domingo, outubro 30, 2011

EDITORIAL O ESTADÃO - A baderna a serviço do crime


A baderna a serviço do crime
EDITORIAL 
O Estado de S.Paulo - 30/10/11

A Cidade Universitária voltou a ser palco de confrontos entre estudantes e a Polícia Militar (PM). Os incidentes ocorreram na noite de quinta-feira e começaram depois que os policiais militares detiveram três alunos que fumavam maconha no estacionamento do prédio de História e de Geografia. Quando os levavam para o 91.º DP, a fim de registrar a ocorrência, os policiais militares foram atacados por cerca de 200 estudantes.

Além de terem apedrejado seis viaturas policiais e ferido três soldados, os estudantes invadiram o prédio administrativo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), onde praticaram atos de vandalismo, e anunciaram que só sairão do local após a revogação do convênio que permite à PM garantir a segurança na Cidade Universitária. O convênio foi assinado após o primeiro caso de latrocínio no local, ocorrido em maio deste ano. A vítima foi um estudante de economia, assassinado ao reagir a uma tentativa de roubo. Entre janeiro e abril, os roubos na Cidade Universitária aumentaram 13 vezes e os atos de violência - tais como estupros e sequestros relâmpago - cresceram 300%.

Até então, a Cidade Universitária - situada ao lado de uma favela - dispunha apenas de uma Guarda Universitária, que não pode portar armas e que conta com 130 agentes de segurança patrimonial, divididos em dois turnos, para proteger dezenas de prédios e fiscalizar seus estacionamentos, além das 100 mil pessoas que circulam diariamente pelo câmpus. Mas, apesar da crescente violência, minorias radicais constituídas por servidores, alunos e professores resistiam e continuam resistindo à presença da PM no câmpus. Militantes de micropartidos de esquerda, eles associam a PM à "repressão", alegam que a presença de policiais militares fere a autonomia universitária e classificam o câmpus como "território livre".

Alegando que a Cidade Universitária estava se convertendo em terra de ninguém, o Comitê Gestor da USP - apoiado pela maioria da comunidade acadêmica - superou as resistências políticas, elaborou um plano emergencial de segurança para a Cidade Universitária, definiu um modelo de policiamento aprovado por entidades de professores, alunos e funcionários e, em junho, fechou um acordo com a PM para colocá-lo em execução. É esse convênio que os invasores do prédio administrativo da FFLCH querem revogar.

Para confirmar que se trata de movimento ideológico, eles apresentaram uma lista de reivindicações absurdas, impossíveis de serem atendidas, do ponto de vista jurídico. Além de aproveitar o incidente para fazer novas críticas ao reitor João Grandino Rodas e acusar a PM de agir como "o braço armado dos exploradores", pedindo sua imediata retirada do câmpus, os invasores querem autonomia absoluta nos "espaços estudantis". Reivindicam, ainda, a extinção de todos os processos administrativos e criminais contra estudantes, professores e funcionários. São centenas de sindicâncias e de ações judiciais instauradas pela reitoria para apurar desvios de conduta e punir quem depredou o patrimônio da USP e ameaçou a integridade física de colegas em assembleias, greves e piquetes. Em nota, o Diretório Central dos Estudantes (DCE-Livre) classificou a invasão da FFLCH e a oposição à presença da PM no câmpus como uma luta pelos "direitos civis".

Na realidade, o que está em jogo no câmpus da USP não são as liberdades públicas nem os direitos fundamentais de estudantes, professores e funcionários. Quando invocam o princípio da autonomia universitária e pedem que a PM seja expulsa do câmpus, os baderneiros fazem o jogo dos assaltantes, assassinos, estupradores e traficantes de drogas. É evidente que, desde o início do convênio firmado com a reitoria, a presença de policiais militares na Cidade Universitária vem prejudicando os negócios dos fornecedores de drogas, reduzindo seus lucros. Além de se colocarem - consciente ou inconscientemente - a serviço do crime organizado, os invasores cometem outro erro. Eles confundem "território livre", expressão usada na academia para designar a livre troca de ideias, com uma república independente - como se a USP existisse à margem do Estado e da sociedade que a sustentam.

O que ocorreu no embate com a PM e com a invasão da FFLCH não são atos de rebeldia intelectual - são apenas demonstrações de irresponsabilidade e de alienação ideológica.

MARIA CRISTINA FRIAS - MERCADO ABERTO


Empresa de monitoramento investe R$ 150 mi
MARIA CRISTINA FRIAS
FOLHA DE SP - 30/10/11

A Sascar, empresa de monitoramento de veículos controlada pela GP Investments, está com um plano de negócios de R$ 150 milhões para os próximos três anos.

A maior parte desse capital (cerca de 80%) será investida na compra de equipamentos, que serão alugados para os clientes. Neste ano, outros R$ 50 milhões estão sendo aplicados. Um dos investimentos da empresa foi a compra de um sistema de biometria facial. A tecnologia só permite a partida do motor de um caminhão depois de o rosto do condutor ser reconhecido.

Uma câmera, instalada no quebra-sol do veículo, cria um algoritmo para descrever o rosto do motorista. A partir disso, só a pessoa cadastrada pode dirigir o caminhão. "É uma ferramenta que pode ser usada para diminuir o número de roubos de cargas e controlar as jornadas prolongadas de trabalho dos motoristas", afirma o presidente da empresa, Marcio Tabatchnik Trigueiro. O produto, que será lançado no ano que vem, levou oito anos para ser desenvolvido por uma empresa israelense e demandou investimentos da ordem de R$ 20 milhões. A Sascar, porém, não revela quanto gastou para adquirir a tecnologia.

Até 2014, além do aporte em equipamentos, a empresa também destinará uma parcela do capital à ampliação do seu call center e à modernização do parque de servidores. Hoje, os servidores recebem informação, por SMS, de 220 mil veículos. "Há alguns carros que mandam informação a cada dois minutos. Mas, pelo menos a cada cinco minutos, recebemos dados de 95% dos veículos", diz Trigueiro.

No ano passado, a empresa faturou R$ 180 milhões.

O QUE ESTOU LENDO
Fábio Venturelli, presidente da São Martinho

Dois livros estão na cabeceira da cama de Fábio Venturelli, presidente de um dos maiores produtores de açúcar e etanol do Brasil, o Grupo São Martinho.

"O primeiro foi um presente do amigo Steve Westly [fundador de fundo de venture capital americano] após uma conversa sobre nossas experiências liderando equipes."

O livro é "The Essential Wooden", de John Wooden e Steve Jamison, "uma excelente leitura para inspirar líderes". "Wooden é um bem-sucedido treinador de basquete universitário nos Estados Unidos, que ajudou a desenvolver jogadores fantásticos da NBA. A formação de times vitoriosos começa com jogadores que respeitam o essencial de sua prática e se dedicam ao time." A segunda obra é "72 Horas para Morrer", do cunhado Ricardo Ragazzo, "thriller de tirar o fôlego, sobre um 'serial killer'".

