O GLOBO - 19/02
Todo cuidado é pouco. O fascismo é uma ameaça real, como podemos ver na Venezuela e na Argentina
Os liberais defensores do livre mercado são comumente chamados de “reacionários” ou de “fascistas” pela esquerda. O que nem todos sabem é que o fascismo sempre foi um casamento entre nacionalistas, sindicatos e grandes empresários, em uma simbiose totalmente antiliberal.
Para Robert Paxton, em “A anatomia do fascismo”, o programa fascista era “uma curiosa mistura de patriotismo de veteranos e de experimento social radical, uma espécie de “nacional-socialismo’”.
Donald Sassoon, em “Mussolini e a ascensão do fascismo”, mostra como o clientelismo, a mentalidade antiparlamentar presente na tradição socialista italiana, e um dos mais altos índices de sindicalização da Europa ajudaram a levar os fascistas ao poder.
O próprio Mussolini foi socialista, gostava de se identificar como “homem do povo” e se dizia um defensor da classe operária. Sua visão era extremamente coletivista, bem sintetizada na máxima: “Tudo no Estado, nada contra o Estado, e nada fora do Estado.” Não existe nada menos liberal que isso!
Se há um “liberalismo” que realmente se assemelha ao fascismo, este é o dos “progressistas” modernos que usurparam o termo para pregar bandeiras estatizantes e coletivistas, como demonstra Johah Goldberg em “Fascismo de esquerda”. Mas este não guarda nenhuma relação com o liberalismo clássico, defensor do livre mercado e do indivíduo como um fim em si mesmo.
O capitalismo liberal defende a propriedade privada, a liberdade individual e a livre concorrência, inclusive universal (globalização). Se, por um lado, esse modelo é o melhor para a grande maioria dispersa, por outro ele gera desconforto em certos grupos organizados. Ninguém gosta de concorrência, ainda que ela seja essencial para o progresso.
É assim que algumas categorias se unem e, apesar de minoritárias, conseguem fazer um forte lobby para obter privilégios estatais. Suas vantagens são concentradas, e os custos são espalhados por toda a sociedade. Grandes empresários e sindicatos se juntam em busca de medidas que obstruem a livre concorrência, e tudo isso em nome dos “interesses nacionais”.
Tivemos recentemente um claro exemplo disso na questão dos portos. Qualquer um sabe que nossa infraestrutura é caótica, e impõe um pesado custo ao país em termos de competitividade. Mas, quando reformas tímidas para modernizar um pouco os portos foram propostas, a reação foi imediata. Modernizar os portos implica mais concorrência, e isso os sindicatos e os capitães da indústria nacional não aceitam.
Toda a retórica nacionalista serve somente para ocultar essa agenda de interesses que, no fundo, prejudica a população brasileira. Nossos portos, assim como estradas e aeroportos, estão em estado precário porque faltam investimentos e porque a gestão estatal é sempre terrível. Mas mexer nisso é comprar briga com as forças reacionárias.
O ideal, do ponto de vista liberal, seria privatizar de uma vez portos, estradas, ferrovias, bancos públicos, a Infraero e a Petrobras. A Companhia Docas do RJ, por exemplo, dá prejuízo acima de R$ 100 milhões por ano! Os escândalos de corrupção são frequentes. A reserva de mercado garante privilégios absurdos aos sindicatos. Os produtos chegam aos consumidores a preços maiores. A quem interessa isso tudo?
A Petrobras está em evidência também, pois o governo está destruindo a olhos nus a maior empresa brasileira. Seu uso político para fins partidários já fez com que dezenas de bilhões de reais evaporassem em seu valor de mercado. O país ainda precisa importar gasolina, e faltam recursos para os investimentos necessários. Quem ganha com isso?
Mas quando um liberal aponta esses fatos e apresenta seus argumentos em defesa das privatizações, ele é logo tachado de “reacionário” ou “fascista” pelos esquerdistas. Quem é reacionário: aquele que deseja modernizar a economia com mais concorrência ou aquele que luta pelo passado mercantilista? Quem é fascista: aquele que combate a nefasta aliança entre sindicatos e grandes empresários ou aquele que pede mais privilégios em nome do nacionalismo?
Um dos aspectos que facilitaram a ascensão fascista na Itália foi a total descrença na democracia, no Parlamento corrupto, envolto em escândalos de compra de votos dos deputados. Outro fator foi a inexistência de uma oposição organizada. Soa familiar?
Todo cuidado é pouco. O fascismo é uma ameaça real, como podemos ver na Venezuela e na Argentina. Antídotos contra ele são justamente a privatização e a concomitante redução do intervencionismo estatal na economia.
terça-feira, fevereiro 19, 2013
FLÁVIA OLIVEIRA - NEGÓCIOS & CIA
O GLOBO - 19/02
14 PROPOSTAS DE ALTERAÇÕES NA 11ª RODADA
Empresas de petróleo, entidades e até escritório de advocacia sugeriram mudanças em pré-edital e minuta de contrato
Na consulta pública que abriu para companhias e entidades empresariais opinarem sobre o pré-edital e a minuta do contrato da 11ª Rodada de Licitações, a Agência Nacional do Petróleo recebeu 14 propostas. Gigantes do setor de óleo e gás, como Petrobras, Shell, Sonangol, GDF Suez e BG, instituições como IBP, Anvisa e Abitam e até a banca Machado Meyer esperam ter suas posições debatidas na audiência pública, hoje de manhã, no Rio, e acolhidas na versão final do edital, que será publicado em 11 de março. O leilão, em maio, será o primeiro desde 2008. A consulta pública sobre a 11ª Rodada durou de 25 de janeiro a 4 de fevereiro. A Abitam, associação das indústrias de tubos e acessórios de metal, sugeriu redução de 100% para 95% o mínimo de conteúdo local. A entidade alega que nenhum fornecedor local é capaz de atender à exigência. A Anvisa solicitou a exclusão de critérios (positivos) de pontuação para operadoras que atuem em áreas ambientalmente sensíveis. Alega que o modelo contraria a Política Nacional de Meio Ambiente. A Petrobras pediu 41 alterações na minuta do contrato, incluindo a supressão do prazo de vigência, de 27 anos; além de 15 no pré-edital.
MISTURA
A Farm lança hoje a coleção de inverno “Lola Tom”. As peças são inspiradas em misturas inusitadas. Terá campanha na internet com a modelo Roberta Martins. Rafael Lucena assina as fotos.
A grife espera comercializar R$ 4 milhões em um dia, R$1,3 milhões deles na loja virtual. Planeja abrir 12 lojas este ano. Atualmente são 50. Espera vender 45% mais que em 2012.
REBELDIA
A boate Fosfobox, em Copacabana, foi cenário da campanha de inverno da My Place. As fotos são de Tomas Rangel. A estreia é hoje em mídias impressa e on-line.
A coleção “Top Town” quer unir sensualidade e rebeldia. A grife prevê alta de 30% nas vendas sobre o inverno 2012.
Jornada 1
Por causa da renúncia do papa, Eduardo Paes já trabalha com número bem superior a dois milhões de visitantes na Jornada da Juventude. É que o evento no Rio, em julho, deve ser a 1ª viagem internacional do sucessor de Bento XVI.
Jornada 2
Dia 26, o prefeito apresenta à Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil, o plano da cidade para o encontro. Uma ideia é decretar feriado também na segunda, 29, dia seguinte à missa papal, para facilitar a saída dos fiéis. De 23 a 28, não deve haver expediente.
Sem cobrança
Por decisão da 5ª Câmara Cível do TJ-Rio, a Oi está impedida de cobrar dos clientes pelo serviço de identificação de chamadas em telefones fixos. A ação do MP-Rio foi acolhida em 1ª e 2ª instâncias. A operadora, agora, tenta recorrer ao STJ.
Mangueira
João Emilio leva a leilão, dia 7 de março, dois prédios do BB na rua Visconde de Niterói, em Mangueira. Têm 6.011 m2 de área construída. Valem R$ 6,4 milhões.
De vidro
O Brasil respondeu por quase 10% do faturamento mundial da Guardian no segmento de vidros em 2012. São quase € 330 milhões. Este ano, a americana quer crescer 2% a 3% acima do PIB local. Possui fábricas em Porto Real (RJ) e Tatuí (SP).
Fusão
As irmãs Mirella Ferraz, da Josefina Rosacor, e Mirna Ferraz, Alice Disse, estudam unir as duas grifes de acessórios. A ideia é manter características de cada marca.
Luxo só
Foi de R$ 2 milhões o investimento da Amsterdam Sauer na loja do Village Mall, na Barra. A inauguração foi no Valentine’s Day, dia 14.
Sobremesa
A pizzaria Patroni lançou brownie com mousse de maracujá, parceria com a Tang. Prevê vender 45 mil por mês. Este ano, investirá R$ 2 milhões em marketing.
AURORA BOREAL
A top britânica Rosie Huntington-Whiteley estrela a campanha de inverno da Animale.
Ela posou para Henrique Gendre, nos EUA, numa pausa das gravações de “Fury Road”, continuação de “Mad Max”. Aurora Boreal é o tema da coleção. Em março, as peças chegam às lojas.
14 PROPOSTAS DE ALTERAÇÕES NA 11ª RODADA
Empresas de petróleo, entidades e até escritório de advocacia sugeriram mudanças em pré-edital e minuta de contrato
Na consulta pública que abriu para companhias e entidades empresariais opinarem sobre o pré-edital e a minuta do contrato da 11ª Rodada de Licitações, a Agência Nacional do Petróleo recebeu 14 propostas. Gigantes do setor de óleo e gás, como Petrobras, Shell, Sonangol, GDF Suez e BG, instituições como IBP, Anvisa e Abitam e até a banca Machado Meyer esperam ter suas posições debatidas na audiência pública, hoje de manhã, no Rio, e acolhidas na versão final do edital, que será publicado em 11 de março. O leilão, em maio, será o primeiro desde 2008. A consulta pública sobre a 11ª Rodada durou de 25 de janeiro a 4 de fevereiro. A Abitam, associação das indústrias de tubos e acessórios de metal, sugeriu redução de 100% para 95% o mínimo de conteúdo local. A entidade alega que nenhum fornecedor local é capaz de atender à exigência. A Anvisa solicitou a exclusão de critérios (positivos) de pontuação para operadoras que atuem em áreas ambientalmente sensíveis. Alega que o modelo contraria a Política Nacional de Meio Ambiente. A Petrobras pediu 41 alterações na minuta do contrato, incluindo a supressão do prazo de vigência, de 27 anos; além de 15 no pré-edital.
MISTURA
A Farm lança hoje a coleção de inverno “Lola Tom”. As peças são inspiradas em misturas inusitadas. Terá campanha na internet com a modelo Roberta Martins. Rafael Lucena assina as fotos.
A grife espera comercializar R$ 4 milhões em um dia, R$1,3 milhões deles na loja virtual. Planeja abrir 12 lojas este ano. Atualmente são 50. Espera vender 45% mais que em 2012.
REBELDIA
A boate Fosfobox, em Copacabana, foi cenário da campanha de inverno da My Place. As fotos são de Tomas Rangel. A estreia é hoje em mídias impressa e on-line.
A coleção “Top Town” quer unir sensualidade e rebeldia. A grife prevê alta de 30% nas vendas sobre o inverno 2012.
Jornada 1
Por causa da renúncia do papa, Eduardo Paes já trabalha com número bem superior a dois milhões de visitantes na Jornada da Juventude. É que o evento no Rio, em julho, deve ser a 1ª viagem internacional do sucessor de Bento XVI.
Jornada 2
Dia 26, o prefeito apresenta à Gleisi Hoffmann, chefe da Casa Civil, o plano da cidade para o encontro. Uma ideia é decretar feriado também na segunda, 29, dia seguinte à missa papal, para facilitar a saída dos fiéis. De 23 a 28, não deve haver expediente.
Sem cobrança
Por decisão da 5ª Câmara Cível do TJ-Rio, a Oi está impedida de cobrar dos clientes pelo serviço de identificação de chamadas em telefones fixos. A ação do MP-Rio foi acolhida em 1ª e 2ª instâncias. A operadora, agora, tenta recorrer ao STJ.
Mangueira
João Emilio leva a leilão, dia 7 de março, dois prédios do BB na rua Visconde de Niterói, em Mangueira. Têm 6.011 m2 de área construída. Valem R$ 6,4 milhões.
De vidro
O Brasil respondeu por quase 10% do faturamento mundial da Guardian no segmento de vidros em 2012. São quase € 330 milhões. Este ano, a americana quer crescer 2% a 3% acima do PIB local. Possui fábricas em Porto Real (RJ) e Tatuí (SP).
Fusão
As irmãs Mirella Ferraz, da Josefina Rosacor, e Mirna Ferraz, Alice Disse, estudam unir as duas grifes de acessórios. A ideia é manter características de cada marca.
Luxo só
Foi de R$ 2 milhões o investimento da Amsterdam Sauer na loja do Village Mall, na Barra. A inauguração foi no Valentine’s Day, dia 14.
Sobremesa
A pizzaria Patroni lançou brownie com mousse de maracujá, parceria com a Tang. Prevê vender 45 mil por mês. Este ano, investirá R$ 2 milhões em marketing.
AURORA BOREAL
A top britânica Rosie Huntington-Whiteley estrela a campanha de inverno da Animale.
Ela posou para Henrique Gendre, nos EUA, numa pausa das gravações de “Fury Road”, continuação de “Mad Max”. Aurora Boreal é o tema da coleção. Em março, as peças chegam às lojas.
Contra a democracia - VLADIMIR SAFATLE
FOLHA DE SP - 19/02
Um dos pilares do paradigma liberal é a crença de que livre-mercado e democracia são termos que nunca podem entrar em contradição.
Segundo essa vulgata, por meio do livre-mercado garante-se a liberdade individual de empreender e defender seus próprios interesses.
Neste mundo, ser livre equivaleria a poder estabelecer contratos de maneira "não coercitiva", seja para vender a força de trabalho, seja para alugar o útero, seja para contrair matrimônio, seja para relacionar-se com o Estado por meio dos impostos ou para tomar empréstimos no banco. Diga-se de passagem, todas essas ações são, para os liberais, pensadas a partir de uma mesma lógica unidimensional.
Nesse contexto, "democracia" só pode significar "o regime que não interfere nos contratos firmados por pessoas livres". Quanto menos interferência estatal, mais liberdade; é o que diz o velho mantra. No entanto, foi esse mantra que levou o mundo a uma das piores crises do capitalismo. Por isso, sair da crise só será possível à condição de pararmos de nos deixar enfeitiçar por ele.
Se uma ideia ruiu nos últimos anos, foi exatamente a que vê, no livre-mercado, o modelo de uma sociedade civil livre. Deixado a si mesmo, o mercado é o regime que extorque contratos dos que não têm força social para afirmar sua liberdade, dos que não têm escolha real por estarem submetidos ao risco constante da precariedade e da vulnerabilidade. Por isso, o velho Hegel dizia que a sociedade civil nunca é suficientemente rica para acabar com a pobreza.
Tal extorsão mostra, nos dias de hoje, sua face mais clara quando vemos bancos e seus "experts" da grande imprensa mundial aterrorizarem populações com a ameaça do caos econômico, caso suas dívidas não sejam en-campadas pelos Estados nacionais e transformadas em dívidas soberanas.
Ao aceitarem tal ameaça, os Estados destroem o sistema de segurança social que permitia um mínimo de liberdade à população diante da espoliação pelos economicamente mais fortes. Mas ao fazerem isso, eles destroem as verdadeiras bases da democracia.
Ou seja, a crise que o mundo vive hoje é a prova maior de que livre-mercado e democracia não andam necessariamente juntos, que há situações nas quais o primeiro pode destruir o segundo.
Com sua influência desproporcional, o sistema financeiro é, atualmente, a maior ameaça à democracia ocidental. Salvar tal sistema nos levará a uma nova forma de sociedade totalitária: a sociedade da precariedade generalizada.
Um dos pilares do paradigma liberal é a crença de que livre-mercado e democracia são termos que nunca podem entrar em contradição.
Segundo essa vulgata, por meio do livre-mercado garante-se a liberdade individual de empreender e defender seus próprios interesses.
Neste mundo, ser livre equivaleria a poder estabelecer contratos de maneira "não coercitiva", seja para vender a força de trabalho, seja para alugar o útero, seja para contrair matrimônio, seja para relacionar-se com o Estado por meio dos impostos ou para tomar empréstimos no banco. Diga-se de passagem, todas essas ações são, para os liberais, pensadas a partir de uma mesma lógica unidimensional.
Nesse contexto, "democracia" só pode significar "o regime que não interfere nos contratos firmados por pessoas livres". Quanto menos interferência estatal, mais liberdade; é o que diz o velho mantra. No entanto, foi esse mantra que levou o mundo a uma das piores crises do capitalismo. Por isso, sair da crise só será possível à condição de pararmos de nos deixar enfeitiçar por ele.
Se uma ideia ruiu nos últimos anos, foi exatamente a que vê, no livre-mercado, o modelo de uma sociedade civil livre. Deixado a si mesmo, o mercado é o regime que extorque contratos dos que não têm força social para afirmar sua liberdade, dos que não têm escolha real por estarem submetidos ao risco constante da precariedade e da vulnerabilidade. Por isso, o velho Hegel dizia que a sociedade civil nunca é suficientemente rica para acabar com a pobreza.
Tal extorsão mostra, nos dias de hoje, sua face mais clara quando vemos bancos e seus "experts" da grande imprensa mundial aterrorizarem populações com a ameaça do caos econômico, caso suas dívidas não sejam en-campadas pelos Estados nacionais e transformadas em dívidas soberanas.
Ao aceitarem tal ameaça, os Estados destroem o sistema de segurança social que permitia um mínimo de liberdade à população diante da espoliação pelos economicamente mais fortes. Mas ao fazerem isso, eles destroem as verdadeiras bases da democracia.
Ou seja, a crise que o mundo vive hoje é a prova maior de que livre-mercado e democracia não andam necessariamente juntos, que há situações nas quais o primeiro pode destruir o segundo.
Com sua influência desproporcional, o sistema financeiro é, atualmente, a maior ameaça à democracia ocidental. Salvar tal sistema nos levará a uma nova forma de sociedade totalitária: a sociedade da precariedade generalizada.
Mercado de dinheiro - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 19/02
O ambiente econômico está mudando. A inadimplência está alta, a inflação subiu, e o PIB está andando de lado há dois anos. O que tem mantido o mercado de crédito é o bom momento do mercado de trabalho. Os bancos estão mais cautelosos na hora de emprestar. E os aplicadores devem buscar mais informação antes de entregar seu dinheiro aos bancos e investir.
No mundo do dinheiro, tudo está em transformação. Quem quiser ganhar da inflação terá que se esforçar muito. A poupança perde por pagar 70% da Selic. Em janeiro, a inflação foi de 0,86%.
Há um total de R$ 2,2 trilhões aplicados em 12.720 fundos de investimentos, 41% só em título público. Esse volume de dinheiro é mais de quatro vezes maior do que há na caderneta, mas 11 milhões de depositantes aplicam em fundos e são 102 milhões as cadernetas de poupança. Especialistas acham que é inevitável uma aceitação maior de risco. O problema é a falta de transparência dos gestores, as altas taxas de administração.
Álvaro Bandeira, da Órama, calcula que, se são fundos de renda fixa, não faz sentido mais de 0,3% a 0,4% de taxa ao ano. Outros fundos com remunerações maiores cobram bem mais. Carlos Antônio Magalhães, da Apimec, lembra que o Ibovespa tem 45 anos e nesse período teve alta em 28 anos. Caiu o número de analistas, de 3.000 para 700 credenciados. Há menos gente para explicar, justo quando ficou mais complicado entender o mercado. Dos 10 maiores papéis no ano passado, oito tiveram prejuízo.
Na tomada de empréstimos, também todo o cuidado é pouco. O economista-chefe da Acrefi (Associação das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicolas Tingas, em longa conversa com Alvaro Gribel, da coluna, disse que as instituições financeiras concederam muitos empréstimos até 2010, e a inadimplência subiu, apesar da queda do desemprego. Se o mercado de trabalho virar, o que está ruim ficará pior:
- O mercado de trabalho é que está contendo uma alta maior da inadimplência. Mas estamos chegando ao limite desse cenário, depois de dois anos de PIB fraco. Se a economia não voltar a crescer forte, os empresários podem começar a demitir para reduzir custos.
Tentar empurrar os bancos para conceder mais crédito não vai funcionar. Por dois motivos: o crédito cresceu muito, e o calote, também. A proporção do crédito em relação ao PIB dobrou em menos de 10 anos, de 23% para 53%. No crédito para pessoas físicas, descontando empréstimos imobiliários, subsidiados, a taxa de crescimento em 12 meses caiu de 19% em janeiro de 2011 para 11% em dezembro de 2012. No crédito livre, está desacelerando a oferta, e o motivo é a alta da inadimplência, de 5,7% para 7,9%.
Houve aumento também nos últimos três anos na inadimplência em automóveis. O mercado financeiro mudou. Passou a exigir entrada de 20% a 30%, e o prazo caiu de 60 para 48 meses.
No mercado de dinheiro, todo mundo mudando. O investidor tem que entender, por exemplo, lembra Álvaro Bandeira, se o fundo no qual aplica trabalha muito alavancado e qual a composição das carteiras. Já as instituições financeiras estão exigindo mais garantia, pelo excesso de calotes que tiveram. Elas estão remunerando o capital abaixo da inflação em muitos fundos, prejudicando investidores muito passivos e exigindo juros altos demais de quem não tem outra saída a não ser se endividar. Uma coisa é certa, os bancos não terão a mesma atitude de oferta de anos atrás, segundo Tingas.
- Até por questão de governança, os executivos dos bancos não podem voltar ao ritmo de empréstimos anterior. Como eles vão explicar isso para seus acionistas? Uma financeira pequena pode até tomar risco por conta própria, mas um grande banco não vai agir assim. Primeiro, é preciso limpar os balanços - disse.
Nesse quadro, o Brasil tenta sair do PIB muito baixo e da inflação alta.
O ambiente econômico está mudando. A inadimplência está alta, a inflação subiu, e o PIB está andando de lado há dois anos. O que tem mantido o mercado de crédito é o bom momento do mercado de trabalho. Os bancos estão mais cautelosos na hora de emprestar. E os aplicadores devem buscar mais informação antes de entregar seu dinheiro aos bancos e investir.
No mundo do dinheiro, tudo está em transformação. Quem quiser ganhar da inflação terá que se esforçar muito. A poupança perde por pagar 70% da Selic. Em janeiro, a inflação foi de 0,86%.
Há um total de R$ 2,2 trilhões aplicados em 12.720 fundos de investimentos, 41% só em título público. Esse volume de dinheiro é mais de quatro vezes maior do que há na caderneta, mas 11 milhões de depositantes aplicam em fundos e são 102 milhões as cadernetas de poupança. Especialistas acham que é inevitável uma aceitação maior de risco. O problema é a falta de transparência dos gestores, as altas taxas de administração.
Álvaro Bandeira, da Órama, calcula que, se são fundos de renda fixa, não faz sentido mais de 0,3% a 0,4% de taxa ao ano. Outros fundos com remunerações maiores cobram bem mais. Carlos Antônio Magalhães, da Apimec, lembra que o Ibovespa tem 45 anos e nesse período teve alta em 28 anos. Caiu o número de analistas, de 3.000 para 700 credenciados. Há menos gente para explicar, justo quando ficou mais complicado entender o mercado. Dos 10 maiores papéis no ano passado, oito tiveram prejuízo.
Na tomada de empréstimos, também todo o cuidado é pouco. O economista-chefe da Acrefi (Associação das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento), Nicolas Tingas, em longa conversa com Alvaro Gribel, da coluna, disse que as instituições financeiras concederam muitos empréstimos até 2010, e a inadimplência subiu, apesar da queda do desemprego. Se o mercado de trabalho virar, o que está ruim ficará pior:
- O mercado de trabalho é que está contendo uma alta maior da inadimplência. Mas estamos chegando ao limite desse cenário, depois de dois anos de PIB fraco. Se a economia não voltar a crescer forte, os empresários podem começar a demitir para reduzir custos.
Tentar empurrar os bancos para conceder mais crédito não vai funcionar. Por dois motivos: o crédito cresceu muito, e o calote, também. A proporção do crédito em relação ao PIB dobrou em menos de 10 anos, de 23% para 53%. No crédito para pessoas físicas, descontando empréstimos imobiliários, subsidiados, a taxa de crescimento em 12 meses caiu de 19% em janeiro de 2011 para 11% em dezembro de 2012. No crédito livre, está desacelerando a oferta, e o motivo é a alta da inadimplência, de 5,7% para 7,9%.
Houve aumento também nos últimos três anos na inadimplência em automóveis. O mercado financeiro mudou. Passou a exigir entrada de 20% a 30%, e o prazo caiu de 60 para 48 meses.
No mercado de dinheiro, todo mundo mudando. O investidor tem que entender, por exemplo, lembra Álvaro Bandeira, se o fundo no qual aplica trabalha muito alavancado e qual a composição das carteiras. Já as instituições financeiras estão exigindo mais garantia, pelo excesso de calotes que tiveram. Elas estão remunerando o capital abaixo da inflação em muitos fundos, prejudicando investidores muito passivos e exigindo juros altos demais de quem não tem outra saída a não ser se endividar. Uma coisa é certa, os bancos não terão a mesma atitude de oferta de anos atrás, segundo Tingas.
- Até por questão de governança, os executivos dos bancos não podem voltar ao ritmo de empréstimos anterior. Como eles vão explicar isso para seus acionistas? Uma financeira pequena pode até tomar risco por conta própria, mas um grande banco não vai agir assim. Primeiro, é preciso limpar os balanços - disse.
