terça-feira, julho 17, 2012
Cenário deteriorado - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 17/07
O Fundo Monetário Internacional (FMI), principal patrulha da economia mundial, publicou ontem novo relatório. Nele rebaixa suas projeções de crescimento do PIB global em relação às divulgadas em abril.
A impressão que deixou foi a de que, embora mais pessimista, o FMI foi otimista demais. Prevê avanço da economia mundial de 3,5% em 2012 e de 3,9% em 2013 - enquanto a percepção geral é de desempenho pior do que esse. (As pequenas divergências entre esses números e os do gráfico se devem a diferenças entre bases de comparação.)
No caso do Brasil, o FMI prevê avanço de 2,5% em 2012, muito alto ante projeções recentes que consideram dados mais atualizados. As cerca de cem instituições auscultadas semanalmente pelo Banco Central na Pesquisa Focus, por exemplo, apontam, em média, 1,9% de crescimento - número que pode ser menor nas próximas semanas.
O relatório do FMI parece consciente da relativa precariedade das suas projeções ao trabalhar com pressupostos de difícil realização. Um deles é o de que a área do euro consiga colocar em marcha políticas destinadas a resolver sua crise. Outro, o de que decisões de afrouxamento dos países emergentes produzam resultados.
Os maiores riscos, alerta o FMI, são, primeiramente, de que a zona do euro não chegue à união bancária - o que pressuporia a instalação de mecanismos de supervisão até o final deste ano no âmbito do Banco Central Europeu (BCE) e a consequente capitalização dos bancos. E, em segundo lugar, que divergências políticas nos Estados Unidos impeçam acordo sobre expansão da dívida. Se a dívida americana não puder superar o teto de US$ 14,3 trilhões, o país terá um cobertor orçamentário mais curto e a economia afundará na recessão.
O FMI sugere que o BCE quebre de uma vez por todas suas resistências e volte a imprimir moeda para irrigar sua economia e, assim, ajude a baixar os juros cobrados no financiamento e no refinanciamento das dívidas soberanas da área.
O ortodoxo FMI pede que o BCE não tenha medo de parecer irresponsável e que mergulhe na heterodoxia por meio da recompra de dívidas com emissão de euros. Em outras palavras, a pressão do FMI é de que o BCE enverede pelo caminho trilhado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), que emitiu moeda para recomprar títulos do Tesouro dos Estados Unidos em duas operações de afrouxamento quantitativo. No entanto, a resistência a providências como essa não está localizada no BCE, mas no governo da Alemanha, que não aceita pagar um pedaço da dívida dos outros países do bloco.
Assim, o FMI, que, no passado, foi tão rigoroso e intransigente quando os países mergulhados na crise da dívida eram latino-americanos ou asiáticos, agora se mostra bem mais flexível quando os superendividados são europeus.
Mas essa nova flexibilidade do FMI não se atém às recomendações e às políticas exigidas. Transmite-se também às análises e, sobretudo, às projeções sobre o comportamento da economia mundial.
Como os principais obstáculos à solução desses problemas não foram removidos, seguem as dúvidas de que, mesmo piores, esses resultados sejam alcançados.
O juro contra o derrotismo - ANTONIO DELFIM NETTO
VALOR ECONÔMICO - 17/07
As políticas macroprudenciais foram adotadas pelo mundo afora quando, desiludidos pelos erros que cometeram, supondo os "mercados perfeitos e honestos", os bancos centrais redescobriram que sua tarefa principal é garantir a estabilidade do sistema financeiro e, complementarmente, controlar a taxa de inflação.
E mais. Redescobriram:
1) que uma taxa de inflação baixa e estável está longe de ser condição suficiente para garantir a estabilidade do sistema financeiro; e 2) que este, quando desregulado, tem propensão a autodestruir-se. Basta ver os dois mais recentes escândalos: o previsível do J.P. Morgan e o quase inacreditável do Barclays, poderosos dissolventes da confiança do público sem a qual nada funciona. O "affair" Libor logo atravessará o Atlântico...
Baixar a taxa real ao nível internacional é fundamental
Se, por um lado, não há desenvolvimento sem inovação e sem banqueiro que corra o risco de financiá-la, de outro, a desabrida tomada de risco os leva a destruir o que ajudaram a criar. Para seu próprio benefício (e da sociedade), é evidente a necessidade de uma regulação que não lhes impeça de fazer o seu papel com eficiência, mas, ao mesmo tempo, controle cuidadosamente a sua infinita imaginação para inventar instrumentos de destruição em massa (como foram alguns derivativos).
Quatro anos depois da crise iniciada com a falência da Lehman Brothers, em setembro de 2008, que paralisou a economia americana e colocou luz nas patifarias feitas por alguns países da eurolândia com a conivência do sistema financeiro, a experiência e a teorização que a seguiram sugerem que a intuição original estava certa: taxa de juros e medidas macro e microprudenciais podem ser, numa certa medida e em determinadas situações, complementos para atingir o duplo objetivo de estabilizar o sistema financeiro e produzir uma baixa taxa de inflação (talvez igual à dos parceiros internacionais), sem o que o crescimento pode ser comprometido.
A experiência mostrou que a ideia de uma substituição do papel da taxa de juros por medidas macro e microprudenciais é equivocada. No longo prazo, as manobras na taxa de juros têm um espectro de influência sobre o sistema econômico que transcende ao seu papel de estabilizar a taxa de inflação.
Procurar baixar a taxa de juros real no Brasil ao nível internacional é fundamental sob múltiplos aspectos, todos favoráveis à aceleração do desenvolvimento econômico: 1) o valor dos ativos (os imóveis) das famílias tende a crescer, aumentando a sua capacidade de endividamento e estimulando o seu consumo; 2) tende a aumentar o valor dos ativos financeiros, nas bolsas de valores (o que aumenta também o patrimônio das famílias e o consumo) e o valor das empresas. Quando esse ultrapassa o seu custo de reposição, tende a aumentar os investimentos (efeito Tobin), acelerando duplamente a demanda global. E vice-versa: se o valor cai abaixo dele não há investimento. A queda do valor dos bancos, por sua vez, reduz diretamente a capacidade de financiamento da economia, prejudicando o crescimento. O sistema de economia de mercado é insitamente instável, porque a resposta da oferta é defasada da demanda, e porque os agentes são também ciclotímicos. Estão sempre ou num estado de euforia, ou em pessimismo, sobre o qual o valor dos ativos nas bolsas parece, também, exercer papel importante; 3) melhora a qualidade e a quantidade dos empréstimos bancários e os estimula, porque aumenta os lucros das empresas e diminui o risco de inadimplência; 4) reduz o custo do financiamento da dívida pública e libera recursos para o aumento do investimento público; e 5) dá à taxa de câmbio o seu papel de preço relativo, que equilibra o fluxo de valor das exportações ao das importações, mantendo uma taxa de câmbio real saudável, que estimula o crescimento. O contrário ocorre quando há absoluta liberdade de movimento de capitais e a taxa de juro real interna é permanentemente superior à externa, situação na qual a taxa de câmbio transforma-se num ativo financeiro sujeito a toda sorte de especulação.
Tem razão, portanto, o Banco Central quando coloca alta prioridade na redução da taxa de juro real, aproveitando a "janela" que se abriu diante das fantásticas dificuldades que atacam o sistema financeiro internacional e, por consequência, o produtivo. Vamos crescer pouco em 2012 Talvez nada muito diferente do que 2%, mas os efeitos das medidas já tomadas sugerem que deveremos estar rodando a 4%-4,5% no fim de 2012 com relação ao fim de 2011.
É hora de perseverar no bom controle fiscal e encontrar um mecanismo suave que, sem comprometer o equilíbrio nos próximos 12 meses, seja capaz de ampliar, com a cooperação dos Estados, o prazo de pagamento dos impostos que hoje são recolhidos, em média, sete semanas antes do produtor receber a fatura! Esse aumento líquido de caixa (principalmente nas pequenas e médias empresas) - sem a interferência de BNDES e de bancos- acelerá os efeitos das medidas já tomadas e reduzirá o pessimismo do nosso setor industrial. Uma condição necessária para a recuperação é resistir ao conluio sindicalista que se arma na Câmara para destruir o equilíbrio fiscal com a ampliação dos gastos de custeio dos três níveis do governo.
E mais. Redescobriram:
1) que uma taxa de inflação baixa e estável está longe de ser condição suficiente para garantir a estabilidade do sistema financeiro; e 2) que este, quando desregulado, tem propensão a autodestruir-se. Basta ver os dois mais recentes escândalos: o previsível do J.P. Morgan e o quase inacreditável do Barclays, poderosos dissolventes da confiança do público sem a qual nada funciona. O "affair" Libor logo atravessará o Atlântico...
Baixar a taxa real ao nível internacional é fundamental
Se, por um lado, não há desenvolvimento sem inovação e sem banqueiro que corra o risco de financiá-la, de outro, a desabrida tomada de risco os leva a destruir o que ajudaram a criar. Para seu próprio benefício (e da sociedade), é evidente a necessidade de uma regulação que não lhes impeça de fazer o seu papel com eficiência, mas, ao mesmo tempo, controle cuidadosamente a sua infinita imaginação para inventar instrumentos de destruição em massa (como foram alguns derivativos).
Quatro anos depois da crise iniciada com a falência da Lehman Brothers, em setembro de 2008, que paralisou a economia americana e colocou luz nas patifarias feitas por alguns países da eurolândia com a conivência do sistema financeiro, a experiência e a teorização que a seguiram sugerem que a intuição original estava certa: taxa de juros e medidas macro e microprudenciais podem ser, numa certa medida e em determinadas situações, complementos para atingir o duplo objetivo de estabilizar o sistema financeiro e produzir uma baixa taxa de inflação (talvez igual à dos parceiros internacionais), sem o que o crescimento pode ser comprometido.
A experiência mostrou que a ideia de uma substituição do papel da taxa de juros por medidas macro e microprudenciais é equivocada. No longo prazo, as manobras na taxa de juros têm um espectro de influência sobre o sistema econômico que transcende ao seu papel de estabilizar a taxa de inflação.
Procurar baixar a taxa de juros real no Brasil ao nível internacional é fundamental sob múltiplos aspectos, todos favoráveis à aceleração do desenvolvimento econômico: 1) o valor dos ativos (os imóveis) das famílias tende a crescer, aumentando a sua capacidade de endividamento e estimulando o seu consumo; 2) tende a aumentar o valor dos ativos financeiros, nas bolsas de valores (o que aumenta também o patrimônio das famílias e o consumo) e o valor das empresas. Quando esse ultrapassa o seu custo de reposição, tende a aumentar os investimentos (efeito Tobin), acelerando duplamente a demanda global. E vice-versa: se o valor cai abaixo dele não há investimento. A queda do valor dos bancos, por sua vez, reduz diretamente a capacidade de financiamento da economia, prejudicando o crescimento. O sistema de economia de mercado é insitamente instável, porque a resposta da oferta é defasada da demanda, e porque os agentes são também ciclotímicos. Estão sempre ou num estado de euforia, ou em pessimismo, sobre o qual o valor dos ativos nas bolsas parece, também, exercer papel importante; 3) melhora a qualidade e a quantidade dos empréstimos bancários e os estimula, porque aumenta os lucros das empresas e diminui o risco de inadimplência; 4) reduz o custo do financiamento da dívida pública e libera recursos para o aumento do investimento público; e 5) dá à taxa de câmbio o seu papel de preço relativo, que equilibra o fluxo de valor das exportações ao das importações, mantendo uma taxa de câmbio real saudável, que estimula o crescimento. O contrário ocorre quando há absoluta liberdade de movimento de capitais e a taxa de juro real interna é permanentemente superior à externa, situação na qual a taxa de câmbio transforma-se num ativo financeiro sujeito a toda sorte de especulação.
Tem razão, portanto, o Banco Central quando coloca alta prioridade na redução da taxa de juro real, aproveitando a "janela" que se abriu diante das fantásticas dificuldades que atacam o sistema financeiro internacional e, por consequência, o produtivo. Vamos crescer pouco em 2012 Talvez nada muito diferente do que 2%, mas os efeitos das medidas já tomadas sugerem que deveremos estar rodando a 4%-4,5% no fim de 2012 com relação ao fim de 2011.
É hora de perseverar no bom controle fiscal e encontrar um mecanismo suave que, sem comprometer o equilíbrio nos próximos 12 meses, seja capaz de ampliar, com a cooperação dos Estados, o prazo de pagamento dos impostos que hoje são recolhidos, em média, sete semanas antes do produtor receber a fatura! Esse aumento líquido de caixa (principalmente nas pequenas e médias empresas) - sem a interferência de BNDES e de bancos- acelerá os efeitos das medidas já tomadas e reduzirá o pessimismo do nosso setor industrial. Uma condição necessária para a recuperação é resistir ao conluio sindicalista que se arma na Câmara para destruir o equilíbrio fiscal com a ampliação dos gastos de custeio dos três níveis do governo.
Crédito com risco - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 17/07
O BNDES concedeu outro crédito-ponte de R$ 1,8 bilhão para a Norte Energia, empresa que está construindo Belo Monte. Ao todo, já colocou à disposição do empreendimento R$ 6,6 bilhões. O Ministério Público comunicou ao Banco Central que empréstimos têm sido concedidos sem a devida análise de risco. O BNDES concedeu o crédito, apesar de o IBAMA ter multado Belo Monte em R$ 7 milhões por problemas ambientais.
A multa imposta pelo IBAMA é pelo não cumprimento de compromissos assumidos na concessão da licença prévia. Pelas normas do BNDES, repetidas em nota enviada ontem à coluna, empréstimos só são concedidos para empresas que estão em dia com obrigações ambientais.
O segundo empréstimo foi concedido sem que o Ministério Público do Pará, que vem acompanhando essa questão detalhadamente, soubesse. A primeira informação foi divulgada por uma ONG. O primeiro crédito-ponte foi de R$ 1,1 bilhão; o segundo empréstimo, de R$ 1,8 bi, além do crédito através do Plano de Sustentação do Investimento no valor de R$ 3,7 bilhões.
A obra é controversa, continua no meio de muita polêmica, mas nada disso impediria o banco de conceder o empréstimo, se tivesse respeitado os seguintes requisitos: uma análise de risco de crédito, o cumprimento por parte do tomador de empréstimo da Legislação Ambiental e uma ampla publicidade ao fato.
Só se soube que o crédito foi concedido, porque a ONG International Rivers procurou o recém-criado Serviço de Informação ao Cidadão do BNDES e pediu o dado. Foi surpresa para o próprio Ministério Público do Pará, que pedirá o contrato do adiantamento. Ontem, perguntei ao banco se o crédito tinha, de fato, sido mesmo concedido e, em nota, ele informou que sim. "Duas operações de curto prazo no valor total de R$ 1,8 bilhão, realizadas na modalidade indireta, por meio de repasse de recursos dos agentes financeiros Caixa Econômica Federal (R$ 1,5 bilhão) e Banco ABC (R$ 300 milhões)".
Segundo a nota do BNDES: "Com relação ao segundo empréstimo-ponte, o BNDES estabeleceu uma série de obrigações e condições, entre as quais a de manter em situação regular suas obrigações junto aos órgãos de meio ambiente, inclusive como condição para utilização de recursos". Após a coluna ter perguntado por que o banco concedeu o empréstimo em fevereiro (contratado em março), apesar de a multa do IBAMA ter sido dada naquele mês, o BNDES respondeu que, ao ser informado da multa, suspendeu a liberação dos recursos.
