domingo, dezembro 11, 2011

Insegurança pública - DORA KRAMER

O Estado de S.Paulo - 11/12/11
Muito mais que a estrutura de hotéis, transportes, estradas, aeroportos ou novos estádios, o que preocupa mesmo o brasileiro em relação à Copa do Mundo é a segurança pública.

É nessa área que as pesquisas em poder do governo apontam a necessidade de haver mais investimentos a fim de que o Brasil faça um bom Mundial de futebol em 2014.

É também no combate à criminalidade que a maioria gostaria que ficasse o legado mais positivo para o País.

O dado não surpreende o ministro do Esporte, Aldo Rebelo. Para ele, o resultado dessas pesquisas reflete na Copa o que é hoje o motivo de maior inquietação no cotidiano da sociedade.

Há investimentos públicos previstos de cerca de R$ 1 bilhão para o setor, mas, na opinião do ministro, isso não é garantia de que haverá uma herança consistente depois de realizado o Mundial.

Materialmente falando, segundo ele, a perspectiva é boa. Haverá compra de equipamentos e investimento nas polícias. O problema, na visão de Aldo, é a inexistência de um debate mais profundo sobre o conceito de combate à criminalidade e a disposição do poder público de incluir a segurança do cidadão no rol dos direitos humanos, questão de soberania nacional e atributo indispensável à democracia.

Aldo Rebelo reflete sobre o assunto há muito tempo. Ressalva que agora, na condição de ministro, submete-se às decisões de governo e às diretrizes do Ministério da Justiça, mas diante do tema cede ao desafio da formulação independente. Ainda que teórica.

A questão é: como os governos deveriam fazer frente a um problema que os dois últimos presidentes antecessores de Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio da Silva, se abstiveram de enfrentar como prioridade absoluta?

O grande obstáculo, na opinião dele, é o fato de o combate à criminalidade estar ainda associado à repressão, à coação dos direitos individuais e à interpretação de que a violência é sempre consequência das injustiças sociais.

Com base nesse princípio consolidado no "chip" - principalmente, mas não só - de governantes com origem na esquerda como Lula e FH, o Estado acaba se omitindo, se acomodando nas ideias preconcebidas e "não entende que a segurança é uma aspiração do povo".

Exemplo da dissonância entre o pensamento de grande parte da elite e o que vai à cabeça da população foi o resultado do referendo à lei do desarmamento.

Enquanto todas as figuras influentes da política e da cultura faziam campanha em prol do veto à comercialização de armas de fogo no País, uns poucos deputados sem expressão e identificados com o que há de mais retrógrado defendiam o "não", que acabou vitorioso por 63,6% a 36,1% para o "sim".

Há, sem dúvida alguma, entre os ditos progressistas o raciocínio preponderante de que o recurso à força do Estado é um pecado original.

Embora na raiz do problema o uso político da polícia, que também por má-formação abusa da violência no trato com a população, isso tenha alguma base racional, na visão do ministro hoje não se justifica.

"O melhor legado do esforço empreendido para a realização da Copa na área de segurança seria a modificação do conceito e a compreensão de que a violência diz respeito à democracia e precisa ser tratada a partir de uma concepção institucional."

Um exemplo que Aldo Rebelo considera muito próximo do ideal é o das Unidades de Polícia Pacificadora no Rio. "Guardam semelhança com a ideia de renovação do conceito social, político e cultural do uso da força do Estado."

As UPPs têm os atributos básicos: a formação da polícia, valorização da corporação, identificação dos policiais com a população residente, permanência da força nas comunidades e repressão aos narcotraficantes que dominavam territórios.

Na opinião de Aldo, é essencial que o governo se aparelhe materialmente para garantir a segurança do público durante a Copa. Mas, a fim de que o País possa contar com benefícios futuros, seria preciso mais: uma revisão dos fundamentos na perspectiva da aspiração popular de que o direito de ir e vir requer política pública de âmbito nacional. Como a saúde e a educação.

É o que dizem as pesquisas.

GOSTOSA


A Argentina preocupa - SERGIO FAUSTO


O Estado de S.Paulo - 11/12/11


Em 23 de outubro, data das eleições que levaram Cristina Kirchner a seu segundo mandato, escrevi neste espaço que, mais cedo ou mais tarde, ela teria de fazer ajustes na economia argentina. Era óbvio que gastos públicos e emissão monetária não poderiam continuar crescendo por mais tempo. Só não foram freados antes para não prejudicar uma vitória folgada, que assegurasse maioria na Câmara e no Senado à presidente reeleita.

Alcançado o objetivo, os ajustes começaram, mesmo antes da nova posse oficial de Cristina Kirchner, agora em 10 de dezembro. O que não mudou nem mudará é o método de governar, conforme fica visível na forma arbitrária e idiossincrática como os ajustes estão sendo feitos. Desconfiados, os argentinos vêm trocando pesos por dólares em quantidades crescentes, remetendo ao exterior parte significativa do dinheiro convertido em moeda americana. A tendência à desvalorização do câmbio ameaça jogar mais lenha na fogueira da inflação.

O governo reage de modo característico, pela intimidação direta a bancos e empresas que negociam com a moeda estrangeira. Amedrontado pelo arbítrio governamental e/ou aconchegado por favores oficiais, o empresariado limita-se a vazar anonimamente para a imprensa algumas das pressões sofridas. Até porque precisará do governo para enfrentar um movimento sindical que se prepara para lutar por reposições salariais à altura das incertas expectativas quanto à inflação futura. Cristina Kirchner já identificou o perigo e trata de reunir forças para enquadrar a Confederação Geral do Trabalho (CGT) e seu líder Hugo Moyano, que já mereceu tratamento de aliado preferencial.

Quem conhece a Argentina sabe que ou a presidente consegue conter dentro de certos limites a disputa distributiva e a mobilização social ou o futuro político de seu segundo mandato estará comprometido logo na partida. Se conseguir superar esse desafio, poderá passar à realização de seus objetivos maiores. Dessa perspectiva, o horizonte também está carregado.

Na Argentina, mais preocupante do que a desorganização da economia é a deterioração das instituições democráticas. Por trás da preocupação existem dois motivos principais: o domínio crescente do "oficialismo" sobre o Judiciário, em particular sobre o Conselho da Magistratura, responsável pela realização de concursos e pela nomeação de juízes; e o propósito declarado, pela presidente-candidata e por seus partidários, de deflagrar, sob o slogan aparentemente benigno da "democratização da mídia", um ataque frontal aos órgãos de imprensa indóceis ao governo, passando, entre outras coisas, pela estatização da empresa responsável pela importação de papel.

No último mês, mais um fato surgiu para indicar, como se ainda fosse necessário, a pretensão do governo de Cristina Kirchner de traduzir sua maioria parlamentar (e seu controle sobre o aparelho de Estado) em maior poder sobre os meios de formação da opinião pública. Em outras palavras, sua ambição de transformar o poder político circunstancial emanado das urnas em hegemonia no campo da comunicação de massas e da cultura, para aí assentar as bases de um projeto de poder de longa duração.

Em decreto publicado no final de novembro, a presidente criou o Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano, com o propósito de produzir e disseminar trabalhos que ponham em xeque a versão liberal da História argentina e deem destaque a setores e líderes populares supostamente obscurecidos pela versão dita dominante da História do país. A iniciativa revela menos a preocupação de Cristina Kirchner com o passado do que com o presente e o futuro.

Vem da década de 1930 a disputa entre a visão que ilumina favoravelmente as lideranças políticas liberais da segunda metade do século 19 e a que enxerga os próceres liberais como representantes de uma elite afastada do povo e subserviente à mentalidade e aos interesses de potências estrangeiras. Se Cristina retoma agora o "revisionismo histórico", numa perspectiva mais à esquerda, é porque lhe interessa fixar uma narrativa política que confira às ações do seu governo a dimensão de uma batalha histórica pela libertação do povo e da nação argentina. Nesta etapa recente, avultariam sua liderança e a de seu falecido marido, Néstor Kirchner, numa versão contemporânea e invertida do mítico casal Juan Domingo e Eva Perón.

Fosse essa a iniciativa de uma liderança ou de um partido político, financiada com recursos privados, não haveria o que objetar. Estaríamos no terreno do pluralismo, que é próprio das democracias. Mas o que temos aqui é algo bem distinto. O Instituto Nacional de Revisionismo Histórico Argentino e Iberoamericano será um órgão estatal, financiado com recursos públicos e dirigido por pessoas nomeadas pelo governo. Tem razão Beatriz Sarlo, escritora e intelectual independente, que apontou o maior perigo do recém-criado instituto: tornar-se um centro produtor de livros didáticos que sirvam para a doutrinação política de crianças e jovens nas escolas públicas do país. Não haverá de ser por mera coincidência que pouco antes o vice-presidente eleito e atual ministro da Economia, Amadou Boudou, tenha defendido mudanças curriculares nos cursos de Economia das universidades públicas para adequá-los ao "novo desenvolvimentismo" defendido pelo governo.

