terça-feira, maio 08, 2012

Segredo de polichinelo - DORA KRAMER


O Estado de S.Paulo - 08/05/12


Tem sido desproporcional a energia empregada por parte de integrantes da CPMI para resguardar o sigilo de informações que todos os dias chegam de alguma forma à imprensa e o esforço empregado nas investigações propriamente ditas.

Instalam-se câmeras na sala do "cofre", fica proibida a entrada de assessores, veta-se o uso de aparelhos eletrônicos, monta-se vigilância 24 horas ao molde de um aparato de preparação para a guerra. Empreendimento um tanto inútil frente aos vazamentos diários por outras vias que não o Congresso.

Fica parecendo mais um teatro com vistas a, em algum momento, criminalizar a comissão desviando o foco da discussão do conteúdo para a forma, ou uma justificativa prévia para proteções indevidas.

Não deixa de ser uma contradição em termos, pois o autointitulado "Poder mais aberto da República" só instalou a comissão de inquérito para esmiuçar o alcance das relações de um "capo" do jogo ilegal com agentes públicos e privados por causa da divulgação dos grampos telefônicos feitos pela Polícia Federal, na Operação Monte Carlo, a despeito do sigilo de Justiça.

Se a imprensa não tivesse publicado o conteúdo de telefonemas entre o contraventor Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, e o senador Demóstenes Torres, não haveria nem CPMI nem abertura de processo no Conselho de Ética contra o parlamentar.

Continuaríamos acreditando na lisura e no rigor de Demóstenes, bem como as relações da empreiteira Delta com o poder público federal, estadual e municipal ainda seriam apenas objeto de dispersas suspeitas.

Até então só o que se sabia sobre a empresa de Fernando Cavendish era que apresentava um crescimento exorbitante em seus negócios País afora e que o dono mantinha amizade com o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho.

Proximidade tão passível de questionamentos de ordem pública, que por causa dela o governador providenciou a elaboração de um código para informar a si e à administração estadual o que significa comportamento ético.

O plano de trabalho da CPMI aprovado na semana passada saiu até bem razoável. Mas, uma coisa é o plano, outra o trabalho propriamente dito.

Nesse aspecto está se desenhando um cenário preocupante de lentidão e confusão no tocante às investigações em contraste com a agilidade para a montagem de uma casamata para o abrigo das informações.

Há diferenças, como já alertaram o deputado Miro Teixeira e o senador Pedro Taques, ambos integrantes da comissão, entre o segredo necessário ao bom andamento das investigações e o sigilo que protege o bandido.

No Brasil ninguém está obrigado a fazer nada que não seja por determinação de lei. E a lei maior, a Constituição, em seu artigo 37, obriga a administração pública a seguir os princípios da probidade, da impessoalidade, da eficiência e da publicidade.

O esforço demandado em prol do segredo pode vir a se chocar com todos esses preceitos. Eventualidade que começará a ser esclarecida no debate interno sobre a convocação de governadores de alguma maneira, direta ou indireta, suspeitos de possíveis ligações com as organizações Cachoeira.

Nesse embate já vamos perceber se vai prevalecer a disposição de desvendar os crimes ou se a ideia é fazer da comissão uma arena de joguinhos de queda de braço entre partidos.

O esclarecimento sobre envolvimentos de poderes executivos estaduais e municipais só será possível ser feito sob o olhar de todo o País no ambiente do Congresso Nacional, como indicam os frágeis ensaios de se instalarem comissões de inquérito locais.

A dificuldade guarda relação com a influência de governadores e prefeitos sobre os respectivos legislativos e também com o déficit de independência da imprensa no âmbito regional.

Se quiser ser levada a sério a CPMI precisa oferecer ao público mais que segredos de polichinelo. Sem uma aliança com a transparência não avança para além daquilo que já se sabe. E sabe-se, aliás, graças à liberdade de imprensa um dos pilares do resguardo do direito da sociedade à informação.

Ueba! O Facebook da Dilma! - JOSÉ SIMÃO

FOLHA DE SP - 08/05/12


Eu sei quem vazou as fotos da Carolina Dieckmann. O Garotinho! Cansou de vazar foto do Sérgio Cabral

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Eu sei quem vazou as fotos da Carolina Dieckmann. O Garotinho! Cansou de vazar foto do Sérgio Cabral: "Chega, o Cabral é muito feio, agora vamos de Carolina".
E uma amiga ficou com inveja do espelho do banheiro da Carolina Dieckmann. E um outro quer abrir uma empresa de consertar computador de celebridade gostosa!
E tô adorando o Facebook falso da Dilma: "Sou linda, sou diva, sou presidenta!". "Parem de repetir 'veta, Dilma' o tempo inteiro, não sou retardada, já entendi." E esta: "Se fosse pra ser simpática, seria guia da Disney, e não presidenta".
E o site Comentando revela as ultimas palavras de Sarkozy após perder as eleições: "OK, eu perdi as eleições. Mas uma coisa eu garanto. A CARLA BRUNI NINGUÉM LEVA!". Pois eu acho que ele levou dois pés na bunda: um da França e outro da Carla Bruni. Rarará! Sorte da França: chega de baixinho com mania de grandeza! Basta o Napoleão!
E o Sarkozy tem cara e nome de remédio. Azia? Má digestão? Tome Sarkozy! Esse Hollande pelo menos dá risada. Não sei até quando! Até se encontrar com a Angela Merkel. Rarará!
E esta piada pronta: "Ministro britânico admite que Olimpíada não está imune a ciberataque". Como é o nome do ministro? FRAUDE Maude! Rarará!
E a CPI do Cachoeira? CPI do Fim do Mundo: só tem fantasma! É cada susto! E o Demóstenes não vai ser cassado, vai ser pescado! Em Cachoeira não se caça, se pesca!
E tô adorando a Nina. Ela não devia trabalhar em "Avenida Brasil", ela devia trabalhar naquele filme da Disney: "Vida de Inseto". Vermelha, magra, pescoçuda, zoiuda e sempre antenada em tudo. Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
O Brasil é Lúdico! Adorei esta pichação no muro: "Prefeito, minha pichação você pinta, mas os buracos você não tapa, né?". E esta associação de pescadores em Florianópolis: Associação Cultural Baiacu de Alguém. Ainda bem que é de alguém! Rarará!
E esta placa no self-service do posto Graal da Bandeirantes: "Canja! Caldo de quenga". Rarará! Jogaram as amigas na água quente! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA


Um novo caminho - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 08/05/12


O grande desafio do novo presidente francês, François Hollande, será conciliar crescimento com controle da dívida e do déficit. Ele pode proclamar na Bastilha que a austeridade não é uma fatalidade, mas governará um país com 5% de déficit público e que saiu de 64% para 87% de dívida/PIB em três anos. As eleições mostraram uma aversão à atual política fiscal e monetária da Europa, que não tem sido resposta eficaz ao desemprego.

O pêndulo da França em direção à esquerda exige da Europa a procura de novas respostas para a crise econômica. O governo da Angela Merkel precisa reconhecer que a austeridade pura levou a Europa a um beco sem saída. E ela mesma começa a perder terreno. Seu partido teve mais uma derrota em eleições regionais.

Ampliar o gasto público em período de alto endividamento, déficit e desconfiança dos financiadores não é sustentável. Apenas cortar gasto público tem produzido um círculo vicioso de recessão-desemprego-perda de receitas. É preciso encontrar um terceiro caminho que concilie redução de desequilíbrios fiscais com aumento do investimento público. Neste aspecto, um novo líder na França, com ideias novas, pode ajudar a tornar o debate na comando da UE mais eficaz.

Hollande terá dias intensos daqui para a frente. A mais importante batalha foi iniciada ali mesmo na Bastilha: a campanha para ter maioria no parlamento e assim fazer um governo todo socialista. Se o partido de Sarkozy ganhar, a França será governada pelo sistema que eles chamam de coabitação. No regime francês, o presidente tem mais poder do que no parlamentarismo, mas o parlamento tem mais poder do que no presidencialismo. Neste regime semipresidencial, para que Hollande tenha realmente força para implantar seu programa a esquerda tem que ganhar de novo em junho.

Antes disso, Hollande terá o encontro com Angela Merkel, a posse e as reuniões de cúpula da OTAN e do G-8 nos Estados Unidos. Nesses encontros, o líder francês terá que dizer como pretende aumentar o emprego público, induzir o crescimento e manter as contas sob controle. Uma das formas pode ser um plano bancado pela União Europeia, de incentivo ao crescimento, que não signifique necessariamente aumento do endividamento nem a sinalização de explosão de gastos.

Certos pontos do seu programa podem ser tiro no pé. Ele propôs um aumento da alíquota do Imposto de Renda para quem ganha entre 1 milhão e 10 milhões e de 75% para quem ganha mais de 10 milhões. Falta explicar como cobrar uma alíquota como essa sem provocar fuga de capitais.

A eleição da esquerda na França pode ser um impulso importante para se encontrar uma fórmula que equacione a busca da queda do endividamento e do déficit que não seja apenas a austeridade. Há hoje na Europa uma fadiga das propostas de corte e ajuste fiscal, que não dão horizonte para a melhora econômica, e há uma síndrome que persegue os governantes sejam eles de que lado político forem.

Desde que começou a crise externa, já mudaram de governo os seguintes países: República Checa, Grécia, Eslováquia, Eslovênia, Finlândia, Irlanda, Portugal, Espanha, Dinamarca, Holanda, Itália, Reino Unido, Hungria, França. Em alguns países, mais de uma queda. A Bélgica ficou um enorme tempo sem governo. A Grécia está indo para a terceira queda e o quinto ano de recessão.

Os gregos são um caso limite de toda essa armadilha entre superendividamento e crescimento. O retrato que saiu das urnas mostra isso: espantosa fragmentação, recuo dos dois partidos que se alternam no poder há tempos, crescimento da extrema-esquerda e uma inédita representação do Partido Nazista no parlamento. Nas primeiras horas após o fim das eleições, não se conseguiu formar coalizão porque a Nova Democracia, de direita, e o Pasok, socialista, que sustentaram o governo de Lucas Papademos, conseguiram apenas 149 cadeiras e o mínimo é 151. Se não conseguirem apoio de um terceiro partido terá que haver nova eleição. O problema é que a Grécia tem recebido em pedaços aquele enorme pacote de ajuda. O FMI e a União Europeia só darão dinheiro ao governo se, primeiro, houver governo, e, segundo, se ele continuar implementando o programa negociado.