"O dinheiro relativo a este segundo empréstimo-ponte só começou a ser desembolsado após comprovada a regularidade ambiental. A Norte Energia apresentou ao banco no final de março ofício do IBAMA atestando que, embora tivesse sido aplicada a multa, a licença de instalação do projeto continuava válida e que a empresa permanece autorizada a prosseguir com as obras para implantar a usina". O banco disse isso quando foi consultado pela coluna pela segunda vez.
O IBAMA multou a empresa em fevereiro pelos "atrasos constatados na implementação do Projeto Básico Ambiental". As licenças prévias do IBAMA foram concedidas com o condicionante de que seria feito o PBA para adotar ações de mitigação do impacto da usina para a vazão do rio e os moradores da região.
Sem saber desse novo empréstimo de R$ 1,8 bilhão, o Ministério Público, no final de maio, havia consultado o BNDES sobre outra dúvida em relação ao primeiro empréstimo-ponte de R$ 1,1 bilhão e ao crédito do Programa de Sustentação de Investimento de R$ 3,7 bilhões. O MP quer saber se existem estimativas de custos de mitigação e compensação de impactos ambientais e sociais que estão previstas na concessão das licenças prévia e de instalação. Queria saber também dos "resultados da análise de risco" e da "análise técnica da viabilidade econômico-financeira" de Belo Monte para conceder o empréstimo principal. A consulta ao presidente do banco, Luciano Coutinho, foi assinada pelos procuradores Cláudio Terre do Amaral e Bruno Alexandre Gütschow.
Foram enviadas também ao BC no dia 30 de maio, ao chefe do Departamento de Supervisão de Bancos, Carlos Donizeti Macedo Maia, informações sobre esses empréstimos "com a finalidade de instruir Inquérito Civil Público". O ponto do MP é que o próprio BNDES havia informado em relação ao primeiro empréstimo-ponte o seguinte: "ainda não foi possível elaborar a classificação de risco dessa operação de financiamento". Segundo os procuradores, não há nada que permita a concessão de crédito sem análise de níveis de risco.
O que os documentos mostram é que Belo Monte, mesmo com seu pedido de empréstimo de R$ 23 bilhões não aprovado ainda, já teve dois empréstimos-ponte de R$ 2,9 bilhões, mesmo recebendo multa do IBAMA por descumprimento básico da lei. E ainda teve um crédito de R$ 3,7 bilhões do Plano de Sustentação do Investimento. É isso que está sob investigação do Ministério Público.
A multa imposta pelo IBAMA é pelo não cumprimento de compromissos assumidos na concessão da licença prévia. Pelas normas do BNDES, repetidas em nota enviada ontem à coluna, empréstimos só são concedidos para empresas que estão em dia com obrigações ambientais.
O segundo empréstimo foi concedido sem que o Ministério Público do Pará, que vem acompanhando essa questão detalhadamente, soubesse. A primeira informação foi divulgada por uma ONG. O primeiro crédito-ponte foi de R$ 1,1 bilhão; o segundo empréstimo, de R$ 1,8 bi, além do crédito através do Plano de Sustentação do Investimento no valor de R$ 3,7 bilhões.
A obra é controversa, continua no meio de muita polêmica, mas nada disso impediria o banco de conceder o empréstimo, se tivesse respeitado os seguintes requisitos: uma análise de risco de crédito, o cumprimento por parte do tomador de empréstimo da Legislação Ambiental e uma ampla publicidade ao fato.
Só se soube que o crédito foi concedido, porque a ONG International Rivers procurou o recém-criado Serviço de Informação ao Cidadão do BNDES e pediu o dado. Foi surpresa para o próprio Ministério Público do Pará, que pedirá o contrato do adiantamento. Ontem, perguntei ao banco se o crédito tinha, de fato, sido mesmo concedido e, em nota, ele informou que sim. "Duas operações de curto prazo no valor total de R$ 1,8 bilhão, realizadas na modalidade indireta, por meio de repasse de recursos dos agentes financeiros Caixa Econômica Federal (R$ 1,5 bilhão) e Banco ABC (R$ 300 milhões)".
Segundo a nota do BNDES: "Com relação ao segundo empréstimo-ponte, o BNDES estabeleceu uma série de obrigações e condições, entre as quais a de manter em situação regular suas obrigações junto aos órgãos de meio ambiente, inclusive como condição para utilização de recursos". Após a coluna ter perguntado por que o banco concedeu o empréstimo em fevereiro (contratado em março), apesar de a multa do IBAMA ter sido dada naquele mês, o BNDES respondeu que, ao ser informado da multa, suspendeu a liberação dos recursos.
"O dinheiro relativo a este segundo empréstimo-ponte só começou a ser desembolsado após comprovada a regularidade ambiental. A Norte Energia apresentou ao banco no final de março ofício do IBAMA atestando que, embora tivesse sido aplicada a multa, a licença de instalação do projeto continuava válida e que a empresa permanece autorizada a prosseguir com as obras para implantar a usina". O banco disse isso quando foi consultado pela coluna pela segunda vez.
O IBAMA multou a empresa em fevereiro pelos "atrasos constatados na implementação do Projeto Básico Ambiental". As licenças prévias do IBAMA foram concedidas com o condicionante de que seria feito o PBA para adotar ações de mitigação do impacto da usina para a vazão do rio e os moradores da região.
Sem saber desse novo empréstimo de R$ 1,8 bilhão, o Ministério Público, no final de maio, havia consultado o BNDES sobre outra dúvida em relação ao primeiro empréstimo-ponte de R$ 1,1 bilhão e ao crédito do Programa de Sustentação de Investimento de R$ 3,7 bilhões. O MP quer saber se existem estimativas de custos de mitigação e compensação de impactos ambientais e sociais que estão previstas na concessão das licenças prévia e de instalação. Queria saber também dos "resultados da análise de risco" e da "análise técnica da viabilidade econômico-financeira" de Belo Monte para conceder o empréstimo principal. A consulta ao presidente do banco, Luciano Coutinho, foi assinada pelos procuradores Cláudio Terre do Amaral e Bruno Alexandre Gütschow.
Foram enviadas também ao BC no dia 30 de maio, ao chefe do Departamento de Supervisão de Bancos, Carlos Donizeti Macedo Maia, informações sobre esses empréstimos "com a finalidade de instruir Inquérito Civil Público". O ponto do MP é que o próprio BNDES havia informado em relação ao primeiro empréstimo-ponte o seguinte: "ainda não foi possível elaborar a classificação de risco dessa operação de financiamento". Segundo os procuradores, não há nada que permita a concessão de crédito sem análise de níveis de risco.
O que os documentos mostram é que Belo Monte, mesmo com seu pedido de empréstimo de R$ 23 bilhões não aprovado ainda, já teve dois empréstimos-ponte de R$ 2,9 bilhões, mesmo recebendo multa do IBAMA por descumprimento básico da lei. E ainda teve um crédito de R$ 3,7 bilhões do Plano de Sustentação do Investimento. É isso que está sob investigação do Ministério Público.
Apertem os cintos, os pilotos sumiram - CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE S.PAULO - 17/07
Novo relatório do FMI demonstra que o mundo carece de lideranças e ideias
O QUE incomoda no relatório sobre a economia mundial, divulgado ontem pelo Fundo Monetário Internacional, é menos a perspectiva de contínua desaceleração econômica do planeta -e o Brasil, infelizmente, faz parte do planeta- e mais a absoluta falta de líderes e ideias à altura do tamanho da crise.
Quem se der ao trabalho de ler as análises e recomendações do FMI ficará chocado com a catarata de platitudes e obviedades vertidas pelos especialistas.
No fundo, no fundo, rebarbado o economês inevitável nesse tipo de documentos, o que está dito é mais ou menos assim: se cada grande área do mundo fizer a coisa certa, a economia melhorará. Se um ou mais de um errar o passo, tudo vai piorar.
É bom lembrar que o FMI foi absolutamente incapaz de antever a crise que começou com as hipotecas "subprime" e virou uma confusão global que parece não ter fim, como, de resto, confirma o relatório do Fundo.
Quando a crise ameaçava corroer o mundo, os líderes da época (2008) tiveram um momento de ousadia e lucidez: sentiram que a governança global, de que o FMI era parte essencial, estava defasada.
Transformaram então o G20 de um clube de ministros de Economia e presidentes de bancos centrais, dedicado a assuntos técnicos e, como tais, muito chatos, no principal fórum de coordenação econômica global (a definição foi adotada na cúpula de Pittsburgh em 2009).
No princípio, até funcionou. Medidas coordenadas de estímulo à economia adotadas na China e nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa, evitaram um colapso ainda mais brutal do que a recessão do período 2008/09.
Mas, de Pittsburgh em diante, o G20 foi ficando mais e mais irrelevante, pela sua absoluta incapacidade de coordenar o que quer que seja. Ficavam de um lado os europeus, prometendo fazer a lição de casa, e de outro os demais cobrando que os europeus fizessem a lição de casa.
De modo geral, entendia-se por lição de casa erguer um "firewall" suficientemente imponente para evitar que a crise dos países chamados periféricos (Portugal, Grécia, Irlanda) atingisse os grandes como Espanha e Itália.
O relatório do Fundo certifica o fracasso dos europeus: prevê que a economia espanhola retrocederá 0,6% no ano que vem, o que significa que os "firewalls" anunciados não foram suficientes para içar o país do poço, sem o que fica difícil, talvez impossível, pagar sua dívida e reduzir seu deficit,
No Brasil, por mais que a presidente Dilma Rousseff diga que não vai seguir o caminho europeu, no que, de resto, faz muito bem, o resultado da política inversa não chega a entusiasmar: segundo o FMI, o crescimento deste ano não irá além de 2,5%, ou 0,6 ponto percentual menos do que o previsto há apenas três meses (os mercados, aliás, preveem anêmicos 2%).
Tudo somado, não está funcionando a austeridade europeia, não estão funcionando os "firewalls" europeus, não estão funcionando (ou funcionam mal) os estímulos brasileiros, americanos, chineses. Os pilotos parecem não saber o que fazer com a nave Terra.
Novo relatório do FMI demonstra que o mundo carece de lideranças e ideias
O QUE incomoda no relatório sobre a economia mundial, divulgado ontem pelo Fundo Monetário Internacional, é menos a perspectiva de contínua desaceleração econômica do planeta -e o Brasil, infelizmente, faz parte do planeta- e mais a absoluta falta de líderes e ideias à altura do tamanho da crise.
Quem se der ao trabalho de ler as análises e recomendações do FMI ficará chocado com a catarata de platitudes e obviedades vertidas pelos especialistas.
No fundo, no fundo, rebarbado o economês inevitável nesse tipo de documentos, o que está dito é mais ou menos assim: se cada grande área do mundo fizer a coisa certa, a economia melhorará. Se um ou mais de um errar o passo, tudo vai piorar.
É bom lembrar que o FMI foi absolutamente incapaz de antever a crise que começou com as hipotecas "subprime" e virou uma confusão global que parece não ter fim, como, de resto, confirma o relatório do Fundo.
Quando a crise ameaçava corroer o mundo, os líderes da época (2008) tiveram um momento de ousadia e lucidez: sentiram que a governança global, de que o FMI era parte essencial, estava defasada.
Transformaram então o G20 de um clube de ministros de Economia e presidentes de bancos centrais, dedicado a assuntos técnicos e, como tais, muito chatos, no principal fórum de coordenação econômica global (a definição foi adotada na cúpula de Pittsburgh em 2009).
No princípio, até funcionou. Medidas coordenadas de estímulo à economia adotadas na China e nos Estados Unidos, no Brasil e na Europa, evitaram um colapso ainda mais brutal do que a recessão do período 2008/09.
Mas, de Pittsburgh em diante, o G20 foi ficando mais e mais irrelevante, pela sua absoluta incapacidade de coordenar o que quer que seja. Ficavam de um lado os europeus, prometendo fazer a lição de casa, e de outro os demais cobrando que os europeus fizessem a lição de casa.
De modo geral, entendia-se por lição de casa erguer um "firewall" suficientemente imponente para evitar que a crise dos países chamados periféricos (Portugal, Grécia, Irlanda) atingisse os grandes como Espanha e Itália.
O relatório do Fundo certifica o fracasso dos europeus: prevê que a economia espanhola retrocederá 0,6% no ano que vem, o que significa que os "firewalls" anunciados não foram suficientes para içar o país do poço, sem o que fica difícil, talvez impossível, pagar sua dívida e reduzir seu deficit,
No Brasil, por mais que a presidente Dilma Rousseff diga que não vai seguir o caminho europeu, no que, de resto, faz muito bem, o resultado da política inversa não chega a entusiasmar: segundo o FMI, o crescimento deste ano não irá além de 2,5%, ou 0,6 ponto percentual menos do que o previsto há apenas três meses (os mercados, aliás, preveem anêmicos 2%).
Tudo somado, não está funcionando a austeridade europeia, não estão funcionando os "firewalls" europeus, não estão funcionando (ou funcionam mal) os estímulos brasileiros, americanos, chineses. Os pilotos parecem não saber o que fazer com a nave Terra.
Os alertas do FMI - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 17/07
Ninguém deve enganar-se com o aparente otimismo do Fundo Monetário Internacional (FMI) em suas novas projeções de crescimento global - 3,5% neste ano e 3,9% em 2013, números bem próximos daqueles divulgados em abril. Muito mais importante que essas projeções é a mensagem aos políticos: o resultado efetivo será muito pior se os governos falharem nas medidas para destravar a economia na zona do euro, reanimar os países emergentes e evitar um desastre nos Estados Unidos. A adoção dessas medidas é um pressuposto das novas previsões, mas os números são acompanhados de advertências bem claras. Não há dúvida sobre o empenho do governo da China, o maior dos emergentes, para evitar uma desaceleração abrupta. As autoridades chinesas já cortaram os juros, criaram facilidades para a expansão do crédito e reduziram impostos para atrair o investidor estrangeiro. Na Europa, no entanto, é preciso avançar nas ações de fortalecimento dos bancos, de apoio aos governos endividados e de abertura de espaço para maior crescimento. Nos Estados Unidos, o impasse político em torno do orçamento e da política de ajuste é a principal fonte de risco.
Os europeus têm dado passos na direção certa, mas falta, segundo os autores do relatório, avançar na unificação da política bancária para a zona do euro, na integração das políticas orçamentárias e num apoio mais amplo aos países da chamada periferia do euro. É necessário, disse o economista-chefe do FMI, garantir ajuda tanto à Espanha quanto à Itália, para facilitar o financiamento de suas contas públicas.
O ajuste fiscal avança em ritmo satisfatório na maior parte da zona do euro, segundo os especialistas do FMI, mas um aperto excessivo poderá agravar as dificuldades econômicas e a própria recuperação dos orçamentos. A adoção de medidas para combinar ajuste de longo prazo e crescimento depende, no entanto, de um acerto político entre os governos mais influentes. Diplomaticamente, os técnicos e diretores do FMI evitam detalhes, mas o recado é em boa parte dirigido às autoridades alemãs, principais defensoras de uma austeridade fiscal sem concessões. Para a zona do euro as projeções indicam uma contração de 0,3% neste ano e uma expansão de 0,7% no próximo.