Desenha-se na Argentina um quadro que, sem ser igual, tem semelhanças com os de outros países latino-americanos governados por grupos políticos que convivem mal com a crítica, o pluralismo e a oposição: intervenção arbitrária na economia, partidarização do Judiciário, ataques à imprensa, projetos "hegemônicos" no campo da cultura.

Se mantiver o controle sobre a economia, Cristina Kirchner tratará de aprofundar o modelo político já esboçado. Se a economia lhe fugir ao controle, o cenário será de crise. De um jeito ou de outro, a Argentina preocupa.

Bem-feitos e malfeitos - CARLOS HEITOR CONY

FOLHA DE SP - 11/12/11
RIO DE JANEIRO - Em crônica anterior, comentei o esforço de Dilma em anunciar programas quase todos os dias, embora seu tempo mais precioso esteja comprometido com as faxinas internas, que colocam seu governo numa espécie de marca do pênalti. De uma hora para outra, pode surgir um malfeito que escape da faxina, e aí, sim, teremos uma crise tamanho família.
Na semana que passou, ela apresentou um novo programa de combate ao crack, que me pareceu, em tese, quase perfeito. Começa com a dotação da verba, em torno de R$ 4 bilhões -que pode ser muito ou pouco, mas já é alguma coisa. Várias ideias salvadoras do governo não chegam a sair do papel ou da cabeça das autoridades justamente porque falta dinheiro.
Acontece que R$ 4 bilhões chamam a atenção de diversos interessados e alimentam a cobiça daqueles que costumam esperar exatamente a generosidade governamental para os numerosos malfeitos que estão abalando a credibilidade da cúpula que nos guia e rege, nela incluindo Executivo, Legislativo e Judiciário.
O programa, como já disse, é bom, bem detalhado, dando lugar ao tratamento dos usuários, ao combate policial e à prevenção.
Mesmo assim, tem aspectos questionáveis, sobretudo no tratamento, pois defende a internação involuntária dos dependentes.
Por "internação involuntária" deve-se entender a pura e simples prisão, que muitos médicos condenam e fatalmente provocará uma superpopulação carcerária, ainda que disfarçada em internação hospitalar.
Detalhes à parte, de qualquer forma são medidas necessárias, dada a gravidade do problema que hoje não se limita às grandes cidades, mas atinge fundamente o interior do país, onde o esclarecimento dos perigos da droga é deficiente ou simplesmente não existe.

O Brasil das calamidades - GAUDÊNCIO TORQUATO


O Estado de S.Paulo - 11/12/11


O chiste é conhecido. Ao criar o mundo, Deus distribuiu as catástrofes pela Terra, enquanto comentava com o anjo ao seu lado: "Aqui eu vou localizar os EUA, com seus terremotos e furacões; ali vai ser a Europa, que vai ter também vulcões e terremotos; acolá vou instalar a Ásia, com desertos, terremotos e tsunamis". Curioso, o anjo indagou: "E nesse local vai pôr o quê?" Deus respondeu: "Aqui será o Brasil". Insistiu o arcanjo: "E ele não vai ganhar catástrofes naturais?" A resposta divina: "Não, de jeito nenhum, mas você vai ver os políticos que eu vou botar lá". Ou a versão sobre a criação do mundo não é correta ou a galhofa sobre o Brasil não resiste aos solavancos da natureza neste início de século 21. Pois os nossos trópicos começam a frequentar o ranking das grandes catástrofes do planeta.

Em janeiro, o País registrou o maior desastre climático de sua existência, na Região Serrana do Rio de Janeiro, que contabilizou 820 mortos. Foi o oitavo pior deslizamento de terras da História mundial. O ano chega ao fim com o grave acidente no poço da Chevron no Campo de Frade (Bacia de Campos, RJ), que derramou no mar 440 mil litros de petróleo. De desastre em desastre e milhares de vítimas, vivenciando incidentes que deixam marcas profundas na anatomia de cidades e regiões, o Brasil já não é o território seguro tão admirado em comparação com outras nações. Seu mapa faz parte da geografia de vorazes predadores da natureza. Quando se efetivar a extração de óleo do pré-sal, ganharemos o título de terceiro maior poluidor do mundo, ficando apenas atrás dos EUA e da China.

Subimos celeremente no ranking da poluição. A planilha de calamidades se adensa. Em 2010 a Petrobrás, empresa orgulho da Nação, bateu o recorde de autos de infração, registrando 57 vazamentos. O volume de petróleo e derivados derramado cresceu 163%, pulando de 1.597 mil barris em 2009 para 4.201 mil espalhados na natureza no ano passado. Pairam ameaças por todos os lados. Na semana passada, um supercargueiro da Vale, ao ser carregado com 385 mil toneladas de minério de ferro no porto de São Luís (MA), exibia rachaduras no tanque de lastro. Despejada no mar, essa carga causaria tragédia sem precedentes em nossa costa.

Na paisagem devastada por acidentes/incidentes, muitos dos quais resultam de incúria, a nota de destaque: o Brasil não dispõe de um plano de contingência para administrar catástrofes. A cada evento, seja um temporal arrasador, o vazamento de óleo de um poço ou uma epidemia de dengue, como a que se prenuncia em cerca de 300 cidades, as providências revelam traços de improvisação. Mas não faltam discursos conflitantes, passeios de autoridades por destroços, uma ou outra verba liberada para dourar a imagem dos governos de plantão e multas que não se sabe quando e como serão pagas pelos responsáveis.

O País é useiro e vezeiro na arte de improvisar soluções para suas tragédias. Todos os anos as mesmas regiões sofrem com enchentes e enxurradas, principalmente Santa Catarina, Rio Grande do Sul e cidades serranas do Rio. As mortes e o número de acidentados se expandem. As rotinas se banalizam. Após os impactos físicos e emocionais, a vida volta ao normal e as populações passam a conviver com obras de recuperação, as quais, com raras exceções, não vão ao cerne dos problemas. As calamidades tornarão a acontecer.

Se não dispomos de programas (robustos) para administrar os previsíveis eventos de nossas estações climáticas, imagine-se o caos que um acidente nuclear poderia gerar. É lorota argumentar que nossas usinas são seguras e confiáveis. Não era seguro o reator 4 da central nuclear de Chernobyl, que, ultrapassando o nível de aquecimento, explodiu e liberou uma nuvem radioativa sobre a ex-União Soviética e a Europa Oriental, em 1986, matando milhares de pessoas? Dois anos antes, em Bhopal, na Índia, um vazamento de 42 toneladas de isocianato de metila de uma fábrica, em contato com a atmosfera, ceifou a vida de 20 mil pessoas e de milhares de animais. O Brasil saberia administrar um acidente nuclear na região de Angra dos Reis? Se alguém responder positivamente, estará cometendo um desatino. Não sabemos lidar com tragédias.

Em face do potencial brasileiro na exploração do petróleo (9 mil poços em operação em mar e terra e perspectiva de produzir 6 milhões de barris diários até 2020) e tendo em vista a perspectiva do pré-sal, é razoável prever que os riscos iminentes se localizam nesses campos. Esse episódio provocado pela americana Chevron remete ao maior desastre ambiental da História dos EUA, em abril do ano passado, quando 172 milhões de galões de óleo foram despejados no Golfo do México, ocasionando prejuízos materiais e ambientais inestimáveis.

Dessa teia de eventos terríveis sobra para as nossas autoridades o conselho de redobrar a atenção. Urge não apenas planejar sistemas de prevenção, mas fazer mapeamento minucioso das frentes consideradas de risco (alto, médio e pequeno) em todos os espaços do território nacional. Há uma pletora de estruturas com responsabilidades sobre os espaços de risco - agências reguladoras, órgãos de controle ambiental nas instâncias federal, estaduais e municipais, ministérios e frentes de defesa civil, etc. Ressente-se de clareza normativa e operacional para tais órgãos. Quem coordena o que e quem? Como é sabido, são comuns entre nós duplicações de estruturas e consequentes acusações recíprocas de culpa. Os governantes, por sua vez, desenvolvem certa ojeriza a ações que não dão voto, como planos de prevenção, obras escondidas (saneamento básico), códigos de controle ambiental ou conceitos abstratos como desenvolvimento sustentável.

De tropeço em tropeço, a imagem do éden, que nos é impingida desde que Cabral, deslumbrado, arregalou os olhos para a exuberância de nossa natureza, se esgarça na fumaça destes tempos cada vez mais catastróficos.

