sábado, maio 28, 2011

MÍRIAM LEITÃO - Trégua e risco


Trégua e risco
MIRIAM LEITÃO
O GLOBO - 28/05/11

Nos próximos meses haverá boas notícias em relação à inflação. Em maio, o IPCA deve ficar em 0,5% e cairá mais. Depois de ter subido 3,23% de janeiro a abril, a taxa poderá ser de apenas 1% no acumulado de junho, julho e agosto. Será o trimestre da trégua e do risco de se acreditar que tudo está resolvido. O Ministério da Fazenda não poderá dar a batalha por vencida.

Esse recuo será resultado de uma soma de fatores: não há reajustes programados de preços administrados, a gasolina deve cair na bomba pelo efeito da diminuição do preço do álcool, os preços dos alimentos caíram no atacado e podem diminuir nos supermercados. Mesmo assim, a inflação será maior do que no mesmo trimestre do ano passado que ficou em zero. Em 12 meses, continuará subindo.

Depois do período de trégua de junho a agosto, novas pressões virão como reajustes de energia em grandes centros e as negociações salariais de categorias fortes. Como a demanda continua aquecida e foram criadas barreiras às importações em algumas áreas, a tendência das grandes empresas será de repassar para os preços aumentos nos custos trabalhistas.

A grande incógnita continua sendo o ano que vem. O BC prometeu a taxa para o centro da meta no fim de 2012. A dúvida é como. No início do ano haverá um forte choque de custos na área de serviços com a elevação do salário mínimo em 14%. Se o IPCA encerrar este ano em 6,5%, no teto da meta, isso significa que o BC terá de derrubar dois pontos percentuais na taxa de inflação durante o ano que começará com essa pressão.

O economista Luis Otávio Leal, do Banco ABC Brasil, lembra que a inflação de serviços está em 8,6%. Ela é muito influenciada pelo salário mínimo. "Nos próximos dois meses, o BC verá dois números bem diferentes: um caindo e um subindo. Ele não pode se deixar levar pelo canto da sereia. Precisa olhar para a frente tentando reduzir a inflação de serviços, porque neste patamar, ela, sozinha, terá um impacto grande no IPCA de 2012."

Nilson Teixeira, economista-chefe do Credit Suisse também se preocupa exatamente com este ponto. "Apesar de a desaceleração da atividade contribuir para reduzir a inflação, julgamos que a forte elevação do salário mínimo em 2012 e o provável aumento da persistência inflacionária compensarão os benefícios para a inflação advindos da desaceleração da atividade. Nesse sentido, julgamos ser baixa a probabilidade de a inflação de serviços recuar significativamente em 2012", escreveu Teixeira em relatório. Ele nos disse que acredita que a taxa anual subirá até 7% nos próximos meses e que a inflação de serviços permanecerá alta. É a mesma convicção de outros economistas ouvidos pela coluna.

Em entrevista concedida esta semana ao jornal Valor Econômico , o ex-presidente do BC Ibrahim Eris disse que a instituição vive atualmente o teste mais duro do sistema de metas de inflação. Ele acha que o governo subestimou a pressão de demanda, um dos elementos que elevaram a taxa este ano.

O processo inflacionário vive momento bem específico. O que era sazonalidade na inflação cederá agora, mas as outras causas vão continuar. Além do mais, há problemas já contratados como a crise do álcool que é mais estrutural, tornando a oferta instável.

O governo teve um bom resultado primário nas contas públicas nos primeiros quatro meses, mas porque o IOF e a demanda forte elevaram a arrecadação. Não cortou nos seus gastos e está reduzindo o ritmo dos investimentos; o oposto do que deveria fazer.

Os juros subiram comparados com a inflação dos últimos doze meses, os juros reais estão em queda apesar de o País ter uma das taxas de juros mais altas do mundo. Se a conta for feita olhando-se a expectativa de inflação, os juros estão em alta, mas apenas se forem confirmadas as previsões de queda da inflação no ano que vem. Para isso, não pode ocorrer nenhum imprevisto ou pressão extra, o dólar não pode subir, o governo tem de neutralizar o impacto do salário mínimo na inflação de serviços. Há riscos pela frente. E haverá uma trégua. É aproveitar a trégua para reforçar os esforços contra outras causas da inflação.

GOSTOSA

FERNANDA TORRES - Urbano


Urbano
FERNANDA TORRES 
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

A tomada da Roosevelt e o renascimento da Lapa, no Rio, traduzem potencial da união entre arte e cidade


O RISCO do nome do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, ser desvinculado do prédio onde existiu me causou espanto. A antiga proprietária do imóvel, a empresária Magnólia do Lago Ferreira, pleiteia para si o título do estabelecimento com o argumento de que o edifício, adquirido em 2008 pela Funarte, nada tem a ver com a marca.
O luminoso que pertencia à fachada desde a sua fundação, em 1948, foi retirado. Eu o imagino pendurado em um bar da capital, a léguas de distância da memória de Cacilda Becker e Paulo Autran.
A Funarte garante que já solucionou a pendenga e que o TBC não vai se transformar no antigo TBC.
De que vale um nome sem um corpo para encarná-lo? O caso me lembrou o litígio entre Luiza Brunet e Humberto Saad, que registrou e, depois, devolveu o direito sobre a alcunha de batismo da modelo.
Um teatro não é feito apenas de tijolo, ferro ou madeira. As ribaltas se impregnam da presença dos que pisam ali.
Fui vaiada no teatro Tuca com Don Juan, montagem de Gerald Thomas para texto de Otavio Frias Filho. Em meio aos urros da plateia, era impossível não lembrar de outras vaias, de importância histórica muito superior à nossa, ocorridas naquele lugar. Faz parte do caráter do Tuca a manifestação voraz da audiência. Só nele é assim.
A última vez que pisei no Teatro Oficina foi para assistir a "Terra", primeira parte da trilogia de "Os Sertões", de Euclydes da Cunha. Me impressionou não só o rio São Francisco se abrindo no mar, a teatralização do Xisto, da Caatinga, mas também o próprio espaço enraizado no terreno.
O equipamento de luz e som, o telão, o terreiro, as árvores, todo o Oficina havia amadurecido como um organismo vivo, biológico, uma extensão dos que encarnaram no endereço desde que este servia de sede para um centro espírita.
Do meio do picadeiro, o Conselheiro Zé Celso proclamou o Bexiga o umbigo de Sampa e partiu com a trupe para a demolição simbólica da parede do fundo, a que separa o palco avenida de um estacionamento do Grupo Silvio Santos.
A parede ainda está lá. Silvio acena agora com a possibilidade de negociar os cobiçados metros quadrados por outro terreno fora dali. O fato abriria passagem para a conclusão do projeto arquitetônico de Lina Bo Bardi para o Oficina e traria luz para a ambiciosa reurbanização da área, proposta por Zé Celso, unindo simbolicamente a Bela Vista e o Bexiga, o Oficina e o TBC.
Fui olhar no Google Earth. O estacionamento do Grupo SS, uma milagrosa extensão murada e vazia, desemboca na bucólica rua Jardim Heloisa, pedaço-modelo do velho Bexiga. A pequena Jardim Heloisa termina na rua Major Diogo, em frente ao atual Centro de Preservação Cultural da USP, o Solar da Dona Yayá, , vizinho do TBC.
O teatro é um dos talentos natos de São Paulo. Um corredor cultural que salve aquele último terreno baldio de evoluir de estacionamento para espigão, tendo como marco dois teatros emblemáticos, seduz.
É claro que um projeto desse porte envolve desapropriações, processos, cifras incômodas e envolvimento político. Temo tocar no assunto e ser arrastada para o labirinto de fogos amigos e inimigos que rondam o MinC.
A presença carnal de um ator em um determinado lugar é a essência da experiência teatral. É impossível reproduzi-la fielmente em outras dimensões. O teatro, na contramão da ordem dos acontecimentos, é o reverso da informação digital para milhões. Ele precisa ter corpo.
A tomada da praça Roosevelt pelos Satyros e o renascimento do Lapa, no Rio de Janeiro, através do Circo Voador e da Fundição Progresso, provam a utilidade prática de uma profissão etérea. São modelos que traduzem o potencial da união entre as artes e a cidade.
No dia 24 de junho de 2011, haverá uma ato cultural no Teatro Oficina e arredores em torno de uma fogueira de São João. Será a abertura do ciclo de peças "Dionizíacas Urbanas Antropófagas em Sampã", com apresentação de "Cacilda!!".
A festança junina ainda inclui uma caminhada peripatética pela redondeza. Fica o convite para quem quiser conferir in loco a realidade de uma audácia tentadora.

