segunda-feira, julho 04, 2011

RICARDO NOBLAT - Nas asas de Eike

Nas asas de Eike
RICARDO NOBLAT
O GLOBO - 04/07/11

 Dono de um patrimônio avaliado em 30 bilhões de dólares, apontado pela Revista Forbes como a 8a- pessoa mais rica do mundo, o empresário Eike Batista pode emprestar a quem quiser seu jato Legacy de 26 milhões de dólares. Mas nem todo mundo pode aceitar o empréstimo. Como homem público, o governador Sérgio Cabral, por exemplo, não poderia.

Sabia-se que em outubro de 2009, Cabral voou no jato de Eike para assistir em Copenhague ao anúncio da escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016. Soubese que ele voou no mesmo jato para passar recente fim de semana em Porto Seguro, que culminou com a queda de um helicóptero e a morte de sete pessoas. 

Agora se ficará sabendo que pelo menos uma outra vez Cabral voou à custa de Eike. No mesmo Legacy. E que não foi um voo de ida e volta a algum lugar. Foi um voo cheio de idas e voltas. Um voo excepcional. Que mobilizou o jato de Eike durante uma semana. E que provocou uma canseira braba nos pilotos. 

Dia 3 de dezembro do ano passado. Estava de malas prontas para voar em avião comercial com destino a Nassau, nas Bahamas, paradisíaco arquipélago do Caribe, uma parte da família do empresário Fernando Cavendish, dono da empreiteira Delta Construções e de contratos com o governo do Rio no valor de R$ 1 bilhão. 

Jordana, mulher de Fernando, um filho de três anos de idade e a babá dele acabaram convidados a acompanhar Adriana Ancelmo, mulher de Cabral, seus dois filhos Thiago e Mateus, e duas outras babás que também viajariam a Nassau. No jato de Eike, o grupo decolou do aeroporto Santos Dumont por volta das 20h. 

O voo de Cavendish
 correu sem incidentes. Com ele seguiram sua mãe, a filha mais velha, o secretário de Saúde do Rio, Sérgio Côrtes, e mais a sogra de Côrtes, a mulher, duas filhas e duas babás. O voo de Adriana Ancelmo e de Jordana pousou em Manaus para que os passageiros presentassem os documentos de saída do Brasil. E aí... Aí deu rolo. O filho de Jordana, do primeiro casamento dela, estava sem o documento assinado pelo pai autorizando- o a deixar o país. Agentes da Polícia Federal foram inflexíveis no cumprimento da norma. Não cederam nem diante de um pedido feito por Cabral, que telefonou para eles. Como o impasse foi resolvido? Simples. 

Adriana Ancelmo, os dois filhos e suas babás retomaram o voo para Nassau. Jordana, o filho e a babá ficaram em Manaus à espera do documento que lhes permitiria continuar a viagem. O documento chegou dois dias depois. O jato de Eike, que esperava o desfecho do caso em Nassau, voltou a Manaus. 

Dali, com os passageiros remanescentes, novamente voou para Nassau. Faltava alguém para completar a lista dos que haviam combinado passar uma semana de férias no luxuoso hotel Atlantis, de seis estrelas. Quem? Cabral! E lá se foi o jato de Eike buscá-lo no Rio, juntamente com três agentes de segurança. 

E outra vez o jato decolou para Nassau. Os Cabral e Cavendish ocuparam duas espaçosas suítes, uma em frente da outra. A diária? Cerca de 800 dólares. Desfrutaram de dias de sol fraco e de algum frio ao entardecer. Depois de sete dias, a contar da chegada a Nassau pela primeira vez do jato de Eike, teve início a viagem de volta. 

Os que haviam ido para Nassau em voo comercial desembarcaram no Rio em voo comercial. Os que voaram nas asas de Eike retornaram em suas asas. O quilômetro voado no Legacy custa R$ 25. Quase seis mil quilômetros separam o Rio de Nassau. Cabral economizou uns R$ 600 mil. Sem contar o trecho Nassau-Manaus- Nassau. 

É difícil crer que Cabral tenha encomendado a seus assessores um código de conduta capaz de orientálo nas suas relações com empresários. Um código que deverá distinguir entre o público e o privado. Com efeito, seria preciso um código para vetar por imoral a alegre vilegiatura de Cabral nas Bahamas? Por suposto, não!

Cabral, o Pedro, descobriu o Brasil. Que agora descobre Cabral, o Sérgio.

O mensalão do PR - REVISTA VEJA

O mensalão do PR 
REVISTA VEJA
A presidente Dilma Rousseff diz que o Ministério dos Transportes está sem controle, que as obras estão com os preços inflados e anuncia uma intervenção na pasta comandada pelo PR que cobra 4% de propina das empresas prestadoras de serviços

No último dia 24, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com integrantes da cúpula do Ministério dos Transportes no Palácio do Planalto. Ao lado das ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Miriam Belchior (Planejamento), ela passou nos subordinados um daqueles pitos que parecem ecoar pela Praça dos Nos Poderes. em Brasília, e alimentam a sua fama de durona. Dilma reclamou dos aumentos sucessivos dos custos das obras em rodovias e ferrovias, criticou o descontrole nos aditivos realizados em contratos firmados com empreiteiras e mandou suspender o início de novos projetos. A presidente cobrou explicações sobre a explosão dos valores dos empreendimentos vinculados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Com planilhas e documentos sobre a mesa. Dilma elevou o tom: "O Ministério dos Transportes está descontrolado". Depois, manuseando os papéis, sentenciou: "Vocês são inadministráveis e estão inviabilizando o meu governo". Para sustentar a reprimenda, a presidente explicou o motivo da ira: preços "insuflados" ou, na linguagem coloquial da burocracia brasiliense, superfaturados.

Dilma Rousseff chamou de "abusiva" a elevação do orçamento de obras em ferrovias, que passou de 11,9 bilhões de reais, em março de 2010. para 16,4 bilhões neste mês salto de 38% em pouco mais de um ano. Mostrou especial irritação com o fato de a Valec a estatal que cuida da malha ferroviária ter aumentado em 828 milhões de reais um trecho de ferrovia cujo custo havia sido estimado apenas seis meses antes. A presidente disparou também contra o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pelas rodovias. Perguntou e não obteve resposta, por exemplo, sobre por que uma parte da BR-116, entre Eldorado do Sul e Pelotas, no Rio Grande do Sul, estava estimada em I bilhão de reais. Depois de pontuar o varejo, ela concluiu a ofensiva no atacado. desautorizando o Ministério dos Transportes a ampliar em 10 bilhões de reais os custos de suas obras inscritas no PAC. Além das ministras anfitriãs, estavam na reunião o secretário executivo do ministério, Paulo Sérgio Passos, o diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, e o diretor de engenharia da Valec, Luiz Carlos Oliveira Machado.

Foram quatro horas tensas em que a presidente falou muito mais do que ouviu. Ela repassou uma a uma as obras A presidente Dilma Rousseff diz que o Ministério dos Transportes está sem controle, que as obras estão com os preços inflados e anuncia uma intervenção na pasta comandada pelo PR que cobra 4% de propina das empresas prestadoras de serviços

No último dia 24, a presidente Dilma Rousseff se reuniu com integrantes da cúpula do Ministério dos Transportes no Palácio do Planalto. Ao lado das ministras Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e Miriam Belchior (Planejamento), ela passou nos subordinados um daqueles pitos que parecem ecoar pela Praça dos Nos Poderes. em Brasília, e alimentam a sua fama de durona. Dilma reclamou dos aumentos sucessivos dos custos das obras em rodovias e ferrovias, criticou o descontrole nos aditivos realizados em contratos firmados com empreiteiras e mandou suspender o início de novos projetos. A presidente cobrou explicações sobre a explosão dos valores dos empreendimentos vinculados ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Com planilhas e documentos sobre a mesa. Dilma elevou o tom: "O Ministério dos Transportes está descontrolado". Depois, manuseando os papéis, sentenciou: "Vocês são inadministráveis e estão inviabilizando o meu governo". Para sustentar a reprimenda, a presidente explicou o motivo da ira: preços "insuflados" ou, na linguagem coloquial da burocracia brasiliense, superfaturados.

