segunda-feira, fevereiro 14, 2011

SINUCA DE BICO

MÔNICA BERGAMO

PLANO ILIMITADO
MÔNICA BERGAMO
FOLHA DE SÃO PAULO - 14/02/11

A ANS (Agência Nacional de Saúde) colocará nos próximos dias em consulta pública um projeto que permitirá a demitidos ou aposentados optarem por um novo plano de saúde, diferente do que tinham no antigo emprego, sem ter que cumprir carência de até dois anos para começarem a ser atendidos. É a chamada portabilidade, que hoje não vale para os planos coletivos.

PLANO 2

A mudança, caso seja aprovada, permitirá ao consumidor optar pelo plano que achar melhor e até mais barato. Hoje, a pessoa demitida pode permanecer no plano antigo por apenas dois anos, e ainda pagando integralmente a mensalidade que antes dividia com o patrão. Depois disso, tudo recomeça do zero e o usuário tem de cumrpir novas esperas para usar os serviços.

BOLO RECHEADO

E, com dois dos cinco cargos de diretores vagos desde outubro, a ANS virou objeto de desejo -e de acirrada disputa entre as várias forças que apoiam o governo. Em especial o PT.

ARMA BRANCA
Entidades como o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), o conselho dos secretários municipais de Saúde e o sindicato dos médicos protocolarão amanhã no Ministério Público representação contra a lei que permite que hospitais estaduais de SP reservem até 25% dos atendimentos para planos de saúde. Com a medida, dizem, 2 milhões de procedimentos deixarão de ser feitos em pacientes do SUS para serem destinados aos clientes privados.

AGORA VAI
A Associação dos Advogados de SP escolheu a dedo uma peça para homenagear suas associadas na Semana da Mulher: "As Encalhadas", em cartaz há dez anos.

COLOMBINA
Karina Buhr e Teresa Cristina passaram recentemente um dia juntas, "pirando", como diz Karina, num projeto de show que "não é nem meu, nem dela, é das duas", diz a cantora pernambucana. Uma das músicas que elas estão compondo já tem tema: "Olha eu de bailarina, sentadinha na estação". São lembranças dos Carnavais da infância de Teresa.

SOLTANDO A VOZ
Fernanda Porto, Verônica Ferriani e Silvia Maria foram algumas das cantoras que subiram ao palco do MIS (Museu da Imagem e do Som) para o show de lançamento do selo Joia Moderna, do DJ Zé Pedro. A ex-modelo Cláudia Liz e a cantora Virgínia Rosa assistiram à apresentação.

MENU ESPECIAL

A escritora Carla Leonel comemorou seu aniversário com amigos em almoço no restaurante Antiquarius, nos Jardins. Entre os convidados estavam o arquiteto Oscar Mikail, o empresário Carlos Eduardo Calfat Salem e a produtora Rebeca Grisi.

PRÓXIMO PASSO

Marcelo Médici começa a ensaiar neste mês a peça "Eu Era Tudo pra Ela, e Ela Me Deixou", de Emílio Boechat. No espetáculo, com estreia prevista para junho no teatro Faap, em SP, ele interpretará vários personagens e dividirá o palco com Ricardo Rathsam. A direção poderá ficar a cargo de Marília Pêra.

CANTO E DANÇA
Wim Wenders escreveu um e-mail para Caetano dizendo que viu o alemão Lutz Förster dançando "O Leãozinho" e se apaixonou. Pediu para incluir a canção na trilha de "Pina", documentário em 3D que dirigiu sobre a coreógrafa Pina Bausch (1940-2009). Caetano respondeu que adorava Pina, de quem sente a falta "como se tivesse passado a vida perto dela". Topou, claro, a proposta.

ESPELHO, ESPELHO MEU
A banda teen americana Backstreet Boys pediu quatro espelhos de corpo inteiro, sofás e iluminação sem lâmpadas fluorescentes para o camarim da turnê que fazem no Brasil, a partir de sexta.

BRASIL EM FOCO

A consultoria de moda de luxo Acaju do Brasil, do francês Dimitri Mussard, herdeiro da grife Hermès que vive em SP, já conta com uma lista de marcas estrangeiras que pretendem entrar no mercado brasileiro ainda neste ano. Entre elas, Weill, Vicomte A, Virginie Castaway, Les Petit Joueurs e Twins For Peace.

CURTO-CIRCUITO
Os chefs dos 30 restaurantes paulistas (29 da capital e um de Valinhos) agraciados com a certificação Ospitalità Italiana serão homenageados hoje com jantar no Terraço Itália.

Eduardo Muylaert inaugura amanhã, das 17h às 22h, a exposição "Mulheres dos Outros", com curadoria de Eder Chiodetto, na Fauna Galeria, no Jardim América.

O italiano Pasquale Natuzzi, fundador do grupo Natuzzi, recebe hoje, a partir das 19h, convidados em coquetel na loja Italsofa, no shopping D&D.

com DIÓGENES CAMPANHA, LÍGIA MESQUITA e THAIS BILENKY

RENATA LO PRETE - PAINEL DA FOLHA

Caça-fantasmas
RENATA LO PRETE
FOLHA DE SÃO PAULO - 14/02/11

Enquanto revisa os contratos firmados por seu antecessor, Geraldo Alckmin prepara outra operação com potencial de constrangimento para a gestão do correligionário José Serra. A Corregedoria Geral da Administração fará um pente-fino nos convênios assinados por São Paulo com ONGs e entidades beneficentes para realização de festas e eventos. Em 2010, 1.800 instituições receberam recursos do Estado.
Um cadastro dessas associações será montado para permitir checagem dos endereços e fiscalização do emprego do dinheiro, detectando eventuais entidades de fachada e desvios de recursos e de finalidade.
Na ponta do lápis A renegociação de contratos de obras e serviços terceirizados que passaram pelo crivo dos 40 corregedores do Palácio dos Bandeirantes gerou economia de R$ 61 mil em janeiro. Apesar do início modesto, eles têm a expectativa de, até o final do final do ano, atingir a marca de R$ 7 milhões.

A conferir 
A despeito de desconfianças do mercado, o governo paulista acredita que, até o Carnaval, a Bertin depositará a caução de R$ 360 milhões e captará o R$ 1,5 bilhão necessário para assinar o contrato do trecho leste do Rodoanel.

Como assim? 
Depois de instalar o PSB confortavelmente em seu secretariado, Alckmin não está achando a menor graça na corte do partido a Gilberto Kassab (DEM).

Caderninho 
Embora a novela ainda esteja em aberto, a anuência do Palácio do Planalto às tratativas do PSB com Kassab é mais um revés computado pelo PMDB, que há meses negocia o passe do prefeito de São Paulo -com ou sem a passagem deste, primeiro, por um novo partido "de transição".

Tropas

A tensão entre o presidente do PSB, Eduardo Campos, e os irmãos Gomes, Cid e Ciro, resulta em animosidade permanente entre deputados de Pernambuco e do Ceará na bancada do PSB.