Nesse quadro, o Brasil tenta sair do PIB muito baixo e da inflação alta.
Não é só voluntarismo - CELSO MING
O ESTADO DE S. PAULO - 19/02
O governo Dilma tem chamado a atenção por seu alto grau de intervenção na economia e nos negócios - apontam tanto analistas daqui quanto do exterior. Há nele, com certeza, alta dose de voluntarismo, que se baseia no princípio de que o governo tudo ou quase tudo pode, bastando, para isso, querer e acionar instrumentos adequados.
Assim, os juros têm de cair e permanecer lá embaixo, sem prejuízo relevante para a inflação. A moeda precisa ser desvalorizada (alta do dólar) sem vacilação, para dar competitividade ao setor produtivo. O caixa da Petrobrás deve ser acionado, seja para garantir preços dos combustíveis acessíveis ao novo consumidor, seja para fazer política de boa vizinhança com países da América do Sul - como Venezuela, Bolívia e Argentina. Em compensação, a Petrobrás está obrigada a participar de toda licitação de área nova do pré-sal, com ao menos 30% dos investimentos. E terá de conceder reserva de mercado para fornecedores nacionais. Do BNDES, por sua vez, ativado com generosas transferências do Tesouro, se espera que dê suporte a um punhado de empresas eleitas para serem os futuros campeões da área, como o grupos Oi, LBA, JBS-Friboi ou as do Grupo EBX. E as concessionárias de energia elétrica têm de operar com tarifas 20% mais baixas. E, até recentemente, qualquer empresário que aceitasse participar de concorrência para obras de infraestrutura teria de se conformar com retorno de apenas 6% - "porque opera com risco zero".
São exemplos do ativismo governamental, que pode ser entendido também como manifestação de um keynesianismo submetido a processos antropofágicos semelhantes aos propostos pelos modernistas da década de 1920.
Mas isso não é tudo. O outro lado da mesma moeda é a impressionante passividade também do governo Dilma.
A inflação, por exemplo, quase sempre provocada por fatores externos, e não por desarranjos internos, convergirá mais ou menos espontaneamente para o centro da meta - mesmo levando-se em conta que os juros permanecerão onde estão "por um período de tempo suficientemente prolongado", como dizem os documentos do Banco Central.
O crescimento do PIB, de 4,0% a 4,5% ao ano, virá naturalmente - asseguram as autoridades, a despeito dos gargalos de infraestrutura e da baixa produtividade da mão de obra num mercado que opera em regime de pleno emprego.
Os investimentos, ora essa, estão garantidos. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está, é verdade, atrasado ou sujeito a coisas esquisitas, como acontece com as obras da transposição do Rio São Francisco, mas, com um pouco de paciência, chegará a bom termo. Mais cedo ou mais tarde, o relutante "espírito animal" do empresário brasileiro se mobilizará. Ninguém se desespere se o reconhecimento do etanol e do biodiesel como commodities internacionais esteja sendo frustrado pela política de combustíveis. As soluções para os problemas virão a seu tempo.
O Mercosul está sendo deformado pelos furos e pelas travas impostas pela Argentina. Mas, aí também, é preciso flexibilizar as disposições dos tratados com alguma dose de tolerância para com os hermanos, que passam por poucas e boas.
Enfim, não é só voluntarismo. É também deixar rolar.
CONFIRA
É o celeiro do mundo. Com justa razão, a presidente Dilma Rousseff fez nesta segunda-feira a louvação do agronegócio, que, neste ano, deve apresentar safra recorde de 185 milhões de toneladas de grãos.
Por outro lado. Dois reparos às declarações da presidente: (1) faltou reconhecer que todo o setor do açúcar e do álcool vai mal, com água até o pescoço, em consequência da política errada do governo para os combustíveis, que afoga o etanol; e (2) à parte a safra recorde, todo o setor está asfixiado por infraestrutura precária e cara.
Nada a ver. O Ministério da Fazenda quer fazer acreditar que a generosa safra de grãos ajudará a derrubar a alta dos alimentos, responsável pela disparada da inflação. Errado. Essa boa safra concorrerá apenas marginalmente para o controle da inflação. Os preços dos grãos são determinados pela Bolsa de Chicago. Além disso, a maior parte da alta dos alimentos no mercado interno é determinada pelos produtos hortigranjeiros.
Assim, os juros têm de cair e permanecer lá embaixo, sem prejuízo relevante para a inflação. A moeda precisa ser desvalorizada (alta do dólar) sem vacilação, para dar competitividade ao setor produtivo. O caixa da Petrobrás deve ser acionado, seja para garantir preços dos combustíveis acessíveis ao novo consumidor, seja para fazer política de boa vizinhança com países da América do Sul - como Venezuela, Bolívia e Argentina. Em compensação, a Petrobrás está obrigada a participar de toda licitação de área nova do pré-sal, com ao menos 30% dos investimentos. E terá de conceder reserva de mercado para fornecedores nacionais. Do BNDES, por sua vez, ativado com generosas transferências do Tesouro, se espera que dê suporte a um punhado de empresas eleitas para serem os futuros campeões da área, como o grupos Oi, LBA, JBS-Friboi ou as do Grupo EBX. E as concessionárias de energia elétrica têm de operar com tarifas 20% mais baixas. E, até recentemente, qualquer empresário que aceitasse participar de concorrência para obras de infraestrutura teria de se conformar com retorno de apenas 6% - "porque opera com risco zero".
São exemplos do ativismo governamental, que pode ser entendido também como manifestação de um keynesianismo submetido a processos antropofágicos semelhantes aos propostos pelos modernistas da década de 1920.
Mas isso não é tudo. O outro lado da mesma moeda é a impressionante passividade também do governo Dilma.
A inflação, por exemplo, quase sempre provocada por fatores externos, e não por desarranjos internos, convergirá mais ou menos espontaneamente para o centro da meta - mesmo levando-se em conta que os juros permanecerão onde estão "por um período de tempo suficientemente prolongado", como dizem os documentos do Banco Central.
O crescimento do PIB, de 4,0% a 4,5% ao ano, virá naturalmente - asseguram as autoridades, a despeito dos gargalos de infraestrutura e da baixa produtividade da mão de obra num mercado que opera em regime de pleno emprego.
Os investimentos, ora essa, estão garantidos. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) está, é verdade, atrasado ou sujeito a coisas esquisitas, como acontece com as obras da transposição do Rio São Francisco, mas, com um pouco de paciência, chegará a bom termo. Mais cedo ou mais tarde, o relutante "espírito animal" do empresário brasileiro se mobilizará. Ninguém se desespere se o reconhecimento do etanol e do biodiesel como commodities internacionais esteja sendo frustrado pela política de combustíveis. As soluções para os problemas virão a seu tempo.
O Mercosul está sendo deformado pelos furos e pelas travas impostas pela Argentina. Mas, aí também, é preciso flexibilizar as disposições dos tratados com alguma dose de tolerância para com os hermanos, que passam por poucas e boas.
Enfim, não é só voluntarismo. É também deixar rolar.
CONFIRA
É o celeiro do mundo. Com justa razão, a presidente Dilma Rousseff fez nesta segunda-feira a louvação do agronegócio, que, neste ano, deve apresentar safra recorde de 185 milhões de toneladas de grãos.
Por outro lado. Dois reparos às declarações da presidente: (1) faltou reconhecer que todo o setor do açúcar e do álcool vai mal, com água até o pescoço, em consequência da política errada do governo para os combustíveis, que afoga o etanol; e (2) à parte a safra recorde, todo o setor está asfixiado por infraestrutura precária e cara.
Nada a ver. O Ministério da Fazenda quer fazer acreditar que a generosa safra de grãos ajudará a derrubar a alta dos alimentos, responsável pela disparada da inflação. Errado. Essa boa safra concorrerá apenas marginalmente para o controle da inflação. Os preços dos grãos são determinados pela Bolsa de Chicago. Além disso, a maior parte da alta dos alimentos no mercado interno é determinada pelos produtos hortigranjeiros.
Com que roupa? - ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 19/02
Antes de entrar em campo na sucessão, como querem muitos tucanos, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) quer saber onde pisa. Seus aliados dizem que ele quer terreno sólido. Para isso, precisa de unidade, que implica insofismável apoio de São Paulo. E uma autocrítica da bancada do Senado, onde setores votaram em Renan Calheiros (PMDB-AL) para presidente da Casa.
A costura
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) vai tratar da sinalização do apoio paulista na segunda-feira, quando recebe o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Belo Horizonte. Com o governador Geraldo Alckmin e o ex-governador José Serra, ele já abordou o tema em dezembro. Em todos esses contatos, ele tem advertido que o PSDB só vai liderar um sólido projeto alternativo à reeleição da presidente Dilma se for um partido com "unidade de ação". Ele tem dito que, se os tucanos atuarem de forma banguela, como na eleição do Senado, quando parcela da bancada não seguiu sua orientação de votar em Pedro Taques (PDT-MT), o partido naufragará em 2014.
“Para falar com a sociedade sobre as propostas do PSDB, oAécio precisa de uma retaguarda pacificada e unificada”
Marcus Pestana
Deputado federal e presidente do PSDB-MG
Câmara vai criar novas vitrines
O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), está sendo pressionado a criar duas novas comissões. Hoje, são 20. Ele estuda ampliar para 22 a fim de garantir holofotes para o PR e o DEM, tirados do palco principal pelo PSD.
Virar a página
O PT não consegue virar a página do mensalão. Líderes petistas avaliam que José Dirceu devia poupar o partido e deixar de participar da vida partidária. Mas, ao contrário disso, na quarta-feira, no Anhembi, na festa dos dez anos do PT no poder, o Super-Zé vai tentar dividir o palco com o ex-presidente Lula e a presidente Dilma.
Transparência
A reunião de hoje da Comissão Externa da Câmara sobre a investigação do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), será transmitida ao vivo no site: http:// edemocracia.camara.gov.br/ web/espaco-livre/bate-papo-tv
O machismo da tropa
O Ministério da Justiça recebeu pesquisa inédita feita com sete mil mulheres das polícias Civis, Militares, Corpos de Bombeiros e Perícia Forense do país. Ela mostra que a participação da mulher é pequena. O efetivo nas PMs é de 7,96%; nas polícias Civis é de 25,19%; e nos Bombeiros, 7,24%. Uma das maiores queixas do ambiente de trabalho diz respeito ao assédio moral e ao sexual.
Aliado de peso
O governo articula apoios no setor produtivo para não perder a queda de braço na MP dos Portos, que pretende abrir o mercado. A CNA, presidida pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO), aderiu para pôr fim aos gargalos no escoamento da produção.
O Rio lidera
São 40 mil, de mais de 30 países, entre 18 e 85 anos, os voluntários inscritos para atuar na Copa das Confederações. O Ministério dos Esportes vai recrutar sete mil. O Rio tem o maior número de candidatos: 8.143. Seguido de São Paulo: 4.521.
O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, contratou uma empresa de consultoria para melhorar sua imagem no Palácio do Planalto.
A costura
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) vai tratar da sinalização do apoio paulista na segunda-feira, quando recebe o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Belo Horizonte. Com o governador Geraldo Alckmin e o ex-governador José Serra, ele já abordou o tema em dezembro. Em todos esses contatos, ele tem advertido que o PSDB só vai liderar um sólido projeto alternativo à reeleição da presidente Dilma se for um partido com "unidade de ação". Ele tem dito que, se os tucanos atuarem de forma banguela, como na eleição do Senado, quando parcela da bancada não seguiu sua orientação de votar em Pedro Taques (PDT-MT), o partido naufragará em 2014.
“Para falar com a sociedade sobre as propostas do PSDB, oAécio precisa de uma retaguarda pacificada e unificada”
Marcus Pestana
Deputado federal e presidente do PSDB-MG
Câmara vai criar novas vitrines
O presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB-RN), está sendo pressionado a criar duas novas comissões. Hoje, são 20. Ele estuda ampliar para 22 a fim de garantir holofotes para o PR e o DEM, tirados do palco principal pelo PSD.
Virar a página
O PT não consegue virar a página do mensalão. Líderes petistas avaliam que José Dirceu devia poupar o partido e deixar de participar da vida partidária. Mas, ao contrário disso, na quarta-feira, no Anhembi, na festa dos dez anos do PT no poder, o Super-Zé vai tentar dividir o palco com o ex-presidente Lula e a presidente Dilma.
Transparência
A reunião de hoje da Comissão Externa da Câmara sobre a investigação do incêndio na Boate Kiss, em Santa Maria (RS), será transmitida ao vivo no site: http:// edemocracia.camara.gov.br/ web/espaco-livre/bate-papo-tv
O machismo da tropa
O Ministério da Justiça recebeu pesquisa inédita feita com sete mil mulheres das polícias Civis, Militares, Corpos de Bombeiros e Perícia Forense do país. Ela mostra que a participação da mulher é pequena. O efetivo nas PMs é de 7,96%; nas polícias Civis é de 25,19%; e nos Bombeiros, 7,24%. Uma das maiores queixas do ambiente de trabalho diz respeito ao assédio moral e ao sexual.
Aliado de peso
O governo articula apoios no setor produtivo para não perder a queda de braço na MP dos Portos, que pretende abrir o mercado. A CNA, presidida pela senadora Kátia Abreu (PSD-TO), aderiu para pôr fim aos gargalos no escoamento da produção.
O Rio lidera
São 40 mil, de mais de 30 países, entre 18 e 85 anos, os voluntários inscritos para atuar na Copa das Confederações. O Ministério dos Esportes vai recrutar sete mil. O Rio tem o maior número de candidatos: 8.143. Seguido de São Paulo: 4.521.
O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman, contratou uma empresa de consultoria para melhorar sua imagem no Palácio do Planalto.
Queima de estoque - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 19/02
Em meio ao impasse para votar o Orçamento, Henrique Alves (PMDB-RN) procurou líderes governistas e da oposição com a proposta de apreciar em bloco, em três sessões previstas para março, os 3.000 vetos represados no Congresso. Deputados aceitam deliberar até sobre os mais polêmicos, como o do Código Florestal. A exceção é o dos royalties, que deve ser discutido em separado. Após zerar a pauta, Alves quer que os vetos presidenciais passem a ser analisados em até 30 dias.
Menos um Ricardo Lewandowski não participará da sessão do STF amanhã, que deve analisar a liminar de Luiz Fux sobre os royalties. O ministro presidirá concurso para a cadeira de Teoria do Estado na USP, que tem entre os candidatos o consultor-geral da União Arnaldo Godoy.
No bolso Ao comparar as gestões de FHC e de Lula e Dilma em seu evento festivo de amanhã, o PT vai enfatizar os indicadores do salário mínimo. O partido dirá que o valor real cresceu 20,8% entre 2003 e 2012, contra queda de 11,2% entre 1995 e 2002.
Popular O slogan será: "Do povo, pelo povo, para o povo." Haverá telão para quem não conseguir acesso ao auditório no Anhembi, que suporta mil pessoas.
Megafone Dilma prepara discurso no padrão do pronunciamento televisivo em que anunciou a redução na conta de luz para a festa do PT. Debatida com o marqueteiro João Santana, a fala tratará também da queda de juros e do combate à miséria.
Timing O tucano Aécio Neves (MG) antecipou para amanhã, no Senado, o discurso em que abordará os "13 fracassos" do PT. A intenção é fazer contraponto à retórica comemorativa dos petistas.
Mais-valia A Força Sindical, que vinha se aproximando do PSDB, convidou Eduardo Campos (PSB-PE) para abrir a reunião da direção nacional, em março. O governador falará sobre conjuntura econômica e política.
Veja bem Logo após ter declarado que uma ala do PT propugna a troca do vice de Dilma em 2014, Gilberto Carvalho telefonou para Michel Temer para dizer que é favorável à continuidade da dobradinha com o PMDB.
Cerco 1 A ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) responde às críticas à medida provisória dos portos: "Precisamos dar conta das novas fronteiras produtivas do país. Aceitamos discutir o projeto, só não vamos permitir que haja reserva de mercado".
Cerco 2 Gleisi refuta a afirmação de que as concessões enfraquecerão os portos públicos: "Já existem 119 terminais de uso privado no Brasil, e eles complementam os 33 portos públicos".
Buracos O Ministério da Justiça divulga hoje estudo mostrando falta de estrutura de perícia criminal nos Estados. Em 12 deles, a área está ligada à Polícia Civil. Amazonas, Distrito Federal, Piauí e Roraima têm Instituto Médico Legal só na capital.
Ranking Os dados mostram que só 15% das de 7.986 delegacias do país são especializadas. A maior parte delas fica em São Paulo (387) e no Rio Grande do Sul (69).
Trem bom Depois de Dilma adotar o Pronatec como vitrine, Antonio Anastasia (PSDB) lançou ontem programa de qualificação profissional chamado "Uaitec", sigla de Universidade Aberta Integrada de Minas Gerais.
Visita à Folha José Dirceu, ex-ministro da Casa Civil, visitou ontem a Folha. Estava com José Luis Oliveira Lima, advogado.
Folha, 92 A Folha completa hoje 92 anos.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
Depois do dossiê dos aloprados, agora surge o dos subordinados. Ou o Planalto não controla seus assessores ou comanda o jogo rasteiro.
DO LÍDER DO PPS NA CÂMARA, RUBENS BUENO (PR), sobre a participação de assessor do governo na divulgação de dossiê contra Yoani Sánchez.
contraponto
Força do pensamento
Durante o encerramento do Brasil Open, anteontem, no Ibirapuera, Aldo Rebelo (Esporte) foi vaiado ao ser anunciado ao lado de organizadores do evento, que teve problemas com as quadras de saibro e na acomodação de torcedores na decisão. Apesar de hostilizado pela plateia, o ministro foi escalado para entregar o troféu ao vencedor, Rafael Nadal. O tenista espanhol deixou escapar a taça, que quase caiu. A torcida fez novo coro:
-Uuuuuhhhh..
Um dos presentes à solenidade brincou:
-A energia negativa estava forte.
Mudando de conversa - DORA KRAMER
O Estado de S.Paulo - 19/02
Os presidentes da Câmara e do Senado junto com alguns líderes partidários no Congresso nesse início de sessão legislativa só falam do trabalho extraordinário que estão dispostos a fazer para tirar o Parlamento do pântano do desgaste.
Não por acaso o discurso é feito justamente por personagens que ajudam o Poder Legislativo a ir às cordas: Renan Calheiros, Henrique Eduardo Alves, os líderes do PMDB e do PT na Câmara, Eduardo Cunha e José Guimarães.
Todos direta ou indiretamente envolvidos com escândalos, investigações, processos, fisiologismos, defesa de maus combates, aquele tipo de conduta questionável que tanto desabona a figura do congressista aos olhos da opinião pública.
Cheios de gás, prometem uma "agenda propositiva" em que se incluem assuntos pendentes que realmente precisam de solução: partilha dos royalties do petróleo, vetos presidenciais acumulados, Orçamento de 2013, distribuição do Fundo de Participação dos Estados, reforma tributária, dívidas dos governos estaduais etc.
Tudo isso é muito importante, mas não será com isso que o Congresso falará ao coração da sociedade naquelas questões em que ele anda mais magoado com suas excelências.
No balanço de fim de ano feito pelos presidentes anteriores, José Sarney e Marco Maia, havia uma série enorme de temas votados pela Câmara e pelo Senado nos meses anteriores e ninguém ficou especialmente sensibilizado.
O assunto dominante eram a posse de um suplente recentemente condenado (José Genoino) e a atitude que a Câmara teria diante da perda de mandato de outros três réus congressistas com penas de prisão determinadas pelo Supremo Tribunal Federal.
A indignação geral não era com o fato de o Congresso ter deixado de votar isso ou aquilo, mas com o comportamento desviante desse, daquele e não raro da maioria do Poder. O Parlamento deixar de cumprir suas obrigações já foi um tema mais urgente.
O mau comportamento chegou a um grau de exorbitância tal que uma "agenda propositiva" não vai resolver o problema. O que acabamos chamando de "imagem" é muito mais: não se trata de mera percepção negativa, é constatação baseada em dados reais.
A quantidade de projetos aprovados é menos relevante que a qualidade da conduta dos parlamentares no tocante ao corporativismo, aos privilégios e à desatenção às demandas externas.
Renan Calheiros faz pouco caso das 1,5 milhão de assinaturas de rejeição à sua eleição para a presidência do Senado e, junto com seus colegas artífices da "agenda propositiva", nem toca em dois temas que ajudariam muito na volta por cima.
Ambos estão prontos para ser votados, mas ficam igualmente esquecidos e fora da pauta desejada por suas excelências: o fim do voto secreto para cassação de mandatos e a extinção dos 14.º e 15.º salários para os congressistas.
O enfrentamento dessas duas questões seria um sinal muito mais eficaz para demonstrar alguma sintonia do Parlamento com a sociedade. Até agora falta à ofensiva o principal para dar certo: a compreensão de qual é mesmo o espírito da coisa que deixa o Poder Legislativo na obrigação de jurar que vai melhorar.
Presença. O governador Eduardo Campos neste ano estará em todas. Encontros, palestras, comemorações, movimentos, não perderá ocasião de se apresentar e manifestar.
Desde que o acontecimento seja politicamente conveniente, claro. Não o convidem, por exemplo, para atos que possam mesmo remotamente dar a leve impressão de solidariedade aos condenados do mensalão.
Campos quer ocupar todos os espaços possíveis para se tornar conhecido e testar as condições objetivas de um projeto eleitoral não atrelado aos planos do PT.
Os presidentes da Câmara e do Senado junto com alguns líderes partidários no Congresso nesse início de sessão legislativa só falam do trabalho extraordinário que estão dispostos a fazer para tirar o Parlamento do pântano do desgaste.
Não por acaso o discurso é feito justamente por personagens que ajudam o Poder Legislativo a ir às cordas: Renan Calheiros, Henrique Eduardo Alves, os líderes do PMDB e do PT na Câmara, Eduardo Cunha e José Guimarães.
Todos direta ou indiretamente envolvidos com escândalos, investigações, processos, fisiologismos, defesa de maus combates, aquele tipo de conduta questionável que tanto desabona a figura do congressista aos olhos da opinião pública.
Cheios de gás, prometem uma "agenda propositiva" em que se incluem assuntos pendentes que realmente precisam de solução: partilha dos royalties do petróleo, vetos presidenciais acumulados, Orçamento de 2013, distribuição do Fundo de Participação dos Estados, reforma tributária, dívidas dos governos estaduais etc.
Tudo isso é muito importante, mas não será com isso que o Congresso falará ao coração da sociedade naquelas questões em que ele anda mais magoado com suas excelências.
No balanço de fim de ano feito pelos presidentes anteriores, José Sarney e Marco Maia, havia uma série enorme de temas votados pela Câmara e pelo Senado nos meses anteriores e ninguém ficou especialmente sensibilizado.
O assunto dominante eram a posse de um suplente recentemente condenado (José Genoino) e a atitude que a Câmara teria diante da perda de mandato de outros três réus congressistas com penas de prisão determinadas pelo Supremo Tribunal Federal.
A indignação geral não era com o fato de o Congresso ter deixado de votar isso ou aquilo, mas com o comportamento desviante desse, daquele e não raro da maioria do Poder. O Parlamento deixar de cumprir suas obrigações já foi um tema mais urgente.
O mau comportamento chegou a um grau de exorbitância tal que uma "agenda propositiva" não vai resolver o problema. O que acabamos chamando de "imagem" é muito mais: não se trata de mera percepção negativa, é constatação baseada em dados reais.
A quantidade de projetos aprovados é menos relevante que a qualidade da conduta dos parlamentares no tocante ao corporativismo, aos privilégios e à desatenção às demandas externas.
Renan Calheiros faz pouco caso das 1,5 milhão de assinaturas de rejeição à sua eleição para a presidência do Senado e, junto com seus colegas artífices da "agenda propositiva", nem toca em dois temas que ajudariam muito na volta por cima.
Ambos estão prontos para ser votados, mas ficam igualmente esquecidos e fora da pauta desejada por suas excelências: o fim do voto secreto para cassação de mandatos e a extinção dos 14.º e 15.º salários para os congressistas.
O enfrentamento dessas duas questões seria um sinal muito mais eficaz para demonstrar alguma sintonia do Parlamento com a sociedade. Até agora falta à ofensiva o principal para dar certo: a compreensão de qual é mesmo o espírito da coisa que deixa o Poder Legislativo na obrigação de jurar que vai melhorar.
Presença. O governador Eduardo Campos neste ano estará em todas. Encontros, palestras, comemorações, movimentos, não perderá ocasião de se apresentar e manifestar.
Desde que o acontecimento seja politicamente conveniente, claro. Não o convidem, por exemplo, para atos que possam mesmo remotamente dar a leve impressão de solidariedade aos condenados do mensalão.
Campos quer ocupar todos os espaços possíveis para se tornar conhecido e testar as condições objetivas de um projeto eleitoral não atrelado aos planos do PT.
Acender luzes - LUIZ GARCIA
O GLOBO 19/02
O presidente do Senado tem, esperando por ele, uma petição que já colheu mais de 1,5 milhão de assinaturas na internet pedindo o seu impeachment. Não há registro de iniciativa popular com esse peso, sem qualquer ligação com partidos
Pode-se dizer, sem muito exagero (como se sabe, um pouco de exagero é considerado aceitável, aparentemente por ser inevitável, na imprensa do mundo inteiro) que a bola da vez na política brasileira é o senador alagoano Renan Calheiros.
No momento, ele se refugia no spa gaúcho Kurotel, que por acaso conheço. Posso garantir que é muito bonito e tranquilo;faz muito bem à saúde do corpo e, para quem precisa, também aos nervos. Lamentavelmente, os hóspedes, por assim dizer, depositam seus problemas e aflições ao chegarem, mas essa bagagem espera por eles na saída.