Dilma Rousseff chamou de "abusiva" a elevação do orçamento de obras em ferrovias, que passou de 11,9 bilhões de reais, em março de 2010. para 16,4 bilhões neste mês salto de 38% em pouco mais de um ano. Mostrou especial irritação com o fato de a Valec a estatal que cuida da malha ferroviária ter aumentado em 828 milhões de reais um trecho de ferrovia cujo custo havia sido estimado apenas seis meses antes. A presidente disparou também contra o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), responsável pelas rodovias. Perguntou e não obteve resposta, por exemplo, sobre por que uma parte da BR-116, entre Eldorado do Sul e Pelotas, no Rio Grande do Sul, estava estimada em I bilhão de reais. Depois de pontuar o varejo, ela concluiu a ofensiva no atacado. desautorizando o Ministério dos Transportes a ampliar em 10 bilhões de reais os custos de suas obras inscritas no PAC. Além das ministras anfitriãs, estavam na reunião o secretário executivo do ministério, Paulo Sérgio Passos, o diretor-geral do Dnit, Luiz Antonio Pagot, e o diretor de engenharia da Valec, Luiz Carlos Oliveira Machado.

Foram quatro horas tensas em que a presidente falou muito mais do que ouviu. Ela repassou uma a uma as obras tinha razõees sadias para estar ali. Mas ele nem se deu ao trabalho de explicar sua presença na reunião, que foi feita com o objetivo de discutir obras em 12000 quilômetros de rodovias federais, negócio estimado entre 6 bilhões e 7 bilhões de reais. Os membros do PR alertaram os presentes de que as obras só sairiam do papel à se as consultorias "aperfeiçoassem" os projetos, adequando as propostas às exigências do Tribunal de Contas da União (TCU). Depois do alerta protocolar, porém, Antonio Pagot fez uma preleção. O apadrinhado do senador Blairo Maggi disse que estava em jogo não apenas uma questão técnica, mas uma missão partidária. O PR teria de deixar como legado de sua passagem pelo ministério uma efetiva e perceptível melhoria no estado de conservação das rodovias brasileiras. Tudo perfeito, então? Sim, até que se desça das aparências para a sombria realidade dos negócios. "Eles exigem 5% das consultorias. Quem não paga está fora do ministério", contou a VEJA um dos participantes da reunião. O porcentual -5% é 1 ponto maior do que o pedido às empreiteiras. Cinco outros consultores confirmaram a VEJA o pagamento de propina aos políticos do PR. Entre as atribuições de uma empresa de consultoria, está desenhar o projeto de uma rodovia ou de uma ferrovia seja construção, restauração ou manutenção. Os parâmetros do projeto são decisivos para a definição dos preços e influem até mesmo na escolha das empreiteiras que executar&o a obra, já que umas se adequam mais a determinados requisitos do que outras.

Para ter o controle absoluto do processo, o PR atua e cobra nas duas pontas. O Partido da.República "acerta" os detalhes técnicos com as consultorias e, depois, mantém uma parceria informal com a Associação Nacional das Empresas de Obras Rodoviárias (Aneor). As vésperas do lançamento de uma licitação, empreiteiros se reúnem na sede da entidade em Brasília e dividem entre si lotes da obra em questão. Investigações da Polícia Federal já flagraram essa armação, responsável pela majoração dos preços dos empreendimentos. "Quem combina tudo, do preço à empresa que vai ganhar, é a direção da Aneor com o Valdemar. Nas reuniões, não se pode entrar nem de telefone celular. Todos levam alguma coisa, mas quem discordar perde tudo", contou um empreiteiro. O presidente da Aneor, o empresário José Alberto Ribeiro, negou que haja combinação de preço como forma de burlar a livre concorrência. Ele diz que sua intervenção é feita no sentido de impedir que sejam efetuadas propostas a preços irreais: "Mostramos aos associados que, se derem um desconto acima do justificável, não conseguirão fazer a obra e, se fizerem, será de má qualidade". Ribeiro admite serem frequentes as reuniões com parlamentares, assim como a influência de Valdemar Costa Neto no Ministério dos Transportes. "No modelo brasileiro, cada ministério pertence a um partido. O Valdemar é o mais influente. Temos de conversar com ele. Antes, a gente "acertava" direto com o parlamentar que trabalhava pela obra. Agora, o dinheiro é entregue a um funcionário do ministério", relata um empreiteiro.

Na semana passada, a Aneor marcou uma dessas reuniões para "encaminhar" a licitação de uma obra na BR-280, em Santa Catarina, uma empreitada orçada em 900 milhões de reais. A concorrência formal vai acontecer na próxima sexta-feira. Segundo um empreiteiro convidado, a entidade já havia decidido o preço e o nome da empresa que venceria a disputa por um dos lotes da obra. Faltava escolher os parceiros para os outros dois trechos da rodovia. Se não houvesse acordo, seria promovido um sorteio. A reunião, marcada para a sede da Associação Paranaense dos Empresários de Obras Públicas, em Curitiba, foi cancelada na última hora. Indagado sobre os motivos do cancelamento, Valdir da Costa Reis, diretor da Aneor, desconversou: "Reunião? Que reunião? Não estou sabendo de reunião nenhuma". Se tudo o que foi combinado com relação às obras da BR-280 der certo. cada pagamento liberado aos "vencedores" da licitação sofrerá uma taxação de 4%. Os pagamentos ao PR são feitos a um emissário de Valdemar e Alfredo Nascimento, o assessor do Ministério dos Transportes Luiz Tito Barbosa. "Um parlamentar da direção do PR me disse que ele (Tito) agora é o caixa oficial. Não é mais para pagar nada diretamente a deputados ou senadores. Os envelopes seguem direto para ele", diz um empreiteiro. Servidor de carreira, Tito tem como função oficial preparar dossiês sobre o andamento de obras que serão visitadas pelo ministro. Para cumprir a missão, reúne-se diariamente com parlamentares e empresários a fim de colher informações sobre o andamento dos projetos e da movimentação financeira relacionada a eles. Tito negou ser o arrecadador do esquema: "Já aconteceu de empresários dizerem que estão dispostos a comprar facilidades aqui no ministério. Eu não aceito conversar. Não tenho controle do empenho dos recursos". Quem tem controle dos tais empenhos e da efetiva liberação das verbas para as empresas é Mauro Barbosa, chefe de gabinete do ministro.