EDITORIAL - FOLHA DE SÃO PAULO - Lula e Dilma


 Lula e Dilma
EDITORIAL
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11
Blindagem de Palocci cria oportunidade para pressões fisiológicas, além de abrir espaço para volta ruidosa de ex-presidente à cena política

A desenvoltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília, ao empalmar o comando do combate ao incêndio do caso Palocci, é o maior sintoma da vertiginosa fragilização de Dilma Rousseff no curso da semana.
A própria presidente viu-se impelida, ato contínuo, a mostrar as caras e as falas, para reaver parte do espaço ocupado pelo mentor.
Diante da cena clássica de um homem poderoso -o ministro Antonio Palocci- recusando-se a dar explicações sobre o súbito aumento de seu patrimônio pessoal, puseram-se em marcha as engrenagens de um enredo igualmente conhecido. Manietado pela necessidade de montar operações de blindagem, silêncio e desconversa, Palocci perdeu o controle sobre a votação do Código Florestal.
O texto aprovado na Câmara dos Deputados, ao pender para o lado dos proprietários rurais, foi recebido em várias praças como uma lei para atrasar a entrada do país no século 21. Um Código Florestal que anistia responsáveis por alguns desmatamentos ilegais galvanizou uma larga maioria de parlamentares, que alia setores ruralistas tradicionais à base fisiológica do governo -todos ansiosos por mais fatias de poder.
Faltava, nesse cenário de enfraquecimento do Planalto e de volatilização de sua confortável maioria no Congresso, a contribuição de outra bancada tradicional, a dos deputados evangélicos. Manifestaram-se -e foram atendidos pelo Planalto- no caso do chamado kit anti-homofobia. O recuo de Dilma foi imediato e constrangedor, ao menos para o ministro da Educação, Fernando Haddad.
Além dos arranjos de geometria variável que reúnem ruralistas, evangélicos e fisiológicos em torno de demandas mais defensáveis ou menos, e obviamente de Lula, quem se beneficia com a presidente e seu articulador-mor na defensiva é o PMDB de Michel Temer.
Mesmo que Palocci venha a dar explicações plausíveis sobre a profícua atividade empresarial paralela (o que se afigura cada vez mais complicado), ou no caso de a blindagem tanto conter o fogo amigo quanto resistir às investigações do Ministério Público e da imprensa, o ministro verá seu raio de ação reduzido. Haverá, decerto, ampliação proporcional do balcão de varejo que o operador palaciano sempre termina obrigado a manter aberto e polido, para servir ao PMDB e a outros sócios vorazes do poder.
A julgar pela deterioração da situação política na semana, o caso Palocci não irá embora tão cedo. Na hipótese de agravar-se, quem tem mais a perder não é o ministro, mas Dilma -como parece ter intuído, rapidamente, o sempre sagaz ex-presidente Lula.

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO - Os estragos da tormenta



Os estragos da tormenta
EDITORIAL

O Estado de S.Paulo - 28/05/11

Onde não costuma chover, quando chove é um dilúvio. No governo Dilma, fazia bom tempo até que o céu veio abaixo por força da conjunção de duas questões tempestuosas: a revelação do enriquecimento em surdina, entre 2006 e 2010, do ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, e o trâmite da reforma do Código Florestal, aprovada esta semana na Câmara dos Deputados. A tormenta ilhou o Palácio do Planalto, expôs a fragilidade congênita da base parlamentar do governo, cuja amplitude é inversamente proporcional à sua consistência programática, e trouxe de volta ao centro das decisões o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o inevitável apequenamento da liderança e do capital político de sua sucessora.

A crise em dose dupla levou à beira da desagregação o enlace de conveniência entre PT e PMDB, já combalido pelo ressentimento da legenda do vice-presidente Michel Temer com a expansão da presença petista no governo e a preferência de sua titular por quadros técnicos pinçados por ela mesma, em detrimento de apadrinhados políticos. Para a presidente, ficou difícil escolher o pior dos males, entre a má vontade do PMDB em assumir a defesa de Palocci - e o flerte de uma parcela de seus congressistas com a iniciativa da oposição de criar uma CPI sobre o escândalo - e a obstinação do líder do partido na Câmara, Henrique Alves, em fazer aprovar a emenda ao projeto do código que anistia plantações em áreas de proteção permanente e que Dilma considerou "vergonhosa".

A seu mando, Palocci ligou no dia da votação para Temer para informá-lo de que os cinco ministros do PMDB, a começar do titular da Agricultura, Wagner Rossi - indicado pessoalmente pelo interlocutor -, seriam exonerados caso o partido seguisse na contramão das posições da presidente. Abespinhado, o vice retrucou que a demissão seria desnecessária "porque amanhã cedo mesmo todos entregarão os seus cargos". A ríspida conversa, testemunhada em ambas as pontas da linha, revela, de um lado, a mão pesada de Dilma e a sua tremenda falta de traquejo político; de outro, a arrogância de seu "primeiro-ministro", conhecido antes pela sua afabilidade com aqueles em quem reconhece atributos de poder. Mais tarde, Palocci telefonou para se desculpar, mas o estrago estava feito. Lula decerto não deixaria as coisas chegar a tal ponto.

Ele sabe que a presidente precisa do PMDB, não tivesse sido ele quem costurou com a sigla a aliança eleitoral pró-Dilma - e, no embalo, acatou a demanda de Temer de ser o vice -, de olho tanto nas urnas quanto na governança. Ele acha também que Dilma não pode passar sem Palocci. Na mesma conversa com senadores petistas em que o comparou a Pelé, Lula teria prognosticado que, desprovida do ministro, Dilma "se arrastaria até o final do mandato". Está claro que foi por instigação de seu mentor que ela enfim veio a público "assegurar" que Palocci estava dando todas as explicações necessárias e atacar a oposição por "politizar" o caso, citando a acusação tucana à Receita Federal de privilegiar uma empresa cliente de Palocci, a WTorre.