Chega de mau humor - FERREIRA GULLAR

FOLHA DE SP - 11/12/11
Entre outras coisas, o que é bom de eu escrever uma coluna é que posso abordar qualquer assunto. Só não posso ser chato. Assim me divirto e espero que o leitor também.

Hoje, por exemplo, me deu vontade de escrever sobre pessoas engraçadas que conheci ao longo desta vida que, para falar a verdade, não acho tão longa assim. Só me dou conta disso quando começo a pensar em tanta gente que se foi. Mas é melhor mudar de assunto porque, como disse, hoje quero é rir e fazer rir, nada de fossa.

O primeiro cara divertido que conheci foi o meu pai, Newton Ferreira, que começou centroavante do Luso Brasileiro e terminou quitandeiro, na época da Segunda Guerra Mundial.

Ligava o rádio na quitanda para ouvir o noticiário, junto com os fregueses contumazes, que ficavam ali bebendo meladinha, mistura de cachaça com mel de abelha. Ou porque o rádio não era lá essas coisas ou porque ali havia interferências demais, mal dava para ouvir a voz do locutor. Meu pai afirmava que aquilo eram descargas de fuzis e metralhadoras na frente de batalha.

Já o seu João Pinto - que não sei se era mais mentiroso que gozador - contava a história do coqueiro que plantara no quintal e que não crescera mas, em compensação, dera um coco, que crescera tanto a ponto de ter sido obrigado a cavar o chão, para facilitar-lhe o crescimento.

Anos depois, no Rio, encontrei muito mais gente mentirosa e engraçada também, inclusive jornalistas, poetas e pintores.

Na revista "O Cruzeiro", onde trabalhei, quase não ri, mas em compensação, na Manchete, ria mais do que trabalhava. Tanta gente engraçada havia ali, a começar por Adolfo Bloch, o dono da empresa, que ficava furioso quando aparecia gente miserável, esquelética ou maltrapilha. Tinha que ser tudo bonito.

Contam que, anos depois, ao se deparar com um redator na redação, sem camisa (porque o ar refrigerado pifara), tirou as próprias calças, ficando apenas de cuecas. "Se é para esculhambar, vamos esculhambar de uma vez", gritou.

Quando a revista ainda era na rua Frei Caneca, ele quis me demitir porque apareci na televisão, falando em nome da revista, sem gravata e barba por fazer. Otto Lara Resende, chefe de redação, não deixou.

Otto propôs, de gozação, para a campanha eleitoral de 1960, o seguinte slogan: "Chega de intermediários. Para presidente, Lincoln Gordon" (Gordon era o embaixador norte-americano no Brasil).

Otto reuniu na Manchete um time exemplar, de Armando Nogueira a Borjalo, Jânio de Freitas e Amilcar de Castro. Com minha adesão, estes dois decidiram mudar a paginação da revista, introduzindo amplas áreas em branco.

Adolfo perdeu a paciência e proibiu o que considerava desperdício de papel. No dia seguinte, Borjalo escreveu no quadro da redação: "Preconceito de cor: guerra contra o branco". O desfecho dessa rebelião foi a saída de Otto e a demissão de todos nós.

A redação do Diário Carioca era uma pândega permanente. E o jornal também. Creio que foi ali que surgiu o bom humor no jornalismo brasileiro. Quando as fãs de Marlene e Emilinha passavam gritando o nome delas, Tinhorão ia para a janela: "Macacas de auditório! Macacas!". A Rádio Nacional ficava na esquina.

Era o governo de Juscelino Kubitschek. Depois viria Jânio Quadros e, em seguida, João Goulart, quando a luta pela reforma agrária recrudesceu.

Contam que um fazendeiro, assustado com as Ligas Camponesas, reuniu os seus empregados e explicou-lhes que o comunismo era uma desgraça, ninguém tinha direito a nada, tudo o que produzissem lhes seria tomado.

Foi quando um camponês pediu a palavra: "Pelo o que o senhor acabou de dizer, acho que já estamos num comunismo brabo danado".

Pouco depois, vinha o golpe de 1964 e muita gente teve sua casa invadida. Uma delas foi a de Carlos Estevão, ex-presidente do CPC da UNE, onde apreenderam livros ditos subversivos.

No quartel do exército, para onde o levaram, apareceu um coronel que começou a fazer perguntas. "Por que o senhor está preso?". "É que eu tinha em casa uma espingarda do papo amarelo...". "Já sei, porte de arma. E o senhor?", perguntou ele a Carlos Estevão, que lhe bateu continência e respondeu: "Porte de livro, coronel".

Ueba! Hoje é dia de fatiar o Pará! - JOSÉ SIMÃO


FOLHA DE SP - 11/12/11

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Hoje tem plebiscito no Pará! Querem dividir o Pará em três! Eu já sugeri três nomes: Para Cima, Para Baixo e Parapeito. Em homenagem à Fafá de Belém. A paraense mais ilustre! Paraense com air bag!

E uma amiga quer dividir o Pará em três: para mim, para você e eu fico com o boto cor-de-rosa! E tem um deputado que é a favor da divisão: João Salame. Quer fatiar o Pará! Salame fatia o Pará!

E o único problema: mais três Estados pra gente decorar. Qual é a capital de Carajás? Qual é a capital de Tapajós? Devia ser Parajás, Parajós e Para Depois! Parajás e Para Depois! Rarará! E eu só sei de cor a capital de Honduras: Tegucigalpa!

E eu sei que o Natal chegou quando entro no supermercado e escuto a Simone: "Então éééé Naaatal". Executando o John Lennon. Pelo décimo ano. Ops, vigésimo.

E a Simone canta "félicidade". Eu frequento a Bahia há 30 anos e nunca ouvi ninguém falando "félicidade". Já ouvi baiano falando "por obséquio", "oxente, minino" e "acordei virado na porra". Mas "félicidade", nunca!

Perus em pânico! Chegou o Natal. Olha a piada pronta direto de Santa Catarina: "Quadrilha rouba casa do Papai Noel e suspeito é preso com urso de pelúcia". O ladrão era fã do Justin Bieber? Coitado do Papai Noel, só vem uma vez por ano e ainda é assaltado!

E uma amiga minha foi transar com um Papai Noel de shopping e voltou revoltada: ele não encolheu a barriga e nem tirou as botas!

E São Paulo acabou de avacalhar com o Papai Noel. No presépio da prefeitura puseram o Papai Noel deitado de bruços. Com o bumbão pra cima. Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E a frase da semana: o Timão é penta e a Dilma é hepta. Derrubou sete ministros! E o que é TUM! TUM! TUM! TUM! TUM TUM! TUM!? Os ministros da Dilma rolando a escada. Rarará!

E o chargista Ed Carlos fez uma versão Disney: Dilma e os Sete Demitidos! E diz que o ex-ministro do Trabalho se encontrou com o ex-ministro dos Esportes. "Você roubava por trabalho ou por esporte?". "Por esporte e você?". "Por trabalho mesmo". Rarará!

E o tema da canção dos ministros: "Se essa porra não virar, olê, olê, olá/ eu cheeego lááááá". Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

Caso do acaso - MÔNICA BERGAMO

FOLHA DE SP - 11/12/11
Aos 57, Tetê Espíndola, do hit 'Escrito nas Estrelas', prepara novo CD e diz que encontrou o agudo da voz na beira do rio, em um 'encontro das nuvens com o céu'

Foi por volta de 1975, dez anos antes de ficar nacionalmente conhecida cantando "Escrito nas Estrelas" no Festival dos Festivais, da TV Globo, que Tetê Espíndola, 57, descobriu que tinha aquela voz aguda. Estava com os irmãos, também músicos, assistindo ao pôr do sol à beira de um rio em Santo Antônio do Leverger, no Mato Grosso.

"Eu cantava como todo mundo, tinha uma voz normal, e naquele dia estava afônica ", ela conta, na cozinha do apartamento em que mora, em Moema (SP), ao repórter Marcus Preto. "Mas, de repente, uma coisa astral aconteceu. Um encontro das nuvens com o céu. E do céu com o rio. Senti um negócio na garganta e falei: 'Vou cantar'. Peguei a craviola [espécie de violão] e brotou o agudo. Comecei a improvisar."

Começou a explorar a nova voz. "Ia pra Chapada dos Guimarães, sentava à beira do precipício e cantava, fazendo sons e ouvindo o eco. Minha voz chamava as araras e elas vinham. A partir daí, comecei a prestar atenção no canto dos pássaros."

"Tetê e o Lírio Selvagem", o primeiro LP, viria em 1978 -três anos depois do agudo. Na capa, vestia macacão colado ao corpo, com araras e tucanos pintados. Os irmãos Geraldo, Marcelo e Alzira Espíndola, integrantes do Lírio Selvagem, usavam tigres, papagaios, tartarugas etc.

