terça-feira, julho 31, 2012

O IGP-M surpreende - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 31/07


O avanço do IGP-M em julho, de 1,34%, foi mais do que o dobro do registrado no mês anterior. Mais ainda, ficou muito além do que estava nos radares dos observadores. Ontem, por exemplo, o Banco Central divulgou sua Pesquisa Focus, levantada semanalmente entre cerca de 100 consultorias, bancos e diretorias de Finanças. E, no entanto, na média, a expectativa era de que o IGP-M não passaria de 0,99%.

Essa esticada preocupa por que, em geral, antecede o que acontecerá depois com o custo de vida. Explicando melhor, o IGP-M é um cestão de preços em que o que se passa no mercado atacadista entra com nada menos que 60% de sua composição. Como o que ocorre no atacado costuma antecipar o que virá depois no varejo, pode-se prever novo foco de pressão sobre o custo de vida, ou seja, sobre o IPCA, o medidor de inflação que é tomado para a definição dos juros.

Preocupa, também, porque o IGP-M continua sendo fortemente utilizado para corrigir aluguéis (residenciais ou não residenciais), saldos de dívidas assumidas em contratos financeiros e tarifas públicas. Esse é um segundo foco de pressão sobre os preços internos.

Dessa vez, são três as principais fontes de alta de preços no mercado atacadista: a disparada dos alimentos (milho, trigo e soja), em consequência da forte estiagem no principal produtor mundial, os Estados Unidos; os reajustes do óleo diesel, que oneram os fretes e praticamente toda a logística do País; e o avanço da cotação do dólar no câmbio nos últimos três meses, de quase 7,0%, fator que encareceu os produtos importados.

O Banco Central não contava com essa disparada dos preços dos alimentos. A última Ata do Copom previa "pressões baixistas sobre os preços das commodities". Seu diagnóstico era de que a economia mundial seguiria rastejando e que, nessas condições, a demanda por matérias-primas e alimentos se manteria deprimida. Logo em seguida, no entanto, os mercados globais apontavam a cavalgada nos preços dos cereais, algo que alguma chuva no Meio-Oeste americano na semana passada não foi capaz de reverter. Apenas em julho, as cotações da soja no mercado futuro saltaram 15%; as do trigo, 21%; e as do milho, 28%.

Boa pergunta está em saber até que ponto esse novo impacto dos preços vai interferir na atual política monetária (de juros) do Banco Central.

O mercado permanece apostando em que no dia 29 de agosto o Copom cortará os juros básicos (Selic) em mais meio ponto porcentual, para 7,5%. É o que se pode conferir na Pesquisa Focus divulgada ontem. A percepção do mercado ainda é de que a redução dos juros, mesmo que feita "com parcimônia", é hoje mais uma decisão política do que puramente técnica. No entanto, não há indicação alguma por parte do Banco Central de que se disponha a interromper abruptamente o atual ciclo baixista. Isso quer dizer que, até segundo aviso, a ideia será insistir com os cortes, ainda que, em reação ao atual surto inflacionário, o Banco Central possa maneirar na dose.

O último empurrão - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 31/07


Os economistas de Brasília não concordam com o diagnóstico segundo o qual o crescimento econômico pelo canal da demanda esteja esgotado, mas não há dúvida, inclusive para eles, de que a variável-chave da expansão segura do nível de atividades é o investimento. Agosto está aí e com ele vem a promessa do governo de turbinar investimentos, com um pacote de concessões nos setores críticos de transporte e logística.

Há indicações de que outras medidas, na direção de desonerar custos de produção e, assim, incentivar a oferta, estariam a caminho - caso dos custos da energia elétrica. Todo o arsenal que possa ser colocado à disposição dos estímulos aos investimentos é bem-vindo, mas esses estímulos não passarão de um soluço na ampliação do potencial de produção se não forem acompanhados de instrumentos capazes de assegurar a existência de um ambiente estruturalmente propício à expansão da oferta.

Esse alvo só será alcançado quando a responsabilidade pelo financiamento de longo prazo for mais bem dividida entre governo e setor privado. A boa notícia é que já existe um arcabouço jurídico e institucional para estimular esse mercado. Medida Provisória de 2010, transformada em lei no ano passado, prevê incentivos fiscais específicos para emissão de papéis privados de longo prazo destinados a investimentos. A má notícia é que a lei ainda não pegou. Mas não será surpresa se, superados alguns problemas técnicos remanescentes, os negócios finalmente deslancharem.

Parece claro que, sem um mercado financeiro apto a oferecer financiamento privado de longo prazo, o horizonte para a expansão dos investimentos será mais estreito e mais instável. Diferentemente da grande maioria das economias - não só as mais desenvolvidas, mas também as asiáticas emergentes e mesmo na América Latina -, no Brasil, o mercado de títulos corporativos continua incipiente. Seu tamanho e abrangência permanecem a anos-luz da experiência internacional.

Quase 90% dos créditos de prazo mais longo são fornecidos por bancos públicos, com destaque para o BNDES, que sozinho responde por mais de dois terços do total. Do início da década passada até hoje, o mercado brasileiro de títulos corporativos oscilou entre 0,3% e 0,6% do PIB, proporção ínfima se comparada aos 35% do PIB, na Coreia e na Malásia, os 20% do PIB, nos Estados Unidos, e os 15%, no Chile. A participação brasileira, em âmbito mundial, mal chega a 0,1% do total.

Os mercados de títulos privados de longo prazo desenvolveram-se ao redor do mundo a partir dos anos 80, época em que, no Brasil, a hiperinflação, o descontrole fiscal e a instabilidade cambial apareciam como obstáculos quase intransponíveis à formação de mercados de dívida de longo prazo, de emissão privada. Mas, mesmo depois da estabilização monetária e da arrumação da dívida pública, a coisa por aqui não andou.

A partir de meados da década passada, sanados ou mitigados obstáculos macroeconômicos e institucionais, o mercado financeiro teve um boom no Brasil. Entre 2006 e 2011, a expansão foi de quase 150%. Nesse período, o financiamento privado de prazo mais longo, porém, continuou rodando em falso. A explicação para o fato, segundo argumento relativamente disseminado, se localizaria na competição exercida pelo Tesouro e pelo BNDES pelos recursos oriundos de uma poupança mirrada.

O economista Ernani Teixeira Torres Filho, professor do Instituto de Economia da UFRJ e ex-BNDES, coautor, com Luiz Macahyba, de um completo e atualizado estudo sobre o mercado financeiro brasileiro, com foco no desenvolvimento de um mercado privado de financiamento de longo prazo (O Elo Perdido - o Mercado de Títulos de Dívida Corporativa no Brasil: Avaliação e Propostas, que pode ser acessado emhttp://retaguarda.iedi.org.br/midias/artigos/4ff6e4934e2d3070.pdf), considera que os entraves mais relevantes se concentram em aspectos institucionais e fiscais, mas, antes de tudo, nas altas taxas de juros.

"Está sobrando dinheiro e faltando papel de boa qualidade", diz ele. "Estamos observando que, com os juros mais baixos, os investidores potenciais começam a entender que a zona de conforto garantida por taxas elevadas está por um fio." Para Torres, ainda assim, mais alguns incentivos terão de ser oferecidos para que as operações comecem a aparecer. "O mercado financeiro, como a internet, precisa de tráfego", compara. "O governo ainda terá de dar mais um empurrãozinho para esse novo mercado pegar."

Quem roubará a cena em 2016? - PAULO SOTERO

O ESTADÃO - 31/07

Ainda em estado de enlevo após assistir ao belo espetáculo de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres, fui trazido abruptamente à realidade pela manchete de um site brasileiro. A notícia dava conta de que a ex-senadora e ex-Ministra Marina Silva havia "roubado a cena" da presidente Dilma Rousseff, presente à festa, ao entrar no estádio carregando a bandeira olímpica na companhia de personalidades escolhidas por sua dedicação à causa da paz.

É evidente que a participação de Marina Silva na cerimônia nada subtraiu de Dilma nem de ninguém. Ao contrário, acrescentou uma presença virtuosa do Brasil na festa, na pessoa de uma mulher visionária, fundadora do Partido dos Trabalhadores, cujas biografia e trajetória política a projetaram no mundo. O fato de as propostas de Marina para os desafios do desenvolvimento sustentável serem rejeitadas como ingênuas e impraticáveis por muitos não diminui a importância de sua pregação de um modelo de crescimento que concilie a preservação do meio ambiente e da riquíssima Biodiversidade brasileira com a exploração racional de nossas riquezas naturais e a expansão da produção de alimentos.

A notícia pôs-me a pensar no show que abrirá os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, daqui a quatro anos. Não será por falta de história, de personagens que habitam nosso imaginário coletivo e de senso de humor que deixaremos de brindar o mundo com uma celebração de encher os olhos e alegrar os corações. Somos um povo alegre e acolhedor. Temos nossos McCartneys e Rowllings, para não falar da maravilha de cenário que a antiga capital da República oferece para o evento olímpico, apesar de todos os pesares.

O tamanho e a complexidade do desafio certamente não intimidarão uma cidade que em todo carnaval se transforma em palco e plateia de um festival de operetas ambulantes, cada uma delas com milhares de personagens que se movimentam pontualmente com vigor e graça em meio a gigantescos cenários, numa demonstração de competência e talento que desmente a noção segundo a qual nosso povo é desorganizado. Sim, seremos constantemente avaliados nos próximos quatro anos pela forma como nos desincumbiremos do compromisso de aprontar as obras e os sistemas necessários para a Olimpíada. Assim como ocorreu antes dos Jogos de Londres, e de todos os anteriores, a imprensa levantará dúvidas - e é bom que o faça - sobre o andamento dos preparativos, alisurados contratos, o custo do empreendimento e se este valerá a pena.