Humor... A confiança do consumidor inglês atingiu -32 pontos, em uma escala que vai de -100 a +100, de acordo com estudo da empresa de pesquisa GfK Nop. Foi a terceira vez na história que o indicador marcou esse número. As outras duas foram em junho de 2008 e em março de 1990.

...inglês Nessas duas épocas, a economia da Inglaterra estava entrando em recessão. No mês passado, o indicador da empresa marcou -30 pontos. Há um ano, porém, o índice estava 13 pontos acima do atual. Para realizar a pesquisa, a companhia ouviu 2.000 pessoas.

ACESSÓRIO MASCULINO?
Com a desculpa de carregar tablets, os homens estão adotando, a sua moda, um acessório muito feminino. Mais que capas para envolver os aparelhos, as bolsas masculinas têm espaço para carregar outros apetrechos. Enquanto as marcas nacionais oferecem pastas e mochilas convencionais, as grifes estrangeiras ousam nas cores, nos formatos e nos materiais empregados.

A bolsa-carteiro de Ermenegildo Zegna, com alça a tiracolo, atrai homens que carregam muitos objetos. Os modelos masculinos da grife possuem proporções menores que as versões femininas. Os modelos à esquerda têm 24 cm por 25 cm e são feitos com couro de antílope. "As versões masculinas vão bem com 'looks' casuais. Feitas de couro ou náilon, são clássicas e neutras", diz a direção da marca italiana.

Na Burberry, há grande variedade de modelos feitos em crocodilo, linho e couro. As bolsas masculinas da Salvatore Ferragamo são inclusive em cores diferentes para acessórios, como verde. Ainda não há previsão de venda no Brasil.

com JOANA CUNHA, VITOR SION e LUCIANA DYNIEWICZ

CELSO MING - Somos 7 bilhões


Somos 7 bilhões
CELSO MING 
O Estado de S.Paulo - 30/10/11

Amanhã seremos 7 bilhões de seres humanos. E o bebê recordista tem tudo para ser um dos 51 nascidos por minuto em Uttar Pradesh, na Índia. A humanidade chegou ao primeiro bilhão em quase 120 milênios, no século 19; em mais dois séculos atingiu 6 bilhões, em 1999; e demorou somente 12 anos para completar o sétimo bilhão.

As projeções das Nações Unidas (ONU) impressionam. Mantido o atual índice de natalidade de 2,5 filhos por mulher, como mostra o gráfico, em 2050 o Planeta abrigará 10 bilhões de pessoas e em 2100, quase 16 bilhões.

Alguns analistas aplicam a essa evolução o termo bomba demográfica. O demógrafo José Eustáquio Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE, no entanto, vê no adjetivo crítica indevida, à medida que a enorme multiplicação de gente resulta de objetivos positivos fortemente perseguidos: queda da mortalidade infantil e aumento da expectativa de vida (30 anos, em 1900; 69, hoje). Mas não dá para ignorar o acirramento de dificuldades atreladas ao surgimento de tantos novos consumidores.

Uma delas é exposta pela divisão para Agricultura e Alimentação (FAO) da ONU: há 925 milhões de famintos no globo, quase cinco Brasis. Os preços dos alimentos saltaram 250% em 11 anos (veja no Confira) e devem subir mais. Para a FAO, a nova demanda exigirá a expansão da oferta mundial em 75% até 2025. E isso só se fará com enormes investimentos.

Hoje já são 2,8 bilhões os que enfrentam séria falta de água doce. Além disso, pelos estudos da ONU, 1,4 bilhão se abastece de volume maior do que a capacidade de reposição natural dos reservatórios. Assim, em 2025, dois terços da humanidade teriam o abastecimento comprometido.

O que se passou com o petróleo talvez seja boa base de comparação. Em 1973 a cotação do barril ainda oscilava na casa dos US$ 3. Hoje, gira em torno dos US$ 100 e influencia a alta dos alimentos. Não renováveis, suas reservas mínguam e, há décadas, geram graves conflitos. A partir daí se pode imaginar o que virá se a água potável se tornar insumo ainda mais raro.

A ordem bíblica "crescei, multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a" prevaleceu até George Malthus (século 18), primeiro a questionar o equilíbrio entre expansão demográfica e produção de alimentos. Desde então, novas técnicas e a revolução verde proclamada nos anos 30 buscaram desmentir esse e outros determinismos da escassez. Mas contestações ao malthusianismo não removeram a tensão atualmente levada ao paroxismo pelas ameaças do superaquecimento global.

A explosão populacional e seus desdobramentos não são o único fenômeno demográfico a provocar sérios impactos na economia mundial. O crescimento da população idosa, também. Hoje, em cada nove pessoas, uma tem mais de 60 anos; em 2050, será uma em cada cinco, aponta a ONU. Até lá, por exemplo, o Banco Mundial estima que o Brasil eleve gastos com aposentadorias de 11% para 16% do PIB.

Para obter reequilíbrio entre índices de natalidade e mortalidade, a ONU calcula que a média mundial de filhos por mãe teria de baixar de 2,5 para 2,1. Ainda assim, haveria estabilização demográfica apenas no século 22, quando os habitantes da Terra já fossem 10 bilhões. / COLABOROU GUSTAVO SANTOS FERREIRA

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Agora é PANÇA 2011!



Ueba! Agora é PANÇA 2011!
 JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SP - 30/10/11


Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
E olha essa placa. Isso que é pai de santo: "Afasto sogra em sete dias. E faço simpatia para resgatar dinheiro do Plano Collor. Pai Elvis de Roraima". Elvis não morreu, virou pai de santo! E geralmente trazem a pessoa amada em três dias. Afastar sogra demora sete!
E um amigo meu tava vindo de Miami para São Paulo pela American Airlines quando anunciaram o filme na tela: "Histórias Cuzadas". Rarará! Com Rita Cadillac, Gretchen e Valesca Popozuda?!
E a síndica do Edifício Messina: "Proibido circular com volume grande no elevador social". Será que ela não sabe que no Brasil tudo tem duplo sentido?!
E eu quero convidar os meus leitores para a palestra no Instituto Oswaldo Cruz com a especialista em meio ambiente e vigilância sanitária: MARTHA BARATA! Rarará! Ela devia abrir uma dedetizadora.
E acabou o Pan com ovo! Acabou o Pan e começou a PANÇA! E eu já disse que Pan na Record fez a gente descobrir coisas nunca antes imaginadas: o Gugu ainda tá no ar e tem uma novela chamada "Rebelde"! E adorei a comentarista: "A ginasta já participou de vários pães". Isso! O plural de Pan é pães!
E ganhamos muito ouro. Equipe inshalá! Ganhamos cinco ouros em vela. Mas o Brasil não é ouro em vela, o Brasil é ouro em Wellaton, só tem loira tingida. E as mulheres arrasaram no Pan: ouro no handebol, ouro no vôlei, ouro em tudo! A força da periquita no Pan! O Brasil é ouro em periquita.
E a Dilma é ouro em arremesso de ministros. Mas um leitor acha que a Dilma é ouro em tiro. Esportes? Eu TIRO! Turismo? TIRO! Agricultura? TIRO. Já foram seis tiros! Pandilma 2011! E o site Eramos6 tem uma sugestão para acabar com a queda de ministro. Botar no Palácio do Planalto a placa: Cuidado! Piso molhado. Brasília tá com o piso molhado!
E o novo ministro do Esporte: Aldo Rebelo. Mas a Dilma já perguntou pra ele: "Aldo, você tem o REBELO PRESO?". Rarará! E o Orlando Silva? O original cantava, esse sambou! Rarará!
E a Primavera Árabe? Adorei o nome do partido que ganhou as eleições na Tunísia: NAHDA! O quê? Tanta coisa pra Nahda? Venceu o Nahda. Tem que ter esse partido no Brasil. Em quem você votou? No Nahda! E essa última buemba: "Marca de vans chinesas Chana troca de nome e agora se chama Changa". Changa? Já sei, chana em chinês é changa? Chana ching ling! Da Galeria Pajé. Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