Eis mais um dos "inadministráveis" aos quais a presidente Dilma Rousseff se referiu. Mauro Barbosa sabe de cor e salteado quando e quanto cada empresa recebe dos cofres públicos. Ele é amigo e chefe de Tito. Trabalharam juntos no Dnit e na secretaria executiva dos Transportes. "O Mauro é o dono da chave do cofre, e o Luiz Tito o cara da mala", explicou um empresário. Mauro Barbosa também é sobrinho de Juquinha, o presidente da Valec. Filiado ao PR, Juquinha tem Valdemar como um dos padrinhos. No dia a dia da estatal, ele dá mostras de obedecer diretamente ao deputado. Em 4 de agosto de 2010, o conselho de administração da Valec se reuniu em Brasília para seu encontro mensal. Entre os assuntos tratados estavam as obras da Ferrovia de Integração Oeste-Leste. Um dos conselheiros perguntou quando seria finalizado o processo de contratação das empresas que trabalhariam na empreitada. Juquinha, conforme o relato de dois dos presentes, respondeu: "A escolha das empresas será feita em um jantar na casa do doutor Valdemar Costa Neto". VEJA procurou o presidente do conselho de administração da Valec, Miguel Masella. Em dois contatos, ele se calou sobre a polêmica declaração de Juquinha durante a reunião do colegiado. Integrante da Comissão de Transportes da Câmara, o deputado Mauro Lopes (PMDB-MG) contou que. há uns dois anos, foi até Juquinha para apresentar as credenciais de uma empresa de consultoria interessada em participar de projetos da Valec. "Se o Valdemar autorizar, eu coloco para trabalhar" ouviu como resposta. No fim do ano passado, um grupo formado por empresários e parlamentares do próprio PR procurou um delegado da Polícia Federal para denunciar o esquema. Não existem santos nessa história. "O Valdemar se acha dono do PR. Quer tudo para ele" criticou um parlamentar, pedindo anonimato. Em nota. o ministério informou que Alfredo Nascimento "não foi alertado nem tomou conhecimento da prática de qualquer irregularidade na gestão dos contratos sob a responsabilidade de seus órgãos vinculados (o Dnit e a Valec). Caso haja denúncia. tomará as medidas cabíveis para a imediata e rigorosa apuração dos fatos e a efetiva responsabilização dos envolvidos". O Dnit informou que não há influência de Valdemar nas decisões do órgão e que, na reunião com os consultores. ele apenas "cumprimentou rapidamente" os panicipantes e foi embora. Valdemar não quis comentar.

LUIZ FELIPE PONDÉ - O sol sobre o pântano

O sol sobre o pântano
LUIZ FELIPE PONDÉ
Folha de São paulo - 04/07/11


Cá estou mais uma vez em meio ao vazio. Lá embaixo, o Atlântico mergulhado na majestade do silêncio. Estou num Jumbo que rasga o céu a mil quilômetros por hora e a 35 mil pés de altitude.

Minha relação com aviões tem a tara de tudo que é infantil. Meu pai, que quando nasci era capitão médico da Aeronáutica, me levava pra voar ainda muito pequeno nos aviões da FAB.

Aqui, você se sente ao mesmo tempo o criador do avião (na medida em que se trata de uma invenção humana), e também sua vítima indefesa. Majestade máxima do homem técnico, majestade máxima de sua fragilidade. Os olhos do nada acompanham de perto o avião no seu deboche da lei de Newton. Uma maravilha que carrega a majestade da morte em sua elegância.

No escuro, com a pequena luz que me cabe neste silêncio, leio Georges Bernanos. Se você é uma alma como eu (que pressente o pecado como sua substância), e nunca leu Bernanos, leia.

Aliás, antes que um desses inteligentinhos pense "oh, como este colunista é dominado pela moral católica retrógrada da culpa" ou "pela ideologia burguesa da vergonha", não perca seu tempo, desista de me salvar. Sua "salvação" é comparável às emoções de uma bela adormecida.

Sinta-se liberto do inferno onde vivo. Dois minutos na sua companhia, eu dormiria de tédio. O "bem" na sua face "social" é um tédio como o gosto de uma alface. A beleza do Bem começa no seu respeito pelo Mal e no destino único que os une: os tormentos da liberdade. Um com o perfume da esperança, o outro com o hálito do vazio. O pecado é no fundo uma paixão pela aniquilação de si mesmo, ainda que se disfarce de desejo de "gozar a vida".

Esses "bons moços" de hoje em dia nada entendem do ser humano, e por isso tiram de nós nossa única dignidade: a luta interior contra nós mesmos.

Sou um medieval, graças a Deus. Não acredito no homem, e muito menos em mim mesmo.

Mas lembre-se, inteligentinho: sou um niilista, não veja em mim um velho seminarista assustado (que não sou). Entre você e eu, é você que teme o Mal, eu sei que sou feito de sua substância mais íntima. E você, no fundo, se acha "do bem", e aí reside sua mais pura miséria.

Meu Deus, como sou fraco!

A habilidade de pensar em mim não é uma virtude intelectual, mas um vício de temperamento que pode parecer uma ética do "amor ao conhecimento", mas que na verdade não passa de um gosto maníaco por ver como o pensamento disseca a realidade a serviço do nada.

O ceticismo em mim é um produto do cérebro réptil, automático, como a respiração.

Tomo emprestado a imagem, muitas vezes usada pra descrever a obra do grande Nelson Rodrigues, como título dessa coluna: "um sol sobre o pântano", sendo o pântano nossa alma, e o sol (muitas vezes demoníaco), o gosto de olhá-la nua.

O pecado, por sua vez, me parece ainda a melhor ferramenta pra nos conhecermos.

Voltando a Bernanos, em seu maravilhoso "Sob o Sol de Satã", editado no Brasil pela É Realizações, o autor, num dos seus grandes momentos, descreve quatro pecados essenciais e "seus efeitos", por assim dizer (traduzo livremente da edição francesa da Plon de 1968):

"O avaro corroído pelo seu câncer, o luxurioso como um cadáver, o ambicioso tomado por um único sonho, o invejoso que está sempre em vigília". A avareza é um câncer que se manifesta não só no "amor" ao dinheiro, mas que também se trai na gula pelo corpo, pela saúde, pela vida, pela felicidade. Um câncer que destrói a alma cujo corpo a avareza visa "preservar".

A luxúria que, em sua obsessão pelo gozo sexual, muitos hoje em dia idiotamente assumem como uma forma de redenção, transforma-nos num objeto mudo. Quem apenas "faz" sexo sabe o quanto o corpo "gostoso" pode ser feio.

A ambição em sua cegueira pelo sucesso que faz da felicidade uma obsessão. E a inveja em sua tensão doentia da vontade, que deseja tudo que os outros têm, destruindo o valor de tudo que temos, fazendo de nós uma espécie de zumbi sem fim.

Enfim, o nada lá fora, o nada aqui dentro. Ao meu redor, todos dormem, mas eu estou de vigília. A turbina ao meu lado.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - Itamar, o acidental

Itamar, o acidental
 FERNANDO DE BARROS E SILVA
folha de são paulo - 04/07/11

SÃO PAULO - Fernando Collor foi um presidente viril, de temperamento esportivo e gestual afascistado. Afetava uma modernidade caricata -a gravata Hermès, o uísque Logan, a brilhantina no cabelo. Itamar Franco tinha o seu topetinho. Démodé, mas autêntico. Até nisso, foi uma espécie de anti-Collor.
Collor decretou que os carros nacionais não passavam de carroças. Itamar tratou de reabilitar o Fusca -a carroça-símbolo da nacionalidade, de um país popular.
Para o registro histórico, o presidente do Fusca, do pão de queijo e... do Plano Real figura ao mesmo tempo como interregno e elo entre os governos dos dois Fernandos. A despeito da delinquência e do gangsterismo que marcaram a gestão Collor, há uma continuidade entre a liberalização da economia que ele patrocinou e a modernização capitalista com a reforma do Estado que o professor FHC iria promover em termos mais consequentes e duradouros.
Vice de um outsider pelo PRN, um partido fantasma, Itamar, a seu modo também aventureiro, teve a sorte de chegar ao comando do país com o impeachment de Collor. E teve o mérito de não interferir no laboratório do plano de estabilização que FHC levou a cabo com seus meninos-prodígio a partir de maio de 1993, até parir o real em 1994.
Recorde-se: antes de Fernando Henrique, Itamar teve três ministros da Fazenda (Gustavo Krause, Paulo Haddad e Eliseu Resende) em apenas cinco meses.
O presidente acidental conseguiu fazer de seu breve mandato um período de entendimento político e de reconstrução da terra arrasada deixada pelo estilo atlético-imperial do antecessor.
Apesar disso, Itamar nunca deixou de ser um político provinciano, movido por pequenas mágoas. Também não parece absurdo ver esse nacionalista extemporâneo como um Forrest Gump, imerso numa inconsciência virtuosa, ou bem-sucedida, protagonista involuntário de algo que não compreendia.

