programa com tanto estardalhaço.
É louvável que o governo tenha procurado compreender o recado das ruas, como disse a presidente, e dar-lhe uma resposta. É o que se esperava dele. Mas pelo visto, mais de olho na sua tentativa de se reeleger do que atenta à realidade, a presidente escolheu o caminho errado - o da promessa insensata, para produzir boa impressão e iludir a opinião pública. Prometeu o que não podia entregar.
Dilma Rousseff, que se pretende uma boa administradora - qualidade que seu padrinho, o ex-presidente Lula, sempre lhe atribuiu -, deveria saber que obras de infraestrutura, como as de transporte urbano, não se fazem da noite para o dia, a toque de caixa. Além de grandes investimentos e estudos técnicos - para os quais, como se viu, boa parte dos interessados não está preparada -, elas demandam tempo. Isto salta aos olhos.
O certo teria sido, então, expor com franqueza essa realidade para a população que sofre com a precariedade do transporte urbano, principalmente a das grandes cidades, e propor um programa com etapas bem definidas para sua melhoria. Em vez disso, ela preferiu o caminho fácil do ilusionismo. E o resultado já começa a aparecer - o pífio desempenho de seu tão decantado programa.
Quando a presidente Dilma Rousseff, impressionada - para não dizer assustada - com as grandes manifestações de junho do ano passado, cujo alvo principal eram as graves deficiências do transporte urbano, anunciou um ambicioso programa de obras para melhorar esse setor, qualquer observador atento pôde perceber que ela estava prometendo mais do que poderia realizar. Nesse programa, as considerações de ordem política e eleitoral primavam claramente sobre as de ordem técnica e administrativa.
Tudo isso está sendo confirmado por levantamento do estado em que se encontram os projetos, como mostra reportagem do jornal Valor. O resultado é decepcionante. Menos de 20% dos projetos de transporte urbano em cidades médias e grandes que contam com apoio financeiro do governo federal estão sendo executados ou foram concluídos. Em números absolutos, a situação aparece com maior nitidez: de 229 projetos, só 47, em 14 municípios, têm obras em andamento. Concluídos e com obras inauguradas, apenas 6. Os demais nem saíram do papel - estão em fase de licitação ou não passaram ainda pela de estudos de viabilidade técnica e econômica.
Ao tentar justificar o atraso das obras desse programa, comparando-o com o que está em execução na área de saneamento básico, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, acabou se complicando. Lembrou ela que em 2007, quando o governo federal se dispôs a destinar recursos para obras de abastecimento de água e tratamento de esgotos de Estados e municípios, um grande número destes não conseguiu realizar os estudos técnicos exigidos para tal.
No caso dos pequenos municípios e mesmo no de Estados mais pobres, isto era perfeitamente previsível, pois é notório que lhes faltam condições mínimas para isso. Mas o governo demorou a perceber que nesses casos a exigência de projetos de boa qualidade técnica era irrealista. Aos poucos ele está conseguindo suprir essa falha, com o oferecimento de assistência àqueles Estados e municípios.
De acordo com a ministra, hoje 60% dos projetos de saneamento básico candidatos a receber financiamento federal já se enquadram nas exigências do governo.
O mesmo deve ocorrer com o transporte urbano, segundo a ministra, pois também nesse caso o governo vai financiar a realização dos estudos necessários para a elaboração de projetos tecnicamente viáveis por parte de municípios e Estados que não se sentem em condições de cumprir sozinhos essa tarefa. Esta é uma das principais razões para o fraquíssimo desempenho do programa. Ora, se o governo sabia que essa era a realidade a ser enfrentada pelas obras de transporte urbano, com base na experiência recente do saneamento básico, só a vontade de cortejar a opinião pública, majoritariamente simpática às manifestações de junho, parece explicar o lançamento daquele programa com tanto estardalhaço.
É louvável que o governo tenha procurado compreender o recado das ruas, como disse a presidente, e dar-lhe uma resposta. É o que se esperava dele. Mas pelo visto, mais de olho na sua tentativa de se reeleger do que atenta à realidade, a presidente escolheu o caminho errado - o da promessa insensata, para produzir boa impressão e iludir a opinião pública. Prometeu o que não podia entregar.
Dilma Rousseff, que se pretende uma boa administradora - qualidade que seu padrinho, o ex-presidente Lula, sempre lhe atribuiu -, deveria saber que obras de infraestrutura, como as de transporte urbano, não se fazem da noite para o dia, a toque de caixa. Além de grandes investimentos e estudos técnicos - para os quais, como se viu, boa parte dos interessados não está preparada -, elas demandam tempo. Isto salta aos olhos.
O certo teria sido, então, expor com franqueza essa realidade para a população que sofre com a precariedade do transporte urbano, principalmente a das grandes cidades, e propor um programa com etapas bem definidas para sua melhoria. Em vez disso, ela preferiu o caminho fácil do ilusionismo. E o resultado já começa a aparecer - o pífio desempenho de seu tão decantado programa.
Violência na sarjeta - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 25/02
Sem truculência, polícia precisa encontrar maneiras de conter atos de vandalismo, o que ajudaria a preservar apoio às manifestações
A pesquisa Datafolha publicada ontem registra de forma eloquente o desgaste que as manifestações sofrem desde junho, quando chegaram a atrair cerca de 1 milhão de pessoas em 25 capitais do país.
Naquela época, nada menos que 81% dos brasileiros diziam apoiar os protestos, e apenas 15% se declaravam contrários a eles. Não parecia haver dúvidas, para uma parcela maciça da população, quanto ao caráter auspicioso das marchas.
Passados oito meses, contudo, parte significativa daquela esperança se esvaiu, decerto abalada pela violência que passou a acompanhar os atos. A rejeição às passeatas saltou para 42%, enquanto a aprovação despencou para 52%.
Trata-se de mais uma faceta deletéria do vandalismo. Além dos danos diretos que provoca ao setor público e privado, a arruaça contamina o espírito das ruas, prejudicando uma saudável demonstração de inconformismo.
Ao demandar maior zelo com os recursos públicos e melhoria nos serviços oferecidos pelo Estado, os protestos já obtiveram vitórias notáveis, em acréscimo ao próprio despertar do sistema político.
É sintoma desse novo ânimo crítico que o chamado país do futebol veja diminuir de modo expressivo o apoio à realização da Copa do Mundo no Brasil --para o que as manifestações, somadas ao acompanhamento sistemático sobre custos e legados feito pela imprensa, certamente contribuíram.
Diante desses dados, aqueles que defendem o quebra-quebra deveriam se perguntar a quem tal comportamento condenável aproveita. Por retirar respaldo das marchas, a resposta soa evidente: aos que nunca quiseram dar ouvidos às justas reclamações populares.
Assegurar o transcurso pacífico das passeatas, portanto, é um desiderato democrático --e não o seu contrário, como alguns têm procurado sustentar. Deveria ser igualmente óbvio que medidas adotadas com esse propósito não podem violar o direito de manifestação; antes, devem garanti-lo.
Enquanto se discutem iniciativas legislativas nesse sentido, a Polícia Militar de São Paulo mostrou, no sábado, que há muito a avançar no campo tático. Agentes desarmados e treinados em artes marciais isolaram participantes de um ato contra a Copa e lideraram a detenção de mais de 200 pessoas.
Para o comando da PM, a operação foi um sucesso. De fato, na comparação com eventos anteriores, foi menor o número de confrontos, feridos e depredações.
Houve, por outro lado, inegáveis arbitrariedades. Inúmeras pessoas sem conexão com o vandalismo foram cercadas, e entre elas estavam diversos jornalistas --o que indica o tamanho da inépcia policial.
O caminho que separa um plano bem-intencionado de sua execução muitas vezes é tortuoso. À população não interessa nem a truculência nem a omissão durante os protestos, mas nenhuma estratégia de contenção será adequada se fizer da intimidação uma regra.
Sem truculência, polícia precisa encontrar maneiras de conter atos de vandalismo, o que ajudaria a preservar apoio às manifestações
A pesquisa Datafolha publicada ontem registra de forma eloquente o desgaste que as manifestações sofrem desde junho, quando chegaram a atrair cerca de 1 milhão de pessoas em 25 capitais do país.
Naquela época, nada menos que 81% dos brasileiros diziam apoiar os protestos, e apenas 15% se declaravam contrários a eles. Não parecia haver dúvidas, para uma parcela maciça da população, quanto ao caráter auspicioso das marchas.
Passados oito meses, contudo, parte significativa daquela esperança se esvaiu, decerto abalada pela violência que passou a acompanhar os atos. A rejeição às passeatas saltou para 42%, enquanto a aprovação despencou para 52%.
Trata-se de mais uma faceta deletéria do vandalismo. Além dos danos diretos que provoca ao setor público e privado, a arruaça contamina o espírito das ruas, prejudicando uma saudável demonstração de inconformismo.
Ao demandar maior zelo com os recursos públicos e melhoria nos serviços oferecidos pelo Estado, os protestos já obtiveram vitórias notáveis, em acréscimo ao próprio despertar do sistema político.
É sintoma desse novo ânimo crítico que o chamado país do futebol veja diminuir de modo expressivo o apoio à realização da Copa do Mundo no Brasil --para o que as manifestações, somadas ao acompanhamento sistemático sobre custos e legados feito pela imprensa, certamente contribuíram.
Diante desses dados, aqueles que defendem o quebra-quebra deveriam se perguntar a quem tal comportamento condenável aproveita. Por retirar respaldo das marchas, a resposta soa evidente: aos que nunca quiseram dar ouvidos às justas reclamações populares.
Assegurar o transcurso pacífico das passeatas, portanto, é um desiderato democrático --e não o seu contrário, como alguns têm procurado sustentar. Deveria ser igualmente óbvio que medidas adotadas com esse propósito não podem violar o direito de manifestação; antes, devem garanti-lo.
Enquanto se discutem iniciativas legislativas nesse sentido, a Polícia Militar de São Paulo mostrou, no sábado, que há muito a avançar no campo tático. Agentes desarmados e treinados em artes marciais isolaram participantes de um ato contra a Copa e lideraram a detenção de mais de 200 pessoas.
Para o comando da PM, a operação foi um sucesso. De fato, na comparação com eventos anteriores, foi menor o número de confrontos, feridos e depredações.
Houve, por outro lado, inegáveis arbitrariedades. Inúmeras pessoas sem conexão com o vandalismo foram cercadas, e entre elas estavam diversos jornalistas --o que indica o tamanho da inépcia policial.
O caminho que separa um plano bem-intencionado de sua execução muitas vezes é tortuoso. À população não interessa nem a truculência nem a omissão durante os protestos, mas nenhuma estratégia de contenção será adequada se fizer da intimidação uma regra.
Elevar impostos prejudica país - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 25/02
Há risco de a responsabilidade fiscal servir de pretexto a um maior arrocho tributário, pois, se já não cortam gastos, em ano eleitoral é que isso não será feito
Foi positiva a reação de mercados e analistas ao anúncio do governo de uma meta de superávit fiscal mais realista, de 1,9% do PIB, a ser cumprida este ano sem efeitos especiais estatísticos produzidos no laboratório da contabilidade criativa, conjugada com um contingenciamento orçamentário de R$ 44 bilhões. No dia seguinte, porém, na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu aumento de impostos para ajudar no atingimento da meta. Foi um contraponto negativo ao relativo otimismo com o anúncio do dia anterior.
