quinta-feira, setembro 08, 2011

CLÓVIS ROSSI - Que tal estatizar o Estado?

Que tal estatizar o Estado?
CLÓVIS ROSSI
FOLHA DE SP - 08/09/11

Crise econômica mundial explicita o predomínio dos mercados financeiros sobre governos impotentes


O PROFESSOR Delfim Netto saudou ontem, em sua coluna nesta Folha, o que chamou de "estatização" do Banco Central, em alusão à decisão de baixar os juros. Um sinal, torce Delfim, de "menor influência do setor financeiro privado".

Tomara. Pena que falte o principal, "estatizar" também os governos, mais e mais dependentes de ordens não escritas emanadas do setor financeiro.

No Brasil, essa "privatização" do público aparece na manutenção de um elevado superavit primário (receitas menos despesas do governo, fora juros da dívida).

Só no primeiro trimestre deste ano, as despesas com juros foram de R$ 119 bilhões, 30% a mais que em 2010. Montante que equivale a impressionantes 6,12% de tudo o que a economia produz em bens e serviços, o tal de PIB (Produto Interno Bruto).

É a rubrica que mais consome recursos públicos, como se o Brasil estivesse com todos os problemas resolvidos e pudesse dedicar a maior fatia de seu carinho aos credores, uma ínfima minoria.

Mas é na Europa que aparece com mais nitidez a privatização do Estado. Açoitados pelos mercados, um governo após o outro adota medidas de austeridade que sufocam a recuperação ainda débil da economia. O ponto culminante desse assalto aos Estados se dá pela tentativa de inscrever na Constituição um limite para o deficit público.

Até concordo que os Estados, como as pessoas físicas, devem viver de acordo com as suas posses. Mas sempre aparecem circunstâncias excepcionais que tornam imprescindível aumentar o gasto público e, com isso, gerar deficit/dívida.

Se quando eclodiu a crise financeira já estivesse em vigor esse tipo de veto constitucional, não teria sido possível adotar os colossais pacotes de estímulo que foram decisivos para evitar a depressão.

A privatização do espaço público se dá até na narrativa da crise: a obsessão com o ajuste fiscal é tanta que fica a impressão de que foram os gastos irresponsáveis dos governos que a provocaram, quando ocorreu o contrário.

O comportamento irresponsável do sistema financeiro é que gerou a crise e, por extensão, a necessidade de pacotes de estímulo, que levaram a um endividamento/deficit colossal.

Agora, os mercados que comeram na mão dos governos exigem austeridade, que é de fato necessária, desde que se levem em conta outras necessidades imperiosas, como crescer, reduzir o desemprego etc.

Vale comentário da jornalista e escritora espanhola Irene Lozano para "El País", no qual lamenta "a hegemonia atual desses entes fantasmagóricos chamados mercados, que não se apresentam às eleições nem prestam contas aos cidadãos nem explicam seus programas, mas ostentam a faculdade de impor a visão de mundo mais benéfica para eles".

Lozano recupera frase de Adam Smith, o grande profeta do capitalismo e do livre-mercado, capaz no entanto de enxergar que "a rapacidade mesquinha e o espírito de monopólio dos mercadores não são nem devem ser os governantes da humanidade".

Pois é, velho Adam, dois séculos depois, a rapacidade dos mercadores governa o mundo, sim, senhor.

VINICIUS TORRES FREIRE - Eu sei que você sabe que eu sei

Eu sei que você sabe que eu sei
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 08/09/11

Governo mudou a política econômica com um projeto ou se adapta aos poucos e aos trancos à realidade?


AGORA, ATÉ o pessoal do mercado acredita que o Banco Central vai cortar os juros em mais um ponto até o final do ano. Mas, até lá, esses economistas não devem alterar muito suas previsões de inflação.

Isto posto, e pelo andar da carruagem dos juros futuros no mercado, é provável que o Brasil vire o ano com uma taxa real de juros inferior a 4%. Isso é exótico por aqui.

Outra suposição quase aceitável é prever que a inflação lá por abril baixe para algo entre os 5,5% previstos por economistas de mercado e os 4,8% da torcida do Banco Central. E fique nesse degrau em 2012.

Imagine-se ainda que BC e Ministério da Fazenda tenham feito um pacto implícito sobre como conduzir a economia. Um "eu sei que você sabe que eu sei que você sabe que eu sei". O que estaria implícito?

Primeiro, que essa história de colapso econômico no mundo rico, que reduziria crescimento e inflação por aqui, na opinião do BC, é uma conversa para boi tirar uma soneca -é um pouco verdade, mas não muito.

Segundo, que seria muito difícil baixar a inflação rapidamente sem reduzir demais o crescimento, a um custo excessivo. A inflação de serviços responde devagar aos juros.

O mercado de trabalho apertado, com falta de gente qualificada e inflação de salários tampouco responderia à ação do BC sem uma paulada contraproducente de juros -a escassez de trabalhador hábil ainda duraria muito tempo. A hipótese foi levantada em público por Delfim Netto, por exemplo; diz a lenda que o economista é ouvido no governo.

Parte da inflação de 2012 teria ido para o vinagre ainda porque a injeção de dinheiro na economia via salário mínimo, transferências sociais e crédito estatal já está contratada.

Logo, seria melhor não chorar sobre o leite derramado e fazer do limão uma limonada, para usar algumas frases originais. Em vez de dar um tranco forte no crescimento, tolera-se a inflação acima da meta até o final de 2012, ou mais.

Aí entraria o terceiro item do acordo implícito Fazenda-BC: o governo gasta menos, faz superavit primário de pelo menos 3,2% até 2014, a conta de juros cai, o deficit nominal também, a dívida pública em relação ao PIB cai ainda mais. O PIB continuaria crescendo uns 4%, o número mágico do governo (e que garante arrecadação confortável, no dizer do próprio governo).

Qual seria o resumo da ópera nesse universo paralelo de política econômica? Em vez de bater a cabeça na parede de uma inflação temporariamente resistente, tolera-se o IPCA acima da meta por um tempo, o PIB cresce e, ao final desse período supostamente excepcional, a dívida pública teria caído bem, isso num mundo de governos quebrados.

Tal esquema imaginário ficaria melhor se o governo evitasse aumentos reais do salário mínimo a partir de 2013; se reduzisse o nível de crédito a juros subsidiados, aquele concedido pelos bancos estatais.

Diante das críticas de que inflação, no médio prazo, produz apenas mais inflação, e não crescimento, o governo diria que se trata de um arranjo de curto prazo, de dois, três anos, dadas as excepcionalidades de um período de inflação teimosa. Na balança entre tentar controlar preços agora e tentar lustrar outros indicadores macroeconômicos, seria melhor a segunda opção. É isso o que o governo estaria fazendo? E estaria fazendo de caso pensado?

GOSTOSA


SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Jogando a toalha
SONIA RACY
O ESTADÃO - 08/09/11

Está em estudo no Banco Central a possibilidade de se abrir exceção aos exportadores no que tange às novas regras para o câmbio, decretadas em julho pelo Conselho Monetário Nacional.

A data-limite para a definição é outubro.

Peixe grande

O BMG renovou patrocínio master na camisa do Santos para o ano que vem.

Pasta e basta

Rogério Buratti, pivô do escândalo que afastou Palocci do governo Lula, acaba de se estabelecer em Milão. Com dupla cidadania, trabalha em escritório de advocacia especializado em processos de moradia legal para brasileiros.

No Facebook, postou foto recente diante de loja que, coincidentemente, leva seu sobrenome na fachada.

Tabu

A comunista Manuela D"Ávila vai à China. Presidente da Comissão dos Direitos Humanos, discutirá um tema caro ao país: liberdade de expressão na web. O debate, no Beijing Forum, acontece entre os dias 18 e 22.

Mim, índio

A Esquire ensina, na edição deste mês, frases em português. Mas peca. "You"ve got the wrong guy", por exemplo, virou "Você tem a pessoa errado"...