CLÁUDIO HUMBERTO


MP consagra acerto prévio de licitações

Além do sigilo na contratação de obras para a Copa do Mundo, o Regime Diferenciado de Contratações (RDC), criado pela Medida Provisória 527, consagra uma antiga tramoia, ao prever que a mesma empreiteira elabore o projeto e o inicie em 30 dias. Profissionais do setor avisam que projetos como de um estádio, por exemplo, consomem no mínimo 150 dias. Só o apresenta em 30 dias quem o fez antes da licitação, sabendo que a venceria.


Uma afronta

A pretexto de "modernizar as licitações", o Regime Diferenciado de Contratações afronta a transparência ao favorecer as cartas marcadas.


Até o dia 14

Aprovado na Câmara, o RDC será votado até 14 de julho no Senado. É quando perde a validade a medida provisória 527, que o instituiu.


Bomba-relógio

A Light, de energia elétrica do Rio, vai pagar R$ 100 mil de multa por (novo) bueiro que explodir. E nós ainda contamos piada de português.


Pergunta no aeroporto

Que amigo "necessitado" estará voando a esta hora no jatinho de Eike Batista?
Petistas calam sobre 'idiotas' de Nelson Jobim
Os líderes do PT Paulo Teixeira (Câmara), Cândido Vaccarezza (Governo) e Humberto Costa (Senado) se fizeram de surdos em relação à declaração do ministro Nelson Jobim (Defesa) sobre os "idiotas" do Governo. Teixeira embromou: "Não é papel dos petistas cobrar, mas saber quais são as preocupações dele". E Costa saiu-se com "é muito difícil comentar, mas acredito que não foi do Governo."


Ele, avestruz

O líder do Governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP) meteu a cabeça no buraco: "Não sei o que ele quis dizer, prefiro não comentar".


Casa de tolerância

O ministro Nelson Jobim deve ter um gene específico de paciência com idiotas. Afinal, conviveu por quatro anos com o "idiota da aldeia".


Os últimos a saber

Escândalos, dossiês, ataques de hackers. Mais uma vez a Agência Brasileira de Inutilidades (Abin) nada sabia. Já gastar no cartão...


Fora dessa

Réu no mensalão, ao ex-deputado federal José Genoino (PT-SP) resta a assessoria de Nelson Jobim (Defesa): aos 65 anos, perde a cobiçada vaga do ministro Ubiratan Aguiar, no Tribunal de Contas da União.


Meio ético

O governador Sérgio Cabral (PMDB) anunciou a criação de um código de conduta para ele mesmo e demais autoridades. Lembra a piada da meia gravidez ou meia virgindade. Ética tem-se. Ou não.


C'est si bon

O consumidor lucraria com a venda do Pão de Açúcar para o grupo Casino. A rede de Abílio Diniz, que se uniu ao Carrefour, perde em variedade e atendimento para qualquer Casino de periferia em Paris.


FRASE DO DIA

"Eu diria que alguém prevaricou"
Senador Walter Pinheiro (PT-BA) sobre o PSDB não denunciar o hacker de Dilma

PODER SEM PUDOR

Na calma
Coreaú, no interior do Ceará, é terra de gente valente. O vereador Zé Galvão amarrava a carga de um caminhão, quando um desafeto político chegou de revólver na mão.
- Desce daí pra morrer, Zé Galvão.
E Galvão na maior calma
- Diabo de revolver é esse teu que a bala num bota aqui em cima?

SEGUNDA NOS JORNAIS

Globo: Brasileiros compram mais imóveis no exterior

Folha: Saúde perde R$ 12 bi por maquiagem de Estados

EstadãoProjeto reduz rombo da Previdência pela metade

Correio: Brasileiros correm para comprar imóveis em Miami

Valor: Captações externas batem recorde

Zero Hora: Suposto esquema fragiliza ministro dos Transportes

domingo, julho 03, 2011

GAUDÊNCIO TORQUATO - O Supremo legislador


O Supremo legislador 
 GAUDÊNCIO TORQUATO
ESTADÃO - 03/07/11

O Poder Judiciário não se cansa de mandar recados ao Poder Legislativo recitando a máxima latina si vis pacem para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra). O alerta quer significar que os legisladores, para preservarem os princípios da harmonia e da independência entre os Poderes, estatuídos na Carta Magna, precisam fazer a lição de casa e enfrentar a batalha de elaborar as leis necessárias para garantir a normalidade das relações sociais, econômicas e políticas no País. O mais recente recado foi a decisão do STF de que fixará as regras sobre o aviso prévio proporcional ao tempo de serviço prestado pelo trabalhador. O inciso XXI do artigo 7.º da Constituição, que trata desse tema, aguarda regulamentação há 23 anos. Como o poder não admite vácuo, a Corte o tem preenchido com farta legislação judicial. Chegou até a abrir espaço em seu site para as omissões inconstitucionais, o que pode ser interpretado como puxão de orelha nos parlamentares.

Essa questão do aviso prévio, que começa a ser analisada pelo Supremo por demanda de quatro funcionários do Grupo Vale, abre expectativas pelas consequências que deve gerar para o setor produtivo. O receio é que o Judiciário, ao interpretar a Constituição, acabe alargando os prazos para trabalhadores com muitos anos de casa (hoje o aviso prévio é de 30 dias), o que causaria impacto econômico de vulto e tornaria inviáveis pequenos e médios empreendimentos. Seja qual for a decisão a ser tomada, o que chama a atenção é a incapacidade do Legislativo de preencher as lacunas abertas pela Carta de 1988. De lá para cá, publicaram-se 4.813 leis ordinárias e 80 leis complementares, mas há ainda 126 dispositivos constitucionais que esperam por regulamentação, alguns vitais para a clarificação de direitos e deveres de cidadãos e empresas.

A questão central é: deve o STF entrar no terreno legislativo ou só informar às Casas congressuais sobre suas omissões? É oportuno lembrar que o Supremo só age quando acionado. Sua missão precípua é interpretar a Constituição ante a falta de clareza ou inexistência de leis que detalhem normas sobre os mais diversos assuntos de interesse social. Observa-se que os magistrados, de um comportamento mais cauteloso nos idos de 90, quando apenas comunicavam ao Parlamento a falta de leis, passaram a produzir regras, deixando o desconforto de lado. Nos últimos tempos, sob o empuxo de demandas da sociedade civil, capitaneadas por organizações de intermediação, o STF reposicionou-se no cenário institucional, tomando decisões de impacto, e sem se incomodar com críticas sobre invasão do território legislativo.

Nessa direção se incluem decisões por omissão inconstitucional em áreas como aposentadoria especial (decorrente de trabalho insalubre), direito de greve no serviço público, criação de municípios e criação de cargos no modelo federal. No caso do direito de greve, a decisão foi a de se aplicarem ao funcionalismo as mesmas regras para o setor privado, mas em certas áreas do serviço público a manutenção de um mínimo de 30% das atividades (previstas para as empresas) é inadequada, como é o caso de hospitais públicos.