Por inadvertência ou cautela, porém definitivamente não a pedido de Lula, Dilma se guardou de dizer que tinha "absoluta confiança" no ministro, como afirmou diante dos boatos - alegadamente insuflados por ele - de que o titular da Fazenda, Guido Mantega, estava com os dias contados no governo. Faz parte das aptidões dos políticos profissionais prestar atenção não só no que diz um governante, como também no que omite. É verdade que o PMDB parece ter se desvinculado de qualquer tentativa de inquirição parlamentar do ministro que foi de excepcional rudeza com o seu dirigente, mas, como diria Dilma (quando perguntada se manteria suspensas as multas aos desflorestadores), "o futuro a Deus pertence".

E o futuro continua carregado para Palocci. O Ministério Público Federal do DF acaba de abrir uma investigação, na esfera cível, para averiguar se os valores faturados pela Projeto, a empresa aberta em 2006 pelo então deputado, são compatíveis com os serviços prestados por ele. E no fim da semana que vem expira o prazo dado pela Procuradoria-Geral da República para o ministro se explicar.

JOSÉ SIMÃO - Ueba! Palofi lança o iPad 20!


Ueba! Palofi lança o iPad 20! 
JOSÉ SIMÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!
Direto do cadeião de Tremembé! Sensacionalista: "Café da manhã se recusa a ser comido por Pimenta Neves". Diz que o ovo frito, quando viu que era o Pimenta Neves, saiu correndo e se atirou no vaso sanitário!
E se começarem a transferir muito o Pimenta Neves, ele vai acabar ficando preso no engarrafamento!
E esta: "Ana Maria Braga faz trocadilho involuntário em receita de rabada". Ela dando receita de rabada: "Se você nunca comeu um rabo, meu filho, não sabe o que está perdendo". Rarará! Vai pro kit anti-homofobia! Ana Maria Braga incluída no kit anti-homofobia!
E o novo estádio do Corinthians? Querem chamar de Fielzão. Mas, como ninguém acredita que vá ficar pronto, muda pra ATEUZÃO!
E saiu a nova definição sobre a Hebe: é uma Palmirinha com acessórios da H. Stern!
E eu acho que peguei a gripe Palofi: desde ontem aumentou 20 vezes! E o lançamento do iPad 2? Vão lançar um iPad Palofi: o iPad 20!
E o Eramos6 lançou um iPad pra levar embaixo do braço: IFED! Rarará! Então já temos vários iPads. O iPad brasileiro: aipim! O iPad do Capitão Nascimento: iPad Pra Sair!
O iPad pra festas juninas: iPad moleque! O iPad pra sovaco: IFED! E o iPad chinês: iPad pra funcionar!
E iPad pelo amor de Deus pro Steve Jobs não inventar mais nada! O Steve Jobs devia ser preso. Numa solitária! Pra não inventar mais nada! O slogan da Apple devia ser: iPad Mais!
E a charge do Paixão. O Lula vai pra Brasília abafar a crise e diz pra Dilma: "Vamos brindar pro Palocci". "Não é brindar, Lula. É BLINDAR!" Rarará! É mole? É mole, mas sobe!
E a perrenga sobre o novo Código Florestal? Sabe o que o planeta gritou pros ecologistas radicais? "Não me encham o saco! Me deixem morrer em paz!" E um ecologista radical levantou o cartaz: "Extingam os humanos". Rarará!
E o Rubinho não fez aniversário no Dia Mundial da Tartaruga? Hoje eu descobri que o Massa faz aniversário no Dia do Pinguim! Tartaruga com Pinguim. Por isso que o automobilismo brasileiro não dá certo: um não anda e o outro se arrasta! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!

A CACHORRA DILMA

RUY CASTRO - Três minutos e meio


Três minutos e meio
RUY CASTRO
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

RIO DE JANEIRO - Quando me contam que, na noite anterior, o festejado escritor fulano autografou 1.500 livros no lançamento de seu novo romance, ensaio ou biografia, ponho-me a fazer contas.
Do momento em que o leitor chega à mesa com seu exemplar; cumprimenta ou abraça o autor; troca com ele uma ou duas palavras; o autor senta-se para escrever a dedicatória (e mesmo que se limite a uma simples assinatura); devolve o livro autografado ao leitor; este o cumprimenta ou abraça de novo; e o leitor se afasta para dar lugar ao seguinte na fila -pelo menos um minuto terá se passado. Donde, 1.500 livros serão 1.500 minutos.
Ou 25 horas. Isto, se o autor não se levantar da mesa nem para ir ao pipi -o que, com tantos goles d'água ou bicadas no prosecco, é impossível. Donde os 1.500 livros autografados de uma sentada são apenas uma ilusão aritmética.
Da mesma forma, quando me dizem que o cantor beltrano foi aplaudido de pé por 20 minutos ao fim de seu show em Itu, Botucatu ou Timbuktu. Marque no seu relógio e experimente aplaudir por 20 minutos sem parar -de pé ou sentado, tanto faz. Não há mãos ou braços que aguentem. E mesmo que esses se revezem numa plateia de milhares, chegará um momento em que a cabeça ou outro órgão dirá que chega, vamos parar.
O tempo passa de várias formas para nós e se, em alguns casos, ele se arrasta, em outros parece voar. Mas cada minuto será sempre um minuto, se você ficar de olho no ponteiro. Experimente, por exemplo, contar de 1 a 210 -pausadamente, segundo a segundo, olhando para o mostrador. Terá uma ideia do tempo que o Airbus 447 da Air France levou para cair, do momento em que perdeu a sustentação aerodinâmica até se chocar de barriga com o Atlântico a 200 km/h. Três minutos e meio. Cada passageiro conheceu, ali, a sua noção de eternidade.

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA


Como assim?
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

Senadores da base reagiram com perplexidade à declaração, feita anteontem por Dilma Rousseff, de que não apenas rejeita como desconhecia as mudanças no rito das MPs em apreciação na Casa.
A discussão, iniciada há mais de mês, deveria se encerrar na próxima semana, com a votação do texto em plenário. Objeto de amplo acordo, a proposta de Aécio Neves (PSDB-MG) foi referendada pelo líder do governo, Romero Jucá (PMDB-RR), que em mais de uma ocasião a elogiou como instrumento para "melhorar o funcionamento do Congresso". Há quem diga que, se o Planalto insistir em alterar o texto a esta altura, corre o risco de amargar nova derrota no Congresso.

Aviso 

De um senador aliado, sobre a expectativa de Dilma de que a Casa corrija o Código Florestal aprovado na Câmara: "Se o governo entrar assim no debate, estará criada a CPI do Palocci".

Balanço 

Do senador Delcídio Amaral (PT-MS) no Twitter: "Código Florestal, assassinato de ambientalistas, crise na base, protagonismos extemporâneos... a semana não termina bem!".

Divã 

Depois do entrevero entre governo e PMDB na votação do código, o chefe de gabinete de Dilma, Giles Azevedo, telefonou ontem para Michel Temer convidando o vice a participar de almoço da presidente com a bancada de senadores peemedebistas, programado para a próxima quarta-feira.

DNA 
Demétrio Vilagra (PT), vice-prefeito de Campinas libertado ontem depois de permanecer um dia na prisão sob acusação de participar de fraudes em licitações, integra o grupo político de Ricardo Berzoini na CNB, corrente majoritária petista. Petroleiro, aparece na foto de fundação da CUT hasteando a bandeira da entidade.

Prioridades 
Slogan publicitário da administração de Dr. Hélio (PDT) em Campinas, enredada em denúncias de corrupção que levaram aos pedidos de prisão do vice, da primeira-dama e de dois secretários: "Primeiro os que mais precisam".