Ao voltar para casa, o presidente do Senado, coitado, terá esperando por ele uma petição que já colheu mais de 1,5 milhão de assinaturas na internet pedindo o seu impeachment. Não há registro de iniciativa popular com esse peso, sem qualquer ligação com partidos e líderes políticos.
É mais impressionante do que a campanha pela Lei da Ficha Limpa. Se alguém não se lembra, ela nasceu de um movimento popular que reuniu mais de um milhão de assinaturas que produziram uma lei aprovada pelo Congresso em 2010 e foi declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal dois anos depois.
Pois a petição contra Renan — e isso tem importância considerável — leva o jamegão de mais cidadãos do que aquela lei. Pode-se dizer que o povo não esqueceu a força que tem.
Um dos redatores da Lei da Ficha Limpa, o juiz Marlon Reis, comparou os dois movimentos populares e chegou a uma conclusão óbvia: no mínimo, disse ele, esta nova manifestação da vontade popular "vai acender uma luz amarela para o Congresso rever suas práticas” Acender luzes, de qualquer cor, costuma ser boa coisa.
O presidente do Senado tem, esperando por ele, uma petição que já colheu mais de 1,5 milhão de assinaturas na internet pedindo o seu impeachment. Não há registro de iniciativa popular com esse peso, sem qualquer ligação com partidos
Pode-se dizer, sem muito exagero (como se sabe, um pouco de exagero é considerado aceitável, aparentemente por ser inevitável, na imprensa do mundo inteiro) que a bola da vez na política brasileira é o senador alagoano Renan Calheiros.
No momento, ele se refugia no spa gaúcho Kurotel, que por acaso conheço. Posso garantir que é muito bonito e tranquilo;faz muito bem à saúde do corpo e, para quem precisa, também aos nervos. Lamentavelmente, os hóspedes, por assim dizer, depositam seus problemas e aflições ao chegarem, mas essa bagagem espera por eles na saída.
Ao voltar para casa, o presidente do Senado, coitado, terá esperando por ele uma petição que já colheu mais de 1,5 milhão de assinaturas na internet pedindo o seu impeachment. Não há registro de iniciativa popular com esse peso, sem qualquer ligação com partidos e líderes políticos.
É mais impressionante do que a campanha pela Lei da Ficha Limpa. Se alguém não se lembra, ela nasceu de um movimento popular que reuniu mais de um milhão de assinaturas que produziram uma lei aprovada pelo Congresso em 2010 e foi declarada constitucional pelo Supremo Tribunal Federal dois anos depois.
Pois a petição contra Renan — e isso tem importância considerável — leva o jamegão de mais cidadãos do que aquela lei. Pode-se dizer que o povo não esqueceu a força que tem.
Um dos redatores da Lei da Ficha Limpa, o juiz Marlon Reis, comparou os dois movimentos populares e chegou a uma conclusão óbvia: no mínimo, disse ele, esta nova manifestação da vontade popular "vai acender uma luz amarela para o Congresso rever suas práticas” Acender luzes, de qualquer cor, costuma ser boa coisa.
Jeitinho argentino - ELIANE CANTANHÊDE
FOLHA DE SP - 19/02
BRASÍLIA - Previsibilidade e confiabilidade, o que inclui respeito a contratos e dados oficiais seguros, inquestionáveis. É isso que a comunidade internacional procura, os investidores internos esperam e, enfim, é o mínimo que a sociedade brasileira exige. Mas há coisas estranhas acontecendo.
Primeiro, foi o uso do Fundo Soberano para maquiar os números e simular um superavit primário em 2012 mais digerível pelo mercado. Aliás, inflaram os dados, mas não o suficientemente.
Depois, a descoberta de que o gato comeu e o Tesouro engoliu recursos depositados pelas empresas no FGTS -que pertence aos trabalhadores- para fechar suas contas.
Enfim, sabe-se da imensa criatividade do governo ao lidar com os números da inclusão social e ao prometer erradicar a miséria.
Com R$ 2 (dois reais!) a mais e um estalar de dedos, milhares de pessoas foram dormir miseráveis, com renda de R$ 69, e acordaram ex-miseráveis, com R$ 71. Isso, nas estatísticas e bumbos oficiais.
O teto de R$ 70, aliás, está careca de tão velho. E mais: cerca de 2,5 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria no país estão fora do Cadastro Único, segundo estimativa do Ministério do Desenvolvimento Social.
A Argentina e sua presidente acabam de passar por dois vexames internacionais: uma censura do FMI e a ironia da revista "The Economist", justamente pela falsificação de dados, especialmente os do PIB e da inflação. Ninguém confia nos índices do governo, e o governo veta os índices de agências, empresas ou bancos independentes.
Na "The Economist", a famosa "Don't cry for me, Argentina" é ironizada como "Don't lie to me, Argentina" ou, apropriadamente, "Não minta para mim, Argentina".
O Brasil é bem mais avançado do que a Argentina e Dilma tem mais credibilidade que Cristina Kirchner. Tomara que continue assim.
BRASÍLIA - Previsibilidade e confiabilidade, o que inclui respeito a contratos e dados oficiais seguros, inquestionáveis. É isso que a comunidade internacional procura, os investidores internos esperam e, enfim, é o mínimo que a sociedade brasileira exige. Mas há coisas estranhas acontecendo.
Primeiro, foi o uso do Fundo Soberano para maquiar os números e simular um superavit primário em 2012 mais digerível pelo mercado. Aliás, inflaram os dados, mas não o suficientemente.
Depois, a descoberta de que o gato comeu e o Tesouro engoliu recursos depositados pelas empresas no FGTS -que pertence aos trabalhadores- para fechar suas contas.
Enfim, sabe-se da imensa criatividade do governo ao lidar com os números da inclusão social e ao prometer erradicar a miséria.
Com R$ 2 (dois reais!) a mais e um estalar de dedos, milhares de pessoas foram dormir miseráveis, com renda de R$ 69, e acordaram ex-miseráveis, com R$ 71. Isso, nas estatísticas e bumbos oficiais.
O teto de R$ 70, aliás, está careca de tão velho. E mais: cerca de 2,5 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da miséria no país estão fora do Cadastro Único, segundo estimativa do Ministério do Desenvolvimento Social.
A Argentina e sua presidente acabam de passar por dois vexames internacionais: uma censura do FMI e a ironia da revista "The Economist", justamente pela falsificação de dados, especialmente os do PIB e da inflação. Ninguém confia nos índices do governo, e o governo veta os índices de agências, empresas ou bancos independentes.
Na "The Economist", a famosa "Don't cry for me, Argentina" é ironizada como "Don't lie to me, Argentina" ou, apropriadamente, "Não minta para mim, Argentina".
O Brasil é bem mais avançado do que a Argentina e Dilma tem mais credibilidade que Cristina Kirchner. Tomara que continue assim.
O investimento emperrado - EDITORIAL O ESTADÃO
O ESTADO DE S. PAULO - 19/02
Com vento a favor, otimismo e muito empenho, governo e setor privado voltarão a investir em máquinas, equipamentos, edificações e infraestrutura, neste ano, algo próximo de 20% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo a nova projeção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Se tudo correr bem, a capacidade produtiva ficará um pouco maior e tecnicamente mais atualizada e a economia nacional ganhará alguma eficiência. Apesar desse esforço, o País ainda ficará muito atrás das economias dinâmicas da Ásia, onde o investimento geralmente supera com folga a marca de 30% do PIB e se aproxima, nos casos mais notáveis, de 40%. Além disso, taxas entre 25% e 30% vêm-se tornando comuns na América Latina, graças a uma boa combinação de poupança interna e captação de recursos externos. No ano passado a política de investimentos fracassou, mais uma vez, apesar do alarde sobre o avanço dos programas oficiais e da liberação de recursos do Tesouro para os bancos controlados pela União. No terceiro trimestre, o total investido ficou em 18,7% do PIB, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mesmo com alguma pequena melhora nos três meses finais, dificilmente o cenário terá ficado muito diferente.
O valor investido entre 2013 e 2016 será 28,9% maior que o aplicado entre 2008 e 2011, segundo projeção do BNDES. Os números de 2012 ficaram fora da comparação. A maior parcela dos novos investimentos (R$ 1,03 trilhão) será destinada à indústria, de acordo com as projeções, e ficará 22% acima da contabilizada entre 2008 e 2011. O segundo maior valor (R$ 489 bilhões) será aplicado na infraestrutura, mas a expansão, de 36,2%, será bem mais acentuada. O total previsto para serviços (R$ 217 bilhões) também terá um aumento considerável de 36,7%.
Ao estabelecer suas estimativas, os técnicos do banco levaram em conta as consultas dirigidas à instituição e as novas aprovações de projetos. Os cálculos podem parecer, portanto, bem fundamentados, mas com certeza incluem uma dose razoável de otimismo quanto à eficiência do setor público e à disposição dos empresários privados.
A ação do governo é duplamente importante para a evolução dos investimentos. Primeiro, porque o próprio setor público é responsável por uma grande parcela da formação de capital fixo, por meio de projetos de infraestrutura realizados diretamente ou em parceria com o setor privado. E a ineficiência do governo tanto na realização de investimentos quanto na mobilização de recursos privados é notória. Segundo, porque a ação governamental dificulta a ação das empresas, com excesso de burocracia, tributação mal orientada e sinais pouco claros a respeito dos rumos de sua política.
Mesmo os incentivos são em geral medidas de efeito limitado, por serem mal dirigidos e pouco articulados com ações amplas de política econômica. Estímulos temporários e parciais ao consumo são um exemplo de ineficiência: favorecem as vendas durante algum tempo, mas são insuficientes para gerar confiança na evolução dos negócios a médio prazo. O sistema tributário continua ruim, mesmo com algumas desonerações parciais, e é um dos vários fatores determinantes da baixa produtividade geral da economia.
Pequenos aumentos na taxa de investimento, isto é, na relação entre o valor investido e o PIB, serão celebrados pelo governo a cada ano como vitórias, mas pouco afetarão a capacidade de crescimento do País.
Os técnicos do governo fariam bem se refletissem um pouco mais sobre os dados do próprio BNDES. No ano passado, o banco desembolsou R$ 156 bilhões. Descontada a inflação, esse valor foi 5,4% maior que o de 2011, um resultado aparentemente positivo. Mas, pelo mesmo critério, o dinheiro desembolsado em 2012 foi menor que os totais liberados em 2009 (R$ 164 bilhões) e 2010 (R$ 190 bilhões).
Em todos esses anos o Tesouro transferiu grandes somas ao BNDES para financiar projetos empresariais, mas o resultado global foi um fiasco indisfarçável. Será muito fácil, e errado, atribuir o problema à crise externa. Um pouco de autocrítica, para variar, será muito saudável.
O valor investido entre 2013 e 2016 será 28,9% maior que o aplicado entre 2008 e 2011, segundo projeção do BNDES. Os números de 2012 ficaram fora da comparação. A maior parcela dos novos investimentos (R$ 1,03 trilhão) será destinada à indústria, de acordo com as projeções, e ficará 22% acima da contabilizada entre 2008 e 2011. O segundo maior valor (R$ 489 bilhões) será aplicado na infraestrutura, mas a expansão, de 36,2%, será bem mais acentuada. O total previsto para serviços (R$ 217 bilhões) também terá um aumento considerável de 36,7%.
Ao estabelecer suas estimativas, os técnicos do banco levaram em conta as consultas dirigidas à instituição e as novas aprovações de projetos. Os cálculos podem parecer, portanto, bem fundamentados, mas com certeza incluem uma dose razoável de otimismo quanto à eficiência do setor público e à disposição dos empresários privados.
A ação do governo é duplamente importante para a evolução dos investimentos. Primeiro, porque o próprio setor público é responsável por uma grande parcela da formação de capital fixo, por meio de projetos de infraestrutura realizados diretamente ou em parceria com o setor privado. E a ineficiência do governo tanto na realização de investimentos quanto na mobilização de recursos privados é notória. Segundo, porque a ação governamental dificulta a ação das empresas, com excesso de burocracia, tributação mal orientada e sinais pouco claros a respeito dos rumos de sua política.
Mesmo os incentivos são em geral medidas de efeito limitado, por serem mal dirigidos e pouco articulados com ações amplas de política econômica. Estímulos temporários e parciais ao consumo são um exemplo de ineficiência: favorecem as vendas durante algum tempo, mas são insuficientes para gerar confiança na evolução dos negócios a médio prazo. O sistema tributário continua ruim, mesmo com algumas desonerações parciais, e é um dos vários fatores determinantes da baixa produtividade geral da economia.
Pequenos aumentos na taxa de investimento, isto é, na relação entre o valor investido e o PIB, serão celebrados pelo governo a cada ano como vitórias, mas pouco afetarão a capacidade de crescimento do País.
Os técnicos do governo fariam bem se refletissem um pouco mais sobre os dados do próprio BNDES. No ano passado, o banco desembolsou R$ 156 bilhões. Descontada a inflação, esse valor foi 5,4% maior que o de 2011, um resultado aparentemente positivo. Mas, pelo mesmo critério, o dinheiro desembolsado em 2012 foi menor que os totais liberados em 2009 (R$ 164 bilhões) e 2010 (R$ 190 bilhões).
Em todos esses anos o Tesouro transferiu grandes somas ao BNDES para financiar projetos empresariais, mas o resultado global foi um fiasco indisfarçável. Será muito fácil, e errado, atribuir o problema à crise externa. Um pouco de autocrítica, para variar, será muito saudável.
Venezuela de joelhos - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 19/02
O retorno do presidente Hugo Chávez a Caracas, vindo de Cuba, desencadeou as habituais manifestações de júbilo na parcela de venezuelanos que o elege há 14 anos. Centenas afluíram ao centro da capital para comemorar o que interpretaram como sinal de derrota de um câncer contra o qual o mandatário luta há 20 meses.
Não há, contudo, indicações claras de que sua saúde de fato tenha melhorado. Menos ainda de que venha a recuperar-se o bastante para tomar posse normalmente.
A volta se deu cercada do sigilo característico. Aconteceu no meio da madrugada, direto para um quarto de hospital militar. As únicas imagens veiculadas em quase dois meses de internação foram as fotografias distribuídas na sexta-feira com o evidente propósito de provar que estava vivo.
O regresso se tornou conhecido por bilhetes eletrônicos que podem ter sido escritos pelo próprio presidente ou por qualquer pessoa do círculo de familiares e auxiliares -entre eles o vice-presidente nomeado, Nicolás Maduro- que controla o racionamento de informações a que o público foi submetido.
"Chegamos de novo à pátria venezuelana. Obrigado meu Deus!! Obrigado povo amado!!" -saudou o caudilho pelo perfil @chavezcandanga. "Continuo ligado a Cristo e confiante em meus médicos e enfermeiras. Até a vitória sempre!!"
Chávez estaria impedido de falar, por força de uma traqueostomia, mas, alegadamente, participa de todas as decisões de governo. A confecção meticulosa dessa imagem heroica, com tintas do mais puro misticismo latino-americano, serve para ganhar tempo, acomodar facções e permitir uma transição menos tumultuada para um chavismo sem Chávez.
O fato de o país ser governado há meses por um vice não eleito, indicado por presidente que nem chegara a assumir o cargo, tem amparo do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que chancelou o arranjo.
Com essa autoridade precária Maduro começou a tomar decisões tornadas inadiáveis pela fragilidade da economia de um só produto (petróleo), como a recente desvalorização da moeda em mais de 30%.
Para evitar que a anomalia se estenda pelos 180 dias previstos na Constituição até declarar-se o impedimento definitivo do presidente, o que exigiria novas e imprevisíveis eleições, o TSJ pode agora dar posse a um Chávez acamado.
Por ora, interessa a Maduro manter a Venezuela de joelhos -"rodilla en tierra", dizem os chavistas mais fiéis. Ou seja, na posição reverente de quem reza pela volta milagrosa do mártir e comandante.
O retorno do presidente Hugo Chávez a Caracas, vindo de Cuba, desencadeou as habituais manifestações de júbilo na parcela de venezuelanos que o elege há 14 anos. Centenas afluíram ao centro da capital para comemorar o que interpretaram como sinal de derrota de um câncer contra o qual o mandatário luta há 20 meses.
Não há, contudo, indicações claras de que sua saúde de fato tenha melhorado. Menos ainda de que venha a recuperar-se o bastante para tomar posse normalmente.
A volta se deu cercada do sigilo característico. Aconteceu no meio da madrugada, direto para um quarto de hospital militar. As únicas imagens veiculadas em quase dois meses de internação foram as fotografias distribuídas na sexta-feira com o evidente propósito de provar que estava vivo.
O regresso se tornou conhecido por bilhetes eletrônicos que podem ter sido escritos pelo próprio presidente ou por qualquer pessoa do círculo de familiares e auxiliares -entre eles o vice-presidente nomeado, Nicolás Maduro- que controla o racionamento de informações a que o público foi submetido.
"Chegamos de novo à pátria venezuelana. Obrigado meu Deus!! Obrigado povo amado!!" -saudou o caudilho pelo perfil @chavezcandanga. "Continuo ligado a Cristo e confiante em meus médicos e enfermeiras. Até a vitória sempre!!"
Chávez estaria impedido de falar, por força de uma traqueostomia, mas, alegadamente, participa de todas as decisões de governo. A confecção meticulosa dessa imagem heroica, com tintas do mais puro misticismo latino-americano, serve para ganhar tempo, acomodar facções e permitir uma transição menos tumultuada para um chavismo sem Chávez.
O fato de o país ser governado há meses por um vice não eleito, indicado por presidente que nem chegara a assumir o cargo, tem amparo do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ), que chancelou o arranjo.
Com essa autoridade precária Maduro começou a tomar decisões tornadas inadiáveis pela fragilidade da economia de um só produto (petróleo), como a recente desvalorização da moeda em mais de 30%.
Para evitar que a anomalia se estenda pelos 180 dias previstos na Constituição até declarar-se o impedimento definitivo do presidente, o que exigiria novas e imprevisíveis eleições, o TSJ pode agora dar posse a um Chávez acamado.
Por ora, interessa a Maduro manter a Venezuela de joelhos -"rodilla en tierra", dizem os chavistas mais fiéis. Ou seja, na posição reverente de quem reza pela volta milagrosa do mártir e comandante.
Ambiguidades na rede armada por Marina Silva - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 19/02
Embora seja uma temeridade considerar como garantidos votos conseguidos numa eleição, Marina Silva saiu da urnas de 2010 com um “patrimônio” de 20 milhões de eleitores e acaba de lançar as bases de um partido — com um ar de movimento ou organização social — com base neste ativo político.
Indiscutível que, mantenha ou não este cacife eleitoral, a ex-petista, senadora pelo Acre, candidata dissidente ma non troppo à Presidência da República em 2010, ganhou estatura político-eleitoral. E nesta condição criou, no fim de semana, a 31ª legenda do país, o Rede Sustentabilidade, ou simplesmente REDE, nome que transpira modernidade. Se o partido de Marina ajudará mesmo na tão necessária modernização da política brasileira, isto já não é tão certo.
Conhecida em todo o mundo como militante ambientalista, senadora pelo PT, partido que trocou pelo PV, Marina, entre outros riscos, corre o de ser acusada de repetir velho cacoete da política tradicional, que deseja, com toda razão, reformar: usar a legenda como trampolim pessoal. Pois é sugestivo que uma das regras inusitadas do REDE seja limitar as adesões a políticos que tenham no máximo 16 anos de mandatos — não por acaso, a soma dos dois mandatos de Marina no Senado.
O método de criação do partido parece novo, mas, na essência, a legenda padece de ambiguidades da velha e surrada política, as quais a própria Marina Silva carrega em sua vida pública.
Por mais que se esforce, a ambientalista ainda não conseguiu cortar os laços com o PT. No segundo turno, em 2010, preferiu liberar seus eleitores, na prática um sinal verde — sem trocadilho — para que votassem em Dilma Rousseff, embora tenha sido a então ministra das Casa Civil causa relevante de sua saída do ministério, no segundo governo Lula.
Fazer política pela sua negação nunca foi exercício fácil. Mesmo na ditadura militar, políticos que se disfarçavam de tecnocratas nunca enganaram os mais atentos. Neste sentido, o REDE chama a atenção ao fechar a porta a pessoas jurídicas financiadoras de campanhas que atuem nos ramos do fumo e bebidas, agrotóxicos e armas, mas mantendo-a aberta a empreiteiras e bancos. Faz pensar.
Outro escorregão oportunista, e revelador, é justificar a aceitação de fichas-sujas no partido com o argumento de que há companheiros de movimentos sociais condenados “injustamente”. Ora, não se pode apoiar a limpeza ética na vida pública em função de conveniências ideológicas, postura típica dos defensores dos mensaleiros condenados irrevogavelmente pelo Supremo.
A política brasileira não precisa partidos salvacionistas, mas de políticos que lutem em suas legendas, no Congresso e junto ao eleitorado, por mudanças na legislação. Todas elas já conhecidas, para acabar com partidos nanicos de aluguel, a coligação em eleições proporcionais etc. Marina Silva e seu grupo poderiam ter ficado para lutar por esta causa no próprio PV.
Embora seja uma temeridade considerar como garantidos votos conseguidos numa eleição, Marina Silva saiu da urnas de 2010 com um “patrimônio” de 20 milhões de eleitores e acaba de lançar as bases de um partido — com um ar de movimento ou organização social — com base neste ativo político.
Indiscutível que, mantenha ou não este cacife eleitoral, a ex-petista, senadora pelo Acre, candidata dissidente ma non troppo à Presidência da República em 2010, ganhou estatura político-eleitoral. E nesta condição criou, no fim de semana, a 31ª legenda do país, o Rede Sustentabilidade, ou simplesmente REDE, nome que transpira modernidade. Se o partido de Marina ajudará mesmo na tão necessária modernização da política brasileira, isto já não é tão certo.
Conhecida em todo o mundo como militante ambientalista, senadora pelo PT, partido que trocou pelo PV, Marina, entre outros riscos, corre o de ser acusada de repetir velho cacoete da política tradicional, que deseja, com toda razão, reformar: usar a legenda como trampolim pessoal. Pois é sugestivo que uma das regras inusitadas do REDE seja limitar as adesões a políticos que tenham no máximo 16 anos de mandatos — não por acaso, a soma dos dois mandatos de Marina no Senado.
O método de criação do partido parece novo, mas, na essência, a legenda padece de ambiguidades da velha e surrada política, as quais a própria Marina Silva carrega em sua vida pública.
Por mais que se esforce, a ambientalista ainda não conseguiu cortar os laços com o PT. No segundo turno, em 2010, preferiu liberar seus eleitores, na prática um sinal verde — sem trocadilho — para que votassem em Dilma Rousseff, embora tenha sido a então ministra das Casa Civil causa relevante de sua saída do ministério, no segundo governo Lula.
Fazer política pela sua negação nunca foi exercício fácil. Mesmo na ditadura militar, políticos que se disfarçavam de tecnocratas nunca enganaram os mais atentos. Neste sentido, o REDE chama a atenção ao fechar a porta a pessoas jurídicas financiadoras de campanhas que atuem nos ramos do fumo e bebidas, agrotóxicos e armas, mas mantendo-a aberta a empreiteiras e bancos. Faz pensar.
Outro escorregão oportunista, e revelador, é justificar a aceitação de fichas-sujas no partido com o argumento de que há companheiros de movimentos sociais condenados “injustamente”. Ora, não se pode apoiar a limpeza ética na vida pública em função de conveniências ideológicas, postura típica dos defensores dos mensaleiros condenados irrevogavelmente pelo Supremo.
A política brasileira não precisa partidos salvacionistas, mas de políticos que lutem em suas legendas, no Congresso e junto ao eleitorado, por mudanças na legislação. Todas elas já conhecidas, para acabar com partidos nanicos de aluguel, a coligação em eleições proporcionais etc. Marina Silva e seu grupo poderiam ter ficado para lutar por esta causa no próprio PV.
COLUNA DE CLAUDIO HUMBERTO
“Não tinha ligação direta com Orçamento”
Ministro Luiz Fux (STF), autor da liminar que impediu a votação de vetos presidenciais
GOVERNO MANOBRA PARA NÃO VOTAR O ORÇAMENTO
O governo Dilma acionou seus líderes para impedir a votação do Orçamento, prevista para esta terça (19), até para justificar a decisão de segurar a liberação de recursos com o objetivo de fabricar superavit. A manobra é sigilosa. O problema é que os novos presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, não aceitam que o Congresso leve a fama de não votar o Orçamento porque não quer trabalhar ou mesmo para supostamente fazer barganha política.
PRETEXTO
A presidente Dilma e sua equipe econômica adoram botar a culpa na “falta de orçamento”, para pretextar a não liberação de recursos.
GOVERNO SE VIRA
Sem Orçamento, o governo se vira com duodécimo, para fazer face à despesa de custeio, e medida provisória, para investimentos inevitáveis.
LOROTA
O governo culpa a oposição para não votar o Orçamento. A oposição não desmente a lorota para parecer mais forte do que de fato o é.
IRRELEVÂNCIA
Se o governo quiser, aprova o Orçamento ou qualquer outra matéria. A oposição é hoje a mais irrelevante das últimas décadas, no Congresso.
ITAMARATY DÁ CANO EM FUNCIONÁRIOS DA PRESIDÊNCIA
Responsável pelo pagamento das diárias de seguranças e assessores da Presidência da República em viagens internacionais, o Ministério das Relações Exteriores faz do calote uma regra. Dormem na gaveta dos restos a pagar, por exemplo, as despesas de quem acompanhou o vice-presidente Michel Temer em visitas oficiais a Londres, Suécia, Lisboa e Lima. Quem acompanha Dilma também se dá mal nas contas.