Prioridades 
Em conversas com aliados, Cid Gomes costuma dizer que Eduardo erra ao escolher a ele e ao irmão como alvos. "Se quer ser candidato a vice-presidente em 2014, ele não deveria estar preocupado conosco, e sim com o PMDB", argumenta o governador do Ceará.

Calendário
 
Amanhã, com a posse de Flávio Decat na presidência de Furnas, Dilma Rousseff formaliza o despejo do PMDB da Câmara do comando da estatal. No dia seguinte, ela enfrenta seu primeiro teste de estresse com o Legislativo, na votação do salário mínimo.

Termômetro 
Não que se espere o pior da bancada peemedebista. Na sexta-feira, cálculo conservador indicava que, dos 77 deputados do partido, ao menos 50 devem votar a favor dos R$ 545 propostos pelo governo.

Pró-facultativo Membro da recém-indicada comissão do Senado para tratar da reforma política, o ex-presidente da República Itamar Franco (PPS-MG) defenderá o fim do voto obrigatório.

Bumbo 
Começam a ser veiculadas nesta semana em TV e rádio peças publicitárias do programa "Saúde não tem preço", de distribuição gratuita de medicamentos para hipertensão e diabetes.

Vem aí 

Além de Barack Obama, que desembarca no Brasil em março, também o primeiro-ministro do Canadá, Stephen Harper, manifestou o desejo de visitar Dilma no primeiro semestre.

Passaporte 
Enquanto isso, Lula, que já tem viagem marcada à Venezuela, avalia convites para ir à Argentina e e aos Estados Unidos.

Suprapartidário 
No governo do petista Agnelo Queiroz, os dois deputados eleitos pelo DEM à Câmara do Distrito Federal, Eliana Pedrosa e Raad Massouh, conseguiram indicar os administradores do Sudoeste e do Núcleo Bandeirante.
com LETÍCIA SANDER e FABIO ZAMBELI

Tiroteio

"Dilma de 'vítima' da herança de Lula lembra a piada do sujeito flagrado carregando o porco do vizinho nas costas: 'Gastança? Que gastança? Tira esse bicho daí!'."
DO TUCANO EDUARDO GRAEFF, secretário-geral da Presidência no governo FHC, sobre as dificuldades fiscais enfrentadas no terceiro mandato petista.

Contraponto

Já vai?


Ronaldo Caiado (DEM-GO) dava entrevista no Salão Verde quando tropeçou num protetor de luz. Ao vê-lo, um colega brincou com a proposta do deputado para permitir que cadeiras abertas na Câmara sejam preenchidas por suplentes da coligação, e não necessariamente da sigla de quem saiu, contrariando entendimento do STF:
-A sua PEC ainda não foi derrubada, mas você....

GOSTOSA

CRISTIANE JUNGBLUT E ISABEL BRAGA

Campo minado no Congresso
CRISTIANE JUNGBLUT  E ISABEL BRAGA
O GLOBO - 14/02/11

Medidas provisórias editadas no governo Lula se chocam com orientação para cortar gastos

BRASÍLIA
A presidente Dilma Rousseff recebeu uma pesada e antiga herança do governo Lula no Congresso Nacional. Entre as 24 medidas provisórias que tramitam na Câmara eno Senado, 21 foram editadas no governo passado, sendo que dez estão trancando apauta de votações da Câmara. Muitas dessas medidas vão na contramão do corte de R$ 50 bilhões anunciado na semana passada, pois implicamna criação de cargos e no aumento dos gastos públicos. Aliados acreditam que oCongresso votará até maio propostas antigas, anão ser que se use a janela inaugurada agora por Dilma para enviar por projeto a matéria que trata do salário mínimo. Otemor éque ajanela, criada na gestão do ex-presidente da Câmara e hoje vice-presidente Michel Temer, uma vez aberta, sirva para os parlamentares colocarem projetos explosivos em votação. Uma dasMPs que poderá gerar polêmica na votação, inclusive entre integrantes da base aliada, é a que cria a Autoridade Pública Olímpica (APO), ratificando o protocolo assinado entreUnião, oestado do Rio de Janeiro eo município do Rio, que cria o consórcio de ação para garantir a preparação e realização das Olimpíadas de 2016. A MP cria 484 cargos em comissão. Entres eles, 184 com salários que variam de R$ 18 mil e 22,1 mil. A oposição está pronta para bombardear a criação demais cargos federais e a falta de fiscalização da estrutura.Mas aMP também provoca briga na base aliada. O cargo a ser criado é pleiteado pelo PCdoB, mas Dilma pretende nomear o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, justamente para dar maior visibilidade e garantir o cumprimento dos prazos das obras.
Na herança de Lula também há uma MP que cria uma empresa para administrar hospitais universitários, ligada ao Ministério da Educação. A empresa será administrada por um conselho de administração e uma diretoria executiva. A MP estabelece que a empresa terá sede emBrasília,mas poderámanter escritórios, representações, dependência e filiais em outros estados. Para que a empresa seja implantada, autoriza acontratação, por tempo limitado e sem licitação, de pessoal técnico e administrativo, até que seja feito concurso público. A oposição vai apontar, alémdo aumento de gastos, a inconstitucionalidade damedida, alegando que fere a autonomia universitária.

Variedade de temas abre brecha para emendas
Ogoverno Dilma Roussefftambém deverá enfrentar problemas com a bancada ambientalista na votação de MP que, entre outras coisas, institui o Regime Especial de Incen- tivos para o Desenvolvimento de Usinas Nucleares (Renuclear). Antes mesmo de conseguir no Congresso aautorização para a instalação de usinas, oministro de Minas e Energia, Edison Lobão, já oferece incentivos, na tentativa de induzir investimentos nesse tipo de energia. Já há estados brigando para sediar as novas usinas. A mesma MP que institui o Renuclear trata de outros 12 temas diferentes.Mesmo caso da MP 513/10, com oito assuntos distintos. Isso sempre abre margem para a apresentação de emendas por parte dos parlamentares, que poderão aumentar gastos públicos, os chamados "jabutis".
Na lista de MPs do governo passado, estão ainda a liberação de crédito para o BNDES. Sobrou para o governo Dilma umdívida de R$ 30 bilhões pela concessão de novo crédito ao BNDES, para aumentar a participação do banco na capitalização da Petrobras. Outra MP autoriza a União, acritério do Ministério da Fazenda, a emprestar até R$ 20 bilhões ao BN- DES para o uso em financiamentos do projeto do Trem de Alta Velocidade, que ligará os municípios do Rio e de Campinas (SP). A primeira MP da lista, a 501, deverá causar constrangimentos ao governo. Isso porque ela sofreu emendas no Senado, voltando para a Câmara, impostas justamente pelo líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR).
Olíder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), admitiu que não será fácil se livrar das MPs, mas argumentou que elas fazemparte do processo de governar
e da vida do Legislativo. " Vai ser difícil "- disse Vaccarezza, sobre o trabalho de limpar a pauta. Semana passada, a presidente Dilma deu demonstrações de que não quer ficar refém
de assuntos do governo passado. Dilma recorreu a uma manobra para enviar ao Congresso o projeto que trata da correção do salário mínimo, permitindo que ele passe à frente das
MPs que trancam a pauta. O Palácio do Planalto espera que o presidente da Câmara, Marco Maia (PT-RS), agilize as votações. Semana passada, a primeira com votações na Casa, foram votadas duas MPs, sem maiores problemas.