Pois falar em aumento de carga tributária quando ela está nos píncaros de 37,6% do PIB, uma das mais elevadas do mundo, recorde no bloco das economias emergentes, significa afugentar investimentos, atemorizar consumidores. Mesmo que eles não façam conta na ponta do lápis, sentirão no bolso.
É particularmente negativo para as expectativas diante da economia brasileira falar em mais impostos, porque o país já é bastante conhecido por pesar a mão nos gravames.
Na última pesquisa “Doing Business”, do Banco Mundial, um barômetro da facilidade para se fechar negócios em 189 países, o Brasil continua a aparecer mal, na 116ª posição. No item referente a impostos, a situação piora (159º lugar). Entre os quesitos que compõem a pesquisa (abertura de empresas, obtenção de crédito, entre outros), o referente a impostos é o pior avaliado. E, pelo jeito, não há qualquer perspectiva de melhoria.
A escalada da carga tributária é história antiga. E se há um ponto em comum entre PSDB e PT é gostar de tentar equilibrar as contas públicas pelo crescimento das receitas. O processo de elevação de impostos vem da gestão Fernando Henrique Cardoso e prosseguiu, lépida, com Lula e Dilma. No período, a sociedade foi levada a contribuir a mais para o Tesouro com o equivalente a dez pontos percentuais de PIB. E continuará sendo assim, segundo Mantega.
Na entrevista da sexta-feira, o ministro citou como uma possibilidade elevar alíquotas do PIS/Cofins sobre importações e cosméticos. Há razões até lógicas para as mudanças: decisão do Supremo retirou o ICMS da base de cálculo do PIS/Confins nas compras no exterior e, na indústria de cosméticos, a elevação de alíquota compensaria o que deixaria de ser arrecadado devido a um determinado planejamento tributário feito pelo setor no recolhimento do imposto.
Mas, dentro do contexto nacional de um insaciável e histórico furor arrecadador, o anúncio do ministro faz temer que o governo use o pretexto da necessidade de responsabilidade fiscal para apertar mais ainda o torniquete tributário, como é de sua tradição.
A alternativa de racionalização e corte de gastos, a melhor, se já não é explorada em condições normais, em ano eleitoral não deverá sequer ser cogitada. Compromete-se, assim, ainda mais, o crescimento futuro em bases estáveis.
Há risco de a responsabilidade fiscal servir de pretexto a um maior arrocho tributário, pois, se já não cortam gastos, em ano eleitoral é que isso não será feito
Foi positiva a reação de mercados e analistas ao anúncio do governo de uma meta de superávit fiscal mais realista, de 1,9% do PIB, a ser cumprida este ano sem efeitos especiais estatísticos produzidos no laboratório da contabilidade criativa, conjugada com um contingenciamento orçamentário de R$ 44 bilhões. No dia seguinte, porém, na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, admitiu aumento de impostos para ajudar no atingimento da meta. Foi um contraponto negativo ao relativo otimismo com o anúncio do dia anterior.
Pois falar em aumento de carga tributária quando ela está nos píncaros de 37,6% do PIB, uma das mais elevadas do mundo, recorde no bloco das economias emergentes, significa afugentar investimentos, atemorizar consumidores. Mesmo que eles não façam conta na ponta do lápis, sentirão no bolso.
É particularmente negativo para as expectativas diante da economia brasileira falar em mais impostos, porque o país já é bastante conhecido por pesar a mão nos gravames.
Na última pesquisa “Doing Business”, do Banco Mundial, um barômetro da facilidade para se fechar negócios em 189 países, o Brasil continua a aparecer mal, na 116ª posição. No item referente a impostos, a situação piora (159º lugar). Entre os quesitos que compõem a pesquisa (abertura de empresas, obtenção de crédito, entre outros), o referente a impostos é o pior avaliado. E, pelo jeito, não há qualquer perspectiva de melhoria.
A escalada da carga tributária é história antiga. E se há um ponto em comum entre PSDB e PT é gostar de tentar equilibrar as contas públicas pelo crescimento das receitas. O processo de elevação de impostos vem da gestão Fernando Henrique Cardoso e prosseguiu, lépida, com Lula e Dilma. No período, a sociedade foi levada a contribuir a mais para o Tesouro com o equivalente a dez pontos percentuais de PIB. E continuará sendo assim, segundo Mantega.
Na entrevista da sexta-feira, o ministro citou como uma possibilidade elevar alíquotas do PIS/Cofins sobre importações e cosméticos. Há razões até lógicas para as mudanças: decisão do Supremo retirou o ICMS da base de cálculo do PIS/Confins nas compras no exterior e, na indústria de cosméticos, a elevação de alíquota compensaria o que deixaria de ser arrecadado devido a um determinado planejamento tributário feito pelo setor no recolhimento do imposto.
Mas, dentro do contexto nacional de um insaciável e histórico furor arrecadador, o anúncio do ministro faz temer que o governo use o pretexto da necessidade de responsabilidade fiscal para apertar mais ainda o torniquete tributário, como é de sua tradição.
A alternativa de racionalização e corte de gastos, a melhor, se já não é explorada em condições normais, em ano eleitoral não deverá sequer ser cogitada. Compromete-se, assim, ainda mais, o crescimento futuro em bases estáveis.
Drogas: impõe-se combater a oferta - EDITORIAL CORREIO BRAZILIENSE
CORREIO BRAZILIENSE - 25/02
O Correio apresenta uma série de reportagens sobre mães de filhos dependentes de drogas. Embora pessoais, as tragédias narradas têm abrangência coletiva. A família, os vizinhos, os colegas de escola ou de trabalho e até desconhecidos participam direta ou indiretamente do enredo amedrontador. Ninguém duvida de que uma das causas da violência que se alastra país afora é o milionário negócio dos entorpecentes.
Chama a atenção nas matérias a facilidade do acesso a crack, maconha ou cocaína. Mães contam com naturalidade que saem de casa para comprar o produto que satisfaz o vício do filho. Em desespero, elas pensam evitar mal maior - seja a agressão física motivada pela abstinência, seja a fuga do adicto para as ruas, onde fica exposto a barbáries cujo resultado é de todos conhecido.
A desenvoltura com que os traficantes agem responde não só pelo abastecimento das mães desesperadas, mas pela formação da multidão de viciados. Antes restritos às metrópoles, os narcóticos chegaram às médias e pequenas cidades. Há oferta para todos os bolsos e gostos. Com poucos trocados é possível comprar uma pedra ou um baseado como se compra um refrigerante ou um sanduíche. Os pontos de venda são conhecidos. Alguns fazem as transações com cartão de crédito.
É importante, claro, socorrer drogados e familiares. Adultos e crianças ligados a viciados também adoecem. Mas concentrar-se no sintoma em vez de atacar a causa se assemelha a secar gelo. É como manter maçã estragada entre frutas em bom estado. Ao cabo de pouco tempo, todas deverão ser jogadas no lixo. Com o livre acesso, o exército de enfermos aumenta e contagia adolescentes, jovens e adultos. Cria-se círculo vicioso, que cria outro, outro e mais outro.
Há que combater - com inteligência e profissionais qualificados - a ponta da oferta. As autoridades conhecem a origem, o percurso e o ponto de chegada da droga. Conhecem os distribuidores e os usuários. Conhecem também o poder das somas bilionárias movimentadas pelos cartéis, que corrompem responsáveis pela repressão, compram consciências e disseminam a praga de norte a sul do país.
Este é ano eleitoral. A campanha, sem dúvida, abordará o tema. Promessas não faltarão. Nem projetos milagrosos capazes de curar os dependentes, socorrer as famílias e pôr ponto final no tráfico. No pleito passado, candidatos visitaram - e exibiram em rede nacional de rádio e tevê - grupos de parentes desesperados que buscam amparo mútuo para enfrentar o drama de todos. Passadas as eleições, ficou o dito pelo não dito. Enquanto isso, o tráfico se infiltra no poder e elege representantes. O mal, até o momento, vence a guerra. Passou da hora de virar o jogo - passar das palavras à ação.
Chama a atenção nas matérias a facilidade do acesso a crack, maconha ou cocaína. Mães contam com naturalidade que saem de casa para comprar o produto que satisfaz o vício do filho. Em desespero, elas pensam evitar mal maior - seja a agressão física motivada pela abstinência, seja a fuga do adicto para as ruas, onde fica exposto a barbáries cujo resultado é de todos conhecido.
A desenvoltura com que os traficantes agem responde não só pelo abastecimento das mães desesperadas, mas pela formação da multidão de viciados. Antes restritos às metrópoles, os narcóticos chegaram às médias e pequenas cidades. Há oferta para todos os bolsos e gostos. Com poucos trocados é possível comprar uma pedra ou um baseado como se compra um refrigerante ou um sanduíche. Os pontos de venda são conhecidos. Alguns fazem as transações com cartão de crédito.
É importante, claro, socorrer drogados e familiares. Adultos e crianças ligados a viciados também adoecem. Mas concentrar-se no sintoma em vez de atacar a causa se assemelha a secar gelo. É como manter maçã estragada entre frutas em bom estado. Ao cabo de pouco tempo, todas deverão ser jogadas no lixo. Com o livre acesso, o exército de enfermos aumenta e contagia adolescentes, jovens e adultos. Cria-se círculo vicioso, que cria outro, outro e mais outro.
Há que combater - com inteligência e profissionais qualificados - a ponta da oferta. As autoridades conhecem a origem, o percurso e o ponto de chegada da droga. Conhecem os distribuidores e os usuários. Conhecem também o poder das somas bilionárias movimentadas pelos cartéis, que corrompem responsáveis pela repressão, compram consciências e disseminam a praga de norte a sul do país.
Este é ano eleitoral. A campanha, sem dúvida, abordará o tema. Promessas não faltarão. Nem projetos milagrosos capazes de curar os dependentes, socorrer as famílias e pôr ponto final no tráfico. No pleito passado, candidatos visitaram - e exibiram em rede nacional de rádio e tevê - grupos de parentes desesperados que buscam amparo mútuo para enfrentar o drama de todos. Passadas as eleições, ficou o dito pelo não dito. Enquanto isso, o tráfico se infiltra no poder e elege representantes. O mal, até o momento, vence a guerra. Passou da hora de virar o jogo - passar das palavras à ação.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Caí de pé”
Roberto Jefferson, ex-deputado e mensaleiro confesso, antes de ser preso
NO DF, AÉCIO PASSA DILMA E LIDERA PARA PRESIDENTE
O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves (MG), lidera as intenções de voto no Distrito Federal, segundo pesquisa do Instituto Dados realizada entre os dias 10 17 de fevereiro. Aécio tem 22,9% das preferências do eleitor do DF, contra 21,7% de Dilma Rousseff (PT) e 8,7% de Eduardo Campos (PSB). O DF é a primeira unidade da Federação onde Aécio supera Dilma.
PARA CONFERIR
A pesquisa do Instituto Dados, com detalhes do universo apurado e metodologia, foi registrada no TSE (nº 013/2014) e no TRE (001/2014).
AS ENTREVISTAS
Para apurar as intenções de voto para presidente, no Distrito Federal, o Instituto Dados entrevistou 3.000 eleitores.