Mas o dia chegará, em julho de 2016, quando tudo isso ficará no passado. Teremos, então, de ter decidido como usaremos a oportunidade única que a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos oferece ao país hospedeiro, sobretudo um país estreante nesse papel, para se apresentar ao mundo. O que contaremos sobre o nosso país ao mais de 1 bilhão de pessoas que assistirão a um evento imaginado como o début global de um Brasil emergente, quando, emocionados, comemoramos a decisão do Comitê Olímpico Internacional de dar ao Rio o privilégio de organizar os Jogos? Qual será o tom da festa? Somos bons na autoexaltação (temos até Praça da Apoteose), mas igualmente fortes na autocrítica, que às vezes descamba para a autoflagelação. A dificuldade, frequentemente ilustrada pela fala dos políticos, e não apenas a deles, é encontrar o meio-termo.

A cerimônia de Londres apresentou ao mundo a Grã-Bretanha pós-imperial misturando realidade e fantasia, História e cultura, passado, presente e futuro, tudo temperado com boas doses de humor britânico pelo diretor artístico do evento, Danny Boyle, com a ajuda da própria rainha, na cena com Daniel "James Bond" Craig. O quadro sobre a Revolução Industrial, talvez a maior contribuição da Grã-Bretanha ao mundo, retratou opressão e progresso. A cena em que enfermeiras apareciam cuidando de crianças, com a ajuda de dezenas de Mary Poppins caídas do céu, que causou perplexidade a um colunista brasileiro, celebrava, em tempos de austeridade e governo conservador, o Serviço Nacional de Saúde, uma instituição pública pela qual os britânicos têm enorme a preço e que se orgulham de exibir ao mundo. Boyle confirmou a mensagem política da cena: "Um dos valores centrais de nossa sociedade é que, não importa quem você é, todos recebem o mesmo tratamento em matéria de saúde".

Um comentarista brasileiro escreveu que gostou mais da abertura dos Jogos de Pequim, em 2008. Gosto não se discute. Mas o exemplo chinês é de pouca valia para nós. Somos, como os ingleses, ocidentais. Vivemos numa sociedade multirracial e democrática, sempre às voltas com crises e tropeços. Os Jogos de Londres começaram sob o impacto do agravamento da recessão econômica na Inglaterra e do indiciamento criminal de dois amigos pessoais do primeiro-ministro David Cameron, um deles seu ex-assessor de Comunicação, por causa de um escândalo produzido pela imprensa marrom - também uma instituição britânica. A economia e os nossos políticos não deixarão de nos dar desgostos semelhantes nos próximos quatro anos.

Mas chegará o dia de abrir os Jogos e contar ao mundo, num espetáculo de três horas, quem somos, de que e de quem nos orgulhamos como nação. Qual será o nosso enredo? Não nos faltam diretores talentosos. Com plena liberdade de criação, eles saberão exibir nossas virtudes e nossos desafios, celebrar a esperança que nos move e a diversidade étnica, cultural e política que motiva e dá força à transformação que o País vive há três décadas. Nesse enredo cabem os pobres e o Bolsa-Família, Machado de Assis e Paulo Coelho, as passistas do samba e a Lei Maria da Penha, Marina Silva e Blairo Maggi, a corrupção e a Ficha Limpa, a Emília e o Saci-Pererê.

A alternativa é deixar-se pautar pela preocupação de evitar contrariedade em Brasília e permitir que nos roubem a cena.

Muito mais que descortês - MIRIAM LEITÃO


O GLOBO - 31/07
As declarações do ministro Aldo Rebelo sobre o fato de a ex-ministra Marina Silva ter carregado a bandeira olímpica poderiam ser apenas mais uma exibição dos maus modos do ministro, ou de suas esquisitices. Mas foi pior do que isso. Sua fala pública e a de outros nos bastidores mostram que eles confundem país com governo, o que é comum apenas em regimes autoritários.
O mal estar gerado por algo que deveria ser visto como um motivo de orgulho foi mais significativo do que pode parecer. É autoritarismo o que está implícito na ideia de que só governistas podem representar o país, suas causas, suas lutas. Era comum no regime militar essa mistura entre o permanente e o transitório, essa apropriação do simbolismo da pátria pelos governantes. É também falta de compreensão do que é o espírito olímpico: a boa vontade que prevalece sobre as diferenças. Foi por isso que os escolhidos representavam o combate à pobreza, a luta por justiça, os pacificadores, o esforço de convivência entre povos, a preservação da Terra.

Quem o ministro gostaria que fosse o símbolo da proteção da floresta? Ele e seu projeto de Código Florestal que permitia mais desmatamento? Marina dedicou a vida a essa causa, desde o início de sua militância com Chico Mendes. Esse é um fato da vida.

"A Marina sempre teve boas relações com a aristocracia europeia. Não podemos determinar quem a Casa Real vai convidar, fazer o quê?", disse o ministro dos Esportes. Nisso revelou que desconhecia os fatos, as regras de etiqueta, a lógica da festa, o simbolismo da bandeira olímpica, o que o governo inglês pretendia com a abertura e até quem é responsável por organizar a festa. Obviamente, não é a Casa Real.

Isso é mais espantoso, porque o Brasil é o próximo país a receber uma Olimpíada e a preparação já está em andamento. Se essa pequenez exibida na declaração do ministro tiver seguidores, o Brasil fará uma festa governamental. Outro integrante do governo comparou a escolha de Marina ao desfile de um trabalhista na frente de um governo conservador. A espantosa confusão não é exclusividade do ministro, é feita por outros graduados funcionários. Outros concordaram com essa canhestra interpretação. A demonstração de desagrado do governo brasileiro foi tão evidente que o representante inglês se sentiu obrigado a lembrar aos jornalistas o óbvio: a escolha não foi política, porque este não é o momento.

O governo poderia interpretar os fatos como os fatos são. O Brasil é detentor da maior fatia da floresta com maior biodiversidade do planeta. É o segundo país em cobertura florestal do mundo. O primeiro é a Rússia, que não tem a mesma riqueza de espécies. Nem de longe. A escolha de uma brasileira demonstra esse reconhecimento de que, numa causa estratégica para o século XXI, o Brasil tem destaque.

Marina mostrou que tinha entendido exatamente o que tudo aquilo representou. Fez declarações delicadas e com noção da grandeza do momento. O incidente não é apenas uma descortesia à Marina, mas uma demonstração de falta de capacidade de compreensão do espírito olímpico por parte dos governantes do país que organizará a próxima Olimpíada.

Autoridades que falaram aos jornalistas, com o compromisso de não divulgação de seus nomes, explicaram por que estavam amuadas: não foram avisadas. Como a ex-ministra disse, os organizadores pediram que não divulgasse a informação. Ela fez isso. Até a presidente Dilma deu uma nota fora do tom ao dizer que "o Brasil fará melhor" na festa de abertura. "Vai levar uma escola de samba e abafar". A hora era de elogiar a festa de Londres e entender a complexidade da preparação da abertura de uma Olimpíada. Não basta chamar uma escola de samba.

Sorrisos amarelos - ELIANE CANTANHÊDE

FOLHA DE SP - 31/07


BRASÍLIA - Não se sabe se é para rir ou para chorar, mas o que os candidatos e os principais líderes e candidatos do PT vão fazer durante todo o mês de agosto, enquanto o julgamento do mensalão vai expor ao país os podres do partido? Aliás, quando se fala dos principais líderes, fala-se dos atuais. Os antigos encabeçam a lista de 38 réus.

Lula saiu da toca ontem, a três dias do início do julgamento, como quem não quer nada: não viu, não ouviu, não soube nem quer saber. Num hotel em São Paulo, tirou fotos com mais de cem candidatos de cidades consideradas prioritárias pelo PT. Depois do clique coletivo, os individuais -de 30 segundos a um minuto para cada um.

Enquanto isso, Dilma cuidava dos preparativos finais da cerimônia da entrada triunfal da Venezuela no Mercosul, que será hoje, em Brasília, com Hugo Chávez estrelando e com participações especiais de Cristina Kirchner e José Mujica. Foto para as primeiras páginas nos jornais da véspera do julgamento histórico. Aliás, como seria mensalão em espanhol? El mensalón? Chávez vai dizer que el mensalón nunca existiu?

E os candidatos, como é que vão se virar? Fernando Haddad, em São Paulo, precisa muito aparecer, para poder crescer e sair dos atuais 7% das pesquisas antes do início do horário eleitoral gratuito -que é sua grande chance, ou grande esperança.

Mas como vai aparecer, com o noticiário tomado por entrevistas e documentos de procuradores, advogados, réus? Difícil alguém se interessar por programa fajuto de candidato com um filmaço desses na TV, dia e noite. O mensalão é como um fantasma que paira não só sobre o governo Lula, mas, especialmente agora, sobre a foto de Lula com candidatos, das gentilezas de Dilma com Chávez, das pedaladas de Haddad, às voltas com "um chopes e dois pastel" num bairro onde ele nunca pisara antes.

Agosto começa com Lula, Dilma e Haddad se esforçando para sorrir. Mas sorrindo amarelo.

Agosto - BENJAMIN STEINBRUCH


FOLHA DE SP - 31/07

Amanhã entraremos em agosto, mês de Jogos Olímpicos, mas também de cachorro louco, segundo a crença popular. Do jeito que vai a crise global, os supersticiosos devem estar esperando novas turbulências, principalmente na Europa.
Por aqui, porém, temos pela frente uma comemoração. Em agosto, vai fazer um ano que o BC começou a derrubar a taxa básica de juros e que o governo voltou a pensar em estímulos à atividade econômica.

Estamos todos cansados dessa fase europeia da crise. Parece que ela já dura um século. Mas, é quase inacreditável, há menos de um ano havia uma baixíssima percepção a respeito da gravidade da crise.

Todos se lembram, os juros foram elevados no primeiro semestre de 2011, sob aplausos do mercado. Quando o presidente do BC, Alexandre Tombini, contrariou a todos e reduziu a Selic de 12,5% para 12%, em 31 de agosto, o mundo desabou sobre ele. Foi chamado de "dovish" pelo setor financeiro, neologismo inglês derivado de pombo e que indicaria tolerância com a inflação.