GOSTOSA


MARCELO GLEISER - Dexter entre a ciência e a religião

Dexter entre a ciência e a religião
MARCELO GLEISER
Folha DE SP - 30/10/11

Imagino que muitos de vocês conheçam a popular série da Showtime chamada "Dexter", agora no seu sexto ano. Se não conhecem, não tem problema: aqui vai um resumo.

Imagine um assassino justiceiro, que mata apenas os criminosos. Na série, Dexter Morgan, representado pelo ator Michael Hall, é adorável, boa gente e trabalha como analista para a polícia de Miami. Sua especialidade é explorar os traços de sangue no local do crime, buscando pistas que levem ao assassino. Ele só mata suas vítimas após conferir que, de fato, são culpadas. O interessante da série é que você acaba torcendo por um assassino que ignora o sistema penal. Sua lógica é: quem assassina uma pessoa inocente merece morrer. Ponto.

A cada ano, Dexter confronta assassinos diversos, cada qual com suas características. A diferença é que Dexter conseguiu domar o seu "passageiro negro," o instinto assassino que o faz matar outros seres humanos. Se não o domou, conseguiu converter uma força destrutiva numa força positiva (que busca um senso de justiça).

Nesta temporada, Dexter, um ateu que baseia suas ações em decisões racionais, confronta pela primeira vez a fé e suas dúvidas. Os assassinos agem em nome de Deus, ou assim acreditam, recriando os eventos descritos no Apocalipse de João, último livro do Novo Testamento. O show é uma paródia dos inúmeros assassinatos em nome da religião, tema que discuti com Frei Betto no livro "Conversa sobre a Fé e a Ciência" (Ed. Agir, 2011).

Numa conversa entre Dexter e o irmão Sam, um ex-criminoso que virou pastor e que ajuda outros criminosos a encontrar o caminho do bem, a essência do confronto é esclarecida. Diz o irmão Sam: "Não posso provar para você que Deus existe. Mas a ciência não pode provar que Ele não existe". Ou seja, para os que têm fé, Deus só pode ser encontrado além do plano de ação da ciência, baseado numa metodologia dedutiva. Já um ateu reverteria o argumento dizendo: "Se você está tão certo de que Deus existe, então prove. Não vejo evidência".

No cerne do argumento encontramos uma incompatibilidade fundamental entre o discurso da ciência e os da fé. O irmão Sam já disse: para os que acreditam em presenças sobrenaturais no mundo, o discurso científico tem pouco a dizer sobre a existência de Deus. Eles tomam antibióticos e mandam e-mails com seus iPads, mas param por aí.

Seria de esperar que alguma espécie de coexistência pacífica pudesse ser encontrada, em que o crente e o descrente concordassem em não concordar. Se você acredita em Deus, vá em frente. Se não, vá em frente também. Infelizmente, as muitas questões nas quais a religião pode influenciar decisões políticas, educacionais e sociais não permitem essa coexistência inocente. A separação entre Igreja e Estado deveria tomar conta disso, mas, infelizmente, não é o caso.

Não sei o que vai ocorrer na série. Ao usar assassinos que são fanáticos religiosos, os autores estão tomando partido. Por outro lado, Dexter também é um assassino, mesmo se ateu. Um mata em nome de Deus, o outro em nome de uma justiça pessoal. Ambos estão errados. Espero que ao menos na TV algum meio-termo seja atingido. Ficaria decepcionado se Dexter virasse religioso.

SUELY CALDAS - Travas à corrupção


Travas à corrupção
SUELY CALDAS
O ESTADÃO - 30/10/11

É tudo ou nada. E com o tempo acaba restando nada. É assim, radical na aparência e inócuo na intenção, que tem agido o governo do PT sempre que surgem denúncias de desvios de dinheiro público.

Já no início de sua gestão, Lula determinou o fechamento de todos os bingos do País depois que Waldomiro Diniz, então assessor do ex-ministro José Dirceu, foi flagrado recebendo propina de um bicheiro. Hoje os bingos funcionam camuflados e sem nenhuma fiscalização. Agora a presidente Dilma ordenou o fim dos convênios do Ministério do Esporte com todas as ONGs, usadas para repassar dinheiro público ao PC do B. Quase todos os ministérios mantêm convênios com ONGs, e assim vai continuar. Com o tempo, também na pasta do Esporte.

Ou seja, o governo faz barulho, populismo, marketing, ataca momentaneamente os efeitos e deixa o caminho livre para as causas seguirem operando. Seria intencional? No caso do ex-presidente Lula pode ser. Afinal, ele não só brecou a apuração dos casos de corrupção em seu governo, como acariciou cabeças de corruptos e disseminou a prática de loteamento de cargos com o fim claro de tirar proveito para os partidos políticos, e não de servir ao País. Nada apurou, muito menos puniu e não tratou de criar barreiras para inibir fraudes.

Certamente não é o caso da presidente Dilma. Ela não só parece sincera ao assumir o compromisso de reprimir e punir o "malfeito", repetido desde o primeiro discurso na vitória eleitoral, como tem agido nessa direção. A demissão de cinco ministros, acusados de corrupção, em dez meses de governo, e o enfrentamento com os partidos que os representam são provas de cumprimento desse compromisso. É certo que ela tem tropeçado aqui e ali em declarações vacilantes e deixado as denúncias prosperarem e sangrarem seu governo. No caso da demissão de Orlando Silva, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal acabou agindo por ela. São tropeços decorrentes da inabilidade em lidar com o assunto, mas ela parece realmente disposta a não compactuar com corruptos.