Desembarque 
Em reunião na noite de ontem, o PMDB de Campinas decidiu entregar todos os cargos na prefeitura e declarar "independência" em relação ao governo do qual participou.

Mão de ferro 
Após intervenção de Michel Temer, a Executiva paulistana do PMDB sofrerá "autodissolução", assegurando ao pré-candidato Gabriel Chalita a presidência da comissão provisória, que dirigirá os rumos do partido na eleição de 2012.

Na janela 
O presidente do PTB-SP, Campos Machado, visitou ontem Paulo Maluf na tentativa de atrair o PP para uma composição na capital. A sigla, que acaba de ganhar espaço no governo de Geraldo Alckmin, também é cortejada pelo PSDB.

Origens 

Embora negue a intenção de se candidatar à Prefeitura de Santo André, a ministra Miriam Belchior (Planejamento) transformou ontem sua primeira visita à cidade natal desde que assumiu o cargo num evento de forte apelo político. Em reunião com prefeitos do ABC, chorou ao relembrar sua passagem pela administração local. Na próxima quinta, ela volta à região para entregar casas em São Bernardo.

Novo código 1 

Mesmo com as restrições apontadas em parecer técnico da pasta que dirige, o secretário Eduardo Jorge (Verde e Meio Ambiente), nome favorito de Gilberto Kassab para sua sucessão, defendeu ontem na Câmara paulistana o traçado do Rodoanel-Norte. Argumentou que a obra favorece o "desenvolvimento social e econômico" da capital.

Novo código 2 

A licença prévia, sob análise no Conselho Estadual de Meio Ambiente, sairá até o final de junho. O governo paulista já procurou o Ministério Público para se precaver contra eventuais questionamentos legais ao projeto.

com LETÍCIA SANDER e FÁBIO ZAMBELI

tiroteio

"Depois de se dizer contrário à mudança da estação do metrô, Alckmin condena a ação da PM na marcha da maconha. Vai ser bom quando ele virar governador de fato."
DO LÍDER DO PT NA ASSEMBLEIA PAULISTA, ENIO TATTO, analisando declarações do tucano à luz de decisões conflitantes tomadas por sua gestão.

contraponto

Cabelo, cabeleira

Para mostrar que o debate do Código Florestal não se dá entre governo e oposição, o líder do PMDB, Henrique Alves, afagou o colega do PSOL:
-Chico Alencar, com essa vasta cabeleira, me faz até inveja... E ele, que é contra o governo, está, nesta proposta, abraçado à presidente!
-Agradeço o elogio aos meus cabelos grisalhos... Mas, no caso do código, a presidente e eu estamos abraçados ao interesse público!

JOSÉ MIGUEL WISNIK - Analfabetismo funcional


Analfabetismo funcional
JOSÉ MIGUEL WISNIK
O GLOBO - 28/05/11
Não resisto a voltar à discussão sobre o livro de Heloísa Ramos, "Para uma vida melhor", oficializado pela chancela do MEC. Falei dele e da polêmica que ele despertou, na semana passada, mas os efeitos sintomáticos que o livro desencadeou ainda ficam ressoando demais. Talvez porque eu tenha sabido da notícia, revoltante em sua miudeza obscurantista, de que o deputado Átila Nunes, do PSL do Rio, apresentou projeto de lei para que se proíba a distribuição do livro nas escolas do estado. Suponho que esse Átila não vai conseguir esterilizar os caminhos por onde passa, como o rei dos hunos que lhe dá nome, mas a sua proposta é cheia de sinais reveladores. O artigo de José Sarney na "Folha de S. Paulo", invocando Fernando Pessoa em nome da unidade linguística da pátria, também não me fez bem.

O que dá às reações o seu caráter de sintoma de alguma outra coisa é a desproporção entre o que se lê em "Para uma vida melhor", dentro do seu contexto próprio, e as afirmações de que ele convida perigosamente ao abandono da concordância gramatical em nome de uma permissiva e perversa norma inculta a ser adotada generalizadamente. Como eu já disse aqui, o capítulo expõe com elegância procedimentos para se escrever com limpidez, justificando-os pela necessidade de fazê-lo em certos contextos. Extrai esses princípios de coesão, clareza e propriedade das necessidades do próprio texto que se escreve, balizados pela norma culta, sem tomá-la como a verdade universal que ela não é. Faz isso tão bem que acaba demonstrando na prática, em bom português, que a escrita segundo padrões decantados pela tradição, em seu estado atual e vivo, não deveria ter vergonha de se apresentar aos estudantes e professores como um instrumento modelar a ser adotado como tal. Afinal, há de ser por algum motivo forte, maior do que aqueles que ele mesmo apresenta, que o livro pratica o padrão linguístico que ele relativiza.

Este é o meu reparo filosófico e pedagógico, a meu ver de grandes consequências, a ser considerado pela autora e pelo MEC: aceitar-se a multiplicidade das falas como um substrato cultural democrático, sem preconceitos, sim, mas afirmar também a ampla validade, não meramente circunstancial, dos padrões decantados pela língua escrita como um repertório a ser atingido, praticado e renovado, pelo seu longo alcance.

Tudo isso que acabo de dizer faz parte de uma conversa esclarecida, sobre um trabalho pedagógico honesto, que teve o mérito, mesmo que não buscado, de tocar numa questão tabu. Já a extensão das reações escandalizadas adquire a dimensão do sintoma, a merecer uma psicanálise coletiva. Por que será que é tão insuportável que se admita com naturalidade as variantes linguísticas dos falares, e por que se teme com tanta ênfase que a menção desse fato nas escolas vá nos arrastar irremediavelmente para o pântano do caos linguístico?

Porque esse pântano patina sob os próprios pés de quem fala. Nesse sentido, o projeto de lei do deputado do PSL é um índice hilariante. O projeto pretende proibir "qualquer livro, didático, paradidático ou literário com conteúdo contrário à norma culta ou que viole de alguma forma o ensino correto da gramática de nosso idioma nacional". Querer que a literatura obedeça aos gramáticos oficiais, sob pena de retirada do mercado, só pode ser o delírio de quem tropeça na língua portuguesa a cada frase. É o que acontece no projeto de lei do deputado, que estende a sua justificativa a outros tipos de livro que "acabam fazendo apologia a questões criminais ou despertam precocemente o libido dos jovens, incentivando conceitos distorcidos da verdade social".

"Apologia a questões criminais"? O deputado não é forte em regência nem no apuro semântico dos termos. "O libido dos jovens"? Será que é isso mesmo que estou lendo? Se for, então esse Átila é um perigoso devastador da língua portuguesa.

O exemplo folclórico tem valor de sintoma, na sua caricatura. José Sarney, ao afirmar erradamente que se resolveu no Brasil "criminalizar quem fala corretamente", diz que "defender a língua é defender a pátria", acrescentando: "eis a origem da famosa frase de Fernando Pessoa: "A minha pátria é a língua portuguesa"". Mas Fernando Pessoa não está dizendo nessa frase do "Livro do desassossego", em tom sentencioso, que a língua está a serviço da defesa da pátria ("a língua portuguesa é a minha pátria"). Está invertendo esse raciocínio e dizendo que o seu compromisso de escritor é com a língua livre e criadora ("minha pátria é a língua portuguesa").