Foi a chegada de Tetê a São Paulo. Ainda assustada com a possibilidade de gravar o disco, convenceu os irmãos a também trocarem Campo Grande (MT), onde nasceram, pela cidade em que tudo poderia acontecer. Eles vieram, mas o grupo não foi pra frente. "Era todo mundo muito puro, bicho do mato. Só as mulheres aguentaram o tranco de ficar. Eu e Alzira estamos aqui até hoje."

Ficou amiga de Arrigo Barnabé em 1979. O choque entre a erudição musical dele e o autodidatismo dela transformou a vida dos dois. "Passei a compor umas coisas mais loucas. Eu disse que o que eu fazia era 'sertanejo lisérgico', uma mistura de hippie com rural. E a gente passou a criar pensando nisso."

Conheceu o marido, Arnaldo Black, por meio do letrista Carlos Rennó, com quem sua irmã Alzira havia sido casada e tem uma filha, a hoje também cantora Iara Rennó. E foi o ex-cunhado quem escreveu os versos das duas canções que, em 1985, Tetê inscreveria no Festival dos Festivais. A primeira, "Visão da Terra", tinha melodia da própria cantora. Sofisticada demais, foi desclassificada. A segunda, "Escrito nas Estrelas", com música de Black, venceria o festival.

"A letra conta exatamente a história de amor que eu vivia com meu marido. Era a nossa vida", diz Tetê. Para as eliminatórias na TV, preparou uma roupa que mais parecia uma rede. "Era um macacão de macramê feito no meu corpo. Hoje, está na última moda de novo. Quando ficou pronto, achei que estava muito pelado. Então, botei franjas prateadas."

*De fato,* boa parte de seu corpo ficava à mostra. O figurino foi considerado tão extravagante quanto a voz da cantora. E o impacto só aumentou quando a canção foi apresentada, contendo a palavra "tesão" em um verso.

"A primeira vez que usei batom foi no palco daquele festival. Sempre fui muito menina hippie, selvagem, índia, bugre. Eu pesava 40 quilos no máximo, não tinha nada a ver com essas mulheres boazudas. Até o dia do festival, mantive isso. Mas, ali, eu incorporei aquela figura."

O disco mix (LP com uma única faixa) de "Escrito nas Estrelas" vendeu 500 mil cópias e Tetê virou estrela nacional. Mas só tinha um hit. "Em uma festa de peão, no Acre, cheguei a ter cem mil pessoas na plateia. Assim que cantei 'Escrito nas Estrelas', 50 mil viraram as costas e foram embora. Depois disso, a música só entra no bis."

Acontece que a fama de mulherão pegou. E Tetê, em 1987, foi chamada para viver uma sereia em "Mônica e a Sereia do Rio", filme dirigido por Maurício de Sousa e Walter Hugo Khouri. "Uma hora eu era flor, outra hora era onça, depois elfo, sereia... E contracenava com um desenho animado que não existia. Tinha que imaginar que estava falando com a Mônica. Foi muito mágico."

Foi mágico porque conseguiu engravidar. "Eu e meu marido já estávamos tentando fazia cinco anos. E parece que eu captei uma coisa naquele filme da Mônica e vim totalmente mágica disso. Fui construindo um ninho." Nove meses depois, nascia o primeiro filho, Dani Black, hoje também músico. E em 1990, Patrícia, a caçula.

Tetê poderia ter seguido adiante o caminho do sucesso popular, mas sua gravadora fechou tão logo "Escrito nas Estrelas" foi lançada. Entre continuar filiada à grande indústria e voltar ao trabalho experimental com os sons da natureza, escolheu a segunda opção.

Em 33 anos, de carreira fonográfica, Tetê já cantou com todos os tipos de passarinho. "Quando me apresento na Europa, o público me vê como um bicho, não como uma cantora popular." Também fez duetos com o eco da própria voz refletida em rios, cachoeiras e árvores.

Em 1991, gravou "Ouvir", álbum em que aprofundou a experiência com os pássaros. "Foi a coisa que mais repercutiu na minha vida depois de 'Escrito nas Estrelas'. É meu trabalho que rendeu mais matérias de capa, corri o Brasil todo com ele. Só não superou o festival porque não foi exibido na Globo."

Prepara um disco para 2012, sobre o qual guarda segredo. Só conta que serão 11 músicas -todas dela- cantadas com 11 convidados.

Ah, o número 11. Há um mês, fez um show no Tom Jazz (SP). O motivo? Era 11/11/11 e ela queria comemorar 33 anos de carreira discográfica. "O 11 sempre teve tudo a ver comigo. Nasci num dia 11, moro no apartamento 11, meu marido trabalha no 11º andar." No palco, percorreu todas as facetas de sua história na música. As canções dos tempos de sereia, as composições 'sertanejo-lisérgicas', 'Escrito nas Estrelas'". E, claro, imitou a voz aguda dos passarinhos. Só faltou voar.

"O Festival [dos Festivais] só teve lado bom. Sou quem eu sou porque ganhei. Faz 25 anos e continuo conhecida até hoje"

"Na Europa, o público e a crítica me veem como um bicho, não como cantora"

GOSTOSA


De Lota@edu para Eike.Batista@com - ELIO GASPARI

O GLOBO - 11/12/11

Doutor Eike, eu sou aquela figura estourada, com óculos de fundo de garrafa e fama de maluca que convenceu o Carlos (Lacerda, para sua geração) a transformar aquilo que seria um carrascal no que é hoje o parque do Aterro do Flamengo.

Dizem que o senhor é o homem mais rico do Brasil e aspira ao título mundial da categoria. Outro dia, jogando bridge com o Deng Xiaoping, ele disse que esse tipo de láurea não traz sorte. O Deng gosta de mim porque somos do mesmo tamanho. Ele contou que um sujeito chamado Huang Guangyu fez esse número em Pequim. Tinha 7 bilhões de dólares e acabou na cadeia. O mesmo sucedeu a um tal de Khodorkovsky, o homem mais rico da Rússia, e ao indiano Sahid Balwa, que entrou consigo na lista da Forbes dos dez bilionários mais jovens do mundo.

O senhor diz que gosta do Rio. Desde 2009, é sua a concessão da Marina do Aterro. Ela fica em frente ao Hotel Glória, que também é seu. A ideia de aproximar essas duas belezas é boa, mas daqui vejo que estão fazendo coisas horríveis. Não estrague o parque, não se meta em encrencas, como o Huang, o Khodorkovsky e o Sahid.

Seu pessoal da EBX diz que, depois de um concurso internacional de arquitetos, foi escolhido um projeto do doutor Indio da Costa para vitalizar a Marina. Ele prevê uma construção de 15 metros de altura, equivalente a um prédio de cinco andares, e teria sido aprovado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Puras patranhas.

O negócio da EBX não é vitalizar a Marina. O que o senhor quer é construir um centro de eventos. Esse golpe vem desde 1979, quando o presidente, general João Figueiredo, presenteou maganos com um pedaço do Aterro, cancelando parcial e ilegalmente o tombamento de 1965. Doutor Eike, sua Marina teria uma garagem subterrânea com 1,5 mil vagas. O senhor foi campeão mundial de off-shore e conhece o mundo do mar. Já viu marina com estacionamento para 1,5 mil carros?

Seu pessoal diz que o projeto do Indio da Costa venceu um concurso ao qual concorreram 33 arquitetos. Quem concorreu? Cadê os outros projetos?

A EBX diz que o Iphan aprovou um "projeto conceitual". Isso não existe. O Conselho Consultivo do Iphan teria aprovado o tal "projeto" na sua 67 reunião, em maio passado. O Ministério Público do Rio pediu cópia da ata e dos estudos. Não conseguiu sequer resposta. Não existe no Iphan processo administrativo tratando exclusivamente do projeto de Indio da Costa.

A turma que lhe vendeu a concessão perdeu uma ação no Tribunal Federal Regional, que julgou a área "não edificável". O processo foi mandado para Brasília e o caminhão que o transportava sumiu. Não sobraram sequer os pneus.

Na área da Marina, há hoje um mafuá e até um restaurante, naquela paisagem, sem janelas. O Aterro arriscava virar um lixão. Um dia, acharam por lá o braço de uma vítima de um deslizamento ocorrido em Botafogo. Durante as obras, eu peguei tifo. Tentaram atravessar um projeto de outra casa de comidas, com dois andares e uma "área de exposições". Agora, o Oscar Niemeyer desenhou um calombo para uma casa de espetáculos, associada à churrascaria Porcão. Pena. Um doidivanas quis presentear o Aterro com uma réplica da Fontana di Trevi. Chegaram a convencer o Carlos de que o parque deveria ser coberto por saibro, eu lhe disse para deixar de ser idiota, grama custa menos. Queriam espetar 1,8 mil postes no pedaço. Chamei um designer americano e ele inventou os postes que estão lá até hoje. São 112. Enfrentei toda essa gente, não tenho medo de homem. Sou lésbica e, nos anos 50, usava mocassins do Moreira e camisa social com mangas arregaçadas.