A perplexidade expande-se. Por que os parlamentares, tão afeitos à produção legislativa, deixam de fora de sua agenda a regulamentação de dispositivos importantes da Constituição? A resposta aponta para a falta de consenso. Veja-se a bomba que está prestes a explodir no Congresso: a Emenda 29, de 2000, fixando porcentuais mínimos para gastos na área de saúde. Estados devem destinar 12% e municípios, 15%. Aguarda-se há dez anos! Ora, o Executivo teme que o saldo da conta negativa acabe batendo em seus cofres. Além de emendas já aprovadas carecendo de regulamentação, há projetos de efeitos devastadores, como a PEC 300, que cria o piso salarial para as Polícias Civil, Militar e os bombeiros. As duas matérias representam impacto de R$ 58 bilhões, montante que rasparia os cofres públicos. Portanto, os parlamentares sentem-se entre a cruz e a caldeirinha: de um lado, comprimidos por demandas da sociedade e, de outro, confinados aos parâmetros das políticas econômica e fiscal do governo. No meio do cabo de guerra emerge a miragem de um pacto federativo, que não passa de promessa retórica. Compromissos, acordos e obrigações entre União, Estados e municípios são precários e desmontam o escopo da unidade. Não por acaso, a propalada reforma tributária é um marco divisor de interesses.

Chega-se, assim, ao centro do argumento aqui suscitado: a legislação judicial aparece no vácuo da legislação parlamentar. Não há, nesse caso, transgressão ao princípio democrático de que o representante eleito pelo povo é quem detém o poder de legislar? Em termos, sim. Mas a questão pode ter outra leitura. A construção de uma sociedade livre, justa e solidária, conforme preceitua a Constituição, se assenta na preservação dos direitos individuais e coletivos. E os princípios da autonomia, harmonia e independência dos Poderes, sob sistemas políticos em processo de institucionalização, ganham certa frouxidão.

Compreende-se, assim, a interpenetração de funções dos Poderes do Estado. Importa, sobretudo, que eles estejam conscientes de seus deveres e omissões. E tocados pela chama cívica que Thomas Paine acendeu no clássico Os Direitos do Homem. "Quando alguém puder dizer em qualquer país do mundo: meus pobres são felizes, nem ignorância nem miséria se encontram entre eles; minhas cadeias estão vazias de prisioneiros, minhas ruas de mendigos; os idosos não passam necessidades, os impostos não são opressivos... quando estas coisas puderem ser ditas, então o país deve se orgulhar de sua Constituição e de seu governo."

ANCELMO GÓIS - Dieta

Dieta
ANCELMO GÓIS
O GLOBO - 03/07/11

Palocci, longe do poder, já perdeu 3kg. 

Retratos da vida 
Um homem acusado de bater na mulher num condomínio de casas do Recreio, no Rio, foi preso sexta à tarde em cumprimento a um mandado de prisão decorrente de ações movidas pela vítima. Mas... no mesmo dia, aos prantos, sua companheira foi à 16a- DP implorar pela liberdade do valentão.

Mercado aquecido

O Rock in Rio inflacionou muito o mercado de shows de artistas internacionais no Brasil. O pessoal do SWU 2011, em novembro, em Paulínia, SP, sua a camisa para trazer estrelas. Tem oferecido uns US$ 2 milhões e, mesmo assim, está difícil fechar o elenco internacional. 

A grife BNDES

Abílio Diniz disse a um amigo que poderia muito bem conseguir no mercado financeiro privado os R$ 3,9 bi que o BNDES topou aportar nessa operação com o Carrefour: 
— Preferi o BNDES porque o banco, hoje, é uma grife. Ah, bom! 

Falta de tempo
Eduardo Paes lamenta. Desde que assumiu a prefeitura do Rio, em 2009, não leu um livro. 

Jogos de 16 
A União anda atrasada nas obras na região de Deodoro para os Jogos de 16, no Rio. Ali, serão realizadas as provas de hipismo, tiro, pentatlo, esgrima, canoagem e mountain bike.

Corações sujos 

Esta semana, estreia “Corações sujos”, filme de Vicente Amorim, filho de Celso Amorim. É adaptação do livro de Fernando Morais sobre a parte da colônia japonesa que não acreditava que o Japão havia sido derrotado pelos EUA na II Guerra.

Liberdade crônica

A ex-casseta Maria Paula lançará o livro “Liberdade crônica”, pela Editora Faces, na Bienal do Livro, em setembro.

Neymar até 2012
Alguém com ouvido muito atento e entrada no Santos ouviu o vice-presidente do clube, Odílio Rodrigues Filho, falar num almoço que Neymar sairia no meio de 2012 para o Real Madrid por 60 milhões de euros. O Chelsea teria chegado ao valor da multa, 45 milhões de
euros, e o clube madrilenho teria coberto a proposta.

E mais...
Outro negócio no Santos seria a troca de Ganso por Robinho, agora no fim do ano. A conferir. 

Óleo na Namíbia

O governo da Namíbia autorizou a Petrobras e a inglesa Chariot Oil & Gas a continuarem a exploração no bloco marítimo 2714A, no Sul do país. A Petrobras tem 50% do bloco e pretende perfurar o primeiro poço até agosto de 2013. 

Hélio Turco
Um grupo de beneméritos da Mangueira articula a candidatura de Hélio Turco a presidente de honra da escola, como sucessor de Roberto Paulino, que morreu semana passada. O sambista, de 75 anos, é um dos autores de “O mundo encantado de Monteiro Lobato”, hino campeão de 1967. 

Chupa-sangue
A recuperação da Estrada Paraty-Cunha é um sonho de 40 anos do Estado do Rio. O governo Cabral não pode fazer a obra agora, veja só, porque o Instituto Chico Mendes, do Ministério do Meio Ambiente, não dá licença, pois se descobriu ali um tipo raro de... morcego.

Brizola, o filme
Vem aí um documentário sobre a histórica eleição de Leonel Brizola para o governo do Rio, em 1982. Vai se chamar “1982, quando
nosso muro caiu”. Direção e roteiro são de Marton Olympio e Guto Graça. A ideia é que o filme fique pronto em 2012, quando a vitória de Brizola completa 30 anos.

VINÍCIUS TORRES FREIRE - A decidida impaciência de Dilma

A decidida impaciência de Dilma
VINICIUS TORRES FREIRE
FOLHA DE SP - 03/07/11  

Presidente precipita certas decisões e tem de recuar, dos rolos com o PMDB ao caso BNDES-Pão de Açúcar



DILMA ROUSSEFF começou seu governo numa espécie de retiro gerencial, cumprindo voto de silêncio midiático, em estrita observância de sua fama de "técnica". O período de abstinência verbal pegou bem entre o público opinante, que não é bem a opinião pública, embora não só aí.
Depois da campanha eleitoral odienta e da fanfarrice estridente de Lula, o momento de sossego e reflexão era mais do que conveniente.
Além da reputação "técnica" e de avessa a políticos, Dilma reforçou a imagem de pessoa decidida e opinionada; de pavio curto. Quando começa a perder a paciência com o interlocutor, costuma chamá-lo de "ôôô, santinho!" -e por aí vai.
Mereceu ainda a fama injusta e mesquinha de ser "chata", pois lê documentos e gosta de estudar os assuntos que discute, um pecado entre gente dada à falação ignara.
Ao sair do retiro, porém, Dilma pegou um vento ruim. De volta da China, em abril, contraiu pneumonia grave, explicada de modo inepto pelos seus assessores. Curioso é que os abalos começaram após a presidente aprovar o reajuste do salário mínimo como quis e quando esfriava ao zum-zum sobre o "descontrole inflacionário". No final de abril, Dilma iria à TV dizer que controlaria os preços e que lançaria o Brasil sem Miséria. E o caldo entornou.
Quando o Congresso voltou à ativa, o PMDB deu o troco do descaso da presidente com barganhas e, enfim, com a política. Em meio ao escândalo Palocci, Dilma mostrou-se decidida a não aceitar os acordos do Congresso sobre o Código Florestal e colocou fermento numa derrota que nem era sua. Decidiu que pediria a cabeça de ministros do PMDB, mas teve de recuar. Tomou mais decisões precipitadas pelo pavio curto.
No esforço de manter Palocci, cancelou campanha contra a homofobia a fim de agradar a parlamentares religiosos. O Brasil sem Miséria, alta prioridade, foi lançado às pressas como uma proposta modesta, pois assim o demandava a "agenda positiva contra a crise".
Nos exageros sobre a "crise do governo", o envolvimento "técnico" da presidente com a administração começou a ser chamado de atitude "excessivamente centralizadora".
Tão decidida, Dilma por um momento não soube o que fazer do desarranjo político de maio e viu Lula se aproveitar da situação para se relançar no mercado político.
Havia decidido fazer uma concessão de aeroportos para inglês ver, decidindo semanas depois privatizá-los à vera a fim de tentar evitar o vexame de uma Copa sem voos.
A seguir, embananou-se com várias decisões a respeito do sigilo eterno de documentos de Estado.
Havia decidido não liberar o pagamento de emendas parlamentares velhas de 2009 para depois ceder à política de que não gosta.
Apesar da ameaça do Congresso de aprovar leis que podem estourar Orçamentos públicos, certa paz parecia voltar ao governo Dilma. Que, porém, decidiu de modo precipitado e bisonho apoiar a entrada do BNDES no negócio cabeludo do Pão de Açúcar com o Carrefour.
As precipitações não definem o governo Dilma, claro. Por ora, mostram mais falta de tarimba política, a obsessão da presidente com minúcias demais e carência de planos de médio e longo prazos. Melhor seria fazer como Baudelaire, digamos ironicamente: cultivar suas flores do mal com "raiva e paciência".