Se assim é, Dilma precisa começar a trabalhar rápido na construção de um cinturão de proteção ao dinheiro público, criar regras preventivas de ação e conduta para quem ocupa cargos no governo capazes de impedir a fraude no nascedouro. Não será agindo sobre os efeitos, fechando bingos e proibindo convênios com ONGs, que conseguirá. Uma reforma política resolveria o principal foco de corrupção: o financiamento de campanhas eleitorais. Como sua aprovação depende mais do Congresso que do Executivo, resta a Dilma recorrer a um vasto cardápio ao seu alcance.

Na quinta-feira o controlador-geral da União, Jorge Hage, anunciou que o governo pensa em reproduzir a Lei da Ficha Limpa em nomeação de cargos no Executivo e obrigar ministros a assinarem convênios com ONGs, não mais delegar a subordinados. O que espanta é não ser assim há mais tempo. Afinal, o mínimo que o País exige de um ministro de Estado é não ter cometido crimes no passado. Mas vá lá, desde que não seja factoide de um momento de crise de demissão no Esporte.

Na sexta-feira, o Estado publicou um estudo de dois cientistas políticos da Unicamp que mapearam os riscos de corrupção em cada Estado do País. Em outro estudo, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) propõe ao governo Dilma uma série de medidas preventivas anticorrupção. Os dois trabalhos têm na prática da transparência - a obrigatoriedade de governos prestarem contas à população publicando em seus sites na internet atos, licitações, contratos, convênios, enfim, os números de seus gastos - o centro de uma ação preventiva para frear a corrupção. São contribuições que poderiam balizar medidas preventivas (muitas sem precisar passar pelo Congresso), se real é a disposição do governo Dilma de fechar os ralos de desvios de dinheiro. Fernando Henrique Cardoso fez a Lei de Responsabilidade Fiscal, criou a Comissão de Ética e parou por aí. Lula nada fez. Está nas mãos de Dilma dar um rumo ao seu governo neste campo, inverso ao do antecessor.

ARTHUR FONSECA FILHO - O Enem sob fogo cerrado

O Enem sob fogo cerrado
ARTHUR FONSECA FILHO
FOLHA DE SP - 30/10/11

O clima de tensão e a cortina de fumaça dificultam que a sociedade perceba a grande contribuição desse exame ao sistema de ensino brasileiro

O Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), que aconteceu no último final de semana, está sob fogo cerrado: as críticas se concentram na divulgação dos dados, nos seus problemas de organização, nos riscos de fraude e, mais recentemente, no caráter nacional e unificador de tal exame.

Os críticos apontam que, ao substituir os vestibulares das universidades, o exame deixaria as instituições sem capacidade de escolher um perfil mais específico de aluno.

Indicam, ainda, que o sistema permitiria que alunos com boa pontuação em uma região fossem aprovados em instituições de outra parte do país, tomando vagas locais e aumentando o risco de evasão.

Embora haja algo de real nessas ressalvas, há um evidente exagero em muitas das reclamações.

O clima de tensão criado e a cortina de fumaça dificultam que a sociedade perceba a grande contribuição desse exame ao sistema educacional brasileiro.

Lembremos que o ensino médio brasileiro sofre, há décadas, de um garrote ao qual se submeteu pela fraqueza das políticas públicas de educação básica: a vampirização do currículo por grandes vestibulares.

É uma reação em cadeia pela qual, por exemplo, um grupo de pesquisadores de cada um dos institutos da USP decide, sem sair da cidade universitária, o que a Fuvest deve cobrar dos alunos e, por consequência, o que uma boa escola de ensino médio precisa ensinar.

Esse raciocínio, multiplicado por centenas de universidades país afora, resultou em um currículo irrealizável, conteudista ao extremo, míope, que nenhum bem trouxe à educação. Com o Enem, conceitos como competência e habilidade tornaram-se vocabulário comum de professores e alunos -e também de famílias e da sociedade.

O exame mostrou que os conhecimentos se renovam, mas que as estruturas cognitivas básicas que os operam permanecem e devem ser estimuladas. Demonstrou que uma prova inteligente é capaz de discriminar os mais competentes sem forçá-los a saberes enciclopédicos, destinados ao esquecimento.

Identifica, ainda, quem passou por uma escola que valorizou o raciocínio, a argumentação, o ensino contextualizado, as habilidades de leitura alfabética e numérica... enfim, aquilo que é fundamental para o desenvolvimento humano.

O Enem já se mostrou um instrumento legítimo para aferir o desempenho dos alunos e para avaliar sua trajetória escolar. Em casos específicos, outros instrumentos complementares devem ajudar as universidades a encontrar um perfil próprio de aluno. As distorções eventuais podem, ainda, ser corrigidas por instrumentos de gestão.

Urge cuidar desse patrimônio, trabalhando para que a sociedade e a mídia compreendam melhor os resultados e deixem progressivamente de fazer análises dogmáticas, centradas nos riscos de qualquer grande exame, para enriquecer a leitura das múltiplas informações que o exame fornece.

ARTHUR FONSECA FILHO é educador, membro do Conselho Estadual de Educação de São Paulo, diretor do Colégio Uirapuru e membro do conselho administrativo do Colégio Santa Cruz.

FILME DO DIA: O INFERNO NÃO PODE ESPERAR

FILME DO DIA
 O INFERNO NÃO PODE ESPERAR


JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS - Na crise, a indústria global se movimenta



Na crise, a indústria global se movimenta
JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS
O ESTADÃO - 30/10/11