Hoje, não há quem mantenha a crítica de um ano atrás. A inflação caiu e a crise se agravou. Tombini estava certo. Ele e sua equipe enxergaram a gravidade do problema muito antes do mercado.

Desde 31 de agosto, o BC já reduziu os juros em 4,5 pontos percentuais. O próprio Tombini reconheceu, na semana passada, que os efeitos dessa redução e de outros incentivos ainda não foram sentidos plenamente na economia.

Para que isso ocorra, seria preciso mais tempo e um certo relaxamento da crise global. Há, porém, uma pergunta: será que a redução dos juros cobrados pelos bancos acompanhou a queda da taxa básica? A resposta não é tão simples, porque há uma enorme complexidade de taxas vigentes no mercado.

Quem quiser conferir deve olhar os dados que o BC divulga. A taxa média no país caiu de 39,7% ao ano em agosto de 2011 para 31,1% agora. Um passeio pelos números dos cinco principais bancos mostra reduções tímidas.

No cheque especial, a queda foi quase imperceptível nos bancos privados. Num deles, caiu de 8,9% ao mês para 8,6% no período de um ano. Em outro, de 8,7% para 8,6%. Num terceiro, até subiu um pouco, de 10,15% para 10,19%. Só para lembrar: 10,19% ao mês significam 220% ao ano. Nos bancos públicos, a baixa foi importante, com as taxas cortadas quase pela metade em relação aos 8,5% a 9% de 2011.

No crédito pessoal, as quedas também foram pequenas. De 5,08% ao mês em agosto para 4,55% hoje em um banco. De 4,36% para 3,56% em outro. E de 3,64% para 3,40% num terceiro. O cenário é semelhante no crédito para veículos, embora apresente taxas menores.

Para a pessoa jurídica, as taxas também permanecem elevadas se comparadas com a Selic. O desconto de uma duplicata, que custava 3,42% ao mês em um grande banco, custa 3,13%. Onde custava 3,12%, custa hoje 2,80%. O mesmo se dá no crédito ao capital de giro.

A despeito dessas quedas, portanto, continua sendo muito caro tomar crédito no Brasil, seja para a pessoa física seja para a jurídica. No dia 22 deste mês, em editorial, a Folha chamou de "agiotagem" a situação que perdura em parte da atividade de intermediação financeira no Brasil, escandalizada com a taxa anual cobrada pelos cartões de crédito, de 323% (55% no Peru).

Seria injusto, entretanto, negar os avanços desse período. O mercado aceitou a ideia de que o país caminha para ter taxas de juros civilizadas no médio prazo. E há também, mesmo com a continuidade do turbilhão na economia global, a percepção de que os estímulos concedidos desde agosto devem começar a ter efeito neste segundo semestre.

Tombini sustenta que o país vai voltar a crescer por conta de dois efeitos. Primeiro, pelas expansões na renda e no emprego, que continuam --no primeiro semestre foi aberto mais de 1 milhão de vagas formais. Segundo, pela combinação de resultados da queda dos juros e da inflação moderada.

Neste agosto, mês de cachorro louco, que ele, Tombini, esteja outra vez enxergando a economia melhor que o mercado pessimista. É o que o país espera, enquanto cola na TV para torcer pelos atletas brasileiros na Olimpíada de Londres.

Preço real - JOÃO CAPIBERIBE


O GLOBO - 31/07

Desde os tempos da Grécia Antiga sabe-se que o poder corrompe e se transforma em tirania se não for controlado. E uma das maneiras de controlá-lo é obrigá-lo a prestar contas de seus atos. James Madison, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, dizia que um governo sem informação pública ou sem os meios para provê-la não é nada mais do que o prólogo de uma farsa, de uma tragédia ou de ambos. Por essa razão, uma questão central das modernas democracias é lutar contra a opacidade natural do poder, forçando-o a ser transparente .

Num país como o Brasil, com pesada herança oligárquica e que viveu sob o tacão de duas longas ditaduras, a questão se coloca com mais urgência ainda. Vejam que só agora, quase 30 anos depois do fim do regime dos generais, entrou em vigor a Lei de Acesso à Informação Pública, que regulamenta o direito constitucional dos cidadãos às informações e é aplicável aos três poderes, à União, estados e municípios.

Fui pioneiro neste assunto, ao criar em 2009 a Lei Complementar 131/09, que obriga todos os poderes, em todos os níveis, a colocar suas contas na internet. Antes, nos anos 1990, como governador do Amapá, eu já havia determinado a adoção desse procedimento em todo o estado.

Agora, aprofundando essa linha, estou propondo um Projeto de Lei (PL 76/12) que adota medidas para revelar cinco, entre tantos impostos que ficam escondidos sob o preço total das mercadorias e serviços ofertados aos consumidores. Assim, quem vende produtos ou serviços e recebe do consumidor os seguintes Impostos: IPI, Cide-combustíveis, Imposto sobre Importação de Produtos Estrangeiros, ICMS e ISS, deverá discriminar em nota ou cupom fiscal, além do valor líquido da mercadoria ou serviço, o valor de cada um dos tributos indiretos que incidem sobre o produto. Fiz essa proposta porque uma lei dessa natureza terá efeito pedagógico sobre a cidadania, pois o contribuinte, ao saber quanto paga de impostos, irá exigir uma reforma tributária no país.

Por não ter acesso a essas informações, o cidadão brasileiro realmente não faz ideia do quanto paga de tributos. Hoje o Brasil tem uma carga tributária altíssima, de 35% do PIB - a maior entre os chamados Brics (acrônimo de Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Aqui, mais de 43% do preço de um carro, por exemplo, são representados por impostos. Nos Estados Unidos, só para dar um exemplo, a soma total dos impostos pagos na compra de um carro é da ordem de 7%. O consumidor brasileiro chega a pagar 90% a mais que o consumidor mexicano por um carro brasileiro do mesmo tipo importado pelo México.

Muitos poderão argumentar que a redução de impostos é uma iniciativa cara a grupos conservadores, aqueles que defendem um "Estado mínimo" que não se envolva com os cidadãos e a sociedade, como pregavam liberais como F. A. Hayek e Milton Friedman. Talvez. Mas eu prefiro encarar essa proposta do ponto de vista da luta pela transparência e da democratização do poder, bandeira essa cara aos setores progressistas desde a época do Iluminismo e da Revolução Francesa.

Sombras sobre o Estado - EDITORIAL FOLHA DE SP

FOLHA DE SP - 31/07


A Lei de Acesso à Informação ainda não "pegou" nos Estados. Seus Poderes Legislativo, Executivo e Judiciário descumprem de modo acintoso a norma de transparência para os entes públicos.

De acordo com a lei, que entrou em vigor no dia 16 de maio deste ano, os órgãos públicos precisam divulgar informações de interesse coletivo ou geral, independentemente de requerimento.

Entre essas informações estão os salários dos servidores. Segundo decreto presidencial e determinação do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os vencimentos, incluindo vantagens pecuniárias atreladas ao cargo, devem ser divulgados de forma individualizada.

Todas as 26 Assembleias Legislativas, além da Câmara do Distrito Federal, descumprem o preceito. Em alguns casos, os Legislativos estaduais observam parcialmente a determinação -por exemplo, publicam a remuneração prevista por função, mas omitem benefícios a que o servidor tem direito. Na maior parte dos Estados, os dados simplesmente são omitidos.

As Assembleias Legislativas subvertem, assim, o espírito da lei, que fixa a publicidade como regra e faz do sigilo uma exceção.

Desserviço semelhante também presta boa parte dos Poderes Executivos estaduais. No caso dos governos, porém, há exceções. Quatro Estados (Acre, Amapá, Rondônia e São Paulo), além do Distrito Federal, observam a regra da transparência e divulgam os vencimentos de seus servidores.

Surpreendentemente, o Judiciário, por tradição o mais fechado dos Poderes, tem dado o melhor exemplo. Mais da metade dos Tribunais de Justiça publica quanto ganham magistrados e servidores. E, de acordo com o CNJ, mais de 70% de todos os tribunais do país já cumprem a determinação.

Por outro lado, a pedido de associações classistas, alguns juízes têm proibido que órgãos públicos divulguem os salários nominais de seus funcionários. Vão, dessa forma, na contramão do próprio Supremo Tribunal Federal, que já declarou a legalidade da regra.

A oposição à transparência não surpreende. A luz sempre incomoda quem se acostumou a viver na sombra. Não se trata, no entanto, de revelar por revelar a privacidade de servidores -é o preço a pagar por um avanço de valor maior.

Divulgar salários é um dos passos necessários para detectar o mau uso do dinheiro público. Esse é o objetivo em tela: fortalecer o combate à corrupção, ampliar a eficiência do Estado e permitir ao cidadão conhecer o destino dos pesados impostos que paga.

CLAUDIO HUMBERTO

“[Ela disse:] ‘Se o senhor soltar o Carlos, não soltaremos o dossiê’
Juiz Alderico Santos, sobre chantagem de Andressa para tirar Cachoeira da cadeia 

PARECER MAROTO NÃO ALTERA O RUMO DO JULGAMENTO

O Supremo Tribunal Federal não levará em conta a jogada de última hora, no Tribunal de Contas da União, para tentar descriminalizar o mensalão do governo Lula. O parecer que fez alegria dos mensaleiros foi obra da ministra Ana Arraes, mãe do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, grande aliado de Lula. Ministros 

do STF admitiram à coluna, em “off”, que o parecer não vai alterar os rumos do julgamento. 

ALIADA AGRADECIDA

Ana Arraes virou ministra porque Lula se engajou em sua “campanha” na Câmara, a pedido de Eduardo Campos, amigo dele e filho dela.