É o que se vê nos textos de Pessoa reunidos no livro "A língua portuguesa", onde começa dizendo abertamente que a palavra falada é democrática e segue os usos. "Se a maioria pronuncia mal uma palavra, temos que a pronunciar mal. Se a maioria usa de uma construção errada, da mesma construção teremos que usar." O maior poeta do século não está preconizando o erro, está constatando que a língua falada é um fenômeno de massa que segue suas próprias leis, independente de qualquer norma, e arrasta os falantes para os seus usos coletivos. Não muito diferente do livro distribuído pelo MEC. A palavra escrita, por outro lado, dizia Pessoa, impõe suas necessidades e tem as suas regras como lastro. O escritor está livre delas, porque faz com a língua o que quiser. O povo também está livre delas. O Estado, no entanto, através da escola, deve ensiná-las como algo que nos serve de baliza e adianto.

Não como uma prisão às regras. Para podermos estar mais livres delas.

MÔNICA BERGAMO - CINEMA NO ALVORADA


CINEMA NO ALVORADA
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

Fernando Henrique Cardoso enviará à presidente Dilma Rousseff na próxima semana uma cópia do filme "Quebrando o Tabu", do diretor Fernando Andrade, em que o ex-presidente brasileiro surge viajando pelo mundo para pesquisar experiências de descriminalização de drogas -e defendendo que a medida seja adotada no Brasil. O portador será o ministro José Eduardo Cardozo, da Justiça.

ROCHA

FHC enviará a ela também documento que será lançado na quarta por uma comissão global de drogas da qual participa com personalidades como Paul Volker, Kofi Annan, Mario Vargas Llosa e Paulo Coelho. Ele pretende abrir diálogo com o governo. Dilma, no entanto, tem se mostrado inflexível sobre o tema, não admitindo nem sequer o debate -ela já demitiu auxiliares que falaram publicamente sobre a descriminalização das drogas.

QUEM MANDA
O documento da comissão global será entregue também ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, em Nova York. Nele há críticas ao organismo, que por influência americana mantém convenções que proíbem a descriminalização da droga no mundo. "Temos que mudar a posição lá, nos EUA", diz FHC.

POSTO
Sob a pressão de aliados de José Serra de boicotar hoje a convenção nacional do PSDB, caso o ex-governador não fique com a presidência do Instituto Teotônio Vilela, o vice-presidente tucano, Eduardo Jorge, diz: "Em novembro, ele rejeitava esse cargo. Agora, não sei".

O dirigente tucano afirma que "não adianta dizer que estamos examinando cargos que ele [Serra] não quer".

A CABEÇA DO OLIVETTO

O publicitário Washington Olivetto lançou anteontem o livro "O que a Vida Me Ensinou". Foram à sessão de autógrafos, na livraria Saraiva do shopping Pátio Higienópolis, o cantor Simoninha, o fotógrafo Miro e o diretor de TV José Bonifácio de Oliveira, o Boni.

REUNIÃO DE DIRETORIA

Os chef francês Alain Ducasse ganhará jantar em sua homenagem no Kaá, na terça. Entre os convidados, Alex Atala, Rogério Fasano, Helena Rizzo e Emmanuel Bassoleil. Ducasse possui três restaurantes com estrelas no guia "Michelin".

PENSAR NAQUILO

Uma pesquisa com 1.198 mulheres entre 18 e 35 anos aponta que 54% delas já traíram. A editora Abril fez o levantamento para a edição de 30 anos da revista "VIP". A frequência das relações sexuais é considerada insatisfatória por 69% -34% dizem dizem transar até três vezes por semana. Em seguida vêm as que têm só uma relação semanal (19%) e as que "não têm vida sexual" (13%).

ABAIXO O BOTOX
E o botox deixou de ser o procedimento estético mais oferecido no Brasil, diz pesquisa da Sociedade Brasileira de Dermatologia. De um grupo de 800 dermatologistas, 96,6% utilizam "peeling" em seus consultórios, contra 84% que fazem aplicação de toxina botulínica.

UNIFORME BRANCO
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, assinou acordo de cooperação com o Reino Unido. Técnicos brasileiros vão acompanhar a preparação para a Olimpíada de Londres, em 2012.

CURTO-CIRCUITO

O francês Pascal Portanier dará curso, entre 6 e 10 de junho, de gestão de marcas e design de produtos de luxo. Será no Golden Tower Hotel, das 9h às 19h.

Fernando Vilela inaugura hoje a exposição "Caçada", na Funarte em SP, às 10h.

Alain Fresnot exibiu ontem "Família Vende Tudo" na favela do Jaguaré.

O Centro Educacional e Assistencial de Pedreira realiza amanhã "jornada humanística", com apresentação de trabalhos dos alunos.
O Instituto Vladimir Herzog lança o projeto Resistir É Preciso em junho na Pinacoteca.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA, THAIS BILENKY e CHICO FELITTI

POVO RICO

MARCO AURÉLIO NOGUEIRA - Os dominós virtuais e a democracia real


Os dominós virtuais e a democracia real
MARCO AURÉLIO NOGUEIRA
O Estado de S.Paulo - 28/05/11

De repente, como se brincássemos com dominós, as peças foram caindo uma após a outra e em questão de minutos o mundo ficou diferente. Da Praça Tahrir, no Cairo, a onda chegou a outros países árabes e depois, como num passe de mágica, às praças de Madrid e de várias cidades espanholas, com ressonâncias em Berlim, Paris, Roma, Viena, Bruxelas.

Como mágica não existe em política, algo ocorreu para que a mobilização decolasse. Os motivos imediatos são distintos, se compararmos os países árabes com a Espanha. No primeiro caso, protestava-se contra regimes autoritários e restrições à liberdade. No segundo, contra "tudo o que está aí", o desemprego, os políticos, a crise econômica, o cancelamento do futuro. São motivos distintos. O que os aproxima e cria a sensação de que tudo está conectado é a rapidez dos acontecimentos, a juventude dos participantes, a internet, o desejo de liberdade.

É um grito de angústia coletiva contra a vida de hoje, tanto a que transcorre sob a longa noite do autoritarismo quanto a que se ressente do encolhimento do Estado de bem-estar. Um protesto ativado por redes sociais - algo que adquiriu dimensão desconhecida: o espocar de uma palavra de ordem aqui repercute instantaneamente no resto do mundo.

Não seria correto, nem prudente, considerar os fatos como se estivessem a antecipar um ciclo revolucionário ou a fixar um tipo sustentável de ação política inovadora. Afinal, a rapidez com que sopram os ventos pode desarrumar todas as peças de um dia para outro, e é preciso dar tempo ao tempo para que novos padrões se cristalizem e alterem as formas tradicionais. O otimismo fácil e a louvação da cibermilitância não ajudam a que se entenda o que está a ocorrer.

Os "indignados" do Movimento 15M (de 15 de maio, dia em que tudo começou) querem outro tipo de política. Uma política de cidadãos, não só de políticos, militantes partidários ou grupos corporativos. Desejam atuar de forma mais livre e horizontal, mediante ações que se organizam no calor da hora e em função dos recursos e das disponibilidades dos participantes. Na manifestação atual, não há lideranças claras, partidos ou sindicatos no comando. Não se fazem assembleias à moda antiga, em que as decisões são quase sempre manipuladas. Há muita festa e determinação, bem mais que disciplina militante. Admite-se que cada um é livre para seguir o que pensa, votar como acredita ser melhor, sonhar o sonho que quiser. Não há "ódio de classe", muito menos violência. Só indignação e vontade de mudar.

