VALOR ECONÔMICO - 22/02/12
O debate sobre os efeitos da abertura da economia na sociedade brasileira em geral - e na indústria em particular - pode se beneficiar de algumas lições da Perestroika na Rússia ainda comunista. Explico a seguir o porque dessa minha afirmação.
Em ambos os casos trata-se do processo de reação de uma sociedade complexa diante da distensão de regras restritivas à liberdade de indivíduos e grupos sociais impostas pelos governos nacionais. No caso russo o aspecto dominante foram as liberdades políticas do cidadão e da sociedade; no caso brasileiro de agora é a busca da liberdade econômica por parte de consumidores e empresas produtoras de bens e serviços que está no centro das mudanças.
Na Perestroika me interessam suas lições sobre a impossibilidade do governo de controlar a velocidade e a intensidade com que a liberdade política voltou ao espaço social russo. Uma vez iniciada a abertura, a complexidade do que se seguiu não estava prevista nos planos dos dirigentes comunistas, e os acontecimentos na Rússia e em outros países comunistas fugiram totalmente do controle.
Com as importações liberadas, empresas brasileiras se dão conta dos desafios das novas e das antigas restrições
A abertura da economia brasileira nos últimos anos acontece com tintas muito semelhantes. Reconheço que a dramaticidade e a influência sobre a vida do cidadão soviético da Perestroika foi muito maior do que o processo que temos hoje no Brasil. Por isso quero deixar claro que me interessam apenas algumas semelhanças que existem entre eles.
A primeira delas é o encadeamento dos ajustes que passam a ocorrer quando, uma vez liberadas as restrições externas, forças naturais passam a agir na sociedade. No caso brasileiro trata-se da liberdade do consumidor de escolher entre produtos e serviços disponíveis no mercado interno e outros que são oferecidos a partir do exterior. E aqui estamos falando não apenas de bens físicos, como televisores e automóveis, mas de serviços como férias em Miami ou mesmo Paris.
Durante décadas foi negado ao consumidor brasileiro esse direito de escolha. Até 1990 esse impedimento era de natureza legal, pois leis e regulamentos criados ao longo do regime militar criminalizavam a importação de bens e os gastos em moeda forte no exterior. A partir do governo Collor essas restrições foram aliviadas, mas o consumidor brasileiro continuou confinado ao mercado interno pelas inseguranças associadas à taxa de câmbio. Com a elevada volatilidade de nossa moeda, os canais de distribuição de bens e serviços necessários para o consumidor ter acesso às importações não se desenvolveram de forma sistêmica. Essa limitação, na prática, significou a manutenção de uma economia fechada no Brasil.
Esse quadro mudou drasticamente com a entrada da China no mercado de bens primários. Entre o início do século XXI e o segundo mandato do presidente Lula, os preços de nossas exportações cresceram mais de 30% em relação aos das importações. Essa melhora em nossos termos de troca transformou o real em uma moeda forte e incrivelmente estável no médio prazo. Com a habitual rapidez com que as empresas brasileiras se adaptam a novos tempos, nos últimos anos montou-se no Brasil uma sofisticada e eficiente rede de distribuição de produtos e serviços importados. E o consumidor passou a ter, pela primeira vez em muitas décadas, a liberdade de escolha.
Essa busca por parte do consumidor brasileiro trouxe os holofotes da opinião pública para outra restrição à liberdade econômica que prevaleceu no Brasil por mais de quatro décadas: a liberdade para as empresas brasileiras de trabalhar e produzir com custos compatíveis com os de seus concorrentes em outros países. Essa descoberta é mais recente e só agora começa a ser percebida - e exigida - por muitas delas. Dou um exemplo dramático e recente: as empresas brasileiras são hoje obrigadas a comprar o gás natural de petróleo da Petrobras por um preço quatro vezes superior ao que prevalece nos Estados Unidos. O mesmo ocorre com outros insumos de produção como energia elétrica, custos de logística e taxas reais de juros nas operações de crédito.
Outro exemplo dessa contradição é o nosso sistema tributário. Com uma carga de impostos sobre a produção pelo menos 10 pontos mais elevada, esse aleijão competitivo ficou mascarado por décadas por ser a economia insulada das importações e nossa moeda muito desvalorizada. Outro foco gravíssimo desse problema de competitividade - embora este de natureza conjuntural - é hoje o mercado de trabalho. Com as taxas de desemprego em níveis muito baixos, o custo da mão de obra para as empresas brasileiras vem crescendo muito acima de seus concorrentes em outros mercados.
Neste ponto de minha coluna talvez a minha comparação com a Perestroika comece a ficar mais clara para o leitor do Valor. O processo de abertura às importações, em um tecido econômico e social com liberdades individuais restauradas no campo econômico, está criando um complexo processo de mudanças na sociedade. Como aconteceu no mundo comunista, os acontecimentos de agora se encadeiam e rapidamente criam novos desafios a serem enfrentados mais a frente. Por isso, tratar os problemas atuais na economia brasileira como uma mera crise na indústria provocada pelo real valorizado é uma simplificação perigosa.
quarta-feira, fevereiro 22, 2012
Duas Europas? - GILLES LAPOUGE
O Estado de S.Paulo - 22/02/12
A Grécia está salva. Viva! A Europa e o euro também. Voltamos de longe. Foi preciso que todo o mundo se mobilizasse: o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Comissão Europeia (CE) em Bruxelas, o Banco Central Europeu (BCE), a chanceler alemã Angela Merkel, mas também os bancos e as seguradoras que aceitaram "apagar" 107 bilhões de dívidas gregas. Nunca se viu uma reestruturação como essa. Mesmo a da Argentina em 2002, não foi além de US$ 82 bilhões na época.
Quer dizer que o pesadelo acabou? A Europa vai sair das trevas onde tateia há dois anos? Vai reencontrar o sol? Absolutamente. A explosão do euro foi contida, mas é um convalescente que sai do hospital. E não somente a Grécia; também a Itália, a Espanha e Portugal.
A Grécia foi mais atingida que os outros países. Primeiro, no seu orgulho de povo soberano. Ela foi colocada sob tutela, como alguns idosos que já não regulam bem da cabeça: a "troica" que salvou a Grécia (UE, BCE e FMI) vai fiscalizar rigidamente a maneira como a Grécia vai reembolsar seus empréstimos, rebaixar seu nível de vida de maneira drástica, arrecadar seus impostos.
De que valeu inventar a civilização, a democracia, a filosofia e a escultura há 2,5 mil anos, no tempo de Péricles, para se encontrar hoje coberta de bandagens, respirando com ajuda de aparelhos e controlada permanentemente por esses enfermeiros rabugentos que se chamam FMI, UE ou BCE?
E a Grécia não é o único "pato manco" da Europa! A Espanha tampouco está em situação muito brilhante. Em Juarez, cidade célebre por abrigar um autódromo onde um dia Ayrton Senna venceu uma corrida de Fórmula 1 por 14 milésimos de segundo, os 2,5 mil funcionários municipais não são pagos desde dezembro.
Os ônibus não têm mais gasolina para rodar. De noite, as ruas ficam escuras por falta de eletricidade. Não passa um dia sem uma greve, uma manifestação. Certo dia, os empregados do cemitério se recusaram a enterrar os mortos.
Deixemos a pobre Espanha e sigamos para Portugal. Desgraça! Escolas fecham as portas por falta de professores. Nas soberbas autoestradas, os carros são raros. A gasolina está cara demais. A Itália resiste melhor porque tem uma bela indústria, mas o frívolo Berlusconi a pôs de joelhos.
Um chefe de governo austero, moral, Mario Monti, substituiu o "cavaliere" Berlusconi. Para deixar as coisas claras, Monti renunciou a seus salários de presidente do Conselho e de ministro da Economia. Ele também teve a coragem de cobrar imposto da Igreja Católica.
Na Espanha, o novo chefe do governo, Mariano Rajoy, limitou seu salário anual a 78 mil. Os diretores de empresas públicas tiveram sua remuneração cortada em 25% a 30%. A lista poderia continuar. A conclusão seria a seguinte: enquanto a Europa do Norte está calma, próspera, parecida com a Alemanha, toda a Europa do Sul está em apuros.
A Europa está dividida em duas: no Norte, uma Europa do crescimento, da eficácia, do trabalho quase para todos, da ordem nas contas. No Sul, uma Europa da melancolia, da baixa produção, do alto desemprego e de desempregados partindo para procurar emprego nos Estados Unidos ou na América Latina. Entre essas duas Europas, um estranho traço de união, um país que procede a um só tempo dos dois modelos, do modelo em ruínas do Sul e do modelo reluzente do Norte: a França.
Curiosa epopeia, após 50 anos durante os quais, não sem coragem, não sem talento, a Europa lutou para unificar seus infortúnios e suas felicidades. Resultado: duas Europas. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
PT privatiza - EDITORIAL O GLOBO
O GLOBO - 22/02/12
As economias dependem do investimento para crescer a médio e longo prazos. O investimento amplia a capacidade de produção, atendendo, assim, à expansão da demanda por bens e serviços, sem provocar desequilíbrios que ponham em risco a trajetória de crescimento. Mas o investimento também depende da formação de poupança para financiá-lo. Se uma sociedade consome todos os seus recursos e nada poupa, não existirão sobras que viabilizarão a expansão futura.
Em síntese, isso foi o que aconteceu com a economia brasileira por um prolongado período. O Estado se agigantara, perdera eficiência, e, além de consumir todos seus recursos, ainda precisava avançar sobre o que o setor privado tentava poupar (em escala menor, o problema persiste). O investimento havia encolhido para patamares irrelevantes no país.
Para a economia brasileira se recuperar, com inflação controlada e finanças externas em ordem, o Estado teve de passar necessariamente por um processo de reforma, destinado a reduzir o déficit crônico e a dívida pública. Tal objetivo não teria êxito sem que o Estado se retirasse de diversas atividades ou decidisse compartilhar tarefas com o setor privado. Nesse sentido, o primeiro desafio foi vender empresas e bancos que certamente passariam a ser mais bem geridos fora do controle estatal. Não foi fácil encontrar compradores para essas companhias no começo do programa de privatização. Os horizontes da economia brasileira ainda eram nebulosos e persistiam muitas dúvidas sobre a recuperação do país. Os leilões foram abertos para qualquer candidato idôneo, sem se discriminar a nacionalidade do capital. Mas, por várias vezes, o BNDES precisou acenar com a possibilidade de financiamentos para que as transações se concretizassem, devido à falta de interessados.
Embora se soubesse que os ganhos posteriores com a privatização seriam consideráveis inclusive para os cofres públicos, a venda de patrimônio estatal só encontraria respaldo junto à sociedade se a alienação fosse feita por preços considerados justos. Os processos sempre se iniciavam com a contratação de dois diferentes consórcios de auditores, apresentavam relatórios de avaliação independentes.
Somente a partir daí era estabelecido um preço mínimo, nunca abaixo dos valores propostos pelos auditores. Uma das maneiras de os adversários da privatização criarem obstáculos era a contestação dos valores sugeridos. Mas, em diversas ocasiões, os leilões mostraram que os preços mínimos estavam acima da percepção do mercado, pois poucos investidores se habilitavam a arrematar as empresas ofertadas.
Apenas no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso é que o programa de privatização passou a despertar mais interesse, pois os horizontes da economia brasileira começavam a desanuviar. O processo de privatização do setor de telecomunicações (uma combinação de venda de empresas com a concessão de serviços) foi mais concorrido que os demais. As concessões de malhas ferroviárias e de rodovias federais então deslancharam. O país acumulou uma boa experiência com esse programa. Ferrenho crítico da privatização, ao assumir o governo o PT não deixou de recorrer a esse instrumento para a concessão de blocos de exploração de petróleo, de usinas de energia elétrica, de rodovias e ferrovias. E agora, com sucesso, de grandes aeroportos. O resto é discussão semântica, por medo de admitir a incapacidade de gestão do Estado.
Recuperação da economia só se viabilizou com reforma do Estado
As economias dependem do investimento para crescer a médio e longo prazos. O investimento amplia a capacidade de produção, atendendo, assim, à expansão da demanda por bens e serviços, sem provocar desequilíbrios que ponham em risco a trajetória de crescimento. Mas o investimento também depende da formação de poupança para financiá-lo. Se uma sociedade consome todos os seus recursos e nada poupa, não existirão sobras que viabilizarão a expansão futura.
Em síntese, isso foi o que aconteceu com a economia brasileira por um prolongado período. O Estado se agigantara, perdera eficiência, e, além de consumir todos seus recursos, ainda precisava avançar sobre o que o setor privado tentava poupar (em escala menor, o problema persiste). O investimento havia encolhido para patamares irrelevantes no país.