As bolsas que amanheceram em queda se recuperaram, exceto, evidentemente, a da Grécia. Na Espanha, o governo conservador de Mariano Raroy admitiu usar dinheiro público para socorrer o Bankia, terceiro maior banco do país, o que claramente contraria as ideias que defendeu quando derrubou o governo de José Luis Zapatero. Os jornais espanhóis estão falando que entre 7 bilhões e 10 bilhões seriam necessários para sanear o banco, que é o mais exposto aos empréstimos podres da bolha imobiliária. O problema é que pode não ser o último. Imagine o sentimento do jovem espanhol, que enfrenta um desemprego acima de 50%, vendo o governo investir tanto dinheiro para salvar um banco. Difícil explicar que bancos quando quebram podem provocar um colapso na economia para quem já acha que vive em meio ao colapso.

A situação da Europa continua difícil, mas desde este fim de semana a França começa a liderar uma nova resposta. Que Hollande tenha na economia a sabedoria que mostrou na política quando uniu o partido e levou-o à vitória.

A CPI será uma feira de vaidades - ARNALDO JABOR


O Estado de S.Paulo - 08/05/12


O País não pode ser dividido em "esquerda e direita", nem em corrupção e honestidade. Esta CPI que raia no sujo horizonte vai nos mostrar mais que essas dualidades simplistas. (Demóstenes foi um exemplo de perigosa 'ambivalência'; ladrões mais coerentes e sólidos se escandalizaram. Há no ódio a Demóstenes uma crítica velada a seu 'amadorismo'.) Veremos um desfile de perversões políticas e até sexuais que traçam um retrato mais complexo do País. Esquerda e direita dividia um mundo linear e óbvio. A esquerda achava que era sujeito da História, mas a Direita sempre soube que a História não tem sujeito; só "objeto" - o lucro.

Nossa vida social é movida por outras categorias. Há paranoicos, esquizofrênicos, histéricos - um vasto catálogo de patologias. Vejamos.

A burrice - Nelson Rodrigues dizia que a burrice é uma "força da natureza". Antigamente, os cretinos se escondiam pelos cantos, roídos de vergonha; hoje, andam de fronte alta e peito estufado. Nunca a estupidez fez tanto sucesso. Forrest Gump, o herói idiota do filme, foi o precursor; Bush seguiu-o e se orgulhava de sua ignorância. Uma vez em Yale, ele disse: "Eu sou a prova de que os maus estudantes podem ser presidentes dos USA." E nosso Lula que tem títulos de doutor 'honoris causa', se gabando de não ter lido nada? Inteligência é chato; traz angústia, com seus labirintos. Inteligência nos desampara; burrice consola. A burrice está na raiz do populismo. Para muitos, a burrice é a moradia da verdade, como se houvesse algo de "sagrado" na parvoíce dos pobres, uma 'sabedoria' primitiva que desmascara a mentira "de elite". A burrice é a ignorância em busca de 'sentido'; burrice no poder chama-se "fascismo".

A caretice - O careta é antes de tudo um forte. Está sempre atrás de certezas. Olha o mundo com um olho só e só vê o que já sabia. A caretice é uma posição política. A diversidade da vida é recusada como um desvio, a dúvida como fraqueza. Sua cara é uma careta - daí, o nome-, uma máscara fixa com uma única ideia na mente. Careta odeia novidades, ideias complexas. O careta é linear - tem princípio, meio e fim.

O careta tende mais para o que se chamava de "direita". Mas, há também muitos caretas de "esquerda", que querem uma sociedade sob controle, pois só eles sabem o que é bom para nós, os 'alienados'. Existe até o careta drogado, o 'bicho grilo' chamado "muito louco". Como disse alguém: "Pior que careta, só o "muito louco"...

A incompetência é uma maldição nacional, secular. Existe mais na chamada "esquerda" do que entre os "neoliberais". Os "ideológicos" não se interessam por nada prático, administrável, que chamam de 'epifenômenos' menores. Nada mais chato para eles do que a realidade, apesar de falarem nela o tempo todo. A realidade brasileira para eles é um delírio, com meia dúzia de "contradições" óbvias. Antigamente, era 'latifúndio, burguesia nacional e imperialismo'. Agora, é a tentativa de tomar o Estado por dentro da democracia, instalando 'companheiros' oriundos da massa pelega no poder para fazer uma revoluçãozinha vulgar. Eles dizem que a 'competência' é perigosa porque pode ocultar uma política de direita, mascarar "táticas" do capitalismo. Leram um negocinho do Heidegger sobre a 'técnica' e usam-no para justificar suas trapalhadas gerenciais.

Mas, há mais...

A liberdade é outra doença que nos rói. Por um lado, é um ar puro que amamos depois de 21 anos de ditadura; por outro, provoca vertigens em gente que prefere a submissão. Poderosos sempre falam em democracia, mas muitos planejam impedir que a sociedade julgue o país. Se a crise nos atingir, a patuleia também vai sonhar com um bom tirano, um guia. De resto, a liberdade pode virar um vulgar produto de mercado - celebridades saltitantes e livres dentro de um chiqueirinho de irrelevâncias: o sucesso sem trabalho, o marketing sexual, bundas querendo subir na vida, próteses de silicone na alma.

Imaginação falta-nos também. Não há. Na política, ela é vista como desvio da norma, como perigosa utopia que atrapalha a muralha patrimonialista que nos rege. Imaginação é considerada demagogia ou espetáculo barato. No Brasil, a política do espetáculo foi inventada por Jânio Quadros; Lula foi um bom aluno. Na CPI veremos shows esfuziantes.

O "passadismo rancoroso" é praticado por muitos esquerdistas renitentes. Vivem a nostalgia de heranças malditas, ossadas do Araguaia e nenhum projeto claro para o futuro, como se a vida social de hoje fosse a decadência de um passado que estava certo. Nacionalismo e terceiro-mundismo nascem daí: fome de voltar para a taba ou para o casebre com farinha, paçoca e violinha.

A preguiça é um dos cacoetes mais comuns. Administrar dá trabalho. A burocracia nos defende da 'urgência', da 'emergência', ritmos desconhecidos entre nós, criando a vida pública em câmera lenta, onde a única coisa que acontece é que não acontece nada.

A vaidade também será visível na CPI, nos bigodes e cabelos acaju ou negros como a asa da graúna, visível também no amor ao luxo cafajeste de batucada em restaurantes de Paris, lanchas, vinhos de dez mil dólares e prostitutas em cargos de confiança.

A amizade é outro vício comum, que enlaça cinturas de jaquetões e batuca palmadinhas nas costas, justificando presentes de geladeiras, carrões e bilhões roubados.

Mas, há mais... há mais... Temos os egoístas, os psicopatas (muito em moda...), os "fracassomaníacos", temos as imensas multidões dos "babacas" (serei um deles?...), comandados pelos boçais, cafajestes, oportunistas, ladrões de todas as cores.

De modo que não podemos nos contentar com a velha dualidade "direita/esquerda". O mundo é muito mais vasto, oh "raimundos" e vagabundos!...

E mais - não podemos esquecer os batalhões que crescem a cada dia, os exércitos invencíveis: a brilhante plêiade dos "F.D.P.'s".

Roberto Civita não é Rupert Murdoch - EDITORIAL O GLOBO


O GLOBO - 08/05/12


Blogs e veículos de imprensa chapa-branca que atuam como linha auxiliar de setores radicais do PT desfecharam uma campanha organizada contra a revista "Veja", na esteira do escândalo Cachoeira/Demóstenes/Delta.

A operação tem todas as características de retaliação pelas várias reportagens da revista das quais biografias de figuras estreladas do partido saíram manchadas, e de denúncias de esquemas de corrupção urdidos em Brasília por partidos da base aliada do governo. É indisfarçável, ainda, a tentativa de atemorização da imprensa profissional como um todo, algo que esses mesmos setores radicais do PT têm tentado transformar em rotina nos últimos nove anos, sem sucesso, graças ao compromisso, antes do presidente Lula e agora da presidente Dilma Rousseff, com a liberdade de expressão.

A manobra se baseia em fragmentos de grampos legais feitos pela Polícia Federal na investigação das atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira, pela qual se descobriu a verdadeira face do senador Demóstenes Torres, outrora bastião da moralidade, e, entre outros achados, ligações espúrias de Cachoeira com a construtora Delta. As gravações registraram vários contatos entre o diretor da sucursal de "Veja" em Brasília, Policarpo Jr., e Cachoeira. O bicheiro municiou a reportagem da revista com informações e material de vídeo/gravações sobre o baixo mundo da política, de que alguns políticos petistas e aliados fazem parte.

A constatação animou alas radicais do partido a dar o troco. O presidente petista, Rui Falcão, chegou a declarar formalmente que a CPI do Cachoeira iria "desmascarar o mensalão". Aos poucos, os tais blogs começaram a soltar notas sobre uma suposta conspiração de "Veja" com o bicheiro. E, no fim de semana, reportagens de TV e na mídia impressa chapas-brancas, devidamente replicadas na internet, compararam Roberto Civita, da Abril, editora da revista, a Rupert Murdoch, o australiano-americano sob cerrada pressão na Inglaterra, devido aos crimes cometidos pelo seu jornal "News of the World", fechado pelo próprio Murdoch.

Comparar Civita a Murdoch é tosco exercício de má-fé, pois o jornal inglês invadiu, ele próprio, a privacidade alheia. Quer-se produzir um escândalo de imprensa sobre um contato repórter-fonte. Cada organização jornalística tem códigos, em que as regras sobre este relacionamento - sem o qual não existe notícia - têm destaque, pela sua importância. Como inexiste notícia passada de forma desinteressada, é preciso extremo cuidado principalmente no tratamento de informações vazadas por fontes no anonimato. Até aqui, nenhuma das gravações divulgadas indica que o diretor de "Veja" estivesse a serviço do bicheiro, como afirmam os blogs, ou com ele trocasse favores espúrios. Ao contrário, numa das gravações, o bicheiro se irrita com o fato de municiar o jornalista com informações e dele nada receber em troca.

Estabelecem as Organizações Globo em um dos itens de seus Princípios Editoriais: "(...) é altamente recomendável que a relação com a fonte, por mais próxima que seja, não se transforme em relação de amizade. A lealdade do jornalista é com a notícia." E em busca da notícia o repórter não pode escolher fontes. Mas as informações que vêm delas devem ser analisadas e confirmadas, antes da publicação. E nada pode ser oferecido em troca, com a óbvia exceção do anonimato, quando necessário.