Choro real

Roberto Carlos não se segurou. Sozinho diante da cruz em que Jesus teria sido martirizado, foi às lágrimas e orou por 15 minutos.

O momento especial do Rei aconteceu sexta, no Santo Sepulcro. O cantor revelou que o lugar foi o que mais o sensibilizou até agora na Terra Santa.

De quem entende

Stanley Fischer, presidente do BC de Israel, conversou com empresários do Lide que estão em Jerusalém para o Audi Business Trip. Anteontem, na sede do banco, traçou quadro positivo da economia local e manifestou expectativa de juros decrescentes em países emergentes, incluindo o Brasil.

Se não demonstrou grande preocupação com os EUA, seu cenário para a Europa não foi tão otimista. Para o ex-Citigroup e ex-FMI, falta agilidade à Comunidade Europeia: a tentativa de solução de problemas vem sempre com atraso. E esse descompasso pode, em algum momento, agravar a fragilidade econômica do bloco.

Tipo importação

Miles Davis será tema de mostra no Sesc. Depois de passar pela Cité de la Musique, em Paris, a exposição desembarca em São Paulo no mês que vem.

A montagem, dividida em blocos temáticos, apresenta boa parte da carreira do músico. Com direito a filmes raros, partituras originais e coleção de trompetes.

Reloaded

A Associação dos Amigos do Museu Oscar Niemeyer aprovou, no MinC, orçamento de R$ 2,5 milhões. Quer reparar, entre outras coisas, várias infiltrações que ameaçam o prédio, em Curitiba.

Na frente

A Fundação CSN entrou de cabeça no mundo dos documentários. E lançou edital para produção do gênero. O Programa Histórias que Ficam vai selecionar quatro projetos e conta com a consultoria de documentaristas, como Eduardo Coutinho.

Cristiane Torloni será homenageada, terça, no Festival Santista de Curtas Metragens. Receberá o troféu Lilian Lemmertz.

D. Paulo Evaristo Arns completa 90 anos dia 14. Reunirá amigos em Taboão da Serra, onde mora, para celebrar missa especial. No sábado, 17, plantará árvore no Largo São Francisco, dará uma bênção e receberá cumprimentos.

Para honrar o espírito do Fashion"s Night Out, a região da Oscar Freire capricha: malabaristas, mágicos, caricaturistas e músicos vão interagir com Paola de Orleans e Bragança. A moça armará seu lounge de DJ no meio da rua. As lojas ficarão abertas até meia-noite. Segunda.

Jô de Araújo lança o livro Cidadania e Poder. Segunda, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis.

LUIZ FERNANDO VERISSIMO - No Trastevere


No Trastevere
LUIZ FERNANDO VERISSIMO
O GLOBO - 08/09/11

A pizzaria do Trastevere que tinham nos recomendado estava cheia e acabamos num restaurante ao lado, vazio. Éramos quatro. A primeira coisa que fizeram quando nos sentamos foi trazer quatro taças de Prosecco, cortesia da casa. Nos entreolhamos, desconfiados de que pagaríamos caro por aquela cortesia. Nosso instinto de sobrevivência dizia “Corram!” mas o constrangimento nos mandava ficar. Afinal, éramos brasileiros mas de uma região em que a civilização pegara. A própria moça que nos atendia, de blue jeans, em desacordo com a decoração mas em bem ajustado acordo com sua anatomia trasteveriana, não sei se por gratidão por termos ficado ou com sinceridade, não acreditou que fôssemos brasileiros. Descreveu as especialidades da casa e optamos por um rigatoni, precedido, no meu caso, por um carpaccio de peixe. Pelo menos pelo que deu para ver, pois era pouco e sua passagem pelo meu prato foi rápida. Existe uma regra inescapável segundo a qual quanto menores as porções, mais caro o restaurante. Um dia algum empreendedor europeu vai atingir a perfeição e montar um restaurante em que toda a refeição cabe num pires e a conta vem numa travessa.
O rigatoni veio numa cumbuca perto da qual um dedal não se sentiria humilhado e o liquidamos com três garfadas. E como secondo? – perguntou a Blue Jeans, certa de que, para não parecermos brasileiros, não recuaríamos agora. Pedimos o secondo não por constrangimento ou respeito à tradição italiana. Era fome mesmo. Ela recomendou outra especialidade da casa, um peixe chamado “spadolini”. Espera aí. Spadolini era o ministro da Defesa na época. Não me lembro do nome do peixe. Que demorou uns bons quarenta minutos para aparecer. Como o restaurante continuava vazio, deduzimos que a demora se devia ao esmero com que estava sendo preparado.
E realmente, o próprio chef trouxe a travessa da cozinha como se fosse um filho recém-nascido. Serviu quatro pratos com cuidados cirúrgicos e os colocou na nossa frente como se seu futuro na profissão dependesse do nosso julgamento. Peixe, uma camada de batatas em cima, molho de tomate em cima das batatas. As batatas estavam cruas e no dia em que souber do seu molho de tomate o Trastevere em peso expulsará o chef e queimará seu restaurante. Foi o pior peixe jamais servido na Itália. Bom, talvez o que serviam nas masmorras do Coliseu fosse pior. Só a
conta não decepcionou a expectativa. Era altíssima.
Claro que, para cada experiência como esta, tivemos dezenas de grandes encontros com a culinária romana em várias estadas. Mas que fique a lição: quando
for a uma pizzaria bem recomendada do Trastevere e não tiver lugar – espere!

EDITORIAL - FOLHA DE SP - Não à corrupção

Não à corrupção
EDITORIAL
FOLHA DE SP - 08/09/11

Mesmo sem aglutinar grande multidão, protestos no país demonstram estimulante indignação popular diante da atual onda de escândalos

Não se confirmou o volume prometido de presença popular nas manifestações contra a corrupção deste Sete de Setembro. Marcados pela internet, os protestos confirmaram que a facilidade de arregimentação das chamadas redes sociais não se traduz em apoio proporcional na rua. Para que isso ocorra, o recurso, ainda que complementar, a meios tradicionais de organização civil é necessário.

Os atos de ontem indicam, contudo, uma reação estimulante e cidadã contra os níveis alarmantes de desrespeito e desfaçatez demonstrados por autoridades no trato com o dinheiro e os interesses da coletividade. Esse aspecto positivo se ressalta diante do poder e da penetração dos grupos interessados em combater e desestimular manifestações do gênero.

Forças que no final do século 20 se alinhavam aos protestos -sindicatos, "movimentos sociais" e partidos na órbita do PT- desde 2003 se refestelam no governismo. Alguns militantes trocaram de lado: das marchas anticorrupção no passado para as cadeias da Polícia Federal e as denúncias do Ministério Público, hoje.

Preservaram, no entanto, um discurso tático e oportunista, reabilitado dos anos 1950 e 1960, para rebater ondas de crítica pública contra as falcatruas descobertas no governo federal. Seria tudo obra de golpismo partidário, da tentativa de forças "conservadoras" de desestabilizar uma gestão "progressista" eleita nas urnas.

Esse mesmo despiste, aliás, foi utilizado dentro do governo de Dilma Rousseff por grupos cujo objetivo era abreviar a faxina em ministérios marcados por patrimonialismo, empreguismo e ineficiência. A presidente entendeu o recado e emitiu sinais que sugerem capitulação.

A diversidade de bandeiras nos atos de ontem pelo país refletia a força das agendas locais e a pluralidade dos grupos em marcha. Em Brasília, por exemplo, a recente absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), em processo que previa sua cassação na Câmara, galvanizou o protesto.

Unidos na aversão aos escândalos que se sucedem, os movimentos também convergem, decerto, numa agenda básica de respeito ao cidadão. Ela passa por reduzir drasticamente os cargos de indicação política na administração pública em todas as esferas; acabar com o voto secreto para a cassação de parlamentares; instituir a prestação de contas on-line de campanhas, com identificação do doador e do destinatário; e exibir, também na internet, todas as vias por onde flui dinheiro público.