Respeite o tombamento do Aterro e a memória do Iphan. O senhor pode vitalizar aquela área com um grande projeto para uma marina. O lazer no parque é gratuito, não tente ganhar o dinheiro dos frequentadores com feiras e eventos.

O desmonte do Morro de Santo Antônio produziu uma glória do urbanismo brasileiro (o Aterro) e uma de suas maiores desgraças (a avenida Chile). O senhor está no lugar certo, com a ideia errada e um método deplorável.

Meus respeitos.

Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, sua Lota.

A marca do Zorro

De quem já viu um pedaço da investigação do CNJ em cima de 17 dos 336 desembargadores do Tribunal de Justiça de São Paulo que, num processo veloz, receberam R$ 17 milhões da Viúva em 2010:

"Não sei se o sargento Garcia conseguirá prender o Zorro, mas acredito que a ministra Eliana Calmon tirará a máscara do rapaz".

(Atrás da máscara do herói dos quadrinhos estava Don Diego de La Vega, um mocinho rico e bonito. No caso do Tribunal de Justiça de São Paulo, a doutora procura, vivas ou mortas, as reencarnações do malvado Don Ramon, tio de Diego.)

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota e ouviu o doutor Robson Andrade, ex-presidente da Fiemg, perguntar: "Quanto vale um dia de conversa com uma pessoa que tem conhecimento estratégico, sobre como trabalhar com o governo, discutir questões tributárias, ações de crescimento nas indústrias, de desenvolvimento?".

O cretino acha que, em 2009, quando Andrade pagou R$ 1 milhão (com dinheiro da Fiemg, vindo da Viúva), Fernando Pimentel era ex-prefeito de Belo Horizonte, estava sem emprego e, como ele mesmo disse, precisava "sobreviver". Quanto vale? Nada.

A menos que a conversa do doutor fosse outra, com um dos principais coordenadores da campanha de Dilma Rousseff.

Prejuízo

O doutor Otílio Prado tinha 1% da firma P-21, em sociedade com o ministro Fernando Pimentel, dono dos outros 99%. Ele exagerou ao pedir demissão do cargo que ocupava na Prefeitura de Belo Horizonte.

Tinha 1% do negócio e ficou com 100% do prejuízo.

Boa notícia

"Encruzilhadas da Liberdade", do professor baiano Walter Fraga Filho, ganhou o prêmio da American Historical Association de Melhor Livro sobre a América Latina publicado nos últimos cinco anos.

Ele conta a vida dos escravos e senhores do Recôncavo antes e depois da Abolição. Além de ser um grande trabalho de pesquisa, tem um poderoso estilo. Sua descrição dos festejos ocorridos em Salvador e da figura do "Macaco Beleza", um negro enorme e brigão, ecoa Jorge Amado.

Passado mais de um século, aqui e ali, ainda se ouve a voz de um fazendeiro que, meses depois da Abolição, queixava-se: "Os libertos ingratos, em sua maioria, por se julgarem livres, já pensam que se devem declarar isentos do trabalho".

O Visconde de Sinimbu ensinava: "A escravidão é conveniente, mesmo em bem ao escravo".

SUS Bradesco

O Bradesco Saúde está pegando pesado na sua clientela. Um cidadão de 75 anos que paga R$ 2.587 mensais no plano familiar Livre Escolha, e passou por uma cirurgia no dia 13 de outubro, ainda não viu a cor do reembolso de R$ 10.650 que solicitou, com a necessária documentação.

Pelo contrato, o reembolso deveria ser feito em 20 dias úteis. Até quinta-feira passada, a vítima não conseguiu resolver seu caso pelo telefone ou no bairro onde mora. Teve que ir quatro vezes a Copacabana, para nada. No dia seguinte, obteve uma promessa, para esta semana.

Os computadores do Bradesco enfiam R$ 1,84 de multa diária caso o cliente atrase. Os programadores das máquinas poderiam acrescentar-lhes dois códigos. Um com uma multa, para o banco, por dia de demora no reembolso, e outro para cada dia em que a vítima não conseguisse nem mesmo uma informação racional para o atraso.

Lote 1 - RENATA LO PRETE

FOLHA DE SP - 11/12/11
O governo Dilma definiu seus primeiros decretos de desapropriação de fazendas para fins de reforma agrária. Serão assentadas 3.000 famílias, em cerca de 60 propriedades. A escolha dos terrenos pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário obedeceu a três critérios: terras que não sofreram oscilação de preço, proximidade de estradas e área suficiente para acolher no mínimo 15 famílias. O gasto estimado é de R$ 100 milhões, valor ainda sujeito a avaliação do Incra e da Justiça.
A presidente e o MDA vinham recebendo críticas de movimentos de sem-terra e de alas do PT pela demora na retomada das desapropriações.

De dentro 
Devido ao "fogo amigo", o ministro Afonso Florence (PT-BA) passou a frequentar a lista dos cotados para sair na anunciada reforma do primeiro escalão.

Não é... 

O PT nada fará para complicar a vida de Fernando Pimentel, mas que o ministro do Desenvolvimento não espere grande solidariedade dos correligionários. A lista de seus desafetos no partido inclui cardeais como Rui Falcão, Cândido Vaccarezza e Ricardo Berzoini.

...comigo
Petistas se queixam de que Pimentel só cuida de si. Como exemplo, mencionam a rapidez com que o ministro teria apontado o dedo para companheiros na tentativa de explicar as denúncias que cercam suas atividades de consultor.

Esfinge 

Em suas raras conversas a respeito da reforma ministerial, Dilma pergunta muito, ouve tudo e não diz quase nada.

Táxi aéreo 

Na FAB, há quem aponte falta de racionalidade no uso de aeronaves pelos ministros paulistas. Como integrantes do primeiro escalão, eles têm direito a voar para o Estado nos fins de semana, mas não combinam saídas conjuntas. Com frequência, aviões da Força partem para o mesmo destino de meia em meia hora.

Sinto muito 
O presidente da Caixa, Jorge Hereda, pediu à Câmara o adiamento da audiência que ocorreria na próxima terça-feira para discutir a encrenca do PanAmericano. O petista alega que, pelo estatuto do banco, as reuniões do conselho diretor são realizadas nesse dia.

Bumerangue 

Embora o PT tenha aprovado a convocação do secretário Eduardo Jorge (Meio Ambiente) para depor na Câmara paulistana sobre o caso Controlar, a ordem de serviço para a realização da inspeção veicular, hoje contestada pelo Ministério Público, foi dada na gestão de Marta Suplicy. A ex-prefeita assinou ainda cinco aditivos com a empresa.

Voto de minerva 
Os pré-candidatos do PSDB à Prefeitura de SP instalados no governo paulista disputam cada demonstração pública de simpatia de Geraldo Alckmin. Entendem que, a despeito dos movimentos externos para persuadir os filiados, é o governador quem decidirá as prévias, uma vez manifestada sua preferência, mesmo reservadamente.

Na cola 
Andrea Matarazzo (Cultura), Bruno Covas (Meio Ambiente) e José Aníbal (Energia) vão grudar em Alckmin daqui até março. A ordem é tirar do forno projetos que reforcem a "agenda positiva" do governador.

Outsider 

O deputado Ricardo Tripoli, único postulante sem cargo no Bandeirantes, insistirá no corpo a corpo com militantes. Em paralelo, busca o apoio de Walter Feldman, secretário de Gilberto Kassab e líder do motim que tirou seis vereadores do PSDB em abril.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Ao final deste ano de queda em série de ministros, derrubados por 'malfeitos', espera-se que Dilma Rousseff conclua que o seu governo é que foi mal feito."

DO DEPUTADO FEDERAL CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), referindo-se ao fato de que muitos dos defenestrados ao longo de 2011 foram herdados da gestão anterior, em alguns casos sob recomendação explícita de Lula.

contraponto

Está bom ou quer mais?


Ao sair de reunião, no dia 19 de novembro, em que o PT paulistano formalizou sua escolha como candidato a prefeito, Fernando Haddad foi abordado por uma equipe do programa humorístico "CQC". Mônica Iozzi, a "mulher de preto", perguntou ao ministro se ele havia decidido se candidatar para garantir um emprego, dada a série de degolas no primeiro escalão federal. Ao que Haddad, no cargo desde o primeiro governo Lula, respondeu:
-Se tem alguém que não tem medo de perder o emprego sou eu. Venho mantendo o meu por três mandatos!