O próprio braço sindical do PT, durante a CPI de PC/Collor, abasteceu a imprensa com informações vazadas ilegalmente, a partir da quebra do sigilo bancário e fiscal de PC e outros. O "Washington Post" só pôde elucidar a invasão de um escritório democrata no conjunto Watergate porque um alto funcionário do FBI, o Garganta Profunda, repassou a seus jornalistas, ilegalmente, informações sigilosas. Só alguém de dentro do esquema do mensalão poderia denunciá-lo. Coube a Roberto Jefferson esta tarefa.

A questão é como processar as informações obtidas da fonte, a partir do interesse público que elas tenham. E não houve desmentidos das reportagens de "Veja" que irritaram alas do PT. Ao contrário, a maior parte delas resultou em atitudes firmes da presidente Dilma Rousseff, que demitiu ministros e funcionários, no que ficou conhecido no início do governo como uma faxina ética.

Pelo crescimento - MERVAL PEREIRA


O GLOBO - 08/05/12


O presidente eleito da França, o socialista François Hollande, resumiu na frase "a austeridade não é uma fatalidade" sua bandeira de luta dentro da União Europeia, como se ainda estivesse disputando a eleição com Nicolas Sarkozy, o candidato preferido da líder alemã Angela Merkel.

Desde que foi negociado em fevereiro, o pacto de austeridade fiscal da União Europeia corre riscos, pois sua aprovação deveu-se mais ao receio de que a situação econômica degringolasse na ocasião do que do convencimento de que a austeridade era realmente um mal necessário.

O pacto fiscal para reduzir o endividamento público assinado por 25 países dos 27 que compõem a União Europeia foi aprovado em meio ao entendimento generalizado de que a cura final dos problemas europeus virá com crescimento e mais empregos, um reflexo da preocupação com a taxa altíssima de desemprego na região, especialmente entre os jovens.

A necessidade de um forte corte nos gastos - a tal "fatalidade" de que fala Hollande - é ponto pacífico entre os líderes, mas também há o consenso de que o aperto fiscal não ajudará os países da zona do euro a crescer.

Mesmo com todas as dificuldades, não há, ao contrário, consenso sobre a necessidade de reduzir o estado de bem-estar social europeu, mesmo nos países em que a social-democracia foi derrotada por conservadores, como na Espanha e em Portugal. O que dirá na França, em que o conservadorismo de Sarkozy, o principal aliado de Merkel na política de austeridade, foi substituído pelo socialismo de Hollande.

A ideia de que tudo pode continuar como está, com pequenos ajustes, é a que prevalece, inclusive porque as reformas do mercado de trabalho, ou ajustes no sistema de previdência, são temas politicamente delicados que provocam reações populares em todos os países em que são debatidos.

O caso da Grécia é exemplar dessa dificuldade de se aprovarem medidas austeras para superar a crise. Os partidos contrários às medidas de austeridade ficaram mais fortes na representação no Parlamento, colocando em posição secundária os defensores do pacto europeu.

Mas o que vai prevalecer é a fragmentação partidária, sem que seja possível montar um governo de coalizão com força suficiente para levar adiante o plano já aprovado com a União Europeia, contra o qual grande parte do eleitorado se manifestou nas eleições.

A saída da Grécia da União Europeia pode ter começado a acontecer no domingo, como prevê o economista Nouriel Roubini.

Mas o anseio de que a Europa continue sendo um exemplo de democracia, capaz de oferecer um modelo social alternativo, é o que faz com que a maioria dos líderes europeus persiga soluções que não coloquem em risco os avanços sociais alcançados, mesmo que a realidade indique a impossibilidade de isso acontecer sem reformas estruturais dolorosas.

Na realidade, a Alemanha é o único país que sustenta o acordo de austeridade fiscal, que passou a correr risco com a eleição do socialista François Hollande. Merkel apoiou abertamente a reeleição de Sarkozy porque sabia que seria difícil continuar na luta para reformas sem o apoio da França, mas Hollande também não poderá confrontar a chanceler alemã, pois precisará de apoios dentro da Europa, onde ainda não é um líder de muito prestígio pessoal.

Sua importância a partir de agora está em ser o presidente da quinta maior economia do mundo, mas seu peso político pessoal ainda é pequeno se comparado com o da própria Angela Merkel.

Ele pretende que sua vitória marque "um recomeço para a Europa, uma nova esperança para o mundo", dando a ela uma dimensão épica com que dificilmente poderá arcar sozinho.

Não foi à toa, portanto, que no discurso da vitória ressaltou ter a certeza de que em muitos países europeus "foi um alívio a ideia de que, enfim, a austeridade não podia mais ser uma fatalidade", como se chamasse outros líderes europeus para cerrar fileiras com ele no confronto que terá com a chanceler alemã por um compromisso europeu pelo crescimento.

Esse sentimento de que apenas com austeridade e aumento da liquidez não se sairá da crise europeia já existia mesmo no governo Sarkozy, cujo ministro da Economia, Finanças e Indústria, François Baroin, já ressaltava que a decisão do Banco Central Europeu de garantir fundos ilimitados para os empréstimos foi muito bem-vinda para ajudar a combater a crise, mas que a Europa tinha que pensar em como voltar a crescer.

Há diversas propostas na mesa de negociações, mas todas elas problemáticas, como, por exemplo, um corte em subsídios, especialmente os da agricultura, a fim de gerar dinheiro para investimentos na infraestrutura, que, além de modernizar os países, gerariam empregos imediatos.

Na América Latina, o novo presidente socialista francês receberá apoio bastante eloquente, a começar pelo da presidente Dilma Rousseff, que enviou mensagem de aplauso à proposta de superar a crise econômica europeia com políticas que "favoreçam o crescimento, o emprego, a inclusão e a justiça social".

O que a presidente brasileira procura é o apoio da França nos fóruns internacionais, sobretudo no G-20, onde pretende "inverter as políticas recessivas, ainda hoje predominantes, e que, no passado, infelicitaram o Brasil e a maioria dos países da América Latina".

A presidente brasileira, na verdade, quer mesmo é recuperar nossa capacidade de crescimento, o que a política de austeridade da Europa não favorece.

A crise está fazendo com que os países emergentes cresçam em ritmo mais lento, e o recuo de economias como a Índia e a China também afeta de modo importante o Brasil, que pelo segundo ano consecutivo deve crescer por volta de 3%.

MEUS PAIS E EU - MÔNICA BERGAMO


FOLHA DE SP - 08/05/12

A atriz Ana Karolina Lannes, 11, a Ágata de "Avenida Brasil" (Globo), falou à "Contigo!" sobre os pais Fábio Lopes, seu tio biológico, e João Paulo Afonso. Eles têm sua guarda há sete anos, desde que sua mãe morreu. "Eles dão amor e ajudam quando me arrumo." Uma babá dizia que ela teria dificuldades quando chegasse à adolescência. "Tenho certeza de que vão saber o que fazer."

FALTA POUCO
A presidente Dilma Rousseff pretende divulgar nos próximos dias os nomes que vão integrar a Comissão da Verdade. A escolha do governo deve recair sobre advogados, juristas e promotores.

FORTE CANDIDATO
Três personalidades têm forte apoio no círculo próximo da presidente e podem fazer parte da comissão: o advogado José Carlos Dias, ex-ministro da Justiça de Fernando Henrique Cardoso, o ex-deputado e promotor Antônio Carlos Biscaia, do PT do Rio, e Rosa Maria Cardoso da Cunha, amiga e ex-advogada de Dilma.

APELO
Há um forte lobby também pelo nome de Frei Betto. Mas não há consenso no governo sobre sua indicação.

SUPRAPARTIDÁRIA
De acordo com interlocutor de Dilma, ela quer escolher pessoas com vigor, conhecimento sobre o assunto e discrição para tocar o trabalho da comissão. Pretende também nomear pessoas ligadas a vários partidos.

CASA DOS ARTISTAS
O curador da Tate Modern de Londres, Chris Dercon, se reunirá em São Paulo na quinta-feira com seus colegas José Roca, da Bienal do Mercosul, Teixeira Coelho, do Masp, e Paulo Herkenhoff e Moacir dos Anjos, para indicar os três artistas contemporâneos brasileiros que disputarão o Prêmio Masp Mercedes-Benz. Os três eleitos ganharão mostras especiais em outubro, no Masp. O vencedor ganhará R$ 200 mil. O jovem revelação, R$ 60 mil.

X-VERDÃO
A nova arena do Palmeiras, no bairro da Água Branca, deve ter uma lanchonete em seu edifício-garagem, com a fachada voltada para a avenida Francisco Matarazzo. A loja funcionará mesmo quando não houver jogos ou shows no estádio. As redes McDonald's, Burger King e The Fifties disputam o ponto.

BRIGA DE PEIXE
A biografia do ex-jogador Coutinho, que atuou com Pelé no Santos dos anos 60, conta o dia em que o Rei e ele discutiram em campo e disseram que não jogariam mais um com o outro. Num clássico contra o Corinthians, em 1966, Coutinho teve que ficar plantado na área adversária, pois voltava de contusão. Marcou três gols e, no intervalo, Pelé reclamou que ele não passava a bola.

TABELINHA
O livro, chamado "9 de Ouro - Coutinho, o Gênio da Área", será lançado pela editora Realejo em junho, mês de aniversário do craque.

TRASLADO
No próximo sábado, durante o evento Avant Gabriel, que fechará um trecho da alameda Gabriel Monteiro da Silva, dois carros elétricos estarão à disposição de quem precisar de uma carona para o percurso de um quilômetro do evento. Neste dia, as lojas do trecho estarão com programações especiais para os consumidores.

FÃ DE NIEMEYER
O escultor Antony Gormley, que inaugura a exposição "Corpos Presentes" no dia 12, no CCBB-SP, quer visitar Brasília.

O inglês é fã de Oscar Niemeyer e quer conhecer a cidade projetada pelo arquiteto brasileiro.

CAMINHO DE BARRETOS
Vai se chamar "O Amor Vale Mais que Todos os Estudos" o livro que Henrique Prata, presidente do Hospital de Câncer de Barretos, no interior de São Paulo, escreveu sobre a trajetória da instituição. Ele gravou a obra no final do ano passado, enquanto fazia o Caminho de Santiago de Compostela. O texto foi transcrito com a ajuda de uma professora e deve ser lançado neste mês.