CLÁUDIO HUMBERTO

Após o mínimo, Dilma tentará recriar a CPMF
CLÁUDIO HUMBERTO
JORNAL DO COMMÉRCIO - 14/02/11

A pindaíba que obrigou o governo ao corte de R$ 50 bilhões nos gastos de 2011, levou a presidente Dilma a tomar a decisão de encaminhar ao Congresso, logo após a aprovação do salário mínimo de R$ 545, de um projeto restabelecendo a CPMF, o imposto do cheque, a fim de garantir o financiamento da reconstrução dos serviços públicos de saúde. O governo já se prepara para enfrentar a forte oposição ao tributo.

Aviso prévio

Após a votação do mínimo de R$ 545 e a depender do comportamento do PDT na câmara, o ministro Carlos Lupi (Trabalho) pode dançar.

Só de ida
Com seu jeito manhoso de ser, o ministro Antonio Palocci deixa claro: votar contra o mínimo de R$ 545 é bilhete sem volta para a oposição.

O 'a' da questão
O Diário Oficial da União não se acerta com a presidenta: mulheres são "subsecretários, diretores e assessor". Só ministra escapa.

Luvas de pelica
A ministra de Negócios Estrangeiros da França, Michèle Alliot-Marie, chega a Brasília dia 22 (terça). Tem Rafale no meio, bien sûr.

Empresa de telefonia quer contratar Helio Costa
A TIM fez uma consulta ao Palácio do Planalto para saber como reagiria a presidenta Dilma Rousseff a eventual convite para que o ex-ministro das Comunicações Helio Costa assuma cargo de direção na empresa. Dilma mandou dizer que não faz objeção. Caso aceite o convite, talvez Hélio Costa não necessite de quarentena: ele deixou o cargo em abril de 2010 para disputar o governo de Minas Gerais.

Sonho de consumo
Nova alegria do baixo clero na Câmara, o deputado Newton Cardoso (MG) está em campanha para assumir a liderança do PMDB em 2013.

Dilma RH
A presidente Dilma Rousseff coleciona currículos sobre sua mesa: ela terá que indicar nos próximos dias onze nomes para as vagas abertas em diversas agências reguladoras.

O Pará é minha pátria
A ex-governadora do Pará Ana Júlia Carepa (PT) desistiu de esperar por algum cargo em Brasília, no governo Dilma. Com ajuda ao PMDB, ela tentará agora a presidência do Banco da Amazônia.

Ecologista
Lula mostrou sua face urbanista no aniversário do PT: que os prefeitos "se preparem para mais congestionamentos, alarguem as ruas que o pobre vem aí (de carro novo). Podia poupar-nos dessa poluição mental.

Um especialista

Jornalista e ex-senador, Helio Costa é considerado atualmente um dos maiores especialistas brasileiros em telecomunicações.

Poder sem pudor

Longe das passarelas

Apesar do jeito sério e do tom grave de seus pronunciamentos, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) acabou se transformando numa espécie de ídolo suprapartidário, no Senado, graças à reputação de encantador de misses. No auge da fama, Jarbas deixou os colegas particularmente embevecidos com o fato de ter sido nele inspirado, o enredo do impagável bloco carnavalesco "Siri na Lata", do Recife. E ainda fingia contrariedade, nas rodas de senadores, com o "concurso" para musa do bloco, em que a vencedora ganharia "a faixa, o cetro e ...o coroa".

TÔ FORA

MELCHIADES FILHO

Cirurgia eletiva
MELCHIADES FILHO
FOLHA DE SÃO PAULO - 14/02/11
BRASÍLIA - O Planalto prefere a versão de que Dilma gritou basta, de que enfim um presidente disse não à banda podre do Congresso. Há, no entanto, mais cálculo político do que propósitos edificantes na decisão de desalojar a ala mais estridente do PMDB de posições estratégicas da máquina federal.
O objetivo é esterilizar o campo de ação do grupo que deveria dirigir a Câmara, com poder sobre votações e CPIs, nos dois últimos anos de Dilma -se respeitado o acordo chancelado pelo próprio governo.
As canetadas da Presidência têm precisão cirúrgica. Vão derrubando, um a um, os redutos da bancada peemedebista da Câmara. Furnas, Correios, Funasa, Conab...
Ligados ao vice Michel Temer, esses deputados já haviam recebido migalhas na montagem dos ministérios: pastas sem fôlego orçamentário, quando não partilhadas com outros partidos (Agricultura, Turismo e Assuntos Estratégicos).
Já o PMDB do Senado, tão ou mais fisiológico, não foi até agora incomodado por Dilma. Renan Calheiros manteve o setor de transporte de combustíveis e ganhou o INSS de bônus. A área elétrica segue sob influência de Sarneys -José e o filho indiciado, Fernando.
É fato que as estatais operadas pelo PMDB da Câmara frequentaram o noticiário policial durante o governo Lula. Mas é verdade, também, que Dilma não se viu movida a limpar outros notórios recantos de escândalos, como, por exemplo, a administração de estradas e ferrovias, há anos sob tutela do PR.
Ocupar altos cargos tornou-se fundamental para o exercício partidário -não apenas para a roubalheira. Determinar a estrada que ganhará asfalto ou escolher a cidade que abrigará uma faculdade é mais do que uma decisão técnica. Tem imediatas implicações eleitorais.
Como Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) convencerá os colegas a fazê-lo presidente da Câmara em 2013 se ele não tem força nem para garantir as próprias nomeações?

ROBERTO ZENTGRAF

Devo, não nego, pago quando puder
ROBERTO ZENTGRAF
O GLOBO - 14/02/11
Pois é, meu caro amigo leitor, parece que a conta do crédito fácil finalmente chegou com os índices de inadimplência de janeiro 24,8% mais altos do que os do mesmo período no ano passado, a maior alta em oito anos. É a contrapartida óbvia a tantos recordes de vendas e de consumo registrados no ano passado. E, somando-se a esses fatores, acredito que também contribuíram a volta da inflação, a elevação dos juros e demais restrições ao crédito e, principalmente, a inclusão de novos consumidores no mercado de crédito sem a devida educação financeira para tal. Pensando nisso optei por tratar do tema inadimplência na coluna de hoje...

1. Por que devo evitar a inadimplência? Ficar inadimplente não deveria ser alternativa para ninguém, mesmo para aqueles que fazem piada alegando que quem deveria se preocupar é o credor, e não o devedor. Fora o incômodo de se ver às voltas com os cobradores à sua porta, por que perder a opção de conseguir crédito fácil e barato que os que pagam em dia têm? Quem conhece o mercado financeiro sabe que as opções têm valor (opções de compra e venda de ações corriqueiramente negociadas na Bovespa), não é verdade?