MÃO LAVA A OUTRA

Apesar de “perplexos com a ousadia”, ministros do STF, elegantes, dizem que Ana Arraes apenas “retribuiu a gentileza” de sua nomeação.

RELATOR RECONHECIDO

Relator do caso, o ministro Joaquim Barbosa vai iniciar a intervenção, no julgamento do mensalão, fazendo elogios rasgados ao próprio STF.

STF DEU SUPORTE

Joaquim Barbosa dirá que recebeu dos colegas e da direção do STF todo o suporte necessário ao trabalho de relator do caso do mensalão.

VISITA DE DILMA A LONDRES CUSTOU R$ 1 MILHÃO

A comitiva de oito autoridades que acompanhou Dilma a Londres na terça (24) para as Olimpíadas custou R$ 900,1 mil aos contribuintes, revela a ONG Contas Abertas. O governo dispensou a nova embaixada e preferiu o cinco estrelas The Ritz London Hotel, um dos mais caros da Europa. O escalão preparatório da viagem consumiu R$ 195,3 mil em outro hotel, fora os gastos com internet, celular e aluguel de escritórios. 

MEU BEM, MEU MAL

Réu no mensalão, o ex-deputado José Genoino (PT-SP) vai alegar, no processo, que “não tem bens”. Males de montão, não temos dúvida.

HOSPÍCIO

A CUT e os porra-loucas do MST prepararam claque para aplaudir Hugo Chávez hoje, em Brasília, quando a Venezuela entra no Mercosul. 

EXTINÇÃO AOS PITBULLS

Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) quer castração de cães pitbull: “Hospitais atentem a 3 pessoas, por dia, que sofreram ataques da raça”. 

FAROFA

Réus mais ilustres do “mensalão” foram instruídos pelos advogados a reduzir a lenha na fogueira, com defesas que, no final, colocam uns contra os outros. A ordem é boca fechada até o julgamento, na quinta. 

OMISSÃO

O presidente do PPS, Roberto Freire (SP), critica a ex-senadora Marina Silva, que se recusou a subir em palanques nas eleições munici-pais: “Isso é uma omissão total. Definitivamente, não é papel de líder”.

PERDEU A TOGA

O Conselho Nacional de Justiça decidiu, ontem, por unanimidade, aposentar o desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região Edgard Antônio Lippmann Júnior, por participação em esquema de venda de decisões judiciais. Os autos foram enviados ao MPF e AGU.

ÁGUA NAS ALTURAS 

A empresa aérea Gol vai de mal a pior. Já não oferece mais biscoitinho ou barra de cereal aos passageiros, e sim um mísero copo com água. A companhia garante que há outras refeições – mas cobradas, claro.

REALIDADES DISTINTAS

O presidente do PV, José Penna, diz que a sigla continuará alinhada ao governo, apesar de apoiar a oposição nas eleições em Salvador, SP e BH: “Posicionamento de bancada é diferente de realidade estadual”.

CONTRAPONTO

O ministro Antonio Carlos Ferreira informou que não foi feita “qualquer interferência no piso” de seu gabinete, tampouco aplicação de sinteco, nem obra ou reforma que desatenda ao padrão arquitetônico do STJ.

MEDINDO FORÇAS

A presidente da Petrobras, Graça Foster, quer tirar, a todo custo, Sérgio Machado da Transpetro. Apesar das ameaças, Machado se mantém no cargo, com ajuda do padrinho líder do PMDB, Renan Calheiros (AL). 

JUSTA HOMENAGEM

A Associação dos Magistrados do Rio lança, em agosto, Prêmio Patrícia Acioli para monografias sobre direitos humanos. A homenagem à juíza assassinada é para trazer ao debate a segurança dos magistrados.

PERGUNTA TOGADA

Se o mensalão “não existiu”, como afirmam vários réus, por que Lula se disse publicamente traído por uma “facada nas costas” dos acusados? 


PODER SEM PUDOR

A CASA NÃO É SUA

Discutia-se, em 1988, a inclusão de um artigo na Constituição que, afinal, não pegou: a limitação das taxas de juros bancários. O deputado e usineiro José Egreja (PTB-SP) era um dos entusiastas dessa limitação, por isso recebeu um telefonema irritado de um banqueiro, velho amigo da família:

- Logo você, um industrial, um homem que é da intimidade da minha casa, votar a favor dessa emenda absurda!

A resposta foi imediata:

- Pois é, há 25 anos que eu quero sair de sua casa e não consigo!

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Sem direito de ir e vir – Impasse deixa Via Dutra refém de caminhoneiros
Folha: Supremo se articula para evitar atraso no mensalão
Estadão: Com apoio de Lula, Toffoli decide julgar o mensalão
Correio: Cachoeira depõe amanhã no TJDF
Valor: Mensalão leva STF a adiar definições na área tributária
Estado de Minas: Alerta no ar
Jornal do Commercio: Redação do Enem às claras
Zero Hora: Obras para a Copa na Capital atrasam e estão 65% mais caras

segunda-feira, julho 30, 2012

A legalização do Valerioduto - GUILHERME FIÚZA

REVISTA ÉPOCA

Andressa Cachoeira, a musa do Brasil cafajeste, continua desfilando tranquilamente em sua missão de lavar a reputação do marido. Laudos médicos desmentiram sua denúncia de que o bicheiro sofria de depressão crônica, mas ela não se abalou. “Que mal esse homem fez ao Estado, à União, às pessoas?”, disse Andressa, firme na busca de compaixão para com o pobre réu. Já declarou até que Cachoeira é preso político. “Cala a boca, Magda!”, alguém gritaria em outros tempos, usando o famoso bordão do personagem de Miguel Falabella. Mas hoje o Brasil ouve calado os disparates da dama dos caça-níqueis. Ela está amparada na nova escala de valores que, tudo indica, vieram oficializar a doutrina da cara de pau.

O mensalão, por exemplo, foi um grande mal-entendido. Tanto que o Tribunal de Contas da União (que existe para guarnecer o dinheiro público) decidiu que estava tudo bem na movimentação milionária do Banco do Brasil para o bolso de Marcos Va- lério. Por coincidência, essa decisão veio calçar com perfeição a alegação dos advogados de Valério, Delúbio e mensaleiros associados - de que não havia dinheiro público no esquema do valerioduto. O escândalo Visanet, em que o Brasil acreditava ter visto R$ 73 milhões escoar do banco público para o PT, via agência DNA (Marcos Valério), foi ilusão de ótica.

Graças ao TCU, agora se sabe que esses contratos eram perfeitos. E que, se apareceu uma montanha de dinheiro nas contas do grupo político de Lula e José Dirceu, tratava- se de doações particulares para um inocente caixa dois. Ou seja: o dinheiro era deles, eles gastavam como quisessem, compravam o que (e quem) bem entendessem. É um ab-surdo o país ter passado sete anos se intrometendo num assunto de foro íntimo. Como diria Andressa Cachoeira, que mal esses homens fizeram às pessoas?

A lei que serviu de base (ou pretexto) para a decisão do TCU, aprovada cinco anos depois do mensalão, foi propos-ta pelo atual ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. O mesmo que declarou ser “leviano” relacionar o assassinato do agente federal Wilton Tapajós com a investigação da gangue do bicheiro, na qual a vítima se destacara. Valério e Cachoeira certamente são apreciadores desse senso de justiça. Chega de preconceito contra esses dois empresários brasileiros que fizeram história na última década.

O silêncio do ministro Cardozo e das demais autorida¬des sobre a execução do policial Wilton é ensurdecedor. Nunca se mudou de assunto tão rapidamente. Mas eles têm razão. Quem mandou a vítima ficar escutando con¬versa dos outros no telefone, atrapalhando negócios de alta prosperidade? Quem procura, acha. E onde já se viu ir ao cemitério sozinho, neste mundo perigoso de hoje? Alguém ainda há de concluir que foi suicídio culposo.

Esses homens que não fazem mal a ninguém são muitas vezes incompreendidos. Estava tudo bem depois da decisão libertadora do TCU, legalizando a parceria de Marcos Va-lério com o ex-diretor do BB Henrique Pizzolato, quando o Banco Rural veio atrapalhar a festa. Também réus no processo do mensalão, dirigentes do banco resolveram dizer que havia, sim, dinheiro público na conta da empresa de Valério. Essa alegação, enviada ao Supremo Tribunal Federal, é no mínimo um gesto ingra¬to. Afinal, ao lado do BMG, o Banco Rural foi o escolhido pelos chefes da quadrilha do mensalão para operar a dinheirama do esquema. Esses ban¬queiros nunca estão satisfeitos.

O problema foi que o banco teve de responder à acusação de lavagem de dinheiro, e aí o jeito foi abrir o bico e entregar a origem dos milhões. Vinha tudo de entidades estatais, diz o Rural, especialmente do Banco do Brasil. Mas não há de ser nada. Embora seja impossível demons¬trar os serviços fantasmas prestados por Valério ao BB, os amigos de Lula, Dirceu e Dilma no TCU haverão de encontrar um jeitinho republicano de passar a limpo essas operações todas - nem que seja preciso recorrer ao senso de justiça do companheiro Cardozo.

Tudo aponta para um final feliz. Aliás, a Justiça acaba de inocentar Erenice Guerra, a ministra que fez história transformando a Casa Civil num bazar de família. Vá em frente, madame Cachoeira. E mande lembranças à com-panheira Carminha.