Além disso, é preciso agilizar os processos judiciais, para que a chaga da impunidade não continue a dar vazão ao escárnio que figuras notórias, "progressistas" ou "conservadoras", despejam sobre a indignação da sociedade.

A VAGABUNDA E O DESFILE


TONY VOLPON - Com mais renda e crédito, brasileiro vira consumidor global

 Com mais renda e crédito, brasileiro vira consumidor global
TONY VOLPON
FOLHA DE SP - 08/09/11

Os dados do balanço de pagamentos de julho, divulgados pelo Banco Central, trouxeram um dado interessante: as despesas líquidas com viagens internacionais totalizaram US$ 1,7 bilhão, com aumento de 42,9% nas despesas de brasileiros no exterior.

Parece que os brasileiros estão levando a nossa nova cultura de consumo e de crédito bem além das nossas fronteiras. Seria isso algo preocupante?

As razões para a explosão no consumo externo são bem conhecidas. A renda e o acesso ao crédito têm aumentado bastante nos últimos anos, o que leva o consumidor a demandar produtos melhores e mais caros.

A apreciação do real diante de quase todas as outras moedas potencializa ainda mais esse aumento da renda em moeda estrangeira.

A internet cria tendências de consumo globais, o que privilegia certas marcas internacionais, elevando a demanda por esses produtos em relação a marcas domésticas.

Finalmente, temos de lembrar que muitos produtos, especialmente eletrônicos e artigos de luxo, sofrem tributação proibitiva no Brasil, o que gera um incentivo claro para sua compra no exterior.

Não há hoje nenhuma loja "de grife" que não tenha vendedores brasileiros para atender esse "turismo de alto consumo". O português é "língua franca" na Quinta Avenida e na Champs-Elysées.

A reação do governo diante desses fatos demonstra certa incoerência. Afinal, uma maneira de depreciar o real seria aumentar a demanda por dólares, o que nosso turista-consumidor está mais do que preparado para fazer.

Já que, de uma forma ou de outra, nosso consumidor vai comprar esses produtos, seria melhor derrubar a tributação e pelo menos deixar a receita de comercialização aqui no Brasil e não no exterior. Afinal, nada cria tantos empregos como o comércio.

Do ponto de vista macroeconômico, não consideramos as quantias muito relevantes dada a abundante oferta de recursos que o país tem hoje. O melhor seria, por exemplo, investir mais para aumentar o turismo estrangeiro no Brasil.

Podemos, como consumidores globais, querer o mais recente lançamento da Apple, não importa como for ou onde, mas há certamente também muitos estrangeiros que gostariam de desfrutar das nossas belezas naturais.



TONY VOLPON é analista do Nomura Securities.

CLÁUDIO HUMBERTO

“Aqueles que a derrotaram [CPMF] perderam as eleições”
GOVERNADOR DO RIO DE JANEIRO, SÉRGIO CABRAL, SOBRE A RECRIAÇÃO DO IMPOSTO DO CHEQUE

PDT CORRE RISCO DE PERDER REGISTRO E DESAPARECER 
O PDT pode perder o registro no Tribunal Superior Eleitoral, por causa de confusão judicial no Rio de Janeiro, e até desaparecer. O partido criado por Leonel Brizola conta com oito diretórios regionais, muito embora a lei obrigue um mínimo de nove. Em agosto, a 1ª Vara Cível do Rio deu ganho de causa a um grupo de militantes que questiona a eleição da executiva no Estado. Desde então, ficou sub judice.

NOVA ELEIÇÃO 
A Justiça determinou ao diretório do Rio que realize novas eleições. Por enquanto, o PDT não existe oficialmente no Estado.

A LEI 
O artigo 19 da Seção V, do TSE, sobre registro de partidos, determina que devem ser oficializados em pelo menos um terço dos Estados.

NA RETA 
A executiva nacional corre contra o tempo para não ficar na reta dos adversários. Qualquer cidadão ou partido pode provocar o TSE.

DORMIU NO PONTO 
O PDT pretende realizar vinte convenções, até outubro, para eleger mais diretórios, avisa o presidente em exercício, André Figueiredo. 

DILMA RECUSOU SOLENIDADE EM MEMÓRIA DE ALEIXO 
Dilma não se opôs a sancionar o projeto que concedeu ao falecido ex-vice-presidente Pedro Aleixo o status de presidente da República, que lhe foi surrupiado pela Junta Militar, em 1969. Impedido de substituir o general Costa e Silva, foi mantido em prisão domiciliar até o cargo ser extinto. Dilma se recusou a assinar a lei perante familiares de Aleixo, em ato solene, alegando ter sido presa política e revelando ignorância da História: Aleixo protagonizou rara resistência civil ao autoritarismo.

CORAGEM ÍMPAR 
Pedro Aleixo teve a coragem (foi o único), durante reunião ministerial, a protestar contra o Ato Institucional nº 5, que oficializou a ditadura.

DIVERGÊNCIA QUE... 
Em reunião ministerial, Pedro Aleixo divergiu do AI-5 e o então ministro da Justiça o acusou de não confiar no discernimento do presidente.

...VIROU HISTÓRIA 
A resposta de Pedro Aleixo calou fundo: “Eu não confio é no guarda da esquina”. A História mostrou que ele estava certo.

BONDINHO AMIGO 
O grupo francês Poma ganhará € 6 milhões para instalar um bondinho igual ao do Alemão, que está parado, ligando a Central do Brasil ao Morro da Providência. Inclui as empreiteiras Odebrecht e OAS (quem mais?) e Carioca, doadora da campanha do governador Sérgio Cabral.

ALDO NA CABEÇA 
Lula e Dilma apoiam Ana Arraes (PSB-PE) para ministra do Tribunal de Contas da União, mas o problema e que eles não votam. A decisão será dos deputados, dia 21. Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que também é o “plano B” de Eduardo Campos, filho de Ana, hoje lidera as apostas.

TRIBUNAL PERNAMBUCANO 
Um argumento usado contra Ana Arraes é o fato de ser pernambucana, como dois dos últimos três indicados para o plenário de nove membros do Tribunal de Contas da União: José Jorge e José Múcio Monteiro.

FIGURINHA PREMIADA 
De todos os que foram à suíte do hotel para trocar figurinhas com José Dirceu, só o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) não será cobrado por Dilma. Faça o que fizer, esse será sempre perdoado.

DESAFIO 
Em resposta ao senador monotemático Paulo Paim (PT-RS), que disse ser a Previdência superavitária, o ministro Garibaldi Alves (Previdência) desafiou: “Manda ele mostrar, então”.

E QUEREM CPMF... 
Está no Portal da Transparência: suspenso pela Fiocruz em 2006, o convênio com a ONG Cootram para “projeto social no entorno de Manguinhos” deixou rombo de R$ 58,4 milhões e vários processos trabalhistas. A Cootram foi citada na CPI das ONGs e ficou por isso.

BITUCA NO BAR 
Ao contrário de bandas brasilienses, que exigem cachê de até R$ 12 mil por shows de dez minutos, o consagrado Milton Nascimento canta de graça em um pequeno bar na Asa Norte, em Brasília, nesta quinta.

V, DE VERGONHA... 
No Dia Internacional da Alfabetização, hoje (8): o Brasil é um dos países com dois terços de analfabetos e mais da metade das crianças fora da escola. A Unesco premiará projetos na África, EUA e México.

PERGUNTA NA REUNIÃO 
O Instituto Brasileiro da Cachaça quer incrementar a exportação da bebida. Que tal aproveitar Lula, o mascate, pagando-o em mercadoria? 

PODER SEM PUDOR
ESCOLHA “DEMOCRÁTICA” 
Com o súbito falecimento do governador de Minas, Olegário Maciel, o ditador Getúlio Vargas teve de escolher o substituto. Pediu listas sêxtuplas a Antônio Carlos e a Gustavo Capanema, e a ambos solicitou que nelas incluíssem um delegado de polícia do Pará e de Minas: Benedito Valadares. Foi, claro, o escolhido. Interpelado depois sobre a decisão, Getúlio explicou:
– Benedito era o único nome comum às duas listas...