Para a economia brasileira se recuperar, com inflação controlada e finanças externas em ordem, o Estado teve de passar necessariamente por um processo de reforma, destinado a reduzir o déficit crônico e a dívida pública. Tal objetivo não teria êxito sem que o Estado se retirasse de diversas atividades ou decidisse compartilhar tarefas com o setor privado. Nesse sentido, o primeiro desafio foi vender empresas e bancos que certamente passariam a ser mais bem geridos fora do controle estatal. Não foi fácil encontrar compradores para essas companhias no começo do programa de privatização. Os horizontes da economia brasileira ainda eram nebulosos e persistiam muitas dúvidas sobre a recuperação do país. Os leilões foram abertos para qualquer candidato idôneo, sem se discriminar a nacionalidade do capital. Mas, por várias vezes, o BNDES precisou acenar com a possibilidade de financiamentos para que as transações se concretizassem, devido à falta de interessados.
Embora se soubesse que os ganhos posteriores com a privatização seriam consideráveis inclusive para os cofres públicos, a venda de patrimônio estatal só encontraria respaldo junto à sociedade se a alienação fosse feita por preços considerados justos. Os processos sempre se iniciavam com a contratação de dois diferentes consórcios de auditores, apresentavam relatórios de avaliação independentes.
Somente a partir daí era estabelecido um preço mínimo, nunca abaixo dos valores propostos pelos auditores. Uma das maneiras de os adversários da privatização criarem obstáculos era a contestação dos valores sugeridos. Mas, em diversas ocasiões, os leilões mostraram que os preços mínimos estavam acima da percepção do mercado, pois poucos investidores se habilitavam a arrematar as empresas ofertadas.
Apenas no segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso é que o programa de privatização passou a despertar mais interesse, pois os horizontes da economia brasileira começavam a desanuviar. O processo de privatização do setor de telecomunicações (uma combinação de venda de empresas com a concessão de serviços) foi mais concorrido que os demais. As concessões de malhas ferroviárias e de rodovias federais então deslancharam. O país acumulou uma boa experiência com esse programa. Ferrenho crítico da privatização, ao assumir o governo o PT não deixou de recorrer a esse instrumento para a concessão de blocos de exploração de petróleo, de usinas de energia elétrica, de rodovias e ferrovias. E agora, com sucesso, de grandes aeroportos. O resto é discussão semântica, por medo de admitir a incapacidade de gestão do Estado.
Recuperação da economia só se viabilizou com reforma do Estado
Revisão de cálculo - RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 22/02/12
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, avalia que a decisão de apoiar José Serra (PSDB) caso ele seja candidato à sua sucessão adiará em dois anos seu projeto político pessoal. Isso porque, com o novo cenário, será difícil para Kassab construir uma aliança com o PT contra a reeleição de Geraldo Alckmin em 2014.
O cacique do PSD esperava integrar o ministério de Dilma Rousseff em 2013. Depois, já tinha aceno do PT para herdar uma das vagas majoritárias em jogo em 2014 -governador, vice ou senador. Caso Serra vença, Kassab terá espaço na gestão, o que atrelaria seu destino em São Paulo, mais uma vez, aos tucanos.
Muita calma... A ordem da direção nacional do PSB é esperar antes de definir quem o partido apoiará em São Paulo. Com a possibilidade de PSDB e Kassab caminharem juntos, o presidente estadual da legenda e secretário de Turismo, Márcio França, gostaria de selar já aliança com os tucanos.
...nessa hora Já o presidente municipal, Eliseu Gabriel, pressiona para que, mesmo sem Kassab, o PSB apoie Fernando Haddad (PT). Se tiver de arbitrar, o governador Eduardo Campos (PE) tende a ficar com Kassab, mas o fato de ser Serra o candidato dificulta o arranjo.
Quanto custa? João Santana se reuniu com Haddad pouco antes do Carnaval. O marqueteiro agora discute com o PT se vai cuidar também da propaganda na TV dos candidatos a vereador. O pró é que unifica a linguagem. O contra é que o preço sobe exponencialmente.
Pré-datado Mesmo se as prévias tucanas forem canceladas, já estão pagos o aluguel de 116 tablets e a confecção do mesmo número de caixas de fórmica para encaixar os equipamentos nas seções.
Subliminar Inserções publicitárias do governo Gilberto Kassab na TV, que voltaram à carga em horário nobre no Carnaval, exaltam marcas de José Serra na prefeitura paulistana, como as AMAs, a Virada Cultural, as ciclofaixas e o recapeamento de corredores de ônibus.
Cronologia O slogan "antes não tinha, agora tem", lista os feitos da administração desde 2005, ano em que o tucano tomou posse.
Zica Do líder do PSDB na Câmara paulistana, Floriano Pesaro, sobre o revés da Gaviões da Fiel, que homenageou Lula no Carnaval: "O ex-presidente vai se mostrando um tremendo pé-frio. É melhor, na eleição, ele se dedicar a São Bernardo, pois em São Paulo não tem sorte".
Caos anunciado A confusão de ontem no Anhembi não é surpresa para quem acompanha de perto a organização do desfile paulistano. Dirigentes de escolas questionavam abertamente jurados em edições anteriores da festa, o que obrigou a SPTuris a propor cláusula de punição a agremiações que tumultuassem a apuração.
Justiça fiscal Depois de assumir, em nota oficial, a responsabilidade pela reintegração de posse do Pinheirinho, o desembargador Ivan Sartori cobra da base de Geraldo Alckmin na Assembleia prioridade a dois projetos que oneram o Estado: o que transfere ao TJ-SP as custas judiciais e o que cria cargos de assistentes de juízes.
Bem na fita As propostas ganharam força na Casa com o gesto do presidente do tribunal, que dividiu com o governador o desgaste político na expulsão dos sem-teto. O juiz Rodrigo Capez, irmão de Fernando Capez (PSDB), é o interlocutor do Judiciário paulista com os deputados.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Não bastasse o fato de presas darem à luz algemadas, a superpopulação carcerária exibe um quadro de horror que deveria envergonhar o Estado mais rico do país."
DO DEPUTADO ADRIANO DIOGO (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia paulista, sobre a necessidade de São Paulo aumentar em 81% o número de vagas nos presídios para acabar com a superlotação.
contraponto
Recém-chegado
Durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano de SP, na terça passada, Gilberto Kassab viu-se cercado pelos colegas petistas Emídio de Souza (Osasco), Luiz Marinho (São Bernardo) e Mário Reali (Diadema). Em fase de aproximação com o PT -embora um tanto comprometida pela perspectiva de candidatura de José Serra-, o prefeito paulistano brincou com o trio:
-Está faltando uma cadeira aqui...
Em seguida, dirigiu-se aos organizadores do evento:
-Quando será o discurso do Haddad?
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, avalia que a decisão de apoiar José Serra (PSDB) caso ele seja candidato à sua sucessão adiará em dois anos seu projeto político pessoal. Isso porque, com o novo cenário, será difícil para Kassab construir uma aliança com o PT contra a reeleição de Geraldo Alckmin em 2014.
O cacique do PSD esperava integrar o ministério de Dilma Rousseff em 2013. Depois, já tinha aceno do PT para herdar uma das vagas majoritárias em jogo em 2014 -governador, vice ou senador. Caso Serra vença, Kassab terá espaço na gestão, o que atrelaria seu destino em São Paulo, mais uma vez, aos tucanos.
Muita calma... A ordem da direção nacional do PSB é esperar antes de definir quem o partido apoiará em São Paulo. Com a possibilidade de PSDB e Kassab caminharem juntos, o presidente estadual da legenda e secretário de Turismo, Márcio França, gostaria de selar já aliança com os tucanos.
...nessa hora Já o presidente municipal, Eliseu Gabriel, pressiona para que, mesmo sem Kassab, o PSB apoie Fernando Haddad (PT). Se tiver de arbitrar, o governador Eduardo Campos (PE) tende a ficar com Kassab, mas o fato de ser Serra o candidato dificulta o arranjo.
Quanto custa? João Santana se reuniu com Haddad pouco antes do Carnaval. O marqueteiro agora discute com o PT se vai cuidar também da propaganda na TV dos candidatos a vereador. O pró é que unifica a linguagem. O contra é que o preço sobe exponencialmente.
Pré-datado Mesmo se as prévias tucanas forem canceladas, já estão pagos o aluguel de 116 tablets e a confecção do mesmo número de caixas de fórmica para encaixar os equipamentos nas seções.
Subliminar Inserções publicitárias do governo Gilberto Kassab na TV, que voltaram à carga em horário nobre no Carnaval, exaltam marcas de José Serra na prefeitura paulistana, como as AMAs, a Virada Cultural, as ciclofaixas e o recapeamento de corredores de ônibus.
Cronologia O slogan "antes não tinha, agora tem", lista os feitos da administração desde 2005, ano em que o tucano tomou posse.
Zica Do líder do PSDB na Câmara paulistana, Floriano Pesaro, sobre o revés da Gaviões da Fiel, que homenageou Lula no Carnaval: "O ex-presidente vai se mostrando um tremendo pé-frio. É melhor, na eleição, ele se dedicar a São Bernardo, pois em São Paulo não tem sorte".
Caos anunciado A confusão de ontem no Anhembi não é surpresa para quem acompanha de perto a organização do desfile paulistano. Dirigentes de escolas questionavam abertamente jurados em edições anteriores da festa, o que obrigou a SPTuris a propor cláusula de punição a agremiações que tumultuassem a apuração.
Justiça fiscal Depois de assumir, em nota oficial, a responsabilidade pela reintegração de posse do Pinheirinho, o desembargador Ivan Sartori cobra da base de Geraldo Alckmin na Assembleia prioridade a dois projetos que oneram o Estado: o que transfere ao TJ-SP as custas judiciais e o que cria cargos de assistentes de juízes.
Bem na fita As propostas ganharam força na Casa com o gesto do presidente do tribunal, que dividiu com o governador o desgaste político na expulsão dos sem-teto. O juiz Rodrigo Capez, irmão de Fernando Capez (PSDB), é o interlocutor do Judiciário paulista com os deputados.
com FÁBIO ZAMBELI e ANDRÉIA SADI
tiroteio
"Não bastasse o fato de presas darem à luz algemadas, a superpopulação carcerária exibe um quadro de horror que deveria envergonhar o Estado mais rico do país."
DO DEPUTADO ADRIANO DIOGO (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia paulista, sobre a necessidade de São Paulo aumentar em 81% o número de vagas nos presídios para acabar com a superlotação.
contraponto
Recém-chegado
Durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano de SP, na terça passada, Gilberto Kassab viu-se cercado pelos colegas petistas Emídio de Souza (Osasco), Luiz Marinho (São Bernardo) e Mário Reali (Diadema). Em fase de aproximação com o PT -embora um tanto comprometida pela perspectiva de candidatura de José Serra-, o prefeito paulistano brincou com o trio:
-Está faltando uma cadeira aqui...
Em seguida, dirigiu-se aos organizadores do evento:
-Quando será o discurso do Haddad?
Sombras na economia - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 22/02/12
Há uma coincidência infeliz: os países mais dependentes do petróleo do Irã são os mais encrencados na crise da Europa. A Itália e a Espanha importam do país 13% do que consomem. A Grécia - sempre ela - é a que mais importa: 14%. O acordo fechado ontem com os gregos dará um alívio, enquanto o mundo contrata outro problema para perturbar a economia de 2012. A cotação do petróleo bateu no pior nível do ano passado.
O Irã começa a tomar a decisão que se sabia que tomaria, antecipar-se às sanções e suspender o fornecimento de petróleo à Europa. Começou pelo Reino Unido e França, o que tem apenas valor simbólico. Os dois países compram pouco do Irã: 11 mil e 49 mil barris/dia, respectivamente. Os 27 países da União Europeia compram do Irã apenas 4% do que consomem. O risco fica com os países mais dependentes. Da perspectiva do Irã, o continente absorve 18% do que o país exporta. É um importante mercado para os iranianos.
No ano passado, após a sucessão das revoltas árabes, principalmente a guerra civil que tirou a Líbia do mercado, o petróleo superou US$ 120 o barril; nível ao qual volta agora. A elevação do ano passado acabou atrapalhando processos de recuperação de economias mais expostas ao preço do petróleo, como a dos Estados Unidos. As famílias americanas perderam parte da renda disponível porque lá o preço é imediatamente transferido para as bombas. Esse dinheiro deixou de ser gasto em bens de consumo e também no pagamento de dívidas.
A Agência Internacional de Energia (AIE) informou que os estoques mundiais estão no nível mais baixo em 15 anos, por causa da guerra civil da Líbia. Mesmo assim, abastecimento não é problema porque a Arábia Saudita continuará acudindo o Ocidente, em troca do silêncio sobre o governo ditatorial e repressivo da família Saud.
Consultorias internacionais avaliam que o ambiente econômico mundial perderá força ao longo do ano exatamente por essas dificuldades, apesar de o mundo estar respirando aliviado desde a longa reunião de 13 horas em Bruxelas que acabou selando um acordo com a Grécia. Os bancos terão que dar desconto de 53,5% na dívida bancária dos gregos. Ainda não está muito claro se isso valerá para o Banco Central Europeu (BCE), que também é um dos carregadores dos títulos da dívida grega. O empréstimo de 130 bilhões é bem menos sólido do que parece. É empréstimo plurianual, será liberado em parcelas, está condicionado a uma série de requisitos que terão que ser cumpridos para que novas parcelas sejam liberadas. Se a Grécia fizer todo o ajuste exigido, chegará a 2020 com 120,5% de dívida/PIB. Nunca tantos emprestaram tanto por tão pouco.