DA NOITE PARA O DIA
Os secretários municipais Carlos Augusto Calil e Cláudio Lembo e o diretor regional do Sesc-SP, Danilo Santos de Miranda, acompanhado da mulher, Cleo Regina, foram ao coquetel de abertura da 8ª Virada Cultural, no sábado. O prefeito Gilberto Kassab e a vice Alda Marco Antonio estavam no Hall Monumental, na sede da prefeitura. Já a atriz Malu Mader assistiu ao show dos Titãs, anteontem.

CURTO-CIRCUITO

A mostra "Through the Looking Glass" será aberta hoje na galeria Urban Arts.

Será aberta hoje, às 19h, a primeira mostra da série "A Revolução Tem que Ser Feita Pouco a Pouco", na galeria Raquel Arnaud.

Edson Alves da Silva será diplomado hoje vice-presidente da Comissão de Direitos e Prerrogativas da OAB-SP, na Liberdade.

O Prêmio de Jornalismo da Indústria da Construção será entregue hoje.

Ivald Granato abre hoje a mostra "CorSimCorNão", às 20h, no James Lisboa Escritório de Arte.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

Rio+20 e o Código Florestal - ANTONIO DELFIM NETTO


VALOR ECONÔMICO - 08/05/12


Resultados práticos de reuniões sobre clima são pífios
Aparentemente, o primeiro a sugerir que o aumento da concentração de dióxido de carbono (o famoso CO2) poderia ser responsável pelo aumento da temperatura terrestre, foi o químico sueco Svante Arrthenius num artigo publicado em 1896. Nos últimos 116 anos sua hipótese tem sido discutida e escrutinizada de todas as formas, sem que se tenha chegado a uma conclusão definitiva. Há, também, sérias dúvidas sobre a origem do aquecimento: se produto da evolução natural do sistema físico cíclico que controla a Terra ou se produto da atividade humana (efeito antropogênico).
A discussão escapou da área "científica", onde tudo se resolve pela procura de "evidências controladas que podem ser repetidas", para o campo da "ideologia", estimulada por suas consequências sobre a atividade privada que procura a "maximização do lucro". Da mesma forma que a indústria de cigarros induz a construção de evidências "científicas" que seu produto não é um fator estimulador do câncer no pulmão, ou pelo menos, que "há dúvida razoável" sobre essa causalidade, setores altamente geradores de CO2 (energia a carvão ou petróleo), que produzem externalidade negativa cuja correção exige uma intervenção da sociedade através de um estado regulador forte, tentam criar, pelo menos, controvérsias.

No nível das conversas diplomáticas, a ONU estimulou a conferência sobre o clima em Estocolmo em 1972, que tem sido regularmente repetida em cada década 1982 (Nairóbi); 1992 (Rio); 2002 (Joanesburgo, Rio+10) e 2012 (Rio+20). Em 1997 nada menos do que 160 nações aderiram ao Protocolo de Kyoto, rapidamente desmoralizado por críticas de toda natureza.

Os resultados práticos de tais reuniões têm sido pífios. Entre 1880 e 2010 a temperatura média da Terra revelou grande variação, mas a sua tendência tem sido a de crescimento. Aumentou em torno de 0,0042 grau centígrado ao ano entre 1880 e 1980 e acelerou-se para nada menos do que 0,0135 entre 1980 e 2010. Nos últimos 130 anos o aquecimento da Terra foi de quase 1%, mas é difícil discernir se devido aos movimentos "naturais" ou do efeito antropogênico. Se considerarmos o pequeno espaço de tempo decorrido, é muito provável que o grosso do efeito seja mesmo derivado do aumento da atividade industrial do homem.

Isso impõe uma grande responsabilidade à Rio+20, da qual se deve esperar compromissos firmes para a mudança "verde" na produção de combustíveis e no esforço recobrado em tecnologias que reduzem a quantidade de energia por unidade de PIB. Apenas para dar um exemplo, a China, que desde 2006 é a maior poluidora internacional (é muito rica em carvão), consome 2,5 vezes a energia por unidade de PIB com relação à média mundial e 4,5 vezes a consumida pelos países da OCDE. Apesar de todo seu esforço antipoluidor, sendo a maior consumidora de energia por unidade do PIB, sendo o aumento de sua energia produzida pelo carvão e tendo a maior taxa de crescimento do PIB, é pouco provável que mesmo com um esforço gigantesco ela venha a contribuir significativamente para o objetivo de 2050. O mesmo acontece com os EUA.

A situação é ainda mais complicada quando consideramos que 16 cientistas publicaram no início deste ano um manifesto sob o título "Não há necessidade de pânico sobre o aquecimento global" ("The Wall Street Journal", 26/1/2012) afirmando que não há "evidência incontroversa que esteja havendo uma quecimento global" e que "não há prova que o CO2 seja um poluente". Sugerem que podemos esperar mais 50 anos para ver como as coisas ficam! E como se faltasse "ruído", o ganhador do prêmio Nobel de Física, professor Ivar Giarver, democrata, apoiador de Obama, pediu desligamento, em setembro de 2011, da prestigiosa American Physical Society (APS), por não concordar com uma resolução onde ela afirmou o contrário do que está dito acima. Isso mostra o nível de paixão despertado por uma questão que deveria ser resolvida com fria objetividade apelando, pelo menos, para o princípio da precaução, diante das terríveis consequências do aumento do aquecimento terrestre se ele vier acontecer. Mais dramático, ainda, foi o recente reconhecimento do célebre catastrofista James Lovelock (o criador da hipótese Gaia: a Terra é um organismo vivo) que o clima contrariou, desde 2000, todas as suas previsões e que "é necessário mais estudos para entender o futuro do planeta".

O mesmo fenômeno, num nível diferente, explica a enorme disputa que cercou o código florestalaprovado no Congresso. Um discurso de surdos. O lado mais vocal supostamente apoiado numa "ciência" duvidosa defendeu interesses difusos e nem sempre honestos como os patrocinados por algumas ONGs. O outro, com mais poder político no Congresso defendeu, sem sutilezas, seus interesses econômicos concretos. O Código tem pouco a ver com o aquecimento global e a tentativa de misturá-lo com a Rio+20 não ajudará em nada. Ele tem tudo a ver com o uso inteligente de nossos recursos naturais para continuarmos a construir uma economia sustentável e economicamente eficiente, mas não tem nada a ver com a anistia sugerida a quem, deliberada e maliciosamente, infringiu a lei vigente.

O Brasil não fará má figura na Rio+20 devido aos seus esforços. Nela estará representado pela competente e pragmática Ministra Izabella Teixeira, mas há sérias dúvidas sobre seus resultados.

Nós - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 08/05/12


A liberdade de expressão começa no reconhecimento de que jornalista é cidadão igual a qualquer outro


Vamos desfrutar de atenções especiais de proteção. "Vamos", leitor, não inclui você. Lamento, mas, se não é jornalista, quando vivo continuará sujeito aos riscos dos cidadãos comuns. Para depois, trate já de contentar-se com investigações e processos à brasileira, caso lhe ocorra um assalto fatal ou uma bala perdida encontre sua vida. Conosco, jornalistas, será diferente.

A ministra da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Maria do Rosário, decidiu criar um "observatório de acompanhamento das investigações de atentados a jornalistas". E, ainda, "abrir um canal de comunicação direta" para denúncias, ao governo, de ameaças a jornalistas, então chamados de "liberdade de expressão".

A ministra comunicou sua decisão aos representantes de entidades da classe que cumpriram o dever estatutário de procurá-la, em razão dos quatro assassinatos de jornalistas neste ano. Mas a proposta que lhe levaram foi a de federalização dos crimes, de morte ou não, contra jornalistas.

Por seu lado, o novo presidente do Supremo Tribunal Federal, Carlos Ayres Britto, ao encerrar um seminário sobre liberdade de expressão, falou do seu propósito de realizar "programas e até campanhas", por meio do Conselho Nacional de Justiça, "de conscientização" pela "plenitude da liberdade de imprensa. Quem sabe o nível de intolerância diminua". Os assassinatos, disse, foram "atentados contra a vida e a liberdade de expressão".

À parte as generosas intenções, os jornalistas não precisam de tratamento especial. Todo e qualquer privilégio a jornalistas é, ele sim, contrário à liberdade de expressão. E cerceador da atividade jornalística, mesmo que a legislação assegure a liberdade plena de expressão.

Um privilégio, no caso, é um constrangimento à liberdade do jornalismo, como uma forma de retribuição negada, possível em inúmeras situações.

Até a década de 60, os jornalistas gozaram do privilégio, por exemplo, de não pagar Imposto de Renda e de só pagar 50% das passagens aéreas. Uma das consequências, para citar uma de tantas, era o grotesco princípio de gratidão que proibia publicar-se o nome da companhia de avião acidentado.

Quando, em situação funcional para tanto, deixei de lado o princípio, nem os céus acudiram. Estive na minoria de oposição aos dois privilégios (ainda há muitos, menores embora) e, em certa medida, sobrevivo ao seu fim: posso assegurar que só fizeram mal e sua extinção só fez bem. (É imprudência dizê-lo sobre o Imposto de Renda, eu sei, queira desculpar).

O crime contra o jornalista pode ser, sim, crime contra a liberdade de expressão. Na essência, porém, identifica-se com o crime contra a liberdade de ir e vir, assegurado a todo cidadão e tolhido aos milhares no país todo.

Não há razão alguma, na democracia, para distinguir o tratamento preventivo ou posterior às vítimas de um ou de outro. Tanto mais se em razão apenas da condição profissional, como fazem os policiais, liberados na fúria e na atitude, quando um dos seus é morto.

Ninguém é obrigado a ser jornalista. Ninguém que exerça, no jornalismo, atividade com algum grau de risco funcional o ignora. Quem não o tolere, encontra muitos outros gêneros de jornalismo a fazer, com a mesma importância.

A fatalidade, às vezes a imprudência, muitas vezes a presunção e a autossuficiência podem sobrepor-se à consciência do risco, claro. Mas, quanto a isso nada há a fazer, muito menos observatórios e campanhas que mais úteis seriam em outros problemas.

A plenitude da liberdade de expressão começa no reconhecimento de que o jornalista é um cidadão absolutamente igual a qualquer outro. Diferencia-se na função como todas as funções se diferenciam. Ou seja, as diferenças são das funções, não dos cidadãos.