A última reunião do Fundo Monetário Internacional, no fim de setembro em Washington, foi marcada por um extremo pessimismo quanto à evolução e perspectivas da crise mundial. Desde então o pessimismo recuou em alguma medida, com dados melhores nos EUA e na China. Na Europa, as decisões tomadas avançam no encaminhamento na questão do euro, embora estejamos longe da solução definitiva. Acho que os pessimistas terão de esperar um pouco mais para testar suas hipóteses.
Na crise, a indústria global está se movimentando. Podem-se observar pelo menos dois conjuntos de transformações: a aceleração de mudanças tecnológicas e certa revisão e realocação nas cadeias de produção.
Não será a primeira vez que uma crise induz e consolida inovações, ameaçando modelos estabelecidos de produção e de negócios, ao mesmo tempo em que se abrem inúmeras oportunidades. Não tenho a pretensão de realizar qualquer tipo de análise abrangente, mas diria que os avanços mais importantes estão ligados a área de energia e materiais, sustentabilidade, tecnologia da informação, mobilidade e redes, além da redobrada busca de eficiência produtiva.
Na área de energia, a grande novidade é a decisão de avançar em fontes renováveis, especialmente nos biocombustíveis de segunda geração (que estão muito próximos de se tornarem comerciais, como o diesel proveniente do caldo da cana), a energia solar e a energia eólica. A crise internacional vai atrasar um pouco a ampliação dos dois últimos programas porque subsídios ao investimento e a produção serão em partes reduzidos. Entretanto, em regiões como o Vale do Silício e outras, o número de empresas trabalhando nas melhorias de custos sugere que as novas fontes estão mais próximas de se tornarem competitivas. A segunda frente na questão da energia está na conservação, especialmente por meio das lâmpadas LEDs e de computadores e máquinas mais eficientes no consumo de energia. Finalmente, na área de combustíveis fósseis tradicionais a forte inovação tecnológica permite a produção de petróleo em águas ultra profundas e o gás natural de rocha ("shale gas"), que está produzindo uma revolução na oferta americana e uma queda no preço de mercado.
Os avanços na biotecnologia e na nanotecnologia são em parte responsáveis pela produção de novos materiais, como solventes, plásticos degradáveis e outros. Materiais compostos (plásticos reforçados com fibra de carbono) e cerâmicos serão utilizados crescentemente na indústria aeronáutica.
Na área da tecnologia de informação os enormes avanços na mobilidade (telefones, tablets e outros aparelhos pequenos, mas poderosos, bem como seus respectivos softwares), nas redes sociais e na computação em nuvem (definida com a possibilidade de colocar em um grande centro de computação programas e arquivos de qualquer porte, e acessá-los de qualquer lugar que se esteja) estão produzindo uma revolução ainda em sua fase inicial. Apenas imaginamos suas consequências, mas certamente a operação de empresas industriais está sendo afetada.
Nesta área a possibilidade de construção de redes inteligentes afetará a vida nas cidades e os modelos de produção e distribuição de diversos segmentos. Um exemplo que começa a se expandir são as redes inteligentes de distribuição de energia elétrica que permitem que unidades possuidoras de painéis solares possam ser não apenas consumidores de energia, mas também vendedores dela em certos momentos.
Ao lado da mudança tecnológica, existe certa revisão e realocação nas cadeias industriais. Nas cadeias de suprimentos ("procurement"), a busca frenética por redução de custos levou muitas companhias a operarem com estoques mínimos e a dependerem de uma única fonte de suprimento. Entretanto, dois grandes casos tiveram um forte impacto e estão levando a certa revisão nessa estratégia. Falo aqui das terras raras e dos impactos dos acidentes ocorridos no Japão em março.
Existe uma enorme dependência da exportação de terras raras da China. O que assustou a indústria foi o fato que o governo chinês suspendeu por vários meses as licenças de exportação, obrigando as indústrias consumidoras a se utilizar de seus estoques, que naturalmente se reduziram. As terras raras são um conjunto de minérios (lantânio, cério, praseodímio, gadolínio, térbio, promécio, etc) de baixo consumo em volume, mas absolutamente insubstituíveis na produção de super ímãs, fabricação de componentes de motores de avião, memórias de computador, CDs e TVs em cores. No limite, um bloqueio do comércio destes produtos pararia uma boa parte do parque industrial global mais moderno. Como consequência, muitos países e empresas passaram a estudar a possibilidade de produção de alguns destes minérios, como, por exemplo, a Vale.
O triplo desastre no Japão em março revelou uma enorme dependência da indústria, especialmente a automotiva, de certos pequenos chips (indispensáveis ao funcionamento dos veículos modernos) de plantas localizadas no Japão. Com isso, a cadeia internacional de suprimentos foi seriamente afetada, por um período. Apenas como exemplo a produção automotiva americana caiu pesadamente em maio, sendo um dos elementos contribuintes para a perda de crescimento do PIB daquele país no primeiro semestre deste ano. No Brasil, a falta de suprimentos levou a Honda a demitir metade do corpo funcional e reduzir a produção. Duas consequências ocorreram: 1) muitas indústrias revisaram seus procedimentos elevando estoques de certos insumos para pelo menos três meses de consumo na produção; 2) muitas empresas japonesas voltaram a investir em plantas em outros países como um seguro para evitar uma repetição destes eventos.
A incessante busca por eficiência produtiva está levando muitas indústrias a intensificar o uso de robôs, apesar do desemprego em elevação no mundo. O caso mais estonteante é o anúncio da Foxconn de que vai introduzir o uso de um milhão de robôs em suas fábricas nos próximos anos. No Brasil está se generalizando o uso de robôs em certas áreas das fábricas, especialmente na soldagem. Restrições de caráter ambiental e de proteção à saúde do trabalhador também estão na base desta mudança.
Finalmente, o fato mais notável é que a vantagem de custo da China está se reduzindo tendo em vista a brusca elevação dos custos de mão de obra, que continuarão a ocorrer. Em resposta a isso, vemos três movimentos ocorrendo: 1) a interiorização da produção, onde os menores custos de mão de obra são compensados pela pior infraestrutura; 2) crescimento da produção em países vizinhos, como o Vietnã, Camboja, Filipinas e outros; 3) a recuperação de competitividade em outros lugares, como o México.
Nessa área, o caso mais impressionante é a recuperação da indústria americana, que está se acelerando. Estudo recente do Boston Consulting Group (Made in America, Again- agosto de 2011) mostra que daqui a cinco anos será mais barato produzir certos itens (como autopeças) nos EUA do que importar da China. Além da elevação de salários no país asiático, o dólar fraco, a maior produtividade americana e outros fatores, vão eliminar quase toda a diferença de custos existente até aqui. Na verdade, já hoje é visível o renascimento da indústria americana. Muitas empresas, inclusive brasileiras, já investem lá em plantas industriais.
Acho desolador ver que, enquanto todos estes movimentos acontecem, a agenda industrial brasileira é dominada pelo foco no câmbio, no protecionismo e na extração de outras benesses governamentais, enquanto nossa produtividade não se move e a competitividade do País recua sem parar (é só olhar o Doing Business 2012, do Banco Mundial).

RENATA LO PRETE - PAINEL


Seis por meia dúzia?
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SP - 30/10/11

Uma vez trocados seis ministros, muita gente no governo começa a duvidar das condições de Dilma Rousseff para realizar uma reforma ministerial ampla no início de 2012. Haverá trocas, mas vai se desenhando um quadro no qual a presidente terá margem de manobra reduzida para promover, como gostaria, um reequilíbrio das forças partidárias na Esplanada -vide a resistência do pequeno PC do B em abandonar o filé no qual se transformou o Esporte com a Copa e a Olimpíada.
A eleição municipal, que obrigará a substituição dos ministros candidatos, exigirá cuidado extra para não melindrar aliados do petismo em praças estratégicas.

Prancheta Além da Educação, caso se concretize a candidatura de Fernando Haddad (PT) em São Paulo, as pastas cotadas para entrar na reforma são Cidades, Trabalho, Cultura e Desenvolvimento Agrário, além de algumas secretarias com status de ministério. Isso se nada acontecer antes com seus titulares, bem entendido.