No caso dos Estados Unidos, o crescimento previsto para este ano, de 2%, é apenas 0,1 ponto inferior ao projetado em abril. Para 2013 foi estimada uma expansão de 2,3%, mas com uma ressalva assustadora. Sem um acordo político, cortes temporários de impostos serão eliminados automaticamente, despesas serão contidas de forma abrupta e a redução do déficit público será equivalente a 4 pontos de porcentagem do PIB - uma enormidade. A consequência será um violento freio na economia, com impactos em todo o mundo. Não se menciona o vilão da história, mas obviamente se trata da oposição republicana, empenhada em travar todas as medidas de estímulo à economia americana.
Para os emergentes está previsto crescimento de 5,6% em 2012, com aceleração para 5,9% em 2013. Os números são menores que os estimados em abril, mas o cenário ainda inclui expansão de 8% para a China e de 2,5% para o Brasil - talvez a mais otimista das projeções. No caso da China, o risco maior é uma freada brusca nos investimentos.
Os emergentes, segundo o relatório, vêm crescendo há alguns anos acima de seu potencial, em parte graças à expansão do crédito e ao desenvolvimento do setor financeiro. Como resultado, a expansão desses países, no médio prazo, pode ser menor do que se vinha estimando. A exposição se detém neste ponto, sem mais detalhes sobre cada caso. Mas o comentário, pode-se acrescentar, aplica-se muito bem ao Brasil, onde o debate sobre o potencial de crescimento é especialmente oportuno. O potencial brasileiro, segundo algumas estimativas respeitáveis, deve estar na faixa de 3,5% a 4% ao ano. Esse limite só será ultrapassado por meio de investimentos maiores, com enfoque mais cuidadoso e realizados com maior eficiência. Sem isso, a economia poderá crescer mais rapidamente em alguns períodos, mas a expansão acima do potencial acabará resultando em desajustes graves, como pressões inflacionárias e rombos nas contas externas.
Fora dos trilhos - EDITORIAL FOLHA DE SP
FOLHA DE SP - 17/07
Suspeitas de sobrepreço na ferrovia Norte-Sul reeditam episódio de 25 anos atrás e mostram enraizamento de corrupção em obras públicas
O que há de mais deplorável nos indícios de superfaturamento em obras da ferrovia Norte-Sul não são os desvios episódicos, embora milionários, apontados pela Polícia Federal. A maior consternação advém, ao contrário, daquilo que há de universal neste caso particular.
Que exista corrupção em contratos firmados com governos não é novidade. Há tempos sabe-se que agentes públicos e privados buscam acertos benéficos para as partes envolvidas, mas prejudiciais para a sociedade.
Ao longo do ano passado, a suposta "faxina" do governo Dilma Rousseff atingiu em cheio o Ministério dos Transportes. Um dos principais motivos para a demissão da cúpula da pasta, incluindo o ministro, foram as acusações de superfaturamento em obras tocadas por empresas estatais.
O histórico de desvios nos Transportes, porém, remonta a um passado mais longínquo. Em 1987, por exemplo, reportagem de Janio de Freitas nesta Folha marcou época ao revelar irregularidades na mesma ferrovia Norte-Sul: "Foi fraudulenta e determinada por corrupção a concorrência pública (...) para a construção da ferrovia Maranhão-Brasília (ou Norte-Sul)".
A divulgação do jogo de cartas marcadas levou o governo Sarney a anular os resultados da licitação -já àquela época comandada pela Valec, estatal ligada aos Transportes. Os responsáveis pela falcatrua, no entanto, não foram punidos.
É difícil crer que seja apenas uma triste coincidência o fato de, 25 anos depois, a Valec se vir diante de suspeitas envolvendo a mesma ferrovia Norte-Sul.
Segundo laudos da Polícia Federal, há indícios de conchavo entre as construtoras encarregadas da obra e sobrepreço de mais de R$ 100 milhões no trecho da ferrovia que atravessa Goiás.
A Polícia Federal suspeita ainda que José Francisco das Neves, o Juquinha, que foi presidente da Valec de 2003 a 2011, tenha feito o patrimônio da família chegar a R$ 60 milhões graças a recursos desviados da estatal.
Como em tantos eventos semelhantes, as pessoas físicas e jurídicas envolvidas nesse caso negam as irregularidades. A presunção de inocência é um dispositivo fundamental na democracia.
Se as suspeitas se revelarem pertinentes, também não haverá surpresa -será mais um entre tantos episódios de corrupção. Lamentável é que a repetição desse enredo tenha se tornado tão escandalosamente corriqueira.
Suspeitas de sobrepreço na ferrovia Norte-Sul reeditam episódio de 25 anos atrás e mostram enraizamento de corrupção em obras públicas
O que há de mais deplorável nos indícios de superfaturamento em obras da ferrovia Norte-Sul não são os desvios episódicos, embora milionários, apontados pela Polícia Federal. A maior consternação advém, ao contrário, daquilo que há de universal neste caso particular.
Que exista corrupção em contratos firmados com governos não é novidade. Há tempos sabe-se que agentes públicos e privados buscam acertos benéficos para as partes envolvidas, mas prejudiciais para a sociedade.
Ao longo do ano passado, a suposta "faxina" do governo Dilma Rousseff atingiu em cheio o Ministério dos Transportes. Um dos principais motivos para a demissão da cúpula da pasta, incluindo o ministro, foram as acusações de superfaturamento em obras tocadas por empresas estatais.
O histórico de desvios nos Transportes, porém, remonta a um passado mais longínquo. Em 1987, por exemplo, reportagem de Janio de Freitas nesta Folha marcou época ao revelar irregularidades na mesma ferrovia Norte-Sul: "Foi fraudulenta e determinada por corrupção a concorrência pública (...) para a construção da ferrovia Maranhão-Brasília (ou Norte-Sul)".
A divulgação do jogo de cartas marcadas levou o governo Sarney a anular os resultados da licitação -já àquela época comandada pela Valec, estatal ligada aos Transportes. Os responsáveis pela falcatrua, no entanto, não foram punidos.
É difícil crer que seja apenas uma triste coincidência o fato de, 25 anos depois, a Valec se vir diante de suspeitas envolvendo a mesma ferrovia Norte-Sul.
Segundo laudos da Polícia Federal, há indícios de conchavo entre as construtoras encarregadas da obra e sobrepreço de mais de R$ 100 milhões no trecho da ferrovia que atravessa Goiás.
A Polícia Federal suspeita ainda que José Francisco das Neves, o Juquinha, que foi presidente da Valec de 2003 a 2011, tenha feito o patrimônio da família chegar a R$ 60 milhões graças a recursos desviados da estatal.
Como em tantos eventos semelhantes, as pessoas físicas e jurídicas envolvidas nesse caso negam as irregularidades. A presunção de inocência é um dispositivo fundamental na democracia.
Se as suspeitas se revelarem pertinentes, também não haverá surpresa -será mais um entre tantos episódios de corrupção. Lamentável é que a repetição desse enredo tenha se tornado tão escandalosamente corriqueira.
Rigor na aplicação da Ficha Limpa - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 17/07
Com a responsabilidade de presidir a primeira eleição em que a Lei da Ficha Limpa será aplicada na plenitude, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, demonstra entender com clareza a dimensão do desafio.
Na sexta-feira, em reunião no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, a ministra foi incisiva: “Ninguém tolera mais a corrupção. Temos que fazer cumprir esta lei”, afirmou, antes de se colocar à disposição de qualquer juiz eleitoral, para garantir a aplicação da Ficha Limpa.
É mesmo essencial que não escape qualquer “ficha suja” do filtro ético representado por esta lei. Seria lamentável que, depois de toda a mobilização para o encaminhamento do projeto da lei ao Congresso, das intensas negociações parlamentares e da tramitação acidentada do assunto no Supremo Tribunal Federal, a Ficha Limpa tropeçasse nos tribunais.
É acertada a iniciativa da presidente do TSE de colocar todos os meios à disposição dos tribunais regionais para a lei impedir de fato que donos de prontuários policiais e/ou condenados em julgamentos com mais de um magistrado busquem refúgio nas imunidades criadas para proteger ocupantes de cargos eletivos de ações de cunho político. Com o passar do tempo e a degradação do quadro político-partidário, essas imunidades começaram a proteger criminosos comuns, e não apenas corruptos.
O Ministério Público Eleitoral, até a semana passada, havia pedido a impugnação de 349 candidaturas — não apenas com base na Ficha Limpa —, das quais 316 para vereador, 23 a vice prefeito e dez a prefeito. No Rio, 97 estão com o pedido de registro de candidatura impugnado. Destes, cinco são acusados de serem “fichas sujas”. A tendência dos números é aumentar.
É nas eleições municipais que fica mais visível a interferência da criminalidade na política. Neste aspecto, o Rio tem um péssimo histórico, devido à atuação de milícias, principalmente na Zona Oeste, e de outros esquemas criminosos interessados em interferir no processo eleitoral. Há exemplos em que o tráfico interfere no acesso de candidatos a seus redutos. A Rocinha era um deles, antes da ocupação da favela pelo poder público, para a instalação de uma UPP. As milícias, porém, parecem bem mais ativas na infiltração de representantes na vida pública. Até vereador e deputado estadual já foram presos por atuar em milícias.
Há bolsões controlados por policiais, agentes penitenciários e bombeiros que funcionam como currais eleitorais, mesmo que os chefes estejam presos. Repete-se o esquema do tráfico, no qual chefões mantêm o controle sobre as quadrilhas, de dentro de penitenciárias ditas de segurança máxima.
A situação levou o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, desembargador Luiz Zveiter, a constituir um grupo especial com a Secretaria de Segurança, Polícia Federal, Comando Militar do Leste e Polícia Rodoviária Federal, para atuar na campanha deste ano. Providência necessária.
Neste contexto, de invasão do mundo político pelo crime organizado, a Lei da Ficha Limpa ganha ainda maior relevância.
Seria desastroso se, depois de toda a luta, os tribunais falhassem
Com a responsabilidade de presidir a primeira eleição em que a Lei da Ficha Limpa será aplicada na plenitude, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, demonstra entender com clareza a dimensão do desafio.
Na sexta-feira, em reunião no Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte, a ministra foi incisiva: “Ninguém tolera mais a corrupção. Temos que fazer cumprir esta lei”, afirmou, antes de se colocar à disposição de qualquer juiz eleitoral, para garantir a aplicação da Ficha Limpa.
É mesmo essencial que não escape qualquer “ficha suja” do filtro ético representado por esta lei. Seria lamentável que, depois de toda a mobilização para o encaminhamento do projeto da lei ao Congresso, das intensas negociações parlamentares e da tramitação acidentada do assunto no Supremo Tribunal Federal, a Ficha Limpa tropeçasse nos tribunais.
É acertada a iniciativa da presidente do TSE de colocar todos os meios à disposição dos tribunais regionais para a lei impedir de fato que donos de prontuários policiais e/ou condenados em julgamentos com mais de um magistrado busquem refúgio nas imunidades criadas para proteger ocupantes de cargos eletivos de ações de cunho político. Com o passar do tempo e a degradação do quadro político-partidário, essas imunidades começaram a proteger criminosos comuns, e não apenas corruptos.
O Ministério Público Eleitoral, até a semana passada, havia pedido a impugnação de 349 candidaturas — não apenas com base na Ficha Limpa —, das quais 316 para vereador, 23 a vice prefeito e dez a prefeito. No Rio, 97 estão com o pedido de registro de candidatura impugnado. Destes, cinco são acusados de serem “fichas sujas”. A tendência dos números é aumentar.
É nas eleições municipais que fica mais visível a interferência da criminalidade na política. Neste aspecto, o Rio tem um péssimo histórico, devido à atuação de milícias, principalmente na Zona Oeste, e de outros esquemas criminosos interessados em interferir no processo eleitoral. Há exemplos em que o tráfico interfere no acesso de candidatos a seus redutos. A Rocinha era um deles, antes da ocupação da favela pelo poder público, para a instalação de uma UPP. As milícias, porém, parecem bem mais ativas na infiltração de representantes na vida pública. Até vereador e deputado estadual já foram presos por atuar em milícias.
Há bolsões controlados por policiais, agentes penitenciários e bombeiros que funcionam como currais eleitorais, mesmo que os chefes estejam presos. Repete-se o esquema do tráfico, no qual chefões mantêm o controle sobre as quadrilhas, de dentro de penitenciárias ditas de segurança máxima.
A situação levou o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, desembargador Luiz Zveiter, a constituir um grupo especial com a Secretaria de Segurança, Polícia Federal, Comando Militar do Leste e Polícia Rodoviária Federal, para atuar na campanha deste ano. Providência necessária.
Neste contexto, de invasão do mundo político pelo crime organizado, a Lei da Ficha Limpa ganha ainda maior relevância.
Seria desastroso se, depois de toda a luta, os tribunais falhassem
Momento de transição - JOSÉ PAULO KUPFER
O Estado de S.Paulo - 17/07
Mais uma vez, os analistas de mercado, conforme o boletim Focus mais atualizado, divulgado na manhã de ontem, revisaram para baixo as projeções para a evolução do PIB, em 2012. O recuo das estimativas tem sido gradual, já se verifica há dez semanas consecutivas e pela primeira vez rompeu para baixo a barreira dos 2%.
Também ontem o Fundo Monetário Internacional (FMI) divulgou a revisão trimestral do seu relatório "Panorama Econômico Global", com uma ligeira baixa nas projeções de crescimento da economia mundial, de 3,6% para 3,5%, em 2012. O ligeiro corte se deve a previsões de expansão menor nas economias emergentes, em comparação com as estimativas de abril. Em relação à economia brasileira, o FMI também divulgou um recuo nas projeções, de 3,1% para 2,5% neste ano, em linha com as atuais estimativas do Banco Central.
Tanto no caso da economia brasileira como no da chinesa, o FMI destaca que o arsenal de estímulos já utilizado, mais as armas ainda à disposição para serem acionadas, devem impulsionar uma retomada, no segundo semestre. Para o Brasil, por exemplo, o FMI estima que, no último trimestre, a expansão do nível de atividades se dará num ritmo nas vizinhanças de 4% - como, por sinal, o governo insiste em bancar.
Só no fim de agosto, quando está prevista a divulgação pelo IBGE da taxa de evolução da economia no segundo trimestre, se saberá se as pressões baixistas sobre o nível de atividades alcançaram, ali, o fundo do poço, dando lugar, como espera a maior parte dos analistas, ao início de algum tipo de recuperação. Os indicadores antecedentes, de fato, parecem apontar para algo nesse sentido. Mesmo com a estagnação observada em maio pelo índice mensal de atividades do Banco Central, é possível que o crescimento no segundo trimestre seja um pouco maior, chegando a 0,5% sobre o trimestre anterior.
Caso essa projeção se confirme, o quadro da evolução econômica em 2012 estaria razoavelmente definido, sob a forma de uma curva ascendente, trimestre a trimestre, embora com inclinação suave. Resumindo a história, em algum momento do segundo semestre os analistas consultados pelo "Focus" podem começar a revisar, para cima, mas também lentamente, suas estimativas para o desempenho da economia em 2012.
É uma boa aposta imaginar que este início de segundo semestre marcaria um momento de transição, na estreita faixa em que a economia pode se mover, apenas com resposta aos estímulos pontuais que vem recebendo, sem reformas mais profundas nas estruturas de produção. Considerando os efeitos estatísticos, seria agora que a atividade deixaria de recuar e encontraria espaço para uma retomada, ainda que não tenha muito fôlego.