O mais relevante sobre o acordo grego é que não se pode garantir que este seja o começo do fim da crise europeia. O governo a ser eleito na Grécia em abril pode não cumprir o acordo. Não está afastado o cenário do contágio de outros países da região.
No caso do Irã, o mais relevante é que de novo o mundo flerta com o abismo. Seria trágico abrir-se uma nova frente de guerra que pode ter como consequência conflitos no Estreito de Ormuz, fundamental para a logística do petróleo. Para Israel, uma nova frente de guerra é conveniente para o governo de extrema-direita, que precisa alimentar a sensação de que o país está sempre sob ameaça. A paz duradoura pode significar o fortalecimento de grupos mais moderados do país e a redução da ajuda bilionária do Ocidente.
Nos Estados Unidos, a cúpula militar, que está vendo seu orçamento ser cortado com a redução do aparato e das tropas nas guerras do Afeganistão e Iraque, ganharia novo apoio e mais nacos dos gastos públicos. Um novo conflito favoreceria o discurso belicista do Partido Republicano.
Para o próprio Irã esse é o cenário que fortalece Mahmoud Ahmadinejad, que não por outro motivo gosta tanto de vincular o programa nuclear iraniano à sua liderança. Um conflito no Golfo Pérsico seria muito interessante para muitos. Aí é que mora o perigo.
A consultoria inglesa Capital Economics acha que a alta do preço do petróleo não tem a ver necessariamente com a instabilidade no Oriente Médio, mas sim com o excesso de dinheiro em circulação, que foi resultado da ação de vários bancos centrais no combate à crise econômica. Acredita ainda que a recuperação mundial alimenta o otimismo que permite a recuperação dos ativos. Tanto que o gráfico abaixo mostra isso: os índices das bolsas do mundo acompanham a elevação do preço do petróleo. A Vitol, uma das maiores empresas que comercializam o petróleo no mundo, estima que o preço do barril pode subir até US$ 150 caso haja um conflito armado com o Irã.
Há novas sombras de incerteza sobre a economia.
Há uma coincidência infeliz: os países mais dependentes do petróleo do Irã são os mais encrencados na crise da Europa. A Itália e a Espanha importam do país 13% do que consomem. A Grécia - sempre ela - é a que mais importa: 14%. O acordo fechado ontem com os gregos dará um alívio, enquanto o mundo contrata outro problema para perturbar a economia de 2012. A cotação do petróleo bateu no pior nível do ano passado.
O Irã começa a tomar a decisão que se sabia que tomaria, antecipar-se às sanções e suspender o fornecimento de petróleo à Europa. Começou pelo Reino Unido e França, o que tem apenas valor simbólico. Os dois países compram pouco do Irã: 11 mil e 49 mil barris/dia, respectivamente. Os 27 países da União Europeia compram do Irã apenas 4% do que consomem. O risco fica com os países mais dependentes. Da perspectiva do Irã, o continente absorve 18% do que o país exporta. É um importante mercado para os iranianos.
No ano passado, após a sucessão das revoltas árabes, principalmente a guerra civil que tirou a Líbia do mercado, o petróleo superou US$ 120 o barril; nível ao qual volta agora. A elevação do ano passado acabou atrapalhando processos de recuperação de economias mais expostas ao preço do petróleo, como a dos Estados Unidos. As famílias americanas perderam parte da renda disponível porque lá o preço é imediatamente transferido para as bombas. Esse dinheiro deixou de ser gasto em bens de consumo e também no pagamento de dívidas.
A Agência Internacional de Energia (AIE) informou que os estoques mundiais estão no nível mais baixo em 15 anos, por causa da guerra civil da Líbia. Mesmo assim, abastecimento não é problema porque a Arábia Saudita continuará acudindo o Ocidente, em troca do silêncio sobre o governo ditatorial e repressivo da família Saud.
Consultorias internacionais avaliam que o ambiente econômico mundial perderá força ao longo do ano exatamente por essas dificuldades, apesar de o mundo estar respirando aliviado desde a longa reunião de 13 horas em Bruxelas que acabou selando um acordo com a Grécia. Os bancos terão que dar desconto de 53,5% na dívida bancária dos gregos. Ainda não está muito claro se isso valerá para o Banco Central Europeu (BCE), que também é um dos carregadores dos títulos da dívida grega. O empréstimo de 130 bilhões é bem menos sólido do que parece. É empréstimo plurianual, será liberado em parcelas, está condicionado a uma série de requisitos que terão que ser cumpridos para que novas parcelas sejam liberadas. Se a Grécia fizer todo o ajuste exigido, chegará a 2020 com 120,5% de dívida/PIB. Nunca tantos emprestaram tanto por tão pouco.
O mais relevante sobre o acordo grego é que não se pode garantir que este seja o começo do fim da crise europeia. O governo a ser eleito na Grécia em abril pode não cumprir o acordo. Não está afastado o cenário do contágio de outros países da região.
No caso do Irã, o mais relevante é que de novo o mundo flerta com o abismo. Seria trágico abrir-se uma nova frente de guerra que pode ter como consequência conflitos no Estreito de Ormuz, fundamental para a logística do petróleo. Para Israel, uma nova frente de guerra é conveniente para o governo de extrema-direita, que precisa alimentar a sensação de que o país está sempre sob ameaça. A paz duradoura pode significar o fortalecimento de grupos mais moderados do país e a redução da ajuda bilionária do Ocidente.
Nos Estados Unidos, a cúpula militar, que está vendo seu orçamento ser cortado com a redução do aparato e das tropas nas guerras do Afeganistão e Iraque, ganharia novo apoio e mais nacos dos gastos públicos. Um novo conflito favoreceria o discurso belicista do Partido Republicano.
Para o próprio Irã esse é o cenário que fortalece Mahmoud Ahmadinejad, que não por outro motivo gosta tanto de vincular o programa nuclear iraniano à sua liderança. Um conflito no Golfo Pérsico seria muito interessante para muitos. Aí é que mora o perigo.
A consultoria inglesa Capital Economics acha que a alta do preço do petróleo não tem a ver necessariamente com a instabilidade no Oriente Médio, mas sim com o excesso de dinheiro em circulação, que foi resultado da ação de vários bancos centrais no combate à crise econômica. Acredita ainda que a recuperação mundial alimenta o otimismo que permite a recuperação dos ativos. Tanto que o gráfico abaixo mostra isso: os índices das bolsas do mundo acompanham a elevação do preço do petróleo. A Vitol, uma das maiores empresas que comercializam o petróleo no mundo, estima que o preço do barril pode subir até US$ 150 caso haja um conflito armado com o Irã.
Há novas sombras de incerteza sobre a economia.
Taxa neutra - ANTONIO DELFIM NETTO
FOLHA DE SP - 22/02/12
Há uma intrigante questão no ar. Resulta da provocação do Banco Central do Brasil aos analistas do sistema financeiro, alguns dos quais se veem arrogantemente como os portadores da verdadeira ciência econômica.
Cada um deles deve explicitar a sua opinião sobre qual é a taxa de juros neutra que deve balizar as manobras da política monetária de forma a atingir um equilíbrio "ótimo":
1º) Manter o sistema econômico funcionando sempre no seu nível "potencial", um conceito de determinação empírica duvidosa.
2º) Como consequência no mercado de trabalho, todos os que desejam e podem trabalhar com o salário real nele fixado estarão empregados, o que significa que, por construção, não existe desemprego "involuntário".
3º) Permitirá ao Banco Central, com manobras da taxa de juro nominal de curto prazo, manter a taxa de inflação em torno da meta fixada pelo poder incumbente.
Para essa construção, basta que se aceite que a demanda global da economia (o consumo e o investimento) diminui quando aumenta a taxa de juro real (o que parece razoável), e que a oferta global seja o "produto potencial".
Com essas duas condições, deve existir uma taxa de juro real que iguale a demanda total à oferta total. Esta será a taxa "neutra" que o Banco Central levará em conta no estabelecimento da sua taxa básica, a Selic. O problema é que a taxa neutra está longe de ser uma constante. Ela é tão variável quanto a de-manda global!
Trata-se da discussão que nos acompanha há pelo menos duas décadas e para a qual têm contribuído muitos dos mais bem apetrechados economistas brasileiros e estrangeiros, com grossa artilharia econométrica. Infelizmente, sempre produziram resultados mais do que discutíveis. Nas explicações econométricas, só faltou introduzir o "desmatamento da Amazônia" como fator explicativo. Todo o resto já foi tentado.
Nada se sabe de concreto sobre as respostas à consulta do Banco Central. A provocação mais parece um daqueles avisos de que "vovó subiu no telhado". Circulam, porém, entre pessoas normalmente bem informadas, que a "dispersão" das avaliações da taxa de juro real neutra diminuiu e que elas andam agora no imenso intervalo entre 4,5% e 6%!
É de se esperar que o Banco Central tenha pedido aos informantes que explicitem o processo de como chegaram à taxa neutra. Conhecer os modelos e a metodologia das estimativas é uma informação mais rica do que a sua magnitude. A pesquisa pode dar indicações de como o "mercado" supõe que funciona o sistema econômico, de como se criam as "expectativas" e de como ele reage à manipulação da política monetária.
Há uma intrigante questão no ar. Resulta da provocação do Banco Central do Brasil aos analistas do sistema financeiro, alguns dos quais se veem arrogantemente como os portadores da verdadeira ciência econômica.
Cada um deles deve explicitar a sua opinião sobre qual é a taxa de juros neutra que deve balizar as manobras da política monetária de forma a atingir um equilíbrio "ótimo":
1º) Manter o sistema econômico funcionando sempre no seu nível "potencial", um conceito de determinação empírica duvidosa.
2º) Como consequência no mercado de trabalho, todos os que desejam e podem trabalhar com o salário real nele fixado estarão empregados, o que significa que, por construção, não existe desemprego "involuntário".
3º) Permitirá ao Banco Central, com manobras da taxa de juro nominal de curto prazo, manter a taxa de inflação em torno da meta fixada pelo poder incumbente.
Para essa construção, basta que se aceite que a demanda global da economia (o consumo e o investimento) diminui quando aumenta a taxa de juro real (o que parece razoável), e que a oferta global seja o "produto potencial".
Com essas duas condições, deve existir uma taxa de juro real que iguale a demanda total à oferta total. Esta será a taxa "neutra" que o Banco Central levará em conta no estabelecimento da sua taxa básica, a Selic. O problema é que a taxa neutra está longe de ser uma constante. Ela é tão variável quanto a de-manda global!
Trata-se da discussão que nos acompanha há pelo menos duas décadas e para a qual têm contribuído muitos dos mais bem apetrechados economistas brasileiros e estrangeiros, com grossa artilharia econométrica. Infelizmente, sempre produziram resultados mais do que discutíveis. Nas explicações econométricas, só faltou introduzir o "desmatamento da Amazônia" como fator explicativo. Todo o resto já foi tentado.
Nada se sabe de concreto sobre as respostas à consulta do Banco Central. A provocação mais parece um daqueles avisos de que "vovó subiu no telhado". Circulam, porém, entre pessoas normalmente bem informadas, que a "dispersão" das avaliações da taxa de juro real neutra diminuiu e que elas andam agora no imenso intervalo entre 4,5% e 6%!
É de se esperar que o Banco Central tenha pedido aos informantes que explicitem o processo de como chegaram à taxa neutra. Conhecer os modelos e a metodologia das estimativas é uma informação mais rica do que a sua magnitude. A pesquisa pode dar indicações de como o "mercado" supõe que funciona o sistema econômico, de como se criam as "expectativas" e de como ele reage à manipulação da política monetária.
NO BANHEIRO COM RONALDO - MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SP - 22/02/12
Quase duas horas depois de chegar ao camarote da Brahma para assistir aos desfiles das escolas no Sambódromo do Rio, Ronaldo sai de uma sala reservada para dar uma voltinha pelo espaço -o ex-jogador é contratado da Ambev, dona da marca, como garoto-propaganda.
Um amigo se aproxima e entrega discretamente a ele um tubo metálico. "Mais um?", pergunta Ronaldo, guardando o objeto no bolso da bermuda. "O que é isso? É desodorante, para as asas", diz ele à coluna.
E segue a caminhada. Tira fotos, dá autógrafos, belisca o bumbum do jogador Roger. "Eles [repórteres] também já me seguiram", diz Deborah Secco, casada com o jogador do Cruzeiro.
E Ronaldo continua. Vira à esquerda, em direção ao banheiro. Entra com vários amigos, que trancam a porta pelo lado de dentro.