O chavismo sem Hugo Chávez - MAC MARGOLIS


O Estado de S.Paulo - 11/12/11


Em junho, quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, finalmente admitiu que sofria de câncer, a boataria tomou conta do continente. O presidente se curaria? Estaria debilitado demais para concorrer às eleições de 2012? Terminaria seu mandato?

Apagões, homicídios, escassez de café e leite e o boom econômico seguido pela recessão: desde o início, a incerteza extrema é a marca forte da República Bolivariana. No entanto, Chávez sempre foi uma das poucas constantes na volúvel era chavista. Até agora.

As incertezas energizaram seus inimigos políticos, sacudindo-os de uma década de sonolência. Também atiçou os aliados, cada postulante mais ansioso do que outro para ser ungido sucessor oficial.

Chávez, rapidamente, tratou de desarmar o circo. "A única transição aqui é a transição para o modelo socialista", retrucou. Em outubro ele se declarou "curado" do câncer e fala agora em ficar no poder até 2031.

Hoje, o homem forte venezuelano - careca e inchado em razão das sessões de quimioterapia - está irreconhecível, subitamente apequenado e vulnerável. Pela primeira vez em 13 anos, os venezuelanos começam a imaginar como será a vida sem o líder que acreditavam insubstituível.

A perspectiva galvanizou a dividida oposição, unificada desde 2008 na Mesa da Unidade Democrática (MUD). O bloco fará eleições primárias entre os pré-candidatos à presidência em fevereiro. O candidato único enfrentará Chávez, ou seu eventual substituto, em outubro 2012.

O destaque dos antichavistas é Henrique Capriles Radonski, governador de Miranda e neto de um sobrevivente polonês do Holocausto, que se sobressai nas pesquisas e está no cangote do próprio líder bolivariano.

Esgotamento. O desgaste ajuda. Anos de roubalheira, ineficiência administrativa e intimidação política sorveram energia e talento desse país de 29 milhões de habitantes. Hoje, o socialismo do século 21 está mais para o capitalismo de Estado do século 19. A inflação, de 27% ao ano, é a pior entre os países de economia emergente. Caracas é uma das capitais mais perigosas das Américas.

Ao nacionalizar dezenas de empresas estrangeiras, Chávez insuflou o orgulho nacional, mas também espantou investidores. A competitividade venezuelana se foi. A estatal do petróleo PDVSA, outrora modelo, hoje é totalmente tutelada pelo chavismo.

Sua receita foi entregue a perdulárias "missões" sociais. Há 15 anos, a Venezuela produzia cerca de 25 patentes em tecnologia e pesquisa de petróleo. Hoje, mal registra duas ou três.

No entanto, se a oposição deve parte de sua ascensão à disfunção do bolivarianismo, outra parte, sem dúvida, se deve ao infortúnio do comandante.

Manipulação. Ninguém está escrevendo o epitáfio de Chávez. Um mestre em manipular a mídia, ele capitalizou sua batalha com o câncer, transformando-a em uma ressurreição política.

Chávez ainda controla as Forças Armadas, uma vasta milícia armada e quase três milhões de empregos públicos. Ele faz questão de não preparar um sucessor.

"Chávez é o eixo estável da instável nação venezuelana que ele ajudou a criar", diz Socorro Ramírez, analista venezuelana.

Poucos duvidam. Se Chávez estiver bem e apto a fazer campanha, dificilmente perderá nas urnas. E, mesmo se a oposição ganhar, terá de se acomodar aos poderosos de plantão e aos interesses que o presidente fez questão de incrustar na máquina pública, na Justiça e no Legislativo. Eis, talvez, a explicação pelas propostas tão modestas, até acanhadas, dos principais pré-candidatos oposicionistas.

Com exceção de Diego Arria, ex-diplomata que quer levar Chávez ao Tribunal Penal de Haia, todos os candidatos da MUD prometem preservar a popularíssima agenda social de Chávez, que comprou apoio com promessas e programas populistas, nem sempre honrados ou eficazes. A era Chávez pode estar chegando ao fim, mas o chavismo continua pautando o país.

QUEM FOI QUEM - Recapitulando - LUIS FERNANDO VERISSIMO

O GLOBO - 11/12/11
Ló é a mulher que vira uma estátua de sal. Jó é o que aguentou toda sorte de provação de Deus mas não perdeu a fé. O pão é de Ló, os escravos que jogavam caxangá eram do Jó. Ninguém sabe como se joga caxangá.

Manet é o do Almoço na Grama e do Olympia, Monet é o das ninfeias e da pintura que deu nome ao impressionismo. Os dois usavam barba.

Francis Bacon era um pintor irlandês mas houve outro Francis Bacon, inglês, filósofo, estadista e cientista nascido no século dezesseis, que não pintava.

Billy Wilder é o do Quanto Mais Quente Melhor e do Se Meu Apartamento Falasse, William Wyler é o do Ben-Hur e do A Princesa e o Plebeu. Robert Wise não tem nada a ver com nenhum dos dois.

Von Sternberg e Von Stroheim. Esta é difícil. Josef von Sternberg nasceu em Viena e emigrou para os Estados Unidos. Na Alemanha, dirigiu Marlene Dietrich em vários filmes, o mais conhecido sendo O Anjo Azul, antes de voltar para Hollywood, onde morreu. Eric von Stroheim também nasceu em Viena. Era ator, além de diretor. Um dos seus papéis mais notáveis foi o de um oficial alemão em A Grande Ilusão, de Jean Renoir. Foi ele que fez o mordomo no Sunset Boulevard, do Billy Wilder. Tanto no caso de Sternberg quanto no de Stroheim, judeus de origem proletária, o aristocrático “von” foi acrescentado aos seus nomes depois. Não é grave não saber distinguir os dois. Dizem que eles mesmos, quando se encontravam, tinham dificuldade em decidir quem era quem.

Jean Renoir, diretor de A Grande Ilusão, era filho do pintor Claude Renoir.

Calvin Klein é o das roupas, Kevin Kline é o ator.

Espera aí um pouquinho. Calvin Kline é o ator, Kevin Klein é o das roupas. Não. Kevin Kline é o ator, Calvin Klein é o das...

Ou será o contrário? Não tenho certeza de mais nada.

Faça o seguinte: esqueça tudo que está escrito aí em cima.

Não sei mais nem se o pão não é de Jó.

GOSTOSA


Panaceia universal - HÉLIO SCHWARTSMAN

FOLHA DE SP - 11/12/11

SÃO PAULO - As tábuas de mortalidade de 2010 divulgadas pelo, IBGE mostram que, nas últimas cinco décadas, a expectativa de vida do brasileiro deu um salto de 25 anos. A esperança de vida de um bebê nascido em 1960 era de apenas 48 anos. Agora é de 73.

Até onde chegaremos? Qual o limite para a existência humana? A imortalidade é possível? Essas perguntas não intrigam só filósofos. Nas últimas décadas, vêm orientando também o trabalho de biólogos, que chegaram a conclusões surpreendentes.

O bioquímico britânico Nick Lane, por exemplo, sustenta que é mais fácil encontrar uma droga que cure de vez todas as doenças do envelhecimento, como cânceres, cardiopatias e demências, do que descobrir um tratamento eficaz para uma só delas.

Seu argumento tem base em estudos com os chamados gerontogenes, que controlam o processo de envelhecimento. Pesquisas realizadas com vários tipos de seres, de nematódeos a mamíferos, passando por fungos, mostram que existe um mecanismo excepcionalmente conservado entre as espécies que regula o tempo de vida de cada uma delas.

Uma única mutação num desses genes permite dobrar a longevidade, evitando ao mesmo tempo as moléstias ligadas à idade. Em poucas palavras, a velhice seria um estado patológico em princípio curável.

O principal efeito colateral foi o atraso do amadurecimento sexual, que também parece ser controlado por esses genes -o que faria todo sentido do ponto de vista evolucionário.

Já existem até duas drogas que atuam nesse circuito bioquímico: o resveratrol e a rapamicina, mas ninguém foi ainda capaz de aferir se elas prolongam a vida de seres humanos.

Num desafio aos médicos, Lane propõe que mudem o foco de suas pesquisas. O autor aposta que, em 20 anos, encontraríamos a panaceia universal. Ela não nos tornaria imortais, mas permitiria que chegássemos saudáveis aos 120, 130 anos.