COMEMORAÇÃO
O PSDB e o possível candidato do partido ao governo do DF, deputado Luiz Pitiman, comemoraram o desempenho de Aécio na pesquisa.
PERGUNTA NO XILINDRÓ
Após abrir o bico delatando o mensalão, Roberto Jefferson também vai torturar os companheiros de cela cantando Nervos de aço?
LÍDERES ALIADOS AFIAM A GAZUA PARA ENFRENTAR DILMA
Reúne-se nesta terça o “blocão” do PMDB e mais oito partidos aliados decididos a cutucar o governo, nas votações na Câmara, a menos que lhes sejam oferecidos “ministérios que furem poço” e bons cargos. A reunião será realizada durante almoço oferecido pelo líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), para estabelecer a estratégia de enfrentamento do governo. Somente os líderes do PT e do PCdoB não foram convidados.
TOSTOU GERAL
Particularmente obediente às vontades do líder do PMDB, o presidente da Câmara, Henrique Alves, anda muito queimado no Planalto.
NUS COM A MÃO NO BOLSO
Só medo da espionagem explica os encontros de Lula com Fidel Castro em Cuba: basta e-mail ou celular para “falar da situação da Venezuela”.
POSTO AVANÇADO
O PSB decidiu montar escritório de campanha de Eduardo Campos à Presidência em São Paulo, considerado estratégico.
AÇÃO INTESTINA
Com tantos temas na pauta, a Mesa Diretora da Câmara, presidida por Henrique Alves, discute contrato de R$ 7.965 de fornecimento de potes para exames laboratoriais de sua produção intestina, o popular exame de fezes. Lá, como se sabe, a oferta de material é sempre farta.
SÓ REZANDO
Candidato cambaleante ao governo do Rio, o vice-governador Pezão foi ao Vaticano com Dilma para a nomeação do cardeal Orani Tempesta. O governador Sérgio Cabral preferiu se confessar primeiro...
TRADIÇÃO INTERROMPIDA
Este ano não teve a tradicional Corrida de Bonecos de Olinda, por falta de bonequeiros. Eles queriam receber o prêmio logo após o resultado, porque, em 2013, o prefeito Renildo Calheiros (PCdoB) só o pagou em setembro. O irmão de Renan Calheiros anda mal falado entre foliões.
BOI NA LINHA
Não será hoje que José Dirceu vai usar o computador na Papuda. A videoconferência de hoje foi adiada pela Vara de Execuções Penais do DF, na sindicância que investiga se usou ou não de celular na Papuda.
INDEFINIÇÃO
O líder do PSB, Beto Albuquerque (RS), afirmou que o partido só definirá em abril a situação eleitoral de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas, Rio de Janeiro: “Não é hora de amarrar cavalo no obelisco”.
VERGONHA
O serpentário do Itamaraty já entregou: o “comunicado conjunto”, que cobriu de vergonha a diplomacia brasileira, atacando os manifestantes venezuelanos, foi obra do “bolivariano” Antonio Simões, ex-embaixador em Caracas, em parceria com o aspone Marco Aurelio Top Top Garcia.
DANÇOU
Subiu no telhado a indicação do presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), para substituir Aguinaldo Ribeiro (PB) no Ministério das Cidades. O partido quer o presidente livre para negociar alianças nos estados.
BICO FECHADO
Sobre a notória farra com a verba secreta da Agência Brasileira de Inteligência, usada em gastança na loja familiar de um agente, a Abin disse que o caso é “secreto”. E só quebra o sigilo por ordem da Justiça.
VEM, TAMBÉM!
Novo programa da Caixa, depois de patrocinar a tentativa do MST de invadir o Supremo Tribunal Federal: “Minha invasão, minha vida”.
PODER SEM PUDOR
A CABELEIRA DE ULYSSES
Tremendo gozador, o saudoso deputado Maurício Fruet (pai do atual prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet) foi visitar o então presidente da Câmara, o velho amigo Ulysses Guimarães, e acabou barrado por um assessor novo, que não o conhecia e o fez esperar. Fruet então resolveu agir, cochichando no ouvido do diligente funcionário a natureza da sua "missão". O homenzinho arregalou os olhos e abriu a porta imediatamente, interrompendo a reunião do chefe, para anunciar:
- Dr. Ulysses, o seu peruqueiro de São Paulo já chegou...
Roberto Jefferson, ex-deputado e mensaleiro confesso, antes de ser preso
NO DF, AÉCIO PASSA DILMA E LIDERA PARA PRESIDENTE
O pré-candidato do PSDB à Presidência da República, senador Aécio Neves (MG), lidera as intenções de voto no Distrito Federal, segundo pesquisa do Instituto Dados realizada entre os dias 10 17 de fevereiro. Aécio tem 22,9% das preferências do eleitor do DF, contra 21,7% de Dilma Rousseff (PT) e 8,7% de Eduardo Campos (PSB). O DF é a primeira unidade da Federação onde Aécio supera Dilma.
PARA CONFERIR
A pesquisa do Instituto Dados, com detalhes do universo apurado e metodologia, foi registrada no TSE (nº 013/2014) e no TRE (001/2014).
AS ENTREVISTAS
Para apurar as intenções de voto para presidente, no Distrito Federal, o Instituto Dados entrevistou 3.000 eleitores.
COMEMORAÇÃO
O PSDB e o possível candidato do partido ao governo do DF, deputado Luiz Pitiman, comemoraram o desempenho de Aécio na pesquisa.
PERGUNTA NO XILINDRÓ
Após abrir o bico delatando o mensalão, Roberto Jefferson também vai torturar os companheiros de cela cantando Nervos de aço?
LÍDERES ALIADOS AFIAM A GAZUA PARA ENFRENTAR DILMA
Reúne-se nesta terça o “blocão” do PMDB e mais oito partidos aliados decididos a cutucar o governo, nas votações na Câmara, a menos que lhes sejam oferecidos “ministérios que furem poço” e bons cargos. A reunião será realizada durante almoço oferecido pelo líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), para estabelecer a estratégia de enfrentamento do governo. Somente os líderes do PT e do PCdoB não foram convidados.
TOSTOU GERAL
Particularmente obediente às vontades do líder do PMDB, o presidente da Câmara, Henrique Alves, anda muito queimado no Planalto.
NUS COM A MÃO NO BOLSO
Só medo da espionagem explica os encontros de Lula com Fidel Castro em Cuba: basta e-mail ou celular para “falar da situação da Venezuela”.
POSTO AVANÇADO
O PSB decidiu montar escritório de campanha de Eduardo Campos à Presidência em São Paulo, considerado estratégico.
AÇÃO INTESTINA
Com tantos temas na pauta, a Mesa Diretora da Câmara, presidida por Henrique Alves, discute contrato de R$ 7.965 de fornecimento de potes para exames laboratoriais de sua produção intestina, o popular exame de fezes. Lá, como se sabe, a oferta de material é sempre farta.
SÓ REZANDO
Candidato cambaleante ao governo do Rio, o vice-governador Pezão foi ao Vaticano com Dilma para a nomeação do cardeal Orani Tempesta. O governador Sérgio Cabral preferiu se confessar primeiro...
TRADIÇÃO INTERROMPIDA
Este ano não teve a tradicional Corrida de Bonecos de Olinda, por falta de bonequeiros. Eles queriam receber o prêmio logo após o resultado, porque, em 2013, o prefeito Renildo Calheiros (PCdoB) só o pagou em setembro. O irmão de Renan Calheiros anda mal falado entre foliões.
BOI NA LINHA
Não será hoje que José Dirceu vai usar o computador na Papuda. A videoconferência de hoje foi adiada pela Vara de Execuções Penais do DF, na sindicância que investiga se usou ou não de celular na Papuda.
INDEFINIÇÃO
O líder do PSB, Beto Albuquerque (RS), afirmou que o partido só definirá em abril a situação eleitoral de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas, Rio de Janeiro: “Não é hora de amarrar cavalo no obelisco”.
VERGONHA
O serpentário do Itamaraty já entregou: o “comunicado conjunto”, que cobriu de vergonha a diplomacia brasileira, atacando os manifestantes venezuelanos, foi obra do “bolivariano” Antonio Simões, ex-embaixador em Caracas, em parceria com o aspone Marco Aurelio Top Top Garcia.
DANÇOU
Subiu no telhado a indicação do presidente do PP, Ciro Nogueira (PI), para substituir Aguinaldo Ribeiro (PB) no Ministério das Cidades. O partido quer o presidente livre para negociar alianças nos estados.
BICO FECHADO
Sobre a notória farra com a verba secreta da Agência Brasileira de Inteligência, usada em gastança na loja familiar de um agente, a Abin disse que o caso é “secreto”. E só quebra o sigilo por ordem da Justiça.
VEM, TAMBÉM!
Novo programa da Caixa, depois de patrocinar a tentativa do MST de invadir o Supremo Tribunal Federal: “Minha invasão, minha vida”.
PODER SEM PUDOR
A CABELEIRA DE ULYSSES
Tremendo gozador, o saudoso deputado Maurício Fruet (pai do atual prefeito de Curitiba, Gustavo Fruet) foi visitar o então presidente da Câmara, o velho amigo Ulysses Guimarães, e acabou barrado por um assessor novo, que não o conhecia e o fez esperar. Fruet então resolveu agir, cochichando no ouvido do diligente funcionário a natureza da sua "missão". O homenzinho arregalou os olhos e abriu a porta imediatamente, interrompendo a reunião do chefe, para anunciar:
- Dr. Ulysses, o seu peruqueiro de São Paulo já chegou...
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Jefferson é preso e MP pede extradição de Pizolatto
- Folha: Preso, delator do mensalão afirma que ‘caiu de pe’
- Estadão: Jefferson é preso; STF julga se houve quadrilha no mensalão
- Correio: Agressão covarde dentro do shopping
- Estado de Minas: A caçada continua
- Jornal do Commercio: Frente larga unida com Paulo Câmara
- Zero Hora: Pena de sete anos e 14 dias: O delator do mensalão também está na cadeia
- Brasil Econômico: Argentina cede para Mercosul fechar acordo com União Europeia
segunda-feira, fevereiro 24, 2014
Socialismo é barbárie - LUIZ FELIPE PONDÉ
FOLHA DE SP - 24/02
A esquerda está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público
Se eu pregar que todos que discordam de mim devem morrer ou ficarem trancados em casa com medo, eu sou um genocida que usa o nome da política como desculpa para genocídio. No século 20, a maioria dos assassinos em massa fez isso.
O Brasil, sim, precisa de política. Não se resolve o drama que estamos vivendo com polícia apenas. Mas me desespera ver que estamos na pré-história discutindo ideias do "século passado". Tem gente que ainda relaciona "socialismo e liberdade", como se a experiência histórica não provasse o contrário. Parece papo das assembleias da PUC do passado, manipuladoras e autoritárias, como sempre.
O ditador socialista Maduro está espancando gente contra o socialismo nas ruas da Venezuela. Ele pode? Alguns setores do pensamento político brasileiro são mesmo atrasados, e querem que pensemos que a esquerda representa a liberdade. Mentira.
A maioria de nós, pelo menos quem é responsável pelo seu sustento e da sua família, não concorda com o socialismo autoritário que a "nova" esquerda atual quer impor ao país. A esquerda é totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. Basta ver como reage ao encontrar gente inteligente que não tem medo dela.
Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase todos foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento.
Ela, a esquerda, constrói para si a imagem de "humanista", de superioridade moral, e de que quem discorda dela o faz porque é mau. Ela está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público tido como "inteligente" e agora está sendo obrigada a conviver com gente tão preparada quanto ela (ou mais), que leu tanto quanto ela, que escreve tanto quanto ela, que conhece seus cacoetes intelectuais, e sua história assassina e autoritária.
Professores pautados por esta mentira filosófica chamada socialismo mentem para os alunos sobre história e perseguem colegas, fechando o mercado de trabalho, se definindo como os arautos da justiça, do bem e do belo.
A esquerda nunca entendeu de gente real, mas facilmente ganha os mais fragilizados com seu discurso mentiroso e sedutor, afirmando que, sim, a vida pode ser garantida e que, sim, a sobrevivência virá facilmente se você crer em seus ideólogos defensores da "violência criadora".
Ela sempre foi especialista em tornar as pessoas dependentes, ressentidas, iludidas e incapazes de cuidar da sua própria vida. Ela ama a preguiça, a inveja e a censura.
Recomendo a leitura do best-seller mundial, recém publicado no Brasil pela editora Agir, "O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo", escrito pelo professor Kevin D. Williamson, do King's College, de Nova York. Esta pérola que desmente todas as "virtudes" que muita gente atrasada ou mal-intencionada no Brasil está tentando nos fazer acreditar mostra detalhes de como o socialismo impregnou sociedades como a americana, degradou o meio ambiente, é militarista (Fidel, Chávez, Maduro), e não deu certo nem na Suécia. O socialismo é um "truque" de gente mau-caráter.
As pessoas, sim, estão insatisfeitas com o modo como a vida pública no Brasil tem sido maltratada. Mas isso não faz delas seguidores de intelectuais e artistas chiques da zona oeste de São Paulo ou da zona sul do Rio de Janeiro.
A tragédia política no Brasil está inclusive no fato de que inexistem opções partidárias que não sejam fisiológicas ou autoritárias do espectro socialista. Nas próximas eleições teremos poucas esperanças contra a desilusão geral do país.
E grande parte da intelligentsia que deveria dar essas opções está cooptada pela falácia socialista, levando o país à beira de uma virada para a pré-história política, fingindo que são vanguarda política. O socialismo é tão pré-histórico quanto a escravatura.
Mas a esquerda não detém mais o monopólio do pensamento público no Brasil. Não temos mais medo dela.
A esquerda está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público
Se eu pregar que todos que discordam de mim devem morrer ou ficarem trancados em casa com medo, eu sou um genocida que usa o nome da política como desculpa para genocídio. No século 20, a maioria dos assassinos em massa fez isso.
O Brasil, sim, precisa de política. Não se resolve o drama que estamos vivendo com polícia apenas. Mas me desespera ver que estamos na pré-história discutindo ideias do "século passado". Tem gente que ainda relaciona "socialismo e liberdade", como se a experiência histórica não provasse o contrário. Parece papo das assembleias da PUC do passado, manipuladoras e autoritárias, como sempre.
O ditador socialista Maduro está espancando gente contra o socialismo nas ruas da Venezuela. Ele pode? Alguns setores do pensamento político brasileiro são mesmo atrasados, e querem que pensemos que a esquerda representa a liberdade. Mentira.
A maioria de nós, pelo menos quem é responsável pelo seu sustento e da sua família, não concorda com o socialismo autoritário que a "nova" esquerda atual quer impor ao país. A esquerda é totalitária. Quer nos convencer que não, mas mente. Basta ver como reage ao encontrar gente inteligente que não tem medo dela.
Ninguém precisa da esquerda para fazer uma sociedade ser menos terrível, basta que os políticos sejam menos corruptos (os da esquerda quase todos foram e são), que técnicos competentes cuidem da gestão pública e que a economia seja deixada em paz, porque nós somos a economia, cada vez que saímos de casa para gerar nosso sustento.
Ela, a esquerda, constrói para si a imagem de "humanista", de superioridade moral, e de que quem discorda dela o faz porque é mau. Ela está em pânico porque estava acostumada a dominar o debate público tido como "inteligente" e agora está sendo obrigada a conviver com gente tão preparada quanto ela (ou mais), que leu tanto quanto ela, que escreve tanto quanto ela, que conhece seus cacoetes intelectuais, e sua história assassina e autoritária.
Professores pautados por esta mentira filosófica chamada socialismo mentem para os alunos sobre história e perseguem colegas, fechando o mercado de trabalho, se definindo como os arautos da justiça, do bem e do belo.
A esquerda nunca entendeu de gente real, mas facilmente ganha os mais fragilizados com seu discurso mentiroso e sedutor, afirmando que, sim, a vida pode ser garantida e que, sim, a sobrevivência virá facilmente se você crer em seus ideólogos defensores da "violência criadora".
Ela sempre foi especialista em tornar as pessoas dependentes, ressentidas, iludidas e incapazes de cuidar da sua própria vida. Ela ama a preguiça, a inveja e a censura.
Recomendo a leitura do best-seller mundial, recém publicado no Brasil pela editora Agir, "O Livro Politicamente Incorreto da Esquerda e do Socialismo", escrito pelo professor Kevin D. Williamson, do King's College, de Nova York. Esta pérola que desmente todas as "virtudes" que muita gente atrasada ou mal-intencionada no Brasil está tentando nos fazer acreditar mostra detalhes de como o socialismo impregnou sociedades como a americana, degradou o meio ambiente, é militarista (Fidel, Chávez, Maduro), e não deu certo nem na Suécia. O socialismo é um "truque" de gente mau-caráter.
As pessoas, sim, estão insatisfeitas com o modo como a vida pública no Brasil tem sido maltratada. Mas isso não faz delas seguidores de intelectuais e artistas chiques da zona oeste de São Paulo ou da zona sul do Rio de Janeiro.
A tragédia política no Brasil está inclusive no fato de que inexistem opções partidárias que não sejam fisiológicas ou autoritárias do espectro socialista. Nas próximas eleições teremos poucas esperanças contra a desilusão geral do país.
E grande parte da intelligentsia que deveria dar essas opções está cooptada pela falácia socialista, levando o país à beira de uma virada para a pré-história política, fingindo que são vanguarda política. O socialismo é tão pré-histórico quanto a escravatura.
Mas a esquerda não detém mais o monopólio do pensamento público no Brasil. Não temos mais medo dela.
Transparência opaca - LÚCIA GUIMARÃES
O Estado de S.Paulo - 24/02
Transparência. Todo mundo é a favor em público, mesmo os que roubam descaradamente. Transparência se tornou uma daquelas palavras-muleta, como foi 'cidadania' no começo do milênio. Nossa semântica engessada joga tanto peso sobre um substantivo que ele se arrasta moroso por um momento da cultura, obrigado a significar um bem universal.
Quem há de ser contra a transparência nas contas públicas, nas votações do Congresso, no contrato com a operadora de celular? Mas há um outro tipo de transparência que não é fruto do progresso cívico. É a que nos coloca vivendo num aquário por causa da tecnologia, da presença da mídia digital, e de hábitos na mídia social que fizeram um rombo no ozônio da privacidade.
Na última semana, a ex-braço direito do magnata Rupert Murdoch na Inglaterra, Rebekah Brooks, hoje ré do julgamento pelo grampo telefônico do defunto tabloide News of the World, mal conteve o choro ao prestar depoimento no tribunal. Qualificou sua vida pessoal de um acidente de automóvel. "De Lady Macbeth a Bridget Jones", bradou sarcástica a manchete de um jornal. A ex-poderosa editora que emprestava seus cavalos ao Primeiro-Ministro David Cameron explicava o conteúdo de seus e-mails, incluídos como peças da acusação, especialmente os que se referem ao seu caso com outro réu, o ex-porta-voz de Cameron, Andy Coulson. Se as lágrimas da Macbeth/Bridget eram de crocodilo, não sei e não há expectativa de transparência que possa ser satisfeita. Meu interesse é sobre o esforço que ela fez para preencher as lacunas deixadas pelos e-mails pessoais, escritos para ser lidos num contexto de intimidade. Embora despreze Rebekah Brooks e o que ela representa na promiscuidade do jornalismo com o poder, reservo meu ceticismo em doses iguais para seus inimigos com relação aos e-mails românticos e o que exatamente eles revelam. Apliquei o teste a mim mesma. Abri alguns escritos pessoais de outra era geológica e soltei um grito mental horrorizado com a ideia de que eles poderiam, em fragmentos, ser usados contra mim.
O fim de semana tinha começado promissor. Acordei cedo e fui me entregar a dois prazeres: um conto de George Saunders e um cappuccino. Mas o café estava lotado e me vi colada à mesa de dois homens, um jovem, o outro de meia idade. Tudo bem, pensei, a linguagem deliciosa do estilista Saunders vai me transportar para o Norte do Estado de Nova York e abafar as vozes. Mas os fragmentos da conversa ao lado invadiram o conto. "I did a dirty swearing" (tomei posse em cerimônia informal); "deixa que eu falo com o Kennedy"; "Fulano (autor famoso, a omissão é minha) tem um pouco de mendácia nele."
A esta altura, apenas fingia que continuava a ler. Percebi, por reconhecer a voz do homem mais velho, que testemunhava a conversa de um novo subsecretário do gabinete de Barack Obama, uma figura conhecida, com um jovem que há de ser o filho de um empresário já morto, um dos inovadores mais importantes do último meio século. Há tempos, nutria antipatia pelo interlocutor mais velho. A conversa só aumentou a impressão de que o homem, cujo salário agora ajudo a pagar como contribuinte, ganhou um paraquedas de ouro para descer em Washington, já que sua encarnação profissional até 2013 estava seriamente ameaçada.
Se trabalhasse para a coluna de fofocas do New York Post, com os escrúpulos conhecidos do tabloide, teria emplacado meia página de revelações pessoais. E não teria contribuído em nada para futuras biografias, no festival de name-dropping (menção de nomes importantes) que tinha acabado de ouvir. Respeito a privacidade dos interlocutores que não me convidaram para sua conversa. As migalhas de fatos deixadas na mesa do café puderam, no máximo, satisfazer meu voyeurismo.
A transparência da vida no aquário não deve ser confundida com a verdade.
Transparência. Todo mundo é a favor em público, mesmo os que roubam descaradamente. Transparência se tornou uma daquelas palavras-muleta, como foi 'cidadania' no começo do milênio. Nossa semântica engessada joga tanto peso sobre um substantivo que ele se arrasta moroso por um momento da cultura, obrigado a significar um bem universal.
Quem há de ser contra a transparência nas contas públicas, nas votações do Congresso, no contrato com a operadora de celular? Mas há um outro tipo de transparência que não é fruto do progresso cívico. É a que nos coloca vivendo num aquário por causa da tecnologia, da presença da mídia digital, e de hábitos na mídia social que fizeram um rombo no ozônio da privacidade.