Uma fila se forma. "Eu quero ir no banheiro. Quem tá aqui? Abree", bate o ator Alexandre Nero, o motorista Baltazar da novela "Fina Estampa" (TV Globo), que agride a mulher ( Dira Paes). "O quê? O Ronaldo tá aqui dentro? Qual Ronaldo?"
O craque abre. "É você? Pô, quero ir ao banheiro!", diz Nero, abraçando o ex-jogador. "É só você parar de maltratar a menina da novela que eu deixo", responde Ronaldo. Em seguida, encontra o cantor Leo Jaime. "Tô com saudade de você, pqp!", diz o craque.
Ronaldo volta para a sala que a cervejaria reservou para jogadores de futebol e cartolas convidados.
Ricardo Teixeira não virou máscara de Carnaval -mas é personagem presente nas conversas entre boleiros.
A coluna pergunta a Neymar o que achava da eventual saída dele da presidência da CBF. "Vamos falar de Carnaval?" Diante da insistência, o jogador cede: "Eu acho que ele é um excelente presidente [da entidade]. Ele sempre me tratou muito bem".
O ex-jogador Edmundo revela: "Estávamos bebendo, numa pelada com churrasco lá em casa. E o Ronaldo disse: 'Eu não sei o que é, mas acho que tem alguma coisa grande acontecendo. Ele [Ricardo Teixeira] tá vendendo a fazenda, tudo, parece que vai embora do país'. Se o Ronaldo não sabe, imagina eu". O Animal defende o cartola. "Adoro o Ricardo Teixeira. Ele transformou a CBF numa potência. Quando você lida com uma coisa tão grande, faz coisas boas e ruins. E as pessoas estão vendo só as coisas ruins."
Às 3h45, Ronaldo convida amigos que acabaram de chegar para a salinha VIP. Uma produtora tenta impedir. Ele entra com os convidados e fala para ela: "No ano que vem, você não vai estar aqui. Vou falar com o Zé Victor [Oliva, organizador do camarote]". Cinco minutos depois, o Fenômeno volta. E beija a mão da moça.
Promotoras do energético Fusion, da Ambev, ainda tentam entregar o produto a Neymar, que dança na varanda do camarote. "Ele tem um patrocinador diferente do nosso", diz um funcionário, vetando a ação promocional. Neymar é contratado da Red Bull.
No camarote da cervejaria Devassa, a estrela da noite é a atriz Juliana Paes, por anos garota-propaganda da concorrente Antarctica. "Não troquei de cerveja, troquei de camarote." Por quê? "Eu não preciso te responder isso. Sua pergunta é cheia de maldade. Depois não sabem por que os artistas não são simpáticos com vocês." A própria Devassa divulgou a presença dela com a frase: "Juliana Paes trocou de cerveja". "É?", diz a atriz. "Vou repreendê-los."
No terceiro andar do espaço, a pernambucana Juliana Sales, 30, comenta sua eleição como a nova Garota Devassa. Hugh Hefner, fundador da "Playboy", a escolheu. "Eu tenho um lado devassa sem ser forçado. Tenho minhas caras e bocas, sou comunicativa." A modelo santista Sunessis Brito, 28, que concorria com Juliana, diz: "Achei que eu fosse ganhar. Me preparei muito mais, treinei mais, malhei mais".
DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e MÔNICA BERGAMO, do Rio, e THAIS BILENKY
Quase duas horas depois de chegar ao camarote da Brahma para assistir aos desfiles das escolas no Sambódromo do Rio, Ronaldo sai de uma sala reservada para dar uma voltinha pelo espaço -o ex-jogador é contratado da Ambev, dona da marca, como garoto-propaganda.
Um amigo se aproxima e entrega discretamente a ele um tubo metálico. "Mais um?", pergunta Ronaldo, guardando o objeto no bolso da bermuda. "O que é isso? É desodorante, para as asas", diz ele à coluna.
E segue a caminhada. Tira fotos, dá autógrafos, belisca o bumbum do jogador Roger. "Eles [repórteres] também já me seguiram", diz Deborah Secco, casada com o jogador do Cruzeiro.
E Ronaldo continua. Vira à esquerda, em direção ao banheiro. Entra com vários amigos, que trancam a porta pelo lado de dentro.
Uma fila se forma. "Eu quero ir no banheiro. Quem tá aqui? Abree", bate o ator Alexandre Nero, o motorista Baltazar da novela "Fina Estampa" (TV Globo), que agride a mulher ( Dira Paes). "O quê? O Ronaldo tá aqui dentro? Qual Ronaldo?"
O craque abre. "É você? Pô, quero ir ao banheiro!", diz Nero, abraçando o ex-jogador. "É só você parar de maltratar a menina da novela que eu deixo", responde Ronaldo. Em seguida, encontra o cantor Leo Jaime. "Tô com saudade de você, pqp!", diz o craque.
Ronaldo volta para a sala que a cervejaria reservou para jogadores de futebol e cartolas convidados.
Ricardo Teixeira não virou máscara de Carnaval -mas é personagem presente nas conversas entre boleiros.
A coluna pergunta a Neymar o que achava da eventual saída dele da presidência da CBF. "Vamos falar de Carnaval?" Diante da insistência, o jogador cede: "Eu acho que ele é um excelente presidente [da entidade]. Ele sempre me tratou muito bem".
O ex-jogador Edmundo revela: "Estávamos bebendo, numa pelada com churrasco lá em casa. E o Ronaldo disse: 'Eu não sei o que é, mas acho que tem alguma coisa grande acontecendo. Ele [Ricardo Teixeira] tá vendendo a fazenda, tudo, parece que vai embora do país'. Se o Ronaldo não sabe, imagina eu". O Animal defende o cartola. "Adoro o Ricardo Teixeira. Ele transformou a CBF numa potência. Quando você lida com uma coisa tão grande, faz coisas boas e ruins. E as pessoas estão vendo só as coisas ruins."
Às 3h45, Ronaldo convida amigos que acabaram de chegar para a salinha VIP. Uma produtora tenta impedir. Ele entra com os convidados e fala para ela: "No ano que vem, você não vai estar aqui. Vou falar com o Zé Victor [Oliva, organizador do camarote]". Cinco minutos depois, o Fenômeno volta. E beija a mão da moça.
Promotoras do energético Fusion, da Ambev, ainda tentam entregar o produto a Neymar, que dança na varanda do camarote. "Ele tem um patrocinador diferente do nosso", diz um funcionário, vetando a ação promocional. Neymar é contratado da Red Bull.
No camarote da cervejaria Devassa, a estrela da noite é a atriz Juliana Paes, por anos garota-propaganda da concorrente Antarctica. "Não troquei de cerveja, troquei de camarote." Por quê? "Eu não preciso te responder isso. Sua pergunta é cheia de maldade. Depois não sabem por que os artistas não são simpáticos com vocês." A própria Devassa divulgou a presença dela com a frase: "Juliana Paes trocou de cerveja". "É?", diz a atriz. "Vou repreendê-los."
No terceiro andar do espaço, a pernambucana Juliana Sales, 30, comenta sua eleição como a nova Garota Devassa. Hugh Hefner, fundador da "Playboy", a escolheu. "Eu tenho um lado devassa sem ser forçado. Tenho minhas caras e bocas, sou comunicativa." A modelo santista Sunessis Brito, 28, que concorria com Juliana, diz: "Achei que eu fosse ganhar. Me preparei muito mais, treinei mais, malhei mais".
DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e MÔNICA BERGAMO, do Rio, e THAIS BILENKY
É o dólar, deslizando - CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 22/02/12
As cotações do dólar já caíram 8,4% nas primeiras sete semanas de 2012 e a tendência de queda continua aí.
Sexta-feira, o ministro Guido Mantega desmentiu informação da revista Veja de que o governo pretende taxar a entrada de Investimentos Estrangeiros Diretos (IEDs) que, no ano passado, atingiram o volume inédito de US$ 66,7 bilhões - e foram fator relevante de fortalecimento do real. Mas, em matéria cambial, o simples desmentido revela pelo menos a existência de profundo mal-estar com o problema.
Um dólar barato demais em reais tende a desestimular o setor produtivo, porque tira competitividade à indústria, eleva demais as importações e, assim, pode provocar desequilíbrios comerciais. Afora isso, quando associado a juros altos, como agora, incentiva aplicações especulativas com juros.
Até agora, o governo tem procurado reduzir a oferta de moeda estrangeira no mercado tanto por meio de taxação com IOF de certas aplicações estrangeiras como por compras pelo Banco Central. Mas a falta de opções de combate é consequência, também, de avaliações desencontradas a respeito da natureza do problema.
Há pelo menos quatro diagnósticos que tentam explicar o tal câmbio fora de lugar. O primeiro denuncia o populismo cambial. Trata-se de facilitar importações de bens de consumo para favorecer os segmentos da população que estão melhorando de vida no Brasil. Nada menos que 30 milhões de brasileiros (uma Argentina) ascenderam da classe E para a classe D ou daí para a classe C. O Ipea sugere esse entendimento.
O segundo diagnóstico é o da doença holandesa. É a avaliação de que o dólar está sendo pressionado para baixo porque o Brasil tem receitas em moeda estrangeira cada vez maiores com exportações de produtos primários (matérias-primas, alimentos e petróleo). O economista que mais vem insistindo nisso é o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Uma terceira avaliação tem a assinatura do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Ele denuncia a chamada guerra cambial. São os Tesouros dos países ricos e, mais do que eles, são os grandes bancos centrais, especialmente o Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) e o Banco Central Europeu, que, a pretexto de combater a crise e o empoçamento do crédito, despejam trilhões de dólares e de euros nos mercados. Boa parcela dessa dinheirama acaba desembarcando por aqui e provoca o estrago conhecido no câmbio.
Finalmente, há aqueles para os quais a principal explicação para a baixa do dólar é a atuação do governo federal e também do Banco Central, que acionam a chamada âncora cambial. Ou seja, vêm usando o câmbio como ator coadjuvante dos juros no combate à inflação. Quanto mais baixa a cotação do dólar, mais baratas chegam em reais as importações e um produto importado barato contribui para segurar os preços dos produtos de consumo produzidos internamente.
Dizer que câmbio excessivamente valorizado é o resultado da atuação de todos esses fatores dificulta a adoção da terapêutica. E escolher um só foco pode ser ineficiente ou desastroso. Para o combate à tal doença holandesa, a recomendação seria a adoção de um confisco sobre importações, como sugere o professor Bresser-Pereira. Taxar investimentos externos, por sua vez, pode passar mau sinal quando o País mais precisa de poupança. Além disso, poderá bloquear a entrada de capitais de longo prazo, justamente quando o rombo nas Contas Correntes (sobretudo na área de serviços e renda) mais exige cobertura de capitais externos.
O ministro Mantega está certo nas suas denúncias contra a guerra cambial, mas, em contrapartida, pouco ou quase nada consegue fazer para evitá-la. Uma nova rodada de empréstimos de longo prazo aos bancos europeus pelo BCE está agendada para o dia 29. Pode ser a senha para um contra-ataque do governo.
Uau!! Rebola pra pagar - JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 22/02/12
O que deve ter de bunda bocejando hoje. As periguetes não levantam nem com caldo de sururu!
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Acabou a gandaia! Acabou a grande festa da esculhambação nacional!
Saudade das peladonas. O Carnaval acabou. Menos na Bahia e no Recife. Que já tão pulando o Carnaval de 2013!
E hoje cedo um pernambucano levantou a placa: "Faltam 364 dias pro Carnaval". Rarará! E um amigo disse que não tá de ressaca. Porque ainda tá bêbado!
E um pernambucano saiu fantasiado de Lula. Com o pijama do Sírio Libanês! Eu achei sensacional!
E os blocos da Quarta-Feira de Cinzas? Hoje é dia daquele bloco do Rio: Bate pra Mim que Eu Tô Cansado. E direto de Jacarepaguá: Pau com Cãibra! E direto de Osasco: Dei Tanto que Tô Até Rouco. Rarará!
E o site Futirinhas revela que, para não perder o costume, o Neymar caiu! No samba! Rarará!
E chega de bunda! Agora vamos encarar o Brasil de frente! Com ou sem tapa-sexo? Rarará! Chega de bunda e vamos encarar o Brasil de frente. Agora é rebolar pra pagar o Carnaval. AGORA REBOLA! Pra pagar o cartão!
O que deve ter de bunda bocejando hoje. Hoje as periguetes não levantam nem com caldo de sururu!
E uma amiga transou com o segurança. Mas antes tirou o terno dele! E outra transou com segurança no carro. Botou o cinto!
E um amigo me disse que o MacGyver tava parecendo um acarajé que a baiana não botou o óleo pra escorrer! E sabe por que Quarta-Feira de Cinzas se chama Quarta-Feira de Cinzas? Porque banco abre! E sabe por que se chama Quarta-feira de Cinzas? Porque sua grana virou cinzas. Sabe aquela grana toda que você tinha no banco? Virou CINZAS! Rarará!