2. O que pagar primeiro? Reconheço que não é fácil decidir quando há várias contas em atraso e poucos recursos para liquidá-las. Nesta hora calma e planejamento são elementos indispensáveis: liste todos os valores que deve com as respectivas datas de vencimento, encargos financeiros e demais penalidades. Você deve começar liquidando aquelas que o ameacem com corte no fornecimento dos serviços - por exemplo, luz e gás - ou com a inclusão de seu nome em listas de proteção de crédito. As próximas da relação devem ser aquelas sobre as quais incidam as maiores taxas de juros. As outras, que não se enquadrem em nenhum destes critérios podem ficar para depois.

3. Devo negociar? Sempre! Deixe a vergonha de lado e parta para um acordo, usualmente melhor para as duas partes. Por exemplo, se você já está enrolado com o cartão, sairá mais barato negociar um empréstimo em prestações fixas - e, portanto previsíveis - junto ao banco, do que ficar pagando o valor mínimo citado na fatura. Lembre-se que o banco não quer você inadimplente, o seu carro ou o seu apartamento, mas sim o seu dinheiro. Só é importante evitar valores altos de prestação para não voltar à situação de inadimplência, mesmo que para isso você seja obrigado a vender algum bem. Pense que dias melhores virão e você conseguirá adquiri-lo novamente.

4. Como evitar que isso aconteça? Se você virou inadimplente, é porque gastou mais do que consegue pagar. Não tenho a solução na ponta da língua, mas costumo recomendar alguns truques para dificultar o uso do dinheiro, como, por exemplo, deixar cartões e cheques em casa ou manter uma reserva em conta separada. Outro caso comum é o da dificuldade em controlar cheques ou cartões emitidos e, ao se esquecer de anotar as despesas, você acabar se atrapalhando. Nada que um bom orçamento pessoal não resolva, não é mesmo? Aliás este foi o assunto que tratei na semana passada, e voltarei a ele em breve!

Um grande abraço e até a próxima semana!

GOSTOSA

GEORGE VIDOR

Embraer dos mares

GEORGE VIDOR
O GLOBO - 14/02/11
Tratando-se dos negócios que Eike Batista e suas empresas se envolvem tudo tem de ser superlativo ("não faço puxadinho", diz ele). Agora que se aproxima a data da produção de petróleo nos poços que o grupo, por meio da OGX, descobriu em águas rasas na Bacia de Campos - gerando a tão esperada receita pelo mercado -, Eike volta suas atenções para o futuro estaleiro do Açu.

Se as licenças ambientais saírem no tempo previsto, as obras do estaleiro começarão em maio, com a dragagem de um canal e um "piscinão" que serão margeado por oito quilômetros de cais, com uma profundidade que possibilitará a atracação de grandes navios. Nessa área (o Açu fica em São João da Barra, Norte Fluminense), Eike pretende instalar o que há de mais avançado em construção naval no mundo, partindo da tecnologia coreana (fornecida pela Hyundai), e em seguida ir além, com a criação de um instituto de pesquisa com o propósito de formar "a Embraer dos mares".

Afirma, com razão, que o Brasil tem pela frente uma enorme demanda por navios, plataformas e embarcações de apoio à indústria do petróleo e seria um desperdício perder essa oportunidade. No Açu, seu grupo se propõe a gerar energia elétrica a custos mais baixos, com usinas que queimarão inicialmente gás natural, e o estaleiro aproveitará chapas de aço que deverão ser fabricadas lá mesmo, maiores que as habituais, de modo que os navios poderão ser feitos mais rapidamente, com menos soldas.

Se os planos de Eike derem certo, a siderúrgica (ou as siderúrgicas, pois há espaço para uma segunda planta industrial) produzirá chapas de aço também para uma nova montadora de automóveis, igualmente a custos mais baixos. Com o porto do Açu, os veículos chegariam aos principais mercados brasileiros transportados em barcaças roll on roll off que reduziriam o preço do frete em cerca de US$300 por automóvel.

Há alguns anos Eike fez uma investida infrutífera nesse setor: chegou a fabricar um utilitário, tipo jipe, chamado JPX, que não fez menor sucesso. Mas dessa vez ele acredita que atrairá uma conhecida companhia capaz de produzir um carro inteiramente concebido no país, com marca brasileira e adaptado, principalmente, às preocupações crescentes com o meio ambiente.

Na semana passada Eike anunciou que mais uma empresa do seu grupo X, que vai explorar carvão na Colômbia, lançará ações no mercado internacional de capitais. Carvão esse que será exportado para o Brasil e em parte para os Estados Unidos. Como nas suas demais empresas, Eike espera compartilhar o projeto com investidores estratégicos, captando cerca de US$1,5 bilhão no mercado.

Entrevistei Eike Batista para o Conta Corrente Especial, na Globonews, e o programa foi apresentado neste último fim de semana (é provável que seja reprisado na madrugada de quinta-feira). O local da entrevista foi a sala de reuniões da diretoria da EBX, holding do grupo, na Praia do Flamengo, com vista para o Pão de Açúcar e a Baía de Guanabara. A meu pedido, o cão Eric, um pastor alemão trazido da República Tcheca, e que agora acompanha o empresário até no trabalho, ficou na sala, quietinho, deitado próximo a nós. Eric até participou da gravação da chamada do programa (é ultraobediente, foi treinado para atender a 20 diferentes ordens, pronunciadas em alemão). Quando souberem disso, meus cachorros petropolitanos vão morrer de ciúme.

No segundo semestre o Rio Madeira será desviado a 130 quilômetros do centro de Poeto Velho para conclusão da barragem de Jirau. A usina, que terá uma potência de cerca de 3.500 megawatts, contará com duas casas de força, uma na margem direita e outra na esquerda. De um extremo a outro da barragem a distância chega a oito quilômetros (na inauguração está prevista uma minimaratona no caminho que passará a existir sobre ela).

O consórcio construtor é o mesmo, mas há uma disputa saudável entre os grupos que estão trabalhando nas duas casas de força. Ganhará quem gerar energia primeiro, no ano que vem.

Décadas de ameaças da guerrilha e dos cartéis do narcotráfico provocaram uma fuga de capitais da Colômbia que alguns especialistas estimam em US$75 bilhões (valor equivalente ao da dívida externa do país). Perdas consideráveis em aplicações do tipo Madoff (cujos prejuízos chegaram à casa de dezenas de bilhões), desvalorização de ativos financeiros decorrentes nos mercados internacionais e uma gradual volta à normalidade em seu país têm levado muitos colombianos a repatriarem capitais. Com mais de 60 empresas negociadas e aproximadamente 119 mil investidores pessoas físicas cadastrados (no Brasil o número de CPFs registrados nos sistemas de custódia de ações passa de 600 mil), a Bolsa de Bogotá acumulou alta superior a 30% em 2010. A rentabilidade dos fundos de renda fixa lá anda em torno de 7% ao ano.