As organizações políticas e sindicais de esquerda entenderam o recado e se mantiveram à margem. Afinal, o fogo dirige-se contra a "classe política" como um todo, de direita ou esquerda, que estaria sendo insensível aos apelos por democracia mais efetiva, liberdade plena nas redes, combate à corrupção e melhores condições de vida e trabalho.

"Nossos sonhos não cabem em suas urnas", dizia um dos slogans da manifestação em Valência. O movimento por certo levou a que muitos espanhóis deixassem de votar nas eleições do último dia 22, que terminaram com uma categórica vitória do Partido Popular, de centro-direita, cujas orientações são paradoxalmente contrárias ao que pedem os manifestantes. Por menor que tenha sido a influência dos "indignados", a mensagem por eles lançada soa como um alerta para a esquerda partidária e sindical, cortada pela letargia e pela dificuldade de traduzir as expectativas sociais. É um alerta também para a democracia representativa.

O 15M é como o "espírito" de uma nova esquerda, anunciando o que a velha esquerda deixou de valorizar: mais importante que "chegar ao poder" é elaborar novas maneiras de organizar a convivência e compartilhar poderes. Uma esquerda mais "cultural" e participativa, refratária a ordens unilaterais e hierarquias, que deseja uma nova economia, mas dá mais destaque à igualdade, aos direitos, às liberdades, aos indivíduos. Mostra à velha esquerda que a democracia é um valor que precisa ser praticado no Estado e no cotidiano, luta política é mais que controle de votos e recursos de poder. O 15M tenderá a perder força e talvez até desapareça, mas seu exemplo permanecerá.

Movimentos animados por redes não precisam ser prisioneiros do universo virtual. Podem agir no mundo concreto. Debatem, agitam e pressionam, mas vivem sob a constante ameaça de diluição, em decorrência da dificuldade que têm de traçar uma rota planejada ou formar um todo mais articulado. Se cada um pretende mudar as coisas a seu modo, como produzir ação coletiva?

O jornalista espanhol Jesús Gómez Gutiérrez (www.lainsgnia.org) observa que a maior ameaça às redes não vem de fora, mas de dentro delas. A conversão de todos em produtores de informação e opinião contém uma extraordinária possibilidade de democratização, mas não é imune aos riscos de distorção e manipulação: "Como podemos participar da rede, ficamos com uma ilusão de equilíbrio. Todas as vozes merecem ser ouvidas em quaisquer circunstâncias. Por isso mesmo, qualquer insensatez bem distribuída e que disponha de um bom trabalho nos bastidores seria capaz de desequilibrar as propostas de um movimento social".

Seria trágico, por exemplo, se esse ativismo se pusesse contra a democracia representativa ou se a sociedade civil por ele projetada deixasse de ter um Estado como referência. O ciberespaço e as ações antissistêmicas só podem produzir resultados políticos se não se separarem dos embates sociais concretos, das tradições enraizadas, das instituições que organizam o mundo real.

O ativismo virtual mostra-se avesso a partidos, cansado de políticos, descrente da atuação dos governos e determinado a fazer-se ouvir. Terá potência para remodelar a sociedade sem um Estado democrático e um sistema representativo? A "vida líquida" anuncia o fim dos partidos políticos tal como os conhecemos, mas também cria condições para que novas modalidades de ação cívica deem a eles uma segunda chance.

MIGUEL REALE JÚNIOR - Da casa do lobby ao apartamento da empresa


Da casa do lobby ao apartamento da empresa
MIGUEL REALE JÚNIOR
 O Estado de S.Paulo - 28/05/11

O recente affaire Palocci apresenta um significativo paralelismo com o sucedido com Francenildo dos Santos Costa, caseiro da chamada "casa do lobby" em Brasília, alugada por ex-assessores da prefeitura de Ribeirão Preto para negócios e prazeres. O então ministro da Fazenda, em 2006, negou que frequentasse a casa. Convocado para depor na CPI dos Bingos, Francenildo desmascarou o ministro até ser calado por mandado de segurança, em decisão absurda do Supremo Tribunal Federal, na qual se considerou que, por suas "condições culturais", o caseiro não teria como contribuir para o esclarecimento dos fatos.

Não bastou o silêncio imposto pela Justiça que desqualificou o homem humilde, era necessário desmoralizá-lo. Dois dias depois, o caseiro teve o sigilo bancário violado pela Caixa Econômica Federal, subordinada ao Ministério da Fazenda, como tentativa de desacreditar a sua palavra.

Com precipitação, festejou-se o encontro de depósitos de R$ 25 mil e concluiu-se, apressadamente, ter sido o caseiro comprado. Para o governo, a violação praticada seria pecado venial, diante do pecado mortal da compra da declaração do caseiro por inimigos do ministro.

Os súcubos do ministro, após violarem o sigilo bancário, deram a órgão de imprensa a tarefa de espalhar a calúnia. Para dar ares de legitimidade à acusação leviana o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) mandou ofício à Polícia Federal, no dia seguinte à quebra do sigilo, aventando a possibilidade de ocorrência de lavagem de dinheiro.

O tiro saiu pela culatra. O homem simples era honesto, recebera a importância de seu pai e fora submetido ao mais puro arbítrio do Estado, em grave uso abusivo do aparelho estatal. Francenildo, em lição de moral agora esquecida pelo atual ministro da Casa Civil, disse depois, ao depor na Corregedoria do Senado: "O lado mais fraco não é o do caseiro, é o da mentira. Duro é falar mentira que você tem de ficar pensando. A verdade é fácil".

O Supremo Tribunal Federal, por cinco votos a quatro, entendeu não haver provas da participação do ministro no crime de quebra do sigilo, pois "o suposto interesse de Palocci em ter desacreditado o depoimento do caseiro à CPI dos Bingos não basta para que ele seja responsabilizado, se não há provas concretas". Em suma, os cinco votos a seu favor reconheciam que não quebrara o sigilo, mas recebera os dados bancários e aceitara a prática do crime que pretensamente o beneficiava.

Agora, os fatos também se apresentam por detrás de um biombo que esconde a verdade. Após ter saído do governo Lula, Palocci fundou empresa com sua mulher. Depois, em dezembro de 2006, alterou-se o objeto social para consultoria financeira e econômica, tendo Palocci, do capital de R$ 2 mil, cotas no valor de R$ 1.980 como sócio e administrador. O outro sócio, um jovem economista, detinha apenas cota no valor de R$ 20. Em dezembro de 2009 o capital foi alterado para R$ 52 mil, dos quais Palocci tinha cotas correspondentes a R$ 51.980 e o jovem economista (presença necessária para a inscrição da empresa no Conselho Regional de Economia) continuava com os mesmos R$ 20. Em setembro de 2010, aumentou-se o capital para R$ 102 mil e Palocci passou a ter R$ 101.960 e o economista, R$ 40.

Em novembro de 2010, eleita Dilma Rousseff, de cuja campanha Palocci fora coordenador, bem como o responsável pelo processo de transição, a mesma firma de consultoria recebeu vultosos pagamentos. O lucro não foi distribuído, pois a empresa, que se confunde com seu sócio majoritário, comprou imóveis, um deles o apartamento para uso de seu administrador, avaliado em mais de R$ 6 milhões.