E a Ângela Bismarchi: "Amor de Carnaval dura". Dura tanto quanto o botox dela. Essa tá mais costurada que o Frankenstein! E sabe o que quer dizer IPVA? Idiota, Pague ou Vá Andando! Rarará!
E um amigo meu não consegue sair de Salvador. Toda vez que ele vai pro aeroporto, passa um trio elétrico e ele perde o avião! Vai ficar lá até o Carnaval de 2030!
E, depois de tanto trio elétrico, eu quero um trio acústico. Vou passar um ano ouvindo João Gilberto!
E agora vamos emendar com a Semana Santa? Topam? Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!
Três crises e uma incógnita - ROBERTO ABDENUR
FOLHA DE SP - 22/02/12
Problemas na Grécia e na Síria preocupam, mas bem mais agourenta é a situação envolvendo hoje o Irã
Três crises assolam de momento o contexto internacional: Grécia, Síria e Irã. Cada uma, em seus termos, prenhe de consequências negativas.
A crise financeira da Grécia, se a esta altura já não parece mais ameaçar a sobrevivência do euro como tal, ainda pode causar sérios danos ao sistema bancário europeu.
Progressos recentes, como o vultoso empréstimo concedido ao país há dois dias, parecem afastar em alguma medida os cenários mais pessimistas, mas o desfecho do drama ainda é incerto. Entre esses efeitos, o contágio nas avaliações de outros países -como Portugal, Espanha, Itália e mesmo a França- pelas agências de risco. No caso da França, causa preocupação a hipótese de vitória de candidato como François Hollande, cuja plataforma vai na contramão das políticas de austeridade e redução do peso do Estado na economia, necessárias para o enfrentamento da crise.
O caso da Síria configura quadro interno de quase guerra civil.
Diferentemente da Líbia, país regional e politicamente algo isolado, a situação na Síria incide sobre seus vizinhos, como Iraque e Líbano.
Incide, também, sobre os interesses do Irã, pois pode cortar as linhas de suprimento que Teerã mantém, com apoio de Damasco, com o Hizbollah no Líbano, aliado certo no caso de conflito envolvendo Israel.
Não parece provável a repetição, no caso sírio, da ação militar ocorrida na pouco povoada e militarmente débil Líbia. A crise tende a arrastar-se, pois os revoltosos não estão em condições, pelo menos por enquanto, de derrubar o regime, mesmo com o apoio da Liga Árabe.
Bem mais agourenta é a situação envolvendo o Irã. As relações entre Teerã e a União Europeia se deterioram consideravelmente com as recentes sanções contra as exportações de petróleo iraniano.
Mais grave, contudo, é a escalada de tensões, carregadas de cunho bélico, entre Teerã, de um lado, e Tel Aviv e Washington, de outro.
Israel dá claras indicações da decisão de atacar instalações nucleares iranianas em futuro próximo.
Argumenta serem os próximos meses a última janela de oportunidade para um ataque, antes que algumas das instalações se tornem inexpugnáveis e mais próximas da capacidade de produzir uma bomba atômica.
A grande incógnita está em saber se os EUA viriam a deixar-se arrastar ao conflito. O governo Obama mostra de momento cautela, e procura mesmo conter os ímpetos mais agressivos de Israel.
Washington está consciente de que um ataque ao Irã provocaria fortes retaliações e incendiaria toda a região. Os efeitos sobre a economia internacional seriam catastróficos. O preço do petróleo, que já chegou a US$ 120 o barril por conta dos exercícios militares iranianos no estreito de Ormuz, poderia atingir níveis bem mais elevados. Abortaria a incipiente recuperação da economia norte-americana e acentuaria as tendências recessivas na Europa. Tal cenário não interessa à campanha de Obama pela reeleição -mas tampouco poderia ele ficar indiferente a um conflito que ameace a integridade de Israel.
Resta, portanto, torcer para que a crise iraniana não chegue a explodir em conflito armado, e que os EUA logrem, por meio de sanções e com o apoio dos europeus, evitar o pior.
Nem gestão, nem poupança - ROLF KUNTZ
O Estado de S.Paulo - 22/02/12
O governo promete para este ano um crescimento econômico de pelo menos 4% puxado pelo investimento. Beleza: a promessa é de mais construções, mais estradas, mais centrais elétricas, mais portos e aeroportos, mais equipamentos e máquinas para aumentar a produção e tornar a economia mais eficiente. O País deverá investir o equivalente a 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeção oficial divulgada este mês. A meta para 2014 é 24%, taxa só alcançada há muitos anos, durante o chamado milagre brasileiro. Nos últimos quatro anos essa relação ficou entre 18,1% e 19,5% e há muito tempo não se atinge a barreira de 20%. Parece pouco, para uma economia grande e destinada, segundo as autoridades, a se alinhar em breve entre as cinco maiores do mundo. Será possível chegar aos 24% sem depender excessivamente do capital estrangeiro? Mantida a taxa de poupança observada nos últimos anos, cerca de 16% do PIB, um terço do investimento dependerá de recursos do exterior e, portanto, da disposição dos poupadores estrangeiros.
A permanente escassez de investimentos parece estranha, porque o Brasil, segundo o governo, dispõe de 4 dos 16 maiores projetos de transportes do mundo - dois de ampliação das ferrovias, um ligado ao sistema metroviário e outro à construção de rodovias. Também de acordo com dados oficiais, 6 dos 15 maiores projetos do setor elétrico estão localizados no País, "com destaque para a construção da Usina de Belo Monte", como se afirma no último boletim Economia Brasileira em Perspectiva, produzido pelo Ministério da Fazenda.
A maior parte do investimento brasileiro é realizada pelo setor privado e por uma grande estatal, a Petrobrás. Até 2016, a maior parte do valor investido em infraestrutura será destinada ao setor de óleo e gás, segundo levantamento da Associação Brasileira de Tecnologia para Equipamentos e Manutenção (Sobratema), resumido em reportagem do Estado desta terça-feira. Nenhuma surpresa nessa informação. A Petrobrás tem sido responsável por uns 90% - há pequenas oscilações em torno desse número - do chamado PAC das estatais, a parcela do Programa de Aceleração do Crescimento atribuída às empresas controladas pela União.
As limitações normais do setor privado são conhecidas. Empréstimos de longo prazo dependem quase exclusivamente de uma fonte, o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Daí o uso frequente de recursos próprios para as compras de máquinas e para os planos de expansão. Além disso, paga-se imposto pesado para investir. Quando há crédito fiscal sobre o investimento ou sobre a exportação, o resgate demora anos.
Quanto aos governos, investem pouco, segundo se afirma, porque o dinheiro é curto - estranha afirmação, quando se pensa na carga tributária, maior que a dos outros emergentes e até superior ou igual à de vários países desenvolvidos, como Estados Unidos, Canadá, Japão e Suíça. A tributação brasileira é praticamente igual à da média dos países da OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (34,8% em 2008). Se a carga de impostos e contribuições é tão pesada, não há como atribuir o baixo investimento dos governos à escassez de recursos.
A resposta deve estar em dois outros fatores. Um deles, evidente, é a baixa capacidade de elaboração e execução de projetos, evidenciada pelo baixo grau de desembolsos em cada ano. Raramente o Tesouro Nacional desembolsa para investimentos metade das verbas autorizadas para cada exercício. A escassez, nesse caso, é de competência gerencial, não de dinheiro. Outro fator é o baixo nível de poupança do setor público. Segundo alguns estudiosos, isso resulta de uma escolha política do povo brasileiro. Essa escolha está refletida, por exemplo, nos gastos previdenciários e nos programas sociais. Estes foram os principais fatores de crescimento das despesas públicas nos últimos dez anos, segundo cálculos correntes. De acordo com esses cálculos, os gastos com pessoal diminuíram de 4,8% do PIB, em 2002, para estimados 4,4%, em 2012.
Há uma falácia nesses números. Uma despesa pode ter crescido em termos reais - isto é, a uma taxa superior à da inflação - e ao mesmo tempo ter diminuído como porcentagem do PIB. Os gastos federais com pessoal e encargos aumentaram bem mais que a inflação e não foram compensados por um ganho proporcional de eficiência e qualidade. Se o governo não economizou nesse item, foi por uma decisão sua, e não do povo.
Também é discutível a tese da opção popular por um modelo de baixa poupança. Nos Estados Unidos e na Inglaterra - para citar exemplos notórios - gastos públicos e opções fiscais são temas eleitorais importantes. Quando se propôs no Brasil, pela última vez, uma clara discussão eleitoral sobre a importância da poupança e sobre as opções de política fiscal?
MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO
FOLHA DE SP - 22/02/12
Multinacional de brinquedo quer elevar participação de consumo feminino
A marca de brinquedos dinamarquesa Lego, cujo público consumidor é majoritariamente masculino, pretende elevar a participação de meninas entre seus clientes.
Com a mudança, a multinacional deve se aproximar do perfil de distribuição de brinquedos por sexo praticada no mercado brasileiro.
Cerca de 40% dos 4.500 tipos de brinquedos fabricados no país são bonecas, segundo a Abrinq (que reúne o setor). Outros 25% abrangem bonecos de ação, carrinhos e bolas. O restante são jogos e brinquedos de montar.
Do total de vendas da Lego, 85% têm como público os meninos. "Só 15% são meninas. Queremos mudar esse quadro. O ideal seria ter 50%. Isso define um potencial de crescimento grande", diz Robério Esteves, responsável pela operação da Lego no Brasil.
"Há mais de dez anos, o volume de bonecas feitas no país varia de 35% a 40% do total", diz Synésio Batista, da Abrinq. "Isso ocorre, pois as meninas brincam de boneca até 12, 13 anos. Os meninos sofrem opressão e param de brincar mais cedo", afirma.
A estratégia da Lego neste ano será lançar uma linha de bonecos específica para meninas, com personagens atuais. "Já tivemos produtos femininos, mas eram mais ligados a contos de fadas. Não estavam alinhados às meninas de hoje", afirma Esteves.
O executivo, porém, nega que a intenção seja concorrer com bonecas como Barbies. "Nosso produto é de montar."
"Apenas 15% das nossas vendas são para meninas. Queremos mudar esse quadro. O ideal seria ter 50%"
ROBÉRIO ESTEVES
representante da empresa
Serviços de aeroporto operado por empresa de Viracopos pioram
Os serviços de um dos aeroportos administrados pela empresa francesa Egis decaíram no último ano, segundo a avaliação dos usuários. A Egis é a mesma companhia que ganhou a concessão de Viracopos, em Campinas.
Os passageiros que circularam pelo aeroporto de Larnaca, no Chipre, apontaram piora em 20 serviços. No total, 33 foram analisados. Dez deles permaneceram iguais e os outros três tiveram melhoras entre maio e novembro de 2011, ante mesmo período do ano anterior.
Atrasos em voos ocorridos em 2011 são apontados como os responsáveis pela avaliação negativa.
A Egis frisa que, apesar da queda nas notas concedidas pelos usuários, a maioria dos itens analisados foram considerados bons, muito bons ou excelentes.
De fato, nenhum quesito foi avaliado como regular ou ruim pelos passageiros.
Em outro aeroporto do Chipre, na cidade de Paphos, operado pela mesma empresa, porém, a avaliação melhorou. Dos 33 itens, 30 tiveram notas superiores em 2011 e três, iguais às registradas no ano anterior.
A Egis começou a operar os aeroportos em maio de 2006. As obras de ampliação foram concluídas em 2009, e as primeiras avaliações foram feitas logo em seguida.
Multinacional de brinquedo quer elevar participação de consumo feminino
A marca de brinquedos dinamarquesa Lego, cujo público consumidor é majoritariamente masculino, pretende elevar a participação de meninas entre seus clientes.
Com a mudança, a multinacional deve se aproximar do perfil de distribuição de brinquedos por sexo praticada no mercado brasileiro.
Cerca de 40% dos 4.500 tipos de brinquedos fabricados no país são bonecas, segundo a Abrinq (que reúne o setor). Outros 25% abrangem bonecos de ação, carrinhos e bolas. O restante são jogos e brinquedos de montar.
Do total de vendas da Lego, 85% têm como público os meninos. "Só 15% são meninas. Queremos mudar esse quadro. O ideal seria ter 50%. Isso define um potencial de crescimento grande", diz Robério Esteves, responsável pela operação da Lego no Brasil.
"Há mais de dez anos, o volume de bonecas feitas no país varia de 35% a 40% do total", diz Synésio Batista, da Abrinq. "Isso ocorre, pois as meninas brincam de boneca até 12, 13 anos. Os meninos sofrem opressão e param de brincar mais cedo", afirma.
A estratégia da Lego neste ano será lançar uma linha de bonecos específica para meninas, com personagens atuais. "Já tivemos produtos femininos, mas eram mais ligados a contos de fadas. Não estavam alinhados às meninas de hoje", afirma Esteves.
O executivo, porém, nega que a intenção seja concorrer com bonecas como Barbies. "Nosso produto é de montar."