Na última semana, a ex-braço direito do magnata Rupert Murdoch na Inglaterra, Rebekah Brooks, hoje ré do julgamento pelo grampo telefônico do defunto tabloide News of the World, mal conteve o choro ao prestar depoimento no tribunal. Qualificou sua vida pessoal de um acidente de automóvel. "De Lady Macbeth a Bridget Jones", bradou sarcástica a manchete de um jornal. A ex-poderosa editora que emprestava seus cavalos ao Primeiro-Ministro David Cameron explicava o conteúdo de seus e-mails, incluídos como peças da acusação, especialmente os que se referem ao seu caso com outro réu, o ex-porta-voz de Cameron, Andy Coulson. Se as lágrimas da Macbeth/Bridget eram de crocodilo, não sei e não há expectativa de transparência que possa ser satisfeita. Meu interesse é sobre o esforço que ela fez para preencher as lacunas deixadas pelos e-mails pessoais, escritos para ser lidos num contexto de intimidade. Embora despreze Rebekah Brooks e o que ela representa na promiscuidade do jornalismo com o poder, reservo meu ceticismo em doses iguais para seus inimigos com relação aos e-mails românticos e o que exatamente eles revelam. Apliquei o teste a mim mesma. Abri alguns escritos pessoais de outra era geológica e soltei um grito mental horrorizado com a ideia de que eles poderiam, em fragmentos, ser usados contra mim.
O fim de semana tinha começado promissor. Acordei cedo e fui me entregar a dois prazeres: um conto de George Saunders e um cappuccino. Mas o café estava lotado e me vi colada à mesa de dois homens, um jovem, o outro de meia idade. Tudo bem, pensei, a linguagem deliciosa do estilista Saunders vai me transportar para o Norte do Estado de Nova York e abafar as vozes. Mas os fragmentos da conversa ao lado invadiram o conto. "I did a dirty swearing" (tomei posse em cerimônia informal); "deixa que eu falo com o Kennedy"; "Fulano (autor famoso, a omissão é minha) tem um pouco de mendácia nele."
A esta altura, apenas fingia que continuava a ler. Percebi, por reconhecer a voz do homem mais velho, que testemunhava a conversa de um novo subsecretário do gabinete de Barack Obama, uma figura conhecida, com um jovem que há de ser o filho de um empresário já morto, um dos inovadores mais importantes do último meio século. Há tempos, nutria antipatia pelo interlocutor mais velho. A conversa só aumentou a impressão de que o homem, cujo salário agora ajudo a pagar como contribuinte, ganhou um paraquedas de ouro para descer em Washington, já que sua encarnação profissional até 2013 estava seriamente ameaçada.
Se trabalhasse para a coluna de fofocas do New York Post, com os escrúpulos conhecidos do tabloide, teria emplacado meia página de revelações pessoais. E não teria contribuído em nada para futuras biografias, no festival de name-dropping (menção de nomes importantes) que tinha acabado de ouvir. Respeito a privacidade dos interlocutores que não me convidaram para sua conversa. As migalhas de fatos deixadas na mesa do café puderam, no máximo, satisfazer meu voyeurismo.
A transparência da vida no aquário não deve ser confundida com a verdade.
Este é o raciocínio - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 24/02
RIO DE JANEIRO - A morte do ator Philip Seymour Hoffman, em Nova York, por uma overdose de heroína e de outras substâncias, sacudiu as pessoas que lutam contra a dependência química e tentam se manter sóbrias. Hoffman estava há 23 anos sem beber ou se drogar, e se orgulhava disso. Mas foi encontrado morto ao lado de 50 papelotes de heroína e remédios de uso "controlado" e com uma seringa espetada no braço. Por quê?
Tinha 46 anos, era famoso, disputado e cheio de prêmios em teatro e cinema, inclusive um Oscar de melhor ator. Sabia que devia sua carreira à sobriedade --a que chegou aos 23 anos, depois de uma juventude em que usou tudo que lhe passava pela frente. Por que, então, recaiu? Alguns atribuirão isso a forças internas, inconscientes, que deviam assolá-lo por algum motivo intangível e etéreo. Já os dependentes --como eu-- têm outra explicação.
Grande parte das recaídas acontece por excesso de confiança. É o que leva um dependente a se considerar ex-dependente apenas porque está há anos afastado da bebida ou da droga. Ou a acreditar que, com tantos anos de abstinência, pode voltar a consumi-la, sob controle, "só quando quiser". Mas não existe o ex-dependente. Existe o dependente que se abstém do produto, assim como o diabético que se abstém de açúcar. O menor vacilo leva fatalmente à recaída.
Se isso é consolo, a morte de Philip Hoffman será sempre um alerta contra as tentações que rondam o dia a dia dos dependentes. Se alguém como ele pode recair --este é o raciocínio--, preciso me cuidar.
Também sóbrio há 26 anos, faço uma contabilidade própria. Nesse período, troquei a morte certa pela recuperação da saúde, do trabalho, do reconhecimento profissional, do amor das filhas, enfim, da vida. E o que isso me custou e ainda custa? Baratinho. Um simples gole que deixo de tomar.
RIO DE JANEIRO - A morte do ator Philip Seymour Hoffman, em Nova York, por uma overdose de heroína e de outras substâncias, sacudiu as pessoas que lutam contra a dependência química e tentam se manter sóbrias. Hoffman estava há 23 anos sem beber ou se drogar, e se orgulhava disso. Mas foi encontrado morto ao lado de 50 papelotes de heroína e remédios de uso "controlado" e com uma seringa espetada no braço. Por quê?
Tinha 46 anos, era famoso, disputado e cheio de prêmios em teatro e cinema, inclusive um Oscar de melhor ator. Sabia que devia sua carreira à sobriedade --a que chegou aos 23 anos, depois de uma juventude em que usou tudo que lhe passava pela frente. Por que, então, recaiu? Alguns atribuirão isso a forças internas, inconscientes, que deviam assolá-lo por algum motivo intangível e etéreo. Já os dependentes --como eu-- têm outra explicação.
Grande parte das recaídas acontece por excesso de confiança. É o que leva um dependente a se considerar ex-dependente apenas porque está há anos afastado da bebida ou da droga. Ou a acreditar que, com tantos anos de abstinência, pode voltar a consumi-la, sob controle, "só quando quiser". Mas não existe o ex-dependente. Existe o dependente que se abstém do produto, assim como o diabético que se abstém de açúcar. O menor vacilo leva fatalmente à recaída.
Se isso é consolo, a morte de Philip Hoffman será sempre um alerta contra as tentações que rondam o dia a dia dos dependentes. Se alguém como ele pode recair --este é o raciocínio--, preciso me cuidar.
Também sóbrio há 26 anos, faço uma contabilidade própria. Nesse período, troquei a morte certa pela recuperação da saúde, do trabalho, do reconhecimento profissional, do amor das filhas, enfim, da vida. E o que isso me custou e ainda custa? Baratinho. Um simples gole que deixo de tomar.
No mercado elétrico falta o sinal de preço - ADILSON DE OLIVEIRA
Valor Econômico - 24/02
Os livros textos nos ensinam que, em economias de mercado, a escassez é administrada com base em preços. No entanto, nossos burocratas decidiram que esse mecanismo não é adequado para gerir a escassez no mercado elétrico. Eles se reúnem mensalmente em Brasília para avaliar a capacidade de o sistema atender a demanda futura de energia. O comportamento esperado dos reservatórios hidrelétricos é o parâmetro adotado para o posicionamento desses burocratas. Após sua reunião, eles sugerem medidas tópicas para evitar dificuldades no suprimento futuro de energia. O comunicado regular brasiliense é que o sistema elétrico brasileiro está perfeitamente planejado: não há risco de racionamento!
A segurança com que os burocratas emitem esses comunicados tem sua origem na crença ingênua de que as regras adotadas para a gestão do mercado elétrico não permitem situações de racionamento. Pelo ângulo da demanda, a regulamentação setorial exige que as concessionárias de distribuição e os consumidores livres contratem no mínimo 100% de sua previsão da demanda de energia para os próximos cinco anos. Como mecanismo de segurança, as distribuidoras podem contratar até 103% do consumo previsto de seus mercados cativos, repassando os custos dessa sobrecontratação para as tarifas dos consumidores, se necessário. Portanto, o risco de um pico inesperado no consumo de energia só ocorreria na hipótese de um erro significativo nas previsões de demanda desses agentes.
A expansão da capacidade de oferta é realizada em leilões anuais destinados a prover energia assegurada (sic) para suprir as necessidades energéticas do país no horizonte de cinco anos. E essas necessidades são estimadas pela EPE com base em ritmo de crescimento da economia superior às expectativas do mercado. Sintetizando, a expansão do sistema elétrico está planejada para operar com substancial margem de reserva para atender picos de consumo, garantindo o equilíbrio estrutural entre a oferta e a demanda de energia nos próximos cinco anos. O preço da energia pode se tornar elevado por excesso de capacidade instalada, porém o racionamento de energia é um evento de probabilidade "baixíssima" (sic).
As pequenas diferenças entre demandas e ofertas contratadas são ajustadas por meio de transações realizadas no mercado de curto prazo. O preço de liquidação de diferenças (PLD), calculado pela CCEE, é utilizado nessas transações. O PLD não pretende sinalizar aos consumidores a necessidade de modificar seu comportamento energético diante de um risco de racionamento, já que a oferta de energia assegurada é suficiente para atender mesmo expectativas otimistas de consumo. O objetivo do PLD é apenas sinalizar o preço para a contratação de energia dos consumidores livres.
A fragilidade desse arcabouço regulamentar reside no conceito enganoso de energia assegurada. Essa quantidade é estimada por um conjunto de modelos computacionais que opera com parâmetros físicos e econômicos teóricos. Diferenças entre a quantidade estimada pelos computadores e a realidade diária são ajustadas por decisões do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quanto ao esgotamento dos reservatórios hidrelétricos.
Essa solução não gera dificuldades para a oferta de energia assegurada enquanto a pluviometria é favorável. Nessas situações, uma parcela da energia que chega aos reservatórios é necessariamente desperdiçada nos vertedouros das hidrelétricas. Essa parcela é usada para acomodar os desvios entre o que os modelos teóricos sugerem e a realidade objetiva, sem impacto econômico relevante. Porém o resultado econômico dessa acomodação é radicalmente distinto quando realizado com o uso de energia acumulada nos reservatórios. Nesse caso, o risco de racionamento aumenta e acaba exigindo o incremento do despacho de centrais térmicas para garantir o suprimento de energia do país, em períodos de estiagem como o atual.
A Aneel propôs a adoção de bandeiras tarifárias para diluir no tempo e amenizar o repasse, para as tarifas, do custo das térmicas necessário para garantir a confiabilidade do suprimento elétrico. Esse mecanismo aumentaria as tarifas dos consumidores cativos, sempre que os burocratas setoriais identifiquem risco de racionamento. Porém o governo decidiu postergar a medida. Insensíveis à elevação do PLD das últimas semanas, os consumidores cativos preservaram seus padrões de uso da energia. Por outro lado, os consumidores livres também pouco alteraram seu consumo, pois o essencial de seu consumo está assentado em contratos com preços firmes. Preservado o consumo, a elevação do PLD tem tido por único efeito o forte aumento dos gastos das distribuidoras com a compra de energia no mercado de curto prazo.