Em informação obrigatória prestada à Comissão de Ética Pública da administração federal, o já ministro da Casa Civil informou ser possuidor de cotas de empresa agora com objeto social modificado, não mais de consultoria financeira e econômica, mas de administração de imóveis. É apenas uma parte da verdade, pois o ministro informa ser titular de 99,99 cotas de uma empresa de administração de imóveis cujo capital é de R$ 102 mil. No entanto, usufrui valioso apartamento adquirido por sua empresa, investimento alheio totalmente ao objeto social da companhia, do qual passou a ser ocupante, sem notícia de que pague pela locação do imóvel. É um consabido subterfúgio de possuir um bem sem constar diretamente como proprietário.

Se não fosse a denúncia efetivada pela imprensa, nada do patrimônio real do ministro-chefe da Casa Civil seria sabido. E dele apenas se ouviram pedidos de respeito à confidencialidade, que tanto desprezara com relação ao humilde caseiro Francelino.

O Código de Conduta da Alta Administração Federal, de cuja elaboração participei como membro da Comissão de Ética, timbra ter por finalidade que a sociedade possa aferir a lisura do processo decisório governamental, motivo pelo qual busca evitar conflitos entre interesses públicos e privados. Por isso estabelece o Código de Conduta que, além da declaração de bens, cabe ao administrador público dar informações sobre sua situação patrimonial que, real ou potencialmente, possa suscitar conflito com o interesse público. Saber, portanto, quais foram os clientes dessa empresa de consultoria financeira administrada e pertencente, em 99,99% da cotas, a um médico sanitarista, em serviços pagos quando já previsto como forte ministro, é essencial para se poder ter a transparência visada pelo Código de Conduta.

Como dizia Francenildo, "duro é falar mentira que você tem de ficar pensando", e para não pensar os líderes do governo decretam infantilmente: "O episódio está encerrado". Chega de cinismo: o episódio apenas começa e deve-se é desvendar a verdade para verificar se houve ou não novamente abuso e tráfico de influência, que podem contaminar a confiança no atual governo.

FERNANDO DE BARROS E SILVA - No túnel da Justiça


No túnel da Justiça
FERNANDO DE BARROS E SILVA
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

SÃO PAULO - Em 20 de agosto de 2000, Lula nem sonhava (ou apenas sonhava) ser presidente da República. As torres gêmeas estavam lá, imponentes e intactas. E faltavam ainda quase dois anos para que o Brasil conquistasse o pentacampeonato. Sob vários aspectos, estamos falando de antigamente.
Em 20 de agosto de 2000, um domingo, o jornalista Pimenta Neves assassinou Sandra Gomide com dois tiros pelas costas. Ele tinha 63 anos; ela, 32. Pimenta Neves foi preso nesta semana, aos 74, quase 11 anos depois do crime que cometeu e assumiu desde o início.
A indignação das pessoas se justifica plenamente: que Justiça, afinal, é essa? Ontem, na Folha, o pai da vítima dizia: "A Justiça no Brasil não funciona como balança. Me senti na parte de baixo da balança desequilibrada. Quem tem dinheiro está em cima". Algum magistrado se oferece para contestá-lo?
Muito a propósito, o presidente do STF, Cezar Peluso, citou esse caso tão ilustrativo para voltar a defender a redução das instâncias recursais no país -hoje, na prática, são quatro, uma aberração que, segundo ele, só existe por aqui.
Pela proposta de Peluzo, que depende de emenda constitucional, as sentenças de segunda instância (dos TJs estaduais) teriam validade imediata. E os recursos aos tribunais superiores (STJ e STF) seriam "ações rescisórias" (de anulação posterior da decisão), deixando de funcionar como instrumentos para embromar o fim do processo.
Se isso estivesse em prática, Pimenta Neves estaria preso desde 2006. Solto estava, solto permaneceu. A defesa do jornalista recorreu mais de 20 vezes ao STJ e ao STF desde que o TJ paulista confirmou a condenação do Tribunal do Júri, há quase cinco anos.
Impor restrições a esse ritual infinito de recursos à mão de advogados ilustres não vai resolver os problemas do Judiciário. Nem fazer, isoladamente, com que a balança se equilibre. Mas é um passo contra os descalabros da Justiça.

CESAR MAIA - Jangada de pedra


Jangada de pedra
CESAR MAIA
FOLHA DE SÃO PAULO - 28/05/11

A reação política europeia à crise econômica de 2008-2009 foi virar o leme à direita. Os casos residuais, atentos a essa tendência, terminaram caindo numa armadilha: adotar as mesmas políticas à direita, buscando legitimar-se pela esquerda. Não podia dar certo.
Os dois casos residuais mais importantes são os de Portugal e da Espanha. Ambos caminham para se incorporar aos demais, com a provável vitória de seus partidos conservadores, o PSD em Portugal, na próxima semana, e o PP na Espanha, no início de 2012.
As eleições regionais e locais na Espanha, na semana passada, com vitória histórica do PP, já apontaram nessa direção, incluindo a tomada de redutos tradicionais sob controle dos socialistas do PSOE.
Com isso, o georreferenciamento da política europeia em 2012 deverá mostrar uma enorme mancha azul, desde a Alemanha, a França, a Itália e o Reino Unido, chegando agora à península Ibérica.
O escritor José Saramago fez a figuração do retorno ibérico à Europa desde as Américas, onde a "jangada" aportou no final do século 15. Esta "jangada de pedra", com a democratização dos anos 1970, voltou a colar no continente. Agora, ela aporta politicamente na Europa pós-crise.
Portugal e Espanha têm um sistema parlamentar de poder binário. No caso da Espanha, de forma mais pronunciada: PSOE e PP têm em torno de 90% dos 350 deputados.
Em Portugal, o PS e o PSD têm um pouco menos, em torno de 85% dos 230 deputados.
Na eleição de 2009, tal soma caiu para 77%, com o PS perdendo 20% de seus deputados e tendo que coligar-se para formar o gabinete ministerial.
A vitória do PS em 2009 só ocorreu devido a uma escolha equivocada do PSD: a sua candidata a primeira-ministra.
Hoje em dia, a performance numa campanha sempre agrega ou desagrega algo. Se a eleição for equilibrada, isso passa a ser decisivo.
A crise obrigou o primeiro-ministro português a entregar o cargo ao presidente e este a antecipar as eleições parlamentares para 5 de junho. Portugal receberá, via UE, 40% de seu PIB em empréstimos, para enfrentar a crise.
Na Espanha, em meio à crise, numa última tentativa do PSOE, o primeiro-ministro anunciou que retira seu nome da eleição de 2012 e que não continuará como tal.
Nas últimas semanas, um movimento multitudinário via redes sociais, de jovens espanhóis, ocupou a praça central de dez grandes cidades do país, a começar por Madri. O foco dos protestos é a contrapolítica, a rejeição aos políticos, jovens antes de esquerda.
Mesmo sendo a eleição em Portugal de resultado mais estreito, o fato é que, politicamente, a "jangada de pedra" -agora de cor azul- colou na política europeia pós-crise.

SONIA RACY - DIRETO DA FONTE


Ninho sem aconchego
SONIA RACY
O ESTADÃO - 28/05/11


Consta, pelas hostes tucanas, que Tasso Jereissati estaria enfurecido. Alckmin e FHC teriam garantido ao ex-senador que Serra não tinha interesse nenhum no Instituto Teotônio Vilela, durante conversas separadas em São Paulo há cerca de um mês.