"Apenas 15% das nossas vendas são para meninas. Queremos mudar esse quadro. O ideal seria ter 50%"
ROBÉRIO ESTEVES
representante da empresa
Serviços de aeroporto operado por empresa de Viracopos pioram
Os serviços de um dos aeroportos administrados pela empresa francesa Egis decaíram no último ano, segundo a avaliação dos usuários. A Egis é a mesma companhia que ganhou a concessão de Viracopos, em Campinas.
Os passageiros que circularam pelo aeroporto de Larnaca, no Chipre, apontaram piora em 20 serviços. No total, 33 foram analisados. Dez deles permaneceram iguais e os outros três tiveram melhoras entre maio e novembro de 2011, ante mesmo período do ano anterior.
Atrasos em voos ocorridos em 2011 são apontados como os responsáveis pela avaliação negativa.
A Egis frisa que, apesar da queda nas notas concedidas pelos usuários, a maioria dos itens analisados foram considerados bons, muito bons ou excelentes.
De fato, nenhum quesito foi avaliado como regular ou ruim pelos passageiros.
Em outro aeroporto do Chipre, na cidade de Paphos, operado pela mesma empresa, porém, a avaliação melhorou. Dos 33 itens, 30 tiveram notas superiores em 2011 e três, iguais às registradas no ano anterior.
A Egis começou a operar os aeroportos em maio de 2006. As obras de ampliação foram concluídas em 2009, e as primeiras avaliações foram feitas logo em seguida.
PROGRAMAÇÃO ESPORTIVA NA TV
11h - Zenit x Friedrichshafen, Liga dos Campeões masculina de vôlei, Bandsports
15h - Manchester City x Porto, Liga Europa, RedeTV! e ESPN Brasil
15h30 - Sochaux x Lille, Campeonato Francês, Sportv
17h30 - Macerata x Trentino, Liga dos Campeões masculina de vôlei, Bandsports
17h45 - Basel x Bayern de Munique, Copa dos Campeões, ESPN Brasil
17h45 - Olympique de Marselha x Inter de Milão, Copa dos Campeões, ESPN e ESPN HD
19h30 - Santos x Comercial, Campeonato Paulista, Sportv
20h45 - Universidad de Chile x Godoy Cruz (ARG), Taça Libertadores, Fox Sports
21h50 - Bragantino x São Paulo, Band e Globo
22h - Oklahoma City Thunder x Boston Celtics, NBA, ESPN e ESPN HD
23h - Vélez Sarsfield (ARG) x Chivas (MEX), Taça Libertadores, Fox Sports
CLAUDIO HUMBERTO
"O que é que vocês vão fazer com esse problema político?"
Patrícia Schulz, perita suíça, sobre as 200 mil mulheres que morrem fazendo aborto
Demora em designar relator pode ser esperteza
O presidente da Câmara, Marco Maia, tem sido alvo de críticas de deputados e técnicos da Casa pela demora em designar relatores para as medidas provisórias. As propostas são entregues ao relator às vésperas de caducarem, favorecendo os "contrabandos" de emendas que nada têm com a matéria original. Com o prazo quase estourado, medidas acabam sendo aprovadas às pressas, com penduricalhos.
Perigo
Em uma MP sobre produção de café, Eduardo Cunha (PMDB) incluiu facilidades para contratação de obras da Copa e do pré-sal.
Faca
Para emplacar a cunha do deputado Eduardo, a bancada dos espertos ameaçou atrapalhar a votação da MP. Sem saída, o governo cedeu.
Empacada
Proposta do senador Aécio Neves (PSDB-MG) proíbe o contrabando em medidas provisórias. Continua empacada na Câmara, claro.
Oportunidades
Pelo menos cinco medidas provisórias aguardam a designação de relator na Câmara. Sem qualquer perspectiva. Exceto de mais jabutis.
Blocão
Após perder o direito à presidência de comissões permanentes, o PSD agora articula para formar um blocão na Câmara. Além de acertar com PSB e PTB, o partido do prefeito paulistano Gilberto Kassab pretende estender a parceria a outras siglas para aumentar o poder de fogo. A formação do bloco muda a correlação de forças e põe em risco acordo entre PT e PMDB para a sucessão na presidência da Casa em 2013.
Cabo de guerra
Receoso de entregar ao PMDB o comando da Câmara e do Senado, o PT faz vista grossa à criação do blocão. Quer ver o circo pegar fogo.
Em campanha
Candidatíssimo a presidente da Câmara, o líder do PMDB Henrique Alves saiu em defesa do PSD na briga pelo comando de comissões.
Retomada
O ministro Valmir Campelo, que estará aposentado no Tribunal de Contas da União, é forte candidato ao governo do DF em 2014.
Puxadores
Depois da bajulação a Lula, a Gaviões da Fiel já pode pensar no próximo samba-enredo para d. Marisa, que, cantando, representou o marido no desfile: "Quem com botox te vê não te reconhece jamais."
Tobogã
Está pronto o tobogã para o ministro Guido Mantega (Fazenda) deslizar para fora do governo. Em março, ele vai ao Congresso depor sobre o escândalo da Casa da Moeda. Se até lá Dilma não se livrar dele.
Cão de guarda
O presidente porralouca do Equador, Rafael Correa, convocou o povo a defender, dia 8, a "revolução cidadã" contra os protestos da oposição, após arrancar US$40 milhões em multas de jornal que o criticou.
Dança
Pela primeira vez na história da Alemanha, um chefe de Estado, no caso Dilma, visitará o país sem presidente, terça (6), após a renúncia de Christian Wulff. Não existe vice, e a escolha será no domingo (18).
Chapéu
Ex-prefeito de Ariquemes (RO), o ex-deputado Ernandes Amorim deu cano de R$ 1,1 mil na Câmara dos Deputados. Saiu do apê funcional gratuito devendo telefone, luz e gás. Tem 90 dias para pagar.
Sem barganha
O PSOL batalha no Tribunal Regional Eleitoral para conseguir direito a programa partidário nas rádios e TVs de São Paulo. Sem tempo televisivo, o partido perde poder de barganha nas eleições municipais.
Contra-ataque
Diante da movimentação dos ruralistas para fazer mudanças no projeto do Código Florestal, a Frente Parlamentar Ambientalista se reunirá na quarta (29) com movimentos sociais. Discutirão novas estratégias.
Incomunicável
O secretário de Comunicação do PT, o deputado André Vargas, jogou a toalha, alertado por petista sobre seus erros grosseiros no Twitter: "Realmente cometo alguns assassinatos ao (sic) Rui (sic) Barbosa."
PODER SEM PUDOR
Parente e parceiro
O deputado Manuel Gilberto fazia oposição sem tréguas ao governador Moura Cavalcanti ("no Nordeste, quem não é Cavalcanti é cavalgado", dizia), em Pernambuco, e sempre dava um jeito de mostrar intimidade com a obra de Eça de Queiroz. Certa vez, ao responder a aparte do colega Maviel Cavalcanti, primo do governador, ele ironizou:
- Vossa Excelência tem mesmo que defender esse governo, porque, tal qual um personagem de Eça, o deputado é parente, patrício e parceiro.
QUARTA NOS JORNAIS
- Globo: Estandarte é da Vila
- Folha: Carnaval de SP termina em incêndio e depredação
- Estadão: Ajuda à Grécia é vista com pessimismo
- Correio: A quaresma de Dilma
- Valor: Cosan está perto de entrar no bloco de controle da ALL
- Estado de Minas: Classe média no sufoco
- Jornal do Commercio: O frevo é do mundo
- Zero Hora: União cobrará R$911 mil de prefeitos gaúchos cassados
terça-feira, fevereiro 21, 2012
Uma chance para Obama - MYLES FRECHETTE e JOHN MARIO GONZÁLEZ
O GLOBO - 21/02/12
Em setembro de 2008, em plena turbulência da crise financeira desatada naquele ano, o então ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrück, afirmou, diante do Bundestag, câmara baixa do Parlamento alemão, que "os EUA perderão seu status como grande potência do sistema financeiro internacional" e, poucos meses depois, o então presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, acusava pessoas "brancas de olhos azuis" de provocar a crise mundial.
Os comentários, feitos como parte de um ciclone de digressões sobre um declínio de poder dos EUA após os atentados das Torres Gêmeas em 2001, embora ressalvassem a complexidade dos esforços para enfrentar a ameaça terrorista e a resiliência dos EUA, mostravam os enormes desafios que seu próximo presidente enfrentaria. Também ressaltavam que entre suas prioridades dificilmente estaria uma política ativa para a América Latina.
Como o demonstraria a frenética atividade do presidente Obama desde janeiro de 2009, sua agenda estava focada em superar os problemas ocasionados pelo estouro da bolha imobiliária, os do sistema financeiro, do emprego, da crise Afeganistão-Paquistão e Iraque, assim como aprovar a reforma da saúde.
Alguns esforços de Obama, como sua declaração na Cúpula das Américas de Trinidad e Tobago em 2009 de que "não há sócio principal e sócio menor em nossas relações, que se baseiam simplesmente num compromisso de respeito mútuo, interesses comuns e valores compartilhados", foram afogados pela cacofonia populista antiamericana de outros mandatários latino-americanos. Igualmente, seu propósito pessoal de impulsionar uma relação especial com os líderes de Brasil, Chile e México, ao recebê-los na Casa Branca em 2009, e ao visitar seus sucessores no Brasil, Chile e El Salvador, em março de 2011, teve resultados modestos.
Embora o afã da diplomacia americana seja louvável, como demonstra o fato de Hillary Clinton ter viajado com mais frequência à região que qualquer outro secretário de Estado na história moderna dos EUA, e mantenha o compromisso em programas críticos para combater o narcotráfico e aumentar a segurança em México, América Central, Caribe, Colômbia e outros países andinos, o cenário foi desperdiçado.
Se a ausência de uma política externa americana mais dinâmica na América Latina possa ser entendida à luz da situação de crise, as circunstâncias atuais delineiam um contexto distinto e mais promissor para relançar uma política ambiciosa para a região. A próxima Cúpula das Américas, dias 14 e 15 de abril, em Cartagena, na Colômbia, oferece uma conjuntura peculiar para que o presidente Obama possa apresentar as novas linhas de uma política para a América Latina, na qual deveriam estar presentes pelo menos uma agressiva posição de luta contra as drogas internamente, nos EUA, e o compromisso decidido de impulsionar a reforma da política para os imigrantes.
O presidente Obama obteve êxitos em sua política externa a partir de complexas cirurgias políticas que não só demonstram sua extraordinária capacidade como também o fato de que o declínio dos EUA parece não figurar num futuro próximo. Muitos já são os exemplos dessas complexas, e em vários casos exitosas, operações políticas, tais como a Primavera Árabe e a operação na Líbia, a estratégia para Afeganistão-Paquistão, a abertura do regime de Myanmar, o recente aumento de tropas na Austrália e da presença no Mar do Sul da China ou a estratégia de aproximação com as ambições nucleares do Irã.
Apesar do contexto de hostilidade de algun governos na América Latina, e inclusive em razão disso, aumentam as razões para elevar o status das relações entre os EUA e a região. Prova disso é a designação pelo governo Obama de um enviado especial para a América Latina.
Em primeiro lugar, porque, a continuar a recuperação econômica e da confiança nos EUA, a reeleição de Obama não é somente um cenário altamente factível, como poderá se tratar de um mandatário com estatura internacional sem precedentes. Suas conquistas permitiram mudar a imagem dos EUA no mundo e a reverteram na América Latina, como evidencia a pesquisa Latinobarômetro de 2011, na qual Obama aparece como o presidente mais bem avaliado e em que dois terços da população latino-americana (72%) mostraram uma atitude favorável aos EUA, aumento de 15 a 25 pontos em relação a 2008.
Em segundo lugar porque enormes podem ser os ganhos para o Hemisfério com um trabalho mais agressivo de coordenação política que faça contrapeso ao discurso hostil aos EUA adotado por alguns mandatários. Embora na região tenha havido nos últimos 20 anos inúmeros foros de negociação política, com a tendência recente de excluir os EUA, seus resultados têm sido mais vagos e retóricos que práticos. O presidente Obama poderia explorar a viabilidade de impulsionar a OEA ou um organismo com maiores condições de aprofundar a integração política.
Adicionalmente, o comércio entre os EUA e a América Latina e o Caribe alcançou US$ 524 bilhões em 2009. Apesar de o comércio da América Latina com a Ásia ter crescido em ritmo acelerado, os EUA seguem sendo o destino mais importante das exportações da América Latina e do Caribe, que também são um destino primordial das exportações americanas.
Finalmente, na América Latina há alguns presidentes com uma liderança construtiva em relação aos EUA que poderão apoiar uma aliança mais ambiciosa em benefício da região, como os mandatários da Colômbia, Juan Manuel Santos, de El Salvador, Mauricio Funes, ou do Chile, Sebastián Piñera.
O momento para o relançamento das relações entre os EUA e a América Latina passa por uma conjuntura singular, entre outras coisas, porque, contrariamente às digressões que anteciparam um declínio do poder e do papel dos EUA, a tendência de superação de sua crise pode catapultar o país para o exercício sem precedentes de sua liderança.