Desde o primeiro dia do governo Sarney, com intervalo apenas no governo Collor, o Brasil vive na plenitude da liberdade de expressão. Collor e Romeu Tuma moveram seus policiais e agentes do fisco para restringir a liberdade de expressão -a invasão da Folha foi notória e é histórica.

Antes e depois, porém, as ofensas à liberdade de expressão são muito esparsas e seus efeitos negativos não se projetam além de si mesmas.

As mortes dos quatro jornalistas são deploráveis. Como todas as mortes, digamos, injustas e despropositadas. São horrivelmente iguais.

O fator Hollande - CELSO MING


O Estado de S.Paulo - 08/05/12


É natural que os mercados não tenham se exasperado ontem com a vitória do socialista François Hollande (foto) nas eleições presidenciais da França.

O último que assumiu a presidência da França com discurso de esquerda foi François Mitterrand, em 1981. Levou um ano e meio para abandonar seus discursos e adotar reconhecidamente uma política econômica ortodoxa. Teve todo esse prazo porque, à época, a França não era tão desesperadamente dependente (e refém) dos bancos no financiamento do seu déficit público.

Hollande não terá tanto tempo assim. Já nas primeiras semanas de exercício do seu cargo, terá de explicar aos mercados com quantos paus se fará a canoa do crescimento econômico defendido em seus discursos.

Há somente uma semana, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, parecia reconhecer que a recuperação da área do euro não poderia se fiar apenas na austeridade - como saíra no pacto fiscal de final de janeiro. Tinha de ser apoiada também numa forte agenda de crescimento - conforme defendia Hollande. Mas ontem veio o recado de Berlim: "O pacto fiscal é inegociável".

O problema é que as concepções de crescimento econômico de Merkel e Hollande não são exatamente as mesmas. Merkel defende a austeridade das contas públicas como precondição do crescimento sustentável. Hollande parece privilegiar o avanço das despesas públicas, financiadas com o despejo de títulos públicos cujo principal comprador seria o Banco Central Europeu.

Mas a questão central não é fiscal. Ou seja, não é o desequilíbrio das contas públicas, mas a baixa competitividade da França e de quase todo o bloco do euro - como advertem, nisso com razão, os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz. Isso posto, ganhos de competitividade terão de ser recuperados por meio de ajustes de renda (salários e aposentadorias), processo no qual a Alemanha está bem mais avançada.

Mais do que o saneamento das contas públicas, o processo de crescimento econômico e de ganhos de escala (aumento da produtividade) terá de acontecer com reformas mais profundas - que, por vezes, são mencionadas por eufemismos como flexibilização das leis trabalhistas e novas condições previdenciárias.

O principal fator por trás da perda de competitividade e do avanço do desemprego nos países avançados e, especialmente, na Europa é o enorme processo mundial de redistribuição do trabalho, que vem incorporando entre 40 milhões e 50 milhões de asiáticos por ano ao mercado de trabalho (e de consumo). É a incorporação de mão de obra barata e o crescente emprego de Tecnologia de Informação que produz o impressionante barateamento dos produtos industriais, que vão alijando do mercado global os sistemas produtivos incapazes de se atualizar.

É daí que vem a enorme transferência da indústria e do setor produtivo para a Ásia e para um punhado de países ainda em desenvolvimento. A crise financeira somente escancarou as fragilidades antes latentes dos países avançados. O principal concorrente da França e da periferia da Europa não é a Alemanha, mas a China - verdade para a qual o consumidor europeu mal-acostumado com as benesses do Estado de bem-estar social se recusa a abrir os olhos.

O naufrágio da Europa - JOÃO PEREIRA COUTINHO

FOLHA DE SP - 08/05/12

1. François HOLLANDE ganha as presidenciais francesas e a Europa, ou uma parte dela, respira de alívio: agora, finalmente, será possível abandonar a austeridade e abraçar o crescimento econômico.
O próprio Hollande foi alimentando as expectativas: com ele, a disciplina orçamental imposta pelos alemães aos restantes países da União Europeia seria "renegociada"; a economia francesa iria promover políticas de crescimento econômico a curto prazo; e o Estado social seria preservado, e até reforçado, com mais funcionários públicos, a diminuição da idade da reforma (dos 62 para os 60 anos) e subsídios de todo tipo (para famílias, jovens, empresas etc.).
Infelizmente, faltou a pergunta sacramental: e quem paga todos esses delírios?
Mistério. Verdade que "monsieur" Hollande, para sustentar algumas das suas propostas, acredita que a Europa será capaz de emitir "eurobonds" para financiar grandes projetos industriais ou de infraestruturas; ou até de alterar os estatutos do Banco Central Europeu para que a instituição passe a financiar diretamente os Estados.
O que Hollande desconhece, ou propositadamente ignorou, é que nada disso depende da sua exclusiva vontade. E a Alemanha, que tem a chave do cofre, opõe-se frontalmente às ambições do novo presidente francês. Por questões de princípio, interesse econômico -e eleições em 2013.
Ou muito me engano, ou as expectativas geradas por François Hollande só vão durar até as eleições legislativas de junho. Depois, será a ressaca da realidade.
2. Alguns amigos que trabalham na União Europeia não gostam das minhas posições eurocéticas. A União Europeia é sagrada, o euro, idem, as "políticas de austeridade" impostas pela Alemanha, ibidem.
E eu não passo de um dinossauro, amarrado a noções anacrônicas de "soberania nacional" que não têm mais lugar no mundo globalizado onde vivemos.
Defendo-me como posso. Digo que nada tenho contra a União Europeia. Pelo contrário: reconheço o seu papel como garantia de paz e prosperidade na Europa.
Mas reconhecer isso não me obriga a reconhecer o resto. O euro, por exemplo, foi um erro político grave -e a sua manutenção a qualquer preço, um erro político ainda maior.
Não é possível que uma moeda comum possa servir a países com estruturas econômicas tão distintas. A União Europeia não é uma federação de Estados. É apenas uma coleção de tribos com histórias, vícios e virtudes dissonantes.
O euro, que supostamente acabaria por aproximar as nações do continente, apenas revelou o fosso inultrapassável que existe entre países excedentários (Alemanha) e deficitários (Grécia ou Portugal).
De resto, e sobre as "políticas de austeridade", não me oponho a elas -em teoria: é importante que os Estados tenham controle nos gastos e moderação nos seus níveis de endividamento. A festa do euro, que possibilitou dinheiro fácil a juros baixos, não podia continuar.
O problema é que não é possível realizar ajustamentos brutais nas economias endividadas do continente quando esses países perderam soberania monetária. A austeridade só alimenta ciclos recessivos sem fim que, por sua vez, exigem novas medidas de austeridade.
A Grécia é o melhor exemplo dessa armadilha: depois de dois pacotes de resgate e de um calote negociado da dívida, o país está na mesma: quebrado. E, sem surpresa, com partidos extremistas a crescerem no Parlamento e nas ruas.
3. França, Grécia, Holanda em breve: a grande novidade nos ciclos eleitorais da Europa está no regresso dos extremismos.
No primeiro turno das presidenciais francesas, a extrema-direita da Frente Nacional obteve 17,8% dos votos; Marine Le Pen promete agora repetir o resultado nas legislativas de junho.
Na Grécia, a esquerda radical ficou em segundo lugar -e um partido abertamente neonazista elegeu duas dúzias de deputados. E, na Holanda, a extrema-direita derrubou o governo duas semanas atrás.
Qualquer pessoa que tenha uma noção da história reconhece o que se está a passar: com economia moribunda e desemprego massivo, a Europa regressa à década de 1930.
Os meus amigos euroentusiastas assobiam para o lado e fingem que não se passa nada. Essa atitude também faz parte do "déjà-vu".

Trabalho - e a dimensão econômica? - JOSÉ PASTORE


O Estado de S.Paulo - 08/05/12


Poucos discordam de que o trabalho tem uma dimensão social e outra econômica. No campo social, o trabalho enobrece e promove a dignidade humana. No campo econômico, gera renda e tem um custo. No Brasil, a dimensão econômica tende a ser ignorada pelos poderes públicos. Tentei saber do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) quanto custa gerar um posto de trabalho em nosso país. Acharam a pergunta estranha e não me deram resposta.

Mas, para encarecer o custo do trabalho, o MTE é rápido. Recentemente, do dia para a noite, sem discutir o assunto com empregados e empregadores, a Portaria n.º 1.510/2009 impôs às empresas com mais de dez empregados o uso de um aparelho (Registrador Eletrônico do Ponto - REP) que custará cerca de R$ 5 bilhões ao setor produtivo! Por que encarecer o custo do trabalho dessa maneira, se o próprio MTE não autuou uma só empresa por fraude nesse campo em 2011? Falta naquele ministério quem avalie as consequências econômicas de suas decisões.

A mesma insensibilidade domina o Congresso Nacional. Os projetos de lei costumam ser examinados pela Comissão de Assuntos Sociais, no Senado Federal, e pela Comissão do Trabalho, na Câmara dos Deputados, sem a necessária avaliação das comissões econômicas. É dessa forma que se criam novas licenças remuneradas, novos adicionais, novas estabilidades, novos pisos salariais e que se busca reduzir a jornada de trabalho sem reduzir o salário. Se todas as propostas de licenças e adicionais forem aprovados, a jornada de trabalho tenderá a zero e as despesas, ao infinito. Num levantamento rápido e incompleto, verifiquei que 85% dos projetos de lei que encarecem o custo do trabalho (e que estão prestes a ser aprovados) não foram examinados pelas comissões econômicas, como se os recursos para pagar os benefícios caíssem do céu.

No Poder Judiciário, o desprezo pelas consequências econômicas das sentenças é gritante. Lembro o caso do adicional de 10% na indenização de dispensa sem justa causa. Tudo começou com uma decisão do Supremo Tribunal Federal no ano 2000, depois sacramentada pela Lei Complementar n.º 110 de 2001. Uma empresa que gastava, por exemplo, R$ 400 mil por ano com indenizações - e isso é comum - passou a gastar R$ 500 mil. A decisão e a lei tiveram efeito retroativo.

Vejam o caso do aviso prévio. Com o advento da Lei n.º 12.506 de 2011, as empresas "passaram a dever" três dias a mais por ano trabalhado aos seus empregados - também de efeito retroativo.