MAU PAGADOR
Entre dezembro de 2007 e abril de 2008, a dívida do Itamaraty junto a tripulantes do AirForce 51 chegou aos US$ 295 mil (R$ 580 mil, hoje).
ÁGUA DE CACHOEIRA
Devem ser especiais os 20 bebedouros que a estatal de águas Cedae, do Rio, comprou de empresa de Goiás por R$ 13,2 mil, sem licitação.
ALVOROÇO RURALISTA
Hoje, os 40 parlamentares do núcleo duro da Frente Agropecuária discutem estratégias para derrubar os vetos ao Código Florestal.
CONEXÃO JERICO
“Jenial” o protesto de meia dúzia de esquerdopatas contra a blogueira cubana Yaoni Sánchez em Salvador (BA) e Recife (PE). Foi notícia internacional da “democracia” brasileira. Ninguém protestou em Cuba.
TRADUÇÃO
Ancorada em 20 milhões de votos, Marina Silva quer multiplicar eleitores com um partido de nome esdrúxulo: Rede Sustentabilidade. O jornal Le Monde foi menos pedante: chamou de “Rede Durável”.
ONG PARTIDÁRIA
Rede Sustentabilidade tem nome de ONG para fingir que não é partido, mas é o 85º em formação, neste momento, no Brasil. O Congresso vai mesmo tornar mais rígidos os critérios para criação de novos partidos.
INDEPENDÊNCIA
O senador Cristovam Buarque (DF) discorda da decisão do PDT de indicar novo nome ao Ministério do Trabalho, em lugar de Brizola Neto. A indicação lhe custará retirada da candidatura à Presidência em 2014.
APAGÃO EM PAUTA
Coordenador da bancada do DF, Luiz Pitiman (PMDB) discutirá nesta terça, com os colegas, o relatório de um acionista minoritário da estatal de energia CEB, de Brasília, François Moreau, mostrando por que é uma das piores do país: está em 27º lugar dentre 33 congêneres.
TUDO PRONTO
Começam em breve no interior de São Paulo as filmagens do primeiro longa sobre Jânio Quadros, que deve ser vivido pelo ator Reynaldo Gianecchini. Produzido pela Biruta Filmes, custará R$ 8 milhões.
ROLETA RUSSA
Seguranças do governo do DF poderiam ter provocado uma tragédia, sábado, conduzindo o governador em altíssima velocidade pelas ruas do Gama, para uma inauguração. Até auxiliares diretos de Agnelo Queiroz (PT) se arriscam em manobras perigosas e “cavalos de pau”.
FIGURANTE
Com camisa e boné vermelhos bolivarianos, funcionária do Hospital Militar de Caracas viu de novo ontem o maluquete Hugo Chávez “caminhando”. O milagre da medicina não mereceu sequer uma foto.
PERGUNTA NO AEROPORTO
Cadê o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) cantando Guantanamera para Yoani Sánchez?
PODER SEM PUDOR
MÃOS QUE CORTAM
Ulysses Guimarães discursava num comício "Diretas Já", em Manaus, quando jogaram uma corrente nos fios de alta tensão, provocando blecaute. Depois, outro gaiato (ou araponga) cortou o fio do microfone. O "Senhor Diretas" desistiu:
- Vou dar a vocês o que vocês querem: a voz do governador Mestrinho.
- Amazonenses! O canalha que cortou o fio que se cuide, pois a mesma coisa poderá acontecer com as suas mãos! - atacou Mestrinho.
Papo furado: o saudoso governador foi acusado de fazer a mesma coisa num comício de Jânio Quadros, nos anos 1960, e nem por isso perdeu as mãos.
Ministro Luiz Fux (STF), autor da liminar que impediu a votação de vetos presidenciais
GOVERNO MANOBRA PARA NÃO VOTAR O ORÇAMENTO
O governo Dilma acionou seus líderes para impedir a votação do Orçamento, prevista para esta terça (19), até para justificar a decisão de segurar a liberação de recursos com o objetivo de fabricar superavit. A manobra é sigilosa. O problema é que os novos presidentes da Câmara, Henrique Alves, e do Senado, Renan Calheiros, não aceitam que o Congresso leve a fama de não votar o Orçamento porque não quer trabalhar ou mesmo para supostamente fazer barganha política.
PRETEXTO
A presidente Dilma e sua equipe econômica adoram botar a culpa na “falta de orçamento”, para pretextar a não liberação de recursos.
GOVERNO SE VIRA
Sem Orçamento, o governo se vira com duodécimo, para fazer face à despesa de custeio, e medida provisória, para investimentos inevitáveis.
LOROTA
O governo culpa a oposição para não votar o Orçamento. A oposição não desmente a lorota para parecer mais forte do que de fato o é.
IRRELEVÂNCIA
Se o governo quiser, aprova o Orçamento ou qualquer outra matéria. A oposição é hoje a mais irrelevante das últimas décadas, no Congresso.
ITAMARATY DÁ CANO EM FUNCIONÁRIOS DA PRESIDÊNCIA
Responsável pelo pagamento das diárias de seguranças e assessores da Presidência da República em viagens internacionais, o Ministério das Relações Exteriores faz do calote uma regra. Dormem na gaveta dos restos a pagar, por exemplo, as despesas de quem acompanhou o vice-presidente Michel Temer em visitas oficiais a Londres, Suécia, Lisboa e Lima. Quem acompanha Dilma também se dá mal nas contas.
MAU PAGADOR
Entre dezembro de 2007 e abril de 2008, a dívida do Itamaraty junto a tripulantes do AirForce 51 chegou aos US$ 295 mil (R$ 580 mil, hoje).
ÁGUA DE CACHOEIRA
Devem ser especiais os 20 bebedouros que a estatal de águas Cedae, do Rio, comprou de empresa de Goiás por R$ 13,2 mil, sem licitação.
ALVOROÇO RURALISTA
Hoje, os 40 parlamentares do núcleo duro da Frente Agropecuária discutem estratégias para derrubar os vetos ao Código Florestal.
CONEXÃO JERICO
“Jenial” o protesto de meia dúzia de esquerdopatas contra a blogueira cubana Yaoni Sánchez em Salvador (BA) e Recife (PE). Foi notícia internacional da “democracia” brasileira. Ninguém protestou em Cuba.
TRADUÇÃO
Ancorada em 20 milhões de votos, Marina Silva quer multiplicar eleitores com um partido de nome esdrúxulo: Rede Sustentabilidade. O jornal Le Monde foi menos pedante: chamou de “Rede Durável”.
ONG PARTIDÁRIA
Rede Sustentabilidade tem nome de ONG para fingir que não é partido, mas é o 85º em formação, neste momento, no Brasil. O Congresso vai mesmo tornar mais rígidos os critérios para criação de novos partidos.
INDEPENDÊNCIA
O senador Cristovam Buarque (DF) discorda da decisão do PDT de indicar novo nome ao Ministério do Trabalho, em lugar de Brizola Neto. A indicação lhe custará retirada da candidatura à Presidência em 2014.
APAGÃO EM PAUTA
Coordenador da bancada do DF, Luiz Pitiman (PMDB) discutirá nesta terça, com os colegas, o relatório de um acionista minoritário da estatal de energia CEB, de Brasília, François Moreau, mostrando por que é uma das piores do país: está em 27º lugar dentre 33 congêneres.
TUDO PRONTO
Começam em breve no interior de São Paulo as filmagens do primeiro longa sobre Jânio Quadros, que deve ser vivido pelo ator Reynaldo Gianecchini. Produzido pela Biruta Filmes, custará R$ 8 milhões.
ROLETA RUSSA
Seguranças do governo do DF poderiam ter provocado uma tragédia, sábado, conduzindo o governador em altíssima velocidade pelas ruas do Gama, para uma inauguração. Até auxiliares diretos de Agnelo Queiroz (PT) se arriscam em manobras perigosas e “cavalos de pau”.
FIGURANTE
Com camisa e boné vermelhos bolivarianos, funcionária do Hospital Militar de Caracas viu de novo ontem o maluquete Hugo Chávez “caminhando”. O milagre da medicina não mereceu sequer uma foto.
PERGUNTA NO AEROPORTO
Cadê o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) cantando Guantanamera para Yoani Sánchez?
PODER SEM PUDOR
MÃOS QUE CORTAM
Ulysses Guimarães discursava num comício "Diretas Já", em Manaus, quando jogaram uma corrente nos fios de alta tensão, provocando blecaute. Depois, outro gaiato (ou araponga) cortou o fio do microfone. O "Senhor Diretas" desistiu:
- Vou dar a vocês o que vocês querem: a voz do governador Mestrinho.
- Amazonenses! O canalha que cortou o fio que se cuide, pois a mesma coisa poderá acontecer com as suas mãos! - atacou Mestrinho.
Papo furado: o saudoso governador foi acusado de fazer a mesma coisa num comício de Jânio Quadros, nos anos 1960, e nem por isso perdeu as mãos.
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Privatização com data marcada: Governo desafia sindicatos e avança na reforma de portos
- Folha: Haddad faz pressão para Alckmin adotar inspeção
- Estadão: Concessão de portos começa por Santos e Belém e gera protesto
- Correio: 20 mil chances para entrar no serviço público
- Valor: IR na renda fixa pode cair de 22,5% para 15%
- Estado de Minas: Dispara em BH o uso de remédios contra a hiperatividade
- Brasil Econômico: Concessões de portos em Santos e Belém podem render R$ 3 bilhões
segunda-feira, fevereiro 18, 2013
A onça e a barragem - RAFAEL CARIELLO - REVISTA PIAUÍ
REVISTA PIAUÍ
Por que o mais conhecido líder indígena do país é contra uma hidrelétrica a centenas de quilômetros de sua aldeia
O dia se anunciava chuvoso e abafado na aldeia indígena Metuktire, erguida numa clareira aberta na mata às margens de um trecho largo e calmo do rio Xingu. Antes mesmo que o sol levantasse, homens jovens e adultos começaram a sair, silenciosos, de suas casas. Um a um, iam se afastando aos poucos das grandes construções de madeira, cobertas com a palha amarelada das folhas do inajá e dispostas ao redor de um amplo pátio central, como os dentes numa arcada ou as penas de um cocar. Já era hora de caçar ou de cuidar da roça.
Sentado no chão de terra batida de sua residência, com as pernas cruzadas e a coluna ereta, Ropni Metuktire lixava desde cedo um pedaço de madeira, a fim de dar forma final a seu novo botoque - o disco do tamanho da palma da mão que enfeita e estica seu lábio inferior. Mais conhecido pela forma aportuguesada de seu nome, Raoni chegara no dia anterior à aldeia, depois de passar um mês e meio distante da mulher, com quem teve dez filhos, cinco deles ainda vivos. De sua rede, amarrada a um dos pilares de mais de 10 metros de altura que sustentam a construção, Bekuika Metuktire observava o trabalho minucioso do marido.
Por volta das 10 horas, Raoni tomou o curto caminho que vai dar no rio, mas que conduz, antes, a uma casa apartada do conjunto principal, na qual funcionam o posto médico e a estação de radioamador da comunidade. Ali, num registro anotado com capricho pelas enfermeiras brancas, em caderno pautado, consta que o mais conhecido líder indígena do país mede 1,72 metro e pesa 83 quilos. Tem a pele curtida, os olhos puxados e o cabelo comprido, de uma cor indefinida em que se misturam fios pretos, grisalhos e castanhos, alguns quase alourados pela exposição ao sol. Estima-se que tenha pouco mais de 80 anos. Suas pernas levemente arqueadas venciam a pequena inclinação do terreno com passos lentos, acompanhados de perto por um cachorro vira-lata.
A trajetória de vida desse senhor octogenário encarna, talvez mais do que qualquer outra, a história recente da interação entre povos indígenas e "brancos" no Brasil. Seu primeiro contato com os não índios se deu justamente com os irmãos Villas-Bôas, responsáveis por estabelecer relações com diversos povos do Centro-Oeste brasileiro nas décadas de 40 e 50 e que, mais tarde, fundariam o Parque Nacional do Xingu.
Foi no parque que o grupo de Raoni se abrigou quando a ditadura militar iniciou a construção de grandes estradas nas regiões Norte e Centro-Oeste, com o objetivo de "integrá-las" ao país. Dali, já nos anos 80, o líder indígena se lançou num projeto de reconquista das terras tradicionais de sua etnia. Por meio da diplomacia e da guerra, contribuiu para o reconhecimento formal de um território contínuo que se estende de Mato Grosso ao Pará por mais de 10 milhões de hectares, cerca de quatro vezes a extensão do Parque do Xingu.
Pouco mais de 8 600 parentes de Raoni vivem nesse espaço, sobretudo, e também em outras pequenas áreas indígenas do Pará. Só na aldeia Metuktire moram cerca de 400 pessoas. Há muitas outras, rio abaixo - ou seja, acompanhando o sentido das águas do Xingu, que corre para o norte -, com disposição semelhante de casas e espaços públicos. O nome pelo qual seus habitantes são mais conhecidos - caiapós - lhes foi dado por índios de língua tupi e alude à semelhança entre a etnia, que costuma se pintar com a tintura escura do jenipapo, e os macacos. A designação, embora depreciativa e estrangeira para esse povo que fala um outro idioma, distinto do tronco linguístico tupi, se consagrou. Eles próprios se chamam mebêngôkre. Ropni, em língua mebêngôkre, quer dizer onça fêmea.
Outros povos indígenas do Brasil, aos quais Raoni sempre se refere como "parentes", também contaram com o seu apoio para conseguir a demarcação de terras. Ele diz ter participado da luta por território de oito etnias diferentes desde os anos 80, entre elas os apinajés, os pataxós e os guaranis. "Consegui coisas difíceis, os fazendeiros queriam nos enfrentar", ele me disse na tarde de sua chegada à aldeia, já ocupado com o novo botoque. Orgulha-se de ter contribuído para pôr fim às guerras internas dos próprios caiapós e entre índios de diferentes grupos, concentrando seus esforços de combate e negociação no adversário que importava, o kuben, que é como os mebêngôkre se referem aos brancos.
Em 1988, Raoni participou da mobilização de várias lideranças indígenas, ongs e Igreja Católica para conseguir incluir o direito dos povos autóctones à posse de suas terras ancestrais, anterior a qualquer postulação de propriedade pelos não índios, na Constituição Federal. Soube também fazer alianças políticas com os kubende além-mar, europeus sobretudo, o que lhe trouxe recursos e prestígio. Ainda hoje, quando sua foto é estampada em um jornal brasileiro, ele em geral está fora do país ou ao lado de alguma personalidade estrangeira.
Ao chegar ao posto de saúde, naquela manhã de janeiro, Raoni tomou café e comeu bolo preparado pelas enfermeiras. Esperou um pouco até que o radioamador da aldeia Metuktire ficasse vago - desde as primeiras horas da manhã os índios faziam fila para usá-lo - e se postou à frente do aparelho. Começou uma conversa compridíssima em que quase só ele falava.
A sua voz, um pouco fina, não combina com a fisionomia de guerreiro caiapó, sua postura esticada, o corpo forte e, naquele dia, a pele pintada de jenipapo. O desencontro fica mais evidente porque algumas palavras mebêngôkre contêm vogais esticadas, como um "ííííí" bem agudo que se escuta às vezes.
Bepkameiti Metuktire, uma das lideranças da aldeia, tem cerca de 50 anos e fala bem o português. Ouvia atento a conversa, do lado de fora da casa, e a traduzia, em linhas gerais, para mim. Contou que Raoni falava, em sequência, com várias aldeias caiapós. "Está todo mundo perguntando se ele foi lá fora, se está tudo bem, se deu tudo certo. Querem saber se o pessoal de fora se dispõe a ajudar a gente." Pelo rádio, o líder mebêngôkre dava notícia da viagem de quase um mês à Europa, com escalas na França, na Suíça, na Bélgica e na Holanda, da qual afinal voltava, após passar alguns dias na cidade de Colíder, em Mato Grosso.
O périplo tivera início no dia 27 de novembro, quando Raoni, seu sobrinho Megaron e o tradutor oficial, Bemoro Metuktire, tomaram um voo noturno do Rio para Paris.
Megaron foi o primeiro diretor indígena do Parque do Xingu, nomeado em 1984. Acredita ter nascido entre 1949 e 1951. Fala português perfeitamente bem, resultado do fato de ter vivido por mais de dez anos, entre a adolescência e a juventude, no posto administrativo do parque, em companhia de Orlando Villas-Bôas e de outros jovens das várias etnias da região. Seus cabelos pretos compridos e o nariz largo lhe dão uma aparência de índio de filme norte-americano.
Embora acostumado a viajar, o sobrinho de Raoni estava receoso de cruzar o oceano naquele dia. Megaron participou da expedição de índios caiapós responsável por localizar a fuselagem do Boeing 737-800 da Gol que se chocou, em 2006, com um jato Legacy. Foi em território mebêngôkre, na Terra Indígena Capoto-Jarina, onde se encontra a aldeia Metuktire, que o avião caiu. Ele não se esquece, como explicaria mais tarde, das "imagens tristes" das vítimas, 154 ao todo, sobretudo do corpo de uma passageira ainda abraçado a uma criança de colo.
Ao embarcar, além da camiseta e da calça comprida bastante gasta, Raoni vestia cocar, colar, brincos e calçava sandálias havaianas. Megaron também levou seu cocar, mas usava sapatos. Bemoro havia se preocupado em vestir um traje parecido com o dos demais passageiros: camisa social, calça, sapatos e um pulôver sobre os ombros, amarrado diante do peito. Ele tem sido o responsável, em anos recentes, por traduzir os discursos de Raoni, que fala mal o português. À diferença dos parentes, corta os cabelos curtos. Tem 36 anos e conta no Facebook.
No dia seguinte à chegada do grupo a Paris, numa manhã especialmente fria do final de outono europeu, Raoni foi recebido no Palácio do Eliseu pelo presidente François Hollande. Não havia nada de incomum, para o líder indígena, naquele compromisso. Todos os chefes de Estado franceses, desde François Mitterrand, no final dos anos 80, mantiveram encontros com Raoni.
Jacques Chirac, que sucedeu Mitterrand no poder e tem idade próxima à do brasileiro, se tornou, de certa forma, um amigo. O político conservador escreveu o prefácio de uma biografia do líder mebêngôkre publicada na França em 2010. Nela, se refere ao velho guerreiro caiapó como "o último grande chefe indígena" e se diz comovido com sua história de vida. Em dezembro, os dois voltaram a se encontrar. Na viagem anterior, em 2011, Raoni já tinha tido a impressão de que Chirac estava doente, "abatido", o que lhe causara preocupação. Dessa vez, levou ervas, remédios tradicionais, para ajudar na cura do francês.
Ao sair da reunião com Hollande, no pátio interno coberto de seixos do Eliseu, Raoni fez um breve discurso, em português, para os jornalistas que o aguardavam. "Eu vim aqui conversar com o presidente da França. Antigamente o presidente da República no Brasil também me recebia. Agora o Lula e a Dilma não me deixam mais entrar lá para conversar com eles. Vocês têm que me apoiar. A Europa, a França, todo mundo me apoia para preservar a Amazônia, a floresta, os rios. Só isso. Um abraço."
São justamente a Amazônia, a floresta e, principalmente, o rio Xingu que tornam a presidente Dilma Rousseff uma adversária, contra a qual ele já prometeu "declarar guerra". É ela a responsável por erguer a maior ameaça atual, do ponto de vista do líder indígena, à sobrevivência dos seus parentes, e até dos próprios mebêngôkre. Uma ameaça que está sendo construída mais de mil quilômetros ao norte da aldeia Metuktire: a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
É preciso percorrer 60 quilômetros pela rodovia Transamazônica, saindo da cidade de Altamira, para se chegar ao sítio da principal barragem da usina. O pequeno trecho da estrada, notória por seus atoleiros, foi recém-asfaltado pelo consórcio contratado para realizar a engenharia civil da hidrelétrica - a obra propriamente dita, o que não inclui a instalação das turbinas e da rede de transmissão.
Ao redor da cidade, distante 900 quilômetros de carro de Belém, e no caminho que conduz ao dique de Belo Monte é possível constatar o desmatamento na região, provocado pela pecuária. O que antes foi selva e mata fechada hoje parece cerrado ralo. Aqui e ali se destacam imponentes castanheiras, que podem atingir até 50 metros de altura, com troncos de 2 metros de diâmetro. Foram poupadas pelos tratores, mas estão condenadas a morrer precocemente pela degradação da floresta à qual se integravam. Não muito longe se espraia o Xingu, um curso d"água de cerca de 2 200 quilômetros de extensão que nasce em Mato Grosso e atravessa quase todo o Pará até desaguar no rio Amazonas.
A hidrelétrica de Belo Monte é composta, a rigor, de duas barragens. Na altura em que está sendo instalada, o rio muda de direção. Em vez de continuar a correr rumo ao norte, faz uma curva aguda para o sudeste e, a partir desse ponto, percorre um arco quase circular - como um lábio esticado pelo botoque - até retomar o caminho que vinha descrevendo. É a chamada Volta Grande do Xingu, que se estende por 140 quilômetros. Ali o rio tem a sua maior queda de nível, de cerca de 90 metros entre o início e o fim dessa alça natural.
Um dos diques, o de Pimental, está sendo instalado na extremidade sul do arco. Vai impedir a passagem de boa parte do volume d"água para a Volta Grande, redirecionando-a, em linha reta e ao longo de 20 quilômetros, para a outra ponta da alça, onde o rio retoma seu rumo e se constrói a barragem de Belo Monte. Ao chegar lá, quando tudo estiver pronto, o rio cairá de nível, todos os 90 metros de uma só vez, fazendo girar as turbinas que podem gerar, nos meses de cheia, 11 mil megawatts de energia.
Sozinha, Belo Monte representará o equivalente a quase 10% do total da potência elétrica, de todas as fontes, instalada até hoje no país. Quando pronta, será a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás apenas da Itaipu Binacional e de Três Gargantas, na China. O que nem de longe é suficiente, dizem os especialistas do setor, para suprir o crescimento previsto da demanda por energia elétrica no Brasil nos próximos dez anos.
Estima-se que, a cada 1% de incremento do Produto Interno Bruto, um outro ponto percentual de oferta de energia elétrica precisará ser criado, pelo menos. Essa relação varia de país para país. Em nações ricas, que produzem mais ideias do que bens, exportando serviços sofisticados ou produtos de alto valor agregado, é possível crescer sem demandar tanta energia.
No caso do Brasil, tradicionalmente foi necessário incrementar a carga elétrica numa velocidade maior do que a do aumento do pib - e foi o represamento de rios, ao longo do século xx, que mais contribuiu para acrescentar megawatts às redes de transmissão.
Cerca de 80% do fornecimento de eletricidade hoje no país dependem de hidrelétricas, fato que é celebrado pelo engenheiro e economista Mauricio Tolmasquim. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, órgão do governo responsável pelo planejamento de longo prazo do setor, faz lembrar uma castanheira: tem exatos 2 metros de altura.
Em seu escritório no último andar de um prédio moderno no Centro do Rio, em meados de janeiro, Tolmasquim repetiu o principal argumento dos defensores dessa forma de geração: as hidrelétricas produzem energia barata, renovável e pouco poluente. Apesar do uso intensivo, o país ainda tem dois terços de seu potencial inexplorados nos rios, a serem capturados pelas turbinas movidas a água. Do total não aproveitado, 60% estão na bacia amazônica, onde se encontram a maior parte das terras indígenas e a maior floresta tropical do mundo.
A epe planeja construir na Amazônia Legal, nos próximos dez anos, 22 usinas, acrescentando 36 mil megawatts de potência instalada à rede elétrica brasileira. Todos os principais afluentes do Amazonas, em sua margem direita, receberão projetos, como já acontece no rio Madeira, com as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, e no Xingu.
Sem esse acréscimo de geradoras, afirma o governo, a conta entre demanda de energia projetada para 2021 e a oferta que pode ser garantida aos consumidores não fecha. As substitutas mais óbvias seriam as termelétricas a gás, mais caras e poluentes. Na data do leilão de Belo Monte, a tarifa das térmicas por megawatt produzido era quase o dobro daquela contratada para a geradora do Xingu. A energia eólica, cujo preço se aproxima do praticado pelas geradoras em rios, é na verdade complementar, e não substituta da hidrelétrica: o regime de ventos chega ao ápice entre julho e novembro, justamente quando as bacias fluviais estão mais rasas. Elas só voltarão a encher, com o aumento das chuvas, a partir de dezembro, quando não se pode mais contar com o vento. É em geral nessa época, se os reservatórios das usinas estão baixos, que se especula sobre a necessidade de exigir mais das termelétricas, encarecendo a conta de energia. Tal ameaça pairou, no início deste ano, sobre o corte na conta de luz anunciado pela presidente Dilma.
Ex-presidente da Eletrobras e ex-professor de Tolmasquim, Luiz Pinguelli Rosa é diretor da principal instituição de ensino e pesquisa em engenharia no país, a Coppe, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pinguelli é favorável à exploração da "fronteira hidrelétrica" do país na região amazônica, embora se mostre cético quanto à possibilidade de o governo realizar todos os projetos anunciados. De maneira pragmática, ele admite que "não há energia santa". Junto com a usina, ele diz, vêm inevitavelmente alagamento, atração de dezenas de milhares de trabalhadores para as obras, estradas que cortam a floresta.