Desfiles políticos - DENISE ROTHENBURG
CORREIO BRAZILIENSE - 21/02/12
Ao apresentar maravilhas do governo Lula na avenida, a escola deixou a impressão de que quem fez pelo Brasil pode fazer o mesmo por São Paulo. Jogou as bases de um projeto do PT não só para 2012 como também para 2014
Se o carnaval de 2010 foi pródigo em apresentar os pré-candidatos a presidente da República, este, de 2012, pode ser definido em termos políticos como uma festa destinada a mostrar arranjos futuros e construção de enredos nos mais diversos partidos. O mais visível deles envolveu o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, criador do PSD. Ao aparecer ao lado do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no Galo da Madrugada, no primeiro dia de folia, Kassab colocou cercas no apoio que deverá dar ao ex-governador de São Paulo José Serra. E ainda reforçou os laços com o PSB, presidido por Campos.
Kassab ficou menos de 10 horas em solo pernambucano. Fez questão de dar entrevista ao lado de Eduardo Campos antes de partirem para o desfile do Galo. Não o faria se não tivesse o objetivo de fixar alguns parâmetros atuais e futuros. Ali, se referiu a Eduardo Campos como “seu líder”, mas, ao mesmo tempo, não dispensou o apoio a Serra em São Paulo.
Para bons entendedores do PSD e fora dele, Kassab delimitou espaço e tempo: no momento, apoia Serra na província. Quanto ao futuro, prefere jogar com Eduardo Campos e não com o PSDB. Se será mesmo assim, dependerá de uma penca de fatores, inclusive da eleição paulistana deste ano e o PT.
Por falar em PT…
Enquanto Kassab fazia uma fezinha em Pernambuco, os petistas faziam seus gestos na capital paulista. A homenagem que o ex-presidente Lula recebeu da escola de samba Gaviões da Fiel, em pleno ano eleitoral, não pode ser lida como mera obra do acaso. Ao apresentar maravilhas do governo Lula na avenida, a escola deixou a impressão de que quem fez pelo Brasil pode fazer o mesmo por São Paulo. Jogou as bases não só de um projeto para 2012 como também para 2014.
Embora o presidente não estivesse na avenida, lá estavam a mulher dele, d. Marisa, a história de vida e a propaganda de seu governo. Assim como em 2010, esteve nas telas de cinema com o filme, Lula um filho do Brasil. Naquela época, maio do ano eleitoral, o então presidente planejava eleger a sucessora, como desta vez trabalha para eleger Fernando Haddad prefeito de São Paulo contra os tucanos.
Por falar nos tucanos…
Da parte do PSDB, os movimentos ficaram mais restritos aos bastidores e ao noticiário. Ao apresentar a candidatura de Serra como a “resistência ao projeto petista” de conquistar São Paulo — como fez Sérgio Guerra em recente entrevista à jornalista Cristiane Samarco, do Estadão —, o PSDB trata de nacionalizar o pleito e repor Kassab e seu PSD na órbita oposicionista.
Foi justamente para não deixar passar essa ideia de oposicionista que o prefeito foi ao Galo da Madrugada, em Recife, onde tem um aliado capaz de entender o gesto de apoiar Serra em São Paulo. Parte dos socialistas está convicta de que, para o PSB de Eduardo Campos, não é interessante deixar o PT “tomar tudo”.
Não é segredo para ninguém o modus operandi do PT, de sempre dar um jeito de impor seus candidatos sobre os dos demais partidos. E, no momento em que o partido de Lula tiver São Paulo nas mãos, dentre outras cidadelas importantes, alguns avaliam que o sonho do PSB por uma candidatura presidencial vai pelo ralo. Ocorre que, da sua parte, Eduardo Campos não tem como deixar de apoiar Haddad em São Paulo. Quer o PSB goste ou não. Da mesma forma, Kassab não pode deixar de apoiar Serra. Quer o PSD goste ou não.
Diante de tantos compromissos e dívidas de gratidão, Eduardo Campos e Kassab preferiram deixar acertado um encontro para o futuro. Se não conseguirem levar o projeto adiante em 2014, por conta das circunstâncias ou essas mesmas dívidas, podem deixar para 2018. Afinal, assim como é certeza ter o Galo da Madrugada todos os anos, é certo que Eduardo e Kassab não estão na avenida apenas para fazer figuração ou ficar sempre com o papel de coadjuvantes.
Se o carnaval de 2010 foi pródigo em apresentar os pré-candidatos a presidente da República, este, de 2012, pode ser definido em termos políticos como uma festa destinada a mostrar arranjos futuros e construção de enredos nos mais diversos partidos. O mais visível deles envolveu o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, criador do PSD. Ao aparecer ao lado do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, no Galo da Madrugada, no primeiro dia de folia, Kassab colocou cercas no apoio que deverá dar ao ex-governador de São Paulo José Serra. E ainda reforçou os laços com o PSB, presidido por Campos.
Kassab ficou menos de 10 horas em solo pernambucano. Fez questão de dar entrevista ao lado de Eduardo Campos antes de partirem para o desfile do Galo. Não o faria se não tivesse o objetivo de fixar alguns parâmetros atuais e futuros. Ali, se referiu a Eduardo Campos como “seu líder”, mas, ao mesmo tempo, não dispensou o apoio a Serra em São Paulo.
Para bons entendedores do PSD e fora dele, Kassab delimitou espaço e tempo: no momento, apoia Serra na província. Quanto ao futuro, prefere jogar com Eduardo Campos e não com o PSDB. Se será mesmo assim, dependerá de uma penca de fatores, inclusive da eleição paulistana deste ano e o PT.
Por falar em PT…
Enquanto Kassab fazia uma fezinha em Pernambuco, os petistas faziam seus gestos na capital paulista. A homenagem que o ex-presidente Lula recebeu da escola de samba Gaviões da Fiel, em pleno ano eleitoral, não pode ser lida como mera obra do acaso. Ao apresentar maravilhas do governo Lula na avenida, a escola deixou a impressão de que quem fez pelo Brasil pode fazer o mesmo por São Paulo. Jogou as bases não só de um projeto para 2012 como também para 2014.
Embora o presidente não estivesse na avenida, lá estavam a mulher dele, d. Marisa, a história de vida e a propaganda de seu governo. Assim como em 2010, esteve nas telas de cinema com o filme, Lula um filho do Brasil. Naquela época, maio do ano eleitoral, o então presidente planejava eleger a sucessora, como desta vez trabalha para eleger Fernando Haddad prefeito de São Paulo contra os tucanos.
Por falar nos tucanos…
Da parte do PSDB, os movimentos ficaram mais restritos aos bastidores e ao noticiário. Ao apresentar a candidatura de Serra como a “resistência ao projeto petista” de conquistar São Paulo — como fez Sérgio Guerra em recente entrevista à jornalista Cristiane Samarco, do Estadão —, o PSDB trata de nacionalizar o pleito e repor Kassab e seu PSD na órbita oposicionista.
Foi justamente para não deixar passar essa ideia de oposicionista que o prefeito foi ao Galo da Madrugada, em Recife, onde tem um aliado capaz de entender o gesto de apoiar Serra em São Paulo. Parte dos socialistas está convicta de que, para o PSB de Eduardo Campos, não é interessante deixar o PT “tomar tudo”.
Não é segredo para ninguém o modus operandi do PT, de sempre dar um jeito de impor seus candidatos sobre os dos demais partidos. E, no momento em que o partido de Lula tiver São Paulo nas mãos, dentre outras cidadelas importantes, alguns avaliam que o sonho do PSB por uma candidatura presidencial vai pelo ralo. Ocorre que, da sua parte, Eduardo Campos não tem como deixar de apoiar Haddad em São Paulo. Quer o PSB goste ou não. Da mesma forma, Kassab não pode deixar de apoiar Serra. Quer o PSD goste ou não.
Diante de tantos compromissos e dívidas de gratidão, Eduardo Campos e Kassab preferiram deixar acertado um encontro para o futuro. Se não conseguirem levar o projeto adiante em 2014, por conta das circunstâncias ou essas mesmas dívidas, podem deixar para 2018. Afinal, assim como é certeza ter o Galo da Madrugada todos os anos, é certo que Eduardo e Kassab não estão na avenida apenas para fazer figuração ou ficar sempre com o papel de coadjuvantes.
Deixem que os muçulmanos cuidem de si - WILLIAM STODDART e MATEUS SOARES DE AZEVEDO
FOLHA DE SP - 21/02/12
A estratégia ocidental de impor a democracia a qualquer preço tem criado caos social, dá poder a uma ala mais intolerante do islã e prejudica até mesmo Israel
A tragédia no estádio de futebol de Port Said, no norte do Egito -país cuja população alcança expressivos 81 milhões de habitantes, algo que faz dele uma das cinco maiores nações muçulmanas no mundo-, aliada às suas conotações e implicações políticas e às suas possíveis consequências futuras, obriga-nos a colocar a seguinte questão.
O que está acontecendo atualmente no mundo islâmico e árabe é de fato uma "primavera" ou é antes um pesadelo?
Outra pergunta, relacionada a essa: o que a população do Iraque (30 milhões de habitantes) ganhou depois de nove anos de "regime change" dos neocons americanos e de "imposição" da democracia?
A resposta não é complicada: um país profundamente dividido, com um guerra civil e sectária que tem feito milhares e milhares de vítimas, na maior parte civis muçulmanos.
No Iraque, a "exportação" forçada da democracia levou ao domínio da maioria xiita (que é minoritária no islã global) e à opressão da minoria sunita (majoritária no mundo islâmico).
Esse é o legado deixado pela ocupação norte-americana. Ela, mesmo do ponto de vista dos interesses maiores dos EUA, era a rigor desnecessária, pois os Estados Unidos não tinham nenhuma razão de força maior para ocupar o Iraque. O país se rendeu, de forma inconsequente, às pressões de Israel e de seus partidários internos.
Mas, se a ocupação do Iraque favoreceu os desígnios estratégicos israelenses, a turbulência e incerteza em países como Egito, Síria e Líbia, entre outros, parece até aqui ter sido bastante desfavorável para esses mesmos desígnios.
Se, no tempo de Mubarak, o Egito era favorável a eles, mesmo contra a opinião majoritária da "rua árabe", hoje isto não vale mais.
Israel já perdeu a Turquia, que é um dos mais fortes países islâmicos, e agora está perdendo o Egito, ambos crucialmente estratégicos para os seus interesses.
Seja como for, a estratégia da "democracia a qualquer preço" tem paradoxalmente premiado em especial os defensores de um islã limitado e truncado, eventualmente violento. O islã integral, que é simultaneamente tradicional e espiritual, padece nas mãos desses seus intolerantes e supostos "defensores" fundamentalistas.
No Egito, essa ideologia contribuiu para intensificar o caos social e econômico, e no final fortaleceu fundamentalistas militantes. Por exemplo: a Irmandade Muçulmana, minando a influência do islã tradicional, que é pacífico e tolerante.
Já temos suficientes problemas no Ocidente, permitamos aos muçulmanos autênticos a tarefa de cuidar de si mesmos.
O islã tem uma civilização de 1.400 anos de realizações impressionantes em intelectualidade, em espiritualidade, em cultura, em arte, em ciências e em organização social e política.
O islã tradicional é uma civilização viva que tem moldado o pensamento e a vida de mais de um bilhão de pessoas espalhadas pelos cinco continentes.
As suas escolas de espiritualidade ("sufismo"), de jurisprudência ("fiqh"), de teologia ("kalam") e de filosofia ("falsafah") provêm a base sobre a qual agir em conformidade com princípios estáveis e duradouros. Algo imposto do exterior, por meio de força militar e econômica, mais e mais assume as cores de um totalitarismo disfarçado.
Dentes e cuecas - JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SP - 21/02/12
Uma coroa dentária de Elvis Presley poderá chegar aos R$ 28 mil em próximo leilão. Não seria inédito.
É inevitável não rir: tempos atrás, li na divina "Literary Review" um artigo hilariante sobre a importância das relíquias sagradas na Europa medieval.
A importância das ditas era imensa -para a propagação da fé e para a encenação dos ritos. Mas era igualmente importante para que as igrejas proclamassem a sua fama, o seu poder -e atraíssem oferendas dos peregrinos de todo o continente.
Neste regime de concorrência entre igrejas, onde cada uma publicitava as suas melhores relíquias como os grandes museus de hoje publicitam os seus acervos, havia guerras ocasionais.
E alguns episódios bizarros: contava Jonathan Sumption, autor do artigo, que, no século 12, são Hugo, bispo de Lincoln, não se teria portado condignamente quando pernoitou na abadia francesa de Fécamp.
Tomado pela ganância das relíquias, foi apanhado pelo anfitrião, ao meio da noite, a tentar arrancar o dedo do alegado braço de Maria Madalena.