CAETANO VELOSO - FH


 FH
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 03/07/03

O desejo íntimo de FH de que Lula se elegesse (...) era emocional, sentimental, históricomelodramático


Aos 80, o Fernando Henrique que foi chamado de maconheiro pelos partidários de Jânio Quadros (um hilário populista de direita que falava como se os gramáticos que só existem na cabeça de Possenti tivessem ganho a guerra) faz campanha para a descriminalização da maconha. Na pré-estreia de “Quebrando o tabu” ele brincava com o plano de escrevermos juntos um livro-depoimento intitulado “fiz um filme com Fernando Grostein Andrade e sobrevivi”. Era uma referência a um tempo irritada e carinhosa ao jovem diretor paulista que, antes de fazer com ele esse estudo demolidor da Guerra às Drogas de Nixon, Reagan e Bushes, fez o documentário acidental sobre minha excursão com o show de “A foreign sound”.

FH estava mais cool do que nunca. Ele apresentou o filme no mesmo tom em que aparece numa de suas cenas dizendo que nada fez a respeitoda questão quando era presidente porque então não
sabia o que sabe agora. Seu melhor momento é quando comenta a temática pedestre da pintura holandesa, comparando- a aos arroubos religiosos e aristocráticos dos pintores italianos ou espanhóis: o pragmatismo que possibilita a mirada serena dos modernos batavos relativamente ao uso e comércio das drogas é da mesma natureza da sensibilidade que pintava comedores de batata, pessoas comuns, cenas
indigentes. Nessa fala do expresidente a forma permanece despretensiosa, mas o fundo é denso. Em quase todas as outras sequências ele exibe uma leveza que quase confirma a acusação de mera eleição de um tema para enfeitar o terceiro ato de uma vida chique.

Eu adoro que o nome escolhido para a nova moeda tenha sido “real”. É nome de dinheiro em português desde sempre: está no inconsciente do povo — e, usado hoje, ressalta que deixou de indicar realeza para indicar realidade. De todo modo era finalmente livrar nossa moeda da cruz que a nomeava e pesava sobre ela, esmaga n d o - a . D e quem terá sido a ideia? Não procurei saber antes de escrever estas notas. Sobre todos os nomes dos arquitetos do plano e nomeadores da obra paira a assinatura de quem liderou a empreitada. É uma beleza de alegria alguém chegar aos 80 anos tendo feito isso.

O PT foi contra, xingou, esperneou, esbravejou, mas depois se sentiu mais capaz de fazer os governos que fez. Uma das coisas mais deselegantes do Brasil da última década foi a rejeição ao nome e à figura de Fernando Henrique. A carta de Dilma agora foi, desde os belos dias da transição entre o segundo mandato de FH e o primeiro de Lula, a única luz na treva da ingratidão e da desfaçatez. Luz intensamente brilhante, já que Lula ele mesmo nunca agiu de modo parecido, sempre ecoando a feíssima fórmula “herança maldita”, lançada por Zé Dirceu em entrevista que se seguiu à comovente festa da posse do torneiro pernambucano. O fato é que Fernando Henrique elegeu Lula. Não apenas este é feliz continuidade daquele, mas o primeiro agiu como quem no íntimo torcia para ver o operário lá. Serra não queria ser identificado com o governo que saía: não seria boa tática eleitoral. Mas a verdade é que ele discordava da política econômica, manteve-se sempre à esquerda dela, jamais teria feito o que Palocci fez (vejam que, mesmo agora, enfrentando Dilma, ele insistia em restringir mais a independência do Banco Central). O desejo íntimo de FH de que Lula se elegesse, no entanto, era visivelmente de outra ordem. Era emocional, sentimental, histórico-melodramático. Eu votei em Lula com sentimento semelhante — e chorei na cabine. Parece que não há oposição e que não há PSDB, porque toda a política possível desde então nasceu desse momento sentimental de FH. É bom.

Meu camarada André Nassif, economista, me explicou que pode-se dizer que o governo Lula recebeu sim uma herança má porque “no primeiro mandato do FH, houve uma estratégia de crescer e manter a inflação pós-Real baixa e sob controle com base em financiamentos externos (os economistas chamam isso de ‘crescer com poupança externa’, estratégia que o professor Bresser Pereira, que se desligou do PSDB, tanto combate): acelerouse a permissão para o livre fluxo de capitais de curto prazo. Isso, aliado a câmbio semifixo e a juros elevados, fez subir enormemente tanto a dívida interna como a externa. Tá
bom: os tucanos c o m r a z ã o d izem que isso se agravou com a t u r b u l ê n c i a ocorrida durante a p r i m e i r a eleição de Lula. Mas àquela altura as dívidas já eram bem elevadas”. Papo de economista é assim mesmo meio difícil de entender. Mas gosto de ouvir quem fala assim (não em economês, mas de modo equilibrado). Nada a ver com a histeria dos “blogueiros progressistas”.

Me contaram, na época, que FH falou meu nome na primeira entrevista como presidente. Uma vez, depois de um show em Brasília, ele me convidou para visitar o Alvorada. Gostei muito de ouvi-lo (e a Dona Ruth) sobre o significado simbólico do palácio — e da cidade. Também sobre as obras de arte que o Alvorada contém. Uma afirmação do Brasil era o cerne do que FH teria dito que gostava em minha visão das coisas. Como diz Zé Miguel, paulistas sentem ou um déficit de brasilidade ou uma superioridade sobre o país. FH falando à “Piauí” foi horrível. Parecia dizer: “Se eu, que estou acima dessa gente que nem sabe marchar, não consertei, não esperem que o Brasil saia do horror que sempre foi.” Eram conversas descuidadas, embora tristemente reveladoras. Mas elas não se sobrepõem à inspiração que foi sua passagem pelo poder máximo.

ILIMAR FRANCO - Proteção à criança

Proteção à criança
ILIMAR FRANCO
O GLOBO - 03/07/11
 
Motivada pela tragédia da Região Serrana do Rio, a presidente Dilma Rousseff assina, nos próximos dias, um decreto com procedimentos para assegurar a proteção de crianças e adolescentes nos locais em situação de emergência ou de calamidade pública. Haverá orientações para a localização de parentes; regras para abrigos e acolhimento; procedimentos para confirmar, sem documentos, a filiação. Com o apoio dos estados, o governo vai criar um cadastro nacional de famílias para acolher essas crianças e adolescentes.