Pornô para amadores - RUTH DE AQUINO


REVISTA ÉPOCA
Enrubesço. O Adônis afunda graciosamente numa das poltronas brancas de couro. Sorri revelando dentes brancos perfeitos. Nossos dedos se encostam muito brevemente, e a corrente percorre todo o meu corpo, como se eu tivesse encostado num fio desencapado. Reprimo um grito involuntário. O coração quase me sufoca. Escovo os dentes com a escova dele. E como tê-lo em minha boca. Sinto-me muito travessa. É muita emoção. Ninguém jamais segurou minha mão. Estou tonta e toda formigando. Pela primeira vez em vinte e um anos, quero ser beijada.Esses são alguns dos milhares de clichês melosos de um livro que já vendeu 31 milhões de exemplares e será lançado agora no Brasil. Cinquenta tons de cinza é o primeiro volume da trilogia escrita pela inglesa Erika Leonard James, casada, mãe de dois adolescentes e ex-produtora de televisão. O romance conta o namoro entre Anastasia Steele, virgem aos 21anos, e Christian Grey, um"mega magnata empresário enigmático","absurdamente gostoso", com"lábios esculturais"(!), controlador e sádico. Anastasia, ou Ana para os íntimos, cai de quatro por Christian e não se acha lá grande coisa: "Sou desastrada, malvestida e não sou loura". Christian, com seus "olhos ardentes de um cinza líquido" e "cílios longuíssimos", deixa Ana, que nunca beijara nem se masturbara, "como uma massa trêmula de hormônios femininos em fúria".

Cinquenta tons tem sido badalado como Cinquenta tons tem sido badalado como pornô para mulheres, porque, para homens, é fraco. Fala sério. "A nível de" pornografia, o livro também é fraco para mulheres -talvez seja uma carochinha erótica para amadores. Só 10% de suas páginas são dedicadas a sexo. Os adjetivos e interjeições são ingênuos.

As mil e uma noites, que li aos 9 anos de idade, é uma coleção de fábulas mais ousadas. A escritora Anaïs Nin fez muito mais nos anos 1940 pela ficção erótica feminina, ao escrever seus contos Delta de Vênus, por encomenda de um colecionador e a pedido de Henry Miller. Ganhava US$ 1 por página. A protagonista de Cinquenta tons, Ana, uma Sabrina transformada em máquina improvável de orgasmos, enrubesce 50 vezes com o mala do Christian Grey. Ele tem 28 anos e se define assim para a moçoila:"Sou um homem muito rico e tenho hobbies caros e apaixonantes". Oi??? Quando quer dar um efeito às palavras, fala esquisito: "Você. É. Muito. Gostosa"; "Eu. Quero. Você. Muito". Se um homem falasse assim comigo, recomendaria uma fonoaudióloga.

O best-seller Cinquenta tons é um dos piores livros que li até o fim em minha vida. Forcei-me a ler as 514 páginas do original em inglês por quase três meses. Sempre tinha algo melhor a fazer. Além de protagonistas tão inverossímeis quanto bobos, incomoda a mania com grifes, marcas e modelos. O Mercedes é esportivo CLK. O Audi é SUV preto. Opar de tênis no original é Converse e, na tradução brasileira, é All Star. Para combater a dor, Advil. A cueca é Ralph Loren. No cinema, será um show de merchandising.

Por que fui ler Cinquenta tons? Pelo frenesi. Vendeu muito na internet, em capítulos. Chamava-se Mestre do Universo. Era inspirado nos vampiros de Crepúsculo. A escritora usava o pseudônimo Snowqueen"s Icedragon. O sucesso na blogosfera acordou as editoras e Hollywood para o "fenômeno". A autora passou a assinar E.L. James e, por muito tempo, não quis aparecer. Para ajudar a divulgação no Brasil, alguns jornalistas receberam um par de algemas, uma máscara, uma gravata e um contrato entre dominador e submissa. Comprei o livro pela Amazon em abril, quando vi a autora falando na televisão. Simpatizei com E.L. James. Irônica, calorosa, gordinha, com óculos na ponta do nariz ao ler, ela parece aquela dona de casa londrina que vai ao pub com as amigas e ajuda os filhos no dever da escola.

"Se tenho um quarto de tortura na minha casa? Não é grande o suficiente. Tenho um quarto com parede vermelha, mas é cheio de roupa para passar", diz, rindo."Revolucionária, eu? Nada disso. É só uma história de amor. E, quando as pessoas se apaixonam, fazem sexo. Se é que me lembro", diz. Ri de novo. Ela não gosta que leiam ao vivo passagens de seu livro:"Não, por favor, para. Não quero que meus filhos escutem. Até hoje fico com vergonha". Sua vida mudará com o dinheiro, Erika? "Posso enfim ganhar uma nova cozinha." O outro sonho: "Ficar deitada numa praia ensolarada com um drinque na mão".

Espantoso foi o debate sociológico na mídia: a exemplo de Anastasia, as mulheres de hoje querem ser dominadas? Fico estarrecida com a insistência em generalizar o desejo "das mulheres". Quando Michael Douglas se submeteu a todos os caprichos sádicos de Sharon Stone em Atração fatal - como já aconteceu em muitos filmes e livros e na vida real de alguns amigos -, ninguém criou a teoria de que essa seria a verdadeira fantasia dos machos de hoje. Cansados do poder, eles sonham em ser atados, vendados e consumidos por mulheres alfa como objetos de prazer. E isso? Não. Sim. Depende. Cada um é cada um. Cada uma é cada uma. Com todas as nossas contradições bem particulares.

O mundo é dos psicopatas - WALCYR CARRASCO


REVISTA ÉPOCA
Vivo encontrando psicopatas. Não me espantei quando li as notícias sobre o recente massacre nos Estados Unidos, protagonizado por James Holmes, de 24 anos, cujos disparos atingiram 70 pessoas numa sala de cinema, 12 delas mortas.Já me relacionei com uma psicopata assassma, sem jamais suspeitar. Há muitos anos, morei uma temporada no México.

Vivia com uma amiga, Regina, em Cuernavaca. Regina era produtora de espetáculos e rapidamente se relacionou com um grupo de cantoras local. Uma delas, cujo nome prefiro ocultar por delicadeza, era uma garota simpática que nos convidou a vê-la no bar de um hotel local. Nunca esqueci aquela noite luxuosa para meus padrões na época, pois, sabedora de nossa difícil situação financeira, a cantora ofereceu as bebidas. Voltei ao Brasil sozinho. Anos depois, Regina reapareceu com a novidade. A cantora matara o namorado, um americano. E o esquartejara na banheira do quarto de hotel! Depois, espalhara os pedaços pela Cidade do México. Crime muito semelhante ao recentemente ocorrido em São Paulo. Foi presa e nunca mais soubemos dela. Até hoje não consigo entender: como aquela garota risonha foi capaz de esquartejar o namorado?

Essa é a grande questão sobre os psicopatas: são sedutores. Não se percebe do que são capazes até quando algo tremendamente terrível acontece. Li faz pouco um belo livro, Precisamos falar sobre Kevin, da americana Lionel Shriver. Ela conta, do ponto de vista da mãe chocada, a trajetória de um garoto que se torna serial killer - o livro foi também adaptado para o cinema, com direção de Lyanne Ramsay.

A mensagem final é de desesperança. Percebe-se que não havia nada a fazer, desde o momento em que Kevin nasceu, a não ser aguardar a tragédia. Tive o privilégio de conhecer, socialmente, a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva, autora de Mentes perigosas - O psicopata mora ao lado.

Com ela, entendi que a psicopatia não tem cura, pois o sujeito não tem nenhum sentimento em relação ao outro. Eis um caso verdadeiro: a avó de um garoto negou alguma coisa que ele queria. Uma bobagem qualquer. O anjinho botou o gato da vovó no micro-ondas e ligou.

Um grande número de psicopatas, porém, não chega ao extremo, como atesta Ana Beatriz. Simplesmente, usa os outros. Não quero me fazer de vítima do mundo. Talvez por ser autorde novelas, eu atraia um número grande de personalidades com um traço doentio. São pessoas dispostas a fazer qualquer coisa para conquistar a fama - que, no Brasil, se traduz em conseguir um papel na televisão.

Com frequência, alguém se a proxima oferecendo amizade. Até há pouco tempo, eu era um tanto ingênuo. Acreditava. Muitas vezes a amizade acabou subitamente, com acusações e raiva, quando não ofereci em contrapartida um papel na próxima novela. Só então eu descobria: o objetivo não era a amizade, mas entrar na TV!

Eis o outro lado da moeda: ser psicopata até certo grau é uma característica valorizada pela sociedade. Há alguns anos, falava-se na lei de Gérson,"levar vantagem em tudo". A expressão saiu de moda, mas no cerne continua valendo. As crianças são educadas não para amar, mas para vencer o próximo. O que importa é subir na vida, ser rico, doa a quem doer.

Quando escrevi a novela Morde & assopra, na TV Globo, minha colaboradora, Cláudia Souto, propôs que o prefeito e sua mulher dessem um golpe na merenda escolar. Quase rejeitei a ideia. Pensava que ninguém seria capaz disso. Por coincidência, pouco depois vários escândalos com a merenda escolar pipocaram pelo interior de São Paulo.

O corrupto rouba na merenda. Na conta de hospitais. Sabe que gente passará fome, até morrerá por causa de seus atos. Pouco importa, na lógica psicopata. Muitos altos executivos colocam a empresa acima de tudo, até das relações familiares. E daí, se ganham bem?

Meu sobrenome é Carrasco. Por ser de origem espanhola, não significa que algum de meus antepassados enforcasse alguém profissionalmente. Mas cresci com o peso que um nome desses carrega. Há anos, em Lisboa, descobri um Pátio do Carrasco. Lá morava, no passado, justamente o... carrasco, em português. Olhei as casas simples, imaginei aquele homem, brincando com as crianças, trazendo um pão para o jantar. Se alguém lhe perguntasse sobre seu cotidiano de mortes, ele responderia:

-É minha profissão.

Ninguém se engane. A falta de sentimento pela dor alheia tornou-se uma vantagem no mundo dos negócios e da política. O psicopata é um vencedor.