Nos dois casos, os parlamentares deixaram de atentar para o fato de que as empresas não estavam preparadas para arcar com aquelas despesas porque, obviamente, não fizeram parte do custo de produção e da venda praticados no passado. Como aportar no presente o que não foi ganho no passado? Se as empresas buscarem recuperar essas diferenças elevando os preços do que produzem - nem sempre possível -, elas agravarão a inflação. Se tirarem dos seus lucros, diminuirão os investimentos futuros e a geração de empregos. Essas são as consequências de dar as costas para os custos do trabalho e de tributar o passado. Mas no Brasil é assim: nem o passado é previsível.

O desprezo à dimensão econômica do trabalho está custando caríssimo para os países do sul da Europa. Lá, os poderes públicos fizeram no passado o que os poderes públicos estão fazendo no Brasil do presente, ou seja, forçaram as empresas e os governos a contratar despesas e mais despesas - sem apelação. Com déficits monumentais, a insolvência bateu à porta e passou a exigir reformas dolorosas e com poucas chances de sucesso.

No Brasil os ventos ainda são favoráveis e nos dão a rara oportunidade de evitarmos o parto sem dor, desde que se considere seriamente o lado econômico de cada benesse social. É questão de substituir o populismo pelo realismo.

Agenda do precipício - JOSÉ PAULO KUPFER


O Estado de S.Paulo - 08/05/12


O mercado, essa entidade sem corpo nem alma, mas com um comportamento antropomórfico, como era de se esperar, ficou nervoso com a eleição do socialista François Hollande, para a presidência da França. Hollande venceu com discurso antiausteridade e sua eleição, num país-chave da União Europeia, trará consequências econômicas inevitáveis para a região.

Não foi, porém, pelo menos nas primeiras horas, uma reação descabelada. As bolsas europeias abriram em baixa, mas logo se reequilibraram - só a da Grécia desabou, depois da eleição também no domingo, que não definiu uma escolha clara, mas marcou a ascensão de radicais de esquerda e direita. Mais significativo, o Tesouro francês não enfrentou dificuldade para colocar o volume de títulos previsto, no leilão de bônus que realiza a cada semana. Nem mesmo os preços dos papéis se alteraram.

Pode-se especular sobre a reação moderada dos mercados, nesses primeiros momentos de quebra da relação simbiótica entre a França do derrotado Nicolas Sarkozy e a Alemanha de Angela Merkel, a férrea defensora dos planos de austeridade para a Europa - o tão louvado quanto criticado "eixo merkozy". É possível, por exemplo, que os investidores e seus agentes tenham percebido que, embora politicamente relevante, a ascensão de Hollande não encontrará, na economia, grande margem de manobra para efetivar o discurso de campanha.

Mas é possível também, ainda que talvez possa ser uma visão excessivamente otimista, que os mercados estejam aos poucos se convencendo de que medidas isoladas de austeridade são insuficientes para tirar a economia europeia do buraco. Já são, afinal, três anos de esforços direcionados à reversão das políticas de bem-estar social, que mantiveram a Europa em paz por inéditas seis décadas e meia, sem que a situação econômica da região tenha apresentado algum esboço de reação - ao contrário, o quadro de deterioração só tem se agravado.

As ideias segundo as quais cortes nos gastos públicos seriam capazes de recompor o equilíbrio nas economias afetadas por grandes déficits e imensas dívidas estão sendo confrontadas com uma realidade inversa. Os desequilíbrios aumentam, numa conjuntura de renitente contração da atividade.

Da mesma forma, os argumentos que sustentavam as convicções de que reformas trabalhistas, flexibilizando benefícios, contribuiriam para abrir espaços à geração de empregos se mostram frágeis, na medida em que o desemprego, na Europa, assume cada vez proporções mais dramáticas - com um agravante trágico, expresso pela concentração no desemprego entre os jovens.

Apesar das dívidas públicas acima de 80% do PIB e dos déficits acima de 10% do PIB, cresce entre analistas graduados a convicção de que o DNA da crise vem do balanço de pagamentos - não das contas fiscais. Tudo indica que, quanto mais se insistir no diagnóstico fiscal, tanto maiores serão as possibilidades de agravamento dos problemas.

A contração promovida pelas medidas de austeridade tem resultado em menos aumento de arrecadação do que redução das despesas públicas. Ao mesmo tempo, a presunção de que, ao adotar programas de austeridade, os governos emitiriam sinais de responsabilidade suficientes para recuperar a confiança dos empresários em investir e dos consumidores em consumir, elevando a arrecadação tributária, já se provou fora da realidade. Como a fórmula está fracassando, o que ela estimula, inversamente, é uma generalização das desconfianças.

Ocorre que uma eventual oscilação do pêndulo, como a que se desenha agora, com a aceitação de uma vaga "agenda de crescimento", do tipo da que levou François Hollande ao Palácio do Eliseu, não significa nem de longe a existência de um caminho de baixo risco para a recuperação. Dificilmente uma combinação de um pouco menos de austeridade com um pouco mais de crescimento daria certo - quem sabe não seria a porta de entrada para o pior dos mundos.

O fato é que, tanto quanto a austeridade, a "agenda do crescimento" também exigiria a adoção de decisões políticas dramáticas. Os caminhos, segundo críticos apetrechados dos programas de austeridade, casos do Prêmio Nobel Paul Krugman e do colunista do Financial Times Martin Wolf, passam por rompimentos com a moeda única ou a produção de inflação nos países com superávit externo, principalmente a Alemanha.

É o caso de dar o benefício da dúvida à "nova agenda", visto que a atual faz água. Mas, provavelmente, ela não será capaz de acelerar a recuperação da economia europeia. Impossível acreditar que qualquer solução como as que estão sendo propostas possa ser adotada antes que a outra alternativa seja o precipício.

A mesma língua - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 08/05/12

BRASÍLIA - A Europa inteira reage à crise indo da esquerda para a direita, como na Espanha, em Portugal e na Grécia, mas a França deu um cavalo de pau e elegeu François Hollande, reconduzindo os socialistas ao poder depois de 17 anos de ausência e arejando o "modelo único" conduzido pela Alemanha.
Em Brasília, a vitória de Hollande foi comemorada, mas com a discrição que a diplomacia exige. O Brasil e a França de Nicolas Sarkozy estiveram muito próximos no início do governo Lula, nem tanto no final. Agora deve haver uma espécie de reaproximação, pelo menos uma facilidade maior de diálogo.
O socialista Hollande tem muito mais a ver com a história, o discurso e o modelo de Dilma. Na campanha, ele defendeu uma receita para a crise muito próxima à que Dilma defende mundo afora. Em vez de cortes, como determinam os alemães e as velhas cartilhas, o contrário: desenvolvimento, investimento, emprego, inclusão social (se ele vai conseguir, são outros 500).
Assim, fica mais fácil para Hollande e Dilma, ou França e Brasil, jogarem no mesmo time em campos como G20 e Rio+20. Os diplomatas, aliás, sonham com a hipótese de Hollande vir para a conferência, que não terá nem Obama nem Merkel.
O novo presidente, porém, não terá vida fácil no poder, sobretudo no começo. Do ponto de vista externo, a Europa está muito atrelada à Alemanha. Do interno, ainda faltam as eleições parlamentares de junho.
Os socialistas de Hollande correm o risco de ficar em minoria, o que, em última instância, pode forçar a um governo de "coabitação": o presidente de esquerda, o primeiro-ministro de direita. Obviamente, não é simples, ainda mais em tempos de crise e depois da longa abstinência de poder dos socialistas. E ainda falta saber o real tamanho e o fôlego da extrema direita dos Le Pen.
PS - Dilma já pode decidir sobre os caças, seja pelos franceses ou não.

As empresas, a corrupção e a democracia - JORGE ABRAHÃO


FOLHA DE SP - 08/05/12

Ainda não responsabilizamos, no Brasil, pessoas jurídicas por atos de corrupção -só os funcionários envolvidos. Isso precisa ser corrigido logo

No que diz respeito à corrupção, a vida no Brasil vai de escândalo em escândalo, com breves intervalos para um cafezinho.

A partir do anúncio de uma operação, assistimos a uma sucessão de informações em doses homeopáticas. Seguem então as acrobacias dos advogados de defesa dos acusados -não para rebater o conteúdo das acusações, mas para achar brechas na legislação visando o arquivamento dos processos. É lamentável observar a que se reduziu o direito nesses casos.

Essas estratégias dissimuladoras, além de gerarem profunda indignação na maioria dos cidadãos, também causam mágoas políticas que levam ao afastamento de muitos da vida política do país, o que é uma perda inestimável.

Essa reação, entretanto, desconsidera o fato de que o desdém com a política só faz com que se perpetue esse tipo de prática.

Avançaremos mais no combate à corrupção na medida em que ela for entendida como uma corresponsabilidade dos governos, das áreas legislativa e judiciária, das empresas e da sociedade civil.

Por isso, precisamos aprofundar a participação, como se cada escândalo fosse o combustível que nos conduz à ação.

Um dos caminhos para uma mudança estrutural é atuar nas causas desses escândalos, principalmente na relação promíscua entre o público e o privado, eivada de distorções há muito construídas e que se evidenciam, sobretudo, no período eleitoral.

O desafio é incentivar ações voluntárias e regulamentações que reduzam a chance de troca de favores entre pessoas jurídicas e partidos políticos.

Temos estimulado a ação voluntária das empresas na promoção da integridade e no combate à corrupção, tendo como objetivo a transparência, a adoção de um código de ética e a qualificação de seus colaboradores para tratar o tema.

Nesse caminho, muitas empresas têm assumido compromissos, dando visibilidade a suas ações e submetendo a sua reputação ao escrutínio público.

Muito além das ações voluntárias, está a regulamentação que universaliza o padrão de atuação das empresas.

Nesse âmbito encontra-se o projeto de lei 6826, que trata da responsabilização administrativa e civil da pessoa jurídica em atos de corrupção contra a administração pública nacional ou estrangeira.

Até hoje, no Brasil, as pessoas jurídicas não são responsabilizadas por atos de corrupção -somente os funcionários envolvidos, pessoas físicas. Isso gera uma enorme distorção, que precisa ser corrigida o mais rápido possível.

Por isso, é fundamental que a Comissão Especial da Câmara dos Deputados aprove o projeto de lei 6826, em votação que deve ocorrer amanhã, 9 de maio.

Quanto mais desvincularmos o interesse público do interesse privado, mais estaremos valorizando a política e as empresas sérias e contribuindo para a consolidação de nossa democracia.