Pause A queda serial de ministros e a perspectiva de reforma em breve vai paralisando a Esplanada. O compasso é de espera total.

Maratona O novo ministro do Esporte, Aldo Rebelo, programou para este fim de semana um mergulho nos principais assuntos da pasta.

Assim seja Dilma deverá sancionar a lei de Acesso à Informação sem vetos.

Vai nessa A Infraero estuda um pacote de incentivos para os funcionários que se dispuserem a deixar a estatal para trabalhar nas concessionárias dos aeroportos de Brasília, Guarulhos e Campinas, que serão explorados pela iniciativa privada.

Voando A despeito dos indicativos contrários do Planalto, São Bernardo do Campo entrou na briga pelo terceiro aeroporto de São Paulo. Na empreitada, Luiz Marinho (PT) diz contar com o apoio de Lula, que mora na cidade.

Infantaria 1 Quem acompanha o bastidor das prévias do PT para a prefeitura paulistana, agendadas para o dia 27, avalia que Marta Suplicy "está bem de soldados, mas mal de sargentos".

Infantaria 2 Para grão-petistas, se houvesse uma urna em cada rodada das caravanas que o partido realiza, a senadora lideraria as citações entre os cinco pré-candidatos. O colégio eleitoral da disputa, contudo, é controlado pelas lideranças, progressivamente mais alinhadas a Fernando Haddad.

Na dúvida... Na direção do partido há quem aposte que Marta, diante das incertezas do cenário, pode desistir, pois sabe que eventual derrota representaria um vexame em seu currículo.

Sucessão A mudança no comando do comitê paulista da Copa, precipitada pela saída do secretário Emanuel Fernandes (Planejamento), traz embutida uma disputa velada entre estatais pela coordenação operacional dos preparativos para o evento.

Lista tríplice À mesa de Geraldo Alckmin, três empresas são listadas como candidatas à absorção da equipe que terá dedicação exclusiva ao Mundial de 2014: a Companhia Paulista de Turismo, sob controle do aliado PSB, a CPOS e a Emplasa, ambas da cota do PSDB.

Cinturão verde Gilberto Kassab (PSD) pleiteia R$ 400 milhões do Fundo Municipal de Saneamento e Infraestrutura, sobretudo para investimentos no Parque Linear do Rio Verde, que permitirá remoção de favelas nas cercanias do Itaquerão.

tiroteio
"Graças ao inquérito da PF sobre a quebra do PanAmericano, descobrimos que a 'bolinha de papel' da campanha eleitoral foi a mais cara da história." DO DEPUTADO JUTAHY JÚNIOR (PSDB-BA), relacionando a operação de socorro ao banco de Silvio Santos à cobertura marcadamente governista feita pelo SBT no episódio do tumulto de rua envolvendo José Serra no segundo turno.

contraponto
O insaciável
Na reunião inaugural do Conselho de Desenvolvimento Metropolitano, terça passada, o prefeito Gilberto Kassab aproveitou a frugalidade do lanche servido -duas barras de cereal por convidado- para provocar o secretário estadual Edson Aparecido, tido como pão-duro:
-Pelo menos podemos levar para casa?
O criador do PSD brincou também com Andrea Matarazzo (Cultura), pois o evento ocorreu na Sala São Paulo:
-Você bem que poderia ter providenciado um almoço. Duas barrinhas não saciam o nosso apetite...

JOÃO BOSCO RABELLO - O efeito moderador de FHC



O efeito moderador de FHC
JOÃO BOSCO RABELLO 
O Estado de S.Paulo - 30/10/11

A ida do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ao jantar no Palácio da Alvorada, nove anos após deixar a Presidência, expôs mais uma vez o conflito interno no PSDB, polarizado entre o senador Aécio Neves e o ex-governador de São Paulo, José Serra.
Fernando Henrique foi a um jantar com líderes mundiais empenhados na promoção da paz global, entre os quais está o ex-presidente americano, Jimmy Carter. Um evento, portanto, apartidário que deveria ser registrado como uma pausa entre adversários pelo bem comum.
No entanto, em política não há gestos gratuitos e o novo encontro entre FHC e a presidente Dilma Rousseff reforçou a leitura de que o ex-presidente exerce um papel moderador na oposição ao governo desde que começaram a pipocar os escândalos ministeriais, confiante de que está em curso o desmonte de uma estrutura concebida pelo ex-presidente Lula.
Importaria mais, portanto, estimular a ação saneadora de Dilma, pela exposição automática do verdadeiro adversário nas campanhas municipal e presidencial: Lula. É, porém, uma estratégia sutil demais para tucanos preocupados com 2014 num contexto em que a percepção geral é a de que ao país falta oposição.
O tom moderador de FHC encontra sintonia com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que costura sua candidatura explorando a visibilidade do mandato que falta ao seu rival José Serra. Este, com seus espaços reduzidos no partido, que até da propaganda gratuita o andou excluindo.
É daí que vem o grito do senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), cobrando uma agenda de oposição, como defende o ex-governador Serra.
Oposição no governo
No quadro de anemia dos partidos de oposição, esta é muito mais percebida dentro do próprio governo, onde o fogo amigo produz vítimas entre rivais da base aliada. Mesmo quando as denúncias são levantadas exclusivamente pela imprensa, parlamentares da situação as atribuem, em algum grau, a informações de adversários que disputam espaço na estrutura de poder. O caso mais recente é o do ex-ministro dos Esportes, Orlando Silva, cuja queda ele próprio debitou a uma suposta ação do PT, através do ex-titular da Pasta, o atual governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz. O que faz o governo agora temer uma vingança capaz de gerar novos estragos no PT. Nesse momento, a oposição está no governo.
No twitter
É no Twitter que Serra e Aloysio Nunes compensam a redução do espaço dentro do partido promovido gradualmente por Aécio Neves (MG) com apoio do presidente Sérgio Guerra (PE). O senador cobrou a posição do PSDB sobre a questão dos royalties, código florestal, reforma política e Copa do Mundo. "Qual é a nossa posição?" - pergunta. Já Serra condenou a MP 540 que prevê o uso do FGTS para obras da Copa. "O FGTS é um patrimônio do assalariado", disse.
Mais fiscalização
O governo vai precisar ir além do Ministério dos Esportes para pôr fim à festa das ONGs vinculadas à sua base de sustentação. Elas estão em toda a parte a serviço da apropriação do orçamento público pelos partidos, a exemplo do que se verificou no caso do PC do B. O governo espera que não haja novo terremoto nos ministérios das Cidades e do Trabalho, onde também há convênios na mira do ministério Público, antes da reforma ministerial. Mário Negromonte e Carlos Lupi, respectivos titulares dessas Pastas, são dados como fora do governo em 2012. Também não pode se esgotar na transferência de convênios para as prefeituras a solução para a corrupção. O Planalto quer mais acompanhamento e fiscalização dos próprios ministérios da execução de projetos com financiamento público.