Um teste interessante, para localizar ou não esse ponto de inflexão, deve vir nesta semana, quando o Ministério do Trabalho promete divulgar a evolução da criação de empregos formais, em junho. O recuo nas contratações líquidas em maio foi maior do que o previsto, mas a expectativa é de que o resultado do mês passado tenha sido melhor do que o anterior.
Mesmo considerando que, incluindo junho, a média mensal dos últimos seis meses aponte para os números mais fracos desde 2009, a hipótese mais aceita é a de que, juntamente com retomadas nas vendas no varejo, a criação de empregos será suficiente para reforçar a expectativa de moderada recuperação no crescimento econômico, daqui até o fim do ano.
Não se pode esquecer que a série de medidas de estímulos adotada desde o começo do ano - e reforçada em abril e maio - mal começou a produzir resultados. Os impactos da desvalorização do câmbio, do alívio de tributos nas folhas de pagamento, das isenções de impostos e da decisão de incrementar as compras governamentais ainda não se refletiram por inteiro nos números da economia.
O mesmo se pode dizer dos efeitos com origem no ciclo, ainda não encerrado, de cortes dos juros básicos. A ata da última reunião do Copom, que promoveu o oitavo corte consecutivo de 0,5 ponto porcentual na taxa Selic, também esperada para esta semana, pode dar mais sinais de que, quem sabe, o pior já tenha ficado para trás.
Louros do próprio sucesso - BENJAMIN STEINBRUCH
FOLHA DE S.PAULO - 17/07
O Brasil está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso; há várias tarefas a fazer
Quem acompanha esta coluna conhece minha posição intransigente na defesa dos interesses nacionais. Não hesito em saudar iniciativas que privilegiem o capital nacional nem em exaltar resultados positivos da economia brasileira.
Nacionalismo, porém, não deve ser confundido com ufanismo. Em junho, o economista indiano Pankaj Ghemawat fez uma advertência que ganhou pouco destaque na mídia brasileira. Em um evento em Edimburgo (Escócia), ele disse que o Brasil precisa "parar de apenas se autocongratular pelas conquistas econômicas e passar a pensar no que precisa ser feito para ganhar mais espaço no mercado global".
Ele está certo. O Brasil melhorou muito nos últimos anos. Conquistou a estabilidade, deu ênfase a programas de inclusão social, adotou mais seriedade fiscal, formalizou grande parcela da economia subterrânea, criou milhões de empregos regulares, acumulou reservas e ganhou prestígio internacional.
Feito isso tudo, porém, o país está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso. Há várias tarefas a fazer, muitas delas frequentemente repetidas, como a redução da carga tributária e do "custo Brasil" em geral, o cuidado com a educação e a saúde, a desburocratização. Uma tarefa muito importante refere-se à mudança de mentalidade na direção de privilegiar os investimentos produtivos.
Vivemos no país um longo período de farra financeira. As elevadas taxas de juros, verdadeiras aberrações, permitiam ganhos financeiros fabulosos a especuladores e a investidores. A aplicação em títulos públicos, com risco zero, pagava taxas sempre superiores às da inflação.
Isso está acabando. A redução dos juros para níveis quase civilizados -na semana passada a Selic foi cortada para 8% ao ano- começa a criar a percepção da importância da atividade produtiva.
Colocado diante da costumeira crítica ao crédito teoricamente subsidiado oferecido pelo BNDES para investimentos, o ministro Guido Mantega reagiu há dias com a seguinte afirmação: "No dia em que o setor financeiro privado estiver presente, emprestando no longo prazo, eu reduzo [o crédito] do BNDES".
De fato, a ação financiadora do setor público, principalmente por meio do BNDES, é indispensável porque compensa a escassez de fundos de longo prazo para financiar investimentos, um dos entraves históricos ao desenvolvimento do país. Isso, porém, exige grande esforço fiscal do Tesouro Nacional, que se vê obrigado a mobilizar dezenas de bilhões de reais por ano para essa finalidade.
Há quase dois anos, o governo baixou um conjunto de medidas regulatórias e fiscais para estimular o lançamento de títulos privados de longo prazo necessários à captação de recursos para financiar os investimentos produtivos. Embora aplaudidas, as medidas não foram suficientes para desenvolver esse mercado e estimular a emissão de títulos lastreados em investimentos das empresas brasileiras.
Um excelente trabalho de dois economistas -Ernani Teixeira Torres Filho e Luiz Macahyba-, com apoio do Iedi, concluído em junho, propõe uma série de medidas complementares às de dois anos atrás para "quebrar a inércia" do mercado de títulos de longo prazo.
O trabalho, técnico, é uma crítica construtiva elogiável num momento em que a crise global obriga o país a repensar sua política monetária, seu mercado financeiro e, principalmente, sua forma de alavancar investimentos do setor privado.
A recomendação de Ghemawat exige reflexão. Mais do que nunca, tendo o país alcançado um nível invejável no cenário internacional, é preciso apressar a correção de velhas distorções que emperram o desenvolvimento econômico. São medidas necessárias para avançar e para prevenir problemas maiores.
Em novembro de 2008, no auge da crise do Lehman Brothers, a rainha Elisabeth fez uma visita à London School of Economics, "templo" acadêmico da Inglaterra. Normalmente comedida em suas declarações públicas, diante do quadro em que a economia mundial parecia se aproximar do "juízo final", ela não resistiu e fez uma pergunta que embaraçou a todos: "Por que ninguém previu isso?".
O Brasil está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso; há várias tarefas a fazer
Quem acompanha esta coluna conhece minha posição intransigente na defesa dos interesses nacionais. Não hesito em saudar iniciativas que privilegiem o capital nacional nem em exaltar resultados positivos da economia brasileira.
Nacionalismo, porém, não deve ser confundido com ufanismo. Em junho, o economista indiano Pankaj Ghemawat fez uma advertência que ganhou pouco destaque na mídia brasileira. Em um evento em Edimburgo (Escócia), ele disse que o Brasil precisa "parar de apenas se autocongratular pelas conquistas econômicas e passar a pensar no que precisa ser feito para ganhar mais espaço no mercado global".
Ele está certo. O Brasil melhorou muito nos últimos anos. Conquistou a estabilidade, deu ênfase a programas de inclusão social, adotou mais seriedade fiscal, formalizou grande parcela da economia subterrânea, criou milhões de empregos regulares, acumulou reservas e ganhou prestígio internacional.
Feito isso tudo, porém, o país está ainda longe de poder se sentar sobre os louros do próprio sucesso. Há várias tarefas a fazer, muitas delas frequentemente repetidas, como a redução da carga tributária e do "custo Brasil" em geral, o cuidado com a educação e a saúde, a desburocratização. Uma tarefa muito importante refere-se à mudança de mentalidade na direção de privilegiar os investimentos produtivos.
Vivemos no país um longo período de farra financeira. As elevadas taxas de juros, verdadeiras aberrações, permitiam ganhos financeiros fabulosos a especuladores e a investidores. A aplicação em títulos públicos, com risco zero, pagava taxas sempre superiores às da inflação.
Isso está acabando. A redução dos juros para níveis quase civilizados -na semana passada a Selic foi cortada para 8% ao ano- começa a criar a percepção da importância da atividade produtiva.
Colocado diante da costumeira crítica ao crédito teoricamente subsidiado oferecido pelo BNDES para investimentos, o ministro Guido Mantega reagiu há dias com a seguinte afirmação: "No dia em que o setor financeiro privado estiver presente, emprestando no longo prazo, eu reduzo [o crédito] do BNDES".
De fato, a ação financiadora do setor público, principalmente por meio do BNDES, é indispensável porque compensa a escassez de fundos de longo prazo para financiar investimentos, um dos entraves históricos ao desenvolvimento do país. Isso, porém, exige grande esforço fiscal do Tesouro Nacional, que se vê obrigado a mobilizar dezenas de bilhões de reais por ano para essa finalidade.
Há quase dois anos, o governo baixou um conjunto de medidas regulatórias e fiscais para estimular o lançamento de títulos privados de longo prazo necessários à captação de recursos para financiar os investimentos produtivos. Embora aplaudidas, as medidas não foram suficientes para desenvolver esse mercado e estimular a emissão de títulos lastreados em investimentos das empresas brasileiras.
Um excelente trabalho de dois economistas -Ernani Teixeira Torres Filho e Luiz Macahyba-, com apoio do Iedi, concluído em junho, propõe uma série de medidas complementares às de dois anos atrás para "quebrar a inércia" do mercado de títulos de longo prazo.
O trabalho, técnico, é uma crítica construtiva elogiável num momento em que a crise global obriga o país a repensar sua política monetária, seu mercado financeiro e, principalmente, sua forma de alavancar investimentos do setor privado.
A recomendação de Ghemawat exige reflexão. Mais do que nunca, tendo o país alcançado um nível invejável no cenário internacional, é preciso apressar a correção de velhas distorções que emperram o desenvolvimento econômico. São medidas necessárias para avançar e para prevenir problemas maiores.
Em novembro de 2008, no auge da crise do Lehman Brothers, a rainha Elisabeth fez uma visita à London School of Economics, "templo" acadêmico da Inglaterra. Normalmente comedida em suas declarações públicas, diante do quadro em que a economia mundial parecia se aproximar do "juízo final", ela não resistiu e fez uma pergunta que embaraçou a todos: "Por que ninguém previu isso?".
A nova preocupação da UE - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 17/07
A Europa sofre de várias doenças. Elas se chamam Grécia, Itália, Portugal, Irlanda e Espanha. Há poucos dias, começou a padecer de uma nova enfermidade, que é a Romênia. Entretanto, essa febre não tem nenhuma relação com as que atingem gregos, espanhóis e outros países do Mediterrâneo.
A enfermidade que afeta a Romênia é política.
Em resumo, há dois meses, o governo romeno, de centro-direita, foi derrubado por uma coligação de esquerda (USL). Imediatamente, o novo governo de esquerda, dirigido por Victor Ponta, determinou a suspensão, aprovada pelo Parlamento, do presidente romeno, Traian Basescu, homem de direita e extremamente impopular.
Na realidade, sua destituição é legal. No entanto, em seguida, ela deveria ser ratificada por um referendo.
Então, a equipe de esquerdistas de Victor Ponta, que agora governa a Romênia, começou a recorrer a manipulações sórdidas. Eles simplesmente modificaram as regras do referendo para fazer com que a votação se conformasse com o objetivo do novo governo: o impeachment do presidente de direita, Traian Basescu.
Ponta é uma figura obscura. É um homem que tem pressa. Ele galgou todos os degraus do currículo universitário - e depois político - com a velocidade de um relâmpago.
Aos 37 anos, foi escolhido para o cargo de primeiro-ministro. Anteriormente, foi professor universitário, título obtido graças à tese de direito que defendera em Bucareste em 2003.
Ocorre que a tese não passava de um plágio. O anúncio oficial foi feito no dia 29 de junho pelo Conselho Nacional de Concessão de Diplomas Universitários. E o que ocorrerá agora? Os dirigentes da União Europeia, em Bruxelas, ficaram revoltados. Não com o plágio, mas com a desenvoltura com a qual Ponta governa a Romênia.
Ele paralisou todos os contrapesos previstos pela Constituição romena e impôs um rígido controle aos serviços do Estado, começando pela Justiça. É evidente que tais métodos se opõem totalmente aos princípios democráticos da União Europeia.
Colapso da integração. Há dois anos, Bruxelas já havia sido abalada por um país vizinho da Romênia, a Hungria.
Naquela ocasião, não se tratava de um governante de esquerda, como hoje na Romênia, mas de um político de direita, Viktor Orban, que também menosprezara os princípios da democracia. Vale a pena ressaltar que em ambos os casos, tanto no húngaro quanto no romeno, trata-se de países que foram comunistas até a queda do Muro de Berlim, no início dos anos 90.
Angela Merkel, chanceler alemã, repreendeu energicamente o primeiro-ministro romeno por considerar essas práticas inaceitáveis. No entanto, a União Europeia terá ainda prestígio, lisura ou autoridade suficientes para impor uma democracia transparente a todos os países-membros do bloco?
Temos de reconhecer que a influência das autoridades de Bruxelas diminuiu consideravelmente em dois anos.
Em 2007, a União Europeia se beneficiava ainda de 52% das opiniões favoráveis em seus 27 países-membros. Hoje, os europeus que defendem o bloco não passam de 30%.
Enquanto isso, do outro lado do Canal da Mancha, já começaram, com a concordância de David Cameron, as grandes manobras que poderão levar à saída da Grã-Bretanha da União Europeia. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA
CLAUDIO HUMBERTO
“Eu admito a hipótese de reconvocação”
Odair Cunha (PT), RELATOR DA CPI DO CACHOEIRA, sobre novas denúncias contra Perillo
MERCADANTE PODE SUBSTITUIR O CHANCELER PATRIOTA
A presidente Dilma Rousseff planeja uma minirreforma ministerial para tentar aparar arestas com a “base aliada” – em especial com o PMDB – e tirar do foco o chanceler Antônio Patriota, com quem não se entende. Uma alternativa seria o ministro Aloysio Mercadante (Educação), que já estaria às voltas com relatórios de política externa. Patriota ainda não caiu para “não passar recibo” às críticas, inclusive desta coluna.
PAU PARA TODA OBRA
Prestigiado por Dilma, Mercadante também sairia do foco da Educação, abalada pela grave e ainda insolúvel greve nas universidades federais.
SEM VOZ
Patriota perdeu a interlocução com Dilma nas crises:
ela prefere ouvir o ex-chanceler Amorim e o aspone top-top aleatório Marco Aurélio Garcia.
QUEM MANDA
Os dois foram privilegiados por Dilma nas trapalhadas do Brasil no Paraguai e na entrada da Venezuela no Mercosul. Patriota não reagiu.
POÇO DE MÁGOAS
Dilma pensou em demitir Patriota após o fiasco da conferência Rio+20, quando o documento básico aprovado virou piada internacional.
AGNELO NEGOCIA CENTRO FINANCEIRO PARA BRASÍLIA
O périplo no exterior do governador do DF, Agnelo Queiroz, iniciado sexta (13), pode concretizar um projeto negociado secretamente nos últimos oito meses, que pode alterar o perfil econômico de Brasília. Trata-se da criação de um centro financeiro internacional na capital do Brasil, bancado por investidores de países tão diferentes quanto ricos e distantes, como Emirados Árabes, Cingapura, Estados Unidos e China.
UMA NOVA CIDADE
O centro financeiro de Brasília será construído próximo ao chamado “Plano Piloto” e incluirá torres comerciais e residenciais.
ELEVADO PADRÃO
Instituições de países investidores terão sede nesse centro, introduzindo em Brasília novo perfil de empregos, de padrão elevado.
CIDADE DIGITAL
O governo do DF quer associar centro financeiro ao parque tecnológico Cidade Digital, que será objeto de licitação internacional em agosto.
ESFORÇO CONCENTRADO
Os líderes da base do governo convocaram, ontem, suas bancadas para garantir quórum à votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Até o início da tarde, menos de 10% dos deputados estavam na Casa.
E NA COPA?
O Hotel Everest, em Ipanema, área privilegiada do Rio, deixa hóspedes sem internet wi-fi, com a desculpa do “estamos providenciando”. Sem providenciar desconto na diária de hotel quatro estrelas (bem caídas).
O PADRE E A SECA
O padre Djaci Brasileiro, do sertão da Paraíba, postou no Twitter sua decepção na terceira visita ao lote 7 da transposição do São Francisco: as fotos mostram abandono “quando 12 milhões clamam por água”.