Ciente desses impactos, Tolmasquim diz que o governo pretende construir "usinas plataformas" no rio Tapajós, no sudoeste do Pará, numa região ainda intocada por rodovias ou presença humana mais densa. "A ideia é fazer uma usina que, durante a construção, use estruturas temporárias e não crie cidades. Se fizer a estrada, que depois possa desfazer. Faz o acesso, mas depois refloresta." O problema, ele reconhece, é que isso nunca foi feito. "Não se sabe se dá ou não", admite Tolmasquim. "Se dá para ficar com a usina sem acesso, estamos debatendo ainda. O conceito está sendo desenvolvido. A ideia ainda está em gestação."
O leilão da primeira grande geradora no rio Tapajós, de toda forma, já está previsto para o início do ano que vem. Enquanto o governo aprimora o projeto das "usinas plataformas", não é possível saber, com rigor, o tamanho do impacto ambiental que o conjunto de obras na Amazônia causará.
Críticos da instalação de hidrelétricas na região Norte, como Celio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da usp, também questionam a necessidade de geração projetada pelo governo para a próxima década. De toda a eletricidade consumida no país, quase um quinto vai para os chamados grandes consumidores, eletrointensivos, como as cadeias de produção do alumínio, os fabricantes de aço bruto, ferroliga, cimento, papel e celulose. Isso equivale a pouco mais de 40% da demanda industrial total por esse tipo de energia. "São setores de baixo valor agregado; nós apenas atendemos o mercado global com bens que os outros países não querem mais produzir", diz Bermann.
"Não tenho dúvida de que a gente tem de caminhar para um padrão de desenvolvimento mais intensivo em tecnologia, com maior valor agregado e menos conteúdo em energia", responde Tolmasquim. "Mas não é bem assim. Não basta querer. É um processo que toma tempo. Se a gente falar "vou esquecer", "vou planejar o setor elétrico para não dar energia para aço, cimento, papel", vai desempregar o país inteiro, vai ter uma crise monumental. Não constrói usina para eles! Não dá energia! E aí? Fechamos as fábricas todas?"
Num dia nublado do final de dezembro, em uma aldeia encravada na mata e distante duas horas de carro de Altamira, Ozimar Juruna suava em bicas enquanto remexia a farinha de mandioca, com a ajuda de uma espécie de rodo, num panelão raso de 2 metros de diâmetro. Ele tem 43 anos e passou a vida inteira ali, às margens da Volta Grande do Xingu, num pedaço do estado do Pará reconhecido como a Terra Indígena Paquiçamba.
Seus parentes jurunas e também os araras, na outra margem do mesmo trecho de rio, já sentem os efeitos das obras de Belo Monte. Como parte das exigências socioambientais feitas à Norte Energia, empresa vencedora do leilão da hidrelétrica, 34 aldeias em doze terras indígenas próximas ao empreendimento foram beneficiadas com algum tipo de compensação, como melhoria de estradas, perfuração de poços artesianos e a construção de novas casas de farinha. Durante dois anos, entre 2010 e setembro de 2012, as aldeias também receberam, cada uma, ajuda financeira de 30 mil reais mensais.
Quando a usina estiver em funcionamento, a vazão média de água na Volta Grande cairá bastante, sobretudo nos períodos de cheia do rio. O principal impacto, acreditam os índios, será a redução na oferta de peixes, parte essencial de sua alimentação - e de sua independência em relação à cidade. Embora as primeiras turbinas só devam começar a girar em 2015, e a conclusão do empreendimento esteja prevista para 2019, o pescado já começa a faltar, eles dizem.
"A água aqui está mais suja, mais vermelha", afirmou Ozimar, ao fazer uma pausa no trabalho e se afastar do fogo que esquentava a casa de farinha. Ele disse temer também outros efeitos das obras. "A usina está perto e vai atrair muita gente. O emprego por lá não é para sempre. Quem vier e ficar por aqui vai querer tirar madeira, caçar. Vai tudo ficando em menor quantidade. A terra mesmo, podem querer ocupar. Aí vai haver conflito."
Numa outra aldeia juruna, uns quinze minutos de carro rio acima, Leiliane Jacinto Pereira Juruna, de 25 anos, cuidava dos filhos na porta de casa. Ela também reclama que a água barrenta tem prejudicado a pesca - tanto para a alimentação cotidiana quanto para a captura de pequenos peixes ornamentais, que vendem na cidade.
"O que atrapalha também é o barulho e a claridade", comentou, enquanto afagava a filha, chorosa. Leiliane se referia aos holofotes, utilizados para que os trabalhos na usina não parem à noite, e às explosões para a escavação da rocha, que aos poucos vai ganhando o formato da gigantesca barragem. "O costume da gente é caçar quando a noite está bem escura. Agora não existe o escuro mais. A caça também se afastou. Caititu, paca, veado. O porco está sumindo. Acho que estão procurando distância da claridade, da zoada."
A escassez de caça e de pesca, argumentou Leiliane, tem forçado os indígenas da região a irem com mais frequência à cidade. "Antes a gente ia pouco ao mercado. Agora estamos comprando tudo, até carne e peixe", ela disse. Ocorre que, ao mesmo tempo, a capacidade da aldeia para gerar recursos, com a dificuldade de capturar os peixes de aquário, também diminuiu. "Está acabando a renda. E em Altamira está tudo mais caro."
Aos poucos, algumas dezenas de famílias perdem autonomia e correm o risco de se inserirem da pior forma possível na economia da cidade.
Em contraste, boa parte de Altamira, que já é pobre, saúda a chegada da usina como uma oportunidade de melhoria de vida. Nos galpões bem cuidados do Centro de Capacitação do Consórcio Construtor de Belo Monte, 5 300 pessoas, quase sempre jovens, foram treinadas desde 2011 para trabalhar na obra. O objetivo, diz a empresa, é formar 15 mil pessoas - numa cidade que, em 2010, tinha 100 mil habitantes. Os salários, nos melhores casos, não passam de 1 300 reais por mês.
Impactos semelhantes aos que preocupam Ozimar e Leiliane são relatados no rio Madeira, no estado de Rondônia, onde estão sendo construídas as usinas de Jirau e Santo Antônio.
O historiador Iremar Ferreira, integrante do Instituto Madeira Vivo, afirma que "o principal problema com o início da construção foi a morte de peixes, sentida pelas populações indígenas". No Madeira, como em Belo Monte, as empreiteiras construíram escadas nas barragens para tentar facilitar a subida dos peixes, que nadam rio acima na época da reprodução - o fenômeno conhecido como piracema. Ferreira trata como "uma piada" a ideia de que os cardumes continuarão a subir o rio da mesma maneira que faziam quando não havia hidrelétricas. "Na cachoeira normal há poços de repouso. Agora, quando o peixe cansa, ele é lançado de volta para trás."
Algumas centenas de quilômetros a leste do Madeira, duas usinas já estão sendo construídas no rio Teles Pires, em Mato Grosso, um dos principais afluentes do Tapajós. "O impacto aqui é na água", afirma a advogada Juliana de Paula Batista, que presta assessoria aos índios caiabis. "Eles reclamam muito que já diminuiu a quantidade de peixe e que a água do rio está suja. Estamos falando de populações que estão na beira do rio, não num apartamento em Ipanema. Eles pescam ali, caçam ali."
Apesar da existência de diversos movimentos contrários à instalação de usinas, não existe estimativa precisa do número total de índios que serão afetados pelo conjunto das hidrelétricas na Amazônia. O antropólogo da Universidade de Brasília Ricardo Verdum publicou no ano passado um levantamento de terras indígenas próximas a diversos empreendimentos na região, sujeitas aos impactos. Considerando apenas as áreas no entorno das hidrelétricas planejadas para os rios Madeira, Teles Pires, Tapajós e Xingu, e cruzando essa listagem com a população desses territórios segundo o Instituto Socioambiental, a mais respeitada organização de monitoramento da situação indígena no país, chega-se a cerca de 20 mil índios que podem vir a ser afetados, de uma maneira ou de outra, pelo avanço da fronteira hidrelétrica brasileira.
Em seu escritório com vista para o rio, dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, se disse alarmado com os planos de construção de usinas na Amazônia.
O clérigo, que se define como um brasileiro nascido na Áustria, vive ameaçado de morte numa casa em Altamira guardada por modernas câmeras de segurança. Não dá um passo na rua sem a companhia dos quatro policiais militares que fazem a sua proteção. Era amigo da freira Dorothy Stang, assassinada em 2005 com seis tiros. Trabalhavam juntos no combate à ocupação irregular da terra e à ação de madeireiros na região.
Para dom Erwin, o impacto das obras e a redução da autonomia de muitos povos podem ter "consequências fatais" para os indígenas. "O sujeito não deixa de ser índio, mas acaba desaldeado e não tem mais aquele relacionamento umbilical com a sua comunidade. Se ele termina aqui, perambulando pela cidade, está como um peixe fora d"água. Ele não se adapta. E às vezes entra nos vícios do branco. Todo mundo o trata com desdém, ele não tem profissão, o que vai fazer?"
"O que a gente vê é um rastro de destruição muito grande", afirma o procurador da República Felício Pontes Júnior, que atua no Pará e tem movido ações contra Belo Monte. "Aonde se chega com isso? O exemplo no final da linha são os guaranis-caiovás", ele disse, em referência ao grupo do Mato Grosso do Sul que vive confinado em parcelas diminutas de terra ou em acampamentos precários às margens das rodovias. "As pessoas ficam completamente sem norte, e muitas se suicidam. Você tem uma perda cultural extrema e isso naturalmente vai levar a uma desestruturação social daqueles povos."
A ameaça representada por grandes projetos na Amazônia não é novidade para os índios da região, para os caiapós e para Raoni. A violência que ainda ameaça dom Erwin ganhou intensidade em Mato Grosso e no Pará a partir dos anos 60, na esteira de projetos estatais.
A ocupação da terra por grandes propriedades agrícolas, incentivada pelo governo militar, provocou conflitos generalizados nos anos 70 e inúmeros massacres contra os povos indígenas, afirma Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor de geografia agrária da usp. "Cada situação teve um quadro diferente. Por exemplo, um grande pecuarista que era aqui de São Paulo, quando os índios se aproximaram, lá na região do vale do rio Arinos, em Mato Grosso, passou a doar açúcar. Ele dava açúcar envenenado com arsênico para os índios. Muitos xavantes foram retirados de seus territórios com a ajuda da fab. Quando se abria a rodovia Cuiabá-Santarém e houve o contato com os chamados índios gigantes, os panarás, só pela proximidade com os trabalhadores eles foram morrendo. Eles não tinham resistência às doenças da nossa sociedade."
Na estrada que matou muitos panarás se localizam, hoje, importantes centros produtores de soja, como Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, algumas das cidades que mais crescem no país e que puxam o medíocre avanço do pib brasileiro. No ano passado, enquanto o conjunto da produção aumentou cerca de 1% no Brasil, o Centro-Oeste cresceu mais de 3%.
No norte de Mato Grosso, os militares começaram, em 1971, a abrir a BR-080, uma rodovia quase tão ambiciosa quanto a Cuiabá-Santarém, hoje em grande parte reduzida a uma estrada de terra estadual, a MT-322, que cruza de forma transversal o estado. O Parque Nacional do Xingu, criado em 1961, foi cortado pelo empreendimento em sua porção norte, onde já viviam os caiapós.
A demarcação do hoje denominado Parque Indígena do Xingu representou uma virada na política indigenista do país, segundo o antropólogo Carlos Fausto, professor do Museu Nacional, ligado à ufrj. Até então, os limites das terras eram propositalmente reduzidos, tendo como objetivo forçar a integração dos povos autóctones à economia nacional. A iniciativa dos irmãos Villas-Bôas buscava, ao contrário, retardar ao máximo esse processo, "e para isso eles precisavam da maior quantidade de terra possível", afirma Fausto. "Antes não havia uma correlação entre o território segundo a lógica indígena e a área reconhecida pelo Estado. Isso aconteceu pela primeira vez com a luta pela criação do Parque do Xingu."
O projeto militar de integração da Amazônia não se deteve diante desses ideais. Uma fatia do território criado em 1961 foi extirpada, ao norte da br-080, e Orlando Villas-Bôas achou melhor incentivar os caiapós a se mudarem para dentro das novas fronteiras do parque. Parte dos mebêngôkre recusou o convite, mas outros, liderados por Raoni, migraram rumo ao sul. Eles aguardariam, ansiosos, a chance de retomar suas terras - o que só veio a acontecer treze anos depois, em 1984.
A oportunidade surgiu quando Raoni e Megaron ouviram falar de Cláudio Romero, um funcionário da Funai que começou sua carreira tocando fogo, literalmente, no Centro-Oeste. Romero tem hoje 62 anos. Sua barba branca e a estatura baixa lhe dão um ar de padre da província. Estudou ciências sociais em Rio Claro, no estado de São Paulo, no início dos anos 70, e diz ter-se convencido a trabalhar com os índios ao ouvir os relatos de um grupo de xavantes que visitou a cidade, em 1974. "Antes meu negócio era operário, era revolução."
Aprovado no concurso da Funai, Romero pediu para trabalhar com os xavantes, em Mato Grosso. Grande parte das terras tradicionais desse povo, a essa altura, estava ocupada por fazendeiros oriundos do Rio Grande do Sul. "Cheguei lá e comecei a expulsar essa gente, esses gaúchos. Demarcamos as terras. Botei para fora, tacando fogo nas fazendas. Eu era meio doido. Chegava com um monte de índio e queimava tudo." Foi também a primeira vez, ele disse, que os indígenas usaram um método novo, patrocinado por ele, para conseguirem a demarcação de terras. "Tomamos muita fazenda na bala", ele me contou, numa conversa em Brasília, em novembro passado.
O método seria repetido com os guajajaras, no Maranhão, e com os pataxós, na Bahia, no início dos anos 80. "Todo mundo queria o meu fígado. Fui praticamente expulso da Bahia. O Antônio Carlos Magalhães queria me matar, dizia que eu era comunista. Resolveram então me colocar para cuidar da Casa do Índio, um lugar que a Funai mantinha em Brasília. Nessa época, o Megaron e o Raoni passavam muito por lá quando iam para São Paulo, onde ainda ficava o posto de apoio do parque. Fiquei amigo deles."
Vários chefes xinguanos, então, liderados por Raoni, resolveram pedir ao governo que Romero fosse nomeado administrador do parque. Questionado, na época, sobre as razões para o pedido, o líder caiapó respondeu que o funcionário era "amigo dos índios": "A gente sabe que ele já demarcou terra pros parentes."
A tensão entre brancos e indígenas atingira um ponto crítico, no início dos anos 80, na área ao norte do parque que havia sido extirpada pelos militares. A margem direita do rio Xingu, a partir da BR-080, vinha sendo ocupada por posseiros brancos. Raoni desejava que o governo demarcasse a terra, reservando uma área de 40 quilômetros a leste do rio, para impedir as invasões. Em fevereiro de 1984, segundo a cronologia do que ficou conhecido como a "guerra no Xingu", publicada pelas antropólogas Vanessa Lea e Mariana Ferreira no ano seguinte, Raoni foi a Brasília, prometendo agir se a Funai não fizesse a demarcação até abril. O presidente do órgão indigenista, Otávio Ferreira Lima, assumiu um compromisso de se reunir com as lideranças do parque, na terra deles, no dia 24 de março.
Na véspera da reunião, conta Romero, Raoni o procurou. ""Cláudio", ele disse, "passa um rádio para Brasília para saber onde é que vai descer o pessoal do presidente da Funai, se é no Kretire ou se é no Vigilante." Kretire era o lugar onde eles moravam, 25 minutos de barco ao sul da estrada, subindo pelo rio Xingu. O posto de vigilância ficava na BR-080, com pista feita pela fab. Passei o rádio. À tarde veio a resposta que os caras não iam mais, que o presidente já tinha se reunido com os fazendeiros em Brasília. Aí os índios ficaram muito bravos."
Segundo Vanessa Lea, naquele dia 33 líderes de diferentes povos do Xingu já se encontravam mobilizados na aldeia do Kretire, à espera do presidente da Funai. Reunidos na casa dos homens, um espaço tradicional dos mebêngôkre que fica no meio da aldeia circular, eles decidiram reagir. A ideia era anunciar às autoridades em Brasília o sequestro de quatro funcionários brancos que trabalhavam na aldeia - entre eles o próprio Cláudio Romero - e tomar a balsa motorizada que faz a travessia do Xingu na altura em que o rio corta a BR-080, interrompendo o tráfego de carros e caminhões. Só voltariam atrás se o governo aceitasse a exigência de demarcação das terras ao norte da estrada.
O primeiro obstáculo era um destacamento de doze policiais que montava guarda no posto de vigilância e garantia a segurança da balsa. Romero disse aos índios que tinha uma ideia para se livrar da polícia sem que ninguém saísse machucado. No dia seguinte, tomou um barco no Kretire e foi ter com os militares. "Eles estavam lá, tranquilos, ouvindo num radinho de pilha aquelas músicas tristes para quem tem a mãe na zona."
O administrador do parque anunciou ao sargento encarregado da turma que iria de caminhão até a cidade mais próxima, São José do Xingu, conhecida como "Bang-Bang". Teria que ficar na vila até tarde da noite. Se quisessem, podiam pegar carona na ida e na volta. Sem pensar duas vezes, o sargento deu ordem: "Vamos embora! Todo mundo se veste rápido!" Chegaram à cidade por volta das oito, os soldados na parte de trás do caminhão, o comandante do grupo na boleia com Romero e o motorista.
"Já na entrada do "Bangue" tinha a zona, e eles ficaram por lá mesmo", contou Romero. "Combinei que buscava todo mundo à uma da manhã. Fomos para uma venda grande que tinha lá. Falei com o dono que precisava comprar comida, para uma reunião. Levei feijão, arroz, macarrão, óleo, bolacha. Comprei tudo que o cara tinha. E bala. Comprei toda a munição. Chumbo, pólvora, calibre 38, calibre 44, 26, o que tinha eu comprei." Saindo dali, fizeram uma parada em outro armazém. Compraram ainda mais munição.
"E agora?", o motorista perguntou a Romero. "Agora nós vamos passar por fora da cidade, para ninguém ver a gente." "E os soldados? E o sargento?", o funcionário, já nervoso, quis saber. "Eu quero que o sargento se foda, rapaz; vamos embora daqui", respondeu. Sem a presença policial, os índios tomaram a balsa com tranquilidade e interromperam o tráfego na br-080. Romero voltou para o Kretire com o carregamento comprado fiado na cidade, preparado para aguentar o tempo que fosse necessário.
No dia 14 de abril, quase três semanas depois de iniciada a revolta, três representantes da Funai foram enviados para a região a fim de negociar com os índios. Chegaram à aldeia Piaraçu, a mais próxima do local de travessia da balsa. Raoni e o sobrinho foram encontrá-los. "Daqui a pouco, enquanto estávamos conversando", contou Megaron, "chegou o pessoal." Uma centena de índios. "Os caiabis logo foram tirando a roupa deles. Outros queriam bater. Nós não deixamos, controlamos a situação." Poupados de agressões mais graves, os funcionários foram feitos reféns e levados para o Kretire.
Em seu relato, Vanessa Lea afirma que, "no clima de tensão que reinava, os índios dormiam pouco, temendo uma invasão para resgatar os prisioneiros". Pelo rádio, eles ficaram sabendo que uma nova balsa, escoltada por oitenta policiais militares, havia saído de Cuiabá e estava sendo levada, de caminhão, para o parque. Romero disse ter proposto, então, uma marcha de 40 quilômetros, a pé, para tentarem derrubar uma ponte da BR-080 que passava sobre o rio Jarina. "Aquele monte de gente sentada, pintada de preto. Quando terminei de explicar, perguntei: "Quem quer ir?" Levantaram todos ao mesmo tempo, uns 300 índios, batendo no peito: "Bá, bá, bá." "Eu, eu, eu." Fomos até lá, carregando machado, gasolina e óleo diesel. Derrubamos a ponte, e isolamos os caras."
Pressionado, o ministro do Interior do último governo militar, Mário Andreazza, aceitou se reunir com Megaron e outras lideranças jovens do Xingu, no início de maio de 84. Os caiapós acabaram conseguindo muito mais do que pediam antes da revolta. As negociações levaram o governo a demitir o presidente da Funai e a aceitar a demarcação de 15 quilômetros a leste do rio e 70 quilômetros ao norte da rodovia federal. A polícia foi retirada da área, e o controle da balsa foi entregue aos mebêngôkre. Os militares também aceitaram demarcar a área indígena Capoto-Jarina, a oeste do rio, que alcança hoje 635 mil hectares.
Os reféns foram afinal libertados no dia 2 de maio. Raoni viajou a Brasília para negociar os termos finais da troca. O ministro do Interior, além da derrota, teve que aguentar a humilhação. Na reunião para fechar o acordo, o líder caiapó puxou a orelha de Andreazza e brincou, diante da imprensa: "Aceito ser seu amigo, mas você tem que ouvir o índio."
Ainda em 1984 e no início de 1985, Raoni ajudaria Cláudio Romero a enfrentar fazendeiros no norte de Goiás, hoje Tocantins, e assim garantir a demarcação de terras para os apinajés. Viajaram juntos também à Bahia, onde se questionava a "autenticidade" de índios pataxós. Com a autoridade de sua borduna - a arma de madeira típica dos caiapós - e de seu botoque, o líder mebêngôkre fez declarações públicas de apoio aos parentes baianos.
Ao se lembrar desse momento de sua vida, em sua casa na aldeia Metuktire, Raoni se referiu a Romero, segundo a tradução de Bemoro, como "um amigo de coração". "Brigamos juntos, conquistamos nossa luta juntos."
Tão importantes quanto a parceria com Cláudio Romero foram as alianças que o líder caiapó estabeleceu com os kuben estrangeiros, desde o início de sua trajetória pública. Em meados dos anos 70, o diretor belga Jean-Pierre Dutilleux viajou ao Xingu a fim de realizar um documentário para a BBC. Lá conheceu os mebêngôkre e decidiu que deveria fazer deles o tema de um filme específico. Segundo o cineasta Luiz Carlos Saldanha, codiretor de Raoni, lançado em 1978 e indicado ao Oscar de melhor documentário, o protagonista da história impressionava, imediatamente, por seu carisma. "O que chamava a atenção é que ele era um homem valente, grande, com capacidade de liderança inata."
Em sua versão norte-americana, a fita tem a narração do ator Marlon Brando, conhecido por seu apoio à causa indígena. O filme alavancou a fama de Raoni no mundo e no Brasil.
Foi também Dutilleux quem apresentou o brasileiro ao músico inglês Sting, durante uma turnê no país, em 1987. Num dos primeiros encontros, o ex-vocalista da banda The Police perguntou o que poderia fazer para ajudá-lo. Raoni foi direto ao ponto: disse que precisava de dinheiro para demarcar uma área contígua ao norte da recém-conquistada Capoto-Jarina, a Terra Indígena Menkragnoti. Com quase 5 milhões de hectares, o território é pouco maior do que o estado do Rio de Janeiro.
Embora o processo de reconhecimento de uma terra indígena dependa da iniciativa política do Poder Executivo, a demarcação propriamente dita demanda recursos para abrir picadas, contratar técnicos, fazer medições que serão registradas em cartório. Em 1989, Sting ajudou a organizar a viagem, com escalas nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, em que os dois, sob os holofotes da imprensa mundial, conseguiram levantar a verba necessária para o empreendimento.
A promulgação da Constituição de 1988 e o auge da influência do movimento ambientalista sobre o governo brasileiro - o país sediaria a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92 - contribuíram para que o Menkragnoti e muitas outras áreas indígenas fossem reconhecidos no início dos anos 90.
Já nessa época, contudo, Sting começou a se desentender com Dutilleux. Megaron contou que numa reunião na Inglaterra, na qual se tratou da criação de uma ongpara recolher e administrar recursos com vistas à demarcação do Menkragnoti, o cantor, já desconfiado do cineasta, sugeriu que ele se afastasse da iniciativa.
Depois de alcançado o objetivo assumido com Raoni, o próprio Sting se afastou. O líder caiapó continuou, pelos anos seguintes, a fazer viagens regulares à Europa, organizadas por Dutilleux, que passou a liderar a Association pour la Forêt Vierge (AFV), organização responsável por representar o líder mebêngôkre. "Ele continuou a ganhar dinheiro com a imagem do meu tio", disse Megaron, recentemente. A relação entre o belga e os caiapós foi aos poucos se deteriorando. Raoni e Bemoro afirmaram desconfiar que Dutilleux recolhia recursos em nome dos índios sem os repassar ao Brasil - ou transferindo apenas uma pequena parte do que amealhava. Para piorar, na penúltima visita a países europeus, em 2011, o cineasta tentou dissuadir o líder mebêngôkre de falar sobre o assunto que mais lhe interessava: Belo Monte. "Ele chegou a segurar o braço do Raoni, para ele não falar", contou Bemoro, aparentando ainda estar surpreso e indignado com o gesto. Numa nota publicada no site da AFVv, a organização francesa afirma que uma luta desse porte, contra a hidrelétrica, não estava ao alcance de "sua pequena estrutura de frágeis recursos".
Foi nesse momento que uma espécie de dissidência da ongfoi fundada. Gert-Peter Bruch, que trabalhava com Dutilleux e gerenciava o site que leva o nome de Raoni (www.raoni.com), fundou uma nova organização, a Planète Amazone, levando consigo o endereço eletrônico e o apoio dos caiapós para representá-los no exterior. Bruch se encarregou de organizar a mais recente viagem do grupo à França e demais países europeus.
Era visível a emoção de Raoni, em janeiro, quando pedi a ele que falasse sobre Sting. "Por causa do Jean-Pierre, faz muito tempo que a gente não se fala", disse, sentado no chão de sua casa ampla, de escassos bens - algumas malas, canecas de alumínio, uma garrafa térmica, roupas, quase tudo empilhado sobre um estrado nos fundos da construção. "É meu grande amigo e nunca vou me esquecer dele na minha vida."