A Bolsa de Bogotá adquiriu a de Lima (Peru) e vai se integrar a de Santiago. Dentro dessa perspectiva, a maior corretora colombiana (InterBolsa), que detém um terço das operações na Bolsa de Bogotá, veio também para o Brasill. É a primeira vez que uma corretora sul-americana participa diretamente do mercado de capitais brasileiro. "Até recentemente, se quiséssemos comprar um bônus do Tesouro ou de uma empresa brasileira tínhamos que operar por algum banco de Nova York ou Londres. Não havia contato algum entre os mercados de capitais brasileiro e colombiano. Espero quebrar essa barreira", diz Maurício Infante, presidente da gestora de fundos da InterBolsa.

Um acordo com o Banco do Brasil permitirá que a BB DTVM adquira fundos da Interbolsa na Colômbia, e esta, por sua vez, será o canal de aplicação de investidores colombianos nas carteiras de fundos administrados pela distribuidora do BB.

A propósito, é grande a expectativa da InterBolsa com o lançamento de ações da STX, companhia de Eike Batista que tem os direitos de exploração de minas de carvão na Colômbia.

ROBERTO SIMÕES

Competição e competência
ROBERTO SIMÕES
O GLOBO - 14/02/12
É mais que simples reconhecimento histórico afirmar que as micro e pequenas empresas (MPEs) sempre foram fundamentais na promoção do desenvolvimento econômico e social do Brasil. Trata-se, antes de tudo, de louvar a esperança de milhões de empreendedores por este país afora que, dia após dia, repetem: eu acredito! O Sebrae, tenham certeza, sempre acreditou junto. E transformou esta convicção numa parceria da qual tem razões - e muitas - para se orgulhar. Não é por acaso que as MPEs empregam nada menos que a metade da mão de obra formal brasileira e respondem por 20% da geração do PIB.

Estamos seguros de que esta correlação pode se tornar ainda mais significativa com mecanismos de apoio como os oferecidos pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, seja em nível nacional, seja em estados como Minas Gerais. Sobretudo porque, nos últimos anos, privilegiamos as estratégias de longo prazo ancoradas em conceitos voltados, acima de tudo, para inovação, competitividade e parcerias capazes de tornar os produtos e serviços reconhecidamente qualificados. Em resumo, abandonou-se o modelo da simples indicação de consultoria e partiu-se para aquele de objetivos duradouros e consistentes.

O Sebrae-MG fez uma evolução em seus quadros profissionais, redesenhou sua estrutura orgânica, voltando-se às áreas de inteligência e de criação de projetos. Enfim, solidificou-se como entidade capaz de atender as MPEs em suas demandas essenciais, seja quanto à adoção de tecnologias inovadoras ou à orientação para obtenção de crédito. É plenamente possível confiarmos que, em uma década, a representatividade das micro e pequenas empresas na economia atinja níveis ainda mais altos, a exemplo de países como Itália e Espanha, acima de 50% do PIB, o que significaria mais do que dobrar a sua participação.

É necessário, para isto, manter as políticas públicas ora em curso, para que sigam garantindo o desenvolvimento deste setor. O Sebrae, presente nos 27 estados da Nação, tem não só capacidade, como capilaridade, para interiorizar e expandir esta experiência vitoriosa. Especialmente num ambiente em que a Lei Geral das MPEs, e, noutra ponta, o programa do Empreendedor Individual, implantados pelo Governo federal, abrem novas perspectivas de negócios e inclusão social. Foram processos desburocratizadores que, para além disso, simplificaram impostos e ampliaram o leque de oportunidades para empreendedores de todo o país.

Naturalmente, ainda há muito o que ser melhorado, a despeito da extraordinária expansão em nossa relação com as MPEs. Precisamos, reconhecidamente, crescer em duas frentes: no atendimento individual, buscando o microempreendedor onde quer que esteja, e nos diagnósticos que nos credenciem a propor a adoção de soluções cada vez mais inteligentes diante de um mercado em que competitividade é palavra-chave. Daí a relevância do grau de qualificação de nossas equipes, um aspecto que tem nos permitido ajudar as micro e pequenas empresas a seguir sempre além dos planos de curto prazo.

Em se tratando de projetos coletivos, isto levou ao reconhecimento do Sebrae-MG como referência nacional e na América Latina. Implantado a partir de 2008, o Programa Foco Competitivo, dirigido a Arranjos Produtivos Locais (APLs), os chamados clusters, assegurou resultados robustos na adoção de metodologias inovadoras. Elas representaram a formação de parcerias, ganhos em produtividade, informação de qualidade, requalificação dos produtos e, finalmente, ganhos em competividade - o objetivo de qualquer negócio.

Como nosso maior patrimônio é a capacidade de compartilhar conhecimento, convertê-lo em sinônimo de competência, o Sebrae-MG se espelha neste período fértil de crescimento, particularmente expressivo nos últimos quatro anos, para continuar encarando os desafios como missões. E reafirmar que está pronto para seguir a serviço do Brasil, de Minas e dos mineiros.

ROBERTO SIMÕES é presidente do Conselho Deliberativo Nacional do Sebrae.

NOSSA MÚMIA

SEGUNDA NOS JORNAIS

- Globo: Egito dissolve Parlamento e suspende Constituição
- Folha: Comando militar susta leis e fecha Congresso egípcio
- Estadão: Militares egípcios dissolvem Parlamento e anunciam eleição
- Correio: Despesa médica na mira do leão
- Valor: Bertin atrasa usinas e não deposita R$ 405 milhões
- Estado de Minas: Agente de saúde falha ao combater dengue em BH
- Jornal do Commercio: Só dá Central
- Zero Hora: PAC concluiu 25% das obras no Estado

domingo, fevereiro 13, 2011

DANUZA LEÃO

Intuição ou sabedoria?
DANUZA LEÃO
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11

Dá para amar sem ter ciúmes? Meu gato, Haroldo, está sofrendo, desde que trouxe um gatinho novo