Melhores do ano (1) - DANIEL PIZA


O Estado de S.Paulo - 11/12/11


Todo ano repasso os comentários que fiz sobre livros lançados no Brasil e volto a ver a força dos títulos de não ficção (ensaio, biografia, história, etc.) e a saudável onda de reedições de clássicos (sobretudo de ficção e poesia), mas insisto em defender o argumento de que isso não significa que vivemos tempos tão pouco criativos e tão parasitários do passado quanto se pode pensar. É claro que eu queria ler mais e melhores romances atuais e, como volta e meia me queixo aqui, uma cultura menos limitada à reciclagem, porque não raro ela apenas se apropria do nome consagrado em vez de buscar caminhos próprios para dizer o que haveria a dizer. Mas o leitor interessado em livros que relatam grandes experiências e provocam pensamentos ricos - e querem dar bons presentes de Natal, bem mais baratos do que brinquedos, cosméticos ou roupas - tem muitas opções. Eu mesmo, relendo o que escrevi sobre literatura em 2011, parei e pensei em como tive o alento de ler muitas páginas de alto nível.

Os livros de ensaio a meio caminho entre o cultural e o pessoal se destacaram. Não consigo esquecer o prazer que A Lebre com Olhos de Âmbar, de Edmund de Waal, me causou desde as primeiras linhas. Eu diria que é o livro do ano, uma mistura de narrativa e reflexão feita com uma sensibilidade digna de grandes ficcionistas, ainda que não tenha um único fato inventado. De Waal encontrou o que é mais difícil, uma voz autoral, e a acompanhamos em sua peregrinação europeia atrás dos netsuquês de sua família como se ouvíssemos uma sonata de piano. Também viajei no relato de Ronald Watkins sobre a façanha de Vasco da Gama, Por Mares Nunca Dantes Navegados, que fez par com o mais iconoclasta Américo, em que Felipe Fernández-Armesto mostra um Vespúcio ardiloso.

E o que dizer de um ensaio como O Paradoxo Amoroso, de Pascal Bruckner, que lê os desencantos narcisistas contemporâneos com o olhar de um belo contista? Ou de A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, que passeia por Rilke, Tsvetaeva e Wilde para defender o gosto pelas coisas simples? Livros como A História da (in)Felicidade, de Richard Schoch, e mesmo Religião para Ateus, do bom-mocista Alain de Botton, também mostraram que não é exclusividade dos romancistas o acesso a questões do comportamento e da intimidade. Ensaios mais próximos da crítica literária também não foram poucos, e incluíram autores do presente como Coetzee (Mecanismos Internos), James Wood (Como Funciona a Ficção) e outros que sabem que a melhor crítica é uma forma de filosofia. Foi muito bom ver também ensaios de mestres como Thomas Mann (O Escritor e Sua Missão), George Orwell (Como Morrem os Pobres) e, agora, esse extraordinário empreendimento da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux (Leya e Livraria Cultura).

Por falar em filosofia, igualmente lembrada em novas traduções das cartas de Voltaire e dos ensaios de Hume, a biografia de Schopenhauer por Rüdiger Safranski conseguiu o que poucas conseguem: falar da vida para poder falar melhor da obra. O Dante de Barbara Reynolds não ficou atrás, assim como o Borges de Edwin Williamson; também gostei do Salinger de Kenneth Slawenski. Shakespeare como personagem histórico foi assunto de James Shapiro e, uma vez mais, de Stephen Greenblatt. No Brasil, o que chegou mais perto foi o Vieira de Ronaldo Vainfas. Quanto aos clássicos em si, tivemos novas e ótimas edições do próprio Vieira, de Homero, Galileu, Dickinson, Tolstoi, Machado, Proust, Bernanos. Nada mal.

Os ensaios científicos, que deveriam interessar a qualquer pessoa que preza a filosofia (a amizade à sabedoria), também continuaram em alta, com destaque para o polêmico Miguel Nicolelis, Muito Além do Nosso Eu, e o fundamental Antonio Damásio, E o Cérebro Criou o Homem, em que revê suas ideias sobre a primazia das emoções e analisa as descobertas sobre a participação da edição consciente no fluxo de nossos impulsos e reações. Romances? Claro que curti os novos de Philip Roth, Nêmesis, e DeLillo, Ponto Ômega, o excessivamente bajulado Jonathan Franzen, Liberdade, e também o lírico Um Dia, de David Nicholls, agora em filme. Mas os livros de Damásio, de Waal, Todorov e Bruckner me deram mais satisfação intelectual do que qualquer um de nós espera ter.

Por que não me ufano. O crescimento do terceiro trimestre veio nulo, com alguns sinais especialmente alarmantes na queda do consumo e dos serviços, antes os esteios da economia brasileira. A indústria recuou muito e o índice só não foi negativo por causa das exportações de commodities, algo que também já começa a perder fôlego. E de nada adianta botar a culpa na conjuntura internacional, porque os outros emergentes cresceram muito mais; o Brasil ficou em trigésimo lugar no período, atrás até mesmo da letárgica Europa. Para piorar, a inflação teve repique em novembro, o que significa que as expectativas oficiais para ela e para o PIB no ano que vem são conversa fiada. Enquanto isso, o PAC mal avança, como este jornal mostrou no caso da transposição do rio São Francisco.

Queda de juros e estímulos ao crédito podem atenuar a paralisia, mas está cada vez mais claro que um ciclo relativamente positivo da economia brasileira - motivado por uma série de medidas desde o Plano Real até o crédito consignado, digamos - está chegando ao final. Se não se combater o declínio da indústria, o aumento dos tributos, a carência de tecnologia e o déficit de educação e infraestrutura, em pouco tempo se verão efeitos sobre o emprego e a renda. Ou Dilma Rousseff para de acreditar nos elogios à sua capacidade gerencial (como já escrevi, trocar uma sujeira por outra não é faxina) e começa a agir (mesmo que caiam todos os ministros, pois já existem outros dois na berlinda, Pimentel e Negromonte), ou terá muito mais obstáculos políticos e econômicos adiante.

Aforismo sem juízo

Na corrida contra o tempo

somos todos retardatários

A cobrança intranquila - JANIO DE FREITAS

FOLHA DE SP - 11/12/11

A confiança de Dilma em Pimentel pode fazê-lo tranquilo, mas o ministro ainda deve explicações


Estar tranquilo é ótimo. O ministro Fernando Pimentel informa que está tranquilo. O desagradável é que muitos, incontáveis pelo país afora, não estão tranquilos -por causa do ministro Fernando Pimentel.

Cada dia da semana foi, na voz do ministro questionado, um eco do dia anterior. Ainda que poucos, nem os negócios de sua alegada consultoria (antes de assumir) receberam a comprovação necessária, quando referidos por Pimentel; nem as suspeições mais recentes receberam dele alguma palavra a título de explicação.

Neste item bastará notar o circuito percorrido por seus noticiados serviços a uma empresa que tem, para o caso, o impróprio nome de ETA, idêntico à sigla dos complicadores terroristas espanhóis. "O Globo" encontrou referências a pagamentos da ETA à consultoria de Pimentel, mas a empresa os negou. Um dos sócios sustentou que os R$ 130 mil citados eram até incompatíveis com o faturamento da ETA. No dia seguinte, porém, uma nota sucinta da própria empresa confirmava ao jornal, sem explicações ou demonstrações, "a prestação de serviços de análise econômico-financeira e mercadológica do seu plano de investimentos".

O fato de que a ETA, como diz ainda o seu nome, seja empresa de "Bebidas do Nordeste" talvez explique alguma coisa. Mas não essa história de plano de investimentos na empresa que não pode pagar nem R$ 130 mil. E muito menos explicaria o silêncio de Pimentel a respeito, antes e depois da introdução da ETA no questionamento dos seus ganhos ao deixar a Prefeitura de Belo Horizonte.

Pouco louvada, mas bastante praticada (apesar de depender da relação entre o visado e o poder econômico), a cobrança de explicações aos poderosos é uma das mais significativas liberdades em relação ao tempo das transamazônicas e itaipus, dos quartéis como prisões bárbaras, dos AI-5 e decretos secretos. Grande parte da calamidade hoje constituída pela corrupção e pela falta de ética deve-se à cobrança insuficiente, com frequência dirigida conforme interesses políticos e outros. E, além da insuficiência, ainda confusa entre os conceitos de liberdade e de autoritarismo.

Fernando Pimentel não é um grande caso, até onde se sabe. Assim como nenhum dos casos havidos nos últimos meses o foi. Casos e coisas imensamente mais graves passaram-se já nos anos ditos democráticos, com pouca ou nenhuma cobrança, com pouquíssima ou nenhuma represália. A chave para combater o vício de usufruir do poder em proveito próprio, e com a soberba da impunidade, é essa que estamos vendo: não importa a dimensão, importa a ocorrência do erro. Se explicar apenas R$ 130 mil for necessário para extinguir dúvidas éticas, em um ou outro sentido, não é o fato de lidar com bilhões e de deter poderes que isenta da responsabilidade de explicação convincente, ou de despedir-se.