Quando o dedo insistia em não sair, são Hugo tentou arrancá-lo com os dentes: primeiro, com os incisivos; depois, com os molares. A história horrorizou os prelados franceses, mas são Hugo não mostrou arrependimento.
É inevitável não rir, disse eu. Mas é injusto fazê-lo: o culto de relíquias sagradas foi recuando no Ocidente laico a partir do século 18.
Mas os homens, "animais religiosos" por definição, sempre tiveram horror ao vazio. Como dizia o sapiente Chesterton, quando os homens não acreditam em Deus, eles não passam a acreditar em nada; eles acreditam simplesmente em qualquer coisa.
Revisitar a história do século 20 é encontrar a influência que as "religiões seculares" (expressão de Raymond Aron para o comunismo e o nazifascismo) tiveram sobre a vida de milhões de seres humanos. Mas não é preciso ir tão longe para identificar versões abastardadas de fé religiosa na alma dos contemporâneos.
Hoje mesmo, com o café da manhã, encontro no "Sunday Telegraph" uma lista generosa com algumas relíquias bizarras que têm aparecido em leilões. Relíquias de celebridades, entenda-se, com particular destaque para dentes e dentaduras.
Informa o jornal que uma coroa dentária de Elvis Presley poderá chegar aos R$ 28 mil em próximo leilão. Não seria inédito. O dente molar que John Lennon teria oferecido à empregada doméstica foi vendido por R$ 53 mil em novembro passado.
Mas o melhor da lista é a dentadura postiça de sir Winston Churchill, arrebatada há uns anos por R$ 41 mil. Infelizmente, ninguém me avisou a tempo. Empréstimo bancário é para isso mesmo.
Quem não gosta de dentes, pode sempre optar pelas cuecas que John F. Kennedy usou durante o serviço militar (vendidas em 2001 por modestos R$ 9 mil); ou então por um set com três chapas de raio-X de Marilyn Monroe. Data: 1954. Preço: R$ 77 mil. Pormenor: as chapas são do peito de Marilyn, o que talvez explique o preço inflacionado.
Regresso ao artigo de Jonathan Sumption, que cita são Tomás de Aquino: na Idade Média, as relíquias sagradas reuniam três qualidades fundamentais -continuidade, espiritualidade e abertura à dádiva divina.
Por outras palavras, as relíquias permitiam aos peregrinos manter o contato com os mortos; observar representações tangíveis da alma do santo; e, mais importante, canalizar a fé (e os pedidos terrenos) para um objeto potencialmente milagroso.
São qualidades que passaram dos peregrinos de ontem para os fãs de agora: quem compra a dentadura de Churchill não espera apenas um contato sensível com o seu ídolo; espera também que as qualidades milagrosas de sabedoria, coragem e resiliência, exibidas por Churchill na Segunda Guerra Mundial, possam também transitar de gengiva para gengiva.
Por isso aviso: se você, leitor, é pessoa famosa e com legião de seguidores, não se esqueça de ir fazendo o enxoval: dentes, unhas, cabelos, eventualmente dedos ou membros inteiros -tudo serve.
E roupa também: eu, pelo sim, pelo não, tenho acumulado desde a infância as fraldas e as cuecas que acompanharam o meu crescimento. Os dentes e a língua, só por cima do meu cadáver. Literalmente.
Com sorte, os meus descendentes terão a vida garantida pela paciência de santo do avô.
Uma coroa dentária de Elvis Presley poderá chegar aos R$ 28 mil em próximo leilão. Não seria inédito.
É inevitável não rir: tempos atrás, li na divina "Literary Review" um artigo hilariante sobre a importância das relíquias sagradas na Europa medieval.
A importância das ditas era imensa -para a propagação da fé e para a encenação dos ritos. Mas era igualmente importante para que as igrejas proclamassem a sua fama, o seu poder -e atraíssem oferendas dos peregrinos de todo o continente.
Neste regime de concorrência entre igrejas, onde cada uma publicitava as suas melhores relíquias como os grandes museus de hoje publicitam os seus acervos, havia guerras ocasionais.
E alguns episódios bizarros: contava Jonathan Sumption, autor do artigo, que, no século 12, são Hugo, bispo de Lincoln, não se teria portado condignamente quando pernoitou na abadia francesa de Fécamp.
Tomado pela ganância das relíquias, foi apanhado pelo anfitrião, ao meio da noite, a tentar arrancar o dedo do alegado braço de Maria Madalena.
Quando o dedo insistia em não sair, são Hugo tentou arrancá-lo com os dentes: primeiro, com os incisivos; depois, com os molares. A história horrorizou os prelados franceses, mas são Hugo não mostrou arrependimento.
É inevitável não rir, disse eu. Mas é injusto fazê-lo: o culto de relíquias sagradas foi recuando no Ocidente laico a partir do século 18.
Mas os homens, "animais religiosos" por definição, sempre tiveram horror ao vazio. Como dizia o sapiente Chesterton, quando os homens não acreditam em Deus, eles não passam a acreditar em nada; eles acreditam simplesmente em qualquer coisa.
Revisitar a história do século 20 é encontrar a influência que as "religiões seculares" (expressão de Raymond Aron para o comunismo e o nazifascismo) tiveram sobre a vida de milhões de seres humanos. Mas não é preciso ir tão longe para identificar versões abastardadas de fé religiosa na alma dos contemporâneos.
Hoje mesmo, com o café da manhã, encontro no "Sunday Telegraph" uma lista generosa com algumas relíquias bizarras que têm aparecido em leilões. Relíquias de celebridades, entenda-se, com particular destaque para dentes e dentaduras.
Informa o jornal que uma coroa dentária de Elvis Presley poderá chegar aos R$ 28 mil em próximo leilão. Não seria inédito. O dente molar que John Lennon teria oferecido à empregada doméstica foi vendido por R$ 53 mil em novembro passado.
Mas o melhor da lista é a dentadura postiça de sir Winston Churchill, arrebatada há uns anos por R$ 41 mil. Infelizmente, ninguém me avisou a tempo. Empréstimo bancário é para isso mesmo.
Quem não gosta de dentes, pode sempre optar pelas cuecas que John F. Kennedy usou durante o serviço militar (vendidas em 2001 por modestos R$ 9 mil); ou então por um set com três chapas de raio-X de Marilyn Monroe. Data: 1954. Preço: R$ 77 mil. Pormenor: as chapas são do peito de Marilyn, o que talvez explique o preço inflacionado.
Regresso ao artigo de Jonathan Sumption, que cita são Tomás de Aquino: na Idade Média, as relíquias sagradas reuniam três qualidades fundamentais -continuidade, espiritualidade e abertura à dádiva divina.
Por outras palavras, as relíquias permitiam aos peregrinos manter o contato com os mortos; observar representações tangíveis da alma do santo; e, mais importante, canalizar a fé (e os pedidos terrenos) para um objeto potencialmente milagroso.
São qualidades que passaram dos peregrinos de ontem para os fãs de agora: quem compra a dentadura de Churchill não espera apenas um contato sensível com o seu ídolo; espera também que as qualidades milagrosas de sabedoria, coragem e resiliência, exibidas por Churchill na Segunda Guerra Mundial, possam também transitar de gengiva para gengiva.
Por isso aviso: se você, leitor, é pessoa famosa e com legião de seguidores, não se esqueça de ir fazendo o enxoval: dentes, unhas, cabelos, eventualmente dedos ou membros inteiros -tudo serve.
E roupa também: eu, pelo sim, pelo não, tenho acumulado desde a infância as fraldas e as cuecas que acompanharam o meu crescimento. Os dentes e a língua, só por cima do meu cadáver. Literalmente.
Com sorte, os meus descendentes terão a vida garantida pela paciência de santo do avô.
O passo seguinte - MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 21/02/12
Uma nova reunião ontem em Bruxelas dos ministros das finanças da Zona do Euro foi o suficiente para deixar as bolsas animadas. O mundo não leva tão a sério assim o carnaval e tudo continua funcionando.
O que se pode esperar é um acordo que permita a liberação de mais uma prestação do empréstimo para a Grécia, com a qual o país irá rolar a dívida que vence em março. Isso é a solução? Não.
Uma análise feita pelas autoridades que representam os países do euro e os credores, a troica (FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia), projeta que, mesmo se a dívida grega for reduzida em C 100 bilhões, pelo sucesso da negociação com os bancos, o país em 2020 estará com dívida de 129% do PIB. Eles exigiam 120%. No final do dia já aceitavam 125%. Que diferença faz? Qualquer um desses números é absurdamente alto. Qual a capacidade de um país, qualquer que seja, manter um ajuste tão longo em suas contas para conseguir um resultado tão medíocre? Todo ajuste fiscal é de longo prazo e precisa da manutenção de metas de superávits cumpridas por vários anos para se conquistar indicadores melhores.
Mas a partir de um determinado ponto o país só faz encolher, o que eleva a dívida pública mesmo se os juros forem zero. A Grécia está prisioneira dessa armadilha. Este é o quarto ano em que o PIB vai diminuir, então a dívida aumentaria mesmo se em volume permanecesse estável, porque seria mais alta como proporção do PIB. Mas não permanece estável porque os juros têm subido quanto maior é a crise no país.
Qualquer ajuste além de um determinado ponto não é economicamente viável e pode não ser viável politicamente.
Num artigo publicado no "Financial Times", o articulista Wolfgang Münchau disse que "nós estamos num ponto em que o sucesso não é mais compatível com a democracia".
Ele acha que se os credores tiverem sucesso em impor ao novo governo uma política econômica estarão criando a primeira colônia da Zona do Euro.
O compromisso assumido pelo então candidato Luiz Inácio Lula da Silva não é comparável à carta que as autoridades da Zona do Euro exigiram dos candidatos à próxima eleição grega, de abril. Na Carta aos Brasileiros, o que Lula se comprometia era do interesse geral; a manutenção da estabilidade do real. A Carta afastou os temores em relação à mudança de partido no poder, e ele foi eleito. Agora, o que se quer dos gregos não tem apoio na maioria da sociedade.
Se o remédio amargo for rejeitado democraticamente, como pode ser imposto? "Como impedir um novo governo grego e um novo parlamento de unilateralmente mudar o acordo?", pergunta o articulista do "Financial Times". A proposta alemã de que se adie eleições é simplesmente ultrajante.
Não há solução sem dor para a Grécia, mas ela tem que procurar por ela mesma que dor prefere sentir. Os gregos querem ficar no euro, mas começam a achar que é impossível.
A saída do euro vai significar um grande calote interno nos poupadores gregos porque a conversão para a nova moeda, que pode ser a volta ao centenário dracma, será feita com perda de valor do principal hoje poupado em euros. Haverá um empobrecimento adicional dos gregos.
Mas não se pode impor a alternativa de ficar a um preço que signifique determinar de Bruxelas os destinos de Atenas. Ou de Berlim.
O que Bruxelas deveria estar pensando agora é qual é o passo seguinte. Se a Grécia sair do euro, sairá também da União Europeia? Se a saída for imposta, será uma violência. Se ficar, os trabalhadores desempregados da Grécia irão para os outros países da Europa pressionando um mercado de trabalho que está com dificuldade de atender à demanda por emprego. Então, expelir a Grécia como se fosse um corpo estranho não funcionaria.
Depois de queimarem as mãos na dívida grega, os bancos vão olhar com suspeição para Portugal.
E pode-se imaginar um cenário em que se force a saída de Portugal do euro e da União Europeia? Hoje, o presidente da Comissão Europeia é um português: José Manuel Durão Barroso. E mesmo se isso for feito, não será o fim da crise.
A Zona do Euro tem demonstrado desde o começo desta crise uma enorme incapacidade de ter visão estratégica. Em que ponto mesmo quer chegar? Por mais meritório que tenha sido o objetivo inicial da moeda comum — aprofundar a unidade — o fato a se reconhecer neste momento é que não foram tomadas as devidas precauções para um momento de crise, como a atual. E dado que não se pode alterar o passado, é preciso ver adiante e ter um objetivo futuro.
Não há de ser o acordo que estava sendo fechado ontem. O parlamento grego pode aprovar um pouco mais de corte nas pensões como o que estava ontem em discussão, os ministros reunidos em Bruxelas podem aprovar o novo acordo, a Grécia pode receber a nova parcela do empréstimo e cumprir seus compromissos de março, e os bancos podem fechar o acordo de abatimento da dívida. Se tudo isso acontecer, se o melhor cenário em cada caso for atingido, o que se terá ao final? Um país em recessão, com uma dívida acima de 120% do PIB, com déficit alto, com um quinto da mão de obra trabalhando para o governo.
Até os sacerdotes da Igreja Ortodoxa Grega são funcionários públicos e têm isenção fiscal. A Grécia carrega ainda o custo de ter tido durante muito tempo — até recentemente — um sistema previdenciário que permitia a aposentadoria muito precoce.
A Europa está diante de dilemas que marcarão seu projeto comum. Mas seus líderes não parecem ter um plano estratégico. Cada passo é apresentado como a solução final. Mas a crise sempre volta.
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