QUEBRA PAU
Partidários de José Maia (PT) saíram no tapa com aliados do tucano Edson Vieira no primeiro ato em Santa Cruz do Capibaribe (PE). Maia responde por fraude na Justiça e tenta a prefeitura pela terceira vez.
PERSEGUIÇÃO
Presidente do PPS, Roberto Freire (SP) avalia como “desonestidade” da presidente Dilma não ter empenhado um centavo das emendas parlamentares do partido: “Isso é perseguição, mas não nos intimida”.
GREGOS E TROIANOS
Para o ex-ministro Roberto Brant, que saiu do PSD após intervenção em Belo Horizonte, o prefeito Gilberto Kassab “ganhou politicamente” ao agir pró-PT em Minas: “Ele agradou a Serra e ao ex-presidente Lula”.
ESTÍMULO À DÍVIDA
A Câmara Legislativa do Distrito Federal firmou convênio com a Caixa Econômica para concessão de empréstimo aos servidores da Casa. A adesão será descontada da folha de pagamento.
CONTRAPONTO
Diretor da Construtora Bonacci, Fernando Moraes diz que os contratos com a Prefeitura de Pendências “seguiram preceitos da legalidade” e que seu irmão Hermano Morais, candidato pelo PMDB em Natal (RN), não tem participação na empresa nem atuação política no município.
PENSANDO BEM...
...Vem aí a grande liquidação do PIB: “tudo por 1,99”.
PODER SEM PUDOR
BARRIGA CHEIA
Cezar Schirmer fazia sua campanha para vereador de Santa Maria (RS) pelo velho MDB, contando com a solidariedade de vários amigos. Um deles, Bayard Azevedo, era gordo, imensamente. Mas, bom orador, foi escalado para destacar as virtudes de Schirmer. Pegou o microfone e atacou, com frase de efeito:
- Os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres! O povo passa
fome!
Mal acabara de pronunciar a frase, um provocador gritou:
- Gordo desse jeito, até que te encostaste bem...
Odair Cunha (PT), RELATOR DA CPI DO CACHOEIRA, sobre novas denúncias contra Perillo
MERCADANTE PODE SUBSTITUIR O CHANCELER PATRIOTA
A presidente Dilma Rousseff planeja uma minirreforma ministerial para tentar aparar arestas com a “base aliada” – em especial com o PMDB – e tirar do foco o chanceler Antônio Patriota, com quem não se entende. Uma alternativa seria o ministro Aloysio Mercadante (Educação), que já estaria às voltas com relatórios de política externa. Patriota ainda não caiu para “não passar recibo” às críticas, inclusive desta coluna.
PAU PARA TODA OBRA
Prestigiado por Dilma, Mercadante também sairia do foco da Educação, abalada pela grave e ainda insolúvel greve nas universidades federais.
SEM VOZ
Patriota perdeu a interlocução com Dilma nas crises:
ela prefere ouvir o ex-chanceler Amorim e o aspone top-top aleatório Marco Aurélio Garcia.
QUEM MANDA
Os dois foram privilegiados por Dilma nas trapalhadas do Brasil no Paraguai e na entrada da Venezuela no Mercosul. Patriota não reagiu.
POÇO DE MÁGOAS
Dilma pensou em demitir Patriota após o fiasco da conferência Rio+20, quando o documento básico aprovado virou piada internacional.
AGNELO NEGOCIA CENTRO FINANCEIRO PARA BRASÍLIA
O périplo no exterior do governador do DF, Agnelo Queiroz, iniciado sexta (13), pode concretizar um projeto negociado secretamente nos últimos oito meses, que pode alterar o perfil econômico de Brasília. Trata-se da criação de um centro financeiro internacional na capital do Brasil, bancado por investidores de países tão diferentes quanto ricos e distantes, como Emirados Árabes, Cingapura, Estados Unidos e China.
UMA NOVA CIDADE
O centro financeiro de Brasília será construído próximo ao chamado “Plano Piloto” e incluirá torres comerciais e residenciais.
ELEVADO PADRÃO
Instituições de países investidores terão sede nesse centro, introduzindo em Brasília novo perfil de empregos, de padrão elevado.
CIDADE DIGITAL
O governo do DF quer associar centro financeiro ao parque tecnológico Cidade Digital, que será objeto de licitação internacional em agosto.
ESFORÇO CONCENTRADO
Os líderes da base do governo convocaram, ontem, suas bancadas para garantir quórum à votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias. Até o início da tarde, menos de 10% dos deputados estavam na Casa.
E NA COPA?
O Hotel Everest, em Ipanema, área privilegiada do Rio, deixa hóspedes sem internet wi-fi, com a desculpa do “estamos providenciando”. Sem providenciar desconto na diária de hotel quatro estrelas (bem caídas).
O PADRE E A SECA
O padre Djaci Brasileiro, do sertão da Paraíba, postou no Twitter sua decepção na terceira visita ao lote 7 da transposição do São Francisco: as fotos mostram abandono “quando 12 milhões clamam por água”.
QUEBRA PAU
Partidários de José Maia (PT) saíram no tapa com aliados do tucano Edson Vieira no primeiro ato em Santa Cruz do Capibaribe (PE). Maia responde por fraude na Justiça e tenta a prefeitura pela terceira vez.
PERSEGUIÇÃO
Presidente do PPS, Roberto Freire (SP) avalia como “desonestidade” da presidente Dilma não ter empenhado um centavo das emendas parlamentares do partido: “Isso é perseguição, mas não nos intimida”.
GREGOS E TROIANOS
Para o ex-ministro Roberto Brant, que saiu do PSD após intervenção em Belo Horizonte, o prefeito Gilberto Kassab “ganhou politicamente” ao agir pró-PT em Minas: “Ele agradou a Serra e ao ex-presidente Lula”.
ESTÍMULO À DÍVIDA
A Câmara Legislativa do Distrito Federal firmou convênio com a Caixa Econômica para concessão de empréstimo aos servidores da Casa. A adesão será descontada da folha de pagamento.
CONTRAPONTO
Diretor da Construtora Bonacci, Fernando Moraes diz que os contratos com a Prefeitura de Pendências “seguiram preceitos da legalidade” e que seu irmão Hermano Morais, candidato pelo PMDB em Natal (RN), não tem participação na empresa nem atuação política no município.
PENSANDO BEM...
...Vem aí a grande liquidação do PIB: “tudo por 1,99”.
PODER SEM PUDOR
BARRIGA CHEIA
Cezar Schirmer fazia sua campanha para vereador de Santa Maria (RS) pelo velho MDB, contando com a solidariedade de vários amigos. Um deles, Bayard Azevedo, era gordo, imensamente. Mas, bom orador, foi escalado para destacar as virtudes de Schirmer. Pegou o microfone e atacou, com frase de efeito:
- Os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres! O povo passa
fome!
Mal acabara de pronunciar a frase, um provocador gritou:
- Gordo desse jeito, até que te encostaste bem...
TERÇA NOS JORNAIS
- Globo: Boletim do BC já aponta PIB abaixo de 2% este ano
- Folha: EUA liberam pílula para a prevenção contra vírus da Aids
- Estadão: Aumento de despesas do governo dobra no semestre
- Correio: Câmara vai mostrar tudo sobre salários
- Valor: BC retoma tom otimista e vê avanços no curto prazo
- Estado de Minas: Rotas de segurança
- Jornal do Commercio: Liberada pílula que previne a aids
segunda-feira, julho 16, 2012
Cachoeira pode salvar o Brasil - GUILHERME FIUZA
REVISTA ÉPOCA
Carlinhos Cachoeira perdeu a vontade de viver. Está extremamente deprimido, muito chateado mesmo. Quem deu essa notícia triste foi a noiva do "empresário da contravenção", Andressa Cachoeira. A mesma que dois meses atrás dava risadas, dizendo que seu amado conquistara muita gente por ser "uma pessoa encantadora". Na época, a musa dos caça-níqueis fazia planos para o casamento assim que Cachoeira saísse da prisão. Hoje o casal não parece mais tão feliz. O que mudou, afinal?
Aparentemente, nada. Carlinhos continua preso, Andressa continua linda, e o patrimônio milionário dos Cachoeiras, construído com o suor dos políticos comprados, continua intacto no laranjal da família. O que estará azedando esse conto de fadas do Cerrado? Ao que tudo indica, a culpa é da CPI.
Quando todos os holofotes estavam apontados para a Comissão que investiga as obras completas do bicheiro, olhando para o escândalo, os clientes de Cachoeira tremiam em seus gabinetes. O risco a seus mandatos e pescoços recomendava um olhar carinhoso para com Carlinhos, garantindo-lhe tratamento republicano com a grife de Márcio Thomaz Bastos, o padroeiro das causas malcheirosas. Era um tempo de otimismo, com governantes e parlamentares suando frio, e a sensação de que a qualquer momento um habeas corpus mágico do doutor Márcio acabaria com aquele constrangimento todo. Como chegou a ponderar Andressa, "ninguém está livre de ser preso" - ou seja, era um mero incidente a superar, para o bem de todos (os sócios).
Mas algo deu errado. O Brasil, entediado, mudou de novela. Preferiu os pilantras de Avenida Brasil e os charlatões da Rio+20. Abandonada pelo público, a CPI ficou à vontade para embromar sem culpa. Aliviou o ex-dono da Delta, barrou sua convocação tranquilamente, enquanto a plateia assistia ao teatro da salvação do planeta no Rio de Janeiro. Os depoimentos de Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot (ex-diretor do Dnit) ficaram para depois das férias, depois das Olimpíadas, depois do início da campanha eleitoral - enfim, ficaram para depois. É como se o desfile da Mangueira fosse marcado para Quarta-Feira de Cinzas.
Carlinhos não merecia isso. Com a queda vertiginosa da CPI no ibope, seus companheiros no Congresso e nos palácios descobriram que a farra pode sair mais barata do que parecia. Se o Brasil não está nem aí, eles também não estão. Cachoeira começou a entender que pode mofar onde está. Daqui a pouco o comando da República popular desloca Thomaz Bastos para refrescar outro aloprado, e a jovem Andressa perceberá que ninguém está livre de continuar preso. A essa altura, talvez nem a Playboy a queira mais.
Como rei morto é rei posto, Adriano Aprígio, o ex-cunhado de Carlinhos e um de seus principais testas de ferro, já caiu também. Foram descobertos e-mails enviados de sua casa à procuradora Léa Batista de Oliveira, uma das denunciantes do bicheiro, em tom não muito educado: "Sua vadia, ainda vamos te pegar. Cuidado, você e sua família correm perigo". A prisão de Aprígio, um dos guardiões do patrimônio dos Cachoeiras, fez Carlinhos passar mal na cadeia, como revelou sua noiva, consternada: "Ele desmaiou.
O diretor pegou, levou ele para a sala do diretor. Ele passou muito mal, muito mal mesmo". É comovente ver um homem que tanto fez por tanta gente sofrendo assim, sozinho, com as notícias terríveis que recebe na cadeia. Neste momento de dor, vai aqui um conselho ao torturado réu: nobre empresário da contravenção, pare de esperar pela providência dos falsos companheiros. Acabe você mesmo com a solidão. Agora.
Faça como Roberto Jefferson: aperte o botão vermelho. Conte quem no governo federal mandava proteger a Delta e aprovar todos os acréscimos de contrato que a construtora espetava no PAC. Explique resumidamente como esse dinheiro saía do governo e voltava para as campanhas dos políticos aliados ao governo, passando por suas empresas de fachada.
Acorde, senhor Cachoeira. Seus amigos palacianos vão esquecê-lo nesse cubículo. Seus esquemas serão refeitos com outro despachante mais esperto. Entregue esses parasitas com crachás de revolucionários. O Brasil lhe será eternamente grato.
Aparentemente, nada. Carlinhos continua preso, Andressa continua linda, e o patrimônio milionário dos Cachoeiras, construído com o suor dos políticos comprados, continua intacto no laranjal da família. O que estará azedando esse conto de fadas do Cerrado? Ao que tudo indica, a culpa é da CPI.
Quando todos os holofotes estavam apontados para a Comissão que investiga as obras completas do bicheiro, olhando para o escândalo, os clientes de Cachoeira tremiam em seus gabinetes. O risco a seus mandatos e pescoços recomendava um olhar carinhoso para com Carlinhos, garantindo-lhe tratamento republicano com a grife de Márcio Thomaz Bastos, o padroeiro das causas malcheirosas. Era um tempo de otimismo, com governantes e parlamentares suando frio, e a sensação de que a qualquer momento um habeas corpus mágico do doutor Márcio acabaria com aquele constrangimento todo. Como chegou a ponderar Andressa, "ninguém está livre de ser preso" - ou seja, era um mero incidente a superar, para o bem de todos (os sócios).
Mas algo deu errado. O Brasil, entediado, mudou de novela. Preferiu os pilantras de Avenida Brasil e os charlatões da Rio+20. Abandonada pelo público, a CPI ficou à vontade para embromar sem culpa. Aliviou o ex-dono da Delta, barrou sua convocação tranquilamente, enquanto a plateia assistia ao teatro da salvação do planeta no Rio de Janeiro. Os depoimentos de Fernando Cavendish e Luiz Antonio Pagot (ex-diretor do Dnit) ficaram para depois das férias, depois das Olimpíadas, depois do início da campanha eleitoral - enfim, ficaram para depois. É como se o desfile da Mangueira fosse marcado para Quarta-Feira de Cinzas.
Carlinhos não merecia isso. Com a queda vertiginosa da CPI no ibope, seus companheiros no Congresso e nos palácios descobriram que a farra pode sair mais barata do que parecia. Se o Brasil não está nem aí, eles também não estão. Cachoeira começou a entender que pode mofar onde está. Daqui a pouco o comando da República popular desloca Thomaz Bastos para refrescar outro aloprado, e a jovem Andressa perceberá que ninguém está livre de continuar preso. A essa altura, talvez nem a Playboy a queira mais.
Como rei morto é rei posto, Adriano Aprígio, o ex-cunhado de Carlinhos e um de seus principais testas de ferro, já caiu também. Foram descobertos e-mails enviados de sua casa à procuradora Léa Batista de Oliveira, uma das denunciantes do bicheiro, em tom não muito educado: "Sua vadia, ainda vamos te pegar. Cuidado, você e sua família correm perigo". A prisão de Aprígio, um dos guardiões do patrimônio dos Cachoeiras, fez Carlinhos passar mal na cadeia, como revelou sua noiva, consternada: "Ele desmaiou.
O diretor pegou, levou ele para a sala do diretor. Ele passou muito mal, muito mal mesmo". É comovente ver um homem que tanto fez por tanta gente sofrendo assim, sozinho, com as notícias terríveis que recebe na cadeia. Neste momento de dor, vai aqui um conselho ao torturado réu: nobre empresário da contravenção, pare de esperar pela providência dos falsos companheiros. Acabe você mesmo com a solidão. Agora.
Faça como Roberto Jefferson: aperte o botão vermelho. Conte quem no governo federal mandava proteger a Delta e aprovar todos os acréscimos de contrato que a construtora espetava no PAC. Explique resumidamente como esse dinheiro saía do governo e voltava para as campanhas dos políticos aliados ao governo, passando por suas empresas de fachada.
Acorde, senhor Cachoeira. Seus amigos palacianos vão esquecê-lo nesse cubículo. Seus esquemas serão refeitos com outro despachante mais esperto. Entregue esses parasitas com crachás de revolucionários. O Brasil lhe será eternamente grato.