FERREIRA GULLAR - Do acaso à necessidade

Do acaso à necessidade
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SP - 30/10/11

Vivo descobrindo coisas sem importância, mas que me instigam e me fazem refletir. Claro que não estou me referindo ao aroma de jasmim, que me atordoou, certa noite, quando saía do prédio onde mora Cláudia. Aquilo pertence à categoria dos espantos, donde, no meu caso, nascem os poemas. Mas é raro de acontecer.

Fora esses espantos, há descobertas menores, menos espantosas, que não geram poemas, mas de qualquer modo provocam certo barato. Nascem como pequenos sinais. No início sem importância, mas que deixam um rastro, um vinco, que mal percebo; depois, outra sensação diferente, um curto-circuito mínimo, um choque e já então me dou conta de que alguma coisa está se revelando.

E assim foi que, de repente, percebi que o poema, na verdade, quer nascer sem ter começo. Como assim? Se quer nascer sem ter começo, quer então ser uma espécie de revelação, algo mágico ou místico? Não, místico não, que eu de místico não tenho nada. Revelação pode ser, porque não implica milagre.

Ocorre que essa percepção, de fazer um poema sem começo, surgiu, na verdade e confusamente, de outra descoberta: da quantidade de acaso que entra na realização de toda e qualquer obra de arte.

Essa descoberta já aparece como tema de alguns poemas de meu último livro ("Em Alguma Parte Alguma"), como na série que começa com o poema "Desordem" e prossegue com "Adendo ao Poema Desordem" e "Novo Adendo ao Poema Desordem".

Nesses poemas, está implícito, além do fator acaso, o fato de que a linguagem verbal não expressa plenamente a realidade, uma vez que, por ser um sistema, sua ordem não é a mesma que a ordem do mundo real, fora dela. Daí o poema "Fica o Não Dito por Dito", que abre o livro. Ou seja, como a linguagem só diz o que ela diz, não diz tudo, portanto. Por isso, porque não diz tudo, faço de conta que diz: fica o não dito por dito.

Além de o poema não dizer tudo o que o poeta deseja dizer, não sabe, ao começá-lo, o que vai dizer, porque, para sabê-lo, seria necessário que o poema já estivesse escrito. Assim, tudo o que há, então, é o desejo de dizer algo que o poeta não sabe o que será: está diante de uma página em branco e, portanto, aberto a todas as probabilidades.

Mas, ao escrever a primeira palavra, a probabilidade, que era quase infinita, diminui, porque essa primeira palavra já condicionará a seguinte, tornando-a, por assim dizer, necessária. E assim, palavra a palavra, o poema vai nascendo, num jogo de acaso e necessidade. Num jogo em que, à medida que o poema se constrói, haverá menos acaso, porque cada nova palavra ou verso, que a ele se acrescenta, é determinado pelo que já está escrito e ganhou sentido: o poeta já sabe, agora, o que quer dizer e, por isso, só entra nele o que for necessário.

Escrever, portanto, é vencer o acaso, tornar o fortuito necessário. Isso significa que o que não existia, que era apenas a aspiração de inventar do poeta, torna-se necessário ao poema e à nossa vida.

Qualquer poema que existe poderia não ter sido escrito, mas, uma vez escrito, pode tornar-se necessário por enriquecer-nos. Daí ter eu afirmado, certa vez, que a arte existe porque a vida não basta. E não basta porque tem de ser inventada.

E só então entendi porque, ao inventar de escrever o "Poema Sujo", queria, antes, vomitar toda a vida vivida, criando assim um magma de onde extrairia o poema. Era um modo de começá-lo sem começá-lo: ele já estaria todo ali, no que foi vomitado. Sucedeu que o vômito não saiu e, assim, tive de lançar mão de outro recurso, escrevendo estes versos que não se referem a nada precisamente: "Turvo, turvo / a turva mão do sopro contra o muro / Escuro / menos menos / menos que escuro...". O poema só começa - suponho eu - bem adiante, quando escrevo: "Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas...".

Assim como só então entendi que não queria "começar" o poema, só agora também percebi que ele acabou antes que eu decidisse. De repente, após meses ligadão nele, cessou o impulso e eu não sabia como seguir em frente. O final do poema foi inventado por mim, conscientemente, fora do barato em que o compunha, porque teria de dar-lhe um fecho. De modo que é assim: o poema, de fato, não tem começo nem fim.

UGO GIORGETTI - Na banca de jornais


Na banca de jornais
UGO GIORGETTI 
O Estado de S.Paulo - 30/10/11

Na banca de jornais, descubro que ainda existem álbuns de figurinhas. Sim, como os de antigamente, com os times e as fotos dos jogadores. Me diz o jornaleiro que vendem muito bem e me dá um para folhear. Muito bonitos, modernos, bem impressos, muito diferentes dos álbuns de quando era criança, com fotos tremidas e fora de foco, onde mal se distinguiam as cores da camisas, sempre pálidas, um pouco descoradas.

Folheando as páginas do belo álbum atual notei uma desvantagem crucial em relação aos velhos. Com a frequente mudança de jogadores de um time para outro, as escalações são obsoletas, e o que tem aspecto moderno e atual vira rapidamente coisa do passado. Antigamente, a integridade dos times, e do álbum, era mais preservada. Só havia mudança por encerramento da carreira, prisão ou morte. O novo álbum, porém, tenta ser prudente e, pelo menos, omite o nome dos treinadores.

Descubro que atualmente não há prêmios para quem completa o álbum. Também não há figurinhas difíceis, nem "carimbadas'', expedientes usados pelos antigos para dificultar o preenchimento dos álbuns. Naquela época havia prêmios: bolas (oficiais, n.º 5), máquinas fotográficas e bicicletas. O álbum se chamava "Balas Futebol'', porque as figurinhas chegavam embrulhadas junto com uma bala e era comum garotos andando lentamente pelas calçadas, cabeça baixa, revirando nas mãos as figurinhas que tinham acabado de abrir, com a boca entupida por umas dez balas. Receio que o futebol tenha causado uma profusão de cáries e mesmo futuras dentaduras em toda uma geração.

Na época, se colecionava com a finalidade de ganhar o prêmio. E hoje, qual seria a razão de se colecionar figurinhas? Qual seria o prazer de apenas comprar fotografias e colá-las num álbum sem qualquer outra recompensa? Será que, apesar de tudo o que se fala sobre o império do dinheiro nos tempos atuais, éramos mais interesseiros? Será que no fundo somos os mesmos de sempre?

Há um engano, a meu ver enorme, nessa celeuma toda em relação ao Ministério do Esporte. O problema é que esse ministério está envolvido em coisas que não lhe dizem respeito. Desde quando futebol é esporte? Talvez tenha sido um dia. Mas faz tempo que futebol, e também olimpíadas, são negócios, dinheiro. Esses eventos deveriam ser conduzidos por outros ministérios, por homens acostumados ao jogo dos grandes dinheiros, a todos os truques, aos estratagemas que nem sonhamos, pobres mortais.