Sem o instrumento do preço para alterar os padrões de consumo, a burocracia setorial removeu os entraves que impediam o despacho de térmicas, viabilizando a oferta de 1100 MW adicionais de energia. Buscou também a redução voluntária do uso de energia pelos grandes consumidores, o que permitiu a redução da demanda em outros 2000 MW na região Sudeste. O risco de racionamento foi reduzido, porém a oferta de energia assegurada continua fundamentalmente dependente da generosidade de São Pedro nos próximos meses. Caso isso não ocorra, já conhecemos o fim da história.
Nesse ínterim, o Tesouro será convocado para evitar o colapso financeiro das distribuidoras; os consumidores cativos ficaram sabendo que suas tarifas aumentarão e os consumidores livres terão que aceitar preços mais elevados nos seus contratos de energia. Tudo somado, para evitar que o PLD atue na gestão da escassez de energia, o país sacrifica o Tesouro, as famílias e o desempenho da economia. Vale a pena?
A segurança com que os burocratas emitem esses comunicados tem sua origem na crença ingênua de que as regras adotadas para a gestão do mercado elétrico não permitem situações de racionamento. Pelo ângulo da demanda, a regulamentação setorial exige que as concessionárias de distribuição e os consumidores livres contratem no mínimo 100% de sua previsão da demanda de energia para os próximos cinco anos. Como mecanismo de segurança, as distribuidoras podem contratar até 103% do consumo previsto de seus mercados cativos, repassando os custos dessa sobrecontratação para as tarifas dos consumidores, se necessário. Portanto, o risco de um pico inesperado no consumo de energia só ocorreria na hipótese de um erro significativo nas previsões de demanda desses agentes.
A expansão da capacidade de oferta é realizada em leilões anuais destinados a prover energia assegurada (sic) para suprir as necessidades energéticas do país no horizonte de cinco anos. E essas necessidades são estimadas pela EPE com base em ritmo de crescimento da economia superior às expectativas do mercado. Sintetizando, a expansão do sistema elétrico está planejada para operar com substancial margem de reserva para atender picos de consumo, garantindo o equilíbrio estrutural entre a oferta e a demanda de energia nos próximos cinco anos. O preço da energia pode se tornar elevado por excesso de capacidade instalada, porém o racionamento de energia é um evento de probabilidade "baixíssima" (sic).
As pequenas diferenças entre demandas e ofertas contratadas são ajustadas por meio de transações realizadas no mercado de curto prazo. O preço de liquidação de diferenças (PLD), calculado pela CCEE, é utilizado nessas transações. O PLD não pretende sinalizar aos consumidores a necessidade de modificar seu comportamento energético diante de um risco de racionamento, já que a oferta de energia assegurada é suficiente para atender mesmo expectativas otimistas de consumo. O objetivo do PLD é apenas sinalizar o preço para a contratação de energia dos consumidores livres.
A fragilidade desse arcabouço regulamentar reside no conceito enganoso de energia assegurada. Essa quantidade é estimada por um conjunto de modelos computacionais que opera com parâmetros físicos e econômicos teóricos. Diferenças entre a quantidade estimada pelos computadores e a realidade diária são ajustadas por decisões do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) quanto ao esgotamento dos reservatórios hidrelétricos.
Essa solução não gera dificuldades para a oferta de energia assegurada enquanto a pluviometria é favorável. Nessas situações, uma parcela da energia que chega aos reservatórios é necessariamente desperdiçada nos vertedouros das hidrelétricas. Essa parcela é usada para acomodar os desvios entre o que os modelos teóricos sugerem e a realidade objetiva, sem impacto econômico relevante. Porém o resultado econômico dessa acomodação é radicalmente distinto quando realizado com o uso de energia acumulada nos reservatórios. Nesse caso, o risco de racionamento aumenta e acaba exigindo o incremento do despacho de centrais térmicas para garantir o suprimento de energia do país, em períodos de estiagem como o atual.
A Aneel propôs a adoção de bandeiras tarifárias para diluir no tempo e amenizar o repasse, para as tarifas, do custo das térmicas necessário para garantir a confiabilidade do suprimento elétrico. Esse mecanismo aumentaria as tarifas dos consumidores cativos, sempre que os burocratas setoriais identifiquem risco de racionamento. Porém o governo decidiu postergar a medida. Insensíveis à elevação do PLD das últimas semanas, os consumidores cativos preservaram seus padrões de uso da energia. Por outro lado, os consumidores livres também pouco alteraram seu consumo, pois o essencial de seu consumo está assentado em contratos com preços firmes. Preservado o consumo, a elevação do PLD tem tido por único efeito o forte aumento dos gastos das distribuidoras com a compra de energia no mercado de curto prazo.
Sem o instrumento do preço para alterar os padrões de consumo, a burocracia setorial removeu os entraves que impediam o despacho de térmicas, viabilizando a oferta de 1100 MW adicionais de energia. Buscou também a redução voluntária do uso de energia pelos grandes consumidores, o que permitiu a redução da demanda em outros 2000 MW na região Sudeste. O risco de racionamento foi reduzido, porém a oferta de energia assegurada continua fundamentalmente dependente da generosidade de São Pedro nos próximos meses. Caso isso não ocorra, já conhecemos o fim da história.
Nesse ínterim, o Tesouro será convocado para evitar o colapso financeiro das distribuidoras; os consumidores cativos ficaram sabendo que suas tarifas aumentarão e os consumidores livres terão que aceitar preços mais elevados nos seus contratos de energia. Tudo somado, para evitar que o PLD atue na gestão da escassez de energia, o país sacrifica o Tesouro, as famílias e o desempenho da economia. Vale a pena?
Minha casa, meus votos - ANCELMO GOIS
O GLOBO - 24/02
No Amazonas, onde teve 80% dos votos, seu melhor desempenho em 2010, Dilma inaugurou, semana passada, como se sabe, o Residencial Viver, com 5.384 unidades.
Festa do voto-bumbá...
O programa já entregou 13.532 unidades habitacionais no estado do Amazonas. E o governo federal ainda vai entregar outras 27.541.
Estas 41 mil casas são suficientes para abrigar a população de qualquer cidade amazonense, menos Manaus e Parintins, onde acontece a festa do Boi-Bumbá.
Roma precisa de UPPs
Uns gatunos entraram, sábado, no quarto de hotel, em Roma, de uma comissária de bordo da comitiva presidencial. Levaram tudo de valor, inclusive o passaporte da brasileira.
Um outro foi feito às pressas, já que a moça partiria no avião de Dilma, que saiu ontem para Bruxelas.
Dia de rock
Após o sucesso do “The voice”, a TV Globo prepara o projeto-piloto de um programa que escolherá uma nova banda brasileira.
Deve estrear no segundo semestre.
Aliás...
“The Voice” é o... deixa pra lá.
Zé de Abreu é Deus
Em duas semanas, José de Abreu foi convidado para fazer quatro filmes. Confessa entusiasmo com um deles:
— Afinal, não é toda hora que me convidam para um papel tão importante: Deus!
Trata-se do filme “Comédia divina”, de Toni Venturi, baseado no conto de Machado de Assis “A igreja do diabo”.
SALVEM OS NOSSOS TENISTAS
Em tempos de Rio Open, o torneio de tênis, dói ver abandonada, repare na foto, a quadra de saibro deum projeto esportivo do estado, na Rocinha. Lançado com amistoso entre Djokovic eGuga, em novembro de 2012, o projeto inédito numa comunidade pacificada do Rio está parado desde novembro passado. Alguns moradores usavam a quadra por conta própria. Procurada pela coluna, a Secretaria de estado de Esporte e Lazer informou que o projeto recomeçará amanhã e que terá também uma quadra de cimento com aulas comunitárias de tênis no segundo semestre. Vamos torcer, vamos cobrar
Dói no bolso da Fifa
A Fifa tem uma razão a mais para se preocupar com a decisão da prefeitura de Recife de não realizar a Fifa Fan Fest e com a indefinição do Rio sobre a festa.
É que a entidade assumiu com os patrocinadores (Coca-Cola, Ambev, Itaú, OI, Hyundai/KIA, Jonhson & Jonhson e Sony) o compromisso de fazer o evento.
Tomara que fique aqui
Depois de percorrer 150 mil quilômetros pelo planeta, a taça da Copa do Mundo chega aqui, em maio.
O passeio pelos estados deve começar por Brasília, com Dilma recebendo o troféu das mãos de Pelé ou Ronaldo.
Tem culpa eu?
Nesta reunião, em Florianópolis, com representantes das 32 seleções da Copa, a Fifa pediu permissão para uma equipe de TV da entidade entrar nas concentrações e fazer imagens.
Mas o representante da Argentina disse... não! E mais: nas coletivas, só querem aceitar jornalistas dos países que vão disputar os jogos com a Argentina.
É...
Deve ser terrível viver num país onde tem gente que não gosta da imprensa.
50 anos do golpe
A Editora Faces colocou gratuitamente na internet o livro “Ipanema em lágrimas”, do escritor e roteirista Waldir Leite. É um romance passado durante a ditadura e conta a história de um menino assombrado com a versão, difundida por sua família de militares, de que “comunistas comiam criancinhas”.
Comiam, não no sentido atribuído, digamos, a alguns padres pedófilos. Mas no sentido canibal mesmo.
Ah, bom.
‘Um estranho no ninho’
O clássico “Um estranho no ninho”, que deu um Oscar a Jack Nicholson e consagrou sua carreira, terá sua primeira montagem no Brasil agora em 2014.
O produtor Gustavo Nunes, o mesmo de “Cássia Eller, o musical”, comprou os direitos da peça e convidou Gilberto Gawronski para assinar a direção.
A grana da bola
A 8ª Turma do TRT do Rio manteve a decisão que obriga o Botafogo a pagar uma grana de direito de arena — que o jogador recebe quando o jogo é televisionado — a Leandro Guerreiro, hoje no América-MG. É referente a partidas entre 2007 e 2010.
O atleta alegou que só recebeu 25% do que deveria. É coisa de, pelo menos, uns R$ 100 mil.
Vive la France
Sérgio Cabral inaugura esta semana a fábrica de argamassas da Saint-Gobain, em Itaboraí, e uma de cimento da Lafarge, em Santa Cruz.
A conspiração de Lula - LUIZ CARLOS AZEDO
CORREIO BRAZILIENSE - 24/02
A presidente Dilma Rousseff deve se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima quarta-feira. A relação entre os dois anda cada vez mais tensa. Lula concorda com a tese de que as intervenções excessivas do governo nas relações com o mercado deterioraram o ambiente econômico e afugentaram os investidores. No ano passado, havia sugerido que Dilma mudasse a equipe econômica, substituindo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. A presidente da República ficou de pensar no assunto e depois disse não, preferiu manter o atual ministro da Fazenda no cargo.
A atual política econômica foi concebida por Dilma, Mantega e pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante; com Meirelles na Fazenda, novamente seria “blindada” pelo mercado, com o ex-presidente Lula de avalista. Desde o “não” de Dilma, porém, o ambiente econômico piorou e a conspiração entre grandes empresários a favor do “Volta, Lula!” não parou de crescer. A adesão dos petistas à tese já é majoritária, com exceção dos que estão no governo. O ex-presidente da República, porém, na semana passada, resolver puxar o freio de mão e evitar novas reuniões com empresários. Dilma é refém de Lula. O ex-presidente se comprometeu a apoiá-la, mas, se houver risco de perder a eleição, tudo muda.