Preparativos para a Copa
A Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República pretende fortalecer os conselhos tutelares nas capitais que serão sede da Copa de 2014, para coibir a exploração sexual de crianças e adolescentes. Há preocupação também com as obras do evento esportivo, que reúnem uma grande população masculina. Em outra frente, baseada em mapeamento feito pela Polícia Rodoviária Federal dos pontos das estradas onde há exploração sexual de menores de idade, a secretaria também pretende melhorar a estrutura dos conselhos tutelares nesses municípios. Atualmente, 98% das cidades brasileiras contam com esse colegiado.

"São três os tipos de dias no Planalto. Tem os dias longos, os dias longuíssimos e os dias intermináveis” — Ideli Salvatti, ministra das Relações Institucionais

CORRENDO PARA O ABRAÇO. Com postura moderada na discussão do Código Florestal, o senador Luiz Henrique (PMDBSC), um dos relatores da proposta, tenta uma aproximação com a presidente Dilma. Na campanha, ele apoiou José Serra. O senador tem defendido até a ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais), sua adversária no estado. O fato de o governador Raimundo Colombo (SC) ter trocado o DEM pelo PSD contribuiu.

Não acerta uma
O líder do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), parece viver num inferno astral. Tentou fazer o ministro das Relações Institucionais, e a
ex-senadora Ideli Salvatti levou. Quis um petista líder do governo no Congresso, e o PMDB emplacou.

Candidatura
O líder do PMDB, Henrique Alves (RN), não é o único a antecipar sua campanha para a presidência da Câmara. O deputado José
Guimarães (PT-CE) já está costurando apoios para ser o líder da bancada petista no ano que vem. 

Obra do PAC parada
Chefe do Departamento de Engenharia do Exército, o general Ítalo Avena enviou um ofício, no dia 10 de março, ao diretor-geral do Dnit, Luiz Antônio Pagot, devolvendo as obras de duplicação da BR-101 entre os municípios de Marechal Deodoro e Pilar, em Alagoas,
devido à “incapacidade do 2o- BEC em bem cumprir a missão a ele imposta (...) no prazo almejado por esse departamento”. Essas obras fazem parte do PAC. 

Poupando aliados
Para compensar o impacto nos pequenos partidos do fim da coligação nas eleições proporcionais, o deputado Henrique Fontana (PTRS), relator da reforma política na Câmara, vai propor a federação partidária com prazo de três anos.

Gays & lésbicas
Com o projeto que criminaliza a homofobia sem chance de ser aprovado, militantes da comunidade LGBT ressaltam que são o único segmento da sociedade que nunca teve uma proposta específica aprovada pelo Congresso Nacional

 O EX-PRESIDENTE Lula pretende chamar o PMDB para discutir a reforma política. O PT quer aprovar o voto em lista e o PMDB defende o “distritão”. 
 NOVO FIDEL. Autoridades brasileiras se irritaram, quarta-feira, no Paraguai, com o presidente Rafael Correa (Equador). Enquanto os demais presidentes falaram 20 minutos, ele discursou intermináveis 45 minutos.
● AS MULHERES que comandam o Planalto se divertem dizendo que o “núcleo duro” virou “núcleo doce”.
Uma delas, depois de citar a presidente Dilma e as ministras Ideli Salvatti, Gleisi Hoffmann e Helena Chagas, completa: “É só doçurinha!

MARCELO GLEISER - A verdade e o erro

A verdade e o erro
MARCELO GLEISER
FOLHA DE SÃO PAULO - 03/07/11 

Podemos não ser a medida de todas as coisas, mas o fato de sermos criaturas que conseguem medir as coisas é algo notável


NO Domingo passado, o jornalista Carl Zimmer publicou um artigo no "New York Times", no qual argumentou que, na prática, a ciência é bem menos eficiente em corrigir seus erros do que se acredita. Ele cita uma série de exemplos da literatura científica recente, quando um resultado publicado gera uma série de críticas de membros da comunidade, mas raramente uma tentativa de duplicação no laboratório. Essa questão, de fato, toca a essência do método científico.
A refutação de um resultado experimental ocorre apenas após outros grupos falharem na tentativa de replicá-lo. Por outro lado, a repetição de um experimento requer imenso cuidado. As condições experimentais devem ser replicadas exatamente, incluindo os vários compostos químicos usados.
Está claro que a reprodução de um resultado experimental é problemática. Ademais, o ganho em fazê-lo não é dos maiores. Afinal, cientistas querem ser os primeiros a descobrir algo de novo, e não a provar que a descoberta de um colega é incorreta. Porém, mesmo sem ter o mesmo glamour, a refutação experimental é extremamente importante. Sem ela a ciência simplesmente não funcionaria.
Na prática, nenhum experimento pode ser exatamente duplicado. Temos que nos contentar com o melhor possível. Um cínico (ou um pós-modernista) poderia argumentar que esse é o calcanhar-de-aquiles da ciência: se não é possível duplicar exatamente um experimento, como podemos nos certificar de que seu resultado está certo? Como descobertas científicas podem ser consideradas como a "verdade"?
Isso me lembra o ditado atribuído ao filósofo grego Heráclito: não podemos entrar no mesmo rio duas vezes. Felizmente, em ciência ao menos, isso não é necessário. (Aliás, quando é? Tudo na Natureza está em fluxo constante, que é o que Heráclito quis dizer com sua filosofia.)
Todo resultado científico inclui margens de erro que representam a precisão do procedimento. Nenhuma medida é exata. Por exemplo, quando você mede seu peso numa balança com uma escala graduada em meio quilo, a precisão da medida será no máximo de um quarto de quilo, 250 gramas; ou seja, metade da menor graduação. (Portanto, o pessimista fazendo dieta pode dizer que ganhou 250 gramas, enquanto que o otimista diria que perdeu.)
Medidas experimentais sempre incluem margens de erro. Se o resultado estiver correto, outros grupos poderão reproduzi-lo dentro do intervalo de erro aceito. Para diminuir erros experimentais (existe um outro tipo de erro, o erro sistemático, que é mais complicado), é necessário aumentar a precisão das medidas, usando equipamento melhor ou um número maior de medidas. Mesmo assim, não existe um valor final, "verdadeiro": apenas o mais preciso dentro do que é possível com a tecnologia existente.
Talvez não sejamos a medida de todas as coisas, conforme sugeriu Protágoras em torno de 450 a.C. Mas somos as coisas que podem medir. Mesmo que nossas medidas não sejam exatas, o fato de que temos um procedimento universal para distinguir o certo do errado é notável. A ciência pode não ser perfeita; mas a alternativa, o subjetivismo descontrolado, é muito pior.