É o que Fernando Pimentel, com toda a sua tranquilidade, ainda está devendo. A confiança da presidente pode fazê-lo tranquilo, mas é a confiança dela, não a do país.

PIB zero, Brasil dez! - JOSUÉ GOMES DA SILVA

FOLHA DE SP - 11/12/11

Embora o crescimento do PIB no terceiro trimestre tenha sido zero, a economia brasileira tem boas perspectivas. Banqueiros, industriais e investidores estrangeiros, estabeleceram um consenso mundial sobre o país, quanto à atratividade para empreendimentos produtivos, bom ambiente para negócios e perspectivas positivas em 2012.

A redução do nível de atividade, que deverá ser parcialmente revertida no último trimestre pelo movimento de final de ano e a queda paulatina da taxa básica de juros, não pode ser atribuída apenas à crise mundial.

Responde, também, à estratégia do governo para conter pressões inflacionárias do choque dos preços das commodities no início do ano. Se as medidas macroprudenciais foram eficazes na contenção do crescimento, sua reversão redundará em retomada.

Todo o mundo está entusiasmado com o Brasil. E há motivo. Afinal, promovemos a ascensão socioeconômica de mais de 45 milhões de habitantes desde 2003, temos as maiores reservas hídricas, as mais extensas áreas agricultáveis disponíveis e uma imensa capacidade de produzir alimentos e biocombustíveis. Isto sem falar na riqueza e na diversidade mineral de nosso subsolo, onde encontramos do petróleo aos metais raros.

Apesar dos problemas com a concorrência desigual de algumas nações, câmbio e juros ainda desfavoráveis e carga tributária elevadíssima e burocrática, a nossa indústria é competente e avançada, produzindo bens de alto valor agregado e qualidade.

Os serviços são de elevado padrão e o mercado financeiro, sólido. Nossa democracia está se consolidando a cada eleição, e desvios graves que persistem são combatidos dentro dos preceitos da lei.

Percebe-se um contraste, nos planos político e econômico, entre o Brasil e as principais nações. A China, embora em crescimento ininterrupto, tem problemas institucionais e precisa, rapidamente, ampliar o consumo interno.

Na Índia, a demanda por melhor infraestrutura é maior que a nossa e cabe reduzir a dependência das suas empresas aos empréstimos em moeda estrangeira. A Europa não equaciona as dívidas soberanas e discute alternativas complexas para salvar o euro, enquanto os EUA debatem-se para equilibrar seu orçamento fiscal e voltar a crescer para combater o desemprego.

O Brasil está em posição muito boa. Não se trata de ignorar a conjuntura mundial e os desafios internos, especialmente a melhora do sistema educacional, mas de termos consciência de nossa condição e potencial para seguir crescendo.

Se a expansão do PIB do terceiro trimestre foi zero, nossas possibilidades merecem nota dez, ainda mais se acreditarmos em nós mesmos e não deixarmos predominar o pessimismo.

CLAUDIO HUMBERTO

“Sempre deixam marcas duradouras atitudes arbitrárias no poder”

Presidente Dilma novamente acenando veto à fantasia petista de controle da imprensa

FRANÇA MANDA PRIMEIRO-MINISTRO SALVAR RAFALE

Os franceses não desistem: primeiro, conversaram esta semana com o ministro Celso Amorim (Defesa) preparando a visita ao Brasil, quarta (14), do primeiro-ministro François Fillon, que vai discutir com Dilma a crise do euro e a adiada compra dos caças de combate Rafale, que ninguém quer. Se o Brasil tem grana para emprestar ao FMI, a França supõe que poderá levar ao menos US$ 4 bilhões pela venda dos caças.

CHERCHER LA FEMME

O oficial é “reforçar a parceria” e “discutir o euro”, mas a França teme que o Brasil já tenha se decidido pelos caças F-18 dos EUA.

IMPASSE

Os caças americanos F-18 são considerados mais confiáveis, mas há dificuldades na transferência de tecnologia, exigência do Brasil.

INCÓGNITA

O suecos da Gripen e os Rafale prometem transferir tecnologia, mas há dúvidas quanto à eficiência de aviões que, a rigor, nem existem.

ALLONS ENFANTS

François Fillon virá com empresários franceses e visitará São Paulo, Rio e Brasília, onde encontrará autoridades para um “lobby” básico. 

PROCESSO NO TSE PRETENDE ‘ELEGER’ UM DERROTADO

O Tribunal Superior Eleitoral julga, terça-feira, um processo que pede a cassação do governador de Alagoas, Teotonio Vilela (PSDB), por um programa de doação de caprinos e ovinos iniciado há mais de um ano, antes da eleição. Triste é que, se ele for cassado, assumirá o derrotado, Ronaldo Lessa (PDT), que coleciona processos por ofender a Justiça, pela prática de crimes eleitorais e até por improbidade.

NOVATO NA JANELA

Nem bem chegou ao Senado, Vital do Rêgo do Filho (PMDB-PB), já não esconde o desejo de disputar a presidência da Casa.

RESPEITO À FILA

Eunício Oliveira (CE) respeita a fila no PMDB, por isso, apesar das pressões, garante não estar em campanha para presidir o Senado.

ELE CONFIA NO PT

Henrique Alves (RN), líder do PMDB, confia mais do que deveria no acordo com o PT para suceder Marco Maia na presidência da Câmara.

DAQUI NÃO SAIO

O ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento Industrial) não vai cair, como querem os inimigos. Ele já foi até confirmado na comitiva brasileira que vai participar em Genebra, entre os dias 15 e 17, da 8ª Conferência Ministerial da Organização Mundial de Comércio.

REFORMA, URGENTE

Dilma promete uma reforma do ministério no começo de janeiro. Deveria servir de inspiração para o governador do DF, Agnelo Queiroz (PT). Parte do secretariado, em estado catatônico, chegou ao limite.

CIÊNCIA DOMINADA

O Ministério de Ciência e Tecnologia e Aloizio Mercadante congelou os pedidos de Eduardo Suplicy (PT-SP), em razão de suas diferenças eleitorais. A mais recente solicitação de Suplicy, frustrada, foi à Finep.

TESTE DE ESFORÇO

No Senado e na Câmara, estes dias, José Sarney (PMDB-AP) e o Inocêncio Oliveira (PR-PE) viveram momentos de acalorado debate. Aos 

81 e 73 anos, respectivamente, passaram no teste das idades.

NEM TE LIGO

Após fechar os olhos aos 500 metros de pista que a embaixada dos EUA incorporou aos seus domínios, o governo do DF se finge de morto diante dos inúmeros buracos no acesso à residência do embaixador.

POBRE CONTRIBUINTE

Wilson Santiago (PMDB-PB) perdeu a vaga no Senado para Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), mas uma manobra do seu partido o colocou no Parlasul, o Parlamento do Mercosul. O contribuinte pagará a conta.

ESPALHANDO BRASAS

Há forte resistência entre os aliados do governador Cid Gomes e do governo Dilma ao novo trabalho de Ciro Gomes como comentarista da Rede TV. Temem brigas desnecessárias a cada programa.

NOVO CHEFE

O advogado Thomaz Nogueira, especialista na área tributária, é o novo superintendente da Suframa, órgão que cuida da zona franca, em Manaus. Nogueira integrava o secretariado do governo Omar Aziz.

PENSANDO BEM...

...O deputado federal Tiririca já descobriu o que faz um deputado: ter “cara de joelho”, como chamou o colega Chiquinho Escórcio. 



PODER SEM PUDOR

FRAQUE E CARTOLA

Após a derrota nas presidenciais de 1989, Lula passou por Londres, onde o embaixador do Brasil, Paulo Tarso Flecha de Lima, anfitrião perfeito, acompanhou-o em passeios, jantares etc. Na despedida, o embaixador foi ao hotel dele. Lula brincou com o fraque e a cartola que o diplomata usava: “Tá pensando que fui eleito presidente do Brasil?”

Paulo Tarso explicou o traje:

- Eu estou a caminho de um encontro com a rainha Elisabeth. 

Lula perdeu o rebolado.

DOMINGO NOS JORNAIS


- Globo: Reitores de 16 universidades são investigados por fraudes

- Folha: Serra tem maior rejeição e Lula, maior influência

- Estadão: Magistrados driblam teto e salário passa de R$ 50 mil

- Correio: Vítimas de golpe no TRT perderam R$7 milhões

- Estado de Minas: Infância atrás das grades

- Jornal do Commercio: Se não mudar, vai parar

- Zero Hora: Estado reverterá bens do tráfico em combate ao crime