A propósito, as pesquisas de opinião do fim de semana deram certo fôlego a Dilma Rousseff: mantiveram seu favoritismo nas eleições deste ano. Entretanto, não garantem uma vitória no primeiro turno. As avaliações do governo e de seu desempenho estão estagnadas. Nada garante que a situação do país vá melhorar daqui até as eleições. Analistas avaliam que a projeção de 2% de crescimento do PIB para 2014 é considerada otimista e sujeita a chuvas e trovoadas, principalmente por causa da alta dos juros, da redução dos financiamentos do BNDES, dos cortes no Orçamento da União e da crise na Argentina. Além disso, o desgaste do governo por causa da Copa do Mundo é maior do que se imaginava. Virou mais uma incógnita do ponto de vista eleitoral.
É dura a vida de Dilma como candidata à reeleição. Mesmo tendo a vantagem estratégica — em relação aos adversários Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) — de fazer pré-campanha no exercício do cargo de presidente, com a agenda de viagens aos estados turbinada e a própria imagem anabolizada por maciça propaganda oficial.
Uma reforma incruada
A reforma ministerial continua incruada. Até agora só avançou para os lados do PT, ou melhor, para os lados do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que foi guindado ao cargo e ainda controla os dois ministérios que ocupou anteriormente, Ciência e Tecnologia e Educação (para os quais indicou técnicos de sua confiança, os ministros Marco Antônio Raupp e José Henrique Paim, respectivamente). A reforma ministerial empacou devido à resistência do PMDB, que deseja mais participação no governo e cobra apoio eleitoral do PT nos estados, principalmente no Rio de Janeiro e no Ceará, o que não deve acontecer.
O vice-presidente Michel Temer deve ter uma conversa com Mercadante e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, no Palácio do Jaburu, ainda hoje. Aliado leal da presidente Dilma, está se enfraquecendo com os demais caciques do PMDB por causa da reforma. A conversa é preparatória do seu encontro com Dilma amanhã, para fechar o acordo de participação no governo. Os ministros Edison Lobão (MA), de Minas e Energia, e Garibaldi Alves (RN), da Previdência, ambos senadores, e Moreira Franco, da Secretaria de Aviação Civil, pretendem ficar onde estão. Os problemas são Agricultura e Turismo, cujos titulares, os deputados Antônio Andrade (MG) e Gastão Vieira (MA), estão voltando para a Câmara. O Ministério da Integração Nacional foi pleiteado pela legenda para fortalecer suas posições no Nordeste.
A aposta de Dilma com o PMDB é alta. Acredita que convencerá o líder da legenda no Senado, Eunício de Oliveira (CE), a aceitar o cargo de ministro da Integração Nacional em troca da retirada de sua candidatura ao governo do Ceará. Essa seria única forma de entregar a pasta ao PMDB e não ao governador Cid Gomes (Pros) e seu irmão Ciro (Pros), como foi prometido. Até agora, Eunício não deu sinais de que vai jogar a toalha. Caso volte atrás, será mais fácil resolver o problema da bancada do PMDB na Câmara, que articula um “blocão” independente com outros aliados descontentes para pressionar o Palácio do Planalto.
As pastas da Agricultura e do Turismo seriam suficientes para neutralizar a rebeldia do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), junto da maioria da bancada. A relação Palácio do Planalto com a bancada peemedebista do Rio de Janeiro, porém, já é leite derramado, por causa da consolidação da candidatura do senador Lindbergh Faria (PT-RJ) ao Palácio Guanabara, contra Luiz Fernando Pezão (PMDB), o candidato do governador Sérgio Cabral (PMDB).
A presidente Dilma Rousseff deve se encontrar com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na próxima quarta-feira. A relação entre os dois anda cada vez mais tensa. Lula concorda com a tese de que as intervenções excessivas do governo nas relações com o mercado deterioraram o ambiente econômico e afugentaram os investidores. No ano passado, havia sugerido que Dilma mudasse a equipe econômica, substituindo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles. A presidente da República ficou de pensar no assunto e depois disse não, preferiu manter o atual ministro da Fazenda no cargo.
A atual política econômica foi concebida por Dilma, Mantega e pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante; com Meirelles na Fazenda, novamente seria “blindada” pelo mercado, com o ex-presidente Lula de avalista. Desde o “não” de Dilma, porém, o ambiente econômico piorou e a conspiração entre grandes empresários a favor do “Volta, Lula!” não parou de crescer. A adesão dos petistas à tese já é majoritária, com exceção dos que estão no governo. O ex-presidente da República, porém, na semana passada, resolver puxar o freio de mão e evitar novas reuniões com empresários. Dilma é refém de Lula. O ex-presidente se comprometeu a apoiá-la, mas, se houver risco de perder a eleição, tudo muda.
A propósito, as pesquisas de opinião do fim de semana deram certo fôlego a Dilma Rousseff: mantiveram seu favoritismo nas eleições deste ano. Entretanto, não garantem uma vitória no primeiro turno. As avaliações do governo e de seu desempenho estão estagnadas. Nada garante que a situação do país vá melhorar daqui até as eleições. Analistas avaliam que a projeção de 2% de crescimento do PIB para 2014 é considerada otimista e sujeita a chuvas e trovoadas, principalmente por causa da alta dos juros, da redução dos financiamentos do BNDES, dos cortes no Orçamento da União e da crise na Argentina. Além disso, o desgaste do governo por causa da Copa do Mundo é maior do que se imaginava. Virou mais uma incógnita do ponto de vista eleitoral.
É dura a vida de Dilma como candidata à reeleição. Mesmo tendo a vantagem estratégica — em relação aos adversários Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB) — de fazer pré-campanha no exercício do cargo de presidente, com a agenda de viagens aos estados turbinada e a própria imagem anabolizada por maciça propaganda oficial.
Uma reforma incruada
A reforma ministerial continua incruada. Até agora só avançou para os lados do PT, ou melhor, para os lados do ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que foi guindado ao cargo e ainda controla os dois ministérios que ocupou anteriormente, Ciência e Tecnologia e Educação (para os quais indicou técnicos de sua confiança, os ministros Marco Antônio Raupp e José Henrique Paim, respectivamente). A reforma ministerial empacou devido à resistência do PMDB, que deseja mais participação no governo e cobra apoio eleitoral do PT nos estados, principalmente no Rio de Janeiro e no Ceará, o que não deve acontecer.
O vice-presidente Michel Temer deve ter uma conversa com Mercadante e a ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, no Palácio do Jaburu, ainda hoje. Aliado leal da presidente Dilma, está se enfraquecendo com os demais caciques do PMDB por causa da reforma. A conversa é preparatória do seu encontro com Dilma amanhã, para fechar o acordo de participação no governo. Os ministros Edison Lobão (MA), de Minas e Energia, e Garibaldi Alves (RN), da Previdência, ambos senadores, e Moreira Franco, da Secretaria de Aviação Civil, pretendem ficar onde estão. Os problemas são Agricultura e Turismo, cujos titulares, os deputados Antônio Andrade (MG) e Gastão Vieira (MA), estão voltando para a Câmara. O Ministério da Integração Nacional foi pleiteado pela legenda para fortalecer suas posições no Nordeste.
A aposta de Dilma com o PMDB é alta. Acredita que convencerá o líder da legenda no Senado, Eunício de Oliveira (CE), a aceitar o cargo de ministro da Integração Nacional em troca da retirada de sua candidatura ao governo do Ceará. Essa seria única forma de entregar a pasta ao PMDB e não ao governador Cid Gomes (Pros) e seu irmão Ciro (Pros), como foi prometido. Até agora, Eunício não deu sinais de que vai jogar a toalha. Caso volte atrás, será mais fácil resolver o problema da bancada do PMDB na Câmara, que articula um “blocão” independente com outros aliados descontentes para pressionar o Palácio do Planalto.
As pastas da Agricultura e do Turismo seriam suficientes para neutralizar a rebeldia do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), junto da maioria da bancada. A relação Palácio do Planalto com a bancada peemedebista do Rio de Janeiro, porém, já é leite derramado, por causa da consolidação da candidatura do senador Lindbergh Faria (PT-RJ) ao Palácio Guanabara, contra Luiz Fernando Pezão (PMDB), o candidato do governador Sérgio Cabral (PMDB).
A prioridade é a segurança - CARLOS EBNER
FOLHA DE SP - 24/02
Os passageiros precisam saber que, ao colocar a segurança e o conforto dos outros em risco durante viagens de avião, serão punidos por seus atos
A segurança de voo é o principal pilar da aviação comercial. Não por outro motivo, a indústria investe pesado para manter índices nos patamares mais elevados.
Todo o trabalho de prevenção das companhias leva em conta três fatores: a máquina, que envolve qualquer defeito técnico das aeronaves, o ambiente, que diz respeito às condições meteorológicas e pista, e o homem, aqui representado pelos tripulantes e passageiros.
Recentemente, o Brasil foi palco de um episódio que acendeu o alerta do setor. Sete passageiros da Gol Linhas Aéreas, contrariados com a prolongada espera na pista causada pelo mau tempo, ativaram a porta de emergência e subiram nas asas da aeronave. Atos impensados como esse mostram total intolerância e falta de conhecimento sobre os riscos que envolvem a atividade aérea.
A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) coleta dados como esse desde 2007 e já registrou mais de 15 mil em todo o mundo até o final de 2011. Houve um aumento de pouco mais de 500 registros em 2007 para mais de 6.000 em 2011. E esses são apenas os incidentes relatados oficialmente. Esse quadro é extremamente grave e ameaça a segurança e o conforto a bordo.
O custo de uma aterrissagem não programada para desembarcar ou entregar passageiros indisciplinados é arcado pelas companhias aéreas. No caso da Gol, a ativação da porta de emergência poderia ter deixado a aeronave fora de serviço até que o dispositivo pudesse ser devidamente reinstalado. O incidente também poderia levar a cancelamentos de voos, causando ainda mais transtornos.
As companhias têm oferecido treinamento especial à tripulação e algumas até têm introduzido novos métodos, tais como o cartão amarelo para tentar advertir o passageiro. Mas é preciso muito mais. É importante que as autoridades responsabilizem esses passageiros por seus atos. Infelizmente, muitos episódios não são tratados com a seriedade que merecem, mesmo havendo leis e regulamentos em vigor para prevenir que tais atos ocorram.
Para viagens internacionais, esses incidentes são regidos por um tratado conhecido como Convenção de Tóquio, um documento de 1960 que precisa de atualização.
A Organização da Aviação Civil Internacional (Icao), órgão especial das Nações Unidas, realizará uma conferência diplomática no final de março para discutir a modernização da Convenção de Tóquio. E o Brasil deve participar ativamente das discussões. É um bom começo para lidar com o quadro internacional que rege tais incidentes, particularmente garantindo que o país em que a companhia aérea está registrada tenha autonomia, bem como o país em que a aeronave aterrisse.
Esta também será uma excelente oportunidade para o governo brasileiro rever suas leis e regulamentos para assegurar que estejam alinhados com as melhores práticas e padrões globais.
No entanto, é importante que o caso da Gol seja tratado de forma apropriada. Isso significa um compromisso com a segurança e uma resposta imediata das autoridades. Os passageiros precisam saber que, ao colocar a segurança e o conforto dos outros em risco, serão punidos.