QUINTA NOS JORNAIS


- Globo: Polícia ocupa outros dois morros vizinhos ao Alemão

- Folha: Turista do Brasil é o 3º que mais gasta nos EUA

- Estadão: BC perdoa R$ 18,6 bi para que bancos do Proer quitem dívida

- Correio: Brasília não foge à luta

- Valor: Estados investem menos e aumentam superávits

- Estado de Minas: Mineiro gasta 3 vezes mais em carro do que no estudo

- Jornal do Commercio: Trânsito de Recife terá um plano emergencial

- Zero Hora: Base avançada da Justiça projeta desafogar Central

quarta-feira, setembro 07, 2011

TUTTY VASQUES - Nome é apelido!


Nome é apelido!
TUTTY VASQUES
O ESTADÃO - 07/09/11


Este ano não vai ser igual àquele que passou! Os chefes das Forças Armadas vão decerto sentir falta do Lula, que todo 7 de Setembro renovava seu vasto repertório de piadas sobre o ex-ministro Nelson Jobim.

Cá pra nós, sem os figurinos patrióticos da ex-primeira-dama Marisa Letícia para alegrar ainda mais o ambiente, só o netinho da presidente Dilma pode livrar o palanque das autoridades na parada militar de hoje, em Brasília, de uma chatice total.

Resta saber se a família Rousseff vai em bloco ao desfile depois da superexposição de Gabriel, domingo passado, na abertura das comemorações da Semana da Pátria.

O moleque roubou a cena em sua estreia na Praça dos Três Poderes. Há muito tempo não se via ninguém tão expressivo em solenidades oficiais da Presidência. Reparou no jeito sério como ele olhava para a avó? Que gracinha!

Se não o levarem à festa hoje, vamos ter de nos contentar com o ministro Celso Amorim defendendo a retirada gradual das tropas brasileiras do Haiti.

Desde que assumiu o posto de Nelson Jobim na Defesa, é só o que ele diz. Repara só!

Ponta de ciúmes

O que mais dói em Marta Suplicy é o apoio de Lula à candidatura Cristina Kirchner na Argentina. "Só aqui em São Paulo ele acha importante trabalhar um nome novo nas próximas eleições, né?"


Homo sapiens afetivo

Pesquisa da Universidade do Arizona confirma: o Homo sapiens fez sexo com hominídeos. É o que, na época, os neandertais chamavam de "homoafetividade".


Concorrência desleal

Os organizadores da Marcha contra a Corrupção em Brasília estão contando com a possibilidade de igualar neste 7 de Setembro o público da última Corrida da Cerveja na capital. Sem molhar o bico da galera, com o ar seco do jeito que está, francamente, vai ser muito difícil mobilizar a sociedade para tanto!


Dia da Indignação

Tem pichação genérica nova nos muros do País: "Fora Jaqueline Roriz, Ricardo Teixeira, José Dirceu e o pessoal de A Fazenda!"


Asas à imaginação

O povo está confuso na leitura do noticiário! Como se não bastasse a tal "Emenda 29", que história é essa de "PEC do Peluso", caramba? Só se fala disso nos pontos de ônibus!


Ô, raça!

A França é um país de corruptos sem memória! Alegando que, aos 78 anos, Jacques Chirac já não se lembra mais nem das coisas boas que fez no governo, advogados do ex-presidente conseguiram poupá-lo do constrangimento de comparecer ao seu julgamento por desvio de dinheiro público.


Foi bom pra você?

Se você nem se deu conta de que ontem foi Dia do Sexo, relaxa, vai! Já passou! Ano que vem tem mais.

ANCELMO GOIS - CANAL BRASIL MPB


DIGA NÃO À CORRUPÇÃO

CANAL BRASIL MPB 
ANCELMO GOIS
O GLOBO - 07/09/11

A exemplo do Canal Brasil, dedicado ao cinema nacional, a Globosat planeja uma emissora de TV a cabo só sobre a música popular brasileira.
A produção pode ficar com o próprio pessoal do Canal Brasil.

DILMA, A BIOGRAFIA 
O selo Primeira Pessoa, da Editora Sextante, lança em dezembro a biografia de Dilma Rousseff. O livro será escrito pelo jornalista Ricardo Amaral.

DILMA NO FRESQUINHO 
Dilma, no palanque do desfile de 7 de Setembro, hoje, em Brasília, terá um desses vaporizadores geladinhos, iguais aos da orla do Rio, para suportar o calor e, principalmente, a secura do ar da capital, que anda braba.
É que a presidente, desde que chegou a Brasília, para o Ministério de Lula, tem problemas com a pouca umidade do ar.

AGORA É OFICIAL 
Dilma se encontra com Barack Obama, dia 22 agora, em Nova York.

CANTOR ESPANHOL 
Julio Iglesias retorna ao Brasil em outubro, para shows em sete capitais.
No Rio será, dia 17.

GABRIELLI, O LONGEVO 
Em novembro – se não sair antes, claro –, José Sérgio Gabrielli passa a ser o presidente que mais tempo comandou a Petrobras.
O troféu, hoje, está com Joel Rennó (1992/1999).

ALIÁS... 
Eike Sempre Ele Batista teve uma longa conversa, dia desses, com Gabrielli. O empresário quer usar no Porto do Açu gás da estatal da Bacia de Campos, ali perto.
Em troca, Eike poderia transferir para a Petrobras o gás que a EBX descobriu no Maranhão.

BRASIL VESTE PRADA 
A loja Prada, no Soho, em Nova York, também contratou vendedores brasileiros para atender à imensa clientela do País de Dilma.

CALMA, GENTE 
Uma aluna do Colégio Guilherme Briggs, em Santa Rosa, Niterói, deu queixa de racismo na 77ª DP. Alega que foi proibida de entrar no estande da Abril na Bienal do Livro, segunda.
Um funcionário do local, onde estava o ator Rodrigo Faro, teria dito que não daria uma senha porque ela “era negra”.

BENÇA, VOVÓ 
Outro dia, vovó Dilma era todo sorrisos com o seu neto, Gabriel, no colo durante a cerimônia de troca da bandeira na Praça dos Três Poderes. O menino faz 1 ano no dia 9 agora e a festinha deve ser no Palácio Alvorada ou na Granja do Torto. 

FESTINHA NO PLANALTO 
A ministra Gleisi Hoffmann, da Casa Civil, festejou ontem mais uma primavera. A comemoração foi no 4º andar do Palácio do Planalto com direito a participação do marido Paulo Bernardo, ministro das Comunicações. Os funcionários do gabinete engrossaram o coro de Parabéns a você!

CAPACETES AZUIS 
O chanceler Antonio Patriota embarca amanhã para Montevidéu, a fim de participar da 2ª reunião de chanceleres e ministros de defesa de países que participam da MINUSTAH, no Haiti.
Esta reunião dos capacetes azuis deve ser tensa. Existe uma certa fadiga da presença dos soldados da ONU no Haiti. Surgiu até denúncias de estupro. 

ROBERTO DaMATTA - O Brasil é um bonde


O Brasil é um bonde
ROBERTO DaMATTA
O Estado de S.Paulo 07/09/11

Andei muito de bonde e a recomendação peremptória dos meus pais era que não saltasse do bonde andando. Confesso que no curso de minha vida saltei muito pouco de bonde andando, mas, em compensação, peguei muito bonde errado quando, por exemplo, escolhi ser professor e pesquisador. Mas ninguém é tão perfeito como os bondes do Rio de Janeiro ou seus parques de diversões fazem prova porque, entre outras coisas, eles ainda não têm esses "marcos regulatórios", que são o sonho dos hipócritas de plantão.