Cinco perguntas - J. R. GUZZO


REVISTA VEJA


Estas cinco indagações, e tantas outras, deveriam ser enviadas ao Ministério de Perguntas Cretinas, pois é exatamente assim que todas elas são vistas pelo governo

Pede-se às altas autoridades brasileiras, respeitosamente, a cortesia de responder às perguntas feitas nas linhas abaixo, por serem de possível interesse do público. O que a Receita Federal faz em relação a esses
pacotes de dinheiro vivo que políticos e funcionários do governo vivem enfiando nos bolsos e bolsas? A Polícia Federal e o Ministério Público, a esta altura, já poderiam ter montado uma cinemateca inteira com os vídeos que registram essas cenas. Nunca acontece nada de sério com os indivíduos flagrados metendo a mão na massa, é claro. Mas como fica a sua situação perante o Fisco? Ninguém pode negar que recebeu. pois há prova filmada de que todos receberam. O que colocam, então, em suas declarações de renda? Se não declaram nem indicam a fonte pagadora, estão praticando sonegação. Se declaram e pagam o imposto devido. a Receita poderia ser acusada de estar cometendo crime de receptação, por receber parte de bens roubados. Como é que fica?

Alguém no Itamarary poderia informar por que

o Brasil tem embaixadas no Azerbaijão, Mali. Timor-Leste, Guiné Equatorial, São Cristóvão e Névis, Santa Lúcia, Botsuana, Nepal, Barbados e outros lugares assim? Seria possível citar algum caso em que alguma dessas embaixadas fez alguma coisa de útil para os contribuintes brasileiros? Daria para descrever, digamos, uma jornada de trabalho do embaixador brasileiro no Mali? A que horas ele chega ao serviço - e, a partir daí, fica fazendo o quê, até voltar para casa? Seria bom, também, saber até onde o Itamaraty quer chegar. Pelas últimas contas, parece que existem hoje 193 países no mundo. e o Brasil só tem 126 embaixadas; faltam mais 67. portanto. A dura verdade é que não temos nada, por exemplo, na Micronésia, em Kiribati ou em Tuvalu. Vamos ter?

Por que, e principalmente por ordem de quem, o dr. Juquinha, ou José Francisco das Neves, ficou oito anos inteiros, de 2003 a 2011, num cargo-chave do programa nacional de ferrovias? Já é chato, para uma Grande Potência, como quer ser o Brasil, ter na sua alta gerência um cidadão que se faz chamar de "dr. Juquinha". Mas o problema, mesmo, é que o homem saiu dali quase diretamente para o xadrez, acusado de acumular durante sua passagem pelo governo um patrimônio pessoal de 60 milhões de reais; a principal obra sob a sua responsabilidade, a "Ferrovia Norte-Sul", pagou as empreiteiras um "sobrepreço" de 100 milhões, só no trecho de Goiás. Ninguém, durante esse tempo todo, quis saber como o dr. Juquinha enriquecia, a ferrovia não andava e a obra ficava cada vez mais cara?

Qual o destino da montanha de papel que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. a Anvisa, obriga as 60000 farmácias brasileiras a acumular todo santo dia? Basta uma continha rápida para perceber a prodigiosa quantidade de entulho que elas juntam na forma de receitas retidas, fotocopiadas, carimbadas no verso, preenchidas a mão pelo balconista etc. Sabe-se que hoje as farmácias têm de manter "livros de escrituração manual" e que há, para o futuro. a promessa de um sistema "eletrônico". E no momento? A Anvisa verifica, um a um, cada papel desses? O que faz com eles? Ainda no tema: como é possível, segundo informou há pouco a revista EXAME. que 1250 pedidos de compra de equipamentos hospitalares de última geração, críticos para salvar vidas, estejam retidos hoje pela agência, que não autoriza sua entrada no Brasil?

Como a empreiteira Delta se tornou a maior construtora de obras do PAC? Suas atividades, como se vem apontando há pelo menos cinco anos, cobrem o Código Penal de uma ponta à outra - está metida em corrupção, fraude. falsificação, desvio de verbas, superfaturamento, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, criação de empresas-laranja e por aí afora. Só no ano passado. apesar de toda essa folha corrida, recebeu quase 900 milhões do governo federal. Será que a presidente Dilma Rousseff, nestes seus dezoito meses no cargo, nunca teve a curiosidade, nem por um instante. de saber quem era a empreiteira número 1 do seu PAC, do qual é a própria mãe? Por que o PT e o governo fazem tanta força para que o dono da empresa, Fernando Cavendish, não seja interrogado no Congresso, como se guardasse o Terceiro Segredo de Fátima?

Estas cinco indagações, e tantas outras, deveriam ser enviadas ao Ministério de Perguntas Cretinas, pois é exatamente assim que todas elas são vistas pelo governo. Mas esse ministério só existiu na imaginação de Millôr Fernandes; está fazendo uma falta danada, entre os quase quarenta do Brasil Grande de hoje.

Uma página da história - CARTA AO LEITOR - REVISTA VEJA

REVISTA VEJA

Os ministros do STF A qualidade do julgamento que eles fizerem definirá o grau da evolução política do Brasil


São raras as vezes em que determinada geração tem a oportunidade de vivenciar WJf a história sendo feita. O julgamento dos 38 réus do mensalão, que começa na próxima quinta-feira no Supremo Tribunal Federal(STF), em Brasília, é um desses episódios com força para atrasar ou acelerar, dependendo de sua qualidade, os processos históricos da evolução política do Brasil.

A história de um país e de um povo é feita de fatos. É sobre eles que os historiadores se debruçam na tentativa de encontrai- um fio condutor que os ligue em uma sequência lógica cujo somatório é o que chamamos de nação.

O mensalão foi um fato. Foi um gigantesco arranjo partidário, financeiro, empresarial em que parte das elites governantes do Brasil no primeiro mandato de Lula se pôs de acordo sobre o uso de dinheiro de diversas origens, quase todas elas espúrias, para comprar ou manter o apoio ao Palácio do Planalto de parlamentares e partidos tradicionalmente mercenários.

Inédito? Não. Mas nunca se tinha tentado uma operação daquela envergadura com a instalação no coração do mundo político de um mecanismo de mercado negro de consciências em troca de dinheiro. Políticos iam
e vinham de agências bancárias para receber quantias em dinheiro vivo; os mais destemidos assinavam recibos ou pediam à mulher para fazê-lo; os de nervos fracos inventavam despesas falsas de consultores, agências de propaganda ou assessores de imprensa. Quem não tinha tanta iniciativa podia contar com os serviços financeiros do esquema, que fornecia recibos assinados por secretárias, motoristas, laranjas arrumados às pressas. A capital do país foi tomada por um furor argentário que o então deputado Roberto Jefferson, figura-chave no desmantelamento do mensalão, descreveu com sua voz de barítono: “ratos magros!”.

VEJA foi o órgão de imprensa que primeiro revelou o arran jo, com a divulgação de um vídeo em que o diretor dos Correios embolsava um maço de cédulas como propina. O diretor era ligado a Jefferson, que, para não cair sozinho, relatou a extensão dos crimes de repasse de dinheiro a parlamentares e chamou pela primeira vez o processo de mensalão.

Sete anos depois, desbaratada a “quadrilha”, nas palavras de Antonio Fernando de Souza, o então procurador-geral da República, o STF começa a julgar responsabilidades. O que está em jogo não é apenas o destino das 38 pessoas acusadas. O que está em jogo é que página da história nossa geração escreveu neste começo do século XXI — uma página que pode nos envergonhar ou da qual nós, nossos filhos e netos vamos nos orgulhar.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


FOLHA DE SP - 30/07

Linha de crédito para Copa tem consulta baixa

Uma linha de crédito de cerca de R$ 150 milhões para projetos ligados à Copa, lançada em fevereiro pelo governo paulista, recebeu até agora apenas R$ 60 milhões em solicitações de consultas.

Os recursos foram pensados para terem como destinatários municípios candidatos a subsedes do evento e o setor hoteleiro de tais cidades.

"Acreditamos que vão começar a aparecer mais candidatos. Esse tipo de projeto não ocorre da noite para o dia. Leva tempo. Acredito que os estudos estão sendo concluídos para acessar a linha", diz Milton Santos, presidente da agência de fomento Desenvolve SP.

"Como é ano de eleição, os municípios devem ter demorado um pouco", afirma.

Se os projetos não ficarem prontos em breve, há risco de não haver tempo para realização das obras até o evento.

As demandas feitas até agora serão avaliadas. Os desembolsos, que ocorrem conforme o cronograma das obras, devem começar nos próximos meses.

Para os municípios, a prefeitura pode financiar construção, ampliação e reforma de arenas esportivas para receber delegações, desde o projeto de topografia até a pavimentação de vias. Na iniciativa privada, financia construção, ampliação e reforma de hotéis.

A linha tem juro subsidiado de 2% ao ano, além de atualização pelo IPC da Fipe, com prazo para pagamento de até dez anos e carência de 24 meses, de acordo com a entidade.

Mais compras

O Brasil terá 117 novos shopping centers até 2014, segundo dados da consultoria imobiliária CB Richard Ellis.

A maioria deles (74) ficará localizada no Sudeste.

Os novos empreendimentos aumentarão ainda mais a concentração de shoppings na região, que reúne 58% do total do país. Apenas o Estado de São Paulo concentra 37% das unidades no Brasil.

Os novos shoppings representarão 3,8 milhões de metros quadrados locáveis.

Praia de gaúcho

A gestora Mais Valor, responsável pela administração de um shopping em Goiânia e de outro em Canoas (RS), está desenvolvendo cinco empreendimentos no Rio Grande do Sul.

Um deles, em Viamão, região metropolitana de Porto Alegre, receberá investimento inicial de R$ 150 milhões. Uma ampliação já está prevista para 2016 -dois anos após a inauguração-, com aporte de R$ 30 milhões.

Um segundo centro de compras ficará em São Leopoldo e um terceiro na capital gaúcha. Os dois demandarão juntos R$ 200 milhões.

"Entramos no Estado em 2006 e percebemos que havia espaço para outros empreendimentos", diz o presidente da companhia, Vandeir Daves Bochi.