É a eles que a Copa do Mundo deveria ser confiada. Esses jamais seriam pegos em escorregões de principiantes, deixando pegadas e rastros de uma ingenuidade espantosa. Ao Ministério do Esporte deveriam ser atribuídas tarefas de acordo com a importância que sempre teve ao longo de décadas e décadas, isto é, nenhuma. Nunca houve qualquer política de esportes neste País e, no entanto, sem que sequer soubessem tocar seu miúdo dia a dia habitual, deram a esse ministério a tarefa de cuidar da Copa. Tudo por vergonha de olhar o esporte como é hoje: um negócio como qualquer outro. Aqui no Brasil, o maior de todos. A crise internacional é problema da Europa e dos EUA, nós temos coisa mais séria a fazer.

Leão de volta. Outro dia tive o prazer de acompanhar uma entrevista sua pela televisão. Não lembro sobre o que era, nem ouvi com cuidado o que disse. Mas me chamou a atenção o lugar. Uma espécie de estúdio, ou galeria, com quadros colocados estrategicamente atrás do antigo goleiro. Era pintura contemporânea, facilmente identificável. Daí lembrei que alguém me disse que Leão se dedica já há algum tempo a colecionar arte, parece que pintura em particular. E pintura contemporânea. Lembrei também que um jornalista me havia dito que um dia topou com Leão numa famosa galeria. Propôs uma rápida entrevista, que foi concedida gentilmente. Ao afastar-se, depois da entrevista, o jornalista me disse que ainda ouviu Leão comentando com alguém ao seu lado: "Você viu a diferença entre um jornalista da área de cultura e aquele pessoal do esporte?''

CLAUDIO HUMBERTO

“Não há demissão justa ou injusta”
Ministro Aldo Rebelo (Esporte), driblando a pressão para sair em defesa do antecessor

ONG Viva Rio ficou milionária com Esporte 
O Tribunal de Contas da União cobra da ONG Viva Rio explicações de onde foram parar os R$ 6,1 milhões de convênios com o Ministério do Esporte desde 2005 (processo 015.327/2008-2). A ONG se comprometeu a instalar 250 centros do famigerado Segundo Tempo, para treinar 50 mil crianças, mas não deu conta de um terço disso. Auditoria do TCU constatou “execução parcial do processo”. 
Silêncio total 
O TCU pediu explicações aos gestores Rafael Aguiar Barbosa e Julio Cesar Soares da Silva, do ministério, sobre o convênio com a Viva Rio.
Pelo ralo 
O tribunal aplicou multa à gestora Luciana Homrich por ter liberado parcelas dos recursos apesar da não prestação de contas da ONG.
Milagre 
A dois meses para o prazo final, a ONG apresentou conta de 34 mil crianças. Da noite para o dia, saltou para 50.546. Sem comprovação.
Atestado 
Mostra o TCU: “A falta de capacidade para gerir o convênio pode ser atestada por meio de notas fiscais de assistência administrativa”.
DF: ‘brinde’ de R$ 900 milhões para empreiteiras 
A obra de R$ 2,5 bilhões do centro administrativo de 170 mil metros quadrados, do governo do DF, pode render às empreiteiras Odebrecht e Via Engenharia, de “brinde”, uma área de 320.000 metros quadrados avaliada em R$ 900 milhões, oferecida como “garantia real” para o pagamento dos aluguéis futuros de R$ 12 milhões mensais. A área fica em frente ao Parkshopping, na rodovia de acesso à cidade do Guará. As empresas confirmaram, mas negaram pretender herdar a gleba.
Eis a meta 
Para ganhar o “brinde” de R$ 900 milhões, as empreiteiras só precisam torcer para que, no futuro, o governo do DF não honre os aluguéis.
Assim é moleza 
O centro administrativo do DF é uma curiosa Parceria Público Privada com muito dinheiro público, do financiamento aos avais da operação.
Onde mora o perigo 
O governo do DF é avalista do centro administrativo, por meio de garantias reais e quase R$ 1 bilhão de recebíveis da estatal Terracap.
Brasília no mundo 
Em novembro estará em Brasília o grupo português Ideias do Futuro (IDF), de Lisboa, que já atua em 42 países, e projetou os centros de treinamento do Barcelona e do Manchester United. Vai vistoriar área em Sobradinho para treinamento de equipes para Copa e Olimpíadas.
Banquete do poder 
O deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) diz que tucanos aecistas e serristas fecharam com a candidatura de Henrique Eduardo Alves à presidência da Câmara. Aécio e Alves jantaram na terça (25).
Apolônio, 100 
Sem figuras ilustres no seu partido, Ruy Falcão aproveitará a festa do PT, de 4 a 11 de fevereiro, para homenagear a memória do socialista Apolônio de Carvalho, que completaria cem anos dia 9 daquele mês.
Caça-fantasmas 
Pré-candidato à prefeitura paulistana, o fundador e presidente do PRTB Levy Fidelix, inimigo de Gilberto Kassab, ressuscitará o ex-presidente no slogan “É Jânio de novo. São Paulo tem jeito. O jeito é Levy Fidelix”.
Linha de tiro 
A “faxina” de Dilma agora terá pontaria: a Presidência da República reservou R$ 76, 3 mil à aquisição de “produtos” para seus seguranças treinarem tiro ao alvo. Sai da mira!
Casa de ferreiro 
Aguerrido na defesa do politicamente correto, o PT ainda não se manifestou contra a secretária de Cultura de Mauá (SP), Eliana da Silva (PT), que teria chamado dois assessores de “bichas loucas”. 
Caras e bocas 
Quem foi à posse da ministra Ana Arraes no TCU saiu de lá com duas vivas impressões: 1) a circunspeção de Dilma, que de caradura entrou, de caradura saiu; e 2) o abatimento do senador José Sarney, que chegou, sentou e logo depois saiu, de cara amarrada.
Faixa preferencial 
Depois dos indígenas, agora os cocaleiros apoquentam o presidente da Bolívia, Evo Morales: os produtores de folha de coca querem a rodovia da brasileira OAS atravessando área ambiental que o maluquete vetou. 
Plantão médico 
Nova doença na praça: a ONGdependência. 

PODER SDEM PUDOR
Explicação 
O ministério anunciado por Juscelino Kubitschek descontentou os aliados, alguns porque não foram convidados ou pela presença de certas pessoas no novo governo. Pompeu de Souza, repórter do Diário Carioca, interpelou JK sobre Armando Falcão no Ministério da Justiça: “Logo ele?”
Reza a lenda que JK respondeu cochichando no ouvido do jornalista:
– Ora, Pompeu, todo governo deve ter seu próprio f.d.p.. Ele é o nosso...