A busca por alianças e por recursos - políticos, territoriais, financeiros - foi a resposta que os caiapós encontraram para enfrentar uma situação adversa, seguindo a lógica do que o antropólogo Cesar Gordon, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama de "temperamento coletivo" dos mebêngôkre.
Para realizar sua tese de doutorado, Gordon estudou o subgrupo xikrin-mebêngôkre. Ele se refere aos caiapós em geral como um povo "muito corajoso e orgulhoso", que tem aversão a cair na autopiedade e na autovitimização. "A pergunta deles é por que os brancos podem ter tantas coisas, e os mebêngôkre, não. Da perspectiva caiapó, para ter alguma força política, eles precisavam obter os meios prévios de ação: dinheiro, capacidade de transporte e de comunicação."
No final dos anos 80, diferentes grupos mebêngôkre vinham conseguindo crescente acesso a esses "meios". Ao norte das terras dos metuktire, já no Pará, líderes como Paulinho Payakã e "coronel" Pombo tomaram a decisão de cobrar royalties dos madeireiros e garimpos ilegais que atuavam em suas terras. Raoni era crítico dessa aliança, sustentam Cláudio Romero e André Villas-Bôas, secretário-executivo e responsável pelo trabalho com os povos xinguanos no Instituto Socioambiental. "Na área dele isso não aconteceu, e ele expressava a vontade de não deixar as madeireiras entrarem", afirmou Villas-Bôas. "Ao mesmo tempo, não havia, nas suas terras, a mesma abundância de recursos das outras áreas."
Naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, as circunstâncias políticas no país pareciam relativamente favoráveis aos povos indígenas, em geral, e aos caiapós, em particular. Além dos recursos e das alianças, como as construídas por Raoni, a nova Constituição trazia a perspectiva de amplas demarcações, resultado de uma "retração da direita" após o final da ditadura, na avaliação do antropólogo Carlos Fausto, da UFRJ. Ainda em 1988, contudo, uma nova ameaça surgiu no horizonte
Um plano de longo prazo de expansão energética divulgado pelo governo indicava que o aproveitamento máximo da bacia do Xingu aconteceria com a construção de cinco usinas hidrelétricas no rio, com impactos diretos e indiretos sobre vários grupos caiapós, inclusive os que habitavam aquela que viria a ser a Terra Indígena Menkragnoti.
"Nós divulgávamos todos os pontos em que cabia usina na Amazônia, mas não é que fôssemos construir todas", me disse, no início de dezembro, José Antonio Muniz Lopes, hoje diretor de transmissão da Eletrobras.
Muniz Lopes é um maranhense de 67 anos que nasceu numa casa de taipa coberta com as folhas do babaçu, não muito diferente daquelas em que ainda vivem muitos índios mebêngôkre. Estudou engenharia no Recife e fez carreira no sistema elétrico brasileiro. Trabalhou na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a Chesf, e fez amizades na empresa de energia do Maranhão. Com a chegada de José Sarney à Presidência, em 1985, foi trabalhar na Eletronorte.
Em seu escritório no Rio de Janeiro, em dezembro passado, ele anunciou com orgulho, em referência às obras projetadas para a bacia amazônica: "Todos esses projetos hoje aí foram da minha passagem pela Eletronorte."
A prioridade para o Xingu, no final dos anos 80, ele disse, era construir duas grandes usinas: Kararaô, que grosso modo equivale à atual Belo Monte, e Babaquara, uma geradora que reteria grande quantidade de água ao sul de Altamira, o suficiente para alimentar, com grande aproveitamento, suas próprias turbinas e também as de Kararaô. Somados, os reservatórios das duas hidrelétricas inundariam uma área de quase 18 mil quilômetros quadrados. No projeto atual, o lago de Belo Monte terá uma superfície de cerca de 500 quilômetros quadrados.
Foi o suficiente para alarmar os caiapós. No final de 1988, procuraram dom Erwin Kräutler, um antigo aliado que fala mebêngôkre com desenvoltura. Queriam organizar, às pressas, um grande encontro de repúdio às hidrelétricas. Dom Erwin tentou argumentar que era impossível, que o tempo era curto, mas eles insistiram. Com o apoio da Igreja Católica e de entidades ambientalistas, o 1o Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, descrito por Cesar Gordon como "uma espécie de clímax das mobilizações dos anos 80", teve início no dia 20 de fevereiro de 1989.
As atenções mundiais já haviam se voltado para a Amazônia em dezembro de 1988, após a morte do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado com um tiro de escopeta, em Xapuri, no Acre. Cerca de mil índios e uma centena de jornalistas, com grande presença da imprensa internacional, se reuniram semanas depois em Altamira para os debates e as manifestações do encontro indígena, realizado num velho ginásio da cidade.
Para abrigar quem se deslocava até a região, uma chácara da Igreja foi cedida por dom Erwin, e lá se montou um gigantesco acampamento. O líder indígena Marcos Terena ajudava na organização do encontro. "Ecologistas do mundo todo foram para lá", contou Terena. "A ideia era defender o rio Xingu. Acontece que os caiapós têm o costume de carregar tartaruga amarrada, uma embaixo da outra. Na primeira noite do acampamento, eles chegaram com essas tartarugas empilhadas na cabeça. Quando você olha por trás, parece um cocar de tartarugas. Os ecologistas europeus, entusiasmados, aplaudiram a entrada deles, aquela interação dos caiapós com a natureza."
Quando a noite chegou, Terena se lembra, fizeram uma fogueira. "Os índios chamaram os ecologistas para conversar. Enquanto falavam, eles tiravam uma tartaruga da pilha e jogavam, ainda viva, no fogo. Os europeus reagiram: "Mas o que é isso? O índio está matando a tartaruga!" Os caiapós, sem entender, responderam: "Mas é a nossa comida, pô.""
José Antonio Muniz Lopes, então diretor de planejamento da Eletronorte, foi convidado a participar do encontro. No segundo dia de atividades, diante de centenas de índios, muitos armados com facões e bordunas, ele deveria explicar as razões do governo para erguer uma barragem no rio Xingu. O funcionário da Eletronorte tinha ao menos uma notícia que, acreditava, seria bem recebida pelos caiapós. Apenas uma usina deveria ser construída, e seu nome, Kararaô, considerado ofensivo por ser uma palavra indígena aplicada a um projeto indesejado dos brancos, seria substituído por Belo Monte.
"Era um ginásio velho, cheio de gente. A temperatura estava alta. Eu falava, e o Paulinho Payakã traduzia o que eu estava dizendo. Alguns homens e mulheres iam até a mesa e batiam no meu peito. Encostavam a borduna em mim. Mas antropólogos que eu conhecia me haviam dito para segurar firme, e eu segurei."
No meio da confusão de vozes e gente, o engenheiro não percebeu quando uma índia caiapó, chamada Tuíra, se levantou no meio da multidão e caminhou até a mesa. "Eu não vi que ela tinha um facão na mão", contou. A lâmina roçou seu rosto e o metal empurrou as bochechas dos dois lados da cabeça, como se ele estivesse na cadeira de um barbeiro munido de uma navalha gigante. Muniz Lopes permaneceu imóvel, paralisado. "Não senti medo", ele me disse em dezembro, 24 anos depois do episódio.
A ameaça de Tuíra foi traduzida em palavras por Raoni, no último dia do encontro. "Se o chefe de vocês", ele disse, "o Sarney, continuar com o plano de fazer barragem, eu vou fazer guerra contra ele."
Ambientalistas creditam ao encontro e à pressão internacional ao menos parte da responsabilidade pela suspensão do projeto de Belo Monte na década seguinte. Paulinho Payakã havia viajado a Washington, antes do congresso de Altamira, para se encontrar com diretores-executivos do Banco Mundial. Àquela altura, organizações norte-americanas e europeias já vinham pressionando os órgãos de assistência multilateral por causa dos impactos sociais e ambientais dos projetos que financiavam.
Muniz Lopes reconhece que uma linha de crédito do Banco Mundial para o setor elétrico foi interrompida nessa época. Mas afirma que as obras não foram adiante, naquele momento, porque o país estava quebrado. "Não havia mais recursos. Parou tudo. O setor elétrico também quebrou."
O próprio Muniz Lopes foi embora. "No governo Collor, eu saí; quando voltei, no governo Fernando Henrique, em 1996, para ser presidente da Eletronorte, eu retomei os estudos de Belo Monte." Mas a falta de investimentos na geração de energia perdurou, com o resultado conhecido do apagão e do racionamento de energia em 2001.
Com a vitória de Lula, o engenheiro maranhense mais uma vez ficou alijado de cargos na máquina estatal. Foi vender seus serviços na iniciativa privada. "Eu fui contratado por empresas brasileiras que se uniram e me ofereceram para continuar trabalhando, para ver se Belo Monte não morria. Fui morar em São Paulo e fazer um trabalho de catequese. Chamava-se Consórcio Brasil." Desse consórcio, declarou Muniz Lopes, faziam parte grandes empreiteiras, como Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez.
"A ideia é que eu trabalhasse para mostrar que a usina era boa. Passei cinco anos fazendo esse trabalho. No Congresso, nas universidades. Nesse ínterim eu convenci a Camargo Corrêa a retomar os estudos de Tapajós, que estavam parados. Foi daí que surgiu a ideia das usinas no Tapajós."
Em 2008, Muniz Lopes voltou ao governo, desta vez para ocupar o cargo mais alto de sua carreira, a presidência da Eletrobras - que pouco depois viria a se tornar a maior acionista individual do consórcio vencedor do leilão de Belo Monte, a Norte Energia. Somadas as participações da Eletrobras e de suas subsidiárias Chesf e Eletronorte, a companhia controlada pelo governo detém 49,98% da empresa que administrará a geradora no Xingu. Outros 20% pertencem aos fundos de pensão ligados à Petrobras e à Caixa Econômica Federal. Quase 78% do custo total de Belo Monte, de pouco menos de 30 bilhões de reais, serão financiados pelo BNDES.
Andrade Gutierrez, Odebrecht e Camargo Corrêa, que haviam contratado Muniz Lopes para "manter viva" a ideia da usina, detêm, juntas, 50% do Consórcio Construtor de Belo Monte, o ccbm, contratado pela Norte Energia. Segundo a assessoria do ccbm, o consórcio receberá 14 bilhões de reais pelas obras.
"Belo Monte é a forra", disse em novembro André Villas-Bôas. "É o Brasil rico, com grana, sem precisar consultar ninguém, dizendo: "Agora vamos fazer. Foda-se.""
Em 2007 foi afinal concluído um novo inventário do potencial energético do Xingu, encomendado pelo governo federal. Uma das alternativas detalhadas no documento previa a instalação de quatro usinas ao longo do rio.
No ano seguinte, o Conselho Nacional de Política Energética, órgão de assessoria da Presidência integrado por ministros, representantes da sociedade civil e pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética, determinou que apenas Belo Monte seria construída naquele afluente do Amazonas. O novo projeto também reduzia a área alagada pela barragem. Foram decisões tomadas, argumentou Mauricio Tolmasquim, por causa da "comoção em torno da hidrelétrica" e tendo em mente possíveis impactos socioambientais no Xingu. A comoção, contudo, continuou. No final de 2011, um grupo de atores da TV Globo gravou um vídeo crítico à hidrelétrica, amplamente divulgado pela internet. O texto lido por eles dizia que "abaixo da barragem o rio banha o Parque Nacional do Xingu", o qual estaria, portanto, sob risco. Na verdade o parque se encontra cerca de 1 300 quilômetros a montante da usina.
A modificação do projeto trouxe consequências negativas - dos pontos de vista técnico e econômico - para o rendimento da usina. Como a vazão do rio varia muito ao longo do ano, e Belo Monte não tem reservatório, seu aproveitamento de energia será em torno de 42% dos 11 mil megawatts de potência instalada. É um valor pequeno para padrões brasileiros - na média superior a 50% -, mas semelhante ao que ocorre em geradoras nos Estados Unidos e na Europa. Se outra barragem que acumulasse água fosse instalada a montante do rio, como estava previsto no projeto dos anos 80, a geração de energia pelas caras turbinas da usina seria maior.
"Poderia melhorar muito o aproveitamento de Belo Monte", afirmou o diretor de engenharia e construção da Norte Energia, Antônio Kelson Elias Filho, em dezembro, em seu escritório de Altamira.
Megaron e dom Erwin estão convencidos de que a razão econômica falará mais alto e, em algum momento, o Estado brasileiro tentará erguer novas barragens no rio. "Não posso falar sobre essa decisão porque é uma política de governo", disse Kelson quando questionado sobre a construção de novas usinas. "Mas, como brasileiro e como engenheiro, eu diria que deveríamos aproveitar ao máximo esse potencial hídrico que nós temos. Ele é muito melhor do que ter que queimar combustíveis fósseis nas termelétricas ou usar energia nuclear."
Segundo Tolmasquim, não há nenhuma garantia pétrea de que um governo futuro não vá reavivar os projetos para outras usinas no Xingu. "Até Constituição muda. Mas hoje tem uma decisão nesse sentido, de não fazer. Essa é a posição do governo. Hoje, essa é a posição."
Do ponto de vista político, o futuro não é nada animador para Raoni e seus parentes. "Houve um período de enorme avanço entre o final dos anos 80 e início dos 90, mas depois os interesses contrários começaram a reagir", avalia o antropólogo Carlos Fausto. No ano passado, a Proposta de Emenda à Constituição no 215 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça na Câmara dos Deputados. O texto, ainda em tramitação, transfere ao Congresso a prerrogativa, hoje exercida pela Funai e pelo Executivo, de "aprovar a demarcação" de terras indígenas e "ratificar as demarcações já homologadas". Para os críticos da iniciativa, essa é uma tentativa da base ruralista de limitar o acesso dos índios a seus territórios tradicionais. "Isso, evidentemente, é a reação mais contundente ao avanço dos direitos dos povos indígenas, e seria um desastre completo", afirmou Fausto.
As ocasionais alianças de índios com madeireiros e garimpeiros, além de serem ilegais, são apresentadas como provas do mau gerenciamento do território à sua disposição. No entanto, o desmatamento é ínfimo nas terras indígenas. Embora elas ocupem cerca de 40% da área da bacia do rio Xingu, são responsáveis por menos de 3% da derrubada de árvores na região. "As terras indígenas frearam a ocupação desordenada da Amazônia e são responsáveis por proteger uma área significativa da mata", argumenta André Villas-Bôas. "Nas franjas das frentes de colonização, elas são ilhas de floresta, como se pode ver nas imagens por satélite. Isso é um serviço socioambiental que os índios prestam, e que a sociedade tem dificuldade de perceber."
A necessidade de garantir terras aos índios também é questionada a partir da ideia de que a assimilação desses povos à sociedade branca já acontece, e de maneira acelerada. Em novembro passado, uma pesquisa do instituto Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, constatou que 66% dos indígenas têm fogão, 63% possuem televisão e 51%, geladeira. Foram entrevistados, para o levantamento, apenas indivíduos que falavam português. O senso comum é de que isso representaria uma integração à "vida urbana" que os tornaria menos índios - e assim já não faria sentido lhes conceder territórios e proteções especiais.
A incorporação de bens dos brancos, sejam eles facões, relógios ou geladeiras, não determina que alguém seja mais ou menos índio, argumenta o antropólogo Cesar Gordon, que estudou os caiapós. Entre os povos indígenas das Américas, aliás, a incorporação de bens e saberes alheios é o nome do jogo. Nos mitos mebêngôkre, o domínio do fogo e da capacidade de cozinhar a carne da caça, definidores da distinção entre "pessoa" e "animal", foi roubado de um bicho, o jaguar. A coragem, por sua vez, foi tomada emprestada com a retirada das plumas de uma grande ave predadora, o gavião-real, que os índios passaram a usar como enfeite, na cabeça.
Passando ao registro da história, Cesar Gordon anota em seu livro Economia Selvagem que, antes do contato mais intenso com os brancos, os mebêngôkre travavam dois tipos de guerra. De outros povos caiapós, roubavam mulheres e crianças - ou seja, incorporavam parentes. Dos demais grupos indígenas, quando vitoriosos, traziam bens culturais - novos objetos, tipos de dança ou de enfeite -, que aos poucos passavam a fazer parte de suas próprias tradições. No mito ou na guerra, ao se apropriarem das coisas alheias, eles não se tornavam menos caiapós. Ao contrário.
É claro, argumenta Gordon, que os índios também se angustiam com a possibilidade de "virar brancos", e que suas sociedades, como a nossa, estão sujeitas a mudanças históricas. "Todas as culturas sofrem perdas e ao mesmo tempo obtêm ganhos por meio das trocas culturais. Algumas tendem a ser mais conservadoras, preferem manter o que já conhecem a arriscar mudanças desconhecidas."
O problema, ele diz, não está na relação de troca, mas na assimetria de poder, entendido como capacidade de ação e de decisão sobre o próprio destino. "Pois a assimetria acaba se transformando em controle, e, assim, tira de uma das partes o direito de decidir como quer conduzir a vida: mudando muito, e rapidamente; ou pouco, e lentamente. Um povo tem que ser livre e autônomo para refletir e decidir, ele mesmo, o grau de mudança que deseja suportar. Eu creio que esse deveria ser o horizonte político: a busca de uma simetria mínima, que garanta a liberdade de decidir."
Na conversa que tivemos na aldeia Metuktire, perguntei a Raoni como ele avaliava as condições atuais de sua luta política - se as dificuldades não lhe pareciam maiores, e as vitórias, mais raras. A noite já havia caído, e uma lâmpada de luz fria, alimentada por gerador, iluminava precariamente a sua casa. "Estou lutando ainda, confie em mim", ele me disse, de maneira afetuosa, como se oferecesse proteção. "Eu tenho que vencer a Dilma."
Sentado no chão de terra batida de sua residência, com as pernas cruzadas e a coluna ereta, Ropni Metuktire lixava desde cedo um pedaço de madeira, a fim de dar forma final a seu novo botoque - o disco do tamanho da palma da mão que enfeita e estica seu lábio inferior. Mais conhecido pela forma aportuguesada de seu nome, Raoni chegara no dia anterior à aldeia, depois de passar um mês e meio distante da mulher, com quem teve dez filhos, cinco deles ainda vivos. De sua rede, amarrada a um dos pilares de mais de 10 metros de altura que sustentam a construção, Bekuika Metuktire observava o trabalho minucioso do marido.
Por volta das 10 horas, Raoni tomou o curto caminho que vai dar no rio, mas que conduz, antes, a uma casa apartada do conjunto principal, na qual funcionam o posto médico e a estação de radioamador da comunidade. Ali, num registro anotado com capricho pelas enfermeiras brancas, em caderno pautado, consta que o mais conhecido líder indígena do país mede 1,72 metro e pesa 83 quilos. Tem a pele curtida, os olhos puxados e o cabelo comprido, de uma cor indefinida em que se misturam fios pretos, grisalhos e castanhos, alguns quase alourados pela exposição ao sol. Estima-se que tenha pouco mais de 80 anos. Suas pernas levemente arqueadas venciam a pequena inclinação do terreno com passos lentos, acompanhados de perto por um cachorro vira-lata.
A trajetória de vida desse senhor octogenário encarna, talvez mais do que qualquer outra, a história recente da interação entre povos indígenas e "brancos" no Brasil. Seu primeiro contato com os não índios se deu justamente com os irmãos Villas-Bôas, responsáveis por estabelecer relações com diversos povos do Centro-Oeste brasileiro nas décadas de 40 e 50 e que, mais tarde, fundariam o Parque Nacional do Xingu.
Foi no parque que o grupo de Raoni se abrigou quando a ditadura militar iniciou a construção de grandes estradas nas regiões Norte e Centro-Oeste, com o objetivo de "integrá-las" ao país. Dali, já nos anos 80, o líder indígena se lançou num projeto de reconquista das terras tradicionais de sua etnia. Por meio da diplomacia e da guerra, contribuiu para o reconhecimento formal de um território contínuo que se estende de Mato Grosso ao Pará por mais de 10 milhões de hectares, cerca de quatro vezes a extensão do Parque do Xingu.
Pouco mais de 8 600 parentes de Raoni vivem nesse espaço, sobretudo, e também em outras pequenas áreas indígenas do Pará. Só na aldeia Metuktire moram cerca de 400 pessoas. Há muitas outras, rio abaixo - ou seja, acompanhando o sentido das águas do Xingu, que corre para o norte -, com disposição semelhante de casas e espaços públicos. O nome pelo qual seus habitantes são mais conhecidos - caiapós - lhes foi dado por índios de língua tupi e alude à semelhança entre a etnia, que costuma se pintar com a tintura escura do jenipapo, e os macacos. A designação, embora depreciativa e estrangeira para esse povo que fala um outro idioma, distinto do tronco linguístico tupi, se consagrou. Eles próprios se chamam mebêngôkre. Ropni, em língua mebêngôkre, quer dizer onça fêmea.
Outros povos indígenas do Brasil, aos quais Raoni sempre se refere como "parentes", também contaram com o seu apoio para conseguir a demarcação de terras. Ele diz ter participado da luta por território de oito etnias diferentes desde os anos 80, entre elas os apinajés, os pataxós e os guaranis. "Consegui coisas difíceis, os fazendeiros queriam nos enfrentar", ele me disse na tarde de sua chegada à aldeia, já ocupado com o novo botoque. Orgulha-se de ter contribuído para pôr fim às guerras internas dos próprios caiapós e entre índios de diferentes grupos, concentrando seus esforços de combate e negociação no adversário que importava, o kuben, que é como os mebêngôkre se referem aos brancos.
Em 1988, Raoni participou da mobilização de várias lideranças indígenas, ongs e Igreja Católica para conseguir incluir o direito dos povos autóctones à posse de suas terras ancestrais, anterior a qualquer postulação de propriedade pelos não índios, na Constituição Federal. Soube também fazer alianças políticas com os kubende além-mar, europeus sobretudo, o que lhe trouxe recursos e prestígio. Ainda hoje, quando sua foto é estampada em um jornal brasileiro, ele em geral está fora do país ou ao lado de alguma personalidade estrangeira.
Ao chegar ao posto de saúde, naquela manhã de janeiro, Raoni tomou café e comeu bolo preparado pelas enfermeiras. Esperou um pouco até que o radioamador da aldeia Metuktire ficasse vago - desde as primeiras horas da manhã os índios faziam fila para usá-lo - e se postou à frente do aparelho. Começou uma conversa compridíssima em que quase só ele falava.
A sua voz, um pouco fina, não combina com a fisionomia de guerreiro caiapó, sua postura esticada, o corpo forte e, naquele dia, a pele pintada de jenipapo. O desencontro fica mais evidente porque algumas palavras mebêngôkre contêm vogais esticadas, como um "ííííí" bem agudo que se escuta às vezes.
Bepkameiti Metuktire, uma das lideranças da aldeia, tem cerca de 50 anos e fala bem o português. Ouvia atento a conversa, do lado de fora da casa, e a traduzia, em linhas gerais, para mim. Contou que Raoni falava, em sequência, com várias aldeias caiapós. "Está todo mundo perguntando se ele foi lá fora, se está tudo bem, se deu tudo certo. Querem saber se o pessoal de fora se dispõe a ajudar a gente." Pelo rádio, o líder mebêngôkre dava notícia da viagem de quase um mês à Europa, com escalas na França, na Suíça, na Bélgica e na Holanda, da qual afinal voltava, após passar alguns dias na cidade de Colíder, em Mato Grosso.
O périplo tivera início no dia 27 de novembro, quando Raoni, seu sobrinho Megaron e o tradutor oficial, Bemoro Metuktire, tomaram um voo noturno do Rio para Paris.
Megaron foi o primeiro diretor indígena do Parque do Xingu, nomeado em 1984. Acredita ter nascido entre 1949 e 1951. Fala português perfeitamente bem, resultado do fato de ter vivido por mais de dez anos, entre a adolescência e a juventude, no posto administrativo do parque, em companhia de Orlando Villas-Bôas e de outros jovens das várias etnias da região. Seus cabelos pretos compridos e o nariz largo lhe dão uma aparência de índio de filme norte-americano.
Embora acostumado a viajar, o sobrinho de Raoni estava receoso de cruzar o oceano naquele dia. Megaron participou da expedição de índios caiapós responsável por localizar a fuselagem do Boeing 737-800 da Gol que se chocou, em 2006, com um jato Legacy. Foi em território mebêngôkre, na Terra Indígena Capoto-Jarina, onde se encontra a aldeia Metuktire, que o avião caiu. Ele não se esquece, como explicaria mais tarde, das "imagens tristes" das vítimas, 154 ao todo, sobretudo do corpo de uma passageira ainda abraçado a uma criança de colo.
Ao embarcar, além da camiseta e da calça comprida bastante gasta, Raoni vestia cocar, colar, brincos e calçava sandálias havaianas. Megaron também levou seu cocar, mas usava sapatos. Bemoro havia se preocupado em vestir um traje parecido com o dos demais passageiros: camisa social, calça, sapatos e um pulôver sobre os ombros, amarrado diante do peito. Ele tem sido o responsável, em anos recentes, por traduzir os discursos de Raoni, que fala mal o português. À diferença dos parentes, corta os cabelos curtos. Tem 36 anos e conta no Facebook.
No dia seguinte à chegada do grupo a Paris, numa manhã especialmente fria do final de outono europeu, Raoni foi recebido no Palácio do Eliseu pelo presidente François Hollande. Não havia nada de incomum, para o líder indígena, naquele compromisso. Todos os chefes de Estado franceses, desde François Mitterrand, no final dos anos 80, mantiveram encontros com Raoni.