Como garimpar oportunidades - GUSTAVO CERBASI
FOLHA DE SP - 16/07
Quanto mais envolvido estiver o investidor, mais apto estará a identificar oportunidades
Que atire a primeira pedra quem nunca se frustrou ao buscar uma dica de investimentos aparentemente quente e, tempos depois, percebeu que fez uma péssima escolha.
Será que especialistas e imprensa especializada tentam ludibriar os menos experientes? Ou será que bons investimentos simplesmente deixam de ser bons quando pessoas comuns passam a optar por eles?
Aposte nessa segunda reflexão. Um bom investimento hoje provavelmente deixará de ser bom em um prazo não muito longo. Isso não é profecia, mas sim pura lógica econômica. Os melhores investimentos provavelmente serão as maiores causas de frustrações para desavisados, simplesmente porque oportunidades têm prazo de validade.
Ganho fácil é aquilo que chamamos de oportunidade, pois é improvável que, sendo fácil, dure muito tempo. Afinal, quanto maior a facilidade de ganhos que uma oportunidade traz, mais evidente ela é para empreendedores e investidores, e mais rapidamente atrairá interessados em aproveitá-la.
Quando muitas pessoas disputam uma oportunidade, ela se torna escassa e encarece, deixando de ser uma oportunidade. Em outras palavras, mostre-me um caminho fácil para ganhar dinheiro que eu consigo torná-lo difícil. Essa é uma reflexão essencial para quem lida com escolhas de investimentos e negócios.
Se muitos investidores disputam imóveis em uma região que se valoriza, a própria disputa gera escassez, que faz os preços dos imóveis subirem. Isso chama a atenção do mercado, atrai ainda mais investidores, criando preços desequilibrados, que em um segundo momento passam a despertar maior racionalidade e gerar desconfiança de que o desequilíbrio existe. Nesse momento, a oportunidade se esgotou.
Se os preços subiram demasiadamente, pode acontecer uma queda abrupta de preços, causando o que se chama de estouro da bolha. Se a alta não for considerada muito absurda, os preços simplesmente estacionam em um certo patamar ou entram em um processo de declínio gradual por falta de interessados.
Esse fenômeno acontece com todo investimento que se torna uma moda. Pode ser no mercado de imóveis, de ações ou de qualquer outro ativo. Segundo a lei da oferta e da demanda, tudo o que está na moda tende à saturação.
Por isso, uma das principais regras de sucesso de quem investe ou pretende investir é se envolver cada vez mais com o mercado em que negocia seus ativos. É importante acompanhar diferentes fontes de análise, frequentar eventos e cursos, trocar experiências com outros investidores e inovar na forma de estudar o desempenho da carteira de ativos.
Quanto mais envolvido estiver o investidor, mais apto estará a identificar oportunidades -as novas, e não as velhas que já estão perdendo força.
Isso não significa que não há saída para aqueles que têm pouca experiência com investimentos. A velha recomendação estratégica continua válida: quanto menor seu envolvimento com investimentos, mais conservadora deve ser sua carteira. Porém, com juros na casa de 8% ao ano e ganhos reais pouco acima de 2%, nem o mais conservador dos investidores deve se dar ao luxo de ter apenas recursos em renda fixa.
Os mais conservadores deveriam ter uma parcela pequena dos investimentos em mercados de renda variável, seja em ações, commodities ou pequenos imóveis, para poder sentir o oportuno desconforto do sobe e desce dos preços. Por que oportuno? Porque as quedas de preços nos incomodam.
O incômodo deveria levar o investidor a buscar mais informações sobre a perda que afeta parte de sua carteira, e essas informações o conduziriam a oportunidades ainda em seu estágio inicial. Daí viria o verdadeiro processo de enriquecimento, quando uma oportunidade de ganho fácil se mostra evidente e o investidor saca boa parte de sua renda fixa para comprá-la ainda barata.
Em tempos de juros baixos, oportunidades estão raras. Se você tem algo gerando resultados muito bons, tem em mãos um forte sinal de alerta. Pode estar chegando a hora de se desfazer desse ótimo ativo e buscar a próxima oportunidade.
Quanto mais envolvido estiver o investidor, mais apto estará a identificar oportunidades
Que atire a primeira pedra quem nunca se frustrou ao buscar uma dica de investimentos aparentemente quente e, tempos depois, percebeu que fez uma péssima escolha.
Será que especialistas e imprensa especializada tentam ludibriar os menos experientes? Ou será que bons investimentos simplesmente deixam de ser bons quando pessoas comuns passam a optar por eles?
Aposte nessa segunda reflexão. Um bom investimento hoje provavelmente deixará de ser bom em um prazo não muito longo. Isso não é profecia, mas sim pura lógica econômica. Os melhores investimentos provavelmente serão as maiores causas de frustrações para desavisados, simplesmente porque oportunidades têm prazo de validade.
Ganho fácil é aquilo que chamamos de oportunidade, pois é improvável que, sendo fácil, dure muito tempo. Afinal, quanto maior a facilidade de ganhos que uma oportunidade traz, mais evidente ela é para empreendedores e investidores, e mais rapidamente atrairá interessados em aproveitá-la.
Quando muitas pessoas disputam uma oportunidade, ela se torna escassa e encarece, deixando de ser uma oportunidade. Em outras palavras, mostre-me um caminho fácil para ganhar dinheiro que eu consigo torná-lo difícil. Essa é uma reflexão essencial para quem lida com escolhas de investimentos e negócios.
Se muitos investidores disputam imóveis em uma região que se valoriza, a própria disputa gera escassez, que faz os preços dos imóveis subirem. Isso chama a atenção do mercado, atrai ainda mais investidores, criando preços desequilibrados, que em um segundo momento passam a despertar maior racionalidade e gerar desconfiança de que o desequilíbrio existe. Nesse momento, a oportunidade se esgotou.
Se os preços subiram demasiadamente, pode acontecer uma queda abrupta de preços, causando o que se chama de estouro da bolha. Se a alta não for considerada muito absurda, os preços simplesmente estacionam em um certo patamar ou entram em um processo de declínio gradual por falta de interessados.
Esse fenômeno acontece com todo investimento que se torna uma moda. Pode ser no mercado de imóveis, de ações ou de qualquer outro ativo. Segundo a lei da oferta e da demanda, tudo o que está na moda tende à saturação.
Por isso, uma das principais regras de sucesso de quem investe ou pretende investir é se envolver cada vez mais com o mercado em que negocia seus ativos. É importante acompanhar diferentes fontes de análise, frequentar eventos e cursos, trocar experiências com outros investidores e inovar na forma de estudar o desempenho da carteira de ativos.
Quanto mais envolvido estiver o investidor, mais apto estará a identificar oportunidades -as novas, e não as velhas que já estão perdendo força.
Isso não significa que não há saída para aqueles que têm pouca experiência com investimentos. A velha recomendação estratégica continua válida: quanto menor seu envolvimento com investimentos, mais conservadora deve ser sua carteira. Porém, com juros na casa de 8% ao ano e ganhos reais pouco acima de 2%, nem o mais conservador dos investidores deve se dar ao luxo de ter apenas recursos em renda fixa.
Os mais conservadores deveriam ter uma parcela pequena dos investimentos em mercados de renda variável, seja em ações, commodities ou pequenos imóveis, para poder sentir o oportuno desconforto do sobe e desce dos preços. Por que oportuno? Porque as quedas de preços nos incomodam.
O incômodo deveria levar o investidor a buscar mais informações sobre a perda que afeta parte de sua carteira, e essas informações o conduziriam a oportunidades ainda em seu estágio inicial. Daí viria o verdadeiro processo de enriquecimento, quando uma oportunidade de ganho fácil se mostra evidente e o investidor saca boa parte de sua renda fixa para comprá-la ainda barata.
Em tempos de juros baixos, oportunidades estão raras. Se você tem algo gerando resultados muito bons, tem em mãos um forte sinal de alerta. Pode estar chegando a hora de se desfazer desse ótimo ativo e buscar a próxima oportunidade.
Saída para reduzir burocracia - GUILHERME CAMPOS
O GLOBO - 16/07
Destravar investimentos públicos como forma de reativar a economia é, atualmente, a principal meta do governo. Para isso, o BNDES já criou, por exemplo, linha de crédito, com redução dos juros e concedeu uma nova linha de crédito para os Estados.
Outra investida para chegar ao seu objetivo é a flexibilização da Lei 8.666, que trata das licitações. A ideia é que as obras saiam mais rapidamente do papel, sem passarem por todo o trâmite burocrático que a legislação exige. A flexibilização, porém, acontece de maneira polêmica, por meio da ampliação do sistema de licitações já usado nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, conhecido como RDC (Regime Diferenciado de Contratação).
Em um primeiro momento, o governo quis adotar o RDC nas obras do PAC na medida provisória 556, que tratava, entre outros temas, da contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público. (Nota-se, nenhuma relação com obras, com o PAC, muito menos com a lei das licitações.) Mas como diversos partidos, incluindo o PSD, foram contra a ideia, a investida fracassou e a medida provisória perdeu a eficácia no último dia 31.
Mesmo diante da derrota, a tentativa seguinte foi mais ampla: adotar o RDC não só para o PAC, mas também para a área de educação e do Sistema Único de Saúde (SUS). A ampliação foi incluída na medida provisória 559, que autoriza a Eletrobras a assumir o controle acionário da Celg. (Mais uma vez, a MP não tem nenhuma relação com a lei de licitações.)
A MP já foi aprovada pela Câmara, mas os deputados estenderam o RDC apenas para as obras do PAC, retirando o regime para o SUS e para a educação. Ou seja, o entendimento foi o de que todas as obras do principal programa do governo estarão sujeitas às mesmas regras das licitações dos estádios da Copa do Mundo, sem passar por todo o trâmite que a Lei de Licitações exige.
Apesar de as investidas no Congresso tentarem dar agilidade às obras, destravando os investimentos públicos — o que realmente precisa ser feito neste momento —, o método que está sendo usado para isso não é o mais apropriado.
Ampliar o RDC nada mais é do que um reconhecimento do governo de que a Lei de Licitações não está sendo eficaz e precisa de mudanças. Usar o regime diferenciado para a Copa, OK, pois os jogos realmente são uma ex-cepcionalidade. O PSD apoiou a proposta quando esta passou pelo Congresso, afinal o último Mundial que aconteceu no Brasil foi em 1950. Mas não podemos fazer disso uma regra. Muito menos usar medidas provisórias que não têm nenhuma relação com o assunto para incluir “contrabandos”, já que o próprio Supremo Tribunal Federal proibiu esta prática.
O Regime Diferenciado de Contratações, portanto, claramente resolverá problemas pontuais, mas vai manter os municípios e os Estados com seus trâmites mais lentos, em obras que, nas cidades, são igualmente necessárias para o país porque tratam das necessidades mais urgentes dos moradores.
Além disso, caso o RDC seja adotado em quase todas as obras federais, como ficam os prefeitos e governadores? Seria claramente uma desvantagem onde o que é obra federal acontece e o que é obra municipal ou estadual se arrasta na burocracia.
Outro reconhecimento de que a Lei de licitações precisa ser alterada é o fato de tramitar hoje no Congresso pelo menos vinte propostas de mudanças diferentes na 8.666. O governo deveria ter coragem e encarar o problema, abraçando a ideia de mudar uma legislação de 1993, que, sem dúvida, representou uma evolução histórica, mas que agora precisa ser atualizada. O RDC pode ser um ponto de partida para as mudanças, mas não virar a nova regra do jogo.
Destravar investimentos públicos como forma de reativar a economia é, atualmente, a principal meta do governo. Para isso, o BNDES já criou, por exemplo, linha de crédito, com redução dos juros e concedeu uma nova linha de crédito para os Estados.
Outra investida para chegar ao seu objetivo é a flexibilização da Lei 8.666, que trata das licitações. A ideia é que as obras saiam mais rapidamente do papel, sem passarem por todo o trâmite burocrático que a legislação exige. A flexibilização, porém, acontece de maneira polêmica, por meio da ampliação do sistema de licitações já usado nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, conhecido como RDC (Regime Diferenciado de Contratação).
Em um primeiro momento, o governo quis adotar o RDC nas obras do PAC na medida provisória 556, que tratava, entre outros temas, da contribuição do Plano de Seguridade do Servidor Público. (Nota-se, nenhuma relação com obras, com o PAC, muito menos com a lei das licitações.) Mas como diversos partidos, incluindo o PSD, foram contra a ideia, a investida fracassou e a medida provisória perdeu a eficácia no último dia 31.
Mesmo diante da derrota, a tentativa seguinte foi mais ampla: adotar o RDC não só para o PAC, mas também para a área de educação e do Sistema Único de Saúde (SUS). A ampliação foi incluída na medida provisória 559, que autoriza a Eletrobras a assumir o controle acionário da Celg. (Mais uma vez, a MP não tem nenhuma relação com a lei de licitações.)
A MP já foi aprovada pela Câmara, mas os deputados estenderam o RDC apenas para as obras do PAC, retirando o regime para o SUS e para a educação. Ou seja, o entendimento foi o de que todas as obras do principal programa do governo estarão sujeitas às mesmas regras das licitações dos estádios da Copa do Mundo, sem passar por todo o trâmite que a Lei de Licitações exige.
Apesar de as investidas no Congresso tentarem dar agilidade às obras, destravando os investimentos públicos — o que realmente precisa ser feito neste momento —, o método que está sendo usado para isso não é o mais apropriado.
Ampliar o RDC nada mais é do que um reconhecimento do governo de que a Lei de Licitações não está sendo eficaz e precisa de mudanças. Usar o regime diferenciado para a Copa, OK, pois os jogos realmente são uma ex-cepcionalidade. O PSD apoiou a proposta quando esta passou pelo Congresso, afinal o último Mundial que aconteceu no Brasil foi em 1950. Mas não podemos fazer disso uma regra. Muito menos usar medidas provisórias que não têm nenhuma relação com o assunto para incluir “contrabandos”, já que o próprio Supremo Tribunal Federal proibiu esta prática.
O Regime Diferenciado de Contratações, portanto, claramente resolverá problemas pontuais, mas vai manter os municípios e os Estados com seus trâmites mais lentos, em obras que, nas cidades, são igualmente necessárias para o país porque tratam das necessidades mais urgentes dos moradores.
Além disso, caso o RDC seja adotado em quase todas as obras federais, como ficam os prefeitos e governadores? Seria claramente uma desvantagem onde o que é obra federal acontece e o que é obra municipal ou estadual se arrasta na burocracia.
Outro reconhecimento de que a Lei de licitações precisa ser alterada é o fato de tramitar hoje no Congresso pelo menos vinte propostas de mudanças diferentes na 8.666. O governo deveria ter coragem e encarar o problema, abraçando a ideia de mudar uma legislação de 1993, que, sem dúvida, representou uma evolução histórica, mas que agora precisa ser atualizada. O RDC pode ser um ponto de partida para as mudanças, mas não virar a nova regra do jogo.
O Largo da Concórdia - JOSÉ DE SOUZA MARTINS
O Estado de S.Paulo - 16/07
Chico Alves viera a São Paulo para apresentar-se em programas da Rádio Nacional. Naquele sábado, 27 de setembro de 1952, acompanhado de Rago e seu Regional, cantou, no Largo da Concórdia, alguns de seus muitos sucessos. Era homenagem a seus fãs do bairro do Brás. A caminho da Via Dutra, no retorno ao Rio, o cantor fez ali uma parada para o show, às 14h.