SE VOCÊ, que se pretende uma mulher intuitiva, acha que seu namorado está aprontando, pode ter certeza: ele deve estar mesmo. Mas cuidado: você pode também estar totalmente enganada.
Dizem que a intuição não falha e que os que têm esse dom devem confiar mais nele; e há quem diga que isso não existe e que é a experiência de vida que nos faz captar quando algo não muito claro está acontecendo. As mulheres acham que captam no ar, antes mesmo que as coisas aconteçam, e quando -e se- acontecem, acreditam, mais que nunca, que são intuitivas.
Já reparou que nunca se ouviu falar em intuição masculina? Já a delas é famosa. Quando uma mulher apaixonada está numa festa, e entra um tipo de mulher que pode balançar o coração do homem que ela ama, começa a ciumeira, antes mesmo que ele a veja.
Pode não acontecer nada, em nome da civilidade, dos bons costumes, sobretudo da falta de oportunidade. Mas se mesmo assim ela faz uma cena de ciúmes, é chamada de louca, e até com uma certa razão: mulheres ciumentas são mesmo um pouco loucas.
Eu conheço uma que não vai com o marido ao cinema, quando o filme é com determinada atriz, porque sabe que ele vai desejá-la -muito saudável da parte dela, aliás. Ele não verá jamais essa atriz a não ser na tela, a possibilidade de se conhecerem é uma em 1 trilhão, mas existe alguma coisa pior do que o homem que se ama desejar outra mulher? É uma traição, tão grave quanto uma de verdade, e só as mulheres que amam entendem isso.
Dá para amar sem ter ciúmes? Não me consta. Meu gato, Haroldo, está sofrendo, desde que trouxe um gatinho novo para casa; ele não chega mais perto de mim, e vive escondido pela casa. Fui aconselhada a abraçá-lo e a fazer muitas declarações de amor no seu ouvido, bem baixinho, para que seus ciúmes passem, mas estamos vivendo uma grande crise de relacionamento, devido à minha traição. Ele está coberto de razão.
Nas regiões mais remotas existem sábios, sempre pessoas muito idosas, que pelo soprar do vento sabem se vai chover, que às primeiras palavras que ouvem acreditam ou não no que estão ouvindo, e sabem, num olhar, em quem podem ou não confiar. Alguns já viveram tantas coisas que, num grupo desconhecido, percebem quem está interessado em quem e até se a história vai ou não rolar. Serão elas adivinhas? Não; têm apenas experiência de vida, e mais: têm o dom da percepção. Lamentavelmente, vírus não transmissíveis.
Continua a dúvida: é intuição ou experiência olhar e sacar se uma pessoa está doente, triste, deprimida, ou bem com a vida?
Um bom médico que possua esse dom terá muito mais chances de curar seu paciente do que aquele que fez todos os estudos em todos os países. Tenho perguntado sobre isso a amigos inteligentes, mas cada um tem lá suas opiniões, e alguns dizem que além da intuição e da experiência, é preciso ser muito atento. Mesmo concordando com todos, ainda não cheguei a uma conclusão definitiva.
Mas qualquer cachorro vira-lata sabe quem gosta dele; então, não é experiência de vida, é intuição -ou faro, se você preferir.

FERREIRA GULLAR

Um fazedor de espantos
FERREIRA GULLAR
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11

Em breve, acrescentava entre as matérias comuns um conto, um poema, criando uma seção literária


QUANDO ESCREVI, na crônica anterior, que mal suportara a notícia da morte de Dias Gomes, numa noite de 1999, jamais imaginaria que outra notícia igualmente doída me atingiria poucos dias depois: a morte de Reynaldo Jardim num hospital de Brasília. Mas não vou falar aqui dessa dor, e sim da pessoa que ele foi, ousada, criativa e, particularmente, em paz com a vida.
Creio que não ocorreria a ninguém, normal, propor-se reformular um suplemento feminino de um jornal que era, na verdade, um boletim de anúncios classificados. Mas ele o fez: foi à sede do "Jornal do Brasil", que era ali na avenida Rio Branco, pediu para falar com a condessa Pereira Carneiro, dona do jornal, e fez a ela a proposta. Aceita, pôs mãos à obra, começando por publicar um molde de vestido em cada número do suplemento.
Em breve, acrescentava entre as matérias comuns um conto, um poema, criando, assim, uma seção literária. Dessa seção nasceria o "Suplemento Dominical" do "Jornal do Brasil". Isso foi em 1956. Teve então a ideia de manter, nele, uma página de artes plásticas, uma de poesia e outra de ficção: a de poesia foi entregue a Mário Faustino por indicação de Oliveira Bastos, paraense como ele, e que também me indicou, amigos que éramos, de morar junto.
A ideia inicial era fazermos, os dois, a tal página, mas terminei assumindo o encargo sozinho. Ninguém ignora o papel que o "SDJB" teve na vida cultural brasileira daquela época, tornando-se o veículo da poesia concreta e, em seguida, do movimento neoconcreto.
Reynaldo, poeta que era e de muita qualidade, engajou-se, comigo, nos dois movimentos, mas a sua contribuição mais criativa se deu durante o movimento neoconcreto. Como, no fim de 1958, fui demitido do "JB", onde ocupava o cargo de chefe do copidesque, passei a colaborar, graças à conivência de Reynaldo, clandestinamente, no "SDJB". Pouco mais tarde, com a mudança ocorrida no direção do jornal, a condessa me mandou chamar de volta, mas preferi, em vez de retornar à Redação, ficar trabalhando com Reynaldo, como uma espécie de secretário do suplemento.
Isso coincidiu com o surgimento do movimento neoconcreto (começos de 1959), cujo manifesto foi publicado em edição especial numa primeira página, desenhada por Amilcar de Castro, que se tornou um exemplo de inovação gráfica, bela e audaciosa.
O "SDJB" fervia de novas ideias no campo das artes e da poesia, que, por sua vez, confundia-se com a expressão visual e plástica. Nasceram os livros-poema, os poemas espaciais, o "poema enterrado", os "bichos" de Lygia Clark e os "labirintos" de Hélio Oiticica. Formávamos uma patota que vivia a inventar coisas, propor coisas, discuti-las.
Os livros-poema nos levaram a bolar o "livro universo", que nunca realizamos mas daria origem ao "livro da criação", de Lygia Pape, e ao "livro infinito", inventado por Reynaldo e que nada deveu à nossa proposta original: era um livro com duas lombadas, tornando possível, ao chegar-se ao fim do primeiro "volume", prosseguir na leitura do segundo e assim, ao final deste, recomeçá-la. Inventou-o, realizou-o e o deixou de lado, pois já então o que lhe interessava era o "balé neoconcreto", que bolou com Lygia Pape: um balé sem bailarinos, apenas duas placas retangulares, coloridas, que se moviam no palco. Feito isso, foi em frente, pois era tão criativo que não conseguia deter-se no que acabara de criar.
Os anos se passaram, o Brasil mudou, o mundo mudou, nós mudamos. Reynaldo se mudou do Rio para Curitiba e depois para Brasília, onde desenvolveu intensa atividade como jornalista, realizador e estimulador de várias iniciativas culturais. E se manteve o poeta e o artista inovador que sempre foi.
No ano passado publicou um livro surpreendente, a começar pelo título: "Sangradas Escrituras". Um volume grande, pesado, de capa dura e sobrecapa em que reuniu seus poemas e muitas outras invenções, em que se misturam versos, desenhos, figuras inusitadas, experimentos poéticos e gráficos perturbadores e fascinantes. O verdadeiro "livro infinito"? Inesgotável, nos arrasta a seu abismo encantatório, do qual talvez não consigamos voltar. Quanto a Reynaldo, é ali que o encontraremos a partir de agora.