Percepção equivocada - NILTON BONDER


O GLOBO - 08/05/12

No mês passado participei na Casa Branca de um encontro entre rabinos e imãs com o objetivo de aproximar as comunidades judaicas e islâmicas. O encontro visava a estender a América Latina e Caribe uma experiência importante nos Estados Unidos. Com a intenção de corrigir a percepção equivocada de que as comunidades são essencialmente antagônicas e hostis, foi criado um relevante projeto de intercâmbio. Entre as iniciativas, mais de uma centena de rabinos visitou e predicou em mesquitas, e um número igual de imãs o fez em sinagogas para minorar o estranhamento e a desconfiança.

No entanto, uma ação em particular gerou em mim um sentimento de esperança. Para além das intenções nobres, as lideranças encontraram um promissor território de cooperação e de identificação - o de se solidarizar com as aflições do outro.

Num conto judaico um amigo pergunta para o outro: "Você é meu amigo?" O outro responde: "Claro!" O primeiro prossegue: "E acaso você sabe o que me aflige neste instante?" "E como vou saber o que te aflige neste momento?", reagiu o amigo. O primeiro concluiu: "Mas, se não sabe o que me aflige agora, como pode ser meu amigo?"

Foi nesse espírito que rabinos nos Estados Unidos se fizeram entre os primeiros a denunciar situações de islamofobia e líderes muçulmanos a se pronunciar contra a negação do holocausto. Já havia na experiência judaica a memória da aproximação gerada entre as comunidades judaicas e negras nos Estados Unidos, quando judeus e rabinos cerraram fileiras com Martin Luther King na afirmação de que a causa de uma minoria é a causa de todas as minorias. Ambas as questões, islamofobia e antissemitismo, representam o sofrimento do outro. E para sermos amigos temos que estar sensíveis à angústia do outro.

Levar a mensagem para dentro da comunidade judaica e endossar publicamente que a comunidade islâmica é constituída de pessoas de bem e que, como qualquer outra, busca dignamente o trabalho, a constituição de famílias e zela por princípios de paz e respeito, é fundamental quando episódios e grupos isolados tentam representá-la como radical e violenta gerando discriminação e constrangimento.

É significativo que escolas islâmicas nos Estados Unidos estejam levando crianças para visitar o museu do Holocausto e que líderes muçulmanos estejam visitando Campos de Concentração para combater a negação do Holocausto e do antissemitismo enquanto rabinos denunciam formas de islamofobia. É que o mensageiro modifica por completo a percepção da mensagem exponencialmente ampliando sua credibilidade. Não se trata de um truque de defender causa própria pela do outro, mas da aproximação por reconhecer que o sofrimento dói igual e que não podemos fazer ao outro o que não queremos que façam conosco.

Estender este processo ao nosso Brasil é um desafio. Ainda estamos por criar esta consciência entre as lideranças e aproximá-las. Ao mesmo tempo, temos uma experiência ímpar de convívio entre as comunidades.

Quando um defende o outro pode inicialmente parecer estranha a identidade do mensageiro. Mas libera a mensagem em si de qualquer estranhamento. Assim, advogando pelo outro, exortamos não a nossa causa particular, mas a de todos.

CLAUDIO HUMBERTO

“Eu mesma tenho o meu dinheiro na poupança, e ele vai ficar lá”

Presidente Dilma Rousseff, ao garantir que poupança ainda é um bom negócio

SITUAÇÃO DE GURGEL SE DETERIORA APÓS VISITA À CPI

A visita do procurador-geral da República, Roberto Gurgel, à cúpula da CPI do Cachoeira, dias atrás, repercutiu tão mal que a situação dele apenas piorou junto às forças governistas. A intenção foi tentar se livrar de eventual convocação para depor, como querem o PT e aliados na CPI, para que explique a suposta atitude de não agir após receber as provas coletadas em 2009 pela Operação Vegas, da Polícia Federal.

CONVERSAS FORTUITAS

A visita de Roberto Gurgel à CPI foi seguida de notícias de autoridades dos três poderes flagradas em “conversas fortuitas” no caso Cachoeira.

TEMAS PROIBIDOS

Segundo parlamentares, Roberto Gurgel citou tais “conversas fortuitas” como exemplos do que não poderá explicitar em eventual depoimento.

AMEAÇA VELADA?

O problema é que a menção a supostas suspeitas sobre autoridades foi interpretada por membros da CPI como “ameaça velada” de Gurgel.

ENCRUZILHADA

Convocado, o procurador-geral terá de dizer só a verdade, sob pena de falso testemunho. Se ficar em silêncio, ele é quem se torna suspeito.

PSDB PROTEGE DEPUTADO AMIGO DE CACHOEIRA 

Apesar das graves denúncias do envolvimento do deputado tucano Carlos Alberto Leréia (GO) no esquema do bicheiro Carlos Cachoeira, de quem ele admite ser “amigo íntimo”, o PSDB, até agora, não tomou qualquer providência para afastá-lo do partido. Há mais de três semanas, após as primeiras revelações, os tucanos diziam aguardar sua renúncia, sob pena de enfrentar processo de expulsão. Era lorota. 

SEM RESPOSTA

O deputado Carlos Leréia sequer apresentou explicações ao partido sobre a natureza de seus vínculos com o bicheiro Cachoeira. 

INVESTIGADO

Carlos Leréia está sendo investigado pela Corregedoria da Câmara e poderá sofrer processo de cassação de mandato. 

HAVELANGE, 96

Ainda internado no Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, João Havelange completa 96 anos de idade nesta terça-feira.

SEM REPRESENTAÇÃO

Para o líder do PDT, deputado André Figueiredo (CE), ventríloquo do rancoroso ex-ministro Carlos Lupi, “alguns parlamentares ainda não se sentem representados” por Brizola Netto no Ministério do Trabalho. 

CALADO!

Lula está tão empenhado na reeleição do semiditador Hugo Chávez, na Venezuela, que deu pito no governador Sérgio Cabral (PMDB) por apoiar publicamente o candidato de oposição, Capriles Radonski, diz o jornal El Universal. A ordem é cerrar fileiras com o amigão porra-louca. 

INCONTROLÁVEL

O senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) afirmou estar esperançoso sobre a CPI mista que investiga os esquemas de Carlos Cachoeira: “É uma tarefa quase impossível o governo controlar essa CPI”. 

PAUTA POSITIVA

Os líderes Eduardo Braga (governo), Renan Calheiros (PMDB), Valter Pinheiro (PT) e Gim Argello (PTB) vão convidar o ministro Guido Mantega (Fazenda) a explicar, no Senado, as mudanças na poupança. 

SAI DO PAPEL

Além da Lei Geral da Copa, os senadores finalmente deverão votar nesta quarta-feira (09) a extinção do 14º e 15º salários dos parlamentares. A matéria ficou engavetada por anos na Casa. 

PERGUNTA NO ESTALEIRO

O megalomaníaco ministro Celso Amorim (Defesa), que vai comprar quatro lanchas-patrulha da Colômbia para patrulhar a Amazônia, já consultou a maior expert nacional no assunto, ministra Ideli Salvatti?

BOCA EM BRASÍLIA

O ex-senador Wilson Santiago (PMDB-PB), que é defensor público, ganhou uma boquinha. Vai receber R$ 6.328 por mês para monitorar processos de interesses do Estado da Paraíba nos tribunais superiores.

OREMOS

O deputado Roberto Freire (PPS-SP) virou hit no Twitter, caindo na piada de jornal sobre Dilma mandando imprimir “Lula seja louvado” em nota de R$. A oposição revidou com a hashtag “Lula seja levado”. 

PENSANDO BEM...

...Tomara que Hollande, novo presidente da França, não acabe virando Grèce. 


PODER SEM PUDOR

NÃO TEM PERIGO

Homem recatado, Djalma Marinho sempre foi respeitado como um político sábio, no Rio Grande do Norte ou em Brasília. Não era para menos. Certa vez, em campanha no interior, o veterano político acabou atraído para dançar com uma eleitora numa festa. Um amigo resolveu brincar com a situação, mesmo sabendo do comportamento reto de Marinho:

– Dr. Djalma, e se a sua esposa ficar sabendo disso?

– Minha mulher não acredita em ressurreição, meu caro – respondeu.

TERÇA NOS JORNAIS


Globo: Bancos reagem a Dilma e não garantem crédito maior
Folha: Europa é tomada por incertezas após eleições
Estadão: Estoque dispara e montadoras já pensam em férias coletivas
Correio: Uma bolsa sob medida para o PT nas eleições
Valor: Mão de obra vira a principal preocupação de empresários
Estado de Minas: Juros caem, mas os preços vão subir
Zero Hora: Sem dinheiro para investir, Tarso tenta seduzir europeus

segunda-feira, maio 07, 2012

Melhor assim - J. R. GUZZO

REVISTA VEJA

O presidente Nicolas Sarkozy assumiu em 2007 seu cargo, do qual pode estar se despedindo neste fim de semana, com a promessa de construir nada menos do que uma “nova França” – tarefa realmente ambiciosa, num país que está aí há uns 2000 anos e já viu mais ou menos tudo o que poderia ter visto. O resultado final de todos os seus esforços é que a França de hoje continua muito parecida, no bom e no ruim, com a de cinco anos atrás – e, pelo que tem ensinado a experiência, a França de daqui a cinco anos será muito parecida com a de hoje. Não é, naturalmente, o que dizem os políticos, a mídia e quem se dedica a explicar como o mundo funciona; anunciam graves consequências para a França, a Europa e o alinhamento dos planetas no sistema solar caso neste segundo e decisivo turno das eleições presidenciais Sarkozy consiga se segurar em sua cadeira – ou se, ao contrário, tiver de passá-la para o candidato da oposição e favorito, François Hollande. O primeiro é o campeão da “direita”, o segundo o campeão da “esquerda” e ambos pregam programas opostos entre si. Um garante que se o outro ganhar a França se transformará numa ruína praticamente imediata. Mas no mundo das realidades, seja quem for o vencedor, a França acordará nesta segunda-feira com a mesma cara que tinha na véspera.