DANUZA LEÃO - O último ato

O último ato
DANUZA LEÃO 
FOLHA DE SP - 03/07/11

Não acredito que o suicídio seja um ato de agressão contra alguém, contra muitos ou contra todos


IMAGINO QUE ninguém se jogue de um prédio ou se atire debaixo de um trem por impulso de momento. Um suicida deve pensar durante muito tempo nesse desfecho voluntário por diferentes razões, até mesmo por não entender essa estranha coisa que é o mistério da vida; e deve programar sua morte com dias -anos, talvez- de antecedência. O suicida costuma já nascer suicida.
Assisti uma vez a um documentário sobre a morte assistida. Depois de toda uma parte burocrática, o/a suicida, que sofria de uma doença degenerativa, embarcou com seus dois filhos de Londres para Genebra, e de lá foram para uma pequena clínica que parecia um hotel, onde houve mais um pouco de burocracia -até nessa hora; muitos papéis foram assinados, e se bem me lembro, até um vídeo foi feito, para que não houvesse dúvida de que aquele era mesmo o desejo da pessoa.
A cena era muito triste; ele se despediu da família, tudo foi acontecendo conforme programado, e o médico trouxe um copo com a droga letal que o matou em minutos.
Acabar com a própria vida é um ato radical, talvez o mais radical que possa ser praticado. Por isso, não dá para compreender que uma pessoa aceite, em seu momento final -escolhido por ela-, ter a seu lado um estranho. É sempre possível se matar sem precisar de ajuda, seja por estar em processo terminal, seja por razões de qualquer ordem.
Se estiver num hospital, vai ser mais difícil comprar o veneno ou o revólver, mas sempre haverá alguém que o ame o bastante para ajudar.
Acho que já contei a história de um casal que se amava muito; ele ficou dias internado, sem chances de recuperação. Quando percebeu que estava chegando a hora -ou talvez ele tenha escolhido a hora-, fez um sinal para ela, que tirou da sacola um iPod com as músicas de que mais gostavam, uma garrafa de uísque, serviu em dois copos que também havia trazido, tirou o oxigênio que o ajudava a respirar e pôs em sua mão um cigarro já aceso.
Ele sorriu como não fazia há muito tempo, e eles passaram algumas horas ouvindo música, fumando, bebendo e driblando as enfermeiras. Na mesma noite ele se foi, e ela ficou quase feliz, por terem passado uma tarde tão boa. Foram considerados loucos.
Não acredito que o suicídio seja necessariamente um ato de agressão contra alguém, contra muitos ou contra todos, segundo dizem os que acham que entendem tudo sobre a natureza humana.
Eles apenas acham, já que nunca ninguém soube nem jamais saberá o que se passa na cabeça de alguém que decide se matar; e mesmo os que tomam essa decisão, deixando uma ou muitas cartas, talvez não saibam exatamente em que momento ela foi tomada, e por que a vida ficou tão impossível de continuar sendo vivida; só sabem que ficou.
Não sei se o suicídio é um ato de coragem ou de covardia, mas não entendo a morte assistida; se já são raros os que se matam na presença de alguém, é incompreensível que o façam na presença de um médico desconhecido, nesse que é o momento mais solitário do ser humano.

JOÃO UBALDO RIBEIRO - Vida de escritor


Vida de escritor
JOÃO UBALDO RIBEIRO
O Estado de S.Paulo - 03/07/11

Com mais de 50 anos de escrevinhação nas costas, descobri algumas ideias que muita gente faz da vida de um escritor. Por exemplo, tem quem ache que os escritores, notadamente entre eles mesmos, só falam difícil, uma proparoxítona para abrir, uma mesóclise para dar classe e um tetrassílabo para arrematar. "Em teu parecer, meu impertérrito amigo", perguntaria eu ao Rubem Fonseca, durante nosso almoço periódico, "abater-se-á hoje, sobre a nossa urbe, uma formidanda intempérie?" Ao que o Zé Rubem reagiria com uma anástrofe, um mais-que-perfeito fazendo às vezes do imperfeito do subjuntivo e uma aliteração final show de bola, coisa de craque mesmo. "Augure do tempo fora eu, pressagiá-lo-ia libentissimamente", responderia ele. "Todavia, de tal não me trato." E assim iríamos almoço afora, discutindo elevadíssimos assuntos, em linguagem só compreensível por indivíduos especiais.

Além de falar difícil, os escritores são ricos. Todo mundo acha que o escritor com quem se defronta é o mesmo que, segundo os jornais, lançou oito best-sellers em sucessão nos Estados Unidos e os vendeu por todos os dólares disponíveis em Hollywood, além de ter dormido com nove em cada dez estrelas de cinema. Muitos não acreditam que o escritor, quando ganha com o que faz, leva entre 5 e 12% do preço do livro na livraria. Na verdade, a imensa maioria dos escritores tem que se virar em outras atividades, como a de professor ou de jornalista, nos intervalos das quais, desassistido e muitas vezes com fama de maluco, teima em ceder a uma vocação imperiosa ou ao que lá o impila a escrever.

E acredita-se muito nas matérias que, de tempos em tempos, ressurgem com uma regularidade que as faz parecer sazonais, a respeito do boom experimentado por nossa literatura no exterior. Com exceção de alguns dias como objeto de uma feira importante, nunca houve boom nenhum. As editoras, livrarias e feiras, de modo geral, criaram uma categoria literária e lá socam brasileiros, peruanos, chilenos, cubanos, argentinos e toda a malta latina. Saem daí noções estapafúrdias, como "cultura latino-americana". Já contei aqui como fui recebido, uma vez, na Áustria, por uma "noite de cultura sul-americana", que passei ouvindo índios andinos tocando aquelas flautas deles. O ensino de língua e literatura de língua e literatura em português é frequentemente enfiado em departamentos de espanhol e português, de verbas curtas, equipes minúsculas e prestígio mínimo.

Os brasileiros portam a carga adicional da Amazônia. Na Alemanha, falando em público, eu notava que algumas pessoas acreditavam que praticamente todo o Brasil era a Amazônia e achavam que, assim ou assado, poucos brasileiros viviam longe dela. Não é incomum que nos tomem satisfações pessoais pela situação da Amazônia como descrita pela imprensa local. E os índios são também obrigatórios. Se o palestrante brasileiro ousar afirmar que nunca viu um índio, como aconteceu comigo (eu só tinha visto o Juruna, comendo frango de paletó e gravata, na casa de Darcy Ribeiro), pode ser tido na conta de mentiroso cínico.

O brasileiro que se meter a discutir problemas literários, digamos, universais não obterá a atenção de ninguém. Se aparecer um filósofo brasileiro, vão achar que é uma aberração. E isso acontece também em outras áreas. Balé brasileiro tem que basear-se em danças de origem africana ou indígena, com música percussiva e, se possível, gente pelada no palco. Para balé moderno brasileiro, torcem o nariz, assim como para qualquer manifestação de áreas vistas como ilegítimas para nós. E, sim, respondemos sempre a perguntas sobre identidade nacional - eles lá mudando de país e povo na mera travessia de uma rua e nós aqui, com bem mais território que a Europa ocidental e tudo quanto é tipo de gente misturada, falando a mesma língua e se considerando o mesmo povo. Muitos não se conformam, saem resmungando das palestras e elaboram teorias complexas, mostrando cisões de todos os tipos no povo brasileiro, as quais não percebemos nem quando muito explicadas por eles.

Os escritores africanos partilham conosco certos problemas. Talvez ainda em maior escala do que nós, são rotulados simplesmente de "literatura africana". Tenho vários amigos em vários países africanos, que não aguentam mais serem escritores africanos, metidos no mesmo barco que todos os originários de nações negras. A identidade de uma nação como essas não é vista por sua história, sua língua, sua religião, seus costumes, sua cultura, enfim, mas, sim, através da estéril, pobre e equivocada ótica racial - são todos negros, logo são iguais, onde haver mais igualdade do que nisso?

Se a minha cultura, no episódio da Áustria, foram os índios andinos, bem mais complicadas serão as homenagens à "cultura" africana. Não canso de apontar a completa falta de sentido dessa expressão, pois um continente como a África, que deve dar umas três Américas do Sul, só tem uma cultura? Está na hora de até nós mesmos, brasileiros, negros ou não, pararmos com essa história de "africana" (não convide para a mesma mesa um zulu e um masai), "música africana" e não sei o que mais lá africano, assim fomentando a visão equivocada e colonialista de uma África homogeneizada pela cor da pele e não partilhada por povos que além dela pouco mais têm em comum.

Comecei a escrever tudo isso por causa da Flip, que vem aí, no fim de semana. Fui escrevendo, fui escrevendo e, quando dei por mim, já tinha acabado o espaço. Eu vou aparecer por lá e sei que vai ser bom. Foi somente por precaução que pedi que não fizessem homenagem à minha cultura e dispensassem algum trio elétrico porventura contratado.