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Um amigo de infância perdeu um pé ao saltar de um bonde andando, tal como um dos meus mentores perdeu o casamento ao derrapar e colidir com um ônibus quando disse à esposa que estava fazendo uma pesquisa numa biblioteca, mas, na verdade, voltava repleto de culpa de uma visita a uma ruiva supergostosa que atendia pelo nome revelador - eu juro que isso é verdade - de Tara.

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Hoje vivemos num Brasil sob o signo de Mercúrio a divindade do comércio e do dinamismo. Aquele que, sendo mediador, faz as trocas, cruza os ares e mares rapidamente pois, sendo alado, tem uma velocidade (esse símbolo da ganância e da transgressão que não pode esperar ou sabe o que significa suficiência) e engloba os mais básicos princípios do bom-senso.

Aviso aos governantes: evitem os meios de locomoção muito eficientes, sobretudo os helicópteros, mas evitem também os bondes e as montanhas-russas das quais vocês, políticos profissionais, são contumazes usuários.

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O Brasil é um bonde. Esse bonde que se despentelhou numa ladeira do bairro de Santa Tereza, no Rio de Janeiro, vitimando passageiros e o seu motorneiro que, sendo o mais humilde, será o culpado. Tal como foi o engenheiro do parque de diversões que matou outros cidadãos. O jogo do poder à brasileira consiste nos poderosos teorizarem sobre suas responsabilidades, isentando-se a si mesmo e seus asseclas. A tal faxina (todos já entenderam) é sempre para os outros. Os donos do poder (à brasileira) estão isentos de culpa.

* * * *

Estamos fartos de ouvir os donos dos ministérios ou secretarias onde ocorrem acidentes ou delitos dizerem que não têm nada com os fatos. Não acuso ninguém. Acredito sinceramente que todos são tão honestos como Pedro Malazartes. Chamo atenção, apenas, que enquanto não tivermos a coragem de processarmos em alguns milhões de reais os nossos governantes e o próprio Estado, vamos continuar - desculpem os mais sensíveis e os mais frescos - fodidos! O nosso marco regulatório é o processo. O deles é a hierarquia que livra os poderosos dos deveres que também fazem parte do poder.

Se os caras ganham milhões à custa do nosso trabalho, nada mais justo ou lógico que haja alguma relação de responsabilidade entre nós e eles. Indenizações não trazem meu filho de volta, mas permitem um bom papo com meu amigo Joãozinho Caminhador, um velho amigo escocês que me ouve e conforta, em vez tentar tapar o sol com a peneira ou produzir essas desculpas esfarrapadas ou, pior ainda, esses surtos de indignação de bandidos especializados em roubar o que é nosso.

* * * *

Uma outra saída seria sugerir à austera presidenta, que herdou a hóstia consagrada de honestidade e eficiência do governo Lula, que criasse um ministério anticorrupção, inspirada nos nossos irmãozinhos de carma indianos. Um órgão destinado e examinar contratos, acordos, aumento de patrimônio, nomeações, indicações - mas sobretudo contratos e inocentes exonerações. Tal instituição, livre dos constrangimentos partidários, mas engajada e constrangida pelo dever de apurar e forçar um mínimo de sinceridade, teria o dever de conferir por que os governantes sempre aumentam seus patrimônios 200 vezes em dois anos e outros, como este cronista bastardo que vos fala, não conseguem - PQP! - ir além de uma vida confortável, mas pobre se a compararmos à grande maioria dos elegantes quadrilheiros que passaram pela tal administração pública.

Eu sei que a culpa é minha. Quem mandou ser professor e antropólogo proxeneta de índios, como dizia o Darcy Ribeiro, e não um antropófago ou político comedor de recursos públicos? Quem mandou ser descrente e não vender a alma para algum partido ou ideologia?

* * * *

Esse é o meu bo(n)de. E o do Brasil? Bem, o bonde do Brasil segue em dois trilhos. O primeiro, é acreditar que os governos podem mesmo contratar objetiva e impessoalmente num país no qual ser compadre e amigo é mais importante do que ser cidadão. O segundo é verificar como o poder corre ligado (bond, em inglês) a trilhos sem freios e sem oposição. A prova é a foto estilo bonde do ex-presidente Lula, da presidenta Dilma e do maestro e guerreiro (diria mesmo um São Jorge) do Brasil, Zé Dirceu, emoldurando os dois numa imagem que causa estupefação, mas que diz tudo do momento brasileiro. Ele, de roupa branca; ela com uma blusa vermelha e o mestre de duas vidas e falas vestido do negro dos cisnes excepcionais. Dos seres acima do bem e do mal que são o símbolo mais perfeito do bonde - digo, do governo - que hoje temos no Brasil.

EDITORIAL - O ESTADÃO - Fiasco do Brasil Maior


Fiasco do Brasil Maior 
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 07/09\11

Continua o desmonte do Plano Brasil Maior, um improvisado e mal concebido arremedo de política industrial apresentado no dia 2 de agosto pela presidente Dilma Rousseff e por sua equipe econômica. O governo anunciou a disposição de acabar com o incentivo fiscal às montadoras de veículos, por falta de entendimento quanto a contrapartidas de inovação, de agregação de conteúdo local e de eficiência energética. Parte das empresas simplesmente rejeita a ideia de pagar o preço imposto pelo governo em troca da redução do IPI. Faltou combinar com os fabricantes de automóveis, assim como faltou verificar detalhes importantes com empresas de outros setores contempladas na lista de benefícios. Ficou mais uma vez comprovado o despreparo do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior para conceber e implantar uma política de modernização do sistema produtivo. Quanto ao Ministério da Fazenda, que também contribuiu para o grande fiasco, procedeu como se podia prever. Só apoiou o plano sob a condição de não perder receita e apresentou o mero pagamento dos créditos fiscais devidos a empresas como se fosse um benefício.
Agora o governo se dispõe não só a abandonar a promessa de redução do IPI pago pelas montadoras, mas também a elevar o tributo para as empresas não enquadradas no regime automotivo em estudo. Levando-se em conta as políticas industriais formuladas nos últimos anos, fica muito difícil apostar em qualquer novidade relevante para o fortalecimento da produção nacional e para a maior participação da indústria brasileira no mercado global.
A má qualidade do Plano Brasil Maior ficou patente desde sua apresentação. Ainda assim, a iniciativa foi elogiada por dirigentes de entidades empresariais. Mas as críticas não tardaram a surgir. Empresários dos setores de confecção e de móveis logo criticaram o esquema para desoneração da folha de pagamentos. Algumas empresas nada ganhariam se deixassem de recolher a contribuição previdenciária e passassem a pagar um tributo sobre o faturamento. Para outras, aumentaria o peso da tributação. Os autores do plano desconheciam o funcionamento dos setores "beneficiados".
No caso das montadoras, faltou discutir os objetivos e condições da redução do IPI. Faltou, também, examinar com mais cuidado o uso de partes e peças nacionais por fábricas instaladas no Brasil em épocas diferentes - algumas há décadas, outras há poucos anos. Há diferentes graus de nacionalização e, portanto, interesses divergentes, segundo reportagem no Estado dessa terça-feira. Além do mais, registra a reportagem, os autores do plano ficaram decepcionados porque as empresas não se dispuseram a repassar o benefício fiscal ao consumidor.
Mas o problema básico e mais importante não está em nenhum desses detalhes. O governo se mostrou incapaz de fixar com clareza as condições essenciais para o crescimento industrial e para a criação de empregos. A política só produzirá resultados significativos se for destinada a aumentar o poder de competição das indústrias - em todos os setores. Nenhuma das vantagens fiscais oferecidas é uma efetiva desoneração. Nenhuma delas passou de um arremedo de alívio tributário.
Para oferecer uma redução efetiva e tornar a tributação mais parecida com a dos países concorrentes, o governo teria de ser mais criativo e ousado e precisaria conter as próprias despesas. Mas, em vez disso, recentes promessas de austeridade foram logo desmentidas na proposta orçamentária para 2012. Outras medidas seriam importantes para melhorar a competitividade, mas o governo federal nem sequer dispõe de um bom diagnóstico das principais desvantagens da indústria.
Uma proteção mais eficiente contra a concorrência desleal é necessária. O governo promete avanços nessa área. Mas não basta defender o mercado nacional. O produtor brasileiro precisa ser capaz de competir em qualquer parte do mundo. Se não o for, até a defesa do mercado interno será insuficiente e acabará derrotada pelo competidor estrangeiro.