JANIO DE FREITAS

 Aos olhos do mundo
JANIO DE FREITAS
FOLHA DE SÃO PAULO - 13/02/11

Extraordinária foi a atração exercida pelo Egito: parte do planeta esteve empolgada e ansiosa por esse povo redivivo

ALÉM DA BELEZA ofertada pelo povo que se levanta contra a opressão, como se deu na Tunísia e no Egito, esses episódios têm dois componentes ainda mais extraordinários. Se, de uma parte, a resistência passiva ressurge, para ser vitoriosa, mais de meio século depois dos indianos de Gandhi contra o colonizador inglês, de outro a conduta das Forças Armadas egípcias revelou uma propriedade anormal em forças militares: a sutileza. A maneira como o conselho militar egípcio introduziu os sinais de que Mubarak estava afastado, de tão refinada, ficou até pouco percebida em seu sentido.
Distribuir as imagens da reunião do conselho militar sem o seu presidente, e com um marechal a substituí-lo, insinuou a indagação sobre a ausência de Mubarak e sugeriu o desligamento efetivo, não só em palavras simpáticas ao povo, entre a cúpula militar e o militar-ditador.
O "nº 1" anexado ao título "Comunicado" emitido pelo conselho, com definições para o futuro do Egito e compromissos imediatos com o povo, concentrava sua importância no número: era a informação sutil de que as decisões de poder estavam com quem emitia o comunicado e se seguiriam em novos números de boletins.
Depois, por certo bem recebidas as novidades pelos rebelados, em qualquer medida de sua compreensão, foi só divulgar a renúncia de Mubarak. Sem retirar, do povo para os militares, a força que levou ao ato final -como, na prática, retirou.
Os militares egípcios, a seguir os princípios de formação e mentalidade da espécie mundo afora, resistiriam a relegar o regime que lhes deu três décadas de benesses fartas. Para apoiar a criação da ditadura, apoiaram a inversão de toda a estratégia e a geopolítica egípcias, que o antecessor de Mubarak já redesenhava até ser por isso assassinado. Diante disso, é válido supor que os comandos militares pensaram no risco de ter pela frente uma guerra civil. Nem isso, porém, nega o caráter extraodinário de sua conduta.
Extraordinária foi também a atração exercida pelo Egito há tanto excluído do mapa internacional de atenções. Deixado pelas potências como um servo obediente e sem méritos, a inserção subalterna do Egito não faria imaginar o mundo interessado na reação do seu povo à opressão. Mas grande parte do planeta esteve, por 18 dias, mais do que atenta aos egípcios: esteve empolgada com esse povo de repente redivivo, e ansiosa por ele.
Os direitos e a liberdade postos em igualdade com a eclosão de guerras, as grandes calamidades, os dramas de mineiros nas profundezas. Extraordinário.
De onde viria a atração? A procura da resposta se justificaria de numerosos modos. Fica aí uma hipótese: não viria, tal identificação, de uma vontade insatisfeita de democracia verdadeira à volta de sua própria casa, na França como na Indonésia, na Itália como na Grécia e na Alemanha, por toda parte na fantasia das democracias?
A propósito, é irresistível sublinhar a reação à queda de Mubarak por parte do presidente da França, terra onde toda opressão foi motivo de mais ideias e exaltações do que em qualquer outra. Nicolas Sarkozy saudou "a coragem" do ditador de renunciar. Por sorte dos ouvintes, não rendeu sua homenagem a outras características mais autênticas de Mubarak e do povo egípcio.

CAETANO VELOSO

O Egito é a Bahia 
CAETANO VELOSO
O GLOBO - 13/02/11

Carlinhos Brown cantando “... e o Egito é a Bahia” em frente à catedral de Guadalajara, com a multidão mexicana na mão, lançou uma luz inesperada sobre as imagens do Cairo que passáramos a tarde vendo na TV. A frase é de “Sou faraó”, canção sua que é sucesso eterno e irresistível do carnaval de Salvador. Um cara com boa cara de jalisciense (de gente de Jalisco) vence cotovelos para me dar um exemplar usado da edição conjunta de “Pedro Paramo” e “Llano en llamas”, de Juan Rulfo. Esperava a hora de ler Rulfo: ganhar um livro assim, velho, sujo, impregnado de vida mexicana foi a senha. Começo a ler logo que acabe “Los detectives salvages”, de Bolaño, mexicano por adoção.

Desde talvez novembro do ano passado que eu não via ou falava com Gil. A secretaria de Cultura de Guadalajara nos pôs frente a frente no aeroporto Tom Jobim (o pior do Brasil, que os tem tão maus). Escrevi tantas vezes aqui sobre questões ligadas à sua gestão como ministro, sem sequer procurá-lo para comentar, que esse encontro não combinado por nós me deixou um tanto nervoso. Já contei que não vinha falando com os internetetes ultimamente. Mas Joyce talvez ache difícil de crer que não troquei uma só palavra com Gil durante todo esse tempo. Mas foi assim. Falei com Hermano Vianna (laconicamente e por e-mail) depois que alguns dos meus provocativos artigos já tinham sido publicados (na verdade, depois do último, em que zoei os fãs da web). Com Gil, nem isso. Como quando estive em desacordo com planos do seu ministério, também desta vez consegui ser claro em assumir posição e ajudá-lo a evitar dano à nossa amizade. E ele, como sempre, me ajudou a ajudá-lo. Mas, sinceramente, quando havia oposição (como no caso da Ancinav, que eu rejeitava terminantemente) era mais fácil conversar do que agora. É que não estou definido contra algo claro. Nem tenho argumentos (coisa que Gil logo foi me dizendo). Quando cito Andrew Keen (autor de “O culto do amador”, um panfleto contra a internet), faço-o para ver o que dizem meus amigos pró-Creative Commons sobre o livro — além de verem nele o mesmo tipo de reação que a prensa de Gutenberg provocou no seu tempo. E quando digo que acolher os pleitos dos internautas libertários é mérito do ministério Gil, façoo para ver o que me dizem meus amigos defensores da Lei do Direito Autoral existente. O fato é que ninguém diz ser contra os direitos — e ninguém diz ser contra a internet. Ou seja: ninguém quer pagar de burro. Deixar que a discussão se reduza a ciumadas de troca de turma seria uma burrice ainda maior do que qualquer dessas afirmações simplistas.

Jacques Attali (em artigo que Hermano me enviou) argumenta que a nova lei francesa, que limita os internautas a pretexto de defender os autores, está a serviço das corporações tradicionais: as majors
da música e do cinema. O jovem autor que quer ver sua criação difundida não ganha nada. E o jovem consumidor que quer ter acesso fácil a coisas difíceis também sai perdendo. Ele sugere que as fornecedoras de acesso financiassem uma licença global que forneceria a remuneração dos autores, dos intérpretes e
das gravadoras criativas (ideia não muito diferente da de Kassin, à qual voltarei em breve). É texto para provocar respostas de Fernando Brant, Dubas (uma gravadora criativa) e Aldir.