Os outros dois shoppings serão na região de Porto Alegre, mas a empresa ainda não dá detalhes.

Reencontro... Bill Clinton, Fernando Henrique Cardoso e Tony Blair se reencontrarão em São Paulo em agosto. Aproximadamente 500 presidentes de empresas de toda a América Latina participarão também do encontro, em evento promovido pelo Itaú BBA na Casa Fasano.

...de chefes... "Nomes de peso da academia e de Estado, a ideia é que eles descrevam como estão vendo a crise, como esperam que isso acabe e como avaliam os emergentes e o papel do Brasil", diz Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco e sócio do Itaú BBA.

...na crise Mesmo com a dificuldade em conciliar as agendas, a ideia durou cerca de dois anos, segundo a instituição, o debate proposto não perdeu a atualidade. "Esse tema principal, a crise, está com a gente desde 2008 e permaneceria mesmo por mais tempo", diz Goldfajn.

Satisfação nacional

A população da Arábia Saudita é a mais satisfeita com a situação econômica do país, de acordo com estudo da empresa Ipsos.

Mais de oito em cada dez pessoas disseram considerar "boa" a condição da economia local em junho.

Em seguida aparecem Suécia e Alemanha, com 75% e 66%, respectivamente.

A média global é de 37%.

No Brasil, esse índice foi de 52% no mês passado. Em maio era de 49%.

A companhia entrevistou 18.623 pessoas em 24 países, entre os dias 5 e 19 de junho deste ano.

PAC da privatização - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O ESTADÃO - 30/07

O governo Dilma garante que o PAC está bem encaminhado, mas por via das dúvidas, e como o crescimento não embala, vai adotando uma agenda, com o perdão da palavra, liberal. Promete para agosto um pacote de concessões à iniciativa privada de estradas, ferrovias, portos, talvez mais aeroportos e outros itens, na área de energia, por exemplo. É o PAC da privatização, mas é duvidoso que utilizem esse nome.

Quando o governo chinês iniciouum amplo programa de privatização, também era proibido usar essa expressão. Diziam “reestruturação” ou melhor ainda, informavam que o Estado estava devolvendo empresas ao povo. Também não deve faltar imaginação aos nossos marqueteiros oficiais.

Outra parte dessa agenda está na redução estrutural de impostos, digamos assim. Trata-se, ao que parece, de algo diferente do quebra-galho de desonerar um setor aqui, outro ali, compensando com impostos em outras áreas, cujo resultado líquido tem sido um aumento da carga federal. Em resumo, alguns pagam menos, todos pagam muito.

Já a proposta de eliminação dos encargos sobre a conta de luz é uma medida horizontal. Esses encargos representam algo como 10% da conta e sua eliminação é responsabilidade do governo federal. Ao contrário, por exemplo, do ICMS, o peso maior, mas que depende dos governos estaduais.

Na campanha, Dilma prometera eliminar o Pis-Cofins cobrado na energia e que seria algo como 8,5% da conta. Depois, seus assessores passaram a falar em redução dessa contribuição. Então, o ministro Lobão falou em reduzir impostos e encargos, mas apenas para a indústria e grandes consumidores.

Ficariam de fora os consumidores residenciais e diversos setores da economia, como ahote laria. Na última semana, os comentários do ministro deram a entender que os encargos caem para todos, levando-se à queda de 10% ou mais na conta de luz. É o mais correto.

De todo modo, os comentários indicam na direção de um pacote de medidas amplas, para levar a uma redução geral do custo Brasil. Um reconhecimento tardio da tese de que o Brasil precisa abrir espaço e melhorar o ambiente de negócios para investimentos privados. A ver, mesmo porque o governo não é propriamente eficiente na realização.

Dois anos de custo
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) fez a coisa certa. Voltou atrás e cancelou a regrabaixada em 2009, determinando que os medicamentos isentos de prescrição fossem colocados atrás do balcão, fora do alcance do consumidor. Este tinha que solicitar os produtos ao balconista. Agora, voltatudo como era antes: esses remédios ficam ali nas gôndolas, as pessoas escolhem, pegam, vão ao caixa e pronto.

Simples, não é mesmo? Mas foram mais de dois anos de confusão e custo para farmácias, consumidores e para a própria Anvisa – para que esse simples bom-senso fosse restabelecido.

Criticamos a resolução de 2009 nesta mesma coluna, publicada em 22/2/2010. (O leitor pode encontrá-la também em www.sardenberg.com.br, item Política Econômica.) Dizíamos então que a resolução era inútil para os fins propostos – evitar os problemas da automedicação –, atrapalharia a vida dos consumidores e imporia custos para as farmácias na reforma das lojas.

Pois foi ainda mais custoso. Ao revogar a regra, na semana passada, a Anvisa observou que a norma rendeu à Agência nada menos que 70 processos na Justiça. Eram entidades do setorpedindo sua revogação. Como sempre, os tribunais foram lentos e soltaram decisões diferentes nos diversos Estados. Aqui valia uma regra, ali outra. Finalmente, 11 assembleias estaduais aprovaram leis determinando que os medicamentos fossem colocados nas gôndolas. Resultado: custo e insegurança jurídica para todos.

Quando finalmente resolveu rever a situação, a Anvisa fez consultas e verificou ainda que a regra provocara um aumento da “empurroterapia, com prejuízo ao direito de escolha do consumidor no momento da compra desses produtos”. Observou também que a medida não contribuíra para reduzir o número de intoxicações.

Era o que os críticos diziam. Assim, ponto para a Anvisa, que agora pacificou o cenário. Mas, sem querer provocar, quem é o responsávelpelos custos impostos? Não se trata apenas desse caso. Procons, agências reguladoras, governo, Ministério Público têm sido rigorosos contra alguns setores privados. Por que não cobram também dos órgãos públicos que colocamos cidadãos nas filas e prestam péssimo atendimento?

Por uma caixa de Tamiflu
Também na semana passada, a Anvisa baixou resolução pela qual o Tamiflu (para a gripe A) pode ser vendido nas farmácias com receita simples. Também é o restabelecimento dobom-senso e encerra um ciclo que vem desde 2009, num momento de pico da gripe suína.

Naquele ano, o governo simplesmente proibiu a venda de Tamiflu nas farmácias, mesmo com receita. Só o setor público poderia fornecer o medicamento. Alegava-se que a livre comercialização levaria a um uso abusivo. Depois, a venda foi liberada, mas apenas mediante àquela receita especial, que precisa ser retida pela farmácia. Agora, finalmente, uma receita simples resolve o caso. De novo, se o leitor quiser mais detalhes da história, encontrará a coluna que publicamos aqui (10/8/2009) no mesmo item de www.sardenberg.com.br. Custo Brasil também está nesses casos.

Cabo de guerra - VERA MAGALHÃES - PAINEL


FOLHA DE SP - 30/07

Após a ameaça de greve da Polícia Federal às vésperas da Rio+20, ganhou corpo no Planalto a proposta de transferir o comando da segurança dos grandes eventos, como a Copa e a Olimpíada, para a Defesa. Segundo interlocutores, um dos principais articuladores da mudança é o general José Elito Siqueira, do GSI. A ideia, porém, já provoca reação da Associação dos Delegados da PF, que prevê uma ''crise institucional'' entre os órgãos de segurança pública e os militares.

Pano de fundo Nos bastidores, integrantes da PF afirmam que os ministérios da Defesa e Justiça brigam pelo orçamento dos eventos e lembram que, na Rio+20, o Exército encarregou os federais de fazer a segurança das primeiras-damas e o GSI ficou com os chefes de Estado.

Bandeira branca O general Elito descarta rusgas com os policiais, com quem defende um trabalho integrado, e afirma que os recursos para a Copa de 2014 já estão definidos, com fatia maior para a Justiça. "Quem comentou isso não tem a visão global. São opiniões isoladas''.

Reza a cartilha Em ato de apoio a Delúbio Soares, em Brasília, petistas distribuíram um documento com 11 tópicos sobre acusações do mensalão. Em um dos pontos, militantes adicionaram parecer do TCU que legalizou contrato de Marcos Valério com bancos públicos, para atestar "que não houve qualquer favorecimento ao BMG".

Tô fora Ao contrário da CUT, a União Nacional dos Estudantes não fará manifestações públicas sobre o mensalão. Atos de desagravo em favor dos réus ficarão a cargo dos núcleos partidários de juventude do PT e do PC do B.

Tô dentro A ONG Nas Ruas fará vigília em frente ao Masp, em São Paulo, durante a noite inaugural do julgamento do Supremo Tribunal Federal, dia 2. Com velas, os ativistas escreverão nas calçadas a palavra "mensalão".

Non grata O presidente do Paraguai, Frederico Franco, se convidou na semana passada para visitar a Federação das Indústrias de São Paulo, mas o Planalto fez chegar ao presidente da instituição, Paulo Skaf, que não tinha interesse em receber o substituto de Fernando Lugo.

Só clássicos Na nova leva de áudios enviados à CPI do Cachoeira, a PF apreendeu gravações antigas feitas pelo grupo do empresário com políticos. Em um dos blocos, estão conversas referentes a um escândalo envolvendo suposta tentativa de extorsão de Carlinhos Cachoeira por parlamentares da CPI da Loterj, em 2004.

Manobra radical Depois da queda do prefeito Eduardo Paes (PMDB) ontem no Parque de Madureira (RJ) e do desequilíbrio de José Serra (PSDB), dia 22, no Parque da Juventude paulistano, um especialista em marketing eleitoral advertiu: "Atenção candidatos, mantenham-se distantes do skate".

Roteiro O candidato Fernando Haddad cancelou hoje agenda externa para definir com sua campanha a data de lançamento do programa de governo e entrada em campo dos cabos eleitorais pagos.

Concorrência... Peemedebistas do Rio procuraram o presidente do partido, o senador Valdir Raupp (RO), para reclamar de eventuais gravações do ex-presidente Lula para campanhas televisivas de candidatos da base aliada nas eleições de outubro.