O Largo da Concórdia tivera feira de mulas, no século 19, abrigara circo e parque de diversões. Era agora um lugar de concentrações populares, perto das movimentadas estações do Norte e do Brás. Mutilado pela construção do Viaduto do Gasômetro, em 1949, perderia aos poucos a nobreza dos tempos áureos do bairro. Mas ainda estava lá o Teatro Colombo, onde Pietro Mascagni regera uma de suas óperas em tempos idos. O Brás mantinha a aura da época das serestas e da composição famosa de Alberto Marino,Rapaziada do Brás. Não estavam longe os corsos de carnaval na Avenida Rangel Pestana. O bairro vivia os últimos tempos de italiano e operário, das cadeiras na calçada para conversas das famílias depois do jantar.
Já existia aí por 1850. No fim de 1865, dera-lhe a Câmara Municipal o nome de Largo da Concórdia, tributo à cidade argentina onde se concentraram e de onde partiram para a luta as tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, meses antes. Continua da Concórdia apesar da discórdia, há alguns anos, com os camelôs que o haviam ocupado.
A apresentação de Chico Alves foi um evento de fim de época, além de ser o seu último evento: ele morreria carbonizado, horas depois, na Via Dutra, em Pindamonhangaba, quando seu carro, ao se chocar com um caminhão que vinha na contramão, pegou fogo. Significativamente, cantou o fim de épocas. Gravara anos antes Seu Julinho vem, apologia de Júlio Prestes, presidente eleito da República. Seu Julinho não veio, cassado antes da posse pela Revolução de outubro de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder. Um ano antes de morrer, Chico Alves gravara Bota o retrato do velho (Bota no mesmo lugar) para celebrar o retorno de Vargas ao poder, em 1950, cujo suicídio em 1954 daria início ao fim da Era Vargas.
Começou sua despedida de São Paulo no Largo da Concórdia cantando Caminhemos: "Não, eu não posso lembrar que te amei, eu preciso esquecer que sofri." Naquela época de amores impossíveis, ou ao menos difíceis, amava-se sofrendo. Nem o Carnaval escapava. Em Confete, que Chico Alves também cantou naquela tarde, a ausência estava lá, poeticamente: "Confete, pedacinho colorido de saudade".
Em seu enterro, no Rio de Janeiro, o povo cantou Adeus: "Quem fica, também fica chorando, com um lenço acenando, querendo partir também." Em São Paulo, dois dias antes, sem o saber, Chico cantara o réquiem do antigo Largo da Concórdia, o largo do povo do Brás.
Saudades de nunca - LÚCIA GUIMARÃES
O ESTADÃO - 16/07
Um dos esportes preferidos deste verão escorchante é tomar partido na polêmica sobre The Newsroom (A Redação), a nova série da TV a cabo que marca a volta de Aaron Sorkin, depois do triunfo de filmes como A Rede Social e Moneyball, O Homem Que Mudou o Jogo.
A trama: âncora apelidado de Jay Leno do telejornal vai a um evento numa universidade e reage à pergunta - "o que faz a América ser o maior país do mundo?" - com um ataque semelhante ao de Peter Finch no clássico Network (1976), escrito por Paddy Chayefsky. Sobrevoando a estupidez da pergunta, o âncora Will McAvoy se lança num discurso sobre a decadência americana, com truísmos do tipo "Nós combatíamos a pobreza, não os pobres!" e o vídeo, é claro, se torna viral. Está montado o cenário para a redenção do herói nas mãos da idealista produtora executiva contratada para mudar o rumo da divisão de jornalismo com um novo telejornal. Ela só se manifesta em sermões, "Nós não fazemos boa TV, fazemos jornalismo". Vamos sobrevoar o fato de que nenhuma redação de TV é habitada por hipercafeinados Ruys Barbosas. Afinal, como lembrou o crítico David Denby, num pomposo artigo Em Defesa de Aaron Sorkin, os jornalistas também não falavam como os personagens de Ben Hecht em The Front Page. Não sejamos literais.
Mas o próprio Sorkin convida ao literalismo porque seus jornalistas cobrem crises que aconteceram de fato e, ao reencenar dramas como o cataclísmico vazamento da plataforma da British Petroleum no Golfo do México, parecem estar nos dando uma lição de ética e competência. E por falar em competência, as duas mulheres mais talentosas da redação têm vidas afetivas desastrosas. Para entender um pouco o clichê, faça uma busca online com estes dois nomes, Aaron Sorkin e Sarah Nicole Prickett, a correspondente do jornal canadense Globe and Mail (inserir aqui efeito sonoro semelhante ao grito de Tarzan).
Aaron Sorkin, é bom lembrar, reinventou o drama na TV nos anos 90 com The West Wing, a série que representava uma Casa Branca idealista e inspirou muitos jovens a entrar na política. Seu diálogo é tão marcante que ele mesmo não resiste a se plagiar, como mostra uma esperta montagem Sorkinism - A Supercut, feita por um fã no YouTube. Um sorkinismo é um diálogo acelerado em que pessoas nunca acometidas por dúvidas esvaziam o cartucho de sua metralhadora moral com a destreza dos personagens de Frank Capra. No evangelho segundo Aaron Sorkin, aqui caberia um comentário sarcástico para embaraçar os leitores jovens que não sabem quem diabos é Frank Capra. Mas não me interesso pelo tipo de desprezo geracional exibido pelo protagonista-alter ego de Sorkin, Will McAvoy, vivido por Jeff Daniels: "A sua é a pior - ponto - geração - ponto - de todos os tempos", diz ele, logo no começo do primeiro episódio.
O que me leva a especular sobre o verdadeiro racha exposto pelos defensores e detratores de The Newsroom.
O confronto aqui não é entre a virtude da era de jornalistas como Edward Murrow (bem representada em Boa Noite, e Boa Sorte) e o oportunismo invertebrado do jornalismo na era digital. Sorkin deixa claro que detesta Facebook, Twitter e despreza a incultura dos novos habitantes das redações.
No planeta de Aaron Sorkin, a "América", este país só assim chamado pelos estadunidenses, já foi, sim, o maior e melhor país do mundo, até começar a pecar com a Guerra do Vietnã. O jornalismo americano era uma bolha de integridade não afetada pela ganância das novas corporações de mídia. E homens brancos com a cabeleira cada vez mais rala podiam encher a cara de scotch às 3 da tarde e arrotar insultos porque sua superioridade intelectual e moral justificava qualquer preço pago por mulheres e minorias, representadas em The Newsroom pelo inevitável indiano nerd e o produtor negro que tem coragem de criticar Obama.
Como uma profissional jurássica, isto é, pré-internet, e com experiência de redação no tempo em que o país todo se reunia em torno do telejornal noturno, eu não reconheço este mundo de Aaron Sorkin. Mas reconheço que, se for convidada, a qualquer hora do dia posso ajudar Aaron Sorkin a esvaziar uma garrafa de single malt e chorar as perdas da minha profissão.
Desconfio que o saudosismo feroz do autor não é apenas pelo papel do jornalismo na vida cívica. É pelo declínio do seu próprio papel, como membro de uma elite da cultura popular traumatizada com o impacto tecnológico. O mundo do trabalho não opõe simplisticamente luditas a savants digitais. Sorkin ganhou o Oscar pelo ótimo roteiro em que reduz a emergência do Facebook à dor de cotovelo de seu fundador. Mas desprezar Mark Zuckerberg não é o mesmo que apontar para um futuro alternativo.
Mochilas que colidem - RUY CASTRO
FOLHA DE SP - 16/07
RIO DE JANEIRO - Nos aviões é assim. O jovem de mochila às costas avança pelo corredor, indiferente às pessoas que já se sentaram e estão desgraçadamente no trajeto de seu apêndice. O jovem não se altera. A mochila vai abrindo caminho, colidindo com rostos, penteados, óculos. Depois de muitos voos, alguns passageiros ficam craques na arte da esquiva ou da encolha.
Há algo de especial no portador de uma mochila. Talvez o fato de ocupar mais espaço do que os não portadores de mochila o faça sentir-se com certos direitos, entre os quais o de não pedir licença para passar ou desculpas por um ocasional esbarrão. O portador de mochila é também um ardente adversário da lei segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Para ele, uma mochila pode e deve ocupar espaços previamente ocupados.
Talvez eu esteja sendo rigoroso com os portadores de mochilas. Quem sabe a desenvoltura das mochilas seja coisa delas, como se tivessem vontade própria ou se regulassem por leis que só elas conhecem?
E será coincidência que, sempre de lona, as mochilas têm uma notável tendência à morrinha? Tudo bem, esta pode ser apenas uma idiossincrasia do cronista. Mas, pelo que me dizem, o conteúdo natural das mochilas são gorros ensebados, agasalhos que não costumam ser lavados, tênis com extensa quilometragem, tudo enfiado à força, e outros itens que não requerem manutenção e vão direto para o lixo depois de muito uso, inclusive a própria mochila.
Note bem, longe de mim negar a praticidade das mochilas. Elas são portáteis, esportivas e passam de passagem, sem problema, pelo check-in no balcão do aeroporto. O mesmo não acontece com as malas caretas, grandes e duras, que não podemos levar para o avião. E que, pensando bem, não teriam lugar no espaço reservado à bagagem, já atulhado de mochilas.
RIO DE JANEIRO - Nos aviões é assim. O jovem de mochila às costas avança pelo corredor, indiferente às pessoas que já se sentaram e estão desgraçadamente no trajeto de seu apêndice. O jovem não se altera. A mochila vai abrindo caminho, colidindo com rostos, penteados, óculos. Depois de muitos voos, alguns passageiros ficam craques na arte da esquiva ou da encolha.
Há algo de especial no portador de uma mochila. Talvez o fato de ocupar mais espaço do que os não portadores de mochila o faça sentir-se com certos direitos, entre os quais o de não pedir licença para passar ou desculpas por um ocasional esbarrão. O portador de mochila é também um ardente adversário da lei segundo a qual dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço. Para ele, uma mochila pode e deve ocupar espaços previamente ocupados.
Talvez eu esteja sendo rigoroso com os portadores de mochilas. Quem sabe a desenvoltura das mochilas seja coisa delas, como se tivessem vontade própria ou se regulassem por leis que só elas conhecem?
E será coincidência que, sempre de lona, as mochilas têm uma notável tendência à morrinha? Tudo bem, esta pode ser apenas uma idiossincrasia do cronista. Mas, pelo que me dizem, o conteúdo natural das mochilas são gorros ensebados, agasalhos que não costumam ser lavados, tênis com extensa quilometragem, tudo enfiado à força, e outros itens que não requerem manutenção e vão direto para o lixo depois de muito uso, inclusive a própria mochila.
Note bem, longe de mim negar a praticidade das mochilas. Elas são portáteis, esportivas e passam de passagem, sem problema, pelo check-in no balcão do aeroporto. O mesmo não acontece com as malas caretas, grandes e duras, que não podemos levar para o avião. E que, pensando bem, não teriam lugar no espaço reservado à bagagem, já atulhado de mochilas.
Abaixo a enrolação - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 16/07
O Ministério do Turismo publica hoje portaria que limita os pedidos de reanálise de prestação de contas dos convênios. Pela nova regra, quem receber dinheiro da pasta terá direito a apenas dois pedidos de reavaliação. A medida serve para enquadrar parceiros e entidades que empurravam indefinidamente a documentação para protelar o processo. Especialmente, aqueles que não fizeram a aplicação correta.
ABAIXO 2
Em 2011, o então ministro Pedro Novais caiu em meio a escândalo de irregularidades em convênios da pasta. O ministério tem um passivo de mil processos em análise. Espera zerar com a nova regra. Há casos de conveniados que entraram com mais de 15 pedidos de reanálise. A partir de agora, após o segundo pedido, será inscrito automaticamente no cadastro de inadimplentes e ficará proibido de receber dinheiro.
CHOVE CHUVA
Guarda-chuvas da Casa Cor SP, oferecidos a visitantes, foram vistos sendo usados por travestis e garotas de programa em frente ao Jockey, local onde acontece o evento. Patrocinadores da mostra pediram para funcionários recolherem os objetos. A Casa Cor diz "desconhecer" o episódio.
SURRUPIADO
E outro furto ocorreu dentro da Casa Cor. Um iPad sumiu do espaço BGourmet, da Brastemp. A assessoria do evento diz que foi durante festa para convidados. O local conta com seguranças.
CAMINHOS OPOSTOS
Acabou a sociedade entre Marina Mantega, filha do ministro Guido Mantega, da Fazenda, e Georgia Atalla na primeira loja da grife Balmain no Brasil. Georgia diz que saiu do negócio para tocar outros projetos. Marina será a única dona. A butique deve abrir até o fim do mês no shopping Cidade Jardim.
BAMBOLÊ
A cantora Mallu Magalhães, 19, está sendo vista com uma aliança de compromisso, de ouro, na mão esquerda. Foi presente do namorado, o músico Marcelo Camelo. Os dois moram juntos, mas ainda não se casaram oficialmente.
SPFW POR AÍ
Como não poderá ser realizada na Bienal, a edição extra da SPFW em outubro deve se espalhar pela cidade. A ideia é que os desfiles ocorram no showroom das marcas. O prédio do Ibirapuera abrigará a Bienal de SP.
PLIM-PLIM
Produção para TV, cinema, publicidade e jornalismo foi o curso mais concorrido no último vestibulinho das Etecs (escolas técnicas estaduais de São Paulo). A concorrência chegou a 19,75 candidatos por vaga. O curso começou a ser oferecido no 2º semestre de 2011.
A irmã da Nina
Caroline Abras, 24, é uma das protagonistas do longa "Augustas", de Francisco Cesar Filho, que estreia em 2013. "Sou paulista, cresci perto da rua Augusta. Faz parte da minha história", diz. A atriz está no ar em "Avenida Brasil" como Begônia, irmã da protagonista Nina. "Fiz cinco novelas e nunca senti uma resposta tão intensa e imediata do público." Sobre ser chamada de a Chloë Sevigny (atriz americana) brasileira, diz: "É uma comparação pelo físico, mas tudo bem. Adoro o trabalho dela".
PASSAPORTE
A atriz Bianca Salgueiro, que conquistou o primeiro lugar no vestibular da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) em 2011, enquanto fazia a novela "Fina Estampa", está passando um mês em San Diego (EUA). Ela narrará seu intercâmbio num blog antes de voltar ao Brasil, em agosto, para começar o curso de engenharia.
Não estou preocupada com os números
O programa "Encontro com Fátima Bernardes", da TV Globo, abordou o tema autismo há alguns dias. A atração exibiu depoimentos de médicos e de pais de filhos com o transtorno.
Mãe de uma criança autista, a jornalista carioca Patrícia Trindade não gostou da abordagem do debate. Ela publicou um post no blog www.napracinha.com.br e no Facebook criticando a "maneira superficial" como o tema foi tratado.
O texto teve mil compartilhamentos na rede social até a noite de sexta.
Entre outras coisas, Patrícia diz que o "Encontro" reforçou alguns estereótipos.
"Entendo a dor da Patrícia, mas um tema como autismo não se esgota em 30 minutos de um programa. Há uma certa injustiça quando ela fala que fomos superficiais", diz Fátima Bernardes à coluna, por telefone.