JAPA GOSTOSA


MARCIA PELTIER - Terra de brasileiros


Terra de brasileiros 
MARCIA PELTIER
JORNAL DO COMMÉRCIO - 07/09/11

Nossos compatriotas estão fazendo a festa dos vendedores dos recentes empreendimentos imobiliários em Miami, nos EUA. Levantamento feito pela Fortune International Realty, que acaba de lançar o luxuoso prédio residencial Vizcayne, com serviços de resort no centro da cidade, revela que mais da metade das unidades já estão nas mãos de compradores brasileiros. Desse total, a maioria é composta por mineiros, brasilienses, cariocas e paulistas, que vão usar a nova propriedade como casa de veraneio ou opção de investimento. Os apartamentos custam de US$ 220 mil a US$ 750 mil.

Diversão e compras 
De olho nesse novo boom verde e amarelo, empresários locais já preparam programação e promoções especiais. Cardápios dos restaurantes ganham traduções e cantores de MPB são esperados para shows grandiosos. Em novembro, é a vez de Maria Bethânia subir ao palco do Fillmor Miami Beach em duas apresentações, dias 11 e 12.

Esporte sério 
O Rio sedia, a partir desta quarta, a 1ª Pole World Cup, a Copa do Mundo de Pole Dance que vai até sábado, no clube Hebraica. O campeonato será o ponto de partida para a criação do primeiro ranking internacional da modalidade. Também será lançado o código de regras, com a lista dos movimentos e as normas da arbitragem. O evento tem o apoio da International Pole Fitness Federation, da International Pole Sports Federation, da norte-americana Pole Fitness Association e da Federação Brasileira de Pole Dance.

Para bailarinos

Quem chegar mais cedo, às 15h, nesta quarta, na Quinta da Boa Vista, vai poder apreciar os bailarinos do Kirov em pleno exercício de barra e, em seguida, num exercício de spacing, um tipo de reconhecimento de espaço, liderados pelo diretor do balé Yuri Fateev, com comentários da nossa primeira-bailarina Cecília Kerche. A aula vai durar uma hora e meia.

Show de sinceridade 
Enquete feita pela edição do dia 15 da revista Alfa aponta os homens mais influentes do ano. Na lista, empresários como Abílio Diniz, Paulo Sérgio Kakinoff, Constantino de Oliveira Júnior, Carlos Jereissati Filho, Fábio Hering, Ronaldo Nazário, Rubens Menin, Eike Batista e Rogério Fasano. Na categoria política, o baixinho Romário impera sozinho. O ex-jogador e agora deputado do Partido Socialista Brasileiro (PSB) garante que não se valerá de nenhuma contravenção para se beneficiar. Mas alguns hábitos prevalecem. "Não deixo de ir para a noite uma vez por semana, curtir o meu hip-hop, meu funk e ver as gostosas dançando na pista", afirmou.

Minimalismo monumental

Representante de Ascânio MMM, cujas obras instaladas em cidades como Rio, São Paulo, Lisboa e Tóquio continuam surpreendendo pela atualidade, a galerista Marcia Barrozo do Amaral radicalizou e levou apenas uma obra, justamente uma peça dele, para a Art Rio. Trata-se de uma “senhora” obra: uma escultura em alumínio com seis metros de altura e três de largura, que foi exposta no MAM em 2008. A instalação ficará pendurada no teto do Pier Mauá.

Afilhada do Tim 

A DJ Mary Olivetti, que já tocou para 30 mil pessoas, vai abrir a pista eletrônica da noite extra do Rock in Rio, dia 29. A carioca de 27 anos, especialista em house music, está com uma bela carta na manga para a noite: acaba de gravar com seu pai, o respeitado maestro e produtor Lincoln Olivetti, a faixa You and me, com ele nos teclados e ela na voz. Hoje, Mary se orgulha de influenciar o trabalho do pai: “Ele fica fascinado com as batidas quebradas do meu trabalho”, diz. Aliás, ninguém menos que Tim Maia foi seu padrinho e quem sugeriu o seu nome, Lin, de sonoridade parecida com o dele. “Por nove meses me chamaram de Lin até minha mãe achar estranho e acrescentar o Mary na frente”, conta divertida. “Tim Maia ficou louco com isso!”

Gargalos 

Para 19,8% dos entrevistados de uma pesquisa realizada pela Sociedade Nacional de Agricultura, infraestrutura, transporte e logística são os principais entraves ao crescimento de investimentos no agronegócio. A sondagem envolveu um grupo de 30 representantes influentes do setor, entre produtores rurais, consultores e fornecedores de insumos. Já na opinião de 8,6% dos entrevistados, os juros elevados são o maior obstáculo, à frente de fatores como política ambiental (8,2%) e falta de mão de obra (8,1%).

No meio do caminho 

O Jockey Clube Brasileiro terá que indenizar uma idosa em R$ 20 mil, a título de danos morais. Maria Helena Barbosa tropeçou, nas dependências do clube, em uma cadeira que tem os pés projetados para trás, caiu e fraturou o braço. A decisão foi do relator desembargador Cherubin Helcias Schwartz Júnior, da 12ª Câmara Cível do TJ do Rio.

Livre Acesso

A safra histórica 2007 de Don Melchor, considerado o melhor cabernet sauvignon chileno, será degustada em wine dinner, terça-feira próxima no Rio. Especialmente na cidade para a ocasião, Slejandra Vallejo, enóloga da chilena Concha Y Toro, participará do evento na Cavist Ipanema.

Desde 2004 sem fazer exposição solo em Londres, a artista plástica Adriana Varejão apresenta suas novas mandalas na galeria de arte contemporânea Victoria Miro. Levará os painéis de azulejos barrocos e as novas pinturas tridimensionais feitas em cerâmica com elementos orgânicos de petróleo. O vernissage será nesta quarta para convidados e investidores ingleses.

Júlio Rocha, da Kevingston Rio, trouxe para o Brasil uma novidade para os apaixonados pelo rugby, o site Sport Extremo. O novo empreendimento virtual é uma parceria com a marca inglesa Gilbert e comercializará tudo sobre o universo do esporte, como bolas, protetores labiais, capacetes, chuteiras, camisas e armaduras, entre outros. Os produtos podem ser encontrados nas lojas Kevingston Rio pelo mesmo preço do site.

O atelier Marcella Maia, no Edifício Palm Beach, no Leblon, promove curso de auto-maquiagem em parceria com a Make-Up todas as quartas e sábados deste mês.

Acontece nesta quinta, no Pink Fleet, a cerimônia de comemoração da Clipper Race 2011-2012, maior regata oceânica do mundo. A competição teve início em julho, em Southampton, na Inglaterra, e aporta pela primeira vez no Rio. Cerca de 500 velejadores, representando mais de 40 países, participam da competição que terminará em julho de 2012, quando retorna para o Sul do Reino Unido.

O Centro de Estudos do Hospital Samaritano realiza, segunda-feira, sessão científica sobre bloqueio neuromuscular em paciente crítico, com palestra da médica Ana Cristina Pinho Mendes Pereira e coordenação de Ricardo Lima.

Com Marcia Bahia (interina), Cristiane Rodrigues, Marcia Arbache e Gabriela Brito

ILIMAR FRANCO - Voto liberado


Voto liberado 
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 07/09/11

O governo Dilma não quer pagar a conta do resultado das eleições para a vaga da Câmara no TCU. Como os partidos da base estão divididos e há, pelo menos, quatro aliados concorrendo, o Planalto tirou o time. “O governo não vai se meter. Não terá candidato e liberou o voto de sua base parlamentar”, diz o líder Cândido Vaccarezza (PT-SP). A tendência do PT, que gostaria de uma candidatura única, é adotar a mesma postura.