Jacques Chirac, que sucedeu Mitterrand no poder e tem idade próxima à do brasileiro, se tornou, de certa forma, um amigo. O político conservador escreveu o prefácio de uma biografia do líder mebêngôkre publicada na França em 2010. Nela, se refere ao velho guerreiro caiapó como "o último grande chefe indígena" e se diz comovido com sua história de vida. Em dezembro, os dois voltaram a se encontrar. Na viagem anterior, em 2011, Raoni já tinha tido a impressão de que Chirac estava doente, "abatido", o que lhe causara preocupação. Dessa vez, levou ervas, remédios tradicionais, para ajudar na cura do francês.
Ao sair da reunião com Hollande, no pátio interno coberto de seixos do Eliseu, Raoni fez um breve discurso, em português, para os jornalistas que o aguardavam. "Eu vim aqui conversar com o presidente da França. Antigamente o presidente da República no Brasil também me recebia. Agora o Lula e a Dilma não me deixam mais entrar lá para conversar com eles. Vocês têm que me apoiar. A Europa, a França, todo mundo me apoia para preservar a Amazônia, a floresta, os rios. Só isso. Um abraço."
São justamente a Amazônia, a floresta e, principalmente, o rio Xingu que tornam a presidente Dilma Rousseff uma adversária, contra a qual ele já prometeu "declarar guerra". É ela a responsável por erguer a maior ameaça atual, do ponto de vista do líder indígena, à sobrevivência dos seus parentes, e até dos próprios mebêngôkre. Uma ameaça que está sendo construída mais de mil quilômetros ao norte da aldeia Metuktire: a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.
É preciso percorrer 60 quilômetros pela rodovia Transamazônica, saindo da cidade de Altamira, para se chegar ao sítio da principal barragem da usina. O pequeno trecho da estrada, notória por seus atoleiros, foi recém-asfaltado pelo consórcio contratado para realizar a engenharia civil da hidrelétrica - a obra propriamente dita, o que não inclui a instalação das turbinas e da rede de transmissão.
Ao redor da cidade, distante 900 quilômetros de carro de Belém, e no caminho que conduz ao dique de Belo Monte é possível constatar o desmatamento na região, provocado pela pecuária. O que antes foi selva e mata fechada hoje parece cerrado ralo. Aqui e ali se destacam imponentes castanheiras, que podem atingir até 50 metros de altura, com troncos de 2 metros de diâmetro. Foram poupadas pelos tratores, mas estão condenadas a morrer precocemente pela degradação da floresta à qual se integravam. Não muito longe se espraia o Xingu, um curso d"água de cerca de 2 200 quilômetros de extensão que nasce em Mato Grosso e atravessa quase todo o Pará até desaguar no rio Amazonas.
A hidrelétrica de Belo Monte é composta, a rigor, de duas barragens. Na altura em que está sendo instalada, o rio muda de direção. Em vez de continuar a correr rumo ao norte, faz uma curva aguda para o sudeste e, a partir desse ponto, percorre um arco quase circular - como um lábio esticado pelo botoque - até retomar o caminho que vinha descrevendo. É a chamada Volta Grande do Xingu, que se estende por 140 quilômetros. Ali o rio tem a sua maior queda de nível, de cerca de 90 metros entre o início e o fim dessa alça natural.
Um dos diques, o de Pimental, está sendo instalado na extremidade sul do arco. Vai impedir a passagem de boa parte do volume d"água para a Volta Grande, redirecionando-a, em linha reta e ao longo de 20 quilômetros, para a outra ponta da alça, onde o rio retoma seu rumo e se constrói a barragem de Belo Monte. Ao chegar lá, quando tudo estiver pronto, o rio cairá de nível, todos os 90 metros de uma só vez, fazendo girar as turbinas que podem gerar, nos meses de cheia, 11 mil megawatts de energia.
Sozinha, Belo Monte representará o equivalente a quase 10% do total da potência elétrica, de todas as fontes, instalada até hoje no país. Quando pronta, será a terceira maior hidrelétrica do mundo, atrás apenas da Itaipu Binacional e de Três Gargantas, na China. O que nem de longe é suficiente, dizem os especialistas do setor, para suprir o crescimento previsto da demanda por energia elétrica no Brasil nos próximos dez anos.
Estima-se que, a cada 1% de incremento do Produto Interno Bruto, um outro ponto percentual de oferta de energia elétrica precisará ser criado, pelo menos. Essa relação varia de país para país. Em nações ricas, que produzem mais ideias do que bens, exportando serviços sofisticados ou produtos de alto valor agregado, é possível crescer sem demandar tanta energia.
No caso do Brasil, tradicionalmente foi necessário incrementar a carga elétrica numa velocidade maior do que a do aumento do pib - e foi o represamento de rios, ao longo do século xx, que mais contribuiu para acrescentar megawatts às redes de transmissão.
Cerca de 80% do fornecimento de eletricidade hoje no país dependem de hidrelétricas, fato que é celebrado pelo engenheiro e economista Mauricio Tolmasquim. O presidente da Empresa de Pesquisa Energética, a EPE, órgão do governo responsável pelo planejamento de longo prazo do setor, faz lembrar uma castanheira: tem exatos 2 metros de altura.
Em seu escritório no último andar de um prédio moderno no Centro do Rio, em meados de janeiro, Tolmasquim repetiu o principal argumento dos defensores dessa forma de geração: as hidrelétricas produzem energia barata, renovável e pouco poluente. Apesar do uso intensivo, o país ainda tem dois terços de seu potencial inexplorados nos rios, a serem capturados pelas turbinas movidas a água. Do total não aproveitado, 60% estão na bacia amazônica, onde se encontram a maior parte das terras indígenas e a maior floresta tropical do mundo.
A epe planeja construir na Amazônia Legal, nos próximos dez anos, 22 usinas, acrescentando 36 mil megawatts de potência instalada à rede elétrica brasileira. Todos os principais afluentes do Amazonas, em sua margem direita, receberão projetos, como já acontece no rio Madeira, com as hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, e no Xingu.
Sem esse acréscimo de geradoras, afirma o governo, a conta entre demanda de energia projetada para 2021 e a oferta que pode ser garantida aos consumidores não fecha. As substitutas mais óbvias seriam as termelétricas a gás, mais caras e poluentes. Na data do leilão de Belo Monte, a tarifa das térmicas por megawatt produzido era quase o dobro daquela contratada para a geradora do Xingu. A energia eólica, cujo preço se aproxima do praticado pelas geradoras em rios, é na verdade complementar, e não substituta da hidrelétrica: o regime de ventos chega ao ápice entre julho e novembro, justamente quando as bacias fluviais estão mais rasas. Elas só voltarão a encher, com o aumento das chuvas, a partir de dezembro, quando não se pode mais contar com o vento. É em geral nessa época, se os reservatórios das usinas estão baixos, que se especula sobre a necessidade de exigir mais das termelétricas, encarecendo a conta de energia. Tal ameaça pairou, no início deste ano, sobre o corte na conta de luz anunciado pela presidente Dilma.
Ex-presidente da Eletrobras e ex-professor de Tolmasquim, Luiz Pinguelli Rosa é diretor da principal instituição de ensino e pesquisa em engenharia no país, a Coppe, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Pinguelli é favorável à exploração da "fronteira hidrelétrica" do país na região amazônica, embora se mostre cético quanto à possibilidade de o governo realizar todos os projetos anunciados. De maneira pragmática, ele admite que "não há energia santa". Junto com a usina, ele diz, vêm inevitavelmente alagamento, atração de dezenas de milhares de trabalhadores para as obras, estradas que cortam a floresta.
Ciente desses impactos, Tolmasquim diz que o governo pretende construir "usinas plataformas" no rio Tapajós, no sudoeste do Pará, numa região ainda intocada por rodovias ou presença humana mais densa. "A ideia é fazer uma usina que, durante a construção, use estruturas temporárias e não crie cidades. Se fizer a estrada, que depois possa desfazer. Faz o acesso, mas depois refloresta." O problema, ele reconhece, é que isso nunca foi feito. "Não se sabe se dá ou não", admite Tolmasquim. "Se dá para ficar com a usina sem acesso, estamos debatendo ainda. O conceito está sendo desenvolvido. A ideia ainda está em gestação."
O leilão da primeira grande geradora no rio Tapajós, de toda forma, já está previsto para o início do ano que vem. Enquanto o governo aprimora o projeto das "usinas plataformas", não é possível saber, com rigor, o tamanho do impacto ambiental que o conjunto de obras na Amazônia causará.
Críticos da instalação de hidrelétricas na região Norte, como Celio Bermann, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da usp, também questionam a necessidade de geração projetada pelo governo para a próxima década. De toda a eletricidade consumida no país, quase um quinto vai para os chamados grandes consumidores, eletrointensivos, como as cadeias de produção do alumínio, os fabricantes de aço bruto, ferroliga, cimento, papel e celulose. Isso equivale a pouco mais de 40% da demanda industrial total por esse tipo de energia. "São setores de baixo valor agregado; nós apenas atendemos o mercado global com bens que os outros países não querem mais produzir", diz Bermann.
"Não tenho dúvida de que a gente tem de caminhar para um padrão de desenvolvimento mais intensivo em tecnologia, com maior valor agregado e menos conteúdo em energia", responde Tolmasquim. "Mas não é bem assim. Não basta querer. É um processo que toma tempo. Se a gente falar "vou esquecer", "vou planejar o setor elétrico para não dar energia para aço, cimento, papel", vai desempregar o país inteiro, vai ter uma crise monumental. Não constrói usina para eles! Não dá energia! E aí? Fechamos as fábricas todas?"
Num dia nublado do final de dezembro, em uma aldeia encravada na mata e distante duas horas de carro de Altamira, Ozimar Juruna suava em bicas enquanto remexia a farinha de mandioca, com a ajuda de uma espécie de rodo, num panelão raso de 2 metros de diâmetro. Ele tem 43 anos e passou a vida inteira ali, às margens da Volta Grande do Xingu, num pedaço do estado do Pará reconhecido como a Terra Indígena Paquiçamba.
Seus parentes jurunas e também os araras, na outra margem do mesmo trecho de rio, já sentem os efeitos das obras de Belo Monte. Como parte das exigências socioambientais feitas à Norte Energia, empresa vencedora do leilão da hidrelétrica, 34 aldeias em doze terras indígenas próximas ao empreendimento foram beneficiadas com algum tipo de compensação, como melhoria de estradas, perfuração de poços artesianos e a construção de novas casas de farinha. Durante dois anos, entre 2010 e setembro de 2012, as aldeias também receberam, cada uma, ajuda financeira de 30 mil reais mensais.
Quando a usina estiver em funcionamento, a vazão média de água na Volta Grande cairá bastante, sobretudo nos períodos de cheia do rio. O principal impacto, acreditam os índios, será a redução na oferta de peixes, parte essencial de sua alimentação - e de sua independência em relação à cidade. Embora as primeiras turbinas só devam começar a girar em 2015, e a conclusão do empreendimento esteja prevista para 2019, o pescado já começa a faltar, eles dizem.
"A água aqui está mais suja, mais vermelha", afirmou Ozimar, ao fazer uma pausa no trabalho e se afastar do fogo que esquentava a casa de farinha. Ele disse temer também outros efeitos das obras. "A usina está perto e vai atrair muita gente. O emprego por lá não é para sempre. Quem vier e ficar por aqui vai querer tirar madeira, caçar. Vai tudo ficando em menor quantidade. A terra mesmo, podem querer ocupar. Aí vai haver conflito."
Numa outra aldeia juruna, uns quinze minutos de carro rio acima, Leiliane Jacinto Pereira Juruna, de 25 anos, cuidava dos filhos na porta de casa. Ela também reclama que a água barrenta tem prejudicado a pesca - tanto para a alimentação cotidiana quanto para a captura de pequenos peixes ornamentais, que vendem na cidade.
"O que atrapalha também é o barulho e a claridade", comentou, enquanto afagava a filha, chorosa. Leiliane se referia aos holofotes, utilizados para que os trabalhos na usina não parem à noite, e às explosões para a escavação da rocha, que aos poucos vai ganhando o formato da gigantesca barragem. "O costume da gente é caçar quando a noite está bem escura. Agora não existe o escuro mais. A caça também se afastou. Caititu, paca, veado. O porco está sumindo. Acho que estão procurando distância da claridade, da zoada."
A escassez de caça e de pesca, argumentou Leiliane, tem forçado os indígenas da região a irem com mais frequência à cidade. "Antes a gente ia pouco ao mercado. Agora estamos comprando tudo, até carne e peixe", ela disse. Ocorre que, ao mesmo tempo, a capacidade da aldeia para gerar recursos, com a dificuldade de capturar os peixes de aquário, também diminuiu. "Está acabando a renda. E em Altamira está tudo mais caro."
Aos poucos, algumas dezenas de famílias perdem autonomia e correm o risco de se inserirem da pior forma possível na economia da cidade.
Em contraste, boa parte de Altamira, que já é pobre, saúda a chegada da usina como uma oportunidade de melhoria de vida. Nos galpões bem cuidados do Centro de Capacitação do Consórcio Construtor de Belo Monte, 5 300 pessoas, quase sempre jovens, foram treinadas desde 2011 para trabalhar na obra. O objetivo, diz a empresa, é formar 15 mil pessoas - numa cidade que, em 2010, tinha 100 mil habitantes. Os salários, nos melhores casos, não passam de 1 300 reais por mês.
Impactos semelhantes aos que preocupam Ozimar e Leiliane são relatados no rio Madeira, no estado de Rondônia, onde estão sendo construídas as usinas de Jirau e Santo Antônio.
O historiador Iremar Ferreira, integrante do Instituto Madeira Vivo, afirma que "o principal problema com o início da construção foi a morte de peixes, sentida pelas populações indígenas". No Madeira, como em Belo Monte, as empreiteiras construíram escadas nas barragens para tentar facilitar a subida dos peixes, que nadam rio acima na época da reprodução - o fenômeno conhecido como piracema. Ferreira trata como "uma piada" a ideia de que os cardumes continuarão a subir o rio da mesma maneira que faziam quando não havia hidrelétricas. "Na cachoeira normal há poços de repouso. Agora, quando o peixe cansa, ele é lançado de volta para trás."
Algumas centenas de quilômetros a leste do Madeira, duas usinas já estão sendo construídas no rio Teles Pires, em Mato Grosso, um dos principais afluentes do Tapajós. "O impacto aqui é na água", afirma a advogada Juliana de Paula Batista, que presta assessoria aos índios caiabis. "Eles reclamam muito que já diminuiu a quantidade de peixe e que a água do rio está suja. Estamos falando de populações que estão na beira do rio, não num apartamento em Ipanema. Eles pescam ali, caçam ali."
Apesar da existência de diversos movimentos contrários à instalação de usinas, não existe estimativa precisa do número total de índios que serão afetados pelo conjunto das hidrelétricas na Amazônia. O antropólogo da Universidade de Brasília Ricardo Verdum publicou no ano passado um levantamento de terras indígenas próximas a diversos empreendimentos na região, sujeitas aos impactos. Considerando apenas as áreas no entorno das hidrelétricas planejadas para os rios Madeira, Teles Pires, Tapajós e Xingu, e cruzando essa listagem com a população desses territórios segundo o Instituto Socioambiental, a mais respeitada organização de monitoramento da situação indígena no país, chega-se a cerca de 20 mil índios que podem vir a ser afetados, de uma maneira ou de outra, pelo avanço da fronteira hidrelétrica brasileira.
Em seu escritório com vista para o rio, dom Erwin Kräutler, bispo do Xingu, se disse alarmado com os planos de construção de usinas na Amazônia.
O clérigo, que se define como um brasileiro nascido na Áustria, vive ameaçado de morte numa casa em Altamira guardada por modernas câmeras de segurança. Não dá um passo na rua sem a companhia dos quatro policiais militares que fazem a sua proteção. Era amigo da freira Dorothy Stang, assassinada em 2005 com seis tiros. Trabalhavam juntos no combate à ocupação irregular da terra e à ação de madeireiros na região.
Para dom Erwin, o impacto das obras e a redução da autonomia de muitos povos podem ter "consequências fatais" para os indígenas. "O sujeito não deixa de ser índio, mas acaba desaldeado e não tem mais aquele relacionamento umbilical com a sua comunidade. Se ele termina aqui, perambulando pela cidade, está como um peixe fora d"água. Ele não se adapta. E às vezes entra nos vícios do branco. Todo mundo o trata com desdém, ele não tem profissão, o que vai fazer?"
"O que a gente vê é um rastro de destruição muito grande", afirma o procurador da República Felício Pontes Júnior, que atua no Pará e tem movido ações contra Belo Monte. "Aonde se chega com isso? O exemplo no final da linha são os guaranis-caiovás", ele disse, em referência ao grupo do Mato Grosso do Sul que vive confinado em parcelas diminutas de terra ou em acampamentos precários às margens das rodovias. "As pessoas ficam completamente sem norte, e muitas se suicidam. Você tem uma perda cultural extrema e isso naturalmente vai levar a uma desestruturação social daqueles povos."
A ameaça representada por grandes projetos na Amazônia não é novidade para os índios da região, para os caiapós e para Raoni. A violência que ainda ameaça dom Erwin ganhou intensidade em Mato Grosso e no Pará a partir dos anos 60, na esteira de projetos estatais.
A ocupação da terra por grandes propriedades agrícolas, incentivada pelo governo militar, provocou conflitos generalizados nos anos 70 e inúmeros massacres contra os povos indígenas, afirma Ariovaldo Umbelino de Oliveira, professor de geografia agrária da usp. "Cada situação teve um quadro diferente. Por exemplo, um grande pecuarista que era aqui de São Paulo, quando os índios se aproximaram, lá na região do vale do rio Arinos, em Mato Grosso, passou a doar açúcar. Ele dava açúcar envenenado com arsênico para os índios. Muitos xavantes foram retirados de seus territórios com a ajuda da fab. Quando se abria a rodovia Cuiabá-Santarém e houve o contato com os chamados índios gigantes, os panarás, só pela proximidade com os trabalhadores eles foram morrendo. Eles não tinham resistência às doenças da nossa sociedade."
Na estrada que matou muitos panarás se localizam, hoje, importantes centros produtores de soja, como Lucas do Rio Verde, Sorriso e Sinop, algumas das cidades que mais crescem no país e que puxam o medíocre avanço do pib brasileiro. No ano passado, enquanto o conjunto da produção aumentou cerca de 1% no Brasil, o Centro-Oeste cresceu mais de 3%.
No norte de Mato Grosso, os militares começaram, em 1971, a abrir a BR-080, uma rodovia quase tão ambiciosa quanto a Cuiabá-Santarém, hoje em grande parte reduzida a uma estrada de terra estadual, a MT-322, que cruza de forma transversal o estado. O Parque Nacional do Xingu, criado em 1961, foi cortado pelo empreendimento em sua porção norte, onde já viviam os caiapós.
A demarcação do hoje denominado Parque Indígena do Xingu representou uma virada na política indigenista do país, segundo o antropólogo Carlos Fausto, professor do Museu Nacional, ligado à ufrj. Até então, os limites das terras eram propositalmente reduzidos, tendo como objetivo forçar a integração dos povos autóctones à economia nacional. A iniciativa dos irmãos Villas-Bôas buscava, ao contrário, retardar ao máximo esse processo, "e para isso eles precisavam da maior quantidade de terra possível", afirma Fausto. "Antes não havia uma correlação entre o território segundo a lógica indígena e a área reconhecida pelo Estado. Isso aconteceu pela primeira vez com a luta pela criação do Parque do Xingu."
O projeto militar de integração da Amazônia não se deteve diante desses ideais. Uma fatia do território criado em 1961 foi extirpada, ao norte da br-080, e Orlando Villas-Bôas achou melhor incentivar os caiapós a se mudarem para dentro das novas fronteiras do parque. Parte dos mebêngôkre recusou o convite, mas outros, liderados por Raoni, migraram rumo ao sul. Eles aguardariam, ansiosos, a chance de retomar suas terras - o que só veio a acontecer treze anos depois, em 1984.
A oportunidade surgiu quando Raoni e Megaron ouviram falar de Cláudio Romero, um funcionário da Funai que começou sua carreira tocando fogo, literalmente, no Centro-Oeste. Romero tem hoje 62 anos. Sua barba branca e a estatura baixa lhe dão um ar de padre da província. Estudou ciências sociais em Rio Claro, no estado de São Paulo, no início dos anos 70, e diz ter-se convencido a trabalhar com os índios ao ouvir os relatos de um grupo de xavantes que visitou a cidade, em 1974. "Antes meu negócio era operário, era revolução."
Aprovado no concurso da Funai, Romero pediu para trabalhar com os xavantes, em Mato Grosso. Grande parte das terras tradicionais desse povo, a essa altura, estava ocupada por fazendeiros oriundos do Rio Grande do Sul. "Cheguei lá e comecei a expulsar essa gente, esses gaúchos. Demarcamos as terras. Botei para fora, tacando fogo nas fazendas. Eu era meio doido. Chegava com um monte de índio e queimava tudo." Foi também a primeira vez, ele disse, que os indígenas usaram um método novo, patrocinado por ele, para conseguirem a demarcação de terras. "Tomamos muita fazenda na bala", ele me contou, numa conversa em Brasília, em novembro passado.
O método seria repetido com os guajajaras, no Maranhão, e com os pataxós, na Bahia, no início dos anos 80. "Todo mundo queria o meu fígado. Fui praticamente expulso da Bahia. O Antônio Carlos Magalhães queria me matar, dizia que eu era comunista. Resolveram então me colocar para cuidar da Casa do Índio, um lugar que a Funai mantinha em Brasília. Nessa época, o Megaron e o Raoni passavam muito por lá quando iam para São Paulo, onde ainda ficava o posto de apoio do parque. Fiquei amigo deles."
Vários chefes xinguanos, então, liderados por Raoni, resolveram pedir ao governo que Romero fosse nomeado administrador do parque. Questionado, na época, sobre as razões para o pedido, o líder caiapó respondeu que o funcionário era "amigo dos índios": "A gente sabe que ele já demarcou terra pros parentes."
A tensão entre brancos e indígenas atingira um ponto crítico, no início dos anos 80, na área ao norte do parque que havia sido extirpada pelos militares. A margem direita do rio Xingu, a partir da BR-080, vinha sendo ocupada por posseiros brancos. Raoni desejava que o governo demarcasse a terra, reservando uma área de 40 quilômetros a leste do rio, para impedir as invasões. Em fevereiro de 1984, segundo a cronologia do que ficou conhecido como a "guerra no Xingu", publicada pelas antropólogas Vanessa Lea e Mariana Ferreira no ano seguinte, Raoni foi a Brasília, prometendo agir se a Funai não fizesse a demarcação até abril. O presidente do órgão indigenista, Otávio Ferreira Lima, assumiu um compromisso de se reunir com as lideranças do parque, na terra deles, no dia 24 de março.
Na véspera da reunião, conta Romero, Raoni o procurou. ""Cláudio", ele disse, "passa um rádio para Brasília para saber onde é que vai descer o pessoal do presidente da Funai, se é no Kretire ou se é no Vigilante." Kretire era o lugar onde eles moravam, 25 minutos de barco ao sul da estrada, subindo pelo rio Xingu. O posto de vigilância ficava na BR-080, com pista feita pela fab. Passei o rádio. À tarde veio a resposta que os caras não iam mais, que o presidente já tinha se reunido com os fazendeiros em Brasília. Aí os índios ficaram muito bravos."
Segundo Vanessa Lea, naquele dia 33 líderes de diferentes povos do Xingu já se encontravam mobilizados na aldeia do Kretire, à espera do presidente da Funai. Reunidos na casa dos homens, um espaço tradicional dos mebêngôkre que fica no meio da aldeia circular, eles decidiram reagir. A ideia era anunciar às autoridades em Brasília o sequestro de quatro funcionários brancos que trabalhavam na aldeia - entre eles o próprio Cláudio Romero - e tomar a balsa motorizada que faz a travessia do Xingu na altura em que o rio corta a BR-080, interrompendo o tráfego de carros e caminhões. Só voltariam atrás se o governo aceitasse a exigência de demarcação das terras ao norte da estrada.
O primeiro obstáculo era um destacamento de doze policiais que montava guarda no posto de vigilância e garantia a segurança da balsa. Romero disse aos índios que tinha uma ideia para se livrar da polícia sem que ninguém saísse machucado. No dia seguinte, tomou um barco no Kretire e foi ter com os militares. "Eles estavam lá, tranquilos, ouvindo num radinho de pilha aquelas músicas tristes para quem tem a mãe na zona."
O administrador do parque anunciou ao sargento encarregado da turma que iria de caminhão até a cidade mais próxima, São José do Xingu, conhecida como "Bang-Bang". Teria que ficar na vila até tarde da noite. Se quisessem, podiam pegar carona na ida e na volta. Sem pensar duas vezes, o sargento deu ordem: "Vamos embora! Todo mundo se veste rápido!" Chegaram à cidade por volta das oito, os soldados na parte de trás do caminhão, o comandante do grupo na boleia com Romero e o motorista.
"Já na entrada do "Bangue" tinha a zona, e eles ficaram por lá mesmo", contou Romero. "Combinei que buscava todo mundo à uma da manhã. Fomos para uma venda grande que tinha lá. Falei com o dono que precisava comprar comida, para uma reunião. Levei feijão, arroz, macarrão, óleo, bolacha. Comprei tudo que o cara tinha. E bala. Comprei toda a munição. Chumbo, pólvora, calibre 38, calibre 44, 26, o que tinha eu comprei." Saindo dali, fizeram uma parada em outro armazém. Compraram ainda mais munição.