"A gente não tem a pretensão de fazer uma tese, de ser tão profundo a ponto de esgotar um tema. Nós jornalistas podemos voltar sempre a um assunto, senão estaríamos fritos", afirma.
Fátima pede uma segunda chance. "Nenhuma das questões que a Patrícia aponta procedem. Pediria que ela revisse o programa com um pouquinho mais de tranquilidade."
A apresentadora falou ainda da pressão nos primeiros dias, de ibope e da sua alegria com o novo desafio.
Folha - Como você analisa o programa até agora?
Fátima Bernardes - Vou esperar três meses para fazer uma avaliação. Mas continuo muito feliz de fazer esse trabalho.
Acha que as críticas à atração estão sendo muito pesadas?
Acho que elas estão sendo muito rápidas.
A baixa audiência, a questão dos números, é algo que te preocupa?
Isso não é algo que está me preocupando nem um pouco. Vamos deixar pra falar mais pra frente.
Mais que nada
O filme "Menos que Nada", de Carlos Gerbase, teve pré-estreia no shopping Frei Caneca, com a presença dos atores Rosanne Mulholland, Maria Manoella e Felipe Kannenberg, que estão no elenco. A atriz Paula Franco também foi conferir a obra.
Liga, desliga
A mostra visual "On_Off - Experiências em Live Image" teve sua oitava edição no Itaú Cultural. O VJ Nicolas Boritch e o artista Ricardo Carioba participaram.
Curto-circuito
Paulo Moreira Leite lança hoje o livro "A Mulher que Era o General da Casa", na Livraria Cultura do Conjunto Nacional, na av. Paulista, às 18h30.
A pizzaria A Esperança do Itaim abre amanhã a mostra "A Arte de Comer Bem", com fotos de Dadá Cardoso. Em prol do instituto de Valéria Baraccat.
com LÍGIA MESQUITA (interina), ELIANE TRINDADE (colaboração), ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER e OLÍVIA FLORÊNCIA
Juros de um dígito - GEORGE VIDOR
O GLOBO - 16/07
O tempo nos ensina a ser cauteloso com certas afirmações, especialmente aquelas do tipo "desta água não beberei", "nunca", "jamais", ao se tratar do futuro. Por isso, não se deve ser categórico em relação à trajetória dos juros, ainda que tenha aumentado a possibilidade de as taxas básicas permanecerem abaixo de 10% daqui para frente, mantendo-se as atuais metas de inflação, entre 2,5% e 6,5% ao ano.
As taxas de juros mais baixas viabilizam uma série de investimentos no país, não só porque os financiamentos do BNDES baratearam, mas porque a oferta de capitais privados já está se multiplicando. Lançamentos de debêntures estão na boca do forno e essa oportunidade de captação chega em bom momento, pois o governo está prestes a anunciar a renovação de concessões de usinas hidrelétricas, rodovias e terminais portuários, em troca de novos investimentos.
É curioso, mas as ferrovias sob concessão não estão previstas nesse pacote de renovação, embora os resultados alcançados nos últimos quinze anos sejam altamente positivos.
E por falar em ferrovias, até o fim do ano a MRS concluirá o investimento de R$ 1,5 bilhão em novas locomotivas, vagões e sinalização, permitindo aos comboios trafegarem a uma distância mínima de segurança de três quilômetros um do outro, em vez dos atuais 15 quilômetros. Esse moderno sistema de sinalização será obrigatório nos Estados Unidos a partir de 2016. Os trens de carga no Brasil transportam basicamente minérios, combustíveis, grãos e outros alimentos. Os comboios chegam a carregar 13 mil toneladas de minério de ferro e têm uma extensão que supera a da rua Jardim Botânico, no Rio.
No ano passado a MRS transportou 152 milhões de toneladas de carga. Para efeito de comparação, no último ano ano de vida, antes da privatização das malhas, toda a extinta Rede Ferroviária Federal transportou 86 milhões de toneladas. Com a inauguração do Porto do Sudeste (da MMX, de Eike Batista), em Itaguaí, no ano que vem, esse volume aumentará em 36 milhões de toneladas. Com o incremento de outras cargas - em breve os trens poderão entrar no porto de Santos com dois contêineres, sobrepostos, em cada vagão - a MRS se prepara para chegar no futuro a 250 milhões de toneladas.
Ficou para a primeira semana de agosto o anúncio de medidas que reduzirão o preço da energia elétrica para consumidores, especialmente os industriais. A principal delas deverá ser um corte médio de 12% a 14% nas tarifas das geradoras cujo prazo de concessão de várias hidrelétricas vencerá em 2015. Em troca da renovação das concessões por vinte anos - ou de um novo mecanismo, em que o patrimônio retorna à União, mas a operação e a manutenção da usinas permanecem na mão das atuais concessionárias - haverá um corte de tarifas, por meio de um novo cálculo no preço da energia. Os grandes consumidores industriais é que se beneficiarão do maior corte (que talvez chegue a 17%), porque compram energia diretamente das geradoras.
A redução do preço da energia ocorrerá não apenas por essa renovação de concessão das hidrelétricas. Encargos embutidos nas tarifas cobradas de grandes consumidores também deverão ser eliminados.
Em dezembro serão concluídas as obras da linha de transmissão entre Oriximiná, no Rio Trombetas (Pará), e Manaus. E até maio do ano que vem se prevê a conclusão do trecho que atravessa o Rio Amazonas, a cargo de empresas chinesas. O ponto de travessia é relativamente estreito. As linhas de transmissão percorrerão um quilômetro da margem direta até uma ilha fluvial. Por esse canal não navegam grandes embarcações e por isso a altura das torres que sustentarão as linhas não será tão alta. Mas no segundo canal, de dois quilômetros, da ilha até a margem esquerda, cada torre terá 290 metros de altura, quase um Pão de Açúcar. Depois de concluídas essas linhas de transmissão, Manaus estará conectada à hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e, por meio dela ao sistema interligado nacional de energia elétrica.
Furnas e Ibama estão juntas no pedido de derrubada da liminar que impede hoje a entrada em funcionamento da hidrelétrica de Simplício, na divisa de Rio de Janeiro e Minas Gerais. A decisão caberá a um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. É curioso mas a liminar foi concedida a pretexto de o desvio do Rio Paraíba do Sul vir a causar danos ambientais à região. Como foi o Ibama que licenciou a usina hidrelétrica, o próprio órgão federal responsável pela preservação do meio ambiente teve que agir contra a liminar.
Em recentes encontros com pequenos e médios empresários da Região dos Lagos, o economista Mauro Osório foi alertado para uma atividade, indiretamente ligada à cadeia do petróleo e gás, que poderia ser expandir muito em Cabo Frio e municípios vizinhos: mecânica de helicópteros. O apoio às plataformas de petróleo faz com que o Estado do Rio de Janeiro tenha uma frota de helicópteros maior que a de São Paulo. Os salários dos pilotos no Rio chegam a ser 40% maiores que os de SP. Como a Marinha concentrou sua frota de helicópteros na base naval de São Pedro de Aldeia, anos atrás precisou criar cursos técnicos para a formação de mecânicos especializados na manutenção e reparos dessas aeronaves. Muitos profissionais que saíram desses cursos acabaram migrando para empresas privadas, e ainda há mercado a ser atendido.
O círculo se fecha - VERA MAGALHÃES - PAINEL
FOLHA DE SP - 16/07
O relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG), disse a membros da comissão que vai indiciar o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), no relatório que deverá entregar no final de agosto. Para ele, as apurações que mostram pagamentos do governo à Delta logo após a venda da casa do tucano para Carlinhos Cachoeira são o ato de ofício que faltava para associar Perillo ao grupo. O relatório apontará relações entre ele e o consórcio Cachoeira-Delta desde a campanha.
Vizinhos O relatório de Odair Cunha também deverá indiciar o governador de Tocantins, Siqueira Campos (PSDB), e o prefeito de Palmas, Raul Filho (PT). Agnelo Queiroz (PT-DF), também investigado pela CPI, deverá ser poupado pelo petista.
Crise no ninho Antes de a revista "Época" expor novas encrencas de Perillo, a cúpula do PSDB ainda o defendia, constrangida. Diante dos fatos novos, o apoio será reavaliado. Já o deputado Carlos Lereia (PSDB) foi jogado ao mar pelos tucanos.
Vuvuzela O prefeito do Rio, Eduardo Paes, está sob pressão de uma campanha nas redes sociais, com apoio de políticos de vários partidos, para rebatizar o Engenhão, que leva o nome do cartola João Havelange, para João Saldanha, técnico da Seleção tricampeã em 1970.
Retiro Depois de marcar posição diante do PSB, Michel Temer representa nesta semana Dilma Rousseff na inauguração de uma fábrica de antirretrovirais em Moçambique. O vice vai assinar, ainda, cooperação para levar o modelo de plantio do cerrado para a África.
Mídia A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, volta ao Brasil em outubro para participar do congresso da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa), que ocorre em São Paulo. Arthur Sulzberger Jr., publisher do "New York Times", também participa do evento.
Algoz Notícia-crime protocolada por Ricardo Berzoini, em 2006, foi a responsável pela impugnação da candidatura de José Serra à prefeitura. O processo foi remetido do Tribunal de Justiça ao STJ quando o tucano assumiu o governo, e arquivado.
Fim Os promotores pedem que as certidões sejam atualizadas com o desfecho da ação, em que o petista acusava o PSDB de associação com o PCC. Os advogados de Serra dizem que os documentos foram entregues, mas acrescentarão novos papéis.
Twitcam Geraldo Alckmin vai veicular mensagens nas redes sociais como forma de apoiar aliados no interior. O primeiro a contar com a forcinha virtual é Alexandre Blanco, candidato em São José dos Campos e enteado de Emanuel Fernandes.
Máquina Perfil oficial do Sebrae no Twitter convocou para "onda vermelha" pró-Patrus Ananias (PT) em Belo Horizonte sábado. O tuíte foi apagado minutos depois.
De volta... Depois de capitanear o embate com Dilma na campanha presidencial, a regional Sul 1 da CNBB, que agrega as 42 dioceses da Igreja Católica do Estado de São Paulo, redigiu documento em que acusa o governo de facilitar a prática de aborto.
... a 2010 O texto, assinado pelo bispo de Assis, dom Benedito Simão, pede a demissão da ministra Eleonora Menicucci (Mulheres) e do secretário do Ministério da Saúde Helvécio Magalhães.
Aperitivo Carlos Ayres Britto, presidente do STF, almoça amanhã com promotores de São Paulo no clube Paulistano. O encontro ocorre quando o Supremo discute se o Ministério Público pode comandar investigações.
Tiroteio
Dirceu culpa Delúbio; Duda aponta para Marcos Valério. Com o julgamento chegando, os mensaleiros entraram em desespero.
DO DEPUTADO ACM NETO, líder do DEM na Câmara, que foi sub-relator da CPI dos Correios em 2005, sobre as estratégias de defesa dos réus do mensalão.
Contraponto
Aleluia, irmão!
O candidato do PSDB à Prefeitura, José Serra, e o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira prestigiavam o aniversário do pastor Samuel Ferreira, da Assembleia de Deus, realizado há pouco mais de um mês, quando foram convidados pelo religioso a discursar durante o culto.
Aloysio foi o primeiro a subir ao púlpito e, de improviso, fez um discurso inflamado, falando da importância da igreja evangélica e citando, de cor, trechos da Bíblia.
Na sua vez de falar, Serra mostrou-se surpreso:
-O pastor Samuel é tão bom que conseguiu o milagre de transformar o Aloysio em pregador evangélico!
O bom exemplo do Exército - EDITORIAL O ESTADÃO
O Estado de S.Paulo - 16/09
No momento em que notícias sobre superfaturamento e atraso em obras públicas se tornam corriqueiras, é animador saber que algumas dessas obras estão sendo entregues antes do prazo previsto e a custos inferiores aos originalmente orçados. Não se trata de milagre. É apenas o resultado do trabalho competente e sério realizado por uma instituição cuja missão precípua não é tocar canteiros de obras, mas que nos últimos anos tem assumido maiores responsabilidades na elaboração e execução de projetos de infraestrutura em todo o País: o Exército.
O Departamento de Engenharia e Construção (DEC) do Exército, como mostra o jornal Valor (12/7), está tocando 34 obras em vários Estados, 25 delas do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e elabora, a pedido da Infraero, projetos de engenharia destinados a acelerar a expansão dos aeroportos de Porto Alegre, Vitória e Goiânia. Nessa área, o Exército já trabalha na administração dos serviços de terraplenagem da ampliação do aeroporto de Guarulhos e na construção da pista do aeroporto de Amarante, no Rio Grande do Norte.
É principalmente o desempenho do Exército nas obras do aeroporto de Cumbica que tem animado a Infraero a ampliar a parceria com os militares numa área que se tem transformado numa das maiores dores de cabeça do governo no que diz respeito ao cumprimento dos prazos das obras da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016. A terraplenagem do Terminal 3 de Cumbica, cuja previsão inicial de entrega era para dezembro de 2013, será concluída em setembro próximo, com antecipação de 15 meses. Além disso, o custo original da obra, orçado em R$ 417 milhões, deverá ser reduzido - e não é apenas porque a União paga os soldos militares - em cerca de R$ 130 milhões, o que equivale a 25%. É exatamente o contrário do que tem sido noticiado a respeito da verdadeira lambança que a principal empreiteira do PAC, a Delta, tem promovido nas obras bilionárias sob sua responsabilidade em todo o País.
É claro que tocar obras públicas não é a missão precípua das Forças Armadas, que existem para zelar pela defesa nacional. E o Exército, cuja "intervenção" no mercado é malvista pelas empreiteiras de obras públicas, sabe muito bem que essa não é sua verdadeira vocação. O general Joaquim Maia Brandão, chefe do Departamento de Engenharia e Construção, garante, segundo o Valor, que não há planos de ampliar a estrutura da unidade sob seu comando, apesar do aumento da demanda ocorrido nos últimos anos, inclusive no que diz respeito ao planejamento e construção de novas estradas e manutenção das existentes, responsabilidade do mal afamado Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Nessa área o Exército tem 19 contratos firmados. E cumpre outros tantos nos setores portuário e de navegação fluvial.
O Exército está hoje envolvido em 34 projetos de construção, no valor de R$ 3 bilhões em obras, dos quais R$ 2,4 bilhões são do PAC. Intervenção indevida no mercado? Desvio de funções? O general Brandão responde: "O que temos é uma missão para cumprir, que é a preparação de nossas tropas para a guerra. Se não temos guerra, temos a obrigação de manter nosso contingente em atividades que, se necessário, (a tropa) irá desempenhar em situação de emergência". Não é, portanto, a lógica do mercado, mas a necessidade de manter seu contingente ativo e preparado que motiva o Departamento de Engenharia e Construção.
A situação de emergência a que se refere o general seria, obviamente, um eventual conflito militar. Mas não resta dúvida de que o DEC está atendendo também a uma importante e extremamente lamentável emergência ao cumprir com competência, seriedade e economia de recursos públicos uma tarefa fundamental para o desenvolvimento do País que a iniciativa privada tem sido frequentemente incapaz de executar com a mesma eficiência e probidade, devido à crescente promiscuidade entre negócios públicos e privados. É de imaginar que seja difícil trabalhar com orçamentos enxutos quando a regra do jogo é pagar propinas que satisfaçam a crescente voracidade de homens públicos tão desonestos quanto quem lhes molha a mão.
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