...desleal Eles querem que Raupp convença o presidente do PT, Rui Falcão, que a presença de Lula no palanque eleitoral de candidatos que não sejam da sua legenda, como PDT e PSB, abrirá uma crise com o PMDB.

com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI

tiroteio

"Por mais que tente se afastar de Cachoeira, os fatos traem Marconi Perillo e mostram cada vez mais as relações promíscuas da dupla."

DO LÍDER DO PT NA CÂMARA, JILMAR TATTO (SP), sobre a apreensão de agenda do empresário acusado de contravenção com números ligados ao tucano.

contraponto

Suprema pechincha
Advogado do publicitário Duda Mendonça, Antonio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, aproveitou a enxurrada de advogados em Brasília para incluir no cardápio de seus dois restaurantes pratos temáticos durante o mês do mensalão. O Piantella estreará o "Supremo corte'', que, como sugere o nome, será uma carne com corte especial. O Expand servirá o sanduíche "presuntão de inocência''.

Também dará desconto de 10% para advogados paulistas e 20% para cariocas. Márcio Thomaz Bastos reagiu:

-Eu sou de Cruzeiro, que fica entre Minas, Rio e São Paulo. Tenho direito a 15% de desconto!

Embates de montão - VINICIUS MOTA

FOLHA DE SP -30/07


SÃO PAULO - Será vasto o cardápio de confrontos interessantes no julgamento do mensalão. Eis alguns:

O todo contra as partes. A denúncia da Procuradoria da República é mais forte no conjunto, no liame narrativo enredando os principais réus, que nas imputações específicas a cada um. As defesas, que são individuais, vão explorar essa vulnerabilidade. Sem enfatizar a lógica coletiva, entretanto, a acusação teria menos chances de fisgar os peixes maiores.

Conservadores contra modernistas. Não há provas, dizem os réus, fiando-se na interpretação mais restrita da lei. Mais que provas, refuta a acusação, as circunstâncias denotam o crime. O curioso é ver gente de esquerda, ligada a modismos acadêmicos, apostando na escola tradicional do direito para salvar a pele.

Joaquim contra os petistas. O relator, Joaquim Barbosa, é o mais criativo intérprete da lei no Supremo, adepto do "direito achado na rua". Petistas se arrependem de sua indicação por Lula, mas é tarde. Terão de disputar os outros dez votos.

Gilmar contra José. Gilmar Mendes, o ministro que protagonizou diversos confrontos com o PT, vai condenar o principal réu petista, José Dirceu? Mendes também se destaca, de outro lado, pela crítica a abusos de policiais federais e procuradores e pela defesa dos direitos do indivíduo no entrechoque com o Estado.

Juízo individual contra o coletivo. Cada ministro do Supremo é uma instituição ambulante, costuma-se dizer -a corte não raciocina como corpo coletivo. Seria mero exercício retórico clamar pela responsabilidade histórica desse tribunal cuja fala é o somatório estanque das falas individuais da maioria dos julgadores. No mensalão, entretanto, a figura de juízes auxiliares dos ministros a tricotar entre si vai relativizar aquela imagem tradicional.

Verborragia contra concisão. Aqui há pouca esperança para os mortais comuns. O latinório dos ministros deve correr solto.

A vez do Judiciário - PAULO GUEDES

O GLOBO - 30/07


Qual foi o caminho que nos levou à grandeza? Sob qual forma de go-M verno e sob quais costumes alcan-^"^^çamos nossa grandeza?’! exortava Péricles no auge da democracia ateniense. “Nada é mais fértil do que ser livre, e nada mais árduo do que o aprendizado da liberdade’,’ alertava Tocqueville sobre os desafios da ordem democrática.

A construção de uma Grande Sociedade Aberta exige incessante aperfeiçoamento institucional. O julgamento do mensalão tem, por isso, dimensão histórica. Vai muito além de tecnicalida-des jurídicas, que distinguem “caixa dois’ como crime e “recursos não contabilizados’ como lapso, e também da feroz disputa de poder entre tucanos e petistas. Trata-se da leitura simbólica quanto ao futuro de nossas práticas políticas.

A ciência e o jornalismo têm em comum o compromisso com o entendimento dos fatos, suas causas e consequências. O absoluto respeito por evidências empíricas. A ética na busca da verdade. O ideal do conhecimento como ferramenta para melhorar nossas vidas. Há também espaço para diferenças de opinião, desde que compatíveis com as evidências.

O que ocorreu no mensalão? Um atentado à independência dos poderes, uma tentativa de compra de representantes do Legislativo por representantes do Executivo. A palavra final cabe ao Poder Judiciário, representado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Por que aconteceu? À luz da evidência empírica de quase quarenta anos, com partidos políticos enlameados e os mais nobres ideais degenerando-se em corrupção sistêmica (anões do Orçamento, precatórios, Jorgina do INSS, Lalau do TRT, Sudam, vale-rioduto, sanguessugas, Cachoeira, entre tantos episódios), não se pode descartar a associação entre corrupção, hipertrofia do Estado e centralização administrativa. Os escândalos sucessivos e a desmoralização da classe política são manifestações de uma transição inacabada do Antigo Regime para a Grande Sociedade Aberta.

E as consequências futuras que virão da leitura simbólica desse julgamento? Seguiremos sob a cultura da impunidade? A corrupção, o tráfico de influência e o desvio de recursos públicos continuarão aceitáveis em nome da governabilidade? Ou, como avalia a revista “Economist’ desta semana: “Cadeia para políticos corruptos no Brasil pode ainda ser pouco provável, mas não é mais impensável.”

Ideologia de privada - LUIZ FELIPE PONDÉ

FOLHA DE SP - 30/07


Vão criar editais para fomento cultural e "científico" a favor dos sem-banheiro, o MSB


Quando eu morava num kibutz em Israel nos anos 80, num dos banheiros masculinos, estava escrito na porta, "fighting for peace is like fucking for virginity"(lutar pela paz é como trepar pela virgindade).

Gays sempre deixaram inscrições nas portas e paredes dos banheiros masculinos, afirmando seus desejos e dotes físicos. Quanto aos femininos, sempre foram objeto de mistério e desejo, afinal, ver mulheres sem roupa sempre foi um sonho de todo cara. Além do fato óbvio de que os órgãos excretores são os mesmos envolvidos no ato sexual. Claro, não apenas eles.

Qualquer iniciado em Freud vê algo de obviamente sexual na nossa relação com banheiros. Fantasias sexuais sempre encontraram nos banheiros um santuário para suas taras. E mais: formas diversas de perversões sexuais envolvendo funções excretoras sempre povoaram o universo das fantasias sexuais mais "heavy".

Talvez alguém ache que eu deva pedir perdão por usar uma expressão como "perversões sexuais" num mundo como o nosso, no qual um sujeito pode gostar de espancar e ser espancado, mas exige seu direito de cidadania "sado-maso". Mas não vou pedir perdão não, tá?

Como já disse antes, hoje em dia todo mundo quer ser "legal" e ninguém quer ser pecador. O cara gosta de transar com cães de grande porte, mas recicla lixo, anda de bike na praça Pan-Americana e come rúcula, e por isso ele é o que chamo de "sado-maso" sustentável, ou seja, "sado-maso" de boutique. Sade vomitaria nele, mas sem nenhum tesão.

Até pouco tempo atrás, isso era tudo que se podia imaginar em termos de metafísica de banheiro. Algo na fronteira do "trash" e do mistério. Imagine quantos meninos já sonharam em se esconder no banheiro das meninas para vê-las sem roupa. Uma "cheerleader" no banheiro é um clássico sonho de consumo.

Mas hoje, metafísica de banheiro é coisa "séria". A cidadania passa pela latrina: rosa ou azul? Logo vão inventar a ideia de que "direitos sanitários" não são apenas o direito a saneamento básico (rede de esgoto, boca de lobo, privadas e similares), mas o direito de invadir o banheiro alheio num movimento, talvez inspirado no MST (as Farc brasileiras), que podemos denominar MSB, "os sem-banheiro".

Há algum tempo que ouço frases (que acho bem bregas, aliás) como "na Europa não existe mais banheiro de homem e mulher". Toda pessoa que faz esse tipo de comparação entre Brasil e "o Primeiro Mundo" revela sua alma de vira-lata metido a chique, um dos piores tipos na galeria de comportamentos esteticamente ridículos. Viajo muito, para minha infelicidade, e continuo vendo banheiros divididos por sexo. Sei também que está na moda falar "gêneros" (sexo é construção social), mas eu que não acredito nisso, continuo falando "sexos".

Normalmente lá, quando não há separação, é porque você está num lugar "chiquinho-cabeça" (antros de mal-educados ideologicamente motivados) ou por miséria de banheiro mesmo. Aliás, quem diz que a Europa é Primeiro Mundo em banheiro é quem não conhece a Europa mesmo, porque lá muitos banheiros são horrorosamente imundos, quando não apenas uma fossa num cubículo.

Quem mais sofre com a invasão ideológica do banheiro alheio são as mulheres, que normalmente são bem preocupadas com privacidade neste assunto, a ponto de muitas vezes, desde pequenas, desenvolverem patologias intestinais ou urinárias devido ao hábito de "se reprimirem" em situações de privação de privacidade sanitária.

Proponho fiscais nos banheiros femininos para assegurarem que os invasores farão xixi sentados para não sujarem tudo.

Vivemos em tempos ridículos (tempos pautados por um acúmulo de conforto e por isso todo mundo fica meio besta): daqui a pouco vão criar editais especiais para fomento cultural e "científico" (o povo da teoria de gênero aplicada à privadas) a favor do MSB, "os sem-banheiro".

E o incrível é que ninguém diz de uma vez que esse papo de crítica de gênero aplicada a privadas é papo furado de quem no fundo quer justificar ideologicamente seus pequeno sintomas, e não respeita a privacidade alheia, principalmente das mulheres.