Direito torto. Um cara inventou o conceito de copyleft, em oposição a copyright (saquem o trocadilho com right — direita — e left — esquerda). Conheço de longa data. Mas volta e meia esqueço. Keen cita. Gostei de me lembrar dele agora porque muita gente pensa que é a esquerda que se opõe à troca livre na internet. Não é. Vou entregar Mautner mais uma vez: ele é que gosta de chamar os defensores do Creative Commons e similares de “comunistas cibernéticos”.

Consegui cantar em Guadalajara. A catedral estava linda, bem na minha frente. E havia uma lua que fez da “Tonada” de Simon Días algo tão bonito quanto deve ser. Mas toquei violão tão mal, me vi tão desprovido do senso do ritmo e da harmonia, que me senti envergonhado. E havia tantos músicos bons ali, da banda
de Gil e da banda de Brown. Fiquei triste. Quando minha pouca prática se expõe assim, penso em João Bosco, em Dori, em Chico Pinheiro e (outra vez) em Joyce: não me sinto no direito de estar entre essas pessoas. Agradeço e peço desculpas.

Insisto (no papo) porque confio no que há de alto nível nas personalidades de Gil e de Ana. Ruim mesmo foi a entrevista de Emir Sader que li sobre sua entrada na Casa de Rui Barbosa. Se há uma coisa de que não gostei no governo Dilma foi a troca de Zé Almino por ele. Posso parecer suspeito, mas toda a sofisticação discreta, todo o refinamento difícil (capaz de encarar as sutis complexidades da cultura e da política) de Almino contrastam enormemente com o estilo esquerda convencional de Sader. Sou amigo de Almino (amigo no coração, pois quase nunca o vejo) e nada tenho contra a pessoa de Sader (que não conheço). Mas o que se lê em sua entrevista é um anúncio de palestras das figuras marcadas da esquerda oficial: Zizek, Marilena
Chaui, Eduardo Galeano. Zizek é um astro pop. Amo Galeano, sua suavidade uruguaia e sua lealdade a sonhos de antigamente. Mas ler esses nomes na programação da Casa de Rui dá a sensação de empobrecimento de visão. Gosto de Marilena mas não de sua cantilena contra a mídia para absolver mensaleiros. Refrão que Sader repete na entrevista. Tou fora.

REGINA ALVAREZ E PATRÍCIA DUARTE

A conta que sobrou para Dilma
REGINA ALVAREZ  E  PATRÍCIA DUARTE
O GLOBO - 13/02/11
Estudo mostra que gastos aumentaram R$282 bi no governo Lula; 78,4% no segundo mandato




O quadro fiscal preocupante, que exigirá um aperto inédito de R$50 bilhões nos gastos públicos este ano, é parte da herança deixada para a presidente Dilma Rousseff pelo antecessor e mentor Luiz Inácio Lula da Silva. A farra de gastos no segundo mandato de Lula tem um preço, que já começou a ser pago pelo atual governo. A herança inclui inflação e taxa de juros em alta, uma carga tributária abusiva, um Orçamento engessado por despesas permanentes com pessoal, benefícios previdenciários e a impossibilidade de ampliar os investimentos. Estudo do economista Fernando Montero, da Convenção Corretora, mostra que os gastos cresceram R$282 bilhões no governo anterior (descontada a inflação): 78,4% desse aumento ocorreu no segundo mandato.

Só entre 2006 e 2010, as despesas do governo federal aumentaram R$221 bilhões, o que evidencia a guinada na política fiscal acentuada nos dois últimos anos de mandato, quando a crise global ofereceu ao governo uma justificativa para ampliar os gastos.

- O aumento da carga tributária, combinado com o crescimento do PIB ( Produto Interno Bruto) e a redução do superávit primário deram ao governo Lula um poder enorme para gastar - observa Montero.

Especialistas apontam a situação das contas públicas e os elevados gastos herdados do governo anterior como o maior problema econômico de Dilma neste início de mandato.

O cenário desfavorável na área fiscal influencia negativamente outras variáveis, como inflação e os juros -, embora, no caso dos preços, fatores externos também exerçam forte pressão, como a alta das commodities no mercado internacional.

Alcides Leite, especialista em contas públicas e professor da Trevisan, frisa que o aumento dos gastos correntes nos últimos anos, acima da expansão do PIB, impediu uma expansão mais robusta dos investimentos. E lembra que uma oferta maior de bens e serviços poderia minimizar a pressão inflacionária. Sem os investimentos, o país sente os efeitos no bolso, com preços maiores, já que a demanda continua bastante aquecida pela melhora de renda da população.

- É preciso sobrar mais dinheiro para investimentos. E tem de começar pelo ajuste fiscal (corte nos gastos de custeio) - recomenda.

Inflação voltou a preocupar em 2010

O corte de R$50 bilhões anunciado semana passada pelo governo é um primeiro passo, na visão do especialista, desde que os investimentos sejam preservados.

A curva de inflação no segundo mandato de Lula esteve sempre em alta, mas começou a preocupar em 2010, quando fechou em 5,91%, bem acima do centro da meta fixada pelo governo (4,5%). Entre as razões dessa escalada está o aquecimento da economia, turbinada pelo aumento dos gastos do governo no ano eleitoral.

Para 2011, a previsão é de inflação de 5,66%. Por isso, o Banco Central voltou a elevar a taxa básica de juros em janeiro, após cinco meses, para 11,25% ao ano. E deve continuar puxando a Selic para cima, até que a inflação esteja sob controle. O processo encarece as linhas de crédito, inibindo o consumo, com reflexos sobre o crescimento da economia.

Leite acha que o governo Lula teve um bom comportamento na área fiscal até a crise internacional de 2008 e 2009, quando as contas se deterioraram. De 2003 a 2008, o superávit primário (economia feita pelo setor público para pagamento de juros) praticamente dobrou, chegando a R$101,696 bilhões e as metas foram cumpridas.

Em 2009, a meta não foi alcançada, mas os especialistas aceitam a justificativa do governo, que adotou medidas anticíclicas para enfrentar a crise internacional, como a isenção de Imposto sobre Produtos Industrializados de automóveis.

Em 2010, o governo se valeu de truques e artifícios para turbinar as receitas, abrindo espaço para a ampliação dos gastos do Orçamento. Na capitalização da Petrobras, fez uma manobra contábil que garantiu ao caixa um reforço de R$32 bilhões. Ainda assim, não conseguiu cumprir a meta de superávit primário pela segunda vez consecutiva. Economizou o equivalente a 2,78% do PIB, quando precisava chegar a 3,1%.

Dilma herdou uma carga tributária recorde, equivalente a 34,4% do PIB, e, no primeiro ano de mandato, não terá como promover qualquer tipo de desoneração, como planejava. O aperto fiscal, imposto pelo crescimento excessivo dos gastos correntes no governo anterior, impede Dilma de qualquer ação para melhorar o sistema tributário do país e a vida das empresas.

- Baixar imposto é exercício fácil, mas o governo precisa fechar as contas. Por isso, não pode abrir mão de arrecadação. Só quando houver redução de gastos, poderá se desenhar uma reforma tributária - diz o tributarista Ilan Gorin.