Ninho 2

O tucano cearense chegou a ponderar que Serra costuma mudar de ideia na última hora. O que foi prontamente descartado por ambos. À época, Serra estava de olho na presidência do PSDB.

Desafinou
John Neschling perdeu em segunda instância ação trabalhista contra a Osesp, conforme antecipado ontem no blog da coluna. O ex-diretor da orquestra teve sucesso no trâmite do seu pleito em primeira instância, quando obteve o direito de receber mais de R$ 4 milhões do seu ex-empregador. Com recurso de Fabiana Fittipaldi, a decisão foi revertida. Ainda cabe apelação no Tribunal Superior do Trabalho. A coluna tentou ouvir o maestro na Suíça. Ele atendeu e não quis continuar a conversa.

Direitos Humanos
A Human Rights Watch não aguentou. Mandou carta à Vogue americana com fortes críticas à revista.

Por publicação, em março, da reportagem Asma al-Assad - Uma Rosa no Deserto, definindo a mulher do ditador sírio como "glamourosa, jovem e muito chique".

Metade

Depois de questionar a cobrança de quatro ingressos para assistir a um show, por precisar de maca, a advogada Leide Moreira pagará meia entrada no show de Maria Rita no Citibank Hall, hoje. Ela passou dos 60 anos.

Leide, que tem doença degenerativa, inspirou lei de Mara Gabrilli: garantindo a cobrança de apenas um ingresso para pessoas com deficiência em SP.

Difícil de viver
Os idosos no Brasil triplicarão nos próximos 40 anos. A estimativa, do Banco Mundial, somada à expectativa de vida crescendo três ou quatro meses a cada ano (IBGE), preocupa o setor de saúde suplementar, segundo Jorge Hilário Gouvêa Vieira, dirigente da Consegur.
Dá-lhe seminário em torno do tema, dias 8 e 9, em Brasília.

Espera na janela
Repousa sobre a mesa de Palocci pedido para que sejam convocados os aprovados em concurso público para o Banco Central no ano passado.

A proposição do deputado Pauderney Avelino, do DEM, vem da necessidade de maior fiscalização dos bancos. Especialmente depois de rombos em instituições como o Panamericano.

Avesso do avesso
A coordenadora do Procon em Suzano pode levar um "procon" na cabeça. Adelia de Jesus Soares já cumpriu duas suspensões no Tribunal de Ética da OAB. E a terceira está a caminho. Se esta última se efetivar, está instaurado automaticamente seu processo de exclusão da Ordem.

Indagada, a advogada Jesus Soares tem fé: diz acreditar no arquivamento da denúncia.

Top Duchess
Kate Middleton continua ditando tendências. O vestido que usou no encontro com Michelle Obama essa semana... esgotou. A procura pelo modelo da grife Reiss foi tanta que o site chegou a ficar fora do ar.

Camilaaaaa
Direto do túnel do tempo. Os roqueiros da banda Nenhum de Nós preparam livro. Com histórias sobre os 25 anos de carreira do grupo, famoso nos anos 80.

Na frente


John Pizzarelli fará concerto de graça dentro da série Telefonica Sonidos Jazz. Dia 5 de junho, na área externa do Auditório Ibirapuera.

Renata Simões leva o restaurante Amici para novo bairro, o Itaim. A inauguração é na segunda.

Claudio Votta, pianista argentino, apresenta na Fundação Ema Klabin o espetáculo História do Tango em 90 Minutos. Hoje.

O Grupo Tapa comemora cem anos de Tennessee Williams com espetáculo que inclui três obras do dramaturgo norte-americano. No Espaço Viga, de terça a domingo.

O Espaço Arte M. Mizrahi promove leilão no Espaço B"nai B"rith. Terça-feira.

A Latitudes, em parceria com a Livraria Cultura, lança o roteiro Grécia - Mitologia, Arte e História, com Cristina Rodrigues Franciscato.

Efeito Strauss-Kahn. Deu no Daily Telegraph, de Londres: político de Nova York quer passar uma lei que obrigue os hotéis a oferecerem às camareiras um..."panic button".

BRAZIU: O PUTEIRO

WALTER CENEVIVA - Direito e moral


Direito e moral
WALTER CENEVIVA
folha de são paulo - 28/05/11

Acusados de praticar ações contra os bons costumes se defendem com o argumento de que a lei não as proíbe


INDEPENDENTEMENTE do andamento do caso Palocci, a contraposição de Direito e moral tem sido constante no noticiário nacional e internacional.
Lembro ao leitor que, há pouco tempo, me referi a ideias de Ronald Dworkin, no livro "A Justiça de Toga"(WMF Martins Fontes) distinguindo duas vertentes dos fatos da vida: a jurídica e a ética.
Nesse tema, a semana assinalou condutas de figuras conhecidas em vários níveis da comunidade, que deveriam caracterizar os valores éticos que são esperados das pessoas públicas.
Acusados de ações contrárias aos bons costumes se defendem com o argumento de que a lei não as proíbe dos comportamentos e das ações divulgados.
No repique, ainda afirmam que os mesmos expedientes e critérios também foram adotados pelos seus acusadores.
No turbilhão da vida moderna, a ampla transformação dos costumes, dos padrões morais e legais de conduta, é decomposta por Dworkin em vários estágios, todos válidos para a situação brasileira.
O filósofo distingue os semânticos (a variação dos conceitos, de sua nomenclatura e da aplicação diária), teóricos (a teoria jurídica envolve conceitos interpretativos cujas alternativas são frequentemente conflitantes) e, por último, estágios doutrinários (a busca de teoria do valor do direito se embaraça frequentemente com a etapa teórica de sua aplicação).
Aferir o Direito na prática e ignorar a valoração moral de atos e atores leva a distorções, porquanto o Direito tem normas (claras ou não) nas leis e na jurisprudência.
Ignorar a lei para defender preceitos morais também pode levar a abusos, variáveis que são das condutas de pessoa para pessoa, em maior velocidade nos tempos atuais.
Na pluralidade das alternativas possíveis falta compor o parâmetro definitivo da conduta da maioria. Quem viveu na ditadura sabe, por exemplo, de ações discricionárias, sob desculpa de combater a corrupção e a "imoralidade" dos acusados. A influência do defeito cria dificuldade na busca da adequada interpretação da lei mesmo quando seja clara.
Os doutrinadores até discutiram a possibilidade de que o Legislativo interpretasse as leis de sua criação, sob o argumento de que sendo o gerador da norma estaria mais bem preparado para dizer o que nela está contido. Não pegou. Ainda bem, pois cada poder deve ter os seus contrapontos.
A interpretação cabe ao Poder Judiciário, no equilíbrio do processo democrático. Sabemos que não subsiste a igualdade de forças entre os três poderes, só preponderante o Executivo. Elabora leis de seu interesse (ainda que sob o disfarce de serem provisórias), embaraça a apuração de atuações duvidosas de seus integrantes.
As situações que temos vivido chocam o povo, quando faltante a apuração em profundidade, para confirmar ou negar as acusações.
Lembremos que a presunção de inocência é preceito constitucional e valor moral inafastável e que a solução dada pelo direito aplicado no trabalho humano do Judiciário nem sempre é justa. Até por isso, entramos neste novo século sob as primeiras visões da moralidade constitucional (artigo 37 da Carta).
Para mesclar ética e Direito, a luta será longa, mas não se chegará ao fim dela se não pensarmos na arrancada inicial, capaz de superar os problemas da rápida transformação da realidade mutável.