Os tucanos e as eleições para o TCU
Sobre as eleições para a vaga da Câmara para o TCU, o presidente do PSDB mineiro, deputado Marcus Pestana, afirma: “Não vai ser possível o PSDB fechar com uma candidatura. Entre nós, há eleitores do Jovair Arantes (PTB-GO), do Aldo Rebelo (PCdoB-SP) e de Ana Arraes (PSB-PE)”. Ele informa que “Aécio não pediu nada” e especula que ele teria dificuldade de pedir votos para um candidato. Explica que, ao se posicionar, Aécio precisa considerar vários fatores e acrescenta: “O Jovair foi um parceiro do Aécio na sua eleição para a presidência da Câmara (2001/2003), quebrando o monopólio PFL-PMDB, no governo FH”.

"O governo Dilma ora passa a ideia de que a crise econômica internacional é irrelevante ora que a crise é importante” — Lelo Coimbra, deputado federal (PMDB-ES)

O QUE FAZER?
 Ex-ministro do governo Lula, o deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) prepara proposta para que a receita da aplicação dos recursos do petróleo do pré-sal possa ser usada para a construção de uma vasta rede de linhas de metrô nos maiores centros urbanos do país. Argumenta que os trabalhadores, que gastam muitas horas dentro dos ônibus, com mais linhas de metrô, ficariam mais tempo com os filhos.

Rachados
O PDT do Rio rachou na convenção nacional do partido, no fim de semana. O ministro Carlos Lupi (Trabalho) ficou contra a proposta do deputado federal Brizola Neto (RJ) de realizar eleições diretas para os cargos de direção partidária.

No camarote
Os aliados de Brizola Neto se referem aos que apoiam o ministro como a “claque do contracheque”. Enquanto isso, o líd er do PDT na Câmara, o sindicalista Paulo Pereira da Silva, vê nessa divisão a sua chance de assumir o partido.

Aliados de Marta em campanha

Os aliados da senadora Marta Suplicy (PT-SP) avaliam a pesquisa Datafolha, em que ela lidera com 31%: “A candidatura dela é a melhor chance de o PT retomar à prefeitura de São Paulo”. Sobre o poder do ex-presidente Lula: “Que força é essa? O Lula pede para a Marta, o (Jilmar) Tato e o (Carlos) Zarattini e ninguém retira suas candidaturas!”. E sobre o Congresso do PT: “O Lula, via Gilberto Carvalho, tentou aprovar regras dificultando a realização de prévias no partido e foi derrotado”.

Bala na agulha 
O chamado candidato cidadão ao TCU, o auditor Rosendo Severo, faz uma campanha incomum para o cargo. Ele está veiculando sua propaganda em emissoras de rádio de Brasília. O seu horário eleitoral chama-se “Voz do Cidadão”.

Recorde
No bimestre de junho e julho, o Ministério do Desenvolvimento Social comprovou que 87% das crianças beneficiadas pelo Bolsa Família estão frequentando a escola. Esse percentual corresponde a 14,3 milhões de 16 milhões de bolsistas.

 PÉ NA ESTRADA. A Polícia Federal superou qualquer previsão de emissão de passaportes em agosto. Foram 207.409 — 33% a mais do que em agosto do ano passado. Este ano já foram expedidos 1.418.639 passaportes, 40% a mais do que em 2010.
 O PMDB da Bahia expulsou ontem três de seus seis deputados estaduais. Eles votaram a favor de projeto do governador petista Jaques Wagner. 
 GREVE NO MARACANÃ. Fala o presidente da UGT, Ricardo Patah: “A obra do Maracanã se transformará em parâmetro para as demais.” O sindicato que lidera a greve na obra é filiado à central.

EDITORIAL - O ESTADÃO - Separando posições


Separando posições
EDITORIAL
O Estado de S.Paulo - 07/09/11


O "controle social" da mídia desejado pelo PT, agora disfarçado sob a pele de cordeiro da "democratização" das comunicações, é assunto encerrado no governo, graças à postura firme da presidente Dilma Rousseff, que já em seu discurso de posse sinalizou uma reviravolta de 180 graus na senda ameaçadora da liberdade de imprensa pela qual havia enveredado o governo anterior.

Embora o presidente do PT tenha apresentado como resultado do 4.º Congresso do partido "uma resolução política de fôlego que traça perspectivas para o PT e para o nosso governo nos próximos anos", o Palácio do Planalto deixou claro que não é bem assim. O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, foi categórico em entrevista à repórter Vera Rosa, do Estado: "É importante separar a posição do partido da posição do governo. O PT tem suas posições e o governo tem um programa". Mais claro, impossível.

Logo após o encerramento do congresso petista, fontes do Palácio do Planalto empenharam-se em confirmar aquilo que os dirigentes do PT fingiam não saber: Dilma Rousseff não quer nem ouvir falar de projetos que sugiram o controle - censura, em português claro - da imprensa. Ela tem reiterado que o único controle que admite é o controle remoto da televisão.

Isso significa, concretamente, que o projeto do marco regulatório das comunicações apresentado com estardalhaço pelo governo Lula, depois da realização de uma festiva Conferência Nacional de Comunicação em 2010, está sendo revisto pelo Ministério das Comunicações. Garantem fontes do Planalto que Paulo Bernardo recebeu recomendação expressa da chefe de governo para tomar cuidado com as "cascas de banana", os contrabandos antidemocráticos inseridos no projeto pelos radicais que desfrutavam da simpatia e da proteção do ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência Franklin Martins, um dos principais ideólogos do "controle social" da mídia.

Uma das preocupações do governo em relação à necessária modernização do marco regulatório das comunicações - questão que nada tem a ver com "controle social" da mídia - é acabar com a deliberada confusão que os petistas promovem entre as duas coisas.

Por essa razão Dilma transferiu a responsabilidade de cuidar do assunto da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, onde o projeto tinha um tratamento marcadamente político, para o Ministério das Comunicações, onde agora são as questões técnicas que ganham prioridade, embora muitas delas tenham conotações políticas, como, por exemplo, a questão da propriedade cruzada dos meios de comunicação.

"Estamos fazendo a revisão do texto", esclareceu Paulo Bernardo, "e a ideia é discutir com outros ministros. Acho que, antes de mandar ao Congresso, devemos submetê-lo (o texto) à consulta pública para deixar, entre aspas, o pau quebrar. Fazer o projeto de afogadilho pode nos levar a erros e aí a discussão ficará ainda mais apaixonada."

Louvável a intenção do ministro. Afinal, a "ampla discussão pública" do assunto propalada no governo Lula, quando houve, foi limitada pelo dirigismo ideológico. E a missão do ministro Paulo Bernardo é retirar do anteprojeto os seus vícios ideológicos. Por exemplo, assinalou ele, havia um ponto que colocava a liberdade de imprensa na linha de tiro. Tratava-se da criação de duas agências setoriais: "Uma para as telecomunicações e outra para fazer a regulação, por exemplo, do conteúdo de produção nacional. (...) Estamos achando dificuldade em separar as funções. A tendência, agora, é que seja uma única agência. Mas o projeto não trata de jornal nem revista ou internet. Trata de TV e rádio. O marco regulatório diz respeito à comunicação eletrônica". Agora, está claro.

A manifestação do ministro merece apenas um reparo importante. "Assim como a mídia pode criticar o PT, o PT pode criticar a mídia", afirmou - o que é, certamente, um direito líquido e certo das partes. Mas o PT, convenhamos, não faz críticas. Vai muito além. O PT faz claras ameaças à mídia. Menos mal que a presidente Dilma Rousseff sabe separar "a posição do partido da posição do governo".