"E agora?", o motorista perguntou a Romero. "Agora nós vamos passar por fora da cidade, para ninguém ver a gente." "E os soldados? E o sargento?", o funcionário, já nervoso, quis saber. "Eu quero que o sargento se foda, rapaz; vamos embora daqui", respondeu. Sem a presença policial, os índios tomaram a balsa com tranquilidade e interromperam o tráfego na br-080. Romero voltou para o Kretire com o carregamento comprado fiado na cidade, preparado para aguentar o tempo que fosse necessário.
No dia 14 de abril, quase três semanas depois de iniciada a revolta, três representantes da Funai foram enviados para a região a fim de negociar com os índios. Chegaram à aldeia Piaraçu, a mais próxima do local de travessia da balsa. Raoni e o sobrinho foram encontrá-los. "Daqui a pouco, enquanto estávamos conversando", contou Megaron, "chegou o pessoal." Uma centena de índios. "Os caiabis logo foram tirando a roupa deles. Outros queriam bater. Nós não deixamos, controlamos a situação." Poupados de agressões mais graves, os funcionários foram feitos reféns e levados para o Kretire.
Em seu relato, Vanessa Lea afirma que, "no clima de tensão que reinava, os índios dormiam pouco, temendo uma invasão para resgatar os prisioneiros". Pelo rádio, eles ficaram sabendo que uma nova balsa, escoltada por oitenta policiais militares, havia saído de Cuiabá e estava sendo levada, de caminhão, para o parque. Romero disse ter proposto, então, uma marcha de 40 quilômetros, a pé, para tentarem derrubar uma ponte da BR-080 que passava sobre o rio Jarina. "Aquele monte de gente sentada, pintada de preto. Quando terminei de explicar, perguntei: "Quem quer ir?" Levantaram todos ao mesmo tempo, uns 300 índios, batendo no peito: "Bá, bá, bá." "Eu, eu, eu." Fomos até lá, carregando machado, gasolina e óleo diesel. Derrubamos a ponte, e isolamos os caras."
Pressionado, o ministro do Interior do último governo militar, Mário Andreazza, aceitou se reunir com Megaron e outras lideranças jovens do Xingu, no início de maio de 84. Os caiapós acabaram conseguindo muito mais do que pediam antes da revolta. As negociações levaram o governo a demitir o presidente da Funai e a aceitar a demarcação de 15 quilômetros a leste do rio e 70 quilômetros ao norte da rodovia federal. A polícia foi retirada da área, e o controle da balsa foi entregue aos mebêngôkre. Os militares também aceitaram demarcar a área indígena Capoto-Jarina, a oeste do rio, que alcança hoje 635 mil hectares.
Os reféns foram afinal libertados no dia 2 de maio. Raoni viajou a Brasília para negociar os termos finais da troca. O ministro do Interior, além da derrota, teve que aguentar a humilhação. Na reunião para fechar o acordo, o líder caiapó puxou a orelha de Andreazza e brincou, diante da imprensa: "Aceito ser seu amigo, mas você tem que ouvir o índio."
Ainda em 1984 e no início de 1985, Raoni ajudaria Cláudio Romero a enfrentar fazendeiros no norte de Goiás, hoje Tocantins, e assim garantir a demarcação de terras para os apinajés. Viajaram juntos também à Bahia, onde se questionava a "autenticidade" de índios pataxós. Com a autoridade de sua borduna - a arma de madeira típica dos caiapós - e de seu botoque, o líder mebêngôkre fez declarações públicas de apoio aos parentes baianos.
Ao se lembrar desse momento de sua vida, em sua casa na aldeia Metuktire, Raoni se referiu a Romero, segundo a tradução de Bemoro, como "um amigo de coração". "Brigamos juntos, conquistamos nossa luta juntos."
Tão importantes quanto a parceria com Cláudio Romero foram as alianças que o líder caiapó estabeleceu com os kuben estrangeiros, desde o início de sua trajetória pública. Em meados dos anos 70, o diretor belga Jean-Pierre Dutilleux viajou ao Xingu a fim de realizar um documentário para a BBC. Lá conheceu os mebêngôkre e decidiu que deveria fazer deles o tema de um filme específico. Segundo o cineasta Luiz Carlos Saldanha, codiretor de Raoni, lançado em 1978 e indicado ao Oscar de melhor documentário, o protagonista da história impressionava, imediatamente, por seu carisma. "O que chamava a atenção é que ele era um homem valente, grande, com capacidade de liderança inata."
Em sua versão norte-americana, a fita tem a narração do ator Marlon Brando, conhecido por seu apoio à causa indígena. O filme alavancou a fama de Raoni no mundo e no Brasil.
Foi também Dutilleux quem apresentou o brasileiro ao músico inglês Sting, durante uma turnê no país, em 1987. Num dos primeiros encontros, o ex-vocalista da banda The Police perguntou o que poderia fazer para ajudá-lo. Raoni foi direto ao ponto: disse que precisava de dinheiro para demarcar uma área contígua ao norte da recém-conquistada Capoto-Jarina, a Terra Indígena Menkragnoti. Com quase 5 milhões de hectares, o território é pouco maior do que o estado do Rio de Janeiro.
Embora o processo de reconhecimento de uma terra indígena dependa da iniciativa política do Poder Executivo, a demarcação propriamente dita demanda recursos para abrir picadas, contratar técnicos, fazer medições que serão registradas em cartório. Em 1989, Sting ajudou a organizar a viagem, com escalas nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, em que os dois, sob os holofotes da imprensa mundial, conseguiram levantar a verba necessária para o empreendimento.
A promulgação da Constituição de 1988 e o auge da influência do movimento ambientalista sobre o governo brasileiro - o país sediaria a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco-92 - contribuíram para que o Menkragnoti e muitas outras áreas indígenas fossem reconhecidos no início dos anos 90.
Já nessa época, contudo, Sting começou a se desentender com Dutilleux. Megaron contou que numa reunião na Inglaterra, na qual se tratou da criação de uma ongpara recolher e administrar recursos com vistas à demarcação do Menkragnoti, o cantor, já desconfiado do cineasta, sugeriu que ele se afastasse da iniciativa.
Depois de alcançado o objetivo assumido com Raoni, o próprio Sting se afastou. O líder caiapó continuou, pelos anos seguintes, a fazer viagens regulares à Europa, organizadas por Dutilleux, que passou a liderar a Association pour la Forêt Vierge (AFV), organização responsável por representar o líder mebêngôkre. "Ele continuou a ganhar dinheiro com a imagem do meu tio", disse Megaron, recentemente. A relação entre o belga e os caiapós foi aos poucos se deteriorando. Raoni e Bemoro afirmaram desconfiar que Dutilleux recolhia recursos em nome dos índios sem os repassar ao Brasil - ou transferindo apenas uma pequena parte do que amealhava. Para piorar, na penúltima visita a países europeus, em 2011, o cineasta tentou dissuadir o líder mebêngôkre de falar sobre o assunto que mais lhe interessava: Belo Monte. "Ele chegou a segurar o braço do Raoni, para ele não falar", contou Bemoro, aparentando ainda estar surpreso e indignado com o gesto. Numa nota publicada no site da AFVv, a organização francesa afirma que uma luta desse porte, contra a hidrelétrica, não estava ao alcance de "sua pequena estrutura de frágeis recursos".
Foi nesse momento que uma espécie de dissidência da ongfoi fundada. Gert-Peter Bruch, que trabalhava com Dutilleux e gerenciava o site que leva o nome de Raoni (www.raoni.com), fundou uma nova organização, a Planète Amazone, levando consigo o endereço eletrônico e o apoio dos caiapós para representá-los no exterior. Bruch se encarregou de organizar a mais recente viagem do grupo à França e demais países europeus.
Era visível a emoção de Raoni, em janeiro, quando pedi a ele que falasse sobre Sting. "Por causa do Jean-Pierre, faz muito tempo que a gente não se fala", disse, sentado no chão de sua casa ampla, de escassos bens - algumas malas, canecas de alumínio, uma garrafa térmica, roupas, quase tudo empilhado sobre um estrado nos fundos da construção. "É meu grande amigo e nunca vou me esquecer dele na minha vida."
A busca por alianças e por recursos - políticos, territoriais, financeiros - foi a resposta que os caiapós encontraram para enfrentar uma situação adversa, seguindo a lógica do que o antropólogo Cesar Gordon, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama de "temperamento coletivo" dos mebêngôkre.
Para realizar sua tese de doutorado, Gordon estudou o subgrupo xikrin-mebêngôkre. Ele se refere aos caiapós em geral como um povo "muito corajoso e orgulhoso", que tem aversão a cair na autopiedade e na autovitimização. "A pergunta deles é por que os brancos podem ter tantas coisas, e os mebêngôkre, não. Da perspectiva caiapó, para ter alguma força política, eles precisavam obter os meios prévios de ação: dinheiro, capacidade de transporte e de comunicação."
No final dos anos 80, diferentes grupos mebêngôkre vinham conseguindo crescente acesso a esses "meios". Ao norte das terras dos metuktire, já no Pará, líderes como Paulinho Payakã e "coronel" Pombo tomaram a decisão de cobrar royalties dos madeireiros e garimpos ilegais que atuavam em suas terras. Raoni era crítico dessa aliança, sustentam Cláudio Romero e André Villas-Bôas, secretário-executivo e responsável pelo trabalho com os povos xinguanos no Instituto Socioambiental. "Na área dele isso não aconteceu, e ele expressava a vontade de não deixar as madeireiras entrarem", afirmou Villas-Bôas. "Ao mesmo tempo, não havia, nas suas terras, a mesma abundância de recursos das outras áreas."
Naquele momento, pela primeira vez em muito tempo, as circunstâncias políticas no país pareciam relativamente favoráveis aos povos indígenas, em geral, e aos caiapós, em particular. Além dos recursos e das alianças, como as construídas por Raoni, a nova Constituição trazia a perspectiva de amplas demarcações, resultado de uma "retração da direita" após o final da ditadura, na avaliação do antropólogo Carlos Fausto, da UFRJ. Ainda em 1988, contudo, uma nova ameaça surgiu no horizonte
Um plano de longo prazo de expansão energética divulgado pelo governo indicava que o aproveitamento máximo da bacia do Xingu aconteceria com a construção de cinco usinas hidrelétricas no rio, com impactos diretos e indiretos sobre vários grupos caiapós, inclusive os que habitavam aquela que viria a ser a Terra Indígena Menkragnoti.
"Nós divulgávamos todos os pontos em que cabia usina na Amazônia, mas não é que fôssemos construir todas", me disse, no início de dezembro, José Antonio Muniz Lopes, hoje diretor de transmissão da Eletrobras.
Muniz Lopes é um maranhense de 67 anos que nasceu numa casa de taipa coberta com as folhas do babaçu, não muito diferente daquelas em que ainda vivem muitos índios mebêngôkre. Estudou engenharia no Recife e fez carreira no sistema elétrico brasileiro. Trabalhou na Companhia Hidro Elétrica do São Francisco, a Chesf, e fez amizades na empresa de energia do Maranhão. Com a chegada de José Sarney à Presidência, em 1985, foi trabalhar na Eletronorte.
Em seu escritório no Rio de Janeiro, em dezembro passado, ele anunciou com orgulho, em referência às obras projetadas para a bacia amazônica: "Todos esses projetos hoje aí foram da minha passagem pela Eletronorte."
A prioridade para o Xingu, no final dos anos 80, ele disse, era construir duas grandes usinas: Kararaô, que grosso modo equivale à atual Belo Monte, e Babaquara, uma geradora que reteria grande quantidade de água ao sul de Altamira, o suficiente para alimentar, com grande aproveitamento, suas próprias turbinas e também as de Kararaô. Somados, os reservatórios das duas hidrelétricas inundariam uma área de quase 18 mil quilômetros quadrados. No projeto atual, o lago de Belo Monte terá uma superfície de cerca de 500 quilômetros quadrados.
Foi o suficiente para alarmar os caiapós. No final de 1988, procuraram dom Erwin Kräutler, um antigo aliado que fala mebêngôkre com desenvoltura. Queriam organizar, às pressas, um grande encontro de repúdio às hidrelétricas. Dom Erwin tentou argumentar que era impossível, que o tempo era curto, mas eles insistiram. Com o apoio da Igreja Católica e de entidades ambientalistas, o 1o Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, descrito por Cesar Gordon como "uma espécie de clímax das mobilizações dos anos 80", teve início no dia 20 de fevereiro de 1989.
As atenções mundiais já haviam se voltado para a Amazônia em dezembro de 1988, após a morte do líder seringueiro Chico Mendes, assassinado com um tiro de escopeta, em Xapuri, no Acre. Cerca de mil índios e uma centena de jornalistas, com grande presença da imprensa internacional, se reuniram semanas depois em Altamira para os debates e as manifestações do encontro indígena, realizado num velho ginásio da cidade.
Para abrigar quem se deslocava até a região, uma chácara da Igreja foi cedida por dom Erwin, e lá se montou um gigantesco acampamento. O líder indígena Marcos Terena ajudava na organização do encontro. "Ecologistas do mundo todo foram para lá", contou Terena. "A ideia era defender o rio Xingu. Acontece que os caiapós têm o costume de carregar tartaruga amarrada, uma embaixo da outra. Na primeira noite do acampamento, eles chegaram com essas tartarugas empilhadas na cabeça. Quando você olha por trás, parece um cocar de tartarugas. Os ecologistas europeus, entusiasmados, aplaudiram a entrada deles, aquela interação dos caiapós com a natureza."
Quando a noite chegou, Terena se lembra, fizeram uma fogueira. "Os índios chamaram os ecologistas para conversar. Enquanto falavam, eles tiravam uma tartaruga da pilha e jogavam, ainda viva, no fogo. Os europeus reagiram: "Mas o que é isso? O índio está matando a tartaruga!" Os caiapós, sem entender, responderam: "Mas é a nossa comida, pô.""
José Antonio Muniz Lopes, então diretor de planejamento da Eletronorte, foi convidado a participar do encontro. No segundo dia de atividades, diante de centenas de índios, muitos armados com facões e bordunas, ele deveria explicar as razões do governo para erguer uma barragem no rio Xingu. O funcionário da Eletronorte tinha ao menos uma notícia que, acreditava, seria bem recebida pelos caiapós. Apenas uma usina deveria ser construída, e seu nome, Kararaô, considerado ofensivo por ser uma palavra indígena aplicada a um projeto indesejado dos brancos, seria substituído por Belo Monte.
"Era um ginásio velho, cheio de gente. A temperatura estava alta. Eu falava, e o Paulinho Payakã traduzia o que eu estava dizendo. Alguns homens e mulheres iam até a mesa e batiam no meu peito. Encostavam a borduna em mim. Mas antropólogos que eu conhecia me haviam dito para segurar firme, e eu segurei."
No meio da confusão de vozes e gente, o engenheiro não percebeu quando uma índia caiapó, chamada Tuíra, se levantou no meio da multidão e caminhou até a mesa. "Eu não vi que ela tinha um facão na mão", contou. A lâmina roçou seu rosto e o metal empurrou as bochechas dos dois lados da cabeça, como se ele estivesse na cadeira de um barbeiro munido de uma navalha gigante. Muniz Lopes permaneceu imóvel, paralisado. "Não senti medo", ele me disse em dezembro, 24 anos depois do episódio.
A ameaça de Tuíra foi traduzida em palavras por Raoni, no último dia do encontro. "Se o chefe de vocês", ele disse, "o Sarney, continuar com o plano de fazer barragem, eu vou fazer guerra contra ele."
Ambientalistas creditam ao encontro e à pressão internacional ao menos parte da responsabilidade pela suspensão do projeto de Belo Monte na década seguinte. Paulinho Payakã havia viajado a Washington, antes do congresso de Altamira, para se encontrar com diretores-executivos do Banco Mundial. Àquela altura, organizações norte-americanas e europeias já vinham pressionando os órgãos de assistência multilateral por causa dos impactos sociais e ambientais dos projetos que financiavam.
Muniz Lopes reconhece que uma linha de crédito do Banco Mundial para o setor elétrico foi interrompida nessa época. Mas afirma que as obras não foram adiante, naquele momento, porque o país estava quebrado. "Não havia mais recursos. Parou tudo. O setor elétrico também quebrou."
O próprio Muniz Lopes foi embora. "No governo Collor, eu saí; quando voltei, no governo Fernando Henrique, em 1996, para ser presidente da Eletronorte, eu retomei os estudos de Belo Monte." Mas a falta de investimentos na geração de energia perdurou, com o resultado conhecido do apagão e do racionamento de energia em 2001.
Com a vitória de Lula, o engenheiro maranhense mais uma vez ficou alijado de cargos na máquina estatal. Foi vender seus serviços na iniciativa privada. "Eu fui contratado por empresas brasileiras que se uniram e me ofereceram para continuar trabalhando, para ver se Belo Monte não morria. Fui morar em São Paulo e fazer um trabalho de catequese. Chamava-se Consórcio Brasil." Desse consórcio, declarou Muniz Lopes, faziam parte grandes empreiteiras, como Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez.
"A ideia é que eu trabalhasse para mostrar que a usina era boa. Passei cinco anos fazendo esse trabalho. No Congresso, nas universidades. Nesse ínterim eu convenci a Camargo Corrêa a retomar os estudos de Tapajós, que estavam parados. Foi daí que surgiu a ideia das usinas no Tapajós."
Em 2008, Muniz Lopes voltou ao governo, desta vez para ocupar o cargo mais alto de sua carreira, a presidência da Eletrobras - que pouco depois viria a se tornar a maior acionista individual do consórcio vencedor do leilão de Belo Monte, a Norte Energia. Somadas as participações da Eletrobras e de suas subsidiárias Chesf e Eletronorte, a companhia controlada pelo governo detém 49,98% da empresa que administrará a geradora no Xingu. Outros 20% pertencem aos fundos de pensão ligados à Petrobras e à Caixa Econômica Federal. Quase 78% do custo total de Belo Monte, de pouco menos de 30 bilhões de reais, serão financiados pelo BNDES.
Andrade Gutierrez, Odebrecht e Camargo Corrêa, que haviam contratado Muniz Lopes para "manter viva" a ideia da usina, detêm, juntas, 50% do Consórcio Construtor de Belo Monte, o ccbm, contratado pela Norte Energia. Segundo a assessoria do ccbm, o consórcio receberá 14 bilhões de reais pelas obras.
"Belo Monte é a forra", disse em novembro André Villas-Bôas. "É o Brasil rico, com grana, sem precisar consultar ninguém, dizendo: "Agora vamos fazer. Foda-se.""
Em 2007 foi afinal concluído um novo inventário do potencial energético do Xingu, encomendado pelo governo federal. Uma das alternativas detalhadas no documento previa a instalação de quatro usinas ao longo do rio.
No ano seguinte, o Conselho Nacional de Política Energética, órgão de assessoria da Presidência integrado por ministros, representantes da sociedade civil e pelo presidente da Empresa de Pesquisa Energética, determinou que apenas Belo Monte seria construída naquele afluente do Amazonas. O novo projeto também reduzia a área alagada pela barragem. Foram decisões tomadas, argumentou Mauricio Tolmasquim, por causa da "comoção em torno da hidrelétrica" e tendo em mente possíveis impactos socioambientais no Xingu. A comoção, contudo, continuou. No final de 2011, um grupo de atores da TV Globo gravou um vídeo crítico à hidrelétrica, amplamente divulgado pela internet. O texto lido por eles dizia que "abaixo da barragem o rio banha o Parque Nacional do Xingu", o qual estaria, portanto, sob risco. Na verdade o parque se encontra cerca de 1 300 quilômetros a montante da usina.
A modificação do projeto trouxe consequências negativas - dos pontos de vista técnico e econômico - para o rendimento da usina. Como a vazão do rio varia muito ao longo do ano, e Belo Monte não tem reservatório, seu aproveitamento de energia será em torno de 42% dos 11 mil megawatts de potência instalada. É um valor pequeno para padrões brasileiros - na média superior a 50% -, mas semelhante ao que ocorre em geradoras nos Estados Unidos e na Europa. Se outra barragem que acumulasse água fosse instalada a montante do rio, como estava previsto no projeto dos anos 80, a geração de energia pelas caras turbinas da usina seria maior.
"Poderia melhorar muito o aproveitamento de Belo Monte", afirmou o diretor de engenharia e construção da Norte Energia, Antônio Kelson Elias Filho, em dezembro, em seu escritório de Altamira.
Megaron e dom Erwin estão convencidos de que a razão econômica falará mais alto e, em algum momento, o Estado brasileiro tentará erguer novas barragens no rio. "Não posso falar sobre essa decisão porque é uma política de governo", disse Kelson quando questionado sobre a construção de novas usinas. "Mas, como brasileiro e como engenheiro, eu diria que deveríamos aproveitar ao máximo esse potencial hídrico que nós temos. Ele é muito melhor do que ter que queimar combustíveis fósseis nas termelétricas ou usar energia nuclear."
Segundo Tolmasquim, não há nenhuma garantia pétrea de que um governo futuro não vá reavivar os projetos para outras usinas no Xingu. "Até Constituição muda. Mas hoje tem uma decisão nesse sentido, de não fazer. Essa é a posição do governo. Hoje, essa é a posição."
Do ponto de vista político, o futuro não é nada animador para Raoni e seus parentes. "Houve um período de enorme avanço entre o final dos anos 80 e início dos 90, mas depois os interesses contrários começaram a reagir", avalia o antropólogo Carlos Fausto. No ano passado, a Proposta de Emenda à Constituição no 215 foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça na Câmara dos Deputados. O texto, ainda em tramitação, transfere ao Congresso a prerrogativa, hoje exercida pela Funai e pelo Executivo, de "aprovar a demarcação" de terras indígenas e "ratificar as demarcações já homologadas". Para os críticos da iniciativa, essa é uma tentativa da base ruralista de limitar o acesso dos índios a seus territórios tradicionais. "Isso, evidentemente, é a reação mais contundente ao avanço dos direitos dos povos indígenas, e seria um desastre completo", afirmou Fausto.
As ocasionais alianças de índios com madeireiros e garimpeiros, além de serem ilegais, são apresentadas como provas do mau gerenciamento do território à sua disposição. No entanto, o desmatamento é ínfimo nas terras indígenas. Embora elas ocupem cerca de 40% da área da bacia do rio Xingu, são responsáveis por menos de 3% da derrubada de árvores na região. "As terras indígenas frearam a ocupação desordenada da Amazônia e são responsáveis por proteger uma área significativa da mata", argumenta André Villas-Bôas. "Nas franjas das frentes de colonização, elas são ilhas de floresta, como se pode ver nas imagens por satélite. Isso é um serviço socioambiental que os índios prestam, e que a sociedade tem dificuldade de perceber."
A necessidade de garantir terras aos índios também é questionada a partir da ideia de que a assimilação desses povos à sociedade branca já acontece, e de maneira acelerada. Em novembro passado, uma pesquisa do instituto Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil, constatou que 66% dos indígenas têm fogão, 63% possuem televisão e 51%, geladeira. Foram entrevistados, para o levantamento, apenas indivíduos que falavam português. O senso comum é de que isso representaria uma integração à "vida urbana" que os tornaria menos índios - e assim já não faria sentido lhes conceder territórios e proteções especiais.
A incorporação de bens dos brancos, sejam eles facões, relógios ou geladeiras, não determina que alguém seja mais ou menos índio, argumenta o antropólogo Cesar Gordon, que estudou os caiapós. Entre os povos indígenas das Américas, aliás, a incorporação de bens e saberes alheios é o nome do jogo. Nos mitos mebêngôkre, o domínio do fogo e da capacidade de cozinhar a carne da caça, definidores da distinção entre "pessoa" e "animal", foi roubado de um bicho, o jaguar. A coragem, por sua vez, foi tomada emprestada com a retirada das plumas de uma grande ave predadora, o gavião-real, que os índios passaram a usar como enfeite, na cabeça.
Passando ao registro da história, Cesar Gordon anota em seu livro Economia Selvagem que, antes do contato mais intenso com os brancos, os mebêngôkre travavam dois tipos de guerra. De outros povos caiapós, roubavam mulheres e crianças - ou seja, incorporavam parentes. Dos demais grupos indígenas, quando vitoriosos, traziam bens culturais - novos objetos, tipos de dança ou de enfeite -, que aos poucos passavam a fazer parte de suas próprias tradições. No mito ou na guerra, ao se apropriarem das coisas alheias, eles não se tornavam menos caiapós. Ao contrário.
É claro, argumenta Gordon, que os índios também se angustiam com a possibilidade de "virar brancos", e que suas sociedades, como a nossa, estão sujeitas a mudanças históricas. "Todas as culturas sofrem perdas e ao mesmo tempo obtêm ganhos por meio das trocas culturais. Algumas tendem a ser mais conservadoras, preferem manter o que já conhecem a arriscar mudanças desconhecidas."
O problema, ele diz, não está na relação de troca, mas na assimetria de poder, entendido como capacidade de ação e de decisão sobre o próprio destino. "Pois a assimetria acaba se transformando em controle, e, assim, tira de uma das partes o direito de decidir como quer conduzir a vida: mudando muito, e rapidamente; ou pouco, e lentamente. Um povo tem que ser livre e autônomo para refletir e decidir, ele mesmo, o grau de mudança que deseja suportar. Eu creio que esse deveria ser o horizonte político: a busca de uma simetria mínima, que garanta a liberdade de decidir."
Na conversa que tivemos na aldeia Metuktire, perguntei a Raoni como ele avaliava as condições atuais de sua luta política - se as dificuldades não lhe pareciam maiores, e as vitórias, mais raras. A noite já havia caído, e uma lâmpada de luz fria, alimentada por gerador, iluminava precariamente a sua casa. "Estou lutando ainda, confie em mim", ele me disse, de maneira afetuosa, como se oferecesse proteção. "Eu tenho que vencer a Dilma."
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