É uma boa notícia. A França de hoje tem muito mais do bom do que do ruim – e nesses casos o melhor que pode lhe acontecer é ir se segurando mais ou menos onde está. O fato que realmente interessa, e do qual bem pouco se fala, é o seguinte: a França é um dos países mais bem-sucedidos do mundo. Tem problemas, claro, e alguns deles são até reais. Mas é um país de verdade, com 65 milhões de habitantes, e não um parque de diversões – e tem uma situação admirável para quem chegou a esse porte. Não há um único buraco em seus 11 000 quilômetros de autoestradas de primeiríssima classe. O trem-bala existe; está sempre no horário, mantém velocidade média de 300 quilômetros por hora e sua rede já é cinco vezes maior que o trajeto entre Rio de Janeiro e São Paulo. A França tem um PIB per capita acima dos 42000 dólares anuais. Soube aproveitar com inteligência, rapidez e eficácia todo o avanço tecnológico das últimas décadas. Produz mais que o Brasil, num território equivalente a 6% do nosso e com um terço da nossa população. O salário mínimo é cinco vezes superior ao brasileiro, a saúde pública é impecável e a classe C já emergiu 100 anos atrás. O cidadão francês não sabe o que é um assalto a mão armada, e não tem a menor ideia do que possa ser um arrastão em prédios de apartamento. Nunca ouviu falar em firma reconhecida, nem em desabamento de morros. Desconhece a existência de filas de ônibus. Rouba-se pouco, e jamais com prejuízo para os serviços públicos. Os fiscais não extorquem: apenas fiscalizam. A soma de todas as suas dificuldades, considerando-se a vida como ela é, parece uma brincadeira quando comparada à de certos Brics, a começar pelo que é representado na letra B.

A França, certamente, tem complicações sérias, como o desemprego e a invasão de seu território pelos pobres do mundo que, por bem ou por mal, querem emigrar para lá. Também tem uma paixão mal resolvida, e provavelmente sem solução, pelo “estado forte”, a quem se atribui poderes comparáveis aos de Nossa Senhora de Lourdes. Já conseguiu ter um Ministério da Educação e outro do Ensino Público, e mantém curiosidades como o Ministério da Coesão Social ou o da Ruralidade. Sarkozy, com o seu estilo MMA de governar, não conseguiu diminuir nenhum desses problemas; também não os tornou piores do que eram ao assumir. Hollande, que carrega o malvado apelido de “Pudim” e tem como principal destaque de sua carreira o fato de nunca ter se destacado em nada, parece o homem certo para repetir o mesmo trajeto. Melhor para a França. Ela tem a sorte de não precisar dos seus políticos para conservar tudo aquilo que já soube construir.

Era costume dizer que um dos primeiros sinais da velhice aparece quando o indivíduo começa a ser chamado de “senhor” pelo médico (ou, pior ainda, pelo padre), e já trata um e outro de “você”. François Hollande acaba de dar uma nova contribuição para as práticas populares de contagem do tempo. Em sua juventude, foi um fã entusiasmado de Jimi Hendrix – e, quando alguém que pode tornar-se presidente da França tem no seu álbum de ídolos alguém como Jimi Hendrix, ficamos avisados, mais uma vez, de que a vida está passando depressa.

O assustador ataque aos bancos - MAILSON DA NÓBREGA

REVISTA VEJA


O atual governo tem demonstrado inédita inquietude em relação aos juros. Em vez de prosseguir o trabalho paciente e tecnicamente fundamentado de seus antecessores, que permitiu diminuir de forma sustentada as taxas de juros, agiu politicamente. Determinou que os bancos públicos reduzissem as taxas de juros para induzir as instituições financeiras privadas a fazer o mesmo. Experiências semelhantes provocaram perdas e necessidade de injeção de recursos do Tesouro naqueles bancos. Em lugar de recorrer a medidas estruturais, a presidente Dilma decidiu atacar os bancos privados: "É inadmissível que o Brasil, que tem um dos sistemas financeiros mais sólidos e lucrativos, continue com um dos juros mais altos do mundo".

Acontece que solidez e lucratividade não têm necessariamente relação com juros altos. A solidez foi construída ao longo de anos, fruto do trabalho dos bancos e do governo, particularmente do Banco Central. A solidez explica por que os bancos brasileiros resistiram bem aos efeitos da atual crise financeira mundial. A solidez é para ser comemorada, não para outros motivos. Quanto à lucratividade, estudos mostram que os bancos não têm retorno diferente do das grandes empresas brasileiras.

Medidas para reduzir as elevadas taxas de juros do Brasil devem integrar permanentemente a agenda do governo. Isso têm acontecido nos últimos dezoito anos, pelo menos. Ainda figuramos entre os campeões dos juros altos, mas a situação tem melhorado. A taxa de juros básica do Banco Central (Selic) - que influencia as demais - já foi de mais de 40% ao ano e hoje caminha para as proximidades dos 8% ao ano. O spread bancário também diminuiu. Foi o efeito de um esforço de reformas para atacar as razões estruturais da excepcionalidade.

A vitória contra a inflação descontrolada (Plano Real) e a estabilidade macroeconômica foram seguidas de outros avanços: a alienação fiduciária, a nova Lei de Falências, o crédito consignado, o acompanhamento sistemático das condições de crédito pelo Banco Central e, mais recentemente. a Lei do Cadastro Positivo. Tudo isso reforçou a segurança na concessão de empréstimos e melhorou o ambiente informacional. Os bancos adquiriram meios para bem avaliar riscos, premiar os bons pagadores com menores taxas de juros e expandir o acesso ao crédito. O potencial de crescimento se ampliou. O bem-estar aumentou.

É preciso avançar com medidas estruturais de mesmo quilate. Por exemplo, duas causas explicam as altas taxas de juros: a tributação das transações financeiras e o volume de recursos que os bancos são obrigados a recolher ao Banco Central, ambos sem paralelo no mundo. Resquícios de insegurança jurídica típica do Brasil reclamam novas reformas.

Além de ter taxas de juros das mais altas do mundo, o Brasil ostenta um dos maiores níveis de emprego informal do planeta. São duas excepcionalidades derivadas de problemas estruturais acumulados, de difícil solução em prazo curto. Não se vê, todavia, alguém culpando os empregadores pela informalidade no mercado de trabalho. Não há como promover no grito a formalização, nem dessa forma baixar a taxa de juros. Felizmente, tal como aconteceu nos juros, a informalidade tem diminuído sob a influência da estabilidade macroeconômica, do crescimento da economia, da melhor fiscalização e de avanços institucionais.

A presidente mira e acena um alvo fácil. Atacar sintomas que a população confunde com causas faz subir a popularidade. A maioria pensa como Dilma. A desinformação é enorme. A educação financeira é deficiente no Brasil. Os bancos nunca foram benquistos. O tema tende a ser influenciado pela emoção.

No Plano Cruzado (1986), faltou carne no mercado. Era um sintoma decorrente do insustentável congelamento dos preços. Vender gado para abate era o caminho certo para o prejuízo. Os pecuaristas se protegeram. O custo de reter o seu rebanho era preferível à falência. O governo empreendeu então uma espetaculosa caça ao boi no pasto, com helicópteros e policiais federais. A medida não salvou o Plano Cruzado. Espera-se que, caso fracasse sua cruzada contra os bancos, Dilma não se aventure a procurar juros baixos no pasto.

PA apoia Freixo - ANCELMO GOIS

O GLOBO - 07/05/12

Paes que se cuide. Boa parte do PA (Partido dos Artistas) apoia nesta eleição municipal o seu rival Marcelo Freixo (PSOL). Caetano Veloso reuniu sábado,num jantar em torno de Freixo, estrelas como Marisa Monte, Camila Pitanga, Wagner Moura, Djavan, Paula Lavigne, Dira Paes e outros.

PV e PSDB

Gilberto Gil também participou, embora seu PV tenha candidato (Aspásia Camargo). Outro que estava lá era Paulo Henrique Cardoso, filho de FH, embora o candidato oficial do PSDB seja Otavio Leite.

23 = idade do aborto

Pesquisa com 375 mulheres publicada nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz revela que 93 (quase 1/4) sofreram ou se submeteram a um aborto. A idade média das mulheres que abortaram foi 23 anos.

Caso de polícia

Há duas semanas, Carolina Dieckmann levou seu computador, onde estavam as tais fotos íntimas, para conserto numa loja Mac. É apenas hipótese. Mas a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática, que hoje ouve a atriz, investiga se algum funcionário copiou as fotos, objeto de chantagem.

De fora

A Odebrecht avisa que não tem qualquer interesse em comprar a Delta.

Minha guerra alheia
A Agência Riff vendeu para a Colômbia os direitos de “Minha Guerra Alheia”, da Marina Colasanti (publicado no Brasil pela Record). No livro, a escritora, que nasceu na Etiópia, retorna às suas memórias de infância.

Gois também é cultura
Uma nota aqui em 2006 sobre um pedido do Vietnã ao Itamaraty para pesquisar uma passagem de Ho Chi Minh pelo Rio, em 1911, levou a premiada roteirista Cláudia Mattos (de “180°”) a inscrever um projeto em edital para transformar a história num filme.

Segue...

Projeto aprovado, Cláudia, acredite, foi ao Vietnã, onde viu nos museus dedicados ao revolucionário e estadista, em Hanói e Saigon, mapas que até ilustram a passagem dele por aqui. Mas, como há informações contraditórias, a cineasta vai fazer um documentário ficcional.

No Rio...

Ho Chi Minh (1890-1969) teria vindo para o Rio num navio de bandeira francesa, em 1911. Aqui, teria trabalhado de três a seis meses como cozinheiro.

Leilão do Copa
Móveis, cortinas, roupas de cama e banho dos quartos localizados no prédio principal do Copacabana Palace serão leiloados por Soraia Cals e Evandro Carneiro no dia 3 de julho. Por esses quartos passaram figuras lendárias como Orson Welles e Rita Hayworth.

Valzinho eterno

Valzinho (1914-1980), um dos precursores da bossa nova, já pode ter sua obra digitalizada. Chegou de Portugal Edgar Costa, sobrinho de Valzinho e dono de seus acetatos raríssimos e discos de 78 rotações. Alô, MIS!

Papagaio de pirata

Dias atrás, numa gravação do “De pernas pro ar 2”, no Hospital TotalCor, em Ipanema, um senhor que passava parou e ficou de papo com a produção até conseguir uma ponta no longa. Aparecerá numa cena em que Ingrid Guimarães acena para um táxi ao sair do hospital.

De molho

A atriz Heloísa Périssé, a Monalisa de “Avenida Brasil”, está com dengue.

Sequestra eu

Rodrigo Rangel, o ator que interpreta o agiota Moreira, em “Avenida Brasil”, quinta passada, estava em frente ao seu condomínio, na Barra, quando uma moça gritou: “É violento, mas eu gosto. Sequestra eu.” — O cativeiro lá de casa já tem uma, mas agradeço a preferência! — respondeu o ator.