Os passageiros precisam saber que, ao colocar a segurança e o conforto dos outros em risco durante viagens de avião, serão punidos por seus atos
A segurança de voo é o principal pilar da aviação comercial. Não por outro motivo, a indústria investe pesado para manter índices nos patamares mais elevados.
Todo o trabalho de prevenção das companhias leva em conta três fatores: a máquina, que envolve qualquer defeito técnico das aeronaves, o ambiente, que diz respeito às condições meteorológicas e pista, e o homem, aqui representado pelos tripulantes e passageiros.
Recentemente, o Brasil foi palco de um episódio que acendeu o alerta do setor. Sete passageiros da Gol Linhas Aéreas, contrariados com a prolongada espera na pista causada pelo mau tempo, ativaram a porta de emergência e subiram nas asas da aeronave. Atos impensados como esse mostram total intolerância e falta de conhecimento sobre os riscos que envolvem a atividade aérea.
A Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata) coleta dados como esse desde 2007 e já registrou mais de 15 mil em todo o mundo até o final de 2011. Houve um aumento de pouco mais de 500 registros em 2007 para mais de 6.000 em 2011. E esses são apenas os incidentes relatados oficialmente. Esse quadro é extremamente grave e ameaça a segurança e o conforto a bordo.
O custo de uma aterrissagem não programada para desembarcar ou entregar passageiros indisciplinados é arcado pelas companhias aéreas. No caso da Gol, a ativação da porta de emergência poderia ter deixado a aeronave fora de serviço até que o dispositivo pudesse ser devidamente reinstalado. O incidente também poderia levar a cancelamentos de voos, causando ainda mais transtornos.
As companhias têm oferecido treinamento especial à tripulação e algumas até têm introduzido novos métodos, tais como o cartão amarelo para tentar advertir o passageiro. Mas é preciso muito mais. É importante que as autoridades responsabilizem esses passageiros por seus atos. Infelizmente, muitos episódios não são tratados com a seriedade que merecem, mesmo havendo leis e regulamentos em vigor para prevenir que tais atos ocorram.
Para viagens internacionais, esses incidentes são regidos por um tratado conhecido como Convenção de Tóquio, um documento de 1960 que precisa de atualização.
A Organização da Aviação Civil Internacional (Icao), órgão especial das Nações Unidas, realizará uma conferência diplomática no final de março para discutir a modernização da Convenção de Tóquio. E o Brasil deve participar ativamente das discussões. É um bom começo para lidar com o quadro internacional que rege tais incidentes, particularmente garantindo que o país em que a companhia aérea está registrada tenha autonomia, bem como o país em que a aeronave aterrisse.
Esta também será uma excelente oportunidade para o governo brasileiro rever suas leis e regulamentos para assegurar que estejam alinhados com as melhores práticas e padrões globais.
No entanto, é importante que o caso da Gol seja tratado de forma apropriada. Isso significa um compromisso com a segurança e uma resposta imediata das autoridades. Os passageiros precisam saber que, ao colocar a segurança e o conforto dos outros em risco, serão punidos.
Bloco da ressaca - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 24/02
Dirigentes de PSB e Rede acertaram para março o lançamento da chapa presidencial encabeçada por Eduardo Campos, com Marina Silva como vice. A ideia é criar um fato político forte para iniciar o ano pós-Carnaval, com um ato em São Paulo. A dupla também estrelará os programas do PSB em abril. Diante do cenário em que Marina ainda aparece mais bem posicionada que Campos no Datafolha, a ordem é intensificar aparições conjuntas para forçar a transferência dos votos.
W.O. O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, atribui a estabilidade do favoritismo de Dilma Rousseff à falta de contraditório na pré-campanha. "Por enquanto a única disputa que existe é a da presidente contra ela própria. A da propaganda oficial versus os resultados pífios do governo", disse o tucano à coluna.
No banco Para Aécio, "a oposição ainda não teve a oportunidade de entrar em campo". "Quando isso acontecer, os que hoje já estão inquietos com o desempenho de Dilma terão motivos para se preocupar de verdade."
Nem-nem Os eleitores frustrados com a disputa eleitoral também são os mais desanimados com a Copa. Entre os que declaram voto em branco ou nulo, 57% rejeitam a competição no Brasil.
Madrinha Os que mais apoiam as manifestações de rua são os que declaram voto em Joaquim Barbosa (66%), Marina (65%) e Campos (64%). Já o grupo que aprova o governo Dilma está dividido: 45% defendem e 50% rejeitam as manifestações.
La Dolce Vita Dilma dispensou uma luxuosa Maserati e circulou a pé pelo centro histórico de Roma. Deixou o badalado Il Pagliaccio, onde jantou, perto da 1h de ontem.
A procissão Quando driblou a imprensa à tarde, Dilma mandou que a segurança a acompanhasse à distância. Mas assessores, ministros e diplomatas que a seguiam não passaram despercebidos.
Virou moda Após atingir a Câmara, o estremecimento da relação entre o governo Dilma Rousseff e o PMDB pode chegar ao Senado. A origem do imbróglio é a insatisfação da bancada com impasses na composição de alianças estaduais com o PT.
Onde pega Peemedebistas ameaçam o Planalto com uma dezena de requerimentos de auditoria do Tribunal de Contas da União sobre órgãos federais e empresas como a Petrobras, hoje parados na Mesa Diretora da Casa.
Mais essa Também dizem que podem dificultar a vida do governo e fazer andar a CPI do Transporte Público, que, até agora, os petistas conseguiram congelar.
Termômetro Aloizio Mercadante (Casa Civil) conversou na semana passada com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre a crise vivida entre o Planalto e o partido.
Precaução
A articulação de um bloco de partidos para criar dificuldades ao governo em votações na Câmara foi interpretada por petistas e parte dos peemedebistas como uma missão de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para angariar apoio a sua reeleição à presidência.
Faísca Quem acompanhou as conversas para a criação do bloco "independente" sustenta que movimentações do PT nessa direção teriam precipitado a disputa pela chefia da Câmara.
Contratamos Executivos da Saab avisaram ao prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), que pretendem iniciar um processo de seleção de funcionários no ABC para a fábrica, a ser instalada na região, que vai produzir parte das peças do caça Gripen NG.
Tiroteio
Quem lança um projeto e se põe contra ele só pode ter esquizofrenia política. Estados não podem pagar pelo desequilíbrio fiscal federal.
DO DEPUTADO BETO ALBUQUERQUE (PSB-RS), sobre o projeto de renegociação das dívidas de Estados e municípios com a União, paralisado pelo Planalto.
Contraponto
História de pescador
O deputado Domingos Dutra (SDD-MA) discursava na Câmara quando decidiu fazer uma homenagem a um ex-parlamentar que visitava a Casa.
-Registro a presença aqui do nosso companheiro Flávio Bezerra, que foi nosso colega. Ele é o maior pescador do Ceará, só que todo peixe que ele pesca e vende no Ceará é do Estado do Maranhão -provocou.
O petista Luiz Couto, que ocupava a presidência, pediu a palavra para defender o colega.
-Quero dizer que o deputado Flávio trouxe o peixe e tinha a placa do Ceará -sustentou, para riso dos colegas.
Dirigentes de PSB e Rede acertaram para março o lançamento da chapa presidencial encabeçada por Eduardo Campos, com Marina Silva como vice. A ideia é criar um fato político forte para iniciar o ano pós-Carnaval, com um ato em São Paulo. A dupla também estrelará os programas do PSB em abril. Diante do cenário em que Marina ainda aparece mais bem posicionada que Campos no Datafolha, a ordem é intensificar aparições conjuntas para forçar a transferência dos votos.
W.O. O presidenciável do PSDB, Aécio Neves, atribui a estabilidade do favoritismo de Dilma Rousseff à falta de contraditório na pré-campanha. "Por enquanto a única disputa que existe é a da presidente contra ela própria. A da propaganda oficial versus os resultados pífios do governo", disse o tucano à coluna.
No banco Para Aécio, "a oposição ainda não teve a oportunidade de entrar em campo". "Quando isso acontecer, os que hoje já estão inquietos com o desempenho de Dilma terão motivos para se preocupar de verdade."
Nem-nem Os eleitores frustrados com a disputa eleitoral também são os mais desanimados com a Copa. Entre os que declaram voto em branco ou nulo, 57% rejeitam a competição no Brasil.
Madrinha Os que mais apoiam as manifestações de rua são os que declaram voto em Joaquim Barbosa (66%), Marina (65%) e Campos (64%). Já o grupo que aprova o governo Dilma está dividido: 45% defendem e 50% rejeitam as manifestações.
La Dolce Vita Dilma dispensou uma luxuosa Maserati e circulou a pé pelo centro histórico de Roma. Deixou o badalado Il Pagliaccio, onde jantou, perto da 1h de ontem.
A procissão Quando driblou a imprensa à tarde, Dilma mandou que a segurança a acompanhasse à distância. Mas assessores, ministros e diplomatas que a seguiam não passaram despercebidos.
Virou moda Após atingir a Câmara, o estremecimento da relação entre o governo Dilma Rousseff e o PMDB pode chegar ao Senado. A origem do imbróglio é a insatisfação da bancada com impasses na composição de alianças estaduais com o PT.
Onde pega Peemedebistas ameaçam o Planalto com uma dezena de requerimentos de auditoria do Tribunal de Contas da União sobre órgãos federais e empresas como a Petrobras, hoje parados na Mesa Diretora da Casa.
Mais essa Também dizem que podem dificultar a vida do governo e fazer andar a CPI do Transporte Público, que, até agora, os petistas conseguiram congelar.
Termômetro Aloizio Mercadante (Casa Civil) conversou na semana passada com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), sobre a crise vivida entre o Planalto e o partido.
Precaução
A articulação de um bloco de partidos para criar dificuldades ao governo em votações na Câmara foi interpretada por petistas e parte dos peemedebistas como uma missão de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) para angariar apoio a sua reeleição à presidência.
Faísca Quem acompanhou as conversas para a criação do bloco "independente" sustenta que movimentações do PT nessa direção teriam precipitado a disputa pela chefia da Câmara.
Contratamos Executivos da Saab avisaram ao prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), que pretendem iniciar um processo de seleção de funcionários no ABC para a fábrica, a ser instalada na região, que vai produzir parte das peças do caça Gripen NG.
Tiroteio
Quem lança um projeto e se põe contra ele só pode ter esquizofrenia política. Estados não podem pagar pelo desequilíbrio fiscal federal.
DO DEPUTADO BETO ALBUQUERQUE (PSB-RS), sobre o projeto de renegociação das dívidas de Estados e municípios com a União, paralisado pelo Planalto.
Contraponto
História de pescador
O deputado Domingos Dutra (SDD-MA) discursava na Câmara quando decidiu fazer uma homenagem a um ex-parlamentar que visitava a Casa.
-Registro a presença aqui do nosso companheiro Flávio Bezerra, que foi nosso colega. Ele é o maior pescador do Ceará, só que todo peixe que ele pesca e vende no Ceará é do Estado do Maranhão -provocou.
O petista Luiz Couto, que ocupava a presidência, pediu a palavra para defender o colega.
-Quero dizer que o deputado Flávio trouxe o peixe e tinha a placa do Ceará -sustentou, para riso dos colegas.
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