CELSO MING - A inflação se acirra

A inflação se acirra 
CELSO MING
O Estado de S.Paulo - 07/09/11

A inflação de agosto não mostrou nenhuma pancada fora das expectativas, tampouco algum fator animador. A evolução do IPCA em 12 meses, como mostra o gráfico, ficou em 7,23%, ou seja, estourou a meta (4,5%) conjugada com a margem de tolerância (2 pontos porcentuais).

O Banco Central já havia passado o recado de que ficara difícil garantir a inflação na meta em 2011. Mas reforçou seu compromisso de que a convergência se daria em 2012. O plano de voo é o de que, a partir de setembro ou outubro, a inflação em 12 meses comece a recuar.

Os números divulgados ontem pelo IBGE mostram que a obtenção de uma inflação na meta em 2012 ficou mais difícil. É bem mais provável agora que o próximo ano comece com o índice em 12 meses mais próxim0 dos 7% do que dos 6,5%. Pelo menos quatro fatores tendem a mantê-lo forte.

O primeiro deles é a natureza da inflação em curso, claramente de demanda. O consumo está aquecido, o que acaba de ser corroborado tanto pelos levantamentos do mercado de trabalho (desemprego em queda) como pelas Contas Nacionais do segundo trimestre, que mostraram a demanda das famílias puxando o PIB. Enquanto isso, o setor produtivo está ficando para trás, atolado em elevação de custos e acirramento da concorrência externa.

O segundo fator de alta é o comportamento dos preços dos alimentos. A aposta da área da Fazenda era de que a crise externa derrubaria os preços das commodities. E o que se vê não é bem isso. É a forte demanda asiática por alimentos e energia que tende a manter esses preços elevados - e não na direção contrária.

Em terceiro lugar, o custo de vida deverá ser puxado também pelo alentado reajuste dos salários. Para o início de 2012, está contratado aumento do salário mínimo de nada menos que 14%. Além disso, os reajustes até agora negociados com importantes categorias profissionais (metalúrgicos, petroleiros, petroquímicos e bancários), na faixa dos 10% (portanto, bem acima da inflação), tendem a se estabelecer como referência para as outras classes.

E há, finalmente, a pressão de alta exercida pelos preços do setor de serviços, que não tem competição externa. Medidos em 12 meses, saltaram para o patamar dos 9%. É o forte avanço da renda interna que vai criando enorme demanda pelos serviços, sem que a oferta acompanhe.

Na última reunião do Copom (dia 24 de agosto) o Banco Central indicou que aposta suas fichas na crise externa, para que ela se encarregue de conter os preços. O pressuposto é de que o mercado global passe agora por acentuado processo de desinflação - processo que ajudaria a controlar os preços também no Brasil. A Ata do Copom, que será divulgada amanhã, deverá conter mais esclarecimentos sobre a avaliação do Banco Central. No entanto, a menos que a argumentação traga novidades, parece improvável que o Banco Central consiga reverter prontamente as pressões altistas num ambiente de afrouxamento monetário (queda de juros).

CONFIRA

Intervenção na Suíça

O Banco Nacional da Suíça (banco central) entrou para valer na guerra cambial. Avisou que não tolerará cotação inferior a 1,20 franco por euro. Comprará toda moeda estrangeira que ameaçar derrubar seu câmbio fixo. Ou seja, despejará francos para manter a paridade desejada. O objetivo é manter a força da indústria, da rede hoteleira e as receitas dos bancos, que vinham sendo dilapidadas pelo fortalecimento do franco.

Exemplo japonês

É mais ou menos o mesmo que o Banco do Japão (banco central) tenta fazer para evitar novas valorizações do iene em relação ao dólar, com a diferença de que, até agora, não fixou uma cotação a defender.

Até onde vai?

A grande pergunta hoje consiste em saber se a Suíça tem bala para queimar nessa parada. Em geral, câmbio fixo é oportunidade de ataque dos especuladores. A partir de agora, os mercados passarão a testar a real disposição do banco central de comprar moeda estrangeira. A conferir.

GOSTOSA


DANIEL PIZA - 'Tem ninguém jogando bonito'


'Tem ninguém jogando bonito'
DANIEL PIZA
O Estado de S.Paulo - 07/09/11

A frase foi do Marcos, o goleiro do Palmeiras e da seleção de 2002, de cuja simpatia e franqueza ainda sentiremos saudades, pois a nova geração só quer saber do discurso treinado para agradar à mídia e aos patrocinadores: "Tem ninguém jogando bonito, não. Também vejo os jogos pela TV e quase durmo". Ele a disse ainda no campo quando o Palmeiras empatou com o Cruzeiro, no domingo, e olhe que nessa partida o argentino Montillo fez mais um belo gol, com drible rápido e chute diagonal. Na mesma rodada, o Corinthians perdeu, mas seguiu líder, pois Vasco e Flamengo também perderam; apenas o São Paulo, do topo da tabela, venceu e assim passou à vice-liderança. Mas tem gente que insiste que o Brasileirão, embora não tenha grandes clubes como o Barcelona, é equilibrado porque há mais concorrentes ao título, que as equipes médias são mais fortes que na Europa, etc. É o comentário "me engana que eu gosto".

Isso me lembra aqueles jogadores que são contratados a peso de ouro por países como Japão e Arábia depois que seus representantes enviam um DVD para a diretoria do clube. Com apenas os melhores momentos, um Dodô, digamos, pode parecer um novo Pelé. Eis o que acontece no Brasileirão: editando os gols e alguns lances isolados, como os de Neymar, Lucas, Ronaldinho, Montillo e mais três ou quatro que sabem cuidar da redonda, o campeonato pode até parecer de qualidade. Mas, como já escrevi em outra ocasião, o que hoje vemos de vez em quando num campo de futebol - um chapéu, uma bicicleta, uma arrancada do meio-campo, uma cobrança de falta - antes víamos várias vezes ao longo de uma só partida, digamos no Inter de Falcão, no Flamengo de Zico, no Palmeiras de Edmundo, Rivaldo, Roberto Carlos e companhia, no Corinthians de 1999-2000, ou até no Cruzeiro de Alex em 2003. Não é saudosismo; é comparação objetiva.

Note que Marcos não falou em "jogar bonito" no sentido de enfeitar, dar espetáculo sem vitória, pentear a bola em vez de perfurar as redes. Pense, repito, nos grandes artilheiros do campeonato nacional, depois veja a estatística dos últimos anos: encontrar um que faça mais de um gol a cada duas partidas é difícil. Por que Marcos quase dorme na frente da grande maioria dos jogos atuais? Não é só porque os gols, lances e craques diminuíram em quantidade e frequência, mas também porque a ênfase da maioria dos jogadores é em aproveitar o erro dos adversários, é em dar trombadas e passes curtos até que brechas apareçam, e mesmo assim todos erram muito. As partidas não fluem; os atletas correm e batem demais e pensam de menos e, quanto menos pensam, mais precisam correr e bater. Eles estão mais fortes e altos hoje? Ok, mas isso não os faz melhores. A culpa do jogo feio não é do preparo físico moderno; é da falta de talento e ousadia.

Eis por que basta um pouquinho menos de grossura para que a mídia saia incensando determinados times ou jogadores. Veja o amistoso do Brasil contra Gana anteontem. A necessidade de manter a mística da seleção - com seus resultados publicitários, como é de praxe acontecer nas místicas - é tal que o placar de 1 a 0 foi tratado com grande alívio e esperança. Sim, Ronaldinho - ainda que usando o velho expediente de brilhar com os adversários já entregues, cansados - e Marcelo mostraram que têm técnica para estar lá, Leandro Damião fez seu gol - num lance com Fernandinho, em que criou a situação para o passe em profundidade - e o time mostrou menos apatia do que diante da Alemanha. Agora, vem cá: Gana ficou com um jogador a menos em mais da metade do jogo e só tomou um gol? Atuação do goleiro à parte, não me parece tanta coisa assim... Esse time tem ainda muito a melhorar até superar Alemanha, Holanda ou Espanha. Ao menos, não deu sono.